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Nossa caderno-de-receias-gente-e-livros-110811145926-phpapp02

  1. 1. NOSSO CADERNO DE RECEITAS
  2. 2. PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIAMAIS Gente e Livros: Caixinhas Viajantes no Mundo Fantástico daLiteraturaNOSSO CADERNO DE RECEITAS: GENTE E LIVROS NA COZINHASubprograma Apoio às LicenciaturasPrograma de Extensão Universitária Universidade Sem Frontei-ras – USFSecretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior- SETISetor de EducaçãoPró Reitoria de Graduação – PROGRAD e Pró Reitoria de Exten-são e Cultura – PROECPrograma de Extensão “Qualificação de Professores Alfabetiza-dores”Universidade Federal do Paraná – UFPRCuritiba, novembro de 2010
  3. 3. Ficha técnicaAutores:Ana Luiza Suhr Reghelin, Andressa Machado Teixeira, Bruna FiallaAlves, Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves, Fabiana da CunhaMedeiros, Karla Fernanda Ribeiro Neves, Juliana Beltrão Leitoles, Jú-lio Cezar Marques da Silva, Liliane Machado Martins, Luciane Fabianedos Santos, Márcia Tarouco de Azevedo Rocha, Rosicler Alves dosSantos, Valéria Zimermann de MoraisIlustrações:Ana Luiza Suhr ReghelinCapa:Miriam FiallaDiagramação:Felipe MeyenbergRevisão:Bruna Fialla AlvesAssistente de Organização:Bruna Fialla AlvesOrganização:Camila Siqueira Gouvêa Acosta GonçalvesPrefácio:Carmen Sá Brito SigwaltApoio:SETIUFPRTiragem:300 exemplares
  4. 4. Aos professores
  5. 5. Muito Obrigado!À Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior- SETI,À Universidade Federal do Paraná - UFPR,Às pessoas das comunidades atendidas, escolas e outras insti-tuições parceiras,Aos que se dedicam à literatura e à educação,Aos nossos amigos e familiares,Aos livros que lemos e às histórias que ouvimos contar.
  6. 6. ÍndicePrimeira ParteCapítulo 1 – MAIS escolaCapítulo 2 – MAIS dos livrosCapítulo 3 – MAIS genteCapítulo 4 – MAIS das históriasCapítulo 5 – MAIS viajantesSegunda ParteCapítulo 1: Matéria prima“Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”Listagem das “caixinhas viajantes” e do acervo do projeto; sobre os livrosem uso e as narrativas de histórias de vidaCapítulo 2 - Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não apa-rece, mas aparece na arte de fazer comidaQualidades do contador de história; reflexões autobiográficas de quemama literaturaCapítulo 3 - História encontra histórias ou Comendo no mesmo pratoDepoimentos de integrantes do projeto da Universidade e da ComunidadeCapítulo 4 - Contar e (des) cansar é só começar: descascando em plenasala de aulaRecursos externos e outras maneiras de contar histórias152032374147667489
  7. 7. Capítulo 5 - A massa desandou... virou virado!Experiências com o inesperadoSituações-problema no projeto e o que se pode aprender com elasCapítulo 6 - Culinária exótica: literatura FORA da sala de aulaEntrevistas com quem atua em hospital, brinquedoteca na clínica, brin-quedoteca escolar e livraria especializadaCapítulo 7 - Mestres-cuca e seus narizes hiperdesenvolvidos: o que elesnos contamMAIS entrevistas: contadora de histórias, escritor que ilustra e ilustradorque escreve.Capítulo 8 - Aprimorando o gosto: cozinheiros mirinsPráticas criativas protagonizadas pelos jovens leitoresCapítulo 9 - Pesquisa: em busca de iguariasSobre intertextualidade e auto-reconhecimentoCapítulo 10 - Em nossa cozinhaIntegrantes da equipe, parceiros e outros colaboradores do projeto; nú-meros e curiosidadesReferênciasApêndiceReceitas do nosso cardápio!Materiais confeccionados, testados e aprovadosAntes de recolher os pratos112126140151163173186196210
  8. 8. PrefácioCarmen SigwaltAcredito que é na infância que se desperta o gosto pela literatu-ra, mas para isso é necessário o incentivo de familiares e professores.Dentro desta perspectiva nasceu o “Projeto Gente e Livros: caixinhasviajantes no mundo fantástico da literatura”, que teve sua criaçãograças ao desenvolvimento de outro projeto, chamado “Os LivrosCriam Asas”, realizado no país africano São Tomé e Príncipe com oapoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e do Ministério deRelações Exteriores. Em parceria com o Ministério da Educação, oprojeto foi desenvolvido através de três universidades: UniversidadeFederal do Paraná, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande doSul e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.Os participantes deste projeto foram responsáveis por implan-tar, orientar, acompanhar e avaliar cem turmas – composta de jovense adultos - em processo de alfabetização e letramento. Durante oprocesso de formação inicial e continuada dos professores foi prio-rizada uma concepção de língua que os levasse à adoção de umametodologia que contemplasse não apenas a dimensão gráfica doprocesso de alfabetização, mas também atendesse à necessidade degarantir um processo de letramento dos professores e alfabetizan-dos. Esta metodologia teve como ponto de partida o trabalho comtextos significativos - que possibilitassem a compreensão do proces-so de leitura e produção de texto, a função social do letramento eda escrita, o interesse pela aquisição dessas habilidades e o domíniosistemático do código da língua portuguesa.Durante a realização do projeto percebemos que o trabalho sóse complementaria com a criação de condições de leitura para osalunos e professores, por isso implementamos um projeto de litera-tura que disponibilizou um acervo com obras de autores brasileiros,portugueses e africanos. As caixinhas de literatura circularam pelopequeno país, e graças ao resultado altamente satisfatório desta ini-ciativa nasceu o desejo de criar um projeto semelhante no Brasil.
