Resistência
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O que se faz com o que não se sabe?

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    Resistência Resistência Document Transcript

    • Curso de Formação Básica em Dinâmica dos Grupos Porto Alegre – RS Coordenação: Isabel Doval, Ana Sílvia Borgo Resistência: o que se faz com o que não se sabe? DANIELA FONTOURA DOMINGUES ISABELLE KARAM PUCCI DIAS PATRÍCIA MARKUS TATIANA SCUR ZAMINSBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 1
    • Resumo – O presente trabalho consiste num estudo de caso sobre o fenômeno da resis-tência, os desdobramentos, implicações e repercussões no processo de um grupo. O filme“A Vida no Paraíso” serve como objeto desse estudo pelo fato de apresentar subsídiosque permitem a observação, investigação e levantamento de hipóteses acerca do tema. Ateoria Psicanalítica de Sigmund Freud e a teoria de W. Bion sobre grupos apresentamuma abordagem ampla e consistente a respeito do processo de grupo que servem parafundamentar o estudo que nos propusemos, de investigar a influência da autoridade nomodo como o grupo elabora a sua resistência.Palavras-chave – Resistência. Processo de grupo. Influência da autoridade na resistên-cia. Desenvolvimento de grupo. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 2
    • SUMÁRIO1. Introdução ...................................................................................................................42. Justificativa .................................................................................................................43. Foco.............................................................................................................................54. Objetivos .....................................................................................................................55. Metodologia ................................................................................................................56. Revisão de literatura ...................................................................................................57. Análise ......................................................................................................................118. Considerações finais .................................................................................................18Referências.........................................................................................................................19Anexos ...............................................................................................................................20 SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 3
    • 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho consiste num estudo de caso sobre o fenômeno da resistência,os desdobramentos, implicações e repercussões em um processo de grupo. O filme –“AVida no Paraíso” – serve como objeto desse estudo pelo fato de apresentar subsídios quepermitem a observação, investigação e levantamento de hipóteses acerca do tema. O trabalho desenvolvido está dividido em três partes: fundamentação teórica, in-tegração/discussão do filme e conclusão. O suporte teórico utilizado norteou o rumo dasobservações na medida em que ofereceu elementos facilitadores para a integração do ma-terial. Foi escolhida como linha teórica a psicanálise, a partir de Freud e Bion. Optou-sepor este aporte teórico por considerarmos que tais autores apresentam uma abordagemampla e consistente a respeito do processo de grupo com o foco na resistência. Através doentendimento freudiano foi possível compreender como surgiu o termo e como aconte-cem as relações de autoridade, hierarquia, limites e que implicações têm no processo dosgrupos. Bion, por sua vez, ao trabalhar os supostos básicos e as conseqüências deste fe-nômeno para a realização da tarefa, oferece recursos para o entendimento do que ocorrena relação de um grupo com seu líder. Bion questiona e instiga a refletir sobre o que im-pede que o grupo realize sua tarefa, como o grupo enfrenta as frustrações e de que formalida com a resistência. A hipótese que pretendemos testar com este estudo refere-se ao movimento que ogrupo faz para enfrentar e elaborar sua resistência: quando um integrante começa a expli-citar sentimentos no grupo, esta atitude depende do facilitador, e esta atitude influencia atodos os seus membros a fazerem o mesmo, isto é, colocarem o que sentem e assim, ex-perimentando-se, revêem seus conteúdos antigos, causadores dos movimentos de resis-tência podendo, finalmente, ressignificá-los.2 JUSTIFICATIVA De acordo com as determinações do curso de formação em coordenadores de gru-po pela Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos, o assunto escolhido partiu da ini-ciativa de um subgrupo de formandos interessados em entender melhor o tema da resis-tência. Em virtude do fenômeno da resistência estar presente desde o primeiro encontrodeste grupo de formação – sob diferentes formas e em diferentes momentos – trouxe àdiscussão o sentido que tal fenômeno tem para os grupos. A força motivadora para a rea-lização do presente estudo de caso, partiu do desejo dos formandos em entender qual par-ticipação têm como membros de um grupo e como ocorre a resistência no processo domesmo. Ao longo da formação foi possível experimentarmos dificuldades e enfrentarobstáculos na medida em que surgiram as tarefas a serem cumpridas. A partir da vivência do tema, aliado ao exercício do estudo de caso, é que foi pos-sível levantar hipóteses e integrar a teoria à prática. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 4
