v.5 nº15                                             janeiro > abril | 2011                                             SE...
SESC | Serviço Social do Comércio | Administração NacionalPRESIDENTE DO CONSELHO NACIONALAntonio Oliveira SantosDIRETOR-GE...
SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO5EDITORIAL7SOBRE OS AUTORES8a desordem do mundo10André Buenoescuta, arte e sociedade a partir domúsico ...
APRESENTAÇÃO     A revista Sinais Sociais tem como finalidade precípua tornar-se um espaçode debate sobre questões da cont...
EDITORIAL   O mito de Narciso apaixonado por si mesmo a ponto de morrer em suaimagem serve de fio condutor a esta edição d...
SOBRE OS AUTORESAndré BuenoÉ paulista radicado no Rio de Janeiro, professor associado da Faculdade de Letrasda UFRJ, pesqu...
Pedro DemoPhD em Sociologia (Alemanha, 1971). Teve sua tese aprovada com nota máxima,premiada e publicada (Herrschaft und ...
A DESORDEM DO MUNDOAndré Bueno10        Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
Este artigo trata de um problema crítico difícil: como dar forma literária a al-terações radicais da vida cotidiana, produ...
INTRODUÇÃO   O que se lê a seguir é uma análise de representações literárias quetratam de alterações extremas da produção ...
que a própria civilização produz, não sendo descabido associar essasregressões autoritárias a uma volta desordenada do rep...
processos, deixando de lado o ângulo fechado. Vale dizer, perdendode vista o particular sensível, configurado e cifrado na...
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Em 1973, foi preso, no Chile, após o golpe militar. Libertado, voltoupara o México, indo em 1977 para a Espanha, onde vive...
na linha do fantástico ou do absurdo, O processo perde toda suaforça crítica. Se assim fosse, no final do livro Joseph K. ...
jantares em família, suas formas banais de viver ao lado do infernocomo se estivessem em suas cidades na Alemanha, pacatos...
em fracasso. Levando mais longe a composição, Sebald também acer-ta as contas com a verdade negativa da própria formação d...
uma simples aproximação entre vida e obra, autor e narrador. Par-tindo dos destinos particulares, dos detalhes carregados ...
indicando uma relação marcante com a imaginação dialéticade Walter Benjamin no modo como monta imagens/conceitos queexplod...
Jorge Luis Borges. Pode ser, mas certamente é bem mais que isso,traduzindo a posição iconoclasta do escritor chileno, que ...
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Lacouture é uma outsider em vários sentidos, fora de toda normaburguesa, alheia a toda convenção, uma imigrante uruguaia, ...
4 JOSÉ SARAMAGO  No conjunto da obra de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira eEnsaio sobre a lucidez apresentam ao leito...
vigiados, mantidos fora da vida da cidade. Aqui, sem dúvida omodelo é o campo de confinamento, típico do século XX, em vár...
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sinônimo exato de bagunça, baderna, confusão e desordem. No en-tanto, é interessante notar, um princípio fundamental e pos...
no imaginário de massa as bases para consensos forjados cujosresultados são bem conhecidos: a invasão arbitrária, a destru...
de exceção. O que criaria um problema quase insolúvel na própriaestrutura da narrativa, tentando combinar princípios de co...
apresentava uma “ideia radical de liberdade”. Valha o exemplo doSurrealismo para lembrar como nunca foi simples a aproxima...
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sentam para o escritor ao tentar dar forma à realidade. Ou seja, pro-blema com o qual todos os escritores de talento se de...
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de uma controvérsia que tem peso e interessa. No extremo oposto,ficam as narrativas que não acertam o tom, estetizam a vio...
REFERÊNCIAS1 LITERÁRIAS:BOLAÑO, Roberto. Amuleto. México: Editorial Anagrama, 2006.BOLAÑO, Roberto. Amuleto. Tradução de E...
CORTÁZAR, Julio. Rayuela. 2. ed. Madrid: Allca XX Colección Archivos,1996.LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. Tra...
SEBALD, W. G. Os anéis de Saturno. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro:Record, 2002.SEBALD, W. G. Austerlitz. Tradução de...
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Hori-zonte: Ed. UFMG; Humanitas, 2004.AGAMBEN, Giorgio. ...
ESCUTA, ARTE ESOCIEDADE A PARTIR DOMÚSICO ENFURECIDODaniel Belquer44         Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | ...
Este artigo levanta alguns tópicos oriundos de campos distintos, mas que serelacionam por trazerem como epicentro a questã...
INTRODUÇÃO   A escuta está impregnada de ordenações sociais. O processo derecepção do som, sua filtragem e decodificação, ...
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O Iluminismo pode ter sido um grande catalisador da visualidadepara o pensamento ocidental, o próprio nome do movimento ap...
conceitualmente fragmentados: “só raramente os autores das histó-rias do som sugerem de que maneira seu trabalho se conect...
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  1. 1. v.5 nº15 janeiro > abril | 2011 SESC | Serviço Social do Comércio Administração NacionalISSN 1809-9815Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011
  2. 2. SESC | Serviço Social do Comércio | Administração NacionalPRESIDENTE DO CONSELHO NACIONALAntonio Oliveira SantosDIRETOR-GERAL DO DEPARTAMENTO NACIONALMaron Emile Abi-AbibCOORDENAÇÃO EDITORIALGerência de Estudos e Pesquisas / Divisão de Planejamento e DesenvolvimentoMauro Lopez RegoCONSELHO EDITORIALÁlvaro de Melo SalmitoLuis Fernando de Mello CostaMauricio BlancoNivaldo da Costa Pereirasecretário executivoMauro Lopez Regoassessoria editorialAndréa RezaEDIÇÃOAssessoria de Divulgação e Promoção / Direção-GeralChristiane Caetanoprojeto gráficoVinicius Borgesprodução editorialDuas Águas editoração e consultoriarevisãoClarissa Pennarevisão do inglêsIdiomas & ciadiagramaçãoLivros & Livros | Susan Johnsonprodução gráficaCelso ClappSinais Sociais / SESC, Departamento Nacional - Vol. 1, n. 1 (maio/ ago. 2006)- . – Rio de Janeiro : SESC, Departamento Nacional, 2006 - . v.; 30 cm. Quadrimestral. ISSN 1809-9815 1. Pensamento social. 2. Contemporaneidade.3. Brasil. I. SESC. Departamento Nacional.As opiniões expressas nesta revista são de inteira responsabilidade dos autores.As edições podem ser acessadas eletronicamente em www.sesc.com.br.
  3. 3. SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO5EDITORIAL7SOBRE OS AUTORES8a desordem do mundo10André Buenoescuta, arte e sociedade a partir domúsico enfurecido44Daniel BelquerA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL: ORETORNO PRIVADO E AS RESTRIÇÕES AOINGRESSO82Márcia Marques de CarvalhoAPRENDIZAGEM POR PROBLEMATIZAÇÃO112Pedro DemoA CIDADANIA ATRAVÉS DO ESPELHO: DOESTADO DO BEM-ESTAR ÀS POLÍTICAS DEEXCEÇÃO138Sylvia MoretzsohnSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011 3
  4. 4. APRESENTAÇÃO A revista Sinais Sociais tem como finalidade precípua tornar-se um espaçode debate sobre questões da contemporaneidade brasileira. Pluralidade e liberdade de expressão são os pilares desta publicação. Plu-ralidade no sentido de que a revista Sinais Sociais é aberta para a publica-ção de todas as tendências marcantes do pensamento social no Brasil hoje.A diversidade dos campos do conhecimento tem, em suas páginas, um locusno qual aqueles que têm a reflexão como seu ofício poder-se-ão manifestar. Como espaço de debate, a liberdade de expressão dos articulistas daSinais Sociais é garantida. O fundamento deste pressuposto está nas Diretri-zes Gerais de Ação do SESC, como princípio essencial da entidade: “Valoresmaiores que orientam sua ação, tais como o estímulo ao exercício da cida-dania, o amor à liberdade e à democracia como principais caminhos da bus-ca do bem-estar social e coletivo.” Igualmente, é respeitada a forma como os artigos são expostos – de acor-do com os cânones das academias ou seguindo expressão mais heterodoxa,sem ajustes aos padrões estabelecidos. Importa para a revista Sinais Sociais artigos em que a fundamentaçãoteórica, a consistência, a lógica da argumentação e a organização das ideiastragam contribuições além das formulações do senso comum. Análises queacrescentem, que forneçam elementos para fortalecer as convicções dos lei-tores ou lhes tragam um novo olhar sobre os objetos em estudo. O que move o SESC é a consciência da raridade de revistas semelhantes,de amplo alcance, tanto para os que procuram contribuir com suas reflexõescomo para segmentos do grande público interessados em se informar e sequalificar para uma melhor compreensão do país. Disseminar ideias que vicejam no Brasil, restritas normalmente ao mun-do acadêmico, e, com isso, ampliar as bases sociais deste debate, é a inten-ção do SESC com a revista Sinais Sociais. Antonio Oliveira Santos Presidente do Conselho Nacional do SESCSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011 5
  5. 5. EDITORIAL O mito de Narciso apaixonado por si mesmo a ponto de morrer em suaimagem serve de fio condutor a esta edição da revista Sinais Sociais. Comoevitar a busca por espelhos indulgentes, como dialogar com realidades quedesmentem nossas premissas, como prevenir o autoencantamento que podeantecipar a morte? Conhecer a violência existente no diálogo entre o “mesmo” e o “não eu”– para usar conceitos de Levinas – nos remete às escolhas éticas que todosdevemos tomar para o entendimento e a ação. O artigo de Sylvia Moretzsohn traz já em seu título o questionamento da“naturalização” da cidadania referida nos meios de comunicação pela repe-tição, pelo reducionismo, pela face de benevolência que se lhe atribui. Avisão da violência, a omissão da escuta, a criação estética como recurso decompreensão do mundo se fazem presentes nos instigantes textos de AndréBueno e Daniel Belquer. Para o entendimento acerca da aprendizagem, Pedro Demo reflete sobre oprocesso educacional não como uma reprodução de “mesmos”, mas como oestímulo e o acompanhamento à autoconstrução individual. O estudo sobre a abrangência da educação superior, desenvolvido por MárciaMarques de Carvalho, ilustra as possibilidades restritas de acesso, no Brasil, auma formação crítica, questionadora, criativa e não reprodutora ou autorre-ferenciada. Com esse conteúdo, a revista Sinais Sociais 15 propõe desafios sobre o pen-sar e o agir no mundo, confrontando-os criativamente com os dilemas denossos diversos “eus” frente à vida em sociedade. Maron Emile Abi-Abib Diretor-Geral do Departamento Nacional do SESCSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011 7
  6. 6. SOBRE OS AUTORESAndré BuenoÉ paulista radicado no Rio de Janeiro, professor associado da Faculdade de Letrasda UFRJ, pesquisador do CNPq desde 1991, no presente período, com o projetoA desordem do mundo – literatura e estados de exceção. É mestre em LiteraturaBrasileira (PUC-Rio, 1978), doutor em Teoria da Literatura (UFRJ, 1987), pós-dou-tor em Letras Modernas (USP 2008) e escreveu vários livros, capítulos de livros e ,artigos publicados em revistas. Em livro, publicou nos últimos anos Memórias dofuturo (2009), Pássaro de fogo no Terceiro Mundo – o poeta Torquato Neto e suaépoca (2005) e Formas da crise – estudos de literatura, cultura e sociedade (2002).É coordenador do grupo de pesquisa Formação do Brasil Moderno – Literatura,Cultura e Sociedade, registrado no diretório de grupos de pesquisas do CNPq,que reúne pesquisadores da UFRJ, USP UFPR, UFG, UFCE e UFRN. Foi coorde- ,nador da Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ de 1991 a 1995. Atéo momento, já orientou cinquenta teses de doutorado, dissertações de mestrado eprojetos de iniciação científica.Daniel BelquerMestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro(Unirio), desenvolve pesquisa interdisciplinar em artes. Trabalha como compositor,diretor de espetáculos, diretor musical e diretor de vídeo, programador em MAX/MSP/Jitter, músico instrumentista e performer. Interessa-se pela pesquisa que in-tegra pensamento, ação artística, tecnologia e as chamadas vanguardas históricas.Últimas publicações: Escutar a cena: um outro olhar para o que soa (dissertação demestrado) e o artigo “Descontrole, sensores e o atuador interativo”.Márcia Marques de CarvalhoFormada pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasi-leiro de Geografia e Estatística (IBGE), mestre em Engenharia de Produção pelaUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutoranda em Economia pelaUniversidade Federal Fluminense (UFF). Professora assistente do Departamentode Estatística da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora da Economiada Educação (ensino superior) e Políticas Sociais (previdência social e programasassistenciais como bolsa-escola).8 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011
