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Do ai 5 à distensão - milagre econômico repressao e censura
 

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    Do ai 5 à distensão - milagre econômico repressao e censura Do ai 5 à distensão - milagre econômico repressao e censura Presentation Transcript

    • O jornalismo brasileiro do AI-5 àdistensão: “milagre econômico”,repressão e censuraVictor Gentilli*Resumo: Abstract:Panorama da conjuntura brasileira dos anos 1969 a This paper reviews the Brazilian political and econo-1973, marcados pelo “milagre econômico” por um lado mic situation between 1969 and 1973, a period markete pela repressão mais brutal. Este foi o período de by the “economic miracle” and by a brutal politicaldificuldades dos jornais, do surgimento da imprensa control. The alternative press flourished in this ye-alternativa e do controle da imprensa pela censura. ars while the press faced many difficulties including 87 censorship.Palavras-chave: Key-words:“milagre econômico”, Ditadura militar, imprensa alternativa, “economic miracle”, military rule, alternative press, censorship,censura, história history
    • A conjuntura econômica A expansão da de 5,4% para 6,6%, e a quase duplicação O que se convencionou chamar “milagre economia desse das exportações. O crescimento médio do brasileiro” foi um período de rápido cresci- Produto Interno Bruto (PIB), no período teve início no mento da economia brasileira, entre 1968 1967/1973 atingiu 11,2 % ao ano, atingindo Plano de Metas, e 1973, bene-ficiando-se de ampliação do o pico em 1973. iniciado ainda com O grande desenvolvimento do período be- comércio mundial e do capital financei- JK. A presença do neficiou desigualmente a sociedade brasilei- ro inter-nacional, num momento em que foram aumentadas excepcionalmente as capital estrangeiro ra. Além do crescimento dos setores produ- trocas externas, e os empréstimos estran- se deu na forma tivos, sobretudo aqueles ligados à expansão geiros, na época a juros baratos. de investimentos econômica, também foram beneficiados seg- A expansão da economia desse teve iní- diretos e de mentos de classe média de maior renda. cio no Plano de Metas, iniciado ainda com A renda concentrou-se ainda mais e houve empréstimos. JK. A presença do capital estrangeiro se queda real no valor do salário mínimo. deu na forma de investimentos diretos e Os salários vão se recuperar gradualmen- de empréstimos. te entre 1969 e 1972, só voltando a crescer o O comando da economia no governo do seu poder aquisitivo após 1973, evidencian-88 general Emílio Garrastazu Médici esteve do a estratégia de arrocho salarial da dita- nas mãos de Delfim Netto, que estava no dura como um todo - e particularmente do poder desde o período da Junta Militar governo Médici -, como mecanismo para fa- em 1969. vorecer a acumulação do capital e da renda. Sua política econômica possibilitou o No governo Médici, a euforia do desen- aumento do crédito ao setor privado e es- volvimento motivou ampla divulga-ção do timulou a produção para o mercado inter- crescimento da indústria automo-bilística, no, fato que levaria ao círculo virtuoso da da produção de bens duráveis, além dos economia do período, coin-cidente com o grandes projetos como a hidroelétrica de governo Médici. Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a tentativa da Manteve-se assim, a mesma matriz de construção da rodovia Transamazônica. Es- crescimento do Plano de Metas (repete-se sas iniciativas volta-das supostamente ao o efeito econômico do desenvolvimen-tis- crescimento indus-trial chegaram a ser tra- mo da era JK), processo que leva a ou- tadas como objeto de orgulho nacional. tro período com aumento de importações Antes do ápice do desenvolvimento econô- Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • mico em 1973, a má distribuição de renda turas paraestatais de repressão e do méto-no Brasil, chegou a ser criticada pelo Ban- do de obtenção de informações por meio deco Mundial em 1972. A imagem do “cres- torturas, fato que levou a muitas prisões. Ocimento do bolo” para divisão posterior, fato mais marcante que inaugura o seu go-cunhada por Delfim Netto, foi uma retóri- verno é o assassinato de Carlos Marighella,ca que não se preocupou em camuflar as líder da ALN (Ação Libertadora Nacional)escolhas políticas realizadas pelo modelo na semana de sua posse.econômico. Apesar da dura repressão aos militantes clandestinos de esquerda, no ano de 1970A conjuntura política foram realizados o seqüestro do cônsul japo- Politicamente, o período Médici foi o nês em São Paulo, do embaixador alemão emais duro de todo o regime militar. O do embaixador suíço, todos realizados pelaprenúncio do que viria acontecer já ha- Vanguarda Popular Revolucionária (VPL),via sido anunciado no ano anterior com a comandada por Carlos Lamarca.decretação do AI-5. Os conflitos políticos Carlos Lamarca, ex-oficial do Exércitotornaram-se mais radicalizados: de um e instrutor de segurança de bancos, que 89lado, a repressão cada vez mais dura nos desertara, acompanhado de vários outrosporões da ditadura e, de outro, segmentos militares em janeiro de 1969, fugiu de umda esquerda entram definitivamente para quartel em Osasco levando armas e muni-a luta armada, promovem seqüestros de O fato mais ções, escondendo-se na região do Vale dodiplomatas, tentam articular guerrilha no marcante que Ribeira, onde criou um foco de guerrilha ru-campo e na cidade. inaugura o seu ral. Por suas ações espetaculares tornou-se Estimulados pelas vencedoras guer- governo é o um herói da luta armada, mas é morto emri-lhas cubana e vietcong e também pela assassinato de setembro de 1971 por agentes de segurança“Revolução Cultural” promovida por Mao- no interior da Bahia. Carlos Marighella,Zetung na China, os militantes radicais Lamarca pretendia aderir à luta armada líder da ALNde esquerda enfrentavam o regime militar saindo do quartel onde servia num cami- (Ação Libertadoracom um projeto revolucionário. nhão carrregado de armamentos, munição O governo Médici tem início em meio ao Nacional) na e novos guerrilheiros. Poucos dias antes, opleno desenvolvimento dos aparelhos de semana de sua caminhão, que fora roubado e estava sen-repressão e “aperfeiçoamento” das estru- posse. do pintado num campo de treinamento de
    • guerrilhas no vale do Ribeiro é descober- O sistema macia política sobre seus adversários polí- to. A grande maioria consegue fugir, mas repressivo manteve- ticos custou muitas vidas, além dos guer- um militante é preso. rilheiros mortos em ações de perseguição se íntegro e a Diante das circunstâncias, o capitão e luta. Muitos militantes foram assassina- imprensa manteve Carlos Lamarca não abdica de seus pla- tos sob tortura e outros em circunstâncias nos na totalidade. Carrega uma Kombi o mais absoluto de “desaparecimentos” nunca explicados. do Exército, com armas e munição, e sai, silêncio. O que Possibilitou, inclusive, o surgimento de um normalmente, com ela do quartel. Era viria a ocorrer no poder paralelo nos porões da ditadura, pela um líder querido e admirado no Exérci- Araguaia apenas certeza da impunidade. to, campeão de tiro. Sua deserção torna o anos depois seria conflito militar muito mais tenso. de conhecimento da O sistema midiático no período Sua morte, assim como de outras princi- O sistema midiático como o que conhece- sociedade. pais lideranças e as prisões dos principais mos hoje, configurado e consolidado na dé- quadros da resistência, provocou grandes cada de 1970, teve seu início nos paradoxos baixas na luta armada. As sucessivas vi- da associação entre modernização produtiva tórias da repressão sobre os grupos guer- e forte repressão política. Tanto a