    • 3 FOCO O foco do trabalho é compreender o fenômeno da resistência a partir das manifes-tações observadas em um pequeno grupo.4 OBJETIVOS O objetivo geral é proporcionar o entendimento da resistência e suas repercussõesem um processo de grupo através da análise de um filme. Os objetivos específicos são conceituar o fenômeno da resistência e suas manifes-tações no comportamento dos membros do grupo, levantar hipóteses a respeito da obser-vação deste fenômeno, identificar, compreender e relacionar a teoria ao material escolhi-do e oportunizar o crescimento dos investigadores, enquanto sujeitos e agentes do fenô-meno da resistência, como membros de um pequeno grupo.5 METODOLOGIA O trabalho realizado utilizou o filme “A Vida no Paraíso” como instrumento deanálise e compreensão do fenômeno da resistência. A partir das relações dos membros deum grupo entre si e com a figura de autoridade foram tomadas cenas e diálogos para ilus-trar o que a teoria escolhida contempla sobre os movimentos deste grupo. As falas transcritas do filme na Discussão servem como suporte para ampliar acompreensão do caso por meio de exemplos e descrição das cenas, dos personagens, docontexto da trama.6 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Freud – o precursor Considerada a pedra angular da prática analítica, ainda hoje diferentes autores têmestudado o fenômeno da resistência. Freud (1893) utiliza o termo resistência pela primei-ra vez a partir do trabalho com suas pacientes histéricas em que tentava fazer vir à tonalembranças esquecidas. Oriunda da palavra alemã widerstand em que wider significa “contra”, foi com-preendida, a princípio, como obstáculo ao processo analítico. O termo resistência, porlongo tempo, foi empregado com uma conotação pejorativa. A própria terminologia utili-zada para caracterizá-la, em épocas passadas (de certa forma, ainda persistindo no presen-te), era impregnada de expressões típicas de ações militares, como se o trabalho analíticofosse uma beligerância do paciente contra o analista e vice-versa. Na evolução dos seus estudos, Freud ampliou o conceito de resistência. Percebeuque o fenômeno não se destinava somente à recordação de lembranças indesejáveis, mastambém contra a percepção de impulsos inaceitáveis, de natureza sexual, que surgiamdeformados. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 5
    • As resistências, segundo o Freud, são repetições de todas as operações defensivasutilizadas pelo paciente em sua vida passada. Embora alguns aspectos de uma resistênciapossam ser conscientes, uma parte fundamental é realizada pelo ego inconsciente, sendoque sua causa imediata é sempre evitar algum afeto doloroso como a ansiedade, culpa ouvergonha. No final de um processo terapêutico analítico, descobrir-se-á que é o medo deum estado traumático que a resistência está tentando evitar. Segundo Zimerman a resistência provém sempre do ego podendo ser conscienteou inconsciente. Ela pode expressar-se por meio de emoções, atitudes, idéias, impulsos,fantasias, linguagem, somatizações ou ações. Ou seja, todos os aspectos da vida mentalpodem ter uma função de resistência e cada indivíduo possui um repertório próprio demanifestações resistenciais expressas das formas menos objetivas às mais diretas, o quedemonstra a complexidade da questão. Ainda de acordo com Zimerman (1999), para Freud em “A interpretação dos so-nhos”, os conceitos de resistência e de censura estão intimamente relacionados: a “censu-ra” é para os sonhos aquilo que a “resistência” é para a associação livre. Neste trabalho,em suas considerações sobre o esquecimento dos sonhos, Freud deixou postulado queuma das regras da psicanálise é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho psica-nalítico é uma resistência. Estudando Bion, médico, psiquiatra e também psicanalista, estudioso dos fenôme-nos grupais, entre outras contribuições, verifica-se que ao referir-se aos fenômenos ob-servados nos diferentes grupos que trabalhou, ele utiliza-se de uma terminologia específi-ca. O pensamento central de Bion (1970) é que em todo grupo dois grupos estão presen-tes: o “grupo de trabalho” e o “grupo de suposição básica”. O grupo de trabalho é aqueleaspecto do funcionamento do grupo que tem a ver com a real tarefa do grupo. O grupo detrabalho toma conhecimento de seu propósito e pode definir sua tarefa. A estrutura dogrupo é para alcançar a realização da tarefa. Os membros do grupo de trabalho cooperamindivíduos e discretamente. Cada membro do grupo pertence a isto é sua escolha ver queo propósito do grupo seja cumprido. Ele está então, com a tarefa do grupo, identificadocom seu interesse. O grupo de trabalho constantemente testa suas conclusões com umespírito científico. Busca conhecimento, aprende por experiência e constantemente per-gunta como pode alcançar melhor sua meta. Está claramente consciente da passagem detempo e dos processos de aprendizagem e desenvolvimento. Tem um paralelo com o egono indivíduo, no significado Freudiano, da pessoa racional e madura. Uma grande parte da teoria de Bion preocupa-se em saber por que os grupos nãose comportam do modo sensato descrito como sendo a característica do grupo de traba-lho. O grupo de trabalho é só um aspecto do funcionamento do grupo. O outro aspecto éo que Bion chama de o grupo de suposição básica. Essas suposições estão configuradaspor emoções intensas e de origem primitiva. De acordo com Grinberg (1973) ao citar Bion, os impulsos emocionais subjacen-tes no grupo, as suposições básicas, expressam algo assim como fantasias grupais, de tipoonipotente e mágico, relacionadas com o modo de obter os seus fins ou satisfazer seusdesejos. Esses impulsos, que se caracterizam pelo irracional de seu conteúdo, têm umaforça e uma realidade que se manifesta na conduta do grupo. As suposições básicas sãoinconscientes e muitas vezes opostas às opiniões conscientes e racionais dos membrosque compõem o grupo. A partir do que foi formulado por Bion, Grinberg coloca no livro “Introdução àsIdéias de Bion” que todos os supostos básicos são estados emocionais tendentes a evitar afrustração inerente ao aprendizado pela experiência, aprendizado que implica esforço, dor SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 6
    • e contato com a realidade. Em “Experiência com grupos” (1970), Bion afirma que a par-ticipação na atividade da suposição básica não exige treinamento, experiência ou desen-volvimento mental. Ele diz: Em contraste com a função do grupo de trabalho a atividade de suposi- ção básica não faz sobre o indivíduo exigências de uma capacidade a cooperar, mas depende de possuir aquele o que chamo de valência – termo tomado de empréstimo à física para expressar a capacidade de combinação instantânea e involuntária de um indivíduo com outro para partilhar e atuar segundo uma suposição básica. A função do grupo de trabalho acha-se sempre à mostra com uma – e apenas uma – suposição básica. Embora a função do grupo de trabalho possa permanecer inalte- rada, a suposição básica contemporânea que impregna suas atividades pode mudar com freqüência; pode haver duas ou três modificações a cada hora ou ser a mesma suposição básica por meses a fio (p. 141). Acrescenta ainda sobre o tema das suposições básicas que todas incluem a exis-tência de um líder, embora no grupo de acasalamento o líder seja inexistente, isto é, futu-ro. Este líder não precisa ser identificado com qualquer indivíduo do grupo; não necessitaser nem mesmo uma pessoa, mas pode identificar-se com uma idéia ou um objeto inani-mado. No grupo de dependência, o lugar de líder pode ser preenchido