  7. 7. Pedro DemoPhD em Sociologia (Alemanha, 1971). Teve sua tese aprovada com nota máxima,premiada e publicada (Herrschaft und Geschichte, 1973). Técnico de Planejamentoe Pesquisa do IPEA (1976-1994). Professor titular, aposentado e emérito de Socio-logia do Departamento de Sociologia da UnB (1976-2008). Consultor de experiên-cias pedagógicas locais (atualmente, em Campo Grande/MS e Porto Franco/MA).Autor de 90 livros nas áreas de metodologia científica e política social (com ênfaseem Sociologia da Educação). Mantém um blog (http://pedrodemo.sites.uol.com.br)voltado para questões educacionais, em particular, para as experiências locais.Sylvia MoretzsohnJornalista e professora adjunta de jornalismo no curso de Comunicação Social daUniversidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em Comunicação e doutora emServiço Social, leciona também no Mestrado Profissionalizante em Justiça Admi-nistrativa, da mesma Universidade, na área de mídia e justiça. É membro de con-selhos editoriais e parecerista de revistas acadêmicas. Desenvolve pesquisas decunho interdisciplinar, voltadas principalmente para as relações entre jornalismoe tecnologia, ética, cidadania, questão social, cotidianidade e senso comum. Temdiversos artigos publicados sobre o tema. Atualmente, é diretora de Jornalismo daAssociação Brasileira de Imprensa.Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 1-176 | janeiro > abril 2011 9
  8. 8. A DESORDEM DO MUNDOAndré Bueno10 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  9. 9. Este artigo trata de um problema crítico difícil: como dar forma literária a al-terações radicais da vida cotidiana, produzidas pelos estados autoritários deexceção, sem estetizar a violência e o sofrimento humano, como não banalizara oscilação radical entre civilização e barbárie que resulta da desordem domundo à qual o título alude. Com isso em mente, este artigo oferece uma breveabordagem de alguns trabalhos específicos dos escritores W.G. Sebald, RobertoBolaño, José Saramago, Julio Cortázar e Juan José Saer.Palavras-chave: estado de exceção, literatura, violênciaThis article deals with a very difficult critical problem: how to give literary formto the radical alterations of daily life, produced by authoritarian states of excep-tion, without aestheticizing violence and human suffering, how not to banalizethe radical oscillation between civilization and barbarism that results from thedisorder of the world to which the title alludes. Having that in mind, this articleoffers a brief approach to some specific works by writers W.G. Sebald, RobertoBolaño, José Saramago, Julio Cortázar and Juan José Saer.Keywords: state of exception, literature, violenceSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 11
  10. 10. INTRODUÇÃO O que se lê a seguir é uma análise de representações literárias quetratam de alterações extremas da produção e reprodução da vidacomum e cotidiana, resultando em rupturas radicais com a apenasaparente normalidade e estabilidade da experiência do dia a dia. Nolimite, rupturas que suspendem o Estado de Direito, as garantias in-dividuais, os parâmetros básicos da vida civilizada, mostrando comosão frágeis os limites que separam civilização e barbárie e instaurandopela violência a desordem do mundo a que alude o título deste tra-balho. A história do século XX mostrou, pelo ângulo mais negativo,como é possível instaurar estados de exceção a partir de situaçõesde aguda crise social. Mostrou mais, e muito pior, que estados deexceção são criados a partir de uma peculiar combinação de coerçãoe consenso, não apenas da imposição direta e arbitrária de sistemaspolíticos totalitários. Essa combinação se expressa na vida cotidiana, misturando o tri-vial e o terrível, a violência extrema e uma aparência de normali-dade, daí resultando uma mistura insidiosa, que interessa pensar.A convivência pacífica e sem conflitos, em uma mesma pessoa, dotorturador e do chefe de família, do delator e do defensor exemplarda moral e da religião, do bom vizinho que fica indiferente ou aju-da a promover perseguições e massacres, ilustra em profundidade oalcance crítico do problema. Sem esquecer das livrarias, dos teatros,dos museus, dos espetáculos, que continuam na vida cotidiana dacidade ocupada pelo estado de exceção, indicando uma sempre in-cômoda relação entre cultura e regressão bárbara, fazendo justiça aWalter Benjamin, quando notou que “não há documento de culturaque não seja também documento de barbárie”, contribuindo muitopara que não se pense a cultura pelo ângulo idealista, como se fosseo lugar por excelência dos mais altos atributos humanos, compar-tilhada sem crises por espíritos sensíveis e cultivados. A história doséculo XX, na Europa e em quase toda a periferia do capitalismo,deixou em seu rastro uma quantidade enorme de massacres e es-tados de exceção. Indicação segura, para lembrar aqui Freud, deque a civilização é um compromisso frágil e instável, que precisaser cultivado e preservado o tempo todo, justo contra o mal-estar12 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  11. 11. que a própria civilização produz, não sendo descabido associar essasregressões autoritárias a uma volta desordenada do reprimido e dorecalcado, invertendo os sinais da cidade e promovendo uma pro-funda desordem do mundo. Na outra ponta do processo, para não criar uma redução drástica doproblema, há também as variadas redes de resistência, que se orga-nizam e espalham na contramão da vida cotidiana ocupada pela vio-lência e pelo arbítrio. São vários os exemplos, e às vezes inesperados,da virtude cívica que se prova justo em situações extremas de crisesocial, onde não há mais espaço para a retórica das boas consciênciasquerendo se colocar à margem das impurezas do branco e da sujei-ra do mundo, ao modo dos inocentes do Leblon, virando o rosto epassando na pele um óleo suave e perfumado, marca da indiferençae da aceitação passiva da desordem do mundo. Em resumo, há umavariedade de configurações, de relações, de refrações, de matizes, desutilezas, de ângulos agudos e sutis, a que cabe ao escritor de primeiralinha dar forma literária elaborada. E ao crítico e estudioso cabe pen-sar com paciência e atenção, para trazer à tona sentidos cifrados, osque realmente contam para uma boa análise. Inevitável, o problema que se apresenta para a análise crítica é aprópria dificuldade da representação estética dessas experiências ex-tremas que alteram de modo radical todas as esferas da vida social.No limite, o que se apresenta é o problema de nomear o inominável,pensar o impensável, representar o mal absoluto sem estetizar a vio-lência, que tornaria desfrutáveis e consumíveis formas extremas desofrimento humano. Não é uma tarefa simples, de jeito nenhum setrata de um trabalho fácil. Tudo considerado, o problema crítico é, aomesmo tempo, estético e ético. Como estar à altura de experiênciasextremas, ao mesmo tempo triviais e terríveis, opacas e sutis, difíceis emuitas vezes quase intratáveis? Como não há uma resposta simples edireta para nenhuma dessas perguntas, tampouco uma forma estéticaabstrata e ideal que possa dar conta do alcance e da profundidade doproblema, resta ao crítico discernir, caso a caso, com cuidado, os errose os acertos na tarefa de evitar as inúmeras armadilhas que a complexaconfiguração dos estados de exceção apresenta o tempo todo. Há sempre a tentação, fácil, de aderir ao ângulo aberto dos proces-sos históricos e sociais, como que aderindo, sem mais, à superfície dosSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 13
  12. 12. processos, deixando de lado o ângulo fechado. Vale dizer, perdendode vista o particular sensível, configurado e cifrado na experiência co-mum de todo dia, daí tirando consequências que apontam para umapercepção mais forte do movimento geral em curso. Interessa, nessepasso, a conquista propriamente moderna que traz a vida comum ecotidiana e seus personagens, também comuns e nada heroicos, parao centro mesmo da configuração literária, com pleno direito de cida-de. Os leitores de Eric Auerbach, de Walter Benjamin, de TheodorAdorno, de Antonio Candido e de Roberto Schwarz, para ficar emalguns exemplos fortes, sabem a força crítica que deriva da análiseimanente, objetiva e detida, do pequeno e do particular, dos detalhesrelevantes e carregados de significado, dos restos e sobras, das mar-gens quase sempre anônimas. Irrelevantes para os grandes sistemasfilosóficos, totalizados e fechados, irrelevantes também para os siste-mas positivos e abrangentes de análise histórica, preocupados com ageneralidade das linhas de força, esses particulares sensíveis apresen-tam um elevado teor de verdade, lembrando nesse passo da análisede Theodor Adorno e os modos de exposição sistemática do negativo,do avesso das visões triunfais. Ao modo também dialético, lembrando agora Walter Benjamin, ocuidado com os particulares sensíveis, com os restos e sobras, comas margens consideradas irrelevantes ou pouco importantes pelos sis-temas fechados, a atenção neles focada permite, muito justamente,perceber a totalidade a partir do particular, a verdade negativa dotodo através da percepção intensa do detalhe e da variedade da vidacotidiana. A forma do ensaio nos interessa na sua mobilidade e intran-sigência, na sua capacidade de modular, de variar os ângulos da per-cepção analítica, no seu modo peculiar de não aderir ao que existe,ao que se apresenta como dado objetivo, ao que se deseja positivoe determinado. Para dizer de outro modo, fechado e integrado numsistema domesticado e sem falhas. Por extensão, o que interessa é oensaio como uma forma do espírito crítico insubmisso, que não querse reconciliar com a miséria do mundo. Como se trata de uma tradição crítica do cotidiano, desde logose evitam os equívocos, simétricos e complementares, de aderirsem mais aos dados imediatos e positivos da vida cotidiana, comose fossem naturais e transparentes; e também o oposto, considerar14 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  13. 13. irrelevante a vida cotidiana, com isso esvaziando de sentido aexperiência da vida de todo dia em favor de algum tipo de análiseabstrata e impessoal, do tipo que reduz os massacres a números eestatísticas, a abstrações impessoais, tratando de tantos milhares oumilhões de mortos. O que seria uma forma de reproduzir o horrordos massacres, deixando de lado e esquecendo o sofrimento e asdores pessoais e particulares, intransferíveis e irredutíveis a qualquerabstração desse tipo. Passando pela configuração dos particulares sensíveis da vida co-tidiana, o artista de primeira linha é capaz de dar forma aos estadosde exceção, mostrando uma espécie de verdade negativa dos mitosque acompanham a expansão do capitalismo a partir da Europa,à frente as trocas mercantis, o progresso triunfante, a ciência e atécnica como ideologia, o domínio cego e a destruição da natureza,a civilização industrial e urbana como parâmetro de que se queriauma “civilização avançada”, o tempo todo desmentida em suas pre-tensões. Mas nem por isso é menos forte e capaz de criar um mundoà sua imagem e semelhanças. Verdade negativa, vale insistir, quese apresentou dentro e fora da Europa. Fora da Europa, verdadenegativa amplamente demonstrada pelo Imperialismo e pelo Colo-nialismo, assim como pelas sequelas de longo prazo deixadas mundoafora. Dentro da Europa, pela ascensão dos sistemas totalitários, quelevaram a “civilização avançada” a extremos de barbárie até entãoimpensáveis. No vértice mais agudo e difícil dessa oscilação, o nazis-mo e o Holocausto, memória incontornável e indesculpável do piorestado de exceção. As narrativas do escritor alemão W.G. Sebald, um conjunto muitoforte e configurado, se dedicam a esses temas, com uma capacidadecrítica e criativa que, de fato, dão notícia da grandeza literária possívelem nossa época, para lembrar aqui o comentário de Susan Sontag. Osleitores de Os emigrantes, Os anéis de Saturno, Vertigem e Austerlitzpor certo não discordariam da avaliação. Também entre os escrito-res contemporâneos, não é descabido lembrar de Roberto Bolaño,escritor chileno muito capaz de representar estados de exceção aomodo forte e configurado. Os leitores de Nocturno de Chile, Amuletoe Estrela distante dificilmente discordariam. Muito conhecidos, o En-saio sobre a cegueira e o Ensaio sobre a lucidez, dão notícia do modoSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 15
