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  • 1. Organizadora Cecilia Ferreira(em nome da Academia Araçatubense de Letras)CONTOSPremiados (Contos Escolhidos) 3.ª Edição Araçatuba, 2011
  • 2. Copyright © vários autores Edição: Cecilia Ferreira Editoração e capa: Arlen Pontes CTP e Impressão: Editora Somos - (18) 3636.7790 Secretaria Municipal da Cultura Rua Anita Garibaldi, 75 - CEP 16010-280 Araçatuba - SP www.secretariacult@gmail.com - (18) 3636.1270Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil) , Contos escolhidos / organizadora Cecilia Ferreira. -- 3. ed. -- Araçatuba, SP : Editora Somos, 2011. Vários autores. ISBN: 978-85-60886-37-1 1. Contos brasileiros - Coletâneas I. Ferreira, Cecilia. 11-09058 CDD-869.9308Índices para catálogo sistemático:1. Contos : Coletâneas : Literatura brasileira869.9308
  • 3. 24.º Concurso Internacional de Contos da Cidade de AraçatubaCategoria Nacional1.º Lugar – Emir Rossoni – Cotovelos ao parapeito ......................................... 13Menção Honrosa NacionalJosé Carlos Barbosa de Aragão – Di-Lis ................................................................... 19Guilherme Azambuja Castro – O Assessor ............................................................. 23João Paulo Vaz – Os meninos ................................................................................. 29Marcelo de Campos Lilla – Ana dorme............................................................... 30Ronaldo Cagiano Barbosa – Sem Natal .............................................................. 41Categoria Regional1.º Lugar – Tarso José Ferreira – Amizade Sincera ......................................... 512.º Lugar – Danieli Elias Richart – A Palavra muda ....................................... 573.º Lugar – Mário Henrique Silveira Bueno – A Travessia.............................. 59Menção Honrosa RegionalRegina Ruth Rincón Caíres – A magia do circo ............................................... 65Odair Maurício de Albuquerque – A morte não manda recado ....................... 77Ronaldo Ruiz Galdino – Uma história de 2924 .............................................. 85Josiane da Silva Mesquita – O gato na janela .................................................. 93Wanilda Maria Meira Costa Borghi – Acerto ..................................................... 101Categoria Internacional1.º Lugar – Tânia Ganho Gomes da Silva – Perfeita simetria .................... 105Menção Honrosa InternacionalVitor Manuel Capela Batista – As Insónias....................................................... 111 5
  • 4. Conto dos JulgadoresCecilia Ferreira – Insuflando adágios ............................................................. 121Tito Damazo – Perfeccionismo ........................................................................... 125 6
  • 5. Prefácio L uiz Costa Lima publicou, além de muitos outros, o livro Por que Literatura (Vozes, 1969), cujo primeiro capítulo recebe o mesmo título. Ali, naquele ensaio, o professor e crítico lite-rário de renome discute as razões pelas quais a literatura, tão antiga quantoa civilização, subsiste como um organismo vivo, exposto ao tempo, ao espaçoe à história. Logo, sempre submetida a questionamentos, ameaças, crises etransformações. Esses dinamismos e metamorfoses de que se reveste a literatura sefazem, sobretudo, porque sua carnadura é essencialmente linguagem. E esta,por sua vez, é ser mutante de que derivam permanentemente, inacabadamen-te, seres e coisas, dentre os quais, a palavra, ou seja, a própria linguagem. À página 35 deste ensaio, o crítico afirma que “A arte e a literatura sejustificam por expressarem, a partir do lócus semântico do polissêmico (DellaVolpe), uma visão articulada do tempo. Visão que ao leitor ou ao expectadorconsequente não pode ser apenas motivo de contemplação, elemento de des-frute, prazer dos sentidos, porém mais do que isso, condição para o entendi-mento crítico da realidade. E quando dizemos crítico pensamos em um atoque não se encerra em compreender, mas em atuar a partir desta compre-ensão”. E mais adiante diz que “A tarefa da literatura continuará a ser, agoracomo antes, a de atingir e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde sedeposita a raiz do homem.” Na esteira destas reflexões, podemos admitir que a literatura hoje, tantoquanto ontem, se constitui um arcabouço de conhecimentos, os quais dãoà realidade uma dimensão outra, quase sempre inusitada, problematizando,confrontando e polemizando com os paradigmas socioculturais e econômicosestabelecidos. É verdade que a literatura – objeto de linguagem verbal escrita essen- 7
  • 6. cialmente – tem perdido o poder e o prestígio que até aqui mantivera, peranteum universo de pluricódigos, como o de hoje, em que a linguagem visual so-fisticada tem poder de comunicação excepcional e avassalador. Todavia, a despeito desta crise inevitável em que se encontra, segura-mente não perdeu seu fim e objeto, tampouco aqueles valores, os quais sepodem depreender das ponderações de Luiz Costa Lima acima transcritas. A crise, dentre outros fatores, estabelece a necessidade de se buscaremmecanismos eficazes para superação dos problemas e obstáculos surgidos.E a história mostra que é justamente na crise que a literatura, como de restoas outras artes, se redimensiona num refazimento que a renova e a reedifica,como uma fênix restabelecendo-se de sua própria cinza. Nesse sentido, cremos, é que se colocam os vários certames literários,artísticos e culturais promovidos por instituições estatais e privadas, como estejá tradicional Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, cujo resultado se con-signa nas páginas deste livro. São dignificadores do bem estar de uma sociedade eventos e ações des-ta natureza, os quais possibilitam à literatura espaços em que pode exercersua atuação como um dos fenômenos culturais fundamentais para a com-plexa construção do espírito e pensamento humanos. Autorizar espaços quegarantam aos escritores o estímulo da criação literária, de forma convicta econsciente da importância de tal acontecimento, como o faz a Secretaria daCultura do Município de Araçatuba, é um contributo de suma relevância paraa superação de uma crise que, assim, há de soçobrar. Escrever literatura não é fácil. E o fácil normalmente pode satisfazerinteresses pessoais, quase nunca os da literatura, que é um bem de interessesocial. Escrever literatura é, antes de tudo, um prazer a quem o faz, mas tam-bém um trabalho que requer empenho criador. A essência da obra literária consiste em não ser concessiva nem sub-missa. O que não quer dizer que dê ou deva dar as costas ao seu contextosocial. Pelo contrário, sua forma e conteúdo o refletem e o identificam. Mascom ele se relaciona como um objeto autônomo, que se impõe como distinto 8
  • 7. e capaz de polemizar, contestar, denunciar, além de afetar, enlevando, engran-decendo, sensibilizando e ou incomodando o seu leitor. Esse conjunto de elementos, aqui considerados, foram pressupostosbásicos pelos quais se conduziu a comissão julgadora deste 24º Concurso deContos Cidade de Araçatuba ao cumprir esta dificílima tarefa de determinarposições a textos literários em competição. A presente obra traz no seu bojo a maioria daqueles contos que, se-gundo a comissão, vai na pegada de um fazer literário que procura preservaro papel de seu objeto e resistir aos contraventores de sua essência, cujo fim,parece, quererem inutilizar, ou banalizar, autorizando e reverenciando sub-produtos de uma escrita que procuram credenciar como obra literária. 9
  • 8. CategoriaNACIONAL 11
  • 9. 1.º Lugar Categoria Nacional Porto Alegre - RS Emir Rossoni é escritor e publicitário. Trabalha em agências de publicidade gaúchas como redator e diretor de criação, tendo trabalhado um ano em Portugal. Possui publicações em sete antologias de contos e uma de poesia e recebeu diversas premia- ções nacionais na área da literatura. Cotovelos ao parapeito Emir Ross S erá que era a eternidade que ele buscava? Alguns pensamentos até me disseram que sim. Mas sua posição estática a deixar apenas os cabelos moverem-se ao vento, que era forte, desper-tou muitas dúvidas. Ele parecia saber o que queria. E queria eu que seus olhos virassem asmeninas de lado um pouco, para eu capturar algum reflexo de suas inspira-ções. E como ele não se movia. E como ele parecia decidido. E como ele estavalonge e nada ouvia e ignorava qualquer movimento alheio, era hora de con-tentar-me com a imagem que queimava ao outro lado da rua, no edifício umpouco mais baixo, onde, do terraço, talvez ele aguardasse o momento certo. O momento, eu sabia – ao menos disso eu sabia – vivia dentro dele epretendia logo-logo viver fora: fugir das órbitas do que não se pode ver. Descansei minha curiosidade sobre sua imagem; acomodei-me. Fitava,encantado. E minha existência foi navegando, navegando, navegando; numa 13
  • 10. ponte seca feita de um raio de olhar que unia os dois prédios. E, na ponte, nãoexistia nenhuma lei, nem a lei da gravidade. Cotovelos ao parapeito. Adormeci meia pálpebra; o dia mugia preguiçoso. Remoía uma tentati-va de querer saber o que o sujeito fazia de braços estendidos na beira do topode um semi-arranha-céus. Firme-leve. Olhos fechados. Boca a sentir o sabordo vento. Não. Eu não sentia medo por ele estar ali. Nem calafrios. No máximo,um pouco de tédio que sempre é menor que a curiosidade. Então, a pálpebrasonolenta despertou com o assobiar do vento. Vento que bate na vidraça: caicambaleante. Tombeia esmurrado por outro braço de vento que vem no senti-do contrário: acidentes acontessem: cai morto. Mas lá ao outro lado, o vento só encontra cabelos; e cabelos gostam devoar, porém, amarrados à cabeça do homem, não decolam. Lavava-se com osares. Purificava-se de dedos abertos e coxas contraídas. Porque não precisavamais respirar. A cabeça tombada deixa o ar entrar por conta. Ele parecia feitode nada. Seus contornos eram soltos como esboços de qualquer coisa. Entãovi que ele tinha poros abertos, muito abertos de vida, que saía e entrava e saía eentrava muitas vezes a cada piscar que eu tentava não dar. E quando tentei nãopiscar – não pisquei por bom tempo, até que agüentei não mexer as pálpebrase não verter os olhos – vi que ele podia não estar lá, e vi depois de um átimode mim que havia outro ao seu lado, idêntico, crente que ia alcançar algumacoisa. E quando a nuvem do não agüento mais enegreceu minha vista, elesnovamente misturaram-se. Dois-em-um-em-nenhum-num. No mesmo lugar. A fazer a coisa mesma. Nada. Então pensei que fosse um louco. Doido. Varrido-sozinho-fugido. Masloucos não fecham os olhos diante do vazio. Cientizam o que vêem. Amalucamos terraços aos tropeções. Trôpegos indecisos. Ele era tudo de qualquer coisa.Menos louco de momento. E o que era eu da janela fechada do apartamento a olhar por horas o 14
  • 11. homem que não se movia? Talvez eu fosse o grito que ele não ouviu. “Hei!” Talvez eu fosse a frase que o vento derrubou enquanto atravessava aponte. “Faz o que aí?” Sobre o que eu era não vale interessar. Quis perguntar-lhe muitas coi-sas; mas o maldito não tinha ouvidos para o mundo que eu morava. E o sermais íntimo que tínhamos em comum era o vento e, esse, não gostava demim no momento. Nem adiantava pedir apresentações. Ora quando este metentava derrubar, sustentava o homem lá de cima; e ora quando eu gritava, elecarregava minha voz para o lado oposto; em compensação, me fazia ouvir osrespirares do homem; Lento-pausados. Respirava, como se o ar o alimentasse. Confesso que por instantes o odiei. Odiei, por me fazer aguardar emposição desconfortável. Odiei por ter tanto a fazer e não me desprender dajanela. Mas o odiei mais por ele estar lá, seguro e satisfeito. Enquanto a impaciência me corroía pelas bordas de dentro. Ele estava por um fio, prestes a cair no precipício de tantos andares e ocalafrio se dava em mim. Na minha espinha corcunda de roer possibilidades. Porque talvez quisesse ele heroizar-se por coisa-nada. E eu queria estarlá, vendo tudo do quase-início ao fim. Talvez ficar heroizado também, maisque ele até, por gravar as imagens com os olhos e contar depois para quemnão queria enxergar. Eu tinha esse sentimento de grandeza próxima. Mas, provável, maiorfosse o sentimento de inveja dentro. De querer que o vento me tratasse como otratava. Mas vejo agora que sua relação com o vento era a mesma que a minhacom o cimento. Com a diferença de que o cimento não é inalável, nem móvel,nem muda de formas nem vai comigo onde o convido. Talvez quisesse o homem fugir do cimento. 15
  • 12. Do alto do prédio-cimento: para o baixo da rua-cimento. Um choque entre dois cimentos distantes e delatores; que nem o ventoconseguiria suavizar. Igual me contorcia para vê-lo, torcia para que se fosse. Se fosse logo.Para qualquer. Não queria que fosse para fora, alguns segundos andares abai-xo. Mas coçava-me para ver isso. Queria. Por quê. Queria? Eu sabia que isso mais cedo ou mais tarde aconteceria. E sentia queele, lá dentro da sua ausência, também disso sabia; ficaria lá então a cornetearminha paciência e minha fome de vê-lo espatifar-se no chão. Sentia que elesabia de tudo; e que estaria esperando um lapso de atenção minha para des-pencar lá de cima. Assim, ele me venceria. Assim eu pensava. Pensava. Pensava. Na real, eu não pensava. Eu estava é cansado. Sei agora que ele jamaisvenceria, nem eu jamais venceria, pois luta nenhuma estava sendo travada. Talvez por isso eu ainda sinta raiva dele, de sua capacidade de ser nada.De aparecer e sumir e desembarcar em minha mente a cada instante que olhoo topo vazio daquele edifício. E de ser o que bem entender. Foi vento quando pisquei os olhos. Foi pluma na imensidão dos segun-dos em que os mantive fechados. Foi pedra quando os abri. E espalhou-se empedaços de mim quando o vi na calçada. Braços estendidos, pernas descan-sando, dentes a correr soltos a se perder de vista. Era tudo dele que sobraradepois da minha distração. A essa hora, muitos pararam para ver. Polícia rodeou. Dondocas colo-caram os indicadores na testa, depois foram tomar café. Crianças juntaramalguns dentes. Todos o estavam vendo. Todos. Mas havia uma coisa que só eu ainda percebia. Sua cara de deboche. Seus olhos de vão se fu. Seu vento que abrisava de cima a baixo a lateral do prédio sem pontenem lei. 16
  • 13. Respirei. Respirei. Fazia horas que não o fazia. E, então, lá de cima, também deixei-me despencar. Mas despenqueiapenas os joelhos à cama. Os olhos para dentro. Os pensamentos para nada. E, depois de não conseguir ficar encamado, fiz o mesmo trajeto que ohomem, rumo ao cimento da calçada, porém, de elevador. Era a primeira vez que pisava a calçada naquele dia, e era já fim de dia.Não fora por falta de tempo que não o fizera: nem por falta de vontade. Foi porfalta de olhos. Vi o homem lá no chão, espatifado. Carregava a mesma expressão denada. Vazio-cheio-de-mundo. E eu cheio-de-olhos-de-todos. Não pude evitar que me olhassem. O soljá se tinha ido e o dia era noite escura. E na penumbra apareciam dezenas depares luminosos de olhos de todas as cores. Zombeteiros-inquiridores. Queria evitar de ver os olhos. Mas, para isso, deveria olhar o homemacimentado ao solo. Já o havia olhado durante o dia inteiro e isso já era de-mais. Para talvez ser agradável àquela multidão faminta de mim, abri aboca: “Sim, eu vi”. Os olhos entreolharam-se, vesgando-se. “Vi tudo, desde sempre”. Desvesgaram-se na minha direção. “Desde manhã cedo, tomava vento e estava surdo”. Ao princípio senti medo dos curiosos que bebiam a minha própriacuriosidade. A curiosidade que eu bebera durante o dia todo. Eles tambémqueriam. E eu não sabia por quê. Abaixo dos olhos, apareciam gargantas:abrindo-fechando. Mas eu nada ouvia. Só as via. Acho que eu não sabia onde estava, nemo que eu era. Talvez o cimento me pregasse as pernas como o homem me 17
  • 14. pregara os olhos. Então deixei-me derramar, cimento-líquido, e escorri junto ao corpodele. E, como o dia inteiro, quis chegar perto, quis gritar, e não fui ouvido,desta vez ia na direção de um caminho que eu conseguia dominar. Escorri-mesobre as lajes, untadas por cimento seco, escorri-me sobre alguns pés curio-sos. Escorri-me, sob alguns pisões. E, de escorrência em escorrência, chegueifinalmente onde os olhos não mais me incomodavam; onde o vento não so-prava. Toquei-lhe os pés e nada senti. Agregaram-se a mim-à-calçada. Sentipor bem tocar também as pernas e agreguei-as também, misturadas com umafúria de submundo que emergia em torno. E cheguei às mãos secas, apertei adireita com a minha, porosa-suada. E deixei-me ir a cobrir mais o seu corpo,ventre-peito-tronco. E fiz força para não torcer-lhe a garganta. E fiz força paranão furar seus olhos, mas estavam fechados-fechados. Fechados. Ele que tivera tantas imagens para ir ver. Estava lá, de olhos fechados.Um deles esmagado por uma nesga de pedra. E a boca mordia a língua; estanunca nada falava, podia ser engolida. Antes de cobri-lo por completo, repareiúltima vez nos seus cabelos. Estáticos. Sem vento que os levasse. Então, deiuma leve soprada: agitaram-se o suficiente. E escorri-me, em cimento, paraque ninguém mais visse vestígio dele na rua. 18
  • 15. Menção Honrosa Categoria Nacional Belo Horizonte - MG Di-lis José Carlos Barbosa de Aragão N o tempo – dele, Jão – de escolher moça pra compromisso, escolheu Di-lis, a mais desejada. Escolha do comum acor- do das partes, que já dividiam rabos-de-olho esconsos; edas famílias. Ele, forte, garboso, cabelo domado a poder de brilhantina, cara qua-drada, de homem-homem, braços que faziam suspirar as casadoiras de aquia acolá, no longo de todos os caminhos conhecidos. Di-lis não deixava pormenos e, por ela, também suspiravam outros olhares cobiçosos, esses, de semeterem no vau profundo daquele colo farto, e daquelas ancas convidadeirasfeito as grunas da cachoeira na estiagem, onde o pacu-de-corredeira era pegode mão. Menina ainda, ind’antes da primeira volta-da-lua, já lhe crescia os olhoso Acúrcio, moço já-feito, passado, talvez, um tanto da idade de augurar prendatão jovem. Di-lis, extraindo do olhar do coitado sua vontade represa, tripudiouo que pôde, acalentando falsas esperanças – que, toda vida, o mancebo nãolhe apetecia. Por gosto, só. Outro – esse, com ela, regulava idade – mais ela até se engraçaram,quando nele já desciam os grãos e nela os pomos se insinuavam, divisandoum novo tempo. Não vingou, que ele, com a família, tomou o trem, foi veroutras terras e por lá ficou e fez filho e fortuna, longe. Pretendentes, a ela não lhe faltavam, uns declarados, outros recatados;uns falados e conhecidos, outros à moita; mas todos querendo a mais-flor, a 19
  • 16. de-lis, Di-lis – a única. Ela seguia adiante. Desfeiteava. Uma primavera: desabrochou. Temporã. Feito fosse outono. Flor ma-dura: fruta. E Di-lis, sabida requerida e desejada, inchava os ares de fruta devez, mais, carnuda, suculenta. Casou de ser a hora de Jão, o também cobiçado galo do terreiro. Ela osabia de-ver, vez a vez, em festa de coroação e quermesses no largo da igreja;e dos comentários das outras, cada qual sonhosa de lhe servir até que a morteos separasse, mediante jura de altar. Tão desejado assim, quanto ela, havia deser aquele, então. E foi que ficou sendo ele, o escolhido. De resto, foi o tempo de se cruzarem em folguedos na praça, festas desanto e logo o fogo pegar: os dois se assoprando e revirando o próprio carvãoem brasa, em furtividades no oitão da igreja ou trilha pra cachoeira, beirandoa linha de trem... De parte a parte, celibatários e virgens disponíveis – o noivado anun-ciado e os proclamas correndo – agora resignados, buscaram consolo emnovenas, rezas, promessas e, há quem não confirme, mas... trabalhos de en-cruzilhada, até. Juntaram as tralhas numa casinhola retirada, de onde, muitas vezes,o sôfrego amor uivava e ria e pedia mais até de manhãzinha, ao testemunhode quem passava, rumo da roça ou pra abrir o comércio. Eram felizes e semereciam e se fartavam de suas forças e belezas mútuas. Usufruto do quedesejaram, reciprocamente – razão de desfeita aos outros moços e moças des-providos dessas virtudes naturais, de fachada. Tanto empenho e lhes vieram os filhos, em pencas, entra ano, sai ano,sem saltar. Onze, os que vingaram. Um morreu, afobadinho, chutador, na bar-riga de Di-lis; outro, de descuido em barranca de rio. Jão acusou mais o golpe. Descuidou-se da aparência, largou mão dabrilhantina, rápido encarquilhou-se. Pegou a beber e nunca mais se aprumou.De Di-lis, dispensou o chamego, as desavergonhices consentidas, os incêndiosde cada noite, nos lençóis de cassa alva. Não que tivesse outra: esfriou tão- 20
  • 17. somente. Já da idade, seria. Ou tristeza, puramente. Di-lis não entendia. Culpava-se de não sabia o quê. Teria ficado velhae feia, sem atrativos? O espelho a enganava, talvez, já que ainda a refletia comtalhe de louça fina, valiosa e rara. O colo não era o mesmo, depois de tantosanos e filhos, mas não havia mais moças em pior estado, enfim? Cintura, ca-deira, coxas não exerceriam mais o poder de outrora? Não duvidava que assimfosse – nem cria. O caso é que o golpe que ela sentiu mais foi nem o de perder um filhopras águas, mas o de perder Jão, que lhe fugia como areia fina no espaço doentre os dedos. Perder Jão era mais que só perder Jão: era perder a confiançaque sempre tivera em si e em seus talentos e beleza de fêmea sonhável. E porquê? E como? Perdera, ela, o viço, devagarzinho, aos bocados, a cada barriga, acada bolsa que rebentava, a cada safra de colostro? Ou fora o eito da casa, criarmenino, dar comida, colo e roupa, o ramerrame de mãe, sem termo? A relembrança da juventude a levava à incerteza do hoje. Era fatal queo tempo lhe roubasse seus encantos, mas ela não se preparou para aquilo:perder o poder que teve, nato, dádiva de Deus. Cresceu-lhe uma vontade deconfrontar o espelho com a verdade à vera, mostrar a ele que outros aindahavia capazes de desejá-la, com a volúpia dos anos idos, com o ardor mesmoque Jão. Testar-se? Que fosse. Oferecer-se a outros – que Jão, por tudo e tudo, não merecia – e com-provar-se ainda cobiçável? Oferecer-se só até o limite de saber, ter a prova, esair limpa, para um sempre ainda possível desfrute de Jão, tardio? Decidiu-se, enfim, um dia. Fim de tarde, os meninos todos em casa de vó, Jão largado no mundo,nas erranças dele. Meteu-se num vestido antigo, discreto, de alça larga e bo-tões na frente, forrados de igual fazenda, do decote à barra, poucos, fácil de selivrar. Recendia um perfume distante, quase esquecido. Tomou rumo diverso do arruamento principal, subiu uma encosta demorro por trilhas entre restos de mata e pasto, deu a volta, desceu, subiu de 21
  • 18. novo. Encontrou os vestígios do caminho antigo do trem, que, agora, passavaao largo, numa linha nova, de contorno, longe das casas da vila. Nem estação,parada, ali tinha mais: passageiro mesmo, só de passagem, no saracoteio dotrem entre morro e mata, afastados. Seguiu até encontrar os novos trilhos, noponto mais fechado da curva, parte rasgada em rocha bruta em explosões quese ouviram longe, tempos atrás – lembrava-se. Uma pedra grande, esquecida,restou em área terraplenada, a poucos metros dali, plataforma de observação,elevando-se a dois metros, se muito, em fácil escalada. Subiu. E esperou. O trem apitou ainda longe, confirmação de que lá vinha, fiel. Regateouna subida, um pouco, mas logo despontou na curva, já descendo na carreira,no rumo da pedra grande restada – Di-lis em riba dela. Di-lis em riba feito um anjo, miragem. Os braços, abertos; mãos esten-didas, dadeiras; os pés, firmes, plantados na rocha; o olhar revirado brancoentre cortinas baixando como quem recebe amante convidado. Os cabelos,deixou-os cair, soltos, sobre os ombros, e dançavam de par com o vento. Eainda: o colo, o ventre, pernas... e o mais. Durou pouco, tudo. Uma passada de trem, em comboio de catorze,quinze vagões – se muito. Mais tarde, em casa, Di-lis, exalava ares de felicidade, de novo segurade que ainda lhe restava algum verdor, de que era, enfim, capaz de despertardesejo e, quiçá, paixões. Ainda sentia na pele o conforto revivaz do fresco toquedos olhares dos mais de cem que a viram e cobiçaram, naquela tarde, reluzen-te, nua total, no alto da pedra grande. Flor-de-Lis Maria. Di-lis. Dilícia ainda, aos olhos dos homens nas janelas e varandas do ladoesquerdo do trem, naquela tarde sem par, sequiosos. A Di-lis, a certeza lhe valeu para o resto de sua vida toda. Podia dormirem paz, segura. Jão, nem nunca que ficou sabendo. Nem ninguém, na vila. Miragem depassageiro, na certa. 22