pela história dogrupo. Para Bion (1970) a primeira suposição básica é a de que o grupo se reúne a fim deser sustentado por um líder de quem depende para a nutrição, tanto material quanto espi-ritual, e proteção. Neste primeiro suposto básico – chamado de dependência – o gruposustenta a convicção que está reunido para que alguém proveja a satisfação de todos osseus desejos e necessidades, alguém de quem o grupo depende de forma absoluta, poisseus membros agem como se eles não soubessem nada; como se fossem criaturas inade-quadas ou imaturas. Neste estado emocional o grupo insiste que todas as explicações se-jam extremamente simples; ninguém pode entender de alguma complexidade; ninguémpode fazer qualquer coisa que seja difícil; mas o líder pode resolver todas as dificuldades,só ele é capaz. Ele é idealizado como um tipo de deus que cuidará de suas crianças. Olíder é tentado para assumir este papel e ir junto com a suposição básica do grupo. O mesmo autor coloca que a segunda suposição básica é de que o grupo reuniu-separa se preservar e que isto só pode ser feito lutando com alguém ou de alguma coisa oufugindo de alguém ou de algo. Ele está preparado para assumir qualquer das duas atitu-des, indiferentemente. Bion chama este estado de luta-fuga; o líder aceito de um gruponeste estado é aquele cujas exigências sobre o grupo são sentidas como concedendo opor-tunidades para a fuga ou para a agressão e se fizer exigências que não sejam essas, seráignorado. Conforme Grinberg (1973), sobre a teoria em questão, o objeto mau é externo,e a única atividade defensiva diante dele consiste em destruí-lo (ataque) ou evitá-lo (fu-ga). Este grupo de suposição básica é antiintelectual e hostil à idéia de auto-estudo; auto-conhecimento pode ser visto como uma tolice introspectiva. Em um grupo cujo propósitoou tarefa é o auto-estudo, o líder perceberá quando o grupo estiver operando na suposiçãoluta-fuga quando suas tentativas ou serão obstruídas por expressões de ódio contra todasas coisas e introspectivo, ou por vários outros métodos de ausência. O grupo bate-papo,conta histórias, chega tarde, está ausente ou se ocupa de inumeráveis atividades em tornoda tarefa. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 7
    • O terceiro suposto básico é o de acasalamento que se refere à crença coletiva e in-consciente que quaisquer que sejam as dificuldades e problemas um fato futuro ou um serainda por vir os solucionará. Bion diz que o sentimento de esperança é característico des-se grupo de acasalamento e deve em si próprio ser tomado como prova de que esse grupose acha em existência mesmo quando parecem faltar provas. É ele próprio tanto precursorda sexualidade como uma parte dela. Bion afirma: Os sentimentos assim associados ao grupo de acasalamento encontram- se no pólo oposto aos sentimentos de ódio, destrutividade ou desespero. Para que os sentimentos de esperança sejam sustentados, é essencial que o “líder” do grupo, diferentemente dos líderes do grupo de dependência e do grupo de luta-fuga, seja futuro. Será uma pessoa ou uma idéia que salvará o grupo – na realidade, dos sentimentos de ódio, destrutividade, ou desespero de seu próprio grupo ou de outro – mas a fim de realizar isso, evidentemente, a esperança messiânica nunca deve ser alcançada. Apenas enquanto permanece sendo uma esperança, é que a esperança persiste. A dificuldade é que, graças à racionalização da sexualidade nascente do grupo, a premonição do sexo que intervém como esperança, há uma tendência para o grupo de trabalho ser influenciado na direção da criação de um Mestre, seja ele pessoa, idéia ou Utopia (Bion, p. 139). Para um efetivo funcionamento, as suposições básicas devem estar a serviço da ta-refa. A tarefa é como um pai sério que olha em direção a um planejamento inteligente. Assuposições básicas são como as crianças brincalhonas ou assustadas que querem a satis-fação imediata dos seus desejos. O que Bion enfatiza é que ambos existem, e que ambossão necessários. O grupo de suposição básica, porém, existe sem esforço. O grupo detrabalho requer toda a concentração, habilidade e organização das forças criativas quepodem ser reunidas. A capacidade de cooperação e esforço dos membros do grupo e issonão se dá por valência e sim por um certo amadurecimento e treinamento para participardele. É um estado mental que implica contato com a realidade, tolerância à frustração,controle de emoções; é análogo, em suas características, ao Ego como instância psíquicadescrita por Freud. Mas os indivíduos parecem temer serem subjugados pela suas valên-cias no grupo; ou, de outra forma, temem ser subjugados pelas suposições básicas. Mas oindivíduo em um grupo sempre não está convencido disto. Quando os indivíduos em umgrupo sentem que perderam ou estiveram a ponto de perder suas individualidades, podemexperimentar pânico. Isto não significa que o grupo desintegra, porque pode continuarcomo um grupo de luta-fuga; mas significa que o indivíduo se sente ameaçado e muitoprovavelmente regrida e manifeste expressões de resistência. Zimerman (2004) ao citar Bion – sob o ponto de vista clínico – coloca que emboraele reconheça o caráter obstrutivo e maligno que representa para a evolução de algumaanálise o emprego de certas formas resistenciais, sua maneira prioritária de encará-las éconsiderando que as resistências manifestas no curso da análise reproduzem a estruturacaracterológica do ego do paciente. São um indicador fiel de como esse paciente se de-fende e se comporta na vida real. Bion (1970) concebe a resistência como uma constru-ção de ego do indivíduo para se defender dos perigos reais e imaginários, que lhe pare-çam ameaçar. Ele ainda, sente um respeito saudável pelas capacidades das pessoas parafuncionar em um nível de trabalho. Bion pensa que os grupos que se encontraram paraestudar o próprio comportamento, a interpretação consistente das tendências de suposi-ções básicas os trará gradualmente à consciência e diminuirá a ameaça. O paralelo aqui SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 8