  14. 14. alegórico de representar estados de exceção, combinando justamenteficção e ensaio, reflexão crítica e narração, em contextos imaginadospelo autor, sem referências históricas e sociais específicas e definidas,como é o caso de W.G. Sebald e Roberto Bolaño. Para estender umpouco a lista de exemplos mais próximos da representação literária deestados de exceção, é possível lembrar de Libro de Manuel e dos con-tos “Escuela de noche” e “Pesadilla”, todos de Julio Cortázar, situadosem polos por assim dizer opostos, mais adiante comentados. Aindaum exemplo: Nadie, nada, nunca, de Juan José Saer, narrativa das maisdensas e cifradas, muito capaz de ir fundo nos avessos e refrações daexperiência individual e coletiva. Os exemplos apresentados, é fácil notar, carregam em si tanto aevidência das escolhas objetivas quanto o peso das afinidades eleti-vas, sempre menos definíveis, mas nem por isso menos importantes.Desde logo, são escritores que se deslocam e tomam distância de seuscontextos nacionais de origem. Distância e deslocamento que vão depar com os temas fortes da viagem, do exílio, da memória, do traumae do luto. Escritores que se deslocam e tomam distância de seus con-textos nacionais de origem, mas que continuam escrevendo na línguamaterna, e que continuam sendo, caso seja necessário enfatizar, escri-tores que de longe percebem e pensam melhor seus países. Escapamde certos constrangimentos do nacionalismo, da pátria, do localismoestreito, do orgulho vulgar e das cores locais folclóricas, mas não selançam no espaço fútil e estéril do “cidadão do mundo”, vale dizer, docosmopolita vazio e, tantas vezes, pedante e presunçoso. No limite,escritores que se colocam, por escolha ou sob pressão, em uma po-sição que tem sempre algo de extraterritorial. Para dizer melhor, posi-ção distanciada e deslocada, difícil e refratada, que ressalta a profundaestranheza do material configurado pela forma literária, aumentandosua potência crítica e criativa. Uma breve apresentação de cada um desses escritores dá notícia doque foi acima indicado. W.G. Sebald nasceu em Wertach im Allgäu,na Alemanha, em 1944, quase no final da Segunda Guerra. Desde1966 foi professor de literatura na Inglaterra, primeiro em Manches-ter, depois, por muitos anos, em East Anglia. Viveu na Inglaterra atésua morte, em 2001, num acidente de automóvel. Roberto Bolañonasceu em Santiago do Chile, em 1953. Em 1968 foi para o México.16 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  15. 15. Em 1973, foi preso, no Chile, após o golpe militar. Libertado, voltoupara o México, indo em 1977 para a Espanha, onde viveu até 2003,ano de sua morte. José Saramago nasceu em Portugal, na província doRibatejo, em 1922. Viveu a maior parte de sua vida em Portugal e, jáentrando na velhice, deixou seu país e foi com a mulher para Lanzarote,nas Ilhas Canárias, onde morreu. Julio Cortázar nasceu por acasona Bélgica, em 1914, filho de pai diplomata. Desde pequeno viveu naArgentina, onde estudou Letras e foi professor em diversas cidades dointerior do país. Em 1951 se mudou para Paris, vivendo como tradutorda Unesco, depois como escritor reconhecido. Viveu em Paris até suamorte e lá está enterrado, no cemitério de Montparnasse. Juan JoséSaer, filho de imigrantes sírios, nasceu na província Argentina de SantaFé, região dos pampas, em 1937. A partir de 1968 passou a viver naFrança, onde foi professor universitário até sua morte. Sem forçar amão, são escritores contemporâneos, das últimas décadas do séculoXX e começo do XXI, muito diferentes entre si, e que interessam pelavariedade de modos de montar a desordem do mundo que deriva dosestados de exceção. 1 LITERATURA E ESTADOS DE EXCEÇÃO Antes de seguir, vale a pena voltar um pouco no tempo e lem-brar narrativas fundamentais, que marcaram o tratamento literáriodo mesmo problema. A primeira referência, sem dúvida, é a obra deFranz Kafka, pioneiro na representação da vida cotidiana opaca quese altera, configurando o mundo administrado e controlado, de cimaaté embaixo, que se veria em seguida na história da Europa. Na obrade Kafka, O processo é exemplar no modo como cifra a força cega eimpessoal que destrói a vida de um personagem comum, absoluta-mente comum na sua rotina de vida e de trabalho. De ponta a ponta,Joseph K. faz perguntas que nunca são respondidas. Não entendeporque está sendo processado, nem sabe quem o está processando.A cena final, em que é morto como um cão na periferia da cidadeque conhecia tão bem, cujos sinais pareciam para ele perfeitamentecomuns e normais, é exemplo marcante de tantas outras vidas e roti-nas que seriam alteradas e destruídas quando os estados de exceção,totalitários, destruíram a civilização europeia. Lido como romanceSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 17
  16. 16. na linha do fantástico ou do absurdo, O processo perde toda suaforça crítica. Se assim fosse, no final do livro Joseph K. acordaria,digamos, de um pesadelo, e a vida comum de todo dia continuaria.Lido de outro ângulo, como o fez Theodor Adorno, o pesadelo eraa própria realidade, da qual era impossível acordar. Pior, que eraimpossível entender. Uma segunda referência importante é A peste, de Albert Camus.Também trata de um estado de exceção, mais referido e situado queo universo de Kafka. A narrativa se passa em Argel, num momentohistórico definido, com personagens também nomeados e definidos,postos em situação crítica pela chegada dos ratos e da peste. Numprimeiro nível de leitura, se trataria da peste literal que já assolou an-tes a humanidade. Num segundo nível, peste alegórica, que apontapara a barbárie e a regressão totalitária, tendo no vértice os massa-cres da Segunda Guerra. Postos em situação crítica, os personagensdão respostas diferentes à pressão e ao isolamento. Escapa ao alcan-ce desse pequeno estudo, mas vale a pena analisar esses persona-gens e suas respostas à crise, indicando, por exemplo, que a virtudecívica sem alarde, digna diante do desastre, pode vir de um simplesfuncionário público, nada heroico e bastante prosaico. No livro, ficaclaro que a peste existe há séculos, reaparece e pode voltar a apare-cer. Indicador seguro, não de um pessimismo vago e genérico, masde uma visão realista dos processos históricos e sociais. A mostrar,ainda uma vez, como são frágeis os limites que separam civilizaçãoe barbárie. Uma terceira referência fundamental são os livros de Primo Levi, quetratam diretamente do estado de exceção cujo vértice foi o Holocausto.São as narrativas de um sobrevivente do campo de concentração quemontam uma figura forte do mais difícil dos problemas de repre­sentação estética, sem nunca ceder passo à estetização da realidadeviolenta do estado de exceção. Traçam um arco completo: em A tabelaperiódica, a vida do químico de Turim em seu contexto comum ecotidiano, um homem pacato vivendo uma vida regular, sem qualquertraço de heroísmo; em É isso um homem?, a descida ao inferno doLager, do campo de extermínio como forma extrema do mal. Comoem todos os campos de concentração, mal absoluto, inominável, queconvive com as casas bem cuidadas dos alemães, seus jardins, seus18 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  17. 17. jantares em família, suas formas banais de viver ao lado do infernocomo se estivessem em suas cidades na Alemanha, pacatos, ordeiros,metódicos, disciplinados, impessoais, como quem estivesse fazendoapenas mais um trabalho. Fique sempre frisado o alcance crítico dessecontraste, dessa insólita e estranha convivência do banal e do bestial,do trivial e do terrível. Fecha o arco A trégua, livro cujo assunto éo final da guerra, a saída do campo e a volta para casa. Mostra omundo ainda desordenado, uma incrível variedade de personagensque se encontram, que se cruzam, que conversam, que voltam à vida.Segundo o próprio Primo Levi, a do livro foi uma das épocas maisfelizes de sua vida, simbolizando não a guerra e a destruição, mas avolta para casa. Ulisses voltando para casa. Para viver, amar, trabalhar,em seu ambiente familiar e rotineiro, por muitos anos ainda, até certaaltura na fábrica, depois apenas como escritor. Até não suportar o pesoda memória e, já na velhice, se matar. 2 W. G. SEBALD Voltando aos escritores contemporâneos, faço a seguir uma apre-sentação, resumida, do escritor alemão W.G. Sebald. A força crítica ecriativa das narrativas de Sebald indica, sem nenhum exagero, o lugarcentral que ocupa na literatura do final do século XX e início do XXI,a começar por Vertigem – sensações, passando por Os emigrantes eAnéis de Saturno, até chegar a Austerlitz, seu último livro. O métodode composição surpreende e fascina, pelo modo original e o longoalcance das narrativas, altamente digressivas e cifradas, que combinambiografia, memória, anotações variadas, relatos de viagem, ensaios his-tóricos e científicos e um uso constante de imagens: fotos, filmes, de-senhos, esboços e quadros. Nascido no final da Segunda Guerra, numvilarejo distante dos centros urbanos, de família católica, as primeirascidades que Sebald conheceu foram as cidades alemãs destruídas pelaguerra. Pensou que era essa a forma das cidades, imagens de uma vas-ta devastação. Crescendo na Alemanha do pós-guerra, ficou surpresocom a “conspiração de silêncio” que suprimia a guerra, os massacrese o envolvimento dos alemães com o nazismo. Fez sua a tarefa, extremamente difícil, de acertar as contas com essepassado, sempre sabendo dos riscos da empreitada, que podia resultarSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 19
