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Revista Ásiaki
 

Revista Ásiaki

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    Revista Ásiaki Revista Ásiaki Document Transcript

    • ÁsiaKi
    • Oriente na Amazônia? Este foi o ousado desafio muito menos, do outro lado do mundo. Logicamente, as dos estudantes de curso de Comunicação Social – ÁsiaKi práticas culturais são diversas e singulares. Entretanto, Jornalismo, da Universidade Federal do Pará, ao somos, em sua maioria, homens e mulheres urbanos, idealizar a Revista ÁSIAKI. A proposta era combinar consumidores de uma cultura global e híbrida por diversidade cultural, novas visões de mundo e a natureza. boa e velha dose de entretenimento cotidiano. Por conta dessa mistura, reunimos o que de Oriente Conseguimos? Ao leitor, deixamos a tarefa de tem na Amazônia e o que de Amazônia tem no Oriente. folhear essa idéia. Esporte, literatura, cinema, economia, religião. Dos Mas, o que a cultura oriental tem haver com a diversos temas aos mais invisíveis dos prazeres de uma “Belém-Amazônia-Brasil”? Diríamos quase tudo. população que convive com o rotineiramente inusitado. O cotidiano daqui não diferente do daí, do de lá e, Nesta edição · Visual Kei em Belém. pág 3 · A tradição da literatura japonesa. pág 35 · O Laço entre Brasil e Japão. pág 11 · A ideologia do judô. pág 39 · Espiritualidade do Seicho-no-ie. pág 14 · O budismo e a sociedade de valores. pág 42 · A rejuvenescedora massagem tailandesa. pág 18 · A terapia contra demônios. pág 44 · Conexão digital Brasil Japão. pág 22 · Realidade aumentada. pág 47 · Os quimonos de Belém. pág 25 · A arte da imortalidade. pág 49 · Viaje pela mundo de Chihiro. pág 29 · A filosofia do taoísmo. pág 52 · A arte da dança oriental. pág 31 · O país do futebol. pág 55 · O canto transcendental. pág 59 Ficha técnica * Professores responsáveis: Ana Petruc- celli, Ronaldo e Simone Romero . * Produtores de textos e fotos: Abílo Dantas; Aílton Faro; Andréa Mota; Brena Freire; Clareana Rodrigues; Felipe Cortez; José Fontelles; Josué Ri- beiro; Killzy Lucena; Paula Catarina; Raphael Freire; Suanny Lopes; Wellington Lima * Diagramação e tratamento de imagens: Raphael Freire
    • ÁsiaKi 3 Cultura pop japone- sa em Belém Muito vermelho, flores coloridas, karaokê... Tradicionalmente, o Japão é conhecido por expressar sua cultura brilhantemente colorida por meio de comidas diferentes, quimonos de cores vibrantes, teatro com personagens típicos. Mas durante a 2ª Guerra Mundial, a vida dos japoneses mudou como se tivesse desaparecido toda a tradição e encantamento da sociedade japonesa. O por: Felipe Cortez e Raphael Freire impulso e o desejo de expressar seus estilos e car- Foto: Felipe Cortez acterísticas que lhes são próprios foram reprimidos. Os japoneses viviam em uma sociedade onde os valores individuais e os padrões de homogeneidade eram im- postos com a justificativa para alcançar a supremacia econômica e tecnológica, na tentativa de reerguer o país que havia sido destruído durante a guerra. Em casa, na escola e entre amigos, a regra era simplesmente aceitar e seguir os mandamentos impostos pelo grupo. Com quase todos os prazeres individuais negados, a nação perseguia seus objetivos em concordância harmoniosa e sempre com pensamento coletivo, deixando de lado a riqueza cultural e a variedade individual. Cansados dessa uniformização e padronização, di- versos movimentos surgem com o objetivo de buscar a individualidade e expressão dos sentimentos mais profundos. Um dos precursores é o J-Rock ou rock japonês, movimento musical de contra-cultura que Jaime Neto é o precursor do movimento surgiu com a intenção de romper com convenções. “Os jovens japoneses não tinham imagem definidas deles mes- mos. Por não saberem, ainda, a pensar como indivíduos, eles queriam se libertar das semelhanças, abraçando o diferente, o exótico”, diz Ken Ohira, autor de 10 livros sobre psiquiatria de adolescentes. Todo esse desespero
    • 4 ÁsiaKi Foto: Felipe Cortez pela busca da diferencia- ção do todo é perfeita- mente vista por meio de um movimento visual chamado de Visual Kei ou simplesmente VK. Antes de tratarmos mais a fundo sobre o Visual Kei, uma coisa deve ser esclarecida: todo VK pertence ao J-Rock, mas nem todas as bandas adotam o es- tilo VK. Ambos estão A turma de VK’s se reúne todos os fins de semana na cidade estreitamente relacionados. Se você está lendo essa matéria e chegou até aqui con- seguindo perceber que VK e J-Rock não são a mesma coisa, parabéns! Mas se você ainda não entendeu essa diferença, a hora é agora. Imagine que você é um adolescente japonês que está cansado de seguir as normas que lhe são impostas e de se vestir quase igual a todo mundo. Por ser um estilo musical popular no Japão, você ouve J-Rock e gosta bastante da mistura de sons. Depois fica sabendo o que compõe todo esse movimente e começa a se vestir como os integrantes dessas bandas. Pronto você já é um VK! A partir de agora, você passa a usa roupas muito chamativas, maquiagem bastante carregada, muitas vezes aposta nas tentativas de copiar modelos de personagens de animes... Segundo a psicóloga Sandra Bastos, tipos O Visual Kei é apenas uma de comportamentos como este ocorrem principalmente vertente dentro do J-Rock, devido uma fase conhecida como polarização, onde o que pode ser considerado um desvio de atenção do âmbito familiar é transferido para dos principais, ou o principal, o social. “O adolescente começa a descobrir uma outra movimento que romperam visão de mundo, ele está deixando de priorizar o núcleo com convenções e com a familiar e começa a priorizar o núcleo social e as relações desindividualização no Japão. interpessoais”, explica. Com essa transformação o adolescente procura se apoiar em alguém que o entenda. “Quando começa a ter os primeiros embates com a família, o grupo social funciona como um suporte para esta fase de insegurança, descoberta, transição. O grupo é compreensivo, acha que ele está certo. A necessidade de se sentir igual, de ser aprovado em um grupo, pode ser motivada por diver-
    • ÁsiaKi 5 Foto: Felipe Cortez sos fatores. Todos os adolescentes querem chamar atenção, com tanto que não chame atenção sozinho”, explica Sandra. Essa busca pela individualidade do grupo muitas vezes é alvo de preconceitos e estra- nhesa, principalmente pelos mais tradicio- nalistas. “Já aconteceu de eu estar andando na rua e uma senhora, quando me viu, desviou o caminho para não passar perto de mim”, conta a promoter e empresária Cris Vasconcelos, 30, dona da banca Cristal Mistical e VK. Existem bandas que não abusam de roupas e maquiagens elaboradas e per- formances extravagantes – seguem uma tendência mais ocidental na maneira de se vestir –, mas tocam J-Rock, entre elas estão as bandas 175 R, L’Arc~en~Ciel, Sex Machineguns, Wyse, BUCK-TICK. “Pro ado- lescente ‘o mundo é seu limite’. O processo Algumas garotas se vestem com roupas maculinas de rebeldia, de ser diferente, de querer aparecer é passageiro”, justifica Sandra. Esse estilo musical é bem difícil de ser classificado, pois cada banda possui a sua maneira de tocar e nem sempre seguem o mesmo estilo o tempo todo. As bandas de J-Rock sofrem influência de outras derivações do rock, punk e metal. Quando grupos musicais resolvem mudar a sonoridade das músicas, eles não param por aí: mudam todo o aparato, o interesse e o pensamento. Quando questionados sobre a qualidade das músicas, os jovens disseram que retratam a realidade da nossa sociedade. “A música não é para ser entendida, mas para ser sentida”, conta Giovanna Sovano, 17, VK desde os 14 e gosta de ser chamada de Gika. Apesar desse estilo se chamar J-Rock (rock japonês), ser popular no Japão e as bandas serem compostas todas por japoneses, a maioria dos nomes das bandas não são es- Foto: Felipe Cortez critos em japonês: Malice Mizer, Dir em Grey, X Japan, entre outras. Em Belém existem cinco bandas (Otaku Band, X Japan Cover, Shinob 88, Kuroi Usaghi e Hasenga) que se dedicam a tocar no estilo do rock japonês e que também são adeptas do Visual Kei, as bandas geralmente tocam em reuniões feitas pelos próprios integrantes ou em eventos como o Japan Rock Festival, que está sendo organizado por Cris. Alguns se vestem para
    • 6 ÁsiaKi Foto: Felipe Cortez Otaku, é? “O seu clã” ou “a sua família” são os significados originais da palavra japonesa otaku. Porém, no Japão da década de 80, Otaku virou sinônimo de fanático ou maníaco. A popu- larização da palavra entre os fãs de anime ocorreu por vol- ta de 1989, quando o croni- sta Akio Nakamori utilizou a palavra em um de seus livros, “A era de M”, cujo enredo O hobbie dos jovens é posar para fotos nos fins de semana descreve uma série de assas- sinatos praticados por um VK’s de Belém buscam viciado em animes e mangás identidade própria pornográficos. A publicação O movimento que mudou a cara do rock japonês contribuiu para disseminar a partir da década de 80 surgiu em Belém no seio de uma imagem pejorativa do um outro fenômeno da cultura nipônica, o universo otaku, que passou a sugerir Otaku. o portador de qualquer tipo Em 2004, um amante dos desenhos japoneses chamado de obsessão dentro e fora de Jaime Netto, 16, plantou as sementes do Visual Kei na Nihon. O viciado em videog- Cidade das Mangueiras. Ele percebeu que, apesar dos ames, por exemplo, é um g–mu eventos direcionados para os fãs de desenhos japoneses já otaku. Já um pasokon otaku apresentarem vídeos-clipe das bandas visuais de J-Rock, seria um maníaco por com- ninguém via nisso a inspiração para se vestir como estes putadores. Anime e mangá artistas, como até então só se fazia com personagens de otakus são os fãs do universo desenhos. dos desenhos japoneses. Jaimediz que sempre foi “alucinado” por cultura Em Belém, o fenômeno Otaku japonesa. Sempre participou das festas promovidas pela já se encontra consolidado, comunidade nipônica local e buscou ler tudo o que lhe mas reservado a um pequeno caia nas mãos sobre a cultura oriental. “Até que um dia, público, composto por fãs que numa revista de variedades que o consulado japonês buscam trocar informações do Pará distribui, tinha uma matéria sobre Harajuku. sobre seus desenhos favoritos Eu achei curioso e resolvi pesquisar mais na internet. e acabam se tornando grandes Nessa época, em meados de 2003, eu nem sabia que amigos, formando ramificadas havia eventos de anime em Belém e que faziam cosplays. redes de relações. Uma delas Daí, no ano seguinte, quando fui ao primeiro evento, vi pode ser observada no Orkut, pessoas fazendo cosplay e clipes de j-rock como atrações do evento, mas ninguém fazia VK”. No Animazon, realizado no Taikai (tradicional encontro de otakus em Belém) de 2005, Jaime, acompanhado de Giovanna Sovano, amiga da escola, usava roupas pretas
    • ÁsiaKi 7 mas precisamente na comuni- e rasgadas e maquiagens feitas pelos próprios adoles- dade Animazon. “A gente não centes, que lembravam os VK’s da década de 90, em que conhece todo mundo, mas predominou o Kote Kote Kei (ver boxe ‘Gêneros de Visual essas redes de relações per- Kei’). “Já no nosso segundo VK nos preocupamos em mitem que a gente possa di- mandar fazer as roupas em costureiras e tivemos mais vulgar os eventos”, diz Arcan- cuidado com cabelo e maquiagem. jo – na verdade Alexandre – Algum tempo depois, o garoto adotou um pseudônimo, otaku de 24 anos que continua como faz todo VK. Seu novo nome era Hooki. “Hooki firme no que gosta e faz cara pode significar várias coisas: abandono, rebeldia, difer- feia para quem ainda acredita ente e vassoura. Naquela época o que eu queria mesmo que anime é coisa de criança eram os três primeiros significados. Vale lembrar que ou adolescente. A divulga- todo artista do cenário J-Rock/Visual Kei adota um ção do primeiro Tomodachi de pseudônimo”, Jame continua dando exemplo do guitar- 2008, ocorrido em março, por rista da banda The Gazette, conhecido como Aoi (significa exemplo, foi feita apenas por “Azul”), que, na verdade, se chama Shiroyama Yuu, um Orkut. Assim, conseguimos nome comum no Japão. reunir no Cefet-PA cerca “Inspirado nisso, muitos de 700 otakus. Os principais fãs adotam pseudônimos eventos de Belém são o também”. ‘Otaku no Matsuri’, ‘Tomodachi- Hoje, os eventos que Con’, ‘Animazon no Taikai’ e o reúnem os otakus da ‘Animazon Connection’ (os dois cidade recebem VK’s últimos se diferenciam apenas aos montes. Entretanto, pelos grupos organizadores). também há encontros Nesses eventos, os otakus exclusivos para esses basicamente fazem concursos grupos, que ocorrem de cosplay, onde quem vence geralmente sob as for- é quem imita a atitude e se mas de reuniões fecha- veste mais fielmente como os das em locais específicos seus personagens de desenho – casas, salões alugados e favoritos; cantam os animesongs praças reservadas – e de ou outras músicas asiáticas passeios do tipo Hara- que gostam. Além disso, juku, em que os VK’s Rege, celebridade entre os VK’s de Belém jogam games como Super Smash desfilam, em grupo, por Brothers e The King of Fighters e lugares públicos como também dançam, conhecem um shopping, uma praça ou um bosque. Já nas reuniões novos otakus e trocam idéias fechadas, os VK’s ouvem e conversam sobre J-Rock, sobre os velhos e novos an- cantam músicas que gostam em karaokês, brincam, para imes da praça. não deixar nada passar em branco, se fotografam. É a fotografia aliás, que permite o contato de outros otakus com o universo do VK através de sites de relacionamento como o Orkut, ferramenta virtual já enraizada na cultura comunicacional desta turma. Reges, lembra que Visual Kei não está ligado apenas
    • 8 ÁsiaKi à aparência. “Visual Kei não é só pose, é uma atitude. Não adianta querer fazer um figurino bem feito se a pessoa não conhecer o j-rock e as bandas. VK não é uma tribo, é um movimento”, diz o jovem de 18 anos, vocalista de pelo menos três bandas de música japonesa de Belém, também animador de encontros, cosplayer e, além de tudo isso, o rapaz ainda se dedica em ser o hair design do grupo. Isso mesmo, Reges prepara os cabelos dos amigos VK’s e o próprio, além de conhecer técnicas de maquiagem. Não é à toa que ele cursa Design em uma faculdade de Belém. Para ver o Harajuku: O outro lado do espelho Belém não possui um “point” específico para o Visual Kei. Normalmente, nossos VK’s se reúnem em locais como Parque da Residência e Casa das Onze Janelas, onde, dizem com unanimidade, ficam a salvo de “olhares maldosos”. Entretanto, no berço do movimento músico-visual japonês, há um bairro que Um dos locais acolhe todos os fins de semana, não apenas os VK’s, preferidos dos mas todas as tribos de Nihon.. VK’s de Belém Quem chega de trem à província de Shibuya (em Tóquio) é o complexo pela linha Yamanote e dá os primeiros passos para fora da Feliz Lusitania estação Harajuku pode se sentir transportado para outra dimensão da moda alternativa, onde seres, aparentemente jovens e humanos, desfilam com o que há de mais in- imaginável na arte de se vestir. Adolescentes as portas da vida adulta, perseguidores do reconhecimento à sua singularidade. Bairro tradicional da moda Foto: Felipe Cortez underground japonesa, Harajuku, herdeiro do nome da estação que circunda, é, aos domingos, um dos maiores palcos da imaginação oriental. Grupos de adolescentes com estilos em comum transitam pelas ruas, consomem nas lojas das grandes grifes, conhecem outros jovens e obser- vam peças que poderão usar de um jeito diferente do observado no próximo domingo. Garotas Gyaru de ar infantil posam loiras e bronzeadas para as lentes curiosas de amigos e turistas. Loli- tas, góticas ou elegantes, observam sorridentes os artistas de rua não menos exuberantes, rodeados de cosplays de bandas de J-Rock e Visual Keis. Muitos flashes, vídeos gravados, apresentações de novas
    • ÁsiaKi 9 bandas e a tecnologia “made in japan” afloram a todo minuto em cada esquina. No fim da tarde de domingo, começa a metamorfose. O que eram seres de intrigante e, muitas vezes, apaixonante aparência, entram em casúlos – geralmente os banheiros de lanchonetes como McDonald’s e Burger King – para tornar às suas formas originais. Harajuku recebe todos os domingos entre 3 e 4 mil jovens que, não raro, passaram a semana ralando na escola, dando duro no trabalho e se comportando bem no ambiente familiar para, naquele dia, provar sua capacidade de superar moda(s) do do- mingo anterior, desenhando, produzindo e usando suas próprias peças. Criatividade e grana Incorporar o Foto: Felipe Cortez grotesco Eroguro Kei ou o tradicional An- gura em um figurino oportuno não é tarefa para qualquer um. Se a criatividade é fundamental para a Os garotos também ousam confecção da peça, a com roupas femininas verba para continuar produzindo é indis- pensável. O processo de criação é demora- do e exige paciência. Basicamente, segue as seguintes etapas: 1) escolha do visual, pode ser cosplay do integrante de uma banda ou mais uma criação pessoal; 2) a pesquisa dos materiais, peças e assessórios que vão compor o figurino; 3) testes e pesquisas de cabelo e maquiagem; 4) teste de tecidos, linhas e assessórios com a costureira; 5) finalização do figurino. Ter paciência ajuda muito na escolha dos elementos adequados a cada composição, já que é quase impossível alcançar o resultado ideal num primeiro instante. Feira pós-moderna, a internet é um dos locais mais indicados para o início das pesquisas de construção do figurino. Sites de venda são as principais barracas para consulta.