moderni-90 rilheiros da resistência armada vão dando zação dos maquinários, quanto a reforma uma nova forma ao quadro político. das formas de produção das notícias, além Já em 1973, a resistência armada prati- do aparecimento dos surpreendentes jor- camente se esgotara. A única exceção é a nais alternativos, foram possibilitados pelos guerrilha que o PCdoB mantém na região processos desencadeados a partir do extra- do Araguaia, uma região de fronteira en- ordinário rigor da ditadura e da resistência tre os Estados do Pará, Maranhão e Goi- a ela. ás, sob a orientação de militantes de linha Na imprensa, assim como na política, a pró-chinesa do PCdoB, que foi dizimada década de 1970 foi uma época extraordina- em 1976. O sistema repressivo manteve- riamente rica, complexa e definidora dos se íntegro e a imprensa manteve o mais caminhos que o país percorreria no futuro. absoluto silêncio. O que viria a ocorrer no A imprensa, como uma espécie de porta-voz Araguaia apenas anos depois seria de co- de seu tempo, acompanha as ambivalências nhecimento da sociedade. do momento. Ora adere ou simplesmente O objetivo da ditadura militar de supre- se cala, ora reage, sinalizando para o leitor Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • os acontecimentos, às vezes buscando sua maciço de capital na Rede Globo ajudam acumplicidade. compreender o modo como se configurou o Foi também um período em que um con- panorama midiático no Brasil.junto de fatores e uma feliz conjunção de Um terceiro fator - para o sucesso da im-circunstâncias forneceram as condições plantação da Rede Globo no país -, decorreque permitiram o surgimento de uma decisivamente das circunstâncias da mortenova realidade midiática no país, com o de Assis Chateaubriand em 1968, à qual seesplendor da Rede Globo de Televisão. seguiu a crise no sistema de condomínio por Entre os fatores desse sucesso, pode-se ele criado.identificar a emergência do aludido “mila- Tal crise iria gerar um desmantelamen-gre econômico”, cujo crescimento econômi- to das emissoras de rádio e televisão e jor-co, aliado aos investimentos estrangeiros nais do grupo pioneiro da mídia eletrônicaem bens de consumo de massa, possibi- no Brasil, os Diários e Emissoras Associa-litaram o aparecimento de um mercado dos. Hoje, apenas o Correio Braziliense, emconsumidor maior, ao qual podia-se che- Brasília, e O Estado de Minas, em Minasgar por meio dos anúncios televisivos. Os Gerais, são empresas relativamente rentá- A imprensa, como 91anunciantes necessitavam alcançar as veis de um império que já havia tido jornais uma espécie degrandes massas das cidades e injetaram e emissoras em todas as principais capitaisgrandes somas de dinheiro em comerciais, porta-voz de seu do país.que beneficiaram, sobretudo, a expansão tempo, acompanha A TV Globo, revela, entretanto, seu profis-das redes de televisão. as ambivalências sionalismo administrativo na comercializa- Um segundo aspecto que determina do momento. ção de segundos definidos, na estruturaçãoessa mudança decorre dos investimentos Ora adere ou da grade de programação e na consolidaçãoestatais na Embratel, que permitiram a da rede nacional, apropriando-se da experi- simplesmente sedifusão por satélite e por microondas dos ência pioneira da TV Rio, dirigida por Wal- cala, ora reage,sinais de TV, criando as condições para a ter Clark (Clark: 1991). sinalizandochamada “integração nacional”, o surgi- Se a TV vivia seu esplendor - pois eramento da TV em cores, tecnologia já di- para o leitor os muito mais fundada no entretenimento dofundida em outros países, mas nova no acontecimentos, às que na informação; portanto, menos depen-Brasil, e o acordo Time-Life que permitiu vezes buscando sua dente das conjunturas políticas -, as revis-o acesso a novas tecnologias e o ingresso cumplicidade. tas e jornais viviam os “anos de chumbo”.
