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Discurso De  Posse  D
 

Discurso De Posse D

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    Discurso De  Posse  D Discurso De Posse D Document Transcript

    • 1 Última gravação 13/3/09 FÉ E RAZÃO (Discurso de Posse na Academia Brasileira de Filosofia) A realização desta cerimônia na qual um Bispo é elevado à dignidade de membro da Academia Brasileira de Filosofia tem para mim uma conotação significativa: Religião e Filosofia não são duas dimensões contrapostas, mas complementares. A Filosofia fundamenta a Teologia. E a Teologia abre espaços para a transcendência filosófica. Fé e Razão – Fides et Ratio – devem estar sempre caminhando juntas. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, ao caminho da pesquisa filosófica. O desejo de possuir a verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão. E tanto a Filosofia como a Teologia buscam sem trégua essa verdade. Fé e Razão, Filosofia e Teologia reclamam-se mutuamente. Uma teologia privada de horizontes metafísicos não conseguiria exprimir coerentemente a verdade integral que deita as suas raízes na natureza humana e nas fontes da revelação. Uma filosofia reducionista que se ocupasse de investigar, de maneira unilateral, o homem como mero objeto, teria esquecido a sua índole transcendental. Se a filosofia moderna se esquece de orientar a sua pesquisa para o Ser e orienta a investigação apenas sobre o Conhecer dos fenômenos, se perderá nas areias movediças de um ceticismo generalizado, ou se contentará em abordar verdades parciais e provisórias, deixando de tentar solucionar questões radicais sobre o fundamento último da vida humana pessoal e social. “Em conseqüência disto – diz a Encíclica de João Paulo II Fides et Ratio – o espírito humano fica muitas vezes ocupado por uma forma de pensamento ambíguo que o leva a encerrar-se ainda mais em si próprio, dentro dos limites da própria imanência, sem qualquer referência ao transcendente. Privada da questão do sentido da existência, uma filosofia incorreria no grave perigo de relegar a razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca da verdade”.1 Falta a paixão pela verdade! Procura-se explicar apenas os fenômenos isolados que propiciam a esse lamentável e crescente fenômeno da fragmentação do saber, que facilmente desemboca num estado de ceticismo e indiferença ou nas diversas expressões do niilismo. Um dos dados mais relevantes da nossa situação atual consiste na “crise de sentido”. Muitos se interrogam, diz também João Paulo II, “se ainda tem sentido colocar a questão do sentido”2. E para sublinhar o íntimo relacionamento que tem uma filosofia que alicerce a vida e o sentido religioso que tem toda a existência humana, acrescenta: “A palavra de Deus revela o fim último do homem, e dá um sentido global à sua ação no mundo. Por isso, ela convida a filosofia a empenhar-se na busca do fundamento natural desse sentido, que é a religiosidade constitutiva de 1 João Paulo II. Encíclica Fides et Ratio, Roma, 14/09/1998, nº 81. 2 Ibidem nº 81
    • 2 cada pessoa. Uma filosofia que quisesse negar a possibilidade de um sentido último e global seria não apenas imprópria, mas errônea”.3 A autêntica filosofia procurou sempre encontrar uma razão de ser, um sentido para a vida humana. “Basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efetivamente a orientação que se imprime à existência”.4 A necessidade de sentido é algo que transparece em todos os sistemas filosóficos e no fundo das expressões da literatura universal de toda a história da humanidade. Como apenas um simples exemplo, quereríamos apresentar as diferentes opiniões que revelam os doentes de um hospital russo na época do comunismo, dramaticamente expressadas pelos pacientes do “Pavilhão de Cancerosos” de Alexandre Solzhenitsyn, Prêmio Nobel de Literatura. Por falta de tempo citaremos somente a opinião de um dos doentes, Shulubin. Já a beira da morte, e animado por um companheiro de quarto, murmura: – “Eu não morrerei de todo. Sei que não morrerei completamente.” – “Sim, tu viverás... coragem!”, o incentiva o amigo. – “Sim, viverei. Há uma parte de mim que viverá sempre...” “Não quero viver cem anos mas viver para sempre”. “Às vezes sinto claramente que o que há em mim não é ainda tudo o que sou. Algo há muito mais indestrutível que ninguém me poderá arrancar; algo muito elevado. Algo assim como uma partícula da Eternidade de Deus. Não sentes tu isso mesmo?”5 Esse pobre canceroso, nascido nas estepes russas, nos está falando, à sua maneira, de uma verdade escondida no coração de todos; a verdade de que o homem sente necessidade de Deus e da Eternidade, tanto como do próprio ar que respira; a verdade de que a idéia de Deus não é – como alguns ingênua ou maliciosamente supõem – um assunto que somente interessa aos ambientes religiosos fechados, ou a “círculos clericais”. No meio do gelo dos pólos, no fundo da selva amazônica, no barulho de uma grande cidade, como o Rio de Janeiro, em qualquer latitude ou firmamento histórico, se fala essa linguagem e se sente essa convicção: sem Deus não há sentido. Uma verdade que nos grita que se o homem pensa que vive para ser feliz, esta finalidade não se consegue alcançar saciando as suas necessidade materiais ou os seus instintos; nem no desenvolvimento de suas aspirações intelectuais ou sociais; nem sequer na realização de um amor puramente 3 Ibidem nº 81 4 Ibidem nº 2 5 Solzhenitsyn, A., “Pabellón de Cancerosos”, Santiago de Chile, 1970, págs. 422 e 458.