    • 10 ÁsiaKi Encontrar uma costureira paciente e com habilidade de cópia suficiente para produzir exatamente o que se pede é outra tarefa difícil, mas não impossível. É com essa profissional que eles trocam informações diariamente em busca da costura perfeita ou da manga de corte reto do casaco para um visual aristocrático, por exemplo. Diferente do Cosplay, em que a necessidade de alcançar uma semelhança extrema com o original é o que conta, a criação do VK é livre e permite o reaproveitamento de peças. E, em se tratando de Visual Kei, o importante é agregar o máximo de informações e inovação. Botas com salto plataforma velhas são exemplos de peças aproveitadas por adeptos de vários estilos VK. O preço das roupas, assessórios e cosméticos varia bastante. Existem visuais em que se gasta R$30 – com maquiagem e alguns detalhes – e outros que custam R$300. Não existe um preço fixo, pois cada criação é única. Mas a construção sempre exige um investimento. “As roupas do meu primeiro visual eu tinha em casa. Já o segundo, em que fiz cosplay do Mana (do Malice Mizer) em Beast of Blood, tive que pegar várias fotos e levar na costureira”, diz Gio- Foto: Felipe Cortez vanna Sovano, 17, que fez seu primeiro VK em 2005. Quem faz VK em Belém, então, é quem possui, além da criativ- idade, recursos para a empreitada. Dinheiro esse que vem do tra- balho próprio – como fazem muitos jovens em Harajuku para ali- mentar seus hobbies – ou dos pais. É pos- sível obter ajuda para a produção de figurinos com quem entende As ruas de Belém servem como passarelas de desfile de moda disso em Belém. Mem- bros da comunidade Visual Kei Pará, do Orkut, ensinam onde pesquisar e indicam costureiras que já trabalharam com VK e cosplay.
    • ÁsiaKi 11 O laço entre Brasil e Japão Culturalmente falando, Brasil e Japão são bem diferentes. Seja nas religiões tradicionais de cada um, nas relações internacionais ou na culinária. Enquanto um cria seus filhos para o mundo, o outro abriga três ou mais gerações da mesma família sob o mesmo teto; um produz filme carregado de mazelas do real, o outro exporta as lutas no patamar de arte. Entretanto, um alimento os une, o arroz. por: Andréa Mota Ingrediente essencial na alimentação dos dois países, Foto: Google o arroz se apresenta em diversas versões e acom- panhamentos: tradicional, à grega, sopa de arroz do pai José (mais uma dieta para emagrecer) e os diversos tipos de sushi que existem: Niguiri, Gunkan, Norimaki, entre outros. Sozinho ele in- tegra a lista dos mais nutriti- vos alimentos para consumo. Já serviu de moeda para pagamentos de impostos no O Brasil é um dos maiores expotadores de arooz do mundo Período Edo (1660 – 1800), no Japão. Além de ser con- siderada uma das armas da longevidade. Atualmente teve o seu genoma decodificado em pesquisa realizada por cientistas de vários países, dentre eles Brasil e Japão. No Japão, o arroz é assunto de Estado. A rizicultura transformou a planície de Kanto, região leste do Japão, em uma zona bastante povoada. O cereal foi a principal atividade econômica do país até metade do século XIX, mesmo com as limitações de clima e solo da região. O território japonês apresenta limitações, devido ao
    • 12 ÁsiaKi fato de 80% de área apresentar relevo montanhoso – No Japão, o arroz é assunto meio desfavorável para atividades agrícolas – e apenas de Estado. A rizicultura 16% de planícies, onde o cultivo é facilitado. Já o clima transformou a planície de da região é favorável a esse setor agrícola, principalmente Kanto, região leste do Japão, pela ocorrência de quatro estações do ano responsáveis em uma zona bastante em fornecer calor e umidade, exigida para o sucesso do povoada. O cereal foi a cultivo. principal atividade econômica Antes mesmo de vir a ser um dos produtos agrícolas do país até metade do mais nutritivos, o Oryza Sativa – como o arroz é nomeado século XIX, mesmo com as cientificamente – é considerado um alimento tradicional limitações de clima e solo da na cultura agrícola do Brasil desde 1530 quando foi en- região. contrado o primeiro registro de cultivo na capitania São O território japonês apresenta Vicente, no período colonial. limitações, devido ao fato Hoje, o grão não só ocupa notoriedade na história de 80% de área apresentar como também movimenta a balança comercial anual relevo montanhoso – meio no Brasil. Em 1989, o país tornou-se um dos principais desfavorável para atividades importadores de arroz no mundo, atingindo, em 1998, agrícolas – e apenas 16% uma média superior a 10% da demanda interna. Grande de planícies, onde o cultivo Foto: Google parte dos brasileiros é facilitado. Já o clima da consome o produto, região é favorável a esse setor que é considerado o agrícola, principalmente principal alimento pela ocorrência de quatro da cesta básica e estações do ano responsáveis corresponde a 22% em fornecer calor e umidade, do orçamento ali- exigida para o sucesso do mentar mensal do cultivo. trabalhador. A cultura do arroz, O consumo médio de arroz no Brasil no Pará é introduz- varia de 74 a 76 Kg/habitante/ano ida no campo com o início do período chuvoso, que se estende de janeiro a maio e como al- ternativa para cultivos em regiões úmidas. Boa parte do cultivo no Estado concentra-se na agricultura de subsistência. Com o objetivo de dinamizar o cultivo do A cultura do arroz, no Pará arroz no país e ampliar parcerias com países que possuem é introduzida no campo com história e ações de vanguarda na prática da rizicultura, o início do período chuvoso, foi realizado, no dia 26 de março, o “I Seminário Nipo- que se estende de janeiro Brasileiro sobre a cultura do arroz”, em Brasília (DF). a maio e como alternativa O evento, promovido pela embaixada do Japão no Bra- para cultivos em regiões sil em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa úmidas. Boa parte do cultivo Agropecuária (EMBRAPA), inaugurou a união entre os no Estado concentra-se na países em questão. agricultura de subsistência.
    • ÁsiaKi 13 Makizushi (sushi enrolado): Um pedaço Foto: Google cilíndrico, formado com a ajuda de uma esteira enrolável de bambu, chamada makisu ou sudare. O makizushi é geralmente embrulhado em nori, uma folha de alga marinha desidratada que abriga o arroz e o recheio. Foto: Google Uramaki (enrolado ao contrário): Um pedaço cilíndrico médio, com dois ou mais recheios. O Uramaki se diferencia dos outros maki porque o arroz está na parte externa e o nori na interna. O recheio fica no centro, rodeada por uma camada de nori, então uma camada de arroz e uma cobertura de ovas de peixe ou sementes de gergelim torradas completam a especiaria. Futomaki (rolinhos grandes): Foto: Google Cilíndrico e grande, é um dos mais populares sushis. Possui como recheio variada combi- nação de peixes, folhas e raízes. Tendo tradicionalmente recheios ímpares, é um dos mais aprecia- dos em festivais e datas comem- orativas. Oshizushi (sushi prensado): Um pedaço Foto: Google em forma de bloco usando um molde de madeira, chamado oshibako. O chefe de cozinha alinha o fundo do oshibako com a cobertura, cobre-o com arroz de sushi, e pressiona a tampa do molde para baixo para criar um bloco compacto e retilíneo. O bloco é removido do molde e cortado em pedaços que cabem na boca.
    • 14 ÁsiaKi Juventude, Espiritualidade e Engajamento Jovens do Brasil inteiro resolveram seguir uma doutrina que prega a manifestação do amor em todos os atos, anulação do ego e a prática da meditação como maneira de iluminar a por: Brena Freire Isso é algo de grande destaque, pois egoísmo, vaidade e stress parecem palavras de ordem no mundo moderno. Por isso, a Seicho-No-Ie, filosofia/ religião de origem japonesa, tem se mostrado um ótimo seguimento Foto: Brena para quem decide viver melhor buscando o equilíbrio mental e espiritual. Qualquer pessoa pode ser adepta da Seicho-No-Ie, e cada vez mais aumenta o número dos que entram em contado com sua doutrina e re- solvem praticá-la. Mas a Associação dos Jovens da Seicho-No-Ie (AJSI) merece atenção. Ela existe desde 1948 e tem o objetivo de difundir a doutrina e despertar a capacidade de cada jovem seguidor, a partir de As reuniões acontecem semanalmente Belém 15 anos, para benefício próprio e da sociedade. A AJSI é uma das organizações da Seicho-No-Ie que promove eventos e reuniões semanais com o foco na difusão dos ensinamentos. Cada cidade possui uma As- sociação regional e cada regional possui uma local (AL). Em Belém existem três Associações Locais em que muitos jovens desenvolvem trabalhos. Juliana Bandeira, 17 anos, é ligada a Seicho-No-Ie
    • ÁsiaKi 15 desde a infância. Ela conta que ao nascer, teve problemas de saúde, e sua mãe, conhecedora dos ensinamentos, mas afastada na época, procurou a religião em busca de ajuda. Ao crescer, Juliana começou a se interessar pelos ensinamentos, e hoje é presidente da Associação Local Umarizal. Outros jovens simplesmente se interessam pela doutri- na e resolvem segui-la, como Jádua Fernandes, 26. Ela começou a frequentar as reuniões por convite da mãe e atualmente faz parte da AJSI. Jádua conta que por causa da prática dos ensinamentos, já realizou muitos desejos, principalmente a con- Imagem: quista de seu primeiro emprego. A existência de uma Associação de jovens é justificada pelos diferentes in- teresses. Por esse motivo, assim com os jovens, os homens adultos, as mulheres, os professores e os empresários possuem grupos específicos em associações. No entanto, essas especificações não dificul- tam a participação de pessoas de fora nas reuniões. “Não queremos que as pessoas pensem que aqui é fechado só para quem já participa. Sou católica, mas freqüento a Seicho-No-Ie assim como vou à missa. Os espíritas, evangélicos, católicos... Todo mundo é bem vindo!”, ressalta Juliana Bandeira. Em todas as organizações há um Preletor, uma pessoa que toma a dianteira durante as reuniões, lendo os sutras e fazendo as orações. A Preletora Vitorina faz parte da AJSI de Belém e passou a exercer o cargo depois de passar por alguns níveis de estudo e de trabalho na As- sociação. “Os jovens precisam de orientações específicas” disse a Preletora ao explicar a necessidade de os jovens se reunirem e trabalharem para a Associação. “As pessoas devem ter um canal para conversar com Deus.”, disse Juliana ao se referir à necessidade que as pessoas, incluindo os mais jovens, têm de um direciona- mento espiritual, “A Seicho é um bom caminho porque as pessoas precisam se reverenciar mais como filhos de Deus, e entender que a vida que pulsa em nós, nada mais é que a vida de Deus.”, completa. Na Associação Local Umarizal, as reuniões acontecem todos os domingos às 17h na rua Generalíssimo Deodoro
    • 16 ÁsiaKi nº 675, entre Domingos Marreiros e Boa Ventura. Todos são convidados, sem restrições. Sobre a Seicho-No-Ie Embora a Seicho-No-Ie tenha se tornado oficial em 1930, já era praticada anteriormente em uma vila no município de Kobe no Japão. Seu fundador foi Masa- haru Taniguchi que ficou muito conhecido durante a II Guerra Mundial, incorporando elementos do Xintoísmo, Budismo e cristianismo na nova doutrina. Chegou ao Brasil trazida pelo grande número de imigrates japoneses no início do século XX. Em pouco tempo os ensinamentos da Seicho-No-Ie já es- tavam difundidos em todo país por meio de revistas e calendários. A Seicho-No-Ie ou “Casa da Plenitude” pode ser considerada uma religião ou uma filosofia de vida. Seus adeptos crêem que somente Deus e o que ele cria, prin- cipalmente os humanos, existem verdadeiramente. Todas as outras coisas são manifestações da mente humana, não SEICHO-NO-IE Os praticantes e sua doutrina · Agradecer a todas as coisas do Universo; · Conservar sempre o sentimento natural; · Manifestar o amor em todos os atos; · Ser atencioso para com todas as pessoas, coisas e fatos; · Ver sempre a parte positiva das pessoas, coisas e fatos, e nunca as suas partes negativas; · Anular totalmente o ego; · Fazer da vida humana uma vida divina e avançar crendo sempre na vitória infalível;
    • ÁsiaKi 17 tem a mesma natureza divina. Nesse sentido, doença, pecado, morte e até mesmo o mal não são eternos, por isso não existem. São projeções da mente humana.A essência de toda a doutrina é que “O homem é filho de Deus” e por isso precisa manifestar sua perfeição praticando cotidianamente os atos de amor e caridade, leituras de Sutras sagrados e a meditação. Como con- sequência da prática dessas ações, os seguidores da Seicho-No-Ie Foto: Brena Freire acreditam ser contemplados com fatos milagrosos como a cura de doenças, harmonia em seus lares, solução de problemas econômicos e êxito profissional. Pessoas de qualquer religião podem ser seguidores dos ensi- namentos da Seicho-No-Ie. Isso porque é uma filosofia que não prega o sectarismo religioso, ou seja, para os seguidores, todas as religiões possuem bons aspectos. Todas provêm de um único Deus, Na AJSI também são vendidos livros sobre a doutrina japonesa o que aliás é outro ensinamento: o monoteísmo. Organização Atualmente a Seicho-No-Ie do Brasil é dividida em cinco organizações: Associação Fraternidade, Associa- ção Pomba Branca, Associação dos Jovens, Associação da Prosperidade e Departamento de Educadores. Tais organizações promovem eventos para diferentes tipos de publico, dando atenção especial a cada um. Além disso, programas de TV e rádio, livros e revistas, são utilizados para propagar as ações dessas organizações, bem como os ensinamentos da doutrina. Existem tam- bém as Academias de Treina- Para saber mais mento Espiritual procuradas por quem deseja equilíbrio e paz Seicho-No-Ie do Brasil: interiores. Em 2006 foi inau- www.sni.org.br gurado em São Paulo o Museu Histórico da Seicho-No-Ie do Sede de Belém: Brasil, atendendo a necessidade Av. Generalíssimo Deodoro, 675 - CEP 66055-240 de preservação da memória do Fone/Fax.: (91) 3224-5579 / 3212 - 4458 seguimento no país.