  • 19. Menção Honrosa Categoria Nacional Porto Alegre - RS O Assessor Guilherme Azambuja Castro A ntes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba comum grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver oBom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?,quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de halls pre-to – gosto de chupar halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da bocaque é bem bom –, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando nãotinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, al-moçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça.Tudo normal. Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, alieu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando nãotinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante im-portante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questãode ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro nafrente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculanoqueria gente pra assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinhaalugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobreesse negócio de ser assessor. Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade.Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate. 23
  • 20. “Sabes bater à máquina, Brizola?” Me chamam assim pelas sobrance-lhas, sempre esfiapadas. “Com um dedo, doutor”, fui sincero. “Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu. “Olha... Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.” “Então és um AMH.” “Sou?” “Analista de Movimento Humano”, me explicou o doutor. “Sim, claro”, achei interessante essa coisa. “Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediuà secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada. “Assina aqui, meu assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé dapágina Termo de Posse, dizia. Assinei. “Agora espera que eu te chamo, tá?”. Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assun-to, e nem eu, ficou por isso. Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?,cinco, seis mates. Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra in-char, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é SidneySheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito,oito e meia, saí. Tudo normal. Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei:“Ô, chefe!” Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho,me foi retirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou assessor, issoeu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate echupando halls. Por um mês, mais ou menos, eu gritei “ô, chefe!” quando via o doutorchegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: “calma, Brizola!” 24
  • 21. Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dumincêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete. “Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos,sim?”. A Joice trouxe. Três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha-ponto, dizia. “Assina aqui, meu assessor!”. Assinei. “E aqui.” Assinei. “Mais aqui.” Tudo assinadinho. “Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as cos-tas. Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coi-sa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras:“Fica tranquilo!”, foi o que ele disse. De fato fiquei, pra mim papel assinado éo que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos. Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mêsrecebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de halls como salário; con-seguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso. Fui ao gabinete. “Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi maisfácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um diasfolgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva.Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei. O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandeiimprimir colorido na Canoa Press. Ficou assim: AMH em cima, Assessor em-baixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir daí,se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou assessor do doutorHerculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse. 25
  • 22. Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar aPelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos, Missãode Estado. Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes deMinancora – pra mim, desodorante é Minancora –, joguei tudo na mala; amateira já carregava, e o crachá: raramente tirava do pescoço. “Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto. Fiquei mesmo. Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava oquê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de CanoaBranca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindode se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sairde lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avóde Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de assessor é assim, dura,devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhare um piparote do cobrador me acordou. “Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo. “Vai pra onde, Brizola?” “Pelotas”, respondi. “Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “São vinte reais”. O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantasbolsas de supermercado com erva e halls. Um adiantamento, exigência mi-nha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo. Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviá-ria é uma quantidade de táxi esperando, realmente, que tu pague uma fortunapra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saía pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bembonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pãotorrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte,e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietáriae moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do 26
  • 23. boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca,também por segurança; pânico de cidade grande. Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha novaque era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Nãovi o Bom dia Rio Grande – no Naite só tinha rádio –, tomei café, iogurte, eescondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei àBaronesa onde era a praça da cidade. “A mais próxima?”, me perguntou. “Ah, tem mais de uma...” “Olha, daqui? Umas doze quadras”. Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira.Resolvi relaxar. Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia. Sevei o mate.Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado. “Posso?”, perguntou. E eu vounegacear? Cevei um mate pra ela. Dia seguinte cevei outro. Fui cevando, ce-vando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidróna térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo... Nenhum conhecidovendo é a conta; porque pra mim, mate, só com halls. Mas tinha uns olhospuxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me seguravapra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhore, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô. Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é ine-vitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas:por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frentedo Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampearcartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois:seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu. Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porãodo Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa naparede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantoscoelhinhos pra Barô assinar. “Que que é isso?”, perguntou. 27
  • 24. “Fica tranquila”, eu disse, “é coisa séria”. Beijei a testa dela. Ela amole-ceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obedien-te. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola.“Te ligo em seguida, minha assessora”, disse, apressado, porque o Embaixadorsaía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. Saí a pé; táxi me nego. 28
  • 25. Menção Honrosa Categoria Nacional Rio de Janeiro - RJ Os meninos João Paulo Vaz N enhum de nós sabe com certeza como e quando os meni- nos começaram a aparecer. Foi durante uma daquelas tréguas que podiam se estenderpor semanas ou meses. As tréguas eram cada vez maiores e sempre bem-vindas. No início, descansávamos, lubrificávamos as armas, remendávamosuniformes. Deitávamos na sombra e a satisfação de continuar vivo nos engor-dava. Depois, vinham o tédio e a preguiça. Quando me dei conta da presençaconstante dos meninos, essa fase já havia começado. Nem é preciso dizer que nosso acampamento não é lugar para crian-ças. Na verdade, não é lugar para ser humano algum, só nós mesmos, que nãotemos outra escolha e já quase deixamos de ser humanos. O normal teria sido expulsá-los. Mas o comandante não se mexeu eninguém se sentiu na obrigação de tomar a iniciativa. Iniciativas de qualquertipo eram cada vez mais raras entre nós. A série infindável de pequenas vitóriase derrotas sem consequência havia acabado com a esperança e o medo quenos faziam bravos. Ninguém mais esperava vencer essa guerra que se diluiu notempo, na inutilidade dos tiros sem alvo visível, na falta de sentido das mortesaleatórias. O fato é que, mais por inércia nossa que por qualquer outra coisa,os meninos foram ficando. Dormiam junto à porta da cozinha, comiam os restos da nossa comida,faziam pequenos serviços – apanhavam água no poço, lavavam as panelas,matavam ratos. A matança dos ratos foi o que primeiro me fez prestar atenção 29
  • 26. neles. Passavam horas imóveis, atiradeiras nas mãos, espreitando a caça. En-tão um deles esticava devagar a borracha, soltava e, de algum canto escuro, umguincho de desespero anunciava a precisão da pedrada. Lembro bem da tarde em que eu me debatia num sonho especialmen-te mórbido. As imagens eram as de um filme antigo, mudo, em preto e branco.Estávamos num pântano, cercados pela fuzilaria inimiga. Balas e granadassilenciosas nos arrancavam pedaços, mas ninguém morria nem se importavamuito, apenas continuávamos a chafurdar na massa escura onde já não erapossível discriminar o sangue da lama. De repente, um silvo intermitente dealarme de bombardeio quebrou o silêncio do sonho. Acordei assustado. A meulado, aos guinchos, uma ratazana arrastava desesperada a coluna partida e osquartos traseiros paralisados. Antes que eu acabasse de entender o que acon-tecia, um dos meninos surgiu na minha frente e esmagou a cabeça do bichocom uma pedrada de misericórdia. O que me surpreendeu naquele dia foi a expressão do olhar dele. Desatisfação com o próprio poder. Durou talvez uma fração de segundo, e imagi-no que só a percebi porque, mal acordado, eu me achava naquele estado emque a intuição ainda não está submetida à razão. A surpresa não foi tanto pelaexpressão em si, mas por reencontrá-la justo no olhar de um deles. Desejode poder era um sentimento que ninguém ali experimentava havia tempo. E,nos olhares dos meninos, até então, eu só tinha percebido a fragilidade dosfamintos, a paciência com que esperavam os restos das nossas refeições, asubserviência com que lavavam as panelas. A trégua se prolongou além da nossa capacidade de contabilizar otempo. Durava tanto que, embora ninguém o dissesse nem a si próprio, jácomeçávamos a dar a guerra por encerrada. Prova disso era o desinteresse pe-las armas empoeiradas, amontoadas num canto. De vez em quando, alguémlembrava que era preciso lubrificá-las. E ficava nisso. Até que um dia, ao acor-dar de manhã, dei com um dos meninos desmontando o fuzil do Gomes. “Tafazendo o que aí?” – perguntei. “O Gomes mandou”. Achei estranho. Ninguémali mexia em arma de ninguém. Aquilo mostrava a que ponto tinha chegado 30
  • 27. nosso desleixo. Decidi falar com o Gomes ou com o comandante, mas, comoos dois ainda dormiam, fui tomar café e acabei me esquecendo do caso. Nos dias seguintes, alguns meninos desmontaram e lubrificaram ou-tros fuzis. “O meu pode deixar que eu mesmo faço” – avisei. Mas continueiadiando a tarefa e, uma semana depois, quando percebi meu fuzil tão limpoquanto os outros, não me animei a reclamar. A verdade é que meu interessepor ele, àquela altura, era nenhum. Pouco tempo depois, num final de tarde, eu acompanhava o percursode uma ratazana, à espera da pedrada que a abateria. Atrás da cozinha, haviaum muro baixo sobre o qual se erguia outro mais estreito. A ratazana vinhapelo degrau formado entre o topo de um e a base do outro. Protegida pelasombra, dava alguns passos em direção ao latão de lixo da cozinha, parava,fareja o ar, dava mais alguns passos. Sentado ao lado do latão e encostado nomuro, aproveitando ele também a proteção da sombra, o Batista se masturba-va. A ratazana vinha pouco acima dele. “Vai cair na cabeça do Batista” – penseiquando ela parou, levantou o focinho mais uma vez e eu esperei ouvir a retra-ção do elástico de uma atiradeira. Mas o que se escutou foi um tiro de fuzil. O impacto da bala jogou a ratazana para cima. O corpo se esborrachoucontra o muro e caiu despedaçado na cabeça do Batista, que, no susto, saltoude onde estava, e, saiu tropeçando na calça arriada. Aquilo tinha ultrapassado qualquer limite e a única atitude razoávelera chutar todos os meninos fora do acampamento no mesmo instante. Maso batalhão inteiro explodiu de rir com a cena do Batista, aos tropeções, carae peito salpicados do sangue da ratazana, tentando suspender a calça. Nossasgargalhadas desarmaram sua fúria e ele não fez mais que arrancar o fuzil dasmãos do menino e berrar meia-dúzia de palavrões. É curioso o modo como as mudanças acontecem. Embora, entre oinício daquela última trégua e agora, o batalhão e a própria guerra tenhammudado radicalmente, não é tão simples entender como e quando o processose deu. Mas ter permitido o acesso dos meninos às armas foi, sem dúvida, um 31
  • 28. divisor de águas. Desinteressados de um poder que não nos levava a lugar algum, dei-xamos que os meninos o exercessem. O poder das armas. No que passaram aandar de fuzil a tiracolo, eles foram mudando de atitude. Não esperavam maisos restos das nossas refeições. Comiam junto. Não lavavam mais as panelas,não apanhavam água no poço. Promoviam caçadas coletivas em que algunsmeninos revolviam o lixão enquanto os outros alvejavam as ratazanas em fuga,e nós éramos obrigados a buscar proteção contra a fuzilaria. De vez em quando um de nós protestava, mas sempre esperando queos outros assumissem alguma atitude, e a reação não passava disso. O co-mandante não dava uma ordem havia tanto tempo que ninguém mais tomavaconhecimento dele. Quando, durante uma das caçadas, uma bala ricocheteouno muro e atravessou sua cabeça, encaramos o fato como um acidente, nadamais. Enterramos o corpo sem qualquer cerimônia especial, exceto por umasalva de tiros que os meninos resolveram disparar. Hoje entendo que, num ambiente como o nosso, as armas – sejam elasfuzis ou atiradeiras – são a principal fonte de virilidade e energia espiritual.Sem elas, chafurdamos no pântano da indolência. Não acho que isso expliquetudo. Mas o fato é que, dias atrás, quando a trégua afinal terminou, continua-mos lavando panelas. Da guerra se encarregam agora os meninos. 32
  • 29. Menção Honrosa Categoria Nacional Campo Belo - SP Ana Dorme Marcelo Campos de Lilla “A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores” Marcel Proust; No Caminho de Swann E u gostava de olhar Ana dormir. Seu contorno suave, esculpido pela lua na janela, era para mim um litoral conhecido. Muitas noites eu adormeci perdido nas areias doces de suas praias,sem querer me lembrar que toda felicidade é efêmera. Aqueles foram anos de indolência. De preguiça. Anos arrastados e fe-lizes. Até estranho pensar que morávamos em São Paulo, nesta mesma SãoPaulo tão rápida, imediata e urgente de hoje. Para mim, aqueles dias sempreterão se passado num plano histórico e geográfico completamente à parte, umparêntese na vida, como se houvesse uma barragem capaz de represar o riodo tempo. Não se trata de nostalgia, de “como éramos felizes quando jovens”,nem nada disso. Se minhas memórias daquela época estão tomadas de tonsleves e pastéis, onde tudo se desenrola num ritmo lento, de sonho, submarino,é apenas porque Ana projetava isso ao redor de si. Sua beleza, ou sua presença,sempre teve a capacidade de distorcer todo ambiente, derreter os relógios, do-brar a realidade e, por consequência, qualquer memória dessa realidade. Hoje sou um homem amargurado, talvez por ter passado anos demaisprocurando Ana em outras mulheres. Mas nem sempre fui esse homem depedra, nem sempre tive essa rispidez nas respostas ou essa curvatura precoce 33
  • 30. no caminhar. Isso é coisa recente, mas também não importa. Esta história nãoé sobre quem eu sou, mas sobre quem eu deixei de ser. Não tem nada de mais na maneira como eu e Ana nos conhecemos.Amiga de um amigo, um chopinho aqui, um cineminha ali, quando dei pormim, estávamos dividindo um pequeno apartamento no centro da cidade. Naépoca, eu ainda era um aspirante a escritor, ainda vivia naquele mundo perfei-to e romântico que todo escritor iniciante habita antes de se tornar famoso ousucumbir às amarguras do fracasso. Era eu, Ana, minha máquina de escrevere nossa cama. Na maioria das vezes, tudo isso ao mesmo tempo. De vez emquando, eu passava dias inteiros deitado na cama, com a máquina apoiada nabarriga, consumindo um maço de cigarro atrás do outro. E Ana ficava sempreali, ao meu lado, lendo e opinando sobre o que eu escrevia, zombando demeus erros de digitação ou da pieguice de algumas passagens. Não lembrodo que nos alimentávamos ou como pagávamos nossas contas naqueles dias,mas hoje sei que, para mim, aquele quarto desarrumado foi o mais próximodo paraíso que eu jamais conseguirei chegar. Se Deus existe, ele sabe quanto tempo eu passei tentando entender osmotivos que me levaram a fazer o que eu fiz. Talvez eu simplesmente não sejatalhado para a felicidade, afinal. Mas quanto mais eu penso, mais me convençode que eu me apavorei. O velho clichê do covarde inseguro que rejeita para nãoser rejeitado. Às vezes acho que ainda vivo preso dentro daquele momento,aprisionado naquele exato instante em que, sob a soleira da porta, carregandoa maleta com a máquina de escrever e nada mais, eu olhei para ela uma últi-ma vez. Dali da porta, estirada sobre a cama, confundindo-se aos lençóis, elaparecia um anjo com asas de linho branco. Adormecida, seus traços revelavamuma inocência e uma pureza que ela disfarçava habilmente quando estavadesperta mas que nunca falhavam em me comover. Acordada, Ana era umaexplosão de vida, uma daquelas pessoas que se tornam o centro iluminado detodo lugar por onde passam. Mas era observando o seu sono que eu sentia querealmente a amava. Quando ela dormia, eu recebia acesso exclusivo a umaoutra Ana, e era como se só então eu a possuísse de verdade. Provavelmente, 34
  • 31. era meu ego covarde e inseguro me dizendo que aquela era a única forma deAna se tornar previsível, sob controle, diferente da mulher impulsiva e cheiade surpresas que ela era durante o dia. Mais de vinte anos depois, ainda nãosei dizer de onde tirei forças para me voltar e partir, fechar para sempre aquelaporta, mas foi o que eu fiz. Cada segundo que se seguiu depois disso foi comoa reverberação daquele momento, como as ondas circulares na superfície dalagoa depois que a pedra afunda para sempre na escuridão submersa. Cadalivro que eu lançava, cada linha que eu publicava, era para ela que eu o fazia.Tentava escrever como se ela ainda estivesse ao meu lado na cama, retirando,com seu riso provocativo e brincalhão, as folhas da máquina enquanto eu ain-da datilografava. Imaginava se ela acompanhava minha carreira, se compravae lia os livros que eu escrevia ou se ao menos os folheava desinteressadamentenas livrarias, pensando que eu havia, enfim, conseguido me tornar um escri-tor. Eu estaria mentindo se dissesse que nunca voltei a procurá-la. Mas,quando me decidi por finalmente ir atrás de seu paradeiro, já era tarde. Nin-guém sabia dizer ao certo o que havia sido feito de Ana. Diziam que havia semudado para Nova York ou Paris e que morava com um artista plástico derenome, com quem havia tido um filho. Outros diziam que ela se afundara nasdrogas ou que tinha se tornado puta. Existia até uma versão em que ela haviapartido para a Índia e encontrado a iluminação e a paz na meditação transce-dental. Eu sabia que nada disso era verdade, ou pelo menos não inteiramenteverdade. Foi apenas há cerca de um ano e meio que eu voltei a ter notíciasde Ana. Quando li seu nome no jornal, soube imediatamente que se tratavadela. Ela tinha dois sobrenomes que eram bastante incomuns, o primeiro eraitaliano e o último lituano, e a chance deles aparecerem combinados ao nomede outra Ana era mínima. Não vou revelá-los aqui, em respeito à privacidadede Ana e sua família, mas sempre achei que do inusitado casamento dessessobrenomes resultava uma sonoridade bonita e exótica. O jornal dizia que elae uma amiga haviam se envolvido num acidente de automóvel quando volta-vam de uma viagem, no final do mês anterior. A notícia, na verdade, era sobre 35
  • 32. a amiga de Ana. Após duas semanas internada e múltiplas cirurgias, ela nãoresistira aos ferimentos e acabara falecendo. Falência múltipla dos órgãos, oucoisa que o valha. O repórter terminava o pequeno texto mencionando rapida-mente que a pessoa que dirigia o carro no momento do acidente, a empresáriaAna C**** P****, de 49 anos, permanecia em coma num hospital de SãoPaulo e respirava sem a ajuda de aparelhos. Não sei quantas vezes eu reli aque-la notinha. O nome, a idade, tudo batia. A certeza de que se tratava de Ana eraabsoluta. Aparentemente, eu a havia encontrado, enfim. Por alguns dias, fiquei absolutamente perdido, sem conseguir desviarmeus pensamentos do fato de que Ana estava num hospital a poucos quilô-metros de distância. Exaltado e ansioso, eu elocubrava mil cenas imaginárias,pesando em minha mente se devia ou não ir visitá-la, afogado em labirínticasargumentações silenciosas. No final, lógico, acabei indo, alguns talvez disses-sem que em busca de algum tipo de redenção, mas todo o tempo eu soubeque o que me movia era a simples perspectiva de vê-la novamente, de re-pousar o olhar sobre seu rosto, como se ele fosse um oásis para meus olhossedentos. Os anos passaram e eu não fiquei menos covarde por isso; admitoque só criei coragem para ir vê-la no hospital por saber que ela estaria desa-cordada, que não haveria possibilidade de confronto ou reconhecimento. Aconsciência de que ela estava deitada, adormecida, da mesma forma como eua havia deixado tantos anos antes, tornava a atração irresistível. Acho que nãohouve nada que eu tivesse desejado mais em todos aqueles anos do que podervoltar a contemplar o sono de Ana. E agora isso me era oferecido livremente,sem que existissem as desvantagens de um reencontro amargo, sem a aspere-za característica dos amores que ficaram para trás. Ver seu rosto de porcelanamergulhado num sono calmo e profundo, sem que para isso fosse precisorealizar a exumação de nosso relacionamento, inventariar antigas culpas oujustificar o injustificável. Levei comigo um vasinho de flores só para ter algo nas mãos ao entrarno quarto. É sempre complicado o protocolo das visitas hospitalares, princi-palmente quando a única pessoa que você conhece está num coma profun- 36
