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  • 1. Adquira já sua REVISTA KAIRÓS !!! Indique abaixo a opção desejada Quant. Preço Unit. Total Pacote “A” (Revista Kairós vs. 5(1), 5(2), 6(1) e 6(2)) 80,00 Pacote “B” (Revista Kairós vs. 6(1) e (2) e 7(1) e (2)) 80,00 Números avulsos (Revista Kairós vs. 5(1) e (2), 6(1) e (2), 7(1) e (2), 8(1) e (2)) 25,00 Esgotados: Revista Kairós v. 1, 2, 3, 4(1) e 4(2) Caderno Temático 1 – “Estética e envelhecimento” e Caderno Temático 2 – “Psicogerontologia: contribuições...”Encaminhar este formulário (via correio), imediatamente após o depósito emconta no banco Banespa, agência 0220, c/c 01-64441-4, para aquisição dosexemplares da revista/caderno temático kairós assinalados acima, junto com ocomprovante de pagamento. Ou enviar um cheque em nome de BeltrinaCôrte, endereçado à revista kairós.Nome ________________________________ e-mail __________________Endereço _____________________________________________________Cep. ___________ - ______ Cidade _____________________Estado______Telefone _________________Ocupação: _____________ Data___________Cheque nº _____________ Agência _________ Banco __________________Assinatura ____________________________________________________Revista KAIRÓSA/C Beltrina Côrte – NEPEPrograma de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, PUC-SPRua Ministro Godói, 969 – São Paulo – SPCEP 05015-000E-mail: beltrina@uol.com.brSite: http://www.pucsp.br/pos/gerontologia
  • 2. GERONTOLOGIA v. 8 – n. 2 São Paulo dez., 2005
  • 3. GERONTOLOGIA v. 8 – n. 2revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 1-301 ISSN 1516-2567
  • 4. Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Reitora Nadir Gouvêa Kfouri/PUC-SPRevista Kairós : gerontologia / Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia – PUC-SP. Ano 1, n. 1 (1998) – São Paulo : EDUC, 1998- Anual até 2000 Semestral a partir de 2001 (v. 4, n. 1) Cadernos Temáticos: Estética e envelhecimento (2002); Psicogerontologia: contribuições da psicanálise ao envelhecimento (2002) ISSN 1516-25671. Gerontologia – Periódicos. I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE). Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia. CDD 618.97005Publicação do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia – PUC-SPIndexada no Index Psi Periódicos (www.bvs-psi.org.br) e na base de dados LILACS – Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde/BIREME.Editoras ResponsáveisBeltrina CôrteSuzana A. Rocha MedeirosEditora AssistenteVera T. BrandãoSecretáriaMaria Bernadete Maciel CorreiaConselhoAlexandre Kalache (Ageing and Life Course Noncommunicable Diseases Prevention and HealthPromotion (NPH) World Health Organization, Geneva), Andre Chevance (Université de Picardie JulesVerne/Faculté de Philosophie Sciences Humaines et Sociales), Anita Liberalesso Neri (Unicamp), DianaSinger (Universidad Maimónides/Argentina), Ecléa Bosi (USP), Edvaldo Souza Couto (UFBA),Jack Messy (Université Paris 12/França), José Ferreira-Alves (Universidade do Minho/Portugal), Mariade Lurdes Quaresma (Gerontologia Social do ISSSL/Portugal), Marília Smith (Unifesp/EPM), Nara CostaRodrigues (ANG), Sára Nigri Goldman (UFRJ), Sergio Antonio Carlos (UFRS), Teresinha da Silva(Harvard University), Vani Moreira Kenski (USP)PareceristasA cada 8 volumes, divulgar-se-á a lista dos pareceristas.EDUC – Editora da PUC-SPDireção Revisão de Textos em InglêsMarcos Cezar de Freitas Marlene DeboniKazumi Munakata Editoração EletrônicaSilvio Y. M. Miazaki Elaine Cristine Fernandes da SilvaCoordenação Editorial Waldir Antonio AlvesSonia Montone CapaRevisão de Textos em Português Sara RosaSonia RangelRua Ministro Godói, 119705015-001 – São Paulo – SPTel./Fax: (11) 3873-3359E-mail: educ@pucsp.br
  • 5. Revista Kairós A revista Kairós, surgida em 1998, é o resultado da dedicação e do empenhode um grupo de pesquisadores ligados ao Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento(Nepe) e ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, da PUC-SP, como objetivo de publicar estudos relacionados ao tema envelhecimento. Ela funda-se na interdisciplinaridade, pretendendo romper com concepções es-tereotipadas e fragmentadas. Seu propósito primordial concentra-se na busca de umavisão de síntese, considerando a velhice como totalidade. Pretende ser um veículo de divulgação de um novo saber relativo ao processo deenvelhecimento e da velhice e está aberta à participação de todos os estudiosos que, comsuas reflexões, ajudem a superar a carga pejorativa que tem acompanhado essa etapa davida humana. O nome dado à revista é uma homenagem ao professor Joel Martins, que demons-trou com sua vida que o ser humano pode sempre se desenvolver. Que não somos apenasCronos, um tempo determinado, mas Kairós, energia acumulada pelas experiênciasvividas. Em 2001, a revista, que era anual, passa a ser semestral e, a partir de então,toda a edição lançada em junho ganha uma apresentação editorial diferenciada, umavez que sempre será a socialização dos resultados obtidos, sistematizados e impressos dasSemanas de Gerontologia, eventos realizados anualmente pelo próprio Programa e quefazem parte de um novo método de trabalho acadêmico, a partir da troca de idéias e apermanência da crítica intelectual ante os desafios que nos impõe a longevidade. Portanto, um dos números, sempre o ímpar (n. 1), da revista, que tem a intençãode resgatar e atualizar o papel da teoria a partir de debates, mesas-redondas, depoimen-tos, histórias de vida, etc., em uma perspectiva interdisciplinar, terá um formato edi-torial diferente, não diferindo, contudo, no plano da preocupação teórico-intelectual dasrevistas científicas em Ciências Humanas, que incluem artigos, pesquisas, resenhas,como se enquadra a edição número par da revista Kairós.
  • 6. Caderno Kairós O Caderno Temático da revista Kairós é mais uma modalidade de apresentaçãodos trabalhos desenvolvidos no Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia,da PUC-SP. Ele nasce com a intenção de ser um veículo de fácil circulação, ágil e deleituras temáticas, buscando refletir sobre as múltiplas dimensões do envelhecimento e davelhice vivida. Longe de representar qualquer solução de continuidade ante o perfil já consa-grado da revista, o lançamento de edições centradas na análise e reflexão de temas específicosé uma resposta, do Programa, às demandas explicitadas, em várias ocasiões, por alunos,professores e por muitos dos que participam das atividades promovidas pelo Nepe. Dentre os objetivos dos números temáticos, ocupa lugar central a socialização dosexercícios interdisciplinares realizados por diversas atividades do Programa, alicerça-dos em três dimensões da existência humana – Família, Comunidade e Estado. Espaçosespecialmente ricos, criativos e estimulantes que buscam a edificação de um novo sabersobre a velhice e o processo de envelhecimento. Exercícios que vêm perseguindo, ao longodo tempo, a difícil tarefa de promover a superação das tradicionais fronteiras que sepa-ram e isolam os saberes específicos. Por isso, os artigos reunidos em cada número do Caderno Temático da revistaKairós devem ser pensados como parte de um movimento que, estreitamente afinado àsdiretrizes que norteiam o Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia,orienta-se na e pela construção de um pensamento complexo. De um pensamento que, emnome da recomposição do todo, sabe, como bem salientou Edgar Morin, que não é nemonisciente, nem completo, nem certo; que é sempre local, situado que está em um tempoe um lugar.As opiniões emitidas não expressam necessariamente a posição da revista/caderno.Reprodução permitida desde que citada a fonte.
  • 7. Política editorial A revista Kairós tem se consolidado como um veículo de divulgação deum novo saber relativo ao processo de envelhecimento, promovendo uma outrapercepção da velhice, a qual procura entender o sentido dessa etapa da vidahumana muito além das fronteiras da biologia, da genética e da fisiologia. A proposta editorial da revista/Caderno Temático Kairós funda-se, por-tanto, na interdisciplinaridade a partir da troca de idéias e do exercício da críticaintelectual ante os desafios que nos impõe a velhice como totalidade e a lon-gevidade, concentrando-se na busca de uma visão de síntese, uma vez que seorienta na e pela construção de um pensamento complexo. A publicação periódica de artigos que trazem o universo novo de co-nhecimento gestado pela Gerontologia e que fazem uma reflexão sobre essasetapas da existência humana tem resgatado e atualizado o papel da teoria apartir de debates, mesas-redondas, depoimentos, histórias de vida, relatos,além de artigos, pesquisas e resenhas.
  • 8. Editorial 9 SumárioEditorial ...................................................................................... 13ArtigosO envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular ........ 21 Adriana Frohlich MercadanteO idoso ontem, hoje e amanhã: o direito como alternativapara a consolidação de uma sociedade para todas as idades .......... 37 Fábio Roberto Bárbolo AlonsoO perfil do idoso brasileiro ........................................................... 51(Profile of the elderly Brazilian population) Gustavo Toshiaki Lopes SugaharaGestão social por sujeito/idade na velhice ..................................... 77 Vicente de Paula Faleiros e Mônica RebouçasGestão de serviços por organizações do terceiro setorno processo de envelhecimento ................................................. 103 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeida revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 1-301
  • 9. 10 EditorialExperiências e representações sociais de trabalhadorese trabalhadoras sobre seu próprio processo de envelhecimentoem cooperativas populares ........................................................ 119 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes GohnLa problemática social de la vejez en el medio rural .................. 139(A problemática social da velhice no meio rural) María Julieta Oddone y Mónica Beatriz AguirreAprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 171 Caroline Stumpf Buaes e Johannes DollAs imagens da velhice em diferentes grupos etários:um estudo exploratório na população portuguesa ..................... 189(Images of ageing in different age groups: an exploratory studyin the Portuguese population) Liliana Sousa e Margarida CerqueiraVivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento ... 207(Living one´s age: reflections about the experience of growing) Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas TrenchAposentados e livres... mas para quê?Os trabalhadores e a representação social da aposentadoriae do projeto de vida pessoal....................................................... 221 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntlrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 1-301
  • 10. Editorial 11A oficina de revisão de vida como um métodode intervenção psicológica com idosos ....................................... 235 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales GíglioMudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa .. 249 Valda Bernardes de Souza BrunoSexualidade e envelhecimento ................................................... 263 Amparo CaridadeEnvelhecimento e velhice com HIV/aids ................................... 277(Aging and oldness with HIV/aids) Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid GaspariniBreve reflexãoLa resiliencia y los adultos mayores. Importancia de su aplicaciónen grupos de educación para el envejecimiento ......................... 293(A resiliência e os adultos maiores. Importância de sua aplicaçãoem grupos de educação para o envelhecimento)Virginia VigueraNormas para publicação ........................................................... 299 revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 1-301
  • 11. Editorial 13 Editorial Os editoriais dos últimos números da revista Kairós vêm chaman-do a atenção do leitor para acompanhar mais de perto as discussõescientíficas sobre os estudos realizados por grandes centros de pesquisascom o objetivo de eliminar ou reduzir as causas de morte, mas que nãosão acompanhados por políticas sociais que melhorem a qualidade devida desses anos a mais. É óbvio que a maioria das pessoas não desejaum aumento na longevidade que lhes acrescente anos de saúde ruim,sofrimento ou infelicidade... Nem mesmo que esses anos conquistadossejam os culpados das mazelas do mundo. A mídia faz estardalhaço acerca de pesquisas nas quais impera arazão técnica, nas quais a busca da longevidade é constantementedivulgada em manchetes no mundo inteiro: “Gene aumenta tempo devida de rato”; “Rato ‘milagroso’ consegue regenerar vários órgãos”;descobertas que levantam a possibilidade de que os humanos um diapossam adquirir a habilidade de regenerar órgãos perdidos ou afetados,inaugurando uma nova era na medicina e, por que não dizer, uma novacivilização? O que se sabe é que cientistas e empresas estão levando a pesqui-sa da longevidade a sério e muitas vezes usam como subterfúgios, paraaquisição de financiamentos, estudos sobre doenças específicas e sobre revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 12. 14 Editorialcomo envelhecer cada vez melhor sem problemas cardíacos, derrames,câncer e doença de Alzheimer. O Centro de Envelhecimento da Uni-versidade de Boston, nos Estados Unidos, e o Instituto Nacional doEnvelhecimento (NIA), por exemplo trabalham desde 2001 em umapesquisa com centenários, na tentativa de descobrir formas de driblaro envelhecimento. Observa-se que a corrida científica está centrada emtrês grandes questões: genética do envelhecimento, técnicas para imor-talizar células e tecidos e exploração das pluripotentes células-tronco,tão em voga na mídia do mundo todo. Nenhuma delas estuda os efeitossocioambientais nem está preocupada como cada ser viverá os anos amais, nem como cada país se preparará para isso. Sabemos, no entanto, que o aumento de nossa longevidade apon-ta para efeitos sociais, psicológicos e econômicos. Aponta para o impac-to sobre instituições tais como previdência social, seguros de vida,aposentadoria e assistência médica... Nessa hora, a mídia, irresponsa-velmente, dará voz a manchetes como a que foi divulgada recentemen-te no país, “Política Social privilegia idosos e faz crianças maismiseráveis”, sem ao menos fazer uma reflexão sobre a responsabilidadeda ciência. Contam-se nos dedos aqueles que questionam o destino dahumanidade sem que seja por causas religiosas. Por isso a reiteração, acada edição de nossa revista, da necessidade da discussão pública sobreo impacto que a longevidade tem e terá em praticamente todos osaspectos da vida. Para entendermos um pouco mais sobre essa questão, o primeiroartigo deste número, “O envelhecimento sob o ponto de vista molecu-lar e celular”, de Adriana Frohlich Mercadante, na tentativa de respon-der sua questão principal, “Por que envelhecemos?”, apresenta as teoriasevolutivas do envelhecimento, que discutem as razões de esse processoter sido mantido em várias espécies durante a evolução. Em seguida, aautora apresenta as razões moleculares e celulares para, finalmente,apresentar os estudos com organismos modelos e como eles têm con-tribuído para o melhor entendimento do envelhecimento em váriasespécies e também no homem.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 13. Editorial 15 Em contrapartida, o artigo “O idoso ontem, hoje e amanhã: odireito como alternativa para a consolidação de uma sociedade para todasas idades”, de Fábio Roberto Bárbolo Alonso, analisa as novas dinâmi-cas de inclusão social do indivíduo idoso a partir das transformaçõesdemográficas observadas em nível mundial, principalmente no que dizrespeito ao aumento de sua tutela pelo Estado. Segundo o autor, a criaçãode toda uma legislação especificamente voltada para o segmento idosoreforça a idéia de que as sociedades procuram, neste momento, alter-nativas para incluir e garantir a cidadania desses indivíduos, até entãoexcluídos pela lógica do sistema capitalista. Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara traz um retrato atualizadosobre “O perfil do idoso brasileiro”. Para o autor, a transformação daestrutura etária e seus efeitos devem se consolidar como uma das princi-pais questões a serem enfrentadas e discutidas neste século pela so-ciedade brasileira. Por isso ele nos apresenta o perfil da população idosabrasileira no final dos anos 90, fazendo uso de análises como perfil derenda, relações de trabalho, acesso à saúde entre outros, além de apre-sentar uma revisão bibliográfica sobre as relações entre indivíduo idosoe sociedade. Já a discussão sobre os paradigmas de gestão da velhice e doenvelhecimento no contexto social, econômico, político e cultural emque se desenvolve o sujeito humano, ou seja, na relação sujeito/situações/estrutura, ocorre no texto “Gestão social por sujeito/idade na velhice”, deVicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças. Os autores distinguem doisparadigmas fundamentais e contrapostos: o da gestão por perdas ou dasperdas numa perspectiva de envelhecimento passivo e outro, de gestãopor sujeito/idade em uma sociedade para todas as idades e na perspec-tiva de empoderamento (empowerment) num processo de envelhecimen-to ativo. Para eles, essa perspectiva é não só plausível como viável coma discussão da experiência do Instituto de Atendimento do Idoso - Idadi,de Salvador. Segundo os autores, o paradigma de gestão por sujeito/idade leva em conta a complexidade do envelhecimento nas suas múl-tiplas dimensões e interações na sociedade atual e no contexto da de-sigualdade, além do sujeito em seu movimento de vida. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 14. 16 Editorial O texto “Gestão de serviços por organizações do terceiro setor noprocesso de envelhecimento”, de Miguel Arantes Normanha Filho eVera Lucia Valsecchi de Almeida, foi elaborado a partir de estudo rea-lizado sobre o terceiro setor, gerontologia social e gestão de serviços noprocesso de envelhecimento da população. Os autores assinalam quefatores que ainda não conhecemos totalmente, ligados à gerontologiasocial e à nova sociedade que se apresenta, indicam incipientes ações doterceiro setor para o processo de envelhecimento, abrindo assim umcampo para estudos mais específicos. “Experiências e representações sociais de trabalhadores e traba-lhadoras sobre seu próprio processo de envelhecimento em cooperati-vas populares”, de Wanda Pereira Patrocinio e Maria da GlóriaMarcondes Gohn, trata de um estudo específico no qual as autoras fazemuma reflexão sobre a questão do envelhecimento de trabalhadores etrabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anos em cooperativaspopulares na cidade de Campinas, SP. Para tal, as pesquisadoras reali-zaram um mapeamento socioeconômico, identificando quais as repre-sentações sociais que essas pessoas tinham de si e do próprio trabalhonesse sistema alternativo de produção. María Julieta Oddone e Mónica Beatriz Aguirre, no texto inti-tulado “La problemática social de la vejez en el medio rural”, analisamos velhos que vivem no campo, buscando caracterizar, através de estu-dos de casos, os estilos de vida de idosos que moram em comunidadesde tipo pastoril e agrícola. As autoras descrevem as diferentes estraté-gias de sobrevivência que eles desenvolvem na vida cotidiana comoresultado do contexto ecológico e social em que vivem na Argentina.Os mitos tradicionais sobre os velhos no meio rural também foramanalisados pelas autoras. “Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meiorural”, texto de Caroline Stumpf Buaes e Johannes Doll, trata justa-mente de mostrar como a mulher idosa constrói a sua experiência de serviúva no meio rural brasileiro. Segundo os autores, o estudo, realizadono Planalto Médio do estado do Rio Grande do Sul, mostra que a mulheraprende a ser viúva a partir do posicionamento que assume ante orevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 15. Editorial 17conflito entre os antigos discursos, marcados pela cultura dos imigran-tes, e os novos discursos científicos sobre a gerontologia. O estudo exploratório de Liliana Sousa e Margarida Cerqueira,em Portugal, evidencia as imagens da velhice em diferentes faixas etá-rias. As autoras trabalharam com uma amostra de 120 sujeitos de quatrogrupos etários: muito-idosos, idosos-jovens, adultos e jovens, os quaisforam convidados a completar três frases: uma pessoa velha é; a velhice é;sabemos que alguém está velho quando. Segundo as autoras, os resultadosdessa pesquisa indicam que: as imagens tendem a ser mais negativasentre os idosos; as imagens comuns são uma “fase normal da vida”,“desânimo e vulnerabilidade” e “incapacidade”. Dados que podem serconferidos no texto intitulado “As imagens da velhice em diferentesgrupos etários: um estudo exploratório na população portuguesa”. O texto “Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de enve-lhecimento”, de Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trench,apresenta um recorte da dissertação Velho é o outro!: a experiência de en-velhecimento de usuários do Núcleo de Atenção a Saúde do Idoso, que trata davivência etária e da interpretação sobre ser velho e a velhice dada pelosentrevistados usuários do Núcleo. As autoras assinalam que os idososdizem estar bem com a idade que têm, sugerindo que a problemáticada velhice está na sua representação social e não no envelhecimento. Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntl, no texto“Aposentados e livres... mas para quê? Os trabalhadores e a representaçãosocial da aposentadoria e do projeto de vida pessoal”, mostram o signi-ficado da aposentadoria, bem como o projeto de vida pessoal de um grupode funcionários de uma instituição de ensino superior, a partir da análiseestruturada em: Idéia-Central, Expressões-chave e Discurso do SujeitoColetivo - DSC. As autoras apontam que as idéias centrais: “descanso”,“dinheiro certo” e desejo de continuar trabalhando, seja como “reforçodo salário”, seja “para não ficar parado” compuseram o DSC. O texto intitulado “A oficina de revisão de vida como um métodode intervenção psicológica com idosos”, de Marluce Auxiliadora BorgesGlaus Leão e Joel Sales Giglio, descreve um método de intervençãopsicológica desenvolvido com um grupo de mulheres idosas, em pro- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 16. 18 Editorialcesso de envelhecimento normal, utilizando a revisão de vida como umproduto da memória que mobiliza intencionalmente suas lembranças.As autoras discutem como os procedimentos metodológicos possibili-tam a (re)avaliação da trajetória individual de perdas e ganhos na ve-lhice e a projeção de metas de vida futura, concluindo que o método derevisão de vida pode ser entendido como uma estratégia compensatóriade natureza emocional adequada para o trabalho com idosos. “Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma ido-sa”, texto de Valda Bernardes de Souza Bruno, mostra as mudanças eos movimentos que ocorrem com a pessoa idosa que busca uma psico-terapia. A autora observou que a pessoa no seu processo de envelheci-mento, quando estimulada, acolhida e respeitada, encontra motivaçãopara realizar atividades nunca antes pensadas e experimentadas, como,por exemplo, o caminho das artes. Amparo Caridade, no artigo “Sexualidade e envelhecimento”,assinala que o homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer, o queo angustia, e por isso ele busca para si ilusões de eternidade, como sepudesse esconder-se de sua provisoriedade. A finitude, segundo a au-tora, é vista por ele como uma limitação, não como o limite que é postoà vida. Para ela, esse olhar impede seu verdadeiro crescimento rumo àmaturidade e à alegria de viver. Segundo ela, falar de envelhecimentoé falar da consciência dessa finitude, da possibilidade de ser por eladesafiados, e da capacidade que temos de proceder à superação, à trans-formação, à metanóia, à mudança de atitudes. A autora termina apon-tando que a vida é exigente de um ascender ao mais além e que nessecontexto a sexualidade nos convoca para a construção de um sujeitoprazeroso e feliz. “Envelhecimento e velhice com HIV/AIDS”, texto de BiancaFernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini, contextualizaa vivência do idoso no processo de envelhecer com HIV/AIDS, verifi-cando os seus possíveis significados. As autoras dizem que, juntamentecom o aumento de idosos no Brasil e no mundo, devido ao aumento daexpectativa de vida, cresce também o número de infecções pelo HIV/AIDS em pessoas com 60 anos ou mais, resultando na mais nova ca-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 17. Editorial 19racterística da epidemia. Elas concluem que, mesmo diante da croni-cidade do diagnóstico HIV/AIDS, com seus desdobramentos e as im-plicações biopsicossociais do processo de envelhecimento, o idosoprocura adaptar-se à situação vivenciada, buscando melhores condiçõesde vida e saúde. Virginia Viguera faz uma breve reflexão sobre “La resiliencia y losadultos mayores. Importancia de su aplicación en grupos de educaciónpara el envejecimiento”, trazendo para os leitores o conceito de resiliên-cia, termo que se tornou conhecido a partir da década de 80, quandodiversas publicações começaram a divulgá-lo, especialmente em rela-ção a pesquisas com crianças e adolescentes. Na ocasião, diz ela, muitospesquisadores se perguntavam como crianças abandonadas e maltrata-das ou mesmo adultos que haviam estado em campos de concentraçãonazistas tornavam-se pessoas honoráveis e criativas. A autora, então,define em seu texto o que vem a ser resiliência a partir de uma práticaem um grupo de idosos argentinos. Diante de tantas adversidades que o ser em processo de envelhe-cimento enfrenta durante a vida, especialmente na sua etapa da velhice,não será a resiliência o que lhe permite continuar se desenvolvendo comoser humano? Qual será, então, o sentido do envelhecimento? Acredi-tamos que os artigos desta edição da Kairós dão excelentes pistas paraque nossos leitores possam responder esta questão! Beltrina Côrte Suzana A. Rocha Medeiros revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 13-19
  • 18. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular Adriana Frohlich MercadanteRESUMO: Este artigo tem como objetivo introduzir as teorias evolutivas doenvelhecimento e as suas discussões, e também apresentar as recentes pesquisassobre as bases moleculares e celulares do envelhecimento.Palavras-chave: envelhecimento celular; envelhecimento molecular; genes.ABSTRACT: The aim of this article is to introduce and to discuss the evolutionary theoriesof ageing and also to present the new researches about the molecular and cellular basis ofageing.Key-words: cellular ageing; molecular ageing; genes.Introdução A ciência do envelhecimento, motivada por encontrar a fonte dajuventude ou pela curiosidade de entender como e por que envelhece-mos, cresceu de forma assustadora e, atualmente, muitos detalhes so-bre os mecanismos moleculares e celulares do envelhecimento estãosendo desvendados. Entretanto, por ser um processo altamente com-plexo, muitas questões sobre o envelhecimento ainda permanecem semrespostas. Recentemente, várias revistas importantes na área de Biologia(como Cell, Nature e Science) dedicaram grandes espaços e até números revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 19. 22 Adriana Frohlich Mercadanteinteiros para artigos e revisões sobre o envelhecimento. O presenteartigo, baseado nessa literatura atual, pretende mostrar as discussões deteorias evolutivas e os avanços moleculares e celulares no estudo doenvelhecimento. Assim, na tentativa de responder à questão principal“Por que envelhecemos?”, primeiro serão apresentadas as teorias evo-lutivas do envelhecimento, que discutem as razões de esse processo tersido mantido em várias espécies durante a evolução. Em seguida, asrazões moleculares e celulares serão tratadas. Por último, serão apresen-tados os estudos com organismos modelos e como estes têm contribuídopara o melhor entendimento do envelhecimento em várias espécies etambém no homem.Teorias evolutivas do envelhecimento As definições de envelhecimento que aparecem em vários artigossão muito parecidas e todas elas concordam que o envelhecimento podeser caracterizado como um processo de impedimento progressivo egeneralizado de funções que resulta no aumento do risco de doenças emorte. Esse processo é também acompanhado pela diminuição da fer-tilidade (Partridge e Gems, 2002; Kirkwood, 2005). Assim, com essadefinição, fica claro que o envelhecimento é algo ruim para o indivíduoe, portanto, de acordo com a teoria evolutiva de Darwin, ele não deveriater sido mantido durante a evolução. Para entender melhor esta última afirmação, é preciso enten-der o conceito de seleção natural proposto por Darwin. Tal conceitobaseia-se no fato de que, na natureza, os indivíduos mais aptos, istoé, aqueles que apresentam características que permitem uma melhoradaptação ao meio, têm maior chance de atingir a idade adulta e deixardescendentes. Assim, qualquer variação que aumente a adaptação doorganismo ao seu meio ambiente tende a ser preservada, enquantoaquelas variações que diminuem a adaptabilidade são eliminadas.Nesse sentido, o envelhecimento, que diminui a chance de sobrevi-vência do indivíduo e diminui também a sua fertilidade, deveria terrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 20. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 23sido eliminado pela seleção natural. E por que ele foi mantido em umgrande número de espécies? As primeiras idéias que tentavam responder essa questão são doséculo XIX. Nessa época, Alfred Russel Wallace propôs que o envelhe-cimento ocorre “para o bem das espécies” (revisado por Patridge e Gems,2002). Segundo ele, o envelhecimento serviria para controlar o tama-nho da população e impedir a competição de seus indivíduos pelasmesmas fontes e também para assegurar a renovação de gerações. Defato, à primeira vista, essas idéias conseguem, de maneira confortável,explicar a razão do por que envelhecer. Contudo, evolucionistas dasegunda metade do século XX apontaram várias falhas nesse pensa-mento. Uma delas está no fato de que a seleção natural raramente agepara o bem da espécie em detrimento do indivíduo. Geralmente, a seleção de indivíduos que produzem mais descen-dentes é mais poderosa do que a seleção para a diminuição da fertilidadedos indivíduos em favor da espécie. Além disso, na natureza, o envelhe-cimento não contribui de maneira significativa para a mortalidade dapopulação. Os animais selvagens, geralmente, morrem por fatoresextrínsecos, como fome, frio, predação, infecções, etc. Dessa maneira,os indivíduos na natureza não vivem o bastante para se tornarem ve-lhos. Em decorrência disso, a seleção natural tem pouca oportunidadede exercer alguma influência sobre o processo de envelhecimento(Kirkwood, 2005). De fato, a raridade de animais velhos na natureza forneceu a pistapara um importante princípio, no qual estão baseadas as atuais teoriasevolutivas do envelhecimento. Como resultado da mortalidade extrín-seca, há um progressivo enfraquecimento da força da seleção naturalem idades mais avançadas. Com isso, mutações em genes com efeitosdeletérios nessas idades podem ter sido geradas (já que a fraca seleçãonatural não conseguiu barrá-las) e acumuladas após várias gerações.Qualquer indivíduo que escape à mortalidade extrínseca e consiga viverpor mais tempo, irá experimentar os efeitos dessas mutações como oprocesso de envelhecimento. Essa é a teoria do acúmulo de mutaçõese foi proposta por Medawar, em 1952 (Kirkwood e Austad, 2000; revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 21. 24 Adriana Frohlich MercadanteKirkwood, 2005). A ausência de seleção das mutações permite inferirque o envelhecimento decorre de processos aleatórios e, assim, conse-gue explicar as diferenças nos processos de envelhecimentos das váriasespécies. Em 1957, Williams postulou a existência de vários genes queteriam efeitos opostos no indivíduo em diferentes idades: eles seriamvantajosos em idades mais jovens e por isso teriam sido selecionadospela seleção natural, porém seriam prejudiciais em idades mais avan-çadas, nas quais a seleção age fracamente. Essa idéia é conhecidaatualmente como a teoria da pleiotropia antagônica (um gene pleiotró-pico é aquele que tem múltiplos efeitos). Williams ainda exemplificoua sua teoria com uma mutação hipotética que teria um efeito favorávelna calcificação óssea durante o desenvolvimento de um indivíduo,porém, em idades mais avançadas, ela seria prejudicial ao promovertambém a calcificação de artérias (Kirkwood e Austad, 2000; Patridgee Gems, 2002). Em um contexto mais fisiológico, a teoria da pleiotropia antagô-nica foi desdobrada em uma outra teoria, a do “soma descartável”. Estabaseia-se na otimização da divisão de fontes metabólicas entre a repro-dução e a manutenção somática. Essas fontes são finitas e por isso ajus-tes e trocas constantes devem ser feitos para que essa energia seja usadada melhor forma possível, isto é, de maneira que permita ao indivíduoatingir o seu máximo de adaptação ao meio ambiente, sendo capaz desobreviver o suficiente nele e de produzir descendentes. Uma idéia quesurge com essa teoria é de que o envelhecimento decorre da baixa ati-vidade de manutenção e reparo do soma, às custas de um maior inves-timento na reprodução (Kirkwood, 2005). E, de fato, muitas vezes existeuma relação inversa entre longevidade e fertilidade (Patridige, Gems eWithers, 2005). As três teorias, Acúmulo de Mutações, Peliotropia Antagônicae Soma Descartável, explicam, de forma complementar, a existência doenvelhecimento. Os diferentes tempos de vida das várias espécies tam-bém podem ser entendidos com a ajuda dessas idéias. Fica claro que onível de mortalidade extrínseca é o principal determinante no temporevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 22. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 25de vida de cada espécie. Se esse nível é alto, a) a expectativa de vida nanatureza é baixa, b) a força da seleção natural atenua de forma rápida,c) efeitos deletérios de genes são acumulados em idades jovens, e d) háentão, uma forte seleção para que a energia disponível seja usada nareprodução, ao invés de ser usada na manutenção somática. Conseqüen-temente, esse organismo terá uma baixa longevidade, mesmo quandofor estudado em ambientes protegidos. De maneira inversa, se o nívelde mortalidade extrínseca é baixo, a seleção irá adiar os efeitos deletériosde determinados genes e irá favorecer o investimento na construção emanutenção de um soma mais durável (Kirkwood e Austad, 2000). Essas discussões evolutivas sobre o envelhecimento levam a umaconclusão evidente: a de que esse processo não foi selecionado positiva-mente e nem negativamente pela seleção natural. Ele simplesmente foimantido e pode ser visto como um “efeito colateral” da própria luta pelasobrevivência do indivíduo e da espécie.As bases moleculares e celulares do envelhecimento As teorias evolutivas conseguem então explicar o envelhecimen-to de uma maneira mais geral, sem se aprofundar em mecanismos. Estesúltimos estão sendo investigados por vários grupos de pesquisadores,através da Bioquímica, da Biologia Molecular e da Biologia Celular, emuitos detalhes moleculares e celulares sobre o envelhecimento já fo-ram desvendados. As células compõem todos os organismos vivos e por isso sãoconhecidas com “as unidades da vida”. As moléculas que fazem partedas células podem ser divididas em alguns grupos principais, sendo quedois deles serão tratados com especial enfoque no presente artigo: ogrupo dos ácidos nucléicos e o grupo das proteínas. Existem dois tipos de ácidos nucléicos: o ácido desoxirribonu-cléico (DNA) e o ácido ribonucléico (RNA). Essas macromoléculasapresentam enorme importância nos seres vivos, já que elas constituemo material genético das células. Os genes, responsáveis pelas informa-ções hereditárias, são segmentos das moléculas de DNA. Eles regem a revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 23. 26 Adriana Frohlich Mercadantesíntese de todas as proteínas celulares e, nesse processo de fabricação,o RNA também participa. Assim, DNA e RNA controlam a fabricaçãode todas as proteínas (estruturais e enzimáticas) das células. Como asproteínas acabam por controlar todo o funcionamento celular (comoserá visto adiante), é fácil concluir qual é o grau de importância dosácidos nucléicos nas células vivas (Berg, Tymoczo e Stryer, 2002). Quanto às proteínas, muito já se ouviu falar sobre suas funções.Além de constituírem o componente celular mais abundante, elasparticipam de quase todos os processos biológicos. Elas formam asestruturas de sustentação das células e também catalisam as reaçõesbiológicas e, nesse caso, são denominadas enzimas (ibid.). Muitas ou-tras funções celulares são desempenhadas por proteínas. A hemoglobi-na, por exemplo, é uma proteína encontrada nas células vermelhas(hemácias) do sangue e é responsável por se ligar ao oxigênio que serátransportado para todos os tecidos. Alguns hormônios, como a insuli-na, também são proteínas. Até mesmo a atividade dos genes é contro-lada por proteínas (ibid.). Várias evidências sugerem que no processo de envelhecimentoocorrem danos nessas moléculas essenciais: nas proteínas e no DNA.Numerosos estudos reportaram que danos no DNA, como mutaçõessomáticas e outras modificações, aumentam durante o envelhecimen-to. Assim, parece que a capacidade de reparo do DNA é um importantedeterminante na taxa de envelhecimento celular e molecular. E, real-mente, há uma relação geral entre longevidade e estabilidade do DNA(Promislow, 1994). Ainda com relação ao DNA, um outro mecanismo importanteque determina o envelhecimento é a perda do telômero. Telômeros sãoas extremidades dos cromossomos (estruturas formadas por DNA) e aolongo das divisões celulares eles vão se encurtando. Nas células germi-nativas (presentes nos testículos e ovários) e em algumas células-tron-co, o encurtamento do telômero não ocorre, pois existe nessas célulasuma enzima, conhecida como telomerase, que é capaz de refazer ostelômeros. As células somáticas não possuem telomerase e por isso vãoperdendo parte do telômero a cada divisão que sofrem.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 24. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 27 Há algumas sugestões de que nessas células o telômero agiriacomo um “contador intrínseco de divisões”, talvez para proteger oorganismo de uma divisão descontrolada, como a que ocorre no câncer(Campsi, 2005). Entretanto, o “preço” que pagamos por esse controleé o envelhecimento, já que as células com telômeros mais curtos (quesofreram várias divisões) acabam morrendo e também ficam mais ins-táveis geneticamente. A perda de células nos tecidos é uma caracterís-tica observada nos indivíduos velhos. A renovação de proteínas nas células é um processo essencial paraque as funções celulares sejam preservadas. Certas evidências apontampara o acúmulo de proteínas alteradas (defeituosas) nas células duranteo envelhecimento. Esse acúmulo contribui para o aparecimento de váriasdoenças relacionadas com a velhice, como catarata, Doença de Alzheimere Doença de Parkinson. Estudos sugerem que no envelhecimento háum declínio dos mecanismos que estão envolvidos com a renovação deproteínas (revisado por Kikwood, 2005). Como foi visto, o acúmulo de danos somáticos em macromolé-culas importantes, como DNA e proteínas, pode ser considerado comoa principal causa do processo de envelhecimento. Dentre as várias fon-tes de danos somáticos, a geração de espécies reativas de oxigênio podeser considerada uma das principais. Também conhecidas como “radicaislivres”, as espécies reativas de oxigênio são produtos naturais do meta-bolismo e também participam de processos fisiológicos. Assim, o balan-ço entre os efeitos prejudiciais das espécies reativas de oxigênio e seusefeitos benéficos é que, em última análise, determina a taxa de envelhe-cimento (Hasty et alii, 2003). Os radicais livres são moléculas altamen-te reativas e assim podem “atacar” as proteínas e os ácidos nucléicos eimpedir que suas funções normais sejam desempenhadas. Sabe-se queas células possuem mecanismos de defesa contra as espécies reativas deoxigênio e as falhas destes também contribuem para o envelhecimento. Os danos no DNA e nas proteínas acabam por alterar a funçãonormal das células, que pode ser programada para morrer ou entãocontinuar viva de maneira prejudicial ao tecido e, por último, ao indi-víduo. Esses danos moleculares ocorrem em vários graus nos diferentes revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 25. 28 Adriana Frohlich Mercadantetipos de células de um organismo. Esse fato deve contribuir para a grandeheterogeneidade de processos de envelhecimento observados.O estudo do envelhecimento em animais modelos A anterior apresentação dos mecanismos celulares e molecularesenvolvidos no envelhecimento permite inferir que o envelhecimento éum processo multifatorial e que, portanto, envolve a participação devários genes, agindo independentemente. Contudo, estudos feitos emorganismos modelos trouxeram evidências de que apenas alguns pou-cos genes são capazes de determinar a longevidade de um indivíduo. Os quatro organismos modelos mais usados no estudo do enve-lhecimento (e também no estudo de outros processos fisiológicos epatológicos) são: levedura (Saccharomyces cerevisiae), que é um fungounicelular usado na fabricação de cervejas e nos fermentos biológicos;o verme nematodo Caenorhabditis elegans; a mosca de fruta (Drosophilamelanogaster); e o camundongo (Mus musculus). Trabalhar com animaismodelos apresenta várias vantagens: eles são de fácil manipulação;possuem tempo de vida relativamente curto (variando de poucos diasa dois anos), o que é muito importante no estudo do envelhecimento;os genomas desses organismos já foram decifrados e por isso eles são defácil manipulação genética e permitem que sejam feitas comparaçõescom os genes humanos. De maneira geral, o envelhecimento pode ser investigado nessesorganismos através de indivíduos mutantes, que apareceram de formaesporádica ou foram gerados, que apresentam alterações na sua longe-vidade. Os genes mutados são então identificados e a sua função emindivíduos selvagens (não mutantes) pode ser avaliada. Muitos genessão compartilhados por várias espécies e, então, os genes que determi-nam o tempo de vida de um verme, por exemplo, pode também (masnão necessariamente) ter a mesma função nos seres humanos. Em levedura, o envelhecimento é geralmente determinado pelonúmero de divisões que uma célula-mãe sofre para dar origem a novascélulas. Durante as divisões, o material genético é segregado de formarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 26. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 29que a célula-mãe fica sempre com o DNA antigo e os seus descendentesrecebem o DNA recém-sintetizado. Após 20-30 divisões, a célula-mãeapresenta características que indicam seu envelhecimento: ela aumentade tamanho e diminui o número de divisões. Além disso, por causa dasvárias divisões, a célula-mãe apresenta “cicatrizes” na sua superfície.Esse processo de envelhecimento em levedura é conhecido como “en-velhecimento replicativo”. Estudos com leveduras evidenciaram a participação do gene SIR2no envelhecimento. Esse gene codifica para a proteína Sir2, que é capazde “silenciar” outros genes, ou seja, de evitar a expressão de um conjun-to inteiro de genes. Essa inativação mediada por Sir2, além de reduzira expressão gênica, também diminui a instabilidade genômica no nu-cléolo e, assim, aumenta a longevidade das células através da reduçãode “DNAs tóxicos” (círculos extracromossômicos de rDNA) (Hekimie Guarente, 2003). Foi visto também que a atividade de Sir2 dependede um co-fator, conhecido como NAD (nicotinamida-adenina-dinucleotídeo). Como NAD é usado em centenas de reações metabó-licas, a sua quantidade determina o estado metabólico da célula. Então,em condições onde há pouco alimento no meio (quando, por exemplo,há uma superpopulação de leveduras), há bastante NAD sobrando, oque leva a uma alta atividade de Sir2 e, conseqüentemente, uma maiorinativação de genes. Assim, Sir2 é capaz de perceber a condição meta-bólica em que a levedura se encontra e, dessa maneira, controlar a sualongevidade através da inativação de genes e estabilização do genoma. De fato, a restrição calórica, um fenômeno bem conhecido há 70anos, conecta o metabolismo e o envelhecimento. A restrição calóricarefere-se a uma dieta na qual há a redução de 40-70% das caloriasingeridas. Foi visto que essa dieta aumenta o tempo de vida em roedo-res, vermes, leveduras e provavelmente primatas (Guarente e Kenyon,2000). Em leveduras submetidas à restrição calórica, mutações no geneSIR2 ou a diminuição da síntese de NAD são capazes de inibir a lon-gevidade conferida por essa dieta. Esses experimentos sustentam a idéiade que Sir2 é responsável por fazer a relação entre o metabolismo e oenvelhecimento. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 27. 30 Adriana Frohlich Mercadante O gene SIR2 é compartilhado por várias espécies, inclusive demamíferos, mas esse seu claro efeito na longevidade foi somente obser-vado em organismos mais simples (leveduras e vermes). Os resultadosobtidos em relação a esse gene indicam que mecanismos de sobrevivên-cia em fases de baixa disponibilidade de nutrientes devem ter sido con-servados durante a evolução. De fato, é vantajoso para os indivíduospossuírem um mecanismo como esse, pois, em condições não favoráveisdo meio, ele permite com que o indivíduo pare de se reproduzir e so-breviva por mais tempo até que as fontes de alimento voltem ao normal. Os estudos com verme C.elegans também mostram que altera-ções em poucos genes são capazes de aumentar significativamente otempo de vida desses indivíduos. O C.elegans é um verme nematodo devida livre muito estudado. Ele possui exatamente 959 células, e essa suasimplicidade permitiu que esse organismo fosse bem caracterizado. Elevive aproximadamente 50 dias e animais mutantes, que viviam por maistempo, foram encontrados e analisados. Uma das principais mutaçõesencontradas foi no gene daf-2, o qual codifica para uma proteína seme-lhante ao receptor que responde à insulina e ao fator de crescimentoparecido com insulina do tipo 1 (IGF1) em mamíferos. Mutações quediminuem o nível desses receptores permitiram que os vermes mutan-tes permanecessem ativos e jovens por mais tempo do que o normal eque tivessem um tempo de vida maior do que o dobro dos animais nãomutantes (ibid.). Essa descoberta indica que, nesse verme, o envelheci-mento é controlado por hormônios. Esse sistema de regulação baseadoem hormônios (sistema endócrino) deve ter sido selecionado durante aevolução, já que ele permite ao animal alterar sua longevidade atravésda percepção de mudanças nas condições ecológicas, como, por exem-plo, pouca quantidade de alimento. Além de regular o tempo de vida, os sinais gerados pelo receptorde insulina/IGF-1 de C. elegans também controlam a entrada dessesvermes em uma fase larval alternativa, conhecida como “dauer”, que éum estágio larval alternativo resistente ao estresse e de crescimentointerrompido (ibid.). Essa forma de C. elegans é induzida pela limitaçãode alimento e pela superpopulação. Assim, pode-se dizer que “dauer”revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 28. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 31é um estágio semelhante aos esporos ou equivalente à hibernação decertos vertebrados. Quando as condições do meio são limitadas, a larvade C. elegans, através da diminuição dos sinais gerados por insulina/IGF-1, é capaz de entrar no estágio “dauer” e de adiar seu desenvolvimentoe sua reprodução até que as condições melhorem. Apenas larvas jovensconseguem se converter em “dauer”. Após um certo estágio do desen-volvimento, os vermes não têm mais essa capacidade. É importantedeixar claro que os mutantes daf-2 de longevidade aumentada que foramestudados eram adultos. As mutações nesses indivíduos foram “fracas”.Mutações “fortes” proporcionam a transformação de larvas jovens em“dauer” (ibid.). Estudos dessa via de insulina/IGF-1 também foram conduzidosem Drosophila (moscas de frutas) e em camundongos e, novamente,nesses animais, foi possível identificar uma relação entre esse sistemaneuroendócrino e o controle da longevidade. Contudo, nesses animaismais complexos que os vermes, algumas diferenças nessa via foramnotadas. No camundongo, por exemplo, os animais com níveis baixosdos sinais gerados por insulina/IGF-1 vivem mais, mas são anões(Patridge e Gems, 2002). Assim, nos camundongos, deve haver umamaior complexidade dessa via. Ela deve ter relação com outras viasendócrinas e, por isso, é mais difícil ver um efeito totalmente dependen-te de um único gene. A completa remoção da via de insulina/IGF-1, tanto em vermes,como em moscas e camundongos é letal. Uma diminuição drástica dessessinais produz indivíduos com diabetes e, portanto, reduzem o seu tem-po de vida. Assim, apenas mutações capazes de uma mínima reduçãodessa via de sinalização é que proporcionam o aumento da longevidade(ibid.). Não há dúvida de que a grande motivação de se estudar o enve-lhecimento em organismos modelos vem da possibilidade de se poderextrapolar esses achados para os seres humanos. Contudo, como já foivisto, as conclusões de estudos obtidas em organismos mais simples sãomais difíceis de serem percebidas em organismos mais complexos.Como, em teoria, todos nós originamos de um ancestral comum, é muito revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 29. 32 Adriana Frohlich Mercadanteprovável que mecanismos primordiais tenham sido mantidos durantea evolução nos vários grupos filogenéticos. Esses mecanismos seriamentão “públicos”, por serem compartilhados entre as várias espécies.Resta saber se os mecanismos que controlam a longevidade dos váriosanimais são públicos ou privados.O estudo do envelhecimento em seres humanos Não há tantos estudos sobre o envelhecimento molecular e ce-lular em humanos como há nos animais modelos, principalmente porrazões éticas. Normalmente, os artigos sobre envelhecimento humanodiscutem e tentam entender melhor as doenças que aparecem na velhi-ce. Contudo, algumas síndromes causadas por mutações em um únicogene ajudaram a esclarecer um pouco as bases moleculares do envelhe-cimento humano. Essas síndromes são conhecidas como síndromesprogeróides humanas, um termo mais atual e melhor empregado parao que era conhecido como síndromes de envelhecimento prematuro.Geralmente, nessas doenças, a mutação em um único gene imita, deforma acelerada, o processo de envelhecimento. Um exemplo protótipo dessas doenças é a Síndrome de Werner.Os indivíduos com essa síndrome não apresentam anormalidades evi-dentes até a puberdade, na qual ocorre um claro efeito de diminuiçãodo crescimento. Assim, a baixa estatura na idade adulta é uma carac-terística dos portadores dessa doença. Além disso, outros sinais clínicossão característicos e incluem: catarata bilateral, sinais dermatológicos(cabelos grisalhos precocemente, rugas, pigmentação anormal, entreoutros), osteoporose, hipogonadismo, vários tipos de arteriosclerose,problemas cardíacos, diabetes, alta incidência de tumores, entre outros.Certos trabalhos foram capazes de identificar que essa síndrome é cau-sada por uma mutação no gene RecQ. Esse gene codifica para uma DNAhelicase, enzima envolvida na replicação e reparo do DNA. Portanto,essas pesquisas, e também estudos sobre outras síndromes progeróides,suportam a idéia de que a não manutenção da estabilidade genética estáenvolvida no processo de envelhecimento nos seres humanos (revisadopor Martin, 2005).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 30. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 33Conclusões A vida está muito longe de um equilíbrio termodinâmico. Asua estabilidade é constantemente ameaçada por uma ampla gama defatores internos e externos e, por isso, para que um organismo perma-neça vivo, deve haver mecanismos ativos de reparo. Assim, a manu-tenção do soma exige constante esforço, mas esse esforço também deveser direcionado para outros processos vitais importantes, como, porexemplo, na reprodução (Kirkwood, 2005). Essa troca na prioridadeda direção desse esforço é ditada pela seleção natural e, em últimaanálise, pela ecologia (ambiente) de um determinado indivíduo e é elaque acaba por determinar a longevidade deste. De fato, as teoriasevolutivas apontam o processo de envelhecimento como um “efeitocolateral” da história da luta pela sobrevivência do indivíduo e daespécie. As teorias evolutivas do envelhecimento predizem que a longe-vidade de uma determinada espécie deve ser influenciada pela ação devários genes. E como explicar, então, os resultados dos estudos com C.elegans e com outros organismos modelo, os quais demonstraram queum único gene, responsável por codificar o receptor de insulina/IGF-1, é capaz de controlar o envelhecimento? Para começar a responder aessa questão, é preciso lembrar que as explicações evolutivas para oenvelhecimento baseiam-se no princípio de que a seleção natural, deacordo com a mortalidade extrínseca, otimizou nas várias espécies adivisão de fontes metabólicas entre os processos de reparo e manuten-ção do soma e a reprodução. Mas, e quando ocorrem mudanças noambiente e essa divisão de fontes metabólicas não for mais ótima? É aíque entra a necessidade de, durante a evolução, ter sido desenvolvidoum mecanismo flexível, como o da via de insulina/IGF-1, capaz de“sentir” essas flutuações do ambiente (como, por exemplo, disponibi-lidade de alimentos) e de regular a divisão de fontes metabólicas deacordo com essas novas condições. A taxa de envelhecimento será de-terminada, então, pelo maior ou menor investimento nos processos demanutenção e reparo do soma. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 31. 34 Adriana Frohlich Mercadante Como foi visto, vários mecanismos celulares e moleculares estãoenvolvidos no envelhecimento e, assim, esse processo pode ser visto comocomplexo e multifatorial. Nesse sentido, a intervenção no envelheci-mento torna-se difícil, já que vários fatores precisariam ser controlados.A existência de um mecanismo mais primordial, como o sistema deinsulina/IGF-1, capaz de controlar todos esses fatores, é extremamenteatrativo, pois traz a possibilidade de que a intervenção no envelheci-mento seja mais fácil, feita em um único ponto. Um grande desafio queestá por vir é o de encontrar esse mecanismo de “controle de longevi-dade” nos mamíferos, principalmente nos seres humanos.ReferênciasBERG, J. M.; TYMOCZKO, J. L. e STRYER, L. (2002). Biochemistry. Nova York, W H. Freeman and Co. .CAMPSI, J. (2005). Aging, tumor suppression and cancer: high wire-act! Mech. Ageing Dev., n. 126, pp. 51-58.GUARENTE, L. e KENYON, C. (2000). Genetic pathways that regulate ageing in model organisms. Nature, n. 408, pp. 255- 262.HASTY, P.; CAMPSI, J.; HOEIJMAKERS, J.; VAN STEEG, H. e VIJG, J. (2003). Aging and genome maintenance: lessons from the mouse? Science, n. 299, pp. 1355-1359.HEKIMI, S. e GUARENTE, L. (2003). Genetics and specificity of the aging process. Science, n. 299, pp. 1351-1354.KIRKWOOD, T. B. L (2005). Undertanding the odd science of aging. Cell, n. 120, pp. 437-447.KIRKWOOD, T. B. L. e AUSTAD, S. N. (2000). Why do we age? Nature, n. 408, pp. 233-238.MARTIN, G. M. (2005). Genetic modulation of senescent phenotypes. Homo sapiens, Cell, n. 120, pp. 523-532.PATRIDGE, L. e GEMS, D. (2002). Mechanisms of ageing: public or private? Nature Reviews Genetics, n. 3, pp. 165-175.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 32. O envelhecimento sob o ponto de vista molecular e celular 35PATRIDGE, L.; GEMS, D. e WITHERS, D. J. (2005). Sex and death: what is the connection? Cell, n. 120, pp. 461-472.PROMISLOW, D. E. (1994). DNA repair and the evolution of longevity: a critical analisys, J. Theor. Biol., n. 170, pp. 291- 300.Data de recebimento: 17/5/2005; Data de aceite: 15/7/2005.Adriana Frohlich Mercadante – Pós-doutora – Departamento de Bioquímica,Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Profa. Doutora do Departa-mento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná. E-mail:afmercadante@yahoo.com.br revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 21-35
  • 33. O idoso ontem, hoje e amanhã: o direito como alternativa para a consolidação de uma sociedade para todas as idades Fábio Roberto Bárbolo AlonsoRESUMO: O presente artigo pretende analisar as novas dinâmicas de inclusãosocial do indivíduo idoso a partir das transformações demográficas observadas emnível mundial, principalmente no que diz respeito ao aumento de sua tutela peloEstado. A criação de toda uma legislação especificamente voltada para o segmentoidoso reforça a idéia de que as sociedades procuram, neste momento, alternativaspara incluir e garantir a cidadania destes indivíduos, até então excluídos pela lógicado sistema capitalista.Palavras-chave: idoso; direito; cidadania.ABSTRACT: This article intends to analyse the emergents process of social integration ofold people observing the demografic changes in all the world, principally the aspect of theincrement of the State custody. The creation of a group of laws specifically destinated to theold people reforces the idea that the societies are trying, in this moment, to look for alternativesto integrate and consolidate the citizenship of this people, that continues excluded untill nowby the logic of capitalists systems.Key-words: old age; law; citizenship. O crescimento da população idosa é um fenômeno mundial.Devemos considerar como idosos aqueles indivíduos maiores de 60 anos,com base no critério de referência estipulado pela ONU e referendadopor grande parte da comunidade mundial. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 34. 38 Fábio Roberto Bárbolo Alonso Tanto os países considerados desenvolvidos, quanto aqueles con-siderados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, apresentam umamesma tendência demográfica: o aumento do número de idosos, tantoem termos quantitativos quanto em termos proporcionais em relaçãoà população total do país. Esse fenômeno resulta, em geral, da queda das taxas de natali-dade, em virtude do aumento do uso de anticoncepcionais e a uma maiorconscientização da população em relação à estrutura familiar, combi-nada com a queda das taxas de mortalidade, observadas devido aosavanços da medicina e à melhoria da qualidade de vida dos indivíduosem geral. O aumento da expectativa de vida, aliado à diminuição da na-talidade, configura um quadro onde, de um modo geral, nascem menospessoas, e elas tendem a viver mais. Desencadeia-se, assim, um processode envelhecimento da sociedade, caracterizado pelo aumento do per-centual de indivíduos idosos nas populações de praticamente todos ospaíses do mundo. Estima-se, segundo projeções, que, em meados de 2030, a po-pulação mundial de idosos ultrapasse a marca de um bilhão de pessoas,sendo que 75% desse contingente estará localizado em países subde-senvolvidos. A questão central neste ponto é que os países considerados de-senvolvidos possuem instituições e mecanismos que absorvem eficien-temente esse contingente populacional, inserindo-o na rede de proteçãoe infra-estrutura social de forma a proporcionar-lhe uma boa qualidadede vida. O aparelho estatal está preparado para esse impacto demográ-fico e tem condições de se adequar às demandas sociais provenientesdessa nova estrutura populacional. Inversamente, os países subdesenvolvidos geralmente possueminstituições estatais desorganizadas e enfraquecidas, além de gravesproblemas sociais, como a má distribuição de renda e a ineficaz rede deinfra-estrutura social, o que resulta em grandes disparidades no nívelde vida das diversas classes sociais. Dessa forma, esses países não con-seguem adaptar-se à nova dinâmica demográfica, fazendo com que arevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 35. O idoso ontem, hoje e amanhã 39emergente população idosa se encontre desamparada e desprotegidaem relação aos seus direitos. Um Estado baseado em instituições corrompidas, estagnadas eimprodutivas não possui, muitas vezes, recursos e mecanismos eficien-tes para consolidar uma proteção social mínima para sua comunidade,agravando-se a situação em relação ao segmento idoso, que demandanovas exigências e novos enfoques das políticas sociais do Estado. Issoexige uma flexibilidade e uma organização ainda maior do poder pú-blico, fazendo com que a população sofra as conseqüências da inexistên-cia de tais características. Assim sendo, o impacto causado pelo aumento global da popu-lação idosa levou à necessidade da implementação de políticas públicasespecíficas para o segmento idoso. Percebe-se uma maior conscientiza-ção em relação às necessidades peculiares desse grupo, que não poderiamais passar despercebido diante dos olhos do Estado, levando à suainclusão nas políticas sociais de desenvolvimento e qualidade de vida. O segmento idoso é específico, e suas necessidades igualmenteespecíficas exigem a adoção de políticas públicas diferenciadas, visandoao pleno atendimento das demandas características da população idosa. É importante ressaltar que vivemos em uma sociedade capitalis-ta, organizada em função da produção material e da atividade profis-sional, onde a idéia de participação e inserção social está diretamenteligada à força de trabalho. Esse tipo de organização socioeconômica,estruturada sob a divisão de classes, coloca o idoso à margem da socieda-de, uma vez que ele não mais se constitui como mão-de-obra paraimpulsionar e reproduzir o sistema. O idoso constitui, dessa forma, um segmento que se caracterizapeculiarmente por não mais participar do processo produtivo, e passaa sofrer, com isso, um forte estigma social. A aposentadoria pode serapontada como o marco de entrada na fase do envelhecimento: essepróprio termo já está carregado de um valor pejorativo, significando“retirar-se aos aposentos”, o que indicaria um período de vida inerte eobsoleto para esses indivíduos, o que não condiz, necessariamente, coma realidade. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 36. 40 Fábio Roberto Bárbolo Alonso O capitalismo exacerba a busca pelo lucro, onde tudo se tornauma mercadoria, inclusive o trabalhador. E somente a mercadoria temvalor, fazendo com que a ausência da atividade profissional representea perda do valor atribuído ao indivíduo pela sociedade. A populaçãoidosa é, assim, qualificada como improdutiva, sendo desvinculada dadinâmica social, que somente absorve e valoriza aqueles indivíduos queestão inseridos na lógica da produção e do consumo. Para sermos efetivamente considerados “cidadãos”, segundo aconcepção capitalista, é necessário produzirmos ou consumirmos, e depreferência produzirmos e consumirmos: aqueles que não exercem essasfunções perdem sua funcionalidade e valoração diante da sociedade.Nada mais conta além da força de trabalho e do poder de consumo. A própria idéia de velhice está vinculada ao papel que esse grupodesempenha ou deixou de desempenhar na sociedade, não sendo oenvelhecimento uma questão meramente relacionada à idade biológi-ca. Como afirma brilhantemente Ecléa Bosi: A noção que temos de velhice decorre mais da luta de classes que do conflito de gerações. É preciso mudar a vida, recriar tudo, refazer as relações doentes para que os velhos trabalhadores não sejam uma espécie estrangeira. Para que nenhuma forma de humanidade seja excluída da humanidade é que as minorias têm lutado, que os grupos discriminados têm agitado. (1979, p. 12) Essa idéia é reforçada pela disseminação de uma “ideologia davelhice” (Haddad, 1989), onde contextualiza-se o processo de envelhe-cimento segundo os interesses da classe dominante e da lógica capita-lista. Segundo essa ideologia, o idoso é caricaturado, genericamente,como aquele indivíduo fisicamente incapaz e mentalmente debilitado,tornando sua exclusão social uma contingência natural e irreversível.Estaríamos ainda na época de Manu (Neto, 2002), primeiro legisladorda Índia, que em seus códigos elaborados aproximadamente em 200a.C. tratava os idosos como indivíduos débeis e alienados, que sequerpoderiam emitir um simples testemunho?revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 37. O idoso ontem, hoje e amanhã 41 Temos que concentrar nossa reflexão na idéia de que a ideologiacapitalista mascara uma outra realidade, na qual a marginalização doidoso é um processo social e não um processo natural, uma vez quedecorre da organização do processo produtivo, que somente valoriza acapacidade de trabalho dos indivíduos, legitima a desigualdade socialatravés da acumulação de capital e defende um Estado mínimo1 naconcessão de benefícios e garantias sociais. Se vivêssemos sob outra formade organização social, talvez tivéssemos um outro enfoque em relaçãoàs pessoas. Outra variável determinante para a caracterização de um indi-víduo idoso é a autonomia: aí se percebe naturalmente uma maiordependência desses indivíduos em relação aos seus familiares ou atémesmo em relação ao Estado, devido à sua maior vulnerabilidade físicae, é claro, econômica, como explica Saad: Com freqüência, a pessoa é considerada idosa perante a socie- dade a partir do momento em que encerra as suas atividades econômicas. Em outras ocasiões, é a saúde física e mental o fator de peso, sendo fundamental a questão da autonomia: o indiví- duo passa a ser visto como idoso quando começa a depender de terceiros para o cumprimento de suas necessidades básicas ou tarefas rotineiras. (1990, p. 4) Esse é, inclusive, um dos temas de destaque tanto nos Documen-tos Internacionais quanto nos Documentos Nacionais de proteção aoidoso, onde se postula como referência para o seu tratamento no âmbitosocial a garantia de sua autonomia e independência, no mais alto grauem que isso for possível.1 O conceito de “Estado mínimo” define o papel do Estado como um instrumento que garante a plena liberdade individual através da proteção à propriedade pri- vada e serve como um suporte funcional básico para o desenvolvimento de cada indivíduo, eximindo-se assim de maiores obrigações sociais e não tendo responsa- bilidades pela desigualdade social e pela estratificação de classes. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 38. 42 Fábio Roberto Bárbolo Alonso Tende-se também a generalizar a condição de vida da populaçãoidosa, o que não condiz com a realidade de nossas sociedades, uma vezque o idoso, assim como qualquer pessoa de outra faixa etária, possuisua individualidade, que está ligada a uma série de fatores que a deter-minam. Não podemos, assim, homogeneizar a figura do idoso indepen-dentemente das circunstâncias sociais em que ele está inserido. Apesar de algumas características comuns, esse segmento popu-lacional está obrigatoriamente inserido em uma realidade concreta,variável e heterogênea. Assim sendo, os problemas e as dificuldadesrelacionadas à população idosa dependem das contingências estrutu-rais de determinado contexto social. Existem idosos pobres e ricos,graduados e analfabetos, saudáveis e doentes... Devemos ter em mente, portanto, que a construção da imagemda velhice é um fator determinante para a valorização ou a desvalori-zação desse grupo na sociedade, vinculando-o ou excluindo-o das opor-tunidades sociais. Um discurso ideológico adquire contornos queproduzem reflexos imediatos e concretos na vida dos indivíduos rela-cionados a essa imagem, sendo assim de extrema importância procu-rarmos desmistificar as concepções negativas generalizadamentedifundidas sobre a condição do idoso. Deveríamos abandonar a sombria relação existente entre enve-lhecimento e morte, que enxerga essa etapa de vida simplesmente comoo ponto derradeiro da existência humana, restando-nos apenas tentartorná-lo o menos doloroso possível. Essa visão ultrapassada do envelhe-cimento foi exposta na funesta afirmação de Gabriel García Marquezno seu livro O amor em tempo de cólera: “é o período da vida em que a mortedeixa de ser uma possibilidade remota para se transformar em umarealidade mais imediata”. Chama a atenção a nomenclatura oficial utilizada pelo IBGE emsuas pesquisas em relação à população idosa, em que define os anos devida a partir dos 60 anos como “sobrevida”. Essa expressão transmitea idéia de que a vida útil terminaria aos 60, e o que cada indivíduoconseguisse viver a partir daí poderia ser considerado como uma espéciede “tempo extra”, e que já estaria vivendo além da normalidade.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 39. O idoso ontem, hoje e amanhã 43 É necessário repensar seriamente a utilização de expressões comoesta, que enfraquecem qualquer tipo de conscientização em relação àinclusão do idoso na sociedade como um elemento ativo, participativoe merecedor de dignidade e respeito. A velhice deve ser consideradacomo mais uma etapa de nossas vidas, que, como qualquer outra etapaanterior, combina aspectos positivos e negativos, não podendo jamaisser considerada apenas como o fim de um processo, processo esse queseria a nossa história de vida. O idoso de nossas sociedades atuais está longe de ser aquela fi-gura entregue à inércia, já que percebemos um movimento gradativode integração desse segmento com as demais gerações, através do en-volvimento em atividades sociais, políticas e culturais. Observamos umgrande incentivo à inserção do idoso nas dinâmicas sociais, e muitasvezes até se exagera em tentar formar uma imagem altamente rejuve-nescida desses indivíduos, que ultrapassa os limites do bom senso emrelação às características naturais de uma pessoa idosa. Temos que ter o cuidado de não tentar fazer do idoso aquilo queele não é, como ocorre no caso da massificação da propaganda de pro-dutos estéticos e da indústria da cirurgia plástica através da mídia, queforça o idoso a negar suas características naturais e a mergulhar em umabusca por um rejuvenescimento forçado e imposto pela sociedade, oque o expõe, muitas vezes, ao ridículo: A idéia tecnológica de conservação e embelezamento coloca-se no lugar da concepção biológica e moral da velhice. E a noção do velho sábio, destinada aos poucos que, vivendo mais, passa- vam sua valiosa experiência, vem sendo amplamente substi- tuída pela de que quem é sábio não envelhece, para os que, na atualidade tem melhores condições socioeconômicas e, de certo modo, se disfarçam de jovens com os recursos técnicos-cientí- ficos disponíveis. (Negreiros, 2003, p. 19) Percebemos assim um movimento que tenta negar a velhiceatravés de uma falsa ideologia presente entre os próprios idosos de quese pode, e até mesmo se deve conviver com a velhice como se nada de revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 40. 