    • ÁsiaKi Massagem Tailande- sa: relaxante e reju- venescedora Dores na costa, pernas, cabeça, ansaço, estresse... Essas são reclamações comuns que ouvimos (e também sentimos) diariamente de trabalhadores que passam de seis a oito horas exercendo sua profissão. Mas essas pessoas se queixam porque ainda não conhecem um estilo de massagem oriental que promete relaxamento, tranqüilidade e a capacidade de preservar a juventude. por: Raphael Freire Foto: Google A massagem citada acima é conhecida como Thai Massagem ou simplesmente Massagem Tailandesa. Desenvolvida no século V a.C - época de Siddhartha Gautama, o Budha - pelo médico indiano Jivaka Kumar
    • ÁsiaKi Bhaccha (considerado o pai da medicina tailandesa) na região que hoje compreende a Índia e o Nepal, a técnica chegou à Tailândia - por tradição oral mestre/discípulo há quase 2500 anos com a expansão do Budismo na região. Intimamente ligada a essa doutrina, a massagem Thai é um caminho para se cultivar os quatro estados divinos de: Metta (bondade amorosa), Karuna (com- paixão), Mudita (alegria contagiante) e Uppekha (im- parcialidade, não-agressão). Hoje, é praticada como um dos pilares da medicina tradicional tailandesa, que é composta por quatro ramos distintos: a medicina nutricional, a fitoterapia, a prática da meditação, além da própria massagem. Com um enfoque mais energé- tico do que físico, a Thai Massa- gem é feita por meio de pressões profundas com as mãos, pole- gares, joelhos, cotovelos e ante- braços nos canais chamados Sen, por onde circula a energia vital do corpo e também por alonga- mentos musculares, manipulações articulares e torções. O objetivo é liberar os bloqueios e estagnações da energia vital, para que haja um equilíbrio no nível de energia essencial à manutenção de um indivíduo saudável e livre de dores; ou seja, manter em equilíbrio e harmonia o corpo, a mente e o espírito. A cadência dos movimentos da massagem propicia um profundo relaxamento e bem-estar interior tanto para o cliente como para o massagista. Por isso, para que a eficácia da massagem seja alcançada é necessário que o terapeuta utilize a meditação e o Yoga; e o cliente precisa respirar profundamente, além de ambos estarem em um lugar tranqüilo. Durante uma seção, que dura em média duas horas, há um sentido de fluidez, integração e companheirismo. “O corpo físico tem memória emo- cional . Muitas vezes quando tocamos alguém, estamos tocando os pais e a família e toda a influência deles na pessoa. Estas memórias estão enraizadas nos músculos, tendões,olhar, postura, respiração. A intenção da Mas- sagem Thai é então , dissolver memórias emocionais
    • 20 ÁsiaKi que possam estar limitando o crescimento verdadeiro do cliente”, conta Sônia. Apesar de tantos benefícios, a massagem é contra indicada para pessoas que sofrem de doenças cardíacas congestivas, osteoporose, as que possuem próteses de joelho, quadril, etc. Ligação com o erotismo Logo quando se pensa em massagem tailandesa a primeira imagem que vem em nossas mentes é a de prostitutas oferecendo-a em troca de dinheiro. Não se pode negar que esse tipo de massagem possui uma con- hecida conotação erótica, mas esse não é o real sentido da massagem. No Ocidente a massagem tailandesa foi disseminada como sendo uma massagem de cunho erótico, servindo para excitação e prazer sexual, sendo distorcida a sua natureza terapêutica e espiritual. Segundo Sônia, as guerras no Oriente - em especial as do Vietnã, Laos e Camboja, países vizinhos da Tailândia – contribuíram para o crescimento da prostituição e outras circunstâncias sócio-econômicas da própria Tailândia. Foi dessa forma que os ocidentais tiveram o primeiro contato com a Thai Massagem, sob a experiên- Foto: Google cia da conotação sexual. O contato corporal nesse tipo é massagem é muito intenso, mas o nível de concentração, relaxamento, confiança e seriedade é muito alto; além disso, o “paciente” permanece ves- tido em roupas confortáveis durante a massagem Thai e não são necessários óleos para a pele. As pessoas estão buscando cada vez mais um conforto espiritual, onde as relações humanas ultrapassem cada vez mais os valores mate- riais e as pessoas busquem uma vida subjetivamente mais saudável e mais próxima dos seus semelhantes.
    • ÁsiaKi 21 Espiritualidade Nós ocidentais estamos acostumados a um médico nos receitar remédios para que uma doença seja curada, talvez por isso, às vezes é difí- cil acreditarmos no potencial de cura dado a um ser vivente, como sendo um dom da própria natureza. “Todo o que sofremos no corpo físico é apenas expressão do que está em desequilíbrio nos planos energéticos e sutis de nossos corpos psíquicos, emocio- nais e espirituais. Por isso, no oriente, a medicina sempre esteve ligada às práticas es- pirituais. Todos os recursos e procedimentos médicos deco- rrem desta visão espiritual do ser humano”, diz a terapeuta corporal Sônia Imenes. Thai Massagem na Gravidez A Thai Massagem é uma prática meditativa que promove estados meditativos e contem- plativos que estreitam os laços mãe/filho e permitem à gestante saborear uma gravidez prazerosa e saudável. Durante a gestação, a massagem alivia os desconfortos, bem como prepara o corpo para o parto trabalhando a mobilidade e o fortalecimento das articulações, atuando sobre o sistema nervoso, melhorando o sono, a digestão e diminuindo o stress; propicia, com o toque acolhedor, suporte emocional e conforto; reduz e alivia dores nas articulações, pescoço e costas causadas pelas alterações na postura, fraqueza muscular, tensões e ganho de peso; melhora a circulação sanguínea e estimula o sistema linfático e ajuda a manter a elasticidade da pele. No fim das sessões, há também espaço para debates em grupo sobre questões da gravidez, parto, corpo e maternidade. “Em grupos com outras gestantes ou em sessões individuais, a massagem tem um papel significativo na preparação da futura mamãe. A experiência do contato corporal durante a gestação, o trabalho de parto e após o nascimento do bebê ajudam-na a tocar com mais eficiência e transmitir carinho, conforto e segurança a seu filho”, afirma Sônia Imenes.
    • 22 ÁsiaKi Conexão digital Há 57 anos, Assis Chateaubriand, um dos maiores visionários da historia do Brasil inaugurava na cidade de São Paulo a TV Tupi, a primeira emissora de televisão da América Latina. De lá para cá a televisão exerce um papel fundamental e mar- cante em nosso país, tanto que hoje a TV está presente em 96% das residências brasileiras. Ela tem o poder de levar o mais variado cardápio de conteúdos até seus telespectadores e estes por sua vez resignificam essas informações da forma que melhor lhes convém. A TV se tornou um espaço público com constantes tensões e disputas de poder por: Aílton Faro quando as teorias apocalípticas anunciavam o seu fim em conseqüência do advento da internet, surge a TV Digital para mostrar que esse meio de comunicação está longe de seu fim. No Brasil as transmições da TVD tiveram inicio no dia 2 de dezembro de 2007, em São Paulo, A solenidade de inauguração reuniu a cúpula do Gov- erno Federal, as principais empresas de radiodifusão do país, políticos dos mais variados nichos. Os discursos calorosos e um vídeo promocional ditaram o ritmo da festividade. No que tange o processo de digitalização das transmições televisivas sobram duvidas do que mudou e do que real- mente pode mudar. E se para alguns o modelo adotado irá reconfigurar as relações sociais e conduzir o processo de convergência midiática, para outros muda sem mudar nada. Algo que vem gerando muita dis- cussão diz respeito ao modelo de TVD adotado pelo Brasil. No dia 26 de junho de 2006 o presidente Luiz
    • ÁsiaKi 23 Inácio Lula da Silva decidiu por decreto que o Brasil adotaria o sistema de modulação de TVD do Japão, o ISBD-T, para servir como base do Sistema Brasileiro de TV Digital. Estavam na briga também os modelos ATSC dos Estados Unidos e o Europeu DVB. Além de consórcios financiados pelo governo (conduzidos pelo De acordo com o Prof. Dr. CPqD e Anatel, e pela SET/Abert, esta ultima ligada Evaldo Gonçalves Pelaes, do as radiodifusoras) envolvendo diversas instituições de curso de pós-graduação em pesquisa para desenvolverem um sistema brasileiro e telecomunicação da UFPA, também analisar, caso implantados, qual dos modelos o ISBD-T foi o modelo estrangeiros se adaptaria melhor às condições do país. que melhor se adaptou as Mas por que foi escolhido o modelo do Japão? condições geoclimáticas e . O ISBD-T é o único modelo que já oferece porta- ao relevo do país, apesar das bilidade, ou seja, que possa ser transmitido à aparelhos diferenças em relação ao moveis como celulares e leptops, e sem custo ao usuário. Japão Outro motivo considerável para a escolha desse modelo foi a dispensa do pagamento de royalties. Já entidades como o INTERVOZES “Coletivo Brasil de Comuni- cação Social” argumentam que o principal motivo por essa escolha se deu por conseqüência da enorme pressão que a Rede Globo e as outras radiodifusoras fizeram em defesa do japonês. A professora da Faculdade de Comunicação Social da UFPA Maria Ataíde Malcher esclarece que a Rede Globo promoveu audições e pesquisas para saber qual modelo seria o melhor,de acordo com os seus interesses, e que mudanças poderiam ocorrer nesse processo de migração digital. “Para a Globo o padrão japonês é mais interessante por conta da alta qualidade das imagens e do som e por motivos mercadológicos. O ISDB permite A TVD pode ainda oferecer às emissoras de TV disponibilizarem sua programação outros tipos de serviços aos receptores moveis como celulares sem a necessidade como: acesso a internet, de encaminha-las antes às redes de transmissões das informações sobre o clima/ operadoras de celular”, esclarece a professora. O que temperatura, resenhas deixaria as teles de fora de um negócio de cerca de 100 de filmes, detalhes da bilhões de dólares. Gerando certo descontentamento programação e a tão sonhada dessas empresas em relação ao governo. Esse valor pode interatividade. explicar a dispensa dos royalties pelo governo japonês pelo uso de sua tecnologia, pois o contrato assinado por Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores do Brasil e por Taro Aso, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, prevê a construção de uma indústria de semi- condutores com capital japonês. O que gerou um outro descontentamento com o governo, dessa vez por parte
    • 24 ÁsiaKi das empresas que trabalham com a indústria de semicon- dutores aqui no Brasil. O que muda na forma de se fazer TV no Brasil? Muito se argumenta em relação ao fato de nós viver- mos em uma sociedade das imagens. Em certa medida a televisão é o espelho dessa sociedade. E quando se fala em alta definição quer dizer que um maior número Mudanças de detalhes se tornam perceptíveis. “Nas audições pro- Segundo o professor Evaldo movidas pela Rede Globo foram exibidas cenas de um Pelaes “A TV Digital possui mesmo programa nos padrões analógico e digital a fim uma tecnologia bem mais avan- de estabelecer as diferenças entre eles. Se na TV analógica çada; uma definição bem maior o rosto da Fátima Bernardes parece perfeito, na digital das imagens. Em quanto na TV sobram rugas e marcas de espinhas, se nos comerciais analógica a resolução média é de cerveja as modelos exibam seus corpos esculturais, de 480 linhas com um formato agora aquela celulite inocente, a estria quase invisível de (4:3), na digital é de 1.080 pode se tornar um grande incomodo, principalmente linhas e no formato widescreen para quem quer transparecer perfeição. E isso demanda (16:9), possui cores mais níti- muitas mudanças: na maquiagem, na composição dos das, com seis canais de som cenários, na forma física dos atores”. - Dolby Digital, já o analógico As transmissões da TV Digital no Brasil tiveram inicio no suporta apenas dois - mono e final do ano passado. Inaugurações de emissoras de tele- estéreo”. visão e de inovações tecnológicas as vésperas de grandes Ainda é cedo para afirmar que eventos esportivos, tipos de serviços a respeito da como Ólimpíadas e interatividade serão realmente Imagem: Google Copas do Mundo, disponibilizados no Brasil. Essa não é nenhuma novi- característica da TVD é um dade no Brasil. Era processo que ainda está sendo prática corriqueira estudado não só em nosso país no período da Ditadura mas também em outros onde já Militar. Por isso nem foram implantados e que ainda a tecnologia pela téc- irão implantar, como a China, nica nem a tecno- que até o final de 2008 pretende logia pelos grandes iniciar as suas transmições de latifúndios da ra- TVD. diodifusão poderão consolidar o direito a uma comunicação democrática. Por isso discutir com a população e dão- lhes condições de aceso a essas tecnologias, será sempre o melhor começo para novas eras.