    • Para o lançamento de Veja, jovens de Os jornais, que até 1968 vinham experi- Se a TV vivia todo o Brasil foram recrutados para trei- mentando um novo padrão profissio-nal, seu esplendor namento em São Paulo durante meses. menos partidário e mais voltado para o in- - pois era muito A enorme equipe prepara-se cuidadosa- teresse público da cidadania, vêem-se, com mente para por nas ruas a primeira re- mais fundada no a vitória dos militares da linha dura, consa- vista semanal de informação brasileira. entretenimento do grados pelo governo Médici, de frente com a Newsweek, mais que Time é a base dessa que na informação; censura. O Jornal do Brasil que produzira revista, embora Mino Carta, seu criador portanto, menos uma edição histórica com a edição do AI-5, e primeiro diretor de redação, tenha vi- dependente das com toda a primeira página ludibriando os sitado praticamente todas as grandes re- censores foi um exemplo de resistência ime- conjunturas vistas semanais do mundo quando ainda diata ao arbítrio. políticas -, as trabalhava o projeto de Veja. O Estado de São Paulo publica seus edito- revistas e jornais Todo o antigo modo de fazer jornalismo riais como verdadeiros libelos pela liberda- impresso no Brasil será revisto por Veja. viviam os “anos de de de imprensa, que viria a somar na lista Nos primeiros anos após sua fundação, as chumbo”. de textos opinativos definitivos da história matérias não eram assinadas. A leitura da imprensa brasileira.92 da revista dava a impressão de ter sido Semelhante ao “Basta” e “Chega”, dois escrita por uma única pessoa. Isso, por- editoriais do Correio da Manhã, no final de que a redação mantinha uma equipe de março de 1964, o editorial “Instituições em copidesques, redatores e editores que ti- Frangalhos”, de O Estado de São Paulo tor- nham um cuidado especial com o texto. nar-se-ia o marco da repulsa da opinião pú- É certo que já com Realidade, expe-ri- blica (ainda não se usava a expressão socie- mentou-se no Brasil a “editoria de texto”, dade civil, mas já era ela que se manifesta- conforme relata Sérgio de Souza (Faro: va) ao endurecimento definitivo do governo 1999). Mas em Realidade houve apenas perpetrado a 13 de dezembro de 1968. experiência, até porque a revista tinha to- O Ato Institucional no 5 que motivaria o O dos as suas grandes reportagens assina- Estado a produzir este editorial significava das. Será em Veja que o modelo se conso- o golpe dentro do golpe e a ditadura total e lida como padrão para revista semanal. absoluta. Esses marcos, que indicam as reações ini- A censura à imprensa ciais à ditadura, serão muitas vezes relem- Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • brados como referências, pois a imprensa, repressão, que já atingira níveis além daa partir da nova conjuntura política, terá barbárie.ainda muito a enfrentar para driblar a Outro exemplo da resistência da impren-censura (nos poucos veículos que ousaram sa pode ser observada na atitude da revis-resistir). A resistência e a acomodação ta Veja que, aproveitando uma frase de umconvivem simultaneamente. Mostravam ministro do presidente Médici condenandoque os caminhos tinham se tornado muito a tortura, faz duas edições seguidas tendo amais difíceis e tortuosos. tortura como tema de capa e matéria prin- No episódio da ação guerrilheira da cipal.ALN - que seqüestrara o embaixador dosEstados Unidos, Charles Burke Elbrick -, A Folha, bem comportadao noticiário da imprensa, como se imagi- Até 1968, o grupo Frias-Caldeira produ-na, foi amplo e bastante destacado, mas zia jornais para todos os gostos políticos.completamente controlado ou censurado. Da anódina e inexpressiva Folha de S. Pau-O Jornal Nacional - que entrara no ar no lo à engajada Folha da Tarde; do Notíciasinício do mês -, se vê diante de um fato Populares ao Última Hora; as rotativas da Esses marcos, que 93jornalístico digno de uma boa cobertura. Barão