    • com a psicanálise, dos impulsos inconscientes está claro. Presumivelmente, quanto maisconsciência da suposição básica do grupo, mais a o grupo de trabalho pode emergir emfuncionamento efetivo. Neste momento vale ressaltar que todas as suposições básicas de Bion incluem aexistência de um líder, como já visto. Theodore Mills (1970), quando fala das relaçõesemocionais inconscientes entre membros do grupo, e em que uma pessoa tem um podersuperior indiscutível sobre os outros, cita a obra de Freud, “Totem e Tabu”, que faz refe-rência à descrição da horda primitiva. O autor traz os principais aspectos da descrição doautor: O pai (e chefe) é onipotente e absolutamente narcisista. Seus desejos pessoais são satisfeitos, sem consideração pelos outros. Dirige um ban- do de filhos impotentes que dependem dele para proteção, mas que são privados de todas as fontes de satisfação, entre as quais se inclui o sexo. O chefe fica com todas as mulheres. É respeitado e odiado pelos filhos. O desejo que estes têm de matá-lo é imobilizado, em primeiro lugar, pe- lo medo de vingança no caso de um fracasso, e, em segundo lugar, pelo medo e serem mortos pelo mais forte dos irmãos no caso de consegui- rem matar o pai. As mulheres (que praticamente não são mencionadas por Freud) aparentemente aceitam a superioridade masculina do chefe. Medo, respeito, ódio, atração, onipotência, impotência, satisfação total, privação total – essas são as emoções que, numa organização específica, constituem a horda primitiva. A onipotência narcisista, de um lado, a impotência narcisista, de outro, são seus aspectos fundamentais (p. 114). Assim, o Pai da Horda Primitiva protege e castiga. Os elementos do grupo o colo-cam no lugar de ideal do eu, possibilitando a identificação entre si através do ideal, que écomum a todos. As pessoas do grupo ficam coesas, ligadas entre si pela afetividade. “O homem sempre defenderá sua reivindicação individual contra a vontade dogrupo”. Com isto Freud (1929) diz que não é de bom agrado, por solidariedade que aspessoas se submetem às leis do coletivo, tentarão sempre conseguir formas de se satisfa-zerem sem ter de “pagar a conta” e principalmente, tentando situações e justificativas quepermitam escapar do severo, onisciente e onipresente censor interno. Alguns tentam sen-tir-se narcisicamente melhor que os outros por seguirem regras e preceitos de forma rígi-da, afastando de si o “incômodo” decorrente da percepção de que os “maus” não sofremconseqüências pelos seus atos e na maioria das vezes sentem-se melhor. Contudo, esteinvestimento narcísico não os deixa livre do mal estar decorrente das suas insatisfações,tornando-os mais sádicos consigo mesmos e na mesma proporção, com o outro. Ainda a respeito do trabalho de Bion com grupos e dentro desta linha de análisedo coletivo, cabe ressaltar um dos aspectos acerca da dinâmica do processo grupal dainteração entre indivíduo, grupo e sociedade, para qual fundamentação Bion utiliza a psi-cologia social. Para ele, a sociedade como grupo também apresenta fenômenos de suposi-ção básica. Em seu crescimento, os grupos sociais resolveram em parte esse problemadelegando, por assim dizer, a determinados subgrupos, a função de contê-los e manipulá-los. Bion (1970) chama grupo especializado de trabalho a essas organizações e institui-ções. O fracasso de um desses subgrupos institucionalizados em conter eficazmente osuposto básico – porque este se acha especialmente ativo, ou porque por algum motivo ésubstituído por outro – provocará reações no subgrupo ou na sociedade da qual faz parte.Produzir-se-á então uma nova e diferente estruturação, que poderá evoluir até a mudança SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 9
    • ou então reativar as tendências a evitá-la. O conceito de grupo especializado de trabalhoproporciona uma nova perspectiva para a compreensão dos complexos fenômenos dasociedade em geral. Bion coloca, segundo Zimerman, que um “gênio” (que em outros momentos elenomeia como “herói” ou “místico”) é aquele que por ser portador de uma idéia nova, re-presenta uma ameaça de mudança catastrófica para a estabilidade do establishment (umacultura, uma instituição, um poder político, etc.) que está firmemente constituído e aceitopara certa época e lugar. Para enfrentar a ameaça do “gênio”, o establishment ou o segre-ga (através da configuração de bode-expiatório) ou dá um jeito de absorvê-lo ou cooptá-lo. O místico ou gênio, portador desta idéia nova, é sempre disruptivo para o grupo; oEstablishment trata de proteger o grupo dessa disrupção. O problema colocado pela rela-ção entre o místico-gênio e a instituição tem uma configuração emocional que se repeteno curso da história de formas muito variadas. O místico necessita do establishment, eeste do místico-gênio; o grupo institucionalizado (grupo de trabalho) é tão essencial aodesenvolvimento do indivíduo como este àquele. Segundo Bion (1970), o grupo precisa preservar sua coerência e identidade; esfor-ços nesse sentido se manifestam em convenções, leis, cultura e linguagem. O místicopode declarar-se revolucionário ou reivindicar que sua função é cumprir as leis, conven-ções e destino de seu grupo. Bion, nesta obra, define o místico como concomitantementecriativo ou destrutivo. Faz a distinção entre os dois extremos que coexistem na mesmapessoa. Estas formulações extremas representam dois tipos: o místico “criativo”, que so-licita formalmente adaptar-se às convenções do estabilishment que governa seu grupo, oumesmo preenchê-las; e o místico niilista, que destrói suas próprias criações. De fato, todogênio, místico ou messias, é ambas as coisas, desde que a natureza de suas contribuiçõesserá seguramente destrutiva de certas leis, convenções cultura ou coerência de algumgrupo, ou de um subgrupo dentro de um grupo. A força disruptiva do místico-gênio ficalimitada pelo meio de comunicação através do qual se transmite sua mensagem; e depen-derá da linguagem de êxito sua qualidade criativa e promotora de mudanças. O establi-shment tem como uma de suas funções conseguir uma adequada contenção e representa-ção da idéia nova, criativa ou genial, limitando em parte seu poder disruptivo e ao mesmotempo fazendo-a acessível aos membros do grupo que não são geniais. O relacionamento entre o grupo e o místico pertence a uma destas três categoriascomensal, simbiótico e parasítico. No relacionamento comensal os dois lados co-existeme a existência de um é inofensiva à de outro. não há confrontação nem permuta, se bemque esta possa produzir-se na medida em que a relação se modifique. No relacionamentosimbiótico existe uma confrontação que, em última análise, será benéfica para ambos: asidéias do místico-gênio são analisadas e levadas em conta, suas contribuições geram hos-tilidade ou benevolência e o resultado produz crescimento tanto ao místico-gênio comono grupo, embora não se perceba esse crescimento sem certa dificuldade. As emoçõespredominantes são amor, ódio e conhecimento. No relacionamento parasítico, onde ainveja é o fator central, o produto da associação é a destruição e despojamento de ambos,místico e grupo. A configuração recorrente nessas descrições é a de uma força explosivalimitada por uma demarcação que tenta contê-la. No caso do grupo, a configuração se dáentre o místico-gênio e o establishment, com suas funções de conter, expressar e institu-cionalizar a idéia nova trazida por aquele, e proteger o grupo do poder disruptivo desta. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 10