    • ÁsiaKi 25 Os quimonos de Belém Foto: Google Início agitado de uma manhã em Kyoto, no Japão. No seio da turba de ternos, blazers e calçados mod- ernos ocidentais que flutuam pelas ruas envolvendo seus usuários, uma senhora caminha apressada trazendo pelo braço direito uma jovem, provavelmente sua neta, ambas vestindo finos e coloridos kosodes. Há cerca de 30 anos, estas vestes representavam a superfície da alma japonesa por Felipe Cortez Hoje, porém, cederam espaço à criatividade dos es- tilistas de Nihon e de vários cantos do planeta. “A coisa para se vestir” (significado literal de kosode), entretanto, sobrevive como vestuário padrão das reuniões mais for- mais e tradicionais da família japonesa. Em pensar que, há um século, o kosode chegou ao Brasil com outro nome, vigorante até hoje. Seria ela Kimono, palavra resultante das transformações advindas da reabertura japonesa ao Ocidente, no século XIX. A original kosode, entretanto, designa os belos e finos trajes que marcaram atores soci- ais da história japonesa por mais de um milênio, quando Kyoto virou capital do Império Nipônico. A versão aportuguesada quimono, por sua vez, rep- resenta não apenas a tradicional veste japonesa, como também os trajes típicos de artes marciais como o Karatê e o Judô. Trata-se, na verdade, do primeiro significado ao qual a palavra quimono remete no estado do Pará. A tradicional veste é rara em Belém, podendo ser observada
    • 26 ÁsiaKi em algumas reuniões da comunidade nipônica local. E não havendo muitas lojas especializadas em sua comercialização nessa região do Brasil, é comum que muitos quimonos sejam importados dos estados de São Paulo e Paraná, principais pólos da cultura japonesa no Brasil, ou até mesmo do Japão. Mas há na Cidade das Mangueiras quem se inspire no kimono para recriar a moda. A sofisticação milenar do quimono pode ser observada desde as primeiras coleções da grife Manufatura, criada em 2005 pelas estilistas Izabela Jatene e Milene Fonseca. Naquele ano, as paraenses resolveram fazer releituras dos padrões do kimono, utilizado como referência para a criação de trajes adaptados ao clima local e estampados à moda brasileira. Assim, Izabela e Milene criaram outras formatações do quimono, como vestidos e blusas de uma só camada, agradáveis nos costumeiros 28º C de Belém, além de serem muito mais leves e práti- cos do que os antigos quimonos de 12 cama- das do Japão Feudal. “O que fizemos foi dar um grande ‘quê’ de brasilidade Foto: Felipe Cortez nesses quimonos, quando você dá a cor, a estampa”, explica Izabela. A brasilidade a que a estilista se refere não está presente apenas no colorido dos quimonos que desenha com Milene, mas ao próprio formato que o traje ad- quiriu no panorama climático do Trópico Úmido. Izabela conta que o trabalho desenvolvido com estampas é também influenciado pela própria cultura japone- sa. “O Japão é extremamente colorido. E hoje, se você for analisar a sociedade japonesa pós-moderna, verá que ela é mais colorida do que antes. Então eles [os estilistas japoneses], e até nós, vamos buscar essas cores nas referências ori- entais, inclusive religiosas”, diz. Izabela conta que seus quimonos sempre sofrem alterações na forma entre uma coleção e Isabela Jatene, além de estilista, le- eoutra, devido à ânsia ciona no curso de ciências sociais na
    • ÁsiaKi 27 O QUIMONO ATRAVÉS DAS ERAS Heian (794-897) Edo (1603-1868) Paz, fartura para as elites e a arte Se virasse filme, se chamaria a se desenvolvendo plenamente. “Supremacia Kosode”. Neste Esse foi o terreno fértil para o período o kosode, até então surgimento oficial dos primeiros limitado às mulheres, conquistou kimonos japoneses. Os nobres a macharada a partir de usavam sokutai, conjunto com adaptações de tamanho e temas. O mangas e caudas largas que, à desenvolvimento e popularização época, só perderia em pompa para de movimentos culturais como os juni-hitoes, kimonos formados o teatro Kabuki só aumentaram por conjuntos de 12 camadas a moral do kosode, que viu o que davam um aspecto singular nascimento de um famoso irmão, o –difícil encontrar um adjetivo para furisode, kimono de manga longa expressar tal beleza- às cortesãs da usado por gueixas como ferramenta corte imperial japonesa. de sedução. Data daí a consolidação do kosode como veste padrão dos japoneses. Kamakura (1185-1333) Todo militar odeia frescura –a Meiji (1868-1912) exceção dos bofes de elite da Aí avacalhou. Nesses tempos o vida. Não é a toa que, durante Japão se abriu para o Ocidente e o surgimento da classe militar este chegou ao arquipélago com dos Samurai, os quilos e mais tudo o que tinha direito: ternos, quilos de pano de sokutais e gravatas, sapatos de couro e juni-hitoes perderam a vez vestidos dos mais variados. para os hitatares (homens) e Governo japonês viu aquilo kosodes (mulheres), conjuntos e gamou, né? Decretou que mais simples com mangas todos os funcionários públicos, curtas e saiões flexíveis militares e civis deveriam usar chamados hakamas, mas trajes à moda do Ocidente –leia- ainda feitos a partir da seda. A se à inglesa. frescura ainda sobrevivia. Muromachi (1338-1568) Showa (1926-1989) Constantes batalhas pelo O processo se intensificou ainda mais fragmentado poder do arquipélago após a segunda guerra, quando o fizeram deste período o mais derrotado Japão conheceu um aliado um sanguinolento da história japonesa. tanto culpado por brincar de cowboy No meio de todo o quebra pau, com bombas atômicas: Os Estados os caras inventaram de trocar a Unidos. Os estilos de kimono ficaram seda dos hitatares pelo linho, o que menos complexos e a distinação entre resultou no suô e no daimon. A wafuku (roupas japonesas) e ifuku mulherada, por sua vez, manteve o (roupas orientais) ficou mais clara. kosode no topo da parada de veste padrão. Crédito das gravuras: The Book of Kimono
    • 28 ÁsiaKi por exclusividade da clientela. “Como a gente mistura muito tecido, nenhuma peça fica parecida com outra”. A demanda, que exige a manutenção mensal de cinco a seis peças nos cabides da Manufatura, é interpretada por Izabela de dois modos: o antropológico e o da moda. O Ocidente se apropria de “O Brasil tem uma relação com a cultura oriental muito algumas referências da cultura forte, não só a partir da lógica migratória”, lembra. A oriental, pois há uma relação estilista entende que a contemporaneidade, também com as pessoas que chegaram reclama uma resignificação de valores, o que trouxe à aqui, culturalmente falando, e tona os valores da cultura oriental, sobretudo as filosofias também porque o ser humano espirituais orientais, o que, por sua vez, estreitaram os está para o consumo assim vínculos culturais não só entre Brasil e Japão, mas entre o como está para a lógica do Ocidente e o Oriente, em uma ótica mais abrangente. “O belo, porque ele acha bonito, meu princípio de vida é o budismo. A partir dele eu tento porque ele internaliza algumas resignificar uma série de coisas na minha vida. A própria coisas. Dentro dessa grande filosofia budista vem crescendo no mundo inteiro, e não miscelânea pós-moderna, vem crescendo à toa. Isso acontece porque ela realmente você tem várias referências repensa os significados do consumo, da alimentação e culturais postas e você vai da vida cotidiana a partir de uma lógica que não é uma apropriando isso de diversas lógica do outro, mas uma lógica de você mesmo”. formas É bem provável que a esta altura da matéria você esteja louca (o) para ter um quimono. Mas antes de sair em busca do traje pela Internet ou até mesmo de fazer uma visita às estilistas da Manufatura, é bom ter uma idéia do quanto custa essa verdadeira iguaria da moda mundial. A reportagem pesquisou preços de quimonos em diversas lojas Foto: Google e a uma conclusão chegou: encontrar quimono bom e barato é tarefa para difícil. Em alguns sites é possível encon- trar quimonos entre US$ 80 e US$ 150. Por aqui, a releitura dos quimonos da Manufatura, dependendo do formato, se blusa ou vestido, custam entre R$ 120 e R$ 160. Nada mal para o similar de um original que pode chegar aos salgadinhos US$ 40 mil. A apropriação cultural muitas vezes passa despercebida, encoberta por um desejo pelo que é belo. Kosode ou ki- mono, “made in Japan” ou “du Pará”, a peça encanta gerações de mulheres de todas as etnias e mesmo que não seja a mais indicada para se usar no calor de Belém, vale experimentar.
    • ÁsiaKi 29 A Viagem de Fantástico, sensível e empolgante. Imagem: Google Assim podemos começar a descrever o filme “A Viagem de Chihiro”. Amantes do gênero Animação/Aventura gostaram do filme, principalmente por prende o espectador até o final feliz, que apesar de doce, não é “meloso”. por: Killzy Kelly A personagem principal do filme é Chihiro, uma garota de 10 anos que acredita que todo o universo deve atender aos seus caprichos. Após seus pais lhe contarem que vão mudar de cidade, ela fica furiosa, e não faz nenhum esforço para esconder sua raiva. Durante a viagem de mudança, completamente absorvida pelas lembranças dos amigos que estão ficando para trás, Chihiro percebe que seu pai se perdeu no cidade aparentemente sem nenhum habitante. Famintos, os pais da garota decidem comer a comida que está disponível Imagem: Google
    • 30 ÁsiaKi em uma das casas, enquanto a menina explora a cidade. Entretanto, logo ela encontra com Haku, um garoto que lhe diz para ir embora o mais rápido possível. Ao reencontrar seus pais, Chihiro fica surpresa ao ver que eles se transformaram em gigantescos porcos, en- quanto que misteriosos seres começam a surgir do nada. É o início da jornada da garota em um mundo fantasma, povoado por seres fantásticos, no qual humanos não são bem-vindos. Sua estadia nesse lugar mágico não é gratuita e muito menos de aventuras cheias de flores ou príncipes. Logo ela começa a trabalhar numa casa de banhos, onde o trabalho é grande, exaustivo e nem um pouco compensador, mas para Chihiro isso é apenas uma parte do seu aprendizado, não de afazeres domésticos, mas de como ser uma criança mais humana, generosa e compreensiva. Foto: Google Extras que valem a pena Após ver o filme é quase con- seqüência pular para os extras, e nele o material é fundamental para conhecer mais como o filme. São mostradas todas as etapas de produção dos desen- hos, da história e da animação. O foco principal, entretanto, é para o prazo apertado que o diretor e roteirista Hayao Miyazaki teve para concluir o filme. Não se sabe ao certo o porquê, mas o apuro técnico pode ser uma das explicações, já que os desenhos são no mínimo impecáveis. Ao contrário do que se pensa, japoneses tem problemas com tempo e projetos como o restante de nós, mortais. Lançado em 2001, com 122 minutos de duração, o filme de Miyazaki é uma produção de sete estúdios. No Oscar 2001 era um dos favoritos a Melhor Filme de Anima- ção e de fato levou a estatueta pra casa. Recebeu uma indicação ao BAFTA e ao Cesar, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas foi ao ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim que realizou sua grande façanha já que se trata do primeiro longa-metragem de animação a ganhar o prêmio.
    • ÁsiaKi 31 Yosakoi Soran: arte e dança oriental Quarenta braços ágeis atiram redes de pesca imaginárias ao ar. Os pés, em igual número, conduzem com harmonia pescadores dançarinos que vibram a cada “dokaisho! dokaisho!” e “soran! soran!”. por Felipe Cortez No salão da Associação Nipo-Brasileira, o público que contemplava esta seqüência de movimentos pela primeira vez pasmou e aplaudiu. A cena, ocorrida em 2005 em Belém, certamente pode ser observada em outras cidades brasileiras onde um grupo de Yosakoi Soran tenha feito sua primeira apresentação Oficialmente criado em 1992, o Yosakoi Soran é uma das mais populares manifestações da recente e expansiva cultura popular japonesa. Naquele ano, em uma viagem a província de Kochi, ao sul do arquipélago nipônico, estudantes de Hokkaido, cidade do Norte japonês, con- heceram a dança Yosakoi Naruko, que expressa o amor entre um monge e uma mulher. De volta a Hokkaido, os jovens decidiram fundir o Yosakoi Naruko com o Soran Bushi, outra dança tradicional do Japão, que enaltece a força dos pescadores do Norte do país. Não demorou muito para que o híbrido pop resultante da fusão destas danças ganhasse força na terra do sol nascente e ultra-
    • 32 ÁsiaKi passasse seus limites geográficos, chegando a cidades de todos os continentes, como Belém. A cada apresentação na cidade das Mangueiras, os gru- pos de Yosakoi ganham novos componentes, desejosos de conhecer mais uma expressão artística de uma cultura que abre os braços ao paraense e que vai comemorar, em 2009, oitenta anos de enraizamento no estado. Sim, esta é a idade que a imigração japonesa no Pará –ou melhor, na Amazônia- está prestes a completar. Diferente do que ocorre com boa parte da chamada cultura pop japonesa, muitas vezes “baixada” via Internet –como ocorre com as animações japonesas-, o Yosakoi Soran aqui chegou através de um nipônico de carne e osso. Em 2004, Momoe Omura, professora de japonês nascida em Hokkaido, veio para um intercâmbio de dois anos com a escola Novo Mundo, na capital paraense, onde ensinou os passos da dança a crianças das turmas de língua japonesa. “Como todos os anos a escola promove um festival de cultura brasileira e japonesa, ela ensinou as crianças das turmas de japonês a dança Yosakoi Soran e Foto: Felipe Cortez
    • ÁsiaKi 33 Foto: Felipe Cortez tivemos a idéia de passar também passar para os alunos jovens apren- derem”, conta Mônica Honda, coordenadora do grupo Shinsekai, que, em português, significa Novo Mundo. O Yosakoi Soran do Shin- sekai conta com 36 integrantes ensaiando regularmente, durante as manhãs de sábado. “Yosakoi Soran constitui-se essencialmente de uma sincronia de movimentos simples, em geral, baseados no cotidiano dos pesca- dores. Também é interessante a necessidade de um grande numero de pessoas (no Brasil os grupos costumam ter entre 30 e 40 pessoas, e no Japão, passam de 100 pessoas por grupo) para apresentações, posto que o efeito visual da sincronia torna-se mais evidente, algo que acentua a beleza da dança”, diz Igor Almeida, também membro do Shinsekai. Segundo grupo de Yosakoi Soran fundado em Belém, Há quem diga que a dança o Yui, da escola Kyoto Oti, cresce junto com o interesse agrada pela simplicidade dos do paraense pelo Oriente. Yui significa união e nomeia movimentos e pela disciplina o grupo fundado em 2007. Com pouco mais de um ano que desperta. de existência, o grupo aproveita os eventos comemora- tivos do centenário da imigração japonesa no Brasil –a exemplo do que também faz o Shinsekai- para congregar novos dançarinos, como é o caso da estudante Agrícia Pimenta, de 22 anos, que começou a aprender Yosakoi Soran em uma das oficinas festivas da Kyoko Oti. “Meu namorado é japonês, então já tenho um certo contato com essa cultura. Mas foi num evento, o Amazônia no Matsuri do ano passado, que vi a dança e fiquei admirada. Quando vi no jornal que tinha uma O fortalecimento dos grupos oficina ensinando Yosakoi Soran, pensei que não podia de Yosakoi Soran em Belém perder a chance de aprender”. Agrícia desconhecia a jovi- é condicionado pelo interesse alidade do Yosakoi Soran até se deparar com a professora crescente do brasileiro por da dança, cinco anos mais jovem que a aprendiz. Caro- um Oriente cada vez mais lina Loureiro, 17 anos, aprendeu a dançar no início de próximo. 2007 e com dois meses de treinos já ensinava o Yosakoi Soran. “Já havia tido contato com essa dança em outra escola de japonês. Mas aqui, na Kyoko Oti, um profes- sor mostrou um vídeo de Yosakoi pra gente. Muitos gostaram e começaram a ensaiar. Hoje nosso grupo tem