de Limeira chegaram a rodar sete tí- indicam as reações tulos diferentes. A Folha São Paulo, atéE descobre, com fontes militares, o bairro deonde se localiza o cativeiro do embaixador: iniciais à ditadura, então um jornal anódino, inexpressivo, com-Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Jornalis- serão muitas vezes porta-se da maneira mais educada possíveltas e câmaras se deslocaram para o local, relembrados como durante os anos mais duros da ditadura emas a movimentação militar impediu a lo- referências, pois a da censura. Segundo vários testemunhos,calização da casa pela imprensa e a cober- imprensa, a partir aceita, de forma passiva e dócil, todas astura jornalística (Rede Globo: 1985). determinações militares. da nova conjuntura Mesmo assim, todos os estudos e relatos Sua submissão inequívoca aos ditadores política, terá aindaignoram o fato de que, jornalisticamen- de plantão – ao contrário de seu tradicional muito a enfrentar concorrente na capital paulista – represen-te, o cativeiro quase foi descoberto pelaTV Globo na quarta edição do novíssimo para driblar a ta até certo ponto o bom senso daqueles queJornal Nacional, que estreara dia 1o de censura (nos tem consciência de que o jornal ainda nãosetembro de 1969. O seqüestro, como se poucos veículos que se credenciara como instituição da socieda-supunha, provoca um recrudescimento da ousaram resistir). de civil. O que faria poucos anos mais tar-
    • de. A censura torna-se possuía nenhum desses atributos decisivos visível, perceptível para um jornal influente. Censura arbitrária e censitária e detectável. O Estado de S. Paulo – e seu filhote, o A resistência O governo, Jornal da Tarde -, já terá uma posição Em São Paulo, o grupo O Estado de São muito mais digna. Depois do editorial do oficialmente, Paulo resiste. Se não é possível enfrentar a dia do AI-5, o jornal se aquieta, porque a negava a existência censura, que ela se torne ostensiva, então. ditadura se aquieta em relação a ele, mas de censura. Em agosto de 1972, a censura retorna ao no apogeu do governo Médici enfrenta o Formalmente. jornal com toda a força, depois da presença poder militar abertamente e de todas as ostensiva que ocorrera logo após a promul- De modo que formas. gação do AI-5. Os diretores decidiram que, evidenciar no O jornal recusa-se a fingir normalida- no espaço destinado às matérias censura- jornal que este é das, sairiam poemas de Camões (Os Lusí- de, como faz a Folha de S. Paulo e todos censurado é um ato adas) em O Estado S. Paulo e receitas os demais jornais brasileiros o fizeram. A de censura torna-se visível, perceptível e de- de coragem e de culinárias (que não necessariamente resul- tectável. O governo, oficialmente, negava resistência. tavam em bons pratos) no Jornal da Tarde.94 No Rio de Janeiro, os primeiros anos da a existência de censura. Formalmente. De década de 70 consolidam o Jornal do Brasil modo que evidenciar no jornal que este é como um jornal moderno, inteligente, com- censurado é um ato de coragem e de re- patível com as novas tendências do jornalis- sistência. mo diário e com as circunstâncias do Brasil Em outras palavras, O Estado de S. da época. A sintonia fina entre o Jornal do Paulo tinha cacife para enfrentar a dita- Brasil e seus eleitores era impressionante. dura; a Folha de S. Paulo, não. Esta dis- Fora do eixo Rio-São Paulo, o modelo a ser tinção é fundamental para qualquer aná- copiado, imitado, plagiado, era o do Jornal lise do período, posto que os atributos que do Brasil. os jornais constroem no decorrer de sua O golpe de Augusto Pinochet no Chile der- história vão definir sua respeitabilidade, ruba o governo constitucional de Salvador sua credibilidade, sua força política, sua Allende no dia 11 de setembro de 1973. A importância como porta-voz de segmentos censura proíbe que a informação seja man- sociais ou da própria sociedade civil. E a