  9. 9. Com a criação do Programa Universidade Sem Fronteiras - pelaSecretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (SETI) – eu (professo-ra de Pedagogia da UFPR), Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçal-ves (recém formada em Pedagogia) e Martha Cristina Zimermannde Morais (aluna do mestrado) nos unimos para a elaboração do“Projeto Gente e Livros: caixinhas viajantes no mundo fantástico daliteratura”. Conhecimento, amor à literatura e o desejo de atuar nocontexto educacional nos uniram para concretizar esta idéia. Comisso foi possível tornar realidade o sonho de buscar incentivo à leitu-ra através da qualificação docente e de oficinas pedagógicas desen-volvidas com alunos de escolas públicas. Já no inicio do projeto foipossível ampliar a equipe com a seleção de novos alunos de gradua-ção - com perfil adequado ao projeto - e também com alunos recémformados, dentro das características exigidas.Realizamos as primeiras intervenções nos municípios do Valedo Ribeira, pois apresentavam um dos IDH’s (Índice de Desenvolvi-mento Humano) mais precários dentre todos os outros municípiosparanaenses; a questão educacional também aparecia como proble-mática. Posteriormente privilegiamos o município litorâneo de Gua-raqueçaba e a cidade de Piraquara - ambas apresentavam indicati-vos de desenvolvimento bastante limitados.A repercussão do projeto e o empenho da equipe em ampliara socialização desta iniciativa possibilitaram que fôssemos além doatendimento inicial previsto e pudéssemos atuar em escolas públicasde Curitiba, em um Centro Municipal de Educação Infantil, em umaescola particular de Educação Infantil e na Casa Amarela – espaçoda Funpar e, posteriormente, da UFPR para atendimento de criançasportadoras de necessidades especiais. O sucesso do projeto se deveao empenho de pessoas e instituições que acreditam na literatura.Foi necessária a desconstrução de todo o projeto para recons-truí-lo no formato de um livro. A obra - recheada com poemas, con-tos, canções, aperitivos, jogos, brincadeiras, receitas e depoimentospessoais - é resultado de todo o desenvolvimento do projeto. Osalunos e ex-alunos, percorrendo diferentes caminhos, destacam aimportância do incentivo à leitura. Com muita propriedade conheci-
  10. 10. mento e poeticidade, nos fazem percorrer uma história de sucessoe comprometimento. Uma história que nos mostra o quanto somoscapazes de contribuir para a construção de uma nova sociedade –a partir de uma escola séria, sem ser triste – em que a verdadeiraalegria está no acesso ao conhecimento; e na qual a leitura e a es-crita representam instrumentos básicos – ferramentas fundamentais– para uma sociedade letrada.Sinto muito orgulho “dos meus meninos e das minhas meninas”,autores desta obra.
  11. 11. ApresentaçãoCamila Siqueira Gouvêa Acosta GonçalvesHá quem diga que as pessoas buscam receitas. Há quem troquereceitas. E também aqueles que distinguem o que é essencial do queé ornamento; do que faz da refeição mais que um alimento, umaiguaria.Na terceira edição do projeto de extensão universitária “Gentee Livros”, a gente temperou um pouquinho MAIS. Além de promo-ver formação continuada de docentes, fazer intervenções nas salasde aula - com alunos e professores (e, vez ou outra, também comfamiliares) -, e entregar um kit de livros - as “caixinhas viajantes”- em cada escola municipal pelos municípios por onde já passou,o projeto “MAIS Gente e Livros” ousou desenvolver um jogo, umDVD e um livro que contemplassem um pouco do que já cozinhou,trocou e provou de literatura na escola e na comunidade. Tudo issopara contribuir com a formação de leitores desde as séries iniciais doensino fundamental, nas quais o ensino formal é direito e dever emnosso país.A primeira parte do livro traz produções da equipe, inspiradasnas experiências de mundo e de leitura que o projeto proporcio-nou. Na segunda parte, há escritos que variam muitíssimo em gê-nero, número e grau. Com o cuidado de oferecer uma variedade emnosso cardápio, oferecemos depoimentos sobre os encontros; dicassobre o uso da literatura em sala de aula; entrevistas com autores,ilustradores, contadores e com quem usa o livro em outros espaçosque não a sala de aula; preciosidades em relação à pesquisa e com-posição de textos; além de saborosas informações sobre os livros,as parcerias e a equipe. De sobremesa, materiais desenvolvidos eaprovados pelo projeto que podem ser úteis a outros cozinheiros decontações e criações de histórias. Tudo com o visual para favorecer,realizar e enriquecer a degustação.Seja porque as narrativas são alimento para a alma; seja pelaliberdade de gostar, desgostar e escolher que a literatura e a culiná-
  12. 12. ria compartilham; ou pelas incontáveis comparações que tanto nósquanto muitos autores (como Marta Morais da Costa e Jorge LarrosaBondía) já fizeram entre a comida e o leitor, NOSSO CADERNO DERECEITAS percorre os caminhos da literatura na cozinha. Pois sabe-mos que não há uma só receita na educação, mas há ingredientesessenciais. Para fazer bolo de chocolate é necessário chocolate; as-sim como para alfabetizar são necessários textos, letras, palavras.E, para formar leitores, gente, histórias e livros (muitos deles!) sãoigualmente fundamentais.Bom apetite.