  18. 18. em fracasso. Levando mais longe a composição, Sebald também acer-ta as contas com a verdade negativa da própria formação do mundomoderno: a expansão colonial e imperial da Europa e seus resultadosdestrutivos nos países periféricos que vão sendo tomados e ocupa-dos. Leitor atento de Walter Benjamin, assim como da Teoria Crítica,Sebald traz para suas narrativas uma visão crítica do progresso que pro-move regressão, da dialética de dominação que relaciona civilizaçãoe natureza, da personalidade autoritária, do antissemitismo, da vidaadministrada, da experiência empobrecida, da razão apenas instru-mental e pragmática, colonizando não apenas a vida e o mundo dastrocas mercantis, mas também dando a forma e a lógica da organiza-ção dos massacres. A relação de suas narrativas com Walter Benjaminé forte e marcada. Sebald escreve depois do desastre, depois do “avi-so de incêndio” do crítico judeu-alemão, que via a proximidade dodesas­re e que por esse mesmo desastre foi destruído. Sem dúvida, tmemória e melancolia, luto e trauma, em narrativas que passam longeda estetização banal da violência, justo pela sutileza, precisão, delica-deza e dignidade da composição. É notável como Sebald monta o mosaico da memória através deaproximações sutis e inesperadas, em que os destinos particulares deseres humanos específicos são trazidos para o centro da cena e nãose dissolvem, sem mais, na também precisa e sutil combinação deensaios históricos e científicos, por sua vez combinados com exer-cícios de imaginação criadora dignos de artistas de primeira linha.Por exemplo, as digressões, as recorrências, os acasos, o diálogo comoutros escritores, com a pintura, com a arquitetura, com a paisagem,com a vida nas cidades industriais, sempre vistas a partir da decadên-cia e da ruína, jamais do ponto de vista de algum apogeu histórico doprogresso e do capitalismo triunfante. Quanto ao narrador, temos afigura do viajante, que se desloca, que observa, que anota, que andaà margem, que está sempre deslocado e desconfortável nas cenas esituações. Não é difícil, nem é exagerado, perceber a proximidade,frequente, entre o narrador e o próprio Sebald, um pouco a que-brar o dogma teórico, muito marcado, que separa por inteiro vidae obra, autor e narrador. Sem esquecer que essa aproximação, defato muito evidente, não dá conta dos processos mais elaborados decomposição criados por Sebald, que vão muito além, por certo, de20 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  19. 19. uma simples aproximação entre vida e obra, autor e narrador. Par-tindo dos destinos particulares, dos detalhes carregados de sentido,fazendo digressões cujo sentido a princípio o leitor não acompanha,Sebald também usa na composição de suas narrativas ensaios históri-cos e ensaios científicos que conferem um inegável peso de realidadea seus livros. Muito ao contrário de quem o imaginasse escritor dejogos de linguagem vazios e abstratos, combinatórias elegantes semqualquer teor de verdade digno de nota. Não é nem de longe o caso.Porque a elaboração estética, de primeira, vai sempre fundada numaética rigorosa. Sebald, de modo muito original, renova a tradição do romance,elaborando um narrador-viajante, sempre em movimento, desloca-do e distanciado, através de monólogos dramáticos, que lembramThomas Bernhard, e de uma prosa lírica e elegíaca, daí resultandoseu estilo sutil e digressivo, que jamais aborda diretamente o as-sunto: a própria arquitetura do capitalismo moderno como processoque conduz à catástrofe. Depois da catástrofe, Sebald trabalha comrastros e ruínas, montando o mosaico da memória em linha com ateoria crítica e a imaginação dialética de Walter Benjamin. Na exatacontramão do esquecimento, da mitologia regressiva do progresso,dos aparatos técnicos e produtivos, da larga escala monumental, dotempo e do espaço tornados homogêneos e vazios pela lógica ex-pansiva do capitalismo ao longo da formação do mundo moderno.Sebald desconfia do canto da sereia do progresso que promove re-gressão, da dialética da dominação do mundo natural e humano, dofetichismo técnico e mercantil. Mais que isso, não confia nos sistemas de pensamento fechados etotalizados, sem restos e absolutos, associando esses sistemas dire-tamente à própria lógica da dominação e da destruição. É possívelargumentar que o estilo digressivo e distanciado de Austerlitz, paraficar em apenas um exemplo, traz para a configuração literária a for-ma do ensaio, que trabalha justamente com restos, refugos, ruínas,com o transitório e o passageiro. Vale dizer, os particulares sensíveisda vida cotidiana montando contraste estrutural com a larga escalamonumental. É no contraste da pequena escala dos particulares sen-síveis da vida cotidiana com a larga escala monumental do processohistórico que se pode ler uma linha forte, carregada de sentido,Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 21
  20. 20. indicando uma relação marcante com a imaginação dialéticade Walter Benjamin no modo como monta imagens/conceitos queexplodem o continuum cego e fechado do progresso, através deuma percepção profunda e aguda das sutilezas, dos detalhes, da va-riedade da experiência da vida cotidiana. Escapa, assim, da estetiza-ção da violência e da banalização do mal, com a infinita delicadezade uma escuta incansável e paciente, enfrentando a conspiraçãode silêncio que desde sua juventude na Alemanha o incomodavaprofundamente. 3 ROBERTO BOLAÑO O escritor chileno Roberto Bolaño também desconfiava das fron-teiras e limites nacionais. Não é difícil aproximar seu tipo de revoltadas recusas radicais que gravitam em torno de 1968, dos impulsoscontraculturais vindos da década de 1950, como também não é difí-cil aproximar seu anticapitalismo das revoltas românticas que vieramdo século XIX e foram retomadas pelas vanguardas do começo doséculo XX, por exemplo, o Dadá e o Surrealismo. O Infrarrealismo,como uma espécie de Dadá à mexicana, que criou com alguns ami-gos, ilustra bem esse ponto. Seu tipo de recusa passava com muitaênfase, como era de se esperar, pela própria literatura, sobretudopela poesia, porque mais que tudo Bolaño pode ser consideradopoeta, apesar da sua extensa obra narrativa. Com ironia forte, suacrítica se voltou para a própria posição do escritor e do intelectual,pelos compromissos e pelas carreiras, pelas formas de se estabelecere se conformar e ia longe na ironia contra esse mundinho estabele-cido, instituído, conformado e cooptado. Era, e refiro aqui o títulode um livro de poemas do próprio Bolaño, un perro romântico. Semsombra de purismo estético, Bolaño não se incomodava em com-binar e misturar estilos e tipos diferentes de cultura. Nisso, e nãoapenas nisso, mas também no sentido de sua recusa radical, pode-ria ser aproximado de Julio Cortázar. Resumindo a originalidade deBolaño, Alan Pauls escreveu que se tratava do cruzamento eficaz detradições que nunca tiveram muita simpatia uma pela outra: a aven-tureira e espontânea beatnik com a erudita e sofisticada ficção maisletrada. Vale dizer, uma espécie de combinação de Jack Kerouac e22 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  21. 21. Jorge Luis Borges. Pode ser, mas certamente é bem mais que isso,traduzindo a posição iconoclasta do escritor chileno, que recusa aintegração e não se cansa de fustigar as facilidades e futilidades quepercebia. Foi assim até o final, com o longuíssimo 2666, publicadodepois de sua morte. Duas narrativas de Roberto Bolaño podem ser referidas, quandose trata do assunto deste trabalho, a desordem do mundo produzidapelos estados de exceção: Noturno do Chile e Amuleto. O primeiroé, a meu ver, uma pequena obra-prima. Seu narrador é um padreconservador, ligado ao Opus Dei, crítico literário, pertencente à elitechilena e cúmplice da ditadura de Augusto Pinochet. Às vésperas desua morte, agonizando, entre o delírio e a lucidez, o padre católicoSebastian Urritia Lacroix monta um monólogo febril, passando em re-vista sua vida e, através dela, todo um período da história do Chile.Padre, conservador e católico, Lacroix entra para o mundo das letrasapadrinhado pelo maior crítico do país, o proprietário rural cujo pseu-dônimo é Farewel. De modo estranho e obscuro, é enviado pelo Opus Dei para umamissão, na aparência muito banal, que é estudar a conservação decatedrais antigas contra os dejetos dos pombos. Indo além desse pri-meiro nível de leitura, a peregrinação de Lacroix por sete catedraisda Europa, monta na verdade uma poderosa alegoria da violência,que em seguida se abateria sobre o Chile. É a dureza dos falcõesatacando e destroçando os pombos que o padre chileno aprendea ver, alegoria de uma linha dura de católicos, militares, políticos eintelectuais que criaram o estado de exceção no Chile. Na volta aoChile, Lacroix, já conhecido pelo pseudônimo de Padre Ibacache,se defronta com o período de crise que marca o golpe de Estadoque derruba Allende e dá início à ditadura de Pinochet. É marcanteo modo como Lacroix, que se percebe como um portador da civili-zação em terras bárbaras e atrasadas, símbolo da posição de tantosintelectuais latino-americanos, responde à crise: por contraste com aviolência que ocupa a vida cotidiana, se dedica à leitura e releiturados clássicos gregos, como refúgio “culto e civilizado”. Em um dosmomentos fortes de Noturno do Chile, Padre Ibacache, insuspeitocatólico, membro do Opus Dei, é chamado para dar aulas de marxis-mo à junta militar e ao próprio Pinochet. Morto de medo, temendoSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 23
  22. 22. ser associado ao inimigo, dá várias aulas sobre o materialismo histó-rico para os tiranos. No vértice do livro, a convivência aguda entre civilização e bar-bárie, a convivência estranha e sintomática entre uma pretensa nor-malidade da vida cultural, das letras e das artes, do espírito e doconhecimento, com as câmaras de tortura. A certa altura crucial dolivro, em uma mesma casa, a de Maria Canales, uma mulher comveleidades poéticas, convivem a tertúlia e a tortura, como se essefosse o mais natural dos mundos. Na sala de visitas, em pleno estadode exceção, o convescote literário e poético. No subsolo, a desco-berta acidental de um homem sendo torturado, já que o marido daanfitriã era agente norte-americano, especialista em tortura a serviçoda tirania. Um grande acerto de Noturno do Chile é a escolha do narrador, doponto de vista do narrador, que é o da elite e que a partir dessa posi-ção conduz o relato, o tempo todo acossado por um estranho perso-nagem, denominado “o jovem envelhecido”, que cobra de SebastianUrritia Lacroix seus atos, suas escolhas e seus compromissos com opoder. Há uma divisão da consciência, uma culpa constante, que atra-vessa o livro inteiro. Ao final, o leitor entende que “o jovem envelhe-cido” é o próprio Lacroix, a consciência culpada que cobra, na horada morte, as escolhas, que poderiam ter sido outras; a vida vivida, quepoderia ter sido muito diferente. Tarde demais, é claro. Narrado peloalto, Noturno do Chile apresenta ao leitor o processo histórico e socialdo período, refratado e referido de viés, de modo muito eficaz, já queevita a facilidade de narrar a partir, por exemplo, de um militante daUnidade Popular, coalizão que apoiou Salvador Allende. Em surdina,pelo avesso, refratado, o processo se apresenta ao leitor com a força ea concisão, de fato, das obras-primas. Como segundo exemplo de narrativa de estados de exceção emBolaño, cabe Amuleto, relato situado em outra ruptura radical com avida cotidiana da cidade, suspendendo garantias e direitos pela forçabruta: a ocupação da Universidade Autônoma do México em 1968.No centro do relato, conduzindo a narrativa, uma figura de mulherfora de todos os padrões convencionais: Auxilio Lacouture, que serefugia em um dos banheiros da Faculdade de Filosofia e Letras, láficando durante um mês inteiro. Inspirada na pintora Alcira, Auxilio24 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  23. 23. Lacouture é uma outsider em vários sentidos, fora de toda normaburguesa, alheia a toda convenção, uma imigrante uruguaia, disso-nante, lírica e delirante, que se intitula “mãe de todos os poetas”. Émusa fora de esquadro, desafinando o coro dos contentes, destoan-do da desordem do mundo, na improvável resistência no banheirode uma Universidade ocupada pelos militares. É também o pontode condensação e de inflexão de toda a narrativa, que vai e volta,entrecortada, montando fragmentos da memória. E que é, bem feitasas contas, a elegia trágica da geração derrotada em 1968 em toda aAmérica Latina. O final de Amuleto dá o tom trágico de todo o conjunto: uma ge-ração inteira de jovens que cantam e caminham para o abismo, depeito aberto, com o coração generoso dos idealistas que não medemriscos. E mais belo se torna o trecho final do livro narrado por AuxilioLacouture, a mãe de todos os poetas, vendo os meninos cantando ecaminhando para o abismo, sem nada a ser feito. Ao modo de umahomenagem, e com respeito, cito o final do livro: Assim, pois, os rapazes cruzaram o vale e despencaram no abismo. Um trânsito breve. E seu canto fantasma ou o eco do seu canto fan- tasma, que é como dizer o eco do nada, seguia marchando ao mes- mo passo que eles, que era o passo do destemor e da generosidade, em meus ouvidos. Uma canção apenas audível, um canto de guerra e de amor, porque os meninos sem dúvida se dirigiam para a guerra, mas faziam isso recordando as atitudes teatrais e soberanas do amor. Mas que classe de amor eles puderam conhecer?, pensei quando o vale ficou vazio e só seu canto seguia ressoando em meus ouvidos. O amor a seus pais, o amor, o amor a seus cães e a seus gatos, o amor a seus brinquedos, mas sobretudo o amor que tiveram entre eles, o desejo e o prazer. E embora o canto que escutei falasse da guerra, das façanhas heroicas de uma geração inteira de jovens latino-ame- ricanos sacrificados, eu soube que acima de tudo falava do destemor e dos espelhos, do desejo e do prazer. E esse canto é nosso amuleto (BOLAÑO, 2008, p. 131).Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 25