    • 7 ANÁLISE E DISCUSSÃO Escolhemos o filme “A Vida no Paraíso” como pano de fundo para o Trabalho deConclusão de Curso por tratar-se de um instrumento criativo a respeito do processo deum pequeno grupo. Com o foco no fenômeno da resistência, o filme foi analisado a partirde alguns diálogos e cenas representativos da teoria referenciada. Optamos em dividir oque foi observado em dois momentos: (1) Análise da resistência do grupo durante suaformação: Maestro Daniel Daréus e principais personagens do coral: Gabriella, Lena, Siv,Tore, Arge, Inger, Holmfrid e Olga. (2) Análise da resistência da comunidade frente aomaestro: “O que a comunidade fez com o que não sabia” (Stig e Conny). Sinopse do filme: Um maestro de sucesso internacional, acostumado à rotina estressante dos palcos,de cerca de 40 anos, Daniel, interrompe inesperadamente sua carreira após sofrer um en-farte, decide retornar à terra natal situada no norte da Suécia. No trajeto até a cidade começa a tomar contato com as sensações e as lembrançasda infância. Quando criança enfrentara resignadamente as agressões gratuitas de algunscolegas da escola, que não entendiam e não aceitavam sua sensibilidade musical. Duranteestes episódios sua atitude era de passividade, ficando evidente a sensação de medo evulnerabilidade. Apesar de não ter claro, a princípio, o motivo do seu retorno, demonstra estar dis-posto a realizar um sonho antigo – “criar uma música capaz de abrir o coração das pes-soas”. Quando chega à pequena vila, mostra-se reticente ao contato com os moradores.Sua fama logo cria um burburinho na cidade, fazendo dele objeto de curiosidade, fascina-ção e desconfiança. Não demora muito para ser convidado a ajudar o coro da igreja. Re-lutante a voltar ao “centro do palco”, acaba aceitando o convite e se surpreende com adescoberta do entusiasmo que sentia pela música. O trabalho com o coro traz novas ami-zades, mas também novos e velhos conflitos, assim como a descoberta do amor. Membros do coral e comunidade: Lena: moça solteira, com atitudes assertivas que namorou por três um médico quefoi a trabalho para a cidade, sendo este casado. Todos os moradores da cidade sabia desua condição, menos que ela que ficou sabendo disso no final de seu relacionamento.Tem medo de ser enganada novamente. Gabriella: casada, mãe de dois filhos, apanha do marido. Tem medo de seu com-panheiro mas não consegue larga-lo. Torna-se a voz principal do coral. Arnie: dono de uma loja na cidade, é o maior incentivador da participação de Da-niel como regente do coral. Irmão de Holmifrid e dono de uma personalidade forte eagressiva. Inger: esposa do pastor da cidade. É uma mulher passional, que reprime seus sen-timentos e desejos por seu esposo pela rigidez e moralismo deste. Stig: pastor da cidade, considerado a autoridade moral maior da cidade. Guiadopor uma moral conservadora e rígida religiosa, não permite expressar seus verdadeirosdesejos e sentimentos pela esposa, tendo uma “tara” por revistas masculinas. Siv: ex-regente do coral, solteira, que alimenta um desejo de travar um relaciona-mento amoroso com Daniel. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 11
    • Holmifrid: irmão de Arnie, que por anos sofreu de abuso moral pelo irmão e pelaspessoas por seu peso. Sempre apresentou atitude cordata e passiva à violência vivida. Tore: rapaz portador de deficiência, que passa a integrar o coral, mostrando teruma voz excepcional. Olga: idosa, com problemas auditivos. Conny: esposo de Gabriella e é o mesmo rapaz que em menino agredia Daniel. 1) O maestro e o coral: Daniel resiste ao convite de assistir ao ensaio do coral, mas acaba por ir. Quando éflagrado no recinto, procura esquivar-se rapidamente. O grupo do coral, por sua vez, ma-nifesta verbalmente as fantasias a respeito do “possível” olhar crítico do maestro, aomesmo tempo em que ficam fascinados com sua presença. Cena 1 – Suposição básica Dependência: Diálogo dos membros do grupo com o maestro: – Não somos profissionais. Mas poderíamos ser melhores. – Dentro de nossas limitações.... Diálogo dos membros do grupo após a saída do maestro entre si: – Sonhei com a vinda dele... – Ele disse: No geral é muito bom! – Estas mesmas palavras? – No geral é muito bom! (repete) A partir destas falas e de acordo com as idéias de Bion, percebemos que o grupoencontra-se no suposto básico de dependência frente à presença do maestro como figurade autoridade. Nesta fase o grupo depende da aprovação, da satisfação de todas as neces-sidades e desejos por parte do líder que deve suprir as expectativas do grupo. O grupoconsidera-se sem potência, acreditando depender somente desta figura mágica do maestropara tornar-los capazes. À medida que o tempo passa, Daniel aceita o convite para regente e começa a darsentido à sua participação e a definir seu papel neste coral: de observador começa a atuarcomo maestro/ compositor/ treinador. Ele inicia uma série de atividades com o grupo e quando um trabalho corporal éiniciado aparece a resistência, e assim, esta nova proposta do líder começa a incomodar egerar insegurança nos participantes. O grupo fica mobilizado e utiliza-se da fuga comoforma de diminuir a tensão. Quanto mais o grupo é dirigido ao trabalho corporal, cujoobjetivo do maestro era as pessoas buscarem harmonia, maior é a resistência expressaatravés das gargalhadas e do diálogo paralelo. O grupo, desta forma, confronta a autori-dade e sua resistência está. evidenciada pela dificuldade que os participantes têm emharmonizar-se, ingressar na tarefa e realizá-la. Cena 2 – Suposição básica Fuga/Luta: Estão todos deitados no chão, próximos uns aos outros: (Risos) – Espero que ninguém nos veja... (risos) – A porta está trancada? (risos) SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 12