  13. 13. Primeira Parte
  14. 14. Capítulo 1 - MAIS escola
  15. 15. 16nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaABANDONADA, EUMinha mãe não chegaMeu pai também não,e saber que estou com fomeMe dói o coração!Já é tarde...Estou há muito tempo na escola,Queria ir pra casaE tomar uma Coca-cola.Minha mãe diz que sou lentaNa hora da saídaMas na hora da saída,Não posso ser esquecida!Primeira poesia de Valeria Zimermann de Morais, 1997- 11 anos, espe-rando os pais na saída da escola.
  16. 16. 17Da cara... o quê?(Pra cantar no embalo da cara preta)Pro-fes-so-raDa cara bravaTanto franziu a testaQue só ruga eu enxergavaNão adiantaEssa cara de espantoQuanto mais eu ousoMais dessa canção eu cantoPro-fes-sorDa cara amarradaNem quando eu crescerEu mato essa charadaNão adiantaEssa cara de tachoSe adulto é ser assimEu não cresço, eu me agacho!Meu a-mi-goDa cara traquinaSó de olhar pro outroÉ que a gente já combinaSim, adianta!Dar a cara a tapa!Pra encontrar princesaVai beijar de sapa em sapa!MAIS escola
  17. 17. 18nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaMi-nha a-mi-gaDa cara sem-vergonhaPergunta o que quiserCom a resposta a gente sonhaSim, adianta!Essa cara-de-pau!Pó de pirilimpimpimpra encantar o lobo mau!Camila S G Acosta Gonçalves28/02/2010
  18. 18. 19Nau do professorAndressa Machado Teixeira(cantiga para ciranda)Quando ouviu o canto da sereiaminha turma se animouQuando ouviu o canto da sereiaminha turma se animouFoi a vela do barco pirataque o vento soprouFoi a vela do barco pirataque o vento soprouSe a maré subisse eu não olhavaqual o ponto que eu estouSe a maré subisse eu não olhavaqual o ponto que eu estouPego a bússola e boto no bolsopra qualquer canto eu vouPego a bússola e boto no bolsopra qualquer canto eu vouSe eu vejo todos de mãos dadas a giraré o balanço forte pro meu barco marejareu entendo muito de saudade e de amormas quando se forem não me esqueçampor favor...MAIS escola
  19. 19. Capítulo 2 - MAIS dos livros
  20. 20. 21Se eu fosse uma vaca e soubesse voareu ia em sua janela pra você me mostrarpro seu pai, pra sua mãe, sua avó e professoraque nem aquela bruxaque tem uma vassouraAndressa Machado TeixeiraMAIS dos livros
  21. 21. 22nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaRepenti du Lobo(inspirado na “Verdadeira História dos Três Porquinhos”)Muito boa tarde, minha sinhoraBoa tarde, meu senhôE pra todas criancinhaQue são os anju do SenhôVim aqui contá uma históriaque foi é muito mar contadaFala sobre três porquinhoE umas casa derrubadaPois intão vô lhes dizêA verdadera versãoTenho nada pra escondêI o curpado fui eu nãoTava cuma gripe das bravaCuma fome de leãoFui pidi um bucad’i açúcraPruns vizinho di prantãoEu bati i eu chameiMas ninguém respondeu, nãoEu, gripado, ispirreiI a casa foi pru chãoO vizinho eu avisteiTava morto o Seo LeitãoMal passado eu o devoreiPra num morrê di inanição
  22. 22. 23MAIS dos livrosE os cumpadi qui mi ouvePois intendam muito bemTava doente e cum fomeE eu num matei ninguémFoi só uma devoraçãoEu vô dizê pra vocêVeja bem, juntô a fomeCô a vontadi di cumêE as cumadre qui mi iscutaJá falei, vô repetiEu, gripado, sem açúcraFui pr’otro vizinho pidi...Acredite se quiséEu sô um lobo di bemIspirrei, caiu a casaComi o otro vizinho tamém...Morto qui nem o primeroO segundo tava láE eu ainda sem açúcraPra modi tomá meu chá!Di um mal eu num padeçoEu vô dizê pra vocêNum suporto disperdícioPor isso tive qui comê!Foi meu pai qui m’insinôA num deixá nada no pratoMas di nada me adiantôIxpricá pru delegado...
  23. 23. 24nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaPois é qui a minha famaTava ruim pra chuchu!Eu divia é tê deixadoOs porco pros urubu!Quando menos isperavaVi minha foto nu jornalMuito mi caluniavaMi chamand’i Lobo Mau!Criancinhas num si inganeIsso foi difamaçãoEu num sô um lobo infameEu num sô ninhum vilão!Essa é minha versãoNum tirei i nem ponheiÉ verdade verdadêraNum iscondi n’ixagerei!Eu aqui atrás das gradeIsso muito m’indiguinaSem açúcra, sem melado...Nessa xícra SeverinaVoismicê qui mi iscutaFaz favor di ispaiáTem história i tem nutíciaQui tem qui disconfiá!Pela iscuta eu agradeçoCada um tem qui jurgáMas di açúcr’indá pereçoPra modi tomá meu chááááá!Alexandre A. Lobo cantou pra Camila S G Acosta Gonçalves
  24. 24. 25MAIS dos livrosCARTILHA RAPIDOPOLINAFArofaFERraduraFIasco ouFORmosuraFUrou o esquema do felpudo orelha trêmula...FELPO FILVAFamoso escritorFicou de orelha em péFoi com as cartas da Charlô“XAropeCHEIra pum!CHINchilhosa”, ele pensou.CHOcado e quase azul comCHUmaço de cartas dessa fã...CHARLÔ PASPARTUSHOW de classe e destremidaCHAmusca o sentimentoX-salada a sua vida!FOmentando a relaçãoCHOcolate e açafrãoFIcam os dois a dialogarCHIMbalando se encontrarFUzuê com um postalCHUva faz o festivalFElizmente se enganouCHEga o Felpo até a CharlôFARroupilha estão os doisCHAmejante feijão com arrroz...