    • 3 humano submetido ao vai-e-vem das despedidas e das separações, às oscilações da saúde, da beleza e dos sentimentos. A idéia da eternidade é algo que se instalou não apenas no cérebro de um doente russo, mas também no de cada um de nós. Esse clamor que nos vem da Rússia –: “não quero viver cem anos mas viver para sempre!” – poderia chegar-nos de qualquer parte, como no-lo trazia Miguel de Unamuno, filósofo historicista, eminente Reitor da Universidade de Salamanca, não a partir de uma fé cristã, que infelizmente tinha perdido, mas a partir da sua confusa e pungente nostalgia de Deus. Diz assim: “O universo visível é para mim estreito como uma jaula contra cujas grades batem no seu vôo a minh’alma; falta-me nela o ar para respirar. Mais, mais e cada vez mais: quero ser eu...adentrar-me à totalidade das coisas visíveis e invisíveis, estender-me ao ilimitado do espaço e prolongar-me ao inacabado do tempo. Se não existisse eu mesmo, completo e para sempre, seria o mesmo que não existir. Eternidade! Eternidade! Este é o meu anseio, este é o meu desejo... Se de todo morremos todos, para que tudo, para que? A sede de eternidade sempre nos afogará esse pobre gozo da vida que passa e não fica. Não quero morrer; não, não quero querê-lo! Quero viver sempre, sempre, e viver eu, este pobre eu que sou e sinto ser agora e aqui, e por isso me tortura o problema da duração da minha alma, da minha própria alma”6 . São comovedoras estas exclamações porque correspondem em sua transparente sinceridade a um sentimento universal. O homem intui que sua vida não tem sentido se não a vive para a eternidade, que é o mesmo que dizer se não a vive para Deus. Por esta razão é tão universalmente conhecido o pensamento de Santo Agostinho: “Criaste-nos, Senhor, para Ti e nosso coração estará inquieto até que descanse em Ti”7. Impressiona a ironia cruel que aparece estampada em algumas expressões mordazes de alguns filósofos modernos, como essa espécie de “humor negro” que utiliza Sartre comparando a vida humana a um jogo de “rugby” a que se assiste desconhecendo-lhe as regras: “Vi alguns adultos se golpeando uns aos outros e derrubando-se para fazer passar uma bola de couro entre dois paus. Recapitulando o que vi, não lhe alcancei o sentido, parecendo-me tudo uma piada”8. Mas uma piada de mau gosto. Uma negra palhaçada. “Em certas horas de lucidez infernal, nos diz Camus, como se fosse o eco de Sartre, compreendo que esta vida, esta palhaçada sem sentido, torna estúpido tudo o que rodeia o homem”9. Se ainda tivéssemos alguma dúvida sobre o caráter sombrio deste ateísmo consciente, Jean Cau, discípulo preeminente de Sartre, viria dissipá-la com um sarcasmo ainda mais incisivo: “Se Deus não existe, não te vejo somente perdido, meu amigo, meu irmão, meu semelhante e meu próximo. Se Deus não existe, tu és para mim como excremento (no original: une merde). Não passas, oh! homem, de um montão de excremento falante”10. 6 Unamuno, M.de, “El sentimiento trágico de la vida.”, Ed. Cultura, Madri, 1954, p. 37. 7 Santo Agostinho, “Confissões”, livro I, cap. 1. 8 Sartre, J. P., Prólogo “El Extranjero”, de Camus, A., Rio de Janeiro, 1959, p. 32. 9 Citado por Sartre, loc. Cit., p. 28. 10 Cau, J., “La pitié de Dieu” Mayenne. Gallinard (NRI), 1961, p. 121.