  • 33. do. Não vou me alongar em detalhes da visita, mas posso dizer que foi umbaque. Deitada sobre a cama estava uma mulher de meia-idade, de cabeloscortados bem curtos e pintados de acaju. Achei primeiramente que aqueleinchaço fosse decorrente de alguma medicação, mas logo percebi a papadaque pendia de suas faces e a pele molenga de seus braços e cotovelos. Aquelasenhora podia ser uma síndica, uma bibliotecária ou uma diretora de escola.A minha Ana, jamais. Estarrecido, fiquei ali um tempo, que poderia ser umminuto ou uma hora, sentado num sofazinho ao lado de sua cama, buscandoalgum vestígio familiar naquele rosto pálido e macilento, marcado por duraslinhas de expressão e olheiras surpreendentemente profundas. Desde o início,fui absolutamente incapaz de associar aquela mulher desacordada à minhafrente à imagem – forjada, ou talvez deformada, pela excessiva repetição daslembranças – que eu tinha de Ana. Jamais me ocorrera que o tempo tambémhavia passado para ela. Para mim ela continuara sendo sempre aquela jovemlânguida, que transbordava sensualidade em todos os seus gestos, e cujos ca-belos cor de petróleo batiam na bunda redonda e arrebitada. Pensando agora, está claro que eu não estava preparado para aque-la cena. Sobrinhos, tios e parentes povoavam o quarto, como uma perfeitafamília interiorana; crianças e adolescentes conversando, velhos entediados,senhoras oferecendo chá e biscoitos, tudo excessivamente prosaico, tudo emsevero desacordo com a idéia que eu preconcebera daquele encontro. Comeceia me sentir oprimido ali dentro. Era estranha a sensação. As pessoas falavambaixinho, como se estivessem incomodando o repouso da mulher na cama,como se a qualquer momento ela fosse abrir os olhos e começar a falar. Nãoé algo natural, o coma. É cruel e devastador para os que estão de fora. É comoum funeral que se estende por meses e anos, sem que ninguém possa fecharo caixão, dizer adeus definitivamente e tocar a vida em frente. Mas o pior talvezainda seja aquela inevitável pitada de esperança, a espera passiva por algumamudança no quadro, a possibilidade, mesmo que ínfima, de um milagre. Umverdadeiro inferno emocional. Mas, apesar de reconhecer as dores e afliçõesdaquelas pessoas, eu não era capaz de compartilhá-las. Talvez fosse insensibi- 37
  • 34. lidade de minha parte, mas tudo o que eu conseguia sentir era uma profundae egoísta tristeza por ver a imagem da minha Ana maculada por uma realidadeinclemente, eternamente empenhada em destroçar o mausoléu onde repou-sam aquelas memórias que nos são mais caras e em fazer desvanecer todaforma de sonho. Já na porta, ao sair, lancei um último olhar sobre aquela que diziamser a minha Ana, parafraseando o gesto que eu havia feito vinte e tantos anosantes, apenas para me certificar de que eu não sentia nada por aquela mulher.Nada a respeito dela se relacionava comigo ou com a Ana que habitava a minhamemória. Conforme eu atravessava o corredor em direção à saída do hospi-tal, fui sentindo um alívio cada vez maior, como se a realidade estivesse aospoucos voltando ao seu lugar à medida em que eu me afastava. Ainda no es-tacionamento, fui assaltado pelo pensamento de que naquele exato momentoexistiam duas Anas. Duas Anas igualmente estáticas, igualmente aprisionadasnum sono profundo, infinito, irremediável. Igualmente reais. A primeira erauma senhora desconhecida, vítima de uma batida de carro, e cujo rosto bran-co, iluminado por lâmpadas frias de hospital, se desintegrava em minha men-te a uma velocidade impressionante. A outra Ana era aquela conhecida ninfade feições cálidas, que dormia eternamente sob o luar, como se este fosse umdossel de prata que suavemente a envolvesse, protegendo o seu sono. EssaAna fora eu, não um acidente na estrada, quem prendera definitivamente nacama. No momento em que fechei a porta do quarto e a deixei dormindo soba janela, a condenei a viver para sempre congelada dentro daquele instante,sem poder jamais acordar. No afã de compreender tudo o que havia acabado de acontecer, umaideia começou a se formar na minha cabeça enquanto eu dirigia de volta paracasa. Hoje, está claro para mim que aquela Ana do presente, envelhecida, emcoma, era, afinal, nada mais que um espectro, uma projeção deformada daAna do passado. Um reflexo distorcido da mulher adormecida que eu ha-via abandonado. A outra Ana, aquela que inicialmente não passava de umamemória, ao contrário, mostrara ser aquilo que havia de mais consistente e 38
  • 35. palpável. Sua presença sorrateira e constante talvez tivesse sido a única coisaverdadeiramente real em todos aqueles anos. Era como se as paredes que se-paravam matéria e memória, passado e presente, houvessem ruído de repen-te. Quando digo que é à Ana que dedico minha literatura, não me refiro àquelasenhora vegetando no hospital ou tampouco à memória da jovem esbelta echeia de vida que conheci nos anos de minha juventude, distantes e inacessí-veis. Escrevo e continuarei a escrever para a única Ana possível, a minha Ana,aquela que de alguma forma conseguiu iludir o tempo e alterar a ordem dascoisas. Intacta e perfeita, indiferente à passagem dos anos ou ao embotamentodas lembranças, esta Ana permanece viva e continua a sonhar debaixo de umalua que se mantém cheia no céu de todas as noites. 39
  • 36. Menção Honrosa Categoria Nacional São Paulo - SP Sem Natal Ronaldo Cagiano A véspera de Natal trouxe Lindalva do trabalho em meio à má vontade do tempo. Seus planos de reunir a família, convi- dar os amigos, apesar do cansaço de mais de dez horas emfrente ao tear na Companhia Manufatora, pareciam mais uma vez esbarrar noimponderável. Não queria repetir o sem-sal e sem açúcar dos anos anteriores.Nesse, prometeu-se que seria diferente, guardou o que sobrou do 13º paracomprar uns presentes para as crianças. A Camila não cansava de pedir umvideogame, porém teria que contentar-se com uma boneca; Fabiano buzinou-lhe nos ouvidos durante ano todo, mas o autorama [febre, sonho de consumoda garotada naqueles plúmbeos anos 70, tempos de coturno e medo] nãoviria dessa vez, a grana só deu mesmo para um carrinho movido a pilha, daEstrela, comprado, a perder de vista, no Bazar René. Era o que podia ser feito.Meses inteiros de sonhos que seriam concretizados pela metade, afinal, desdeque Amarildo saiu de casa para viver com a amante na Vila Reis, que Lindalvateve que dar duro e tomar a frente de tudo, sem ajuda, sem pensão. A fatigantetarefa diária no imenso salão onde máquinas expeliam línguas de panos, amusculatura compulsória nos braços femininos cevada no empurra-leva-e-traz de carrinhos abarrotados de fardos da tinturaria, tantas vezes vigiada peloscontramestres alcoviteiros, a epiderme ressecada pela nuvem de poeira quenascia das engrenagens, as lançadeiras ziguezagueando diante de seus olhosvidrados na mistura dos fios bailarinos que não teciam outra vida, senão ceva-vam o apetite dos patrões, alimentavam dozes meses de cansaço, a sobrecarga 41
  • 37. que se revezava a cada manhã. Tudo impunha uma terrível prostração àquelamulher que tanto desejava estar inteira para viver pelo menos uma vez na vidaum Natal em família, mesmo com a ausência do marido empanando o brilhonos olhos dos filhos. Era uma dor que ela não podia aplacar, senão já teriamudado as coisas, passando uma borracha na história e virando a página,mas Fabiano e Camila não se esqueciam do pai. Depois que foi embora, nemmesmo se lembrava, ou aparecia, na data de seus aniversários. Esperançosos, os dois acordaram pela manhã na certeza de que eleviria, um presentinho ao menos, ou um agrado que fosse pelo abraço, peloscumprimentos. Queriam o pai, a visita, ainda que trânsfuga a presença. Afinal,os amigos da vizinhança comemoravam idade com pais e mães presentes,só os dois naquele beco viviam uma espécie de orfandade de pai vivo. Nostrês últimos anos Lindalva fez das tripas coração para que não desistissem deestudar. Tinha medo de que os filhos arrumassem corriola, não saberia ondecolocar a cara se um deles repetisse de ano ou fosse maconheiro como o Tadeue o Vinícius, filhos da Gorete, que desquitou cedo e ficou sem controle sobrea casa, biscateando aqui e ali, e a Vanessa, que ficou falada de tanto biscatear.Ela tinha medo dos línguas-soltas, por isso era da fábrica pra casa, de casa prafábrica. Por isso seu coração não tinha outro destino. Preocupavam-na as lon-gas horas de silêncio com que Fabiano, debruçado sobre a janela, a sua carre-tinha de rolimã aposentada debaixo da cama, com seus olhos, esquadrinhavafeito um periscópio, a volúpia de um louva-a-deus dançarino que brincava dedesaparecer com suas coreografias no distante da rua, ou se fixava, emudeci-do, nas lesmas que escalavam os muros altos e musguentos, do minúsculoquintal lindeiro ao de seu Durval. Ou, viajante e furtiva, sua atenção migravapara os galhos da jabuticabeira, onde um pequeno enxame de marimbondosprincipiava uma casa, indiferentes à dor das redondezas. Também doía-lheo coração flagrar calada as tantas vezes em que Camila se amotinava com asbonecas debaixo da cama, fingindo uma conversa com um amigo secreto quevinha à hora marcada, substituindo a ausência paterna, essa noite que sepostergava dentro dela, mais escura que a cabana sob o colchão mijado, 42
  • 38. viajava nos mundos que criava, na crina alucinada de uma fantasia que um diairia desmoronar. Após derrotar o sol, a noite chegava com o festim de insetosnas luzes fracas da rua e uma legião de fantasmas habitando aquele corre-dor de casas. Do 51 era possível divisar o ribeirão aos fundos, animal ferozque se insurgia em muitos dezembros, batizando as moradas precárias como tumulto de suas águas e a adversidade das cheias que desalojavam tantos,sem parcimônia, oceano de frustrações fustigando a alegria com que muitosidealizavam passar as festas de fim de ano, apesar das privações. Aquela gentepobre, se não tinha muito o que comemorar – as dificuldades prolongadasnão prenunciavam que as coisas melhorariam de repente – pelo menos umleitão encomendado com certo sacrifício no açougue do Devair podia ser espe-rado, para compartilhar uma parcela mínima de sorriso nos olhos miúdos desuas existências proletárias, mas ainda habitados de mínima esperança. Masnenhuma alegria seria completa naquela casa onde além da água que tantasvezes secava, faltava alguém; e a dor de saber que o pai comemoraria comoutros, achincalhava ainda mais os coraçõezinhos repletos de ilusão. – Mãe, o pai não vem? Quantas vezes Lindalva ouviu, embargada, osorriso interditado pela violência fulminante da pergunta dos filhos. Cada anomorria, dando lugar a outro, e a incerteza que se cristalizava a cada nova mu-dança de estação, na alternância do horóscopo. Nos últimos tempos era isso:a felicidade esquiva, o rapto das mínimas emoções pela realidade aquarteladae intransigente, apesar das vigílias. À insistência da pergunta que reverberavacomo um chicote no seu peito, Lindalva não tinha o que dizer. Nem meias-palavras, nem uma resposta paliativa que dourasse as circunstâncias. Era nabucha, e tentando mimetizar as lágrimas com os olhos vermelhos enquantofatiava uma cebola na cozinha, que ela desenganava a filha ou despistando aconversa, mandando Camila pegar o regador para aguar os vasos de avenca esamambaia da sala minúscula: – Não conte com seu pai, ele tem outra vida, esperem em Deus, queesse não falha e é graças à sua misericórdia que passamos o ano e com a ajudade sua avó, que pude cuidar de vocês. Não fosse os serões na fábrica, ela tam- 43
  • 39. bém não teria pago em dia o aluguel de um quase barraco, o Bira era pontual,saía, de casa em casa, o colar reluzente como os dentes de ouro e a mania demascar palitos, cobrando os inquilinos, uma sangria mensal em seu salário,nem dado conta de quitar em dia a caderneta da venda do Albertino. Fazia dastripas coração para manter a casa, nunca faltar lanche na merendeira, as coi-sas em ordem e as contas sem atraso, quando a brotoeja pintou a face miúdada filhinha e trouxe uma febre inexcedível, [e o fantasma dos cortes rondavaa seção de estamparia, o Zé Batista foi despedido agora buchicham que oNestor e a Zélia vão pra rua também, porque votaram do doutor Agnelo, doMDB] quase perdeu a mão no tear, sua cabeça estava na menina, o dia inteirocomendo algodão na fábrica, e ainda ter que agüentar a língua comprida dadona Mundinha e as cantadas do Vadinho, que de seu tamborete apontan-do o jogo-de-bicho tomava conta de quem entrava de quem saía, o uniformesempre bem passado, apesar de surrado, o sacrifício que impedia que os fi-lhos parassem os estudos, afinal, com quem poderia contar amanhã, senãoa mínima instrução que lhes abrisse caminhos, Lindalva não descuidava denada, antes de dormir ainda dava uma última passada com ferro em brasanos uniformes e uma conferência dos cadernos, tentava ajudar nas lições, nospara-casa, tomava a tabuada, arguía os verbos. E os boletins de classe no fimdo mês não desmentiam, espelhavam seu esforço e sua luta: os meninos iambem. E quando já estavam os dois na cama, depois de ter aspergido o inseti-cida com a bomba de Flit para espantar os pernilongos que vinham acicatartodas as noites, desaninhados do corguinho dos fundos, ainda se desdobravapara uma passada de escovão no piso de vermelhão, ainda bem que não tinhamais que recolher as guimbas de cigarro que Amarildo deixava pelos cantosda casa, e uma espanada na mobília pobre e feia e entrando já a madrugada,a leitura de algum salmo, e pedia a Deus que a ajudasse a sair dali, sonhavaum holerite mais gordo e poder financiar uma casa decente pelo BNH ou pelaCOHAB, o socorro da fé naquela Bíblia surrada e eternizada sobre a cristaleirade pés capengas, vigiada pelo crucifixo de madeira que ela sempre limpabri-lhava com óleo de peroba. Tempos escuros aqueles. As indústrias da cidade 44
  • 40. eram movidas a eletricidade, óleo diesel, carvão e medo. Os Andrades domi-navam a economia, eram donos de todas as tecelagens, das fábricas de papele macarrão, da fundição, do matadouro, da Força e Luz. Controlavam tudo, dasaída dos operários às conversas políticas. A Arena mandava na cidade, ondeos parentes do líder político Emanuel Andrade revezavam no poder. No Golpede 64, muita gente foi dedurada por eles ou por seus puxa-sacos, baba-ovos,cheira-peidos. Quando chegava novembro, mês de eleição, o voto de cabrestogarantia-lhes a permanência. Nada fugia ao controle. Sabiam quantos eleitoreshavia em cada urna, em cada zona eleitoral e no departamento de pessoal dascompanhias, a cópia dos títulos dos empregados era guardada como moeda detroca. O terror rondava as seções e quando algum voto migrava para [os quin-ta-colunas do Túlio farmacêutico e do Laércio do Sindicato] um candidatoa vereador ou prefeito da oposição, o funcionário recebia o bilhete vermelho,as indenizações nem sempre corretas, dali em diante não conseguiam maiscolocação na cidade, muitos iam de mala e cuia pra São Paulo tentar empregono ABC ou na construção civil. Quantos natais trouxeram o inferno para tantagente. Lindalva tinha medo também de ir pro olho da rua, por isso nunca abriaa boca na época da política, votava em quem os capachos da diretoria ou ospelegos mandavam. Nas casas de paredes-meias - eram doze, seis de cada lado, como eracomum nas vielas do Pouso Alegre - os sons algazarravam cedo. Barulhos delacres de cervejas e refrigerantes em lata se abrindo, garrafas sendo retiradasdos engradados e os estampidos dos abridores se confundindo com a músicaque escapava dos aparelhos de som ligados no máximo volume nas portas dascasas. Pagodes, sambas, boleros e sertanejos se misturavam sem divergên-cias – vitrolas vozeiravam Agnaldo Timóteo, Nalva Aguiar, Wanderley Cardoso,Lindomar Castilho, Odair José, Vanusa, Roberto Carlos, Jane e Herondi, AlmirRogério. O chiado da carne, semelhante ao som de chuviscos de uma emisso-ra de tevê fora do ar, sendo revirada em alguma grelha, disseminava o cheirodo assado que impregnava a pequena ruela que separava as casas. Enquantoadultos disputavam tira-gostos e petiscos na mesa exposta ao ar livre e compar- 45
  • 41. tilhada por toda a vizinhança, a molecada num frêmito a correr pralá-pracá.Um vozerio de homens e mulheres que, alternando gargalhadas e gritos, pa-reciam viver a plenitude de uma felicidade não compatível com o silêncio e amodéstia com que Lindalva, Camila e Fabiano viviam noutra casa, quase umjazigo, onde noutra mesa esperava um frango assado recheado com farofa eameixas, acompanhado de uma jarra de ki-suco, testemunhados pela árvorede natal que pisca-piscava discreta num canto, onde dormitavam os presentesque os meninos abririam no virar das horas, sem a efusiva comemoração quese verificava nos outros lares. Ainda estava para sair o turno das dez horas, afábrica era um moedor de gente – faltava pouco para o sino da Matriz soaras doze badaladas, alguns insetos bailando em torno da luz fraca dos postesda rua, já se podiam ver os faróis dos carros realçando os grossos e compactosfios de chuva, deslizando pelo tabuleiro de paralelepípedos já encharcados,uma lua bêbada e intermitente entre nuvens velozes já não derramava sequeruma claridade débil sobre os telhados, indicando que um aguaceiro vinha delonge sem dó nem trégua, o campinho tá todo tomado, dona Vera – corriade um lado pro outro o Valdo doidinho avisando nas casas, mas o movimentodo lado de fora negligenciava o apetite de uma tempestade em ascensão, nin-guém ligava para os corpos molhados, para as nuvens com suas cortinas deágua chicoteando os quintais. A noite sem estrelas abria alas para o temporalque assobiava seus ventos nos eucaliptos do morro do cemitério – tudo tãocerto e tão medido para essa época do ano naquelas margens do rio Pomba.Nas últimas décadas era religioso: a chuva batizava os Natais da cidade e mui-tos foram os reveillons em que o susto e a correria substituíam os estourosdos champanhas. A opulência das nuvens não falhava de novo, trazendo ummedo antigo, papel carbono de conhecidos pesadelos, parindo tragédias nacorrosão da madrugada. Desde o final da tarde, os plantões da Rádio Catagua-ses alertavam a população sobre as condições meteorológicas, mas ninguémsintonizava o dial naquele dia, pareciam todos detidos no clima de final de ano,ensimesmados em algum preparativo. Era preciso comemorar, beber, comero peru que em alguma mesa não faltaria, preparando-se para enterrar o ano 46
  • 42. moribundo. Chovia horas sem parar nas cabeceiras do rio, lá pelos lados dopico dos Caramonãs e da Serra da Onça, onde o tempo estava armado e feioso.Ninguém deu bola, ninguém queria se lembrar de como nos últimos anos oscéus reagiam, revelando toda sua força e brutalidade, todo seu escárnio noespetáculo intimidatório e caudaloso e suas águas. Não acreditavam que maisuma vez, depois da Missa do Galo, muita gente voltaria das igrejas sem poderchegar em casa, sem o milagre da ceia, evacuadas de mais uma esperança. Os verões chuvosos sempre foram desmancha-prazeres da vida prole-tária de Cataguases. As águas de março sempre adiantavam seu ciclo e apare-ciam no último mês do ano e impunham seu regime de exceção, como nasvelhas ditaduras. Dos subterrâneos repressivos da natureza desiludida com oshomens despencava o chumbo torturante das nuvens. Os regatos, ribeirões,lava-pés e calhas de esgoto não resistiam à pressão pluviométrica e se jun-tavam num subversiva e implacável coreografia, levando tudo que viam pelafrente. E a calha do Pomba, serpente líquida e tinhosa, já assoberbada pelovômito de outros leitos, não comportando o taliônico tempo, decretava seusdesastres. Só quando ouviram os estrondos, pleonásticos e ensurdecedores,no vácuo redundante e clarividente dos feixes de relâmpagos, perceberam quea natureza, mais uma vez, não brincava em serviço e dava suas ordens. Jáinócua aquela correria repentina, diante de um Meia-Pataca travestido numAtlântico na porta das casas. A tromba-d’água que havia caído a quilômetrosdali, chegava com fúria redobrada e toda a vila não passava de uma imensailha da qual zarpava mais um Natal. Naquela correnteza não boiavam confu-sos e sem rumo apenas os presentes que não foram entregues. Uma tristezaabsoluta e irreversível redemunhava dentro deles. 47
  • 43. CategoriaREGIONAL 49
  • 44. 1.º Lugar Categorial Regional Araçatuba - SP Tharso José Ferreira de Minas Gerais, residente em Araçatuba, é autor de livros didáticos, criador da revista infantil “Zé Limpinho”, desenhista, chargis- ta, palestrante, vencedor do 21°, e menção honrosa no 23° Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, em ambos na categoria municipal. Amizade Sincera Tharso José P ois bem, tentarei contar, embora isso me desagrade muito, mas me encorajo na curiosidade de todos. Se bem, e quero que disso todos saibam, isto não é um desabafo e nada doque contarei se afasta da verdade nua e crua, tal como acontecido. E aí querome safar de vez dos sorrisos de sarcasmo, quando, vez ou outra, me veem pelarua. É isso que me irrita! Aqui todos sabem que João era meu amigo! Amizade leal, franca e de-terminada. Comia em sua casa, bebia com ele noite adentro, não raro acordavaembriagado no chão de sua sala. João, amigos, era plácido, calmo e reservado,sem capacidade de ferir, nem em palavras nem em ações. Ousam-me? Tinhapor ele uma amizade sincera, honesta, coisa à qual eu dirigia esforços empreservar. Em nossa amizade existia de fato uma grande afinidade. Mas bem sabem os senhores que o destino nos faz troça. Brinca com 51
  • 45. nossas limitações e nos fere. João tinha uma esposa tão jovem que se passavapor filha. Bela, de uma beleza que só se encontra na juventude. Era de falasuave, quase um sussurrar. Sempre de vestido ou saia. Isso lhe dava umafeminilidade que hoje as mulheres já abandonaram. Mas não pensem os se-nhores, nunca tive os olhos para ela! Mesmo quando João a maltratava e lhefazia represálias na minha presença. Me interessava mais o vinho da casa, acerveja, o corote de pinga do que sua jovem esposa. Todo sábado eu acabava por lá, era lá que eu bebia. João sabia disso eme esperava sempre, mas naquele sábado ele não apareceu e, quando fiz ogiro para voltar, sua esposa me chamou com sua voz sussurrada dizendo queele voltaria logo, que eu entrasse e aguardasse. Eu, como já disse e os senhoressabem; tenho uma queda pelo álcool, admito, é meu ponto fraco. Daí, condu-zido pelo vício, entrei. Quero que me entendam que nunca dei motivos ao amigo, ou a quemquer que fosse, de duvidar de meus respeitos com a esposa dele e essa nãoseria a ocasião de quebrar tal confiança..., maldito dia! Ela me levou aos fundos, eu me acomodei num velho sofá de cor mos-tarda, roto,perto do freezer. Era lá que ficavam as cervejas. Casa simples, anosde convívio ali. Quando me levantei, ao pegar uma cerveja, dei de cara com osolhos dela nos meus. Vi de imediato, enorme depressão, dessas que se dá emfumadores de maconha. Visível tristeza. Indisfarçável. Desviei os olhos. Nãoposso, pensei. Que tormento lhe assolava as faces? Que tinha eu com isso? Masela continuou lá imóvel feito poste. Eu repelia de meu espírito o demônio dacuriosidade embora tivesse dela penosas impressões e, no proceder dos fatos,vi que ela queria me dizer algo antes que eu me embriagasse. Desviei os olhospara o chão, mas ao levantar lá estavam os dela, me fitando com beleza notá-vel e expressão tão triste que me desconsertou. A brancura da pele e o brilhomiraculoso nos olhos causou-me sincera piedade e transpus o curto caminhoentre a lucidez e a insanidade quando lhe perguntei o que havia. – Sabe por que João me maltrata? – Perguntou com sua voz de fada –Sou estéril. 52
  • 46. Então era esse o motivo de tamanha melancolia. Ora, João nunca mehavia dito nada. E olhem que ele me confiara coisas, perturbadoras, que nemem sonho ouso dizer, mas dessa moléstia em seu casamento nem uma pala-vra. – Fiz os exames, não sou eu, é ele o estéril. Menti para ele. – Me disseencostando os lábios em meu ouvido. – Ele não virá aqui hoje, e eu confio emvocê. Suportei até onde um homem pode. Eu sou um conhecedor de vinho,cerveja, destilados, mas de mulheres, nada! Não as entendia e nem queria.Menos ainda eu entendi quando ela se debruçou sobre mim se abrindo e meabrindo com a suavidade das penas. Eu me apiedei quando lhe vi as coxasarroxeadas pelo marido e nada disse quando ela me falou que fazia aquilo porele, pois o amava mais do que a si. Eu me converti em pedra, teso, grudado nosofá imundo. Fechei os olhos diante do pecado e formei com ela, ali no sofá,um único corpo. Por que falar aqui o que já sabem os senhores? Por que o relato dessavergonha? É odioso para mim repetir isso, codificar o acontecido em palavraspara que paire em vocês o entendimento. Ora, pois! Deixem-me apressar e evitar fervura que vejo agora em tantos olhos.Depois disso não deixei de fazer minhas visitas ao amigo.Foram meses de tar-des e mais tardes do mais fino álcool, até que o ventre de sua jovem esposase tornou volumoso e belo. Ele em êxtase, alegria total, aberto em sorrisos,atencioso, carinhoso, afetuoso, moderado na bebida. Ela ainda mais bela,mais calada, mais feliz, cantarolando pela casa. Comigo João tinha excessivacordialidade. Bebia conversando comigo, tardes inteiras, não se cabia de con-tentamento, tinha assunto sobre assunto, tagarelava o tempo todo, alteraraseus modos para melhor. Eu, oculto,calado, feliz ao extremo, entusiasmadocom a situação. Nossa amizade já viçosa obteve mais vigor ainda. Quando o rebento veio ao mundo com a cara da mãe, João se tornouabsoluto como pai, atento e zeloso com mãe e filho. Eu em estado de graça, se-cretamente. Isto me bastava. Aliança perfeita. O silêncio como aliado perpétuo. 53