  25. 25. 26nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCHarlote Felpote eFelpô Filvô CharlôFinalmente juntaramXícaras, pires e cobertor!CHamaram tia Filva,Família, avó, sobrinhasFirmaram matrimônioCHocalhando as ladainhas!Camila S G Acosta Gonçalves leu, foi à festa do casório e se inspirou.
  26. 26. 27MAIS dos livrosAdaptação do livro O Sumiço do Pote de Mel – Milton Célio de OliveiraFilho e Mariana Massarani, São Paulo: Brinque-Book, 2003. Por Bruna FiallaAlves.O Sumiço do Pote de Mel (diálogo – teatro de sombra)(urso entra)Urso: Alguém me ajude, por favor! Alguém me ajude!(cachorro entra)Cachorro: Au-au, o que foi? O que foi?Urso: Fui tomar banho na lagoa e quando voltei pra casa meupote de mel tinha sumido. Você precisa me ajudar!Cachorro: Fique tranqüilo, eu tenho um bom faro e vou encon-trar o culpado!(urso sai)Cachorro: É melhor eu começar pela lagoa..(entra o sapo)Cachorro: Olá Senhor Sapo, por acaso o senhor sabe quempode ter entrado na casa do senhor Urso e roubado seu pote demel?Sapo: Qualquer um, tanto o gato quanto o pato, mas eu des-confio mesmo é daquele rosado que passa a maior parte do temposujo de lama.(sapo sai)Cachorro: Sujo de lama? Mas só pode ser o...(porco entra)Porco: Sinto informar Senhor investigador, mas nesta históriaestou limpo. Para desvendar este mistério é só ir atrás de quem gos-ta de uma cenoura e é todo branquinho.(porco sai)Cachorro: Acho que já sei quem é!(coelho entra)Coelho: Ih, eu não peguei pote nenhum, não! No dia do sumiçoeu estava longe daqui. Mas fiquei sabendo que alguém cheio delistras andou rondando a casa do senhor Urso.(coelho sai)Cachorro: Animal listrado? Quem pode ser?
  27. 27. 28nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha(zebra entra)Cachorro: Então Dona Zebra, o que a senhora fazia perto dacasa do urso?Zebra: Ora, eu estava apenas fazendo minha corrida matinal,não entrei na casa de ninguém. Mas enquanto estive por perto ouviuns miados...(zebra sai)Cachorro: Só tem um animal que mia, e é o...(gato entra)Gato: Miau! Eu estava perto do lago sim, mas estava atrás depeixe, não de pote. Mas vi outro felino andando por ali, ele era bemmaior que eu e tem uma juba bem grande.(gato sai)Cachorro: Algo me diz que só pode ser o dono da selva! Melhoreu ir investigar...(leão entra)Leão: Imagina senhor investigar, não fui eu. Passei o dia todo noalto da montanha. E de lá pude ver que tinha alguém andando pelaselva e não era animal, não.Cachorro: Não era animal?Leão: Não, era uma menina!(leão sai)(menina entra)Cachorro: Ah, te encontrei! Posso saber por que você pegou opote de mel do senhor urso?Menina: Eu só queria um pouquinho do mel, já ia devolver!Cachorro: Espere aí, vou avisar o senhor urso que achamos seupote de mel.(cachorro sai)Urso: Oh, quer dizer que acharam meu pote de mel?Menina: Ah senhor Urso, me desculpe. Eu juro que ia devolverseu pote de mel.Urso: Tudo bem, não tem problema. Dá próxima vez é só pediremprestado.FIM
  28. 28. 29MAIS dos livrosAdaptação do livro O Caso das Bananas – Milton Célio de Oliveira Filhoe Mariana Massarani, São Paulo: Brinque-Book, 2003. Por Bruna Fialla Alves.O Caso das Bananas (diálogo – teatro de sombra)(macaco entra)Macaco: (acaba de acordar) Ai, que soninho bom! Que manhãlinda.. epa, mas cadê minhas bananas? Preciso de ajuda, alguém meajude!(coruja entra)Coruja: Epa, roubo é comigo mesmo.. me conte o que aconte-ceu? Estou pronta pra investigar!Macaco: Ah Dona Coruja, alguém roubou minhas bananas.. Eudeixei elas aqui ontem a noite e hoje de manhã.. Puf, tinha sumido!Coruja: Caro Macaco, para começar do começo, melhor ouvir avítima. Primeiro, me diga: Há um suspeito?Macaco: Dona Coruja, abomino o preconceito, mas.. Soube deum bicho estranho que veio de muito longe. Não é, pois, destasbandas. Não duvido que tenha escondido as bananas na bolsa quetrazia na barriga.(macaco sai)Coruja: Ah, bolsa na barriga, é? Tem caroço nesse angu. Vamos,então, ouvir...(canguru entra)Canguru: Essa história já conheço. Só por ser um estrangeirojá viro logo suspeito. Pois digo. Digo e repito: Nesta mata há umtipo ainda mais esquisito, com um rabo bem fornido, tal e qual umalagartixa multiplicada por quatro.(canguru sai)Coruja: Ora, rabo bem fornido? Lagartixa bem grande? Ah,agora eu desvendo esse mistério. Quero ter uma conversa com..(lagarto entra)Lagarto: Dona Coruja, eu não tenha nada com o pato. Mas..tenho um palpite: Quem tapeou o macaco vive muito bem na mata,com seu porte de madame e seu casaco de pintas.