    • Foto: Felipe Cortez 34 ÁsiaKi cerca de 20 componentes regulares, número que aumenta a cada mês. Muitos deles já faziam japonês e resolveram participar, até porque é de graça, ninguém paga mensali- dade pra aprender Yosakoi”. O ensino do Yosakoi Soran é gratuito nos dois grupos de Belém. Entretanto, se o dançarino pensa em participar das apresentações do Shinsekai ou do Yui, precisa mandar fazer a própria roupa, que custa de R$70 a R$100. Ser convidado para novas apresentações e receber integrantes é o reconhecimento a um trabalho intenso de divulgação da cultura japonesa no Pará. Para corre- sponder a isso, os dançarinos das escolas Novo Mundo e Kyoko Oti tentarão levar o estado aos lugares mais altos do pódio do 6º Festival Yosakoi Soran, que vai reunir 40 grupos de todos o Brasil em São Paulo no dia 27 de julho e distribuir R$20 mil em prêmios. Enquanto o festival não chega, os grupos aproveitam cada evento da comunidade nipônica local para atiçar a coceira da curiosidade de pes- soas de toda Belém. Contudo, independente da posição alcançada no concurso na Paulicéia, o Yosakoi Soran de Belém só tem a crescer até 2009, quando a presença do japonês na Amazônia completa oito décadas e muitas festas em homenagem a ocasião devem querer, entre suas atrações, o híbrido pop de Hokkaido. Foto: Felipe Cortez
    • ÁsiaKi 35 Tradição e modernidade: literatura japonesa Por mais de séculos a cultura oriental, com seus mitos e lendas, instiga a mentalidade do Ocidente. Dragões, samurais e gueixas, personagens que chegam à imaginação contemporânea por meio de suas histórias repassadas de boca-em-boca seja pela literatura O popular ou pela tradicional. por: Paula Catarina século III foi o período inicial em que a cultura japonesa passou por uma forte influência estrangeira. Os carac- teres chineses preencheram a lacuna fonética que os ideogramas – símbolos que representam somente idéias e não sons – como os kanjis, deixavam. Assim como a nossa literatura, a literatura japonesa é dividida em fases, porém os períodos são denominados de acordo com o nome da capital do Império. O Kojiki, que é “O Registro de Assuntos Antigos” e data de 712 d.C., é uma das obras mais antigas. A Manyoshu (Miríade de flores) também Foto: Google faz parte dos clássicos dessa literatura e é a mostra de uma diversidade de textos escritos por vários membros das classes sociais japonesa, de membros das classes mais populares a imperadores. Kakino- moto no Hitomaro, membro da aristocracia do período Nara, é considerado o poeta representativo do Manyoshu, nele escreveu
    • 36 ÁsiaKi alguns chokas ou poemas longos. A segunda fase da literatura compreende-se no período Heian, quando a capital passou de Nara para Heian-kio, O Livro de Cabeceira (The “Capital da paz”, atual Quioto. O período que durou Pillow Book) de 794 a 1192, é marcado pela autenticidade feminina e Por Suanny Costa como obra de destaque, Gengi Monogatari ou “Histórias Com certeza ao terminar de Gengi” é reconhecido como o primeiro grande ro- de ver um filme, a primeira mance do mundo. Escrito pela dama da corte Murasaki coisa que lhe ocorre são Shikibu, o trabalho contém 54 volumes, e descreve a palavras que o sintetizam. subjetividade e a elegância da aristocracia japonesa, na Ás vezes saem “fantástico”, batalha entre as famílias Tara e Minamoto. As mulheres, “ruim”, “fraco”, durante esse momento, tiveram voz nos poemas em “emocionante”. Mas não prosa. Entres essas contadoras de história, Sei Shônagon se apavore se após assistir mostrou sua sutilidade feminina e leveza na obra Makura “O Livro de Cabeceira” no Soshi ou “Livro de cabeceira”. Com humor e realismo (Pillow Book, 1996), de a história consegue descrever o elegante cotidiano da Peter Greenaway, essas corte japonesa. palavras que simplificam Enquanto o período apresentava um forte toque das as coisas não aparecerem damas, e as mulheres ficaram encarregadas de registrar e no lugar delas estar uma as glórias da época, “os homens se preocupavam em mistura de sentidos como escrever em chinês assim como os europeus se preocu- tradição, paixão, sedução e pavam em escrever em latim, como forma de erudição”, desejo. segundo uma pesquisa da The International Society for Edu- O filme faz juz ao gênero cational Irformation. drama ao contar a história O final do período foi marcado por violentas batalhas da jovem Nagiko, que vive e guerras internas, o governo começava a ser dominado em Kiotto, no Japão dos pelos guer reiros anos 70, e comemora o Foto: Google samurais ou saburais seu aniversário com um (que vem do verbo estranho ritual. Seu pai sabu, “aquele que escreve em seu rosto uma presta serviços”). benção, “Ele (Deus) pintou Com o surgimento os olhos e a boca e assinou de uma nova classe, o próprio nome para que o os guerreiros samu- dono jamais o esquecesse”, rais tomaram o lu- enquanto sua tia lê “um gar do antigo herói livro de cabeceira” escrito cor tesão. Como por Sei Shonagon, uma reflexo do trágico japonesa do século X. período de batalhas, Nagiko cresce entre a literatura medieval livros, papéis e escritas em tornou-se nostálgica corpos nus, que se repete e passou a tratar como um ritual a cada ano. sobre temas como A perda do pai vai marcar a efemeridade da toda a trajetória
    • ÁsiaKi 37 vida humana. Destacou-se nesse contexto uma coleção de versos, de aproximadamente dois mil poemas, a Shin de Nagiko no filme: “Em Konkinshu, autorizados pelo imperador. A obra mostra memória de meu pai como o Japão tinha caminhado para a sua Era Medieval. e de Sei Shonagon, eu O gênero também teve influência da literatura kana e teria amantes que me inspirou uma das mais famosas representações teatrais, lembrassem o prazer da o Kabuki. caligrafia”, “gostaria de Em 1858, a indústria tecnológica começava a avançar, honrar meu pai tornando- e o Japão passou por uma fase de restauração, conhecida me escritora”. como Era Meiji. A literatura neste momento sofria as con- A grande mudança na seqüências de todo uma influência do oeste do mundo, história do filme se dá pois o país abria-se para um novo horizonte, em que o quando Nagiko descobre lema utilizado era “moral asiática e tecnologia ocidental”. que o editor para quem Em 1878, foi feita a primeira tradução japonesa de um seu pai trabalhava havia romance europeu, e nas próximas décadas as traduções traído-o. Ela começa uma passaram a crescer rapidamente. Escritores como Futabei vingança escrevendo treze Shimei, com a obra Ukigumo- “A Nuvem livros-corpos mensageiros Levada pelo Vento” revitalizou a literatura realista num que tratam sobre desejo, romance progressista e sarcástico, nele o escritor criticava traição, amor, sedução, o pensamento feudal remanescente, e como a civilização prazer, vingança, vida, japonesa estava respondendo às influências internacio- e envia-os ao editor. nais. Depois da guerra russo- japonesa que durou de Até mesmo o tradutor e 1904 a 1905, os autores se sentiram inspirados com a amante, Jerome, é enviado vitória e a literatura avançou impetuosamente. Mori Ogai por Nagiko. O último livro e Natsume Soseki, ficaram conhecidos como os maiores é o livro da morte, corpo romancistas do modernismo nipônico. Outros nomes de um samurai em que também se destacaram na poesia e nas narrativas como o editor lê sua própria Shimazaki Toson, Shiga Naoya, Tanizaki Junichiro e Yosano sentença de morte. Akiko. Contudo, o que Nagiko Hoje graças as seus temas universais e a toda sua gama menos espera é que de tradição secular, a literatura chega mais frequent- encorajado por um amigo emente às portas ocidentais e escritores como Tanizaki Jerome forjasse uma Jun-ichiro. Kinkakuji - O Templo do Pavilhão Dourado cena de Romeu e Julieta, - é um dos romances que chegam as prateleiras das bebendo a própria tinta da bibliotecas domésticas mundo a fora, e conta a história caligrafia, que misturada a de um jovem sacerdote enlouquecido que incendiou um uma dose de pílulas o mata. templo em Quioto, além de ser baseado em fatos reais. Depois da morte do editor, Nigen Shikkaku - Não mais humano - de autoria de Dazai pai, amantes, não há mais Osamu expõe como foi forte a influência norte-americana livros-corpos, mas o parto nesse novo jeito de escrever, e críticas são feitas a obra, de um bebê e a confissão de que mostra uma cultura de tradições banhada por in- estar preparada também fluências externas. para o parto do seu próprio livro de cabeceira.
    • 38 ÁsiaKi O Caminho mais suave: história e ideologia do judô “Eu não entendi direito não. Só sei que achei muito firme. Tinha um monte de cara voando por cima das árvores, se equilibrando em galhos, e dando socos em câmera lenta... Muito doido!” por: Abílio Dantas Foto: Abílio Dantas Não é raro comentários como esse citado acima serem feitos sobre as lutas em filmes orientais. Com certeza você já fez ou ou- viu algum parecido, não? A beleza e as particularidades dos movimentos das artes marciais retratadas nesses filmes sempre foram obje- tos de fascínio do ocidente. Desde as crianças e jovens fãs de animes sobre samurais e guerreiros sobrenaturais, até os mais velhos em busca de longevidade, muitos já tiveram algum contato com elas, ou ao menos uma pequena curiosidade. Tanto que o número de praticantes no Brasil e no mundo só aumenta com o tempo. Porém, o elemento essencial destas artes corre o risco de ser deixado de lado. Diante da exuberância dos códigos e técnicas pertencentes às lutas, os praticantes podem esquecer ou não darem a importância devida às origens e fundamentos de todas elas: as suas ideologias. Cada uma tem a sua, não se engane não. Não é à toa que alguns lutadores de kung fu imitam os movimentos do louva-deus, ou que os “karatecas” emitem gritos após os golpes. Atrás de tudo isso existem conjuntos de idéias próprias com visões e objetivos filosóficos específicos.
    • ÁsiaKi 39 Princípios da arte de Jigoro Todos, sem exceção, tão fascinantes quanto os vôos e *Princípio da Máxima chutes do Bruce Lee. Eficácia do Corpo e do Espírito Nesta matéria trataremos um pouco do judô ou , como (Seiryoku Zen’Yo): Baseia-se nos indica a sua etimologia, (ju = caminho, do = suavi- principalmente no respeito dade) o “caminho da suavidade”. Este esporte tem uma e cuidado que devemos ter ideologia tão presente em sua própria prática, fundamen- com aprimoramento do tada em mobilizações e projeções, que analisá-las separa- nosso corpo. E aplica-se damente torna-se impossível. Vamos à sua história. não só ao esporte, mas em qualquer atividade da nossa Sábia natureza vida. Qualquer movimento Japão, 1882. A primeira academia de judô é inaugurada deve ser importante e em Tóquio e após cem anos terá...Bem, não sejamos tão nunca disperdiçado, para o apressados. A história do judô começa bem antes de tudo autoconhecimento e também isso. E a partir de uma típica lenda oriental. Uma lenda o de todos à nossa volta. E que deu origem ao estilo de luta Yoshin-Ryu (Escola do este movimento só atingirá a Coração do Salgueiro), e que ,por sua vez, levou Jigoro sua máxima eficácia quando o Kano a definir as diretrizes de sua “invenção”. nosso corpo e nosso espírito Shirobei-Akyama era um médico e filósofo muito estiverem preparados. preocupado com os males do mundo. Na verdade, não * Princípio da Prosperidade e exatamente com os males, mas, sim, com as suas causas. Benefícios Mútuos (Jita Kyoei): Após muito refletir, ele concluiu que a má utilização do Quando vemos a conduta dos corpo e do espírito era a resposta, porém ainda não sabia atletas nas competições oficias como aplicá-la para chegar a uma solução.Através dos e percebemos o respeito com estudos de acupuntura, taoísmo e de técnicas terapêuticas que se tratam, é este princípio chinesas, ele elaborou uma hipótese e passou a ensiná-la que prevalece. Ele nos aos seus discípulos.Baseava-se puramente na aplicação mostra que ninguém atinge a do mal contra o mal, da força contra a força, e a aplicava sabedoria sozinho, mas sim a tanto na medicina quanto nas lutas. partir do convívio e troca de Usada em doenças simples e oponentes comuns sua conhecimento com o outro. teoria funcionava. Porém, quando enfrentava adversários *Princípio da Suavidade mais fortes e males complexos não surtia efeito algum. (Ju): Diretamente herdado Logo seus alunos o abandonaram e sua credibilidade foi da Escola do Coração do reduzida à zero. Derrotado, Shirobei se retirou durante Salgueiro, este princípio cem dias em um templo e meditou incansavelmente em basea-se no aproveitamento busca de uma resposta. das forças contrárias, como o “Opôr uma força à outra só é vantajoso se a força adversa salgueiro ao enfrentar a neve. for menor que a minha”, disto o médico tinha certeza, Reflete-se no uso do princípio mas só isto não bastava. A resposta só viria soprada pela das alavancas presentes em natureza, bem de leve, no vento. muitos golpes de projeção. Um dia, enquanto Shirobei passeava contemplando o O próprio Jigoro Kano jardim que entrava na estação do inverno, chamou-lhe possui um discurso famososo atenção o rangido de pequenos galhos que quebravam explicando o Ju. por tentarem resistir ao peso da neve. Ao lado havia um velho salgueiro. O médico analisou a árvore cuidadosa-
    • 40 ÁsiaKi mente e percebeu que seus galhos não quebravam como os outros. O salgueiro não enfrentava impunemente a força da neve. Hum...Interessante. Ele apenas curvava-se ao máximo à medida Foto: Abílio Dantas que o oponente armazenava-se em seus galhos, e esperava até que este deslizasse e caísse no chão, derrotado. Tão derrotado quanto os pequenos galhos valentes. Nascia então um dos lemas fundamen- tais do judô, um dos sentidos inaugurais desta arte: o princípio da suavidade. Aquele que diz: ceder para vencer. Jigoro Kano soube entendê-lo como poucos e defendê-lo durante toda a sua vida. Mas, afinal, quem foi esse tal de Jigoro? Excelente pergunta. Rumo ao Kodokan Quem visse aquele rapaz franzino de 1,57m de altura e pesando 40 kg, treinando em uma tarde qualquer no Japão, nunca iria imaginar que ele se tornaria um dia o fundador de uma arte marcial. Até então, as lutas eram muito associadas a homens de grande estatura e força física, pois a prática do Jiu-Jitsu ou Jun-Jutsu era a mais difundida e encontrada em estabelecimentos de ensino e de poder, como o exército e a polícia. Aluno de mestres do jiu-jitsu , como Hachinosuke Fukuda e Tsunetochi Iikubo, Jigoro não se identifi- cava com esta atividade. Por mais que se Foto: Abílio Dantas esforçasse, nunca chegaria à perfeição, pois precisaria se tornar uma outra pessoa. Começou, então, a questionar-se sobre o papel de uma arte marcial. O homem deve servir a ela ou ela deve servir a ele? Resolveu ficar com a segunda hipótese. E assim, utilizando também técnicas variadas do jiu-jitsu, a sua “invenção” foi tomando forma. Surgia o judô. Agora, sim! Japão, 1882. A primeira academia de judô é inaugurada em Tóquio e após cem anos terá transformado o esporte no mais praticado do país. Pre- sentes em todas as escolas e também na polícia oficial. O estilo e a academia de Jigoro Kano chamou-se Kodokan
    • ÁsiaKi 41 ( Ko= fraternidade, Do= caminho, Kan= instituto), e seus três princípios estão sempre refletidos nos golpes e movimentos da luta. Após a segunda guerra o judô espalhou-se. Em 1952, fundou-se a Federação Internacional de Judô em Paris, com 29 países- membros. Judô no Brasil “O judô entrou no Brasil em 1908, quando o senhor Mitsuya Maeda veio e se radicou no Pará, inclusive. O judô no Brasil, coincidentemente, começou aqui. Tanto que o corpo dele (Mitsuya) foi sepultado em Belém. Se você entrar na nave principal do cemitério Santa Isabel, no meio, à direita da capela, está a Foto: Abílio Dantas sepultura dele.”O professor Fer- nando de Jesus, responsável pela disciplina Teoria e Métodos das Lutas na Universidade Estadual no Pará (Uepa), é que nos conta esse fato tão pouco conhecido. Ele tam- bém nos fala que após desembarcar em Santos e passar um tempo em Manaus e Porto Alegre, fazendo exi- bições da arte marcial, o Sr. Maeda (também conhecido como Conde Coma) envolveu-se com uma moça e acabou casando-se em Belém. Após um tempo, desenvolveu aca- demia e fixou-se na cidade. Em 1938, a chegada de um grupo de nipônicos liderados por Riuzo Ogawa foi muito importante para a difusão do esporte. Eles fundaram a Academia Ogawa e,embora, não en- sinassem exatamente o estilo Kodokan Judo, ajudaram imensamente a cultura e os ensinamentos de Jigoro Kano a serem conhecidos e estudados no Brasil. A Confederação Brasileira de Judô foi fundada em 18 de Março 1969 e reconhecida em 1972, por decreto.