  • 47. É esta a questão que quero que examinem! Acham que houve mais algumacoisa entre eu e ela? De modo algum! Afeiçoei-me a ela fraternalmente, erao papel que me cabia. Defendia silencioso a causa de todos, e disso fui meupróprio juiz. Lembram-se do destino? Aquele que traz de surpresa benesses, benig-nidade? Ora, não nos enganemos, ele zomba de nós e traz também infortú-nios! E infortúnios como benesses são tão próximos que não os distinguimos.E como o mal e consequência do bem, o contrário também é verdade. E, comotodos sabem, o mal não havia dado as caras. E, como é da alegria que nasce atristeza, ela me disse – Ele quer outro filho – Num sussurro quase inaudível. Quero ser aqui o mais claro possível. Tinha cumprido o propósito. To-dos estavam felizes. Não havia de minha parte um porquê. Mas admito a todos,tentação havia. É justo e provável que vocês não me entendam, mas eu posso entendê-los. E eu não tenho aqui palavras adequadas para esclarecê-los do categóricoda minha negativa e, aqui, defendo a minha causa confiante. Mas ela falava docemente, devagar e, é essa a qualidade submissa queamo nas mulheres. Aquilo tirava a consistência dos meus nãos. Ela sabia, porme conhecer, que tal atitude sobre mim tinha delicioso efeito; então me tor-turava a cada dia na dose suficiente para que eu perdesse a força da negativadiante da volúpia de sua presença, seus pedidos constantes, seu cheiro. E quehomem não tomba diante do machado do desejo determinado de uma mu-lher? Mas o amor proibido está sempre próximo do perigo. Depois disso,senhores, ela passou a me evitar. Não me dirigia a palavra e nem o olhar.Quando eu entrava, ela saia. Procurava ficar sempre fora de minhas vistas,sem disfarce, exagerada. – Porque me faz isso? – Perguntei. Ela me disse que percebera amor em meus olhos, que meus desejosestavam se tornando uma ameaça ao combinado. Sabendo disso assumi uma personalidade abstrata, neutra, pus de lado 54
  • 48. a postura que me dava um pouco de dignidade, se é que um bêbado sabe oque é isso, e esperei com paciência, afinal éramos todos companheiros. Elasempre atarefada, trabalhos domésticos infindáveis, com assuntos e mais as-suntos particulares fora de casa, numa justa tentativa de não me dar atenção. Quando nasceu o bebê, uma menina inconfundível, réplica minha,enormes orelhas de abano, pele branquinha, mãos e olhos iguais, senhores!Iguais aos meus! Tal criança arrebatou-me a alma, de imediato, me vi nela. Qualquer coisa agora que fizesse lançaria meu filho a uma condenaçãoinjusta. Calei-me feito lápide. Passei a ser uma sombra silenciosa e atenta.Minha vontade morreu diante da vida que nascia. João espalhava a sua caraalegre em tudo com uma vocação divina em fazer tudo parecer bem. Longe decensurá-lo passei a admirá-lo ainda mais num misto confuso de sentimentos.Muitas vezes ele chegava e aninhava a filha em meus braços – Pratica aí apaternidade, um dia você vai ter o seu! – Parecia saber da minha paixão pelamenina. O meu apreço pelos vapores do vinho se foi e ficou um mecanismodesconhecido, uma certa tolerância a tudo. Nesse trato novo que dei à vida,desenhei a gosto o meu próprio conceito de moralidade, honestidade, pecado.Enfim, tudo a meu gosto, ao que me convinha, que me deixasse em vantagenssobre os meus sentimentos, dando cores ao meu destino. Senhores, o que é de fato verdade? Pois na verdade todo conhecimentoé oco e cabe a cada um preenchê-lo como quiser. Eu sei que o amor se apre-senta cheio de infelicidade para aquele que ama, já que quem ama não troca-ria a ilusão do amor pela certeza da indiferença do amado, eu preferia ser oamante infeliz, ignorado, do que estar fora daquela casa, daquelas vivências. Todos sabem que o adultério é companheiro inseparável dos longos ca-samentos. Logicamente, se existe entre nós algum advogado ele terá na men-te a atitude legal de representar contra. Argumentação tipicamente jurídica,fria,estabelecida na lei, no papel. E aqui não apetece tecer comentários, aosdefensores da lei, sim, são farejadores do mal. Acomodei-me na casa do amigo. Não saía de lá. Vivia uma ilusão só 55
  • 49. minha. Impávido diante da paixão. Notava a jovem mãe calada em seus afaze-res pela casa. Mas o amor e a morte, meus caros, são irmãos. Minha fissuraamorosa a consumia diante meus olhos de abutre, imoral, insano, perpétuoe confuso. Tal doença furiosa infectou por completo toda a casa. Ela notoutudo e acalentou para si tal angústia. Com o tempo emudeceu de vez. Silênciode morte. Quando eu me aproximava ela tinha uma espécie de ataque. Talmoléstia crescia dia a dia, sua voz leve sumiu para sempre. Nutrido pela culpapassei a cuidar de tudo desmedidamente. João tomou aquilo como respostada nossa amizade e aceitou. Ultrapassei tudo, quebrei regras, me pus servil. De nada adiantou, omal nela evoluiu e nada do que fazíamos surtia efeito, e como todos sabema vida lhe fugiu, ela faleceu num dia cinzento de outono, trazendo a mim eao João um dor irremovível. Entendem agora como vocês nos irritam quandoolham, comentam e riem quando andamos os quatro de mãos dadas pelarua? Onde está o vinho, Senhores?! 56
  • 50. 2.º Lugar Categoria Regional Penápolis - SP A palavra muda Danieli Elias V antuiluriel. Nunca entendera porque sua mãe lhe dera esse nome tão incomum. Não, pensando melhor, esse era um nome bizar-ro. Por que não se chamava João, Carlos ou Ernesto como todos os outros aoinvés de Vantuiluriel? Sempre fora motivo de piadas por isso. Aliás, os óculosgrotescos que usava também não ajudavam muito. Com o passar dos anos acabou se entrincheirando dentro de si. Nãoqueria que rissem dele, por isso nunca falava ou olhava para os outros. An-dava cabisbaixo, sempre, como que procurando algo há muito perdido. Nãopronunciava palavra e ninguém conhecia o som da sua voz. A verdade é quea vida tornava-se menos encantadora a cada minuto e não importava o quãofeliz devesse estar, simplesmente não conseguia. Queria viver uma vida breve esem sofrimento, assim como as borboletas. Simplesmente ser! Vantuiluriel não tinha má aparência, mas seu semblante triste encobriasua beleza. Seus olhos negros, dotados de uma melancolia extrema, e seusombros encurvados pelo peso da amargura tiravam-lhe o encanto juvenil. No começo todos se sentiam desafiados por aquele simples garoto. Porque tanta infelicidade? E com o decorrer do tempo, quando Vantuiluriel passa-va, as pessoas sentiam apenas um leve sopro de ar. Já não o notavam. Morrera,enfim. Mas se deu que um dia Vantuiluriel teve uma visão divina. Algo que ofez esquecer seus problemas e desejar viver séculos. 57
  • 51. Sofia. Seus pés foram a única coisa capaz de fazer aqueles melancólicos olhosnegros erguerem-se pela primeira vez em doze anos. Aquela era a visão maisdoce que já tivera ou imaginara poder ter. Os olhos de Sofia faiscavam e a pazemanava de seu sorriso. Vantuiluriel foi tomado por um sentimento novo, oqual não podia explicar e que nunca havia sentido. Amor! Passou anos a observá-la, notando cada mínimo detalhe: o modo comoela enrolava uma mecha de cabelo quando estava distraída, sua preferênciapor sorvete de morango com chantilly, seu olhar absorto quando lia. Foramanos alimentando-se daquela visão, sonhando... Seu peito sufocava e por maisque quisesse se prevenir não pôde evitar o único desfecho para aquela situa-ção. Seu coração clamava descompassadamente por revelação. Correria o ris-co e falaria a Sofia que a amava. Encontrou-a sozinha numa mesa da biblioteca. Sofia adorava livros.Fora lá que a vira pela primeira vez há cinco anos. Sentou-se frente a ela e afitou. Por segundos, Sofia correspondeu-lhe o olhar e depois o voltou para olivro que lia. Romeu e Julieta. Vantuiluriel diria as palavras que o atormentavam. Para os outros sem-pre falta uma palavra, mas para ele não faltaria nenhuma. Sempre fora dife-rente. Sentiu as letras juntarem-se em sua cabeça, passarem por seu coraçãoe se dirigirem para a garganta. Era agora, iria dizê-las. De repente ele engasgou-se. Sofia e os outros aoredor se assustaram. Correria. Vantuiluriel ficou roxo e o ar extinguiu-se em seus pulmões. O coração,que antes batia por Sofia, parou. Morreu. E sem dizer palavra. Se para todosfalta uma palavra para ele não foi diferente. “Ah, Sofia! Como eu...” Foi a pri-meira vez em seus vinte e dois anos de existência que se sentiu igual aos outrose uma felicidade incomum preencheu o seu ser. Finalmente era igual, mesmose chamando Vantuiluriel e não Carlos, João, Ernesto, César... 58
  • 52. 3.º Lugar Categoria Regional Araçatuba - SP A Travessia Mário Bueno A inda era escuro quando ele acordou com o barulho do des- pertador. Apesar do sono, estava ansioso com a chegada desse dia e assim tratou logo de sair da cama. Esfregou osolhos, espreguiçou-se e caminhou rumo ao chuveiro para o costumeiro banhomatinal. Há anos sonhava com essa aventura, mas somente agora é que final-mente conseguiria realizar tão esperado sonho. Em silêncio, para não acordar a mulher, foi até a cozinha e preparouum reforçado café da manhã. O dia seria longo e cansativo, portanto precisariaestar bem alimentado. Caminhou até a sala de jantar e por um momento contemplou orgu-lhoso toda a parafernália espalhada pela mesa e chão. Aos poucos conferiu alista para certificar-se de que não se esquecera de nada e que tudo estava emordem: barraca, saco de dormir, colchonete, rede de descanso e mapas. Nosalforges roupas, calçados, produtos de higiene pessoal, ferramentas, peças so-bressalentes, primeiros socorros, fogareiro, panelas, alimentos e tantas outrascoisas necessárias para a viagem. Tinha aproximadamente uma centena de itens, organizados e separa-dos em sacolas diferentes para facilitar a localização e o acesso de qualquercoisa a qualquer momento. Ele nunca havia feito nada parecido antes, entretanto toda informaçãoque amealhara durante meses de pesquisa seria mais do que suficiente para 59
  • 53. completar a empreitada com alguma tranquilidade. Enquanto carregava as coisas para fora de casa, a família pouco a poucofoi acordando. A mulher, os filhos, o pai, a mãe. Ainda sonolentos observavam com um misto de resignação e compla-cência o pedalante ajeitar os últimos detalhes em sua bicicleta completamentecarregada. Seu objetivo era atingir o pico do Porta do Céu, o monte mais alto dopaís, a cerca de cinco mil quilômetros distantes de casa. Faria isso pedalandopor essas estradas do mundão de seu Deus, ao longo de três ou quatro mesesde viagem, com a intenção de chegar por lá no inverno, quando poderia des-frutar de um dos céus noturnos mais belos do planeta. Tudo pronto para a partida, iniciou-se outra rodada de despedidas. Ha-via um clima de tristeza no ar. Os filhos, ainda pequenos, brincavam ao redorda bicicleta, sem entender direito o que se passava. Silenciosamente abraçouseus familiares como se fosse a última vez; todos com lágrimas nos olhoscomo que pedindo para ele ficar. Olhou para as crianças de modo tão direto e profundo, que as palavrasse tornaram desnecessárias, pois as mesmas já haviam sido ditas e reditascomo um mantra, várias e várias vezes durante o período de incubação dajornada. Finalmente montou em sua bicicleta e, reticente, partiu sem olhar paratrás. Eram seis da manhã. Assim que dobrou a esquina, a mulher, já com amão no rosto, correu em prantos para dentro de casa chorando compulsiva-mente. Para o pedalante, entretanto, todo o cenário parecia novo por mais queainda estivesse a poucos metros de casa. Os velhos e conhecidos caminhos dobairro adquiriam um aspecto totalmente diferente, como se fosse a primeiravez que estivesse passando por ali. Sua própria existência ganhava novos con-tornos. Enquanto pedalava lentamente em direção à saída da cidade, repassavaem pensamento todo o longo trajeto que percorreria nos próximos meses. 60
  • 54. Partindo do litoral onde morava, subiria em direção ao norte, margeando opaís pela praia por centenas de quilômetros. Duas semanas de viagem, talvez.Depois, rumo ao oeste, atravessaria várias cidades, estados, culturas e costu-mes diferentes, percorrendo intrincados caminhos em zigue-zague, subidas edescidas por morros e montes, até finalmente chegar na Porta do Céu, o pontomais alto do país. Bastaram poucas pedaladas para que o asfalto ficasse para trás. Entroupor uma estreita trilha de terra, bem arborizada, fresca, e após alguns quilô-metros teve acesso à praia onde foi saudado com deslumbrante nascer do sol,de alaranjado incandescente. Agora, sim, a viagem começa de verdade, pensou. Com tudo que preci-sava a bordo, e casa nas costas, o pedalante estava por conta própria. A areia da praia, úmida e compactada, era terreno perfeito para pedalarde maneira bem cadenciada, permitindo que a bicicleta atingisse boas veloci-dades. Dessa forma era possível percorrer dezenas de quilômetros em poucashoras, fazendo rápidas paradas apenas para beber água, descansar e recuperaras energias. Ao entardecer encontrou um pequeno gramado sob algumas árvores,ligeiramente recuado da praia e bem protegido da brisa marítima. Ali montouseu acampamento e rapidamente preparou o jantar, pois a fome e o cansaçose manifestavam com intensidade. Sentado à porta da barraca, enquanto comia, admirava a noite quecalmamente se anunciava. O céu com lua cheia prometia um espetáculo àparte. Sacou um pequeno livro do bolso, cujo autor era um renomado nave-gante, e pela milésima vez leu – desta vez em voz alta – o trecho que poderiaresumir toda a sua existência: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, nãopor meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seusolhos e pés, para entender o que é seu”. E ele estava ali para isso. Seriam meses que valeriam por toda sua vida. Meses nos quais eleaprenderia muito sobre o desapego e a simplicidade; a descobrir como é bom 61
  • 55. viver e ser feliz com pouco. Já deitado em seu saco de dormir, adormeceu profundamente enquan-to ainda pensava nas palavras do livro. Despertou com as primeiras luzes do sol e logo percebeu que o relógiojá não seria mais necessário. O sol, a lua, a fome e a sede seriam a partir deagora seus guias. Saiu da barraca e caminhou para o mar. Mergulhou naquelas águas límpidas, levemente esverdeadas. A areiaquase branca. O lugar era paradisíaco, e por ser de difícil acesso ainda manti-nha suas características originais. Ao sair da água sentiu forte tontura. Com a respiração ofegante, sentou-se para não cair e assim ficou por alguns minutos até que a cabeça voltasseao normal. Logo que a tontura passou, levantou-se, caminhou até o acampamen-to, tomou um rápido café da manhã e desmontou toda a tralha para seguirviagem. Por volta do oitavo dia deparou-se com um imprevisto. Um rio cortavaseu caminho. Não era exatamente largo, mas em compensação não era raso osuficiente para atravessar pedalando. Contorná-lo seria impossível. Sem pestanejar arrancou a camisa, os calçados, e entrou na água paraverificar a profundidade. Vendo que era possível fazer a travessia, tirou os alfor-ges, bolsas e sacolas da bicicleta e um a um foi transportando sobre a cabeçapara que não molhassem, até chegar do outro lado do rio. Por último ficou abicicleta, que também foi transportada acima da linha d´água. No décimo quarto dia encerrou o trecho do litoral e partiu para oeste,em direção ao interior do país. Quilômetro após quilômetro as semanas foram se passando. A cadadois ou três dias parava em alguma cidade, ou vilarejo, para repor os supri-mentos ou fazer pequenos reparos, sempre que chegava com a bicicleta carre-gada, atraía a atenção para si. Os locais perguntavam de onde ele vinha, paraonde estava indo e queriam saber da sua história, dessa aparente loucura que 62
  • 56. era viajar de bicicleta pelo país afora. Identificando-se com suas aventuras, não raro os moradores lhe ofere-ciam pouso, comida e banho. Faziam questão de tê-lo em casa como convida-do, com uma generosidade que há muito tempo ele não via. E sentavam-se àsua volta para ouvi-lo falar e contar suas experiências. Quando andamos de bicicleta – dizia – vamos numa velocidade dife-rente e podemos observar as coisas, sejam as pessoas, os animais e até mesmoa natureza, de uma forma que nunca poderíamos ver, caso estivéssemos numoutro meio de transporte. Uma das histórias que ele mais gostava de contar era como aprendeusobre o desapego. Quando começou a viagem levava uma carga de quarentaquilos, além do peso da bicicleta. Com o passar dos dias foi eliminando quasevinte quilos de coisas pelo caminho. Viajar de bicicleta o obrigava a parar frequentemente, fosse para pedirum copo-d’água ou apenas alguma informação, e conversando com as pes-soas ele aprendia muito sobre a cultura, os costumes locais e o próprio serhumano. O pedalante teve também a oportunidade de fazer amizades extraor-dinárias, como o seu José e a dona Maria, um humilde casal que, mesmosem saber quem ele era, o acolheu por uma semana quando outra crise detonturas e vômitos o abateu. Teve também o seu João, da bicicletaria, que ofereceu seus préstimospara realizar um reparo na bicicleta quando esta quebrou bem no meio donada. E não quis cobrar por isso. Foi um prazer, disse-lhe. E assim, de pedalada em pedalada, quilômetro em quilômetro, expe-riência em experiência, o pedalante chegou ao sopé da Porta do Céu. A partirdali seria uma subida extremamente árdua, mesmo com vinte quilos a menosna bagagem. Levaria aproximadamente sete dias para atingir o cume, e já fazia mui-to frio. Com a desculpa de se preparar melhor, preferiu adiar o início da subida 63
  • 57. por dois dias, como se pudesse evitar o inevitável. Passados os dois dias deu início à subida, e ao fim de uma semana,resignado, chegou ao pico. O local era de beleza arrebatadora. Ali se formava uma paisagem sur-realista, composta de cores que saltavam aos olhos. Tudo era diferente. Haviaflores que pareciam ter sido propositalmente arranjadas para uma festa queestaria por acontecer. Já cansado pelos quase quatro meses de viagem, o pedalante, pela úl-tima vez, montou seu acampamento. Com o pensamento em sua família, asaudade sufocante, preparou seu último jantar. A noite chegou trazendo com ela o céu estrelado mais magnífico queele já vira, o céu pelo qual ele atravessara mais de cinco mil quilômetros. A viagem até ali tinha valido a pena. Ocorrera uma mudança tão grandeem sua vida que seria necessária outra vida inteira para vivenciar tudo o queele havia passado. Enquanto contemplava extasiado aquele cenário deslumbrante, sentiuuma dor pontiaguda no cérebro e, desfalecido, foi arremessado ao chão. Nesse instante uma forte voz, como de trovão, ecoou do céu: – Estás pronto? Ao que respondeu: – Sim, estou! Despediu-se em pensamento daqueles a quem tanto amava e, de mãosdadas com dois resplandecentes anjos, levitou em direção às estrelas. Sua vida acabava ali. A travessia, quem sabe? 64
  • 58. Menção Honrosa Categoria Regional Araçatuba - SP A magia do circo Regina Ruth Rincón N aquela manhã de terça-feira, a carteira estava desconfor- tável. A professora falava sem parar e, com o burburinho da classe, sua voz alterada soava estridente, quase que in-suportável. Não pensei duas vezes... Apoiei os cotovelos sobre a carteira, comas mãos espalmadas cobri os ouvidos e, lá de trás, fiquei olhando a lousa. Osolhos estavam fixos na pedra negra, ou verde-escuro, mas nem enxergava.Pensava no circo... No circo que deveria chegar à vila naquela manhã. Eu que-ria tanto estar na rua, vendo os carros, os caminhões trazendo os mastros, astábuas das arquibancadas, as lonas, os trailers!... E estava ali, naquela carteira dura, entre quatro paredes e tendo queouvir aquela voz estridente, ininterrupta. Se pelo menos ela não precisassefalar tanto!... Ficava até engraçado! Eu, com os ouvidos tapados, os olhos presos noquadro-negro, e a figura da professora aparecendo intermitentemente en-quanto explicava pela quinta vez o mesmo problema, caminhando de um ladopro outro. Era curioso vê-la mexer os lábios sem parar! Que será que falava na-quele momento? Seria fácil saber, bastaria baixar as mãos!... Mas não queria...Queria pensar no circo... Quando soasse o sino avisando o final da aula, ia sair voando pelo por-tão da escola. Será que a duração do período havia mudado? Por que custavatanto tocar o sino? Será que o servente havia cochilado? Se demorasse mais 65
  • 59. um pouco, ficaria de pé. Não aguentava mais aquela carteira! Bléim! Bléim! Bléim! Hora santa! Bendito seja esse servente! Não su-portaria mais um minuto! A distância da escola até em casa nem vi, nem senti. E foi só o tempode jogar a bolsa, tirar o uniforme, pegar um pedaço de pão e... pé no mundo...A rua principal da vila me aguardava! Era um trote só. Meus pés nem sentiamos degraus, as guias de sarjeta, os pedregulhos..., era como se o chão fossetodinho plano. De repente. Que decepção! A rua estava quase deserta, parada demais. Apenas umou outro andante, sem pressa. O que será que havia acontecido?! Atravessei a rua num salto e olhei pro terreno vazio, ao lado da igreja.Nada de caminhões, nada de circo... A venda do Seu Chico! Era lá que tinhaque perguntar... – Seu Chico, cadê os caminhões do circo? – Que nada, Crovito! Chegou nada não! Caramba! Seu Chico não aprenderia nunca a falar meu nome. Já nãoera dos mais bonitos e, ainda por cima, falado errado! Ajeitei-me na beira da calçada e, só depois de alguns minutos, dei contado pão amassado entre os dedos. Com os dentes ia rasgando os nacos e masti-gando... O sol estava de rachar! Será que o dono do circo havia mudado de ideia e resolvido ficar navila vizinha onde o dinheiro corria mais solto?! Por que demorava tanto?! Seráque traria bichos? E o palhaço seria bom de serviço? Ah! Claro! Eles sempresão bons! E o trapézio?! Melhor que não tivesse trapézio... Era um momentode sofrimento no circo. Não gostava da aflição que eu sentia no peito enquan-to aqueles doidos faziam estripulias nas alturas. Mesmo sabendo que haviaa rede de proteção, ficava agoniado, com as mãos suadas, o corpo retesado,e o pescoço doendo sem parar... Definitivamente, trapézio era aflição, e nãodistração. Com os olhos semicerrados, ofuscados pela luminosidade excessivado sol, fitava sem parar o começo da rua, lá na baixada perto da caixa d’água,na entrada da cidade. 66
  • 60. Minha expectativa se aguçava com qualquer ruído de carro vindo da-quele lado. Chegava mesmo a me levantar! E ficava desapontado quando per-cebia ser apenas um caminhão de bois, ou um ônibus. Uma poeira infernal,sem falar do calor! Lá pelas quatro da tarde, depois de haver saturado a paciência do seuChico para saber as horas, minha alegria ganhou alento. Num barulho avassalador, alto-falante a toda prova, buzinas e gritarias,a frota do circo despontou na entrada da vila. Num salto, coloquei-me de pée saí numa desabalada carreira. Queria ver cada movimento, dissecar com osolhos cada caminhão. Que alegria! Quando me vi diante dos carros, fiquei estarrecido. O motorista dafrente buzinava sem parar e fazia sinais pra que eu saísse da rua. Só então medei conta de que estava atrapalhando a passagem do caminhão e pulei pro ladorente à calçada. E corri como nunca, acompanhando a caravana! Eu pulava,gritava, assobiava... Santa Maria! Que alegria eu sentia!... Quando cheguei na praça, estava ofegante. Sentei-me no banco e fiqueiobservando os forasteiros. Parece que a vila inteira se juntara ali. Brotavam pes-soas em todas as esquinas, e iam se aglomerando, batendo palmas, acenandoos braços, erguendo os chapéus. Cada um extravasava sua emoção como que-ria. Era tão espontâneo que, quando olhei pro seu João da Farmácia, ele comos braços erguidos, sapateando como se dançasse catira, ficou meio sem jeito,fitou-me de relance e ajeitou os óculos sobre o nariz. Era tudo tão fantástico! Ocirco era, sem dúvida nenhuma, a alegria daquela vila quase sertão. Grudei os olhos nos badulaques dos caminhões. Os artistas todos emroupas coloridas, vivas, ciganas. As mulheres traziam várias voltas de colarese pulseiras, e na cabeça, cachos e cachos de flores. Tudo transpirava ilusão...Os ciganos alegres, trazendo nos sorrisos a ilusão do ganho pra subsistência,e nós, mostrando no delírio da receptividade, a avidez de ilusão pra preenchernossa vivência... Não perdia o menor detalhe! Era um circo pobre, visível na decrepitudeda frota. Mas, não importava... O que valia mesmo era a euforia da chegada e 67