44 Fábio Roberto Bárbolo Alonsodiferente estivesse ocorrendo, o que não condiz com a realidade parti-cular de um indivíduo idoso. Esse tipo de pensamento (...) entende a velhice não como uma faixa etária que ganha reconhecimento no contexto de uma sociedade pós-moderna ou pós-década de 70-80, mas sim que nega o envelhecimento, que procura formas de adiá-lo. (Marques, 1999, p. 91) O idoso tem que modificar essa maneira de enxergar a sua pró-pria condição social, caso queira efetivamente defender os seus direitose ter conquistas sociais legitimadas. Não é mascarando a realidade quese irá obter algum avanço nesse sentido, mas sim assumir o envelheci-mento naquilo que ele realmente é, e a partir daí lutar pela construçãode uma nova identidade social para o idoso, que seja sinônimo de qua-lidade de vida, respeito e cidadania, mas que não o negue. Não devemos assim renegar ou rejeitar a velhice, mas tentarenxergá-la e vivê-la sob uma nova ótica. Não podemos transformar umidoso em uma pessoa jovem, sob pena de criarmos uma situação hipó-crita e ilusória para essas pessoas. Mas podemos transformar o quadrodo envelhecimento se conseguirmos modificar a visão que o restante dasociedade possui desse segmento, e, principalmente, se vislumbrarmoso milagre de transformar a lógica de produção material e organizaçãosocial de nosso mundo, que impiedosamente exclui quem não produzou quem não consome. A mudança de referencial da espera da morte para uma etapa devida produtiva pode ser ilustrada pela crescente substituição do termo“velhice” pela expressão “terceira idade”, que melhor daria significadoa essa fase da vida, que teria características peculiares como qualqueroutra etapa da vida, e apresenta, sim, problemas e dificuldades, mastambém pode ser um período em que ainda se tem muito a produzirpara a vida coletiva e muito também a aproveitar individualmente. Com o crescente aumento da expectativa de vida, praticamenteem todo o mundo, propaga-se até mesmo o conceito de uma possível“Quarta idade” para classificar aquela população que aumenta acelera-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 41. O idoso ontem, hoje e amanhã 45damente, formada por indivíduos acima dos 80 anos. A “terceira idade”seria ainda uma etapa de vida ativa e produtiva, enquanto a “Quartaidade” poderia realmente estar ligada ao infeliz comentário de GarcíaMarquez. Adia-se a morte e prolonga-se a vida útil, e já que não pode-mos ser utópicos a ponto de falarmos em uma fantasiosa eterna juven-tude, que pelo menos essa juventude seja permitida ao espírito de formaracional e equilibrada. É importante ressaltar que a defesa de um argumento em tornode um envelhecimento produtivo deve levar em consideração os aspec-tos particulares de cada sociedade e também de cada indivíduo no sin-gular. Estamos aqui falando de uma maior inserção do idoso nasdinâmicas sociais, de modo a melhorar sua qualidade de vida e a torna-lo produtivo, mas não podemos colocar esses enfoques como uma obri-gação para a população idosa. Embutir o segmento idoso de responsabilidades sociais, comotrabalhar para garantir o seu próprio sustento, por exemplo, pode servircomo argumento para eximir o Estado de suas responsabilidades peran-te o sistema previdenciário e as ofertas de serviços essenciais, colocandoa culpa no próprio idoso pela má qualidade de sua vida. O idoso deveparticipar ativamente da sociedade, assim como o Estado deve cumprircom as suas obrigações. Temos que reconhecer a evolução do Estado nas últimas décadas,no sentido de uma maior conscientização em relação ao idoso, apesarde ainda estarmos muito longe da qualidade de vida e do amparo socialalmejado para esse grupo. Percebe-se, a partir de 1970, o início de umamovimentação mundial em prol das garantias sociais e de uma tutelaestatal mais eficiente para a população idosa. Ocorreu assim no ano de 1982, em Viena, a Primeira Assem-bléia Mundial da ONU sobre o envelhecimento, com o objetivo detraçar diretrizes básicas a serem adotadas pelos países em relação àpopulação idosa. É importante ressaltar que tal Assembléia foi oprimeiro encontro mundial de representantes governamentais a tra-tar especificamente da questão do idoso, tendo como grande marcoa elaboração do Plano de Ação Internacional sobre o envelhecimento, revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 42. 46 Fábio Roberto Bárbolo Alonsoum documento em que constam 62 recomendações voltadas para aspolíticas públicas de tratamento à população idosa. A partir daí emergem em todo o mundo programas sociais, ins-tituições e legislações voltadas para a proteção do idoso e para sua in-serção na sociedade, e o Brasil também se insere nesse contexto eacompanha a conscientização para esse problema global: a realidade daexplosão demográfica da população idosa e a necessidade urgente de sepreparar um suporte estatal que esteja adequado às demandas dessapopulação. E o direito não poderia ficar de fora desse processo. O segmentoidoso é mais um grupo social que se organiza e luta pelas suas reivin-dicações, exigindo reconhecimento, participação e dignidade. Surgeassim, como parte da estrutura estatal de amparo ao idoso, um conjuntode legislações especificamente direcionadas a esse grupo, ratificandoum processo de especialização do direito que segue rumo à garantia eà defesa da afirmação das múltiplas identidades existentes na sociedade. O direito passa a atuar, então, não somente como um arranjovoltado para a organização e a normatização da vida social, mas tam-bém como um instrumento que tenha um compromisso com a mini-mização das desigualdades sociais ou que viabilize, pelo menos, umacondição de vida digna e oportunidades igualitárias de desenvolvimen-to para todos os indivíduos, funcionando assim como um canal para aefetivação da cidadania e como um elemento atenuador das diferençassociais existentes. Dentre os vários segmentos sociais especificamente tutelados pelodireito, a população idosa mostra-se em uma realidade que exige me-didas imediatas de atuação do Estado visando ao aprimoramento e àcriação de canais específicos para o atendimento de suas necessidades,fazendo surgir assim o Direito dos Idosos no Brasil. Não se trata propriamente de uma categoria nova de direitos,já que sempre existiram idosos, e, conseqüentemente, sempre houveuma relativa proteção social a tal parcela da sociedade, mas o diferen-cial atual é uma reivindicação crescente e mais organizada em favordessa causa, mobilizando vários setores da sociedade em proporçõesrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 43. O idoso ontem, hoje e amanhã 47não observadas anteriormente, o que leva à formulação e à criação deinstrumentos voltados para a proteção do idoso. Essa crescente demanda por um maior amparo social ao idosodecorre do caráter extremamente peculiar da condição de ser idoso,condição essa que possui características não existentes em outras cate-gorias ou grupos sociais. Poderíamos vislumbrar que tal preocupaçãodecorre do fato de a condição de ser idoso atingir momentaneamenteapenas uma parcela da população, mas, invariavelmente, atingirá todaa sociedade, uma vez que todos nós estamos fadados a essa mesmacondição em uma etapa futura de nossa vida. Esse é um debate novo, pois a população idosa é um problemasocial novo, caracterizando-se como um novo segmento a ser inseridonas políticas públicas e nos planejamentos governamentais. E todo novoproblema que se coloca suscita investigações, debates e sugestões, prin-cipalmente quando está relacionado à vida de 16 milhões de brasileiros.Estamos falando, assim, de um movimento social, uma luta pela con-solidação de direitos e garantias que devem ser legitimados à populaçãoidosa e efetivamente cumpridos. A situação específica da sociedade brasileira em relação ao idosoé alarmante, já que o país pode ser enquadrado dentre aqueles que nãose prepararam para absorver o crescimento da população idosa, e, comsuas instituições funcionando em condições precárias e em alguns casosaté mesmo falidas, não consegue proporcionar uma boa qualidade devida para a grande maioria desses indivíduos. O país parece estar em ebulição, pois, ao ritmo acelerado decrescimento da população idosa, ocorrem paralelamente a crise da pre-vidência pública e a sua polêmica proposta de reforma, orçamentoscomprometidos que inviabilizam investimentos na área social e umaabsurda distribuição de renda: o Brasil possui a terceira maior concen-tração de renda do mundo. E, logicamente, a população idosa estáinserida nesse contexto, sofrendo diretamente as suas conseqüências. A situação torna-se ainda mais preocupante quando analisamosos dados oficiais do IBGE: em 2002, a população idosa já atingia a marcados 16 milhões de brasileiros, o que representa cerca de 9% da popula- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 44. 48 Fábio Roberto Bárbolo Alonsoção total do país, e, segundo estimativas, esse segmento continuará acrescer em ritmo acelerado. As tendências mostram que, possivelmen-te, em 2015, a população idosa constitua cerca de 15% da populaçãobrasileira, fazendo com que o Brasil tenha a sexta maior população idosado mundo. O país acompanhou o processo mundial de conscientização darealidade do idoso e passou, a partir da década de 70, a promover e aimplementar gradativamente sua rede de proteção social voltada paraesse grupo. Os ministérios do Planejamento e Assistência Social (MPAS)e a Secretaria de Direitos Humanos passaram a elaborar programassociais e políticas públicas de atendimento ao idoso, culminando esseprocesso com a Constituição de 1988, que introduz alguns pontos es-pecíficos em relação ao grupo, como a gratuidade nos transportes cole-tivos urbanos e a regulamentação da aposentadoria por idade, porexemplo. Finalmente, é elaborada em 1994 a Política Nacional do Idoso,que se caracteriza como um conjunto de diretrizes e orientações básicaspara as políticas sociais de proteção ao idoso, estipulando atribuições acada órgão governamental e determinando as funções dos conselhosdos idosos, em nível federal, estadual e municipal. Chega-se ao ápice da proteção social ao idoso no Brasil com aregulamentação do Estatuto do Idoso, em outubro de 2003, estabele-cendo-se toda uma legislação especificamente voltada para esse seg-mento, quando se atribuem, inclusive, competências e responsabilidadesde instituições governamentais, como o Ministério Público, por exem-plo, por zelar pela efetividade de tal Estatuto. O grande problema investigado surge, então, neste ponto. Ar-ticulando-se todo o sistema de amparo e proteção ao idoso no país, oBrasil possui atualmente umas das mais completas legislações domundo, o que é praticamente unanimidade entre analistas e pesquisa-dores. Porém, não observamos uma boa qualidade de vida para a grandemaioria da população idosa do país. Uma boa parcela desse segmento,inclusive, vive sob precárias condições de subsistência.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 45. O idoso ontem, hoje e amanhã 49 A indagação central que se coloca, assim, é se realmente a legis-lação direcionada ao idoso e a rede de proteção para ele criada funcio-nam, e se obtém os resultados esperados em relação à qualidade de vidadessa população. A investigação suscitada por este artigo está orientada no senti-do de que é necessário identificar as possíveis deficiências institucionaise a ausência de mecanismos que inviabilizam a consolidação de todauma construção jurídica, que se torna assim ineficaz e obsoleta. A hipótese aqui tomada como reflexão inicial é de que a realidadede vida do idoso não condiz com a proteção social que lhe é garantida,sendo esse fato desencadeado, principalmente, pela ineficácia das ins-tituições públicas que deveriam cumprir o papel que lhes é atribuído.De que adianta uma lei se a instituição responsável pelo seu cumpri-mento não funciona devidamente? É importante ressaltar que estamos tratando aqui de uma legis-lação recém-promulgada, ainda em fase de implementação, sendo as-sim perfeitamente compreensível que existam entraves e deficiências,tanto nos seus fundamentos quanto na sua concretização. Este trabalho espera contribuir para as reflexões acerca da neces-sidade de aperfeiçoamento da legislação e de toda rede de proteção socialao idoso no Brasil, tornando assim possível uma sociedade em que a leiesteja em consonância com a realidade, e a população idosa realmentetenha a qualidade de vida e o respeito de que é digna.ReferênciasBOSI, E. (1979). “Cultura das classes pobres”. In: Monteiro, D. T. (org.). A cultura do povo. São Paulo, Cortez.CAMARANO, A. (org.) (1999). Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro, Ipea.FIBGE - Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2002). Relatório sobre o Envelhecimento. Rio de Janeiro.____ (2002). Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil 2000. Rio de Janeiro. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 46. 50 Fábio Roberto Bárbolo AlonsoHADDAD, E. (1989). A ideologia da velhice. São Paulo, Cortez.MARQUES, A. (1999). Paradoxos do envelhecimento: entre velhi- ce e terceira idade. Revista Interação, v. 3.MÁRQUEZ, G. (1985). Amor em tempo de cólera. Bogotá, Oveja Negra.NEGREIROS, T. (org.) (2003). A nova velhice. Rio de Janeiro, Revinter.NETO, A. (2002). As leis de Manu. São Paulo, Fiúza.SAAD, P. (1990). O idoso na Grande São Paulo. São Paulo, Coleção Realidade Paulista.Data de recebimento: 10/4/2005; Data de aceite: 7/7/2005.Fábio Roberto Bárbolo Alonso – Mestre em Direito pela Universidade FederalFluminense/RJ. Pesquisador mentor do web site Portal do Envelhecimento(www.portaldoenvelhecimento.net). E-mail: fabioallonso@bol.com.brrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 37-50
  • 47. O perfil do idoso brasileiro1 Gustavo Toshiaki Lopes SugaharaRESUMO: A transformação da estrutura etária e seus efeitos devem se consolidarcomo uma das principais questões a serem enfrentadas e discutidas pela sociedadebrasileira. Neste trabalho buscamos traçar um perfil da população idosa brasileirano final dos anos 90 fazendo uso de análises como perfil de renda, relações detrabalho, acesso à saúde, entre outros, procurando contribuir para o debate sobreas relações do indivíduo idoso e a sociedade.Palavras-chave: idosos; acesso à saúde; estigmas.ABSTRACT: The aging transformation structure and its effects should be consolidated asone of the main questions to be discussed by the Brazilian society. On this research, we tryto define a profile of the elderly Brazilian population at the end of the 90’s by analyzingthe source of income, working relationships, health care access among others, in order tocontribute for the debate about the elderly individual relationship and the society.Key-words: elderly; health care access; signals.1 Baseado na monografia de bacharelado em Economia, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuaria PUC-SP (2004). O autor agradece as contribuições do Prof. Dr. Kilsztajn, isentando-o de qualquer responsabilidade com relação a este texto. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 48. 52 Gustavo Toshiaki Lopes SugaharaA população idosa em números A primeira pergunta que nos colocamos neste trabalho diz res-peito à dinâmica do envelhecimento da população brasileira: quaisseriam as causas de tal processo? Carvalho e Garcia (2003) destacam aimportância em diferenciar longevidade de envelhecimento, sendo oprimeiro conceito o número de anos vividos por um indivíduo ou nú-mero de anos que, em média, as pessoas de uma mesma geração2 oucoorte viverão. Já o conceito de envelhecimento populacional significaa mudança na estrutura etária da população, ou seja, um aumento dopeso relativo das pessoas acima de determinada idade, considerada comodefinidora do início da velhice. Segundo Moreira (2001), as alterações na composição demográ-fica podem ser avaliadas por duas variáveis básicas: fecundidade, cha-mada de “base”, e mortalidade, designada como “topo”. No sensocomum tendemos a creditar ao topo a causa fundamental da alteraçãoda estrutura demográfica da população brasileira. Vale lembrar que devemos analisar o fenômeno da mortalidadecomo um todo, visto que, conforme a incidência, a diminuição damortalidade tende a ter efeitos distintos sobre a população. Ou seja, aredução dos níveis de mortalidade predominantes sobre os grupos maisjovens tem efeito completamente diferente se essa redução se concen-trar nos grupos mais velhos, fora da chamada “idade reprodutiva”(Moreira, 2001; Carvalho e Garcia, 2003). Observamos nos trabalhos desses autores que a alteração naestrutura demográfica brasileira tem como principal impulsionador oforte declínio da fecundidade, a “base”. Carvalho e Garcia afirmam quea drástica redução da Taxa de Fecundidade Total (TFT – número médiode nascidos vivos, por mulher, ao final de seu período reprodutivo)iniciou-se nos anos 60, caindo de 5,8, em 1970, para 2,3 filhos pormulher em 2000.2 Definindo-se como geração o conjunto de recém-nascidos em um mesmo momen- to ou mesmo intervalo de tempo.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 49. O perfil do idoso brasileiro 53 Vários autores consultados atentam para a intensidade em quese desenvolve o processo de alteração da estrutura etária da populaçãobrasileira. Projeções das Nações Unidas, de 1999, colocam o Brasil comoum dos mais rápidos processos de envelhecimento demográfico, entreos 51 países que, em 2030, terão pelo menos 30 milhões de habitantes.Espera-se que a população brasileira atinja 244 milhões de pessoas em2050, sendo 49 milhões menores de 15 anos e 42,2 milhões maiores de65. Assim, a proporção de jovens deve passar dos atuais 28% para 20%,enquanto a proporção de idosos, de 5% para, aproximadamente, 17%(Moreira, 2001). O processo de envelhecimento da população brasileira deveobservar outras características peculiares, como a chamada “feminiza-ção” da velhice. Segundo Moreira (ibid.), apesar de nascerem maishomens do que mulheres, os diferenciais de mortalidade por sexo favo-recem as mulheres desde os primeiros anos de vida, tendo como resul-tado uma proporção de mulheres superior em todos os grupos etáriosapós a infância. Essa diferença tende a se ampliar nos grupos etáriosidosos mais velhos, fato que deve ser observado com especial atençãono desenvolvimento de políticas públicas. Em relação à “localização” dessa população, Camarano et alii(1999, p. 25) observam que grande parte dos idosos se concentra naregião Sudeste, sendo sua proporção mais elevada do que a verificadapara o total do país. A autora cita as diferenças regionais na dinâmicademográfica, mortalidade e migrações como possíveis respostas paraessa diferença. Ela ainda ressalta a concentração da população idosa nasáreas urbanas, lembrando que a pequena diferença entre a mortalidadeurbana e rural não deixa de ser fator relevante para justificar o maiorcontingente de idosos nas cidades. Moreira (2001, p. 24) afirma queesse processo é mais visível ao considerarmos os números absolutos, poistende a acompanhar o movimento geral de urbanização da população.Segundo o autor, a não simultaneidade do início do processo de declíniodos níveis de fecundidade entre as regiões tem forte influência sobre acomposição acima citada. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 50. 54 Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara Em termos relativos, a urbanização do envelhecimento é amor- tecida pelo fato de que as populações rurais apresentam níveis de fecundidade mais elevados do que as populações urbanas e, conseqüentemente, estruturas etárias mais jovens, que são exportadas para as áreas urbanas através da migração. (Morei- ra, 2001, p. 24) O processo de feminização, citado anteriormente, tem se carac-terizado pela formação de um grande contingente de mulheres viúvas,com pouca ou nenhuma experiência de trabalho no mercado formal emenos escolarizadas (Camarano, 2002, p. 4). De modo geral, a propor-ção de idosos vivendo sozinhos tem aumentado, mas as mulheres idosasapresentam, em geral, tendência maior a viverem sós. Camarano (ibid.,p. 7) aponta a viuvez e a proporção crescente na condição de separadas,desquitadas e divorciadas como os principais elementos que influemsobre essa dinâmica.Análise econômica Em relação ao mercado de trabalho, Wajnman, Oliveira e Oli-veira (1999, p. 182) afirmam que, para os homens, existe uma tendên-cia clara de declínio das taxas de atividade3, enquanto para mulheresesse efeito não se mostra tão evidente. Os autores destacam os níveis departicipação observados no grupo 60-64 anos, considerando relativa-mente alto os 60% para homens, ante os 96% de pico situado no grupo35-39 anos; e 20% para mulheres, sendo o pico desse grupo no grupo20-24 anos com 64% de participação. Segundo Camarano et alii (1999,p. 45), o enfoque da análise da participação do idoso na atividade eco-nômica difere das análises tradicionais, visto que a preocupação centralnão é com a pressão que o mesmo possa fazer no mercado de trabalho,mas sim como um indicador de dependência.3 Taxa de Atividade = PEA/população em cada grupo específico = Taxa de Parti- cipação.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 51. O perfil do idoso brasileiro 55 O mesmo trabalho ainda aponta outros parâmetros, como a si-tuação geográfica dos indivíduos, as diferenças regionais e a raça. Deu-se destaque às grandes diferenças entre as taxas de atividade dos idosospor setor de domicílio, sendo o “homem rural” bastante díspar, comtaxas até 30% superiores para os mesmos segmentos do “homem ur-bano”. Esse diferencial tende a influenciar os resultados da análise re-gional, visto que as maiores taxas de atividade entre as regiões sãoinfluenciadas pelo maior peso proporcional da atividade agrícola. O corteracial, dividido apenas entre brancos e negros (pretos e pardos), revelouparticipação mais elevada para negros, tanto para homens quanto paramulheres. Ao inserir os parâmetros escolaridade, posição no domicílio erenda familiar, observou-se que, para os homens, os mais ativos seencontram nos dois extremos da distribuição de escolaridade. Os auto-res conjecturam que tal efeito deve-se ao fato de a qualificação ser fatorimportante para a inserção do idoso no mercado de trabalho e, por outrolado, aqueles menos qualificados tendem a aceitar qualquer tipo deocupação. Em relação às mulheres observou-se forte relação entre es-colaridade e participação (Wajnman et alii, 1999). A posição do idoso no domicílio também se mostrou fator demaior relevância para os idosos homens do que para mulheres. A taxade participação dos idosos chefes, parcela predominante do total(94,2%), é expressivamente mais elevada do que a de cônjuges e outrosparentes. Já para mulheres chefes (44%), houve pouca diferença naparticipação em relação às outras posições no domicílio, efeito prováveldo recebimento de pensão. Deu-se destaque ao fato de, a partir dos 70anos, quando as chefes tendem a ser maioria em números absolutos, ataxa de atividade das cônjuges ultrapassa a das chefes (ibid.). Na análise sobre a participação relativa de idosos no total da PEA(População Economicamente Ativa), observou-se crescimento da pro-porção de pessoas de 60 anos e mais, efeito atribuído ao próprio enve-lhecimento populacional. Em dois exercícios prospectivos, o estudo doIPEA esboça dois cenários, um primeiro, onde se considera basicamen-te o efeito da componente demográfica do envelhecimento populacio- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 52. 56 Gustavo Toshiaki Lopes Sugaharanal, e um segundo, projetando a tendência observada de declínio dastaxas de atividade. Os resultados, bastante divergentes, são uma pe-quena amostra de que não é clara e tão pouco óbvia a perspectiva emrelação ao peso relativo de idosos na PEA total (ibid.). Ainda sobre a ocupação dos idosos Camarano et alii (1999,pp. 50-63) afirmam que, ao analisarem a distribuição por posição naocupação (empregado; empregador; conta-própria; sem remuneraçãoe outros), observaram que mais de 50% trabalhava por conta própria,sendo apenas 29% empregados, valor bem abaixo do observado na PEAmasculina com 60 e mais anos da União Européia, 52,9% empregados.Tal efeito pode ter sua explicação no fato de grande parte se concentrarem atividades agrícolas e comércio, sendo ainda aposentados em ativi-dade. Em 1997, os setores de serviços e agropecuária representavamjuntos mais de 80% das ocupações dos homens. Por outro lado, dentreas mulheres idosas, 19,4% eram não-remuneradas e 45% eram empre-gadoras ou trabalhavam por conta própria, proporção mais elevada quea da União Européia, por exemplo, em torno de 30%. A proporção demulheres empregadas no Brasil e na União Européia era de 29,7% e56,8% respectivamente. Neri, Nascimento e Pinto (1999a, p. 127) observam que é jus-tamente na parcela feminina da população idosa que devemos experi-mentar alterações mais significativas na relação com o trabalho. Aoestudar o acesso do cônjuge à ocupação, observou-se tendência crescen-te à participação feminina no mercado de trabalho. Por fim, a participação do aposentado no mercado de trabalho.Vale lembrar que, em princípio, a aposentadoria seria o “marco” da saídado indíviduo. No entanto, o que se observa no Brasil é que parte sig-nificativa dos idosos que compõe a população economicamente ativaera de aposentados (44,3%). A proporção para homens, especificamen-te, era de 54,4%, enquanto para mulheres, 34,7% (Camarano et alii,1999, p. 52). O trabalho ressaltou que, embora ainda menor do que aparticipação masculina, a participação feminina observou uma dupli-cação de 1981 para 1997.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 53. O perfil do idoso brasileiro 57 Os autores afirmam que o aumento da proporção de aposenta-dos na PEA idosa pode refletir um aumento da cobertura do benefícioprevidenciário e também um aumento da longevidade, juntamente commelhores condições de saúde, proporcionando aos trabalhadores con-dições para continuar exercendo suas atividades após atingir os 60 anos.Além disso, ao se optar pela mão-de-obra idosa, o empregador observavantagens, como a não obrigatoriedade de pagar vale-transporte. Analisando a população idosa com um todo, verificou-se que 40%eram aposentados “puros”; 28,8% não eram aposentados e nem traba-lhavam; 16,6%, aposentados que trabalhavam; e 14,9% trabalhavame não estavam aposentados. Ao agrupar os dados da população idosapor sexo e distribuição da PEA por ramos de atividade numa série tem-poral (1970, 81, 87 e 97), observou-se que, para os homens, houveredução da proporção dos trabalhadores puros, aumentando o grupo deaposentados que trabalham (ibid., p. 54). No trabalho de Neri et alii (1999a, p. 115), é possível observarque o acesso do chefe de família à ocupação tem uma redução signifi-cativa a partir do corte 55-60 anos, que se acentua drasticamente noscortes seguintes. Outro ponto importante revelado pela pesquisa é ofato de observarmos, entre os não-ocupados, quase que a totalidade dosidosos chefes de família procurando emprego; enquanto indivíduos emmesma situação e de faixas etárias diferentes têm participação signifi-cativamente menor e ascendente em relação à idade. Ao trabalhar os dados da Pesquisa Nacional por Amostra deDomicílios (PNAD), Camarano et alii (1999, p. 58) observam que osrendimentos médios da população idosa decrescem com a idade, fatoesperado devido a fatores como a retirada do mercado de trabalho. Talefeito mostrou-se muito mais acentuado para a população masculina,que observa na faixa etária 45-49 anos seu pico de rendimentos médiosde todas as fontes. As mulheres apresentaram rendimentos absolutosbem mais baixos do que o dos homens, sendo o “pico” na faixa etária40-44 anos, onde os diferenciais em relação à população masculinatambém são os mais elevados. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 54. 58 Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara Segundo Wajnman, Oliveira e Oliveira (1999, pp. 194-199), quetambém trabalharam dados da PNAD, mais da metade dos homensidosos com renda maior do que zero têm como única fonte a aposen-tadoria, o segundo maior grupo de concentração é daqueles que pos-suem rendimentos concomitantes oriundos de trabalho e aposentadoria,seguidos por uma parcela bem menor quando os rendimentos provêmapenas do trabalho (ver Tabela 1). A Tabela 1 apresenta também as diferenças entre gêneros. Pode-se notar que, para as mulheres, a situação era bastante distinta da doshomens: 4,11% auferiam renda apenas do trabalho e 3,85%, renda dotrabalho e aposentadoria. Os autores salientam que os 51,80% encon-trados como rendimento exclusivo de aposentadoria, estariam, muitoprovavelmente, superestimados devido a uma suposta “confusão” en-tre rendimentos provenientes de aposentadoria e pensão por parte dosentrevistados. Outra informação relevante disponível na Tabela 1 é a média dosrendimentos. Ao se compararem os ganhos de homens idosos com o demulheres idosas, nota-se grande discrepância entre as médias e grandesimilitude nas modas, refletindo os grandes diferenciais contidos naestrutura dos rendimentos masculinos.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 55. O perfil do idoso brasileiro 59 Tabela 1 – Proporção de idosos e rendimento médio em cada categoria de renda por sexo Média Desvio- Tipos de rendimento % Moda (R$) (R$) padrão Homens Trabalho 16,43 543,20 120,00 1618,50 Trabalho e aposentadoria 20,27 732,07 240,00 1463,80 Todas as fontes 2,10 1075,91 220,00 1780,50 Aposentadoria 52,45 361,15 120,00 648,20 Aposentadoria e outros 5,68 1170,90 240,00 1714,90 Outros tipos de rendimento 1,57 437,72 120,00 882,40 Trabalho e outros 1,50 1587,47 300,00 5842,20 Total 100,00 Mulheres Trabalho 4,11 323,66 120,00 866,40 Trabalho e aposentadoria 3,85 481,00 240,00 896,30 Todas as fontes 1,00 375,35 240,00 304,50 Aposentadoria 51,80 197,60 120,00 354,70 Aposentadoria e outros 10,48 593,91 240,00 776,10 Outros tipos de rendimento 26,68 338,21 120,00 676,40 Trabalho e outros 2,09 717,84 240,00 1609,70 Total 100,00Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Wajnman, Oliveira e Oliveira (1999, p.194). A participação da renda do idoso na renda da família é outro pontoque merece destaque, pois nos fornece instrumento de reflexão para aquestão da “dependência” desse grupo. Como vemos na Tabela 2, aproporção média dos rendimentos dos idosos é bastante significativa narenda das famílias. Na faixa etária 60 a 64, a renda do trabalho principaldo idoso chegou a representar cerca de 33% da renda familiar, sendo arenda de “todas as fontes” responsável por 64%. Mais uma vez, pode-mos observar o declínio da renda com o avanço da idade, refletindo naqueda da participação do idoso na renda familiar. O corte gênero, tam-bém presente na Tabela 2, mostra que a mulher tem contribuição sig-nificativa no rendimento familiar, mesmo sendo este em menor escalado que a contribuição do homem. Com auxílio das Tabelas 3, 4 e 5 podemos observar os efeitosgênero e condição (chefe de família ou não) sobre a participação da renda revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 56. 60 Gustavo Toshiaki Lopes Sugaharado idoso na renda domiciliar, e fazer inferência sobre possíveis efeitosdas alterações nas relações de trabalho, principalmente sobre a incor-poração dos cônjuges ao mercado de trabalho. Tabela 2 – Proporção média dos rendimentos dos idosos na renda familiar – Brasil 1997 Homens Mulheres Total Renda do Renda de Renda do Renda de Renda do Renda de trabalho todas as trabalho todas as trabalho todas as Grupo Etário principal fontes na principal fontes na principal fontes na na família família na família família na família família 60-64 33 64 6 27 18 5 65-69 21 64 3 41 11 51 70-74 12 65 2 47 6 55 75-79 7 65 1 5 4 57 80 e+ 4 52 0 47 2 52 Total 20 64 3 43 11 52Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Camarano et alii (1999, p. 62). Tabela 3 – Proporção da renda familiar que depende do idoso – Brasil 1997 Homens Mulheres Total Chefes idosos 67 70 68 Idosos não-chefes 32 23 24 Total 64 42 52Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Camarano et alii (1999, p. 63). A Tabela 3 mostra-nos que a condição de chefe de família erafundamental na determinação da contribuição do mesmo para a rendadomiciliar. O fato de o indivíduo ser chefe resultaria, em média, numaparticipação de 68% da renda, enquanto o não-chefe contribuiria emmédia com apenas 24%. Observa-se na Tabela 4 uma queda na participação da renda doschefes no domicílio, efeito que possivelmente deve estar associado àdeterioração das remunerações provenientes das principais fontes cita-das anteriormente: aposentadoria e trabalho. No entanto, como pode-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 57. O perfil do idoso brasileiro 61mos observar na Tabela 5, a participação dos cônjuges no mercado detrabalho pode compensar parte dos efeitos da queda da participação darenda dos chefes no domicílio (Neri et alii, 1999a, p. 115). Tabela 4 – Proporção da renda do chefe com relação ao total da renda do domicílio (%) Idade 1982 1987 1992 1997 60-65 30,22 26,91 26,47 26,25 65-70 21,76 19,04 17,34 16,65 Mais de 70 12,57 10,23 8,96 7,83Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Neri, Nascimento e Pinto (1999, p. 142). Tabela 5 – Proporção da renda do cônjuge com relação ao total da renda do domicílio (%) Idade 1982 1987 1992 1997 60-65 8,08 8,91 9,63 11,86 65-70 9,25 8,39 9,18 10,52 Mais de 70 8,08 8,76 8,23 6,85Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Neri, Nascimento e Pinto (1999, p. 142). Numa primeira leitura, observamos que, em termos de renda,o grau de dependência dos indivíduos idosos é significativamente de-terminado pela provisão de renda advinda do Estado e que, ao mane-jar os chamados benefícios previdenciários, o Estado manipula partesignificativa dos rendimentos das famílias (Camarano et alii, 1999,pp. 62-63). O texto de Barros, Mendonça e Santos (1999) trabalha com dadosda PNAD 1997 e busca analisar as características da pobreza para essegrupo específico. A pesquisa utilizou como conceito de pobre aqueleindivíduo cuja renda domiciliar per capita foi inferior a uma dada linhade pobreza. Para se ter alguns parâmetros, foi considerado pobre oindivíduo residente na região metropolitana de São Paulo que tinharenda domiciliar per capita inferior a R$103,90 (para tabela completa,ver Barros, Mendonça e Santos, 1999, p. 224). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 58. 62 Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara Os autores atentam para a possibilidade de a linha de pobrezautilizada não ser medida fiel das condições de vida devido aos hábitose necessidades específicos dos idosos (ibid.). A Tabela 6 mostra-nos outrotratamento dado à renda. Como vimos anteriormente, a participaçãoda renda da ocupação principal na renda domiciliar per capita é beminferior para os “não-idosos” tendo a aposentadoria posição de destaqueentre os idosos “pobres”. Observamos também que a renda proveniente de pensão apre-senta dinâmica oposta para idosos e não-idosos: para o primeiro grupo,a renda de pensão constitui 8,9% da renda dos pobres e 12,0% dos não-pobres, já para não-idosos essas proporções são de 4,7% e 2,9% respec-tivamente. O mesmo estudo também identificou que os idosos estão sub-representados entre os mais pobres e sobre-representados entre os mais Tabela 6 – Composição da renda domicilar per capita – Brasil, 1997 (%) Grupos de Idade 25 a 39 Anos 60 e Mais Renda Total Não- Não- Total Pobres Total Pobres pobres pobresDomiciliar per capita 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,0 100,00Da ocupação principal 78,00 81,65 83,40 84,50 42,74 40,70 35,60Em produtos ou mercadorias 0,12 0,09 0,10 0,70 0,20 0,20 0,60da ocupação principalDa ocupação secundária 2,95 3,22 3,60 1,80 1,44 1,30 0,50Em produtos ou mercadorias 0,01 0,01 0,00 0,10 0,00 0,00 0,00da ocupação secundáriaEm dinheiro de outros 0,30 0,35 0,40 0,00 0,17 0,20 0,00trabalhosEm produtos ou mercadorias 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00de outros trabalhosDe aposentadoria 11,15 8,52 6,20 5,30 38,11 37,00 51,50De pensão 2,98 2,32 2,10 3,60 8,59 11,20 8,40De outro tipo de 0,29 0,24 0,20 0,00 0,90 1,00 0,00aposentadoriaDe outro tipo de pensão 0,81 0,60 0,80 1,10 0,82 0,90 0,50De abono de permanência 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00De aluguel 2,16 1,93 2,00 0,50 5,08 5,40 0,60Doação recebida 0,57 0,41 0,50 2,00 0,87 1,00 2,00Juros de caderneta depoupança e de outras 0,62 0,64 0,80 0,50 1,08 1,10 0,30aplicaçõesFonte: PNAD 1997 – Extraído de Barros, Mendonça e Santos (1999, p. 229).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 59. O perfil do idoso brasileiro 63ricos, “os idosos tendem a ser menos pobres do que a população comoum todo” (Barros, Mendonça e Santos, 1999, p. 231). Ao construir os indicadores tradicionais de pobreza e desigual-dade, observou-se que a renda entre idosos é distribuída de modo aindamais desigual do que entre não-idosos. Os autores afirmam que umadas prováveis causas para tal distribuição seria a maior “volatilidade” darenda desse grupo, principalmente em relação a despesas com saúde. A Curva de Lorenz construída para a população idosa mostrousignificativa diferença em relação às curvas construídas para a popula-ção “não-idosa” e total. Ao comparar o grupo dos 60% mais pobres emcada distribuição, constatou-se que a renda entre os idosos era melhordistribuída do que nos outros dois grupos. Já entre os 35% mais ricos,observou-se efeito contrário, sendo os idosos mais desiguais em relaçãoà população total e “não-idosos”. Os resultados da Curva de Lorenz podem ser observados naTabela 7. Destaca-se os 9,55% da renda total de idosos atribuídos aos40% de idosos mais pobres, enquanto para o mesmo décimo de distri-buição de rendimento entre os “não-idosos” a participação na renda totalequivale a 7,95%. Tabela 7 – Curva de Lorenz e índices de desigualdade – Brasil 1997 Grupos de idade Indicador Total 25-59 60 e + 65 e + 70 e + 75 e + Curva de Lorenz (por décimo) 1 0,66 0,66 1,1 1,19 1,24 1,27 2 2,23 2,25 3,09 3,23 3,31 3,36 3 4,59 4,64 5,91 6,13 6,27 6,33 4 7,84 7,95 9,55 9,83 10,00 10,15 5 12,21 12,32 13,52 13,72 13,81 14,00 6 17,84 18,1 18,68 18,72 18,63 18,6 7 25,43 25,8 25,59 25,48 25,19 24,9 8 36,04 36,52 35,31 35,06 34,65 34,21 9 52,52 53,17 50,81 50,58 50,01 49,59 10 100 100 100 100 100 100Renda Média (em R$ de 1997) 243,83 294,87 324,32 322,15 320,62 312,31Desigualdade Índice T de Theil 0,73 0,71 0,76 0,75 0,77 1,00Coeficiente de Gini 0,60 0,60 0,59 0,59 0,60 0,76Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Barros, Mendonça e Santos (1999, p. 232). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 60. 64 Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara Ainda comparando a pobreza entre idosos e não-idosos, Barros,Mendonça e Santos (1999, p. 233) analisam essa mesma distribuiçãopor centis entre os dois grupos e constatam que os idosos aparecem emposição vantajosa perante o restante da população, tendo renda médiamaior em todos os centésimos. Segundo os autores, enquanto menos de10% dos idosos ganham menos de R$60 como renda domiciliar percapita, na população total observa-se 25% das pessoas com rendimentoinferior a esse valor. Deu-se destaque para a grande concentração depessoas recebendo renda domiciliar per capita de R$60 a R$120, efeitoque, segundo os autores, deve ser fruto do vínculo do sistema previden-ciário ao salário mínimo (ou a múltiplos do mesmo). O trabalho de Barros, Mendonça e Santos (ibid.) também pro-curou investigar mais precisamente o perfil da pobreza entre os idosos.Constatou-se que há pouca diferença na incidência da pobreza porgênero nas populações de idosos e não-idosos, sendo as mulheres amaioria dos pobres nos dois casos. Mesmo sendo a freqüência de mu-lheres maior entre os idosos, a percentagem dos pobres do sexo femi-nino era menor entre idosos. A cor do indivíduo mostrou-se significante, sendo a magnitudeda pobreza maior entre pretos e pardos. A redução na percentagem depobres na passagem da situação de não-idoso para idoso era de aproxi-madamente 7% para pretos e pardos e cerca de 5% brancos, amarelose indígenas. No entanto, constatou-se que a distribuição da pobrezaentre idosos mostrou-se menos desfavorável aos pardos porque estesestão menos presentes nessa população. Ao analisar as diferenças regionais, observou-se que as regiõesNorte e Nordeste possuíam a maior percentagem de pobres, tanto paraidosos como para não-idosos, sendo as regiões rurais também as maisafetadas. A segmentação regional evidenciou novamente que os indi-cadores de pobreza eram melhores para os idosos do que para não ido-sos, sendo tal “melhora” evidenciada nas áreas rurais (ibid., p. 238). Talefeito deve ter sido derivado da grande influência da universalização dedireitos sociais nos anos 90. Segundo Galindo e Irmão (2000, pp. 185-186), as transferências monetárias por meio do seguro previdenciáriorevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 61. O perfil do idoso brasileiro 65tiveram papel fundamental no que diz respeito ao “poder de manuten-ção do homem no campo”, à melhoria substancial no acesso aos serviçose recursos econômicos e ao padrão de vida das famílias, entre outrosbenefícios. Terminamos nossa breve investigação acerca das relações entrepobreza e idosos com a Tabela 8, que apresenta a percentagem de idosose não-idosos entre os pobres. Observamos que mesmo representando8,6% da população total, os idosos representam 5,3% da populaçãopobre. Tabela 8 – Percentagem de idoso e não-idosos entre os pobres População % Não idosos (25-59 anos) 33,9 Idosos (60 anos e mais) 5,3Fonte: PNAD 1997 – Extraído de Barros, Mendonça e Santos (1999, p. 232). Como já afirmamos anteriormente, os cortes de renda e os indi-cadores de pobreza possuem algumas limitações, tendo em vista umaavaliação mais precisa das condições de vida de uma determinada po-pulação. Para suprir parte dessas deficiências utilizaremos o trabalho deNeri et alii (1999a, pp. 115-158) e mais a seguir os trabalhos de Kil-sztajn et alii (2003), Nunes (1999), entre outros, como forma de apon-tar outras análises possíveis. Em seu trabalho Neri et alii (1999a) buscaram avaliar o acessoa diversos tipos de capital por diferentes grupos etários, dividindo-o emfísico, humano e social. O capital físico foi definido como moradia, bensduráveis e serviços públicos. O capital humano, por sua vez, diz respeitoa escolaridade, educação técnica, experiência e treinamento. Já o capitalsocial engloba a participação em associações e sindicatos, emprego,participação política e estrutura familiar. Segundo essa metodologia, aplicada com base nos dados daPNAD e Pesquisa Mensal do Emprego (PME), observaram-se indicado- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 62. res bastante positivos para a população idosa em relação ao acesso à casaprópria quitada, a serviços públicos e a bens duráveis “introduzidos hámais tempo” (como filtro e geladeira). Ao analisar os chefes de família idosos, foi possível constatar que83% moram em casa própria já paga e 14% em casas alugadas oucedidas, sendo os mesmos indicadores iguais a 66% e 27% para a médiado restante da população (Neri et alii, 1999a, p 119). Em relação aoschamados bens duráveis, observou-se que 97% das famílias chefiadaspor idosos possuíam geladeira e 77%, filtro. As demais famílias apre-sentaram para os mesmos parâmetros 93% e 66%, respectivamente. Por outro lado, além de terem acesso mais restrito à casa alugada,cedida e própria não quitada, bem como a bens duráveis “introduzidosrecentemente” (como freezer e máquina de lavar), os idosos apresenta-ram menor acesso ao “capital humano” (educação), fator consideradopelos autores determinante para se compreenderem as desigualdadesna distribuição de renda entre diferentes gerações. As diferenças educacionais entre as gerações também foram abor-dadas neste trabalho, que detectou a evolução do sistema educacionalocorrida nas últimas décadas, resultando em gerações novas com maiormédia e menor taxa de variação dos anos de estudos completos (ibid.,p. 18). Podemos ainda levar em conta outras especificidades da popu-lação idosa como, por exemplo, o perfil de seus gastos, e é neste sentidoque Neri (2004) discute a inflação para os idosos. Segundo ele, a infla-ção medida nos últimos 12 meses (julho 03 a maio 04) seria de 6,5%para o grupo de idosos e 5,8% no Índice de Preços ao Consumidor (IPC)da população geral. Como principais diferenças, Neri destacou o maior peso relativo decertos tipos de gastos de famílias com pelo menos 50% idosos em relaçãoao total da população. Os gastos com saúde e cuidados especiais, por exem-plo, tiveram peso equivalente a 15%, enquanto o mesmo item representa10,4% para o restante da população, assim como os itens alimentação edespesas diversas, que tiveram pesos iguais a 30,2% e 5,76%, respectiva-mente, para idosos e 27,5% e 4,44% para o restante da população.
  • 63. O perfil do idoso brasileiro 67O acesso à saúde Foi dada especial atenção à questão da saúde devido ao peso queesse componente parece ter sobre a condição de vida desse grupo. Comovemos em Kilsztajn et alii (2003), é só a partir dos 45 anos que o en-velhecimento é acompanhado por uma elevação significativa das taxasde morbimortalidade da população. O Gráfico 1 apresenta justamenteesse movimento. Observa-se que a taxa de internação, que no caso excluipartos, registra uma média de 5 internações para cada 100 habitantesentre 5 e 44 anos; nas faixas etárias seguintes, observa-se crescimentosignificativo atingindo 32,3 internações por 100 pessoas com 80 anose mais de idade.Gráfico 1 – Taxas de internação e mortalidade – Brasil, 1998 40 óbitos 80 óbitos p/1000 hab.internações p/100 hab. 20 40 internações 0 0 0a4 5a9 10a14 15a19 20a24 25a29 30a34 35a39 40a44 45a49 50a54 55a59 60a64 64a69 70a74 75a79 80e+Fonte: FIBGE (2000), MS (2001b). Extraído de Kilsztajn et alii (2003, p. 94). Movimento semelhante é observado na taxa de mortalidade: amédia de óbitos por 1000 habitantes entre 5 e 44 anos é igual a 1,7,elevando-se significativamente a partir dos 45 anos, atingindo 103,9por 1000 indivíduos com 80 e mais anos de idade. O mesmo trabalho procurou investigar as principais causas demorbidade, utilização de serviços e gastos com saúde por faixa etária.O Gráfico 2 apresenta a prevalência de doenças crônicas no Brasil, sendo revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 64. 68 Gustavo Toshiaki Lopes Sugaharaas doenças de coluna/costas, artrite/reumatismo e hipertensão as maisfreqüentes, atingindo quase 50% das pessoas nas faixas etárias maiselevadas. Gráfico 2 – Prevalência de doenças crônicas – Brasil, 1998 50 40 artrite/ coluna/costas reumatismop/100 habitantes 30 hipertensão coração 20 depressão 10 diabetes bronquite/asma 0 0a4 5a9 10a14 15a19 20a24 25a29 30a34 35a39 40a44 45a49 50a54 55a59 60a64 64a69 70a74 75a79 80e+Fonte: FIBGE (2000). Extraído de Kilsztajn et alii (2003, p. 97). Alguns indicadores de utilização de serviço também foram uti-lizados na pesquisa, como o número de consultas médicas por ano,número de internações, entre outros. Constatou-se que o número depessoas que consultou médico em 12 meses representava 48,9% dapopulação entre 5 e 44 anos e 74,3% para as pessoas com 75 e mais anosde idade, sendo a média por usuário igual a 3,3 consultas médicas porano para a faixa etária entre 5 e 44 anos e 5,3 para a faixa com 75 e maisanos de idade. Ponderada pelo total da população nessas faixas etárias,esses números registram respectivamente 1,6 e 3,9 consultas médicaspor ano (ver Tabela 9). A mesma tabela revela ainda que, nas duas últimas semanasanteriores à pesquisa, 4,8% da população entre 5 e 44 anos estiveramdoentes e 2,9% acamadas. Percentuais que se elevam a partir dos 45anos de idade, atingindo respectivamente 18,4% e 13,5% das pessoasrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 65. O perfil do idoso brasileiro 69a partir de 75 anos. Nesse mesmo período, a procura por serviços desaúde para realizar exames de rotina ou de prevenção correspondia a4,5% das pessoas de 5 a 44 anos; para tratamento ou reabilitação 1,9%;e por motivo de doença 4,7%. Esses percentuais elevam-se a partir dos45 anos, atingindo respectivamente 13,0%, 5,0% e 14,6% da popu-lação com 75 e mais anos de idade (ver Tabela 9). Tabela 9 – Morbidade e utilização de serviços de saúde – Brasil, 1998 0a4 5 a 44 45 a 54 55 a 64 65 a 74 75 e + TotalHabitantes (milhões)* 15,0 109,1 14,9 9,8 6,2 3,3 158,2Habitantes (%) 9,5 68,9 9,4 6,2 3,9 2,1 100,0Estado de saúde(em 2 semanas - % habitantes) Esteve doente 6,6 4,8 8,2 11,3 13,2 18,4 6,3 Esteve acamado 4,1 2,9 5,2 7,1 8,7 13,5 3,9Procura por serviços de saúde(em 2 semanas - nº p/100 habitantes) Para exames de rotina 6,3 4,5 10,1 12,1 14,3 13,0 6,2 Para tratamento 1,9 1,9 4,1 5,7 7,2 5,0 2,6 Por doença 10,7 4,7 8,3 10,6 13,6 14,6 6,5Consultas médicas/ano Usuários (%hab.) 68,4 48,9 62,2 68,1 72,7 74,3 54,7 Nº p/usuário 4,1 3,3 4,4 4,9 5,2 5,3 3,8 Nº p/habitante 2,8 1,6 2,7 3,3 3,8 3,9 2,1Internações/ano** Usuários (%hab.) 7,8 3,7 7,3 10,2 13,3 17,7 5,5 Nº p/usuário 1,4 1,3 1,6 1,5 1,6 1,7 1,4 Nº p/100 hab. 10,5 5,0 11,3 15,6 20,8 30,2 7,9Sistema Único de Saúde** Nº internações/ano (%hab.) 11,6 3,3 6,2 9,1 14,1 22,4 5,6 Valor pago/ano (R$ p/hab.) 33,81 11,26 26,32 39,42 59,59 84,81 20,41Mortalidade (p/1000 hab.) 7,8 1,7 6,3 12,9 27,6 78,7 6,1Fonte: Elaborado a partir de IBGE (2000a), Datasus (2001), Funasa (2003).* Excluída a população da antiga Região Norte.** Excluídos partos.Extraído de Kilsztajn et alii (2003, p. 97). Conclui-se a análise da Tabela 9 com os indicadores de interna-ções. Os autores atentam que a PNAD não apresenta divisão das inter-nações por causa de morbidade hospitalar, mas o Sistema de InformaçõesHospitalares (SIH) fornece a distribuição, de acordo com a ClassificaçãoInternacional de Doenças, do número de internações hospitalares pelo revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 66. 70 Gustavo Toshiaki Lopes SugaharaSistema Único de Saúde – SUS, que representa cerca de 70% do totalnacional de internações. Os autores esclarecem ainda que foramutilizados dois conceitos distintos: pessoas internadas e número de in-ternações. Observa-se que 3,7% das pessoas entre 5 a 44 anos estiveraminternadas em 1998 (com exclusão dos partos). Da população com 75e mais anos de idade, 17,7% das pessoas foram internadas em dozemeses. Destaca-se o fato de que o número de internações por pessoainternada também cresce de acordo com a faixa etária. A média deinternações por pessoa internada em 12 meses foi de 1,3 para a faixaetária dos 5 aos 44 anos e 1,7 para as pessoas com 75 e mais anos deidade. Tomando a população como referência o número de internaçõesem 12 meses correspondia a 5,0% das pessoas entre 5 e 44 anos e 30,2%com 75 e mais anos de idade (Kilsztajn et alii, 2003, p. 98). Para corroborar a preocupação em relação às especificidades dasrelações de “consumo” do grupo idoso e carga do item saúde anterior-mente descrita, utilizaremos a Tabela 10, extraída do mesmo trabalho. Tabela 10 – Gasto com saúde – Brasil, 1998 Gasto Total R$ p/habitante R$ bilhões (%) % PIB Até 3sm + 3sm Total Gasto público 29,7 40,2 3,3 187,51 187,51 187,51 Federal 16,8 22,8 1,9 106,27 106,27 106,27 Estadual 5,6 7,5 0,6 35,08 35,08 35,08 Municipal 7,3 9,9 0,8 46,15 46,15 46,15 Gasto privado 44,2 59,8 4,9 165,33 851,04 279,03 Famílias 37,9 51,3 4,2 125,53 811,23 239,22 Empresas 6,3 8,5 0,7 39,81 39,81 39,81 Total 73,8 100,0 8,2 352,84 1038,55 466,54Fonte: Elaborado a partir de Ministério da Saúde (2000a), Corrêa, Piola, Arilha (1998),Capítulo 12. Extraído de Kilsztajn et alii (2003, p. 97). Pretendemos deixar mais palpável a preocupação com os dife-rentes perfis de gasto com que segmentos distintos podem se deparar.A Tabela 10 apresenta a distribuição de gasto com saúde no Brasil:revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 67. O perfil do idoso brasileiro 71verifica-se que o gasto com saúde per capita para a população com maisde 3 salários mínimos de renda familiar per capita em 1998(R$ 1.038,55) era 3 vezes o gasto da população com até de 3 saláriosmínimos (R$ 352,84). Em direção similar, temos o trabalho de Nunes (1999, pp. 345-366), que buscou estudar a elevação dos custos do tratamento médico-hospitalar provocado pelo envelhecimento populacional. O autorconclui que entre os idosos é nítido que os homens consomem mais in-ternações hospitalares do que as mulheres e que esse consumo é cres-cente com o avançar da idade. No índice de utilização usado, a faixaetária 65 a 69 anos consumiu 2,42 vezes mais procedimentos de inter-nação para homens e 1,93 para mulheres, em comparação com a faixade 45 a 54 anos. No entanto, observaram-se custos médios dos proce-dimentos de internação decrescentes para ambos os sexos a partir dafaixa 65 a 69 anos (Nunes, 1999, p. 365). Considerando que cerca de 50% dos idosos têm renda pessoalmenor ou igual a 1 salário mínimo (IBGE, 1998), o gasto médio mensalcom medicamentos compromete aproximadamente um quarto da ren-da (23%) de metade da população idosa brasileira, reforçando assim anecessidade de políticas neste país para melhorar o acesso da populaçãoidosa aos medicamentos (Costa et alii, 2003, p. 735).Conclusões Observamos que a tão mencionada alteração da estrutura etáriatem como principal força motriz o declínio da fecundidade. Tal fatomostra-se relevante, pois é forte a percepção do senso comum de quesão as quedas nas taxas de mortalidade as principais responsáveis portal efeito. Ainda em relação aos aspectos demográficos, pode-se verifi-car que a população idosa vive predominantemente na região Sudestedo país e nas áreas urbanas. Outra característica marcante, apontada em relação ao idosobrasileiro do final dos anos 90, é o fato de ele ter presença bastantesignificativa no mercado de trabalho, sendo os trabalhadores mais de revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 68. 72 Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara30% do total de idosos. Essa proporção é ainda maior nas faixas de“jovens idosos”. A intersecção entre aposentadoria e trabalho indicouum contingente bastante significativo nessa situação, um indício decomo a remuneração proveniente de aposentadoria tem impossibilita-do ao indivíduo permanecer com determinados hábitos e padrão de vida. A maior dificuldade para obtenção de empregos revelou-se comcaracterística marcante sendo quase a totalidade dos chefes de famíliaidosos inclusos entre os que procuram emprego. Damos destaque ao papel da mulher nos estudos do envelheci-mento populacional, visto que o processo de feminização e as alteraçõesnas relações de trabalho, já observadas no final da década de 90, deverãotrazer elementos novos para a análise e para o direcionamento de po-líticas públicas voltadas para esse segmento etário. Foi possível verificar que a participação da renda dos idososapresentou peso significativo na renda domiciliar, fato importante emse tratando de questões como dependência. De modo geral, observou-se que esses idosos tendem a ser menos pobres do que a população comoum todo, sendo sub-representados entre os mais pobres e sobre-representados entre os mais ricos. Constatou-se também uma maiordesigualdade entre os mesmos, sendo os residentes das regiões Nortee Nordeste do país mais pobres do que os idosos em geral. Como parâmetros alternativos para traçar o perfil do idoso, recor-remos a pesquisas que utilizam a idéia de acesso, nas quais observamos osidosos em posição relativamente “confortável”, em relação à casa própria,serviços públicos e bens duráveis introduzidos há mais tempo. Em contra-partida, destacamos o menor acesso à escolaridade, fato bastante preocu-pante se levarmos em conta o princípio da preservação da autonomia. Informações referentes à saúde também foram destacadas nestetrabalho, no qual ressaltamos as maiores taxas de internação e morta-lidade e maior prevalência de doenças crônicas entre os idosos. Certa-mente, não devemos atribuir aqui tais características exclusivamente àpopulação idosa, mas vale apontar que a “vulnerabilidade” desse grupomostrou-se mais acentuada, sendo a questão saúde um componenteimportante na determinação do perfil desse grupo.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 69. O perfil do idoso brasileiro 73 Embora os dados não nos tenham revelado um perfil negativocom relação à situação absoluta do idoso, observamos que a carga pe-jorativa que traz a idéia de velhice é ainda muito forte no final dos anos1990. Sobre o estigma de inúteis e imprestáveis, muitos idosos aindavivem sobre forte pressão social que muitas vezes os coloca como umfardo. A imagem do idoso dos anos 1990 é vista com uma “afronta” aopadrão estético jovem, ao consumo sistemático e está bastante vincu-lada à idéia de “ultrapassado” e, portanto, algo a ser evitado. O surgi-mento de diversos movimentos que visam incluir o idoso aponta parauma melhoria significativa em relação aos estereótipos atribuídos aosmesmos, mas ainda é comum encontrar discursos em que o idoso apa-rece como cidadão de segunda categoria. Em recente programa da rádio CBN, que tratava da revisãoconcedida aos aposentados pelo governo, o entrevistado afirmou que,infelizmente, o país não estava pensando no futuro, pois o dinheirodestinado ao reajuste dos aposentados poderia beneficiar os jovens, queseriam o “futuro do país”. A mídia também insiste em vincular imagens pejorativas,como na campanha da empresa telefônica de julho de 2004, queoferecia o serviço de caixa de mensagens. Na propaganda, membrosde uma determinada família aparecem pressionando a matriarca paraque ela se lembre do recado deixado com ela; ante o esquecimento,sugere-se que se use algo moderno para evitar esse tipo de inconve-niente. Aprovado em setembro de 2003, o Estatuto do Idoso deve repre-sentar um avanço significativo na busca de efetivação dos direitos dosidosos. Em vigor desde o dia 1o de janeiro de 2004, o estatuto passa aconsiderar crime: a discriminação de pessoas idosas (impedindo oudiscriminando seu acesso a operações bancárias e aos meios de transpor-te); a não prestação de assistência ao idoso; o abandono de idosos emhospitais e casas de saúde; maus-tratos; expor o idoso a situação queresulte em morte; negar emprego ou negar acesso a cargo público pormotivo de idade; entre outros. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 70. 74 Gustavo Toshiaki Lopes SugaharaReferênciasBARROS, R. P MENDONÇA, R. e SANTOS, D. (1999). “Inci- .; dência e natureza da pobreza entre idosos no Brasil”. In: CA- MARANO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.CAMARANO, A. A. (2002). Envelhecimento da população brasileira: uma contribuição demográfica. Rio de Janeiro, Ipea TD 858.____ (2001). O idoso brasileiro no mercado de trabalho. Rio de Janeiro, Ipea TD 830.CAMARANO, A. A.; BELTRÃO K. I.; PASCOM, A. R. P.; MEDEIROS, M. e GOLDANI, A. M. (1999). “Como vive o idoso brasileiro?” In: CAMARANO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.CARVALHO, J. A. M. de e GARCIA, R. A. (2003). O envelheci- mento da população brasileira: um enfoque demográfico. Cadernos de Saúde Pública, v. 19, n. 3, pp. 725-733.COSTA, M. F. L.; BARRETO, S. M. e GIATTI, L. (2003). Condições de saúde, capacidade funcional, uso de serviços de saúde e gastos com medicamentos da população idosa brasileira: um estudo descritivo baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domi- cílios. Cadernos de Saúde Pública, v. 19, n. 1, pp. 735-743.GALINDO, O. e IRMÃO J. F. (2000). “A previdência rural e a re- cuperação econômica e social das famílias do nordeste”. In: DELGADO, G. e JÚNIOR, J. C. C. (orgs.). A universalização de direitos sociais no Brasil – A previdência rural nos anos 90. Rio de Janeiro, Ipea.KILSZTAJN, S.; ROSSBACH A.; CAMARA M. B. e CARMO M. S. N. (2003). Serviços de saúde, gastos e envelhecimento da população brasileira. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 20, n. 1, pp. 93-108.LICHT, F. B. e PRADO, A. R. A. (2002). Idosos, cidade e moradia: acolhimento ou confinamento? Kairós: gerontologia. Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento, Programa de Estudos Pós- Graduados em Gerontologia – PUC-SP v. 5, n. 5 pp. 67-80. ,revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 71. O perfil do idoso brasileiro 75MERCADANTE, E. (2003). Velhice: a identidade estigmatizada. Serviço Social & Sociedade, ano XXIV n. 75, pp. 55-73. São Paulo, Cortez. ,MOREIRA, M. de M. (2001). Envelhecimento da População Brasileira: aspectos gerais. Fundação Joaquim Nabuco. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/docs/text/pop2001-5.doc Acesso: abril de 2004.____ (2001). Determinantes demográficos do envelhecimento brasileiro. Fun- dação Joaquim Nabuco. Disponível em: http://www.fundaj. gov.br/docs/text/pop2001-1.doc Acesso: abril de 2004MORETTI, M. I. P (1998). Cidadania: a conquista de um espaço para . os que envelhecem. Revista Kairós: gerontologia. Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento, Programa de Estudos Pós-Gra- duados em Gerontologia – PUC-SP ano 1, n. 1, pp. 33-44. ,NERI, M.; NASCIMENTO, M. e PINTO, A. (1999a). “O acesso ao capital dos idosos brasileiros: uma perspectiva do ciclo de vida”. In: CAMARANO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.NERI, M.; CARVALHO, K. e NASCIMENTO, M. (1999b). “Ciclo da vida e motivações financeiras (com especial atenção aos ido- sos brasileiros)”. In: CAMARANO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.NERI, M. (2004). A inflação dos idosos. Valor Econômico, 22/06.NUNES, A. (1999). “Os custos do tratamento da saúde dos idosos no Brasil”. In: CAMARANO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.WAJNMAN, S., OLIVEIRA, A. M. H. C. e OLIVEIRA, A. (1999). “A atividade econômica dos idosos no Brasil”. In: CAMARA- NO, A. A. (org). Muito além dos 60. Rio de Janeiro, Ipea.Data de recebimento: 18/4/2005; Data de aceite: 5/7/2005.Gustavo Toshiaki Lopes Sugahara – Economista (PUC-SP). Pesquisador doLaboratório de Economia Social (LES/PUC-SP), Mestrando em Economia e Po-líticas Públicas no Instituto Superior de Ciência do Trabalho e da Empresa – ISCTE– Lisboa/Portugal. E-mail: gustavo.toshiaki@gmail.com revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 51-75