chete. O Jornal do Brasil, que já fizera uma Folha de S. Paulo, naquele momento, não edição histórica no dia mesmo da decreta- Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • ção do AI-5 lança uma edição sem man- meses. O hebdomadário abre uma trilha dechete. Um único bloco de texto ocupa toda imprensa alternativa, consa-grando umaa primeira página relatando os episódios das marcas da resistência típica da impren-dramáticos no Chile. Pouco depois, Alber- sa nos “anos de chumbo” devido a sua inde-to Dines é demitido do Jornal do Brasil. pendência em relação aos grandes grupos midiáticos do país.Sem resistências O Pasquim vai produzir um enorme im- Octávio Frias de Oliveira e Carlos Cal- pacto cultural no jornalismo brasileiro. Suadeira tocam seus jornais e cuidam tam- linguagem debochada e direta, suas entre-bém da Estação Rodoviária de São Paulo. vistas, transcritas literalmente, tudo issoUm cartório obtido no passado e que – a era novidade e foi extremamente bem rece-despeito da absoluta inconve-niência ur- bida pelo público. Boa parte de suas novi-bana e técnica –, preservava-se nos Cam- dades na linguagem estava incorporada nopos Elíseos, centro da capital, graças ao padrão da linguagem jornalística em todo oapoio do prefeito Paulo Salim Maluf, é um país.estratégico negócio para a circulação dos Os diretores É possível especular que o impacto da lin-jornais do grupo. 95 decidiram que, no guagem de O Pasquim no resto da imprensa O fato, na realidade, é que o Grupo Fo- espaço destinado seja de dimensão semelhante, ou talvez atélhas dispunha de um esquema de distri- maior do que o da difusão do lead, pelo Di-buição, com kombis, caminhonetes e ca- às matérias ário Carioca, em 1950. O fato é que ambasminhões, com hora e tiragem certa para censuradas, sairiam as mudanças de texto em pouco tempo sechegarem antes do concorrente em todas poemas de Camões disseminaram e passaram a constituir pa-as principais cidades de São Paulo. Para o (Os Lusíadas) drão de linguagem jornalística.jornal, o horário de fechamento era sagra- em O Estado de S.do, pois dele dependia o cumprimento do Paulo e receitas Dualismo quebrado com Opiniãohorário de impressão e de distribuição. O marasmo desses primeiros anos da dé- culinárias (que não cada é quebrado com o lançamento do se-A imprensa alternativa necessariamente manário Opinião. No dizer de Fernan-do O Pasquim, que tinha sido lançado em resultavam em bons Gasparian, “a juventude brasileira só tinha1969, tornara-se um jornal de grande su- pratos) no Jornal da duas opções: a luta armada ou as drogas”.cesso e suas vendas chegariam a alcançar Tarde. Depois do Pasquim e antes do Opinião surgi-os 200 mil exemplares em alguns poucos
    • ra Fato Novo e Politika. Mas ambos não O Pasquim vai O “vazio cultural” conseguiram chegar perto do impacto que produzir um enorme Nos anos que antecederam o endu-reci- significou o lança-mento de Opinião. (Di- mento da ditadura, a produção cultural bra- impacto cultural nes: 2000 – Vol 1) sileira atingiu um padrão bastante elevado, no jornalismo Fato Novo reunia um grupo de nacio- na música, no cinema, nas artes plásticas, nalistas, simpatizantes da candidatura brasileiro. Sua no teatro, enfim em todas as manifestações do general Albuquerque Lima, que dis- linguagem culturais. A efervescência cultural era enor- putou a Presidência, conforme já narra- debochada e direta, me. E tudo, inclusive e principalmente a do. O jornal chegou a pedir em manchete suas entrevistas, cultura, era extrema-mente politizado. Não a aplicação do AI-5 em defesa de causas transcritas à toa, o mais famoso espetáculo teatral ain- nacionalistas. Não era propriamente um literalmente, tudo da do ano de 1964 mas já posterior ao golpe jornal oposi-cionista, embora jornalistas foi o Opinião, com Zé Kéti e Nara Leão. isso era novidade e de oposição como Milton Coelho da Graça, Com a promulgação do