    • 4 O homem é apenas isso, nos dizem: uma piada, uma palhaçada, um montão de esterco! O que acabamos de ver nesses autores existencialistas é uma realidade cruel que representa ao mesmo tempo uma verdadeira afronta à dignidade humana. O homem exige que se respeite a sua dignidade, que não a coloquem ao nível de uma palhaçada sem sentido, como faz Sartre, ou a altura de uma cloaca de excrementos, como pretende Jean Cau. Há em todos os seres humanos – muito antes da construção das pirâmides do Egito, que são monumentos construídos à imortalidade humana –, um verdadeiro instinto de eternidade, que na cultura contemporânea não teve o status intelectual que merecia. Não sei como não se deu até agora suficiente ênfase a algo que é como o reverso da medalha do instinto de conservação. Ninguém se atreve a afirmar que o ser humano não tenha este instinto de conservação e, no entanto, muitos parecem negar com o silêncio, o seu necessário e iniludível reverso: o instinto de eternidade. O instinto de conservação, próprio de todo animal, é forte, predominante, às vezes brutal, até selvagem: por conservar a própria vida, o homem – muito mais o animal – pode chegar a matar. Pois bem, o instinto de eternidade − o reverso racional daquele instinto animal − não é menos forte, menos profundo... É do fundo das suas entranhas que todo homem grita angustiosamente – como o fazia Unamuno – não quero morrer, não quero querê- lo!! Quero viver sempre, sempre e para sempre!! Eternidade este é meu desejo, este é o mais forte e profundo desejo, este é o instinto que domina minha existência. Em realidade o instinto de eternidade é mais profundo que o instinto de conservação porque este último visa a algo negativo e transeunte – não morrer – enquanto que o primeiro procura algo positivo e permanente: viver e viver para sempre. Quando alguns dos filósofos contemporâneos de “teto baixo”, de “vôo rasteiro” – a quem se referiu com tanta propriedade João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio – gastam a sua energia racional em solucionar problemas de “superfície”, para tornar a vida mais pragmática, mais amena, sem referir-se nunca ao problema fundamental do homem, – o sentido da sua existência – estão deixando de lado, silenciando, algo que é fundamental à dignidade humana: o instinto de eternidade. Quando todos os dias no jornal ou na televisão ouvimos falar dos protestos das diferentes organizações e comissões de direitos humanos contra o trabalho infantil, a prostituição de adolescentes, o “trabalho escravo”, ficamos indignados; e não sem razão. Mas ainda não ouvimos o clamor daqueles que se indignam porque determinados filósofos de “bitola estreita” se negam a dar ao homem a sua terceira dimensão: a altura racional, a verticalidade, isto é, o que lhe outorga o verdadeiro sentido da sua vida, acalmando assim o seu instinto mais forte: o instinto de eternidade. E tudo isso se faz, dizem, para tornar a vida mais light, para fugir, do sentido trágico da existência, de uma visão agourenta e negativa. Mas quando esse problema aparece diante dos seus olhos assustados, encontram-se indefesos, desesperados dando razão àquele outro filósofo russo, Oreshenkov, que foi
    • 5 lembrado no Pavilhão de Cancerosos: “O homem moderno se vê inerme diante da morte, inteiramente desarmado para enfrentá-la”.11 Há, sem dúvida, uma relação de proporcionalidade direta entre os estados de insegurança e angústia, por um lado, e os estados de indiferença e de frieza religiosa, por outro, como existe também uma proporcionalidade direta entre a falta de sentido para viver e o apelo ao álcool, às drogas e às desordens sexuais… que não são outra coisa senão fugas, evasões. O homem, que sente falido esse instinto de felicidade eterna, procura um refúgio nesses momentos de euforia glandular ou hormonal para consolar essa pobre criatura – a alma humana – que lá dentro de nós grita apavorada ou esperneia na angústia e no sofrimento. Durante décadas as doutrinas freudianas tentaram convencer-nos que as doenças psíquicas provinham em grande parte do recalque do instinto sexual. (Não vamos entrar agora no mérito desta questão que nos levaria muito longe, entre outras coisas porque a regulação dos instintos, ou a castidade, nunca representa, quando bem conduzida, um recalque mas a canalização dessa energia sexual para o amor que é o que dignifica o sexo). No entanto, até agora pouco se falou das neuroses e psicoses produzidas pelo recalque do instinto de eternidade. E esse recalque – como todo recalque – envenena a alma. Essas tristezas, essas nostalgias, esse arrastar os pés do desânimo, essa falta de motivação para tudo, provém, no fundo, da realidade existencial latente no pensamento de Unamuno: “Se de todo morreremos, todos, para que tudo, para que?” Viktor Frankl, judeu não cristão, o famoso psiquiatra sucessor de