  • 72. Gestão social por sujeito/idade na velhice Vicente de Paula Faleiros e Mônica RebouçasRESUMO: Neste trabalho discutimos os paradigmas de gestão da velhice e doenvelhecimento no contexto social, econômico, político e cultural em que se de-senvolve o sujeito humano, ou seja, na relação sujeito/situações/estrutura. Distin-guimos dos paradigmas fundamentais e contrapostos: o da gestão por perdas oudas perdas numa perspectiva de envelhecimento passivo e outro de gestão porsujeito/idade em uma sociedade para todas as idades e na perspectiva de empo-deramento (empowerment) num processo de envelhecimento ativo. O trabalhomostra que esta perspectiva é não só plausível como viável com a discussão daexperiência do Instituto de Atendimento do Idoso – Idadi, de Salvador. O para-digma de gestão por sujeito/idade leva em conta a complexidade do envelheci-mento nas suas múltiplas dimensões e interações na sociedade atual e no contextoda desigualdade, e a consideração do sujeito em seu movimento de vida.Palavras-chave: gestão; idade; empoderamento (empowerment).ABSTRACT: In this work we discuss the paradigms of management/care in the agingprocess and in the old age in the economic, social, cultural and political context, that is, inthe relations person/situations/structure. We distinguish two basic paradigms: the mana-gement and care by losses and destitution, and the management/care by empowerment of theperson/aging in the perspective of an active aging in a society for all ages. We show that thisparadigm is plausible and possible, discussing the experience of the Instituto de Atendimentodo Idoso – IDADI, in Salvador, Bahia, Brazil. The perspective of management/care byperson/aging is based on the empowerment in the complexity and multidimensionality of theinterrelation of the social, political, economic and cultural dimensions in a context of ine-quality in the capitalist and peripherical society.Key-words: management; age; empowerment. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 73. 78 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças O objetivo deste trabalho é contribuir para uma reflexão sobreas formas de gestão do cotidiano na velhice, levando-se em conta atrajetória de vida das pessoas no contexto social, econômico, político ecultural em que se desenvolve o sujeito humano, ou seja, na relaçãosujeito/situações/estrutura. A gestão social está em busca de paradig-mas (Dowbor, 1999) no processo de articulação do social e do produ-tivo, do organizacional e do vivencial, para possibilitar tanto aparticipação do sujeito como a eficiência, a eficácia e a resolubilidade dasquestões do desenvolvimento humano e do desenvolvimento social.Numa segunda parte, vem à discussão a experiência do Instituto deAtendimento do Idoso – Idadi, de Salvador, como uma forma de desen-cadear experiências de novos paradigmas de gestão por sujeito/idade. O conceito de gestão por sujeito/idade, aqui considerado, buscacontribuir para a construção de um paradigma que leve em conta a com-plexidade do envelhecimento nas suas múltiplas dimensões e interações.A ênfase no sujeito e na idade implica a consideração do sujeito emmovimento de vida nas suas relações incorporadas como habitus, modosde vida inconscientes estruturados e estruturantes, e também nas suasrelações sócio-histórico-econômico-político-cultural (Bourdieu, 2001). Nessas relações complexas, a estrutura e as situações vêm-semodificando drasticamente na dinâmica do neoliberalismo, que deter-mina transformações nas formas de produzir e de viver em sociedade ede configurar o Estado e o mercado. A partir dos anos 70 do século XX,o processo de acumulação, dominado pelo capital financeiro, traz noseu bojo a reestruturação produtiva com terceirização, precarização dotrabalho e, ao mesmo tempo, redução e corte dos direitos sociais, im-plicando um “Estado mínimo” na garantia do bem-estar. Na trajetória demográfica coletiva, a diminuição da fecundidadee os avanços das ciências da vida e de cuidados na saúde, por sua vez,têm trazido impactos na longevidade, com conseqüências no aumentoda população idosa. No Brasil, em 2000, existiam aproximadamente15 milhões de maiores de 60 anos, cifra que deve dobrar nos próximos30 anos, chegando a representar quase 13% da população. Em 2000,a relação idoso/criança já era de 30 idosos para cem crianças.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 74. Gestão social por sujeito/idade na velhice 79 A longevidade vem caracterizando a mudança demográfica noBrasil, pois o crescimento da população de 75 anos ou mais foi de 49,3%entre 1991 e 2000, projetando-se um aumento dos mais idosos entreos idosos nos próximos anos. Nesse contexto, a gestão por sujeito/idade torna-se cada vez maisimperiosa diante da necessidade de se construir e articular serviços paraum envelhecimento ativo, como vem sendo definida internacionalmentea participação das pessoas idosas na sociedade e no desenvolvimento(ONU, 2002). Em contraposição a essa perspectiva, predomina a formade gestão pelo envelhecimento passivo, que se caracterizará a seguir.A gestão tradicional – envelhecimento passivo No contexto do capitalismo de meados séculos XX, mesmo coma presença do Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), configurou-se uma forma de gestão da velhice que combinava três dimensões: agarantia da renda, o atendimento de saúde e a atenção à incapacidadepara o relacionamento, seja na família, seja em abrigos. Nesse sentido,confundia-se envelhecimento com incapacidade física e social, manifes-ta economicamente na incapacidade de trabalhar, na improdutividade,na inatividade, na falta de competividade. O sistema tradicional de gestão e de proteção social, no momen-to da velhice, era caracterizado por um sistema que compensava a in-terrupção das atividades produtivas, com a recepção de um benefícionum determinado momento, chamado de aposentadoria ou subsídio àvelhice. Pensava-se que, assim, estava resolvido o problema da gestãosocial das pessoas que envelheciam, centrado na obtenção de uma rendadecorrente de um fundo, sem pré-pagamento (assistência) ou com pré-pagamento (previdência). O fundo público garantia uma renda dentrode determinados tetos, conforme a legislação de cada país. Essa política de seguros sociais e de benefícios estava associadaa um risco reconhecido, o risco velhice, comparável a um risco de doençaou de acidentes. Isso permitia ao capitalismo manter a demanda eco-nômica por parte da população idosa excluída do trabalho, dentro dos revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 75. 80 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouçasparâmetros do keynesianismo, de acordo com a economia de estímuloao consumo, preconizada por Keynes (Faleiros, 2001b). A segunda dimensão aqui pontuada é a do envelhecimento bio-lógico, que era visto como a perda de capacidade de adaptação. Con-sideram Leme e Silva (2002) que “a velhice carrega consigo uma quedageral (sic!) da capacidade de adaptação” seja pela incapacidade de acei-tar ou administrar situações de mudanças ou catástrofes, como demudanças de ambiente. Assim, além da compensação de incapacidadepara o trabalho, pela renda, devia-se prover serviços para os “incapazes”para a vida social. Esses serviços se organizam conforme a avaliação da dependên-cia ou independência do idoso por uma equipe externa, segundo parâ-metros estabelecidos em escalas formais aplicadas por um especialistasobre a vida do outro, muitas vezes sem considerá-lo como sujeito denecessidades e protagonista de sua história. O foco da gestão era ocuidado de incapacidades de adaptação ou de sobrevivência. A essa visão da velhice como incapacitante para o trabalho e para asobrevivência fora do trabalho, aliava-se a visão de que a velhice se caracteriza-va pela solidão acompanhada de depressão. Sluzki considera que (...) à medida que se envelhece, a rede pessoal social sofre mais perdas ao mesmo tempo em que as oportunidades de substitui- ção para estas perdas se reduzem drasticamente. Além disso, os esforços que é preciso despender para manter uma conduta social ativa são maiores, a dificuldade para se mobilizar e para se mover é maior, e a acuidade sensorial é reduzida, o que diminui as ha- bilidades e, a longo prazo, o interesse em expandir a rede (...) Com o desaparecimento de vínculos com pessoas da mesma geração, desaparece boa parte dos apoios da história pessoal (...) Parte da experiência de depressão que parece se instalar em muitos velhos de maneira opressiva emana da solidão e da conseqüente perda de papéis”. (1997, pp. 117-118) Nesse sentido, a velhice traz uma tríplice perda: a do trabalho,a da saúde e a da rede. A gestão social confundia-se com a gestão dasrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 76. Gestão social por sujeito/idade na velhice 81perdas pela compensação com renda, serviços uniformizados e de aten-dimento à solidão ou à depressão, com trabalhos sociais e médicos paracontatos ou abrigamentos, e receitas de remédios antidepressivos. Pode-mos caracterizar esse tipo de gestão como gestão de perdas pelas formascompensatórias.A gestão por sujeito/idade Na perspectiva do envelhecimento ativo, é preciso considerar quea velhice não é somente um exercício de “um papel sem papel” – rolessrole – na expressão de Burguess, citado por Debert (1999, p. 42), masum processo heterogêneo, diversificado, social, econômica e cultural-mente estruturado, familiarmente aberto, e que não se constitui neces-sária e exclusivamente de perdas. Debert (ibid.) mostra que, mesmo com a colonização inglesa naÁfrica, os idosos não perderam prestígio e poder. No Brasil, os idosossão valorizados pela renda da Previdência em pequenas cidades do in-terior, mesmo ganhando um salário mínimo, num contexto em que arenda média do emprego público é inferior à dos benefícios previden-ciários. Essa renda permite, inclusive, a constituição de associações fi-nanciadas pelos próprios aposentados, configurando-se uma rede socialestabelecida pós-aposentadoria (Santos et alii, 2002). O que precede mostra que não se pode considerar o envelhecimen-to ou a velhice como um dado estático e homogêneo, mas como umconjunto de relações em que têm peso tanto o aspecto demográfico (en-velhecimento populacional), como o biográfico, o biológico, o cultural,o social, o político, o econômico, o simbólico, sempre de forma articulada.A gestão social do cotidiano e das políticas precisa, pois, considerar essadinâmica complexa na trajetória sócio-histórica da pessoa idosa. Para a autonomia das pessoas, há necessidade de um conjunto deserviços que se articulem para que o idoso possa ter, não só oportuni-dades, mas também felicidade. Ou seja, aliando-se às condições subje-tivas de auto-realização e autonomia, as condições objetivas de umenvelhecimento saudável. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 77. 82 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças Anne Marie Guillemard (2002) aponta para uma nova oferta deserviços que permita conjugar políticas de proteção social, de trabalhoe de melhoria dos recursos humanos, considerando a questão dos direi-tos sociais e da necessidade de se reconfigurar a gestão a partir dosproblemas oriundos das mudanças no mercado de trabalho e na prote-ção social. Segundo ela, há sentido em se desenvolver uma política de gestãopor idades, ou seja, uma gestão de recursos humanos para a idade, aten-dendo à pessoa em diferentes momentos e nas suas trajetórias indivi-duais e sociais. Assim, o envelhecimento passivo deve ser substituídopor diferentes processos reflexivos do sujeito, em vários momentos dasua vida. A consideração da velhice, no contexto do neoliberalismo, impli-ca levar em conta as profundas mudanças na proteção social, no traba-lho e na construção de redes sociais e, ao mesmo tempo, as mudançasculturais de valorização do sujeito e das diferenças. Nesse sentido, nãose trata de substituir a desproteção do Estado pelo engajamento e pelaatividade do sujeito, mas por uma forma de organização da vida em quesejam assegurados, tanto os direitos como a participação e a relevânciadas diferenças e das trajetórias de vida. É necessário substituir a visão de uma gestão ligada somente aperdas e à incapacidades por uma gestão vinculada à participação dapessoa idosa na construção de sua vida e da vida social, de acordo comos seus projetos. Não se trata de substituir a responsabilidade do Estado pelaresponsabilidade individual ou da família, mas de articular alternativase arranjos que possam melhorar a qualidade de vida do idoso, de acordocom uma concepção de perdas e ganhos. O processo de envelhecimento se caracteriza por mudanças nosvínculos com o trabalho, com a família e consigo mesmo, implicandoperdas e ganhos, em que o sujeito não fica no papel de “sem papel”, poisas relações com as dificuldades e com as redes se transformam a partirda dinâmica situacional e contextual em que se inscreve o sujeito em suarede primária e secundária.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 78. Gestão social por sujeito/idade na velhice 83 Em todos os momentos da vida, assim como na velhice, tambémse desenvolve a resiliência como a habilidade de superar dificuldades, esujeitos de alto risco podem se tornar competentes, capazes de traba-lhar, amar, brincar e ter expectativas (Tavares, 2003). Essas habilidades de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”,conforme o samba de Vanzollini, significam estratégias de enfrentamen-to, implicando recursos, dispositivos, relações e condições que se encon-tram estruturadas, mas também traçadas em relações de interesse, deluta individual e coletiva no processo de hegemonia e de contra-hegemonia que Vicente Faleiros (2001a) caracteriza como empowermentou empoderamento. Esse mesmo conceito, o empowerment, contribui para a concepçãodo envelhecimento ativo, pois trata-se do processo de articulações so-ciais em que o sujeito se modifica ao mesmo tempo em que modifica asrelações nas quais está inserido e, em contrapartida, estas relações es-tabelecem novas dimensões para aquele determinado sujeito em todasas fases da sua vida. O empowerment não depende da vontade do sujeito ou apenas dehabilidade, como ficou salientado no conceito de resiliência, mas sim deum processo de vinculação de si e dos outros a si nas relações sociais queenvolvem o sujeito. O idoso, ao perder as relações de trabalho, continua mantendorelações familiares, de amizade, culturais, de pequenos grupos, de vi-zinhanças e com os serviços. Isso pode ser matriz para que ele se resta-beleça socialmente. O avanço da idade e a constatação de perdas são previsíveis. Dessaforma, o sujeito pode ser estimulado a novas relações mantendo suarede renovada, continuando o processo do viver. Isso ocorre à revelia dopróprio sujeito, já que as mudanças, ao longo da vida, renovam as redes.O que propõe a gestão por idade é o monitoramento dessa renovação,para que ela se processe de forma benéfica para aquele que envelhece. O contexto domiciliar e a convivência familiar do idoso mudamsignificativamente ao longo da vida, principalmente, quando há víncu-los intergeracionais. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 79. 84 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças O envelhecimento, na ótica do empowerment, vai depender doscontatos intergeracionais entre companheiros e na própria família. Parao autor, o empowerment configura uma “estrutura relacional”, implican-do um campo de forças em que as disputas e os conflitos se traduzemem estratégias conjunturais para manter ou conquistar recursos, poder,reconhecimento, território, vantagens e legitimação na dinâmica geraldo instituído e do instituinte (ibid.). Quase um século antes de Cristo, afirmava-se que A velhice só é honrada à medida que resiste, afirma seu direito, não deixa ninguém roubar-lhe seu poder e conserva sua ascen- dência sobre os familiares até o último suspiro. Gosto de des- cobrir o verdor num velho e sinais de velhice num adolescente. Aquele que compreender isso envelhecerá talvez em seu corpo, jamais em seu espírito. Jamais nos exigem ir além de nossas forças, permitem-nos mesmo permanecer aquém. (Cícero, pp. 30-32, 2002) Essas considerações sobre a “força” dos velhos situa-se, do pontode vista de Faleiros, numa perspectiva relacional, em que se deve con-siderar o fortalecimento e a fragilização na dinâmica das forças empresença. É nesse sentido que se deve entender a afirmação de Cícero emsua época e no contexto familiar dominante, mas é assinalada uma tensãode forças que colocam o envelhecimento com mais ou menos poder. Na sociedade brasileira, é preciso considerar as relações de podervinculadas às relações de gênero, tanto na sociedade como nas relaçõesfamiliares. Entre as mulheres predomina maior longevidade, porém elassofrem mais violência e permanecem morando sozinhas em maiornúmero, segundo dados da PNAD de 1997. Assim, enquanto havia5% de homens sozinhos em famílias com idosos, essa porcentagempassava para 10,5% de mulheres sozinhas. Por sua vez, nesse mesmoano, para os maiores de 60 anos, o rendimento do trabalho significava40% do rendimento dos homens e apenas 11% do rendimento dasmulheres; ao contrário, as pensões não significavam nem 1% do ren-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 80. Gestão social por sujeito/idade na velhice 85dimento dos homens e 31% do rendimento das mulheres. Aos rendi-mentos da aposentadoria totalizavam 51% do rendimento dos homense 45% do rendimento das mulheres. É também mais freqüente a pre-sença de mulheres cuidadoras e internadas em abrigos de longa perma-nência (Camarano, 1999; IBGE, 2002). Karsch (2003), em pesquisa em São Paulo junto a famílias comportadores de Acidente Vascular Cerebral – AVC, revelou que, em 98%dos casos, o cuidador era alguém da família e, predominantemente, dosexo feminino (92,9%). Dessa forma, o envelhecimento masculino deve ser consideradodiferentemente do envelhecimento feminino nas trajetórias sociais eindividuais existentes na sociedade brasileira. Uma gestão por sujeito/idade deve levar em conta: as questões de gênero, a inserção cultural,a situação econômica, as redes sociais, as relações de poder, a estruturaimaginária e simbólica e as relações familiares. A dimensão cultural complexa implica, dentre outras coisas, areligiosidade, a etnia, a raça e o desenvolvimento territorial. Um qui-lombola, certamente, terá um envelhecimento diferente de um negroque viva em zona metropolitana. As relações sociais e familiares se interconectam na história dacoorte populacional e no processo de trocas sociais que se estabeleceramao longo da vida e ao longo do tempo. A gestão por sujeito/idade levaráem conta os vínculos que se perdem e os vínculos que perduram nasrelações intergeracionais. O filme Raízes do Brasil, sobre a personagem de Sérgio Buarquede Holanda, revela que sua mulher, Memélia, aos 80 anos, mantémuma rede que se estabelece e se reconfigura em vários momentos davida, caracterizando rupturas e continuidades, perdas e ganhos. É fundamental que se rompa o pacto de silêncio em relação aoenvelhecimento e que se passe a falar sobre a velhice na família e nasociedade. Novas necessidades surgem na vida do velho, que não estãonecessariamente em contradição com novos projetos. Ao invés de vidasparalelas entre gerações é preciso entrecruzar sujeitos para uma gestãopor sujeito idade. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 81. 86 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças A construção e desconstrução de vínculos familiares não apare-cem nas fotos, mas precisam ser trabalhadas socialmente dentro daperspectiva da gestão por sujeito/idade. Em depoimento de uma pro-fissional nutricionista,1 duas filhas acompanhavam a mãe idosa queemagrecia. Não se davam conta de que a mãe perdera o interesse emcozinhar para si, pois dizia que não tinha para quem fazer alimentos.Dessa forma, a relação na rede familiar influenciava as condições desaúde, o que necessita ser trabalhado conjuntamente como mudança depoder e de papel do idoso. As duas filhas só puderam dialogar sobre acondição da velha mãe com a mediação da profissional, buscando-segerir o cotidiano de forma complexa, para que o idoso possa tomardecisões de acordo com sua história, sua inteligência emocional e suasinformações num pacto de consensos possíveis diante das divergências,e os conflitos que precisam ser negociados, respeitando-se os direitos eos desejos sociais e familiares. A perda das capacidades do indivíduo que envelhece, quandoocorre, não é percebida uniformemente, dependendo, segundodepoimentos colhidos por Mercadante (2003), seja da perda da lucidez,da perda da saúde ou da dependência dos outros. Na verdade, enquantoa pessoa é detentora de suas capacidades mentais, físicas, de relaciona-mento e de autonomia, ela não se considera velha. O enfrentamento (coping with) de uma artrite é muito diferentedo enfrentamento da doença de Alzheimer, assim como, em acidentescom jovens, o enfrentamento de uma fratura é muito diferente do en-frentamento de um politraumatismo. A gestão por sujeito/idade levaráem conta condições, dispositivos e disposições do sujeito nas relações deempowerment. Assim, não se parte da medicalização da velhice, não se confundin-do velhice com doença, pois, na heterogeneidade em que se encontramos idosos, pode haver maior ou menor número de doenças, provocandoconseqüências diferentes de acordo com as individualidades.1 Entrevista de orientação em 2004.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 82. Gestão social por sujeito/idade na velhice 87 O internamento em casas de repouso, asilos ou hospitais de crô-nicos muda a organização da vida, e, muitas vezes, ao invés de criarnovas relações, isola, separa, esvazia o contexto de relações que preci-sam ser reconstruídas no dia-a-dia, mantendo-se a autonomia do pró-prio idoso. Nos asilos, acentua-se, em muitos casos, o isolamento. A rede dafilantropia é que, na maioria das vezes, atende aos idosos por meio dacaridade, o que acarreta na sensação de terem sido abandonados pelaprópria sociedade que ajudaram a construir. Nesse sentido, a gestão por sujeito/idade deve levar em contaa relação entre família, comunidade, filantropia, Estado e mercado.Estado, mercado e filantropia precisam estar articulados e devem pro-piciar alternativas para que a própria família possa a eles recorrer nosmomentos de mudança de trajetória ou de maior necessidade, preser-vando a autonomia da pessoa idosa como sujeito de direitos e deautonomia. Mônica Rebouças, a partir de sua experiência no Idadi, posteri-ormente apresentado, assinala que o idoso, ao sofrer uma queda emdeterminado momento, quando ainda é considerado saudável, podemudar suas condições objetiva e subjetivamente, além de provocarprofundas alterações em seu cotidiano e seu psiquismo, tendo em vistaas dificuldades de recuperação devido ao estresse biológico causado peloacidente. O exemplo típico é o do idoso com 85 anos, que freqüenta umauniversidade de terceira idade, totalmente hígido; subitamente sofreuma queda, apresenta fratura de colo de fêmur, seguida de cirurgia.Descompensa a função cardíaca ou respiratória levando-o a um leito deUnidade de Terapia Intensiva – UTI. A partir daí a recuperação e oretorno ao estado anterior será mais difícil. Este indivíduo que freqüen-ta a universidade de terceira idade deve ser acompanhado pela mesmaequipe, dentro do possível: na universidade, no atendimento de emer-gência, no centro cirúrgico, na UTI, no quarto do hospital, na volta aodomicílio, na reabilitação funcional global e no retorno à universidade.Deve-se adequar o acompanhamento, obedecendo-se às particularida- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 83. 88 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouçasdes de cada nível de atenção, mas contar também com a presença ativade uma ação biopsicossocial a que se chama gestão por sujeito/idade, queconsiste na atuação que se desloca em todas as direções e dá oportuni-dade ao sujeito de ser visto em toda sua particularidade, mantendo suasrelações. No regime do capitalismo, os interesses direcionam-se à gestãovinculada a empresas privadas e condicionada pelo pagamento de ser-viços muitas vezes fora das possibilidades do usuário. Há casas de re-pouso, asilos e serviços comerciais que dependem de pagamento parase ter acesso a eles. Quem estiver fora do mercado de trabalho, comoalguns idosos, dependerá de sua família para usufruir tal atendimento. O Estado brasileiro praticamente não oferece proposta de gestãoda então denominada “terceira idade”. Existe no papel a Política Na-cional do Idoso – PNI, estruturada pela Lei 8.842 de janeiro de 1994,mas que não é posta em prática. Aprovou-se, em 2003, o Estatuto doIdoso, Lei 10.741 que estabelece para a pessoa idosa o direito à vida, àliberdade, ao respeito e à dignidade entre outros. Estes precisam sertraduzidos em serviços, apostados em processo social que atenda aocidadão em todos os seu direitos. A passagem da proposta legal dos direitos do envelhecimento,como estabelece o Estatuto do Idoso, implica articulação de proteçãonão só da renda, da qual muitos brasileiros estão excluídos, mas tam-bém de criação de serviços capazes de oferecer atenção à saúde, sociale psicológica, além de suporte àquelas perdas que podem se acentuarou não no processo de envelhecimento. A criação de serviços voltados ao envelhecimento denota que oidoso seja protagonista dos mesmos, ou seja, que possa tomar decisõesa respeito da sua vida, embora, muitas vezes, sinta medo de expor suasnecessidades e perder os cuidados, se não forem oferecidos pelo Estado.Deve ser considerado o território e o processo de referência e contra-referência, colocando-se ao alcance do idoso atenção de caráter social,de saúde preventiva e curativa, agregando as possibilidades de convi-vência e de criação de vínculos. Ao lado do atendimento à saúde, devemexistir grupos de idosos que possam fazer ginástica, passeios e ativida-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 84. Gestão social por sujeito/idade na velhice 89des conjuntas, possibilitando-lhes a criação de laços e de vínculos, aten-dendo também às necessidades de manutenção de cidadania, garantin-do aposentadoria justa, além de deveres e direitos. O serviço destinado a prover o período de envelhecimento nãoapresentará apenas uma proposta material, como a distribuição de remé-dios, mas deverá pretender respostas sociais, físicas e biológicas àquelastrês dimensões enumeradas no início deste texto, quais sejam, o enfra-quecimento da rede social, a perda da renda e a perda da autonomia. Serviços de atenção a idosos, diurnos e ou noturnos, podem ocor-rer por meio de acordos, dependendo das possibilidades da família e domercado, prestando cuidados com saúde, associados a apoio social,atividade física, compras, passeios, turismo e outros. A estrutura administrativa de referência deverá contar compessoas de referência, que na área da saúde mental se denominam acom-panhantes terapêuticos. No envelhecimento, seria o acompanhante dapessoa idosa. O pacto do acompanhamento implica o acordo ético e deserviços, constituindo-se em uma troca regida pela confiança. O acom-panhante deverá ser uma pessoa que promova o direito do idoso e nãose aproveite da situação para beneficiar-se, prejudicando e aproveitan-do-se econômica, psicológica e socialmente. A gestão social depende não só do mercado e da família comotambém dos serviços que o Estado possa oferecer. É fundamental,portanto, que os familiares, os serviços de proteção estatal, a inserçãono mercado e cultural reconheçam novos paradigmas para a gestão davida humana como um todo, principalmente no envelhecimento. Só um processo extremamente complexo atenderá à perda decapacidade com uma perceptiva relacional de manutenção do podersobre si, sobre sua vida pelas relações articuladas. Este processo é o quepropõe a gestão por sujeito/idade que se inscreve no envelhecimentoativo. A gestão por sujeito/idade é a articulação social, do mercado e dosserviços com a possibilidade de acesso universal do idoso a centros ondese torne protagonista de sua identidade, de sua cultura, de seus direitos.A gestão por sujeito/idade estabelece não só o diálogo, mas também a revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 85. 90 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouçasconexão da família, do mercado e da proteção social dentro de umcontexto e território onde se encontra o idoso. É um conjunto articuladode perspectivas e de relações, consideradas pela heterogeneidade dosindivíduos que envelhecem. A gestão por sujeito/idade no envelhecimento busca a participaçãodo idoso nas suas condições individuais e sociais, fazendo com que todosos serviços lhe dêem abertura para que expresse suas opiniões, desta-cando sempre que a educação faz parte do processo e é fator fundamen-tal para manutenção da cultura e do diálogo intergeracional. Em caráter ilustrativo, descrever-se-á uma experiência em terri-tório brasileiro, onde foi possível desenvolver-se a prática do propostopela gestão por sujeito/idade. Não se pretende generalizar a experiênciacomo modelo único, mas apenas suscitar a discussão de novos paradig-mas de gestão conforme assinalado no início deste texto. O sistema de financiamento do exemplo exposto foi realizadopelas famílias dos idosos, já que as parcerias com o Estado ou outrasinstituições foram sugeridas, mas não viabilizadas até o momento dapublicação deste trabalho.A experiência do Instituto de Atendimento do Idoso – Idadi O Idadi, situado em Salvador, BA, vem colocando em prática asabordagens e técnicas recomendadas pela literatura a serviço das pessoasde terceira idade, com resultados muito positivos, tanto em termos damelhor higidez dos indivíduos, quanto em termos da redução de custosde tratamento, reintegração e restabelecimento das redes sociais. O Idadi2 observou a complexidade do idoso devido às relaçõesentre o bio, o psico e o social, ao longo da vida. As diferentes perdas nasdiversas fases da vida devem ser olhadas em um contexto. O envelhe-cimento do ser humano apresenta aspectos bastante diferentes, depen-dendo de como ocorre, com dependência ou com autonomia. Hánecessidade de arranjos familiares específicos para cada caso, contando-2 Dirigido, então, por Mônica Rebouças.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 86. Gestão social por sujeito/idade na velhice 91se com serviços para cada situação, sendo necessário estruturar-se ummodelo que integre o Estado, a família e o idoso, propiciando que a redesocial seja reconstituída, um a um. O intercâmbio entre a política, o sujeito, a família e a culturaimplica formas de proteção (de acordo com o conceito do Estatuto doIdoso) geriátrica e gerontológica que partam de arranjos existentesnaquela idade, naquele momento e que possam ser integrados de acor-do com as possibilidades, as necessidades e os limites daquele idoso. Aalternativa do cuidado hospitalar ou domiciliar, a cultura do idoso, suarede e suas tradições vão possibilitar construir um modelo assistencialindividual respeitando as particularidades. Na experiência em foco,observa-se a exigência da capacitação de pessoas que atendam a essavisão integrada de gestão, pessoas que possam considerar as condiçõesda família, dos serviços e as necessidades específicas do idoso comoindivíduo que necessita de vacinação, de apoio espiritual, de lazer esaúde, ações expressas somente com atenção especial. Na área do serviço público brasileiro, o Programa Saúde da Fa-mília – PSF, concebido para o Sistema Único de Saúde – SUS, é umaforma de atenção que se pode adequar ao conceito de gestão por sujeito/idade. As equipes de PSF atuam diferentemente do modelo tradicionalde atenção, caracterizado pela passividade, sem vínculo afetivo e semresponsabilidade com o acompanhamento da comunidade, restringin-do-se a atender os problemas que chegam ao posto de saúde. O modeloproposto pelo PSF prevê orientações e acompanhamento do indivíduonão só por ser portador de hipertensão, diabetes, Parkinson, demênciaou outra doença, com foco só no problema e soluções de cima para baixopor meio de programas pré-definidos. A função do PSF é acompanharintegralmente a comunidade, possibilitando que ela participe ativamen-te da gestão de sua qualidade de vida. A experiência no Idadi revela ser possível viabilizar a proposta sem que sedescaracterizem o cuidado e a atenção mais especializados nas áreas social, psi-cológica e de saúde física, quando forem necessários. No envelhecimento, éimportante oferecer serviços integrados que possibilitem, ao mesmo tempo, aprevenção e a orientação e favoreçam o relacionamento do idoso com a família. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 87. 92 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças A alternativa é de um serviço integrado com a comunidade,prestando atendimento e servindo de formador de opinião dos idosose dos profissionais que nele se integram. A metodologia pode ser defi-nida como “deslocamento acompanhado” do indivíduo, dependendode suas necessidades do momento. Uma descrição detalhada dessa me-todologia é encontrada na literatura da última década e vem sendo segui-da por geriatras e gerontólogos de todo o mundo, sem uma oficializaçãoe reconhecimento junto às fontes financiadoras de países, caso tambémdo Brasil. A estrutura material e o aporte necessários ao indivíduo queenvelhece são uma complexa rede que vai desde a clínica, o ambulatório,o leito hospitalar, o centro cirúrgico, a unidade de terapia intensiva atéo domicílio, a sala de aula, a universidade, o clube, o centro de lazer, oatendimento a benefícios como aposentadoria e outros (Baker, 1992). Um serviço de excelência, com atenção em todos os níveis, podeser mais facilmente operacionalizado ao se compreender o conceito degestão por sujeito/idade, aplicado aos idosos. Este conceito é adaptável aqualquer local que venha a compor a vasta e complexa rede de apoio aoidoso, já referida acima. Toda ênfase deve ser dada a uma equipe, capa-citada em geriatria e gerontologia, adotando resultados de pesquisacientífica voltada para as questões geriátricas e gerontológicas. Talequipe deve ser contratada para acompanhar idosos em qualquer nívelem que estejam, monitorando-os e orientando-os na obtenção dequalidade de vida e redução de custo da assistência. Distingue-se da compreensão de ação específica hospitalar,ambulatorial, domiciliar, de assistência social ou de recreação e agrega-se o conceito de acompanhamento em todos esses locais, por todos osprismas. Reforça a dinâmica de cada um desses serviços e acrescenta-se o apoio da gestão por idade aos idosos, em cada um dos níveis deatenção, otimizando espaço físico e toda engrenagem existente na co-munidade sem criar estruturas paralelas, estimulando vínculos estabe-lecidos e possibilitando que equipes geriátricas e gerontológicascontribuam para melhoria da qualidade de vida da população em geralao desobstruir o sistema de saúde, engarrafado pelo anacronismo dasações voltadas a idosos.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 88. Gestão social por sujeito/idade na velhice 93 A gestão por sujeito/idade, no acompanhamento do idoso, compromete-se com metas estabelecidas por critérios geriátricos e gerontológicos e não daclínica médica, do serviço social ou psicologia, como vem sendo feito, e, muitasvezes, a partir de uma visão das incapacidades. Medidas de eficácia e relaçãointerpessoal são marcadores da qualidade de cuidados e deverão nortear omanejo das ações voltadas a idosos. Essa gestão não é feita por patologia oupor nível de assistência, mas propõe o acompanhamento do indivíduopor ser idoso e não por problema social, psicológico ou por doença. O mecanismo existente contém custos mais elevados que os deum atendimento uniformizado, causados pelos fenômenos próprios doenvelhecimento e suas conseqüências no ser humano. Há uma inter-relação e uma interação de poder entre a equipe, o idoso e a família paraadequar os seguintes procedimentos às trajetórias sócio-históricas: a) aplicação de escalas de avaliação, medindo-se o estado de saú-de e a auto-satisfação em relação à sua vida e suas redes, servindo decomparação em diferentes momentos; b) estabelecimento de empowerment, pela resiliência; c) ação preventiva em indivíduos sadios que não pertencem agrupos específicos e que estejam em suas casas ou que freqüentemuniversidades, escolas, oficinas ou grupo de convivência; d) estímulo à subjetivação e construção de uma identidade, ba-seada no desejo/interesse/relações de cada um e de sua família/rede; e) articulação de consulta ou entrevistas acompanhadas de rea-valiação, de acordo com um plano discutido e negociado, pensando-se,inclusive, no alto índice de iatrogenias a que está sujeito o indivíduo idoso; f) vigilância sobre a própria equipe e monitoramento atento dasprescrições, já que a adesão às orientações é difícil e reconhece-se umalto índice de descompensações devido à não obediência das recomen-dações feitas; g) reconhecimento do fenômeno da repetição não voluntária e nãopercebida pelo indivíduo, descrito pelos autores psicanalíticos, que mantémuma relação de compromisso com o desprazer: O mal estar na civilização (Freud); h) compreensão das diversas dificuldades de um mesmo indivíduo,evitando-se que o mesmo participe de diversos programas diferentes; revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 89. 94 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças i) favorecimento do acompanhamento da pessoa por uma mes-ma equipe nos diversos níveis da promoção do seu bem-estar no con-texto global, oferecendo informações, estabelecendo vínculos ouprestando-lhe assistência; j) estabelecimento do processo de ações de saúde, baseado emevidências e nas falas do sujeito, garantindo-se a qualidade da atenção; k) comparação entre os procedimentos adotados para cada nível denecessidade com o previsto na literatura, para se manter o rigor científico; l) realização de formação continuada da equipe, da pessoa idosa,da família e de cuidadores para que participem do programa de gestãopor sujeito/idade do idoso, com foco nos resultados de qualidade de vidade todos os envolvidos; m) avaliação continuada das ações e das percepções pelas escalas,respondidas por usuários. O acompanhamento da pessoa nos diversos níveis de necessida-de promove: a) integração a um grupo social destinado a romper com o iso-lamento; b) apoio a questões sociais de todas as ordens, seja com recursosdo próprio Instituto ou encaminhando e acompanhando soluções; c) respeito aos direitos e às particularidades do indivíduo; d) diminuição de: • polimanipulação médica ou de outros profissionais; • toda e qualquer ocorrência desastrosa decorrente da falta deintegração nos diversos níveis da atenção; e) atenção à saúde primária, secundária e terciária; f) ação diagnóstica e terapêutica correta; g) exames e internações estritamente necessários; h) prevenção de iatrogenias.Considerações finais Neste trabalho, buscou-se aliar a reflexão teórica à prática ins-titucional com pessoas idosas, mostrando-se limites e possibilidades derevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 90. Gestão social por sujeito/idade na velhice 95um novo paradigma de gestão social. Esse paradigma se inscreve naperspectiva do envelhecimento ativo, aqui denominado gestão por sujei-to/idade. É uma forma de gestão que não se concentra na pretensa so-lução de problemas isolados, aliás, opõe-se a ela, pois não se podeaplicá-la à gestão de pessoas e muito menos no momento da velhice. É nesse momento que se necessita da consideração de uma pers-pectiva histórica e estrutural de gestão, que considera, ao mesmo tem-po, o processo e os resultados, a dinâmica e o ritmo da ação, bem comoa ética e as relações complexas do ser humano nas condições dadas pelahistória social e pela história familiar e pessoal do sujeito. A mudança de forma de gestão no Idadi, em Salvador, baseadanuma proposta de gestão por sujeito/idade e não de administração doindivíduo pelo poder médico ou psicossocial, implica a articulação dacomunidade, da família, do Estado, ou seja, das redes primárias e secun-dárias, respeitando-se os direitos da pessoa idosa na sua trajetória deperdas e ganhos, de desarranjos e re-arranjos. Essa forma de gestão implica a desconstrução de paradigmas doenvelhecimento passivo e a fundamentação numa compreensão doenvelhecimento em sua multidimensionalidade para que a gestão tam-bém possa articular estrategicamente a multidimensionalidade.ReferênciasBAKER, W H. (1992). “Geriatrics in North America”. In: TALLIS, . R. e FILLIT, H. Brocklehurt`s textbook of geriatric medicine and gerontology. Edinbourgh, Churchill Livingstone.BARRY, P P e ROBINSON, B. E. (2001). “Assistência de longo prazo . . baseada na comunidade”. In: GALLO, J. L. et alii (orgs). Reichel – Assistência ao idoso. Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan.BEAUVOIR, S. (1990). A velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.BOSI, E. (2003). O tempo vivo da memória. São Paulo, Ateliê Editorial.BOURDIEU, P. (2001). Meditações pascalianas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 91. 96 Vicente de Paula Faleiros e Mônica RebouçasBRASIL (1994). Política Nacional do Idoso. Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994. _______ (1998). Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado._______ (2003). Estatuto do Idoso. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003.BULLA, L. C. et alii (1998). “As condições de vida dos idosos do Rio Grande do Sul”. In: BULLA, L. C. et alii. A pesquisa social nas áreas humanas humano-sociais. Porto Alegre, EDIPUCRS.CAMARANO, A. A. et alii (1999). “Como vive o idoso brasileiro”. In: CAMARANO A. (org). Muito além dos 60. Os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro, Ipea.CEVERNY, C. M. O. de e BERTHOUD, C. M. E. (2002). Visitando a família ao longo do ciclo vital. São Paulo, Casa do Psicólogo.CÍCERO, M. T. (2002). Saber envelhecer. Porto Alegre, L&PM.DEBERT, G. G. (1999). A reinvenção da velhice. São Paulo, Edusp.DOWBOR, L. (1999). “A gestão social em busca de paradigmas”. In: RICO, E. M. de e RAICHELIS, R. (orgs). Gestão social, uma questão em debate. São Paulo, Educ/IEE.ESPINOSA, T. S. R. (1990). Vejez y cultura. Barcelona, Fundación Caja de Pensiones.FALEIROS, V P (2001a). Estratégias em serviço social. São Paulo, Cortez. . ._______ (2001b). Política social do estado capitalista. São Paulo, Cortez.FERNANDEZ-BALLESTEROS, R. (2001). Gerontologia social. Madrid, Pirâmide.GALLO, J. et alii (eds.). Reichel – Assistência ao idoso. Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan.GOLDFARB, D. C. (1998). Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo, Casa do Psicólogo.GOLDMAN, S. N. e PAZ, S. F. (orgs) (2001). Cabelos de néon. Rio de Janeiro, Talento Brasileiro.GUILLEMARD, A. M. (2002). “A Europa Continental face à aposen- tadoria antecipada: barreira institucionais e inovações em maté- ria de reformas”. In: BOMTEMPO, D. et alii (orgs.). Novos paradigmas da política social. Pós-Graduação em Política Social. Brasília, UnB.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 92. Gestão social por sujeito/idade na velhice 97HADDAD, E. G. M. (1993). O direito à velhice: os aposentados e a Previdência Social. São Paulo, Cortez.IBGE (2002). Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil. Rio de Janeiro, IBGE.KACHAR, V. (2001). Longevidade, um novo desafio para a educação. São Paulo, Cortez.KARSH, U. (2003). Cuidadores familiares de idosos: parceiros da equipe de saúde. Serviço Social & Sociedade, v. 24, n. 75, pp.103- 113. São Paulo, Cortez.LEME, L. E. G. e SILVA, P. S. C. P. (2002). “O idoso e a família”. In: NETTO, M. Gerontologia. A velhice e o envelhecimento em visão glo- balizada. São Paulo, Atheneu.MAH, S. et alii (1999). Jovens e idosos: contextos, interacções e redes de suporte. Intervenção social, v. IX, n. 20, pp.57-78. Lisboa, Instituto Superior de Serviço Social.MERCADANTE, E. F. (2003). Velhice: a identidade estigmatizada. Serviço Social & Sociedade, v. 24, n. 75, pp. 55-73. São Paulo, Cortez.MORAGAS, R. (1997). Gerontologia social: envelhecimento e qualidade de vida. São Paulo, Paulinas.NERI, A. L. (org.) (2002). Qualidade e vida e idade madura. Campi- nas, Papirus._______ ( 2002). “Teorias psicológicas do envelhecimento”. In: FREITAS, E. V. de et alii. Tratado de Gerontologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.NERI, A. L. e DEBERT, G. G. (orgs) (1999). Velhice e sociedade. Campinas, Papirus.NETTO, M. P e PONTE, J. R. (2002). “Envelhecimento: desafio na . transição do século”. In: NETTO, M. P (org.). Gerontologia. São . Paulo, Atheneu.ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (2002). Plano de Ação Internacional sobre Envelhecimento. Brasília, Secre- taria Especial de Direitos Humanos. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 93. 98 Vicente de Paula Faleiros e Mônica RebouçasPADILHA, L. (2001). Grupos de idosos como fortalecimento da iden- tidade e da cidadania no contexto institucional. In: 10º CON- GRESSO BRASILEIRO DE ASSISTENTES SOCIAIS. Anais... Rio de Janeiro, nov.PAZ, S. F.; GOLDMAN, S. N.; PORTELA, A. e ARNAUT, T. (orgs) (2000). Envelhecer com cidadania: quem sabe um dia. Rio de Janei- ro, ANG-RIO/CBCISS.SANTOS, C. C. B. et alii (2002). Previdência Social: uma discussão sobre o seu impacto no desenvolvimento dos pequenos municí- pios brasileiros – o caso de Macururé, Bahia. Ser Social, v. 11, pp. 219-242. Brasília, UnB, Pós-Graduação em Política Social.SLUSKI, C. E. (1997). A rede social na prática sistêmica: alternativas terapêuticas. São Paulo, Casa do Psicólogo.STARFIELD, B. (2002). Atenção primária.Equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília, Unesco/ Ministério da Saúde.TAVARES, J. (org.) (2003). Resiliência e educação. São Paulo, Cortez.TERRA, N. L. (org.) (2002). Envelhecendo com qualidade de vida: pro- grama geron. Porto Alegre, EDIPUCRS.VERAS, R. (org.) (1997). Terceira idade: desafios para o terceiro milênio. Rio de Janeiro, UnATI/UERJ.WAJNMAN, S. et alii (1999). “A atividade econômica dos idosos no Brasil”. In: CAMARANO A. (org). Muito além dos 60. Os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro, Ipea.Data de recebimento: 25/5/2005; Data de aceite: 25/8/2005.Vicente de Paula Faleiros – Assistente social, PhD em sociologia pela Univer-sidade de Montréal, professor dos mestrados em Gerontologia e Psicologia daUniversidade Católica de Brasília, pesquisador do CNPq, autor de livros e artigosde políticas sociais e consultor. E-mail: vicentefaleiros@terra.com.brMônica Rebouças – Pós-graduada em Geriatria pela Pontifícia UniversidadeCatólica do Rio Grande do Sul, especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileirade Geriatria e Gerontologia, mestranda em Gerontologia pela UniversidadeCatólica de Brasília, DF.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 94. Gestão social por sujeito/idade na velhice 99 AnexosAnexo 1 – Contrato com sujeito/família • Informação sobre o Estatuto do Idoso; • soluções de problemas geriátricos e gerontológicos; • diminuição de custos nas diversas direções; • convivência harmônica e com qualidade de vida dos indivíduose suas famílias; • diárias respeitando as particularidades do caso; • previsão de alta acompanhada pela equipe do Instituto; • acompanhamento, pós-alta, domiciliário; • o atendimento hospitalar evolui para o domicílio; acompanha-mento pós-domicílio e na clínica; • os indivíduos que se engajam no programa com autonomiamáxima devem receber visitas no domicílio como forma de avaliação elevantamento de dados. A fase domiciliar é obrigatória, sua duraçãodepende da necessidade do caso; • as visitas domiciliares devem ser substituídas por ida à clínica.Neste momento o indivíduo visita a clínica; • compromissos e metas para fixação de rotina específica; • as atividades são inicialmente individuais, evoluindo para grupo.Anexo 2 – Monitoramento, alta e avaliação dos resultadosMonitoramento • O acompanhamento no hospital, no domicílio ou no Institutovisa o cumprimento das orientações fisioterápicas, médicas e nutricio-nais, sendo acompanhado de escuta da subjetividade, com interpreta-ção sempre que for necessário e aplicação de escalas para medir evolução; revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 95. 100 Vicente de Paula Faleiros e Mônica Rebouças • o engajamento aos grupos é parte da manutenção do indivíduono programa e deve ser estimulado de forma flexível; • a transferência da relação individual com os terapeutas para arelação de grupo deve ser feita com progressiva adesão do indivíduoapoiado pelo terapeuta diretamente; • todos os indivíduos são chamados dos grupos e atendidos indi-vidualmente, retornando aos grupos posteriormente; • as ações em grupo, conjuntamente à atenção individual, garan-tem a gestão eficaz e continuada das necessidades de saúde, sociais epsicológicas mantendo o foco em: ⇒ cumprir a tabela de medicação; ⇒ controlar polifarmácia; ⇒ evitar automedicação; ⇒ monitorar a polimanipulação; ⇒ cobrar exames e interconsultas com especialistas; ⇒ poliqueixas; ⇒ tratamentos farmacológicos, fisioterápicos, nutricionais; ⇒ médicos, cognitivos e outros indicados; ⇒ adaptações ambientais; ⇒ autonomia e independência progressivas; ⇒ escutar o conteúdo subjetivo com devolução reflexiva; ⇒ estímulo à constituição da individualidade do idoso com açõesque são resultados do seu desejo; ⇒ orientações a familiares, apoios e suporte às necessidadessociais relacionadas à aposentadoria, serviços, entre outros.Alta A vinculação dos indivíduos com o programa é: • discutida quando houver recusa em seguir as orientações; • modificada quando equilibrados os distúrbios que os trouxeram; • indicada a interrupção, quando for decisão do indivíduo; • reavaliada periodicamente com objetivo de prevenção, quando há integração às atividades.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 96. Gestão social por sujeito/idade na velhice 101Avaliação de resultados • Discussão da equipe para ratificação ou retificação do plano de ação de cada caso; • Concluídas as sessões domiciliares, o paciente é estimulado a ir à clínica; • O investimento é avaliado trimestralmente; • A participação do indivíduo em oficinas, nos grupos de convivência, nas atividades na comunidade como passeios, compras, bancos, cabeleireiros, e outros é a meta a ser atingida por todos, que assim estarão sendo sujeitos de suas vidas; • Avaliação processual do próprio idoso e da família em grupos, entrevistas e captação de queixas; • Elaboração de relatórios e informação dos dados (em processo).Anexo 3 – Figura usada no Idadi para ilustrara multidimensionalidade revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 77-101
  • 97. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor no processo de envelhecimento Miguel Arantes Normanha Filho Vera Lucia Valsecchi de AlmeidaRESUMO: Este artigo foi elaborado a partir de estudo realizado sobre o terceirosetor, gerontologia social e gestão de serviços no processo de envelhecimento dapopulação. Fatores que ainda não conhecemos totalmente, ligados à gerontologiasocial e à nova sociedade que se apresenta, constituem a base deste estudo. Paraa coleta de dados e análises, pesquisas foram feitas. Os resultados, apesar de in-dicarem as incipientes ações do terceiro setor para o processo de envelhecimento,abrem campo para estudos mais específicos.Palavras-chave: gerontologia social; Gestão gestão de serviços; terceiro setor.ABSTRACT: This paper was elaborated from a third sector, social gerontology and servicemanagement study about the population aging process. Factors we do not totally know relatedto social gerontology and the new society which presents itself are the bases for this study.Researches were done in order to collect data and analyses. The results, despite to indicateincipient actions of third sector to the aging process, open a field for more specifics studies.Key- words: Service management; Social gerontology; Third Sector.Introdução Estudos e pesquisas sobre as necessidades decorrentes do enve-lhecimento da população brasileira são importantes para que o terceirosetor possa planejar estratégias de gestão de serviços destinados a essesegmento. Serviços planejados, organizados e controlados para dar revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 98. 104 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeidasuporte às necessidades específicas do novo contexto social, tendo comoconseqüência um efeito multiplicador que permeará a sociedade e aadministração pública. Com isso, busca-se criar um paradigma centra-do não só na formação da criança e do adulto para o mercado de traba-lho, mas também na preparação dos idosos, para promover a justiçasocial. Nesse percurso, é imprescindível que haja profissionalização,transparência e auto-sustentabilidade; para isso, as organizações semfins lucrativos precisam, com urgência, de profissionais que atendam àsespecificidades do terceiro setor no que se refere a essa nova ordem sociale atuem de maneira mais eficiente na gestão de serviços destinados aoprocesso de envelhecimento. Apesar dessa necessidade, constata-se queos serviços ainda não seguem um planejamento estruturado nem sefundamentam em pesquisas, estudos e teorias, o que dificulta o enten-dimento de sua complexidade e aplicabilidade. Daí a urgência de pre-parar profissionais para esse tipo de gestão, com habilidades ecompetências em voluntariado; captação de recursos; elaboração deprojetos; responsabilidade social; desenvolvimento local integrado esustentado; conceitos e técnicas de gestão de serviços, planejamento eadministração estratégica com foco social. Quanto ao processo de envelhecimento, é preciso que as organi-zações do terceiro setor sejam bem administradas, que tenham espíritoempreendedor social. Conforme ensina Drucker, “pode ser que o espí-rito empreendedor social seja aquilo de que mais necessitamos – emserviços de saúde, educação, nos governos municipais” (2003, p. 84). Ao propormos a justaposição do terceiro setor ao processo deenvelhecimento com foco na gerontologia social, não podemos deixarde considerar o contexto da economia em escala global, caracterizadapelas transformações das últimas décadas do século XX, a que Castells(2002) chama de informacional, global e em rede. Em tal contexto, e no que se refere à gerontologia social, para aeficácia do terceiro setor, não basta apenas a operação ou a ação local;é preciso considerar e compartilhar experiências em países desenvolvi-dos e em desenvolvimento para dar sustentação a esse novo paradigmarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 99. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 105social, que não pode ter formato único, em razão das peculiaridadeslocais, mas que necessita de subsídios informacionais, globais e em rede. Sem dúvida alguma, esse contexto abrirá um novo campo para pes-quisa e ensino em gestão de serviços, e oportunidades de trabalho na área. Ao iniciar-se o levantamento bibliográfico, detectou-se que aaplicabilidade das ferramentas das ciências administrativas ao processode gestão, como planejamento, organização e controle, das organiza-ções do terceiro setor e à prestação de serviços dos projetos conduzidospor tais organizações, é um campo ainda em definição, em estágio deformatação, com correntes diferentes para abordar e aplicar tais conhe-cimentos em instituições sem fins lucrativos, com foco social. Nãopodemos deixar de relatar também a falta de clareza com referência àfunção e à abrangência das organizações do terceiro setor. O estudo insere-se na área de conhecimento denominada geron-tologia social, com ampliação para área das ciências administrativas. Aspesquisas feitas para este estudo procuraram identificar aspectos denovos paradigmas da gestão de serviços no contexto da gerontologiasocial, via terceiro setor, como opção a um Estado que, sem ações efi-cazes, revela-se ineficiente e sem política estratégica para a questão –presente e futura – do envelhecimento. O estudo foi baseado no seguinte problema: • Pensado a partir da transição demográfica em curso, da parti-cipação cada vez maior dos idosos na composição da população, dalongevidade e dos novos paradigmas fundados na concepção da velhicecom condição multifacetada e complexa, pode o terceiro setor respon-der satisfatoriamente pela gestão dos serviços destinados ao processo deenvelhecimento, com foco na gerontologia social? Para dar conta do problema acima, formulou-se a seguinte hipótese: • No contexto de uma sociedade que experimenta o rápido en-velhecimento de sua população e que não vem encontrando soluçõesadequadas para as demandas e necessidades dos idosos, quer no âmbitodo Estado, quer no da sociedade civil nos moldes atuais, o terceiro setorpreenche um vazio, desempenhando a importante função de promovera inclusão social dos idosos. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 100. 106 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeida Essa hipótese dialoga com o pressuposto de que o terceiro setorpode desenvolver pesquisas, estudos, competências, habilidades e ca-pacitações para políticas que definam o que planejar e como planejar,organizar e controlar a gestão de serviços aos idosos, considerando suascaracterísticas múltiplas: econômicas, demográficas, socioculturais efamiliares, dando a dignidade humana necessária ao idoso (velho), pormeio de ações complementares, não conflitantes e em sinergia com asdo Estado. A delimitação da pesquisa foi definida em organização do tercei-ro setor, instalada – e com ação efetiva – no processo de envelhecimen-to, no espaço geográfico compreendido pela cidade de São Paulo. O seguinte objetivo geral foi definido: • Identificar a relação atual entre o terceiro setor e o processo deenvelhecimento (considerando suas características múltiplas: econômi-cas, demográficas, socioculturais e a relação familiar), no que se refereà gestão de serviços. Para uma melhor compreensão da amplitude do artigo foramfeitas três separações explicativas sobre o “terceiro setor” sobre a “ges-tão de serviços” necessária para a complexidade do processo de envelhe-cimento e sobre “gerontologia”.Terceiro setor Para analisar um segmento de atividade ou setor, neste caso oterceiro setor, é necessário que se tenha clareza do que se pretendeabordar. Por isso, com base em leituras sobre o tema, entre elas a doartigo “O terceiro setor no Brasil: uma visão histórica”, de Delgado, quediz: “Quanto à questão conceitual do terceiro setor, não há um consensopor parte daqueles que pesquisam o assunto, havendo assim diversasdefinições” (2004, p. 1), definiu-se o terceiro setor com a seguinte for-matação, não desconsiderando as definições existentes, mas objetivan-do determinado foco: • São organizações constituídas, estruturadas, geridas e manti-das pela iniciativa privada, de interesse público, notadamente de cunhorevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 101. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 107social, suprindo em muitas de suas ações a ausência ou a deficiência doEstado, sem necessariamente depender dele em termos de recursos, nemse vincular às políticas de governo. Como não são empresas mercantis,seu processo de troca (da organização para a sociedade) não objetiva olucro e são regulamentadas pela legislação vigente. Falamos, portanto, de um novo ator social e de um novo conceitoque estamos adotando de forma única: o terceiro setor, para a questãobrasileira, pois a literatura internacional, conforme exposto por Coelho,“denomina esse agrupamento de diferentes maneiras: organizaçõesvoluntárias, organizações sem fins lucrativos, organizações não gover-namentais (ONGs), terceiro setor” (2002, p. 17). Quando, no campo das definições, não impera uma única forma,devemos estabelecer, para efeito de estudo, seus limites, suas fronteiras– as das organizações do terceiro setor. Hudson afirma que “existemvários nomes e que de um modo geral fazem parte deste setor. Cada qualestabelece fronteira diferente, mas todos se sobrepõem” (2004, p. 7). A questão brasileira para organizações do terceiro setor – aque-las que possuem um objetivo social em vez de gerarem lucro – tem suasorigens no espaço da igreja católica, (...) permeadas portanto pelos valores da caridade cristã, a partir das características do catolicismo que se implantou no país, e de suas relações com o Estado (...) a tradição de generosidade ou de solidariedade fortemente baseada em valores assisten- cialistas ou paternalistas existentes na sociedade brasileira. Neste contexto misturam-se o público e o privado, o confes- sional e o civil. (Salvatore, 2004, p. 17). Tal situação pode explicar, em parte, os problemas e desafios dosetor no Brasil, no que se refere à gestão de serviços e à sua profissio-nalização, para que as estratégias adotadas estejam em consonância como objetivo da organização (objetivo social). A legitimação da área assistencial no Brasil, por exemplo, nocampo do conhecimento, da formação e atuação profissional constituiu revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 102. 108 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeidamonopólio do Serviço Social. Em outros países da América Latina, tem-se o trabalhador social dentro de uma visão multidisciplinar, incorpo-rando profissionais de diversas áreas do conhecimento, que detêm oconhecimento de processos sociais e das comunidades onde atuam. No contexto da complexidade do terceiro setor, é necessárioesclarecer a abrangência e até mesmo a limitação da gestão de serviçospor tal tipo de organização, que é exposta a seguir.Gestão de serviços Para que possamos definir o tipo de gestão de serviços que abor-daremos ou poderemos vislumbrar para a prestação de serviços noprocesso de envelhecimento via terceiro setor, é necessário analisarseparadamente a prestação e a gestão de serviços destinadaos à terceiraidade , tendo por foco a gerontologia social, embora, do ponto de vistamultidisciplinar, não desconsiderando que tal prestação de serviçosdependerá da forma de gestão da organização, uma não existindo sema outra. O estudo procurou observar, ante a urgência referente à questãodo processo de envelhecimento de nossa sociedade, a não-descaracte-rização dos modelos e das ferramentas de gestão das ciências adminis-trativas, pelo simples fato de ela estar atrelada ao lucro e ao sistemacapitalista, sem que outros modelos, no devido tempo, possam serdesenvolvidoas específica e hibridamente. O certo é que se observa, emalgumas circunstâncias, um dilema limitador, simplificador, um para-digma sobre a aplicação das ciências administrativas no contexto dasorganizações do terceiro setor, no âmbito de sua gestão como organi-zação e no âmbito de uma prestação de serviços adequada a seu público-alvo, em consonância com sua missão e seus objetivos organizacionais. A grande vantagem e contribuição em analisarmos a possibili-dade de usar as ferramentas de gestão baseadas nas ciências adminis-trativas, nas organizações do terceiro setor, são a sua dimensão históricae os estudos científicos ligando a área acadêmica ao mundo empresarial,ou seja, teoria e prática juntas, e a consagração da influência do ambienterevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 103. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 109externo nas novas formas de gestão, como no contexto do macroambi-ente (ambiente externo à organização) que define o posicionamento eas estratégias de cada organização, independentemente de seu porte. Karsch, na sua obra O serviço social na era dos serviços, diz que: “Oserviço social – enquanto prática profissional instituída na sociedadebrasileira – é discutido como ‘serviço’, ou seja, a forma organizacionalem que se encontra nas instituições que configuram a sociedade urba-no-industrial no Brasil” (1998, p. 11). A autora ensina que, na medidaem que há alteração da nossa sociedade, há ou são constatadas modi-ficações das necessidades sociais, o que transforma o modo de supri-las. Quanto à definição de serviços, vamos recorrer a Téboul, profes-sor de gerência do Instituto Europeu de Administração de Empresas –Insead, autor da obra A era dos serviços – uma abordagem de gerenciamento, Quando nos debruçamos sobre o setor de serviços, é surpreendente constatar que, apesar de sua importância, este é sem dúvida um dos setores mais maldefinidos. Maldefinido, a princípio, se contarmos o número relativamente pequeno de estudos que lhe são dedica- dos. Maldefinido e, sobretudo indefinido em seus limites. O campo de serviços é, efetivamente, um dos mais delicados a serem explo- rados, pois suas próprias fronteiras são um problema. O que deve- mos entender exatamente quando se fala de serviços? (2002, p. 7) Dowbor (1999) explica que não é mais possível termos uma so-ciedade como um sistema de interesses em torno das atividades econô-micas. Para ele, enfrentamos problemas de grande magnitude, pois osistema capitalista não nos dá todas as respostas. Segundo ele: O capitalismo como sistema é realmente um bom organizador microeconômico da produção, mas é um péssimo distribuidor (...) A sociedade se tornou mais complexa. As atividades produtivas sem dúvida continuam essenciais, mas não contêm em si as mes- mas condições do seu sucesso (...) passamos de uma visão filantró- pica (...) para a compreensão de que a área social se tornou essencial para as próprias atividades econômicas. (1999, pp. 31-35) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 104. 110 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeida Verificamos, assim, que as características da gestão de serviçosem organizações do terceiro setor obrigam que se façam adaptações parao processo de envelhecimento, com foco na gerontologia.Gerontologia Em uma sociedade que enfatiza a infância e a juventude e des-taca o aspecto produtivo da pessoa no início e na consolidação da ma-turidade, observa-se o desenvolvimento de vários estudos científicospara entender e proporcionar soluções às novas necessidades que surgemem tal contexto, e é possível verificar, em outro extremo, que, apesar daurgência que se impõe à nossa sociedade em decorrência do prolonga-mento da expectativa de vida, o estudo científico sobre o processo deenvelhecimento, a gerontologia, cujo foco é o fenômeno da longevida-de, caminha lentamente, em relação ao de outras faixas etárias. No processo de envelhecimento, se, de um lado, os fatores bio-lógicos revelam-se importantes, de outro, fatores de igual importânciadevem ser considerados no campo social para que se busque solucionara questão. Salgado, em sua obra Velhice, uma nova questão social, explica: Gerontologia significa, pois, o estudo dos processos de envelhe- cimento, com base nos conhecimentos oriundos das ciências biológicas, psicocomportamentais e sociais. No breve período da sua existência, vêm se fortalecendo dois ramos igualmente importantes: a geriatria, que trata das doenças do envelheci- mento; e a gerontologia social, voltada aos processos psicosso- ciais, manifestos na velhice. (1980, p. 23) No aspecto do envelhecimento social, devemos ter em menteque, ao longo da história, em diferentes culturas, os grupos sociais têmadotado posturas diferenciadas, que nem sempre contribuem para tra-zer qualidade de vida ao idoso, pois, enquanto alguns julgam impres-cindível dignificar a velhice, outros afirmam que as pessoas nesse estágiodeveriam desaparecer. Portanto, é fundamental considerar que, alémdas transformações psicológicas sofridas pela pessoa, sua relação com orevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 105. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 111meio social também sofre alteração, e que o meio deveria proporcionarsobrevivência e qualidade de vida, com a necessária dignidade, a quemmuito contribuiu com a sociedade. Salgado observa que: A inadaptação do idoso reflete uma inadequação aos padrões sociais ideais estabelecidos pela sociedade e exigidos pelos gru- pos sociais e pelos indivíduos como condições capazes de con- ferir, a cada um, a personalidade social, isto é, a posição de cidadão e o respeito (...) A inadaptação mais evidente, sobretu- do nos centros industriais urbanos é, sem dúvida alguma, a provocada pela perda do papel profissional. (Ibid., p. 47).Os resultados das pesquisas Com relação à pesquisa quantitativa realizada, o objetivo foiidentificar instituições do terceiro setor que têm como público-alvo aterceira idade e com atuação na área geográfica compreendida pela ci-dade de São Paulo. A pesquisa foi feita na RITS – Rede de Informaçõespara o Terceiro Setor: www.rits.org.br. A despeito de ter-se encontrado somente uma organização comações focadas na terceira idade, devemos ter como ressalva que aindanão podemos ter a dimensão efetiva das organizações do terceiro setor,em especial daquelas ligadas à “terceira idade”, uma vez que tais orga-nizações emergiram no Brasil em um passado recente e, se não confli-tantes, atuam com conceitos diferentes, mas em áreas tradicionalmenteatendidas por organizações cujo objetivo social é a caridade e a filantro-pia, com conotação de foco no serviço social. Com relação às pesquisas na mídia e aos levantamentos docu-mentais, uma delas, na mídia, sobre o terceiro setor e a terceira idade,teve como fonte o Jornal do Brasil, ano 113, número 278, Rio de Janei-ro, 11 de janeiro de 2004, sendo que a matéria teve o seguinte foco:Poucas ONGs dedicadas à terceira idade no Brasil. Outra pesquisa na mídia,foi sobre assuntos relacionados, de interesse ou que possam gerar refle-xões para contribuir no estudo sobre o terceiro setor e a terceira idade, revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 106. 112 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeidacujo objetivo foi o de identificar assuntos abordados na mídia impressa,jornais e revistas, sobre ou de interesse do campo de estudo da geron-tologia e terceiro setor, e teve como fonte e delimitação: jornais e revis-tas da capital de São Paulo e revistas de circulação nacional, cujo períododas publicações foi de 2002 a 2004, em um total de 50 publicações,sendo 15 (quinze) escolhidas de forma aleatória para análise, cujasconclusões foram: a) Nenhuma matéria relaciona-se diretamente com o terceiro se-tor, a terceira idade e a administração de serviços necessários ao processode envelhecimento com foco amplo e abrangente na gerontologia; b) No que se refere a serviços a serem prestados, aborda-se uni-camente saúde; c) Nenhuma matéria foi veiculada de forma abrangente, isto é,com todos os impactos referentes ao processo de envelhecimento, e simfragmentada, o que não contribui para o conhecimento e a percepçãodo problema desse processo por parte dos leitores, para desenvolver umasociedade crítica e atuante; d) Não se pode afirmar a ausência da mídia (jornais e revistas)quanto ao assunto terceira idade e processo de envelhecimento. Porém,observa-se o fracionamento de informações, o que dificulta a análise doimpacto, da urgência e da complexidade do assunto para um despertarde consciência cidadã. Na pesquisa documental, cujo objetivo foi o de verificação deprodução científica (teses e dissertações) brasileiras em gerontologia,com o tema Terceiro Setor e Terceira Idade: Gestão de Serviços, adotou-se como metodologia, pesquisa via Internet, por meio da Geron – RedeNacional de Gerontologia, tendo como base de dados a Biblioteca daFaculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Uni-camp), cujo levantamento foi elaborado pela Professora Lucila L. Gol-destein em 1999. A classificação em ordem cronológica teve início em1975, com final em 1999. Como resultado, verificou-se como total deteses ou dissertações com tema ligado ao terceiro setor e terceira idade– gestão de serviços: “0” (zero), isto é, nenhuma produção acadêmica.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 107. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 113 Mesmo considerando uma única fonte de pesquisa (Unicamp),e o limite da consulta ser o ano de 1999, nenhuma tese ou dissertaçãosobre o tema foi realizada, o que demonstra que, no campo acadêmico,existe muito a ser feito. Na pesquisa conclusiva descritiva, cujo método foi o da entrevis-ta pessoal, os seguintes objetivos foram definidos: a) Verificar se as organizações do terceiro setor cujo público-alvoé a terceira idade possuem conhecimentos e abrangência da área degerontologia; b) Verificar os motivos de se trabalhar com o processo de enve-lhecimento; c) Verificar a capacidade das organizações na prestação de servi-ços de sua gestão, com ênfase profissional. Aspectos relevantes observados nas entrevistas: Constatou-se a existência de apenas uma organização com defi-nição de público-alvo: terceira idade, porém, com poucos recursos fí-sicos e financeiros e recursos humanos limitados aos sócios daorganização (pessoa física), que não podem dedicar-se exclusivamenteà organização, cuja sede é a casa de um deles, na qual o idealismo aindase sobrepõe à efetiva capacitação em gestão para a ação. E, em umaoutra organização (pesquisada por ter experiência internacional, fun-dada na Inglaterra em 1865 e presente em mais de 100 países), compúblico-alvo misto, cujo país de origem possui problemas acentuadosno que se refere à terceira idade, verificou-se que, no Brasil, sua ação emtal segmento (público-alvo) é extremamente tímida, pois tais ações estãoem sintonia com as demandas locais, identificadas pelo Estado e pelasociedade em geral.Considerações finais O estudo trata de lançarmos um novo olhar, um novo paradig-ma não-assistencialista, mas concreto e viável, sobre o uso das organi-zações do terceiro setor, como forma complementar ao Estado na gestãode serviços para os problemas complexos do processo de envelhecimen- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 108. 114 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeidato, com foco na gerontologia social, de forma consistente. Portanto,uma tentativa de abrir espaço para a discussão de soluções práticas eviáveis, evitando-se a perda de tempo na defesa de determinada posiçãode dada área do conhecimento em detrimento de outra, ou de corpo-rativismo desnecessário, que nos impeça de utilizar os conhecimentosjá adquiridos, pelo simples fato de tal conhecimento ter sido original-mente idealizado para uso ou suporte de determinada situação e con-texto, que não o do processo de envelhecimento e terceiro setor. Este estudo, resultado de análises e pesquisas sobre o terceirosetor e gestão de serviços para o complexo processo de envelhecimentoda nossa sociedade, centrado na área de conhecimento da gerontologiasocial, foi delimitado pela área geográfica compreendida pela cidade deSão Paulo, tendo seu início no primeiro semestre de 2003, com términono segundo semestre de 2004. Alguns pontos, porém, carecem de es-tudos adicionais, pois contradições e práticas adotadas ainda permeiamo tema:As complexidades das organizações do terceiro setor Sob a denominação terceiro setor, vários tipos de organizaçãoatuam como organizações não-governamentais – ONGs; fundações;associações; entidades de assistência social e filantrópica; preservadorese defensores, que possuem, em comum, objetivos sociais, mas comestruturas organizacionais e público-alvo totalmente distintos. E operam, em circunstâncias diferentes, nas comunidades, emsuporte ou na ausência do Estado, o que não permite que seu entendi-mento como organização e a operacionalização de suas ações e comple-xidades tenha uma definição única para estudo e criação de modelos degestão, a despeito de, no estudo, termos procurado adotar uma defini-ção que abrangesse suas diversas formas, para facilitar as análises.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 109. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 115Gestão de serviços – um campo ainda em definição. Mesmo que a gestão de serviços aplicadas pelas organizações doterceiro setor seja um ponto de partida e/ou uma forma híbrida, nãopodemos desconsiderar a contribuição das ferramentas de gestão baseadasnas ciências administrativas, por sua dimensão histórica de quase umséculo, se considerarmos, como marco, a Escola da Administração Ci-entífica, a partir dos trabalhos de Frederick Winslow Taylor (1856-1915). É possível verificar que teoria e prática permeiam sua história,uma vez que a área acadêmica no campo da administração é bastantefértil e está em sinergia com as organizações com fins de lucro, emespecial nos países de primeiro mundo. Em tal contexto, revela-setambém o foco das influências ambientais na estruturação, reestrutu-ração, gestão e operação das organizações. Em última análise, essas ferramentas de gestão permitirão queos serviços sejam aplicados aos objetivos sociais e aos projetos (sociais)das organizações do terceiro setor. E, em tal situação, podemos afirmarque se trata de um conceito de gestão de serviços ainda em construçãoque deve considerar, obrigatoriamente, o suporte da área de conheci-mento do serviço social, de forma que possa suprir e enriquecer a de-finição de prestação de serviço para que o objetivo social seja atendidoe praticado pelos empreendedores sociais, aqui definidos como aquelaspessoas que se dedicam às causas sociais, capacitadas para tal, nas quaiso idealismo e o preparo para a ação tornam-se forma única, com dire-cionamento de ações para as comunidades, cujo impacto social sejamensurável. A hipótese levantada no início do estudo confirma-se pelo pro-cesso evolutivo, quer seja do terceiro setor, quer seja da gerontologiasocial, mas não nos libera de recomendar múltiplos estudos comple-mentares, em função da abrangência da gerontologia social e da com-plexidade da gestão de serviços por organizações do terceiro setor. Ao concluirmos que a hipótese do estudo se comprova, deve talposição servir de alerta aos pesquisadores da área de conhecimento dagerontologia social, para se debruçarem cada vez mais na questão, uma revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 110. 116 Miguel Arantes Normanha Filho e Vera Lucia Valsecchi de Almeidavez que o Brasil, em ritmo crescente, tem-se destacado pela longevida-de de sua população, deixando de ser, gradativamente, um país de jo-vens. Além disso, são previstos impactos de contornos incalculáveis naárea social, de saúde e do trabalho, um fenômeno predominantementeurbano, em que a pressão sobre as contas públicas, em especial as re-presentadas pela previdência e saúde pública, está muito longe de serequacionada. E por verificarmos que o foco na infância e juventude temrelação com o olhar de uma sociedade em dado momento histórico,somos levados a acreditar que, no limiar da nova sociedade de idosos(velhos), haverá foco e ação no novo contexto, mesmo porque a históriada humanidade demonstra tal flexibilidade e adequação às questões doseu tempo. Assim como não existem alternativas de médio e longo prazoque se contrapõem às organizações do terceiro setor no que se refere aobjetivos sociais, pois tais organizações estão em crescimento, moldan-do-se cada vez mais aos graves problemas sociais presentes no Brasil eno mundo.ReferênciasARANTES, F. (2005). Gestão de serviços no processo de envelhecimento, por organizações do terceiro setor: possibilidade atual ou futura? Disser- tação de Mestrado. São Paulo, PUC-SP .CASTELLS, M. (2002). A sociedade em rede. 6. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra.COELHO, S. de C. T. (2000). Terceiro setor. 2 ed. São Paulo, Senac.DELGADO, M. (2004). O terceiro setor no Brasil: uma visão his- tórica. Revista Espaço Acadêmico, n. 37, jun. Disponível em: (http://www.espacoacademico.com.br/037/37cdelgado.htm) Acesso em: 1/7/2007.DOWBOR, L. (1999). “A gestão social em busca de paradigmas”. In: RAICHELIS, R. e RICO, E. de M. Gestão social – uma questão em debate. São Paulo, Educ.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 111. Gestão de serviços por organizações do terceiro setor 117DRUCKER, P. (2003). A administração na próxima sociedade. 1 ed. São Paulo, Nobel.HUDSON, M. (2004). Administrando organizações do terceiro setor. São Paulo, Makron Books.KARSCH, U. M. S. (1998). O serviço social na era dos serviços. 3 ed. São Paulo, Cortez.SALGADO, M. A. (1980). Velhice, uma nova questão social. São Paulo, Sesc.SALVATORE, V. (2003). “A racionalidade do terceiro setor”. In: VOLTOLINI, R. (org.). Terceiro setor – planejamento e gestão. São Paulo, Senac.TÉBOUL, J. (2002). A era dos serviços. Rio de janeiro, Qualitymark.Data de recebimento: 5/5/2005; Data de aceite: 27/7/2005.Miguel Arantes Normanha Filho – Docente e coordenador acadêmico do Cen-tro Universitário Nove de Julho – Uninove, São Paulo, SP. E-mail: mig.arantes@uninove.br; miwaconsult@ig.com.brVera Lucia Valsecchi de Almeida – Antropóloga, doutora em Ciências Sociaispela PUC-SP, docente do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologiada PUC-SP. E-mail: vlvalsecchi@uol.com.br revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 103-117