  29. 29. 30nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha(lagarto sai)Coruja: Palpite não conta, mas não custa ir interrogar..(entra onça)Onça: Dona Coruja, tenho cara de malvada, pois quando bra-va.. Viro mesmo uma onça, mas no fundo sou boa-praça. Não que-ro atirar pedras na vidraça do vizinho. Pense, pense um pouquinho:que bicho aqui desta mata poderia comer tantas bananas sem ficarengasgado? Só mesmo com pescoço comprido, comprido como umgargalo. Um gargalo de garrafa.(onça sai)Coruja: Mas quem se parece com um gargalo de garrafa é..(girafa entra)Girafa: Das bananas eu nem sabia, juro! Mas o maroto que aslevou deve ser muito ladino com um rabo bem peludo e bigode nofocinho.(girafa sai)Coruja: Ora, ora! Não posso perder a pose. Quero uma conver-sa com esse sujeito de bigode agora mesmo..(raposa entra)Raposa: Minha cara coruja, sou famosa pela astúcia. Mas meunegócio são galinhas, vez ou outra umas uvas. E vou lhe dar umadica: para mim o malandrão é o tal que ostenta juba e nunca perdea majestade.(raposa sai)Coruja: Juba? Majestade? Esse não me escapa!(leão entra)Leão: Só lambo o beiço por carne. Bananas? Credo. Nem degraça! Nós, os gatos – grandes ou pequenos – não nos damos comfruta. Para resolver este caso preste atenção na charada: Quem podesubir em árvores, embora não tenha patas?(leão sai)Coruja: Como é duro o ofício. Mãos a obra, vou correndo atrásda..(cobra entra)Cobra: Dona Coruja, ouça: Tudo sobra para a cobra, em dobro.
  30. 30. 31MAIS dos livrosDizem que sou uma víbora, mas no caso das bananas, creia, souinocente. Sem querer ser venenosa, achar o larápio é fácil, só repararem sua roupa listrada.(cobra sai)Coruja: Listras? Só pode ser..(zebra entra)Zebra: No dia dos fatos eu estava fora a visitar o cavalo, que émeu contraparente. Para mim está óbvio: quem mais poderia agarraro cacho de bananas sem ter uma grande tromba?(zebra sai)Coruja: Aham, agora eu desvendo o caso das bananas!(elefante entra)Elefante: Dona Coruja, pouco uso minha tromba de uns tem-pos para cá, pois ando resfriado. Se quiser saber de tudo consultequem tudo viu e quem tudo vê lá do alto.(elefante sai)Coruja: Acho que já sei quem vai me cantar esse mistério..(passarinho entra)Passarinho: Vi sim, e vi muito bem o macaco acordar esfome-ado no meio da madrugada e comer uma, duas e até três bananasde uma única vez. Até acabar com o cacho todo. Mas o coitado nãosabia, pois, enquanto comia, roncava.(passarinho sai)Coruja: O mistério chega ao fim, sem muito pano pra manga. Omeu compadre guloso é... Sonâmbulo!FIM
  31. 31. Capítulo 3 - MAIS gente
  32. 32. 33Mais GENTE e livrosMais uma vez por estradas tortuosasAndaram os viajantesImpulsionados por suas vontades virtuosasSaem em direção ao seu destino, mesmo em dias trovejantesGalopam por entre as estradasEscrevendo novas histórias a serem contadasNão imaginavam que nessas andançasTantas experiências vividasEnredariam no livro de suas vidas tantas mudançasE agora?Leva vento mais uma históriaInvade e explora cada canto da memóriaVai levando essas lembranças flutuantesRisos, alentos, esperanças cintilantesOuçam os gritos e os apelos de glóriaSaiam mais uma vez –personagens- dessas caixinhas viajantes...Júlio Cezar Marques da SilvaCuritiba (com a cabeça em Guaraqueçaba),21 de setembro de 2010MAIS gente
  33. 33. 34nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaPOEMARESCamila Siqueira Gouvêa Acosta GonçalvesGuaraqueçaba, 30 e 31 de jan/2010Na conchaQuem vive que nem ostra acaba engolido vivo.(Lição de Biologia)Ave do mar é peixinho.Galope na água,cavalo-marinho.Peixe no ar,passarinho.MergulhoBem-me-querMal-me-quer.Bem-me-querMar-me-quer:Mar-me-quer-bem!-- TCHIBUM! –
  34. 34. 35MAIS genteAraraquáricas de Piraquara- trava-bico! –Sobrevoando ora oraPor Piraquara ara araPassei por uma torneiraQue não vaza água agoraAterrisando ora oraAli na praça ara araAvistei um’ outra araraQue me olhou naquela horaSem ponto e vírgul’ora oraÉ exclamada ara araSurpresa de PintassilgoQue poesia e voa emboraEstrada afora ora oraEscolarada ara araPassarinhada na leituraAve! nossa senhora!Ararizando ora oraEm cachoeira ara araÉ fonte que faz nascerTodo leitor que ri e chora!Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves Arara
  35. 35. 36nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaNo embaloFofinho balançoDas asas de um anjo.Viola tocandoE a gueixa dançando.Charmoso balançoDo rabo de um gato.Flauta sussurrando,Felino ronronando.Criação de poesia mediada por Camila S G A Gonçalves. Professorasparticipantes: Joselita Romualdo da Silva, Geniselia Maria Ribeiro dos Reis,Nutzi C. V. Kaisernan, Mariza Ap. Pires Polati, Marili Nunes Cardoso, LucianeVilar Possebom. Piraquara, 13 de novembro de 2010.