  • 61. a certeza de que o circo ficaria por ali uma, duas, três semanas... O tempo depermanência era determinado pela bilheteria. Tomara que todos fossem aoespetáculo... e todos os dias! A caravana contornou a praça e instalou-se no terreno ao lado. Era umrebuliço só! A multidão curiosa se aglomerava ao redor dos carros atrapalhan-do até mesmo o desembarque das pessoas. Os artistas sorriam, acenavam,jogavam beijos, mas dava para se perceber que queriam ficar um pouco àvontade, pelo menos o tempo necessário para montarem o acampamento. Pouco a pouco os curiosos foram se afastando. Seu João voltou pra far-mácia, seu Chico foi rapidinho pra venda... Todos se foram, menos eu. Gostavade ver o trabalho, a organização dos ciganos quando chegavam. O esforço eratão dividido e tão sincronizado que em pouco tempo o acampamento esta-va montado. As barracas, num passe de mágica, iam pipocando na volta doterreno. Havia apenas dois trailers. Um era do dono do circo, e o outro erapara guardar as roupas e apetrechos dos artistas. Não havia bichos, apenas trêscachorros que serviam de guarda. Enormes e mal-encarados, com grandesbochechas caídas, e babões... Ainda bem que ficavam amarrados! Os ciganos falavam pouco. De vez em quando se ouvia a voz do chefedando uma ou outra ordem. Era tudo muito bem repartido. Cada membro dacaravana já sabia da tarefa que lhe cabia e a executava num piscar de olhos.Não descarregaram as tralhas da armação do circo. Isso ficaria para o dia se-guinte. Seriam contratados trabalhadores avulsos, gente da vila, mesmo, queajudaria no serviço braçal. Pena estar escurecendo! Não demoraria muito eteria que voltar pra casa. Pensando bem, até que seria providencial! Estavaapertado, precisando de um banheiro, e meu estômago reclamava sem cessar!Percebi que as ciganas começavam a luta com as panelas, duas crianças comuns trocados nas mãos correram pra venda do seu Chico. Foram em busca delinguiça e manjuba. Meti as mãos nos bolsos, suspirei fundo e virei pra casa. Ia assobiando.Ora trotava, ora caminhava. Pensava sem parar na vida dos ciganos. Vida estra-nha! Povo sem casa, povo sem pátria... E unidos, extremamente unidos!... 68
  • 62. Na vila corria um boato de que eram ladrões. Quando estavam por ali,ninguém ousava deixar nada pra fora, à noite. Minha mãe recolhia até os tra-pos do varal! Sabia lá até onde aquilo era verdade!... E quando partiam, o povoficava preocupado, com medo que a caravana levasse alguma criança da vila. Averdade verdadeira eu não sabia, mas percebia um certo temor na carinha dasoutras crianças quando se aproximavam dos ciganos. Eu não! Medo eu nãotinha, mas um pouco de cisma, não podia negar! Talvez todas aquelas históriastenham sido inventadas, levando-se em conta a vida diferente dos ciganos. Eraum povo sem raízes, sem parada, descompromissado, alegre demais dianteda crueza da vida. Nem suas crianças conseguiam estudar direito! Era um“levanta-acampamento” sem fim! Em casa, depois de uma bronca daquelas, uma comidinha gostosa praforrar o estômago tão castigado com as aventuras do dia. O tempo gasto foi só aquele: o do banho e o da janta, e de novo na rua.A noite caiu pra valer! Escuro feito breu! Metido em roupas limpas, peguei ocaminho da praça. Não via a hora de chegar no acampamento. Que beleza!...As tendas com os panos erguidos, lampiões espalhados por todos os lados. Ain-da não tinham puxado a energia do poste da esquina. Uma grande fogueira nomeio do terreno e as pessoas todas em volta. O barulho da música era estimu-lante. Tocavam guarânias e cantavam. Quando a música era mais fogosa, asmulheres punham-se de pé, puxavam seus parceiros e dançavam sem parar,rodopiando soltas, as saias vastas e coloridas abrindo-se em toda dimensão. Ecomo eram bonitas as ciganas! Que povo alegre! Fiquei tempo acocorado num canto, observando tudo. Não perdia nada!Nem queria... De repente, dois pivetes vieram ao meu encontro. Os mesmosque foram à venda do Seu Chico. Eram mais ou menos do meu tamanho.Foram se chegando, e puxaram prosa. Perguntaram meu nome, se estudava,e queriam saber onde eu morava. Não respondi de jeito nenhum! Não podiafazer amizade, minha mãe me mataria se eu aparecesse em casa com doisciganinhos!... Sentaram-se no chão e ficaram remexendo, com os dedos, a terra solta 69
  • 63. do chão. Você quer brincar com a gente? Não! Quero dizer... amanhã, quem sabe?! Não precisa ficar com medo! Só queremos brincar, nada mais... – E quem foi que disse que estou com medo? É que agora não posso,tenho que voltar pra casa... Fui me levantando, fiz um aceno pouco convincente de que estava se-guro, e rumei pra casa. Não havia sentido medo, apenas achava que tinha queficar mais chegado antes de brincar. Pra falar a verdade, nem sabia que ciganobrincava! Talvez eles nem conhecessem minhas brincadeiras!... Ia andando e pensando, e cheguei a me irritar de imaginar que elespudessem supor que eu era um medroso, um maricas. No dia seguinte eupoderia falar novamente com eles, e se a impressão tivesse ficado, poderiamperceber que não era nada daquilo! Deitado de costas, olhava o teto e pensava longe. Fiquei matutandocomo que os ciganos dormiam. Não vi camas no acampamento! Será quedormiam no chão?! Pensando, revivendo cada minuto do dia, revendo o rosto dos dois ci-ganinhos, seus sotaques, a maneira cantada de falar... Em meio a tudo isso,dormi profundamente... Caramba! De novo naquela classe, naquela carteira dura, com aqueleburburinho de moleques, a voz estridente da professora, e eu de novo com osouvidos tapados. Que martírio! À tarde, quando cheguei ao acampamento, a estrutura do circo estavaquase toda montada. Uns trabalhavam nas estacas de sustentação, outros namontagem das arquibancadas, e os mais atirados se punham lá em cima, nacolocação da lona. O martelo comia solto. Tudo tinha que ser executado comsegurança, nada podia ser negligenciado. Fiquei ligado na montagem do palco. Ali se desenrolariam os dramas,histórias costumeiramente repetidas, mas sempre cheias de encanto. Gostavade ver “O Ébrio”, e chorava todas as vezes que assistia! Sabia de cor e salteado 70
  • 64. tudo o que aconteceria, mas era sempre um toque fundo na minha emoção. Echorava... Como chorava! Minha mãe também! A estréia estava programada para a noite de sexta-feira. A dupla serta-neja que se apresentaria na grande noite seria “Tonico e Tinoco”. Na vila nãose falava em outra coisa! No sábado, a atração principal seria o “Lambari”,um artista-palhaço muito querido por aquelas bandas. Eu não perderia umespetáculo. Nem que fosse pra vender pirulitos pra cigana! Falando em pirulitos, gostava de ver a cozinha dos ciganos em dia deespetáculo. Era um corre-corre danado! Amendoim, pipoca, quebra-queixo,pirulitos de açúcar queimado e Q-Suco de cereja, se bem que o que eu viamesmo era licor de groselha sendo misturado! Eles usavam garrafinhas vaziasde guaraná, e nelas colocavam o suco. Conforme iam esvaziando, as mulheresenchiam novamente, e o menino-vendedor voltava ao circo com novo estoque.Pra dizer bem a verdade, nem lavavam os vasilhames entre uma enchida eoutra. No final do espetáculo, os últimos a tomarem suco, ficavam enfastiadossó de perceber o melado, o grude que cobria as garrafas. Higiene passava lon-ge!... Mas, tudo era festa. O suco ali no circo era melhor que qualquer guaranáservido nas mesas do almoço de domingo. Gostoso era o momento! Gostosoera o encanto, a magia do circo! O que mais me impressionava era a preocupação das mães das moçoi-las da vila, quando chegava um circo. As moças, de miolos moles e de coraçõesfeito gelatina, se empolgavam com os artistas e, deslumbradas, eram vítimasde promessas vãs feitas em noites de luar. Minha prima mesmo, deu a maiorbandeira quando o circo anterior foi embora. Minha tia, já experiente, perce-beu alguma coisa no ar, e ficou de olho. Qual não foi a surpresa quando, den-tro do malão no quarto, viu a trouxa de roupa feitinha, estava tudo arranjadopra fugir na madrugada seguinte com a caravana. Foi um tendepá, o tempo fechou, o circo partiu e minha prima ficoudebulhada em lágrimas. Se ficasse sozinha, chorava, se alguém lhe falasse,chorava. O negócio dela era chorar! Chorou durante uma semana, depois...passou. Àquela altura, com novo circo na vila, sua cabecinha já deveria estar a 71
  • 65. mil, pensando nos novos artistas. Planos maquiavélicos estariam lhe dando nónos pensamentos, com certeza! Engraçado como tudo se repetia. Uma, duas, três... Inúmeras vezes enão perdia o encanto! A cada chegada de circo era uma festa tão esperada, tãocurtida que parecia ser a primeira. E eu amava aqueles momentos! Tudo estava uma beleza! A lona, no chão, apresentava rasgos enormes,buracos por onde passariam chuva e sol suficientes pra amolar várias pessoas.Mas, lá no alto, esticada, aberta sobre as estacas, aqueles furos pareciam in-significantes, quase que imperceptíveis. Chegava mesmo a ficar bonita! Impo-nente! Era listrada de vermelho e amarelo. Alegre, alegre como aquela gente.Alegre como a vila estava. Ou era eu?! O tablado de madeira, bem alto do chão, era grande. Seria o palco dasgrandes emoções. Ficava sempre imaginando o vexame que seria, se no meiodo ato em noite de espetáculo, fossem acesas as luzes do picadeiro! Em meioao drama que se desenrolava lá em cima, na platéia era um choro só, se bemque disfarçado, é claro! Às vezes, uma ou outra dama mais descuidada, oumais incontida, deixava escapar um soluço, ou mesmo uma fungada, daque-las que saem da garganta quando tentamos engolir o choro. Aí era um descon-forto... O marido lhe chamava à atenção, os filhos a recriminavam, e os maisindiscretos ou insensíveis soltavam gargalhadas. Meu Deus! Como a mulherada chorava!... Não era só a mulherada,eu também chorava. Por isso ficava sempre perto da minha mãe. Ela não seimportava com o meu choro. Também, se olhasse pra ela sabia com certeza oque iria ver. A cara vermelha, a mão cobrindo a boca como que para sufocar osoluço, e os olhos encharcados. Eu era discreto. Nem olhava... Meu pai cruzavae descruzava as pernas. Balançava a cabeça de um lado pro outro como seachasse a situação patética. E repetia mil vezes: – Não sei pra que chorar? É tudo de mentira!... Insensível! Não importava que fosse de mentira. O que importava é queretratava o verdadeiro, o real. Ele nunca entenderia! Ou entenderia?! Se eu fosse adulto estaria trabalhando ali, na armação do circo. Mas, 72
  • 66. moleque ainda, sobrava-me olhar e fazer de tudo para evitar ser escorraçadodali. Prestava uma atenção danada no movimento dos homens que estavampor perto. Sabia que se os atrapalhasse seria convidado a me retirar. Nem pen-sar! Arrumava sempre um canto pra ficar onde não incomodasse ninguém. Sóqueria ver, e bem de pertinho!... À noite, tudo se repetia. A fogueira acesa num canto, a festa, a dança,e os ciganinhos puxando prosa. Eram inofensivos. Não passavam de criançascomo tantas outras. Crianças com os mesmos instintos, com as mesmas brin-cadeiras, com as mesmas vontades. A única diferença ficava por conta da vidasem parada, sem raízes, da vida sem história, ou com muitas histórias, nãosabia!... Nem amigos fixos conseguiam ter! As amizades eram sempre super-ficiais, efêmeras, não havia tempo para que amadurecessem, para que fossecriada a cumplicidade de espírito, de pensamento, de experiências. Noite de sexta-feira. O adro da igreja estava apinhado. Gente saindo peloladrão! As moçoilas, alvoroçadas, corriam de um lado pro outro, olhando aquie ali, procurando os olhos verdes, os olhos castanhos, o príncipe encantado.Parecia até que o povo todo do campo, em redor da vila, estava ali. O circo jáhavia programado duas sessões. A primeira certamente lotaria com o povoda roça! Nada mais justo! Afinal, teriam que voltar pra casa e não ficava nadaperto! Eu estava tão afoito, tão contagiado com todo aquele burburinho quesentia até formigamento no corpo. Parecia até que meu sangue voava nas veias!Meu ingresso estava no bolso, e não precisava me preocupar em entrar logo. Acadeira guardada ficava por conta da minha mãe. Ela sabia que eu tinha queficar num lugar privilegiado, e também sabia que eu seria o último a entrar... Precisava viver cada momento, cada minuto daquele vaivém da praça.E eram tantas cenas engraçadas! As discussões na fila da bilheteria quandoalgum intruso, se julgando muito esperto, tentava furá-la, os palavrões cheiosde insultos daqueles que tinham os pés pisados por outros mais descuidados,a mãe gritando alucinadamente com alguma criança que, distraidamente, sedispersava na multidão. Era um desassossego de pernas, de braços, de bocas. 73
  • 67. Era como se todos tivessem combinado de falar ao mesmo tempo. E como eucurtia tudo aquilo! Antes do início do espetáculo, eles soavam uma sirene por três vezes,com intervalos de dez minutos. Acabava de soar o segundo aviso e eu achei quedeveria me encaminhar para a entrada... Poderia ter fila! Não queria perder nem a apresentação dos artistas, aquela apresenta-ção que era feita no começo e no final do espetáculo. Era tudo tão colorido, tãobrilhante, e a música que a banda entoava era eletrizante! Corri pra fila. Ainda bem que não estava extensa... Não demorou nada eeu já estava sob a lona, afundando os sapatos na camada de pó-de-serra espa-lhada pelo chão, e sentindo a claridade ofuscante dos holofotes do picadeiro.Que lotação! Que burburinho! Era um empurra-empurra, um esfrega-esfrega,um tal de desculpa pra lá, desculpa pra cá, tantas as vezes que os cotovelosresvalavam ora na cabeça de um, ora nas costas de outro... Passei os olhos na fileira da frente, a primeira, diante do picadeiro. Emsegundos descobri minha mãe que sinalizava indiscretamente com os braços,feito torre de comando. Difícil foi chegar até ela! Era um deus-nos-acuda pas-sar por entre as cadeiras lotadas. Insultos não faltavam! Acomodado, os olhos faiscavam olhando as cortinas por onde sairiamos artistas. A banda, já em forma, aguardava o terceiro sinal pra puxar a músi-ca. E meu coração, aos solavancos, contava os minutos que antecediam aquelemomento. Foi num zás-trás! A sirene soou, comprida, chamativa. A bandadetonou em seguida. A marcha alegre contagiava as pessoas, e por incrívelque podia parecer, acalmava as crianças. Elas se acomodavam, procuravamseus lugares, os pequeninos corriam pro colo da mãe, ou do pai, e ficavam emclima de expectativa. Os olhos brilhavam contentes, ansiosos. Entrou o apresentador, dono do circo. Em traje de gala, brilho pra todolado, vinha com passos decididos, sorridente, satisfeito com a imensa platéia.Tentava passar uma boa imagem do seu espetáculo. Agradecia, com seu sota-que pitoresco o comparecimento de todos, elogiava o povo da vila e apresen-tava seu elenco. Os artistas iam entrando na sequência anunciada, ao som da 74
  • 68. marchinha alegre, as roupas brilhando feito jóias e enchendo nossos olhos deencantamento. Sorridentes, extremamente sorridentes! Ah! Os palhaços... Quantos palhaços! Graciosos, engraçados, faceiros.Os dois palhaços-anõezinhos eram lindos! Peraltas até onde mais não po-diam! E tudo foi um sonho... As brincadeiras, as palhaçadas, as mágicas, omalabarismo, e a dupla caipira, esta sim encantou o meu pai. Ele ficou mara-vilhado, não conseguia fechar a boca diante de tanto fascínio! Foram cantadasaquelas mesmas músicas que ouvíamos no rádio, quase que diariamente. Dotrapézio eu não poderia falar, porque a bem da verdade, nem olhei. Sofrer praquê? Aproveitei o tempo e fiquei observando as pessoas. Sinceramente, estavaaté patético! Todos com os pescoços estirados, queixos pra cima, corpos rete-sados, e o silêncio apenas era cortado pelo rufar dos tambores e pelo suspirocoletivo da platéia. Era um “uuuuuiiiiiii” fundo, comprido. Pelos semblantesapavorados podia imaginar as estripulias que aqueles malucos faziam lá emcima. Ainda bem que foi rápido! Trapézio era de lascar! Para fechar a noite, a peça de teatro. Linda, e como sempre, extrema-mente triste. A cena se repetia. Luzes apagadas na platéia, o choro disfarçado,o assoar de nariz, a tosse dissimuladora... E a sessão terminava... As luzes acesas, as palmas, os artistas voltandoao picadeiro, o aceno de despedida, a voz do apresentador agradecendo a pre-sença de todos e propagando o espetáculo do dia seguinte, a banda dando osúltimos acordes. Que pena! Ficaria a noite toda ali, se preciso fosse! Na saída, os pequeninos já não caminhavam. Dormiam frouxos nosombros dos pais amarrotados, das mães de olhos inchados. O comentáriofavorável era geral. Todos haviam gostado dos que viram, elogios pipocavamem todas as conversas. O povo estava satisfeito! Nossa Senhora! Como estava a cara da Dona Isidora de tanto chorar!Parecia que tinha lutado boxe! Coitado do marido, estava até constrangido!... Em casa, nem conseguia dormir, tamanha a excitação vivida naqueledia. Diante dos meus olhos as cenas se refaziam... Os palhaços... Ah! Os pa- 75
  • 69. lhaços... Os dias voaram, os espetáculos voaram, uma, duas, três semanas... Atéque chegou o triste dia. A partida da caravana... No mesmo acelerado da mon-tagem aconteceu o desmanche do circo. Em horas de trabalho, tudo estava nochão, ou melhor, nos caminhões. E a caravana partiu. Silenciosa, sem banda, sem buzinas, sem acenos,sem alvoroço. Os únicos que me saudaram na partida foram os ciganinhos.Pareciam tristes! Minha cabeça era tão dura que só me lembrava do nome deum deles: Pablo. Também, o outro tinha um nome tão esquisito, tão com-plicado! Tão complicado como estava meu ânimo naquele momento. Vendoa caravana se perder em meio ao pó da estrada, sentia o peito apertado, umdesânimo, uma desilusão... Olhei o terreno vazio, havia muito lixo espalhado... Quanta diferençahavia entre aquele silêncio e o vozerio dos dias passados! Só me restava pegaro rumo de casa... Sem pressa, mãos metidas nos bolsos, chutando um pedre-gulho aqui outro ali, cabisbaixo, descorçoado, num desalento só... Não demorou muito e a notícia se espalhou. O rebuliço explodiu navila, era um fala-fala danado! Eu havia percebido silêncio demais na partida.Foi muito às pressas, como se alguma coisa impelisse a caravana a deixarrapidamente a vila... Minha mãe, percebendo o alvoroço das vizinhas, as vozes alteradas,correu até a porta, espantada. Para acalmá-la, fui ao seu encontro e, perceben-do seus olhos aflitos e inquisitivos, falei calmamente: – Não foi nada, mãe... A filha da Dona Idalva partiu com a caravana...Foi só isso... 76
  • 70. Menção Honrosa Categoria Regional Penápolis - SP A morte não manda recado Odair Maurício de Albuquerque Q uando o avô morreu, Nadico tinha apenas dez anos e viu tudo, desde o começo. O velho Honório caminhava pelo quintal com um bastão na mão direita e um cigarro depalha na outra. As pernas, trêmulas, vacilavam sob o sol das dez da manhã.Andava, a pedido médico, para melhorar a circulação. Nadico brincava pertoe volta e meia olhava o avô em sua decrepitude. Às vezes, quando o velho oabraçava, comparava as rugas dele com sua pele macia e lisa. Pensava entãoque não seria bom ficar velho. Honório andava em círculos e cada vez que passava por Nadico suamão magra acariciava os cabelos do menino. Este olhava contrariado pro avôque não o deixava brincar sossegado. A cada volta, Nadico calculava a hora quesentiria a mão sobre sua cabeça. Contava até dez pausadamente e lá vinha asombra do avô a se aproximar. Começou a achar graça na brincadeira. Iniciavaa contagem e prestes a chegar ao número dez, sua respiração suspendia-se porsegundos, para voltar ao ritmo normal logo que o avô passava. Num dado mo-mento, contou dez, onze, doze até aos dezesseis e aí parou de contar. Virou-se.O avô, estacado a uns metros, tremia com as duas mãos apoiadas no bastão eo toco de cigarro a perder-se em sua boca descarnada. As pernas foram arque-ando, corpo em declive, e o ar fugindo daquele senhor de quase noventa anos.Ele, num todo, foi inclinando de lado, sempre com as mãos no bastão, comose fosse a tábua da salvação. Nadico seguiu cada momento que se desenhou à 77
  • 71. sua frente. Fim da cena, aproximou-se do corpo estendido no chão, e se nãofosse o lugar, a poeira levantada, o sol forte, diria que o avô dormia como mui-tas outras vezes já tinha visto. Saiu correndo procurando a mãe. – Mãe, mãe, o vovô caiu! A mãe correu, mas já era tarde. Ela chorou muito e depois que se acal-mou foi providenciar o enterro e pediu a Nadico que avisasse os parentes e avizinhança. Nadico voou de casa em casa e foi passando o recado: – Meu vovô morreu. E saía correndo pra outra casa não dando tempo para maiores deta-lhes. Foi chamar o pai, que por ser domingo estava no bar do Gaúcho beben-do com os colegas. – Pai, o vô morreu. – Morreu? Já tinha passado da hora. E virou seu copo de pinga num trago só. – Deixa eu ir que hoje vai ser um dia daqueles. E saiu meio que tropeçando nas pernas. Nadico olhava o pai sem en-tendê-lo. Às vezes falava bravo e dava risada e nada acontecia; em outras riae lhe dava uns tapas sem saber por quê; noutras ainda ria, falava bravo e lhebatia. Mas sempre que vinha do bar lembrava-se de lhe trazer um doce qual-quer. Gostava de uns de goiabada que vinham com uns brinquedos de plásticoe, como o pai ia todo dia ao bar, aos poucos foi formando sua coleção. Eramfeitos de plástico resistentes e não aqueles que ganhara do padrinho. Não du-raram um nadinha. Em casa pessoas entravam e saíam. Sua mãe, já mais calma, orientavao homem da funerária para a roupa que o falecido ia usar. Depois aplicouum severo sermão no marido no canto da cozinha (em meia-voz para que asdemais pessoas que estavam na casa não ouvissem), por cheirar a cachaçabem naquele dia. – Eu não poderia adivinhar que ele ia morrer logo hoje. Poderia terdeixado pra manhã. 78
  • 72. E a mãe levantou o braço como se fosse esbofeteá-lo. Mas saiu pra salaa chamado da irmã. Nadico permaneceu à porta do quarto do avô pra onde fora levado e ini-ciavam a troca de roupa. No rosto ainda permanecia a cor rosada, da pele clara,mas já dava sinais de desbotamento. “Que estranho”, pensava. “Agorinha esta-va andando, falando...” E ficava meditando na sua meninice coisas que tentavaentender, mas não conseguia. Da mesma forma que o pai era lhe estranho àsvezes, via na morte do avô um enigma ainda maior. “Que estranho...” O homem da funerária trocava o defunto sem pressa, mas com mãoshábeis, como se trocasse uma criança. Ao cabo de alguns instantes e o avôjá estava pronto... Pronto pra quê? Novamente Nadico ficava desconcertado.“Será que ele vai sentir a terra entrando em sua boca?” Nunca vira um enterro,mas o Paulinho, colega da escola, disse que já tinha visto o da tia. – Eles enchem a pessoa de algodão pra não entrar bicho. Nadico nunca acreditou muito na conversa de Paulinho que tinha famade mentiroso. Mas ficou curioso para ver o avô ser enterrado. Mas não pôde.A mãe não quis deixá-lo ir. Teve que ficar com uma vizinha. Antes que o corposaísse a mãe disse: – Despede do seu vô. Nadico chegou perto, olhou o rosto impassível e teve nojo de beijar. – Tchau, vovô! Foi o máximo que conseguiu fazer. E o caixão foi fechado, e o cortejosaiu. Nadico ficou olhando aquelas pessoas silenciosas, que um dia teriamo mesmo fim, como ele e todos os outros. Nesse momento teve medo. Nãoconseguia se imaginar sem a mãe. Gostava também do pai, mas era diferente.Como a mãe poderia parar de falar a qualquer momento? Como? Olhou entãopras mãos e com uma delas começou a beliscar a si mesmo. Se um beliscão-zinho destes já doía, imagina quando morresse então... Ia doer muito mais.Não gostava de sentir dor. Será que poderia morrer dormindo? O Silvério, paido Biluca, morreu assim. Nadico cresceu e a imagem do avô morto ficou impregnado em sua 79