    • 42 ÁsiaKi Soka Gakkay, o Budismo de uma sociedade de criação de valores por: Wellington Lima O Budismo é uma filosofia de vida fundada na Índia, no século VI a.C., por um rico príncipe chamado Sidarta Gautama. Após muito sofrimento e uma vida de tristeza, ele abandona sua esposa e seus dois filhos, e parte em busca de felicidade e paz interior. Nessa busca ele alcança o estado de “iluminação”, ou seja, ele consegue chegar ao grau de paz interior, buscado por todos os praticantes do Budismo. Desde então começa a ser chamado de Buda Sakyamuni, o “Primeiro Buda”. Foto: WellingtonLima Uma ONG (Organização não gov- ernamental) japonesa, Denominada SGI (Soka Gakkay Internacional), representa uma das principais ramifi- cações do budismo. Essa organização tem seu fundamento teórico do bud- ismo voltado para o tripé, paz cultura e educação, ou seja, ela visa princi- palmente a educação e a cultura, pois acreditam que através delas consigam encontrar a paz. A soka Gakkay pode ser entendida como uma “sociedade de criação de valores”. A ONG foi fundada em 1930, pelo professor Tsunebaro Makiguti, após se converter ao budismo de Nitiren Daishonin. Nitiren nasceu em 1922, e em 1933 entrou para o sacerdócio no templo de Seityo e começou a estudar o budismo. Em Quioto, estudou todos os sutras de Sakyamuni, e concluiu que o Sutra de Lótus é seu ensino máximo, dele extrai o ensinamento do “Nam- myoho-hengue-kyo”, que é recitado pelos membros da associação, como mantra, ou seja, é recitado diversas vezes por eles para alcançarem a paz. “Nam-myoho-hengue-kyo”, é considerado pelos
    • ÁsiaKi 43 membros da Soka Gakkay como a expressão da verdade máxima da vida e também como evidencia sua realidade essencial. Nam deriva do sânscrito e significa “devotar”, ou seja, direcionar sua vida para encontrar o estado de iluminação. Mioho literalmente significa “Lei mística”. Rengue é a lei de causa e efeito, sendo a lei budista que pode ser entendida como acumulação de “karmas”, um karma pode ser positivo ou negativo, é acumulado de acordo com as realizações do individuo na vida. Para os budistas existe um ciclo contínuo de vida, morte e renascimento, esse ciclo é definido de acordo com a As assembléias se dão acumulação de karma do individuo. E finalmente Kyo primeiro com a oração, depois significa a função e a influência da vida. a explanação dos assuntos es- Hoje essa organização está presente em 190 países, pos- colhidos previamente, ou seja, sui escolas, universidades, etc. Ao longo de sua história cada reunião é chamada uma a ONG já teve três presidentes. O primeiro foi seu pessoa para ministrar uma fundador Tsunebaro Makiguti. O segundo Jossei Toda, espécie de palestra, e depois discípulo de Tsunebaro. E o terceiro e atual presidente disso há os relatos, as pessoas Daisaku Ikeda, discípulo de Jossei Toda. vão a frente para expor suas A estudante do curso de Direito da Universidade realizações, ou para expor Federal do Pará (UFPA), Caelem Yumi Takeda, 20 anos, suas necessidades, pedindo se converteu ao budismo da Soka Gakkay aos 16 anos, em forma de oração para as- pois segundo ela, por volta dos 14, como de costume sim realizar-se. da maioria dos adolescentes, brigava muito com seus pais, e por causa disso sentia-se muito triste, e afirma que encontrou na Organização a tranquilidade e paz que procurava. “A ONG é voltada para a vida prática, ou seja, promovendo através da educação e da cultura, o ponto de equilíbrio das pessoas”, disse Caelem Yumi. Os encontros funcionam acontecem por reuniões es- pecificas, divididas de acordo com os interesses de cada grupo e faixa etária dos seguidores. Eles se dividem em Divisões Feminina (DF), onde as orações e palestras são voltadas para mulheres acima dos 35 anos, as casadas, etc. Existe a divisão Masculina (DM), direcionada aos homens casados também. Outra divisão seria a Divisão Sênior (DS), voltada para os idosos. Dentro dessas divisões ocorrem também as reuniões especificas direcionadas aos jovens. Há a Divisão Femi- nina de Jovens (DFJ), e a Divisão Masculina de Jovens (DMJ), os temas abordados são os que mais atraem os jovens.
    • 44 ÁsiaKi Acupuntura: terapia ou arma contra demônios? por: Andréa Mota O soluço, antes mesmo de ser um mau funcionamento da respiração pelo diafragma, é calo Foto: Google no pé dos desavisados. Durante décadas, criaram-se mecanismos exóticos para enganar esse mal. Algodão molhado na testa, sustos totalmente previsíveis e copos e mais copos de água. Hoje, as práticas alternativas de saúde ganharam visibilidade. Experi- mente pressionar o dedo mínimo enquanto soluça. Em instantes, o som vergonhoso cessa. Essa prática simples é a acupuntura. A acupuntura terapêutica é uma técnica de tratamento que consiste em estimular determinados pontos na superfície da pele. Entretanto, a acupuntura não se configurava como alternativa terapêutica ate antes de 90 a.C. Originaria da China, a utilização de agulhas em partes do corpo possuía outra finalidade. Segundo a medicina chinesa, há uma relação de causa e efeito entre os fenômenos correspondentes ou não. Isso significa dizer que quais- quer doenças, de maior ou menor grau que acomete o homem, advêm de um desequilíbrio das suas praticas no mundo. O vento, a umidade, ou ate a comida pode- riam, em certas condições, afetar o homem. Na Era Shang - entre 18 a.C à 16 a.C - o conceito de doença era diferenciado. Enquanto os ocidentais reme- tem doença às debilidades físicas ou mentais, os Shang classificavam como enfermidade desde uma simples
    • ÁsiaKi 45 dor de dente ate derrotas na guerra. Eles acreditavam estar sendo castigados por seus ancestrais. Por conta disso, os procedimentos preventivos e terapêuticos envolviam presentes e oferendas aos mortos. A partir de 771 a.C, a causa dos infortúnios do homem mudou. Dos ancestrais vingativos passou-se a crer na existência de demônios que perturbavam a harmonia, antes mantida pelos ancestrais agraciados com as oferendas. Com isso, cresce a importância dos Xamãs ou Shaman. Os rituais shamânicos consistiam em unir forcas com espíritos mais graduados, a fim de controlar – através de exorcismos – os demônios. Nestes rituais, os shamans utilizavam espadas ou lanças, poções, drogas medicinais, no combate ao “tinhoso”. A partir daí surge uma forma rudimentar de acupuntura, onde as agulhas tinham a forma de espadas dos exorcistas e eram inseridas ou pressionadas sobre treze pontos da superfície da pele. Porém, esta prática não tinha como objetivo tratar as doenças em si, mas expulsar e combater os demônios. Mais tarde, nasce a Medicina de Correspondência Sistemática. Segundo ela, os males não seriam causados por demônios, mas por influências e Foto: Google emanações abstratas e concretas. Assim, surge o conceito de “Qi”. Inicialmente, consistia em um “vento” causador de doenças. Com o tem- po, o conceito evoluiu de influencia malévola, para “influencias matérias sutis”. Daí surge os conceitos de “repleção” e “depleção”, onde uma seria a supremacia de influencias malévo- las e a outra, perda de influencias apropriadas ao organismo, respectivamente. De acordo com a Medicina Sistemática, a saúde e a har- monia seriam conseqüências de não haverem extravagâncias ou excessos, sejam alimentares, sexuais, morais ou climáticos. E possível entender essa medicina ao as- sociarmos seus conceitos com o contexto que ela estava inserida. Neste período, o império se integrava, surgindo grandes metrópoles. Aliado a sua expansão, há um desenvolvimento do
    • 46 ÁsiaKi comércio, dos meios de transporte e alimentação. Nasce Foto: Google um sistema complexo cujo funcionamento se da pela harmonia das partes integrantes. Com isso, a medicina de correspondência toma para si esses conceitos, mas com outra terminologia: Zang consistia nos depósitos ou órgãos e seria onde “Qi” se infiltrava; Fu, palácios por onde “Qi” passava; e, Ching-lo são os canais (ou meridianos) que uniam todo o sistema. O objetivo dessa medicina, portanto, era identificar e localizar as áreas de obstrução, deficiências e repleções. Com o fluxo de “Qi” continuo e normalizado, evitavam-se possíveis doenças. Hoje, Acupuntura Terapêutica A acupuntura terapêutica foi descrita pela primeira vez em 90 a.C. Foram descobertos, recentemente, em tumbas encontradas em Ma Wang Tui, livros que descrevem onze canais separados, onde cada um era associado a sintomas específicos. O tratamento consistia em queimar Vale lembrar, porém, que, lã de Artemísia, ou “moxa”, ou pela punção de abscessos assim como nos tratamen- feita com pedras pontiagudas. Porem, e no livro “Nei tos da medicina tradicional Ching” que se descrevem os procedimentos utilizados do ocidente, a acupuntura pela acupuntura ate nossos dias. e uma parte do tratamento. Curiosamente, o interesse da comunidade medica só Juntamente com bons hábitos foi aceso quando o jornalista americano James Reston foi alimentares, exercícios físicos tratado com acupuntura. Com isso, a medicina tradicional diários e moderados, além de se interessou pelo uso da acupuntura como analgesia em outros procedimentos, a acu- cirurgias. Assim, proliferou-se o numero de clinicas que puntura pode ser eficaz. utilizaram a pratica como terapia a dores crônicas. Com isso, a acupuntura e a medicina chinesa de forma geral passaram a ser objeto de estudo da medicina tradicional do ocidente. Entretanto, ainda há resistência de uma parte da comu- Foto: Google nidade científica. Muitos afirmam que as agulhas agem, no máximo, como placebo. A falta de comprovação científica da alternativa também reforça a noção de que o procedimento não passa de uma ilusão psicológica. Os defensores, porém, derrubam este último argumento através de resultados eficientes da acupuntura nas práticas veterinárias. Independente dessa lacuna científica, a acupuntura já faz parte da vida ocidental. Acupuntura estética, anal- gésica, espiritual – na estabilização de diabetes – e até no tratamento da obesidade, são meios já autenticados por grande parte das pessoas no mundo.
    • ÁsiaKi 47 Realidade Aumentada Você já teve vontade de entrar em um jogo de computador? Ou mesmo de expandir a realidade? Parece sonho né? De fato ninguém superou ainda as leis físicas, mas trazer objetos virtuais para a realidade já é possível e é isso o que proporcionam os estudos em Realidade Aumentada por: Suanny Lopes Diferente da realidade virtual, onde o usuário é imerso num ambiente não real sem possibilidade de interação, na realidade aumentada (RA) a interatividade é possível. O mundo real é combinado com elementos virtuais fazendo com que o usuário perceba os objetos (reais e virtuais) ao mesmo tempo e ainda possa manipulá-los. É a potencialização dos sentidos humanos. Essa tecnologia é nova e ainda pouco conhecida. O entretenimento e a educação são as principais áreas de aplicação, porém outras áreas como medicina, mecânica e mesmo os militares já começaram a atentar para pos- síveis utilizações da ferramenta. Como funciona na prática a RA Para visualizar os objetos virtuais o usuário precisa utilizar alguns componentes que podem ser capacetes ou óculos. Uma das principais dificuldades das pesquisas em RA é precisar o local no mundo real para inserir o objeto vir- tual e fazer com que ele interaja com o usuário. Por isso,
    • 48 ÁsiaKi uma ferramenta chamada ARToolKit foi desenvolvida para calcular essa posição e permitir que programadores desenvolvam aplicações da RA. Essa ferramenta, que é um software livre, utiliza mar- cadores de papel para determinar onde os objetos devem aparecer no mundo real. Técnicas de processamento de imagens são usadas para reconhecer esses pontos e transformá-los em imagens binárias, isto é, imagens tra- duzidas para a linguagem computacional. Assim feito, o objeto virtual será desenhado sobre esses pontos. No Japão, a pesquisadora paraense Marina Oikawa, bolsista de um programa desenvolvido pelo governo japonês para estudantes estrangeiros de pós-graduação, tenta desenvolver um algoritmo que permita posicionar os objetos virtuais sem a utilização de marcadores. Se- gundo Marina já existem alguns algoritmos que permitem fazer isso, mas ela está pesquisando um novo. Na prática, o funcionamento da RA e a interação com o usuário ficam mais perceptíveis em aplicações tais como nos concertos de automóveis. Um mecânico, por exem- plo, ao utilizar óculos especiais, obtém informações do sistema do veículo que o auxiliam a encontrar possíveis falhas. Assim, ele enxerga os passos para desmontar o motor e ainda tem acesso a informações importantes de cada peça. Brasil X Japão No Brasil, o estudo tem avançado. Os laboratórios de pesquisa na área se concentram basicamente em São Paulo, Recife e Uberlândia. No Japão, há uma universidade de pós-graduação chamada Nara Institute of Science and Technology onde se encontram muitos profissionais considerados de ponta Marina Oikawa vive e estuda no em suas áreas de pesquisas. Entre eles está o próprio desenvolvedor da ferramenta ARToolKit, Dr. Hirokazu Kato. De acordo com Marina, estudante do instituto, os japoneses “investem massivamente em pesquisa, os laboratórios são muito bem equipados e tem projetos internos de fomento a pesquisa que você nunca veria Para Saber mais no Brasil, pelo menos não em Belém.É outro mundo e www.hitl.washington.edu/artoolkit/ é bem difícil comparar...Muito ainda precisa ser feito nas www.realidadeaumentada.com.br/home/ universidades brasileiras para as coisas funcionarem tão www.naist.jp/index_e.html bem como funcionam aqui. No Japão o investimento em educação é realmente incrível.”