  • 112. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras sobre seu próprio processo de envelhecimento em cooperativas populares1 Wanda Pereira Patrocinio Maria da Glória Marcondes GohnRESUMO: Neste artigo realizamos uma reflexão sobre a questão do envelheci-mento de trabalhadores e trabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anos emcooperativas populares na cidade de Campinas, SP. Tratou-se de realizar ummapeamento socioeconômico desses trabalhadores. A segunda parte correspon-deu a identificar quais as representações sociais que essas pessoas tinham de si edo próprio trabalho dentro desse sistema alternativo de produção.Palavras-chave: cooperativas populares; trabalho; envelhecimento.ABSTRACT: In this article we reflect on aging of male and female workers, aged 50+,in people’s cooperatives located in the city of Campinas, SP. A socio-economical mapping ofthe workers was developed. In a second moment, we identified the social representations whichthese people had of themselves and of the own work in this alternative system of production.Key-words: People’s Cooperative; work; aging.1 Este artigo apresenta aspectos discutidos na dissertação de mestrado da primeira autora, com orientação da segunda autora. Os dados foram coletados no ano de 2004 e o trabalho foi defendido em fevereiro de 2005, no Programa de Pós- Graduação em Gerontologia da Faculdade de Educação, Unicamp, com subsídios da Capes. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 113. 120 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes GohnIntrodução Neste artigo apresentamos um estudo que desvelou a realidadede trabalhadores e trabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anosnas cooperativas populares localizadas na cidade de Campinas, SP. Numprimeiro momento, realizamos um mapeamento socioeconômico des-ses trabalhadores e a segunda parte do estudo correspondeu à identi-ficação das representações sociais que essas pessoas tinham de si mesmas2e do próprio trabalho no ambiente dentro dos grupos. Com isso, iden-tificamos os anseios e as necessidades que levam tais cooperados e co-operadas a buscar o trabalho nesse sistema de produção. O cooperativismo na região de Campinas é um movimento re-cente, mas, ao mesmo tempo, extremamente significativo para o cres-cimento da dignidade humana. Nesse quadro, apesar dos váriostrabalhos sobre cooperativismo, é ainda necessário aumentar o conhe-cimento sobre as cooperativas populares. Dessa forma, este estudoapresenta uma discussão de dados das cooperativas atendidas pela In-cubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), da Universi-dade Estadual de Campinas, mais especificamente com um olhar voltadopara os participantes na faixa etária supracitada.Representações sociais As representações sociais dos participantes deste estudo estãopermeadas pela individualidade de cada cooperado como ser social, ouseja, de sua própria personalidade, e tais representações são construídastendo como base a cultura em que estão inseridos e a sociedade em quevivem e da qual participam. Compreendemos o conceito de representações sociais como umsistema de valores, idéias e práticas, sistema esse que possui dupla fun-ção: primeiro, o estabelecimento de uma ordem que possibilite aos2 Como trabalhadores e trabalhadoras que estão envelhecendo dentro das coopera- tivas populares.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 114. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 121indivíduos conseguirem orientar-se em seu mundo material e social e,ao mesmo tempo, conseguir controlar esse mundo; e, segundo, possi-bilitar que os indivíduos consigam se comunicar dentro de uma mesmacomunidade, fornecendo-lhes um código para dar nome e poder clas-sificar os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual esocial (Duveen in Moscovici, 2003). Como nosso objeto de estudo ancora-se nas questões do envelhe-cimento, realizamos um levantamento de outras pesquisas na área dasrepresentações sociais sobre a velhice e encontramos os estudos deAraújo, Carvalho e Moreira (s/d) na cidade de João Pessoa, PB; Maga-lhães (s/d), na cidade de Juiz de Fora, MG; Costa e Campos (s/d), nacidade de Goiânia, GO; e Veloz, Nascimento-Schulze e Camargo (1999).na cidade de Florianópolis, SC, entre outros. A problemática que trazemos em nosso artigo é enfocar o mundodo trabalho dentro de um movimento relativamente recente no muni-cípio de Campinas, o cooperativismo. Na investigação sobre as repre-sentações sociais, comparamos duas realidades bem distantes no tocanteà cooperativa popular e, indo além das representações sociais, trazemosum retrato socioeconômico dessa população de trabalhadores e traba-lhadoras acima de 50 anos.Contextualização da velhice no Brasil Segundo Debert (1998), é preciso ressaltar que as representa-ções sobre a velhice, a idade a partir da qual os indivíduos são conside-rados velhos, a posição social dos velhos e o tratamento que lhes é dadopela sociedade em geral, vão ser diferentes em cada contexto histórico,social e cultural em que essas questões serão discutidas. De acordo coma mesma autora, desde a década de 1980, as questões relacionadas coma velhice ocupam cada vez mais espaço entre os temas que preocupama sociedade brasileira. Em termos gerais, para análise da velhice no contexto social,utilizamos como premissa básica neste artigo a abordagem antropoló-gica (Debert, ibid.), que agrega aos aspectos naturais, biológicos, carac- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 115. 122 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohnterísticas da espécie humana ao longo da vida, os aspectos culturais,lingüísticos, de valores sociais e costumes específicos a determinadocontexto social, em determinado momento histórico. De acordo com nossa recente pesquisa sobre o tema trabalhadoridoso, auferimos que a legislação brasileira de previdência social dá aostrabalhadores que contribuíram 35 anos com o INSS (Instituto Na-cional de Seguridade Social) e às trabalhadoras que contribuíram 30anos o direito à aposentadoria. Além disso, trabalhadores com mais de65 anos e trabalhadoras com mais de 60 anos também podem se apo-sentar, desde que tenham contribuído com um mínimo necessário parao INSS. Contudo, muitas vezes, os cidadãos não conseguem adquiriresse direito e continuam no mercado de trabalho, pois muitos trabalha-ram na roça ou em empregos que não lhes dão, atualmente, a compro-vação do tempo de trabalho e contribuição (Patrocinio, 2005). Em muitos contextos, não é necessário atingir 60 anos para serconsiderado velho no mercado de trabalho. Peres (2002) afirma queexistem várias profissões e carreiras em que as pessoas já são conside-radas velhas quando atingem os 40-50 anos.Economia solidária: surgimento e atualidade Em primeiro lugar, antes de adentrarmos no conceito de econo-mia solidária, é necessário contextualizar o cenário social, político eeconômico em que se deu seu surgimento no Brasil. Segundo análise do mundo do trabalho, sabemos que a óticavigente em nossa sociedade é o modelo neoliberal, que traz para o mundodo trabalho o livre mercado, a produtividade e a competitividade, pe-netrando não só na produção, mas também nas relações sociais. O altonível de desemprego, a flexibilização de direitos conquistados e a neces-sidade de qualificação profissional colocam os trabalhadores e trabalha-doras de nosso país em constante luta para manter-se dentro dos critériosexigidos pelo mercado. Em relação à Previdência, Antunes (2004) acredita que o pontomais danoso dessa política foi a substituição do tempo de trabalho pelorevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 116. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 123tempo de contribuição. Se antes as pessoas se aposentavam pelo tempode serviço trabalhado, hoje, não importa se elas trabalharam apenas, seelas não contribuíram para o INSS, não conseguirão o direito ao bene-fício da aposentadoria. Isso significa que: Os aposentados gozarão a previdência quando a Justiça do Tra- balho lhes der ganho de causa. Provavelmente, embaixo da terra. Isso sem falar na exclusão, pura e simples, de mais de 20 milhões que estão no chamado trabalho precário, sem carteira de trabalho assinada e sem direitos. A estes, não resta nada! (Ibid., p. 49) Singer (2000, 2002) é um dos pioneiros a estudar esse tema noBrasil, e usa o termo economia solidária como um modo de produçãoe distribuição, de certa forma, alternativo ao modo capitalista, que ésempre criado e recriado por trabalhadores que se encontram margina-lizados do mercado de trabalho formal. Além de Singer, temos outros estudiosos do assunto, tais comoLuis Inácio Gaiger, da Unisinos/RS, Marcos Arruda, coordenador-geraldo Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul e Coraggio (1991). A economia solidária representa um conjunto de iniciativas eco-nômicas populares que expressam valores e práticas diferentes do atualsistema capitalista e abrange várias situações e iniciativas econômicas:uma delas é o cooperativismo e a autogestão como maneira de vencero desemprego. O cooperativismo não é um movimento que nasce da economiasolidária, pois esta é recente em nosso país; já o cooperativismo tem suaorigem a partir de meados do século XIX na Europa. Segundo Singer(2002), a cooperativa de Rochdale, criada em 1844, pode ser conside-rada a mãe de todo esse movimento, que se iniciou mais ou menos umadécada antes e já crescia como modo de produção alternativo ao capi-talismo. Mas o que é uma cooperativa popular? Segundo a ITCP-Unicamp, uma cooperativa popular é umempreendimento de grupo de trabalhadores, com no mínimo 20 inte- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 117. 124 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohngrantes, que se unem para desenvolver atividades econômicas de formademocrática, cuja gestão é exercida por eles. Como as cooperativas populares, geralmente, são formadas portrabalhadores e trabalhadoras excluídos do mercado formal, que nãopossuem capital para abarcar o início de um trabalho autogestionário,Singer (2000, p. 21) alerta para o fato de que o nascimento desses gruposprecisa de um financiamento ou apoio externos, que podem ser “outrasempresas solidárias, incubadoras (órgãos especializados em formar eamparar tais empreendimentos), sindicatos, entidades religiosas, orga-nizações não-governamentais (ONG) etc.”.Contextualização do cooperativismo em Campinas, SP As transformações que ocorreram no mundo do trabalho nasúltimas décadas influenciaram marcadamente a economia brasileira etrouxeram conseqüências desordenadas para a população que vive nomunicípio de Campinas, SP Milhares de cidadãos buscam uma forma .de sobrevivência no mercado informal ou alternativo; no caso do mer-cado alternativo, temos presenciado, atualmente, neste município, ummovimento intenso de trabalhadores, inclusive de pessoas acima de 50anos, de luta por cidadania na conquista de trabalho através do coope-rativismo. Para minimizar essa situação, a Prefeitura Municipal de Campi-nas criou a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico eTrabalho, em junho de 2002, que tem como uma de suas atribuiçõesimplementar o programa de geração de emprego e renda e programasde cooperativas. Dentro desse programa, existiu uma parceria com aIncubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UniversidadeEstadual de Campinas, para prestar assessoria e apoio a grupos quepretendiam se constituir como cooperativas.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 118. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 125Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares daUniversidade Estadual de Campinas (ITCP-Unicamp) Segundo informações disponíveis no site da Incubadora,3 a ITCP-Unicamp é um Programa de Extensão da Pró-Reitoria de Extensão etem como missão contribuir para o desenvolvimento da economia so-lidária no Brasil, ajudar a combater o desemprego e a precarização dotrabalho e auxiliar na ampliação do exercício da cidadania através daparticipação popular. A ITCP-Unicamp faz parte de uma Rede Nacional de Incuba-doras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), composta por16 universidades em todo o Brasil. As ITCPs surgem no cenário bra-sileiro como forte instrumento de organização alternativa de inserçãosocial, geração de renda e trabalho. Constituem iniciativas acadêmicasrecentes e estão vinculadas à Universidade, participando do processotanto estudantes e professores quanto trabalhadores jovens, adultos epessoas mais velhas, contribuindo, dessa forma, para uma comunicaçãoentre sociedade e universidade.Quais as características socioeconômicas dos trabalhadorese trabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anosdas cooperativas populares de Campinas? Realizamos um levantamento quantitativo das 19 cooperativas(de um total de 22) que são incubadas pela ITCP-Unicamp e pelo Centrode Cooperativismo e Associativismo de Campinas. Cabe salientar queas cooperativas populares deste estudo são exclusivamente as atendidaspor Incubadoras da cidade e, portanto, reconhecidas pela PrefeituraMunicipal de Campinas enquanto grupo cooperativo, ficando fora dosdados quantitativos vários grupos existentes, mas que não possuemapoio institucional via algum tipo de Incubadora.3 Ver http://www.itcp.unicamp.br/ revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 119. 126 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohn Consideramos a idade de 50 anos, pois, segundo Debert,4 comessa idade a inserção no mercado de trabalho formal já está bastantecomprometida. Além disso, Peres (2002) e Neri (2002) apontam quepessoas que estejam com cerca de 40-50 anos são vítimas em potencialdo desemprego. Escolhemos focalizar a segunda década assinalada poresses autores por ser a década que antecede a entrada na velhice, segun-do a legislação brasileira.Quadro 1 – Faixa Etária – Cooperativas Populares – Campinas Quantidade de Idade Porcentagem cooperados Acima de 50 anos 57 21% Menos de 50 anos 215 79% Total 272 100%Fonte: Patrocinio (2005b). Do total de pessoas atendidas nas cooperativas populares estu-dadas, 21% são pessoas acima de 50 anos. A grande maioria é do sexofeminino. A escolaridade dessas pessoas é de 48% nas primeiras sériesdo ensino fundamental (1ª a 4ª série) e ocorre um empate de 18% entreaquelas que nunca estudaram e aquelas que cursaram até o ensino médio.A grande maioria dos participantes nasceu na Região Sudeste, 59%, eem segundo lugar encontramos 28% de cooperados advindos da Re-gião Nordeste. Não há pessoas da Região Norte. Encontramos umempate entre os trabalhadores que moram sozinhos ou com até duaspessoas e aqueles que dividem a residência com três a cinco pessoas.Cinqüenta e quatro entrevistados estão nesta condição, sendo 27 naprimeira circunstância e 27 na segunda. A renda familiar que mais se destacou foi na faixa de R$ 201,00a R$ 500,00 (34%); 28% têm renda de R$ 501,00 a R$ 1.000,00. Agrande maioria dos participantes, 69%, vive em Campinas há mais de4 Em orientação de pesquisa realizada no dia 8 de outubro de 2003.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 120. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 12720 anos. Na experiência profissional, os trabalhos mais encontradosforam: limpeza, faxina e organização em geral, com 33% das respostas,e 30% para serviços em fábricas, empresas e lojas. Grande parte delesjá fez parte do mercado de trabalho formal, trabalhando com carteiraassinada – 88%. Em relação aos bairros de moradia, as cooperativasestão espalhadas por toda a cidade de Campinas, nas suas 14 Adminis-trações Regionais e mais dois subdistritos, Barão Geraldo e NovaAparecida.Cooperativas estudadas ITCP-Unicamp Quadro 2 – Cooperativas e ramo de Atividade – ITCP – Unicamp Nome da Cooperativa Ramo de Atividade CooperVida AR 8 Reciclagem de resíduos sólidos Vitória Produção de alimentos Barão Reciclagem de resíduos sólidos Tatuapé Reciclagem de entulho CooperSonho Artesanato Bomsucesso Reciclagem de resíduos sólidos CooperMimo Costura Renascer Reciclagem de resíduos sólidosFonte: Patrocinio (2005b). Dentro dessas oito cooperativas, selecionamos duas delas pararealizar uma discussão em termos comparativos: a Tatuapé e a Cooper-Mimo. Como se dá o trabalho em cada uma delas? Tatuapé: essa cooperativa funciona juntamente com uma UsinaRecicladora da Prefeitura Municipal de Campinas em parceria com aSanasa. São feitas montanhas de entulhos, os cooperados vão recolhendoos materiais que estavam mais fáceis na base e, quando a base fica limpa,o trator passa na montanha, abrindo caminho para os cooperados revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 121. 128 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohnrecolherem mais materiais. O trabalho é realizado a céu aberto e aprefeitura cedeu os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) –chapéus, aventais, máscaras, óculos, luvas e botas. Na montanha de entulho, eles separam para aproveitamento dacooperativa em vendas: papelão, plástico, madeira, ferro e outros ma-teriais; e só ganhavam em cima do material que vendiam, conforme osseguintes valores: Madeira – R$ 80,00 o caminhão; Papel/Papelão –Branco – R$ 0,25/kg; Cimento – R$ 0,08/kg; Papelão – R$ 0,27/kg;Plástico – PVC/PET – R$ 0,40/kg; outros – R$ 0,27/kg; Ferro/Sucata– R$ 0,27/kg; Vidro – R$ 0,08/kg; Cobre – R$ 7,00/kg. A infra-estrutura observada estava precária, a fossa não estavapronta, por isso, eles não possuíam acesso fácil a banheiro, nem águapotável. Não havia luz elétrica, nem cozinha, eles almoçavam sentadosno chão ou em cadeiras improvisadas. Havia um local provisório paradescanso com um sofá e cadeiras que, provavelmente, vieram nas ca-çambas ou caminhões. Entravam às 7:00 horas, paravam para almoçoe descanso das 12:00 às 13:00 horas e depois trabalhavam até 16:20horas. Na medida do possível, faziam pequenos intervalos para beberágua e descansar um pouco, mas nada sistematizado. A formação da cooperativa começou em agosto de 2001. Haviaum aterro em que os caçambeiros jogavam entulhos; nesse terrenotrabalhavam, irregularmente, em média 100 pessoas. A PrefeituraMunicipal prometeu que a regularização aconteceria dentro do prazode 90 dias. Com a demora desse processo, muitas pessoas foram desis-tindo ao longo do caminho e as que ficaram e estavam interessadas emmontar a cooperativa se juntaram, somando 21 pessoas que acredita-ram nessa empreitada, realizaram cursos de qualificação e receberamtodas as informações necessárias para formação e atuação de uma co-operativa popular. Mesmo com todo conhecimento adquirido, o grupo, em geral,ainda mantinha uma postura de trabalhador assalariado, que chegavade manhã, trabalhava, parava para almoçar, voltava a trabalhar e, nofinal do dia, se arrumava e voltava para casa. Segundo o presidente, elesainda não conseguiram compreender o poder que cada um possui den-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 122. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 129tro desse sistema de trabalho e, por essa incompreensão, acabavam tendodificuldades em assumir responsabilidades, deixando tudo nas mãos dopresidente, de outros, do Conselho Administrativo. CooperMimo: enquanto os cooperados da Tatuapé trabalhavamnum local extenso a céu aberto, o barracão da CooperMimo encontra-va-se nos fundos da casa da atual presidente. É um espaço um tantopequeno e apertado para o trabalho das nove cooperadas. Modo de produção: A encomenda chegava (encomenda esta jáacertada previamente via telefone ou pessoalmente e o contratante jáentregava a peça-piloto com o tamanho desejado), elas recebiam omaterial (panos, moldes, linhas), discutiam como era a melhor formade realizar a confecção daquela peça, por exemplo, uma calça de uni-forme – olhavam cós, vincos, barras, bolsos, etc. e qual máquina eramelhor de utilizar para cada momento do trabalho. Daí partiam paraa produção. Existia a promessa de um barracão da Prefeitura Municipal deCampinas para mudança de local de trabalho da cooperativa, mas istoainda não aconteceu. O horário de trabalho era das 7:30 às 17:00 horas,com intervalo mais ou menos das 9:00 às 9:30 e das 15:00 às 15:30horas e o horário de almoço era das 12:00 às 13:00 horas. Em relação ao retorno financeiro de cada trabalho, elas cobra-vam os seguintes valores por tipo de serviço: camisetas – R$ 0,30 porpeça; blusinha social para boutique – R$ 1,00 a peça; calça para uni-forme – R$ 1,60 a peça. A convivência com as cooperadas da CooperMimo deu-se em umafase de crise da cooperativa. Durante as observações, presenciamos umclima de conversas harmoniosas contraposto a um clima de tensãoquando da percepção de erro na produção. Por outro lado, nas entre-vistas individuais, houve muita reclamação de desgaste no trabalho einsatisfação quanto ao grupo. Todas falavam com o coração que que-riam que a cooperativa desse certo, mas, de certa forma, não era isso quedemonstravam no dia-a-dia de trabalho. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 123. 130 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes GohnEscolaridade e educação não formal Há uma diferença marcante entre as duas cooperativas analisa-das no tocante à escolaridade dos cooperados. Na Tatuapé, as pessoascom idade igual ou superior a 50 anos que foram entrevistadas cursa-ram no máximo até a 4ª série do ensino fundamental, já na CooperMi-mo a grande maioria das entrevistadas possui o nível de escolaridade noensino médio. No tocante à educação, temos como premissa básica a concepçãofreireana. Freire (1975, p. 12) é categórico quanto a considerar a edu-cação numa perspectiva mais abrangente do que apenas o mundo den-tro da sala de aula. Em termos de educação não formal, Gohn (2001)afirma que o objetivo principal da educação não formal é a cidadaniapensada em termos coletivos. O que temos de comum entre as duas cooperativas é que, emambas, os participantes entrevistados não fazem mais parte do ensinoformal, a educação da qual eles fazem parte é essa que se dá ao longodo curso da vida; segundo Gohn (2003, p. 98) é a “educação atreladaà cultura, adquirida ao longo da vida dos cidadãos” – uma das coope-radas da Mimo afirma “então, a vida dá muita experiência prática” (DonaNoemia, 66 anos, Coopermimo). Sabemos que no processo de envelhecimento do ser humanoocorrem algumas perdas em funções biológicas, que podem afetar aaprendizagem da pessoa que envelhece, porém, temos outras funçõesque realizam uma espécie de adaptação para os aspectos declinantes doorganismo. Conforme ocorre o amadurecimento de cada indivíduo, aspossibilidades de influências biológicas, psicológicas, sociais e culturaisapresentam-se cada vez mais de forma ampla, que aumenta as possíveismaneiras de o ser humano se auto-educar (Cachioni e Neri, 2004).Trabalho e envelhecimento Em sua maioria, os trabalhadores entrevistados da Tatuapé jáeram catadores no Aterro Taubaté antes de esse espaço tornar-se umarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 124. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 131cooperativa. Diferentemente da CooperMimo, em que o grupo foi for-mado através do convite de uma pessoa específica. O que ficou muito forte em ambos os grupos foi a questão de nãoterem outra oportunidade de trabalho devido à idade avançada, por issooptaram por fazer parte da cooperativa: “Mais na minha idade não temjeito de arrumar mais. Só serve pra aposentar, aposentou, saio de lá” (SeuBenvindo, 64 anos, Cooperativa Tatuapé). E isso não foi percebidosomente nas duas cooperativas em estudo; quando do levantamentohistórico das outras cooperativas da ITCP-Unicamp, uma líder relatou: Essas senhoras que estão lá já têm uma certa idade, não vamos falar que é velha, velha não é, mas pra sociedade elas não servem mais, porque elas já têm uma certa idade, não serve mais. Qual empresa vai pegar uma pessoa de 50 anos, 60 anos? Me fala, ninguém pega. (Dona Josenilda, CooperVida) Segundo Peres (2002) a “velhice” aos 40 ou 50 anos verificada nocontexto atual do mercado de trabalho é um fato, na medida em queos profissionais que atingem tal faixa de idade sofrem com a estereotipiaque caracteriza a velhice. Em uma publicação recente, apontamos queo critério de exclusão no mercado não é, necessariamente, a idade e sima educação do trabalhador, que precisa satisfazer as exigências dasempresas no tocante a habilidades, fluência em algum outro idioma eexperiência no cargo. Com isso, os trabalhadores e trabalhadoras maisvelhos, que não tiveram e não têm acesso à educação, ficam excluídosdo mercado formal de trabalho (Patrocinio, 2005). Além disso, ementrevistas informais, cooperados mais jovens, que não possuem essashabilidades e capacidades que determinadas empresas solicitam, disse-ram estar nas cooperativas por falta de oportunidades. Por fim, sabemos que a exclusão no trabalho não ocorre apenaspor causa da idade, de acordo com Neri (2002, p. 13): “O desempregodos adultos mais velhos e dos idosos é mais devido à falta de oportuni-dades educacionais e de treinamento em serviço e aos preconceitos doque ao envelhecimento em si mesmo”. E isso foi amplamente relatado revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 125. 132 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohnpor nossos entrevistados e entrevistadas. Então, o que seria precisorealizar para que essas pessoas pudessem envelhecer no mundo do tra-balho com dignidade? A mesma autora nos traz uma saída: A superação de falsas crenças é fundamental para a promoção de um tratamento mais conseqüente da questão da velhice. A educação permanente de pessoas de todas as idades é o instru- mento mais adequado para essa finalidade. Por meio dela, será mais provável conseguir superar não só os estereótipos sobre o idoso e a velhice, como também as práticas sociais discrimina- tórias em relação aos que envelhecem no ambiente de trabalho. (p. 25)Representações sociais e envelhecimento Em termos de representação social, podemos separar os resulta-dos em quatro grupos: 1. Aspectos físicos e de saúde; 2. A velhice comoalgo natural; 3. A velhice como etapa que precede a morte; e 4. Com-paração entre sentir-se velho/jovem e se ver velho fisicamente. No primeiro grupo, encontramos pessoas que diziam não sesentirem velhas porque não tinham cabelos brancos suficientes: Meus cabelos estão brancos, mas não são tão brancos como do Zé Ovídio, do Zé Ovídio é mais branco, ele parece mais velho do que eu. Repara nele uma hora pra você ver. O Zé Ovídio parece mais velho do que eu. Eu não estou tão velho porque, pra eu parecer mais tão velho assim, meu cabelo tem que estar mais branco. (Seu Benvindo, 64 anos, Coope- rativa Tatuapé) Essa representação da velhice como doença acaba sendo reforça-da pelos próprios depoentes, que salientaram que esperavam envelhe-cer com saúde: “O importante é que eu chegue nos 50 anos, nos 60, nos 70 eque eu chegue com saúde, isso que importa, não penso que eu vou estar feia, bonita,tá velha, ou sei lá” (Dona Terezinha, 49 anos, CooperMimo). No segundo grupo, tivemos uma visão mais positiva sobre oenvelhecimento, como um processo natural e que, portanto, todosrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 126. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 133viverão, por isso, não há o que temer. Essa visão esteve muito abarcadapela questão do trabalho, de se sentirem ainda produtivos, como de-monstrado nos estudos de Costa e Campos (s/d) e Veloz, Nascimento-Schulze e Camargo (1999). Uma das cooperadas da CooperMimo disse o seguinte: “Eu en-caro assim: que todo mundo vai passar por isso, eu penso que todo mundo vaipassar por isso, eu também vou, eu não tenho nada assim medo da velhice, Deusdando saúde, o resto a gente corre atrás” (Dona Eva, 55 anos, CooperMimo).Já uma cooperada da Tatuapé salienta a questão de viver melhor noenvelhecimento por conta do trabalho: “Eu acho que minha vida agora támuito mais melhor do que da época que eu era mais nova, pelo menos, graças aDeus, eu trabalho e na época que eu era mais nova, eu não trabalhava, dependia,às vezes, de uma ajuda da minha mãe” (Dona Luci, 49 anos, CooperativaTatuapé). No terceiro grupo, encontramos a representação social da velhi-ce como etapa que precede a morte, e essa representação está baseadano fato de que, segundo Neri e Yassuda (2004, p. 8), “é conhecimentoamplamente disseminado que a velhice é a última etapa do ciclo vital”.Pelos relatos a seguir, perceberemos, de um lado, uma visão positivadessa etapa, que é fortalecida pela produtividade e, de outro, uma visãomais de abandono e falta de perspectivas. A história da vida da gente é só isso aí mesmo, porque gente sempre cada dia que passa a gente vai ficando cada vez mais velho e chegando o dia, sempre o dia da vida da gente vai chegando pra perto da morte (...) Então, a pessoa tem que sempre conformar né. Fazer que nem, então, nesse meio tempo, a gente tem que, cada dia que, antes de chegar, a gente tem que ir lutando até chegar o dia, não pode esmorecer, tem que ir lutando, porque aí a gente, cada dia que passa, cada dia que vem lutando até chegar o dia, aí esse dia que nenhum de nós sabe, é só isso que eu falo também, e pra mim é só o que tem que falar. (Seu Francisco, 51 anos, Cooperativa Tatuapé) Ah, o que eu espero da vida é Deus me dar saúde, porque a pessoa velha o que quer esperar de bondade daqui pra frente? Eu acho... pessoa de revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 127. 134 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohn idade ainda ter esperança, só se for Deus mesmo. O que eu espero é Deus me dar saúde até o dia que ele quiser. É isso aí. (Seu Vicente, 58 anos, Cooperativa Tatuapé) No último grupo temos uma representação muito forte de com-paração do sentimento de ser velho e sentir-se velho, ainda mais quandocomparado ao outro; segundo Gusmão (2001), é sempre na visão dooutro que as pessoas se percebem entrando na velhice e isso fica muitoclaro no depoimento de uma de nossas entrevistadas: No começo foi mais difícil pra mim aceitar né, mas depois de repente, eu pensei assim: Gente, eu vou envelhecer, to ficando, pra ser mais, foi minha neta mesmo que me acordou, porque um dia, o pessoal tem mania de falar que ela é parecida comigo né, (...) E sabe que ela veio pra cá e ela falou assim: (...) eu não me acho parecida com a senhora, ela falou. “E por que fia?” Ai, eu não sei mãe, eu não tenho isso aqui ó (se re- ferindo às rugas da avó). (Dona Noemia, 66 anos, Cooperativa CooperMimo) Foi praticamente unânime o desejo de viverem uma velhice comsaúde, por meio da ajuda de Deus, o que traz a questão da religiosidadecomo um instrumento de força para essas pessoas envelhecerem nomundo do trabalho. O que fica de importante em todo este trabalho é a percepçãode que muitas pesquisas e estudos são feitos sobre o envelhecimento naacademia, já temos muita mudança de paradigmas sobre a velhice comofase de doença, de possibilidades de envelhecer com dignidade e de formabem-sucedida, mas de acordo com estudos anteriormente descritos ecom o que nossa pesquisa também mostrou, toda essa produção nãochega efetivamente às camadas mais pobres da população. Fica para nóso desafio: como mudar essas representações sociais que estão cravadasem nossos velhos e, de modo geral, em todas as faixas etárias?revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 128. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 135Considerações finais Os resultados mostraram que a economia solidária, por meio dascooperativas populares, tem sido uma grande possibilidade de reinser-ção de pessoas que hoje são discriminadas pelo mercado de trabalho, emnosso caso, pessoas que estão na faixa etária acima de 50 anos. Por outrolado, vimos que pessoas abaixo dessa faixa etária também buscam otrabalho nas cooperativas por falta de oportunidades. Pudemos perceber a importância das cooperativas na vida daspessoas entrevistadas no sentido de que lhes devolvem o direito ao tra-balho que o mercado formal lhes roubou. Através do trabalho, essaspessoas puderam se sentir cidadãs à medida que utilizaram os meios dacultura popular para criar condições de sobrevivência básica, que são otrabalho, a moradia, a saúde e a alimentação. Em termos de representações sociais como um sistema de valo-res, idéias e práticas, percebemos que nossa pesquisa trouxe uma duplaperspectiva. Em um primeiro sentido, a velhice valorizada por seusaspectos físicos, de perda da saúde, o que, na prática, pode ser ameni-zado pela idéia de continuar sendo produtivo por meio do trabalho. Poroutro lado, a idéia que vigora em nossa sociedade é a de velhice comosinônimo de inatividade e incapacidade comparada com a idéia de ju-ventude, que é cheia de vida e esperança. Encontramos também uma perspectiva de representação socialvoltada para os aspectos do envelhecimento patológico, em que a preo-cupação com doenças incapacitantes estava bastante presente. Nessesentido, resta-nos ressaltar, na população das classes populares, a pers-pectiva de um envelhecimento bem-sucedido, pois este ainda é poucovislumbrado pelas pessoas que estão perto de entrar na velhice e quepertencem a uma classe social que pouco acesso tem a esse conhecimento. Cabe aqui a pergunta: como mudar essas representações sociaisnegativas sobre o envelhecimento? Acreditamos em uma educação para o envelhecimento, em quea educação popular se constitui em um caminho de emancipação daspessoas. Em um primeiro momento, seria realizar um trabalho direto revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 129. 136 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohnnas cooperativas populares, por meio de reflexão e discussão sobre osvários processos que permeiam essa fase da vida, no sentido de poderconstruir coletivamente novas representações sociais. Em outro momento, provocar uma educação tanto do próprioidoso que já está na velhice quanto dos outros (crianças, jovens, adul-tos), que um dia envelhecerão nos mais variados espaços. Realizar umtrabalho de orientação sobre as possíveis perdas que ocorrem com oenvelhecimento humano e como prevenir doenças incapacitantes.Acreditamos que é relevante iniciar um trabalho de conscientizaçãodesde a educação infantil, para que as crianças possam valorizar o velhoe tenham noção, desde pequenas, de como viver para conseguir umenvelhecimento bem-sucedido. Nessa perspectiva, ansiamos por umpaís que envelheça com mais dignidade e qualidade.ReferênciasANTUNES, R. (2004). A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula). Campinas, Autores Associados.ARAÚJO, L. F.; CARVALHO, V A. M. L. e MOREIRA, E. F. (s/d). . Representações sociais da velhice: um estudo com idosos paraibanos. João Pessoa, UFPB.CACHIONI, M. e NERI, A. L. (2004). “Educação e velhice bem- sucedida no contexto das Universidades da Terceira Idade”. In: NERI, A. L. e YASSUDA, M. (orgs.). Velhice bem-sucedida: aspectos afetivos e cognitivos. Campinas, Papirus.CORAGGIO, J. L. (1991). Ciudades sin rumbo: Investigación urbana y proyecto popular. Quito, Ciudad – SIAP .COSTA, F. G. e CAMPOS, P H. F. (s/d). Representação social da velhice, . exclusão e práticas institucionais. Goiás, UnB/UCG.DEBERT, G. G. (1998). Pressupostos da reflexão antropológica sobre a velhice. Textos didáticos. Antropologia e velhice, n. 13, pp. 7-27. Campinas IFCH/Unicamp.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 130. Experiências e representações sociais de trabalhadores e trabalhadoras 137FREIRE, P. (1973). Extensão ou comunicação? Trad. de Rosisca Darcy de Oliveira. Rio de Janeiro, Paz e Terra.GOHN, M. da G. M. (2001). Educação não formal e cultura política: impactos sobre o associativismo do terceiro setor. 2 ed. São Paulo, Cortez (Coleção Questões da Nossa Época; v. 71).____ (org.) (2003). Movimentos sociais no início do século XXI: antigos e novos atores sociais. Petrópolis, Vozes.GUSMÃO, N. M. M. (2001). “A maturidade e a velhice: um olhar antropológico”. In: NERI, A. L. Desenvolvimento e envelhecimen- to: perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas, Pa- pirus.MAGALHÃES, N. C. (s/d). Máscaras e conflitos da representação social do idoso na cidade de Juiz de Fora. Juiz de Fora, UFJF.MOSCOVICI, S. (2003). Representações sociais: investigações em Psico- logia Social. Editado em inglês por Gerard Duveen. Trad. de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis, Vozes.NERI, A. L. (2002). Envelhecer bem no trabalho: possibilidades individuais, organizacionais e sociais. Terceira Idade, v. 13, n. 24, pp. 7-27.NERI, A. L. e YASSUDA, M. S. (2004). “Apresentação”. In: NERI, A. L. e YASSUDA, M. S. (orgs.). Velhice bem-sucedida: aspectos afetivos e cognitivos. Campinas, Papirus.PATROCINIO, W P. (2005a). “Trabalhador idoso”. In: NERI, A. . L. (org.). Palavras-chave em gerontologia. 2 ed. Campinas, Alínea.____ (2005b). Cooperativas populares: representações sociais, trabalho e envelhecimento. Dissertação de mestrado, defendida no Progra- ma de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Edu- cação, Unicamp. Campinas.PERES, M. A. C. (2002). Trabalho, idade e exclusão: a cultura organi- zacional e as imagens sobre o envelhecimento. Dissertação de mestra- do. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, Universidade Estadual de Campinas. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 131. 138 Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes GohnSINGER, P. (2000). “Economia solidária: um modo de produção e distribuição”. In: SINGER, P e SOUZA, R. A. (orgs.). A eco- . nomia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo, Contexto (Coleção Economia).____ (2002). Introdução à economia solidária. São Paulo, Fundação Perseu Abramo.VELOZ, M. C. T.; NASCIMENTO-SCHULZE, C. M. e CAMAR- GO, B. V. (1999). Representações sociais do envelhecimento. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 12, n. 2, pp. 479-501.Data de recebimento: 15/5/2005; Data de aceite: 8/8/2005.Wanda Pereira Patrocinio – Pedagoga, mestre em Gerontologia pelo Progra-ma de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Educação da Universi-dade Estadual de Campinas. Pesquisadora da Incubadora Tecnológica deCooperativas Populares da ITCP-Unicamp. E-mail: wandovisky@hotmail.comMaria da Glória Marcondes Gohn – Professora titular aposentada da Faculdadede Educação da Universidade Estadual de Campinas. Docente no Programa dePós-Graduação da Uninove-SP. Doutora em Ciência Política pela USP-SP. Pós-Doc New School University/Nova York. E-mail: mgohn@uol.com.brrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 119-138
  • 132. La problemática social de la vejez en el medio rural María Julieta Oddone Mónica Beatriz AguirreRESUMEN: Este artículo se basa en un estudio sobre los ancianos que viven enel medio rural. Se realiza una caracterización del estilo de vida de los viejos quehabitan en comunidades de tipo pastoril y agrícola. A partir del estudio de casosllevado adelante en las comunidades, se describen las diferentes estrategias desupervivencia que desarrollan en su vida cotidiana como resultado del contextoecológico y social en el que viven. Se analizan los mitos que tradicionalmente setienen sobre los ancianos rurales.Palabras clave: vejez; rural; pobreza.RESUMO: Este artigo se baseia em um estudo sobre idosos que vivem na área rural.É feita uma caracterização do estilo de vida dos velhos que moram em comunidadesde pastoreio e agrícolas. A partir do estudo de caso dessas comunidades, descrevem-se as diferentes estratégias de sobrevivência que desenvolvem em sua vida cotidianacomo resultado do contexto ecológico e social em que vivem. Analisam-se os mitosque tradicionalmente existem em relação aos idosos do campo.Palavras-clave: velhice; rural; pobreza.ABSTRACT: This article is based on a study focusing on old people living in rural en-vironments. A characterization of the different communities, pastoral and agricultural, isdefined highlighting the life style carried by old people living in each of them. Based on casestudies carried out in the communities a description is made of old people different survivalstrategies and development of daily life as an outcome of the socioeconomic and ecologicalcontext in which they live. Some myths on rural older population are analysed.Key-words: aging, rural, poverty. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 133. 140 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre No tenemos plata con que comprar. Cuando hay cosecha, ahí no falta. Y este es el más peor, este tiempo. Octubre es el más feo. Llega el “sombrero grande”, como se dice. “Tanico”, le dicen los de antes. Al primero de octubre hay que esperarlo con abundante comida para que no entre la pobreza. Hay que hacer una tortilla grande. “Tanico” le dicen a la pobreza. Y, algunos que no tienen ni que poner comida, no tienen tortilla, a algunos les falta. Y, el que no tienen, tiene que ir a pedir a otro. (Informante de Santiago del Estero)Introducción Abordar la temática de la vejez rural en Argentina implica ne-cesariamente hacer referencia a la pobreza rural. Esto es así debido adiversas razones de orden histórico-social y económico. En primer lu-gar, la gran extensión de las unidades agrarias –estancias- constituyóun obstáculo para el arraigo de la población en el medio rural, ya quela mayor parte de los campesinos fueron confinados debiendo estable-cerse en pequeñas extensiones de tierra de baja fertilidad –minifundios-sobre las cuales generalmente no tienen derechos de propiedad –rura-lidad precaria. Esto explicaría, al menos parcialmente, la paradoja de unpaís eminentemente agrario con una muy baja densidad de poblaciónrural (menos del 15%). Una segunda causa de la pobreza rural está ligada a las restric-ciones derivadas de la estacionalidad “natural” de la producción agrí-cola, que a menudo resulta exacerbada coyunturalmente poracontecimientos de tipo climático (sequías, inundaciones, etc.), afec-tando decisivamente la estabilidad y los niveles de ingreso de ciertosgrupos poblacionales o, incluso, poniendo en situación de riesgo nutri-cional a grupos vulnerables, especialmente niños, mujeres y ancianos.Por otro lado, la ubicación sobre un ecosistema frágil y la baja densidadpoblacional o aislamiento, reproducen cíclicamente procesos de pobre-za crónica, con la imposibilidad adicional de acceder a servicios básicostales como la educación, la atención de la salud, el saneamiento am-biental, etc.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 134. La problemática social de la vejez en el medio rural 141 Las familias rurales pobres que en razón de esta condición depobreza están en constante situación de riesgo, suelen desarrollar estra-tegias de supervivencia que utilizan con variado grado de efectividad, afin de sobrellevar o mejorar las condiciones derivadas de estas restriccio-nes. Una de estas estrategias es la migración estacional o definitiva. Enefecto, a partir de la segunda mitad del siglo pasado, se produjeron inten-sos movimientos migratorios rural-urbanos, reconocidos como corrien-tes de expulsión de la pobreza, que dieron lugar a una considerabledisminución de la proporción de los habitantes de las áreas rurales. Elfuerte impacto de estos movimientos migratorios en principio fue ana-lizado más desde la perspectiva de la atracción ejercida por los centrosurbanos, que desde el punto de vista de las consecuencias provocadas enlas áreas expulsoras rurales, como el envejecimiento de esas poblacionesy las condiciones de vida de los ancianos rurales (Neiman, 2000). Tiempo atrás, las unidades agrícolas basadas en grandes exten-siones de tierra, características de nuestro país, encontraron en la pro-ducción de bienes exportables su mejor opción para acceder al mercadoy obtener rentabilidad. Por esta razón, en cada ciclo expansivo de laeconomía basado en recursos renovables como el trigo, el algodón, lasoja y la carne, entre otros, se fue fortaleciendo el sistema patronal deproducción a gran escala que tradicionalmente dio forma no sólo alsistema productivo sino también al social. La introducción de las innovaciones tecnológicas que se fue re-gistrando en forma lenta pero persistente, ha tomado un ritmo muchomás acelerado en los últimos cuatro decenios coincidiendo con la tran-sición desde el sistema patronal hacia el empresariado agrícola. Actual-mente, el país se está incorporando al modelo global de la modernaindustria agroalimentaria, con predominio de la gran empresa agraria.Sin embargo, existen dudas en cuanto a las posibilidades de que estemodelo sea capaz de generar riqueza y trabajo y en consecuencia, deafectar positivamente a la población rural. Es que si bien el aumento de la producción agrícola se tradujo enun aumento en la demanda de tierra y la consecuente expansión de lafrontera agrícola, dicha expansión está provocando un grave deterioro revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 135. 142 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirreen los recursos renovables y la dramática expulsión de las comunidadesindígenas y campesinas. De esta manera, las nuevas estructuras agra-rias han reproducido en las nuevas áreas agrícolas la profunda inequi-dad distributiva propia de la agricultura tradicional, ya que a pesar dela gran expansión de la economía rural y del considerable aumento dela productividad, persisten los cuadros de pobreza estructural e indi-gencia que siempre han caracterizado al campesinado argentino. En lasáreas de frontera agrícola, después que las familias rurales desmontany habilitan las tierras para el cultivo, se crean mercados locales de tierrasy se desplaza de ellas a las familias colonizadoras, de manera tal que latierra pertenece cada vez más a empresas nacionales o extranjeras. Encuanto al empleo, si bien las nuevas organizaciones empresariales quese están estableciendo en el medio rural han introducido el trabajoasalariado, sólo los trabajadores más calificados han logrado insertarseen forma estable en las mismas. La inmensa mayoría sólo logra formasde contratación inestable, con largos períodos de desocupación. Alcerrarse el acceso a la tierra para trabajar y vivir en ella y al no teneracceso al empleo, las personas terminan migrando a las ciudades. La situación aquí descripta llegó a tomar características dramá-ticas en el noroeste argentino, debido al impacto social producido porla expansión del cultivo de la soja. Los pequeños productores criollos eindígenas, cuyas economías de subsistencia tienen fuerte apoyo en losrecursos naturales del monte, debieron enfrentar a las grandes empre-sas agrícolas para las cuales el monte es un obstáculo. No se trata en estecaso de un desplazamiento racional de la población entre actividadesproductivas y formas de procurarse el sustento, sino más bien de unareal expulsión, dado que los campesinos y los indígenas, eternos mar-ginados del campo, no tienen la menor posibilidad de acoplarse al pro-ceso de cambio productivo, ni como productores, ni como asalariados,ni como vendedores de su tierra, ya que ésta formalmente no les per-tenece (Reboratti, 2005). Esta circunstancia hace necesaria, además, lapermanencia de al menos parte de la familia en el lugar para resguardaresta forma precaria de posesión de la tierra. Este rol generalmente recaesobre los mayores.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 136. La problemática social de la vejez en el medio rural 143 Resumiendo, los pobladores de áreas rurales que padecen másagudamente esta situación de precariedad son: • Las poblaciones campesinas de zonas semiáridas, donde el problema del agua es crucial. • Los pueblos originarios. • Las familias campesinas que intentan habilitar nuevas tierras en la frontera agrícola y que son expulsadas de ellas. • Las poblaciones rurales con trabajo temporal. • Los pobladores de mayor edad cuyos familiares más jóvenes migraron a la ciudad.Algunas cuestiones metodológicas sobre el abordajede la pobreza rural y de la vejez El estudio de la pobreza rural y de los ancianos pobres según losmétodos de línea de pobreza y de necesidades básicas insatisfechas, haenfrentado las distorsiones producidas por los reconocidos «sesgo urba-no» y «sesgo del adulto equivalente» que se suman a las diferencias entrehogares de ancianos vs. hogares de adultos. En lo concerniente especí-ficamente a la pobreza rural, es posible señalar una serie de particula-ridades que ponen en discusión su aplicación: la inestabilidad de losingresos, el autoempleo y la autoproducción, el predominio de las or-ganizaciones familiares extensas, la infraestructura existente y las po-sibilidades reales de acceso a servicios. En cuanto a la pobreza en la vejez,indicadores tales como la escolaridad de menores, el valor asignado a losingresos y el hacinamiento, entre otros, hacen que muchos ancianos nosean incluidos en el grupo de los pobres, aunque en realidad no estánen condiciones de resolver las necesidades de su vida cotidiana. Para salvar estas dificultades se hace necesario abordar metodo-lógicamente la temática de la vejez en un contexto de pobreza ruralmediante un enfoque integrado cuantitativo y cualitativo. El primeropermite lograr un mapeo de las condiciones de pobreza que liga laintensidad con que se manifiestan esas condiciones en territorios espe-cíficos y efectuar un análisis de “brechas de pobreza” no sólo entre áreas revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 137. 144 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirregeográficas sino también según grupos sociales. A su vez el enfoquecualitativo permite controlar los sesgos que imponen los métodos cuan-titativos de medición de la pobreza, al colocar los indicadores de pobre-za en ancianos rurales en un contexto interpretativo más apropiado.Asimismo, permite dar cuenta de los procesos asociados a las causas dela pobreza, en vez de una visión estática de la misma. Constituye ade-más la metodología adecuada para la comprensión de las situacionesespecíficas de pobreza así como de las estrategias y comportamientosde los hogares y personas en situación de vulnerabilidad, dando lugara la incorporación de variables simbólicas y culturales de acuerdo conel carácter multidimensional de la pobreza. Otra cuestión metodológica surge con relación al “minifundio”.Son éstos unidades cuya actividad económica se centra en la relacióndel trabajo familiar-tierra sin mediaciones tecnológicas de importan-cia. La imposibilidad de ingresar en procesos más o menos sostenidosde capitalización, determina una orientación de las unidades haciaestrategias de subsistencia en torno a un objetivo económico demaximización de un ingreso total. El agregado de otros condicionan-tes como los inadecuados canales de comercialización, la baja diver-sificación productiva, la subocupación, completa un cuadro delimitaciones económicas y sociales, que explica y refuerza la condiciónde pobreza en estas unidades. En el caso del minifundio, la referencia prácticamente exclusivaa la disponibilidad de la tierra para identificar las características de estesubsector, resulta incompleta. Esta limitación se hace especialmenteevidente para la Argentina, que cuenta con ambientes agroecológicosdiversos. Con el objeto de superar estas limitaciones, se utiliza la cate-goría “explotación agropecuaria pobre”, caracterizada por un bajo nivelde capitalización, reducidos niveles de flujos monetarios y por una or-ganización social de la unidad asentada prácticamente en forma exclu-siva sobre el uso de mano de obra familiar. Siguiendo esta línea, en elpresente trabajo tanto el cerco como la majada y el puesto han sidoconsiderados explotaciones rurales pobres, aunque sólo el primero re-úne todas las características del minifundio. El último censo agropecua-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 138. La problemática social de la vejez en el medio rural 145rio (1988) indica que existían en el país algo más de 160.000 de estosestablecimientos pobres, localizadas en las regiones noroeste y norestedonde se concentra la mayor proporción de personas de 60 años y másque viven en este tipo de explotación (Neiman, 2000).Un enfoque cualitativo para la comprensiónde la vejez rural. Estudio de casos Este trabajo está basado en los resultados de un estudio realizadoen tres comunidades rurales localizadas en diferentes áreas geográficasde la Argentina, seleccionadas por el envejecimiento de sus poblacionesy la cantidad de ancianos con necesidades básicas insatisfechas quehabitan en estos contextos ecológicos y sociales.1 Las comunidades es-tudiadas se encuentran en las provincias de Santiago del Estero, Cata-marca y La Pampa. Se trata de dos comunidades cuya economía desubsistencia es predominantemente pastoril y una comunidad agrícola. Las comunidades estudiadas presentan el envejecimiento de suspoblaciones motivado por la emigración de la población económica-mente activa. Esta es la principal causa de envejecimiento de la pobla-ción en zonas rurales y el motivo esencial para elegir estas localidadesa fin de realizar el presente estudio, ya que el desbalance entre los gru-pos etáreos implica una situación de mayor fragilidad para el grupo delos ancianos y la comunidad en su conjunto. Una característica de ladistribución por edades de la población revela un marcado índice dedependencia, que se puede explicar por la migración de los adultosjóvenes -en apariencia ligeramente superior en los varones, pero mar-1 Se realizaron historias de vida en profundidad a hombres y mujeres mayores de sesenta años hasta la saturación de la muestra. Se privilegió el punto de vista de los actores quienes describen su realidad en relación a sus necesidades y las estra- tegias que desarrollan para resolverlas, dando un perfil característico a cada comu- nidad estudiada. Los resultados de este tipo de investigaciones no son generalizables (por la técnica de selección de la muestra), pero permiten describir, a partir de la perspectiva del curso de la vida, los ciclos de vida individuales ligados a los acon- tecimientos de la historia social, concretamente, el individuo y su cultura. Cons- tituye además un aporte al conocimiento y desmitificación de una población generalmente dejada de lado en los estudios gerontológicos. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 139. 146 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirrecada en ambos sexos- y la alta natalidad para la población residente. Soncomunes familias con seis o más hijos. La pirámide de población de Ancasti en Catamarca nos indicaque el 14.4% (373 personas) de su población es mayor de 60 años y deellos el 64% (242 personas) tienen sus necesidades básicas insatisfechas.Al mismo tiempo, es importante tener en cuenta que en veinte añosperderá el 30% de su población económicamente activa. Con caracte-rísticas semejantes, la pirámide del departamento de Figueroa en Santia-go del Estero, nos indica que el 11.7% (1.881 personas) de su poblaciónes mayor de 60 años y de ellos el 65% (1.223 ancianos) tiene sus nece-sidades básicas insatisfechas. En Chical-có, provincia de La Pampa, lapoblación total del departamento es de 1.212 personas. De ellas, 126son mayores de 60 años de edad, teniendo una representación porcen-tual del 10.2%. Los que viven con necesidades básicas insatisfechas son105 ancianos que significan para este grupo etáreo el 83.3 %. Las áreas de pobreza ubicadas en zonas rurales nos muestran unamayor incidencia de la pobreza en términos relativos, aunque en términosabsolutos es menor que en las zonas urbanas. Son poblaciones aisladasque generalmente han nacido y todavía siguen viviendo en áreas rurales.El nivel de educación es muy bajo o ninguno y el tipo de familia varía deacuerdo con las estrategias de supervivencia que puedan desarrollar.Cuando la población está más conectada a pequeñas explotaciones agrí-colas (cultura quechua) es mayor la posibilidad de encontrar una familiaextensa, familia con muchos niños o “brazos” que son fuerza de trabajo.Estas posibilidades disminuyen si la unidad económica es pastoril. Existen formas de organización familiar en las que los abueloscrían a sus nietos –especialmente de sus hijas-, a veces en simultaneidadcon la crianza de sus hijos menores, hijas que residen con sus hijos enla casa paterna y hogares cuyo jefe es una mujer. Una figura interesanteen estas comunidades es la correspondiente al vínculo de crianza, seaeste “criado” pariente o no2.2 La institución del criado, cuya definición sería niños criados por otros que no son sus padres biológicos, implica una solución comunitaria de apoyo a personas en estado de vulnerabilidad, compuesta tanto por niños como por ancianos.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 140. La problemática social de la vejez en el medio rural 147 Las viviendas, levantadas en terrenos públicos o comunitarios,están construidas con materiales del entorno circundante; viven enchozas de adobe y paja, piedra o madera, que se distinguen por su ais-lamiento y dispersión. La falta de agua y la necesidad de acarrearla generaun gran problema para la gente vieja rural, sobre todo si tienen malasalud o si dependen de alguien que les traiga este elemento vital, dadoque frecuentemente tienen que caminar muchos kilómetros para ob-tener el agua de ríos, rápidos y arroyitos. Además, no tienen baños y lailuminación es por medio de mecheros y velas. Cocinan con leña, ge-neralmente sobre el suelo y fuera de las casas. Así expresan nuestros entrevistados la dificultad que les planteala obtención del agua: -Cuando tenía le digo (a mi hermano): (...) traeme agua, chango. Se va en burro y me trae 50 litros, pa’ que yo haga el té y eso. Tengo la tinaja que me hizo mi madre, el recuerdo de mi madre, y en eso la pongo al agua. Tinaja de barro. (Entrevistado de 82 años, vive solo en Ancasti, Catamarca) -El agua del río es buena para tomar porque corre fuerte y sale de una vertiente, hay que caminar media hora y también para lavarse. (En- trevistada de 64 años) El entorno de estos ancianos les es hostil y llegar a estas áreas esmuy dificultoso. Además, ellos no tienen medios para ir a las áreasurbanas y, por lo tanto, permanecen aislados. También estas restriccio-nes han quedado registradas por la voz de los actores: -¿Cuando va a Ancasti, en qué va? -A pie, pero como no puedo caminar salgo a la mañana y llego a la tarde. (...) Y, tres horas, cuatro horas... Depende de la forma que “es- tea” el día porque si está caliente usted no puede apurar! (Entrevistado de 67, Ancasti, Catamarca) -¿Va con caballo? (para acercarse a un pueblo o a un centro ve- cinal) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 141. 148 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre -No ya no puedo ir con el caballo.(...) Toda la vida me gustó ir a ca- ballo... voy alguna vez con la camioneta de un vecino, me cobra un poquito y trae el agua...(Entrevistado de La Pampa, de 72 años) -Mire que ahí al cementerio, yo no puedo llegar, por más que quiera, porque no puedo repechar esos repechos. Cuántas veces he intentado de llegar pero he ido hasta la mitad del camino y me he vuelto (Entrevis- tada de 84 años) Como vemos, es en estas zonas geográficamente marginalesdonde más se hace sentir la influencia del hábitat, requiriéndole alhombre un esfuerzo mayor para la superación de los innumerablesobstáculos que le presenta. Pero a la hostilidad del medio se suma lamarginalidad económica y social de su población, que queda al descu-bierto al analizar ciertos rasgos críticos que no pueden ignorarse: el escasoacceso a la educación, las precarias condiciones sanitarias y de la vivien-da, el nivel de ingresos que solo permite la subsistencia, la precariedadcon que se desarrollan sus actividades productivas, etc. (Reboratti,1977).El modo de vida en las comunidades rurales:la subsistencia y la seguridad alimentaria El contexto ecológico y social donde se desenvuelve la vida co-tidiana de los habitantes de las distintas comunidades, hace que el modoproductivo imperante en cada una de ellas dé una modalidad caracterís-tica a las estrategias de supervivencia y al estilo de vida resultante delas mismas. El modo productivo de los campesinos santiagueños es “elcerco”, es decir, una explotación pobre predominantemente agrícola.La producción fundamentalmente pastoril de los catamarqueños estábasada en la “majada”. En Chical-có, provincia de La Pampa la econo-mía de subsistencia radica en el pastoreo, siendo el “puesto” la unidadbásica de explotación. En el medio rural, el acceso a una alimentación adecuada encantidad y calidad está determinado por la capacidad de los hogaresrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 142. La problemática social de la vejez en el medio rural 149para autoproveerse de un volumen determinado de alimentos o, en sudefecto, comprarlos3. En los esquemas de subsistencia la magnitud queasume la vulnerabilidad varía de acuerdo a las diferentes lógicas econó-micas que hacen pesar en más o en menos los “ingresos” de autoproduc-ción y los provenientes de otras fuentes en la conformación de lospresupuestos de la unidad doméstica. En este sentido, es posible soste-ner que cuanto mayor es el ingreso destinado a la compra de alimentostambién es mayor la posibilidad que tienen esos hogares de pasar poruna situación de inseguridad alimentaria. En este aspecto pueden destacarse diferentes lógicas. Las comu-nidades pastoriles tienen un alto grado de dependencia de acopiadoresy comerciantes que les compran sus animales y les venden todo aquelloque ellos no producen. En cambio, los agricultores, si bien dependen dela venta del algodón a los acopiadores, con el cerco pueden cultivar frutosresistentes a la sequía, hacen su propio pan y obtienen ingresos de losaportes de aquellos miembros de la familia que han migrado. A pesarde estas lógicas diferentes, estas comunidades tienen algo en común, suhábitat determina que su subsistencia se logre a través de la posesióny manejo de la unidad básica de explotación: el cerco, la majada o elpuesto.El cerco Se trata de una explotación agrícola pobre que reúne las carac-terísticas típicas del minifundio. Están localizados en tierras fiscales oen tierras privadas de un establecimiento mayor. En el caso estudiado,el departamento de Figueroa, en la provincia de Santiago del Estero,situada en la región noroeste de la Argentina, la actividad agrícolaprincipal es el cultivo del algodón, pero también siembran zapallo,3 La comida que ingieren los ancianos es insuficiente en cantidad y calidad. Con relación a la cantidad el patrón alimentario generalizado se basa en una comida diaria, generalmente el almuerzo. Con respecto a la calidad, los nutrientes son insuficientes debido a la falta de variedad de las mismas. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 143. 150 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirremelón, sandía, etc. Algunos de ellos tienen animales que se utilizan máscomo alimento o como ayuda para las tareas rurales que como fuentede ingreso. La estrategia de supervivencia consiste en tener una familia ex-tensa y numerosa donde los miembros aporten tanto desde dentro comodesde fuera a la unidad. En efecto, el presupuesto familiar se compone,por un lado, con el aporte de los miembros que trabajan dentro delcerco. Aquí las tareas incluyen la producción de alimentos, la provisiónde agua y leña, los quehaceres domésticos, el cuidado de los niños, elcuidado de los animales y básicamente la producción agrícola. Es dedestacar que para el mantenimiento del cerco es fundamental su des-monte permanente, tarea para la cual son necesarios brazos jóvenes yfuertes. Pero, por otro lado, una característica de la zona rural santiague-ña es ser expulsora de población hacia zonas urbanas en búsqueda deestabilidad en los ingresos. Es este un aspecto complementario de laestrategia familiar de supervivencia, ya que los migrantes no se desvin-culan del núcleo doméstico originario sino que, muy por el contrario,contribuyen a la subsistencia de sus familias rurales mediante el envíode dinero u otros bienes. En el caso de los ancianos que integran una familia en reemplazo4-hijos que se han ido de la unidad- el mantenimiento del cerco es de-finitivamente un serio problema para la subsistencia diaria. Sin embar-go, aunque el cerco funcione, lo obtenido por su explotación no alcanzapara satisfacer las necesidades mínimas si no se tiene otro ingreso, y enmuchos casos, aún teniéndolo. Se trata de poblaciones que viven encondiciones de pobreza extrema.4 Reemplazo: Núcleos en que todos los hijos han migrado o se han casado o son potencialmente aptos para migrar o casarse. Caracterización propuesta por Sevilla Casas en Economía y Dominación en una comunidad indígena colombiana en la revista Estudios Latinoamericanos, Vol. 1, N° 3, 1971.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 144. La problemática social de la vejez en el medio rural 151Cuando un cerco funciona -¿Qué ingreso tiene como agricultor? ¿Cuánto saca al año? -¿Yo? Y, bueno, yo, para qué voy a decir... Nada más que yo agarro y trabajo para ella... Como, según lo que viene la cosecha. -¿Cuánto saca su hermana por año? -Y, bueno, acá es temporario. Sembramos un poquito de maíz y después un poco de algodón. Con el algodón le puede salir dos toneladas, dos toneladas y media, tres. -¿A cuánto la venden a la tonelada? -Y, según el precio que viene. A tres, a dos quinientos la tonelada ($250). -¿Eso es por año? -Y si, bueno, de temporada de... empezar en marzo la cosecha... hasta junio, tres meses. Terminamos la cosecha y ya levantamos (Entrevis- tado de 61 años que trabaja en el cerco de su sobrina)Cuando el cerco funciona manejado por un hijo o un yerno -¿Acá qué se siembra? -(Yerno)Algodón, maíz, trigo, alfalfa, cebolla. -¿Todo eso sembraba usted? -No, trigo no, maíz y algodón nomás. -¿Ahora con quién vive? -Con mi hija. -(Hija)Ella tiene la casita al lado. Una casita grande como esta. Duerme ahí y come acá. -¿Antes vivía sola ella? -(Hija)Antes vivía sola al otro lado del río. -¿Quién le hizo la casita de ella? -(Hija)Mi marido le trajo. Primero nosotros vivíamos para allá y la llevamos para ahí. Después nos vinimos para acá otra vez y la trajimos a ella también. -El terreno donde tenía antes la casita y este terreno, ¿de quién son? -(Yerno)Todo esto es fisco, no hay propietario. (Entrevistada de 83 años que vive con su hija, su yerno y dos nietos de corta edad. La anciana tiene algo de tierra y de eso ha vivido siempre ha- ciéndola sembrar por otros en sociedad. En este momento, su revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 145. 152 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre yerno, agricultor, trabaja el cerco de ella y el propio. Están ubicados junto al río y eso le permite regar. Se alumbran con lámparas a gas y con farol a batería.) -Su marido, ¿en qué trabajaba? -(Hijo)El iba para Buenos Aires, hacía changuitas. También traba- jaba sembrando el algodón. -¿Tenían cerco ustedes? -(Hijo)Si, teníamos cerco. Con eso vivo yo, trabajando. Yo tampoco me he ido a algún lado. -¿Cuántos años tiene usted? -(Hijo) Yo soy de la clase ‘48. -¿De qué vive la señora?¿Usted tiene ingresos como minifundista? -(Hijo)Si. -¿Usted la mantiene a ella? -A ella sí. Yo trabajo en el cerco y así. Así vivimos nosotros acá. Tra- bajando. Juntando alfa, algodón, un poco. -¿Trabaja en algo más, usted? -No, trabajo en eso nomás. No voy a ningún lado por no dejarla a ella sola. Aquí nomás, yo trabajo. (Entrevistada de 85 años)Cuando la unidad productiva no funciona por hijos migrantes -Mi papá sabía trabajar en los cercos, agricultor. -¿Cerco de él? -Si tenía. Tenemos cuatro hectáreas de terreno pero no lo hacemos tra- bajar porque no hay quién. Ya no les alcanza para que me ayuden a hacer trabajar. -¿Dónde lo tiene? -Ahí cerca, para acá. Del canal que va así, pa’l sur. La tercera casa es... el canal. Por dentro del cerco de nosotros pasa el canal. Que siempre sabíamos regar ¿no? Pero estos años, ya como cuatro, seis años, ya no trabajamos. -¿Tiene título de esas tierras? -Yo tengo... tengo mis recibos del riego solamente. Por lo menos, prime- ramente era a nombre de mi hermano, de Cruz Toledo. Cruz Toledo fue a Buenos Aires, se casó y vive ahí, todavía vive. Cuando ya no veníarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 146. La problemática social de la vejez en el medio rural 153 aquí a trabajar fue en el nombre de mi papá. Después, cuando ya era viejo, no podía ya trabajar, me hicieron pasar en mi nombre, deben ser los señores. -¿Cómo consiguió estas tierras? -Ellos... como aquí nadie no nos da, hacen cerco. Limpian y hacen trabajar. Trabajaba él porque él, esos tiempos, araba a caballo y sem- brábamos. Y después ya, cuando él no podía ya no sabíamos trabajar. Lo dábamos a medias para que lo trabajen. -¿Qué sembraban? -Ahí sembrábamos alfalfa, después algodón ... Muy poco sabíamos cosechar todos los años. Como cuatro años hemos sembrado y no resultó. Algodón. Porque no había quién lo limpie a tiempo. -¿La alfalfa resultaba? -Resultaba si, pero ya hemos dejado cuando falleció mi papá porque no había quien haga. Mi hijo, que nos ayudaba, falleció. Y el otro, mayor de mi hijo que ha fallecido, está casado y no sabemos ni adonde vive. El otro que nos ayudaba, nos ayudaba a hacer cerco, todo, falleció. (Entrevistada de 77 años)Cuando no funciona por falta de riego -Si, tengo cerco. Regular es. Como cuatro hectáreas, más o menos. -¿Con lo que le daba el cerco podía vivir? -Ahora no. No tenemos riego5. No hay como... -¿Pero antes? -¡Cómo no! Sí. Cosechando algo. Sí. Pero ahora no. Más peor, todavía. (Entrevistado de 77 años)El puesto En la zona noroeste de la provincia de La Pampa, donde se en-cuentra el departamento de Chical-có, área semidesértica, la actividadeconómica principal es la ganadería extensiva y el pastoreo de subsis-5 En esta zona de Santiago del Estero, existe un sistema privado de canales de riego, si los productores no pueden pagar el agua que consumen, quedan sin ella. Es el caso de este pequeño productor pobre. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 147. 