  24. 24. 4 JOSÉ SARAMAGO No conjunto da obra de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira eEnsaio sobre a lucidez apresentam ao leitor exercícios literários quecombinam relato e reflexão, criando situações e contextos largamen-te imaginados, distantes de referências históricas situadas e precisas.Para tratar, justamente, de estados de exceção, o escritor portuguêsconstrói situações de crise extrema, que alteram a vida cotidiana dacidade e provocam rupturas radicais no contrato social. Embora situ-ados em contextos genéricos e imaginados, os dois ensaios têm umaclara intenção crítica ao combinar relato e reflexão. Desde logo, o quese lê, se percebe e se pensa a partir das narrativas é matéria crítica eimaginativa que gravita sempre em torno do problema do contrato so-cial, da vida coletiva, do modo como a apenas aparente normalidadeda produção e reprodução da vida de todo dia pode ser rompida. Decerto modo, são ensaios de um escritor racionalista, cético, herdeiroda tradição francesa que passa por Voltaire, mas também, não é ocio-so acrescentar, são ensaios de um escritor de esquerda em uma épocade derrota e desencanto. Basta aqui marcar a distância que separaesses dois livros de Levantado do chão, muito anterior, ainda ligado aoNeorrealismo e às lutas dos camponeses. No Ensaio sobre a cegueira, o que cabe desde logo indicar é o recur-so à alegoria como elemento forte da composição da narrativa, já quea cegueira que de súbito acomete os habitantes de uma cidade mo-derna qualquer não é biológica, não é do campo das doenças físicas.Tem outro sentido, de todo alegórico, que arma a narrativa a partir dacena em que o médico não reconhece na cegueira nenhuma doençaconhecida. É uma “cegueira branca”, que precisa ser pensada, caso sequeira entender o sentido do Ensaio sobre a cegueira. A composiçãodo Ensaio parte do contraponto entre a vida comum e cotidiana, degente também muito comum, no espaço que poderia ser o de qual-quer cidade moderna, já que não há referências históricas que situemo contexto da narrativa e a súbita entrada em cena da cegueira altera avida de todos os personagens. Mais adiante, quando a cegueira ganhadimensões de epidemia, o problema põe em movimento o aparato doEstado, que precisa lidar com a emergência. E lida, justamente, pelavia típica de um estado de exceção: os cidadãos cegos são confinados,26 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  25. 25. vigiados, mantidos fora da vida da cidade. Aqui, sem dúvida omodelo é o campo de confinamento, típico do século XX, em váriosmomentos de crise aguda. Confinados e vigiados, presos e segregados,os cidadãos cegos experimentam uma espécie de regressão à barbárie,reduzidos quase que a uma horda primitiva, o que se pode entendercomo um avesso bem negativo do mal-estar na civilização, como selê em Freud. Rompido o contrato social e as garantias básicas da vida civil, oscidadãos cegos – indefesos, isolados, vigiados e punidos pela polícia –são submetidos à degradação, à sujeira, à fome, ao abuso, quando umgrupo de cegos, pela via da força bruta, controla a comida e o sexo.Regressão que pode ser lida como uma forma de descida ao inferno,em pleno contexto de uma cidade moderna, que não é jamais preci-sada e identificada, mas tem como referência, inescapável, os extre-mos negativos do século XX, o breve século que combinou as maisaltas esperanças – científicas, tecnológicas, políticas, culturais – com aspiores formas de regressão totalitária, para lembrar Eric Hobsbawn. Para a condução da narrativa, é central a posição da mulher do mé-dico, único personagem que não cega, a quem cabe guiar e conduziros que cegaram. Perguntada sobre o estranho privilégio de não tercegado, em trecho marcante do livro, ela responde que não cegoupara “testemunhar o inominável”. O passo seguinte do Ensaio sobrea cegueira é a volta à cidade, ficando para trás o campo de confina-mento. Mas não se trata de um movimento de ascese e redenção, aomodo idealista, resolvendo a crise pelo caminho fácil do final feliz. Oscidadãos cegos passam então por várias praças e por uma igreja, cenascujo sentido é central para o entendimento crítico do Ensaio. A praçaonde se vendem milagres de todo tipo, a lembrar o bazar místico ede autoajuda de nossa época, mas não apenas dela. A praça onde sevendem falsas promessas de felicidade, ligadas ao progresso, à técnica,às maravilhas da vida integrada às trocas mercantis. A igreja com asestátuas de olhos vendados, pondo em pânico os fiéis, que de repentese percebem sem o amparo, ilusório mas necessário, da religião, pro-blema de fundo também analisado por Freud. Passam também, em cenas muito sutis e delicadas, por lugares mar-cados pela memória humana. A moça prostituta deixa uma mechade cabelo na porta da casa dos pais para que a reconheçam, casoSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 27
  26. 26. ainda estejam vivos e voltem para casa. Um escritor cego continuaa escrever, compondo um estranho palimpsesto, sua maneira de re-sistir à regressão e manter viva a força da civilização e da cultura. Noespaço protegido de uma casa limpa e clara, a mulher do médico lêpara os cegos, marcando um vivo contraste com o confinamento e adegradação a que foram submetidos. É possível perceber, ao longode todo o Ensaio sobre a cegueira, uma espécie constante de oscila-ção dialética, gestos e cenas humanos em meio à desumanidade doprocesso. Oscilação, parece-me, boa para se entender o movimentogeral. Ainda aqui, a força dos detalhes significativos, dos particularessensíveis, versus a força cega do aparato do Estado e seus mecanismosde controle e repressão. No final do livro, os cegos voltam a enxergar a cidade, que lá está,bem diante de seus olhos, mas de um modo muito peculiar e refletido,que o narrador indica: “cegos estavam e cegos continuaram”. Qual osentido dessa cegueira que não termina quando os olhos voltam a en-xergar? Entra aqui, é certo, o sentido principal do recurso à alegoria noEnsaio sobre a cegueira. Alegoria que pode ser entendida como críticaà época em que vivemos, cega diante da necessidade de pensar a polisem profundidade e refazer o contrato social marcado pela injustiça epela violência. Por extensão, cega diante da profusão de sinais sociais àsolta, literais e virtuais, regidos o tempo todo pela lógica do fetiche damercadoria. Não seria descabido ainda lembrar, lógica de coisas con-versando com outras coisas, num mundo que os humanos não reco-nhecem como seu, no qual se sentem pouco à vontade. Pode ser isso,mas também caberia, quem sabe, a seguinte crítica: o recurso à alegoriageneraliza demais a narrativa do Ensaio, perdendo de vista a força es-pecífica e contraditória dos processos sociais e históricos. Se assim for,enfraquece a própria crítica, generalizada, de fundo moralista, mas in-capaz de dar conta da complexidade do processo em curso. Problemaque se torna mais claro quando se contrasta, por exemplo, os ensaios deSaramago e as narrativas de Sebald, mais complexas e elaboradas, poresse motivo muito mais capazes de dar conta da densidade e da dificul-dade da matéria social e histórica configurada pela forma literária. O Ensaio sobre a lucidez também combina relato e reflexão, tendono vértice o problema do contrato social e da vida coletiva. Ao contrá-rio do Ensaio sobre a cegueira, não faz uso da alegoria como princípio28 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  27. 27. forte de construção da narrativa. Mas também simula, para seus pro-pósitos, uma situação de crise na vida comum e cotidiana: certo dia,em mais uma eleição, a maior parte dos cidadãos, sem combinaçãoprévia de qualquer tipo, vota em branco. Apenas isto: uma esmagado-ra maioria de eleitores saturados dos simulacros da política formal votaem branco. É esse o ponto de partida e de inflexão do livro. Não hánada de ilegal ou de subversivo no voto branco, pois se trata de umaescolha elementar da vida social democrática e do contrato social dosestados modernos em que há eleições. Se quase oitenta por cento doseleitores votam em branco, está criado um impasse. Dentro das regrasdo jogo, mas um impasse. No mínimo, matéria para reflexão. A reaçãodo aparato do Estado, no entanto, indica uma percepção completa-mente diversa da situação. É como se um jogo de cartas marcadas,cheio de fundos falsos, de repente viesse à tona. O que se lê, na sequência do Ensaio sobre a lucidez, é uma respos-ta agressiva. Em nossa época, estamos acostumados, todos os dias, aassociar terrorismo a pequenos grupos extremistas, desta ou daquelaposição política e religiosa, com uma força real muitas vezes menorque a que os Estados lhes atribuem. A resposta que se lê no livro deSaramago é de tipo bem diverso: é uma reação terrorista, mas de ter-rorismo do próprio Estado, que não aceita a formação de uma amplamaioria negativa. Não aceita e abandona a cidade, imaginando que seinstalaria o caos na vida cotidiana. Manobra com alvo certo: instaladoo caos na vida cotidiana, os cidadãos, arrependidos, pediriam a voltade seus senhores e protetores, para estabelecer de novo a ordem. Bemao contrário, a vida de todo dia segue, não há ondas de saques, de es-tupros, de incêndios e outras barbaridades, e os cidadãos se mostramcapazes de organizar o essencial para que a vida coletiva continue,sem maiores atropelos. É uma primeira reflexão a ser pensada comcuidado: o mito do Estado onipotente, onipresente, provedor e pro-tetor, indispensável, faz logo água, mostrando que outras formas devida e de organização da sociedade são possíveis. Vale dizer, formassolidárias e democráticas de associação coletiva, contratos sociais detipo horizontal, não as hierarquias fossilizadas e falsas dos simulacrosde democracia que se conhecem até a saturação. Por certo que o aparato do Estado terrorista tenta sempre e o tem-po todo associar os movimentos que o ameaçam à anarquia, comoSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 29