Sigmund Freud na cátedra de Psicopatologia na Universidade de Viena, verificou sobejamente entre os seus pacientes a religiosidade reprimida. O estudo de Frankl, “Presença ignorada de Deus”, demonstra a existência desse recalque da religiosidade que em parte provoca o que ele denomina a tríade neurótica (depressão, dependência de tóxicos e agressividade), um verdadeiro veneno para a personalidade.12 O meio cultural em que vivemos, os restos de um racionalismo já superado que equipara religiosidade a superstição e cristianismo a visão medieval, atua como uma imensa rolha que tampa as inquietações, que recalca o instinto de eternidade e os anseios religiosos do coração dos nossos contemporâneos, provocando verdadeiras situações psicopatológicas. Com desenfado poetizava Carlos Drumond: “Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno”. O escritor alemão Wassermann dizia: “O terrível não é morrer; o terrível é caminhar para a morte”13. Como se pode viver em paz sabendo que cada dia que decorre é um passo a mais para a morte? Um homem de fé, pelo contrário, pode exclamar: o maravilhoso não é apenas viver; o maravilhoso é caminhar para a Vida, com maiúscula, com um V alto que, como dois braços potentes, se elevam até agarrar com mãos vigorosas as bordas da eternidade. Quando fica frustrado esse profundo instinto de eternidade, aparecem com freqüência anomalias psíquicas. E por isso também não é difícil entender que, como constatou até à saciedade a experiência psiquiátrica contemporânea, uma 11 Cit. por Solzhenitsyn, A., o. c., p. 145. 12 Cfr. Frankl, V., “Presença ignorada de Deus”, Edit., Sinodal, São Leopoldo – RJ, 1985, p. 86. 13 Wassermann, J. “Etzel Andergast”, Buenos Aires, 1946, p. 28.
    • 6 percentagem elevadíssima de neuroses vem a ser produzida pela ausência de sentido religioso na vida humana. Von Gebsattel, um dos mais famosos psiquiatras modernos, fala deste fenômeno, com uma clareza diáfana: “Jung – e toda a psicoterapia da escola de Zurich – está convencido de que no mais íntimo de toda neurose existe um problema religioso, sobretudo em pessoas de mais de 35 anos de idade”. “Quero dar a conhecer o descobrimento que faz o médico com seus enfermos neuróticos. Quase todos estes enfermos padecem porque perderam o sentido da existência, da sua em particular. Sofrem profundamente porque, por causa da perda do sentido existencial e, portanto, também da deterioração da existência em todas as ordens, concomitante à perda do sentido existencial, não encontram um ponto de apoio real, seguro, nem no mundo, nem na sociedade, nem em sua profissão, nem na sua função sexual, nem em si mesmos. Quando para um homem a existência perdeu seu sentido, a necessidade que padece é a maior que se pode dar e esta necessidade é “ex definitione” de natureza religiosa, porque a fonte do sentido da existência e da vida é o religioso, é, falando em concreto, o Cristianismo”14. As crises existenciais são crises de sentido. São crises dramáticas, fatais. Vou apontar apenas um exemplo personalizado. Voltava de Roma. Na poltrona do avião encontrei por acaso um semanário italiano, Il Sabato. No editorial, deparei com um título que me chamou a atenção: La domanda di Francesca, “A pergunta de Francesca”. Quem seria Francesca? Que pergunta faria ela? E, interessado, li a reportagem. Francesca era uma moça bonita de 21 anos, brilhante nos seus estudos universitários, filha de pais muito ricos. Na noite de 15 para 16 de maio de 1992, foi encontrada morta no banheiro da Stazione Tiburtina de Roma. Ao lado do cadáver, uma carta dirigida aos pais dizia, entre outras coisas: “Vocês deram-me não só o necessário, como também o supérfluo; mas não souberam dar-me o indispensável. Por isso estou-me tirando a vida”15. A revista tecia considerações a respeito da carta. Francesca falava de uma melancolia em que ninguém reparara até então. Uma melancolia tão forte que a levara ao suicídio, e que parecia ter como único motivo que lhe faltara o indispensável. Mas que queria ela dizer com a palavra “indispensável”! Por que a falta do “indispensável” a levara a uma situação tão torturante que a vida se lhe tornara sem sentido, a ponto de achar que não valia a pena vivê-la?... E o editorial, em variadas indagações e pesquisas, diz que chegou a encontrar uma resposta a essas perguntas precisamente num pensamento, sublinhado por Francesca, num livro de Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “o indispensável é o Absoluto.” Veio-me então à memória um pensamento paralelo de Saint-Éxupéry: “o homem é um nômade à procura do Absoluto”. Palavras que parecem um eco daquelas outras, tão conhecidas, e já citadas de Santo Agostinho: “Criaste-nos, 14 Cfr. Von Gebsattel, V., “La Compresión del Hombre desde una perspectiva Cristiana”. Madri, 1966, p. 101 e p. 94. 15 “Il Sabato”, Editorial, Roma (Milão), 23.05.1992.