154 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirretencia a través del puesto. Los puestos se establecen en forma de caseríosdispersos donde se nuclean dos o tres casitas relativamente cercanas.Estos vecinos son, por lo general, al mismo tiempo parientes. La estruc-tura familiar se presenta en la zona con las características de extensa y/o troncal. Los ancianos cohabitan con hijos y nietos propios o de crianzay mantienen redes de intercambio fluido con sus familiares migrantes. Las tierras pueden ser propias o fiscales. Los animales -vacas ochivas adultas- pastorean en campos sin alambrados, los chivatos -críasde las chivas- son cuidados en corrales hechos con jarilla para evitar quelos zorros los coman. La forma cultural tradicional del oeste pampeanono integra la agricultura como forma de vida, la sequía y la calidad delas napas no les permite el cultivo. La cría de ganado es de vital importancia dado que se utiliza comoalimento natural de la zona y como mercadería para trocar con los“mercachifles” por productos de almacén y ropa, aunque como siempreel trueque es desfavorable para el productor. El alimento principal, porlo tanto, es la carne, que asada se acompaña con mate en el desayunoy que puede tomar la forma de guisos o pucheros para el almuerzo. Enel lugar no se consiguen verduras -los tomates sólo se conocen enlata-dos- y los mercachifles se limitan a vender productos de almacén. La cría de ganado permite realizar una tipología a partir de larelación entre tamaño del puesto y la variedad de ganado que se posee,ya que la carne asada es casi el único sustento de estas personas.Cuando se tienen caballos, vacas, ovejas, chivas y aves de corral -...los piños de oveja, todo eso, de ovejas, chivas, que lo que más existe ahora es chivas, ovejas son pocos los que tienen, acá tendremos una veinte ovejitas, porque también las vendimos para poder venir acá y para poder tener vaquitas hay que tener poca animalada chica, de chivas, ovejas, porque el animal chico tala mucho, le come mucho el pasto a los animales grandes y se mueren las vacas. Así que tenemos pocas ovejitas, pocas chivas, para aumentar un poquito las vacas. -¿Y a quién le venden la vaca cuando está para carnear?revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 148. La problemática social de la vejez en el medio rural 155 -Se venden los terneros, todo eso, y suelen venir compradores de acá de Santa Isabel, algunos de 25, o acá de la provincia de Mendoza suelen venir también pero muy poco, estos años no han venido, porque los animales no han valido, he. Muy poco compradores ha habido. (Entrevistada de 71 años)Cuando se tienen unas pocas chivas y aves de corral -¿Animalitos cuida? -Si, hay unas chivas que tengo, pero las cuidan los muchachos nomás, no si ahora yo no salgo más de la cocina a la pieza, acá nomás. -¿Y a los pavos los cría Ud.? -Si, a éstos les doy la comida yo, ese alimento que nos han dado, ese es el trabajo mío ahora. -¿Dan mucho trabajo? -No, eso no, eso es fácil, así que...(Entrevistado de 84 años) -Antes éramos diferentes porque nosotros teníamos chivitos, varios, ovejitas, también y algunas yegüitas, pero ahora no le ha quedado más que cuatro o cinco caballitos y una yegüita, dos yegüitas, nada más. Y chivas, teníamos como, criamos unos chivatitos por ahí. Tiene para comer y para tener chivatitos. Y cuidamos nosotros, tenemos que cuidar, aque- llo manadas teníamos mucho, ahora quedamos pobres. -¿Y por qué fue? -Fue por los años malos, el campo no sirve pa’ nada, pa’ nada, se fue todo. (Entrevistada de 69 años) -¿Y murieron muchas chivas con la seca? -No, chivas no, pero perdieron los chivitos. -¿Y cuántos chivos tienen acá? - Cien cuando mucho, por eso tenemos que cuidar. -¿Y hay problemas con los vecinos, si las chivas pasan a su lugar? -No, nunca, no he tenido problemas con nadie. -Porque acá tienen todos chivos, ¿no? -Si, por todos lados hay chivos. -¿Y cuando se acaba el pasto se acaba para todos? -Si. (Entrevistada de 72 años) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 149. 156 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz AguirreCuando los animales que se tienen no alcanzan para el sustento... -Y hay que estar comprando la carne acá porque no hay (tienen pocas chivas, el nieto esta trabajando en la construcción con el programa de viviendas), y tan caro que esta todo, así que se va el mes se va en mer- cadería nomás. Por eso no me alcanza ni pa’ comprar una “frezada”. (Entrevistada de 83 años)Cuando la unidad productiva no funciona -Ahora, ¿cuál es su trabajo? -Y, acá pirco, estiro alambre y hay que renovar los postes así. -¿Este lugar de quién es? -Es de X. -¿Él le paga a usted? -Sí. -¿Cuánto gana? -Y, viene a ser... a ver ... $80.- -Y, ¿le da la comida? ¿Le compra lo del almacén? -Él me trae de allá y me deja para mi. Él vive en la ciudad. -¿Esa plata que gana acá, es para usted solo? -No vea, prácticamente toda esa plata queda para Z, el del almacén, hermano de X (el patrón). Ahí tengo libreta y él me hace dar las cosas. Por el sueldo ese, por ejemplo, todo saca el changuito mío y lleva a las casas. Todo se invierte ahí. En eso. -¿El hermano de X, tiene almacén en El Taco? -Sí. -Entonces, ¿esa plata va para su familia? -Si, la emplean ahí. (Entrevistado de 58 años) En todas estas poblaciones, el trueque tiene gran importanciacomo forma de obtención de bienes, debido a la escasa disponibilidadde moneda. Los comerciantes que recorren la zona vendiendo merca-dería, “mercachifles”, a menudo son los principales compradores de laproducción de la pequeña explotación familiar. Como ya se ha señalado,en general, el trueque solo resulta beneficioso para los comerciantes, aligual que la venta de artesanías, de ganado o de algodón.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 150. La problemática social de la vejez en el medio rural 157Las artesanías como otra estrategia de supervivencia Otra actividad característica de la zona es la producción de arte-sanías. Los hombres trabajan el cuero crudo, actividad típica de losgauchos, y la herrería, fabricando cinchas, rebenques, espuelas, en tan-to que las mujeres, de origen mapuche, hilan y tejen con telar caminos,matras, mantas, etc. Esta producción, si bien implica un ingreso adi-cional, no es suficiente como para cambiar significativamente su cali-dad de vida. - ¿Y ahora se dedica más a hacer artesanías? -Si, si es el único trabajo que uno puede hacer, por empezar, y ahí tengo un trabajo (señala una soga de cuero). -¿Y a quién le vende? -Al mercado artesanal. Vienen a buscar, el otro día vino el pelado. -¿Y a los mercachifles qué les compra? -Compré yerba, a 22 pesos la yerba acá, o sea, dos pesos con veinte. Compré además calzado, la harina que la vendía poco más de veinte pesos, la azúcar la vendía a treinta pesos, que es carísima, cuesta acá y no tener la plata. -¿Y le vende artesanías a los mercachifles? -No, no compran. (Entrevistado de 72 años) -¿Las pinturas las hace usted? -Las pinturas son del monte. Primero compramos, pero después que las artesanías que más se interesaban para llevar a Buenos Aires son las de monte, jarilla, palma, después de ollín también, de la cocina, la raíz de piqulín. -¿Y cómo la prepara? -Las dejamos hervir, bien hervir y después se cuela, bien limpia, limpio, ya está lavado y todo. -¿Cuántos colores saca? -Y, consigue de dos o tres colores, después la lana negra, del natural, así nomás. Y a lo mejor blanca, bien blanca, bien lavada en lino, natural. Hace pocos días que vino doña Marta, Marta, Susana, eso hace mucho que están, pero las primeras que vinieron ya no me acuerdo. -¿Y rojo saca de las plantas? -Medio rojo puede ser el moye. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 151. 158 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre -¿Quién le enseñó este oficio? -Y yo no me ha enseñado “naide”, yo ha sido tanto que me crié como le estoy diciendo, sin la madre, sin nada mis hermanos grandes, ninguna me enseñó siquiera, hilar, nada, por gusto mío. Tengo mi cabeza entre- tenida, yo nomás, porque ví a una tía que tenía yo, ví a hilar, ví a tejer y de ahí aprendí, pero nunca me dijeron así tenés que tener, así tenés que hilar, no. -¿Cuánto gana por mes con la artesanía? -Y yo gano, cada dos meses vienen ellos, a veces cada más. Y por una matra grande le pagamos uno con treinta, me parece ($130). Después un caminito tres. -¿Tres o treinta? -Treinta. Antes figuraba esa plata, trescientos, ahora son treinta. Y una alfombra dos. Y según cuando tejíamos esos cojinillos con mota, me pagaban seis, sesenta. (Entrevistada de 69 años. Es de tener en cuenta que al preguntar el precio de una matra grande en el centro de la ciudad de Santa Rosa, nos dijeron que era $390). Como sucede con toda población rural el tiempo de todos losdías, meses, años, se organiza en Chical-có en función de la primera luzdel día, cuidar el corral, llevar a pastar a los animales, juntar la leña,hacer el fuego, tomar el mate, buscar el agua, hacer la comida y lasartesanías, para aquellos que las realizan y al atardecer volver al corral.Sin embargo, esta rutina se rompe cuando se produce el encuentro delos artesanos. En efecto: -Y ¿qué hacen en los Encuentros de los Artesanos? -Cantar, tocar la guitarra, en la plaza, hacer el trabajo de los artesa- nos. (Entrevistado de Chical-có de 72 años) -¿comieron cosas ricas en el Encuentro? -Puh, comimos de lo que nosotros querimos, cosas ricas, nos llevaron en un hotel (se rie). Ninguna de nosotras con los años que teníamos cono- cíamos qué es lo que era un hotel. (...) Como artesanas, eso es lo que vale, un encuentro, aunque no lleve nada, ni un centavo si no tiene, sabe bien que no le va a faltar nada.(Entrevistada de Chical-có de 69 años)revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 152. La problemática social de la vejez en el medio rural 159 El gobierno provincial ha organizado un sistema por el cual losartesanos pueden vender lo que producen en distintos mercados, ya seanlocales, provinciales o en Buenos Aires. Una de las ancianas entrevis-tadas ha ganado varios premios por su trabajo, pero esto no implica unaumento significativo en sus ingresos.La majada En el departamento de Ancasti, provincia de Catamarca, la eco-nomía está basada en una producción básicamente pastoril y extensiva.Se organiza en algunas estancias o fincas mayores y pocas propiedadesde menor dimensión. En estos establecimientos mayores la producciónde parte de la superficie se organiza a través de puesteros. Pero la mayoríade la población de referencia habita en tierras fiscales o bien son ocu-pantes de tierras privadas y su actividad económica básica es la majadade cabras. Esta actividad pastoril se caracteriza por la cría a campoabierto, a monte, debido a que los predios no están delimitados poralambrados. La cría de caprinos es complementada con la de cerdos,ovejas y aves de corral. Además de proporcionarles alimento, la ventade estos animales les permite acceder a otro tipo de mercaderías a travésdel trueque y excepcionalmente a algún dinero. En general, los comerciantes de los pueblos, que recorren la zonavendiendo mercadería, sobre todo frutas y verduras, son los principalescompradores de cabras, cerdos, cueros, etc. Muchas de estas actividadesse realizan sin mediar dinero en efectivo, como un mero intercambio deproductos. Se observa tanto en el caso de las transacciones con loscompradores de ganado como en el caso de los comerciantes locales, ellimitado poder de negociación del productor. La escasa disponibilidad del agua es la determinante fundamen-tal de la actividad productiva de la zona. Los asentamientos humanos,que presentan un patrón bastante disperso, dependen de la localizaciónde aguadas naturales. La ausencia de huertas se debe, no tanto a la faltade agua como a la dificultad para roturar la tierra pues el terreno esmontañoso. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 153. 160 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz AguirreEl anciano más pobre de todos es pastor sin majada propia -Después de Córdoba me vine para acá porque ya la edad me avanzó... Hago unas changas allá, que a gatas puedo andar. Para sacar siquiera la comida, que es lo único que me pueden dar. Dígame señora qué puedo hacer con el sueldito que me dan ($50). Mis tareas, además de acarrear leña, son ir al campo a ver las vacas, llevar las cabras al potrero y si hay necesidad de hacer algún trabajito en la casa, lo hago yo. Todo el día paso allá. (Entrevistado de 67 años, vive solo, pasó su vida trabajando en distintas provincias y no tiene ahorros ni jubilación).La majada como subsistencia -Y, bueno. Tenía unos animalitos, una majadita, que la he tenido que dar a cuidar obligadamente, porque a mi me hace una falta notable. Y de ahí me sostengo yo así. De vez en cuando un animalito para comer. -¿Lo carnea? -Si -¿Tiene vacunos o cabritos? -No, vacunos nada porque él se terminó y se terminó todo. No ha que- dado un animal. Nada. Únicamente esas cabras que tengo yo... Pero mire que a mi poco me gusta salir de la casa... Porque no me gusta desatender la casa, quizás. Un pollo que uno tiene le hace tanta falta... ¡Uno tiene que cuidar! -¿Tiene muchos pollos? -No, poquitos, porque cuando falta el dinero falta. -¿Mata alguno para comer? -¡Claro! De vez en cuando uno tiene un pollito, una gallina, para comer. (Entrevistada de 84 años) -¿Tienen animales acá? -Si. -¿Quién los cuida? -Mi hermano. -¿Qué animales tienen? -Tenemos poquitas ya. Cabras yo tengo pocas. Tenemos unas vaquitas también.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 154. La problemática social de la vejez en el medio rural 161 -¿Las venden? -Vea, estos años no se puede vender ni un animal. -¿No les compran? -Y no, casi no. Este año ha estado muy feo. El año pasado ha sido lo mismo. Y poca venta. (Entrevistada de 66 años. Tienen animali- tos. Cada dos o tres semanas matan un cabrito para comer. Cuando matan un vacuno, venden un poco entre los vecinos y lo demás lo dejan en casa. Antes vendían animales pero ahora no vale la pena. Hay que gastar mucho en remedios. Nadie compra. Si compran es al fiado.) Yo tenía animales... Cuando tenía le digo a mi hermano: ‘vea, con los animales no me digas yo voy a hacer esto o yo voy a hacer lo otro. Vos pillá el que necesités y carnealo, hacé lo que quieras pero traeme de comer’. (Entrevistado de 83 años. Le dio su majada a su hermano a cambio de ayuda, él le trae carne, leña, agua y comida) Como hemos visto, si la unidad productiva de subsistencia -cer-co, majada, puesto- funciona, se resuelve la supervivencia del grupofamiliar, pero en el caso de los entrevistados de mayor edad, dependende alguien que la haga funcionar. Por otra parte, cuando no se tiene unaunidad productiva en funcionamiento, una alternativa es trabajar paraotros ya sea en el cerco o en el cuidado de la majada y el puesto. En estoscasos la resolución de la vida cotidiana es insatisfactoria y el futuro esincierto, ya que la retribución es mínima y muchos de ellos trabajan porla casa y la comida.El modo de vida de las comunidades rurales:las redes de intercambio como capital social6 Como ya se ha dicho, una característica que frecuentementeencontramos en las familias rurales, es constituirse en unidades produc-6 “Puede decirse que el auge del enfoque de redes sociales y de actores ha constituido la tendencia más significativa de la sociología agraria en los últimos cinco años” (p. 28). Frederick H. Buttel (2005) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 155. 162 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirretivas donde todos los miembros colaboran para su mantenimiento. Enla vejez, las unidades familiares han superado la fase de reproducciónbiológica, pasando a ser lo que se ha denominado familia en reemplazo,pero esto no implica que no mantengan las redes de reciprocidad y ayudamutua. Por el contrario, estas redes solidarias suelen fortalecerse yprolongarse a lo largo del ciclo vital hasta la culminación del núcleo -sucesivas separaciones y muertes - y, aún más allá, con pleno contenidosimbólico expresado, por ejemplo, en el culto a los muertos. Estas redes de reciprocidad cumplen funciones de seguridad socialy protección, lo que da a los ancianos un cierto margen de estabilidaden un momento en que las continuas pérdidas y su propia declinaciónhacen que poder recurrir a otro se constituya en un recurso organizadorde la vida y por lo tanto en una “estrategia de supervivencia”. Se puedeobservar que las relaciones de parentesco son las que surgen con mayorfrecuencia y durabilidad temporal, pero también son de vital importan-cia en los casos de ancianos solos, las redes de reciprocidad vecinales quesuplen a las familiares e incluso a los servicios sociales comunales. En estas comunidades rurales los viejos viven con hermanos, hijosy/o nietos propios o de “crianza”. La figura del criado implica una so-lución comunitaria o familiar de apoyo a personas en situación de vul-nerabilidad, tanto niños como ancianos. Muchos de los viejos que seentrevistaron han sido ellos mismos criados o tienen familiares que loson. Esta combinación de intercambio entre personas de edades opues-tas como estrategia de supervivencia, permite una complementaciónde acuerdo a las etapas del ciclo de vida por las que la relación transita.De este modo, cuando el niño es muy pequeño y tiene más necesidades,el viejo se hace cargo de su protección. En el polo opuesto, cuando eldesvalido es el viejo, el niño ya está en situación de acompañarlo ycuidarlo, tratando de satisfacer sus necesidades. En un momento inter-medio del ciclo de vida, ambos niño y viejo, coadyuvan al mantenimien-to de la unidad productiva y a resolver las dificultades circunstancialesde la vida cotidiana.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 156. La problemática social de la vejez en el medio rural 163 ¿Usted crió una chica? -Si, mi mamita. Hija de ella (señala a la hermana de crianza). Ella ha muerto joven y han quedado los hijitos. -¿Hasta qué año vivió en Cabrera? -Hace ... siete años, yo creo, que estoy aquí con mi hermana. Hermana de crianza, nos hemos criado juntas. Pero ella es mayor, tres años, mía. Cuando yo he nacido ella tenía tres años. (Entrevistada de 81 años de Ancasti, Catamarca) -¿Quién la crió a usted? -A mi me criado una señora de la ciudad que se llamaba Xxx. Me crió de nueve años y me trajeron de dieciseis años de vuelta. -¿Qué hizo en la ciudad? -Bueno, yo, como se dice, a uno lo dan como criado, no. -¿Con quién vive acá? -Yo no vivo más de con la chica. Es nieta y yo la he criado. Ella iba a la escuela pero la saqué porque no tenía posible para que, en fin, ayu- darla para la escuela. Uno tiene que dar para la comida y yo no tengo de dónde sacar. No tengo. -¿Trabaja la chica? -No, no tiene trabajo. Ahí a las chicas de Melo va así, entre días, a trabajar. Eso también veo que a ella tanta falta le hace trabajar y que yo no le puedo dar nada. Y yo no quiero que se retire. En fin, que se vaya, por ejemplo, a la ciudad a trabajar. Yo no quiero que me deje solita del todo. -¿De quién es hija? Esta es hija de un hijo mío... ¡Cómo uno no se va a compadecer de un angelito! -Ahora es su compañera. -Y sí ... Pensando eso digo yo... Tener compañía cuando uno llega a momentos que uno más necesita. Yo tengo hijos, pero resulta que todos los hijos están afuera, trabajando. Y no se puede. Si, de vez en cuando, vienen y me dan una visita pero... (Entrevistada de 84 años de Ancasti, Catamarca) - (...) tenemos un criadito que se va al campo también, que lo hemos criado de chico que ya va a tener veintiocho años, pero es chiquito, ¡eh! revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 157. 164 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre (se ríe) porque cuando lo trajeron, que ni lo conocíamos nosotros, fue mi marido a buscarlo para la sierra, se fue el otro hijo que está en Rincón del Sauce, allá al servicio, y dice, me hace tanta falta un muchachito para que me ayude a acarrearle los chivitos, porque tenían chivitos en el campo, tenían que traerlos al corral y andaba otro muchacho ofertan- do ese muchachito que quien quisiera ir a buscar, que fuera a buscarlo que se lo daba, de esas madres que tienen hijos sin marido, ve (se rie). Así que se fue sin conocerlo ni nada, se fue a buscarlo y lo trajo. Entonces no era denunciado, no tenía nombre, así que me costó muchísimo para denunciarlo, porque la madre no sabía ni en que año era nacido ni que día. (...) Los vecinos, que todos los que lo vían dicen cuando este pibe tenga un año, o dos, que lo tenga usted, haga de cuenta que ha nacido de nuevo esta criatura, dicen. (Entrevistada de 71 años, Chical-có, La Pampa) Es interesante tener en cuenta que los intercambios de ayudapueden hacerse efectivos a corto o a largo plazo, lo que constituye sudimensión temporal. En el primero, una de las situaciones más habitua-les es aquella en la que una hija migrante deja a cargo de sus padresancianos el cuidado de sus hijos y como contraprestación ella se hacecargo de enviarles dinero o la mercadería que necesiten. - (El nieto) es de mi hija. En Santiago vive la madre. Dositos son. Uno es por la mañana (va a la escuela). Ese es el de Agustina, mi hija. Y este es Tomasina Pérez, la madre de él. (Los dejaron) porque no querían seguir... No querían ir con la madre. Yo no voy a ir, decían ellos. No se por qué será. Acostumbrados a vivir conmigo, por eso... (La madre) No, no manda (dinero) porque está casada y tiene dos chiquitos. Manda mercadería. Ropa también, cosas de limpieza. Hace falta... Como me trae de Santiago, mi hija, siempre sabe tener aquí. Para limpiar olla, platos, así... La Tomasina trae de allá. (Entrevistada de Figueroa, Santiago del Estero) El segundo, hace referencia a los intercambios generacionales,que esencialmente consisten en la retribución de los hijos por los cui-dados recibidos de sus padres, en la forma de protección en la vejez.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 158. La problemática social de la vejez en el medio rural 165Estos tipos de intercambio son normativos y ponen en juego las obli-gaciones morales: “porque son mis padres”, “ellos me dieron la vida”,“ellos me criaron”, son las frases que en el lenguaje común dan cuentadel pacto tácito de reciprocidad entre las generaciones. -Yo, por él vivo aquí, sino no iba a vivir aquí. Iba a estar con mis hijos. Porque no hay quién lo atienda a él. Ahora no voy ni a verlos a mis hijos por eso. Porque no hay con quién se quede él. Nosotros somos de a dos nomás, más viejos y los otros son jóvenes... Si, le atiendo y no quieren mis hijas que le deje... ¿Cómo va a quedar solo mi tío? ¡Nos ha criado! Dicen ellas ... aquí nomás estaba, desde muy joven, con nosotros. (En- trevistada de 77 años de Figueroa, Santiago del Estero, que vive con su primo de 94 años) Como vemos, estos intercambios suelen tener la fuerza de unmandato con el que muy difícilmente se puede romper. El mandatoimplica tanto la obligación de los migrantes de contribuir al man-tenimiento de la unidad doméstica y/o productiva, como para “lacuidadora” de hacerse cargo de permanecer en el lugar para atenderal más viejo y vulnerable. Esta permanencia en el lugar tiene unsentido quizás más fundamental, el de sostener la pertenencia a latierra natal. “Esta casa es de mi sobrino. Aquí, la segundita casa es mía. Recién me la hicieron, mi hija me la mandó a hacer (...) Yo tuvo a los 21 años el mayor. Después de 21, a los 7 años tuve otro varón. Son varones los dos. La mujer, que ahora me está dando vida, me está ayudando, era de mi finadita hermana. Falleció mi hermanita y quedó... el mismo día que nació ella falleció mi hermana. Así que yo la pedí a la nenita y la crié. Así que vive conmigo y viene, y ahora nos toca. Viene y va. Ella este año vino tres veces. Primero vino a la Virgen de Huachán. Después, enseguida, vino cuando me enfermé yo. Otra vez para hacer esa casa. (...) Los tres trabajan y los tres me ayudan siempre (...) Me manda alimentos, mi Amanda, porque ella recibe la plata que mandan las chicas. Las chicas le dicen: “tome eso y compre y mándele a mi abuela”. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 159. 166 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre Casi todas las quincenas nos mandan proveeduría y dinero para aca- rrear el agua. Mi hija me dice: “No ande ‘traendo’ agua, mami. Pague. Yo voy a mandar plata, pague. Cuando termine el tacho pida nomás” (Entrevistada de 77 años de Figueroa, Santiago del Estero)Conclusiones Mediante el estudio cualitativo en el que se basa este artículo seobtuvo información acerca de la situación de los viejos que habitan lasregiones rurales más pobres de nuestro país, registrando la voz de losactores. Sin embargo, resulta imposible trasmitir toda la riqueza viven-cial de los testimonios y de las conmovedoras imágenes de su cotidia-neidad. Sólo hemos podido ofrecer un pálido relato de sus penurias pararesolver las cuestiones más elementales de la vida diaria, como el aguapara beber o la leña para cocinar. Es interesante destacar que, a pesarde las enormes restricciones que padecen, ellos han desarrollado estra-tegias de subsistencia que hemos intentado sintetizar cuidando de nopasar por alto sus particularidades. De esta manera, no sólo distinguimos una vejez urbana deuna vejez rural, sino que además, podemos diferenciar distintasvejeces rurales, según la comunidad agraria o pastoril a la que per-tenezcan. En estas comunidades vemos claramente las diferenciasque surgen como resultado de las prácticas desarrolladas en el cursode las biografías particulares, ligadas a sus estrategias frente a losacontecimientos de la vida cotidiana, de la historia social y sobretodo del contexto ecológico que los condiciona, dando un estiloparticular a su proceso de envejecimiento. Se confirma así, una vezmás, que el concepto de envejecimiento diferencial que nutre nues-tra tarea se mantiene vigente en todos los ámbitos donde se desa-rrolle la vida humana. No obstante las diferencias culturales que pudimos describir enlas comunidades estudiadas, algunos aspectos fundamentales que ha-cen a la calidad de vida de los viejos en las áreas rurales son comunes atodas ellas:revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 160. La problemática social de la vejez en el medio rural 167 • Son poblaciones aisladas que generalmente han nacido y todavía están viviendo en las áreas rurales. • El tipo de familia varía de acuerdo a las estrategias de super- vivencia que puedan desarrollar. Cuando la población está más conectada a pequeñas explotaciones agrícolas es mayor la posibilidad de encontrar una familia extensa. Lo contrario ocurre si la familia es pastoril. • Las viviendas están construidas con materiales del entorno, son precarias y dispersas. • El acarreo de agua y de leña es un problema común para todos los ancianos de las comunidades estudiadas. • Con un entorno hostil, el aislamiento de los ancianos es un hecho común. • Al carecer de ingresos previsionales, dependen del trueque para garantizar la subsistencia. En este sistema de intercambio el pequeño productor minifundista siempre está en desventaja. • La alimentación es limitada y la estrategia es comer una vez al día, coincidiendo con la hora del almuerzo. Además, muchos de ellos deben transferir parte de su comida a los niños de la familia. Asimismo, queremos destacar que la investigación cualitativapermitió desmitificar algunas de las creencias más generalizadas conrespecto a la situación de los viejos campesinos: • En general se tiende a idealizar la situación de los viejos que habitan en áreas rurales a partir de la creencia en la vigencia de la familia extensa tradicional en ese medio. Esto se debe a que, como vimos, una de las estrategias de subsistencia de las familias rurales pobres consiste en constituirse en unida- des económicas donde cada miembro produce para sí mis- mo y para los demás. Sin embargo, en muchos casos esta estrategia se combina con la migración de los jóvenes hacia las ciudades. Este traslado es decidido por las familias como una inversión y el joven migrante girará parte de sus ingre- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 161. 168 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz Aguirre sos a la misma. Este proceso puede tener consecuencias con- tradictorias. Si bien puede contribuir a mejorar las condi- ciones de vida de los ancianos que permanecen en su tierra, no cabe duda que debido a este éxodo de jóvenes, muchas personas de edad quedan solas. Además de tener que hacer- se cargo del cuidado de la tierra, lo cual es una carga pesada, suelen quedar aisladas. • Otra de las ventajas atribuidas a los ancianos rurales es la de no estar sometidos a una jubilación arbitraria y poder, por lo tanto, optar por seguir trabajando mientras así lo deseen. Sin embargo, como hemos visto en el estudio de casos, para los trabajadores rurales no hay opción posible, para subsistir no tienen más remedio que seguir trabajando duramente mien- tras puedan hacerlo. La conjunción de las dos situaciones descriptas, la emigración de los jóvenes y la carencia de retiro jubilatorio, trae como consecuencia el envejecimiento de la fuerza laboral rural. Al no haber mano de obra joven, la carga del mantenimiento de la producción recae sobre las mujeres, los niños y los ancianos. • A pesar de que la participación de la mujer en las comuni- dades rurales por mucho tiempo no ha sido reconocida, sa- bemos que tienen una función económica de suma importancia en la sociedad agrícola. No sólo participan en el cultivo de productos alimenticios para la familia, sino que además trabajan como jornaleras y a menudo migrando en pos de las cosechas. Actualmente, las mujeres viven más que los hombres, tanto en las zonas urbanas como en las rurales y la contribución de las viejas campesinas a la economía toma muchas formas distintas. Además de ser trabajadoras en la agricultura o en el pastoreo y de ocuparse del cuidado de los niños y de las tareas domésticas, a menudo realizan otras actividades productivas, tales como los trabajos artesana- les, que son realizados casi exclusivamente por mujeres de avanzada edad, constituyendo una fuente de ingresos pararevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 162. La problemática social de la vejez en el medio rural 169 la economía del hogar. Sin embargo, las ancianas rurales con frecuencia son las personas más perjudicadas pues a menu- do se encuentran privadas de toda seguridad en la vejez.ReferenciasBUTTEL, F. (2005). “Algunas reflexiones sobre la economía política agraria de fines del siglo XX”. In: CAVALCANTI, B. J. y NEIMAN, G. (comps.). Acerca de la Globalización en la Agricul- tura. Buenos Aires, Ciccus.FOSKEY, R. (2001). Older Farmers and Retirement, Institute for Rural Futures. Ponencia. In: World Congress of the International Association of Gerontology, Vancouver.GLASGOW N. (1993). Poverty among rural elders: trends, context , and directions for policy. Journal of Applied Gerontology, v. 12, n.3, pp. 302-319.GOMEZ MONTES, J. F. y CURCIO BORRERO, C. L. (2004). Envejecimiento rural: el anciano en las zonas cafeteras colombianas. Universidad de Caldas, Manizales.MANZANAL, M. (2000). “Problemática regional y pobreza rural”. In: Pobres, pobreza y exclusión social. Buenos Aires, CEIL.MC CULLOCH, B. J. (1998). Old Female and Rural. New York, The Haworth Press.NEIMAN, G. (2000). “Empobrecimiento y exclusión. Nuevas y viejas formas de pobreza rural en la Argentina”. In: Pobres, pobreza y exclusión social. Buenos Aires, CEIL.ODDONE, M. J. (1997). “Old Age and Poverty in Latin America”. In: CALLEJA, J. Eliminating Poverty in Old Age. Malta, United Nations, International Institute on Ageing.ODDONE, M. J. y JIMENEZ, D. (1998). Vejez y Pobreza en el área rural. Estudio comparativo entre una unidad pastoril y una agricultora. Revista Vivir en Plenitud, año 12, n. 50. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 163. 170 María Julieta Oddone y Mónica Beatriz AguirreREBORATTI, C. E. (1977). Santa Victoria: estudio de un caso de aislamiento geográfico. Desarrollo Económico Revista de Ciencias Sociales, v. 14, n. 55.____ (2005). Efectos sociales de los cambios en la agricultura. Revista Ciencia Hoy, v. 15, n. 87.Data de recebimento: 18/5/2005; Data de aceite: 20/8/2005.María Julieta Oddone – Licenciada en Sociología, UBA, Magister en Geronto-logía, UNCórdoba. Investigadora Independiente del Conicet, donde es miembrode la comisión asesora de Sociología y Demografía. Profesora de Sociología de laVejez, Facultad de Ciencias Sociales de la UBA. Directora del Curso de Posgradoen Gerontología y del Proyecto Envejecimiento y Sociedad de la Facultad Latinoa-mericana de Ciencias Sociales (Flacso). Docente de la Maestría en Gerontologíade la Universidad Nacional de Córdoba y Coordinadora de la Comisión de Socio-logía del Envejecimiento del Consejo de Profesionales de Sociología. E-mail:mjoddone@flacso.org.arMónica Beatriz Aguirre – Licenciada en Psicología UBA: Posgrado en Geron-tología Flacso. Ha sido investigadora en el Instituto Nacional de Servicios Socialespara Jubilados y Pensionados y es investigadora en el Proyecto Envejecimiento ySociedad de la Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (Flacso). E-mail:maguirre@mail.retina.arrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 139-170
  • 164. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural Caroline Stumpf Buaes Johannes DollRESUMO: O presente estudo visa compreender como a mulher idosa constrói asua experiência de ser viúva no meio rural através de um estudo qualitativo decaráter etnográfico realizado no distrito rural de Bela Vista, pertencente ao mu-nicípio de Passo Fundo, situado no Planalto Médio do estado do Rio Grande doSul. Observa-se que ela aprende a ser viúva a partir do posicionamento que assumeante o conflito entre os antigos discursos marcados pela cultura dos imigrantes eos novos discursos científicos sobre a gerontologia.Palavras-chave: mulher idosa; viuvez; meio rural.ABSTRACT: This study aims at understanding how the elderly woman builds her experienceof being a widow in a rural environment through a qualitative study of ethnographic type. Thisstudy took place in the rural district of Bela Vista, Passo Fundo, in Rio Grande do Sul. Fromthe results it is possible to observe that the woman learns how to be a widow in the ruralenvironment due to the position that she assumes when she faces conflicts among different speeches,like the immigrants culture and the scientific speech about gerontology.Key-words: elderly woman; widowhood; rural environment.Introdução Mulheres idosas constituem hoje um segmento da sociedade quevem adquirindo mais visibilidade em função da maior longevidadefeminina. Uma característica marcante desse grupo, que influencia as revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 165. 172 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Dolldiferentes maneiras de viver a velhice, é o alto índice de viúvas. No Brasil,conforme demonstram dados do IBGE (2000), a experiência da viuvezé vivenciada com mais freqüência por mulheres do que por homens. Em2000, havia 1.149.157 homens viúvos e 5.082.116 mulheres. Assim,constata-se uma proporção de quase cinco mulheres viúvas para umhomem viúvo. Essa situação deve-se ao fato que as mulheres, além de,usualmente, se casarem mais jovens que seus esposos, possuem umamaior longevidade e, na maioria das vezes, não voltam a contrair núp-cias. A viuvez pode gerar alterações na saúde física e mental e nasrelações familiares e sociais do cônjuge sobrevivente. Este pode viven-ciar um momento de grande sofrimento e fragilidade, pois, além deexperienciar uma perda irreversível, a pessoa depara-se com a sua pró-pria finitude. Mas, como toda a situação de crise, a viuvez provocamudanças na vida do sobrevivente e traz consigo possibilidades dedesenvolvimento. Os significados que a cultura atribui a essa novarealidade influenciam na maneira como o enlutado irá vivenciar a suaadaptação à vida sem o cônjuge falecido. Assim, essa circunstância podeser compreendida como um processo educativo informal, mediado pelosdiscursos culturais presentes no contexto em que as viúvas vivem. Este estudo buscou analisar o processo de aprendizagem da viu-vez através de um estudo qualitativo de caráter etnográfico realizadono distrito rural de Bela Vista, pertencente ao município de Passo Fundosituado no Planalto Médio do estado do Rio Grande do Sul. A comu-nidade caracteriza-se por ter sido fundada por imigrantes italianos e,atualmente, pela produção de grãos em grandes propriedades.Aprender a ser viúva Partindo da concepção de que a educação não está restrita aoambiente escolar, mas que é um processo muito amplo, que aconteceao longo da vida, entende-se que o sujeito adquire novos conhecimen-tos e constrói suas identidades na relação com os outros e através dossignificados que a cultura onde ele vive atribui à realidade.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 166. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 173 Aprendemos através de um processo constante de socialização,isto é, de interiorização do mundo social que nos é apresentado. Ini-cialmente, a criança vivencia uma socialização primária, processo emque incorpora a realidade de seus pais como sendo o único mundo con-cebível e existente. Contudo, ao longo dos anos, vamos aprendendonovas formas de ser, através do processo de socialização secundária, in-tegrando novos elementos na busca de uma visão coerente e dotada desentido do mundo. E esse sentido é atribuído pela cultura do contextoem que estamos inseridos (Berger e Luckman, 2004). Ao longo da vida aprendemos a desempenhar novos papéis atra-vés das situações do dia-a-dia, bem como por meio de eventos críticose inesperados. Nós interpretamos esses fatos de acordo com as possibi-lidades oferecidas pelo contexto cultural em que estamos inseridos.Nesse sentido, Larrosa (1994) reforça que a cultura deve transmitir umcerto repertório de modos de experiência de si, sendo que todo o mem-bro deve aprender a ser pessoa, em alguma das modalidades incluídasnesse repertório. Dentre os acontecimentos mais críticos que podemos vivenciare que geram mudanças em nossas vidas, pode-se citar a situação daviuvez. A mulher que perde seu cônjuge aprende a ser viúva no meiocultural em que vive e através dos diferentes discursos que atribuemsentido à viuvez. Nessa perspectiva, é importante pensar nos discursosculturais que buscam legitimar-se como verdades, naturalizando aqui-lo que é produzido através de representações que instituem significadose que, dessa forma, ensinam as pessoas a serem e a se tornarem sujeitos. Segundo Hall (1997, p. 50), “o discurso é um modo de construirsentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto as concep-ções que temos de nós mesmos”. Desta forma, os discursos prescrevemcomportamentos que a pessoa deve ter, avaliam o que uma pessoa faze sugerem, assim, as verdades acerca da realidade que devemos inte-riorizar e através delas guiar nosso olhar sobre o mundo. Contudo, osdiscursos podem entrar em conflito, principalmente no mundo con-temporâneo, em que velhas certezas opõem-se à produção de novasformas de posicionamento. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 167. 174 Caroline Stumpf Buaes e Johannes DollOs discursos científicos sobre a viuvez A preocupação com a questão da viuvez não é recente em nossahistória. Observa-se que a figura da viúva está presente na literaturadesde a Bíblia, passando por estudos que retratam esta condição na IdadeMédia e na época Moderna até os dias de hoje. Uma das testemunhasmais antigas sobre a situação das viúvas encontra-se no Antigo Testa-mento (Doll, 2002). Na Idade Média e na época Moderna, a imagemda viúva vai ser diferenciada nas figuras da viúva boa, da viúva alegree da viúva pobre, como apontam Cavallo e Warner (1999). Em relação às pesquisas sobre os impactos da perda de pessoasqueridas na vida do sobrevivente, sabe-se que os estudos de Freud re-presentam um marco importante. As teorias psicanalíticas propõemque a adaptação à perda acontece a partir da elaboração do luto e cortedos vínculos com o objeto amado (Freud, 1974) ou através da passagempor fases e estágios propostos por autores como Bowlby (1997), Parkes(1996) e Worden (1998). Com a ascensão de pesquisas sobre a viuvez em uma perspectivada psicologia cognitiva, o conceito psicanalítico de “trabalho de luto”vai ser questionado (Stroebe, Stroebe, 1992) e, em seguida, a necessi-dade de cortar os vínculos como forma adequada de adaptação à viuvez(Klass et alii, 1996). Stroebe et alii (1996) sugerem que diferentes gruposde pessoas possuem diferentes padrões de significados de compreensãode suas ações em relação à perda de uma pessoa amada. Assim, açõesconsideradas aberrantes e patológicas em uma cultura podem ser ple-namente aceitas em outra. Cabe também salientar que há outros estudos acerca da perda doparceiro que destacam uma abordagem mais narrativa para o entendi-mento da situação e adaptação à viuvez. São pesquisas que enfatizama voz do sujeito e o significado que este confere às suas experiências.Nesse sentido, salienta-se a pesquisa que Hoonaard (2001) realizou com27 mulheres idosas no Canadá. A autora procurou escapar de um modelode estágios para a viuvez e examinar qual o significado social da viuvezatravés da perspectiva das mulheres que experienciam tal situação.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 168. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 175 No contexto brasileiro, ainda dispomos de poucos estudos espe-cíficos sobre a viuvez como, por exemplo, a pesquisa de Falcão (2003).Entre estes, destacam-se os estudos de Britto da Motta (2002a; 2002b),que entende que a aparente universalidade da situação da viuvez, oca-sionada pela morte do cônjuge, é, ao mesmo tempo, vivenciada dediferentes maneiras, de acordo com as variáveis sociais como classe egênero. Sinaliza-se, assim, que a tendência de dar voz ao sujeito é umadas possibilidades de pesquisar como a pessoa que vive esse processo deperda atribui significados à sua vida e constrói a sua experiência de serviúva.Sobre o meio rural do Rio Grande do Sul Entre os aspectos que devem ser considerados na busca da com-preensão de como a mulher idosa vivencia a sua viuvez em um deter-minado contexto, estão as características históricas, sociais e econômicasdesse contexto. Sabe-se que o meio rural brasileiro vem sofrendo mo-dificações ao longo do tempo, e estas influenciam os modos de vida daspessoas que vivem e envelhecem no campo. Percebem-se as mudançasacerca do processo produtivo no campo, que também criam novos papéisdesempenhados pelas mulheres. Logo, a vivência do envelhecimento eas situações de viuvez na velhice também vão sendo construídas deformas diversas nas diferentes gerações. Desde o princípio da constituição do Rio Grande do Sul, o estadocaracterizou-se por suas atividades agropecuárias. A partir de 1824,iniciou-se uma política de imigração de colonos alemães seguida deimigração de colonos italianos e de outros países europeus, a partir de1850. Segundo Tambara (1985), após um crescente aumento da pro-dução até a década de 1930, observa-se que, a partir deste período, osetor agrícola começa a entrar em crise. Ocorre na década de 1940 umêxodo de colonos gaúchos para outras regiões do país, principalmentepara o oeste do Paraná, em função do crescimento populacional e dadiminuição da fertilidade do solo. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 169. 176 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Doll Em sintonia com a tendência nacional, a partir da década de 1950,no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, as políticas agrícolas estaduaispassaram a estimular a grande produção da cultura de trigo e da soja.Dessa forma, os produtores familiares desse estado inseriram-se nomercado internacional como fornecedores de matéria-prima. Contudo,na segunda metade da década de 1970, o preço da soja baixou e osincentivos diminuíram, sendo gradativamente eliminados (Brumer,1999). A década de 1980 foi um período marcado por um ajuste macro-econômico e pela incapacidade do estado em manter mecanismos deestímulo à agricultura como no início da década anterior. Nos anos dadécada de 1990 percebe-se o forte recuo do Estado e de suas políticaspara o meio rural, ocasionando mudanças no contexto rural, dentre asquais destaca-se uma modificação demográfica causada pela diminui-ção das famílias dedicadas às atividades propriamente agrícolas e mi-gração das mesmas às cidades (Schneider e Navarro, 2000). Em relação às mulheres, observa-se que foram incluídas nosplanos de benefício da Previdência Social a partir de 1988, sendo 55anos a idade limite para aposentadoria, o que significa cinco anos antesdos homens. As mulheres mais velhas estão tendo a possibilidade deviver dispondo de tempo e dinheiro, o que, conseqüentemente, reforçaas relações familiares. Existe uma relação da inserção das mulheres em atividades ruraiscom a tecnologia empregada no processo produtivo. Com a introduçãode novas tecnologias no trabalho do campo, há uma tendência da mulhera abandonar as atividades agrícolas para dedicar-se apenas às atividadesdomésticas e àquelas destinadas ao consumo familiar, como o cuidadode pequenos animais, o cultivo de uma horta e transformação artesanalde produtos agrícolas (Brumer, 1996), restringindo seu papel ao dedonas-de-casa (Brumer e Giacobbo, 1993).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 170. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 177Método Na busca da compreensão de como a mulher idosa no meio ruralconstrói a sua experiência de viuvez, optou-se pela realização de umapesquisa qualitativa com características etnográficas. A coleta dos dadosfoi realizada através de entrevistas acerca da história de vida de novemulheres viúvas, com idades entre 51 e 94 anos, e observações efe-tuadas na comunidade, principalmente nos encontros do grupo deidosos. A Prefeitura Municipal de Passo Fundo, RS, possui diversosprojetos voltados para grupos de terceira idade, tanto no meio urbanoquanto rural, que são estruturados e organizados pela Divisão de Aten-ção ao Idoso – Dati. O grupo de entrevistadas pode ser diferenciadoentre as “velhas-velhas” (93 e 94 anos) e as “velhas-jovens” (de 51 a 68anos). Os dados foram analisados através da construção de categoriasanalíticas conforme a proposta de Minayo (1998).Análise e discussão dos resultados As categorias, que surgiram ao longo do desenvolvimento doprocesso de análise dos dados, foram criadas a partir dos dados quesobressaíram nas inúmeras leituras das entrevistas e dos diários de cam-po. São elas: a dor de ficar só; os laços com o esposo falecido: “umapresença continuada”; as mudanças no ser mulher no meio rural; asrelações conjugais; o espaço público das mulheres; os novos relaciona-mentos; as relações familiares; “aprender a ir ao banco”.A dor de ficar só Observa-se nos relatos das mulheres viúvas entrevistadas que,mesmo aquelas que relatam não terem tido um bom casamento, a tristezaé um sentimento presente ao longo do processo de luto. Em relação àexpressão desse sentimento, também é possível pensar que a tristeza é umdiscurso oficialmente correto acerca de como se deve sentir a perda dealguém. “Se desfazer o que sente por dentro né, e então fica triste” (Sara, 94 anos). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 171. 178 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Doll Em relação aos primeiros tempos de viuvez, durante as entrevis-tas, observou-se que ao narrar a situação da perda as viúvas referiamuma sensação de desorientação. Essa sensação pode relacionar-se coma questão da desorganização dos papéis que a pessoa enlutada deve passara desempenhar depois da morte do cônjuge, porque a estrutura decomplementaridade que normalmente existe em um casal acaba des-montando. “A gente fica só, sem marido, parece que cai a casa. Não é fácil. Eupra mim me senti perdida” (Eunice, 63 anos). Assim, pode-se observar que a tristeza é um sentimento presentena vida de uma mulher viúva, porém vivida com mais dor, principal-mente, nos primeiros tempos da perda do esposo. Mas as mulheresentrevistadas também revelaram os diferentes aspectos que, ao longodo tempo, facilitaram a adaptação à vida sem o companheiro e queconferiram outros sentidos às suas vidas, como a rede de apoio socialrepresentada pela família.Os laços com o esposo falecido: “uma presença continuada” Os laços com os falecidos configuram-se de diferentes formas navida das mulheres. O marido é lembrado tanto em pequenas ocasiõesda vida cotidiana, como, por exemplo, durante uma refeição, quantoatravés de uma figura idealizada produzida pela viúva ou como umconselheiro importante para a família. A comida dele preferida eu sempre digo quando eu vou fazer. Às vezes digo pro meu filho, essa que é a comida do teu pai. E ele, também ele tem: “eu não termino com os porco, eu não termino com bicho nenhum porque o meu pai sempre tinha”. É sempre o nosso dizer assim. E qualquer coisa assim também daí eu digo: “por que que nós vamo terminar se o teu pai sempre tinha né? (Rute, 61 anos) Agora... eu assim, penso nele, converso com ele às veiz eu rezo pra ele né. De noite, quando venho deitar. Daí eu me lembro dele, daí eu converso. Peço pra ele me ajudar a continuar a vida né. (Lia, 61 anos)revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 172. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 179 A manutenção de um laço afetivo com o esposo falecido poderepresentar sentimentos de respeito e carinho pelo antigo companhei-ro, além de fornecer conforto e suporte à família, facilitando, assim, atransição entre o passado e o futuro. Nesse sentido, pode-se dizer queessas mulheres estariam buscando reposicionar o esposo falecido em suasvidas, isto é, colocando as lembranças em um lugar de sua vida emo-cional que lhes possibilite continuar vivendo bem no mundo (Worden,1998). Por outro lado, pode-se perceber a referência ao vínculo tambémcomo uma indicação de que a ausência do ente querido ainda é sentidacom pesar, não se mostrando uma relação tão prazerosa. E, dessa forma,pode ser um elemento que indica a não superação da perda.Mudanças no ser mulher no meio rural Todas as mulheres entrevistadas relataram que iniciaram suasatividades de trabalho na primeira infância. O trabalho ocupa, dessaforma, um lugar central em suas trajetórias, pois é um fator estruturan-te de suas existências. As mulheres revelam, também, que apesar dosofrimento do trabalho, este pode ser interpretado como um compo-nente de valorização da figura feminina. As mulheres, ao contarem edestacarem esse aspecto num contexto de melhora de condições de vida,mostraram que dão ao trabalho um significado de algo merecido. Alémdisso, o trabalho é um traço próprio da cultura dos imigrantes italianos.“Então hoje, hoje eu me conto uma vida diferente né, pra mim do que do modoque eu fui criada” (Isabel, 51 anos). Outra questão que vem se modificando é o tempo de trabalhoda mulher na lavoura. Observa-se, no contexto desta pesquisa, que asmulheres da geração de “velhas-velhas” pararam de trabalhar na lavou-ra com mais idade do que as “velhas-jovens”. Dois fatores estão relaci-onados com essa situação. O primeiro diz respeito aos efeitos damodernização da agricultura sobre a divisão do trabalho por sexo, naqual cabe ao homem geralmente a exclusividade de desenvolver servi-ços que requerem maior força física, bem como o uso de maquinárioagrícola mais sofisticado. E assim, a mulher passa a ser “liberada” do revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 173. 180 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Dollprocesso produtivo e permanece executando atividades mais rotineiras,ligadas à casa ou ao serviço agrícola mais leve. Derrubava mato de mão, toda a vida sofri. Depois que viemo pra cá, daí os filho já tavam tudo grande. Daí foi mais fácil, mas antigamente foi sofrido. As minhas gurias mais velhas ainda trabalhavam na la- voura, carpi e fazê tudo. Mas os piá já não, os piá já foi só em cima dos trator. (Dalila, 65 anos) O segundo fator que também interfere na diferença de tempo detrabalho na lavoura entre as gerações refere-se aos benefícios previden-ciários. As “velhas-jovens” estão tendo direito à aposentadoria commenos idade do que as “velhas-velhas”. Deus me livre quanto trabalhei na lavoura. Só de uns tempo pra cá que não. Inclusive há anos atrás tavam recém começando, ia eu em cima das semeadeira. Pra poder plantar não tinha, tinha que poupar pra poder ir indo pra frente. Tudo o que a gente tem foi tudo feito com sacrifício. Porque eu casei eles não tinham nada. (Eunice, 63 anos) Hoje, observa-se que essas mulheres da geração de “velhas jo-vens”, têm mais tempo livre para se dedicarem a outras atividades emespaços públicos de participação, como, por exemplo, no grupo deconvivência para a terceira idade.As relações conjugais Os discursos das mulheres entrevistadas mostram que há algu-mas características que marcam os relacionamentos conjugais. Dentreelas, destacam-se: a dependência da mulher em relação ao esposo; arestrição da mulher ao ambiente privado e aos poucos espaços públicoscompartilhados, como os bailes e a igreja. Nesse sentido, a viuvez ofe-rece dois caminhos para a mulher: a dificuldade de adaptar-se à vidasem o esposo ou a liberdade.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 174. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 181 Ele tava junto comigo sempre né, pagava e eu não sabia nem fazer um crediário. Sempre era assim sabe. (Isabel, 51 anos) Quando ele saía era ir na bodega, ali jogá três sete, afinal essas coisa” (Pergunta da pesquisadora: E quando ele ia na bodega a senho- ra acompanhava?). Lá na bodega, o que é que eu ia cheirar lá na bodega? (riso). (Ana, 68 anos) Portanto, nota-se que as gerações de mulheres idosas entrevis-tadas mantiveram um certo padrão de dependência em relação aomarido e estiveram mais restritas às esferas domésticas, tanto em rela-ção ao trabalho como no lazer. Hoje, contudo, observa-se que fatorescomo as mudanças no ser mulher no contexto rural e os discursos acercado envelhecimento estão contribuindo para que as mulheres mais ve-lhas estejam conseguindo construir um espaço público exclusivo paraas suas interações e de produção de suas identidades: o grupo de con-vivência para terceira idade.O espaço público das mulheres Observa-se que as mulheres “velhas–jovens” do contexto pes-quisado estão construindo, hoje, o seu espaço público de atuação: o grupode terceira idade. Um espaço extrafamiliar onde as mulheres mais ve-lhas, casadas ou viúvas, podem experienciar situações não vividas an-teriormente, representando assim, momentos de liberdade e prazer.“Na época não tinha, que nem agora tem vamos dizer o Dati. As mulher já vãoe os marido ficam né. E na época não tinha isso aí né. Então, era sempre junto,sempre junto” (Isabel, 51 anos). Observa-se que a coordenadora assume um papel chamado porVelho (1994) de mediadora cultural no sentido de ser alguém que estápropagando discursos que estão transformando maneiras de ser nocontexto pesquisado. Neste caso específico, percebe-se o tom própriodo discurso gerontológico sobre a diversão na terceira idade. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 175. 182 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Doll E daí eu comecei a chamar também as viúvas, e daí começaram a dançar, a participar e daí não pararam mais. E daí hoje tu viu né, elas são alegres, elas dançam, elas dançam umas com as outras porque daí, elas não têm o seu par. (Coordenadora do Dati Bela Vista referindo- se à origem do grupo) Assim, observou-se que o grupo é um espaço público onde asmulheres mais velhas, através de práticas de atividades físicas nos en-contros dos grupos, através da participação nos bailes para a terceiraidade nos finais de semana e através de viagens e excursões podemmanter-se distantes da imagem tradicional da velhice e viver “ativa-mente” seu envelhecimento. Uma das raízes da importância atribuída ao envolvimento ativocom a vida é o discurso gerontológico da atividade, que propõe quequanto maior o envolvimento dos idosos em atividades, maior a suasatisfação com a vida. Esse é um discurso prescritivo, na medida em quevincula qualidade de vida na velhice à adoção de certos tipos de práticasde sentir, de agir, de pensar (Barros e Castro, 2002). Portanto, o grupoenquanto espaço de interação entre as pessoas, é também um lugar emque circulam discursos que ensinam aos sujeitos outras maneiras pos-síveis de se comportar e de se viver.E os novos relacionamentos? O grupo, na condição de um espaço de exercício de novas prá-ticas sociais, libera a mulher para viver novas experiências na sua viuvez.Novas imagens são criadas, como, por exemplo, da viuvez alegre e ativa,as quais se contrapõem à figura da mulher viúva de respeito restrita aodomínio privado e aos cuidados da família. Observam-se, entretanto, algumas resistências por parte dasviúvas em envolver-se com outros homens. Assim, nota-se que o antigodiscurso da mulher respeitosa, lembrando o estereótipo da viúva ideal(Cavallo e Warner, 1999), que mantinha a memória do falecido esposoe vivia como uma perpétua esposa, ainda está presente e pode ser exem-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 176. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 183plificado pela prática das mulheres dançarem com mulheres nos bailesda terceira idade. Dessa forma, é nessa arena de discursos que a mulherconstrói sua identidade de velha e viúva. Mas eu danço só com mulher, com homem nunca dancei. A gente acho que se sente, não sei. Eu se vou dançar com um homem, acho que me sinto assim com vergonha. Eu não sei, eu sou uma pessoa assim que parece que eu sinto assim vergonha ainda né. (Raquel, 58 anos) As mulheres, quando entrevistadas, tanto da geração das “ve-lhas-velhas” quanto das “velhas-jovens”, demonstraram o seu desinte-resse em viver uma relação de casamento novamente. Observam-sediferentes razões atribuídas por elas à escolha de não casar, dentre elas:respeito ao esposo falecido, receio de repetir experiências negativas,perda da liberdade conquistada, resistência dos filhos, questão de poderem relação aos filhos.As relações familiares Na maioria das vezes, as mulheres viúvas moram com um dosfilhos homens, na mesma casa, porém com peças independentes e de-monstram-se satisfeitas com essa condição de vida. Elas, em seus dis-cursos, revelam que se sentem seguras e protegidas com a proximidadedos filhos e noras. Com a situação da viuvez ocorrem também mudanças no quetange ao trabalho e à renda da mulher nesse contexto rural. A mulherviúva passa a receber a pensão do esposo e sua aposentadoria. Na maioriadas vezes, após o falecimento, a família providencia o inventário. Assim,dividem as terras e, geralmente, os filhos passam a cultivar as terraspertencentes à viúva e pagando a ela o arrendamento. Observa-se queessa situação gera um empoderamento da viúva, que passa a ter a suaparte de terra, assumindo um importante papel na família. “Aí eles fi-zeram lá até que tô viva eu que mando né. Mas cada um tem o pedaço dele lá.Até que eu tô viva eu que mando. (...) Eles tão me pagando um arrendamen-tozinho né” (Eunice, 63 anos). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 177. 184 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Doll Pode-se pensar que a ligação entre essas mulheres e seus filhosbaseia-se em uma relação de troca entre dar e receber. O equilíbrio darelação da viúva com a família parece estar fundamentado no tripéformado pelos seguintes fatores: morar com o filho e a nora e receberatenção e cuidado, arrendar suas terras para o filho cultivar e, ainda,auxiliar no cuidado dos netos. A família, dessa forma, pode ser enten-dida como uma importante rede de suporte social.Aprender a ir ao banco Em algumas questões, a viuvez leva a uma aprendizagem forçada,pois é preciso aprender a desempenhar novos papéis que antes eram desem-penhados pelo companheiro. Aprender a lidar com questões financeiras foium dos principais papéis novos assumidos pelas mulheres viúvas. Esse fatoestá relacionado ao próprio padrão do relacionamento conjugal, em que odinheiro era administrado exclusivamente pelos homens. Eu tive de aprender a lidar no banco, que eu não sabia né. (riso). Daí eu tive que começar a lidar. Mas gente, eu me sentia mal, eu nunca lidei com isso antes. E daí lidar com bloco, essas coisa né, também. Tive de aprender a lidar. Com firma, essas coisa, tu vai lá vender, tu vai lá entregar, tu vai tudo, eu tive de aprender. Hoje eu já tenho o filho que faz né, mas eu tive de aprender. Coisa que eu não sabia, não tinha nem idéia né. Porque eu era aquela descansada né. E a mulher eu acho que não pode ser assim, tão dependente né. Não pode. (Isabel, 51 anos) Portanto, apesar da dificuldade em aprender certos papéis erealizar novas atividades em sua vida, percebe-se que a mulher tem aoportunidade de assumir uma posição de poder em um novo espaço.Muitos relatos sobre as mudanças em suas vidas depois da perda dosesposos remetem ao prazer de administrar seu dinheiro de acordo comas suas vontades. Assim, pode-se caracterizar a aprendizagem de serviúva nesse grupo como um processo, muitas vezes sofrido, de desen-volvimento de novas habilidades, porém significante de liberdade eautonomia para a mulher numa etapa tardia de sua vida.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 178. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 185Considerações A situação da viuvez traz a necessidade de a mulher adaptar-seà vida sem o esposo, tanto em termos práticos, como de identidade.Essas aprendizagens são mediadas pela ação dos diferentes discursosque perpassam a comunidade e podem ser identificados com o discursodo imigrante italiano, o discurso da viúva tradicional, o discurso do grupopara a terceira idade, entre outros. Também importante é o fato que as mulheres entrevistadasaprendem a ser velhas e viúvas em um cenário de mudanças do modode produção rural, que alteram as maneiras de ser mulher e de seusrelacionamentos, e de surgimento de novos discursos sobre o envelhe-cimento e de significados atribuídos a essa etapa da vida. Assim, per-cebe-se que através desses discursos as viúvas definem e constroem a suarealidade social. As duas gerações de mulheres entrevistadas revelaram aspectosdiferentes no que toca à vivência do envelhecimento e da viuvez. Otrabalho marcou mais fortemente a velhice das “velhas-velhas”. Já odiscurso da atividade e diversão está mais presente nas narrativas das“velhas-jovens”. O discurso promovido pelo grupo de convivência, percebidocomo espaço público e exclusivo das mulheres, prescreve a atividade ea diversão como elementos de bem-estar. Assim, apresentam-se novaspossibilidades de viver a viuvez e a velhice, embora outros princípiosgeradores das condutas ainda estejam presentes, produzindo um cam-po de forças entre discursos antigos, que aparecem marcados pela cul-tura dos imigrantes, e discursos novos, que assinalam as mudanças nomeio de produção rural, além do surgimento do discurso científicogerontológico. Esses novos discursos não são simplesmente promovidos e ditos,mas eles carregam os elementos da normatização e da cobrança, perso-nificados na figura da coordenadora do grupo. Portanto, as mulheresinterpretam e vivem uma situação nova enquanto prazerosa porque odiscurso as autoriza. Mais do que autorizar, ele pode cobrar que elas revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 179. 186 Caroline Stumpf Buaes e Johannes Dollsintam prazer e assim criam-se as expectativas de sentimentos, atitu-des, comportamentos e valores. Criam-se novas “verdades” onde osentimento de prazer parece quase uma obrigação. Assim, a partir do jogo de significações que se estabelece partin-do do conflito entre os discursos que circulam na comunidade, observa-se a produção de elementos que estruturam e dão sentido à vivência daviuvez. Dentre eles destacam-se as relações de autoridade e dependên-cia construída nas famílias, as aprendizagens a partir de novas convi-vências e a constituição de uma maior autonomia e liberdade.ReferênciasALL, S. (1997). A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação e Realidade, v. 22, n. 2, pp. 15-46.BARROS, R. D. B. e CASTRO, A. M. (2002). Terceira Idade: o discurso dos experts e a produção do “novo velho”. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 4, pp. 113-124.BERGER, P e LUCKMAN, T. (2004). A construção social da realidade: . tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis, Vozes.BOWLBY, J. (1997). Formação e rompimento de vínculos afetivos. São Paulo, Martins Fontes.BRITTO DA MOTTA, A. (2002a). “Viúvas alegres: uma nova/velha geração”. In: COSTA, A. A. A. e SARDENBERG, C. M. B. Feminismo, ciência e tecnologia. Salvador, Redor/NEIM-FFCH/ UFBA.____ (2002b). Viúvas: o mistério da ausência. Paper apresentado durante a 23ª Reunião Brasileira de Antropologia. Gramado, RS. (mimeo).BRUMER, A. (1996). “Mulher e desenvolvimento rural”. In: PRE- SEVELOU, C.; ALMEIDA, J. A. e ALMEIDA, F. R. (orgs.). Mulher, família e desenvolvimento rural. Santa Maria, Ed.UFSM.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 180. Aprender a ser viúva: narrativas de mulheres idosas no meio rural 187BRUMER, A. (1999). “Qual a vocação produtiva da agricultura fa- miliar? Globalização, produção familiar e trabalho na agricul- tura”. In: TEDESCO, J. C. Agricultura familiar: realidades e perspectivas. Passo Fundo, EDIUPF.BRUMER, A. e GIACOBBO, E. O. (1993). A mulher na pequena agricultura modernizada. Humanas, v. 16, n. 1, pp. 139-165.CAVALLO, S. e WARNER, L. (eds.) (1999). Widowhood in Medieval and Early Modern Europe. Nova York, Pearson Education.DOLL, J. (2002). “Luto e viuvez na velhice”. In: FREITAS, E. V de;. PY, L.; NERI, A. L.; CANÇADO, F. A. X.; GORZONI, M. L. e ROCHA, S. M. de (orgs.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.FALCÃO, T. M. L. (2003). Dor sofrimento, dor encantamento: retratos de vidas – ser viúva em camadas médias pernambuca- nas. Dissertação de mestrado, PPGA. Recife, UFPB.FREUD, S. (1974). “Luto e melancolia”. In: Obras Completas. Rio de Janeiro, Imago.HOONAARD, D. K. van den (2001). The widowed Self: the older woman’s journey through widowhood. Ontario, Wilfrid Lauviur University Press.IBGE (2002). Censo Demográfico 2000. Resultado do Universo, CD- ROM.KLASS, D.; SILVERMAN, P. R. e NICKMAN, S. (1996). Continuing Bonds. New Understanding of Grief. Washington/London, Taylor and Francis.LARROSA, J. (1994). “Tecnologias do eu e educação”. In: SLVA, T. T. (org.). O sujeito da educação: estudos foucaultianos. Petrópolis, Vozes.MERTZ, M. (2004). A agricultura familiar no Rio Grande do Sul – um sistema agrário “colonial”. Ensaios da FEE, v. 25, n. 1, pp. 277-298.MINAYO, M. C. de S. (1998). O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 5 ed. São Paulo, Hucitec. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 181. 188 Caroline Stumpf Buaes e Johannes DollPARKES, C. (1996). Bereavement: studies of grief in adult life. Londres, Routledge.SCHNEIDER, S. e NAVARRO, Z. S. (2000). “Emprego agrícola e novas formas de ocupação no Rio Grande do Sul: uma análise a partir dos dados das PNADs de 1981 a 1997”. In: CAMPANHOLA, C. e SILVA, J. F. G. (orgs.). O novo rural bra- sileiro: uma análise estadual: Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Jagua- riúna, Embrapa Meio Ambiente.STROEBE, W. e STROEBE, M. S. (1992). “Bereavement and Health: Processes of Adjusting to the Loss of a Partner”. In: MONTADA, L. et alii (orgs.). Life Crisis and Experiences of Loss in Adulthood. Hilsdale, Lawrence Erlbaum.STROEBE, M. et alii (1996). “Broken Hearts or Broken Bonds?” In: KLASS, D.; SILVERMAN, P. e NICKMAN, S. (orgs.). Continuing Bonds: new understandings of grief. Washington, DC, Taylor&Francis.TAMBARA, E. A. C. (1985). RS: modernização e crise na agricultura. Porto Alegre, Mercado Aberto.VELHO, G. (1994). Projeto metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro, Zahar.WORDEN, W (1998). Terapia do luto: um manual para os profissionais . de saúde mental. 2 ed. Porto Alegre, Artes Médicas.Data de recebimento: 30/4/2005; Data de aceite: 8/7/2005.Caroline Stumpf Buaes – Psicóloga, mestre em Educação (UFRGS). E-mail:carolinebuaes@ig.com.brJohannes Doll – Pedagogo, doutor em Filosofia (Universidade Koblenz-Landau,Alemanha), Professor adjunto da Faculdade de Educação da UFRGS, coordena-dor do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento. E-mail:jdoll@ufrgs.brrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 171-188