  • 73. mente. Ficou estarrecido como a morte chega de supetão, sem aviso prévioou convite. Honório, apesar da idade, estava ali, vivo, se mexendo de um ladoa outro, resmungando, bocejando, falando coisas sem nexo, mas estava VIVO!Minutos depois, nada daquela massa corpórea permanecia em movimento,e horas depois tudo se acabava num buraco coberto por placas de concreto eterra, e nunca mais seria visto. Já adulto, a ausência de alguém da família por muito tempo, ou de umconhecido, dava-lhe a sensação angustiante de que algo de ruim teria aconte-cido. – Meu Deus! Por que não chegaram ainda? Guardava pra si os pensamentos funestos, depois que fora repreendidopela esposa. – Onde já se viu! Você só pensa em tragédia. Daí em diante não compartilhou com ninguém mais as suas apreen-sões e temores. Quando estava incomodado com algo ou alguém, buscava noslivros que gostava de ler, nos programas televisivos que gostava de assistir ounos passeios que gostava de fazer, a cura para suas angústias. Andava pela rua, acabrunhado, com medo de ser atropelado e morrerna sarjeta de uma rua qualquer. Não passava por um semáforo sem antes secertificar de que as luzes estivessem todas verdes e ainda não haviam iniciadoa se apagar. Remédios mal administrados, outro pavor que lhe assaltava comfrequência. Lia a bula de cabo a rabo e depois de uma consulta ou outra ao far-macêutico, tomava, não de todo aliviado, mas se vendo obrigado para se curarde uma crise asmática ou uma virose mais violenta. Portas abertas, janelasmal fechadas não lhe davam bons pressentimentos. Em momentos de efusivaalegria, quando os sentimentos estavam relaxados, quando se encontrava eminstantes de rara descontração, algo vinha de súbito chamando sua atençãopara a vigília diária. Quem muito ri, muito chora. Não se permitia ao descuidoe à negligência. Queria estar alerta. Trazia sempre em mente uma frase de umlivro de Marguerite Yorcenar, que resumia sua preocupação: “Esforcemo-nospor entrar na morte com os olhos abertos”. E no que dependesse dele, assim 80
  • 74. seria. Ele foi avançando nos anos e viu e ouviu muitas mortes: prematuras, depessoas velhas, novas, de acidente, morte natural, assassinatos, suicídios, e emnenhuma delas, que se recorde, os familiares acolheram com a paz de espíritoou com o conformismo que um terceiro sente já que não é ele quem sofre.Quando a mãe morreu, parecia que faria o mesmo. Tudo nele parecia sem fimalgum. Nada do que fazia tinha agora sentido. Pra quê? Morreremos daqui apouco. Já a morte do pai parecia mais previsível. Morreu de cirrose. Viu a morte da mulher, dos filhos, e a dele próprio, que tanto temia,nunca chegava. Quanto mais avançava nos anos, ficava-lhe a convicção de quefora esquecido, se é que isso era possível. Não tinha um dia que não acordavaimaginando-se em outro lugar que não fosse sua casa. Mas aos poucos, len-tamente, às apalpadelas, ia se encontrando deitado em sua cama e em seuquarto, e verificava que não fora desta vez. De qualquer forma, sabedor de que a qualquer momento algo de novopoderia acontecer, tomava algumas medidas práticas. Deixara todas as contasem dia, principalmente o salário de sua empregada, para que não passassenecessidades. Doou os poucos livros que ainda tinha, deu os passarinhos quedesde garoto gostava de cuidar e procurava sempre se manter bem arrumado,para que nenhum estranho viesse pôr-lhe a mão e o trocasse como se fosseum bebê. Outra medida que fazia questão de tomar para não ser pego de sur-presa era se manter sentado na varanda. Não queria que lhe acontecesse comoocorrera com o avô Honório: ir ao chão a qualquer momento. Não suportariaver a si mesmo, além de morto, sujo de terra. E se não tivesse alguém perto,como ele esteve presente na morte do avô? Essa probabilidade era plausível jáque morava sozinho, tendo apenas a empregada como companhia para fazeros serviços da casa. Assim, toda tarde ficava na varanda, sentado, com o olhar perdido nãose sabe aonde. Passavam conhecidos pela calçada, cumprimentavam-no, cha-mavam para um passeio e nada do Nadico aceitar. Seu olhar se fixava em umponto para além de suas cercanias; um ponto que só ele via, um lugar enig-mático que só ele podia distinguir. Lá, de remota região, a morte viria buscá-lo. 81
  • 75. E quando isso ocorresse, ele estaria ali, naquele mesmo lugar, de olhos bemabertos, para poder recebê-la se é que ela tinha alguma forma definida, con-creta, que pudesse ser reconhecida. Entre a espera e o nada, Nadico fez cem anos. Há tempos não sabiao que era comemorar aniversário. Mas aquele dia foi uma exceção. Mais porinsistência de Norma, a empregada, e de raros conhecidos do que por ele pró-prio. Acabou por aceitar. Teve bolo, doces, nada faltou. E, obviamente, presentes. – Não precisava. Nessa idade já não ligamos mais para certas coisas. Ganhou uma camisa de Norma que guardou no quarto, sabendo deantemão que não usaria. Do vizinho Euclides, alguns apetrechos e vara de pes-car, como se ele tivesse pretensões de sair além do portão. De Josias, um parde sapatos, que fatalmente ficaria empoeirado em algum canto. E só. Poucospresentes, poucas pessoas. Foi por volta das onze da noite. Todos já tinham ido. Nadico arrumavaalgumas coisas fora do lugar na cozinha quando passou mal. Sentiu-se trêmu-lo, o coração acelerou, suava. Correu para a varanda. Queria sentar em suacadeira, respirar. Com muito custo conseguiu sentar. – É hoje... Finalmente. Conhecerei sua cara? Qual sua face, ou todaselas? Puxava o fôlego. – Vamos... Venha... Qual será seu mistério? O mistério da vida que nosconsome? Toda uma vida resumida a isso: uma vala comum nos aguarda enada mais. Pois que venha, seja lá o que for e como for. Nadico se contorceu na cadeira, mas não passou de um susto. Nadateve de mais grave, apenas um mal-estar. Extenuado, praguejava por tal situação. – Será isso vida? À beira da morte e nada? Agonizar não será pior quemorrer? Nadico cogitava e, pregado à cadeira, não sabia mais o que pensar ou a 82
  • 76. que conclusão chegar. Há muito se entregara aos acasos da sorte. Tirar a pró-pria vida nunca lhe passou pela cabeça. Tinha dois motivos pra isso: faltava-lhecoragem e não faria algo contra o que Deus lhe concedera. E Nadico se aferrava à cadeira como se petrificado. Ali cochilava, sonha-va com pessoas queridas, acordava, tornava a dormir. Levantava poucas vezes,apenas para refeições rápidas ou ir ao banheiro. Tudo lhe era desnecessário.Tudo mesmo. Norma chegava de manhã e via o patrão, como sempre, sentado. Elenão fazia outra coisa senão ficar do mesmo jeito. Às vezes ela sentava perto delee lhe fazia companhia. Conversavam um pouco e logo ela ia aos seus afazeres.Mas ele cada vez mais silenciava. Nunca, que ele soubesse, conhecera alguém tão obstinado para a mor-te. Lera a respeito, procurou um centro espírita, mas isso não o apaziguou.Lembrou-se da analogia que se fazia entre o sono e a morte. E começava a seapegar a isso: procurava dormir o mais que podia. Com a idade, o sono de fatose prolongava. Um dia, pediu a Norma: – Quando me vir aqui a dormir, não me acorde, jamais. Ouviu? E de fato ela atendeu seu pedido, sem entender bem o porquê. E láficou a dormir, esperando que de um momento para o outro acordasse – sónão sabia onde. 83
  • 77. Menção Honrosa Categoria Regional Birigui - SP Uma história de 2924 Ronaldo Ruiz Galdino O reflexo do sol nas janelas de metal dos arranha-céus pós- futuristas da cidade invadiu o quarto de Aguinaldo e o acor- dou. Ele se levantou para fechar as cortinas e observou ooutdoor acima do prédio que dizia em letras garrafais: “O mundo é gay e vocêtambém!”. Havia diversas palavras de ordem como aquelas espalhadas portodo o País, a mando do Partido Gay do Brasil (PG do B), que chegou ao poderpor meio da Revolução Rosa, antes mesmo de Aguinaldo ter nascido. Desdeentão, o Brasil vivia, como o resto do mundo, numa homocracia. O único lu-gar do planeta em que o regime não imperava era no Vaticano, onde homens emulheres se casavam e faziam sexo sob as bênçãos do Papa. Porém, a cidadeera isolada por uma enorme muralha. Quem tentasse ultrapassá-la provavel-mente seria desintegrado por uma bala micro-radioativa, disparada por algumsoldado do Exército Cor-de-rosa, de dentro de uma das guaritas do muro. San-ções econômicas eram aplicadas ao país numa tentativa de acuar os militantescristãos, mas a resistência era firme. Até mesmo uma investida armada, feitaem conjunto com todos os exércitos cor-de-rosa europeus foi frustrada pelosGuerrilheiros de Jesus, como se intitulavam os líderes da resistência vaticana.Nunca mais se tentou algo parecido. A Internacional Gay fazia de tudo paraevitar a lembrança desse fracasso. O rapaz fechou as cortinas, mas não conseguiu continuar dormindo.Aquelas mensagens sempre o oprimiam. Decidiu se levantar de uma vez e se 85
  • 78. arrumar para ir trabalhar. Aguinaldo não era considerado uma pessoa normal. Todo pessoal davizinhança, seus amigos e colegas de firma achavam ele hetero demais. Re-almente ele gostava de mulher. Bem que ele tentava disfarçar. Todos os diasde frente ao espelho ele treinava andar rebolando. Depois afinava sua voz decantor de clássicos do trash metal erudito até chegar próximo ao miado deuma gatinha filhote. A voz grossa era um de seus problemas constantes. Elepensou diversas vezes em fazer uma cirurgia para retirada dos testículos econseguir dessa forma um agudo melhor. O que sempre o impediu era o or-gulho que sentia de seu pênis, aliás, um segredo que ninguém poderia saberprincipalmente os policiais do Exército Cor-de-rosa, que por puro preconceito,revistavam-no quase todos os dias. Devido ao aperto no cerco policial que fa-ziam em torno dele, nos últimos tempos estava difícil ir até o mercado negrocomprar as revistas de mulher pelada que ele escondia debaixo de alguns tacosdo piso de seu quarto. Era mais fácil algum contrabandista entregá-las pertode sua casa, ocultadas em meio ao livro Rosa do Partido. Seus pais ficariamprofundamente decepcionados se as descobrissem. Após se aprontar, Aguinaldo desceu as escadas até a cozinha onde seuspais o esperavam para o café. – Bom dia, pai! Bom dia, pai! – ele desejou aos dois únicos homensque amava, seguido de um beijo no rosto de cada um, como fazia todas asmanhãs. – Bom dia, minha flor! – respondeu o mais efeminado. Aguinaldo foi concebido em laboratório da mesma forma que todos osgarotos que ele conhecia. Um dos pais, geralmente o que se considerava o “ho-mem da casa”, doava seu esperma para ser fecundado artificialmente a umóvulo doado por uma mulher desconhecida. Não era possível escolher o sexoda criança. Se o casal era de homens, eles teriam um menino. Se fossem mu-lheres, teriam uma menina, só que neste caso, uma delas doaria o óvulo paraser inseminado pelo espermatozóide de um doador anônimo. Era comum verpelas ruas panfletos e cartazes de campanhas como “Doe sêmen para o bem 86
  • 79. do Brasil”. Quando chegou a certa maturidade, Aguinaldo começou a ques-tionar sozinho quem seria sua mãe biológica. Mesmo amando seus pais, eletinha muita esperança de um dia conhecê-la, mas sabia que as chances dissoacontecer eram bem remotas. João e Antônio, seus pais, desconfiavam do heterossexualismo do filhoe ficavam preocupadérrimos que algum grupo de neosskinheads ou a própriapolícia o agredisse por isso. Na rua, a caminho do trabalho, a situação de Aguinaldo ficava pior.Ele tinha que se esforçar para não olhar para a bunda de alguma mulher ouficar encarando-as demais. Antigamente, quando as cidades ficavam divididasem zonas masculinas e femininas era mais fácil manter o controle, mas des-de a implantação de políticas igualitárias, que determinaram que homens emulheres poderiam habitar o mesmo espaço, frequentar os mesmos lugares,trabalharem juntos e até mesmo serem amigos, desde que o relacionamentose limite ao fraternal, a situação se complicou. Apesar do incentivo do gover-no, os olhares inquisidores dos integrantes do Exército Cor-de-Rosa impediamtentativas mais ousadas de aproximação entre pessoas de sexos diferentes. Mas Aguinaldo não podia amaldiçoar totalmente essa medida, pois foigraças à ela que ele havia conhecido Laura. O encontro aconteceu durante umhappy-hour no Rainbown Bar, um dos poucos lugares onde homens e mulhe-res mais liberais costumam conviver pacificamente. Sem se relacionarem he-terossexualmente, claro. Até porque os policiais do Exército Cor-de-Rosa estãosempre à espreita e muitas vezes já invadiram o local e prenderam dezenas depessoas, portanto, todo o cuidado é pouco. Enquanto seus amigos sentados àmesa faziam piadas sobre heteros, Aguinaldo trocava olhares com uma moçaque lhe chamara atenção. Ela estava sentada em um dos banquinhos ao redordo balcão. Tinha cabelos curtinhos, quase do mesmo tamanho que os dele,mas isso não a deixava masculinizada de forma alguma, muito pelo contrário.Sua roupa, maquiagem e acessórios tornavam-na a mais fêmea de todas asmulheres daquele bar. Se saísse para sentar-se ao lado dela, pensou, seus amigos poderiam 87
  • 80. suspeitar que ele estava interessado “naquela rachada”. Então, ele aguardouaté o momento de ela se levantar para ir ao banheiro e a seguiu. O banheiro masculino ficava ao lado do feminino, um costume dostempos heterossexuais que o PG do B não encontrou alternativa para substi-tuir. Não raro dava para se escutar gritinhos de prazer vindos dos mictórios.Graças à essa brecha nas leis autoritárias do País, Aguinaldo se postou no finalda fila do banheiro dos homens, na mesma linha em que Laura estava. Emmeio à barulheira do bar, ninguém percebeu os dois trocando palavras pormeio de sussurros, sempre olhando para frente, um fingindo ignorar a presen-ça do outro. Foi nesse pequeno intervalo para o xixi que os dois descobriramque estavam apaixonados. Eles haviam marcado um encontro para aquela noite, depois do tra-balho, em um beco escondido na periferia da cidade, onde o Exército Cor-de-Rosa não costumava circular e a marginalidade rolava solta. Por isso aquele diaera o mais feliz da vida de Aguinaldo. De tão alegre que estava, ele aguentoutranquilamente todas as buchas rotineiras do seu emprego, consolado pelaespera ansiosa do momento em que iria encontrar sua amada Laura. Quando finalmente tocou o sinal anunciando o fim do expediente,Aguinaldo tomou o sentido contrário ao de casa e seguiu até o lugar combina-do com Laura. Para tranquilizar seus pais ele inventou uma desculpa de queiria cumprir hora extra e atrasaria para o jantar. A todo instante, enquantocaminhava a passos largos, ele olhava para os lados e para trás, temendo estarsendo seguido por algum agente do serviço secreto do PG do B. O céu já estava arroxeado quando ele viu a silhueta de Laura em pé,defronte ao muro onde terminava a rua. “Oi!”, disseram. Os dois ficaram um momento parados em silênciose olhando. Estavam absolutamente sozinhos enfim. Fascinados. Aguinaldotocou no rosto dela e acariciou com o polegar suas bochechas macias. Eladeitou o rosto na palma da mão dele, fechando os olhos e deixando sair umleve suspiro. Suavemente, ele ergueu o queixo de Laura e foi inclinando atéseus lábios tocarem os dela. Os braços entrelaçaram-se e entre a volúpia das 88
  • 81. línguas se roçando, os dois respiravam profundamente, buscando mais fôlegopara continuar o beijo. Louca de prazer, ela ergueu a saia e baixou a calcinha.Aguinaldo abriu desajeitadamente a braguilha da calça e colocou o preserva-tivo no seu pênis intumescido. Apesar da imensa vontade de penetrá-la semusar nada, ele levou a camisinha não para protegê-la de alguma doença se-xualmente transmissível, mas sim de uma gravidez causada por uma relaçãoheterossexual, que era punida com a morte da gestante e do pai da aberraçãoembrionária. Ele quase urrou de prazer ao sentir o calor de uma vagina. Era a pri-meira vez que ele transava com uma mulher, mas já havia perdido a virginda-de com outros rapazes, muito a contragosto, diga-se de passagem. Porém, emnada aquilo era parecido com a sensação que sentia agora. O gozo foi interrompido por uma forte cacetada na cabeça de Aguinal-do, desferida por um oficial cor-de-rosa. Imediatamente vários homens ar-mados surgiram no beco apontando fuzis para o casal. De tão envolvidos queestavam, Laura e Aguinaldo nem perceberam que de uma janela no alto de umsobrado, uma velha observava toda a cena. Ela havia combatido ao lado dasbravas lésbicas do Exército Cor-de-Rosa que tomaram Brasília há mais de 70anos. Como verdadeira patriota, a mulher denunciou à polícia a obscenidadepraticada por aqueles traidores da Nação. O rapaz foi arrastado inconsciente por um dos homens fardados. Lauratentou acudir seu amado, mas logo foi detida por um deles, que junto aoscolegas começaram a espancá-la brutalmente, mostrando que mesmo sendodelicados, batiam como bárbaros vikings. – Aguinaldo! – ela berrava enquanto dois soldados jogavam seu amordentro de um camburão. Laura, chorando, esticou a mão tentando em vãoalcançá-lo, ao mesmo tempo em que recebia chutes nos rins. *** – Aguinaldo! – o grito do general chamando por seu nome o acordou.Ele estava sentado numa cadeira com eletrodos que ligavam seu pênis, ânuse mamilos à uma máquina de choques. Seus pés estavam mergulhados em 89
  • 82. uma bacia com água. Suas mãos estavam amarradas. A sala era escura, sóhavia uma lâmpada entre ele e o sujeito que o interrogava. O homem ostentavaas cores do arco-íris em sua braçadeira de militar do Exército Cor-de-Rosa. Aofundo, via-se a sombra de uma pessoa digitando tudo o que se passava duranteo interrogatório. – Qual é a sua ligação com o Vaticano, seu machinho de merda! - es-bravejou o general. – Não sei do que o senhor está falando, respondeu Aguinaldo. Um gritode dor invadiu o cubículo após o general levantar a alavanca da máquina dechoques. – Vou perguntar mais uma vez, qual sua ligação com o Vaticano? – Nenhuma! – dessa vez quem gritava era Aguinaldo, não se sabe se dedor ou se de ódio. – Então o que você estava fazendo com aquela vadia? Vai dizer queestavam apenas copulando em plena via pública? Hem? Diga-me que não sãoespiões católicos e estavam conspirando contra a Revolução? – A única coisa que eu tenho a dizer a você é que eu amo aquela mu-lher e ninguém, nem você, nem seus homens, muito menos o Governo conse-guirão mandar em meus sentimentos! Vai dizer que você nunca desejou umamulher? Existem vários insatisfeitos como eu por aí! Mais um grito de dor foi ouvido. O General insiste: – Pela última vez, homem de Deus, por que você e aquela mulher esta-vam manifestando um ato de subversão na frente de todos? Se você colaborar,posso aliviar sua barra. Tu até que é bonitinho. – O que nós fizemos não era política, era amor! Outro choque e tudo escureceu. *** Às nove horas da manhã do dia 20 de novembro de 2924, Aguinaldo deAlmeida foi colocado em frente ao paredão de fuzilamento. Ele havia sido con-denado por alta traição à Pátria e à Revolução Rosa. Ou seja, iria morrer porcausa de uma rapidinha. Laura havia falecido na prisão dias antes. Suicídio. 90
  • 83. Ele ficou sabendo. – Quais são suas últimas palavras, traidor? – perguntou o sargento quecomandava o pelotão de fuzilamento. – Que todos os homens e mulheres, heterossexuais ou não, possam seamar livremente. – Fogo! – ordenou o militar. Em alguns segundos, a única marca que indicava que Aguinaldo haviaexistido era o desenho que seu corpo deixou na parede ao ser desintegrado.Curiosamente ele tinha uma forma fálica. Dias depois, um soldado desertor que participou do fuzilamento, in-fluenciado pelas últimas palavras do condenado, rabiscou pelos muros da ci-dade vários pênis como aquele que as cinzas de Aguinaldo haviam formado.Outros seguiram seu exemplo. Estava dado o estopim para a Revolução dos Cravos. 91
  • 84. Menção Honrosa Categoria Regional Araçatuba - SP O gato na janela Josiane da Silva Mesquita E u via as flores amarelas enfeitando a varanda. Sobre a grama verde, pequenas borboletas. E nada era mais curioso que o gato na janela. Parece que não respirava. Ficava por horas olhando a lua. Só desciafinalmente, quando a menina voltava da rua. No pé de laranjeira ele não subia. No muro, no telhado e no tanquetambém não queria. Mas na janela esperava horas por um dia de chuva tran-quila. Seus olhinhos eram diferentes. Um era verde e o outro azul. Ao raiar dosol, eram reluzentes e mal piscavam ao ver os pássaros. Conversava com a rolinha, com o cão e o pato. Brincava com a cigarra,as joaninhas e o esperto lagarto. Ele subia de noite e de dia. Via o boi, o cavalo e a coruja. Admirava ojogo de futebol, a velhinha atravessar a rua e os meninos no quintal. Dos bom-beiros ao corajoso policial. O gatinho branco de olhos coloridos percebia o avião, as conversas dosvizinhos e o latido do cão. Quando dormia ali ainda sonhava com as estrelas que só apareciam ànoite, esperando a chuva do fim de tarde e a serenata do vento. Quando o colibri cheirava a flor do maracujá, o gato se espantava numapressa e com curiosidade. Mas sempre se distraía olhando para o céu. Lembrando-se de quando pequeno desajeitado filhote. O preferido da 93
  • 85. ninhada. Acordando com uma voz doce que soletrava seu nome. E a primeiravez que a viu se encantou. Esperando por Anabela, seus olhinhos perdiam-se entre os arbustos.Saltava de alegria quando finalmente ela voltava pra casa. Nada era mais importante que o sorriso que alegrava seu coração. Eraa menina que amava que chegava ao portão. Certo dia a menina voltou muito triste, o gatinho sabia bem por quê.Pois o rosto molhado da menina só lhe fazia perceber, que sentia saudades. Mas por um momento se perdia ouvindo a cantoria das crianças, quedançavam e sorriam voltando da escola. Admiradas com o gato que na janelabalançava a cabeça seguindo a canção de dentro pra fora. Foi embora o verão, o inverno e a primavera. Ele ainda viu as chuvas,as secas e as folhas caírem ao chão. Viu nascerem os passarinhos que bicaramseu nariz, a abelha se casar com o zangão e a lagarta virar atriz. Das flores que viu crescer, a roseira o encantava mais e foi nos cabelosda menina que ele admirava as cores e não se esquecia jamais. O gato na janela aprendeu com a construção, dos tijolos que caíamainda se fazia o chão. Fazia-se a janela igual aquela que dormia. A porta e ascores das paredes da mansão. Conheceu o seu pai, seu avô e seu irmão. Nem se olharam, nem apertode mão. E o gato na janela esperava as notícias de um tempo bom. Às vezes dormia de olhos abertos, para não perder o melhor do dia.Era o carteiro que fugia do cachorro, o pedreiro que levava bronca, o meninoque fazia manha por causa do picolé. Também tinha as quedas de bicicletae as aventuras de skate. As vizinhas que brigavam e o papagaio que decoroua palavra: “Oi”. Tinha o leiteiro que fazia as entregas de moto, e o jornaleirode bicicleta. Mas ninguém via o moleque que puxava as correspondências dovereador e da vendedora de caneta. Ajudou a alugar a casa da mulher do padeiro. Quando o viu na janelacom os ouvidos atentos o inquilino aceitou o contrato. 94
  • 86. Também fez o vizinho conhecer a moça da churrascaria. Quando pas-sava pararam para observar. E foi elogiando o gato que o casamento eles mar-caram. Fez sucesso com um fotógrafo, saiu na televisão quando os jornalistasfilmaram o buraco na rua. Viu a passeata contra a poluição, o comício doprefeito e o trio elétrico de carnaval. No dia de São João, nem experimentou acocada e fantasiado de abóbora viu as crianças festejando o dia das bruxas. No natal, descobriu quem era o papai-noel. Ano Novo- janela nova. Sempre com perguntas na cabeça, e não tinha á quem perguntar: “Por que as rolinhas ficavam sentadas nos fios de alta tensão?” “Por que são fios de alta tensão?” “Por que o céu é azul de dia e preto à noite?” “Hum, por que todo mundo diz que o céu é azul e eu só vejo cinza?” “Por que aquela senhora quer atravessar a rua? Por que ela não conti-nua na mesma calçada? Elas são iguais!” Naquela semana ele via sempre as mesmas coisas pela janela. Perse-guir baratas e besouros, de jeito nenhum. Sabia que logo vinha o banho. Entãoa janela continuava sendo o melhor lugar. Tudo mudava quando a menina chegava da escola e brincava com ele.Fazendo nuvens de sabão. As bolhas que subiam, alegravam o gatinho, quandose erguiam da varanda com as brincadeiras da menina, levantava as patinhas.Uma a uma iam subindo seguindo a mesma direção. Vieram os dias que ele não subia na janela. E a vizinhança estranhou.Nada se sabia do gato curioso que adorava ver o tempo passar. E quando finalmente ele voltou já era noite, estava mais rechonchudo.Aqueles dias de chuva quando acabava o outono, o deixaram ainda mais pre-guiçoso. O céu se abriu num sorriso com estrelas. Deitou a cabeça entre as patinhas. Ainda conheceu os vaga-lumes, asformigas com asas e uma tímida estrela no céu. Viajava em pensamentos pelo universo dos planetas. E ouvindo a can-ção seguia pelo espaço, guiado pelos cometas e estrelinhas luminosas. 95