  28. 28. sinônimo exato de bagunça, baderna, confusão e desordem. No en-tanto, é interessante notar, um princípio fundamental e positivo dopensamento anarquista é justamente o contrário disso: as organiza-ções horizontais, solidárias, sem hierarquias, sem Estado onipotente,a partir de baixo, justo na vida mais comum e cotidiana. Claro queesse possível histórico e social precisa ser o tempo todo minado ecombatido, porque desmonta o mito do Estado e todo o aparato bu-rocrático, político e militar que o sustenta. No caso do Ensaio sobrea lucidez, não será diferente. Toda a tensão da narrativa se concentranesse contraponto forte, anteriormente indicado, criando um hiatoradical de representação política. Não havendo inimigos, é precisocriar um para justificar a repressão e a necessidade do Estado forte. Alógica do terrorismo de Estado, é claro, segue este caminho: inventauma conspiração, um grupo organizado que, como todo grupo po-lítico organizado, precisa ter um líder bem identificado. Não há talgrupo, nem tal líder, mas as forças da polícia política se encarregamda tarefa. Unindo as pontas de seus dois ensaios, o da cegueira e o da lu-cidez, Saramago coloca justamente a mulher do médico, a mesmaque não cegara no livro anterior, como protagonista. Sem o recursoà alegoria, já que voto em branco, ao contrário de cegueira branca,tem fundamento real, a mulher do médico é apenas uma cidadãcomum vivendo sua vida. Não tem nada a ver com qualquer tra-ma ou conspiração. Posta no ângulo agudo do estado de exceção,ela é espionada, investigada, delatada, perseguida e acossada. Acena final do livro, lírica e difícil, dá mais uma volta no parafuso doceticismo de Saramago. Um agente da polícia política do Estado,com arma de precisão e longo alcance, mata a mulher do médi-co, ao mesmo tempo em que um pássaro se assusta e levanta voo.Símbolo e síntese de todo o Ensaio, seca e direta, a cena é um contra-ponto difícil a uma possível mudança coletiva na vida social, marcan-do, pela força direta do assassinato político, o poder do Estado e suacapacidade de se perpetuar. Por certo um final cético e desencanta-do. A seu modo, realista. Na contramão da época em que vivemos,onde se vê Estados fortes e hegemônicos recorrendo à existência degrupos terroristas, ampliando largamente sua existência e alcance,quando não francamente forjando tais grupos de opositores, plantando30 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  29. 29. no imaginário de massa as bases para consensos forjados cujosresultados são bem conhecidos: a invasão arbitrária, a destruição, aguerra civil, o massacre, levados aos países que precisam ser trazidosde volta para o mundo “livre” e “democrático”. Atualiza a novilinguaque já se usava no 1984, de George Orwell, onde as palavras signi-ficam sempre algo muito diferente do que parecem significar. Assimcomo dá razão aos argumentos críticos de Avram Noam Chomsky,crítico rigoroso dos consensos sociais fabricados e manipulados. In-ventado o inimigo, os meios justificam os fins. E o massacre da popu-lação civil se justifica. No extremo maniqueísta do problema, afinal,se o Bem está combatendo o Mal, todos os desastres e horrores daguerra são válidos. 5 JULIO CORTÁZAR No conjunto da obra de Cortázar, o Libro de Manuel ocupa umlugar difícil. Sem exagero, é possível dizer que nessa narrativa o es-critor argentino fez uma aposta de alto risco, com plena consciênciado que fazia e das reações que poderia desencadear. Ao contráriodo escritor famoso que apenas administra sua obra e seu patrimô-nio, o valor do seu nome já firmado e consolidado, na década de1970, em meio ao estado de exceção duríssimo criado pela dita-dura militar Argentina, Cortázar se arrisca escrevendo e publicandoo Libro de Manuel. De fato, as críticas vieram, várias vezes muitoduras, algumas vezes de uma flagrante injustiça. E vieram de doisângulos muito definidos. Numa ponta, os admiradores de Cortázarcomo grande escritor ligado ao fantástico, à construção da estranhe-za a partir da mais comum vida cotidiana, linha de força que teriasido desperdiçada pela intenção de narrar e participar diretamentede um estado de exceção, da resistência armada ao regime. Na ou-tra ponta, críticos muito politizados, de esquerda, que consideraramo livro um lamentável equívoco, até certo ponto um exercício fútil,incapaz de dar conta da dureza do processo em curso na Argenti-na, a secura do estado de exceção, a realidade da própria ditaduramilitar e dos grupos armados. É como se fossem, essas duas linhasfortes, inconciliáveis, sobretudo no tratamento de um estado radicalSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 31
  30. 30. de exceção. O que criaria um problema quase insolúvel na própriaestrutura da narrativa, tentando combinar princípios de construçãoincompatíveis, como que se desautorizando mutuamente. Em re-sumo, como se Cortázar lançasse Rayuela, seu Jogo da Amarelinha,com todas as suas inquietações e experimentações, no contexto rea­lista da ditadura e da luta armada. Logo na abertura do livro, Cortázar mostra como se dá conta doproblema, nos seguintes termos: Por razones obvias habré sido el primero em descobrir que este libro no solamente no parece lo que quiere ser sino que con frecuencia parece lo que no quiere, y asi los propugnadores de la realidad en lite- ratura lo van a encontrar más bien fantástico, mientras que los encara- mados en la literatura de ficción deplorarán su deliberado contubernio con la historia de nuestros dias... (CORTÁZAR, 1973, p. 5). O destinatário do polêmico livro é um bebê, para quem um grupode militantes latino-americanos exilados em Paris monta uma espéciede álbum para o futuro. Nele se pode ler, desde logo, a esperançade um vir a ser, de um mundo diferente daquele, regido pela vio-lência. Fiel a si mesmo e a seus empenhos, Cortázar tenta fazer aponte entre as duas principais linhas de força de sua vida e de suatrajetória como escritor. De um lado, a herança da revolta romântica,que remonta a Rimbaud e ao lema il faut changer la vie. De outro, aherança revolucionária, cuja referência é Marx e “a necessidade demudar o mundo”. A tradição da revolta romântica remete mesmo a Rimbaud, e nãoapenas a ele, passando depois pelas vanguardas do começo do séculoXX, chegando com força ao Maio de 1968 na França, a Paris, ondeCortázar viveu até sua morte. O espírito libertário e antidogmáticodessa tradição encontra no escritor argentino um representante dosmais lúcidos e dotados, o que se pode ler em muitos momentos de suaobra. No vértice da posição está uma ideia radical de liberdade, asso-ciada a um inconformismo em sentido forte, que não se acomoda aoexistente e não aceita compromissos e comissões, a pretexto de prag-matismo. Aqui, é possível lembrar Walter Benjamin, quando percebeuno Surrealismo “o último instantâneo da inteligência europeia”, porque32 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  31. 31. apresentava uma “ideia radical de liberdade”. Valha o exemplo doSurrealismo para lembrar como nunca foi simples a aproximação entrerevolta romântica e revolução organizada. Ao tentar aproximar suaestética da política da época, essa vanguarda bateu de frente com odogmatismo stalinista. O Libro de Manuel, eis a hipótese, ensaia e aposta na aproximaçãojustamente entre a herança das revoltas românticas e a organizaçãorevolucionária da luta política, no contexto mais que difícil de umestado de exceção. Não era, sem dúvida, uma aposta pequena. Mas éevidente que, para Cortázar, era a aposta fundamental: a Revolução,para ser bem-sucedida, não poderia se enrijecer, perder seu impulsoradical de mudança, fechando-se em posições duras e dogmáticas,mas precisaria sempre do impulso libertário, da afirmação constantede uma ideia e uma prática inseparáveis da liberdade. Pode-se per-ceber, talvez e desde logo, o que há de idealismo romântico na posi-ção quando se faz apenas uma breve e objetiva consideração sobreo mundo moderno e a história do século XX. Mas não se deve nuncaesquecer que foram os recuos autoritários e contrarrevolucionáriosque jogaram na lata de lixo da história as cem flores que poderiam terbrotado e mudado a história do mundo. Quando se dizia “matem ossonhos, sejam realistas”, faltava sempre acrescentar: bem-vindos aovosso velho modelo, o pesadelo. Na fortuna crítica de Cortázar, é comum encontrar quem o con-sidere um contista de primeira linha, mas um romancista de menorenvergadura. Libro de Manuel seria Rayuela, “o jogo da amarelinha”trazido diretamente para a luta armada no contexto de um estadode exceção. E seria um experimento falhado, apesar de suas ótimasintenções. O escritor argentino gostava dos livros-montagem, dos li-vros-almanaque, bastando lembrar aqui a inusitada combinação demateriais que se leem nos volumes de Ultimo round e La vuelta al diaen ochenta mundos. Livros que se leem e releem com muito prazer eadmiração, dada a liberdade e a variedade da combinação de mate-riais. O problema crítico, no entanto, é a representação literária de umestado de exceção. Sem levar adiante o debate, que tomaria muitotempo e escaparia dos limites deste pequeno estudo, há na obra deCortázar dois exemplos bons, e não apenas dois, de como representarestados de exceção fazendo uso da forma breve e concisa do conto:Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 33
  32. 32. “Pesadilla” e “Escuela de noche”. De fato, a leitura desses contos pa-rece dar razão aos críticos do Libro de Manuel. Em poucas páginas,muito cifradas e carregadas de sentido, sem se alongar e sem se ex-plicar, Cortázar dá forma ao mais íntimo dos estados de exceção, pormeio de um efeito estético poderoso, que pega o leitor de surpresa edeixa um largo campo para imaginação de tudo que cerca o medo, aviolência, a covardia, a crueldade humana, percebida do ângulo maisíntimo e sutil da vida cotidiana. O pesadelo a que alude o primeiroconto, na aparência o estado de coma de uma mulher jovem, é defato o pesadelo da história que invade a casa da família a golpes debota e de fuzis, enquanto lá fora se ouvem tiros e gritos. A visita queos meninos fazem à escola, de noite, na aparência uma peraltice semconsequências, vai longe e fundo, de modo premonitório, no ovo daserpente que já rondava a Argentina, muito antes do golpe militar edos massacres que começam na década de 1970. Sem o compromissode se explicar, de se alongar, de se justificar, que se percebe no Librode Manuel, apesar de seus acertos, os dois contos acertam no alvocom incrível precisão. 6 JUAN JOSÉ SAER Para Ricardo Piglia, Juan José Saer é o maior escritor argentino con-temporâneo. Para acrescentar em seguida, escapando da armadilhanacionalista, regionalista e localista, escritor de primeira linha, quepode ser situado, com justiça, no nível de escritores europeus comoThomas Bernhard e W.G. Sebald. O leitor de Saer não tem motivospara discordar da avaliação de Piglia. De fato, trata-se de um escritorde primeira linha. Filho de imigrantes sírios, Saer nasceu em Santa Fé, no meio dospampas, às margens do Rio Paraná, no armazém do pai, em junhode 1937. Radicou-se na França, onde foi professor universitário pormuitos anos, até sua morte, em Paris. Escreveu sempre em espanhol,vivendo os contrastes e confrontos do artista que muda de país e decontinente, sem nunca perder de vista o lugar de onde veio. Fique,como exemplo saliente, o peso que tem a vastidão dos pampas emsuas narrativas, configurando um modo denso e cerrado de narrar,fazendo da paisagem, da vastidão e da geografia extensa e plana34 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  33. 33. personagens importantes, contribuindo muito para a estranheza, adensidade e a opacidade que se leem em seus relatos. Não é dife-rente no romance que comento a seguir, de interesse a este pequenoestudo. Em Nadie, nada, nunca a vastidão e a presença opressiva dospampas montam um efeito estético poderoso, associado à espera,ao medo, ao misterioso assassinato de cavalos, no contexto de umaditadura militar que em nenhum ponto da narrativa é abordada di-retamente. Bem ao contrário, a presença opressiva da repressão estácifrada e, por assim dizer, escondida nos níveis mais evidentes dospersonagens e situações da narrativa. No posfácio da edição brasileira, Bernardo Carvalho nota que, emSaer, a força dos pampas é centrípeta, uma espécie de limbo, ondeo calor e a gravidade subjugam os corpos e os jogam para dentroda natureza. É assim, mas cabe acrescentar que geografia não édestino, interessando muito pensar a relação entre geografia física,sociedade e história. Na obra de Saer, um bom exemplo é El riosin orillas, cujo assunto é justamente a civilização que se forma àsmargens do Rio da Prata e se estende pelos pampas em linha reta,tendo como vértice a cidade de Buenos Aires. Desde os primórdiosda colonização até o presente, uma formação geográfica, social, his-tórica e cultural muito marcada, que inclui o Uruguai, marcandouma região cultural, uma espécie de comarca, que vai além dasfronteiras nacionais. É certo que essa posição tem peso na obra de Juan José Saer. Mastambém é certo que o escritor argentino radicado em Paris evitou,com toda a ênfase, ser absorvido por qualquer clichê que o vinculassea uma ideia estreita do que deveria ser uma típica literatura argen-tina. Indo além, refutou a ideia de uma literatura latino-americanacomo conceito unificado, que desse conta da variedade de regiões esituações dos diversos países do nosso Continente. Evitava, assim, serfixado e reduzido a algum tipo de cor local, de lugar comum turístico,de visão idealizada da nossa realidade, mesmo quando lugar comummais ou menos culto, para consumo de letrados daqui, da Europa edos Estados Unidos. Seu projeto estético foi muito além dessas deter-minações limitadoras. Levando longe o alcance de suas indagações,o projeto estético de Saer deriva sua força do modo como enfrenta opróprio problema da representação, os limites e impasses que se apre-Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 35