AI-5, aparen-te- foi extremamente militante do PCB, dele participassem. mente, essa produção diminui. Hoje se sabe Politika também era um jornal naciona- bem recebida pelo que a produção teatral manteve-se alta, lista, mas expressava, sobretudo, a perso- público. mas com dificuldades devido à censura, o96 nalidade de Sebastião Nery, que mais tar- mesmo ocorrendo com a música. Músicos de ficaria conhecido por suas coletâneas hoje consagrados, como Chico Buarque, de folclore político. Gilberto Gil e tantos outros viviam de sho- Opinião surge nos moldes dos modelos ws patrocinados por centros acadêmicos de ingleses de jornalismo semanal, fleumá- universidades. A imprensa chamava esses ticos, sérios, sisudos que marcariam a his- espetáculos de “roteiro universitário”. tória do semanário. Fernando Gaspa-rian, A discussão sobre o vazio cultural, na épo- seu proprietário, consegue contratos de ca foi um dos grandes debates produzidos reprodução de grandes jornais europeus, pela revista Visão, uma revista quinzenal, como o Le Monde, The Guardian e outros. que procurava enfren-tar os grandes temas Localmente, monta um projeto gráfico do momento e, aparentemente, não tinha simples, bastante elegante e marcante. problemas com a censura, embora boa parte Como diz Bernardo Kucinski, cada capa é de seus jornalistas fossem simpatizantes ou um marco como imagem. (Kucinski: 1991) militantes do Partido Comunista Brasi-lei- ro, o PCB. Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • Ficou famosa a edição de Visão sobre o tes, com as atividades de Cláudio Abramovazio cultural, com textos não assinados como coordenador de produção. Abramo tra-de Vladimir Herzog, Zuenir Ventura e ou- balhava na sombra. Ia montando a equipetros. Pouco depois, enquanto a ditadura da Folha de S. Paulo, ia preparando o jor-feste-java, em setembro de 1972, o sesqui- nal para a grande reforma que viria, mas jácentenário da Independência, Visão viria cuidava de montar uma estrutura de repor-com uma edição especial bastante crítica tagem de qualidade.da independência brasileira. A censura impediu que esse trabalho apa- recesse durante a cobertura da epidemia deFolha inicia renovação meningite em São Paulo em 1973 – e Cláu- Com a iminência de início do gover- dio Abramo sabia que uma boa coberturano Geisel, o grupo Frias-Caldeira libera jornalística era fundamental para o próprioCláudio Abramo para tocar abertamente o controle da mesma, que cresceu e se disse-projeto de renovação da Folha de São Pau- minou assustadoramente, sobretudo, graçaslo. Cláudio Abramo recruta Alberto Dines, à desinformação dos cidadãos.que saíra do Jornal do Brasil e ficara um Por outro lado, nos episódios dos enormes 97ano nos EUA acompanhando o desempe- e monstruosos incêndios dos edifícios An- Com a promulgaçãonho da imprensa neste período pós-Water- draus, em 1972; e Joelma, em 1974, o jornal do AI-5,gate. pode mostrar sua capacidade de reportar aparentemente, O jornal cria a página 2, com editoriais, os fatos e apresentá-los de forma clara aocharge e três pequenos artigos, um origi- essa produção leitor. A cobertura desses incêndios foramnário de Brasília, um do Rio de Janeiro e diminui. Hoje dois momentos em que a Folha de S. Pau-um de São Paulo. Em sua essência, a mes- se sabe que a lo apresentou-se ao leitorado diferenciadama página de hoje. produção teatral dela mesma naqueles tempos. Poucos meses depois, vem a chamada manteve-seop-ed (Página oposta aos editoriais), com Estado, centenário e crise alta, mas como nome de Tendências e Debates, igual- No dia da comemoração do seu centená- dificuldades devidomente, em essência mantida até hoje. rio, O Estado de São. Paulo vê a censura à censura, o mesmo A reforma da Folha aparentemente co- prévia ir embora do jornal. Mas junto commeça com o surgimento das páginas 2 e 3. ocorrendo com a a perda da censura, o jornal ganha uma cri-Mas as primeiras medidas começam an- música. se econômica decorrente do enorme investi-