  • 87. Conheceu Marte, Júpiter, e a lua. Não era nada comparado aos sonhosde conhecer os perigos da sua rua. Às vezes muito cansado sonhava estar no mar. Todos falavam sobreele. Era grande, verde e ao mesmo tempo azul. Que era uma grande casa paramuitos seres vivos. Também disseram que o mar não anda como a chuva. Ele se move deum lado a outro e até causando tempestades. Mas ele não cai do céu. Mas continuou mesmo assim a sonhar com as altas ondas. Foi surfista,pirata “Barba Branca” e até marinheiro. E nas águas profundas foi mergulha-dor. Viajou o mundo inteiro. Atravessou o deserto da África e chegou ao Egi-to. Andou de camelo com a família de Cleópatra. Conheceu o México, a Françae Portugal. Foi Cristóvão Colombo, Napoleão e Dom Pedro I. Depois voltava de barco guiado pelos golfinhos e as baleias. As aventu-ras terminavam quando o sol se escondia por trás das ilhas. Dormia junto aoscoqueiros e acordava no mesmo lugar. A janela. Despertado pela voz da menina, viu o quanto ela cresceu. Continuavalinda como um anjo e nada mais o entristeceu. Foi quando a menina o abraçou, dizendo sempre o seu nome. “Fran-cesco”. Pesando nos braços, voltou para a janela. Francesco sentia que a meni-na estava diferente, mas permanecia aquela luz no sorriso. E a estrela continuava lá. Sempre tão bela e pequenina. Movia-se deva-gar, mas ele não estava triste por ela vagar tão longe, mas por não saber queele existia. Quando Francesco adormecia era por que tudo estava tranquilo na rua.Os pássaros no ninho, as crianças em casa. A manhã deu seu ar da graça, acordou animado procurando pela me-nina, subiu na cama e não a encontrou. Caminhou até o jardim, na casinha do cachorro, debaixo da laranjeira.E não encontrava Anabela. 96
  • 88. Francesco estava sozinho. Não tinha mais ninguém. Acomodou-se aosofá e não entendia o seu sentimento de tristeza e uma sensação de despedi-da. Novamente à janela, exibindo seu pelo branco e pele rosada, seus gran-des olhos coloridos, também a tristeza por estar sem ela. E esperou. Ficou ali sentado. Olhando o horizonte. Não se movia. Nãomiava. Uma porcelana na pequena janela azul. Que não tinha lágrimas, maschorava. Com o vazio tudo que lembrava era dos seus cabelos, do sorriso e docafuné que recebia na barriga. Enquanto a vida passava pela janela, Francesco não comia, não brinca-va. Sentindo a saudade de quem não ia mais voltar. Nem tudo era tristeza, quando a bola de lã caía do cesto, da janela ob-servava as cores da linha rolando pelo chão. E distraído quase não percebeu agatinha ruiva, caminhando despreocupada. Da janela ele viu tudo acontecer. Na sua vida nada diferente. Todos osdias os mesmos cães, a mesma criançada, os mesmos vizinhos. E a gata ruivanunca tinha visto, com seus olhos amarelos entre as margaridas da calçada. Desapareceu na esquina. E antes que se curvasse para se despedir danova amiga a janela se fechou. Com o passar dos dias , quando o inverno soprava seu vento mais frio,o gato estava lá. E percebeu como tudo era diferente do que ele tinha imagi-nado. Observando as pessoas e outros animais, Francesco descobriu que cadaum tinha um objetivo e nada faziam por mal. Quando doente estava, o pobre se conformou em deitar-se ali. Quandoseus olhos iam se fechando as imagens vieram a sua memória. O cão que parecia não dividir seu osso carregava para os filhotes, massempre deixava uma parte para o amigo. A senhora muito idosa atravessava a rua para ver a neta que morava dooutro lado. Que a esperava sempre com um ramo de flores. 97
  • 89. O papagaio não falava só a palavra “Oi”. Na verdade ele o cumprimen-tava. Como não respondia sempre insistia na palavra. O cachorro não corria atrás do carteiro para mordê-lo. Mas para brin-car. Por que o homem era seu dono. E o menino tão humilde não tirava ascartas da caixinha, ele colocava bilhetes com mensagens de fé. O outro nãochorava por causa do picolé, mas por que tinha dor de dente. As vizinhas nãobrigavam, conversavam mesmo! O leiteiro deu folga aos cavalos, e o jornaleiro queria perder uns quili-nhos andando de bicicleta! Francesco via o que seus olhos queriam ver. Só lhe faltou mais aten-ção. Do nariz rosado aos olhos coloridos que ali estavam atentos, as pessoastinha uma admiração e não entendia o seu interesse pelo desconhecido. O quecausava espanto aos nossos olhos, para ele era apenas um aprendizado. Dançando com a alegria das crianças, de lá pra cá, prestando a atençãoem cada detalhe da vida, ele se tornava o centro das atenções. Mas o seu coração pequenino também ficou desesperado, quando ofogo deixou tudo iluminado. A rua parou e muitas lágrimas surgiram. Na casa do padeiro, o fornonão aguentou. Os bombeiros foram chamados e tudo se acalmou. Mas Francesco na janela, alguma coisa devia fazer. Miava num chama-do forte, pela menina que tanto amava. Apertava com as patinhas as bordas da janela, e seu pêlo arrepiadomostrava o medo bem pertinho. Nem a chuva o segurou, todo molhado na frente da casa, ninguém ovia. Foi a primeira vez que atravessou a rua. Os bombeiros apagaram o fogo e ele continuava a miar. Debaixo dastelhas sujas, uma menininha a chorar. E Francesco arranhando e correndo,fez alguém perceber. Salvando o dia, Francesco sentiu-se forte e diferente. Quealém de um gatinho mimado, era um também um grande herói. Orgulhosos, os vizinhos pintaram a janela e deu a ele um grande filé de 98
  • 90. peixe, uma fita azul no pescoço e uma bola de lã novinha. Ainda não estava feliz. Continuavam os dias sendo idolatrado, conver-sando com a estrelinha no céu. Sonhando com suas aventuras. O gato não perdia tempo com sua curiosidade. Desde as borboletas, àsformigas do jardim. Livre sempre para decidir quando subir e quando descer. O coração já estava agonizando. Esperando por algo que não chegava.Fechou os olhinhos lentamente. Carente e cansado. Foi quando o portão se abriu. Levantou a cabeça devagar, num miadofrágil e mesmo fraquinha, o pobre se divertiu. Anabela voltou para casa. Cada aperto, uma saudade que ia embora. Gostoso como um abraçosomente passar a noite olhando a lua. Não era sonho nem engano. Viveu seus últimos dias do outro lado darua a olhar para todos que existiam. E eu estava aqui deste mesmo lado, fa-zendo o mesmo que ele. E de todas as coisas que ele via, e das experiênciasque presenciou Francesco jamais percebeu que do outro lado, também haviaum gato na janela. 99
  • 91. Menção Honrosa Categoria Regional Araçatuba - SP Acerto Wanilda Maria Meira Costa Borghi À beira do rio, no barranco, descansavam dois compadres: – Vês, pois, a lua, Manoel? – Sim. – É meu preferido queijo branco. – Pois. – Então, responda pra mim: quando está o queijo inteiro, há São Jorgeembutido. Para onde ele vai, quando o queijo está partido? – Ele já mora no céu. A lua é que o emoldura, feito quadro na parede. Nesse instante, um estalido. – Compadre, ouviste o ruído? Há um peixe em minha rede. – Pois bem, que a brasa cá espera. E enquanto o peixe assa... – O transporte do doente é a maca. E a lua, quando partida, aonde éque esconde a faca? – Ralhos, compadre! Se pensas que estais a me pregares peça, te ad-virto com esta: A maca está na ambulância, que gira em quatro redondos. Ocompadre me responda, quem foi que inventou a roda? – Olhe, compadre... de certo modo, até confesso: não sei! – Pois então, o compadre abra os ouvidos: confidenciou-me um ami-go, que certo rei, curioso, mandou abrir um aro, para que, caminhando sobre 101
  • 92. ele, descobrisse a origem de suas pontas. Mas, conforme ele ia andando, o arofoi se ajeitando ao formato inicial. E quanto mais ele pisava, a solda, entre asduas pontas, se solidificava. A primeira ponta veio do nada, que é pra onde a outra vai. Quer dizerque tanto faz. Por isso, não tem importância, se é começo, ou se é fim. Importao que está no meio: se for um bolo, o recheio; se sanduíche, o presunto, ou amanteiga de amendoim. Mas tem coisa que importa: é o tal comportamento. Um homem temque ter porte, senão se assemelha a jumento. O compadre, por exemplo, ao adentrar um aposento, siga a norma:feche a porta. E ao balançar o mento, lembre-se que todo assunto tem começo, meioe fim. Chame as pessoas pelo nome certo. E, só pra lembrar o compadre: Eume chamo Joaquim! 102
  • 93. CategoriaINTERNACIONAL 103
  • 94. 1.º Lugar Categoria Internacional Lisboa - Portugal Tânia Ganho Gomes da Silva, de Coimbra, Portugal. Autora dos romances “A Vida Sem Ti”, “Cuba Libre” e “A Lucidez do Amor”, é tradutora e escritora tendo sido também vencedora do Concurso Nacional de Contos (Portugal) “Ler Melhor para Viver Melhor”. Publicou em revistas portuguesas os contos “Egoís- ta” e “Portefólio”. Perfeita simetria Tânia Ganho C om um marcador preto traçou-lhe círculos no peito, com um bisturi cortou-lhe a pele elástica e leitosa, com um olhar apreciativo coseu-a. Quando ela acordou, fez-lhe uma ca-rícia nos cabelos rubros e explicou-lhe como seria a vida daí em diante. Elaquis beijá-lo, mas não o fez, guardando-se para o ex-amante, a quem serviriaa sua metamorfose como um prato frio. Voltou para casa com passinhos degueixa, porque o seu centro de gravidade mudara e ainda não encontrara ojusto equilíbrio. Levou a chave à porta e o esforço de levantar o braço fê-lasorrir – sentia-se uma boneca presa a um marionetista invisível. Passou asnoites seguintes imóvel na cama, contemplando a sua nova topografia, envoltaem faixas brancas como um busto de gesso. Poderiam expô-la numa galeria,agora, e Chris seria o primeiro a aplaudi-la. A mulher artificial. Adriana tinha queda por pés-rapados e oportunistas. O homem que 105
  • 95. lhe deu um novo corpo foi o único que, em vez de lhe pedir alguma coisa, sedispôs a oferecer-lhe tudo; ela, porém, ainda não estava pronta para receber,primeiro tinha de ajustar contas com o passado. Precisava de closure, umritual para encerrar definitivamente a sua história com Chris, que não era pé-rapado, apenas oportunista. Conheceram-se através de amigos comuns, um casal de franceses queos convidou para uma festa em noite de Santo António. Julie e Loïc viviamnuma casa na Graça, com paredes vermelhas e um pátio bordejado de flores.Adriana passou o serão a conversar com Chris, cuja pronúncia de Oxford a des-lumbrou, além dos seus atributos físicos mais óbvios: Chris tinha um troncoimenso e imberbe, de omoplatas assimétricas, um corpo de 1,90m criado aduches frios, jogos de râguebi e campeonatos de remo. Depois do jantar, Loïcpôs um dos seus CD de techno e entregou-se a uma dança desarticulada comJulie; Chris e Adriana ficaram a observá-los, saboreando um vetusto vinho doPorto. Como a música estava muito alto, ressoando na noite quente do pátiolisboeta, Chris sussurrava-lhe ao ouvido. Tomada por um impulso, Adrianaencostou as mãos às omoplatas dele – uma subida e saliente, a outra retraída eenviesada – e pousou-lhe um beijo no pescoço nu. Sem a fitar, ele ofereceu-seà boca dela. «Descobriste o meu ponto fraco», sussurrou. O rosto de Loïc surgiu entre eles, embriagado. Tirando as medidas aodecote de Adriana, perguntou-lhe, numa voz entaramelada: «Os teus seios sãoperfeitos como parecem?» Adriana fixou-o, séria. Inspirou fundo e compôs orosto num sorriso que se queria enigmático e confirmativo. Antes que Loïc pu-desse acrescentar alguma coisa, Chris arrebatou-a e conduziu-a para o quartode hóspedes. Deitou-a no colchão estendido nas traves do soalho e, quandoela sentiu as mãos aproximarem-se do decote, levantou-se, acendeu a luz am-barina do candeeiro e apagou o foco clínico do teto. Fechou os olhos para nãover a cara de Chris quando lhe despisse o sutiã e percebesse que o 34B afinalera um 32A, ilusão criada por duas bolsas de gel inseridas nas copas. Os gestosdele interromperam-se por uma fração de segundo. Adriana abriu os olhos eele sorriu, abanando a cabeça quase impercetivelmente. «Vocês e as vossas 106
  • 96. artimanhas», murmurou. Para o calar, ela fez o que fazia sempre para compensar a falta de for-mas: esmerou-se, provando que é bem verdade que as mulheres perfeitas sãomonos na cama, e as imperfeitas, despudoradas. Ele veio-se e ficou dentrodela, com o coração sincopado a querer fugir do peito assimétrico, num or-gasmo longuíssimo em que Adriana o sentiu todo – cada espasmo, cada es-tremecimento – como se o orgasmo fosse seu. Instantes depois, ela ergueu-separa se vestir, mas ele puxou-a para os seus braços e disse: «Fica.» Cobriu-a debeijos ternos como se fossem namorados e não amantes recém-descobertos,sussurrando: «A nossa simetria é perfeita.» Quando, de manhã, ele acordou com o sexo dentro da boca dela, afas-tou-a de si, levantou-lhe o queixo com um gesto suave e disse, solene: «Vamosfazer um filho.» Adriana fitou-o, aturdida. Com quatro palavras banais, Chriscompusera uma frase que a apanhou como o laço do vaqueiro apanha uma rêsincauta, e ela entregou-se à ilusão de que aquele homem era capaz de amar.O seu cérebro, porém, era mais lúcido do que o coração e, quando sentiu osexo de Chris começar a contrair-se para ir buscar o esperma, desencaixou-sedele num gesto rápido e masturbou-o. Ele veio-se nas mãos dela e, em plenoorgasmo, Adriana leu-lhe a perplexidade nos olhos. Ela preferia a franqueza às falsas expetativas e, durante um ano, aco-lheu-o em sua casa sempre que ele lhe enviava um e-mail a dizer que ia a Lis-boa, convencida de que, com o tempo, a sua presença se tornaria indispensávele Chris a chamaria para viver consigo em Londres. No final do verão, recebeuum convite para um churrasco no apartamento dele, em Notting Hill. Quandoa excitação amainou, percebeu, frustrada, que era impossível arranjar voospara daí a uma semana. Perguntou-se se ele teria feito de propósito, enviadoo convite sabendo que não passaria de uma figura de estilo. Depois do ditobarbecue, falaram uma vez ao telefone e ela achou-o distante; provavelmenteconhecera alguém e estava nesse momento a dizer a outra mulher Vamosfazer um filho. O contato reduziu-se, daí em diante, a SMS frios e formais. Um dia, Adriana estava a almoçar à frente da televisão, quando passou 107
  • 97. uma reportagem sobre o Dia do Vinho do Porto. As imagens mostravam umgrupo de estrangeiros rosados sorrindo à beira-Tejo, em redor de cálices detinto. Num dos vivos, viu Chris em grande plano e, quando a câmara fez zoomout, descobriu que, junto dele, se encontrava uma English rose. Estavam ladoa lado, sem se tocarem, mas havia uma intimidade de amantes – namorados– entre os dois corpos. Como se tratava de um canal de notícias, a reportagemrepetiu-se de hora a hora. Chris estava em Lisboa e acompanhado. Adrianapegou no telemóvel e enviou-lhe uma mensagem: «You look great on tv, everyhour on the hour.» Ele ligou-lhe, explicando-se; ela respondeu: «Cresce e es-quece-me, Chris.» Assim foi, durante meses. Até que voltou a receber um e-mail dele. Veste-se diante do espelho com gestos lentos e premeditados. Exata-mente a mesma roupa que levava na noite em que ele lhe disse que a simetriaentre os seus corpos era perfeita. Quer criar um efeito de déjà vu, que ele aveja e diga: É a mesma mulher, mas há algo que mudou. Tudo mudou, pensa,olhando-se ao espelho. Inspira fundo e apaga as luzes. Quando sai do táxi, àfrente da Bica do Sapato, no Cais da Pedra, já Chris está há meia hora à suaespera. Ele levanta-se assim que a vê e fita-a com um olhar avaliador; os seusolhos escorregam até ao decote e, por uma fração de segundo, exprimem per-plexidade. Ele estende as mãos e acolhe-a num abraço apertado, ao qual ela sesubmete; o perfume de Chris continua o mesmo, vertiginoso. Adriana pede champanhe e os pratos e sobremesas mais caros daementa. A cada gole de Moët & Chandon, vê Chris soltar os gestos. Quando agarrafa chega ao fim, ele ousa roçar os dedos nos lábios dela, que o deixa gra-var-lhe na boca as impressões digitais. Os olhos dele perscrutam-na e Adrianaquase acredita que é a sua alma que ele quer penetrar e não o corpo. O chãotorna-se líquido e, quando ela julga que vai cair, Chris sussurra: «Vamos paratua casa?» «Não», responde, «um hotel.» A conta vem para a mesa e ela, quesempre se ofereceu para pagar metade, pousa os cotovelos no tampo e fita orio escuro e espesso. Não mexe um músculo, apenas as suas pestanas batem 108
  • 98. a um lento e triste compasso. Apanham um táxi à frente da velha estação deSanta Apolónia. Ele puxa-a para os seus braços, ela afunda-se nas proporçõesde colosso, no calor da garrafa de champanhe que ele bebeu praticamentesozinho. Chris costumava dizer, a brincar, que ela era um cheap date, porquebebia muito pouco comparada com as inglesas; pois, hoje, não é um cheapdate. Os dedos dele acariciam-lhe ao de leve o braço nu, num ritmo constantee encantatório. O taxista pergunta-lhes o destino. Ela diz o nome de um hotele, desta feita, o seu critério não é o preço, a vingança, é simplesmente o sim-bolismo do endereço: Avenida da Liberdade. Chris pede a melhor suite – como se já tivesse compreendido as regrasdo jogo e o preço que ela traz inscrito numa etiqueta que arrasta pelo chão acada passo –, beija-a no elevador, abre a porta do quarto e afasta os reposteirospara o lado, acolhendo o clarão de Lisboa. A cama ilumina-se como o centrode um palco e a ópera que Adriana julgara cómica, subitamente, não a faz rir.Sente-se engolida por uma tristeza imensa. Ele beija-lhe o pescoço, as clavícu-las, o espaço entre as clavículas onde o sangue lateja. Tira-lhe o top pela cabeçae observa-a: o sutiã branco de renda que deixa ver o peito à transparência, osmamilos que se oferecem ao toque dele, a pele arrepiada. Desapertando-lhe osutiã, dá um passo atrás para a contemplar. Ela é uma estátua, um busto per-feito numa galeria, e ele sorri, admirativo. «São lindas», diz, e palpando as ma-mas que antes não existiam, exclama: «São a tua cara.» E, de repente, Adrianapercebe que Chris está confuso, já não sabe como se faz amor instantâneo,esquece-se de medir o pó, juntar água, mexer… Envolve-a num abraço mudoe, numa voz rouca, emocionada, sopra-lhe ao ouvido: «És extraordinária.» Ela fita-o e, sentindo as lágrimas roçarem-lhe as pestanas, abana a ca-beça: «Game’s over, Chris.» Ele não percebe. Observa-a, estupefato, enquantoela pega no sutiã e passa os braços pelas alças, aperta o fecho atrás, veste otop e agarra na carteira. «Desculpa», diz, e contra todas as suas expetativas,o sentimento é sincero. Dirige-se para a porta. Leva a esperança de que ele aretenha, mas Chris permanece imóvel a meio do quarto, quando ela sai parao corredor e deixa o passado nas suas costas. O clique da porta a fechar-se é 109
  • 99. um derradeiro suspiro. Apanha um táxi perante o olhar desconcertado do rececionista do hotele o desinteresse da mulher de leste que lava o degrau da entrada. No silênciodenso das ruas que desfilam, desertas, pela janela do automóvel, Adriana pen-sa no homem que com um marcador preto lhe desenhou círculos no peito e,quando ela acordou, lhe fez uma carícia nos cabelos e explicou como seria avida dali em diante. O homem que não queria cortá-la com um bisturi, porquea achava perfeita como a natureza a fizera. No dia seguinte, procurá-lo-ia. Estava livre. 110
  • 100. Menção Honrosa Categoria Internacional Barreiro - Portugal As Insónias Vitor Batista E ra ainda rapaz novo quando decidi dar um outro rumo à mi- nha vida. De facto, a vida na aldeia não era nada atrativa, nem estava de acordo com o que eu sempre sonhara. Para quem queria um determinado tipo de emprego, gostava do bulí-cio duma grande cidade ou para quem ansiava gastar parte do seu tempo nanoite, está bem de ver que na minha aldeia seria o último lugar onde poderiasatisfazer os meus desejos. Claro está que quando em altura de férias, aquelesque, faz já bastante tempo, abalaram para outras localidades onde ainda vi-vem e trabalham, que regressam para matar saudades da família, dos amigosou dos lugares mais queridos da aldeia, contavam e descreviam com algumpormenor como são as vilas e cidades onde habitam, mais o meu espírito deaventura me chamava a abandonar a minha terreola. Por isso não admira que com apenas 16 anos, tenha deixado a casapaterna, a família e os amigos de sempre. Foi uma decisão consciente masdifícil, se se aceitar que com aquela minha idade era convita e determinada adeliberação que tomei. O certo é que já passaram uns quantos anos e ainda não senti qualquersinal de contrariedade ou rejeição para com o passo que foi dado. No entanto,em oposição ao modo como agi, está o meu melhor amigo, o Chico Carocha,visto que até hoje nunca foi sua preocupação sair da aldeia na procura de umoutro estilo de vida. Aliás, ninguém pode ou deve apontar-lhe o que quer queseja, apenas porque a ele e só a ele deve ser assacado o ónus da sua escolha. 111
  • 101. O Chico preferiu ficar a trabalhar para o tio, um agicultor de boa di-mensão, com um apreciável volume de negócios derivados dos excelentesresultados que lhe proporcionavam os muitos terrenos de cultivo de que eraproprietário. Contudo, ele não passava dum simples trabalhador do campo. Como nunca se pode dizer que estamos bem, o meu amigo poderáconfirmar, acontece que o tio começou a descuidar o amanho dos terrenos porvia das doenças que o iam debilitando, o que fez diminuir drasticamente osesperados resultados agrícolas. Foi nesta ocasião que os filhos do empresárioagrícola se chegaram à frente e tomaram em suas mãos toda a gestão do ne-gócio. Fizeram-no da pior forma, com muita soberba e sobranceria, com umadesmedida autoridade, que modificou por completo o modo de trabalhar queo seu doente pai tinha implantado. Aos dois filhos parecia ser mais interessan-te o finalizar das colheitas do que o seu desenvolvimento, a entrada de bastantedinheiro a ter que o gastar durante o processo agrícola nos campos de cultivo. Entretanto e perante o estado da situação do negócio, o Chico deixoude receber a tempo os honorários a que tinha direito e como primo que era,passou a ter tratamento diferençado dos restantesm trabalhadores, para piorestá bem de ver. A situação laboral do meu amigo degradava-se com o passardos dias, na medida em que aos filhos do patrão pouco ou nada os preocupavase estavam a agir em acordo mas as mais elementares regras de conduta entrepatrões e empregados. Sabedor do que se estava a passar, convidei uma outravez o meu amigo Chico a sair da aldeia. Mais uma vez também, ele rejeitou aminha oferta, refugiando-se agora na sua idade, para me dizer que já não eraaltura para partir. Mas de facto o Chico não era tão velho quanto queria fazer crer, poisse estava casado com uma minha prima e esperavam a chegada do primeirofilho, ele não pode ser um homem velho. Faltavam três meses para que o rebento pudesse ver a luz do dia. Segundo e seguindo a tradição da minha aldeia por volta do sexto mêsde gravidez, deviam os pais escolher o padrinho para o bebé, que por aí vinhachegando. Neste caso em concreto, o casal até à pouco nubente, mostrou ter 112