    • – Estou pensando no pastor... (gargalhadas). A cena seguinte ilustra outro momento do suposto básico de fuga em que os per-sonagens atuam pelo comportamento e verbalmente. Estão todos de mãos dadas e a tarefaneste momento é todos acharem sua fonte, a sua essência. À medida que o maestro come-ça a desenvolver os objetivos, o grupo tenta escapar da tarefa, desconsiderando o que estásendo dito. Cena 3 – Suposição básica Fuga/Luta: Toca o celular de um participante e ele atende. Outro membro aproveita e come salgadinhos. – Pausa para o café. (pede um terceiro) – Café? Agora? Será que vocês não entenderam nada? (maestro) – Sabe, Daniel, isto tudo é tão novo para nós.... (outra participante) O maestro reage de forma autoritária e agressiva com os participantes, sendo ig-norado pelo grupo, que foge indo preparar o café. Vale citar, que este café passa a ser,posteriormente, incorporado como um hábito ao final dos trabalhos realizados pelo gru-po. Desta forma, fica evidente que o maestro, mesmo com todas as suas novas idéias esuas exigências, soube encontrar o equilíbrio com este grupo e suas rotinas, permitindoque seus membros pudessem sentir-se menos ameaçados pelas novas propostas, podendoencontrar um conforto em algo conhecido. Desta forma, menos autoritária e mais flexí-vel, adaptável do maestro, pode-se supor que as resistências dos membros do grupo tor-nar-se-ão menos salientes. Este dia de ensaio é finalizado com todos em círculo, abraços,cantando individualmente, emitindo seu modo de cantar, sua individualidade, como soli-citado pelo maestro. Cena 4 – Suposição básica de Dependência e Luta/Fuga: – Achem sua voz (maestro). Aparece Tore e começa a cantar. O grupo tira ele, que insiste em participar. – Ele não pode, é maluquinho, analfabeto, só vai causar problemas. Precisamoster critérios (Arne). – Acho que ele deve participar (Lena). – Tenho planos para o coral. Estou trabalhando duro (Arnie – acende um cigarroe é pedido para ele ir fumar lá fora. Ele sai brabo e bate a porta). Siv vai atrás de Arne e argumenta, ao sair, que ele é muito dedicado ao grupo. Neste momento verifica-se os interesses individuais dos membros que impossibi-litam e interferem na realização da tarefa. Ao ver que seu objetivo individual está amea-çado, Arne propõe uma “luta” contra a ameaça externa representada por Tore. Em seuidealismo, não verifica a potencialidade deste (que é confirmada ao final da cena) e buscaestabelecer critérios para a seleção do que seria membros “perfeitos” para seus planos,comum à suposição básica de dependência onde os membros para serem aceitos devemser perfeitos justamente por não se sentirem capazes. Neste ponto consegue-se relacionara teoria de Bion que diz que o grupo de trabalho necessita ter claro qual a tarefa, o objeti-vo a ser atingido, quando todos podem engajar-se de forma cooperativa na obtenção des-te. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 13
    • Cena 5: Conny vem buscar Gabriella. Daniel tenta reagir mas é segurado por Arne. – Ele até já a prendeu. – Todos sabem que ele bate nela... (Lena). SILÊNCIO. – Eu já tentei falar com ela mas ela não ouve (Lena). – Por quê ela não se separa? (Olga) – Ele é capaz de tudo. Tore, assustado, começa a bater a cabeça na parede e defeca. Arne o ridiculari-za. – Cale a boca, Arne (Lena). Siv defende Arne e Lena briga com ela. Depois, Lena vai cuidar de Tore. SILÊNCIO. Tore pede a Lena que diga “as três palavras”. – Eu te amo (Lena). Nesta cena é possível observar os movimentos de resistência individuais dosmembros do grupo, através dos silêncios. Todos são conscientes da situação de violênciadoméstica sofrida por Gabriella, mas não tem condições de se manifestarem em relação aela. Ainda não está desenvolvido o clima de compartilhamento necessário a incentivar aexpressão de sentimentos. Somente isto é possível entre Lena e Tore, que nutrem afetossinceros um com o outro, pois ela o compreende e cuida dele. A partir deste momento,Daniel começa a escrever uma música para Gabriella cantar. Mais adiante observamos um momento de luta que aponta para a postura de con-fronto de um dos membros do grupo. Através do seguinte diálogo podemos constatar oque Bion define como suposto básico de luta/fuga. O membro que manifesta esta oposi-ção idealiza o maestro e tem desejos sexuais pelo o mesmo. A pessoa a quem ela critica(Lena) é uma participante do grupo que tem demonstrado claramente seu interesse pelomaestro. Assim, ao sentir-se ameaçada e insegura com a possibilidade de rejeição pelolíder, busca incitar o grupo à luta para eliminar a “ameaça”. Como percebe não haverconcordância com sua posição, ela se exclui do grupo, não conseguindo superar-se e en-frentar suas dificuldades, desta forma concretizando sua resistência e impossibilitando-sede desenvolver-se. Cena 6 – Suposição básica Luta/Fuga: Ao perceber uma crítica de Siv feita à Lena durante o ensaio, Daniel pergunta: – Alguém aqui quer desabafar? – Eu gostaria de levantar uma questão. Sempre achei que o jeito de Lena não ébom para o nosso coral. (Siv) Arne questiona ao que Siv responde que Daniel havia pedido franqueza. – Lena sai sábados à noite, contra a fé crista e isso preocupa a todos nós. Vamosignorar que tipo de vida ela vive? – Confesse que você está com ciúmes de Lena. (Arne) Siv sai e diz a Arne que ele devia se envergonhar de rir de uma mulher que ousaser franca. Na cena seguinte, é importante citar, pois mostra a postura de Daniel que vai mu-dando e gerando no grupo a abertura necessária para expressão dos sentimentos e conse- SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 14
    • qüente quebra ou diminuição da resistência. Mas ainda assim, percebe-se a necessidadede agradar o líder, ser amado por ele e aceito, características da suposição básica de de-pendência, como será descrito a seguir: Cena 7 – Suposição básica de dependência e abertura: Ao falarem do concerto que eles apresentarão na comunidade, Daniel entrega amúsica à Gabriella (vide anexo). SILÊNCIO. Ela diz que não pode cantar. Ele insiste: – Não acredito que não possa. Te escutei. – Por que está aqui (Gabriella a Daniel)? – Meu sonho é tocar e abrir o coração das pessoas com uma música. O que meimpediu foi que achava difícil amar as pessoas. – Não pense que não gosto de você. Todos te amam e eu gravo tudo que você diz(Gabriella). Há outros picos de tensão em que a emoção é colocada de forma violenta. QuandoHolmfrid, num acesso de raiva e choro, conta como se sente há 35 anos em virtude dosmaus-tratos verbais que ouve do irmão, abre-se uma nova possibilidade. Neste exemplopercebe-se um movimento de luta e fuga que o porta-voz do grupo, neste momento, utili-za-se para expressar raiva e dor. Importante verificar que o movimento do líder de ex-pressar-se e mais este momento de tensão de Holmfrid, que permitiu a expressão de umsentimento antigo reprimido, possibilitou que todos pudessem se repensar em mudar deatitude, como o fez Gabriella. Eis a cena: Cena 8: No grupo, Gabriella chora. Arne a provoca pois todos os ingressos já foram ven-didos. – Cale-se (Daniel). – Mas ela podia se esforçar (Arne). Holmfrid, vendo a agressão do irmão, quebra uma cadeira e o ataca verbalmen-te: – Seu canalha! Cansei de você sempre dizer “gordinho isso, gordinho aquilo”.Vocês se divertiam também há 35 anos gozando de mim (dirigindo-se aos outros partici-pantes)! Ele chora e Inger o ampara. SILÊNCIO. Gabriella pega a folha, troca olhares com Holmfrid e sorriem um para o outro.Todo o grupo sorri. Ela decide cantar. A mudança gerada é transformadora. Após a apresentação do concerto, Holmfridse emociona pois foi elogiado por duas pessoas. Ele passa a se perceber e se ver merece-dor de reconhecimentos. Cena 9 – Suposição básica Luta/Fuga e Grupo de Trabalho: Arne comunica ao grupo que este está inscrito num concurso de corais, na Áus-tria SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 15