  36. 36. Capítulo 4 - MAIS das histórias
  37. 37. 38nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCaça ao tesouroAndressa Machado Teixeira(estilo bate-mão ou jogos de mão, cantar cada vez mais rápido)Tinha uma cidade numa ilha a áTinha uma cidade numa ilha a áTinha uma ilha na floresta a áTinha uma ilha na floresta a áTinha uma floresta no ocean an anoTinha uma floresta no ocean an anoTinha um oceano num planeta a áTinha um oceano num planeta a áTinha um planeta e um cometa a áTinha um planeta e um cometa a áTinha um cometa e um ET e êTinha um cometa e um ET e êTinha um ET e uma pista a áTinha um ET e uma pista a áEra uma pista de corrida a áEra uma pista de corrida a áEra corrida de tartaruga a áEra corrida de tartaruga a áA tartaruga é muito esperta a áA tartaruga é muito esperta a á
  38. 38. 39A criança é mais esperta a áA criança é mais esperta a áTinha uma criança numa ilha a áTinha uma criança numa ilha a áEra ilha do pensamento to tôEra ilha do pensamento to tôMAIS das histórias
  39. 39. 40nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaFlores para a avóCamila S G Acosta GonçalvesUma meninaLá na florestaColhendo floresPra dar pra sua avó...Mal ela sabia quem estava a espiarUm velho lobo já pensando no jantarA menina não seguiu o conselho“Não pare no caminho e nem fale com estranhos!”,Disse a mãe da Chapeuzinho Vermelho.O lobo um plano traçouPor chapeuzinho ele passouA vovó ele devorou e passando uma ladainhaDe sobremesa ele engoliu a netinha!(óóóóóóóóóóhhhhhh)Um caçador -- atento como ele só!—Enfrentou o terrível loboE salvou a chapéu e sua avó!A vovó desesperadaQuase não sabia de nadaFicou na barriga do loboCom o que ele comeu na noite passadaE ao ser resgatadaViu sua camisola toda usada!* essa é uma canção aditiva, na qual pode-se repetir os versos e acrescen-tar o verso seguinte à vontade.
  40. 40. Capítulo 5 - MAIS viajantes
  41. 41. 42nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaLonge do querer dizer eEnquanto durar o ócioInventado entre umaTarefa e outra (agora ex-passadas),Uma valenteRapariga encontra novo mundoAo alcance dos dedos.Camila S G Acosta Gonçalves, 02/01/2010
  42. 42. 43EternidadeEra uma tarde de sol, numa rua tranquila.Estava sentada no fio de luz uma dupla de pardais, estavam ladoa lado. Realizavam longo diálogo, um deles aproximou-se um pouco,o outro recuou.Na eternidade de tempo dos passarinhos o primeiro arriscouaproximar-se um pouco mais.Tanto fez que conseguiu permanecer junto, bem juntinho aooutro por largo tempo... dentro da lógica dos pardais.Foi uma eternidade linda. E a conversa entre os dois continuava,até que o segundo novamente se esquivou, o diálogo entre os doisesquentava.O segundo, nervoso, lançou vôo e passou para o outro fio doposte de luz da rua tranquila numa tarde de sol. Agora, um poucodistante do primeiro pardal.E naquela eternidade pardaica apareceu outro pardal, um ter-ceiro (...) e sentou-se ao lado do segundo. Ficaram mais uma peque-na eternidade ali no outro fio, sabe-se lá o que falavam...O primeiro, isolado, não aguentou e foi ter com a nova dupla.O segundo, muito irritado, lançou vôo, desta vez rumo ao céu...será que volta?Os outros dois pássaros ficaram sentados no mesmo fio de luz,bem separados entre si, num profundo silêncio!Assim, durante um eterno tempo de pardal!Juliana Beltrão Leitoles18/01/2010MAIS viajantes
  43. 43. 44nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaHistórias para EsquecerAna Luiza Suhr ReghelinHá algum tempo carrego comigo este cesto, é por ele que pas-so os dias a falar com gente. Gente alta, gente baixa, gente rica,pobre, alegre e triste. Toda essa gente me ajuda, assim como ajudeialguém tempos atrás.Era uma viagem. Viagem que fazia só, ia de um lugar longepara um lugar distante. No meio deste caminho, quando o sol já iabaixo e as cores da noite se mostravam, encontrei um homem. Gentevelha. O ar cansado denunciava mais do que a sua idade, mostravao cansaço dos olhos e da alma. Parei e ofereci a metade do pão, dacarne e das uvas que trazia comigo. Alimentou-se sem dizer palavra.Seu olhar cansado fixou-se em mim e após um tempo sua falacansada disse: “Me ajude a esquecer!”“Esquecer?” [Pensei eu] “O que você quer esquecer?”Respondeu: “Tudo!”Aquilo soou forte e pensei ser grave alguém daquela idade que-rer livrar-se das lembranças de toda uma vida. Vida sofrida, conclui.- Me ajude a esquecer! Continuou o homem. Não consigo es-quecer, lembro de tudo, cada coisa, cada dia; isso me consome. Jánão posso com tudo isso.Mostrou-me então o cesto que estava aos seus pés. Era grandee estava cheio de lembranças e memórias. Disse que havia muitosdaqueles em sua casa e já não havia quase espaço para outros.Achando aquilo tudo muito simples, praguejei: “Jogue-os fora!Assim irá se livrar de todas essas coisas”.Com um riso irônico, respondeu:- Já fiz isso quando ainda era moço, fui até o rio mais fundo queconhecia e despejei todas, até não ver mais nenhuma. Quando volteipara casa lá estavam muitas outras... lembranças das lembranças.Era sempre assim, quando voltava de uma dia de trabalho ou de umbonito passeio, estavam lá cada carro que havia passado, a cor dosolhos de cada moça que havia admirado, a quantidade de passos