  • 182. As imagens da velhice em diferentes grupos etários: um estudo exploratório na população portuguesa Liliana Sousa Margarida CerqueiraRESUMO: Este estudo exploratório procura evidenciar as imagens da velhice emdiferentes faixas etárias. A amostra envolve 120 sujeitos de quatro grupos etários:muito-idosos, idosos-jovens, adultos e jovens. Solicitou-se aos inquiridos que com-pletassem três frases: uma pessoa velha é; a velhice é; sabemos que alguém está velho quando.Os resultados indicam que as imagens tendem a ser mais negativas entre os deidosos, as imagens comuns são uma “fase normal da vida”, “desânimo e vulnera-bilidade” e “incapacidade”.Palavras-chave: velhice; envelhecimento; imagens.ABSTRACT: This exploratory study aims at describing the age images of old persons alongdifferent age groups. The sample comprises 120 subject from 4 age groups: young, adults,young-old and very old. Respondents were asked to complete 3 sentences: an old person is; oldage is; we know that someone is old when. Main findings show that: negative images pre-dominate among the older; the more transversal images are a “normal phase of life”, “sadnessand vulnerability” and “incapacity and dependency”.Key-words: ageing; old age; images.Introdução Ageism (ou idadismo) designa o processo de discriminação basea-do na idade cronológica (Butler, 1969), o qual resulta, na maioria dasvezes, numa imagem das pessoas idosas como improdutivas, doentes e revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 183. 190 Liliana Sousa e Margarida Cerqueiradeprimidas (Palmore, 1999). Esta forma de enviesamento, tal comooutras, que desvalorizam e estereotipam grupos de pessoas, tem umimpacto profundo nas interacções sociais, influenciando de forma(en)coberta as atitudes e percepções sociais (Bytheway, 1995). De facto,o uso de imagens negativas em relação à velhice e ao envelhecimentopromove a formação de atitudes negativas para com os idosos, afecta avivência da velhice pelos idosos e, igualmente, a forma como os sujeitosde outras idades encaram a futura velhice (Kite e Johnson, 1988). A investigação nesta área foi inicialmente baseada na assunçãode que as imagens negativas eram generalizadas. Todavia, tem-se de-monstrado que as imagens tendem a ser multi-dimensionais, englo-bando elementos positivos e negativos (Hummert, 1990). Em relaçãoà forma como as imagens da velhice e do envelhecimento são influen-ciadas pela idade, os dados mais recentes revelam diminuição da distân-cia na avaliação de grupos de idosos versus jovens (Kite e Jonhson, 1988). Em Portugal têm sido realizados alguns estudos centrados nasimagens/estereótipos que os jovens têm dos idosos (cf. Simões, 1985,1990; Neto, Raveau e Chiche, 1989; Neto, 1992), no entanto, poucose conhece acerca das imagens de indivíduos de várias faixas etárias emrelação ao envelhecimento; além disso, como as imagens variam como tempo (social), a sua actualização é necessária. As imagens referem-se às representações a partir da aparênciaexterna de um sujeito ou grupo de sujeitos e relacionam-se proxima-mente com os estereótipos, que são simplificações das imagens (Fea-therstone e Hepworth, 1996). Este estudo exploratório pretendeidentificar as imagens de sujeitos de vários grupos etários em relação àvelhice e ao processo de envelhecimento e contribuir para repensar asformas de promover o bem-estar dos idosos, removendo algumas bar-reiras relacionadas com as imagens.As imagens sociais da velhice e do envelhecimento As pessoas tendem a automaticamente categorizar os outros emtorno de três características: raça, sexo e idade (Kunda, 1999). De facto,revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 184. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 191a idade é um dos aspectos mais imediatos que se vê nos outros, por isso,de forma mais ou menos consciente, determina a interacção, pois atra-vés dela inferem-se competências sociais e cognitivas, crenças religiosase capacidades funcionais (Cuddy e Fiske, 2002). O termo ageism foiintroduzido por Butler (1969) para descrever a estereotipagem e oenviesamento negativo em relação às pessoas idosas. De facto, é inegá-vel que o envelhecimento é acompanhado por um conjunto de limita-ções, principalmente, o declínio das capacidades motoras e sensoriais.Contudo, existem igualmente aspectos positivos, tais como a matu-ridade, sabedoria e experiência de vida. O inconveniente está em queas imagens da velhice e do envelhecimento tendem a assentar numasobre-generalização e numa sobre-estimação das incapacidades dosidosos. É interessante verificar que as imagens, crenças, estereótipos ediscriminação baseados na idade cronológica apresentam característi-cas específicas que os diferenciam de outros tipos de discriminação, taiscomo o racismo ou o sexismo. Em geral, as pessoas não mudam o gé-nero, raça ou etnia, mas todos avançam na idade e, quase todos, serão,um dia, idosos. Além disso, as diferenças em relação a essas outras for-mas de discriminação assentam, desde logo, na ausência de consensosobre o conceito de velhice, isto é, sobre se deve ser definida pela idadecronológica, idade funcional ou em termos de acontecimentos de vidasignificativos (tais como a reforma ou a viuvez). De facto, qualquerpessoa que tenha sorte virá a ser idoso, ou seja, as pessoas que são do out-group (não-velhos) virão a integrar o in-group (velhos), além disso, osidosos (in-group) já fizeram parte do out-group (não-velhos). Talvez por isso o ageism seja, tendencialmente, implícito, pois nãohá grupos que rejeitam os idosos e os perseguem (como tem ocorridoentre raças ou religiões). Assim se gera um contexto de ausência derejeição explícita em relação aos idosos e de aceitação global de senti-mentos e crenças negativas sobre eles, o que torna o ageism num fenó-meno particularmente importante de estudar e analisar (Levy e Banaji,2002). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 185. 192 Liliana Sousa e Margarida Cerqueira Em Portugal a problemática das imagens da velhice e do enve-lhecimento já tem sido abordada: Simões (1985) abordou os estereóti-pos em relação às pessoas idosas numa população de jovens adultos eadultos; Neto, Raveau e Chiche (1989) estudaram as representações davelhice junto de jovens do ensino secundário; Neto (1992) estudou osestereótipos de estudantes universitários em relação a jovens e idosos.Complexidade e multidimensionalidade das imagensda velhice e do envelhecimento Desde que o fenómeno do envelhecimento da população se tor-nou relevante que vários estudos se têm debruçado sobre as imagens,estereótipos, crenças e discriminação baseadas na idade cronológica. Osestudos menos recentes indicavam que as imagens em relação aos ve-lhos eram negativas (descrevendo-os como dementes, inúteis, isolados,pobres e deprimidos) e partilhadas por todos os grupos etários(Tuckman e Lorge, 1953). No entanto, tem-se vindo a salientar a di-versidade das imagens e atitudes em relação ao envelhecimento e àspessoas idosas (Brubaker e Powers, 1976). Lutski (1980) consideramesmo que não se pode concluir pela existência do ageism, uma vez queas atitudes em relação à velhice e ao envelhecimento são, de formaconsistente, mais neutras ou positivas do que negativas. Nos anos 1980emergiram estudos que evidenciam que as imagens em relação à velhicee ao envelhecimento ultrapassam a simples enumeração de traços po-sitivos e negativos e se evidenciam em sub-categorias. Brewer, Dull e Lui (1981) definiram três subtipos: a avó (amiga,serena e de confiança); o elder statesman (inteligente, competitivo, agres-sivo e intolerante); o cidadão idoso (solitário, antiquado, frágil e preo-cupado). Schmidt e Boland (1986) encontraram 12 sub-tipos deimagens de idosos, oito negativas (pessimista, moderadamente incapa-citado, vulnerável, severamente incapacitado, miserável, recluso, vizinhobarulhento e vagabundo) e quatro positivos (conservador, patriarca/matriarca liberal, avô perfeito e sábio). Mais tarde, Hummel (1995)identifica três imagens distintas da velhice: duas associadas às pessoasrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 186. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 193velhas em geral – a imagem da velhice ingrata (conotação negativa) ea imagem da velhice desabrochada (conotação positiva); a outra ima-gem somente associada a um tipo específico de pessoa idosa – avó. Em suma, a investigação sugere que as imagens da velhice e doenvelhecimento são complexas e multi-dimensionais (Hummert, 1999;Lutsky, 1980). Parece, também, consensual que existem imagens quediferenciam os idosos dos adultos, nomeadamente, que a idade reduza atractividade e a competência (Cuddy e Fiske, 2002).Imagens da velhice e do envelhecimentoem diferentes grupos etários Os estudos menos recentes indicavam que quanto mais novosfossem os indivíduos mais atitudes negativas teriam em relação aosidosos (Lutsky, 1980). Porém, pesquisas posteriores não confirmam essaideia: nuns casos não indicam diferenças etárias (cf. Bailey, 1991;Harris, Page e Begay, 1988); noutros indicam que os idosos têm ima-gens mais favoráveis em relação à velhice do que os jovens (cf. Jacksone Sullinvan, 1988); noutros casos os idosos são mais negativos. A investigação tem-se desenvolvido, essencialmente, em duaslinhas: que imagens os não-idosos têm da velhice; como as pessoas idosaspercepcionam a velhice. Comecemos por analisar como os elementos de não-idosos vêema velhice e o envelhecimento. Cuddy e Fiske (2002), através duma revisãoda literatura (na maioria desenvolvida nos EUA), propõem que essasimagens se organizam em duas grandes dimensões: competente (inde-pendente e capaz) e afectuoso (sincero, amistoso, confiável). Estas di-mensões dão origem a três imagens por parte dos não-idosos em relaçãoaos idosos: afectuoso e incompetente; competente e frio; incompetentee frio. A imagem de afectuoso e competente não emerge, pois normal-mente é reservada aos membros do in-group. Alguns estudos concentraram-se em analisar se as pessoas velhassão mais favoráveis em relação ao envelhecimento do que os mais jo-vens. Há vários tipos de resultados, alguns indicam que essa ideia se revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 187. 194 Liliana Sousa e Margarida Cerqueiraverifica (Berg e Sternberg, 1992), outros não encontram diferençasetárias (Bailey, 1991), outros indicam que os mais novos têm atitudesmais positivas (Rothbaum, 1983). Os resultados são ambíguos, nãopermitindo chegar a uma conclusão ou, então, significam que as váriaspossibilidades podem ocorrer. Chasteen (1999) considera que algumas destas ambiguidadesderivam de questões metodológicas, nomeadamente, porque a maioriados estudos se centram em pessoas não idosas e, principalmente, por-que pedem para comparar as imagens de jovens e idosos. Neste últimocaso, atendendo à valorização da juventude, os dados acabam por su-gerir que se associam traços negativos aos idosos e positivos aos jovens(Perdue e Gurtman, 1990). Segundo Hummert et alii (1994) os idosose os jovens concordam, em geral, com as imagens da velhice e do en-velhecimento, contudo os idosos listam mais subcategorias do que osjovens.Objectivos e metodologia Este estudo exploratório pretende caracterizar as imagens davelhice e do processo de envelhecimento em diferentes faixas etárias.Uma vez que as imagens são multidimensionais e tendem a ser implí-citas, decidimos captá-las com base em três frases que os inquiridosdeveriam completar: Uma pessoa velha é… (personaliza a imagem doidoso); A velhice é… (procura despessoalizar a imagem); Sabemos quealguém está velho quando… (incide no processo de envelhecimento). Noconjunto, essas três questões permitem obter uma imagem global davelhice e do envelhecimento. Este questionário foi administrado por autopreenchimento,apenas no caso de sujeitos analfabetos a administração se efectuou porentrevista. Os dados foram recolhidos junto de uma amostra de conve-niência composta por 120 sujeitos (67,3% do sexo feminino), 30 decada uma das faixas etárias seguintes: 15-25 anos (jovens); 35-45 anos(adultos); 55-65 anos (idosos-jovens); 76-85 anos (muito-idosos). Aonível da escolaridade verifica-se que: 9.2% nunca frequentaram arevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 188. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 195escola; 30.8% possuem o 1º ciclo do ensino básico ou equivalente;11.6% possuem o 2º ou 3º ciclo do ensino básico ou equivalente; 14.2%têm o ensino secundário; 34.2% apresentam ensino superior. O processo de análise dos dados compreendeu duas fases: a de-finição das categorias e a classificação das respostas nessas categorias.A criação das categorias realizou-se através de um processo interactivode sucessivo refinamento, envolvendo dois juizes independentes. Cadaum deles leu todas as respostas e desenvolveu uma lista de categorias;em seguida os dois juizes compararam e discutiram as categorias, atéchegarem a um acordo (Quadro 1). Quadro 1 – Identificação das categorias e descrição Categoria Descrição Incapacidade e dependência Cansaço, não poder trabalhar, limites físicos e psíquicos, estar esquecido, precisar de ajuda e cuidados e ser inútil Fase normal da vida Ter muita idade e ser mais um período da vida com características específicas Desânimo e vulnerabilidade Tristeza, ausência de vontade de viver, associação à morte, solidão, necessidade de carinho e atenção e fragilidade Sabedoria Experiência de vida, maturidade, bom conselheiro, inteligência e ser um membro importante da sociedade Doente Doença, ter pouca saúde, ter dores e dormir mal Aspectos físicos Elementos de um corpo envelhecido, tais como ter cabelos brancos, rugas e estar acabado Aborrecido e antiquado Ter muitos hábitos e rotinas, impaciência e não evoluir Estado de espírito Sentir-se velho Estorvo e estar abandonado Ser abandonado pela família, um obstáculo para a sociedade e família, um peso e estar a mais Viver no passado e ser Saudosismo, ausência de projectos de vida, viver retrógrado de recordações e já ter dado o seu contributo à sociedade Momento feliz para Existência de muito tempo livre, tranquilidade, aproveitar a vida prudência, serenidade, tolerância e alegria revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 189. 196 Liliana Sousa e Margarida Cerqueira Na segunda fase outros dois juizes classificaram as respostas,sendo que cada resposta devia ser classificada em todas as categorias aque fazia referência. A estes juizes foi entregue a lista das categorias,acompanhada da definição (Quadro 1) dos critérios de inclusão e deexemplos. Após cada juiz ter classificado independentemente as respos-tas, os dois juizes juntaram-se para discutir os (des)acordos. Verificou-se que houve concordância em 87% das respostas. Finalmente, foramdiscutidas as situações em que não havia acordo, que levou à concordân-cia em todos os casos.ResultadosUma pessoa velha é… No global, as categorias que mais se destacam são (Quadro 2):“incapacitada e dependente”, “vive uma fase normal da vida”, “desani-mada e vulnerável” e “sábia”. É, ainda, de destacar que em média ossujeitos associam esta questão a duas categorias (mínimo 1; máximo 5).Em termos etários verifica-se que em todos os grupos etários se salien-tam as mesmas imagens (sabedoria, desânimo e vulnerabilidade, fasenormal da vida e incapacitada e dependente), mas com hierarquiasdiferentes. Assim, a sabedoria é mais destacada pelos jovens e a suarelevância decresce ao longo dos grupos etários; a incapacidade e de-pendência, tal como o desânimo e vulnerabilidade incidem mais entreos muito-idosos e decresce à medida que a idade diminui; tratar-se deuma fase normal da vida segue um trajecto menos claro, incide maisentre os muito-idosos, seguindo-se os adultos, os jovens e, por fim, osjovens-idosos. É, ainda, de referir que são os jovens que mais associama imagem de uma pessoa velha com elementos do aspecto físico, pelocontrário são os muito idosos que menos associam a essa categoria.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 190. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 197 Quadro 2 – Categorias para uma pessoa velha é… (%) Idosos Muito Jovens Adultos Total jovens idosos Incapacitada e 26,7 33,3 46,7 63,3 42,5 dependente Vive uma fase 30 40 43,3 50 40,8 normal da vida Desanimada e 33,3 40 26,7 43,3 35,8 vulnerável Sábia 53,3 36,7 26,7 20 34,2 Doente 20 10 13,3 13,3 20 Fisicamente velha 23,3 6,7 13,3 3,3 11,7 Aborrecido e 13,3 10 13,3 10 11,7 antiquada Tem um estado de 6,7 13,3 6,7 13,3 10 espírito velho Um estorvo e está 0 13,3 16,7 6,7 9,2 abandonado Vive no passado e 10 3,3 6,7 0 5 é retrógrada Momento feliz para aproveitar a 0 3,3 6,7 0 2,5 vida 2,2 2,3 2,2 2,2 2,2 Médias (n=65) (n=70) (n=66) (n=67) (n=268)A velhice é… Em geral, os inquiridos consideram que a velhice é uma fasenormal da vida (70%) (Quadro 3). A segunda categoria mais referidaapresenta uma percentagem muito aquém da anterior, trata-se de “in-capacidade e dependência” (17,5%). A imagem da velhice associa-se,em média a 1,4 categorias (mínimo – 1; máximo – 4). Ao nível dos grupos etários esta tendência mantém-se, a velhiceé vista como uma fase normal da vida alcançando entre os idosos jovensa maior incidência (96,7%) e entre os muito idosos a mais baixa (46,7%).A segunda categoria que emerge nos vários grupos etários é “incapa-cidade e dependência”, que assume valores mais elevados entre os adul-tos (23,3%) e mais baixos entre os jovens (10%). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 191. 198 Liliana Sousa e Margarida Cerqueira Quadro 3 – Categorias em a velhice é … (%) Idosos Muito Jovens Adultos Total jovens idosos Uma fase normal 70 66,7 96,7 46,7 70 da vida Incapacidade e 10 23,3 16,7 20 17,5 dependência Ser um estorvo e 6,7 16,7 10 6,7 10 estar abandonado Desânimo e 10 6,7 0 16,7 8,3 vulnerabilidade Doença 3,3 3,3 16,7 6,7 7,5 Sabedoria 10 10 3,3 3,3 6,7 Um estado de 10 6,7 3,3 3,3 5,8 espírito Momento feliz para aproveitar a 10 13,3 3,3 3,3 7,5 vida Viver no passado e 6,7 3,3 0 3,3 3,3 ser retrógrado Revela-se no 3,3 3,3 3,3 0 2,5 aspecto físico Ser aborrecido e 0 0 3,3 3,3 1,7 antiquado 1,4 1,5 1,6 1,1 1,4 Médias (n=42) (n=46) (n=47) (n=34) (n=172)Sabemos que alguém está velho quando … Em geral, a imagem mais associada a sabemos que alguém está velhoquando … é a de incapacidade e dependência, seguida de ficar desani-mado e vulnerável, ter um aspecto físico correspondente e viver maisuma fase da vida (Quadro 4). Ao nível dos diferentes grupos etáriosverifica-se que: a imagem de incapacidade e dependência se destaca emtodos os grupos etários, embora com maior incidência entre os muito-idosos; a imagem de desânimo e vulnerabilidade ocupa a segundaposição, sendo superior entre os mais jovens, seguidos dos adultos, dosmuito-idosos e dos idosos-jovens; a imagem de ter um aspecto físicoenvelhecido é a terceira, destacando-se nos jovens, seguidos dos muito-idosos e dos adultos e jovens-idosos.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 192. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 199 Quadro 4 – Categorias para sabemos que alguém está velho quando… (%) Idosos Muito Jovens Adultos Total jovens idosos Está incapacitada 56,7 40 46,7 66,7 52,5 e dependente Fica desanimado e 36,7 30 23,3 26,7 29,2 vulnerável Tem o aspecto físico 40 20 20 23,3 25,8 correspondente Vive mais uma 16,7 23,3 30 30 25 fase da vida É aborrecido e 23,3 13,3 6,7 0 10,8 antiquado Está doente 3,3 16,7 13,3 3,3 9,2 Pelo seu estado de 0 10 6,7 13,3 7,5 espírito Vive um momento feliz e 6,7% 3,3 3,3 0 3,3 aproveita a vida Tem sabedoria 6,7 3,3 0 0 2,5 Vive no passado e 3,3 3,3 3,3 0 2,5 é retrógrado É um estorvo e 3,3 0 6,7 0 2,5 está abandonado 2,0 1,6 1,6 1,6 1,7 Médias (n=59) (n=49) (n=48) (n=49) (n=205) É, ainda, de salientar que muitas categorias não são mencionadaspelos sujeitos. Entre os muito-idosos, cinco categorias não são referidas:ser aborrecido e antiquado, ter sabedoria, viver no passado e ser retró-grado, ser um estorvo e estar abandonado e momento feliz para apro-veitar a vida. No grupo dos idosos-jovens duas categorias estão nessasituação: ter sabedoria e momento feliz para aproveitar a vida. Entre osadultos duas categorias: momento feliz para aproveitar a vida ser umestorvo e estar abandonado. Nos jovens apenas uma categoria: estadode espírito. Ou seja, as médias de imagens por grupo etário e a consta-tação das imagens que não são mencionadas pelos grupos, indicam-nosque são os jovens que apresentam imagens mais multi-dimensionais. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 193. 200 Liliana Sousa e Margarida CerqueiraDiscussão dos resultadosEstrutura e conteúdo das imagens As categorias que emergem, que podem ser equacionadas comoas dimensões que compõem as imagens, uma vez que elas se revelam quasesempre compostas, apresentam mais dimensões negativas (7), do quepositivas (2 – sabedoria e momento feliz para aproveitar a vida) e neutras(2 – fase normal da vida e estado de espírito). As imagens de cariz negativoemergem como mais complexas e dispersas, enquanto as positivas e asneutras são mais claras e integradas. Os conteúdos envolvidos nas dimen-sões englobam várias áreas: afectiva (tristeza, afectividade), social (anti-quado, incompetência relacional e inutilidade), cognitiva (incompetênciacognitiva, maturidade) e física (dependência, actividade). No entanto,nas categorias positivas as dimensões referidas são essencialmente cogni-tivas (sabedoria) e sociais (momento de aproveitar a vida); as categoriasneutras apresentam essencialmente aspectos desenvolvimentais (fasenormal da vida) e afectivas (estado de espírito). Daqui resulta um conjunto de características das dimensões dasimagens da velhice e envelhecimento: ao nível estrutural encontra-sea multi-dimensionalidade; ao nível do conteúdo as dimensões são multi-facetadas, existindo dimensões positivas e negativas (sendo as negativasmais complexas e mais multi-facetadas). Estes resultados estão de acor-do com um conjunto de dados de investigação (cf. Hummert, 1990;Schmidt e Boland, 1986). Porém, estão em desacordo com algumaspesquisas que sublinham a tendência para que o envelhecimento docorpo represente o processo de envelhecimento (Heikkinen, 2000).Imagens da velhice e do envelhecimento Uma pessoa velha é… incapacitada e dependente, vive uma fasenormal da vida, desanimada e vulnerável, sábia. Uma pessoa velhararamente é alguém que vive no passado e é retrógrada, um estorvo eabandonada, um estado de espírito.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 194. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 201 A velhice é… uma fase normal da vida e raramente é viver nopassado e ser retrógrado, ser um estorvo e estar abandonado, um estadode espírito, ser aborrecido e antiquado, sinónimo de evidenciar aspectosfísicos de um corpo envelhecido, estar doente, sabedoria, desânimo evulnerabilidade. Sabemos que alguém está velho quando… está incapacitado e depen-dente, desanimado e vulnerável; raramente sabemos que alguém estávelho por viver no passado e ser retrógrado, é um estorvo e está aban-donado, tem sabedoria, vive um momento feliz e aproveita a vida, peloseu estado de espírito, estar doente. Sendo que todas as frases propostas aos inquiridos se centram navelhice e no envelhecimento, verifica-se que as respostas variam, aindaque ligeiramente, consoante a frase proposta, acentuando a ideia de queas imagens são multi-dimensionais. Contudo, é possível identificar umelemento comum nas respostas às questões: uma fase normal da vida.Por outro lado, a imagem de incapacidade e dependência e a de desâ-nimo e vulnerabilidade, emergem associadas às frases uma pessoa velhaé… e sabemos que alguém está velho quando… A imagem de sabedoriaapenas se associa à frase uma pessoa velha é… De facto, não se pode negar que o envelhecimento acarreta limi-tações, contudo não generalizável a todos os idosos, aliás de acordo comSousa e Figueiredo (2002) essas limitações ocorrem numa percentagemde cerca de 30% dos sujeitos e já numa fase avançada da velhice (apósos 80 anos). Assim, as imagens da velhice tendem a sobrevalorizaraspectos negativos da velhice. Por outro lado, os aspectos menos associados a qualquer uma dasquestões são: viver no passado e ser retrógrado, ser um estorvo e estarabandonado, estado de espírito e momento feliz para aproveitar a vida.A imagem de sabedoria é aquela que surge ora entre as mais citadas (nafrase uma pessoa velha é…), ora entre as menos referidas (nas outras duasfrases). A sabedoria é apenas valorizada quando os inquiridos se cen-tram numa pessoa velha, não é associada à velhice, nem como um sinalde que se está velho. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 195. 202 Liliana Sousa e Margarida Cerqueira Aliás, as imagens mais negativas surgem associadas à frase sabe-mos que alguém está velho quando…, neste caso os sujeitos têm dificuldadeem identificar aspectos positivos, revelando que os sinais de velhice sãosempre no âmbito da dependência e vulnerabilidade emocional. Talvezeste seja um indício do carácter implícito das imagens (Hummel, 1995),pois enquanto se centra na velhice ou numa pessoa velha a negatividadesurge esbatida ou compensada por aspectos positivos e neutros, quandoo enfoque se dirige aos sinais de entrada na velhice elevam-se os aspectosnegativos. No contexto destes resultados parece que a chegada à velhi-ce corresponde a um momento de perda de capacidades funcionais eisolamento, até aí pode ser vista como mais uma fase da vida. Os dadossugerem alguma contradição nas imagens, uma vez que as imagensassociadas às três questões variam, como se houvesse uma rejeição im-plícita da velhice, acompanhada de hesitação em assumi-la como nega-tiva, uma vez que todos seremos um dia idosos, e muitas pessoas dafamília e amigos de que gostamos estão nessa fase.Imagens da velhice e envelhecimento segundo os grupos etários Uma pessoa velha é… uma fase normal da vida, relevante em todosos grupos etários. O elemento diferenciador mais relevante é que osjovens salientam a sabedoria das pessoas velhas e não realçam a inca-pacitação e dependência, enquanto os adultos salientam a sabedoria,mas associam também a incapacidade e dependência. Por seu lado, osjovens-idosos e os muito-idosos têm imagens assentes na incapacitaçãoe dependência e no desânimo e vulnerabilidade. Os grupos etários maisnovos realçam a sabedoria nas pessoas velhas, que as próprias nãorealçam, como se a vivência da velhice lhe apagasse os aspectos positivos.Heikkinen (2000) realçou que a vivência da velhice se faz, em grandeparte, pelas condições corporais (doenças, dor, problemas de memória,mobilidade e relacionamento social). Provavelmente os jovens-idosos eos muito-idosos têm uma imagem duma pessoa velha próxima destavivência. Os mais jovens, provavelmente, têm mais a imagem das pes-soas idosas como avós, que para os netos representam o saber e a expe-riência de vida (Kornhaber, 1996).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 196. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 203 A velhice é…em todas as faixas etárias a categoria que se salientaé ser uma fase normal da vida. A imagem da velhice parece ser a maisimplícita de todas, quando os inquiridos refugiam-se em associar avelhice a mais uma etapa da vida, apesar de nas outras questões esteaspecto não ser o determinante. Sabemos que alguém está velho quando… Nesse caso são os doisgrupos de idosos que associam saber que alguém está velho a uma fasenormal da vida, para os jovens e adultos associa-se a incapacitação edependência e desânimo e vulnerabilidade. Provavelmente, a imagemda velhice vivida é mais adequada à realidade, uma vez que os idosospodem ter-se a si e aos idosos das suas relações como referência. Para osmais novos, a vivência da velhice é efectuada pela relação com os idosos,comparando-os com a própria vivência, assim os mais novos sentemmais as limitações da velhice, pois estão numa fase em que as compe-tências funcionais são superiores. Apesar das diferenças etárias não serem significativas nota-se umatendência para que os idosos representem a velhice de forma mais ne-gativa que os não-idosos. Nessa fase etária é de prever que um gruposuperior de sujeitos viva situações de dependência e diminuição decapacidades (Sousa e Figueiredo, 2002), desta forma a representação davelhice é afectada pela vivência de perdas.ConclusõesOs principais resultados indicam que: Uma pessoa velha é…, para todos os grupos etários, associada adesânimo e vulnerabilidade e uma fase normal da vida, entre os não-idosos (jovens e adultos) relaciona-se, ainda, com a sabedoria e entre osidosos (idosos-jovens e muito-idosos) liga-se à incapacidade e depen-dência. A velhice é… uma fase normal da vida. Sabemos que alguém estávelho quando…, para todos os grupos etários, demonstra incapacidadee dependência; nos idosos liga-se, igualmente, a ser uma fase normal davida e entre os não-idosos ao desânimo e vulnerabilidade. Assim, as revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 197. 204 Liliana Sousa e Margarida Cerqueiraimagens apresentam alguma consistência entre os vários grupos etá-rios, revelando, contudo, que entre os idosos as imagens negativas ten-dem a predominar. As principais limitações deste estudo centram-se em: a amostraser reduzida; o instrumento utilizado na recolha de dados utiliza aspalavras “velho” e “velhice” que, em geral, têm uma conotação maisnegativa do que “idoso”, provavelmente o uso deste último vocábulopoderia levar à obtenção de outros resultados; assim, seria interessanteanalisar a variação dos resultados com a palavra utilizada. Em termosde perspectivas de pesquisa futura seria interessante: fazer a análise dumaamostra representativa da população; conhecer as diferenças das ima-gens do envelhecimento entre homens e mulheres; fazer estudos lon-gitudinais que permitissem analisar a evolução das imagens sociais davelhice e do envelhecimento; conhecer as implicações das imagens davelhice e envelhecimento na forma como os não-idosos encaram o en-velhecimento.Referências BAILEY, W. (1991). Knowledge, attitude and psychosocial development of young and old adults. Educational Gerontology, v. 17, n. 3, pp. 269-274.BERG, C. e STERNBERG, R. (1992). Adults’ conceptions of intelligence across the adult life span. Psychology and Aging, v. 7, n. 2, pp. 221-231.BREWER, M.; DULL, V. e LUI, L. (1981). Perceptions of the elderly: stereotypes and prototypes. Journal of Personality and Social Psychology, v. 41, n. 4, pp. 656-670.BRUBAKER, T. e POWERS, E. (1976). The stereotype of “old”: a review and alternative approach. Journal of Gerontology, n. 31, pp. 441-447.BUTLER, R. (1969). Age-ism: another form of bigotry. Gerontologist, v. 9, n. 4, pp. 243-246.BYTHEWAY, B. (1995). Ageism. Bristol, Open University Press.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 198. As imagens da velhice em diferentes grupos etários 205CHAASTEEN, A. (1999). The role of age-related stereotypes on response initiation and execution. Journal of General Psychology, n. 2, pp. 137-152.CUDDY, A. e FISKE, S. (2002). “Process, content and function in stereotyping of older persons”. In: TODD, N. (ed.). Ageism. Cambridge, Bradford Books.FEATHERSTONE, M. e HEPWORTH, M. (1996). “Images of Aging”. In: BIRREN, J. (ed.). Encyclopedia of Gerontology. San Diego, Academic Press.HARRIS, M.; PAGE, P e BEGAY, C. (1988). Attitudes toward aging . in a southwestern sample. Psychological Reports, v. 62, n. 3, pp. 735-746.HAUSDORFF, J. (1999). Positive talk about elderly can have an effect on they function. Journal of the American Geriatrics Society, n. 22, pp. 13-28.HEIKKINEN, R-L. (2000). Ageing in autobiographical context. Ageing and Society, n. 20, pp. 467-483.HUMMEL, C. (1995). Images de la vieillesse, représentation de l’altérité. Université de Genève.HUMMERT, M. (1990). Multiple stereotypes of elderly and young adults. Psychology and Aging, v. 5, n. 2, pp. 182-193.____ (1999). A social cognitive perspective on age stereotypes. In: HESS, T. e BLANCHARD-FIELDS, F. (eds.). Social cognition and aging. Nova York, Ac Press.HUMMERT, M.; GARTSKA, T.; SHANER, J. e STRAHM, S. (1994). Stereotypes of the elderly held by young, middle-aged and elderly adults. Journals of Gerontology: Psychological Sciences, n. 49, pp. 240-249.JACKSON, L. e SULLIVAN, L. (1988). Age stereotypes disconfirming informations and evaluations of old people. Journal of Social Psychology, v. 128, n. 6, pp. 721-729.KITE, M. e JOHNSON, B. (1988). Attitudes toward older and younger adults. Psychology and Aging, v. 3, n. 3, pp. 233-244.KORNHABER, A. (1996). Contemporary grandparenting. Nova York, Sage Publications. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 199. 206 Liliana Sousa e Margarida CerqueiraKUNDA, Z. (1990). Social cognition. Cambridge, MIT Press.LEVY, B. and BANAJI, M. R. (2002). “Implicit Ageism”. In: Ageism. Stereotyping and Prejudice against Older Persons. United States. Todd D. Nelson.LUTSKY, N. (1980). “Attitudes toward old age and elderly persons”. In: EISDORFER, C. (ed.). Annual Review of Gerontology and Geriatrics. Nova York, Springer.NETO, F. (1992). Estereótipos etários. Psychologica, n. 8, pp. 81-94.NETO, F.; RAVEAU, F. e CHICHE, J. (1989). Vieillesse et représentations. Cahiers d’Anthropologie et Biométrie Humaine, VII, n. 3-4, pp. 209-228.PALMORE, E. (1999). Ageism: positive and negative. Nova York, Springer.PERDUE, C. e GURTMAN, M. (1990). Evidence for automaticity of ageism. Journal of Experimental Social Psychology, n. 26, pp. 199-216.ROTHBAUM, F. (1983). Aging and age stereotypes. Social Cognition, v. 2, n. 2, pp. 171-184.SCHMIDT, D. e BOLAND, S. (1986). Structure of perceptions of older adults. Psychology and Aging, v. 1, n. 3, pp. 255-260.SIMÕES, A. (1985). Estereótipos relacionados com os idosos. Revista Portuguesa de Pedagogia, v. 19, n. 2, pp. 207-235.____ (1990). Alguns mitos respeitantes ao idoso. Revista Portuguesa de Pedagogia, v. 24, n. 1, pp. 109-121.SOUSA, L. e FIGUEIREDO, D. (2002). Dependence and independence among old persons – realities and myths. Reviews of clinical gerontology, n. 12, pp. 269-273.TUCKMAN, J. e LORGE, I. (1953). Attitudes toward old people. Journal of Social Psychology, n. 37, pp. 249-260.Data de recebimento: 25/5/2005; Data de aceite: 28/7/2005.Liliana Sousa – Professora auxiliar na Secção Autónoma de Ciências da Saúde,Universidade de Aveiro. 3810-193 Aveiro, Portugal. E.mail: lilianax@cs.ua.ptMargarida Cerqueira – Assistente na Escola Superior de Saúde da Universidadede Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal. E-mail: mcerqueira@essua.ua.ptrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 189-206
  • 200. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento Olga Facciolla Kertzman Belkis Vinhas TrenchRESUMO: Neste artigo apresenta-se um recorte da dissertação Velho é o outro!: aexperiência de envelhecimento de usuários do Núcleo de Atenção a Saúde do Idoso, tratandoda vivência etária e da interpretação sobre ser velho e a velhice dada pelos entre-vistados, usuários do Núcleo de Atenção à Saúde do Idoso – Subprefeitura Sé, SP.Os entrevistados referem estar bem com a idade que têm, sugerindo que proble-mática é a velhice e sua representação social e não o envelhecimento. Não se iden-tificando com essas representações, consideram que velho é o outro.Palavras-chave: envelhecimento; idoso; idade; serviço de saúde para idosos;subjetividade.ABSTRACT: This article presents part of the dissertation “Old it´s the other one!”, dealingwith the aging experience and the interpretation about what it means to be old and the oldage from the perspective of the users interviewed, from the Senior´s Health Care Nucleus(Núcleo de Atenção à Saúde do Idoso - Subprefeitura Sé (SP). The people interviewed reportfeeling well with their age, suggesting that the problem is old age and its social representa-tion, not growing old. As they do not identify themselves with such representations, theyconsider old only the others.Key-words: aged; old age; subjectivity; senior’s health services. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 201. 208 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas TrenchIntrodução A velhice e a morte, por serem consideradas tabu em nossa cul-tura, são temas freqüentemente evitados. A carga de representaçõessocioculturais associada a elas é em parte justificada por tocar na cor-poralidade e, conseqüentemente, na finitude humana. A longevidade é uma das conquistas da modernidade, podendoser concebida como recurso ou somente como um problema social. Asobrevivência humana até idades muito avançadas e as mudanças queocorreram no cenário social converteram os idosos, categoria relativa-mente recente, em expressivos sujeitos sociais. Os encargos e a preocu-pação com o envelhecimento, antes restritos ao âmbito da vida privada,deslocaram-se do fórum familiar e caritativo para o debate público. O envelhecimento populacional deu-se de forma desigual nosdiversos continentes: nos países desenvolvidos ele foi acompanhado damelhoria da situação econômica, ao contrário do que vem acontecendona América Latina, onde vem ocorrendo concomitantemente às segui-das crises econômicas e à depauperação da população. Segundo Pèrez(2000) a transição demográfica é um motor de mudanças não só nadistribuição populacional entre as diferentes idades como também nados papéis tradicionais designados a cada sexo. Devido à maior longevidade experimentada em todos os conti-nentes, adentra-se em uma “terra incógnita”, plena de interrogações,implicações e dilemas, território ainda pouco explorado pelas ciênciassociais. Sabe-se que o envelhecer é um processo objetivo e subjetivo aomesmo tempo, regido pela cronologia, pela cultura à qual se pertencee também pela vivência pessoal, estando assim atravessado tanto porintercorrências externas como por internas. O envelhecer não é consi-derado, atualmente, uma experiência homogênea, como era considera-do anteriormente. Hoje é sabido que são várias as modalidades eexperiências de envelhecimento, e as configurações que adquirem asdiferentes “velhices”. O debate das questões que envolvem o envelhe-cimento humano rompeu os limites da geriatria, área biomédica, queabrange a prevenção e as doenças associadas à velhice, e ganhou espaçorevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 202. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 209na gerontologia, campo multidisciplinar, que procura romper os limi-tes do envelhecimento relacionado à doença, estudando-o enquantoprocesso e suas vicissitudes, e também na mídia e nas pesquisas acadê-micas. Mercadante (1997), a partir de uma pesquisa realizada com trêsgrupos díspares de idosos – judeus asilados, freqüentadores do ServiçoSocial do Comércio (Sesc) e “singulares” (sem vínculo institucional) –,concluiu que há diversas formas de ser um sujeito idoso, e que os desafiose as respostas dessa vivência não cabem nos modelos preestabelecidos.As qualidades atribuídas ao idoso são estigmatizantes e contrapostas àsatribuídas aos jovens, tais como a produtividade, a memória, a beleza: (...) os idosos conhecem estes modelos, não o negam socialmen- te, mas como indivíduos singulares não se classificam no mes- mo. Dessa forma, o modelo genérico estigmatizador serve também a eles, para classificar os velhos, mas que são sempre os outros com todas aquelas características pejorativas que foram apontadas. (Mercadante, 1997, p. 4) Segundo Novaes (1997), a velhice como fenômeno não muda aestrutura da personalidade, mas pode acentuar ou amenizar certos tra-ços ou tendências, como as depressivas, paranóicas ou histéricas. Nessesentido, diz-se que envelhecemos como vivemos. Envelhecer não énecessariamente seguir um caminho já traçado, mas, ao contrário,construí-lo permanentemente. O idoso confronta novos desafios, ou-tras exigências, devendo renunciar a uma certa continuidade, sobretu-do biológica, e desenvolver atitudes psicológicas que o levem a superardificuldades e conflitos, integrando limites e possibilidades. Envelhecersatisfatoriamente depende, pois, do delicado equilíbrio entre as limita-ções e as potencialidades do indivíduo, o qual possibilitará lidar, comdiferentes graus de eficácia, com as perdas inevitáveis do envelhecimen-to (Neri, 1995). A pós-modernidade “evidencia um mundo mais flexível, não umcaminho rígido para se viver as diversas fases da vida, mas vários cami- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 203. 210 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trenchnhos alternativos para os indivíduos construírem novas fases, novasetapas de vida, e até negarem a própria idéia de etapas cronológicas”(Mercadante, 1997, p. 28). Os “novos” velhos, queiram ou não, saibamou não, são pioneiros de uma geografia vital até agora pouco explorada.Pioneiros porque não têm antecedentes, não contam com modelos deconduta (Pérez, 2000). Esta parece ser a novidade, não termos mais o script pronto paraos envelhecentes, agora em maior número, em melhores condições desaúde, mental e física, mais reivindicativos e ativos, apontando assimpara necessidade de se reinventar a velhice. É na pós-modernidade quese rompem tradições e certezas são questionadas. Como sugere Juran-dir Costa (2000): (...) o que amedronta não é constatar que as identidades sub- jetivas atuais são contingentes, instáveis, plurais, dispersas, frag- mentadas e baseadas em suportes outros que não a família, o trabalho, a propriedade, o Estado, a nação, a pátria, a etnia, o sentimentalismo, as utopias messiânicas etc. A grande ameaça consiste em fixar o que é fluido, imobilizar o que é móvel, querer prever o imprevisível.As idades Gênero, idade e geração são dimensões fundantes de análise davida social. Como geração, os indivíduos se reconhecem como projeçãocoletiva; a grande realização dos grupos geracionais está na identifica-ção como construtores de cultura, de projetos, de identidades, emmomentos históricos. “As pesquisas sobre grupos de idade mostram,por um lado, que a geração, mais do que a idade cronológica, é a formaprivilegiada de os atores darem conta de suas experiências extrafami-liares” (Motta, 1999, p. 52). A idade não é um dado da natureza, nem um princípio natural-mente constitutivo de grupos sociais, tampouco um fator explicativodos comportamentos humanos (Debert, 1999). Segundo Lloret (1998),os aniversários comemorados desde a infância marcam o passo das ida-revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 204. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 211des. A expressão “uma pessoa de tal idade” designa-a como criança ouvelha, inscrevendo-a em grupos determinados de idades, como pro-priedades de alguns anos, configurando uma imagem complementarda existência: (...) mais do que ter uma idade, pertencemos a uma idade. Os anos nos têm e nos fazem; fazem com que sejamos crianças, jovens adultos ou velhos. E isto, apesar da relativa flutuação das fronteiras culturais, legislativas ou administrativas, nos situa uns aos outros em grupos socialmente definidos. (p. 14) Viver a idade acarreta a preocupação com a normalidade ou odesvio em relação a ela. A idade não é só uma atribuição cronológica,mas também determina expectativas e comportamentos. Sabe-se também que uma idade não elimina a outra, mas a con-tém. Segundo Morin (2003), cada um, ainda que não perceba, carregatodas as idades, presente em todas as idades e o corpo físico não é omesmo várias vezes ao longo da vida. “Cada indivíduo é uno, singular,irredutível. Contudo é, ao mesmo tempo, duplo, plural, incontável ediverso” (p. 82).O espelho É o olhar e a fala dos outros que definem alguém como mais oumenos velho, pois a experiência plena do envelhecimento é irrealizávelem si própria. O dar-se conta da própria imagem envelhecida no espe-lho costuma ser traumático e provoca um estranhamento no indivíduoque se observa. Simone de Beauvoir, em A velhice (1990), refere-se a essaalteridade, ao velho ser considerado como o “outro”, como objeto e comoo outro com quem não há reconhecimento possível. O reconhecimentodo envelhecer é exterior: “olhando mais de perto, o lugar do velho, éocupado por mim, apesar de mim, no olhar de outros mais jovens”(Messy, 1999, p.14). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 205. 212 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trench Quem nunca ouviu pessoas com 70, 80, 100 anos dizerem: “aque-les velhos” ou “com aquelas velhas eu não quero estar”. A imagem davelhice parece sempre estar “fora”, do outro lado, e embora se saiba queé a própria imagem refletida, produz, em quem a vê, uma impressão deinquietante estranheza. “Apavorante porque a imagem do espelho nãocorresponde mais à imagem da memória; a imagem do espelho ante-cipa ou confirma a velhice, enquanto a imagem da memória quer seruma imagem idealizada que remete à familiaridade” (Goldfarb, 1998,p. 53). A estética, associada às marcas externas, anuncia os sinais maisperceptíveis do envelhecimento, e o sujeito assiste, impotente, às mo-dificações corporais. No psiquismo estarão em marcha uma série demecanismos elaborativos destinados a incluir novamente na instânciaegóica esse corpo estranho, na tentativa de uma “retomada” do própriocorpo (ibid.). Segundo Singer (2000), o desacordo do eu com as marcasda presença do passar do tempo no corpo começa a se dar na frente doespelho, “sendo um momento lógico e não cronológico” ou, como res-salta Messy (1999), a velhice se trama nos espelhos. Saúde, juventude e beleza são símbolos associados na culturaatual. Trench (2004) acrescenta que em uma sociedade que necessitaconstantemente diluir o tempo, o ideal de corpo não é longilíneo, nemcurvilíneo e sim um corpo que transgrida as fronteiras do tempo, corposem idade, um corpo atemporal. Sendo assim, “quase ninguém gostade ser chamado de senhor ou senhora, pois é um dos indícios predica-tivos que o processo de envelhecimento está em curso, portanto visívelao olhar do outro” (p. 190). A partir dos anos 70 entram em cena novas terminologias, taiscomo: melhor idade, terceira idade, idade de ouro, na perspectiva depromoverem uma visão positiva em relação ao envelhecimento. Segun-do Debert (1999), o termo terceira idade, surgido na França nos anos70, serviu para relativizar o preconceito, estando associado ao envelhe-cimento ativo e independente. O conceito “idoso” contrapôs-se ao ter-mo “velho”, que restou associado à decadência e decrepitude e seu usopassou a ser politicamente incorreto. A autora considera que a tentativarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 206. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 213de desconstrução da velhice como experiência homogênea é recente naprodução acadêmica, sobretudo na sociologia e antropologia.A pesquisa Visando compreender o processo subjetivo do envelhecimento,em como se dá a experiência dessa etapa da vida, via os sujeitos enve-lhecentes, entrevistei sujeitos com 60 anos de idade ou mais, procuran-do conhecer e interpretar as interpretações dos mesmos sobre ossignificados dados a essas vivências. O recorte da discussão que apresento é resultado da investigaçãofeita, de caráter qualitativo, na qual a técnica de coleta utilizada foi aentrevista semi-estruturada, que obedecia a um roteiro preestabeleci-do. Foram entrevistados seis idosos, de 61 a 88 anos, de ambos os sexos(quatro mulheres e dois homens), usuários do Núcleo de Atenção à Saúdedo Idoso, da Coordenadoria de Saúde da Subprefeitura Sé – SMSSP .Discussão Viu-se que o envelhecer é menos “dramático” como experiênciaindividual do que como categoria e experiência social. Parece que oproblema é a velhice e não o envelhecimento em si, pois, no geral, osentrevistados referem viver bem as suas idades. Os dilemas aparecemnas relações intergeracionais e sociais, nas expectativas, lugares e papéisreservados socialmente aos idosos. Os sujeitos idosos ouvidos têm uma maneira de ser que aparentasemelhanças: são autônomos e independentes, preocupam-se em cui-dar-se, gostam da socialização, são religiosos, apreciam a longevidade,têm prazer de viver. As mulheres dizem estar bem e algumas delas julgam estarmelhor com a idade atual, com a fase que vivem agora, sem enunciaremgrandes mudanças, rupturas no curso de suas vidas relacionadas aopassar dos anos. Para os homens, isso difere à medida que a idade e aaposentadoria, relacionada ao marco etário, acarretam mudanças fun- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 207. 214 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trenchdamentais em suas vidas. Quem vive recentemente essa etapa a percebecomo uma fase de adaptação, transição que demanda esforço paraabsorvê-la. O debate entre ter e ser de uma idade talvez se apresente de formamais complexa na velhice, uma vez que o marco etário – fazer 60 anos– automaticamente designa o sujeito como idoso, como pertencente auma nova categoria, um novo território pleno de estigmas, preconcei-tos e expectativas. Esse marco existe também nas outras etapas, massuas normas e fronteiras já passaram por “revisões” e debates sociais e,na velhice, isso se coloca há poucos anos. Dessa perspectiva, pode-se entender o conflito ao definir-se ve-lho, quando os entrevistados dizem ser “idosos de espírito jovem”, “sen-tir-se bem como idoso”, “para a minha idade, não tenho do quereclamar”. Dentro das normas estabelecidas socialmente para os idosose uma vez cumpridos os 60 anos, eles tentam adaptar-se, mas não sereconhecem como velhos, não se identificam com o modelo imposto e,assim, associam o idoso ao jovem para poder incluir-se (repetindo omodelo contrastivo velho versus jovem). Parece também que há certoespanto ao perceber-se bem, quando isto não era o esperado. O conceito terceira idade permite a inclusão, a identificação comogeração, como conjunto de experiências comuns e, incorporando o termoidoso, que ressignifica o termo velho: é possível pensar-se como idoso,não como velho. Uma única pessoa que se nomeou velha apoiou-se nocritério etário, e deve-se considerar que ela encontra-se emocionalmen-te deprimida ante as novas configurações de sua vida. Autonomia e independência estão significadas como a não velhi-ce. Também nesse sentido aparece a liberdade, que é muito valorizada;se, por um lado, ela parece ser uma conquista do envelhecimento, poroutro, ela também significa a não velhice. Diante da associação velhice-doença-decrepitude-abandono-tristeza, os entrevistados não se reconhecem como velhos, não se in-cluem nesse modelo de velhice e, diante disso, consideram-se jovens, umavez que se identificam como saudáveis, felizes, ativos, independentes enão solitários. Parece que, não havendo uma nova construção do serrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 208. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 215velho, não havendo modelos anteriores – ou os que existem não são osdesejáveis –, resta o contraste e a identificação com os valores do jovem. O envelhecer é visto como o “caminho da vida”, “a continuaçãoda idade”, o acúmulo de experiência e sabedoria e, também, como “odesgaste natural do corpo e da mente”, a deformação do corpo. Sobrea velhice, há referência a várias concepções: a velhice pessoal, a marcadapelo critério etário, e a social, que poderia ser chamada de a velhicepropriamente dita, a do “outro”, abandonada pela família, com poucosrecursos materiais, doente. Sendo assim, concebem haver uma velhicefeliz, a própria, com laços familiares significativos, com autonomia eindependência, e a triste, a asilada, pobre e senil. Como saldo, a velhice trouxe sabedoria, experiência, boas recor-dações dos anos passados, paciência, calma, alegria, tempo e paz, comoaspectos positivos, e lhes levou parte da saúde e a juventude. Para quemconsidera que a velhice não existe, não lhe trouxe nem nada levou, aindaque se veja melhor com o passar dos anos, marca o ganho de tempocomo algo muito valorizado. A não identificação com as representações sociais do ser velho eda velhice é o movimento constante nas entrevistas, surgindo, às vezes,como negação, que está condensado na frase: “não sinto a diferença daidade, que já vai pesando!” Parece ser uma dupla negação, a negação domodelo social de velhice e dos aspectos negativos do envelhecer. O usoda negação não é necessariamente problemático, é uma maneira deconstrução, de estruturação desses envelhecentes, uma estratégia desobrevivência, uma defesa, um mecanismo psíquico bem-sucedido. Ainda que se possa constatar as mudanças, a ressignificação dovelho, isso ainda não se deu em relação às significações sociais da velhice.A identidade do velho é ainda contrastiva com a do jovem, a juventudeé ainda um valor, um “bem” a ser alcançado. Se o sujeito se vê ativo,desejante, inserido, brincando, ele se considerará, no máximo, um idosojovem, um idoso de espírito jovem. A tendência é a de acreditar que as mulheres gerem melhor aexperiência do envelhecimento do que os homens, administram melhora espera, o reinventar, desfrutam mais. Em alguns momentos parece revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 209. 216 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trenchque a viuvez ou ser “solteira graças a deus”, é libertadora, permite novosvôos, mas percebe-se também que estar casada não é necessariamenteaprisionante. Para os homens, a falta do trabalho profissional é marcan-te, é até possível para eles fazer substituições, trilhar novos caminhos,preencherem seu tempo, agora livre, mas o grande valor, o fazer verda-deiro, a realização estão ligados ao trabalho cotidiano, como se semprefaltasse algo.Os “novos-velhos” Driblar a morte e prolongar a vida é o imemorial desejo humano,não se quer envelhecer nem morrer, nem tampouco se defrontar comesses temas que parecem ser tabus, “segredos desagradáveis”. Dado oaumento da longevidade, impõe-se a perspectiva de dar qualidade devida aos anos vividos, em tornar a vida digna de se viver e não só pensarem dar mais anos à vida. Sabemos como fomos, mas não se pode saber e controlar comoseremos, sendo assim a experiência plena do envelhecimento é irreali-zável em si própria, não há representação psíquica dela. Assim como amorte, é uma experiência que só pode ser imaginada, suposta, mas nãovivida. Neste estudo, vê-se que a velhice ativa é aquela que nega a suacondição socialmente estabelecida, que potencializa os ganhos e não asperdas. As perdas são notadas, há referência à presença de problemas,mas, no geral, o foco de luz está nos ganhos. O “espírito velho”, o portar-se como velho é também discrimi-nado e condenado pelos próprios idosos, que o relacionam àqueles quese “entregaram”, que não mais desejam, que não se cuidam, havendocomplacência só com os já senis, os adoentados. A invenção da terceira idade aponta para idéia do envelhecimen-to bem-sucedido, o que possibilitou a circulação da idéia de um velhoidentificado como fonte de recursos, capaz de respostas criativas anteas mudanças sociais, capaz de (re)significar identidades e as relaçõesfamiliares e de amizade, o que permitiu novas configurações e umarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 210. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 217melhor aceitação e integração dessa fase da vida. O termo idoso, advin-do desta nova configuração, permitiu uma maior inclusão identificató-ria dos chamados “novos-velhos”. A idéia do “novo-velho” tomada para além do autocontrole, daauto-responsabilidade, pode ser considerada como potência de reinven-ção e de reinterpretação do mundo e de si, de novas maneiras de estarno mundo, de se relacionar consigo mesmo e com o outro. É importanteter o cuidado de não ser também ela estigmatizadora, expressada comomodo dominante de subjetivação. Via a reinvenção, é possível escapardos modelos contrastivos de identificação, superando as dualidadesaprisionantes: velho-jovem, privado-público, social-individual, bom-mau, saúde-doença. A negação da velhice socialmente determinada, o velho vistocomo o Outro, não parece ser um fenômeno restrito a esse grupo pes-quisado. Vê-se o mesmo ocorrer em outros universos investigados, taiscomo nos estudos feitos por Mercadante (1997) e Debert (1999), queentrevistaram pessoas asiladas e não-asiladas e se depararam com osmesmos tipos de sentença: velho é o outro, não sou eu! Por ser um processo, estamos sempre “envelhe(s)endo” e, por-tanto, o ponto final, “a tal velhice”, está sempre mais além. Parece queo específico da velhice é a “máscara” da velhice – a estética, os sinaisexteriores do envelhecimento e suas representações internas e sociais,denunciados pelo espelho e o olhar do outro – e o uso e significação dotempo, um novo tempo (em função do marco etário – 60 anos), tempoque aproxima a finitude. A velhice é uma questão social, não necessariamente um proble-ma social. Iniciativas que promovam saúde integral, bem-estar e qua-lidade de vida estarão contribuindo para transformar a velhice numaquestão social e não necessariamente um problema a ser resolvido,podendo ser uma fase da vida a ser desfrutada. Como tática social, os grupos de convivência geracionais e inter-geracionais são facilitadores de inclusões e da construção de novas sub-jetividades e identidades que podem ser exercidas e revigoradas nasituação grupal. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 211. 218 Olga Facciolla Kertzman e Belkis Vinhas Trench Pode-se concluir que é possível ser um idoso feliz, com perdas etambém ganhos, é possível, passada a marca dos 60 anos de idade,divertir-se, desfrutar, desejar, manter a “paixão de conhecer o mundo”,de dançar, com passos às vezes mais vagarosos ou trôpegos, mas semperder-se da música.ReferênciasCOSTA, J. F. (2000). A vertigem bem temporada. Resenha do livro “A vertigem por um fio ? políticas da subjetividade contempo- rânea”, por PELBART, P P Revista eletrônica NO. Disponível . . em: www.no.com.br Acesso em: 8/2004.DEBERT, G. G.(1999). A reinvenção da velhice. São Paulo, Edusp.GOLDFARB, D. C. (1998). Corpo, tempo e temporalidade. São Pau- lo, Casa do Psicólogo.LLORET, C. (1998). “As outras idades ou as idades do outro”. In: LARROSA, J. e LARA, N. P (orgs.). Imagens do outro. Petrópo- . lis, Vozes.MERCADANTE, E. F. (1997). A construção da identidade e da subje- tividade do idoso. Tese em Ciências Sociais. São Paulo, PUC-SP .MESSY, J. (1999). A pessoa idosa não existe. São Paulo, Aleph.MORIN, E. (1998). Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil____ (2003). O Método 5: a humanidade da humanidade. Porto Alegre, Sulina.MOTTA, A. (1999). As dimensões de gênero e classe social na aná- lise do envelhecimento. Caderno Pagu, n. 13, pp. 191-221.NERI, A. L. (1995). Psicologia do envelhecimento. São Paulo, Papirus.NOVAES, M. H. (1997). Psicologia da terceira idade. Rio de Janeiro, Nau.PÉREZ, J. (2000). La Feminización de la vejez. Revista Catalana de Sociología, pp. 23-42. Barcelonarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 212. Vivendo a idade: reflexões sobre a experiência de envelhecimento 219SINGER, D. (2002). Psicoanálisis y Gerontologia. Kairós. Geronto- logia – Caderno Temático 2. Nepe – Programa de Estudos Pós- graduação em Gerontologia – PUC-SP São Paulo, Educ. .TRENCH, B. (2004). A saúde da mulher: reflexões sobre o envelhecer. In: BRITO, C. F. e LITVIC, J. Envelhecimento – prevenção e saúde. São Paulo, Atheneu.Data de recebimento: 16/11/2004; Data de aceite: 8/7/2005.Olga Facciolla Kertzman – Psicóloga, mestre em Ciências, pelo curso de Pós-Graduação em Infecções e Saúde Pública da Coordenação dos Institutos de Pes-quisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e membro da equipe do Núcleode Atenção a Saúde do Idoso. E-mail: olgakert@yahoo.comBelkis Vinhas Trench – Psicóloga e pesquisadora, doutora em Psicologia Clínicapela USP. Orientadora e professsora do curso de Pós-Graduação em Infecções eSaúde Pública da Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estadoda Saúde de São Paulo. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 207-219
  • 213. Aposentados e livres... mas para quê? Os trabalhadores e a representação socialda aposentadoria e do projeto de vida pessoal Maria Lúcia Martuscelli Beger Alice Moreira DerntlRESUMO: Identificou-se por meio de entrevistas o significado da aposentadoria,bem como o projeto de vida pessoal de um grupo de funcionários de uma insti-tuição de ensino superior. A análise foi estruturada em: idéia-central, expressões-chave e discurso do sujeito coletivo (DSC). As idéias centrais “descanso”, “dinheirocerto” e desejo de continuar trabalhando, seja como “reforço do salário”, seja “paranão ficar parado” compuseram o DSC.Palavras-chave: aposentadoria; preparação para aposentadoria; projeto de vida.ABSTRACT: This study identified by means of interviews the meaning of retirement toa group of workers from a higher education institution, as well as their personal life plans.The analysis was organized on the basis of: main idea, key expressions and colletive subjectdiscourse or CSD. The latter involved the following main ideas: “rest”, “guaranteedearnings”, and the will of continuing activities, either as a way to contribute to wages, eitherto “avoid being stuck”.Key-words: retirement; preparation for retirement; life plan.Introdução O governo eleito em 2003 ampliou os debates com os diversossetores da sociedade sobre a reforma da Previdência Social, particular-mente com os servidores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhis-tas – CLT. Focou-se neste estudo a questão dos trabalhadores em serviço revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 214. 222 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntlpúblico. Para estes, pressupõe-se que as propostas de alterações poucomobilizaram as opiniões e causaram um impacto social relativo. Esseaparente “isolamento ideológico” parece evidenciar-se mais junto aosfuncionários de nível operacional dessas instituições, aparentementedistanciados dos debates das questões trabalhistas por opção pessoal oudesinformação. Neste estudo aborda-se a questão das representações sociaisdesses servidores sobre o período histórico de transição de seu regimede trabalho, ora em curso, e sobre sua representação quanto ao seu futurono sentido de realização pessoal e perspectivas, como aposentados, doresgate de seus projetos. O levantamento das informações desenvolveu-se principalmen-te em 2002, época em que os debates e as reformas estavam em plenaefervescência. Por um lado, o momento foi ideal para a pesquisa, mas,por outro lado, fica a necessidade de novo estudo com essa categoria deservidores, em futuro próximo, quando o impacto das novas disposiçõesfor assimilado. A questão “aposentadoria” é preocupação mundial e o temamereceu destaque na II Assembléia Mundial sobre Envelhecimento,realizada em Madrid, em abril de 2002. Essa Assembléia encerrou seustrabalhos com algumas recomendações relativas ao direito à decisãoindividual de aposentar-se e ao impacto do envelhecimento sobre ofuturo dessas aposentadorias. Ocorre que, ao iniciar a revisão bibliográfica, como era necessá-rio, constatou-se um quadro histórico, social, político, legal de grandecomplexidade. Um tema obrigatoriamente sugeria outro, para a com-preensão do encadeamento de eventos. Desta forma, a organização dostópicos foi estruturada na forma de evolução histórica do conhecimentoe dos eventos subseqüentes, partindo da análise de publicações signi-ficativas sobre o tema, bem como de artigos e notícias de jornais, prin-cipalmente. Como se tornou inevitável, decidiu-se considerar a questão daaposentadoria de forma articulada à questão da pré-aposentadoria,revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 215. Aposentados e livres... mas para quê? 223objeto principal deste estudo. Outros temas a serem considerados fo-ram os conceitos de tempo liberado do trabalho e o próprio trabalho. As várias abordagens sobre aposentadoria e pré-aposentadoriaforam delimitadas, considerando que a pretensão não é esgotar o temamas, dentro das possibilidades de um trabalho acadêmico, trazer parao leitor a compreensão dessas questões na visão de alguns trabalhadoresem fase de aposentadoria.Os significados da aposentadoria na literatura Através dos relatos de alguns estudiosos da aposentadoria, obser-va-se que ela é apresentada sob diversos significados, todos eles impor-tantes para uma reflexão a respeito do papel social do trabalhador. Desse modo, os significados da aposentadoria apresentados per-mitirão uma comparação ou complementação dessa visão entre osautores. Assim, a aposentadoria se apresenta associada a:Aposentadoria e velhice A aposentadoria em geral é um evento importante na vida das pessoas porque estimula a consciência do envelhecimento. É vista antecipadamente como um processo de perdas gradati- vas: biológicas, interpessoais, econômicas e sociais. (Wagner, s/d) Para França (1999), a aposentadoria, além de significar a saídade um trabalho regular, normalmente, está associada à idade. Entre-tanto, segundo esse autor, “não diz respeito apenas a uma avaliação dacapacidade física, mental ou psicológica para o trabalho mas dependedos contextos demográfico, histórico, sociocultural e político nos quaiso trabalhador está inserido”. Da mesma forma, Guillemard (1987), afirma que a aposentado-ria corresponde ao momento em que o trabalhador é decretado profis-sionalmente velho. Pondera Moragas (1997): revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 216. 224 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntl A importância da aposentadoria transcende a simples vida de trabalho, para estender-se a toda vida econômica, social e fami- liar presente e futura. Para a maior parte da população, a apo- sentadoria define legal e convencionalmente a entrada na velhice. Entretanto, muitas coisas estão em mudança na sociedade contemporânea e na aposentadoria.Aposentadoria como direito adquirido Referindo-se à aposentadoria como direito adquirido, Ferrari(1996) afirma: “não podemos nos esquecer que a aposentadoria é umaextensão do direito universal do trabalho”. Vianna, citado por Ferrari no mesmo artigo, lembra que a con-quista da aposentadoria fez parte do conjunto de reivindicações domovimento operário no início do século. Guillemard (1987) comenta a ambigüidade da palavra “aposen-tadoria”: prenúncio da desvalorização da força de trabalho e do direitoao repouso remunerado. Essa autora afirma que, com a criação da apo-sentadoria, surge a questão da posição dos velhos no sistema social. Elesse tornam aposentados, portanto pessoas que recebem uma aposenta-doria, integrando o sistema da “política social”.Aposentadoria como perda de papéis sociais A aposentadoria também pode ser marcada pela ausência depapéis sociais, pela inexistência de novos planos e objetivos de vida nessafase e pela representação negativa que é feita da velhice, fatores essesque contribuem para que se inicie nesse momento o processo de isola-mento social de pessoas que por direito chegaram à aposentadoria(Ferrari, 1996). O “papel sem papel” do aposentado é citado por Moragas (1997),quando a sociedade contemporânea não lhe reconhece um papel social.O autor lança, para solução do problema, transformar “o papel sempapel”, na sociedade industrial, em “papel com papel”.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 217. Aposentados e livres... mas para quê? 225 O distanciamento dos aposentados da convivência dos diversosgrupos sociais tem como efeito, concomitantemente, o mesmo distan-ciamento da sociedade em relação ao aposentado, que passa a não re-conhecer sua existência social, não o convocando para participar da vidacomum (Salgado, 1989). Para Guillemard (1987), numa sociedade industrial, o velho temcomo futuro a perda de papéis sociais. “Com a aposentadoria ele perdeem primeiro lugar o papel profissional e ao mesmo tempo os papéisjunto à família e à sociedade”.Aposentadoria como fase de inatividade A primeira idéia associada à aposentadoria é sempre a de passa-gem da vida ativa à inatividade, ou seja, da cessação das responsabili-dades relacionadas ao mundo do trabalho e da produção, com aautorização da sociedade e seu respectivo reconhecimento, expressoatravés das pensões de aposentadoria (Queiroz, 1987). Chamuzeau (s/d) afirma: “uma coisa é certa, todos almejam omerecido repouso, tempo livre, independência de horários e obrigações.Entretanto, passada a euforia inicial, a inatividade se transforma emsensação de inutilidade, solidão e outros sentimentos”.Aposentadoria como perda da auto-identidadee equilíbrio emocional O pressuposto de Debert (s/d), é de que o abandono do trabalholeva a uma situação traumática que envolve a perda da auto-identidadee do equilíbrio psicológico. Chamuzeau (s/d), citando Mira y Lopes, considera que o impac-to emocional da aposentadoria é a principal causa das alterações psicos-somáticas que geralmente são atribuídas ao próprio processo deenvelhecimento. Afirma ele que: “nesse impacto emocional reside todoo dano de uma aposentadoria que não foi planejada”. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 218. 226 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira DerntlAposentadoria como demissão/desemprego Para Comfort (1979), a aposentadoria equivale a uma demissãoou ao desemprego: “você deve se preparar para ela exatamente comoprocederia ao ser demitido ou ao se ver desempregado”.Preparação para a aposentadoria Analisando não só a aposentadoria mas, também, os fatores quedarão significado a ela, Queiroz (1987) cita alguns desses fatores quemerecem atenção: a maneira mais ou menos brusca pela qual ocorre aaposentadoria; os sucessos e insucessos profissionais; a estrutura fami-liar; o relacionamento social; as condições de saúde e, enfim, a históriade vida de cada pessoa. A autora também aborda as mudanças no ritmode vida, quando ocorre o desengajamento definitivo do trabalho: rup-tura com a maioria das relações de amizade e convivência; perda de statuse prestígio social em decorrência do afastamento do sistema produtivo;dependência do sistema previdenciário; dificuldade de engajamento emnovos grupos, bem como ausência de papéis sociais significativos eprovável isolamento social. A influência do trabalho-produção sobre a vida, e, como dizForrester (1997), o trabalho sobre o qual a sociedade ainda se baseia edo qual ainda depende a sobrevivência dos viventes, coloca em segundoplano o fato que em algum momento o trabalhador deixará a vidaprofissional, o que exigirá uma série de modificações na sua vida pes-soal. Assim sendo, para que o trabalhador desfrute de sua aposenta-doria, deveria se preparar para essa nova fase. Sobre esta questão, estudo realizado por La Machia e Silva (1988)conclui que não se chegou a conhecer o interesse por parte dos traba-lhadores de se prepararem para a aposentadoria. Isto se deve, segundoos autores, aos diferentes níveis sociais e culturais, às diferenças deocupação e mesmo à falta de consciência dos fatores que envolvem umaaposentadoria.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 219. Aposentados e livres... mas para quê? 227 O importante é que, com o aumento da expectativa de vida, operíodo pós-trabalho se tornou mais longo, aproximadamente 30 anos,não significando, então, como alguns anos atrás, mais tempo antesdas dificuldades relativas à idade avançada ou à morte (Guillemard,1987). Posicionando-se, ainda quanto à aposentadoria, Macedo (1999)recomenda um plano de metas pessoais que começa aos 25 anos e temcomo pressupostos economizar, avaliar sempre a carreira e manter ati-vidades alternativas, ora para complementar a aposentadoria, ora paracontinuar ativo. Se o trabalhador se desespera com a falta de sentido da vidapresente é porque ao longo da sua existência o sentido da vida lhe foiroubado. Esgotada a força de trabalho, sente-se um pária e assim entrana aposentadoria (Beauvoir, 1990). Pelo referencial apresentado, fica evidente que o preparo para aaposentadoria deveria requerer os mesmos cuidados e rituais exigidosquando o indivíduo se prepara para ingressar na vida de trabalho, car-reira ou profissão.O trabalho e o tempo livre: seus significados para o estudoO trabalho Partindo da definição de Queiroz (1987), “a aposentadoria estáassociada à cessação das responsabilidades relacionadas ao mundo dotrabalho e da produção”. É interessante citar ainda uma vez La Machiae Silva (1988) que complementam: (...) a influência do trabalho-produção sobre todos os sistemas e instituições sociais, reforça a ideologia do trabalho como sím- bolo de “status”, de prestígio e de integração social, estimulan- do nos indivíduos as tendências pessoais mais valorizadas pelo mercado de trabalho. O trabalho, constituindo-se o centro principal dos indivíduos, a base de sua sustentação econômica, bem como o sustentáculo da sociedade, estabelece uma escala revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 220. 228 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntl de valores que condiciona o posicionamento das pessoas em relação a si mesmas, aos outros e à própria sociedade em que vivem. Portanto, acrescentamos, o trabalhador deverá administrar a pas-sagem da vida de trabalho-produção para outras formas de vida produ-tiva, para que não se dê de forma direta, imediata e abrupta.O tempo livre Freire (1970) foi buscar na semântica o significado da palavraócio, que tem conotação positiva, para referir-se ao tempo livre de tra-balho, de comércio, de preocupação com assuntos úteis. Ao empregara mesma palavra, refere-se à libertação da idéia tradicional do trabalhocomo obrigação, apostando numa mistura de atividades onde o traba-lho se confundirá com o tempo livre e o estudo. É nas relações entre capital e trabalho, mais formalizadas nomundo urbano, que se apresenta com mais clareza a dicotomia entretempo de trabalho e tempo de não trabalho, permitindo que o traba-lhador fosse dispondo para si próprio de um tempo verdadeiramentelivre com tendência a aumentar (Requixa, 1997). Pode-se até, ao conceituar o tempo livre, citar o conceito de lazer.Hoje o tempo não é ocupado unicamente pelo trabalho. Os anos detrabalho não mais se sucedem sem interrupção, pois são separados pelasférias. A vida de trabalho não termina unicamente devido à doença eà morte, mas tem um fim legal que assegura ao indivíduo o direito aorepouso (Dumazedier, 1976). A linha do lazer que envolve o aspecto sociológico, privilegia otempo, quer situando-o como liberado do trabalho ao final do dia, dasemana, de um ano inteiro, ou ao final de uma vida de trabalho, quersituando-o como tempo livre, não só de trabalho, mas de outras obri-gações familiares, sociais, religiosas e outras. Esse conceito é defendidopor um dos mais conhecidos pesquisadores do lazer: Dumazedier (1999).