    • 7 16 Senhor, para ti, e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em ti” . O homem é um nômade no deserto da vida, à procura de algo tão perfeito, tão sublime, tão absoluto que só se pode encontrar em Deus. O homem tem sede do Deus vivo (Cfr. Sl. 41, 3). Isso explica a insatisfação de Francesca, a sua nostalgia, a procura ansiosa de algo ausente que, − sem saber exatamente o que é − se torna a tal ponto indispensável, que a vida perde todo o sentido se não o encontra. É nisso precisamente, em que consiste a única verdadeira tragédia humana: em procurar o Absoluto − em procurar o amor, a beleza, a verdade, a perfeição − e não o encontrar. Foi com certeza isso o que aconteceu com Francesca, e é o que acontece com milhares de jovens que buscam ardentemente a felicidade e, sem o saber, correm na direção contrária do lugar onde ela se encontra. No fundo, talvez inconscientemente, ardem em desejos de grandes ideais, e só lhes oferecem frivolidades, banalidades, mediocridades. As crises existenciais fundamentalmente derivam desse estado anímico que Viktor Frankl denomina vácuo existencial. O vácuo existencial é a expressão erudita de uma sensação muito mais comum do que se pensa e que freqüentemente encontra manifestações em formas corriqueiras de falar: “estou passando por uma crise”, “sinto-me perdido”...; estou “atoa na vida”..., lembrando a expressiva música de Chico Buarque de Holanda...: “estava atoa na vida − sem sentido, sem direção... − ; “e o meu amor me chamou para ver a banda passar tocando coisas de amor...” Parece que naquele momento − quando o amor passa à beira da vida, quando aparece um sentido para viver − tudo muda para “o velho fraco, para a moça feia”... ao saírem do fundo da sua tristeza para sintonizar com o ritmo jubiloso da alegria de viver, mas tudo voltou ao seu lugar depois que a banda passou... e “para o seu desencanto o que era doce acabou − e cada qual no seu canto e em cada canto uma dor, depois que a banda passar tocando coisas de amor...” A vida é bela quando nela há um amor, um sentido para viver e para morrer... quando não é assim tudo fica confinado no seu canto, um canto triste, num canto de vazio e de dor. Esse sentimento de vácuo existencial é o que provavelmente sentiu Francesca, apelando para o suicídio. É muito interessante reparar que Frankl, depois de longas experiências analíticas, chegou à conclusão − a que fizemos antes referência − de que entre os efeitos do vácuo existencial está o que ele chama “a tríade neurótica de massa que está constituída de depressão, dependência e agressão”.17 Uma depressão que leva ao suicídio como levou a Francesca; uma dependência de drogas que é um substitutivo da felicidade e do amor não encontrada no vazio existencial; uma agressividade − uma válvula de escape da tristeza e da desmotivação − que torna a violência urbana, a guerra do narcotráfico e a delinquência juvenil fenômenos novos e assustadores. Toda a obra de Frankl parece estabelecer uma série de equações escalonadas que se poderiam simplificar assim: 16 Santo Agostinho, “Confissões”, 1, 1. 17 Frankl, V., “Presença ignorada de Deus”, o. c., p. 86.