  34. 34. sentam para o escritor ao tentar dar forma à realidade. Ou seja, pro-blema com o qual todos os escritores de talento se defrontam, sejamdaqui ou de qualquer outro país. Na verdade, precisam se confrontar,ao preço de caírem na diluição, na abordagem ingênua dos assuntos emateriais abordados, na redução a priori do alcance de sua literatura,como forma crítica e criativa. Daí que não seja exagerada a aproximação de Saer a escritores doporte de Sebald e Bernhard. Também para o escritor argentino a dis-tância e o deslocamento foram partes importantes de um projeto es-tético, inseparável, por sua vez, de um projeto crítico. Desse ângulo, oproblema mais constante foi evitar a evidência do material histórico esocial, pela escolha de modos muito mediados e elaborados para tra-tar do peso da história e da vida política. Em Nadie, nada, nunca issopode ser percebido com clareza: o estranho assassinato dos cavalos, oclima opressivo da narrativa, quase de romance policial, a espera an-gustiada, a noite em que o carro dos sequestradores chega ao Paraná,são modos muito fortes e mediados de dar forma ao clima opressivode um estado de exceção. Assim considerado, o problema crítico passa pelo uso da alegoriano relato, pois não é difícil perceber que o assassinato dos cavalos,de forma cruel e sangrenta, impiedosa e seca, não é apenas literal,remetendo mais longe e mais fundo, ao próprio clima de massacree perseguição, esse sim situado no plano da vida social e históricada desordem do mundo criada pelo estado de exceção. Nesse passoda análise, cabe considerar que, ao tratar desse tipo de problema,há uma divergência de fundo, que merece consideração. Para algunscríticos, de pendor universalista, Nadie, nada, nunca é um comentáriofilosófico, de tipo existencialista, acerca do mal-estar no mundo, umdesconforto profundo, absorvido e ampliado pela força da paisagem,da natureza física, levando a uma espécie de consideração metafísica.É um ângulo de leitura que o livro de Saer pode sugerir e sustentar.Mas também é possível pensar o contexto muito preciso em que sesitua a narrativa, a força e a violência do que se passa, dando a formae o sentido da alegoria que se lê. Por essa via, mais que a representa-ção de tipo trágico da existência humana emparedada e limitada, olivro de Saer cifra e dá forma à violência histórica e social. De modomuito acertado, porque evita sempre o tratamento direito da matéria36 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  35. 35. histórica e social, daí resultando uma potência crítica e criadora delongo alcance. Para levar um pouco adiante a análise, há interesse em contras-tar o modo de narrar de Juan José Saer em Nadie, nada, nunca e ode Julio Cortázar em Libro de Manuel. No plano mais imediato dabiografia, ambos foram escritores argentinos que se radicaram naFrança, não por motivos de perseguição política, mas por escolhapessoal, mantida até o final da vida. Saer e Cortázar nunca se inte-graram, de modo conformista, à França e a Paris, como se tivessemaportado, deslumbrados, à própria civilização. Tiveram sempre mui-ta consciência de sua posição como escritores estrangeiros vivendona França, percebendo muito bem as ilusões e armadilhas colocadaspor essa posição, deslocada e distanciada, compondo um campo deforça que atravessa suas vidas e suas obras. No que diz respeito àrelação entre estética e política, há uma divergência de fundo. ParaSaer, o modo direto e explícito como Cortázar trouxe seus empenhospolíticos para a forma mesma de sua literatura era um equívoco, ummodo fraco de lidar com a densidade do material, prejudicando aforça da configuração estética das narrativas, como, por exemplo, noLibro de Manuel. Vale acrescentar que Saer também estava situadono campo crítico da esquerda, embora numa posição diferente dadefendida por Cortázar. Em resumo, o que estava em jogo era mes-mo um problema crítico forte e difícil: a própria representação darealidade de estados de exceção, de alterações radicais na vida co-tidiana. Divergência que não se confunde com uma crítica vinda docampo conservador, que considera a forma estética uma espécie decastelo da pureza, que precisa ser defendido, a todo custo, da sujeirado mundo e das impurezas do branco. O que equivale a ter umavisão elitista, fechada e estetizante da arte e da literatura. Algunscríticos de Cortázar, que não gostaram do Libro de Manuel, podemser situados nessa posição. Não é, em nenhum nível, o caso de Saer,que considerava Cortázar um contista de primeira linha, mas não umbom romancista. Analisando a obra de Saer, Beatriz Sarlo nota que suas obras dia-logam entre si, havendo uma constante recorrência de situações ede personagens, montando um cenário que permitiria uma leitura deconjunto das narrativas. É o caso, para ficar no exemplo que aquiSinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 37
  36. 36. mais interessa, da noite em que o carro dos sequestradores chega àcosta do Paraná, que se lê em Nadie, nada, nunca, de 1980, mas quetambém se lê em Glosa e a pesquisa, de 1994. Aproveitando maisuma indicação crítica de Beatriz Sarlo, é notável como a poesia estápresente nas narrativas de Saer. Não ao modo de um lirismo esteti-zante, efeitista e fácil, mas como princípio de construção. A leituraem voz alta de trechos de Nadie, nada, nunca torna bem perceptívelessa força lírica, concentrada e bem resolvida. Para concluir, tambémé interessante a aproximação que Sarlo faz entre Saer e Musil, no quediz respeito à construção de diálogos, que se passam entre a conside-ração séria do irrelevante e a perspectiva irônica sobre o que se intuiverdadeiramente sério. CONSIDERAÇÕES FINAIS O resumo crítico que se acaba de ler tratou do problema crítico darepresentação estética dos estados de exceção. Quando o artista, nocaso escritores, acerta o tom, passa longe da estetização da violênciae consegue, como que andando na corda bamba, narrar o inenarrá-vel, representar o irrepresentável, dando forma sensível e inteligívelà matéria densa e difícil de que são feitos os estados de exceção. E ofaz partindo da vida cotidiana, dos detalhes significativos, dos parti-culares sensíveis, mesmo quando combinados com os ângulos maisamplos do processo histórico e social. Ao modo dialético, o olharatento para os particulares sensíveis traz à tona a verdade negativado todo, que é falso, assim como o tratamento mais amplo do pro-cesso histórico e social não se desliga nem se desvincula dos mesmosparticulares sensíveis. É possível dizer que os escritores de que tratoueste pequeno estudo, em graus diferentes, acertaram o tom ético eestético na abordagem dos estados de exceção. A diferença de grau,é certo, importa, porque algumas narrativas, como as de Sebald eBolaño, atingem um nível complexo de configuração literária, en-quanto outras narrativas, como as de Saramago, embora não desa-finem, ficam num estágio de menor complexidade no processo deconfiguração dos estados de exceção. Também pode haver diferen-ças de grau na obra de um mesmo escritor. É o caso de Julio Cortázar,romancista e contista, abordado nas páginas anteriores, dando notícia38 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  37. 37. de uma controvérsia que tem peso e interessa. No extremo oposto,ficam as narrativas que não acertam o tom, estetizam a violência,banalizam o mal e tornam desfrutável o sofrimento humano queacompanha todos os estados de exceção, todas as rupturas radicaiscom a vida comum e cotidiana, todas as oscilações violentas entrecivilização e barbárie. É assunto para outro estudo.Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 39
  38. 38. REFERÊNCIAS1 LITERÁRIAS:BOLAÑO, Roberto. Amuleto. México: Editorial Anagrama, 2006.BOLAÑO, Roberto. Amuleto. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Cia.das Letras, 2008.BOLAÑO, Roberto. Os detetives selvagens. Tradução de Eduardo Brandão.São Paulo: Cia. das Letras, 2006.BOLAÑO, Roberto. Los detectives selvages. Barcelona: Santillana Ediciones,2002.BOLAÑO, Roberto. Nocturno de Chile. México: Editorial Anagrama, 1999.BOLAÑO, Roberto. Noturno do Chile. Tradução de Eduardo Brandão. SãoPaulo: Cia. das Letras, 2004.CAMUS, Albert. La peste. Paris: Gallimard, 2008.CAMUS, Albert. A peste. Tradução de Valerie Rumjanek. 11. ed. Rio de Janei-ro: Record, 1998.CONRAD, Joseph. Heart of darkness. New York: Dover Pub., 1990.CORTAZAR, Julio. Alguien que anda por ahí. Buenos Aires: Alfaguara,1977.CORTÁZAR, Julio. Cuentos completos, 1. Buenos Aires: Alfaguara, 1994.CORTÁZAR, Julio. Cuentos completos, 2. Buenos Aires: Alfaguara, 1994.CORTÁZAR, Julio. Deshoras. Buenos Aires: Alfaguara, 1983.CORTÁZAR, Julio. Final del juego. Buenos Aires: Editorial Sudamericana,1964.CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Tradução de Fernando de CastroFerro. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.CORTÁZAR, Julio. Libro de Manuel. Barcelona: Editorial Bruguera, 1980.40 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  39. 39. CORTÁZAR, Julio. Rayuela. 2. ed. Madrid: Allca XX Colección Archivos,1996.LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. Tradução de Luiz Sérgio Hen-riques. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004LEVI, Primo. C’è questo è un uomo. Torino: Einaudi, 1976.LEVI, Primo. É isto um homem? Tradução de Luigi Del Re. Rio de Janeiro:Rocco, 1988.LEVI, Primo. La tregua. 10. ed. Torino: Einaudi, 1963.LEVI, Primo. A trégua. Tradução M. Lucchesi. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Brasi-liense, 1988.KAFKA, Franz. O veredicto: na colônia penal. Tradução de Modesto Carone.2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.SAER, Juan José. Glosa. Buenos Aires: Seix Barral, 1984.SAER, Juan José. Lugar. Buenos Aires: Seix Barral, 2000.SAER, Juan José. Nadie, nada, nunca. México: Siglo XXI, 1980.SAER, Juan José. Ninguém, nada, nunca. Tradução de Bernardo Carvalho.São Paulo: Cia. das Letras, 1997.SAER, Juan José. As nuvens. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Cia. dasLetras, 2008.SAER, Juan José. La pesquisa. Buenos Aires: Seix Barral, 1994.SAER, Juan José. A pesquisa. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cia.das Letras, 1999.SAER, Juan José. Responso. Buenos Aires: Editorial Planeta, 1976.SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo: Cia. das Letras, 2000SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.SARAMAGO, José. Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.SARAMAGO, José. Todos os nomes. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 41
  40. 40. SEBALD, W. G. Os anéis de Saturno. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro:Record, 2002.SEBALD, W. G. Austerlitz. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Cia.das Letras, 2008.SEBALD, W.G. Austerlitz. Translated by Anthea Bell. New York: RandomHouse, Modern Library, 1996.SEBALD, W. G. Campo Santo. Traducción de Miguel Sáenz. Barcelona: Edi-torial Anagrama, 2007.SEBALD, W. G. Os emigrantes. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro: Record,2002.SEBALD, W. G. Os emigrantes. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo:Cia. das Letras, 2009.SEBALD, W. G. The emigrants. Translated by Michael Hulse. New York: NewDirections, 1996.SEBALD, W. G. On the natural history of destruction. Translated by AntheaBell. New York: Random House, Modern Library, 1999.SEBALD, W. G. The rings of Saturn: an English pilgrimage. Translated by Mi-chael Hulse. New York: Random House, Modern Library, 1998.SEBALD, W. G. Vertigem. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Cia.das Letras, 2008.SEBALD, W. G. Vertigo. Translated by Michael Hulse. New York: New Direc-tions, 1996.SEBALD, W.G. After nature. Translated by Michael Hulse. New York: RandomHouse, Modern Library, 1998.2 CRÍTICAS:ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. Tradução de Jorge de Almeida.São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. La dialectique de la raison.Paris: Gallimard, 1974.42 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011