    • – Chegou hoje pelo correio. Está em alemão, vou traduzir. O coral está inscritono concurso de corais... – Estaremos lá (diz um dos membros). – Eu nunca estive fora do país (fala outro – todos ficam eufóricos)! – Vocês não sabem no que estão se metendo... (maestro) – Por quê? Você tem medo? – Não tenho medo! Vocês não podem competir no canto. (maestro) – Estamos prontos agora! (Arne) – Vocês não podem competir, a idéia é louca, não acredito nisso... – Como você sabe que não devemos ir à Áustria? (Olga) – Como pode afirmar? (Lena) Após decidir: – E já que vamos nos apresentar que seja diferente, algo nunca visto antes. (Da-niel) Pela cena descrita acima e do diálogo do maestro com os membros do grupo, per-cebe-se que este é um momento relevante e novo. O grupo manifesta que está pronto evaloriza o que foi feito até então; quer enfrentar o desafio de apresentar-se em outro paíse competir O grupo de trabalho, conforme o entendimento de Bion, requer de seus mem-bros capacidade de cooperação e esforço. É um estado mental que implica contato com arealidade, tolerância à frustração, c de suposto básico e do grupo de trabalho determinamum conflito permanente e recorrente dentro do grupo. Este conflito pode formular-se co-mo idéia nova e o grupo; entre o grupo de trabalho e o de suposto básico, por exemplo.Bion afirma que o indivíduo como pessoa dentro do grupo de trabalho está exposto aoinevitável componente de solidão, isolamento, e dor associados ao crescimento e evolu-ção. Neste momento Daniel está enfrentando seus próprios dilemas e dores frente à pos-sibilidade de reviver estes momentos tão dolorosos de sua vida profissional – sua rigidezexcessiva, seu perfeccionismo, sua solidão, por isso resiste à idéia do concurso. Masquando questionado, também tem sua possibilidade de refletir, pois o caminho vividocom o grupo já permitiu que as resistências pudessem ser superadas. E neste momento, épossível haver uma possibilidade real de crescimento e mudança. O grupo já estava traba-lhando com grupo de trabalho, pensando seus processos enquanto trabalhavam frente aum objetivo comum. Já haviam superado as resistências através da expressão sincera deseus sentimentos e aceitação destes pelos outros membros. Assim, já estão prontos pararealmente mudar e fazer diferente. O que foi dito neste último parágrafo faz sentido também na penúltima cena dofilme em que o grupo todo consegue realizar a tarefa, apesar da ausência do maestro. Amotivação, a união de esforços e o enfrentamento dos obstáculos permitiram ao grupoaproveitar as oportunidades e desfrutar das conquistas. Cena 10 – Grupo de Trabalho: O coral se apresenta para a platéia, na Áustria, e quando se vê sem seu líder, elespróprios coordenam sua apresentação, cada um fazendo a sua parte, tocando o coraçãode todos os presentes ao espetáculo, objetivo inicial de seu maestro. Este morre, ao som da música do grupo do qual também fez parte, que transfor-mou e foi transformado, integrando assim, toda e qualquer dor e sofrimento, livre, po-dendo nesta expressão verdadeira serem, figurativamente, todas as suas resistências vivi- SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 16
    • das resgatadas, pois na cena final do filme, Daniel encontra e abraça, no mesmo campode sua infância, sua criança interior. 2) “O que a comunidade fez com o que não sabia”: A comunidade em que o filme se passa parece estar estruturada em cima de valo-res ortodoxos e rígidos. Pelo fato de ser um pequeno vilarejo num país nórdico, o cenáriode inverno acentua o clima frio. A distância das pessoas, apesar do tamanho do local, ficaevidente pela maneira como os moradores se comportam diante dos dramas vividos poralguns personagens. Isolados e sem contato, poucas eram as oportunidades de reunião. Estas ficavamrestritas ao coral na igreja (supervisionada pelo pastor da cidade). Com a chegada do ma-estro toda a comunidade é afetada, os primeiros sintomas aparecem no comportamentodos moradores. A resistência à presença desse estranho despertou de início curiosidade e descon-fiança. Depois, a ira e a fúria tomaram conta dos principais representantes da autoridadedo local. Quanto às fantasias acerca do maestro podemos constatar no grupo manifestaçõesidealizadas a respeito do líder, conforme Mills (1970), onde o chefe, neste caso Daniel,representa a autoridade que tem o saber, que desperta os mais diferentes sentimentos eserve de parâmetro para os participantes. Além de ser figura ameaçadora e invejada, don-de surge o desejo de destruição deste objeto. O seguinte diálogo exemplifica. Cena 1: O pastor, até sua chegada, figura de autoridade da comunidade, questiona o ma-estro: – Por que você está aqui? Todos aqui se apaixonaram por você... Você sabe... Eugravo tudo o que você diz... (tom de ameça) As fantasias, que a figura do maestro instigou em alguns moradores, provocaramconflitos no relacionamento dos casais e na estabilidade das instituições: Gabriella sepa-ra-se do marido, que vai preso ao ser denunciado por violência doméstica; Inger decideseparar-se de Stig, o pastor, pois ele não compreende seus desejos e necessidades, man-tendo em sua postura rígida e conservadora; os jovens aderem à igreja através da partici-pação do coral; um de seus membros se declara a uma outra participante, após anos deamor silencioso, vindo os dois a namorarem; o pastor, que se vê como protetor da culturalocal contra Daniel e conspira contra o maestro fazendo com este seja despedido da fun-ção de regente fazendo com que a igreja se esvazie e com que o grupo se mobilize a irensaiar na casa de Daniel, levando este pastor ao total desespero. Este “pai” se vê odiadopor seus “filhos” – membros da congregação – e entra em desespero. Também esta dor,permite a ele vir a repensar sua postura narcísica e suas escolhas, demonstrando a relaçãosimbiotica entre o establishment (pastor) e o místico-gênio (o maestro). A comunidade resiste com intensidade à mudança de rotina, aos desejos expressa-dos, ao medo enfrentado. A polarização entre o bem e o mal, certo e errado, produziuuma força no grupo capaz de romper valores e crenças. O caos originou uma nova formade organização. O pequeno grupo desta comunidade assumiu riscos e transgrediu. A co-munidade nunca mais foi a mesma. O grupo também não. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 17