    • 8 − Ausência de Deus igual a falta de sentido na vida. − Falta de sentido na vida igual a vácuo existencial. − Vácuo existencial igual a depressão − suicídio − dependência de drogas, agressividade e violência. Não devemos pensar, por esta razão, que os que bebem ou se entregam às drogas ou ao sexo desvairado, o fazem porque são maus. Não. São carentes. São carentes de amor. Falta-lhes um sentido para a vida e preenchem esse vácuo com uma felicidade artificial, que termina assassinando-os. Da mesma maneira não devemos julgar que a presença ou a ausência de Deus é uma questão “teológica”, de “laboratório clerical” que está à margem dos problemas vitais que nos afligem − como a violência e a droga − mas no centro medular de todos eles. Está em relação a eles, como a causa está em relação com os efeitos. Se as ciências antropológicas e filosóficas não ajudam a decifrar esse enigma fundamental do ser humano, para que servem todos os conhecimentos que elas fornecem? O mais insignificante acontecimento da nossa vida careceria de sentido. O notável filósofo alemão Joseph Pieper pergunta: “poderia celebrar mesmo uma simples festa de aniversário quem estivesse convencido, como Jean-Paul Sartre, de que é absurdo que tenhamos nascido e absurdo que existamos?”18 Ciência e fé, progresso e humanismo teocêntrico, coadunam-se de forma tão vigorosa e estreita quanto a alma e o corpo, Deus e o universo. Neste sentido a eminente professora de filosofia da Universidade de Oxford, Elisabeth Anscombe se manifesta de forma incisiva − com uma lucidez que talvez incomode um ultrapassado cientificismo agnóstico − quando abertamente afirma que “o critério decisivo para avaliar uma universidade é constatar se nela se sabe ou não se sabe que Deus é a verdade.”19 “Privada da questão do sentido da existência, – diz a Encíclica Fides et Ratio – uma filosofia incorreria no grave perigo de relegar a razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca da verdade.”20 O clima cultural em que vivemos leva no seu âmago escondida, recalcada, essa imensa paixão pela verdade. O homem que gasta esforços sem fim e bilhões sem conta para descobrir qual a órbita de um planeta e a constituição química de uma pedra de Marte, sente também uma paixão sem medida para descobrir algo que lhe fale da constituição íntima do pedaço do universo mais próximo a si mesmo, que é ele próprio; que lhe fale de algo que lhe afeta intimamente: o roteiro da sua “órbita”, o sentido da sua vida e da sua morte. Recalcar essa paixão pela verdade, como recalcar o instinto de eternidade, é tanto como submetê-lo ao domínio dessa espécie de complexo de castração intelectual, que provoca a crise das crises: que é a crise de sentido. Essa crise só pode ser superada com uma fé que nos dá uma resposta aos últimos porquês: que explicação tem a vida e a morte, a minha e a de todos os seres que me rodeiam?; por que sinto essa insaciável sede de sabedoria, de perfeição, de amor, de felicidade sem fim..., essa irrecusável sede de sentido? 18 Pieper. J., “Die musischem Fünste und das Fest. Münster” p. 4. Citado por Lauand, L. J., “O que é uma universidade”, Edit. Perspectiva, São Paulo, 1987, p. 75. 19 Citado por Llano Cifuentes, A., “La universidad del futuro”, Nuestro Tiempo, nº 448, outubro de 1991, p. 49. 20 João Paulo II, Encíclica “Fides et Ratio”, o. c., n.º 81.
    • 9 A fé sai ao encontro destes anseios para dar-lhes uma resposta cabal. Por isso, insistimos em dizer que a fé é a questão mais radical do ser humano; que, sem Deus, a vida não tem sentido, que o próprio homem não tem sentido; que nessa situação ele é simplesmente, – como disse o filósofo existencialista Heidegger – “uma oferta nos braços da morte”. E não se pode abordar a questão de Deus sem abordar a questão de Jesus Cristo. Se estamos no terceiro milênio, é porque no ano primeiro da nossa era nasceu Jesus Cristo. Não se pode contornar um dado histórico incontestável. E é por isso que todo filósofo honesto não poderá hoje viver sem colocar diante dos seus olhos, diante da sua mente, a questão iniludível da figura de Jesus Cristo. Paramos nesta questão fundamental que exigiria para a sua abordagem muito mais do que uma simples reflexão como a que estamos fazendo agora. Rio de janeiro, 18 de março de 2009. Dom Rafael Llano Cifuentes Bispo da Diocese de Nova Friburgo Presidente do Regional Leste I da CNBB