  • 102. um certo cuidado na opção a tomar, pois até elaboraram uma lista com osnomes daqueles que eles gostariam convidar para o efeito. Escolha feita, esta recaíu no chumeco da aldeia. Devo acrescentar quefiquei desagradado com a escolha, pois esperava ser eu o escolhido para sero padrinho do bebé que se preparava para chegar. Mas, convém aqui realçar,que a escolha do sapateiro até foi feita com bom senso e boa visão do futuro,porque sendo ele um homem casado, que não tinha filhos, com cerca de cin-quenta anos e, segundo constava, tinha também um razoável pé de meia, quemelhor padrinho podia o casal arranjar. Apenas se lhe apontava um defeito,gostava por demais do seu copito. O certo é que o convite feito foi de imediato aceite. Mandava então atradição que os futuros pais convidassem o eleito padrinho para um almoço,durante o qual seria escolhido o nome a dar à criança. Ao padrinho era dadaa liberdade da escolha, à qual os pais por norma não deviam dizer não. Mas,ao medo inicial dum nome invulgar, sobreveio a satisfação de ouvir o sapateirodizer que a escolha seria feita em conjunto. Nome puxa nome, nomes atrás denomes, muitos nomes, para então decidirem que se for menino se chamaráLuís Carlos, mas se for menina terá por graça Sónia Filipa. Contudo, a vida, a natureza ou porque tinha mesmo que ser assim,a surpresa aconteceu. Com efeito, a esposa do meu amigo, a minha prima,deu à luz duas belas meninas. No meio de risos, lágrimas, choros, abraços emuitos comentários, enfim, era a surpresa, alguém foi avisar o padrinho. Estecompareceu de imediato para dizer ser Sónia Maria o nome que escolhia paraa segunda menina. Um fio branco no pulso duma, um outro vermelho no da outra, fezidentificar logo ali as duas gémeas. Como aconteceu para a escolha do nome, também agora era a tradiçãoa ditar leis no modo de agir do padrinho. Assim, segundo o hábito, o costumeda aldeia passava pelo dia seguinte ao nascimento, que obrigava o escolhidopadrinho a cumprir uma das suas várias obrigações. No caso, tinha que ir àsede do concelho registar as duas meninas. 113
  • 103. Montado na sua usada bicicleta saíu bem cedo de casa, não só porqueaté à vila eram cerca de 25Km., mas, principalmente, porque queria regressaro mais depressa possível a casa, dado que a agitação destes dias tinha deixadotodo o seu trabalho atrasado. No entanto, tudo correu ao invés do programado, por culpa duma úni-ca pessoa, dele mesmo o próprio padrinho. Pelo caminho e em sinal de satisfação e celebração por ser padrinhode duas gémeas, o que era raro acontecer, parou em muitas das tabernas quefaziam venda junto à estrada. Entrava, mandava vir uma rodada, falava dosmotivos da sua ação, bebia, pagava e toca a montar a bicicleta a caminho, doseu caminho. Quando o padrinho sapateiro chegou ao registo, este já tinha fechadopara o almoço. Então, ele resolveu aproveitar bem o período de encerramento,para ir petiscar e regar bem o petisco. Tinha tempo suficiente para isso e mais,não punha em perigo a sua intenção de chegar a casa cedo. Bem comido e melhor bebido, dirigiu-se ao local dos registos de nasci-mento, pediu, pagou e começou a preencher toda aquela papelada em dupli-cado, necessária ao registo civil das suas duas afilhadas. E então aconteceu oinesperado, o que realmente não podia falhar. De facto, chegado ao local ondedevia escrever os nomes das duas meninas, o bem bebido padrinho não selembrava deles, nem mesmo do que ficara combinado com os pais das bebés.Fez várias tentativas para trazer à memória as con-versas que tivera com osseus compadres, mas a atmosfera de vapores alcoólicos que lhe enchiam acabeça, em nada o ajudaram. Como mantinha vivo o interesse de regressar a casa o mais depressaque lhe fosse possível e para não perder mais tempo, nem dar a entender oque se passava, o sapateiro acabou por registar as meninas com nomes que nomomento lhe vieram à cabeça. Devido a uma inesperada ocorrência, o padrinho sapateiro não chegoua ver nem a sentir os problemas que este seu gesto veio a provocar mais tardeà família das meninas. 114
  • 104. Que descanse em paz! Quando chegou à aldeia, já noite cerrada, o padrinho calou o ocorridono registo e foi entregar as cédulas de nascimento ao pai das gémeas, quemais não fez que agradecer ao sapateiro a disponibilidade evidenciada, para deseguida as ir guardar na habitual caixa de sapatos , lugar onde guardava todaa documentação importante. As meninas, essas, foram crescendo e semprechamadas por Sónia isto, Sónia aquilo; Sónia Filipa vem cá, Sónia Maria nãofaças isso. Não era para causar admiração como elas eram tratadas, visto queSónia Filipa tinha sido o nome escolhido por padrinho e pais no tal almoço quea tradição mandava fazer entres eles, com a finalidade decisória da graça dobebé que estava para nascer. Como a natureza tinha sido generosa para com ocasal, ao serem brindados com a duplicação das meninas, apareceu por issomais um nome, Sónia Maria. Quando as manas Sónias fizeram quatro anos, idade em que já podiamapreciar uma festa de aniversário, os pais decidiram aceder ao pedido delasfazendo um pequeno salsifré, com o bolo de velas para apagar, depois do tra-dicional cantar do parabéns a você, em dose dupla. Um ano depois, nova festa pela passagem do quinto aniversário dasgémeas. Quando chegaram aos seis anos, voltou a festa, mais um bolo de ani-versário em duplicado, mais um parabéns a você, mais a alegria que uma datadestas sempre provoca, quer nas aniversariantes quer ainda nos que têm asorte de serem convidados a estarem presentes. Contudo, e ao contrário doque se esperava, a comemoração do sexto aniversário das gémeas Sónias, nãocorreu do mesmo modo que nos anos anteriores. Havia qualquer coisa no arque anuviava o ambiente, que se queria festivo. Até parecia que estava algu-ma coisa para acontecer. Aliás, o cantar apenas uma vez o parabéns, passoudespercebido mas talvez, quem sabe, era o presságio agourento do que se iapassar. De facto, pela idade das duas irmãs, estava chegada a altura de entra-rem na escola. Para serem inscritas era necessário apresentar as cédulas de 115
  • 105. cada uma das meninas. O pai, o meu amigo Chico, foi à tal caixa de sapatos,isso, a da papelada importante, retirou as duas cédulas pessoais das filhas eteve a curiosidade de as abrir para ler. Ao fim de tantos anos, desde quando o compadre as tinha ido buscar àvila e naquela mesma noite as entregara a ele, até ao momento em que voltavaa tocar nas duas cadernetas, nunca mais lhes pusera a vista em cima. Aliás,agora e pela necessidade premente de as utilizar, era mesmo a primeira vezque as estava lendo. Leu a primeira. Largou-a tão depressa que até parecia que o pequenolivrete lhe queimava as mãos. Leu avidamente a segunda. O baque recebido foitremendo, que o fez recuar e cair sobre a cama do casal. Chamou a mulher,deu-lhe os documentos para ler e a esposa nem chegou ao fim da segundacédula de registo de nascimento, pois desmaiou quase de imediato. Afinal de contas as meninas, suas filhas, não tinham o nome de Sónia. A minha prima ficou num tal estado de inconsciência, que quase roça-va o coma vigil. À cautela, foi necessário dar-lhe assistência médica. A aldeia ficou alarmada, mal se soube de tal incongruência. Numa terratão pequena quanto a minha aldeia, uma notícia destas propaga-se a umavelocidade fora do normal. Pudera, uma novidade deste calibre não aparecetodos os dias, se é que alguma vez tenha ocorrido algo semelhante em qual-quer outro lugar. O povo sem que se saiba bem porquê, começou a tomar partido peran-te a situação, tornando o assunto como sendo da comunidade em geral e nãocomo fazendo parte das preocupações da família do meu amigo Chico. Curiosamente, nunca os nomes daquelas meninas foram tanta vez pro-núnciados, como estava a acontecer. Na mercearia, na taberna, no café, emqualquer outro lugar não se falava de outra coisa que não fosse na troca denomes das duas crianças. Grande parte da população nem sabia bem o quese estava a passar. Uns diziam que elas tinham sido registadas com nomes derapaz. Outros que afinal elas tinham nomes de animais que as pessoas em 116
  • 106. geral detestavam. O nosso povo! Entretanto o Chico, para evitar a exposição mediática das duas criançasao ambiente quase doentio que se vivia no lugar, decidiu-se por as retirar paraoutro local, em concreto levou-as para casa da irmã mais velha que vivia bemlonge da nossa aldeia. Quase quase na mesma altura, alguém se lembrou jun-tar um grupo de homens e mulheres e assim formar uma comissão que cha-mou de Comissão Popular de Apreciação da Troca de Nomes. Claro está que oChico mais a minha prima nem os podiam ver, quanto mais falar com eles. Os componentes desta tal Comissão da Troca de Nomes, defendiamque se as duas meninas não foram registadas como Sónias, então deviam serinsónias. Também a maioria dos aldeãos, que culpavam os pais pelo que tinhaacontecido, foram manifestar o seu desagrado em frente da casa onde viviamo Chico mais a minha prima. Vociferavam em uníssono: insónias, insónias, insónias, são insónias! Certo é que nas noites que se seguiram o Chico mais a mulher nãopregaram olho, só a pensarem que as suas duas filhas, a quem sempre cha-maram Sónias, afinal não o eram. O que eles tinham agora eram insónias,pelo que não admira passarem noites seguidas em claro, sem conseguiremdormir. Foi nesta ocasião, em que a presença das insónias era por demais evi-dente, que o casal conseguiu trocar algumas impressões sobre uma série depequenas ações que o desaparecido compadre sapateiro cometia no dia a dia.Esta pequena conversa permitiu-lhes concluir, sem certezas porém, porquetinham eles as suas insónias. Entretanto, a tal Comissão dos Nomes, conseguiu saber por portas tra-vessas o nome com que o falecido padrinho sapateiro tinha registado as duasmeninas. Uma delas foi batizada por Duartina Josefa, nem mais que o nomefeminino do padrinho, o Duarte sapateiro, mais o primeiro nome da sua mu-lher. A outra de Dionisia Ramira, que nem a Comissão conseguiu descobrir aorigem. De facto as manas gémeas não eram Sónias, por isso eram insónias, 117
  • 107. era o que defendia a Comissão da Troca de Nomes. Por outro lado, os nomesde registo escolhidos pelo Duarte sapateiro eram de tal forma inconsequentesque, esses sim é que provocavam mesmo insónias. Apesar de já conseguirem dormir um pouco melhor, o Chico e a minhaprima por nada deste mundo querem deixar abalar as suas insónias. Afinal de contas, Sónias ou insónias serão sempre suas filhas. 118
  • 108. Contos dosJURADOS 119
  • 109. Cecilia Maria Vidigal Ferreira, jurada do 24º Concurso Internacional de Contos da Cidade de Araçatuba, escritora (licenciada em Artes Plásti- cas, bacharel em Jornalismo, pós-graduada em Linguagem e Comunicação), editora e revisora, é autora dos livros de poemas “Instantâneos” (Mas- sao Ohno), e “Vinhos” (Nankin), e do romance “Boi de Piranha e a Imensidão do Desejo”. A cronista do jornal Folha da Região (coluna Tetê-à-Tetê), é mem- bro da Academia Araçatubense de Letras – AAL –, e da União Brasileira de Escritores – UBE. Insuflando adágios Cecilia Ferreira N isso de promessa é dívida os pais cumpriam tudo. Por isso Luzia, em alma e hálito, cria. Criam, os três, venceria ela mais este seco inverno, agoratão cheio de novas promessas. Houve quem dissesse: se na casa não há sossego, em junho é que nãohá de haver. Casa é exagero, por isso gostava de pensar: lar. Porque, depois de em-pilhar e amarrar as poucas tralhas empurrapuxadas na pequena carroça quehá tempos não via o seu cavalo, vendido pra pagar despesas de ir e vir à cidademaior, doce veio a ser o desvão em que seus pais se acomodaram. Brandocomo as saudades do chão havido. Fixaram-se naquela pela boca, mais tentassem iriam à Roma. Já estavabom, ali tinha doutor de tratar pulmão. O melhor da região, diziam. De prole, por sorte, só ela; de mais os pais. Sabe Deus o que faz. 121
  • 110. Na casa desassossegada o descanso, raro, piorava; não porque fossemês de festejados santos, mas pela ânsia do cumprimento da promessa quefinalmente lhe faria a respiração mais suave. O grande segundo sossego seria o aumentar do serviço nos dias deferiado, quando o veículo da vinda, agora acostumado a carretos, ainda corriao município recheando-se de sobrevivência: papelão, latinha, pets, e de quebramobílias ou utensílios que o pai, como Deus é, consertava e a mãe dispunhadando vagarosamente ao lugar ares de morada. Mas à Luzia bastava o aroma do lar, que se o ar era pouco, nunca faltouflor emprestada de algum jardim enquanto esperava, quietinha, o retorno dosseus com provimentos, nem carinhos e sorrisos dos que sabem que a vida éboa, breve, e que o tempo não para. A residência, improvisada, não comia dinheiro: banheiro da praça logoali, e luz fácil de rua escondendo a da lua, tanta que nem era preciso apagarpra dormir. Já, da saúde, nem tudo vinha de graça conforme o prometido; que,vai ver, o governo também tinha lá suas dívidas e, como eles, pretendia pagar.Em dívida grande a demora é maior..., tinha que ser isso, imaginava. No Recanto da Ponte, como nomearam o lugar tão cuidadinho ele era,cantava-se a César o que é de César. Era habitação sem trancas que, podendoser roubada antes como depois, dava vista pra pista. Contornando aquele viadu-to, rumo à rodovia, passavam lentos os prepotentes blindados. Iam reluzentes,exibindo por detrás de janelas escurecidas os seus possuídos. Os possantes,donos daqueles fartos homens públicos enfastiados de mídia e questionadoresdos interesses de todos, mal deixavam que se lhes adivinhasse pelos lábios ossabidos discursos: a ocasião faz o ladrão; a palavra é prata, o silêncio é ouro;antes fanhoso que sem nariz; ao rico não faltes, ao pobre não prometas. Em certas épocas, esquecidos dos próprios ditos, os doutos da coisapública prometiam, porque afinal em tempo de guerra mentira é como terra;e voto pode ser como foto, comprova mas não é a toda prova; e o que achavamfeio de fato, e nunca fizeram fita, era não poder carregar o que lhes coubessenos fartos braços. Então prometeram o que era bonito prometer, o que era 122
  • 111. tranquilo pra eleger. Sempre a consultar seu livro predileto, raciocinava a frágil Luzia: se elatão pequenina se ardia na queimação pulmonar, e de males muitos só o bempode advir, também talvez eles, ou os filhos deles, se abrasassem. Nisso de ar,ela sabia, o dela e o deles era igual. Ou não? Esperou festiva mais aquele junho de nédios santos e plenas esperan-ças. Na cidade, o início, foi pena para a mãe. Veio a aprender no hospital quefogo queima oxigênio e resseca o ar. Lembrava-se bem, no primeiro junho sobo vão que agora ocupavam, tendo achado santo de pé quebrado nas andançascarroceiras, o pai quis fazer altar pra que sua ajuntada acendesse velas emhonra do poder maior. Foi quando o médico ensinou que santo de casa alémde não fazer milagre não tem poder pra impedir fogo de consumir o oxigênio. Por continuar acreditando nos santos, como em promessa ser dívida,restou-lhes aguardar o cumprir dos homens de lei: a partir de tal data nadamais seria queimado, cerne de flora, ou de fauna. Homens eram fauna, achara graça Luzia ao encontrar essas palavrasnoutro livro. Agradeceu em suas orações ter aguentado chegar ao ano da pro-messa: seriam mais caminhões a carregar plantio, mas muito menos fumaça;que sem queimadas o fogo que arderia estaria mais nas ganâncias insatisfeitasdo que nos campos. E, já que uma andorinha só não faz verão, deu de prome-ter alegrias também. Quando sarasse, disse à enfermeira, viesse o que viesse,nunca, mas nunquinha, nunquinha mesmo, insistiu, iria morar longe dospais que lhe faziam a vida mais doce. Veio a cirurgia, a alta precoce (que pobre não cobre leito com erva ver-de) e a recomendação médica: além dos comprimidos deixem que a menina,como o nome, pra fazer mais luz tome muito ar. Nada mais fácil de providen-ciar num lar descortinado por natureza. Tristeza foi o prejuízo do catador, naquele São João de manjericão re-pleto de latinhas e garrafas que rendidas aos encantos de outros carroceirosdiligentes não puderam aguardar por ele. De lucro, dos muitos cravos e cri-sântemos, só a beleza depositada na caixinha que a mãe pintou de branco e 123
  • 112. bordou em florinhas azuis, coroas de lágrimas secas. A urna recheada como silenciado tesouro, ficou bonita, enfeitada que só vendo. O corpinho nemesfriava tanto era o cobertor de flores funéreas oferecidas por floristas conhe-cidos. Coisa de se pagar a perder de vista. Luzia não foi chorada porque a desgraça foi grande, e mesmo não sen-do bobagem quem quer chorar defuntinha pobre de dar dó? Na tosse contínua daquela noite os pontos se esgarçaram nela comona blusinha preferida, ambas puídas no esforço de se manterem limpas. A he-morragia deu pano pra manga, tanto que sobrou para toda a mortalha, expli-caram ao viandante quase amigo. A noite da partida da menina foi bonita, disseo mendigo, vocês devem ter ficado contentes, escuridão de noite iluminada... E como o silêncio calasse raso continuou consolador: quero ter morteassim, luzinhas aos milhares, cada pé de cana-de-açúcar? uma vela..., viramque escalão de chegar aos céus?, rolos cor de chumbo grandes e largos feitouns degraus de escadaria de palácio santo, bonito mesmo! Na urbanidade incrustada entre campos nunca ninguém descobriuquem, durante algum tempo ia de igreja em igreja (entre a cata de uma latinhae outra) soprando velas votivas (e fazendo secretamente orações pela lucidezdos homens). Coisa do demo gritavam as beatas da pacata cidade cercada deplantações de cana. Na ousadia crescente, por fim, na noite em que juntos tentaram vencermais do que a combustão de velas em um canavial próximo, um vento detrivela os conjugou em brasas. Restou do casal apenas o carvão. Tão afeitos a certos provérbios, como foram se esquecer de mais preve-nir e menos remediar, perguntaram os floristas no prejuízo. No desvão, tempestades desmoronando aos poucos os restos do quefoi lar viravam as páginas de um velho livro uivando sentenças: de afirmação?Ou, por tratar de quem era de cumprir palavra pelo fio do bigode do pai, per-guntassem, talvez: — Aquilo foi sopro de Luzia sarada vindo cumprir promessa... (?) 124
  • 113. Francisco Antônio Ferreira Tito Damazo, jurado deste 24.º Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba, é escritor, professor pós-graduado em Letras (doutor), coordenador do curso de Letras no UniToledo, autor de Insubmissão (poemas), Contra- baixo (poemas) e Ferreira Gullar: uma poética do sujo (ensaio). O cronista do jornal Folha da Região (Coluna Poetagem) é membro da União Brasileira de Escritores – UBE – e Academia Araçatubense de Letras – AAL. Perfeccionismo Tito Damazo A quela cabeça negra encarapitada sobre o muro. Às vezes lá estava. Como se estivesse decepada e ali, fixa, ficava olhan- do-o em sua corrida. Estranho. Incômodo. Também nunca procurou sabê-lo. De vez emquando, lá, os olhos grandes e negros daquela cabeça sem corpo sobrepostaao muro acompanhando suas voltas no campo de beisebol. Mais de uma década praticava ali seu cooper. Era comum correr emderredor aos treinos de beisebol praticado pelos sócios do clube. Eles própriosevitavam reiniciar jogadas, quando passava correndo por trás de um rebatedor.Já fazia parte como uma espécie de fundo daqueles jogos-treino. Aquela cabeça. Aparecia sempre quando estava sozinho. Por quê?Admirava-o? Cobiçava fazer o mesmo? Por que o todo não se sobrepunha aomuro? De certo porque não pertencia ao quadro de sócios. Ficava somente nacobiça. 125
  • 114. Um dia vira-a de relance no corpo másculo de homem negro numamotocicleta. Não se enganara. Era ela. Vira-o não mais que essa vez. Entre-tanto, volta e meia, lá, novamente, sobre o muro. Já o perturbava isso. Nadamudava, nem ele se decidia ir até lá saber por que. Naquele dia, surpreendentemente, deparou-se com alguém que aliestava correndo. Supersurpresa. Era ela. A cabeça do muro do corpo do ho-mem negro da motocicleta. Massa atlética correndo passou, não o fitando se-quer. Mas era uma corrida incorreta. As pontas dos pés comandavam oandamento. Não chapinhavam o chão os calcanhares impulsionando a corretapisada. O que não dava eficiente desempenho, tampouco elegância. Luzidia negrura dourada pelo ameno sol de fim de tarde movimen-tando-se numa cadência pesada, desengonçada. Chuteira barata calçada semmeia. Não cumpria a volta inteira. Cortava, numa visível impaciência, os con-tornos. Os pés batendo sem os calcanhares davam à corrida uma imagemgrotesca, ridícula. Ele, por fim, pôs-se à sua rotina, correndo como fazia quase sempreobservado por aqueles olhos, cuja cabeça postava-se sobre o muro e que, ago-ra, pregada no corpo do homem negro da motocicleta, também corria na pistaque até então apenas espiara. Sérgio, vizinho que tudo sabia, dissera-lhe que se tratava de um perigo-so e temido traficante, aquele negrão. Morava nas imediações. Todo o mundosabia. A polícia sabia. Entretanto, não importunavam o cara. Sim, uma vezfizeram uma blitz. Cercaram a casa. Deram voz de prisão. O cara saiu calma-mente, dizendo não entender aquilo. Apresentou documentação comprobató-ria de que não era quem procuravam. A polícia até se desculpou e saiu aindamais desacreditada. O cara sabia bem das coisas. Às vezes, viam-no correndona rodovia. A Cabeça negra transpusera o muro onde costumeiramente se fixavae fora, feito um invasor, correr na pista em que corria o sujeito que durantemuito tempo apenas espiava pendurada no muro. 126
  • 115. Não se cumprimentaram. Os olhos claramente hostis se relancearammutuamente. Porra! Aquele energúmeno invadira seu espaço. Queria o quê?Corria desengonçado. Pezão descalço pisando com a ponta dos pés. Um cor-redor bronco. Sim, espadaúdo. Músculos expostos pelo corpo semidesnudoreluzindo um brilho de suor na pele escura. Porra! Queria o quê ali, aquele traficante duma figa, que ousadamen-te fora além de seus limites? Acaso estaria querendo contestar sua forma decorrer? Não se enxergava? Um trôpego invasor percorrendo terreno alheio. Daria a lição. Pôs-se a correr com toda a elegância que sabia ter.Pés pisando devidamente com a impulsão correta dos calcanhares. Punha-seereto. Corpo empertigado. Cabeça erguida, olhando adiante, não para o chão,como ele fazia. Sentia-se um puma a galopar em poses invejáveis. Humilhavaaquele negro invasor. Mais caprichava quanto mais se superiorizava. Expunha naquela cor-rida toda a sua categoria, como se estivesse em pista de competição, mostran-do aos milhares de espectadores extáticos e embevecidos todo o seu perfeccio-nismo: agilidade, equilíbrio, beleza e radipez. Mal via a massa negra pela qualàs vezes passava. Era o negrão um tropel estabanado. Ele, leve, ágil, lépido. Umpuma. Ignorava já por completo o outro. Massa negra disforme. Um hipo-pótamo ousado. Que, aliás, já se esvaíra da pista. Não o via mais. Foi-se, semdúvida, esmagado que fora por sua elegância. Debandado por sua perfeição.Vislumbrava apenas os pés seus tocando o chão no impulso perfeito da corridamagistral. Esmagara o negro traficante, intruso. Por certo ficara tão desconcer-tado que se escafedeu, não o deixando perceber isso. Meses depois, sem vê-lo de novo. Ficava até com saudade de ver aquelacabeça negra encarapitada, escorada no muro, enquanto o espiava perfilhan-do-se em sua eclética corrida. Perdera-o na lembrança. Dera já por definitivoaquela derrota ao seu invejoso, que não mais aparecia com a cabeça escoradano muro a olhar sua performance. Naquele dia, quando iniciava sua antepenúl-tima volta, foi que surpreendentemente notou no muro seu reaparecimento. 127
  • 116. Não exatamente como acontecia. Era sem nenhuma dúvida a cabeçanegra encarapinhada. Todavia, encimava o meio corpo apoiado pelos braços.Era mesmo o espadaúdo cara que, depois de muito ausente, tornava. De ma-neira diferente, porém. Esmerou-se em novamente exibir seu ecletismo atlético para subju-gar de novo e enxotar em definitivo o ausente traficante. Viu, todavia, que algode novo acontecia. O cara tinha nas mãos uma arma. Parecia uma escopeta.Era uma escopeta. Por que diabos aquilo?! De certo o negro traficante sequerdera-se ao trabalho de guardar a arma com que se resguardava. Súbito, conheceu que ele o tinha na mira. Meu Deus, por quê?! Entrea incompreensão e o pavor via que a arma, em cujo dorso dormia um olhodo negro, o acompanhava na corrida. Decidiu parar imediatamente. Já estavamesmo no fim. Então ouviu o negro berrando não pare! Não pare! Continue corren-do, seu filho da puta! Não soube por que, sentiu dominá-lo um ódio brutal.Um ódio mortal daquele negro invejoso e covarde. E pôs-se a xingá-lo de ban-dido! Invejoso! Negro traficante, filho da puta! Eu sou melhor, muito melhor!Eu sou perfeito, seu búfalo, seu hipopótamo! Tal era o ódio que nem ouviu o estampido do tiro desfechado. Único.Certeiro. A aguda dor. Uma fisgada embaixo do peito. E como um pássaroalvejado em pleno voo desmantelou-se ao solo. Mas enquanto pôde, a boca em sangue, vomitou ódio contra a cabeçaencarapinhada do energúmeno negro traficante invejoso de seu gênio ecléticode corredor. 128