  44. 44. 45que havia andado, o som de cada palavra dita e ouvida. No inicio erabom, na escola eu era o melhor da turma, lembrava de cada fórmulamatemática e de todas as conjugações, sem hesitar. À medida quefui crescendo, as lembranças começaram a pesar e os cestos passa-ram a se multiplicar.Com a voz irritada e com um gesto forte, continuou:- É impossível viver sem esquecer!Novamente seu olhar fixou-se no meu: “Me ajude a esquecer!”,suplicou mais uma vez.Pensei um pouco, ajeitei minhas coisas, sentei ao seu lado ecomecei a esquecer... calmamente...“Esqueci que tinha uma flor e ela morreu sem água; esqueci damúsica que fiz para um amigo que tinha orelhas grandes; esquecimeu dedo na mira do martelo... doeu; esqueci que tive um amor eperdi, quando saí em busca de outro...”Falei por um tempo, até que olhei e vi que o meu velho dormia,estava com o ar mais sereno, me acomodei na coberta e adormecitambém.Acordei na outra manhã com a luz do sol. Totalmente desperto,olhei ao redor mas não encontrei meu velho, só vi seu cesto e eleestava menos cheio que na noite passada. Pensei que talvez o tivesseajudado de alguma forma, mas entendi também que ele ainda preci-sava da minha ajuda e levei o cesto comigo.Ainda hoje ofereço as lembranças do cesto para as gentes queencontro pelo caminho, dou uma ou duas aos mais esquecidos epeço que cada um esqueça uma lembrança e que ajude o meu velho.O cesto reaparece cheio a cada fim de tarde, assim continuosabendo que o meu velho ainda se lembra e de nada se esquece.MAIS viajantes
  45. 45. Segunda Parte
  46. 46. Capítulo 1 - Matéria prima “Pesquei um livro, colhi umahistória, plantei uma idéia...”Listagem das “caixinhas viajantes” e do acervo do projeto;sobre os livros em uso e as narrativas de histórias de vida
  47. 47. “Se você quiser conhecer alguém profundamente,preste atenção nas histórias que essa pessoa conta, lêou assiste na televisão ou no cinema. Nossas históriaspreferidas sempre falam de nossos maiores segredos,das emoções mais verdadeiras de nossas vidas, dosnossos grandes sonhos e esperanças.” (prefácio de LÁVEM HISTÓRIA OUTRA VEZ, de Heloisa Prieto)“Antes das sessões de fotos, eu conversava com as cri-anças, para conhecê-las melhor. Descobria como erama família e os amigos, a escola e as brincadeiras, e oque fazia cada criança ser especial.” (fotógrafo do livroCRIANÇAS COMO VOCÊ)
  48. 48. 49Das viagens em que não fui...Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves... mas das quais ouço falar são muitas!Como uma das integrantes pioneiras do projeto, que participadesde 2007 e é, portanto, uma das mais antigas (já condecoradacom cabelos brancos sem disfarce), estive em diversas viagens eposso dizer que nenhuma foi, é e nem será igual à outra. E guardosuspiros fortes para viagens em que não estive e afirmo piamenteque nenhuma foi, é, e nem mesmo será igual à outra.Dessas viagens eu degusto os restos, tal qual uma criança quelambe o que sobrou da massa do bolo na cuba da batedeira - mo-vida à mão ou à eletricidade. É a lambida na tampa do iogurte, oumesmo de um restinho afetuosamente guardado para mim pelaequipe caridosa, deliciando-me de palavras, movimentos, brilho nosolhos, expressões belíssimas ou inesperadas - inclusive amargas. Sa-bemos, ora pois, em especial os já de cabelo grisalho como eu, quenem tudo são flores, e até mesmo as mais belas das flores têm seusespinhos, como a “rosa vermelha do meu bem-querer” da cirandanordestina.E utilizo meus recursos imaginativos para construir essas via-gens na minha cabeça, encontros que não tive, mas que igualmentequero fazê-los presentes em minha bacia de memórias.Dessas em que não fui, quero deixar o relato de uma - MAIS ou-tra estratégia para não me fazer esquecer... se é que isso é possível,pois traz aroma tão forte, tão inefável que é séria candidata a estarguardada em meu baú das lembranças eternas de todos os tempos,incluindo os imemoráveis.Um dos livros da caixinha viajante 2008 é o Asa Branca, de LuizGonzaga. É, dele mesmo. Do “rei do baião”. Por esse livro foi paixãoà primeira vista, pois as ilustrações são belíssimas, colorindo a letrada canção de Gonzaga pelo talentosíssimo Maurício Pereira – livroeditado pela DCL. Como merecida, a canção vira música em umaMatéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  49. 49. 50nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhapartitura para instrumento harmônico (piano, violão) e canto ou ins-trumento melódico (flauta, clarinete, sax, violino...). A poesia é tra-tada com merecida seriedade: escrita timtim por timtim apossadade seu regionalismo, com os acentos dos falantes e cantantes lá dosertão: “quando oiei a terra ardeno...”Quando fiz a escolha desse livro para a caixinha, não tinha idéiado acontecimento que se desencadearia...Foi uma professora de Tunas do Paraná quem contou, nessaviagem em que não estive. Ela leu o livro para seus alunos, mostrouas figuras, cantou a música (será que tinha rádio para rodar o CDque lá deixamos com a canção? não sei, prefiro imaginar que elacantou bem bonito a cappella, e depois os alunos cantaram junto) eemprestou o livro ao aluno que havia lhe pedido.Seus alunos eram iniciantes leitores de letra, e mestres leitoresde mundo. Um pouco eles devem ter aprendido com ela. O outropouco, com os pais, os tios, os vizinhos, os cachorros, as galinhas, osporcos, os milhos, a terra. E com as outras crianças, é claro.O menino levou o livro para casa. Ele nem sabia que, antes dis-so, eu já havia me apaixonado pela mesma leitura, pela mesma tira-gem desse exemplar que jazia em suas mãos.Em sua casa, abriu o livro para o pai ler... o pai lia palavra ne-nhuma!