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Crônica - Faça o que eu digo

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Crônica do jornalista Flávio Herculano, gentilmente cedida para publicação no blog do Ølheirø - http://samuellgb.blogspot.com

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Crônica - Faça o que eu digo

  1. 1. Faça o que eu digoFlávio Herculano@flavioherculanoColocou seu melhor vestido de domingo, uma maquiagem discreta e se dirigiu ao ponto de ônibus.Estava de cara fechada, não apenas pelo típico sol palmense que lhe incandescia os olhos. Era assimpor natureza. Irritou-se ainda mais pelas muitas voltas que deram os ponteiros sem que o coletivoapontasse na esquina. Quando o ônibus chegou, ela valeu-se de cotoveladas para ser a primeira aembarcar. Passou pela catraca soltando impropérios contra o motorista, maldizendo a longa espera.Como o itinerário seria demorado, usou sua visão de ave de rapina para enxergar antes o únicoassento vazio. Correu desesperadamente até lá e jogou-se na cadeira. Ignorou a velha senhora quepassou com pares de sacolas de supermercado às mãos e que olhava para a cadeira como um cachorroolha para um filé sangrento dependurado no gancho do açougue. Aquele era um dos assentospreferenciais para idosos, mas, enfim, ela tinha chegado primeiro. Além do mais, julgou ser aquelasenhora saudável o bastante para seguir a viagem em pé, apesar da idade, das sacolas e das rotatórias.Duas paradas à frente embarcou um homem de terno mal cortado, suando em bicas. Debaixo dobraço, carregava um livro pesado. Com a outra mão, arrastava o filho ônibus adentro, xingando omenino de lerdo, para o constrangimento de alguns passageiros e a ira de outros. “Esse puxou à mãe,uma preguiçosa que não vale o que come”, dizia.Por um acaso do destino, o homem seguiu com o filho até o meio do ônibus e se postou diante dotrono da mulher mal-humorada. A cada freada, o menino esbarrava nas pernas da mulher a camisapegajosa do sorvete de há pouco. Claro, não precisou mais do que três solavancos para a mulherempurrar o menino em direção ao seu pai, mastigando algumas palavras grosseiras.Claro, não precisou mais que esse gesto para o pai retrucar. Bruxa, vaca e mal amada foram osadjetivos mais leves contra a mulher; os palavrões, nãos os posso repetir nesta página de jornal. Amulher retribuiu à altura, aos gritos de corno, veado e nêgo safado. E a discussão seguiu, cada umtentando se sobrepor pelo mais baixo calão das palavras e pelos gritos mais altos. O menino assistiaassustado.Só houve cessar fogo quando o ônibus chegou à parada final da mulher. Como faz todos osdomingos, ela foi rezar. Comoveu-se com o sermão a ponto de ir às lagrimas, comungou e repetiu ogesto de saudar conhecidos e desconhecidos com um abraço, não apenas com um aperto de mão,olhando-os nos olhos e desejando a todos a paz de Cristo.Neste momento, descia do ônibus o homem de terno, arrastando seu filho agora com muito mais fúriae proferindo palavrões contra ele, para que se apressasse. O culto estava para começar e nãopoderiam atrasar-se.E a velha senhora com sacolas nas mãos, chacoalhando nas rotatórias, lembra? Pois esqueça! Éapenas um figurante na história, mais uma usuária anônima do penoso serviço de transporte coletivoda cidade.

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