  41. 41. AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Hori-zonte: Ed. UFMG; Humanitas, 2004.AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2003.ARENDT, Hannah. Eichmann à Jérusalem: rapport sur la banalité du mal.Paris: Gallimard, 1966.ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2009.AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura oci-dental. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1987.BENJAMIN, Walter. Angelus novus: saggi i frammenti. Torino: Einaudi, 1971.BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: un poète lyrique a l’apogée du capi-talisme. Paris: Payot, 1982.BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. SãoPaulo: Brasiliense, 1985.BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987.CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo e comentários sobre a socieda-de do espetáculo. São Paulo: Contraponto, 1997.DEBORD, Guy. La societé du spectacle. Paris: Gallimard, 1992.FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1997.FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). SãoPaulo: Cia. das Letras, 1995.LOWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das tesesSobre o conceito de história. São Paulo: Boitempo, 2005.Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 10-43 | janeiro > abril 2011 43
  42. 42. ESCUTA, ARTE ESOCIEDADE A PARTIR DOMÚSICO ENFURECIDODaniel Belquer44 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011
  43. 43. Este artigo levanta alguns tópicos oriundos de campos distintos, mas que serelacionam por trazerem como epicentro a questão da sonoridade, da escuta.Com a premissa de que a escuta é muito desfavorecida em nossa cultura emi-nentemente visual, busca-se “trazer à luz” uma série de estudos e pensamentosque fazem parte de correntes que não só tratam do tema em si, mas que pos-suem um tipo distinto de raciocínio mais conduzido pela auralidade.Palavras-chave: auralidade, escuta, artes, visualidade, sociedadeThis article raises some issues emerging from distinct fields but that relate toeach other by having the issue of sound/listening at the heart of the analysis.Starting with the premise that listening is very much out of favor in our excee-dingly visual culture, it seeks to “shed light” on a series of studies and lines ofthought that not only deal with the subject but have a distinct line of reasoningguided more strongly by aurality.Keywords: aurality, listening, arts, visuality, societySinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011 45
  44. 44. INTRODUÇÃO A escuta está impregnada de ordenações sociais. O processo derecepção do som, sua filtragem e decodificação, relaciona-se direta-mente com os mecanismos construídos dentro de um contexto huma-no onde o indivíduo se insere. Mas o que é som? Pela física, som é o resultado de complexos pa-drões de choque entre moléculas que são captados pelos ouvidos.Essa definição, no entanto, não vai ser levada adiante aqui, uma vezque não leva em conta a interação sonora humana, o processo derecepção em sua fenomenologia. Pode-se entender o som como umaconexão entre a vibração das moléculas e a percepção. Então, paraefeito deste estudo, som é o resultado da percepção auditiva, seja elafeita exclusivamente pelo ouvido ou pelo corpo por meio da sensaçãotátil (principalmente no caso das frequências graves). Numa cultura em que se debate frequentemente a inundação deimagens cada vez mais predominante, sentimo-nos atraídos a ques-tionar o papel do som dentro desse universo imagético. Por que,apesar de falarmos em cultura audiovisual, a primeira parte do ter-mo é tão minoritariamente abordada? Essa questão encontra raízesculturais e históricas complexas, que nos conduzem a uma perguntamais abrangente: quais as causas da predominância da visualidadeem nossa cultura? Ihde (2007) aponta que o caráter de prevalência da visão com rela-ção aos demais sentidos remonta à nossa herança da civilização grega.Citando Heidegger, nos explica que “o pensamento grego emerge doprocesso de se permitir que o Ser ‘se revele’ como o ‘brilho’ da physis,da ‘manifestação’ do Ser como uma ‘clareza’, tudo evocando a visãovibrante do Ser”. (HEIDEGGER apud IHDE, 2007, p. 6). Ou seja, asmetáforas linguísticas que aludem à própria existência nos remetemao universo visual. Ihde também apresenta o pensamento de Thass-Thienemann que, pela análise da etimologia grega, mostra que o ver-bo eidomai combina os sentidos de “ver” e “saber” com “aparecer” e“reluzir”, portanto, o grego “sabe” o que “viu”. Até o verbo grego quesignifica “viver” é sinônimo de “observar a luz”. Também Aristótelesdiz textualmente que “a visão é a principal fonte de conhecimento”(ARISTÓTELES apud IHDE, 2007, p. 7).46 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011
  45. 45. Mas não é preciso nos afastar tanto para notar as correspondênciasentre a língua e a visualidade. “Esclarecer”, “olhar por outro ângulo”,“veja bem”, “olha só”, “no meu ponto de vista”, “no meu modo de ver”,“dar perspectiva”, “abrir o olho”, “visivelmente”, “dar foco”, “não per-der de vista” e inúmeras outras expressões mostram, inequivocamente,como o olhar está presente em nossa “visão de mundo”. É interessantenotar como esse sentido está ligado a metáforas que dizem respeito aoconceito de verdade e ao próprio conhecimento. Pedir que uma pessoa“esclareça” alguma coisa, quer dizer que se espera dela algo para dirimirquestões pendentes, aproximando mais o interlocutor do que seria umaversão mais “real” do fato. Por outro lado “ouvir dizer” nos remete auma versão não muito confiável do fato. A expressão em português “darà luz”, significa entregar o indivíduo para onde a vida acontece, ou seja,para a “claridade” do mundo. Além disso, a cultura da oralidade estáligada a uma noção ancestral, “primitiva”, enquanto a noção de moder-nidade está fortemente associada às imagens; pensamos o mundo atualcomo um mundo da visão. McLuhan, ao discutir as novas mídias que, nadécada de 1960 do século passado, estavam apenas surgindo, encontratambém metáforas que relacionam a visualidade à linguagem: “Nós em-pregamos metáforas espaciais e visuais para inúmeras expressões cotidia-nas. (...) Nós somos tão apoiados na visão que chamamos nossos homensmais sábios de visionários ou videntes!1 (McLUHAN, 2003, p. 117). Apesar de concordar com o entranhamento da visualidade na lin-guagem, Jonathan Sterne contesta a concepção de Modernidadeassociada ao deslocamento de uma cultura da audição, “primitiva” ouoriginária, para uma cultura da visão, racionalista e tecnológica: Não há dúvida de que a literatura filosófica do Iluminismo – assim como a linguagem cotidiana de muitas pessoas – é amparada pela luz e por metáforas visuais de verdade e entendimento. Mas, mesmo a visão sendo de algumas maneiras o sentido privilegiado no discurso filosófico europeu desde o Iluminismo, é falacioso pensar que a visão sozinha ou em sua suposta diferença com a escuta explica a moderni- dade2 (STERNE, 2003, p. 3).1   Os grifos são do autor.2   Todas as traduções são minhas.Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011 47
  46. 46. O Iluminismo pode ter sido um grande catalisador da visualidadepara o pensamento ocidental, o próprio nome do movimento apoian-do-se em uma metáfora visual, mas, conforme expusemos, podemosnotar a força da cultura visual mesmo na Grécia Antiga e, provavel-mente, isso influenciou os pensadores iluministas, interessados comoeram pela cultura clássica. De qualquer modo, a partir do Iluminismo,o som começou a ser objeto de análise de forma mais sistematizada: Durante o Iluminismo e depois, o sentido da audição tornou-se um objeto de contemplação. Passou a ser medido, objetificado, isolado, e simulado. (...) O som foi mercantilizado; tornou-se algo que pode ser vendido e comprado. Esses fatos problematizam o clichê de que a ciência moderna e a racionalidade foram frutos da cultura visual e do pensamento visual. Eles nos obrigam a repensar exatamente o que queremos dizer com “privilégio da visão e das imagens”. Tomar seria- mente o papel do som e da audição na vida moderna é problematizar a definição visualista de modernidade (STERNE, 2003, p. 3). No entanto, mesmo uma vez reconhecida a importância da escutana formação da racionalidade e do conhecimento, é preciso tambémapontar a grande desvantagem do sonoro com relação ao visual noque tange a estudos nas chamadas Humanidades. A penetração dopensamento visual se espraia por campos tão díspares como “o femi-nismo, a teoria da crítica racial, a psicanálise e o pós-estruturalismo,(...) a semiótica, estudos sobre cinema, várias escolas de interpretaçãoliterária e de história da arte, arquitetura e comunicação” (STERNE,2003, pp. 3-4). Com relação ao sonoro, embora haja vários trabalhosacadêmicos espalhados por áreas específicas, “o som não é normal-mente um problema teórico central nas principais escolas de teoriacultural, excetuando-se o privilégio da voz na fenomenologia e na psi-canálise” (p. 4). Essa disparidade se deve, por um lado, ao fato de osteóricos culturais aceitarem muito facilmente os discursos quase auto-matizados sobre a predominância da visão e, por outro, à tendênciatecnicista dos estudos sobre o som, que, em sua maioria, afastam-sedos teóricos e pensadores culturais e sociais. No que diz respeito à filosofia e à história da audição, ainda que abibliografia seja vasta, o problema é que esses estudos encontram-se48 Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011
  47. 47. conceitualmente fragmentados: “só raramente os autores das histó-rias do som sugerem de que maneira seu trabalho se conecta comoutros, seja com trabalhos que se relacionam ou com domínios in-telectuais mais amplos” (p. 5). Essa configuração das áreas de estudorelega o som a um impasse conceitual: por normalmente estar associa-do a áreas musicais ou técnicas, o estudo do som e da escuta parecerelacionar-se mais com a engenharia do que com a antropologia, porexemplo. Esse enfoque, no entanto, é uma limitação para os encami-nhamentos que o sonoro poderia assumir. O som pode perfeitamenteser entendido em seus aspectos culturais, sociais e antropológicos. Nas artes cênicas, a demanda de escuta ainda é bastante restritiva.Ecoando Verstraete (2009), percebe-se que os estudos do som da cenaescorregam por entre os vãos que separam os Estudos Teatrais e aMusicologia. O som não é percebido materialmente, ficando restritoa suas qualidades comunicativas (fala e sonoplastia) e à música. Esseentendimento do som por meio de tipos específicos de manifesta-ções sonoras pode ser localizado em estudos anteriores ao adventodo conceito de frequência, no século XIX. Mais uma vez de acordocom Sterne: Antes do século XIX, os filósofos do som geralmente consideravam seu objeto através de uma instância particular, idealizada, como a música ou a fala. Estudos de gramática ou lógica diferenciavam sons signifi- cantes de não-significantes, chamando a todos os sons significantes vox – voz. (...) Em contraste, o conceito de frequência (...) introduziu uma maneira de se pensar o som como uma forma de movimento ou vibração. (...) Se até então a fala ou a música tinham sido as categorias gerais por meio das quais o som era compreendido, agora elas eram consideradas casos especiais do fenômeno geral do som (STERNE, 2003, p. 23). Essa inversão de eixo proposta pelo autor é um dos movimentos quegostaria de empreender para se pensar o som nas artes cênicas. Sepensarmos na sonoridade como um conjunto que engloba as catego-rias música, fala e ruído significante, e entendermos a totalidade dossons como material de criação e reflexão artísticas, estaremos expan-dindo a palheta do material auditivo a ser trabalhado, virtualmente,Sinais Sociais | RIO DE JANEIRO | v.5 nº15 | p. 44-81 | janeiro > abril 2011 49

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