    • 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Resistência: o que se faz com o que não se sabe – tema do trabalho de conclusãode curso da SBDG – oportunizou a integração do aporte teórico e a compreensão do fe-nômeno a partir do filme “A vida no Paraíso”. A trajetória dos personagens em um pe-queno grupo serviu como pano de fundo ao estudo de caso. Dentro de um universo ricoem relações, num contexto particular, foi possível investigar, levantar hipóteses e apro-fundar aspectos relevantes da história de um grupo e as manifestações resistências aí pre-sentes. O trabalho foi construído com o intuito de promover momentos reflexivos e inte-grativos tomando como ponto de partida a experiência dos indivíduos enquanto sujeitosem formação pela SBDG. Tanto a escolha do assunto abordado, quanto a forma e o mate-rial foram decididos em conjunto com o objetivo de abarcar a diversidade e os interessesda equipe. Por tratar-se de um filme, as possibilidades de interpretação e entendimento am-pliaram também as possibilidades de discussão. Sob inúmeros aspectos procuramos –como espectadores e críticos – apurar o olhar para a linguagem do cinema sem perder ofoco no tema da resistência. Buscar o sentido não somente das palavras, mas do conteúdodas imagens provavelmente tenha sido o maior desafio na composição do trabalho. Inicialmente destacamos o nome do filme: A Vida no Paraíso. Remetendo a uma atmosfera idílica, caracterizada pela ausência de conflitos, con-tradições e limites a proposta do enredo pareceu, a princípio, descolada do título. A apa-rente incongruência – entre a vida no paraíso e o dia-a-dia das pessoas naquele conjuntode relações – provocou uma série de dúvidas e questões. Foi possível, somente durante odesenrolar da trama, perceber o emaranhado de situações e emoções em que os persona-gens estavam envolvidos e as conseqüências para o processo do grupo. A vida no Paraíso,a partir de então, se tornou plausível e cheia de significado. A reunião em torno de um coral e a relação de todos com o maestro – e entre si –formaram uma rede de ligações que deu sentido ao drama. O funcionamento do grupo – apartir da relação com a autoridade e o movimento deste para a realização da tarefa – ficouclaro à medida que o processo de resistência tornou-se evidente. O grupo ao aliviar-se datensão através dos supostos básicos, evitou realizar a tarefa de se desenvolver, até o mo-mento em que conseguiu tomar consciência da própria resistência. Uma vez reconhecidose elaborados os conteúdos antes inconscientes, causadores de tensão e ansiedade, tornou-se desnecessária a resistência. Aqueles conteúdos deixaram de ser evitados e foram inte-grados ao processo consciente do grupo, oportunizando ao grupo utilizar esse conheci-mento para o seu desenvolvimento. Pode-se verificar que além do reconhecimento e manejo da resistência pelo maes-tro (figura de autoridade), utilizando a música, a voz, potencial de cada um e de todos,como meio de auto-expressão, reconhecimento e diferenciação, não depende só dele odesenvolvimento do grupo, mas principalmente as condições deste grupo de responder aeste estímulo, pela confiança que é capaz de experimentar. Pelo risco que se dispõe epossue condições de acessar o seu desconhecido, a explicitar o não-dito e resignificarsuas experiências passadas e sentimentos. A manifestação dos sentimentos foi realizada por meio da expressão direta. Al-guns membros falaram abertamente o que sentiam; nas situações de crise outros partici-pantes foram desafiados a falar o que os incomodava, o que encorajou os demais partici-pantes e deflagrou um processo de mudança. Entretanto, a possibilidade de resignificar e SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 18
    • deixar de investir energia na resistência foi possível pela mudança e crescimento que játinha ocorrido em cada integrante, por sua motivação e condições para crescer e se de-senvolver. O passado – como um “elo perdido” – deixou de ser o entrave para o crescimentoe tornou-se uma ponte valiosa para a compreensão do presente.. Os personagens em umprocesso de experimentação e criação – num espaço coletivo e individual ao mesmo tem-po – conseguiram se reconhecer como capazes. Desta forma, o grupo potencializou-se,como fica evidenciado, quando sentiu-se seguro o suficiente para enfrentar uma novasituação da qual precisariam agir com autonomia. No instante da apresentação, mesmosem seu líder presente, sua força se manifestou contagiando a todos os presentes. A “vida no paraíso” significa poder viver seu potencial na realidade presente, comconfiança para experimenta-se e experimentar a realidade. REFERENCIASBION, W. R. Experiência com grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1970.FREUD, S. Estudos sobre a histeria. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1968. v. 2. . (1929). O mal estar na civilização. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 21.GRINBERG, L.; SOR, D.; BIANCHEDI, E. T. Introdução às idéias de Bion. Rio de Janeiro: Imago,1973.MILLES, T. A sociologia dos pequenos grupos. São Paulo: Pioneira, 1970.ZIMERMAN, D. Bion – da teoria à prática. Porto Alegre: Artmed, 2004. . Fundamentos psicanalíticos – teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999. SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 19
    • ANEXOMúsica cantada por GABRIELAAgora que a vida me pertenceMe resta pouco tempo na terraE meu desejo me trouxe até aqui.Tudo que perdi.Tudo que ganhei.Ainda assim fui eu que escolhi.Minha crença estava além das palavrasMe mostraram um poucoDo céu que nunca vi.Quero sentir que estou vivaTodos os dias da minha existência.Vou viver como desejo.Quero sentir que estou vivaSabendo que fui boa.Nunca esqueci quem eu souSó deixei adormecido.Talvez nunca tenha tido a chanceDe querer estar viva.Só o que quero é ser felizSendo eu mesma.Ser forte e livrePara ver o dia surgir das trevas.Estou aquiE a minha vida pertence somente a mim.E o céu que pensei estar aliVou descobrir aqui em algum lugar.Quero sentirQue vivi a minha vida!! SBDG – Caderno 98 Resistência: o que se faz com o que não se sabe? 20