    • ÁsiaKi 49 Tai Chi Chuan: a Arte da Imortalidade Relaxamento, terapia, filosofia de vida e arte marcial. O Tai Chi Chuan pode ser enquadrado em todas essas categorias e como a maioria das práticas chinesas é um mistério para nós ocidentais. Sua ligação com a saúde e a filosofia é muito es- treita e vem alcançando os paraenses que estão em busca de técnicas de defesa pessoal e terapia por:Clareana Rodrigues “A procura pela prática divide-se entre o grupo que busca a ‘marcialidade’ e defesa pessoal e o grupo que a procura como terapia, já que ajuda na circulação Foto: Clareana Rodrigues cardiovascular e digestiva, na respiração aeróbica, na coordenação entre outros benefícios”, afirma o professor da Associação Chin Wu de Kung Fu – Wushu, na Cidade Nova 6, em Ananindeua, Pablo Silva. Ele começou aos 13 anos, ainda no combate e há sete anos começou o Tai Chi a conselho de seu treinador como complemento do programa de exercícios. Segundo Pablo, “o Tai Chi Chuan é uma modali- dade de kung-fu, que se divide em externa, aquela que exige mais força física; e interna, aquela que está entre a meditação e a concentração”. A técnica chinesa se Foto: Clareana Rodrigues aplica a segunda delas e busca equilibrar as energias internas, influenciando nas externas, priorizando a meditação e a respiração, fazendo uso das técnicas de artes marciais. Por ser uma ginástica marcial realizada com a mente concentrada no ritmo contínuo do corpo, seus movimentos lentos, relaxamento e respiração profunda resultam numa melhoria do estado geral de saúde. A prática contínua também permite es- tender a meditação às demais atividades diárias, como estudar, trabalhar, dançar, atividades que exigem maior concentração e esforço. “Domínio
    • 50 ÁsiaKi Foto: Clareana Rodrigues de si mesmo e do meio (parte interna e externa)”, afirma Thiago César de Souza, praticante da técnica há oito meses. Apesar da eficiência e de poder ser prati- cado em qualquer idade, como o próprio instrutor brinca. “Deve ser praticada em qualquer idade, de 5 a 88 anos, basta ter força de vontade e pagar corretamente a mensalidade”, diz Pablo Silva. O Tai Chi em Belém tem poucos praticantes e enfrenta, como a maioria das práticas que envolvem luta, o preconceito entre as pes- soas que não a conhecem, o que também na opinião de Pablo ocorre em razão da falta de divulgação do esporte. A aula inicia com relaxamento e exercí- cios de respiração que se diferencia por ser abdominal. Em seguida os alunos acompanham o profes- sor nos movimentos e realizam um trabalho individual de correção de exercícios. Além disso, os alunos fazem trabalhos em dupla, através da simulação de ataques e utilizam alguns instrumentos como a espada, o leque e o bastão. Tiago de Souza diz que adquiriu mais resistência e força física, principalmente nas pernas e no diafragma. “Aumentei a minha coordenação, capacidade pulmonar, concentração e inclusive domínio da dor, sensação de calma e bem estar”. Foto: Clareana Rodrigues
    • ÁsiaKi 51 Paradoxo chinês A por:Josué Ribeiro pesar da China ser considerada a 4ª econo- como: alimentação, transporte, vestuário, mia mundial, com um PIB (Produto Interno etc. A vantagem é que a China procura re- Bruto) que atingiu 11,4 %, no ano de 2007, solver seus problemas através de soluções o país ainda enfrenta problemas e crises – práticas. Para combater as desigualdades desigualdades regionais, má distribuição da de renda, a escola passou a ser gratuita e há riqueza, fragilidade do sistema financeiro, um investimento pesado na educação com saúde e poluição do meio ambiente – assim o objetivo de reduzir as disparidades em como a maioria dos países em desenvolvi- médio prazo. mento (os antigos países do terceiro mundo). Quanto ao meio ambiente, verifica-se que a A partir da década de 90 o país entrou no preocupação chinesa está nos danos trazidos mundo globalizado, impondo-se como para o seu desenvolvimento como a falta de maior produtor mundial de alimentos. “A consciência ambiental e os problemas que se China está se deslocando progressivamente acarretaram com a destruição da natureza. da economia dos Estados Unidos e há mais Mesmo com todo esse potencial de cresci- de 10 anos é uma mento econômico, locomotiva da eco- seus obstáculos a ser- nomia mundial”, em ultrapassados são: conta o embaix- a falta de qualificação ador brasileiro, na profissional – ape- China, Luis Augus- sar da grande núme- to Castro Neves. ro de mão-de-obra A abertura disponível – o que econômica da prejudica a economia China ao capital chinesa; o aumento estrangeiro possibilitou que as empresas da dependência de multinacionais espalhadas pelo mundo recursos energéticos externos, como o petró- pudessem instalar suas filiais, devido os leo e a instabilidade política causada pelo baixos custos de produção, mão-de-obra enfraquecimento do partido comunista. abundante e barata e mercado consumidor A saúde chinesa foi abalada com a epi- amplo. demia SARS (Síndrome Respiratória Aguda Os salários chineses são baixos, uma vez Grave), que deixou um número de aproxi- que o governo faz um controle que pos- madamente 371 mortos e uma grande quan- sibilita que as empresas tenham um custo tidade de infectados que faziam tratamento. reduzido de produção e contratação o que Este fato foi criticado por muitos países justifica o alto índice de exportação. Mas devido o governo chinês ter tentado que não quer dizer que a população viva na mi- este fato não fosse divulgado. séria, pois apesar de ganharem pouco, esse salário dá para arcar com as despesas básicas,
    • 52 ÁsiaKi Taoísmo: união de filosofia e religião Foto: José Fonteles A religião taoísta é o único con- junto de ensinamentos filosó- ficos e práticas religiosas com início na China e com um núme- ro de seguidores apenas menor que o budismo (religião mais popular da China) por: José Fonteles As origens do taoísmo estão ligadas aos antigos panteís- tas chineses e crenças xamânicas .O xamanismo é um conjunto de crenças ancestrais e sua prática estabelece contato com outros planos de consciência, a fim de obter conhecimento, poder, equilíbrio e saúde. Busca a tranqüilidade, paz, profunda concentração e estimula o bem estar físico, psicológico e espiritual. A religião é baseada no politeísmo (religião com crença em mais de um deus). O objetivo do taoísmo é a libertação da alma, que segundo as crenças taotistas só seria possível com o retorno do espírito a sua forma mais plena chamada de Tao, que literalmente significa: “essência inata e primordial de todas as coisas”. Para que o homem consiga que a sua alma alcance o Tao, seria necessário, por exemplo, o desapego do mundo material.Na busca por tal objetivo os seguidores do taoísmo realizam a meditação, buscam a vida em harmonia com a natureza, praticam danças e cultos aos ancestrais. Atualmente, existem mais de 1600 templos taoístas
    • ÁsiaKi 53 espalhados pelo mundo.A estimativa é de que nesses templos existam cerca de 25 mil sacerdotes. Para levar adiante e divulgar a cultura taoísta, a associação taoísta chinesa publicou dezenas de obras clássicas do taoísmo e compilou mais de 30 livros sobre a religião e uma série de livros sobre a cultura taoísta. A associa- ção publica ainda uma revista bimestral, chamada “O Taoísmo da China”, distribuída no próprio país e enviada ao exterior. A Academia Chinesa de Taoísmo, fundada em 1990, oferece cursos aos jovens interessados sobre as investigações e estudos taoístas. Milhares de estudantes graduaram-se na aca- demia desde seu estabelecimento.No Brasil Foto: Google também existem templos taoístas. A Sociedade Taoísta do Brasil (STB) tem como objetivo difundir os ensinamentos do Lao Tzu,um dos Deuses do Taoísmo taoísmo no país mais católico do mundo. Fundada em 15 de janeiro de 1991 por Wu Jyh Cherng, na cidade do Rio de Janeiro , a sociedade taoísta brasileira mantém contato com a socie- dade taoista chinesa para que se mantenha atualizada e bem informada sobre as práticas e ensinamentos taoístas. Templo da Transparência Sublime é o nome do templo localizado na cidade do Rio. Os praticantes do taoísmo receberam em março de 2002 o seu segundo templo.Construído na cidade de São Paulo com o nome de Templo do Tesouro do Espírito.E no O taoísmo surgiu no século II inicio de 2004, também no estado de São Paulo, na cidade durante o período dos estados de Embu, a STB recebeu, como doação da prefeitura da guerreiros e se tornou uma cidade, um terreno de 6 mil metros quadrados, onde foi religião oficial apenas três construído um centro de meditação taoísta.. séculos depois Por ter uma origem muito antiga, o Taoísmo apresenta muitas ramificações. Seus conhecimentos, manifesta- dos através de várias Escolas Taoístas, poderiam, de modo geral, ser classificados segundo cinco vertentes: a primeira delas chama-se Dân Ding, que significa lit- eralmente caldeirão e elixir, é chamada no Ocidente de Escola da Alquimia. A segunda chama-se Fú Lù, Fú significa correspondência e Lù quer dizer Ordenar. Ou seja, é a Escola da Correspondência e da Ordenação, referindo-se à Escola Ritualística e da Lei Cósmica. A terceira chama-se Jîng Dian, que literalmente significa Textos Clássicos. São escolas que enfatizam mais os
    • 54 ÁsiaKi estudos clássicos, podem ser chamadas de Escolas Filosó- ficas ou Escolas de Estudos filosóficos do Taoísmo. A quarta chama-se Jî Shàn, que significa Acumulação da Bondade. Aplica os Foto: José Fonteles conhecimentos taoístas em benefício da sociedade, da pessoa, da vida. É a escola voltada para a doação e para as práticas taoístas na vida quotidiana. A última chama-se Zhân Yuàn, que significa Oráculos e Experiências, ou seja, Yi Jing (I Ching), astrologia, artes marciais, acupuntura, incluindo conhecimentos de cura através da ervas da medicina taoísta e diversos trabalhos energéticos. O objetivo da STB é mostrar para seus integrantes todas as origens e ensinamentos das vertentes taoístas, O nome do grupo (Shiva Nataraja) é uma homenagem a buscando sempre uma união en- uma das mais poderosas representações da Deusa Shiva tre elas.Ensino de filosofia e artes taoístas,meditação,palestras sobre o Tao Te Ching,retiros espirituais e rituais taoístas, são atividades oferecidas pela STB Em Belém a companhia de dança nataraja tem no taoísmo como base da sua filosofia de ensino. A Cia de Dança Nataraja, dirigida por Marieta Hamsá, trabalha exclusivamente com a Dança Cósmica de Shiva. A companhia foi criada em 1998, com o objetivo de desenvolver um trabalho inspirado na Arte Shivaista. “De maneira geral, na dança cósmica de Shiva, dançamos no universo, com o universo, trabalhando o corpo, a mente e o espírito em aulas teórico-práticas, aliando dança, canto e meditação Foto: Google em busca de uma auto-imagem, auto-estima, con- sciência corporal e inter-relacionamentos grupais saudáveis e harmônicos. A Dança de Shiva sim- boliza os ciclos cósmicos de criação e renovação bem como o ritmo diário de nascimento e morte, tanto no micro como nos macrocosmos, que são vistos no misticismo hindu, como base de toda existência”, escreve Marieta Hamsá para o flog da companhia de dança na internet.
    • ÁsiaKi 55 Brasil: o país do futebol? As olimpíadas de Pequim iniciam-se em agosto deste ano, mas desde o anúncio do país sede, milhões e milhões de dólares já foram gastos, milhares de toneladas de aço já foram usadas, diversas tecnologias foram pensadas e postas em prática e, é claro, exércitos de operários ainda dedicam esfor- ços para que todas as obras estejam prontas até o dia da aber- tura dos jogos olímpicos por: Raphael Freire Como as autoridades chinesas querem que o auda- cioso e futurista projeto seja lembrado por sua mod- erna arquitetura e fique marcado na história, o Estádio Olímpico - que antes de ficar pronto já se tornou cartão postal comparado com a Grande Muralha da China e com o retrato de Mão na Praça da Paz Celestial – é a obra mais cara (500 milhões de dólares), Foto: Google mais moderna e a mais querida dos chineses. Por isso será palco das cerimônias de abertura e encerramento dos jogos, das competições de atletismo e das partidas finais do futebol. O “Ninho de Passarinho” , como é mais conhecido por seu design inovador, mistura um emaranhado de vigas de aço, o que para os organizadores é uma perfeita combinação de elegância e simplicidade. A obra está recheada O projeto do estádio foi escolhido em um con- curso feito pela prefeitura de Pequim de inovações tecnologias que prometem agradar turistas e ambientalistas de todo mundo. A estrutura do teto aproveita a iluminação natural; foram construídos siste- mas de coleta de água da chuva e métodos de ventilação que utilizam ao Maximo o ar natural; a arquibancada está disponível de modo que permite a todos ficarem praticamente a mesma distancia dos competidores,
    • 56 ÁsiaKi apenas em ângulos diferentes. O estádio também conta com um shopping center e uma área de lazer. Não vai ser dessa vez que o Brasil vai sediar uma olimpíada, mas em 2014 – 64 anos depois – o nosso país volta a sediar uma copa do mundo, e Belém é uma das possíveis cidades que receberão Foto: Google algumas partidas. Mas será que a nossa cidade está preparada para receber parte de um evento desse porte? “Temos um potencial muito grande na área turística, estamos na Amazônia, que causa grande curiosidade ao público estrangeiro. Além disso, há muita vontade política que Belém tenha jogos da Copa do Mundo. Tudo será feito para que consigamos, e estamos muito confiantes em trazer a Copa para cá - diz a secretária de Esportes do Pará, Lúcia Penedo”. O novo estádio possui quatro níveis: o térreo, o das cadei- Belém possui o Estádio Olímpico Edgar ras e tribuna de honra, o das cabines e o das arquibanca- Proença ou simplesmente Mangueirão, inaugurado há mais de 30 anos. O estádio sofreu uma grande reforma em 2002 e passou a oferecer modernos vestiários equipados com aparelhos de alta tecnologia, mais conforto e segurança aos visitantes. Para a copa de 2014, o governo pretende tomar medidas técnicas para o funcionamento eficiente de um estádio, de acordo com os padrões internacionais estabelecidos pela FIFA (Federação Inter- nacional de Futebol), através da construção de rampas; implantação do museu do es- porte; construção de uma ampla praça de alimentação e cisternas para reaproveitar a água da chuva; o uso de catracas eletrôni- cas mais modernas nas entradas a fim de tornar o acesso ao Mangueirão totalmente informatizado. De acordo com o projetista original do estádio, o arquiteto e projetista do estádio, Alcyr Meira, o Mangueirão, não precisa de significativas alterações para re- ceber partidas de Copa do Mundo. “Projetei No estádio são disputados os principais jogos do Clube este estádio há 33 anos com um conceito do Remo, Paysandu Sport Club e Tuna Luso Brasileira moderno e acredito que internamente não serão necessárias muitas modificações”, contas Alcyr que também está à frente do atual projeto de reforma.