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 221. Aposentados e livres... mas para quê? 229 Esse autor distingue no lazer três funções principais: a) Descanso, como a função reparadora dos desgastes físicos e mentais provocados pelas tensões das obrigações cotidianas; b) Recreação, divertimento e entretenimento, como função de caráter reparador do tédio; c) Desenvolvimento como a função que permite uma participação social mais livre, a prática de uma cultura desinteressada do corpo, da sensibilidade e da razão. Função que oferece novas possibili- dades de integração voluntária à vida de agrupamentos recrea- tivos, culturais e sociais, que cria novas formas de aprendizagem voluntária a serem praticadas durante toda a vida e que contribui para o surgimento de condutas inovadoras e criadoras. É um homem incompleto, atrasado e de certo modo alienado aquele que não aproveita ou não sabe aproveitar o seu tempo livre. Em suas Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer,Requixa (1980) comenta a utilização pelos homens das horas liberadasdo trabalho: “a ampliação social do lazer leva-nos a indagar se os ho-mens beneficiários diretos da democracia do lazer, estarão dela fazendoo uso mais adequado” e, conseqüentemente, se os homens estarão sa-bendo utilizar as horas liberadas do trabalho, empregando-as na satis-fação de suas aspirações mais autenticamente humanas ou se estarãoapenas desvirtuando-as na medida em que procuram preenchê-las comnovas formas de comportamento, mas com respostas meramente con-dicionadas ou ainda se, em face do tempo livre, devido “à falta de ha-bilidade para usá-lo, à dificuldade de encontrar atividades queempreendem a plena satisfação almejada, não acabarão por defrontar-se com o enfado, a angústia, o tédio dos momentos desesperançada-mente vazios”. O autor acrescenta: (...) para muitos homens, o trabalho tornou-se uma rotina não muito onerosa, não muito compensadora e de forma alguma absorvente - uma rotina diária, até que a sineta toque e os torne novamente livres. Mas livres para quê? revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 222. 230 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntl Diante dessas ponderações e considerando o momento históricodefinido a partir das mudanças no Sistema de Previdência Social bra-sileiro ora em curso, julgou-se oportuno desenvolver um estudo com oobjetivo apresentado a seguir, de identificar os significados da aposen-tadoria e o projeto de vida pessoal de funcionários de uma instituiçãopública de ensino superior. Foi definida uma pesquisa exploratória, descritiva, de aborda-gem qualitativa, incluindo funcionários de uma instituição pública deensino superior. A população pesquisada constituiu-se de diversascategorias ocupacionais com escolaridade até o primeiro grau, regidaspela Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT. Foram efetivamente entrevistados 23 pessoas, sendo 11 homense 12 mulheres, na faixa etária de 45 a 60 anos, período caracterizadocomo meia idade e profissionalmente como pré-aposentadoria. A estratégia metodológica constou inicialmente de seleção dapopulação de funcionários. Essa seleção, segundo critério de Gil (1999),foi do tipo intencional, não probabilística, por acessibilidade, estratifi-cada e não proporcional. A coleta de dados da pesquisa foi realizadaatravés da técnica de entrevista aberta semi-estruturada. A entrevista foi organizada a partir das seguintes perguntasestimuladoras do discurso: 1. Você vai se aposentar não é mesmo? Comoé isto para você? 2. Você já sabe o que vai fazer quando se aposentar?3. Como você vê seu colega que se aposentou? Após as entrevistas, para organizar e tabular os dados da pesquisa,foram utilizadas três figuras metodológicas propostas por Lefèvre,Simioni e Pereira, (1997): idéia central, expressões-chave e discurso dosujeito coletivo – DSC. Idéia Central – é a síntese do conteúdo discur-sivo explicitado pelos sujeitos. São afirmações, negações e dúvidas arespeito da realidade factual, bem como os juízos de valor a respeito docontexto social; expressões-chave – são trechos ou expressões selecio-nados dos discursos que definem as idéias centrais; Discurso do sujeitocoletivo – é uma estratégia metodológica com vistas a tornar mais clarauma dada representação social. É uma forma discursiva de apresentaçãoe de tratamento dos depoimentos que compõem o substrato de umarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 223. Aposentados e livres... mas para quê? 231representação social. Consiste na reunião, num só discurso, de váriosdiscursos individuais emitidos como resposta a uma mesma questão depesquisa.Considerações sobre os discursos O discurso do sujeito coletivo (DSC) apresentou para o temaaposentadoria várias idéias centrais, mas ficou muito evidente a cons-ciência dos entrevistados para o direito adquirido, o orgulho do devercumprido e a consciência da sua condição de cidadão. Apesar de figurarna Constituição Brasileira, percebe-se, entretanto, que os entrevistadosnão se sentem tão seguros quanto ao direito adquirido, conforme foidemonstrado em suas falas. Embora a aposentadoria seja considerada um dinheiro certo, apreocupação maior dos entrevistados é com a redução do salário, prin-cipalmente porque pertencem ao regime da CLT, motivo pelo qual dizemque será necessário continuar trabalhando depois de aposentados, paraobterem um reforço financeiro. Os entrevistados deixam claro no discurso que aposentadoria éuma interrupção forçada, num período de vida em que se consideramnovos, daí afirmarem que darão continuidade às atividades, para “nãoficar parados”. Mas é o momento de vida que, segundo eles, tambémpodem optar pelo descanso e descompromisso. Os pesquisados disseram querer se dedicar a alguma atividade, sejacomo reforço do salário, seja para “não ficar parados”, na mesma profissãoou desenvolver outra atividade. Mesmo os que disseram não saber o quefazer, têm sonhos, como eles afirmaram: passear, estudar, descansar,dedicar-se ao lazer, ao social, enfim, será o tempo para cuidar de suaspróprias coisas. Todos pensam em estar bem para aproveitar a vida. Interessante notar que todos trouxeram diferentes representa-ções ao definirem as condições em que se encontra seu colega aposen-tado, que foi colocado como referencial para ser imitado ou como modelopara ser evitado. Embora este estudo tenha encontrado os mais diversos signifi-cados para a aposentadoria, deve ser digno de nota o fato de que os revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 224. 232 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira Derntlentrevistados demonstraram gostar do que fazem, pois em momentoalgum se referiram negativamente ao trabalho ou à instituição. Há os que desejam continuar trabalhando, os que desejam seaposentar e se manter ativos, outros desejam descansar. Constata-senos discursos que os entrevistados caminham para empreender, comcerta ilusão, uma série de atividades que o trabalho lhes impede derealizar, bem caracterizado por Moragas (1997), que é “a fase de lua demel do recém-aposentado”. De um modo geral, os pesquisados acharam que a aposentadoriaé “descanso”, idéia mais difundida entre os homens, que também de-fenderam o “direito adquirido”, e criticaram o valor econômico daaposentadoria, sugerindo sua revisão. Aqui deixam expressa a noção dodever cumprido e do compromisso assumido perante a sociedade. Em contraposição, para as mulheres, a aposentadoria é umacontinuação do trabalho. Embora almejem o descanso merecido, aindanão querem se aposentar e comentam reconhecer que, para se aposen-tar, é necessário um preparo. No discurso “dedicar-se a alguma atividade”, enquanto para oshomens é exercer a mesma atividade, para as mulheres é não ficar pa-radas. O discurso “não querer se aposentar” não tem representantemasculino, só opinando as mulheres e “não saber o que pretende fazerapós a aposentadoria” apresenta equilíbrio entre homens e mulheres. Quanto à imagem que têm dos colegas aposentados, as mulheressão coerentes nos discursos, porque se “a aposentadoria é uma conti-nuação do trabalho”, elas opinam que seus colegas deveriam retornarao trabalho para se manterem úteis. Para os homens e mulheres, embora tenham a imagem de queo aposentado que conhecem constitui “um triste quadro”, acham quede alguma forma é um “vencedor”, pois conquistou uma aposentado-ria, após tantos anos de trabalho. Dessa maneira, os significados da aposentadoria e o projeto devida pessoal, identificados nos discursos dos pesquisados, são pratica-mente um reflexo do que se encontrou na literatura apresentada noreferencial teórico.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 225. Aposentados e livres... mas para quê? 233ReferênciasBEAUVOIR, S. (1990). A velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.CHAMUZEAU, J. L. (s/d). A posição do idoso no trabalho. Assessoria da Coordenação de Bem-Estar Social da Prefeitura de São Pau- lo (apostila).COMFORT, A. (1979). A Boa Idade. Rio de Janeiro, Difel.DEBERT, G. G. (s/d). O discurso gerontológico e as novas imagens do envelhecimento. CAFIL-PUC-SP (apostila).DUMAZEDIER, J. (1976). Lazer e cultura popular. São Paulo, Pers- pectiva.____ (1999). Sociologia empírica do lazer. São Paulo, Perspectiva.FERRARI, M. A. C. (1996). “Lazer e ocupação do tempo na terceira idade”. In: PAPALÉO NETO, M. Gerontologia São Paulo, Athe- neu.FORRESTER, V (1997). O horror econômico. São Paulo, Ed. da Unesp. .FRANÇA, L. (1999). “Preparação para a aposentadoria: desafios a enfrentar”. In: VERAS, R. P. (org.) (1999). Terceira idade – Alternativas para uma sociedade em transição. Rio de Janeiro, Relume Dumará.FREIRE, G. (1970). Tempo, ócio e arte: reflexões de um latino- americano em face do avanço da automação. Revista Brasileira de Cultura, Rio de Janeiro, n. 2, pp. 3, 47-58, jan./mar.GIL, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo, Atlas.GUILLEMARD, A,M. (1987). Dimensões sociais do envelhecimento. São Paulo, SESC.LA MACHIA M. T. e SILVA, O. G. (1988). Programa de preparação para a aposentadoria. Cadernos da Terceira Idade, n. 2. São Paulo, SESC.LEFÈVRE F; SIMIONI A. M. C. e PEREIRA, I. M. T. B. (1997). Metodologia qualitativa nas pesquisas em saúde coletiva: considerações teóricas e instrumentais. Série Monográfica N. 2. Eixo Promoção da Saúde. Departamento de Prática de Saúde Pública da FSP/ USP. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 226. 234 Maria Lúcia Martuscelli Beger e Alice Moreira DerntlMACEDO, G. B. (1999). Empregue seu talento. São Paulo, Cultura Associados.MORAGAS, R. M. (1997). Gerontologia social: envelhecimento e quali- dade de vida. São Paulo, Paulinas.QUEIROZ, Z. P. V. (1987). Preparação para a aposentadoria (apos- tila). Sem local de publicação.REQUIXA, R. (1997). O lazer no Brasil. São Paulo, Brasiliense._______ (1980). Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer. São Paulo, Biblioteca Científica do SESC.SALGADO, M. A. (1989). Aposentadoria e ética social. Cadernos da Terceira Idade, n. 2. São Paulo, Sesc.WAGNER, E. C. A. M. (s/d). Aposentadoria e suas conseqüências – previsões e sugestões (artigo de gerontologia). Sedes Sapientiae.Data de recebimento: 18/5/2005; Data de aceite: 6/7/2005.Maria Lúcia Martuscelli Beger - Assistente social. Mestre em Saúde Públicapela Faculdade de Saúde Pública da USP. Especialização em Gerontologia pelaFaculdade de Medicina da USP.Alice Moreira Derntl - Enfermeira sanitarista. Doutora em Saúde Pública pelaFaculdade de Saúde Pública da USP. Especialização em Gerontologia Social pelaFaculdade de Medicina da USP. E-mail: bemviver@usp.brrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 221-234
  • 227. A oficina de revisão de vida intervenção como um método de inter venção psicológica com idosos1 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão Joel Sales GíglioRESUMO: Este artigo descreve um método de intervenção psicológica desenvol-vido com um grupo de mulheres idosas, em processo de envelhecimento normal,utilizando a revisão de vida como um produto da memória, que mobiliza inten-cionalmente suas lembranças, ao longo da vida. Discute como os procedimentosmetodológicos possibilitam a (re)avaliação da trajetória individual de perdas eganhos na velhice e a projeção de metas de vida futura. Conclui que o método derevisão de vida pode ser entendido como uma estratégia compensatória de natu-reza emocional adequada para o trabalho com idosos.Palavras-chave: envelhecimento; intervenção psicológica-método; revisão de vida.ABSTRACT: This article describes a psychological intervention method accomplished witha group of elder women, on a process of normal aging, using the life review as a memorybyproduct that mobilizes intentionally their remembering, along their lifetime. It discusses howthe methodological procedures provide a (re) evaluation of individual trajectory of losses and gainsduring aging and the projection of goals to be reached on future life achievements. It concludes thatthe life review method may be understood as a compensatory strategy on the emotional naturethat it may be found adequate as work with elder people is being carried out.Key-words: aging; psychological intervention-method; life-review.1 Texto derivado da tese de doutorado da primeira autora, orientada pelo segundo autor, defendida em 2005. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 228. 236 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales GíglioIntrodução Em 2025 haverá no mundo 1,2 bilhão de pessoas maiores de 60anos, quase três quartos delas em países em desenvolvimento como oBrasil. Para que o envelhecimento seja uma experiência positiva, énecessário que haja melhoramentos na qualidade de vida daqueles quechegam à velhice. Os idosos, atualmente, requerem um modelo deatenção comunitária, o que implica o desenvolvimento de ampla va-riedade de serviços em contextos locais em condições de atender às suasmúltiplas necessidades. Considerando o conceito de saúde como bem-estar global quetranscende estilos de vida saudáveis e responsabilidade exclusiva do setorde saúde, estratégias de promoção de saúde devem ser articuladas paraque as pessoas e as comunidades tenham oportunidade de conhecer econtrolar os fatores determinantes da sua saúde, como acesso à infor-mação, habilidades para viver melhor e oportunidades para fazer esco-lhas mais saudáveis. “Um dos eixos básicos do discurso da promoção desaúde é fortalecer a idéia de autonomia dos sujeitos e dos grupos sociais”(Czeresnia, 2003, p. 39). No que diz respeito ao bem-estar psicológico de idosos, a APA– Associação Americana de Psicologia, demonstrando preocupação coma grande expansão dos serviços psicológicos requeridos pela crescentepopulação idosa e a relutância dos psicólogos em exercer seu trabalho (re-ferindo sentimentos de despreparo em termos dos conhecimentos e habi-lidades específicos em geropsicologia), estabeleceu diretrizes para a práticapsicológica nessa área. Embora essas diretrizes não tenham força de lei,constituem orientações importantes para suprir a formação desses profis-sionais, abordando a importância das questões teóricas, de pesquisa e dosdiferentes métodos de trabalho com idosos, inclusive as intervenções psi-coterapêuticas. Como exemplo, essas diretrizes citam a propriedade daterapia de reminiscência e terapia de revisão de vida como técnicas paraintervenção terapêutica de suporte (apoio) para idosos integrarem suasexperiências, indicando-as também para tratamento de depressão edesordens pós-traumáticas de estresse (APA, 2004, p. 248-249).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 229. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 237 Em relação às questões do envelhecimento, a memória figuracomo um dos problemas cognitivos mais comumente referidos pelosidosos e como uma área de estudos bastante controvertida, pelas dife-renças teóricas entre os vários pesquisadores. A literatura científicamostra que, na segunda metade do século XX, houve um incrementodos estudos da memória, principalmente os relativos ao envelhecimen-to da memória humana, investigando questões do seu declínio e asalterações cognitivas nos idosos. Em linhas gerais, os estudos da memó-ria em psicologia abrangem a vertente da memória subjetiva (crenças,percepções e afetos) e da memória objetiva (desempenho cognitivo). Para reverter ou, pelo menos, compensar os danos cognitivoscausados pelo envelhecimento, o treino de competências de vida diáriae de vida prática propiciado por programas de memória tem sido bas-tante utilizados como instrumentos terapêuticos e preventivos, nesseperíodo da vida, embora seus efeitos sejam ainda objeto de investigação(Yassuda, 2002; Ferrari, 1997; Neri, 2002; Staudinger, Marsiske eBaltes, 1993). A memória, como objeto de estudo e trabalho no campo dasCiências Sociais, consolidou a idéia de que não só as pessoas eram úteisà história, mas a história podia ser útil para as pessoas, em decorrênciados aspectos subjetivos derivados da percepção humana sobre as fonteshistóricas. Nessa perspectiva, Brandão (1999b, 2002a) sistematizouuma metodologia de oficina de memória, denominada “Oficina deMemória Autobiográfica”, apoiada no conceito de memória afetiva deHalbwachs (1990), entre outros autores. Utiliza um instrumental queremete a pessoa às lembranças dos acontecimentos e objetos singularesao longo de sua história, incitando o movimento de manipulação dasrepresentações mentais envolvidas e possibilitando atualização dessasrepresentações (novas combinações) e construção de um presente res-significado com vista a um novo futuro. A utilização dos produtos da memória (revisão de vida, reminis-cências, autobiografias, narrativas e história oral), de acordo com seurecorte analítico, cumpre várias funções. Dentre as funções psicológi-cas, sociais e culturais das memórias dos idosos apontadas por Ruth e revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 230. 238 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales GíglioKenion (1996), destacam-se: transmissão da herança cultural, melho-ria da auto-estima, cumprimento de papéis sociais e de tarefas etárias,como exemplo, de conselheiro, modelo e mentor; aumento das opor-tunidades de contato; integração e reconhecimento social; alívio deansiedade, culpa, vergonha, ressentimento e outros sentimentos nega-tivos; possibilidade de melhoria no autoconhecimento e na auto-ava-liação; estabelecimento de uma perspectiva de futuro e de um ponto devista sobre a finitude. Todos os produtos da memória são valorizados pela literaturapsicológica, que tem na matéria-prima da memória elementos parapromoção da regulação emocional, principalmente a revisão de vida,pelo seu potencial de reconstrução de eventos passados, seguida deinterpretação e análise do material reconstruído. Trata-se de uma ne-cessidade evolutiva do ser humano, especialmente o adulto, de buscarnovos significados das experiências e sentimentos associados à trajetó-ria de vida individual, às do grupo de idade e ao curso dos acontecimen-tos sócio-históricos (Neri, 2000). Na psicologia do desenvolvimento, vários teóricos fizeram refe-rência ao papel terapêutico da revisão de vida, entendendo ser esse umprocesso que cumpre importante função evolutiva de restaurar o equi-líbrio psicológico quando, na meia-idade e na velhice, a pessoa reconhe-ce sua própria finitude (Jung, 1991; Buhler, 1935; Erikson, 1963;Levinson, 1986). Assim, a revisão de vida funciona como um processoaltamente complexo de auto-regulação da personalidade (Butler, 1963,1974), sendo definida como um fenômeno de “ocorrência natural, umprocesso mental universal, caracterizado pelo retorno progressivo àconsciência de experiências passadas e particularmente o ressurgir deconflitos não-resolvidos; simultaneamente e normalmente estes confli-tos podem ser pesquisados e reintegrados” (ibid., p. 66). Almejando uma conjugação desses fundamentos teóricos empsicologia e a metodologia de trabalho com a memória de Brandão(1999a, 1999b, 2002a, 2002b), articulou-se a proposta de oficina derevisão de vida, descrita a seguir, como um método de abordagempsicológica com idosos em processo de envelhecimento normal.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 231. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 239O método da oficina de revisão de vida A pesquisa sobre o método de revisão de vida trabalhou com aexplicitação das lembranças individuais de um grupo de idosos, possi-bilitando a socialização e a comparação entre as próprias lembranças eas lembranças do outro, constituindo-se em uma abordagem diferentedo relato da história de vida. Envolveu um compartilhamento de his-tórias entre todos os membros do grupo, inclusive “a intervenção diretado pesquisador na história do outro, um acompanhamento feito deavanços e recuos na memória [do pesquisado]” (Kenski, s/d, p. 105)apoiando-o na detecção e reflexão das origens e dos significados de suaslembranças ao longo da vida. Como o objetivo da pesquisa restringiu-se a idosos em processode envelhecimento normal, entendeu-se que a presença de declínio damemória e de outras funções corticais superiores poderia remeter a viesesnos resultados. Nesse sentido, foi utilizada uma escala para avaliação doestado mental do pesquisado, fornecendo informações sobre disfunçãocognitiva e diagnóstico de demência, e um inventário de depressão paraassegurar que, do ponto de vista clínico, os pesquisados não apresen-tavam pontuação correspondente à depressão severa. A formação do grupo de pesquisa ocorreu após uma palestrainformativa sobre as questões de memória versus envelhecimento, umaapresentação da oficina de revisão de vida e convite para participaçãona mesma. Em seguida, foi feita uma reunião para acertos de local ehorário dos encontros, assinatura do termo de consentimento de par-ticipação na pesquisa, levantamento de informações sociodemográficase avaliação mental dos interessados. Formou-se assim, um grupo de 10mulheres idosas, entre 61 e 70 anos, freqüentadoras de diversos proje-tos socioeducativos para a “terceira idade”, em uma cidade do interiorpaulista. Um número entre 10 e 15 participantes foi definido comolimite ao adequado manejo grupal. O número de encontros da oficina foi fixado inicialmente em 10,sendo um encontro por semana, de duas horas cada. Em virtude dadinâmica desse grupo, foi necessário um 11o encontro. Parte do mate- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 232. 240 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales Gígliorial utilizado foi selecionado previamente, pela pesquisadora, com baseno perfil dos pesquisados, e, outra parte, de acordo com o processo quese desenrolava na oficina, ou seja, como o grupo respondia a determi-nada natureza de material (por exemplo, maior sensibilidade a materialescrito, imagético, de áudio), nível de compreensão, identidade socio-cultural e gostos. Estabeleceu-se um formato de grupo fechado a novos integran-tes, sendo feito no primeiro encontro um contrato de trabalho entre ospesquisados e o pesquisador (aqui denominado também de mediadordo grupo), nos moldes de um contrato psicológico. As regras de fun-cionamento do grupo incluíram um calendário por escrito, oferecidoaos participantes, com as datas, horários e número de encontros, locale telefones para contato com o pesquisador, para comunicar eventuaisfaltas (delimitou-se não poder faltar duas vezes consecutivas). Foi ex-plicado qual seria o papel do pesquisador no grupo e o papel de cada umquanto à utilização do tempo e do espaço da oficina, de forma que todospudessem participar (atitudes de respeito ao colega, sigilo). Explicou-se também que o processo dinâmico das interações humanas é sempreimprevisível, devido às diferenças individuais presentes em cada grupo. Um espaço privativo, sigilo de informações e atenção indivi-dualizada a todos do grupo foram garantidos, todo o tempo, como ele-mentos necessários ao encorajamento da pessoa à revisão de sua vida,tanto nos aspectos satisfatórios, quanto nos insatisfatórios, conformerecomendações de Coleman (1999). Para cada encontro selecionou-se um determinado material, compropriedades potenciais para reativar lembranças relativas a determinadomomento do ciclo da vida, pretendendo-se garantir, assim, que o percursode revisão de vida fosse cumprido. As informações resultantes desses mo-mentos foram posteriormente objeto de análise qualitativa e discussão,à luz de referenciais teóricos em psicologia, descritos por Leão (2005). O Quadro 1, a seguir, apresenta como os momentos/situaçõesvivenciais e respectivos materiais utilizados foram organizados em cadaencontro.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 233. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 241 Quadro 1– Seqüência do processo de revisão de vida na oficinaNo. Encontro Momento – Situação vivencial Material utilizado 1º. Origens Certidão de nascimento e texto de José Saramago 2º. Infância Crônica “A casa da minha avó”, de Danuza Leão 3º. Relacionamentos afetivos Fotos significativas trazidas pelos participantes 4º. Relacionamentos familiares Poesia “Retratos de Família”, de Carlos Drummond de Andrade 5º. Adolescência/juventude Coletânea de propagandas antigas 6º. Vida Adulta/casamento Crônica “Quem casa quer casa”, de Adélia Prado 7º. Tema livre Audição de música instrumental Desenho livre 8º. Vocação/profissão Notícia de revista “Tempos modernos” 9º. Perdas/velhice Texto “Roberto”, de Rachel de Queiroz 10º. Livre Discussão livre 11º. Projetos futuros Poema “Instantes”, de Jorge Luis Borges; encerramento e entrega do “livro de memórias” feito em casa; confraternização. Sobre o enquadre terapêutico 2 pretendido na oficina, o objetivofoi estabelecer um setting interativo entre pesquisador e pesquisados,nos moldes de um relacionamento terapêutico, em que o pesquisadorassume uma postura de mediador dos conteúdos e trocas afetivas sãomobilizadas nos e entre os participantes, escutando-se, de forma com-preensivo-interpretativa como lidam com suas vidas. A postura deescuta e sensibilidade para com o pesquisado e para com os fenômenosdecorrentes do campo da pesquisa são elementos-chave que determi-nam o envolvimento grupal, balizando o início, o desenvolvimento e ofechamento do material compartilhado, possibilitando a emergênciade sentimentos diversificados e a atualização das percepções de cada ume das de todo o grupo.2 Termo usado no sentido da soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o funcionamento grupal, “as regras do jogo”, não o jogo propriamente dito. Configura-se como um elemento essencial de técnica grupalística (Zimerman e Osório, 1997). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 234. 242 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales Gíglio A exemplo da oficina de memória autobiográfica de Brandão(2002a), foi solicitado, também no primeiro dia, que os participantesfizessem, em casa, depois de cada encontro, anotações que constitui-riam um livro pessoal de memórias. O livro poderia conter as recor-dações. Uma vez definido para quem o grupo se destinava, como elefuncionaria, onde, em quais circunstâncias e com quais recursos, foinecessário definir o recorte da intervenção no campo psicológico, con-siderando-se que o grupo composto não buscava deliberadamente aju-da. Da parte da pesquisadora é que havia uma oferta de benefíciosdirigida e aceita por esse grupo, por meio de um trabalho com umproduto da memória – a revisão de vida, que, supostamente, resultariaem promoção da saúde mental dos envolvidos, em processo de envelhe-cimento normal. Assim, a oficina de revisão de vida aproximou-se de uma confi-guração de grupo operativo3, com finalidade terapêutica (embora semo caráter de psicoterapia), operando sobre uma determinada tarefaobjetiva e de interesse comum, prevendo uma função terapêutica emvirtude dos múltiplos fenômenos e elementos do psiquismo, inter eintra-subjetivos articulados entre si, de tal modo que a alteração de umrepercutia sobre os demais, em uma constante interação entre todos(Pichon-Rivière, 1988). Ao mediador do grupo coube atuar como agente terapêuticofundamental, construindo um arranjo para que o destino do grupo fosseo de crescimento, fazendo um bom aproveitamento da potencialidadedos múltiplos vetores que integram o campo grupalístico. Um pressuposto básico dessa oficina foi não buscar delibera-damente a resolução de conflitos individuais, no grupo, percebidos comode natureza inconsciente, visto não se tratar de um setting de interpre-3 Pichon-Rivière (1988, p. 81) conceitua o grupo operativo como “um conjunto restrito de pessoas, que, ligadas por constantes de tempo e espaço e articuladas por sua mútua representação interna, propõe-se, em forma explícita ou implícita, a uma tarefa que constitui sua finalidade, interatuando através de complexos me- canismos de assunção e adjudicação de papéis”.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 235. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 243tação de cunho analítico. Foi um campo que incluiu o autoconhecimen-to e o fator terapêutico – mais pelo compartilhamento da busca de co-nhecimento de si (quem sou eu). É útil enfatizar que a atividade do coordenador dos grupos ope- rativos deve ficar centralizada unicamente na tarefa proposta, sendo que, somente nas situações em que os fatores incons- cientes inter-relacionais ameaçarem a integração ou a evolução exitosa do grupo, é que caberão intervenções de ordem inter- pretativa, por vezes dirigidas ao plano inconsciente. (Zimerman e Osório, 1997, p. 76) A interpretação (no seu sentido estrito e consagrado do referen-cial psicanalítico, para settings específicos) não foi praticada. Todavia,couberam ao mediador outras participações verbais, que também agemcomo fatores terapêuticos, em razão de a interpretação não ser o únicoinstrumento “curativo”. Como exemplo, o uso de perguntas que provo-cavam reflexões, correlações, clarificações, assinalamentos de contradi-ções para abertura de novos aspectos de observação dos mesmos fatos edas formas de linguagem não-verbais. Outro fator terapêutico constituio empréstimo de algumas funções egóicas do mediador ao grupo (ensinaras pessoas a pensar as experiências emocionais, conseguir verbalizá-las,conferir-lhes diferentes significados, em relação àqueles que as pessoas dogrupo comumente vivenciam, ensinar a ouvir o outro, etc.) (ibid.). Por último, mas não menos importante, coube também ao me-diador saber terminar o trabalho ao qual o grupo se propôs, extraindo umdenominador comum das questões ali compartilhadas, integrando-as emum todo coerente e unificado, apontando o crescimento mental.Conclusão Considerando que o critério básico de diferenciação dos conteú-dos da memória para identificação da revisão de vida é o caráter deintencionalidade na busca e na avaliação das lembranças de quem lem-bra, constatou-se que a metodologia utilizada para acionar lembranças revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 236. 244 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales Gígliorelativas a temáticas específicas, na oficina, colaborou para que os con-teúdos reativados apresentassem alta estruturação, abrangência, e paraque pudessem ser objeto de (re)avaliação. A freqüência das pautas foialta, a despeito da curta duração da oficina. Quanto à espontaneidade de aparecimento dos conteúdos, ogrupo transitou facilmente entre conteúdos correlatos ou não ao ma-terial das temáticas. Quando esses conteúdos perdiam o foco de revisão,eram redirecionados pelo mediador do grupo. Mas quando o própriogrupo se direcionou, desde o início do encontro, para uma temática deseu interesse, à parte do material e temática planejados para aquele dia(como exemplo, o nono encontro), isso foi respeitado, por tratar-se deconteúdos importantes a serem lembrados e refletidos. Essa espontaneidade de apresentação de conteúdos também foiprevista no encontro em que se utilizou a audição de música instrumen-tal e o desenho, em seguida. Dessa forma, mesmo delimitando temá-ticas para cada encontro, as pautas se misturaram, transitaram pelo ciclovital o tempo todo. Em relação à dinâmica de funcionamento da oficina, houve poucanecessidade da intervenção do mediador. Rapidamente, as participan-tes compreenderam as “regras do jogo” e elas mesmas se incumbiam dedirigir perguntas umas às outras, buscar esclarecimentos de informa-ções que eram dadas entre elas, oferecer acolhimento às dificuldadesmanifestadas, sempre num clima de muito respeito, consideração eadmiração pela história da outra. Foi interessante observar que perce-beram que ali não era um setting psicoterápico nos moldes clássicos, enão levaram seus problemas pessoais ou buscaram resolvê-los de formaconsciente, utilizando-se do espaço da oficina de forma individualista. Não houve, entre as participantes, durante os encontros, atitu-des ou comportamentos de intimidação, ofensa, descrédito, censura,insensibilidade ou preconceitos em relação às histórias que se apresen-tavam, que se repetiam, a que se acrescentavam detalhes, que se des-velavam em intimidades ou em conteúdos mais ou menos “patológicos”. Aos poucos foi se estabelecendo um clima de confiança, admira-ção pelo outro ou identificação, percebido por meio dos comentários e/revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 237. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 245ou feedbacks dirigidos a todo o grupo ou a alguém em particular. Aomediador coube abrir e fechar o encontro, permitindo ao grupo dire-cionar-se segundo suas necessidades. Se o assunto se desviava muito dopropósito inicial ou dos interesses do grupo, num dado momento, outomava uma dimensão mais personalizada ou confusa, o mediadorredirecionava a discussão, clarificava, sintetizava ou lembrava os con-teúdos mais importantes naquele momento. Os assinalamentos cogni-tivos foram necessários, inclusive para reforçar o quanto eraminteressantes as histórias de cada uma, de que ali era um espaço paracontarem sobre tudo isso. Havia tempo para ouvir, gostava-se de ouvir(Zimerman e Osório, 1997). Observou-se que, embora a revisão de vida possa ser consideradaum método de intervenção apropriado a todas as idades, assume especialsignificado durante o processo de envelhecimento, pela possibilidade de(re)integração das experiências ao longo da vida, acionando três variáveis:a recordação, a avaliação e a síntese (Webster e Young, 1988, p. 318). De posse de todo o material coletado na oficina, a análise qua-litativa constatou a presença de alguns princípios organizativos noprocesso de revisão de vida do grupo, sintetizados a seguir: a) preparação para revisão de vida – motivação constante daspessoas do grupo, desde o momento do convite para participação naoficina, relatos de ansiedade no aguardo do dia do encontro e em relaçãoàs propostas de cada dia, havendo imediata adesão a elas, sugestões parafalar sobre determinados assuntos; b) (re) construção do passado – perda do sono em casa, atribuídaà continuidade das lembranças, disposição em trazer material para aoficina, como fotos e objetos, retificação ou ratificação de algo relatadoanteriormente, compartilhamento das lembranças com os familiares; c) avaliação do passado e do presente – verbalizações do quantoaprenderam com o outro, esforço para manter contatos sociais, aspira-ções quanto ao bem-estar da família e das pessoas em geral, preocupa-ções relativas à capacidade de autocuidado e independência; d) planejamento para o futuro – mobilização para uma ação fu-tura, com base em processos de comparação, presença de um senso de revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 238. 246 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales Gígliocontinuidade para suportar as mudanças. Observou-se a presença demetas relacionadas à personalidade global, metas de auto-realização emtermos de desenvolvimento de potencialidades; metas de maior conta-to social; metas de explorar o mundo e a si mesmo e metas relacionadasao interesse pelo lazer, confirmando dados de pesquisa de Freire (2001). Conclui-se que o processo de revisão de vida proposto na oficinafacilita um balanço mais realístico entre as perdas e ganhos da velhice.As lembranças aparentemente insignificantes sobre si mesmo, quandoconduzidas com intencionalidade e adequação metodológicas, evoluempara uma forma mais organizada, produzindo uma (re)organização, umretorno à consciência de experiências passadas, conflitos não-resolvidose fontes de motivação que podem ser pesquisados e integrados à expe-riência subjetiva. Conferem um benefício afetivo-emocional a idososem processo de envelhecimento normal.ReferênciasAMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (2004). Guidelines for psychological practice with adults. American Psychology, v. 59, n. 4, pp. 236-260.BRANDÃO, V M. A. T. (1999a). Memória, cultura, projeto de vida. . Dissertação de mestrado em Ciências Sociais, Antropologia. São Paulo, PUC._______ (1999b). Os fios da memória na trama da cultura. Revista Kairós. Gerontologia – Núcleo de Estudo e Pesquisa do Enve- lhecimento, Programa de Estudos Pós-graduados em Geron- tologia, v. 2, n. 2, pp. 45-53. São Paulo, Educ._______ (2002a). Oficina de Memória – Teoria e Prática: relato sobre a construção de um projeto. Revista Kairós. Gerontologia – Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento, Programa de Estudos Pós- graduados em Gerontologia, v. 2, n. 5, pp. 181-195. São Paulo, Educ._______ (2002b). Anotações do curso “Oficina de memória auto- biográfica – teoria e prática”. São Paulo, PUC.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 239. A oficina de revisão de vida como um método de intervenção 247BÜHLER, C. (1935). The curve of life as studied in biographies. The Journal of Applied Psychology, v. 19, n. 4, pp. 405-409.BUTLER, R. N. (1963). The life review: an interpretation of reminiscence in the aged. Psychiatry, n. 26, pp. 65-76.____ (1974). Successful aging and the role of the life review. Journal of the American Geriatrics Society, n. 22, pp. 529-535.COLEMAN, P. G. (1999). Creating life story the task of reconciliation. The Gerontologist, v. 39, n. 2, pp. 133-139.CZERESNIA, D. (2003). “Uma introdução ao conceito de promoção de saúde”. In: CZERESNIA, D. e FREITAS, C. M. (orgs.). Promo- ção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro, Fiocruz.ERIKSON, E. H. (1963). Childhood and Society. 2 ed. New York, Norton.FERRARI, M. A. C. (1997). Desenvolvendo oficinas de terapia da memória. O Mundo da Saúde, v. 21, n. 6, pp. 340-343.FREIRE, S. A. (2001). Bem-estar subjetivo e metas de vida: um estudo trans- versal com homens e mulheres pertencentes a três faixas de idade. Tese de doutorado. Campinas, SP Universidade Estadual de Campinas. ,HALBWACHS, M. (1990). A memória coletiva. São Paulo, Revista dos Tribunais.JUNG, C. G. (1991). “As etapas da vida humana”. In: JUNG, C. G. A natureza da psique. 3 ed. Petrópolis, RJ, Vozes.KENSCKI, V. M. (s/d). “Memória e prática docente”. In: BRAN- DÃO, C. R. (org). As faces da memória. Campinas, Centro de Memória/Unicamp (Coleção Seminários).LEÃO, M. A. B.G. (2005). Oficina de revisão de vida e bem-estar sub- jetivo em mulheres idosas: um estudo sobre um método de intervenção psicológica. Tese de doutorado. Faculdade de Ciências Médi- cas. Campinas, SP Universidade Estadual de Campinas. ,LEVINSON, D. J. (1986). A conception of adult development. American Psychologist, v. 41, n. 1, pp. 3-13.NERI, A. L. (2000). “Reminiscência e revisão de vida na vida adulta e na velhice”. In: DEBERT, G. G. e GOLDSTEIN, D. M. Po- líticas do corpo e o curso da vida. São Paulo, Sumaré. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 240. 248 Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão e Joel Sales GíglioNERI, A. L. (2002). “O curso do desenvolvimento intelectual na vida adulta e na velhice”. In: FREITAS, E. V; PY, L; NERI, A. L; CANÇADO, F. A. X.; GORZONI, M. L. e ROCHA, S. M. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.PICHON-RIVIÉRE, P. H. (1988). O processo grupal. 39 ed. São Pau- lo, Martins Fontes.RUTH, J. E. e KENION, G. M. (1996). “Biography in adult development and aging”. In: BIRREN, J. E.; KENION, J. E.; SCHROOTS, J. J. F. e SVENSSON, T. (eds.). Aging and biography: explorations in adult development. New York, Springer.STAUDINGER, U. M.; MARSISKE, M. e BALTES, P B. (1993). . “Resiliência e níveis de capacidade de reserva na velhice: pers- pectivas da teoria do curso da vida”. Tradução de Anita Libe- ralesso Neri e Lucila L. Goldstein. In: NERI, A. L. (org.). Psicologia do envelhecimento. Campinas, Papirus.WEBSTER, J. D. e YOUNG, R. A. (1988). Process variables of the life review: counseling implications. International Journal of Aging and Human Development, v. 26, n. 4, pp. 315-332.YASSUDA, M. S. (2002). “Memória e o envelhecimento saudável”. In: In: FREITAS, E. V.; PY, L.; NERI, A. L.; CANÇADO, F. A. X.; GORZONI, M. L. e ROCHA, S. M. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.ZIMERMAN, D. E. e OSÓRIO, L. C. (1997). Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre, Artes Médicas.Data de recebimento:14/4/3005; Data de aceite: 4/7/2005.Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão – Psicóloga, docente do curso dePsicologia da Universidade de Taubaté, SP. Doutora em Ciências Médicas.E-mail: mgleao@pop.com.brJoel Sales Gíglio – Médico psiquiatra, professor doutor do Departamento dePsiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universida-de Estadual de Campinas, SP. E-mail: giglioj@uol.com.brrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 235-248
  • 241. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa Valda Bernardes de Souza BrunoRESUMO: Este artigo originou-se da dissertação de mestrado em Gerontologia, cujoobjetivo foi investigar as mudanças e os movimentos que ocorrem com a pessoa idosa quebusca uma psicoterapia. Observou-se que a pessoa, no seu processo de envelhecimento,quando estimulada, acolhida e respeitada, encontra motivação para realizar atividadesnunca antes pensadas e experimentadas, como, por exemplo, o caminho das artes.Palavras-chave: idosa; movimento; arte.ABSTRACT: The following article is the result of a Gerontology Master’s Degree thesis whoseaim was to investigate the changes and processes experienced by the elderly person who seeks a psycho-therapeutic treatment. It has been noticed that when stimulated to accomplish activities that he orshe had never experienced or thought about before, such as, for example, undertaking an artistic path.Key-words: elderly; process; art. Durante a velhice deveríamos estar ainda engajados em coisas que nos transcendem, que não envelhecem, e que dão significado a nossos gestos cotidianos. (Bosi, 1999, p. 80)O movimento do olhar para o envelhecimento A realização pessoal é muito importante para o ser humano nomomento em que percorre a fase do envelhecimento. Adquirir autono- revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 242. 250 Valda Bernardes de Souza Brunomia, conquistar o respeito por suas vontades são os caminhos que vãodar segurança e liberdade de ação ao idoso. Não podemos nos esquecerde que a pessoa, normalmente, em qualquer fase da vida, tem vontade,desejo de continuidade, impulso para alcançar espaços. Convém ressaltar que “se processam transformações importan-tes nas relações estabelecidas pela sociedade com a velhice na nossatradição cultural. A velhice passa a ser objeto de cuidado e atençãoespeciais, que eram certamente inexistentes nos últimos dois séculos”(Birman, 1993, p. 35). Certamente, é uma fase que requer cuidado, porém, sem neces-sidade de dar ênfase ao declínio físico, encarando-a não como decadên-cia, mas como uma etapa da vida como foram a infância, a adolescência,a juventude e a idade adulta: (...) a aceitação passiva, a resignação, a indiferença, a camufla- gem de quem está obstinado em não ver as próprias rugas e o próprio enfraquecimento e se impõe à máscara da eterna juven- tude, a rebelião consciente através do esforço contínuo, muitas vezes destinado ao fracasso, de continuar de modo inflexível o trabalho de sempre, ou, ao contrário, o distanciamento da agitação quotidiana e o recolhimento da reflexão ou na prece, o viver esta vida como se fosse a outra, dissolvidos todos os vínculos mundanos. A velhice não está separada do resto da vida que a precede: é a continuação de nossa adolescência, ju- ventude, maturidade. (Bobbio, 1976, p. 29) Embora o envelhecimento no Brasil esteja associado à miséria,uma pequena parte privilegiada da população pode escolher caminhosou atividades, sem obrigações profissionais. É o momento de se realizarcom o desdobramento do núcleo familiar, por meio dos filhos e com achegada dos netos. Também é importante salientar que as mudanças naconcepção do envelhecimento já vêm ocorrendo ao longo dos anos, oque significa dizer que a velhice passa por uma transformação signifi-cativa.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 243. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 251 Apesar do declínio físico advindo dos muitos anos vividos, pode-mos observar que as pessoas se mantêm ativas, sonhadoras e procuran-do realizações, como é a história de vida de uma idosa – objeto de estudodeste trabalho – que se tornou pintora. A mudança na concepção de“ser velho” foi marcante para aqueles que vivenciaram a década de 60,formando os velhos de hoje: participantes e exigindo qualidade de vida. Os jovens da década de 60, que hoje estão iniciando a sua primei-ra fase do processo de envelhecimento, são esportistas, participam dasociedade e vestem-se acompanhando o estilo do momento. A calça“jeans”, por exemplo, pode ser usada pelo jovem, pelo adulto-idoso epelo velho. Não há mais discriminação de trajes e as gerações estão maispróximas. É preciso formarmos uma consciência que transforme as visõesestereotipadas em relação ao envelhecimento: (...) a marginalização dos velhos em uma época em que a mar- cha da história está cada vez mais acelerada é um dado de fato impossível de ignorar. (...) O velho sabe por experiência aquilo que os outros ainda não sabem e precisam aprender com ele, seja na esfera ética, seja na dos costumes, seja na das técnicas de sobrevivência. (Bobbio, 1976, p. 20) A marginalização do velho e a ausência de objetivos levam-no auma vida sem qualquer perspectiva de futuro. Portanto, resgatar o lugarsocial do idoso é crucial. A subjetividade do velho não era reconhecida. Vale dizer, o idoso era considerado alguém que existiu no passado, que realizou o seu percurso psicossocial e que apenas espera o momento fatídico para sair inteiramente de cena do mundo. (...) a possibilidade de reconhecimento da velhice como sujeito psíquico existente e, como agente social, o idoso pode talvez se relacionar com o futuro de uma outra maneira, redimensionado a sua inserção na or- dem da temporalidade. (Birman, 1993, pp. 38-39). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 244. 252 Valda Bernardes de Souza Bruno A probabilidade de o idoso ser um agente social vem ao encontrodo meu pensamento sobre a preservação da autonomia no envelheci-mento. Respeitar e reconhecer a sua possibilidade de fazer escolhas éessencial. Ele está na vida para vivê-la e não para passar por ela sempropósitos e somente aguardar a finitude.Descobrindo-se pintora O primeiro contato com a futura pintora deu-se no consultóriode psicoterapia. Apresentou-se uma mulher cuidada, bonita, vaidosa,que relatou-me ter sido sempre assim. Porém, naquele momento estavatensa, nervosa, angustiada e deprimida com a aproximação da aposen-tadoria. “Não sei o que vou fazer. Não fui educada para ser dona-de-casa.” Cabe aqui um parêntese para afirmar que Simone de Beauvoiré hoje leitura obrigatória para refletirmos sobre a velhice contemporâ-nea, uma vez que, em sua obra, a autora já nos alerta para a tragédiaque representam os últimos anos de vida passados sem objetivos eperspectivas. Segundo todos os gerontologistas, viver os últimos vinte anos da vida em bom estado físico, mas sem nenhuma atividade útil, é psicológica e sociologicamente impossível. É preciso dar a esses sobreviventes motivos para viver: a sobrevivência bruta é pior que a morte. Você não pode estar aposentado e viver. (Beauvoir, 1990, pp. 337-338) Foi com essa percepção que, a “pintora”, por meio da sua angús-tia, expressou o desejo de trilhar um caminho alternativo. Na ocasião,ainda não se podia saber qual sentido seria dado a toda essa inquietação.Na primeira sessão psicoterapêutica, veio acompanhada por uma dasfilhas, que disse ter-me procurado por orientação médica. O fato deaceitar a indicação dada por um profissional reforça a nossa crença emque essa pessoa estava à procura de ajuda. Assim começamos os nossosencontros.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 245. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 253 Podemos dizer que a sua história começou quando sua mãe en-gravidou aos 40 anos, 10 anos depois de ter o último filho. Achava queera um fibroma e quando ficou constatada a gravidez, sentiu muitavergonha. “Como ela não me queria, não se cuidou e eu nasci muito pequena,cabia em uma caixa de sapatos com algodão, pois nasci de 7 meses. Minha mãeme rejeitou sempre; para eu sobreviver, tive que tomar leite de vaca, porque elaperdera o leite com uma infecção nos seios”. A sensação de rejeição é umsentimento forte, que permeou toda a sua vida. Aqui, interessa-nos essefato, pois, como veremos na sua mudança, ele não foi impeditivo paraas conquistas que fez. Ao contrário, foi precoce em tudo: Aos 11 anos comecei a namorar, com 18 anos fui trabalhar e aos 20 anos já estava casando. O meu relacionamento com meus pais e irmãos sempre foi muito tenso. Sentia raiva de minha mãe por ter me rejeitado. Após o casamento, continuei a trabalhar e nunca cuidei da casa e dos filhos, diretamente, sempre tive empregados de confiança. Teve cinco filhos, quatro mulheres e um homem, saudáveis equeridos, cuidados por uma ama dedicada que passou a fazer parte dafamília, liberando-a de mais esses afazeres domésticos. Entretanto, arelação com o marido sempre foi muito sofrida. Era um homem do meio artístico, especificamente do rádio, ondeela também foi trabalhar quando se mudaram para São Paulo. Projetouo seu nome com o pseudônimo de “Tânia Ramirez”, escrevendo para o“Teatrinho das Cinco” e “Madame D’Anjou”, na Rádio Tupi, programade consultas por cartas que vinham de toda São Paulo e do Brasil. “Euestava realizada, produzia muito, escrevia, escrevia. Depois de anos nessarealização profissional, a Cidade do Rádio acabou e eu e meu marido perdemoso emprego.” O trabalho tornou-se ponte de contato para essa difícil uniãoconjugal e possibilidade de realização para uma mulher que não tinhanas atividades da casa sua meta de vida. Beauvoir, ao citar um depoi-mento de Hemingway, ilustra os sentimentos de desesperança e aban-dono que o afastamento do trabalho provoca. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 246. 254 Valda Bernardes de Souza Bruno A pior morte para um indivíduo é perder o que forma o centro de sua vida, e que faz dele o que realmente é. Aposentadoria é a palavra mais repugnante da língua. Seja escolha nossa ou imposição do destino, aposentar-se é abandonar nossas ocupa- ções – essas ocupações que fazem de nós o que somos – equivale a descer ao túmulo. (Beauvoir, 1990, p. 325) Vejamos as trágicas conseqüências que trouxe para a vida dapintora a ruptura com o emprego. Conseguiu uma nova inserção socialque supria as necessidades econômicas, mas não a realização profissio-nal. O marido tornava-se ainda mais cáustico com as perdas físicas,oriundas de um acidente vascular cerebral, destruindo símbolos que lheeram preciosos. Mais do que nunca, necessitava de espaços para se re-construir. Meu marido teve um derrame e foi aposentado por invalidez. Eu fui trabalhar no Cartório de Registro de Imóveis de um cunhado, e agora estou chegando à aposentadoria sem saber o que fazer. O que sempre gostei de fazer foi escrever, mas tive um bloqueio quando sai da Rádio; foi um impacto. Depois de alguns anos, quando fui procurar os meus escritos, constatei que meu marido havia jogado todos no lixo. Foi muito triste saber que tudo que produzi numa fase áurea de minha vida não existia mais, o que contribuiu mais ainda para o meu bloqueio em voltar a escrever. Gosto de vir aqui, você me ouve e eu não preciso me preocupar com que falo. O relaxamento me faz bem, estou dormindo melhor, e também conseguindo lembrar dos meus sonhos. A minha ansiedade diminuiu. O momento psicoterapêutico verbal e os toques calatônicos (ca-latonia – método de relaxamento criado por Dr. Pëtho Sándor) propi-ciavam o afrouxamento das tensões, permitindo o desatar das amarras,o levantamento dos véus dos olhos e a possibilidade de colher novosalimentos. Essas imagens poéticas, pertencentes ao linguajar dos pro-fissionais que atuam com a calatonia, ilustram o rico movimento quese desencadeou na atividade psicoterapêutica. Nesse momento, ao serevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 247. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 255declarar incapaz para a escrita, falei das possibilidades de desenhar ossonhos noturnos e as imagens que surgiam quando estava recebendo ostoques e entrando em relaxamento profundo. Como havia tido umbloqueio para escrever, mencionei a possibilidade de se expressar pelodesenho. Reagiu dizendo: “Odeio desenho, quando estava na escola a profes-sora mandava eu desenhar na lousa, e eu nunca consegui”. Dirigi nossa conversa sobre o querer, fazendo uma retrospectivade sua história de vida, e falei do seu nascimento, de sua vontade de virao mundo, ao nascer com 7 meses, ou seja, prematura, em uma fazenda,e conseguir sobreviver; relembrei de seus namoros na infância, do seucasamento, da sua atuação na rádio, suas orientações para as ouvintes.A vontade sempre esteve presente em sua vida, exercendo autonomiacomo mãe, esposa e profissional. Nossas sessões aconteciam uma vez por semana, ou duas, por suasolicitação. Havia necessidade de falar e de ser ouvida com atenção esem censuras ou críticas, pois lhe aliviava a tensão e a ansiedade. Nunca tive ninguém para me escutar, sem censuras. Quando estava muito nervosa, procurava os padres para conseguir um alívio, mas sempre pre- cisava medir as palavras. Aqui falo da minha vida sexual, dos meus desejos e conflitos sem constrangimento. Nos seus relatos, os sonhos e as imagens sugidas por meio do re-laxamento eram por mim interpretadas. Continuei insistindo para quedesenhasse e dei-lhe a seguinte orientação: em casa, pegue um papel e umlápis, feche os olhos e solte a mão, deixe-a deslizar pelo papel. Apesarde demonstrar estranheza diante dessa sugestão, disse que iria tentar. Fui para Ubatuba, tomei uns banhos de sol e ao chegar em casa vi dois barquinhos, e disse para mim: vou tentar desenhar conforme a orien- tação da Valda. Peguei lápis de cera e papel comum, fechei os olhos e deixei a mão correr. Quando abri, a maior surpresa da minha vida, eu havia feito um cavalo marinho. Parecia uma pintura. Como sempre resistisse a desenhar os sonhos e imagens do rela-xamento, percebi que, se eu mudasse a palavra desenho para pintura, revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 248. 256 Valda Bernardes de Souza Brunoseria produtivo. Com essa conquista, ela resolveu entrar num curso depintura, aos sábados. Empolgava-se com as cores, com os pincéis, coma sua possibilidade de transformar aquele momento sem expectativasde futuro, sem ter o que fazer em virtude da aposentadoria. Estabeleceuuma relação afetiva com a professora de pintura, que a incentivava maisque a própria família. Estávamos juntas há pouco mais de um ano. Umdia disse-me que ia fazer um quadro para mim, e, como inicialmenteos recursos para comprar o material eram poucos, ela pintava em ladri-lhos e me trouxe um lindo “pôr do sol”. “O pôr do sol representa uma fasede minha vida que está terminando.” Sua autoconfiança foi se firmando e o entusiasmo pela pinturacresceu. Dizia: “quando me aposentar, vou ser pintora, terei outra profissão;já fui escritora, sou funcionária pública e agora, artista. Você me ajudou muito”. Ao terminar o processo psicoterapêutico, novamente presenteou-me com um quadro pintado a óleo sobre tela. Um vaso com flores,sinalizando a nossa despedida daqueles momentos em que vivemos tãopróximas e que estavam se distanciando. Nossos encontros totalizaram74 sessões psicoterapêuticas, que transformei em relatos orais, quandoescolhi esse caso clínico para ser objeto de meu estudo, na tese demestrado e de onde se originou este artigo, procurando mostrar a pos-sibilidade que o idoso tem de transformar sua vida.Uma artista em ação Entrar novamente em contato com a pintora foi relevante paraeste estudo, que nos remeteu ao passado e ao presente de uma formamuito singular na minha trajetória profissional, desde o nosso primeiroencontro em meu consultório, quando procurou ajuda psicoterapêuti-ca. O tempo havia passado. Íamos nos encontrar fora do espaço doconsultório. Retomar o tempo e saber das experiências que adquiriuestava sendo muito empolgante “A história de vida por sua vez, se definecomo o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo,tentando reconstruir os acontecimentos que vivenciou e transmitir aexperiência que adquiriu” (Queiroz, 1987, p. 275).revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 249. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 257 Assim, com esse pensamento, procurei a pintora, que já não estavamorando na capital de São Paulo. Marcamos uma entrevista para o dia3 de agosto de 2001. Fui até a cidade em que mora e nosso reencontrofoi marcado por muita emoção e alegria. Estava como na primeira vezem que a vi: elegante, bonita e vaidosa nos seus 74 anos. Ela me recebeuem seu ateliê que fica anexo à casa de sua filha, com quem mora depoisde ter ficado viúva. Pude observar na parte externa um jardim muitobem cuidado e ela me disse ter sido também a responsável pelo paisa-gismo. Constatamos, então, que uma mulher que não sabia desenhar,que não sabia o que fazer depois de se aposentar, se transformara, na suavelhice, em uma artista plástica. Artista plástica, sim, porque sua de-senvoltura continuou em franco sucesso. Sua produção hoje se estendepara pintura – que diz ser sua preferência – e escultura. “Não gosto decoisas repetitivas, por isso procurei diversificar o meu trabalho.” Questionei o que representava a pintura naquela sua fase de vida,ao que me respondeu: Você me descobriu, acabei me tornando uma pequena pintora, eu digo pequena porque não sei desenhar. Sua orientação no passado me levou à pintura. Então consigo transmitir as minhas emoções para as telas. Cheguei a procurar um desenhista famoso, que dizia que liberava a parte direita do cérebro, e todos sairiam dali desenhando! Não gostei, você sabe, não gosto de estudar, não gosto de estudar-regras, não gosto de regras. Então continuei com a minha liberdade de expressar o que queria e sentia. Podemos notar que a sua afirmação vem ao encontro das idéiasde Beauvoir: “Os pintores não estão sujeitos a regras quanto os músicos;mas também eles têm necessidade de tempo para superar as dificulda-des do seu ofício, e muitas vezes é na última idade que produzem suasobras-primas” (1990, p. 499). Depois, pedi que me relatasse a evoluçãode sua produção artística. “Bem, eu tinha cinco filhos. Tinha, porque o meumenino faleceu há dois anos” (nesse momento, ficou com os olhos mare-jados de lágrimas e mostrou tristeza). revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 250. 258 Valda Bernardes de Souza Bruno Foi e tem sido muito triste não tê-lo mais. Eu fiz cinco quadros de natureza morta. As frutas, as flores, a beleza e sensibilidade de uma natureza morta estampadas nos quadros foram feitos com maior amor para cada um dos meus filhos, para alegrar as suas refeições e testemu- nhar também minha presença nesta longa vida cheia de mistérios, dores e alegrias. Ao mesmo tempo responder à curiosidade dos netos e bisnetos que mais tarde irão indagar as particularidades de seus descendentes, orgulhando-se de sua própria origem, enaltecendo-os pelo esforço de vencer as limitações, apesar do tempo que não pára. Convém lembrar que ela passou por perdas significativas, comoo marido e o filho, e torna-se muito difícil expressar tais momentos navelhice. “Não é justo falar de uma relação com a morte: o fato é que ovelho – como todo homem – só tem relação com a vida. (...) viver demaisé sobreviver àqueles que amamos” (Beauvoir, 1990, pp. 543-544).Continuou relatando de que modo se expandiu nas artes: Você sabe, não gosto de coisas repetitivas, então vou procurando sempre fazer algo diferente, para conhecer e sentir até aonde posso ir. Então fui fazer escultura e acabei gostando também e estou fazendo uns trabalhos razoáveis. A arte estimula regiões do cérebro que outras técnicas não con-seguem alcançar, tem o poderoso dom de elevar a auto-estima e a in-tegração com outras pessoas – o paciente e a atividade artísticapromovem uma complementação ao tratamento, no desenvolvimentode sua criatividade e o reconhecimento de sua expansão: “a pintura e amodelagem tinham em si mesmas qualidades terapêuticas, pois davamforma a emoções tumultuosas, despotencializando-as, e objetivavamforças autocurativas que se moviam em direção à consciência, isto é, àrealidade” (Silveira,1992, p. 17). A seguir, deixou transparecer o desejode voltar a escrever. Espero voltar a escrever, que é o meu sonho, e eu acho que é uma coisa assim prodigiosa para o espírito, principalmente para pessoas de mais idade. Através da escrita podemos pôr para fora os nossos sentimentos,revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 251. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 259 porque os jovens, às vezes, não têm muita paciência para ouvir – eu já não estou ouvindo bem, então dificulta ainda mais o contato. Então, se eu puder voltar a escrever, será a maior vitória de minha vida, e acredito que não vou morrer – estou com 74 anos e não quero morrer antes de voltar a escrever, porque aí eu vou pôr para fora aquilo que sofri, vou poder contar, passar para as pessoas que precisam, que estão desencantadas com a idade, com a velhice, com os limites e dificuldades. Eu acho que vai ser muito bom eu poder enviar uma mensagem às pessoas. Por intermédio dessa declaração percebemos sua vontade devencer obstáculos e prosseguir em direção aos seus objetivos. “Se umvelho fica amuado com o seu tempo, não encontra nele nada que possaarrancá-lo de sua melancolia. Mas, mesmo que permaneça atento aoque o cerca, a ausência de objetivo torna sombria a sua vida” (Beauvoir,1990, p. 564). Em seguida, ela se levantou e pegou um artigo publicadono jornal Folha de S. Paulo, no dia 2 de agosto, ou seja, um dia antes donosso encontro. Veja que coincidência, ontem saiu esta crônica “ mulheres e o rádio”, As falando de madame D’Anjou, que era eu, escrito pela Anna Verônica Mautner, psicanalista, que nem me conhece! Leia! Então, leio em voz alta: Rádio Difusora, 16h. Surge uma voz lendo cartas que era se- guida pela voz grave de madame D’Anjou respondendo, su- gerindo soluções para conflitos humanos. E era de todo o Brasil que escreviam para ela. Em torno do rádio, em cada casa, oficina ou loja, fazia-se silêncio para ouvir as bem pensadas palavras de madame D’Anjou ou para prestar atenção ao diálogo das novelas. A troca de carta por conselho era um dos raros aspectos interativos do rádio. O silêncio não represen- tava respeito a algo sagrado ou divino. O rádio nunca foi um oráculo. Era a voz do outro, a descoberta da alteridade ainda sem trocas. (Mautner, 2001, p. 15) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 252. 260 Valda Bernardes de Souza Bruno Sua emoção era muito forte diante da coincidência. Coincidên-cia? Não, uma sincronicidade, como Jung chamou certas “coincidên-cias” que observou entre um acontecimento no mundo objetivo e umacontecimento psíquico, ligadas por terem uma relação de significado,não necessariamente simultâneos, mas próximos no tempo, e não liga-dos por uma relação causal que pudesse ser observada. Não esbarramoscom acontecimentos desse tipo todos os dias, talvez porque normal-mente somos incapazes de imaginar ou de admitir acontecimentosinexplicáveis, ou seja, que não tenham uma ligação causal. Marcamos a nossa entrevista com um mês de antecedência, e,um dia antes, ela leu no jornal a crônica que a deixou muito emociona-da, além da expectativa pela minha chegada para a entrevista. Quissaber se eu conhecia a psicanalista e eu lhe disse que só conhecia denome. Assim terminou o nosso encontro. Foi-lhe dada a oportunidadede pensar no futuro quando parecia não mais ter perspectiva de vidacom a aproximação da aposentadoria. Birman aponta-nos, com muitapropriedade, em seu texto o Futuro de todos nós: A questão recente, crucial, é a transformação progressiva do lugar social da terceira idade. Com isso, esboça-se a possibili- dade de reconhecimento da velhice como sujeito psíquico exis- tente e como agente social. Dessa maneira, o idoso pode talvez se relacionar com o futuro de uma maneira, redimensionando a sua inserção na ordem da temporalidade. (1993, p. 38) A mudança que ocorreu com essa idosa tem sido motivo de or-gulho para as filhas e os netos.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 253. Mudanças e movimentos ocorridos na psicoterapia de uma idosa 261ReferênciasBEAUVOIR, S. (1990). A velhice. Trad. de Helena Franco Martins. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.BIRMAN, J. (1993). Futuro de todos nós: temporalidade, memória e ter- ceira idade na Psicanálise. Condensação das principais hipóteses. Tra- balho apresentado na Conferência realizada no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.BOBBIO, N. (1976). O tempo da memória: de senectude e outros escritos autobiográficos. Rio de Janeiro, Campus.BOSI, E. (1999). Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo, Cia das Letras.JUNG, C. G. (1975). Memórias, sonhos, reflexões. Trad. de Dora Fer- reira Silva. São Paulo, Nova Fronteira.MAUTNER, A. V. (2001). As mulheres e o rádio. São Paulo, Folha de S. Paulo, 2/8/2001.QUEIROZ, M. I. P de (1987). Relatos orais do “indizível” ao “di- . zível”. In: Ciência e cultura. São Paulo, CERU/Departamento de Ciências Sociais, FFLCH, USP .SILVEIRA, N. da (1992). O mundo das imagens. São Paulo, Ática.Data de recebimento: 18/4/2005; Data de aceite: 5/7/2005.Valda Bernardes de Souza Bruno – Psicóloga clínica. Mestre em Gerontologia.Especialização em Cinesiologia Psicológica/Instituto Sedes Sapientiae/Formaçãoem Psicologia Médica – Abordagem Sociopsicossomática do Instituto de Estudose Pesquisas de Gastroenterologia. E-mail: valdabruno@hotmail.com revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 249-261