    • mento em dólares que a empresa realizou Abramo trabalhava * Victor Gentilli para construir sua nova sede na marginal na sombra. Ia O autor é jornalista, doutor pela USP do Tietê. A mudança para a nova sede im- professor da Universidade Federal do Es- montando a equipe plica logo num primeiro momento um con- pírito Santo, editor da área acadêmica do da Folha de S. Paulo, flito entre jornalistas e engenheiros, sobre Observatório da Imprensa e diretor-admi- as normas e procedimentos editoriais. ia preparando nistrativo da Sociedade Brasileira de Pes- Mas o Estado deste período é um jornal o jornal para a quisadores em Jornalismo forte, um jornal de opinião, um jornal de grande reforma reportagem. Ao contrário da Folha, os edi- que viria, mas já Bibliografia toriais do Estado sempre impactam. E, se cuidava de montar ABRAMO, Cláudio. – A Regra do Jogo, São Pau- neste período o país inicia o debate esta- lo, Companhia das Letras, 1988, 270 pgs. uma estrutura de tização versus privatização – debate que BARDAWIL, José Carlos. – O Repórter e o Poder reportagem de – Uma autobiografia. Entrevista a Luciano Suas- em certa medida prevalece como tema qualidade. suna, São Paulo, Editora Alegro, 1999. forte até hoje – será o Estado que trará a BRAGA, José Luiz.- O Pasquim e os anos 70: questão para a opinião pública. mais pra epa que pra oba, Brasília, Editora UnB, O assunto virá em editoriais, em en-98 1991. trevistas com personalidades, em artigos CHAGAS, Carmo; MAYRINK, José Maria; PI- – em especial os de Fernando Pedreira – e NHEIRO, Luiz Adolfo. – 3X30 Os Bastidores também na reportagem. da Imprensa Brasileira, São Paulo, Best Seller, O então chefe de reportagem Ricardo 1992. Kotscho – que mais tarde viria a ser o as- CLARK, Walter. – O Campeão de Audiência. Uma Autobiografia. Com Gabriel Priolli. São sessor de Lula em suas campanhas eleito- Paulo, Editora Best Seller, 1991.. rais – ganha o principal Prêmio Esso de DINES, Alberto. – O Papel do Jornal: uma relei- 1975 com uma série de reportagens mos- tura, São Paulo, Summus Editorial, 1986, 158 trando o desperdício de gastos de minis- pgs. tros e dirigentes de empresas estatais em FARO, José Salvador. – Revista Realidade 1966- Brasília nesse período. A expressão “mor- 1968, Tempo de reportagem na imprensa brasi- domia”, antes acolhida discretamente leira, Porto Alegre, Editora da Ulbra, AGE Edi- apenas pelos dicionários, passa a compor tora, 1999, 285 pgs. o vocabulário do linguajar popular. GARCIA, Alexandre. – Nos bastidores da notícia, Rio de Janeiro, Editora Globo, 1990. Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004
    • KUCINSKI, Bernardo. – Jornalistas e Revolu-cionários nos tempos da imprensa alterntiva,São Paulo, Scrittta Editorial, 1991, 399 pgs.LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. – O Adian-tado da Hora: a influência americana sobre oJornalismo Brasileiro, São Paulo, Summus,1991..MACHADO, J. A . Pinheiro. – Opinião X Cen-sura: momentos da luta de um jornal pela li-berdade, Porto Alegre, L&PM, 1978.MARCONI, Paolo. – A Censura Política na Im-prensa Brasileira; 1968-1978, 2a Edição revis-ta, São Paulo, Global Editora, ‘1980.MARQUES DE MELO, José. – Sociologia daImprensa Brasileira, São Paulo, Vozes, 1973.MÉDICI, Roberto Nogueira. – Médici: o depoi-mento, Rio de Janeiro, Mauad, 1995MORAIS, Fernando. – Chatô, o rei do Brasil, 99São Paulo, Companhia das Letras, 1994, 732pgs.MOREL, Edmar. – Memórias de um repórter,São Paulo, Record. 1999.PEDREIRA, Fernando. – A liberdade e a ostra,Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1976REDE GLOBO, 15 anos de história, Rio de Ja-neiro, TV Globo Ltda, 1984, 351 pgs.SKIDMORE, Thomas E. – Brasil, de Castelo aTancredo, Paz e Terra, 1988SODRÉ, Nelson Werneck. – A História da Im-prensa no Brasil, São Paulo, Civilização Brasi-leira, 1966, 583 pgs.