    • ÁsiaKi 57 Na região em torno do estádio será realizada a con- strução de um complexo esportivo que prevê a inclusão de um centro de treinamentos junto ao estádio, um ginásio poliesportivo e dez outros miniginásios, que na Copa seriam usados como centros de hospitalidade (am- plamente citados pela Fifa em seu caderno de encargos). Para conseguir verba que possa viabilizar a execução do projeto, o Governo do Estado visa bus- car patrocínio de empresas mineradoras Foto: Google que atuam no Estado. “Basicamente, a idéia é que o Governo do Estado invista no Mangueirão e a prefeitura fique com a parte de infra-estrutura urbana. A ini- ciativa privada seria um reforço”, conta Lúcia Penedo. Mas para sediar alguns jogos da Copa do Mundo não são necessárias somente inovações tecnológicas parecidas com Vista panorâmica do complexo do as da China. Segundo Alcyr Meira são necessários também investimentos na qualificação e conscientização da população do es- Você Sabia? tado. “Além da reforma na infra-estrutura, prefeitura e O Estádio Nacional de Governo Estadual devem investir na qualidade de do Pequim será inaugurado às 8 atendimento ao público (turistas); bons hotéis e um horas do dia 8 do mês 8 de número suficiente deles; melhoria na o trânsito caótico 2008, já que o 8 é um número da cidade; na segurança da cidade e Belém; na limpeza de sorte para os chineses. da cidade”. Se todas as vigas de aço fos- Depois que Belém possuir todos esses elementos – sem colocadas em linha retas, que deveriam ser exigências da FIFA – os paraenses elas formariam 43 km de podem começar a se animar em ver grandes seleções extensão mais de uma volta mundiais jogando em solo inteira na órbita do planeta marajoara. terra. Com o dinheiro gasto para a construção do Estádio Nacio- nal – 500 milhões de dólares – daria pra comprar 15,7 milhões de quilos de feijão. A capacidade do estádio será de 91 mil pessoas, valor que completaria 2022 ônibus urbanos com os passageiros Além do estádio, Alcyr também projetou o Campus sentados. Universitário da UFPA
    • Foto: Google Ninho de Pássaro - Estádio Olímpico ÁsiaKi Capacidade 91 mil Modalidades atletismo e futebol Cubo D’Água - Centro Aquático Capacidade 17 mil Modalidades natação, nado sincronizado e pólo-aquá- Foto: Google tico Ginásio Olímpico de Basquete- Arena Wukesong Capacidade 18 mil Modalidades basquete Foto: Google Foto: Google Quadra Olímpica de Tênis Capacidade 17,4 mil Modalidades Tênis
    • ÁsiaKi 59 A Transcendência e o Cantar Hare Krishna Roupas coloridas, cabeça raspada, músicas e danças alegres, hábitos alimentares saudáveis... São por essas características que os Hare Krishnas passaram a ser conhecidos por muitas pessoas no Ocidente. Porém poucos conhecem sua filosofia de vida e religiosa, suas atividades, suas crenças, seus princípios, etc. Não pensem que eles largaram tudo e ficam enclausura- dos dentro de um templo rezando, aos que querem ser monges sim, mas os devotos são pessoas como qualquer um, inclusive um Hare Krishna pode estar ao seu lado na escola, no trabalho, no ônibus, em qualquer lugar. O movimento Hare Krishna surgiu na Índia no fim do século XV e início do século XVI baseado nos ensi- namentos do guru Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu. O movimento também conhecido por Sociedade Interna- cional para a Consciência de Krishna (ISKCON, sigla em inglês) é uma tradição monoteísta que está inserida na cultura Védica ou Hindu. O ocidente passou a ter contato com os ensinamentos Hare Krishna em 1965, quando A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada recebeu a árdua missão de divulgar a religião para uma parte do planeta predominantemente católica. Nos cultos são feitas orações em A filosofia do Movimento Hare Krishna provêm de adoração à Krishna escritos conhecidos como Vedas, que são textos que tratam – na língua sânscrita – sobre psicologia, cosmo- logia, política, arquitetura, astrologia, arte, saúde, entre outros temas. O seu principal conteúdo diz respeito a um processo de compreensão espiritual por meio de respostas a perguntas complexas que qualquer um já se fez algum dia: Quem sou eu? Por que estou aqui? Qual o objetivo da vida? Como posso alcançá-lo? De acordo com os Vedas, nós somos uma pequena partícula espiritual que dá vida ao corpo material, então todos os seres vivos são uma partícula espiritual dentro de um determinado corpo material. Nós, partículas es-
    • 60 ÁsiaKi Foto: Raphael pirituais, estamos aqui para alcançarmos o verdadeiro objetivo da vida: a volta para onde viemos, um lugar eterno, com muita bem-aventurança e conhecimento, para vivermos o puro amor divino da Suprema Personalidade de Deus e para alcançarmos esse objetivo é necessário estar sempre em contato com Deus. Os sete propósitos Srila Prabhupada, ao fundar a ISKCON, elaborou sete propósitos com a intenção de Homenagem especial ao fundador da doutrina que os devo- tos cultivassem a pura consciência a serviço do amor di- vino. “Eles [os propósitos] funcionam com o proposição de expandir uma consciência divina para a sociedade, têm como objetivo favorecer a sociedade como um todo. De acordo com a filosofia védica a vida começa quando se vivencia esses princípios”, diz Cléber Guerreiro, ou melhor, Krishna Kathamrta, 34, hare krishna e proprietário do Bhagavat Prasada, 1º restaurante lacto-vegetariano de Belém. 1- Propagar o conhecimento espiritual entre as socie- dades a fim de educar todas as pessoas nas técnicas da vida espiritual, restabelecendo o equilíbrio dos valores na vida e, finalmente, alcançando a verdadeira união e paz mundiais. 2- Propagar a consciência de Krishna (Deus), assim como foi revelada nas grandes escrituras da Índia - Bhagavad- gita e o Srimad Bhagavatam. 3- Unir os membros da sociedade e torná-los mais próximos de Krishna (a entidade primordial). Isto fará com que cada alma (tanto dos membros, como da sociedade) seja parte integrante de Krishna. 4- Ensinar e encorajar o movimento de Foto: Raphael sankirtana - o canto congregacional do santo nome de Deus - tal como foi reve- lado nos ensinamentos do Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu. 5- Erguer, para os membros da sociedade e demais, um local sagrado de passatem- pos transcendentais dedicado à personali- dade de Krishna. 6- Manter os membros unidos com a finalidade de ensinar um modo de vida Durante as celebrações há apresentações de danças indianas
    • ÁsiaKi 61 mais simples e natural. 7- Publicar e distribuir periódicos, revistas e livros Foto: Raphael com os propósitos acima mencionados. As quatro virtude Além dos sete princípios, os devotos devem bus- car quatro virtudes indispensáveis para se ter uma vida identificada com valores espirituais e eternos: misericórdia – não comer animais; limpeza – não praticar sexo ilícito, ou seja, sexo fora do casamento; austeridade – não se intoxicar e veracidade – não praticar jogos de azar. “São elas [as virtudes] que definem um homem como verdadeiramente um ser humano, nós seguimos para facilitar o nosso avanço rumo ao supremo... O mundo clama por paz, mas como ter paz se as pessoas se alimentam diari- Altar onde são feitas reverencias amente de violência? Milhões e milhões de animais e ofertas ao Deus Krishna são sacrificados diariamente, com o único propósito de satisfazer o paladar. É comprovado cientificamente que o ser humano não necessita de carne pra sobreviver. Eu sou vegetariano há quase dez anos e estou aqui vivo, com saúde”, justifica Krishna Kathamrta. A religião Hare Krishna tem como principal foco a transcendência, ou seja, a libertação do cativeiro mate- rial, se desprender da busca por bens materiais Foto: Google presentes constantemente em nossas ações, já que as formas materiais são temporárias e limi- tadas. Isso é feito por meio do cantar dos santos nomes – mantras –, em especial o Maha Mantra (saiba mais em ‘a forma auditiva de Krishna’). “O grande mantra funciona como um processo de libertação da mente, purifica nossos sentidos, nosso coração e vai fazendo a gente gradualmente agir, ter atitudes favoráveis rumo à transcendên- cia”, conta Krishna Kathamrta. Diferente do que muitos pesam, os Hare Krishnas Uma das inúmeras representações de acreditam em um único Deus: Bhagavan (bhaga significa ‘opulência’ e van significa ‘aquele que possui plenamente’, em sânscrito) ou popularmente Krishna, um nome de Deus que significa todo-atrativo em sânscrito. Eles bus- cam estar em contanto constante com esse Deus através da Bhakti yoga (bhakti=devoção e yoga=conexão, união). “A gente pode estar em yoga 24 horas por dia, voltando
    • 62 ÁsiaKi Foto: Raphael todas as nossas ativi- dades para Deus. Por exemplo, ao cozinhar eu posso espiritualizar essa ação, cozinhando consciente de Krishna, oferto aquele ato para Deus”, diz Kathamrta. Todos desclaços e sentados assistem as celebrações Krishna tem forma e personalidade Um dos ensinamentos básicos é o de que Krishna é ou foi uma pessoa. O próprio Krishna diz isso no Bhagavad-gita.”Homens sem inteligência, que não me conhecem perfeitamente, pensam que Eu, a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, era impessoal e depois assumi esta personalidade. Devido a seu conhecimento escasso, eles não conhecem minha natureza superior, que é imperecível e suprema” (7.24). “Existem duas grandes escolas filosóficas na tradição do oriente: uma é impersonalistas e acredita que deus é apenas uma luz, um brilho. Já a escola Vaisnava é personalista, para eles krishna é uma pessoa, é uma luz, é amor, ele assume uma forma que nós podemos nos relacionar com ele, essa é a concepção de personalismo, então entendemos que ele é uma pessoa que fala, que age, que toca flauta, que come”, explica Krishna Kathamrta. Deus Krishna tem inúmeras dimensões e encarna- ções, a forma personalista é uma delas. Foto: Raphael A Teoria do Karma Lembra da terceira lei de Newton? Aquela que diz que para toda ação sempre haverá uma reação? Pois bem, esse é o mesmo conceito que explica a Teoria do Karma. Ela funciona da seguinte maneira: as ações, as atitudes – boas ou más – que realizamos hoje, nesta vida, influenciarão fortemente em nossas próximas vidas. Daí surge, atrelado ao conceito da Teo- Nos cultos sempre é feita a ria do Karma, a crença na reencarnação. Assim como os livro mestre nos dois leitura do espíritas, os Hare Krishnas crêem que nós reencarnamos e dizem que esta vida é apenas uma das que tivemos e, das que ainda vamos ter, e que o nosso corpo atual não é o primeiro, mas o mais recente de todos os que tivemos. “A nossa concepção de reencarnação é de transmigra-
    • ÁsiaKi 63 ção, nós transmigramos de um corpo para outro, de acordo com as nossas atividades recebemos um corpo específico... Segundo a literatura védica existem oito milhões e quatrocentos mil formas de corpos diferentes nesse universo material e nós estamos sujeitos a pegar qualquer um deles de acordo com as nossas ações”, conta Kathamrta. Talvez essa crença possa ser explicada etimologica- mente, por meio dos cinco elementos que compõem a palavra reencarnação: re= “de novo”; en= “para dentro”; carn= “carne”; ação= “causar ou tornar-se”; ou seja, “o processo de voltar a carne”. Muito usada para expressar a mesma idéia de reencarnação, existe a palavra trans- migração (trans= “através”; migr= “ir ou mudar-se”; e ação= “processo de causar ou de tornar-se”), as duas tem o mesmo sentido de mudar de um para o outro. Foto: Raphael Hare Krishnas em Belém O movimento, ou melhor, a re- ligião Hare Krishna teve seu auge em Belém na década de 80, naquela época era comum vermos típicos Hare Krishnas – monges – com roupas coloridas e cabeça raspada em ônibus da cidade vendendo livros, difundindo a filosofia, con- As orações são sempre acompanha- das de música e cantos vidando as pessoas a participarem dos festivais de domingo. Naquela época existiam alguns templos em Belém, porém hoje os adeptos do Hare Krishna na cidade – uma congregação em torno de 40 pessoas – contam somente com um centro cultural, mais conhecido como Centro Hare Krishna de Belém, onde podem se encontrar, fazer devoções a Krishna e neste mesmo espaço funciona um restaurante com um cardápio feito com base em uma dieta lacto-vegetariana – os Hare Krishnas não comem ovos, carnes e peixes –, além de uma pequena loja de artigos esotéricos, incensos e livros. Todos os domingos o Centro Hare Krishna de Belém promove festivais para adorarem todos juntos – outra característica dos Hare Krishnas, eles visam bastante pelo coletivo e o consideram ponto congregacional do santo nome de Deus – a Suprema personalidade de Deus
    • 64 ÁsiaKi e todos que estiverem interessados em conhecer um O livro base pouco mais desse estilo de vida um tanto quanto difer- O mais importante livro tran- ente o Centro estará de portas abertas para recebê-los scendental é o Bhagavad-gita. assim como fui recebido, aliás, muito bem. “Qualquer Ele foi falado diretamente por pessoa pode vir, de qualquer credo religioso... Tem pes- Krishna e ainda é considerado soas que vão pro movimento por vários fatores, entre o livro sagrado mais popular da eles por curiosidade, como foi o meu caso. Há outras Índia. É desse livro que os Hare características de pessoas que vão para o movimento Krishnas retiram os ensina- buscar conhecimento, sabedoria, verdade e um outro mentos para aplicarem em suas caso, pessoas que estão aflitas, sofrendo, com dúvidas, vidas. O Bhagavad-gita é com- inquietações”, afirma Flávio Lacerda, 34, mais conhecido posto de 18 capítulos divididos entre os devotos como Lavanga Sakha Das. em versos e macro-sessões que tratam de yoga da devoção, do A forma auditiva de Krishna trabalho; sobre como alcançar Entre as escrituras indianas estão os mantras (man - a luz através do conhecimento mente; tra - liberar) que são mensagens cantadas para entre outros ensinamentos. Das uma realização espiritual. É por meio também do can- três autoridades na vida espiri- tar dos mantras – além da bhakti yoga – que os Hare tual – o guru, os devotos e as Krishnas tentam alcançar a transcendência e mantêm a escrituras – as escrituras são a conexão com Deus. Existem mantras para destruírem autoridade máxima. inimigos, para curar doenças, para nos proteger, para nos purificar e mantras que glorificam os semideuses. Você Para os devotos, Deus possui já deve ter ouvido um mantra na rádio ou na TV, em vários nomes, pois ele se mani- especial o Maha Mantra, que ficou conhecido na voz de festa de diferentes maneiras. Nando Reis e Os Infernais (Hare Krishna, Hare Krishna, De acordo com as atividades Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, que Deus manifesta, ele possui Rama Rama, Hare Hare). um nome específico; por ex- O Maha Mantra Hare Krishna é composto por apenas emplo: Rama, Hari, Narayana, três palavras: hare (energia de Deus); krishna (o todo Vishnu, Nrsimhadeva, Krishna, atrativo) e rama (a fonte de todo prazer) elas são cantadas etc. todos eles se referem a um em vários ritmos, em diversas melodias. Segundo Krishna único ser, Deus. Aliás, dia 18 de Kathamrta cantar o maha mantra seria como fazer uma maio foi comemorado o Dia da oração para Deus. “Quando a gente canta o maha man- Proteção Transcendental, onde tra hare krishna, a gente tá falando ‘Ó Senhor, ó energia Krishna se apresenta na forma divina fonte do nosso amor, por favor, me ocupe em seu extraordinária metade homem serviço, me ocupe em sua atividade’ e aí a gente pede pra metade leão (Nrsimhadeva). fazer serviço devocional, a gente entra em Bhakti yoga”, Durante a celebração foram fei- declara. Inclusive pode-se cantar o mantra de uma forma tas reverências, oferendas, can- mais introspectiva chamada de “japa” e normalmente é tos, dança e louvor a deidades feita com a ajuda de um rosário de 108 contas, chamado japa-mala. Para cada conta canta-se uma vez o mantra. 108 contas cantadas equivalem a “uma volta”. Quem está se iniciando na religião costuma fazem um voto de cantar no mínimo 16 voltas por dia. Muitas pessoas consideram
    • ÁsiaKi 65 no altar. Não se pode confundir as primeiras horas do dia, antes mesmo do sol nascer, o fato de Deus possuir vários como sendo os mais agradáveis para essa prática. nomes com a existência de Semideuses – Devas, em sân- Os Hare Krishnas acreditam que um dia o universo vol- scrito –. tará a viver a era dourada, a era em que toda a sociedade “Semideuses são administra- compartilhará dos ensinamentos que Bhaktivedanta dores do universo, são eles que Swami Prabhupada trouxe para o Ocidente há mais de auxiliam Deus na manutenção 40 anos. “A gente acredita que um dia o mundo vai se desse universo material”, es- tornar hare krishna, as pessoas vão ter a consciência clarece Krishna Kathamrta, de Krishna... Vai chegar um momento que as outras o Cléber. As suas principais religiões vão se silenciar e vão clamar por uma escritura funções são: assegurar que tudo e uma cultura teocêntrica que satisfaça a todos”. Conta funcione perfeitamente dentro Malanga. Segundo ele é no momento em que essa era das manifestações cósmicas e chegar que o mundo estará a salvo. “As pessoas deviam manter a lei e a ordem dentro se perguntar a respeito da religião hare krishna. A so- do universo. Entre os principais ciedade tem que entender outros pontos de vista sobre semideuses estão: o Senhor deus, pelo menos a idéia de admitir que existem outras Brahma, que é o criador do escrituras, outros credos. A gente tem pra oferecer universo e o primeiro a ser música, dança, cultura, língua, muita coisa como modo de criado; o Senhor Shiva, que é o vida, um conhecimento milenar muito poderoso que está destruidor do universo; Rei In- cada vez mais atual, misticismo (comunhão com deus), dra é o rei dos planetas celestiais nossos livros têm aventura, drama, intriga, guerra, vio- e o controlador do clima; Vayu lência, romance, sedução, enfim é o semideus encarregado do ar tudo que as pes- soas buscam e dos ventos; Candra é o con- através do cin- ema, de coisa trolador da lua e da vegetação; matérias, coisas mundanas, por Varuna é o senhor dos oceanos que na nossa cul- tura a gente e mares; Yamaraja é o senhor da não nega as coi- sas, só fazemos morte e por aí vai. Existem mil- uso delas. A gente tenta fazer um hares de semideuses que estão bom uso das coi- sas, tentamos controlando todas as diferentes transfor mar o mundo mate- atividades dos corpos das enti- rial numa coisa boa”, conclui. dades vivas e o funcionamento dos elementos.