  • 254. Sexualidade e envelhecimento Amparo CaridadeRESUMO: O homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer. Isso o angustia,e ele busca para si ilusões de eternidade, como se pudesse esconder-se de sua pro-visoriedade. A finitude é vista por ele como uma limitação, não como o limite queé posto à vida. Olhar assim impede-o do verdadeiro crescimento rumo à maturi-dade e à alegria de viver. Finitude é condição humana, e nela somos desafiados aencontrar saídas para os limites, a encontrar motivação para manter a vida comdignidade, satisfação, prazer e sentido. Falar de envelhecimento é falar da cons-ciência dessa finitude, da possibilidade de ser por ela desafiados e da capacidadeque temos de proceder à superação, à transformação, à metanóia, à mudança deatitudes. A vida é exigente de um ascender ao mais além. Nesse contexto, a se-xualidade nos convoca para a construção de um sujeito prazeroso e feliz.Palavras-chave: sexualidade; finitude; envelhecimento.ABSTRACT: Mankind is the only living being who knows that will die. This disturbshim and makes him seek illusions of eternity, as he could hind away from his brevity. Finityis faced as a limitation instead of the limit that is naturally imposed to life. This way, heis prevented from the real growth towards maturity and happiness for being alive. Finityis a human being condition, with which we are challenged to find ways to overcome limits,to find motivation to live with dignity, satisfaction pleasure and meaning. Talking aboutaging is talking about consciousness about this finity, about the possibility of being challengedby it, and about the capacity we have to overcome barriers, to transform and to change attitudeswhen needed. Life impels human being to move ahead. Within this context, sexuality invokesus to the construction of a pleasart and happy person.Key-words: sexuality; finity; aging. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 255. 264 Amparo CaridadeUma inquietação chamada finitude O ser humano vive a agonia existencial de saber que um diamorrerá. Diante dessa certeza, metáfora da obscuridade, ele se debateou se acalma. Por ser indubitável, a questão da morte o perturba muito,e ele tenta artifícios para driblar a angústia que essa condição lhe pro-porciona. Tememos todos o entardecer da vida e buscamos ilusões deeternidade, como se pudéssemos nos esconder da provisoriedade quenos confronta. Torna-se difícil, inquietante mesmo, acolher em nós esseestado. Dizer da finitude é dizer do que tem fim, do que não é eterno.Isso nos assusta sobremaneira porque, para além de nossa ilusão deeternidade, sabemos que é assim que somos: finitos, provisórios. A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos to- dos nessa direção, e, como o Sol, guardar-nos-emos no manto da noite. A sombra que avança para a noite dá-nos notícia do tempo; do tempo que passou e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento. (Caridade, 2005, p. 133)O tempo, o entardecer que nos assustam também nos desafiam aencontrar sentido e a viver com satisfação. Em nosso estar no mundo há um “que-fazer” que é próprio acada um e que ninguém pode realizar por nós. A certeza da morte nosconvoca a dar conta dessa tarefa, a lutar por realizações e por um sentidopara a vida. Cada um de nós é vocacionado a marcar sua passagem pelomundo com um agir criativo. Nesse contexto, a morte faz-se moldura,enquadra a vida. Ela organiza, dá sentido ao conjunto do viver. A fini-tude faz-se aguilhão, provoca, exige um viver com sentido. Por isso elaterá de ser vista como um limite, não como uma limitação. Ela é nossacondição humana, existencial. A finitude exige de nós criatividade eresponsabilidade para com o nosso estar neste mundo. A provisorieda-de nos desafia a atestar que a vida vale a pena. Nesse contexto, descobrirsentido para a vida torna-se a tarefa humana mais urgente. É isso quenos faz saudáveis e que pode dar sustentação, serenidade, dignidade etolerância ao envelhecer.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 256. Sexualidade e envelhecimento 265 Falar em processo de envelhecimento é falar da consciência datemporalidade e da responsabilidade para com a vida que temos nasmãos. É falar da alteridade, do lugar, peso, sentido e importância queo outro tem em nossa vida. “O tempo é sobretudo o que passamos comos outros, no que eles nos remetem sobre nós mesmos. Não há temposem interlocutores, mesmo a solidão é cheia da presença do outro” dizOlivenstein (2001, p. 49). O tempo, a vida, a subjetividade são atraves-sados pelo papel que o outro exerce em nossa vida. O outro, nosso “in-ferno”, mas também nosso paraíso, é a razão de ser do entrelace humanopela vida afora. A verdadeira cidadania “é a possibilidade de existir parao outro”, diz Goldfarb (1998, p. 26), fazendo-nos ver que só o sujeitovisto, reconhecido, testemunhado, olhado por outrem como ser dedireitos é de fato sujeito. Não somos sujeitos sem o olhar do outro sobrenós. Um olhar que nos reconhece e nomeia como sujeitos. No universodas “relações líquidas” (Bauman, 2004) que marcam a contemporanei-dade, precisamos reencontrar e reenviar esse olhar ao outro, agonia eêxtase de nosso estar no mundo em relação.A sexualidade entre o prazer e a procriação O ser humano é perpassado pelo desejo de encontrar alguém comquem possa partilhar afeto e ser feliz. Isso atravessa-lhe o sonho, estáescrito na poética, na literatura, está esculpido na arte, cantado em versose manifestações de todos os tempos. Mas nem sempre a história huma-na lidou positivamente com essa questão. Na verdade, a sexualidade foisendo compreendida a partir das contingências e do modo de pensar decada época. Inicialmente, ela foi reconhecida apenas em seu caráterprocriativo, foi legitimada e valorizada enquanto modo de propagaçãoda espécie. As experiências evocativas do prazer e da sexualidade eramcondenadas. Por muito tempo, a Medicina e a Igreja estiveram no combateda dimensão prazerosa da sexualidade, ora identificando o prazer sexualcomo desnecessário à procriação, ora identificando-o como pecado. Asculturas de todos os tempos sempre controlaram a sexualidade. Isso nos revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 257. 266 Amparo Caridadediz o quanto ela representa de força nas pessoas e o quanto é uma ne-cessidade para a constituição do sujeito. Somente no século XIX, Freudpossibilitou o resgate da dignidade do prazer considerando-o produtorde bem-estar e saúde emocional. Com isso foi se legitimando a dimen-são lúdica da sexualidade. A ordem foi sendo subvertida e a repressãopassou a ser vista como produtora de sintomas neuróticos A sexualidade é procriativa apenas em uma etapa da vida. Noamadurecimento e no envelhecimento, mantemos relações sexuais parabrincar a vida, não mais para procriar. Compreendo pois que, no enve-lhecer, a sexualidade deve ser lúdica. Atende ao prazer e ao bem-estarrelacional. Para tanto, ela necessita de oxigenação afetiva. É preciso que,além do corpo, cada um acaricie a alma do outro. Quanto mais profun-do for o prazer, maior a qualidade humana que dele vai emergir. É essadimensão lúdica que postulo para a vivência sexual na terceira idade.É no entardecer da vida que podem reunir-se o prazer dos sentidos, aexperiência vivida, a sabedoria, a despreocupação, a capacidade de al-cançar a intimidade, o contato com a alma do outro, a desistência daluta de poder, a capacidade de transcender o próprio corpo. Viver ludicamente a sexualidade supõe a sedução e ela se ende-reça pelo discurso dos olhares. O desejo do outro nos é remetido por umolhar, um sorriso, metalinguagem, convite para que o outro aceda aoamor que passa. Isso se torna mais eloqüente que qualquer discurso.Pela sedução, pelo olhar, o outro me obriga a fazer uma viagem atravésdas palavras que ninguém pronunciou. Sibony diz que a sedução é “essedeslocamento que atrai e cuja atração repercute no outro que a provo-cou” (1991, p. 29). Dá-se uma afetação silenciosa e recíproca. Emboraa dimensão lúdica envolva o real do corpo, relação sexual e penetração,ela envolve, sobretudo, um perder-se na brincadeira, na sedução, noprazer de um jogo de ver e mostrar, no tocar e descobrir, no prolongara festa. Gaiarsa dizia, jocosamente, em congressos que partilhávamos,que “O orgasmo acaba a festa”, fazendo ver que não é preciso ter pressapor ele, nem ter excessivas preocupações com o desempenho. Fazer sexotodos sabemos, isso vem inscrito no corpo de cada um. Difícil é vivê-lo com beleza, sentido e afeto. Isso dá trabalho. É uma arte.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 258. Sexualidade e envelhecimento 267 Os mitos e preconceitos em torno da pessoa idosa dão-se sob aidéia de que, com o avanço da idade, perde-se a capacidade sexual. Oque ocorre na verdade é uma redução da freqüência das relações sexuais,mas dá-se em contrapartida um incremento em prol de uma maiorqualidade. Lamentavelmente, algumas pessoas desistem da vivênciasexual, por imaginar que ela é uma possibilidade apenas do corpo. Noentanto, grandes alegrias estão também para além do corpo. Quandoestamos mais velhos, podemos ser mais sábios, mais suaves, mais sedu-tores e ficamos mais seduzidos pela qualidade das relações. Culturalmente, somos preparados para crescer, desenvolver edesempenhar papéis e funções, mas não somos preparados para descera curva da vida. Nem mesmo somos preparados para acolher em nós afinitude. Com isso, não aprendemos a envelhecer com dignidade ou terprazer e satisfação com a idade que temos. Embriagamo-nos na ilusãode uma eterna juventude, que serve apenas para nutrir quadros dedepressão, hipocondria, consumo abusivo de remédios, problemas con-jugais, disfunções sexuais.A sexualidade, um traço (e)terno É como um traço (e)terno em meio à finitude que pode ser vistaa sexualidade. Ela se faz presente na experiência do sujeito desde seunascimento até a morte. A cada etapa do desenvolvimento correspon-dem formas de expressão que são próprias a cada idade. O corpo não éestático, ele atua como processo. Ele é histórico, é arquivo de experiên-cias que vão acontecendo no decorrer da vida. Desse modo podemoscompreender a sexualidade no tempo, nos diversos estágios do viver.Na criança, ela é descoberta do próprio corpo erógeno. Descobrir essaerogeneidade na infância é importante, pois ela repercute na sexualida-de que amadurece. No adolescente, a descoberta acontece pelas trocasde sensações e emoções com o corpo do outro. No adulto, a sexualidadedeve se fazer partilha, reciprocidade de gestos e emoções. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 259. 268 Amparo Caridade Na velhice, por mais que haja dificuldades físicas, pode não haverlimites na qualidade do sexual, do amoroso. Se o humano for estimu-lado, florescerá, e isso se reflete na expressividade amorosa. Somos seresde linguagem, e a sexualidade deixa-se atravessar pelo simbólico. Aí elase faz invenção do espírito. Somos instigados a viver um além das merassensações corporais, algo que povoe a imaginação e a memória, numarrebatamento que é próprio do ser humano. Isso é possível, primeiro,na intimidade consigo mesmo, depois, partilhando com o outro. Nessaintimidade podemos tornar o outro especial, pelo afeto. Nesse contextodo mais além, da intimidade e da partilha, os entraves corporais pode-rão ser melhor enfrentados. A necessidade tátil cresce com o tempo. Paradoxalmente, talvezseja esse um tempo em que se toque menos os idosos. O toque amávelé confortável, significativo, pode ser terapêutico, além de ser fonte desatisfação. “O corpo que não é tocado chora. Grita. Reclama. As dores sãoesse comunicado”, diz Fraiman (1995, p. 93). O corpo que dói por causade artrites é um corpo carente. Pede abraço, quer chamar atenção. Ocorpo não abraçado acaba gritando. Os gritos assumem a forma de dores:“O corpo que dói é um corpo vivo que implora por Eros” (ibid., p. 93). Como um traço (e)terno, a sexualidade se manifesta desde ainfância até a morte e se revela na ternura, nas alegrias com as quais Erosenfeita o viver. Tempo e ternura definem esse traço, esse modo de sersexual, no acolhimento e na amorosidade.Amor maduro Hoje há um medo difundido de se manterem relações de com-promisso com o outro, e as pessoas preferem FICAR, porque ao ficar“não ficam”, não se envolvem, não fazem vínculos, pensam com isso nãocorrer riscos de sofrer. Esse tipo de dor, a dor de amar, não é sentida nocorpo, mas no laço que estabelecemos com o outro. “A dor psíquica éuma lesão do laço íntimo com o outro, uma dissociação brutal daquiloque é naturalmente chamado a viver junto”, diz Nasio (1997, p. 25).Por isso, vive-se atualmente num universo de relações líquidas: “É precisorevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 260. Sexualidade e envelhecimento 269diluir as relações para que se possa consumi-las” (Bauman, 2004, p.10). São “relacionamentos de bolso” dos quais se pode dispor quandonecessário, deletando-se tão logo não mais interessem, refere Bauman. A conseqüência disso é que quando as pessoas não se envolvemtambém não se desenvolvem na arte amorosa: (...) a permanência de uma ligação pode servir ao seu aprofun- damento, a um conhecimento mais amplo do outro, ao desen- volvimento de uma cumplicidade e de planos a longo prazo que, em seu conjunto, contribuem para renovar essa união. (Ibid., p. 120)A amorosidade é sentida no vínculo que estabelecemos, e é ela que nutreo bem-estar no envelhecer, que dá sustentação à qualidade que quere-mos para a vida. A cultura supervaloriza o desempenho. Sexo triunfal, mais queencontro. O mercado do consolo, da felicidade fácil, produz pílulas, maselas não impedem o vazio da falta do afeto que nos maltrata. O desem-penho é importante, mas a relação sexual que se baseia apenas nisso ficapobre e desumana. O desempenho é a base, mas só a base. A construçãoda sexualidade ergue-se sobre ela. A construção se dá na experiência dosparceiros, na inventividade, na sedução, no encantamento de um am-plo gestual que não se define apenas pelo ato genital. Uma responsivi-dade sexual que for nutrida pela criatividade pode proporcionar muitaalegria. O prazer é plural. Gostamos de uma noite de lua, de um bomvinho, uma boa música, uma boa leitura, de um abraço especial, da pazcom a vida ou de uma boa relação sexual. São experiências de prazer. Sãodimensões especiais que compõem também a sexualidade de sujeitosamadurecidos. Observando a arte, a pintura, a escultura, a poética, a literatura,a música, vemos que elas giram em torno do desejo, do prazer, da dorde amar, da dor de não amar ou de não ser amado. Por isso a expressãocriativa reverencia sempre o desejo humano, que é, no fundo, um desejoinsaciável de ser desejado pelo outro. Quando esse outro não nos deseja, revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 261. 270 Amparo Caridadesofremos no mais íntimo de nós mesmos, um tipo de dor que quase nosdesterritorializa: “O amado não é um outro, mas uma parte de nósmesmos que recentra o nosso desejo”, diz Nasio (1997, p. 60). O outroé o chão amoroso e existencial sem o qual fica difícil viver. Mas, “essacarência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida”(ibid., p. 35). Nessa vida, outra face do vazio, somos aguilhoados aressignificar o amor e o outro em nós. A alteridade, o relacional tem um sentido especial na vivênciaamorosa sexual, sobretudo na velhice. Fica a indagação: por que entãosuperestimamos o desempenho e damos tão pouca importância aooutro? Considero essas dimensões do relacional e da alteridade maispromotoras do bem-estar sexual que a preocupação excessiva pelodesempenho. Quando ficamos muito presos ao fazer sexual podemosdeixar na sombra o mais gratificante, o viver sexual. O amadurecer dasexualidade traz consigo exigências afetivas, espirituais e existenciaisimprescindíveis à experiência humana. Como se fosse uma troca deolhares entre o sujeito e a vida. Sexo não é para ser consumido, mas para ser vivido, e vivido emrelação. Quanto mais consumistas, mais periféricos ficamos e perdemosas verdadeiras referências humanas da sexualidade em nós. O afeto, aternura, o desejo do outro têm, na velhice, um papel fundamental. Certaspessoas sentem-se fracassadas quando não conseguem um nível ótimode desempenho. Mas o afeto vivido dá um tipo de satisfação que poderelativizar o declínio dos desempenhos. O fracasso é sentido quando sedesconhece que o gozo é possível no corpo e além do corpo. A maior dassatisfações vividas pelo ser humano é a de sentir-se desejado e impor-tante para o outro, como também poder desejá-lo e apreciá-lo. Nessesentido, um olhar terno, um apoio, um toque, um abraço, valem maisque certas relações sexuais sem trocas. Somente os gestos especiais seeternizam, podem deixar um sabor de encanto que não se apaga. No processo de envelhecer não devemos violentar o corpo, exi-gindo dele performances impossíveis. Será mais sábio acolher a verdadede que nada é definitivo em nós. Com o tempo, a sexualidade se trans-forma, perde algumas características e ganha outras. É importanterevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 262. Sexualidade e envelhecimento 271acolher as mudanças. Fazer a metanóia. Na vida, no ser vivo, tudo pedepara terminar, mesmo um lindo pôr-do-sol, um belo poema ou um beijoardente. A criação, a vida se endereçam a seu término. A sexualidadese encaminha para seu cume, para uma expressão mais densa do pos-sível amor. Síntese do que somos. Gozo de nossas conquistas. Fortale-cimento dos laços estabelecidos. Na sociedade do espetáculo em que vivemos, o conceito de beloé reduzido à aparência. Nessa ótica, só temos lentes para enxergar rugase não para ler as histórias que elas escondem. Mas a beleza é dinâmica.Não está apenas na silhueta, na cor dos olhos, no tom da pele. Ela emerge,sobretudo, de dentro do ser maduro que somos. Irrompe da certezaserena de nossa própria construção. Quando se fala em velhice, em amormaduro, “Quase não se fala da sexualidade que se transforma em ter-nura, dos contatos a serem mantidos pela voz, o olhar, o toque. Sonharcom o amor permanece, no entanto, possível até o fim”, diz Mannoni(1995, p. 21). Amar faz parceria com a beleza madura que resulta dessa quími-ca em nós, entre o existencial, o construído, o conquistado, o saboreadocom sutileza. O corpo conta histórias das aventuras do espírito na buscado outro. Affonso Romano de Sant’Anna atesta poeticamente esse modomaduro de amar: Estou amando tuas rugas, mulher. Algumas vi surgir, outras aprofundei. Olho tuas rugas. Compartilho-as, narciso exposto no teu rosto. Ponho os óculos para melhor ver na tua pele as minhas/tuas marcas. Sei que também me lês, quando nas manhãs percebes em minha face o estranho texto que restou do sonho. O que gastou, somou. Essas rugas são sulcos onde ara- mos a messe do possível amor. (1993, p. 140)Desafios e motivações em relação à sexualidade Que entraves reais podem ser observados na vivência sexual deuma pessoa idosa? No entardecer da vida poderá haver um corpo do-lorido, pouco flexível, que dificulte a vida sexual. Mas a sexualidade não revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 263. 272 Amparo Caridadese reduz ao corpo, ela faz parte de um todo que envolve dimensõescorporais, psíquicas, espirituais e culturais. Portanto, não é só o corpoque entrava a sexualidade. A má qualidade da vida externa e interna dapessoa é o primeiro obstáculo que vejo, porque tanto nossas carênciasmateriais como as existenciais impedem a atualização do potencial quetemos para viver bem a sexualidade. Isso supõe uma construção cuida-dosa que, oxalá, tenhamos feito pela vida afora. Portanto, os modos deser e estar no mundo, consigo e com os outros, refletem-se prontamentesobre a sexualidade. Outra grande barreira posta à sexualidade do idoso é a preca-riedade filosófica e ideológica com que se olha a sexualidade, de formareduzida, à busca do prazer pura e simplesmente, sem envolvimento ousem sentido. Esse olhar simplifica uma dimensão humana que é bastan-te complexa. Nessa simplificação, o momento cultural é dado a fazerpromessas de grandes prazeres, de felicidade mega que, bem sabemos,são impossíveis. Essa é uma atitude perversa e perigosa, porque promo-ve sentimentos de frustração que podem tornar-se insuportáveis aosujeito. Outro entrave considerável é o desamor. Sem afeto, fica difíciluma sexualidade interessante nessa idade. Os idosos fazem bem o sexose ainda se amam, se alicerçaram em suas vidas uma afetividade calcadana democracia de gestos e emoções. Onde há saúde e amor, homens emulheres se buscam, se completam, se saboreiam, mas onde há desa-fetos e mágoas silenciadas, dificilmente haverá espaço para trocasamorosas. A maior barreira sexual é, em qualquer idade, a mordaça quese coloca na voz do coração. A obsessão pela aparência física, o desejo irreal de uma eternajuventude, é um outro entrave à vivência da sexualidade na maturida-de. Quando negamos o processo natural do envelhecimento que ocorre,impedimos uma boa vivência da sexualidade. Faz parte de nosso desen-volvimento que o corpo mude e se transforme. Deve fazer parte tam-bém de nosso entendimento que o corpo envelhecido também ama,sente e goza. E se o espírito não estiver perturbado, o corpo será capazde responder satisfatoriamente. Falando do amor maduro, Artur darevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 264. Sexualidade e envelhecimento 273Távola diz que “Na felicidade está o encontro de peles... a compreensãoantecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vividaem conjunto, os discursos silenciosos, o prazer de conviver, o equilíbriode carne e espírito” (1983, p. 117). Isso é bem diferente dos ensinamentos que se assemelham a umasexoróbica e que muitas vezes são passados às pessoas na tentativa defazê-las responder aos apelos do consumo sexual. Isso pode ser umequívoco, pois a sexualidade é especial em suas dimensões do espírito,do mistério, dos retalhos de alma que somos. Não pode ser totalmentepensada, prevista, receitada, mas sutilmente descoberta, inventada,como mistério que jamais se desvela por completo. Algo de mistériodeve permanecer velando o humano: “O dizer ao revelar também vela.O viver humano não pode ser plenamente dito; entre o dizer e o indi-zível emerge o falar poético”, diz Safra (2004, p. 25). Em sua dimensãohumana, a sexualidade não pode ser da ordem do totalmente revelado.Diria que em sua beleza mais intensa ela se faz poesia.Por fim Precisamos redescobrir o sabor das peles em contato. O sexualé resposta também do espírito, da criatividade, da gentileza, aí onde seaperfeiçoa o gestual humano. Há uma potência a mais no corpo dosujeito, que sempre pode transformar-se em alma. “A vida sempre rom-pe os limites das fórmulas”, dizia Exupéry. Lya Luft declara: “a felici-dade amorosa não vem do desempenho, mas da ternura que aprimorae intensifica o desempenho” (2003, p. 98). Isso depende da sabedoria queconquistamos. Isso também é o trunfo maior com o qual o idoso podeposicionar-se na vida e desfrutar de um tempo maduro. Envelhecimentonão é doença, é tempo vivido, é mais adiante, é caminho com bagagem. Em nosso fazer e viver sexual, não basta tocar o outro ou com eleter relações sexuais, é preciso que Eros se faça presente na festa doscorpos. É preciso que os toques, braços e abraços ressoem também naalma do outro a quem desejamos e tocamos. “O importante não é tantoque uma mão nos acaricie, mas saber a quem pertence essa mão, o que revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 265. 274 Amparo Caridadedeseja essa pessoa e o que sentimos por ela”, diz Dorais (1994, p. 31).É preciso que, ao tocar, a mão veicule sentido e envolvimento, diga dotamanho, da importância que o outro tem para nós. Amadurecer, envelhecer são processos que exigem investimen-to, coragem para o enfrentamento das transformações físicas e psíqui-cas que naturalmente se dão. Esse enfrentamento requer a metanóia,a mudança de modelo mental. Segundo Tranjan (2002), metanóia “Éuma nova maneira de enxergar a realidade. É a transformação. É livrar-se dos entulhos liberando espaço para o novo” (2002, p. 35). O processode amadurecimento na vida exige esse movimento. Envelhecer comsatisfação e dignidade supõe que nos livremos daquilo que não nos serve,deixando espaço aberto à criação da vida mais plena. Supõe que mude-mos sempre em direções que melhoram nosso prazer de estar no mundocom os outros. Para isso, será preciso que tenhamos construído um egosuficientemente forte para lidarmos com as faces outonais desse tempo.Viver a sexualidade na velhice significa, acima de tudo, realizar umasíntese afetivo-amorosa que garanta satisfação aos corpos e espíritos. Épreciso abastecer-se de ternura e beleza nesse enfrentamento do outonoque sucede as estações da vida. Amor maduro só se conquista com dimensões especiais. Na ter-ceira idade temos tempo e experiência para descobrir formas especí-ficas de viver a sexualidade. E se, por acaso, pouco construímos, temostodos a capacidade de criar, de inventar o que somos e o que queremosser. É tempo sempre de começar algo que melhore nosso estar nomundo. O inferno, não são apenas os outros como dizia Sartre, é talveza falta do outro, o vazio dele em nós. Mas, acima de tudo, o infernoé também vazio de nós mesmos, na medida em que não nos encon-tramos, não nos reconhecemos como sujeitos construtores da própriasatisfação com a vida. O engano se livra de seu cenário e o sexual se recoloca no lugaronde se encontra o sujeito, não apenas um corpo respondente. A relaçãocom o outro serve de bússola e diapasão na harmonia que conquistamosem nossa residência íntima, lugar de solidão e contato. Com esse enten-dimento teremos a capacidade de assumir a vida finita que temos nasrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 266. Sexualidade e envelhecimento 275mãos, e dela fazer um poema que enaltece e encanta o viver. É isto o quetemos. É tudo isto que somos. Uma finitude com gosto de infinito. Nela,a sexualidade nos (e)terniza.ReferênciasBAUMAN, Z. (2004). Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços hu- manos. Rio de Janeiro, Zahar.CARIDADE, A. (1997). Sexualidade. Corpo e metáfora. São Paulo, Iglu.____ (2005). Caminhos e caminhantes. Recife, Bagaço.DORAIS, M. (1994). O erotismo masculino. São Paulo, Loyola.FRAIMAN, A. (1995). Coisas da idade. São Paulo, Gente.GOLDFARB, D. C. (1998). Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo, Casa do Psicólogo.LUFT, L. (2003). Perdas e ganhos. Rio de Janeiro, Record.MANNONI, M. (1995). O nomeável e o inominável. A última palavra da vida. Rio de Janeiro, Zahar.NASIO, J. (1997). O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro, Zahar.OLIVENSTEIN,C. (2001). O nascimento da velhice. São Paulo, Edusc.SAFRA, G. (2004). A poética na clínica contemporânea. São Paulo, Idéias & Letras.SANT’ANNA, A. R. (1992). O lado esquerdo do meu peito. Rio de Janeiro, Rocco.SIBONY D. (1991). Sedução. O amor inconsciente. São Paulo, Brasiliense. ,TÁVOLA, A. (1983). Do amor. Ensaio de enigma. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.TRAJAN, R. A. (2002). Metanóia. São Paulo, Gente.Data de recebimento: 18/4/2005; Data de aceite: 10/7/2005.Amparo Caridade – Psicóloga. Mestre em Antropologia. Professora adjunta daUnicap. Autora dos livros: Sexualidade. Corpo e metáfora, Iglu, São Paulo, 1997e Caminhos e caminhantes, Bagaço, 2005. E-mail: amparo_caridade@uol.com.br revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 263-275
  • 267. Envelhecimento e velhice com HIV/aids1 Bianca Fernanda Aparecida Perez Susan Mariclaid GaspariniRESUMO: O trabalho procurou contextualizar a vivência do idoso no processode envelhecer com HIV/aids, verificando os seus possíveis significados. Juntamen-te com o aumento de idosos no Brasil e no mundo, devido ao aumento da expec-tativa de vida, cresce também o número de infecções pelo HIV/aids em pessoascom 60 anos ou mais, resultando na mais nova característica da epidemia. Pormeio da pesquisa, podemos concluir que, mesmo diante da cronicidade do diag-nóstico HIV/aids, com seus desdobramentos e as implicações biopsicossociais doprocesso de envelhecimento, o idoso procura adaptar-se à situação vivenciada,buscando melhores condições de vida e saúde.Palavras-chave: envelhecer; vivências; reconstrução social.ABSTRACT: The work sought contextualizar the senior’s existence in the process of agingwith HIV/AIDS, verifying their possible meanings. Together with the seniors’ increase inBrazil and in the world due to the increase of the life expectation, it also increases the numberof infections for HIV/AIDS in people with 60 years or plus, resulting in the newest charac-teristic of the epidemic. Through the research, can be concluded, that even before the chronicityof the diagnosis HIV/AIDS, with their unfoldings and of the implications biopsicossociaisof the aging process, the senior tries to adapt the lived situation, looking for better life con-ditions and health.Key-words: to age; existences; social reconstruction.1 Resumo da monografia apresentada como exigência parcial para a conclusão do curso de aprimoramento em Serviço Social na Prevenção e Assistência ao Portador de HIV/aids, realizado na AMCA/HCFMUSP. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 268. 278 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid GaspariniIntrodução Nas últimas décadas verificou-se, por meio dos indicadores de-mográficos, o rápido envelhecimento populacional no Brasil e nomundo. Paralelo a esse fenômeno, cresce também o número de casosnotificados de idosos portadores do HIV/aids. O HIV/aids na terceira idade ainda é um assunto pouco aborda-do, pois suscita reflexões e debates contrários aos padrões estipuladose à imagem socialmente construída do idoso. No entanto, a sociedadeem geral e, principalmente, os profissionais de saúde, devem debateresse tema, criando estratégias para lidar com essa nova tendência daepidemia do HIV/aids. O presente artigo é resultado da monografia apresentada paraconclusão do curso de aprimoramento de Serviço Social na Prevençãoe Assistência ao Portador de HIV/aids, realizado no Ambulatório Casada Aids da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospitaldas Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. A Casa da Aids é um ambulatório especializado no tratamentoaos portadores de HIV/aids, seus parceiros e familiares. Conta comequipe multiprofissional composta por médicos infectologistas, assis-tentes sociais, psicólogos, equipe de enfermagem e pessoal de apoio. O objetivo principal da pesquisa realizada durante o curso deaprimoramento foi verificar se o idoso considera o HIV/aids e o enve-lhecer como uma dupla reconstrução de vida. Como referencial teórico, foram utilizados livros e textos de apoioque abordam a questão do envelhecimento em seus aspectos biopsicos-sociais e referentes ao HIV/aids e seus desdobramentos. Cabe ressaltara escassez de material sobre HIV/aids na terceira idade, na maioria dasvezes enfocando somente o âmbito clínico/biológico, deixando de con-siderar os aspectos psicossociais e culturais envolvidos, considerados degrande importância, pois tanto o HIV/aids como o processo de enve-lhecimento são multifatoriais. Foram utilizados como critérios para as entrevistas os seguintesquesitos: idosos que realizam tratamento regular no Ambulatório Casarevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 269. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 279da Aids do HCFMUSP, com idade igual ou superior a 60 anos (seguindoo critério da Política Nacional do Idoso), de ambos os sexos e semcomprometimentos neurológicos. Segundo o Arquivo Médico da Casa da Aids, de agosto de 1994a fevereiro de 2003 foram registados 139 casos de idosos em tratamen-to. Desse universo, selecionamos aleatoriamente 14 idosos para parti-ciparem da pesquisa. Em contato com profissionais do AMCA (assistentes sociais,psicólogos, enfermeiros e médicos), foi explicitado o objetivo da pesqui-sa e solicitado que encaminhassem os pacientes selecionados ao ServiçoSocial após consulta/atendimento/exame ambulatorial, onde verificou-se com os mesmos a possibilidade de participarem da pesquisa, sendoaplicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo compadrão estabelecido pelo HCFMUSP . As entrevistas foram realizadas nos meses de setembro, outubroe novembro de 2003, na sala do Serviço Social, respeitando-se a priva-cidade dos entrevistados, que foram informados quanto ao objetivo dapesquisa. Cada entrevista teve, em média, 45 minutos, com perguntasabertas, que permitiram a livre expressão dos entrevistados, posterior-mente transcritas, mantendo a fidedignidade dos relatos. A pesquisacontou com análise quantitativa e qualitativa. O método utilizado foi pautado na teoria da análise do discurso,que busca identificar, por meio da fala do idoso, quais os significadosatribuídos ao processo de envelhecer com HIV/aids. Buscou-se, paratanto, material de apoio referente à metodologia escolhida. Foram aplicados dois formulários. O primeiro com perguntasfechadas como idade, renda mensal, condições de habitação, religião,entre outras, para caracterizar o perfil socioeconômico dos depoentes.O segundo, com perguntas abertas para identificar como ocorre a vi-vência do idoso no processo de envelhecer com o HIV/aids, como ocor-reu a infecção e há quanto tempo é portador, se houve mudanças apósa revelação do diagnóstico e se considera o HIV/aids e o envelhecer comouma dupla reconstrução de vida. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 270. 280 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini Antes dos resultados da pesquisa, torna-se necessário trazer al-guns dados e informações referentes ao processo de envelhecimentopopulacional e à epidemia do HIV/aids no Brasil e no mundo.O aumento da população idosa no Brasil e no mundo Desde o início do século XX a humanidade passa por um pro-cesso de transição demográfica, ou seja, de mudança populacional, como rápido envelhecimento da população em escala mundial. As nações que apresentavam alto índice de natalidade, ou seja,proporção de nascimentos por mil habitantes e elevados índices defecundidade, calculado pelo número médio de filhos gerados por mu-lheres férteis, aliado à utilização de métodos contraceptivos, começama declinar. Por outro lado, diminui o índice de mortalidade, que é aproporção de óbitos por mil habitantes, principalmente nas camadasmais idosas, resultando no aumento da expectativa de vida, isto é, onúmero de anos que as pessoas de uma sociedade podem viver. Esseelevado aumento da expectativa de vida elevou também o número deidosos, bem como a estrutura etária das sociedades nas quais esse fenô-meno ocorreu e continuará a ocorrer. A esses fatores somam-se também o avanço da medicina preven-tiva e curativa e as melhores condições sanitárias, contribuindo aindamais para o aumento da expectativa de vida da população. Países desenvolvidos como Japão e Estados Unidos iniciaram seuprocesso de envelhecimento no começo do século XX; já países emdesenvolvimento, como o Brasil, esse fenômeno iniciou-se a partir dadécada de 50, sendo esses os países que terão os maiores índices depopulação idosa no mundo. Diante disso, a sociedade brasileira atual-mente depara-se com o rápido aumento da população idosa. O crescimento da população idosa é um fenômeno sem prece-dentes na história. Em 1950, havia 204 milhões de idosos no mundo;em 1998, esse número aumentou para 579 milhões e, segundo dadosdo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2050 apopulação idosa mundial será de aproximadamente 2 bilhões.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 271. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 281 Durante a década de 50 a expectativa de vida da populaçãobrasileira era de 45 anos e o número de idosos totalizava 2 milhões.Atualmente, a expectativa de vida é de 64 anos para os homens e 72anos para as mulheres, sendo que o número de idosos supera a marcade 14,5 milhões. Em outros países, como a Argentina, a expectativa devida é de 74 anos; no Uruguai, é de 75 anos e no Chile, 76 anos. O Japãotem o maior índice de expectativa de vida – 81,5 anos – fato devido àsmelhores condições de vida da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),em 2025 o Brasil ocupará a sexta colocação em países com maior con-tingente de idosos, chegando a superar 34 milhões, cerca de 14% dapopulação. Outros países tiveram um ritmo menos acelerado de envelheci-mento da população. Países desenvolvidos como a Suécia levaram 80anos para que a população idosa chegasse a 14% do total de habitantes.Em países da América Latina isso ocorreu em menos de 20 anos.Atualmente, o total de idosos no mundo chega a 646 milhões, númeroque tende a crescer rapidamente. Outro dado apresentado pelo Censo 2000 realizado pelo IBGE,é o número de idosos responsáveis por domicílio no Brasil, que totali-zam 64%, sendo que a grande maioria é de mulheres. Esse dado revelaque os idosos, por meio da aposentadoria, pensão ou com trabalhosextras, acabam contribuindo para a renda familiar e, em muitos casos,são os únicos responsáveis pela economia doméstica, principalmente naatual conjuntura, com a alta taxa de desemprego. Os idosos acabamsustentando filhos e netos. Devido ao aumento da população idosa, a pirâmide populacionalestá se transformando, demonstrando que o Brasil está envelhecendorapidamente, ocorrendo assim uma inversão: diminui o número decrianças e adolescentes e aumenta o número de idosos. Os dados referidos acima trazem a necessidade da sociedade ematentar não somente para o rápido crescimento da população idosa, mastambém para as condições de vida dessa população, pois a expectativade vida não vem acompanhada de qualidade de vida. O processo de revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 272. 282 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparinienvelhecimento é multifatorial, ou seja, envolve os aspectos biopsicos-sociais e as condições de vida que cada sociedade oferece ao seu cidadãoidoso, determinando sua qualidade de vida. O rápido processo de envelhecimento populacional no Brasil eno mundo é um fenômeno multifatorial, que não deve ser definidounicamente pelo aspecto biológico, pois está inter-relacionado tam-bém aos aspectos psicológicos e sociais, sendo necessária uma visão maisampla de comportamento, atitudes e pensamentos dos indivíduos. O referido processo é individual, diferenciando-se de pessoa parapessoa no que diz respeito à forma de envelhecer, à aceitação do próprioenvelhecimento, às vivências, à velocidade do processo, sendo que ascondições físicas e fisiológicas interferem no âmbito psicológico e tam-bém no aspecto social. No aspecto biológico, o envelhecimento é um processo natural,pois não depende da vontade do indivíduo: todo ser nasce, desenvolve-se e morre; é irreversível, mesmo com todos os avanços da medicina e daindústria farmacêutica, pois nada impede o processo de envelhecimento.Caracteriza-se por ser um processo individual e heterogêneo, no qualcada espécie envelhece de forma diferente, sendo também um processodanoso, pois leva à perda de várias funções de forma progressiva. Segundo Duarte (2002), algumas modificações como diminui-ção da massa óssea, atrofia da musculatura, aumento e redistribuiçãode gordura corporal, entre outras, são características do declínio bioló-gico. Paralelamente a essas mudanças, o organismo torna-se mais vul-nerável a problemas de saúde relacionados à idade madura efreqüentemente observados na terceira idade, como osteoporose, alte-rações hormonais, doenças cardiovasculares, distúrbios da memória,escleroses múltiplas e depressões. A velhice não se apóia apenas no âmbito biológico, mesmo sendoum fato natural e universal presente em todas as sociedade humanas;a cultura também influencia no processo de envelhecer; o contexto socialno qual o idoso está inserido, o comportamento, as atitudes e os pen-samentos dos indivíduos devem ser considerados, pois o envelhecimen-to humano ocorre em determinado contexto sócio-histórico-cultural.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 273. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 283 Muitas vezes, as limitações físicas e a própria transformaçãocorporal decorrente do processo de envelhecimento trazem implicaçõespsicológicas para o idoso, pois vivemos em uma sociedade em que seexalta o belo e o novo, perseguindo a eterna juventude. O idoso, ge-ralmente por não ser mais considerado jovem e belo fisicamente, vendoem si próprio os sinais do tempo, acaba assumindo essa visão e sentindo-se feio, desprezado, desvalorizado, afetando assim sua auto-estima echegando muitas vezes a apresentar casos de angústia, ansiedade, trans-tornos de humor e até depressão. Outros idosos não aceitam o próprio envelhecimento, conside-rando-se ainda jovens, ativos e vendo somente no outro o envelhecer.Consideram “velhas” as pessoas passivas, dependentes, inativas e ultra-passadas; como não se identificam com essa postura, acabam negandoo próprio envelhecimento. O idoso vê a velhice no outro e não em sipróprio, como afirma Bosi (1994, p. 27): A velhice é um irrealizável, segundo Sartre, é uma situação composta de aspectos percebidos pelo outro e como tal retifi- cados (em entre-pour-autrui), que transcendem nossa cons- ciência. Nunca poderei assumir a velhice enquanto exterioridade, nunca poderei assumi-la existencialmente, tal como ela é para o outro, fora de mim (...). Outro aspecto é a obrigação imposta pela sociedade, que estipulapapéis, formas de pensar e agir para cada grupo etário. Com isso, o idososente-se obrigado a assumir atitudes e comportamentos consideradospróprios para esse grupo, incorporando assim o papel social estipuladoao idoso. As condições sociais que cada sociedade oferece aos idosos tam-bém influenciam o processo de envelhecimento, pois se os idosos tive-rem acesso aos bens e serviços essenciais como saúde, habitação,educação, lazer e renda terão melhor qualidade de vida. A sociedade criou o conceito de velhice, associando o idoso apessoa improdutiva, enferma, passiva, dependente, incapaz para apren-der, trabalhar e ter vida afetiva, estipulando um papel a ser seguido pelo revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 274. 284 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gaspariniidoso, no qual este deve se comportar e realizar atividades tidas comopróprias a ele, como ver televisão, cuidar dos netos e da casa, fazer tricô,etc. Os idosos acabam incorporando esse papel e reproduzindo-o, sendoassim excluídos do mercado de trabalho, pois são considerados inaptosao modelo de produção capitalista e, conseqüentemente, da sociedade. Dessa forma, os idosos aceitam de formas diferentes o próprioprocesso de envelhecimento; questões como a aposentadoria, a saída domercado de trabalho, a perda da capacidade funcional e o sentimentode utilidade interferem na aceitação ou inaceitação. A concepção cronológica padroniza as fases da vida e estabeleceuma ordem em que o mundo econômico e o do trabalho ocupam umlugar central. O trabalho passa a ser muito valorizado e valoriza tam-bém os que estão produzindo; quando o indivíduo não está inserido nosistema de produção vigente, é avaliado negativamente. Por isso, o idoso,que não pertence mais ao mundo do trabalho, é associado à inutilidade,incapacidade e improdutividade. Isso acaba impedindo que ele parti-cipe da vida social, pois isola-se e acaba por não exercer sua autonomia. Portanto, o envelhecimento é um processo natural, comum a todosos seres humanos e diz respeito a todas as idades, devendo ser visto pelasociedade de outra forma, dissipando-se mitos, preconceitos e pensando-se em estratégias para um envelhecimento saudável e com autonomia.A epidemia do HIV/aids e suas tendências atuais No início da década de 80, nas cidades de Los Angeles e SãoFrancisco (Estados Unidos), surgiram casos de uma doença que provo-cava uma síndrome desencadeada pela baixa imunidade do organismo.As pessoas contaminadas morriam em pouco tempo, devido ao totaldesconhecimento da doença. A expressão “grupo de risco”, usada no início da epidemia, carac-terizou as pessoas que assumiam uma conduta mais liberal e promíscua,que fugiam aos padrões sociais estipulados, como homossexuais, usuáriosde drogas e profissionais do sexo. Isso gerou grande preconceito e discri-minação por parte da sociedade, que via a doença como um castigo.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 275. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 285 As demais pessoas, que não se “enquadravam” nesse grupo, nãose consideravam expostas ao vírus e, com isso, não utilizavam métodospreventivos. Atualmente, utiliza-se o termo “vulnerabilidade”, isto é, o riscoinclui todas as pessoas, independentemente de classe social, etnia, ida-de, sexo, cor, etc. A vulnerabilidade pressupõe um conjunto de fatoresque levam pessoas a contrair o vírus, sendo esses fatores de ordem es-trutural, objetivos e subjetivos, que normalmente tornam as pessoasmais expostas ao risco da infecção pelo HIV como pobreza, violência, ,baixa escolaridade, desigualdade de gênero, falta de acesso aos serviçosde saúde, entre outros. Nos últimos anos, a aids assumiu outras características. • Pauperização: aumento de infecções na parcela mais pauperizadada população, em decorrência das precárias condições de vida/saúde e di-ficuldade de acesso a informações e programas de prevenção ao HIV/aids; • Heterossexualização – feminização: eleva-se o número de casosnotificados em heterossexuais, principalmente mulheres jovens e emidade reprodutiva; • Interiorização: a epidemia avança para municípios e cidades dointerior, devido à rota de tráfico e prostituição; • Juvenização: devido à banalização da epidemia, os jovens sentem-se invulneráveis, pois não conheceram o impacto causado no início daepidemia, somado à precoce iniciação sexual sem o uso de preservativos; • Envelhecimento: cresce o número de idosos soropositivos. Conforme dados do Ministério da Saúde, de 1980 a 2003 foramregistrados 277.141 casos de aids no Brasil, e o total de óbitos no mesmoperíodo foi de 138.000, sendo que de janeiro a setembro de 2003 foramnotificados 19.373 novos casos.O HIV/aids na terceira idade O Boletim Epidemiológico de Aids, de abril a dezembro de 2002,informa que foram registrados 3.764 casos de aids em homens com maisde 60 anos e 1.429 casos em mulheres na mesma faixa etária. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 276. 286 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini Segundo literatura pesquisada, o fato de os idosos não utilizarempreservativo deve-se à não-assimilação de medidas preventivas contraDSTs e aids, diferentemente dos mais jovens, que cresceram ouvindofalar sobre a aids e suas formas de transmissão e prevenção. Outro fator é o receio de terem seu desempenho sexual compro-metido devido ao uso do preservativo. Devido à expectativa de vida, influenciada pela situação econômi-ca, alimentação adequada e escolaridade, entre outros fatores, os idosospassam a viver mais, e, isso, somado à introdução de medicamentos paraimpotência e problemas de ereção, acabam por prolongar a vida sexual.As mulheres menopauseadas que deixaram de usar o anticoncepcionalpor não considerarem mais o risco da gravidez, acabam não utilizandométodos preventivos nas relações sexuais, aumentando o número de idosassoropositivas, mesmo com a existência do preservativo feminino. Tanto homens como mulheres com mais de 60 anos continuama manter vida sexual ativa, mas não atentam para a importância daprevenção às DSTs e aids. Outro dificultador ao uso do preservativo é o próprio estigma daaids, pois no inicio da epidemia usava-se a expressão “grupo de risco”para classificar as pessoas com conduta promíscua, usuários de drogasinjetáveis e profissionais do sexo. A mídia, por sua vez, reforçou essa imagem, e os idosos, por nãose considerarem pertencentes a esse “grupo”, acabam não fazendo sexomais seguro, ou seja, com o uso do preservativo. Segundo material pesquisado, a aids em faixa etária mais elevadatorna-se um dificultador, pois, durante o envelhecimento, há queda pro-gressiva da imunidade e possibilidade do aparecimento de doenças crô-nico-degenerativas; aliado a isso, a aids acaba por comprometer tambémo sistema imunológico já debilitado pelo processo de envelhecimento. No entanto, não existem programas específicos de prevençãodestinados aos idosos soropositivos, pois mesmo sendo um número emcrescimento, ainda não é alvo de campanhas em grande escala. Tam-bém não existem serviços especializados que ofereçam tratamento pre-ventivo direcionados a essa parcela da população.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 277. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 287 A demanda aumenta, mas não existem locais especializados paraesse segmento, bem como profissionais capacitados para lidar com essanova característica da epidemia. No Brasil, o idoso não tem e nunca teve acesso a um sistemavoltado para a promoção de um envelhecimento bem-sucedido. Comisso, grande parte dos idosos não tem acesso aos bens e serviços quepossam garantir qualidade de vida. Para tanto, é necessário um plane-jamento de ações a curto, médio e longo prazo, objetivando a promoçãode um envelhecimento saudável. Consideramos relevante observar a escassez de material sobre oassunto, na maioria das vezes enfocando somente o aspecto biológico/clínico, deixando de considerar os aspectos psicossociais e culturaisenvolvidos. Mesmo com os dados epidemiológicos, poucos profissio-nais ou serviços de saúde investem em pesquisa e na criação de trabalhosvoltados a essa parcela populacional. Devemos atentar para a fundamental importância de que asociedade em geral reconheça essa nova tendência da aids, com apreocupação de elaborar e operacionalizar políticas preventivas e de pro-moção da saúde do idoso, que deve ser visto de forma diferente, comoalguém que continua a viver a sua vida, relacionando-se e que, portantomerece atenção e respeito por parte de todos. Assim como incentivaro tripé: identidade-sexualidade-plenitude do idoso por meio das vivên-cias que fortaleçam a auto-estima e iniciativas para continuar sendo osujeito de seu próprio script, de seu próprio enrredo.Resultados da pesquisa No que se refere à pesquisa quantitativa, destacamos que, dentreos 14 idosos entrevistados, 12 pertencem à faixa etária entre 60 e 65 anos,mostrando que, devido à longevidade e à adesão ao tratamento anti-retroviral, os soropositivos chegam a idades mais avançadas. Somentedois idosos afirmaram descobrir a soropositividade após os 60 anos. A maioria dos pacientes acima de 60 anos em seguimento noAMCA são do sexo masculino – 12 homens e apenas duas mulheres. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 278. 288 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini Dos idosos entrevistados, oito nasceram na região Sudeste, ou-tros cinco, na região Nordeste e um nasceu na região Sul. A migraçãode outros estados para as grandes capitais como São Paulo deve-se àbusca por melhores condições de vida, bem como ao acesso ao trabalhoe a serviços de saúde. A religião está fortemente presente para a maioria dos idososentrevistados: oito idosos são católicos, três são evangélicos e outros trêsseguem outras religiões, como o candomblé e budismo. Foi observado que a religião serve como suporte para o enfren-tamento da situação e as implicações decorrentes do diagnóstico; doisidosos citaram, inclusive, que a fé pode curá-los, depositando assim nareligião grande expectativa em relação à cura. Em relação ao estado civil, quatro idosos afirmaram ser casados,quatro são solteiros e os outros são separados, viúvos ou companheiros. No que se refere à escolaridade, cinco dos idosos estudaram da 1ª à4ª séries do ensino fundamental (antigo curso primário), quatro estudaramda 5ª a 8ª séries. Somente dois entrevistados concluíram o 2º grau e o mesmonúmero realizou curso superior. Entre os idosos, um é analfabeto. Foi observado que grande parte dos idosos, por não terem boascondições de vida, não tiveram acesso à educação ou interromperamseus estudos devido à necessidade de trabalhar para ajudar no orçamen-to doméstico. Entre os entrevistados, 11 residem em casa própria e três em casaalugada, sendo que 10 vivem com esposo(a) ou filhos e quatro comparentes. Um dado interessante é que seis idosos moram sozinhos e nemsempre contam com a ajuda de parentes, amigos ou vizinhos. Quando perguntados sobre quantas pessoas moram na casa, 10informaram que moram entre uma e três pessoas e quatro afirmaramque na residência moram de quatro a seis pessoas. Dos idosos pesquisados, três recebem até um salário mínimo,outros quatro ganham de um a dois salários mínimos, dois recebem dedois a quatro salários e o mesmo número recebe de quatro a seis saláriosmínimos. Dentre os idosos, três têm renda variável, pois realizam tra-balhos eventuais sem vínculo empregatício.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 279. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 289 Apenas dois idosos não recebem aposentadoria, não tendo, as-sim, vínculo com a Previdência Social. Os outros 13 recebem aposen-tadoria e um dos entrevistados também recebe pensão. Mesmo recebendo aposentadoria, foi constatado que sete dosidosos realizam atividades remuneradas para ajudar no orçamento domés-tico. Algumas das atividades citadas são: caminhoneiro, engraxate, pres-tação de serviços elétricos, pintura e assessoria jurídica. Devido à situaçãoeconômica do país e ao desemprego, 13 dos idosos contribuem na rendafamiliar com o dinheiro que recebem da aposentadoria ou pelos eventuaisserviços prestados. Esse dado condiz com a pesquisa realizada pelo IBGEem 2002, que revela o grande número de idosos que auxiliam no orçamen-to doméstico e, muitas vezes, são os únicos responsáveis por ele. Outro dado interessante é que 12 dos idosos não recebem ajudade filhos ou parentes; ao contrário, são eles que ajudam parentes, filhose netos, confirmando o dado acima. Somente dois afirmam receber ajudaeconômica para pagar as contas mensais e a alimentação. Os idosos afirmaram que os maiores gastos mensais são comalimentação, seguido de contas (água, luz, telefone, etc.) e medicamen-tos. Em relação aos medicamentos, os idosos citam que retiram os anti-retrovirais no próprio ambulatório; os gastos são com outros remédios,como os utilizados para controle de hipertensão, diabetes e colesterol. Em relação à análise qualitativa, nove idosos consideram negati-vo envelhecer com HIV/aids, por associar com doença e morte. No quese refere à forma e tempo de infecção, nove idosos afirmam que sabemou imaginam como se contaminaram, sendo que quatro referem que aforma de infecção foi por relação sexual. O tempo de soropositividadevaria de dois a mais de dez anos e quatro idosos não sabem ao certo háquanto tempo posssuem o HIV . Entre os idosos que relataram o tempo de infecção, dois foramentre 40 e 50 anos, sete na faixa etária dos 50 aos 60 anos, e apenas umacima dos 60 anos. No que se refere às mudanças de vida provocadas após o diag-nóstico, dois idosos referem que passaram a valorizar mais a vida; noentanto, para outros dois depoentes, não ocorreram mudanças. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 280. 290 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini Os projetos de vida não foram paralisados para oito entrevista-dos, ao contrário, cinco idosos afirmaram adaptar-se a novos planos esomente um afirma ter abandonado a idéia de viajar, devido às condi-ções financeiras e aos cuidados com a saúde. Quando perguntados se gostariam de mudar algo em suas vidas,três idosos afirmaram categoricamente que evitariam a infecção e queo melhor era não ter aids; outros quatro não gostariam de mudar nada eoutros seis referem que gostariam de ajudar a família financeiramente,mudar o temperamento, melhorar o relacionamento familiar, obtermelhores condições financeiras e voltar a trabalhar. No tocante à dupla reconstrução de vida, questão central dapesquisa, cinco idosos negam claramente essa possibilidade, outros trêsacreditam na dupla reconstrução, apontando a necessidade de recons-truir a vida e conviver com o processo de envelhecimento e o HIV, osdemais (seis) entrevistados não nomeiam claramente a possibilidade deuma dupla reconstrução de vida. Devido aos percursos das histórias vividas, os entrevistados nãoreconhecem a dupla reconstrução de envelhecer com HIV/aids; o dis-curso é dirigido para as vivências e a forma de conviver com o vírus. Os depoentes demonstraram não ter preocupação com o enve-lhecer saudável e dinâmico, mas se preocupam em manter o HIV emequilíbrio com o organismo para não resultar em mais danos à saúde. Os idosos entrevistados priorizam os desdobramentos do HIV/aids em seu cotidiano e o processo de envelhecer torna-se secundário,sendo considerado como mais uma etapa da vida a ser percorrida. A religião aparece fortemente nos relatos como forma de susten-tação, como um alicerce para enfrentamento da situação. Os idososatribuem à fé a razão pelo equilíbrio e manutenção da saúde.Considerações finais O tema escolhido propiciou visualizar os significados atribuídospelo idoso ao próprio processo de envelhecer com HIV/aids. Percebemos, por meio da pesquisa, que os idosos, mesmo dianteda cronicidade do diagnóstico HIV/aids, com seus desdobramentos erevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 281. Envelhecimento e velhice com HIV/Aids 291as implicações biopsicossociais do processo de envelhecimento, procu-ram organizar-se e adaptar-se à situação vivenciada, buscando melho-res condições de vida e a manutenção da saúde. Vale ressaltar que em nossa sociedade muitas pessoas espantam-se ao se defrontarem com casos de idosos soropositivos, pois, cultural-mente, acredita-se que a pessoa, à medida que envelhece, deixa de teruma vida sexual ativa; portanto, torna-se “impossível” alguém comidade mais avançada ser portador de uma doença que inicialmente foiassociada a condutas e comportamentos desviantes ou promíscuos. Não se imagina que um idoso tenha utilizado drogas injetáveisou que mantém relações sexuais, inclusive com vários(as) parceiros(as).Isso afronta a concepção de velhice arraigada em nossa sociedade, quegeralmente associa o idoso com a figura do vovô bonzinho ou da vovóboazinha, que cuida dos netos, assiste televisão e faz tricô. Por esse motivo, o tema é complexo e pouco abordado, pois vaide encontro aos padrões socialmente construídos. Deve-se, no entanto,atentar para os indicadores sociais e epidemiológicos. Paralelo ao crescente aumento da expectativa de vida no Brasile no mundo, cresce também o número de idosos portadores do HIV ,marcando assim a mais nova tendência da epidemia. Diante disso cresce também o desafio de proporcionar a essesegmento condições de vida digna, possibilitando o acesso aos bens eserviços essenciais ao ser humano. Torna-se necessário, portanto, a criação e operacionalização depolíticas públicas voltadas para a promoção da saúde do idoso, bemcomo campanhas efetivas de prevenção primária e secundária de DSTe aids para esse segmento populacional. Essa nova tendência traz à tona a necessidade de mudança do atualparadigma da velhice, em que o idoso é visto com inútil, improdutivo eultrapassado. A sociedade deve passar a vê-lo como alguém ativo, crítico, comautonomia e que continua a manter vida sexual como qualquer pessoa de outrafaixa etária, não sendo, portanto, um ser “assexuado” e que precisa de açõesvoltadas para a manutenção de sua saúde, pois, como observamos, não estádescartada a possibilidade de infecção pelo HIV/aids nessa faixa etária. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-293
  • 282. 292 Bianca Fernanda Aparecida Perez e Susan Mariclaid Gasparini Portanto, para a sociedade em geral e, principalmente, para os pro-fissionais de saúde, fica clara a necessidade de “olhar” para o idoso de outraforma, atentando para essa nova tendência epidemiológica e procurar, deforma multidisciplinar, trabalhar a questão do HIV/aids na terceira idade.ReferênciasBOLETIM EPIDEMIOLÓGICO (2002). Ministério da Saúde, abril a dezembro.BOSI, E. (1994). Memória e sociedade. Lembranças de velhos. 4 ed. São Paulo, Companhia das Letras.BUTIN, N. G. (2002). Finitude e envelhecimento: significado da morte no idoso soropositivo. Dissertação de mestrado. São Paulo, PUC.DUARTE, L. T. (2002). Envelhecimento: processo biopsicossocial. Dispo- nível em: httt;/www.google.com.br.LEITE, M. (1999). Mais Velhos. Folha de S. Paulo, 16 set., p. 2.MINISTÉRIO DA SAÚDE (2000). Programa Brasileiro de DST/ AIDS. Brasília.MIRANDA, L. (2002). Depois dos 60 anos, eles estão de bem com a vida. O Estado de S. Paulo, 18 de set. Caderno Geral, p. 14.NETTO, A. J. (1997). Gerontologia básica. São Paulo, Saraiva.REVISTA SERVIÇO SOCIAL E SOCIEDADE (2003). Velhice e Envelhecimento, ano XXIV n. 75. São Paulo, Cortez. ,VEJA (2003). A última vítima, 3 dez., p. 90.Data de recebimento: 10/5/2005; Data de aceite: 8/8/2005.Bianca Fernanda Aparecida Perez – Assistente social, aprimoranda do Ambu-latório Casa da AIDS (AMCA) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicinada Universidade de São Paulo (HCFMUSP) - PAP FUNDAP/2003. E-mail:biancaperez@ig.com.br.Susan Mariclaid Gasparini – Assistente social, supervisora do curso de aprimora-mento na Casa da AIDS e orientadora da pesquisa. E-mail: ssocialcaids@zerbini.org.br.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 277-292
  • 283. Breve reflexão La resiliencia y los adultos mayores. Importancia de su aplicación en grupos de educación para el envejecimiento1 Virginia Viguera (...) pero nadie afirma que la resiliencia sea una receta para la felicidad. Es una estrategia de lucha contra la desdicha que permite arrancarle placer a la vida, pese a los murmullos de los fantasmas que aún percibe en el fondo de la memoria. Cyrulnik (2003) El concepto de Resiliencia es un término nuevo que tomó notoriedada partir de la década del 80 (muy cerca por cierto) y que comenzó a circulara través de diversas publicaciones de estudios realizados en especial en chicosy jóvenes. Los científicos se preguntaban como de chicos maltratados oabandonados o de adultos que habían estado en campos de concentraciónnazis, podían sobrevivir personas honorables y creativas. Decíamos en la Introducción al estudio de la Resiliencia en losAdultos Mayores, un trabajo anterior que publicamos en el n. 14 de larevista Tiempo, que “Resiliencia es la capacidad que va adquiriendo elAdulto Mayor para poder enfrentar satisfactoriamente los distintosfactores de riesgo que encuentra en su camino y a la vez ser fortalecidocomo resultado de esa situación”.1 Este trabajo de mi autoria fue publicado en la Revista de Psicogerontologia Tiempo Nº 15 de octubre de 2004. (Revista electronica: www.psicomundo.com/tiempo) revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 284. 294 Virginia Viguera Tomamos las palabras de Marie-Paule Poilpot, cuando en su cap.«La Resiliencia: el realismo de la esperanza» dice que «la resiliencia nosinvita a dar un valor positivo a nuestra forma de ver al otro, a modificarnuestras prácticas, talvez a observar mejor a definir y a utilizar losrecursos propios de aquellos a quienes ayudamos....» (…) «estadimensión de la naturaleza humana nos conduce con toda naturalidada la esperanza.».....» hablar de resiliencia no es por tanto un datoinmutable y adquirido de una vez por todas». El concepto de resiliencia en los envejescentes tiene algunaspeculiaridades que los distingue de las otras edades: • Su carácter de singular, único, diferente de cualquier otrapersona por tener una larga historia personal que importa y mucho. • Por su potencialidad no siempre conocida y que puede y debeser desarrollada. • Hay en los envejescentes una cierta vulnerabilidad que se trabajaa través del auto-cuidado. • La posibilidad de cambio y de aprendizaje que tienen losmayores, no recocida hasta hace poco tiempo.Aclaremos los términos usados en la definición • Cuando hablamos de capacidad nos referimos a mecanismoscon los que cuenta el Adulto Mayor, pero también a una actitud que lolleva a tomar la vida con fuerza, entereza, confianza, convicción. • Hablamos de satisfactoriamente y no de exitosamente, porquecreemos que la palabra éxito o exitoso supone un logro muy relevante,demasiado cargado de expectativas que pueden abrumar un poco alMayor. En cambio satisfactorio tiene que ver con lograr vencer losfactores de riesgo y quedar tranquilo, cómodo o por lo menos conformecon lo logrado. • Factores de riesgo: son situaciones difíciles, a veces traumáticas,nuevas, estresantes, azarosas, inciertas, peligrosas, comprometidas, conlas que tiene que encontrarse el Adulto Mayor pero que interactúanestrechamente con su historia, sus características, su capacidad. Esto es,revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 285. La resiliencia y los adultos mayores 295no son situaciones ajenas, siempre el riesgo, mayor o menor estará dadopor el interjuego adulto mayor- situación. En épocas de crisis económica y sobre todo social, que sin dudaincluye lo cultural, como ocurre en Argentina, se agregan nuevosfactores de riesgo, por ejemplo, las magras jubilaciones con las que losmayores deben hacer frente a sus necesidades básicas, en muchasocasiones la ayuda a hijos y nietos que jaqueados por la falta de trabajoy la necesidad que ambos padres deban ir en busca de alguna tarea queles permita ingresar dinero. También un factor que cada día se agranda, mas impulsado no solopor la realidad sino por el manejo que los medios hacen de el: la inseguridadque acarrean los robos, los secuestros, las muertes, los atentados. Nadieesta suficientemente preparado para afrontar estas situaciones y menosaun los mayores. El miedo, que sin duda en cierta medida es una defensanatural del organismo, se torna por momentos insoportable, caótico yparalizante. Pensamos que también para este miedo los Adultos Mayoresdeben tener espacios para compartirlo, hablarlo, ponerlo afuera,encontrando mecanismos útiles para hacerle frente.Señalábamos las peculiaridades de los Mayores,que seguramente no serán las únicas Cuando apuntamos su carácter de singular, único, diferente decualquier otro, también mencionamos una larga historia de 6, 7 u 8 décadasque imprimen características muy diferenciales. Durante esos años, nofueron pocos los cambios a los que debieron adaptarse, ni las circunstanciaspersonales, familiares, laborales, sociales, algunas buenas y otras no tanto,hasta llegar a las traumáticas; que los tuvieron como protagonistas. Al mencionar las potencialidades con las que trabajamos hacemosmención a que generalmente son desconocidas para el mismo AdultoMayor. De los chicos o de los jóvenes se espera y se da por seguro quecuenta con un potencial para desarrollar pero en general en los AdultosMayores, se piensa que ya terminaron su ciclo y que poco pueden hacerpor modificar actitudes o enfrentar dificultades. revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 286. 296 Virginia Viguera En cuanto a lo que vemos como mayor vulnerabilidad, nosreferimos no solo al menor nivel de ingresos económicos a través de lajubilación, también a los cambios físicos, psicológicos y sociales que debeenfrentar y que traen aparejados modificaciones en sus rutinascotidianas, como además señalamos las pérdidas (de amigos, padres,pareja, otros familiares, mudanzas, separaciones, otras) que requierenponer en funcionamiento el proceso de duelo, trabajo que consumeenergías y tiempo. La resiliencia se va formando desde pequeños y su debilitamientoo fortalecimiento se sigue a lo largo de toda la vida. No se sella en lainfancia, aunque situaciones muy traumáticas vividas de muy chicopueden determinar labilidades muy serias difíciles de superar. Se vaforjando como una trama, una red, que se teje en el intercambio con elotro y este proceso no se detiene.La resiliencia como un proceso y no comouna característica del individuo Esto supone tomar este concepto multifactorialmente.Capacidad del individuo, en nuestro caso, el Adulto Mayor, su historiafamiliar y social, su encuentro con distintos contextos en donde le tocóvivir, riesgos que tuvo que enfrentar, factores protectores con los quecontó, resultados de estas adaptaciones, actitud vital con la que semaneja y también toda una serie de cambios físicos, psicológicos ysociales a los que debe adaptarse. No dejamos de tener en cuenta logenético, lo constitucional, lo traído y aportado al nacer, solo que esnecesario salirnos de la dicotomía, la antinomia, con la que se manejaronlos estudios científicos hasta no hace muchos años y en que se hablabade cuerpo-mente, innato-adquirido, biológico-social.revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 287. La resiliencia y los adultos mayores 297Trabajamos la resiliencia en los grupos que coordinamos yque todos tienen que ver con la educación para el envejecer No insistiré en lo que constituye la Educación para elenvejecimiento que se puede consultar en anteriores trabajos, solo agregoque resulta muy satisfactoria su implementación en grupos, convocadospor propia elección, y la importancia de abrir cada vez mas espacios paraque los Adultos Mayores, aprendan, compartan, creen, reflexionen,entrenen sus procesos cognitivos, estén activos y así continúen con sudesarrollo personal que los tendrá vigentes e insertos en la sociedad. En los grupos de Mayores se observa muy claramente unadisposición para aprender, una motivación para emprender nuevasrelaciones, tanto con las personas como con los objetos de estudio.Retoman hábitos que se fueron desdibujando con el correr del tiempo,lectura, escritura, reflexiones, comunicación con pares, y aprendennuevas formas: • La introspección a través de la cual se preguntan, se cuestionan,se aclaran muchas cosas. Reflexionan. • hacen proyectos para el día o para la semana pero proyectos queincluyen motivación, preparación, aptitud de salir y encontrarse contareas y gente con la cual compartir. • Integran espacios en donde la escucha afectiva y cordial y lasolidaridad del grupo entran a tornarse en nuevos agentes protectores. • Fortalecen en la relación con los otros su propia identidad yrefuerzan la auto-estima muy vapuleada por las pérdidas y los cambiospropios de la edad. • Integran a través de la Reminiscencia su pasado a este presentepor el que transcurren, vigorizando así su identidad.ReferenciasBEASCOCHEA, G. Envejecimiento frente al trauma psicosocial, al prejuicio, a lo siniestro. Posibilidades de producir un aconteci- miento creativo. Empoderamiento, resiliencia, red. Revista Ti- empo, n. 12. Disponível em: www.psicomundo.com/tiempo revista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 288. 298 Virginia VigueraCYRULIK, B. (2003). El murmullo de los fantasmas. Volver a la vida después de un trauma. Barcelona, Gedisa.____ (2004). El realismo de la esperanza. Espana, Gedisa.LÓPEZ, S. (2002). La resiliencia: algo a promover. La Iniciativa de Comunicación. Disponível em: www.comminit/la/lacth/sldMANCIAUX, M. (comp.) (2003). La resiliencia: resistir y rehacerse. Barcelona, Gedisa.MELILLO, A. y SUAREZ, E. (comp.) (2003). Resiliencia. Descubri- endo las propias fortalezas. Buenos Aires, Paidós.MELILLO, A. Resiliencia. Psicoanálisis ayer y hoy, n. 1. Asociación Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados.MOREL MONTES, M. y C. Entrevista a Boris Cyrulnik. ¿De que esta hecha la felicidad? (tomado de Internet).RAFFO, G. y RAMMSKY, C. (2004). La resiliencia. Disponível em www.monografias.comRAMÍREZ, M. J. La Resiliencia en la actividad docente. Foro de Educación Permanente. Disponível em: www.educaritas.org/ educacionVIGUERA, V (2004). La resiliencia y los adultos mayores. Intro- . ducción a su estudio. Revista Tiempo, n. 14. Disponível em: www.psicomundo.com/tiempoData de recebimento: 15/4/2005; Data de aceite: 30/7/2005.Virginia Viguera – Medica psiquiatra. Docente en el Programa de EducacionPermanente de Adultos Mayores de la FHCE (UNLP). Docente en grupos deEducacion para el envejecimiento y Estimulacion de Memoria y Reminiscencia enCentros de Jubilados. Miembro e la Red Mayor de La Plata. Directora de la revistade psicogerontologia Tiempo www.psicomundo.com/tiempo. www.psiconet.com/tiempo. E-mail: viguera@ciudad.com.ar e tiempo@psicomundo.comrevista Kairós, São Paulo, 8(2), dez. 2005, pp. 293-298
  • 289. Normas para publicação A revista Kairós aceita colaborações, sugestões e críticas, quepodem ser encaminhadas ao editor científico, no endereço que segueabaixo. Os artigos ou resenhas recebidos serão submetidos ao ConselhoEditorial, ao qual caberá a decisão da publicação. O Conselho Editorialdispõe de plena autoridade para decidir sobre a conveniência de suaaceitação, podendo, inclusive, reapresentá-los aos autores com sugestõespara que sejam feitas alterações necessárias nos textos e/ou para queos adaptem às normas editoriais de publicação. Nesse caso, o trabalhoserá reavaliado pelo Conselho Editorial. O respeito às normas parapublicação é condição obrigatória para o recebimento do trabalho.O parecer será devidamente encaminhado para os autores. Originaisnão aprovados não serão devolvidos, mas fica resguardado o direitodo(a) autor(a) divulgá-los em outros espaços editoriais. Possíveis correções ortográficas serão feitas, visando a manter ahomogeneidade e a qualidade da publicação, respeitando, porém, oestilo e a opinião do autor. Recomenda-se que o texto seja previamenteencaminhado a um revisor técnico, especialista no idioma. (1) Os artigos devem ter de 10 a 15 páginas, incluindo notase bibliografia. (2) Devem ser apresentados em 3 cópias impressas, acompa-nhadas de disquete e em programa Word for Windows, no corpo12, fonte Times New Roman, com espaço 1,5. Para reentrânciasou parágrafos, recomenda-se usar o comando de parágrafo com1,27 cm na primeira linha.
  • 290. 300 Kairós (3) Cada artigo deve conter resumo e abstract de, no máximo,6 linhas e três palavras-chave. (4) As notas referentes aos artigos devem constar no rodapédas próprias páginas. (5) Os dados de autoria necessários: nome, profissão, vínculo ins-titucional e endereço ou e-mail. (6) Toda referência bibliográfica deve aparecer completa: au-toria, data, título, local de publicação, editora, número de páginas.Numa obra em que não conste a data de publicação, favor esclarecers/d. Exemplos:a) Livro como um todoBERGSON, Henri (1990). Matéria e memória. São Paulo, Martins Fontes.b) Parte do livroSIMÕES, Júlio Assis (1998). “A maior categoria do país: o aposen- tado como ator político”. In: BARROS, Myriam M. L. (org.). Velhice ou terceira idade? São Paulo, FGV.c) PeriódicosMARTINS, Joel (1998). Não somos cronos, somos kairós. Revista kairós: Gerontologia – Núcleo de Estudo e Pesquisa do En- velhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ge- rontologia. São Paulo, Educ, v. 1 n. 1.d) Eventos publicados na forma de anaisSALGADO, Marcelo A. (1996). Políticas sociais na perspectiva da sociedade civil: mecanismos de controle social, monitoramen- to e execução, parcerias e financiamento. Síntese de Confe- rência. In: I SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENVELHE- CIMENTO POPULACIONAL: UMA AGENDA PARA O FINAL DO SÉCULO. Anais. Brasília, MPAS/SAS.e) Teses, dissertações e monografiasMERCADANTE, Elisabeth Frohlich (1997). A construção da identi- dade e da subjetividade do idoso. Tese de Doutorado. São Paulo. PUC-SP.revista Kairós, São Paulo, 8(1), jun. 2005, pp. 175-180
  • 291. Normas para publicação 301f) RevistasVEJA (Especial) (2001). O fantasma da solidão. Ano 34, n. 29 – 25/7/01.g) FilmesO gato sumiu (filme-vídeo) (1996). Direção de Cedric Klapifch. França, Lumière Home Vídeo.h) Internet e CD-ROM Como a NBR 6023 não faz nenhuma menção sobre citaçãode documentos eletrônicos, apresentamos como sugestão os seguin-tes exemplos:GARCIA, Maurício (2000). Normas para elaboração de dissertações e monografias (Online, 26/5/2000, http://www.uniabc.br/pos_graduacao/ normas.html).GREEN, R. W (1998). Sport and disease. New York, Lippincott-Raven . (CD-ROM).Endereço Revista KairósNúcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (Nepe)Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia – PUC-SPR. Ministro Godói, 969Perdizes – Cep 05015-000São Paulo – BrasilTérreo – sala 59Telefone: (011) 3670-8216/3670-8274E-mail: beltrina@uol.com.brSite: http://www.pucsp.br/pos/gerontologia O envio espontâneo de qualquer colaboração implica automaticamente a ces- são dos direitos de publicação à Revista/Caderno Temático Kairós. A revista não se obriga a devolver os originais e/ou disquetes enviados. revista Kairós, São Paulo, 8(1), jun. 2005, pp. 175-180