A orelha de BelémMeu tio paterno caçula chegou de Belém. Meu pai recebeu-o como a um filho pródigo, os olhosverdes brilhan...
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A orelha de belem

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Crônica do amigo poeta, jornalista e escritor jjLeandro.

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A orelha de belem

  1. 1. A orelha de BelémMeu tio paterno caçula chegou de Belém. Meu pai recebeu-o como a um filho pródigo, os olhosverdes brilhantes revelavam o carinho que tinha pelo irmão mais moço deixado sob seus cuidadosanos antes pelo meu avô Joãozinho numa viagem do agreste pernambucano a Carolina em visita aomais velho dos filhos. Para os sobrinhos, recebíamos um herói. E tudo porque nos dias anteriores asua chegada ouvíamos pelos cantos da casa fiapos de conversas segredadas entre meus pais,revelando lances cinematográficos da vida atribulada dele na capital paraense onde eraradiotelegrafista de uma empresa aérea.Os telegramas dando conta de sua volta mudaram o clima em casa. Meus pais tornaram-sepressurosos, embora nada dissessem aos filhos além da frase que lhes abria um sorriso forçado: ‘seutio vai chegar’. A solicitação de maiores detalhes transformava ligeiro o difícil sorriso em caretaapreensiva que antecipava a negativa: ‘Só isso basta’.Especialmente para mim, pelos cochichos e pela tensão que meus pais tentavam disfarçar, o retornodele não obedecia a plano algum pré-estabelecido. Inseria-se no rol das emergências. E por quê? Nãoera assunto que interessasse a crianças diziam-nos constantemente.No dia em que chegou a casa amanheceu em polvorosa, minha mãe no comando das empregadasultimava os preparativos do que parecia ser a recepção a um soldado que voltava são e salvo daguerra. A tensa expectativa dos últimos dias cedia lugar à felicidade incontida. Flores enfeitavam acasa desde a mesinha de centro na sala à grande e pesada mesa da cozinha. Os quartos foramarejados e fumigados com alfazema. Para mim, que seguia os passos de minha mãe e dasempregadas no preparo da casa, iam receber o bispo.Na hora de ir ao aeroporto do Ticoncá, pegamos um táxi na praça. O voo de Belém era para o final damanhã, mas a ansiedade foi aguilhão que nos tocou cedo para lá. E ninguém reclamou a espera deduas horas. Fiquei o tempo todo com um olho na pista e o outro nos velhos caças da FAB,sobreviventes da guerra mundial repassados pelos americanos ao Brasil após o conflito, queconstantemente faziam escala na cidade em suas andanças de Belém ao Rio de Janeiro. Achava-ossoberbos espetando o céu com o nariz petulante. As proezas da guerra autorizavam, sem deixarmargem a questionamentos, a imponência que ainda exibiam os velhos aviões.Por fim o barulho da aproximação do avião de Belém agitou o saguão do aeroporto e fez-meesquecer os velhos caças. O tio chegava. Minha mãe obrigou-nos a uma postura quase marcial pararecepcioná-lo que chamava atenção das outras pessoas. Algumas queriam rir, outras admiravamnossa obediência. Ele passaria a tropa em revista. Eram cinco sobrinhos crescidinhos e outros dois decolo. Uma altiva guarda de honra esperava-o perfilada.Ele desceu do avião e foi reconhecido ainda à distância na pista entre os outros passageiros. Meu paiapontou-o. A guarda de honra dissolveu-se em tumulto. Corremos a seu encontro desrespeitando asregra do militarismo familiar. Ele não teve braços para tantos abraços simultâneos. Rendeu-se imóvelpreso entre os sobrinhos. Ávidas mãos procuravam seus dedos para segurar, disputando-os comalças de malas e sacolas. Fomos até meus pais como uma gigantesca e desajeitada aranha cujo corpoera meu tio e os sobrinhos as patas.Em casa, a tietagem continuou e meu tio mantinha-nos permanentemente excitados a sua voltacomo um enxame de abelhas. A intervalos regulares, com gestos automáticos enquanto conversavacom os adultos, retirava de um bolso lateral da calça, de um bolso traseiro, ou do bolso do blusão deaviador que ainda vestia sobre a camisa Volta ao Mundo de cor berrante, balas, pirulitos e
  2. 2. chocolates. A nossa agitação quase tornava impossível a conversa familiar. Enquanto não vinha novarodada de guloseimas, entretínhamo-nos com as outras novidades da capital. Um sobrinho puxavacurioso a pulseira sanfonada de aço do relógio em seu pulso, outro brincava com o isqueiro de metal,imitando-o no ritual de abrir a tampa e correr o polegar sobre a pedra para acender o cigarro. Fecharo velho Zippo provocava um ‘clic’ da tampa que nos alegrava. Eu não parava de esgaravatar os seusbolsos a procura de mais balas e chocolates. Procurando no bolso interno do blusão de couro, saí emcima da razão de sua volta precipitada a Carolina: afoto de uma orelha decepada. Não era dele com certeza, pois as suas duas estavam certinhas emseus lugares.Meus pais, óbvio, sabiam o que aquilo representava. Tomaram-na de minha mão e puseram-me decastigo. Os outros irmãos, livres de punição, foram mandados para a sala com as empregadas.Só muito tempo depois eu conheci a história da foto.Nas muitas andanças pelo centro comercial de Belém atrás de prostitutas, jovens como meu tiobrigavam comumente. Aos vinte e dois anos ele se meteu numa briga com outros frequentadores debordéis. No tumulto da briga, os colegas abandonaram-no à própria sorte cercado pelo grupo rival.Valer-se dos resistentes dentes que quebravam rapaduras no agreste pernambucano foi a maneiraque encontrou de livrar-se de tremenda sova ou coisa pior. Resoluto, procurou a orelha maispróxima no bolo de cabeças que tinha sobre si, abocanhando-a por inteiro. A forte mordidatensionou os músculos do queixo a ponto de doerem. O gosto ferruginoso que lhe encheu a boca e ogrito lancinante do oponente desfizeram o tumulto num instante. O rapaz perdera a orelha. Oscolegas afastaram-se dele horrorizados. Após um segundo de hesitação, recolheram o ferido eabandonaram o ringue.Meu tio correu desesperado. Perturbado, fugiu cerca de dois quilômetros por galerias pluviais ebueiros sem se dar conta de que a orelha continuava na boca. Ao parar estafado, a respiraçãoofegante, lembrou-se dela. Cuspiu-a na mão com grande nojo, mas como chegara até ali com ela,enrolou-a no lenço, guardando-a no bolso da jaqueta como um sinistro troféu. Tinha em casa umaLeica alemã, com ela fez uma chapa fotográfica da orelha. Depois jogou-a no vaso sanitário. Pormedo de ser descoberto, só revelou a fotografia na véspera da viagem a Carolina.Chegou com ela no meio dos pertences como souvenir. Ou como sinal de alerta a lembrá-lo doslugares que poderia frequentar com isenção de riscos.Foi assim entre pirulitos, balas e chocolates que encontrei a orelha de Belém.jjLeandro--Enviado por jjLeandro em 5/27/2011 08:21:00 AM

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