(Será que ele fora “peão; sua mãe, solidão; seus irmãos (quase)perderam-se na vida à custa de aventuras?” isso eu também nãosei... sei que essa outra canção me dá um arrepio parecido com essahistória... arrepio quente que me faz marejar os olhos de lágrimas)O menino estava na escola tempo suficiente para conhecer daamargura do pai. Sabia bem como era isso. Um frio gelado na es-pinha, a boca seca tentando balbuciar algo. Algo que pudesse poracaso fazer sentido com aquilo que se esperava de um leitor de letra.Isso tudo vezes a idade do pai. O pai bebia uma tintura de boldo desentimento, somada à responsabilidade de pôr filho no mundo ecuidar dele, saber dele, ler... para ele.Entendendo o pai, o menino quebrou o silêncio silabando ocomeço do texto de letra.
  50. 50. 51Felicidade é pouco pra dizer disso: o pai sorriu para o filho. Sor-riso com olhos molhados. Ele vivera o bastante para conhecer aquiloque não sabia iscrivinhado. Não só sabia da letra, mas também amelodia.E foi assim, cantando e lendo para e com o seu filho, que osdois passaram aquele final de tarde. Em preciosíssima descoberta eresgate: o filho descobriu o pai, leitor; o livro descobriu a fluência dequem já o conhecia desde antes de ele nascer. Como a um filho queresgata as origens de seus ascendentes desde seu ventre. O ventreda cultura.Foi então que de um leitor nasceram dois. De uma só letra nas-ceram múltiplas imagens. E da memória de uma canção nasceu re-conhecimento. E desse reconhecimento, o significado. Significadoque desbota meus cabelos só de ouvir falar. A experiência gera ocontraste das cores do cabelo, por meio das peculiaridades do vôode cada um de nós, três leitores, com Asa Branca.Das viagens em que não fui, mas das quais sempre tenho notí-cias, eu escrevi essa.Simples música para meus ouvidos. Que me fazem escutar ochoro baixinho de emoção do pai na escuridão da noite, quando asilustrações se fundiram com o breu do descanso.Esse pai que nem conheceu a gente. Mas que já conhecia o livro.Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  51. 51. 52nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaAs muitas históriasLiliane Machado MartinsContar histórias pode ser uma sinfonia, desde que nessa sinfonia, or-questrada com palavras, entrem todos os instrumentos: do sopro da respi-ração ao metal da voz; do dedilhar do corpo ao ribombar do olhar (SISTO,2007, p. 39).Todos nós já contamos ou ouvimos alguma história, desdeaquelas narradas por nossos pais, as que nossos professores conta-vam na escola ou mesmo aquela que ouvimos dos nossos amigos. Enão estou falando apenas das histórias tiradas dos livros, falo tam-bém daquelas que a gente só tem na lembrança - dessas que vaipassando de geração pra geração.Comigo não foi diferente, vários momentos da minha vida fo-ram marcados pela contação de histórias. Uma história que me mar-cou muito foi contada durante uma viagem de barco na Lagoa daConceição, em Florianópolis/SC. Foi neste dia que escutei pela pri-meira vez a história do menino Yahoo, uma criança que acreditavaque poderia empurrar o céu para o alto, usando a força, a corageme a união de todas as crianças do mundo. Fiquei tão apaixonada poresta história que já a contei diversas vezes.Outra situação que eu lembro muito bem foi uma contação fei-ta pelo Vinicius, participante do projeto em 2008 e 2009. Ele leu olivro “Todo cuidado é pouco”, de Roger Mello. Fiquei encantada como modo que ele contou a história, envolvendo os ouvintes – a maio-ria criança – durante toda a contação.Nas histórias com fantoche, era maravilhoso perceber a curio-sidade das crianças. Elas já entravam em sala tentando adivinhar oque iria acontecer. Todo aquele momento antes da contação era en-cantador.Das várias atividades que fizemos pelo projeto, a maioria foidesenvolvida em conjunto. A criação era desafiadora, porém sempremuito empolgante. E ver o resultado final, construído com a ajuda detodos, era gratificante.
  52. 52. 53Todo contato humano se dá por meio de uma leitura, em seusentido mais amplo: lê-se as histórias que possuem aquela criança,as histórias que ela deseja possuir, as histórias do professor que to-cam as da criança e, se esse momento for tratado com cuidado ecarinho, nascerá toda uma nova família de histórias, uma rede deli-cada cuja beleza poderá gerar fios que se entrelaçam infinitamente.(PRIETO, 1999, p. 33)Referências:PRIETO, H. Quer ouvir uma história? Lendas e mitos no mundoda criança. São Paulo: Angra, 1999 (Jovem Século 21)SISTO, Celso. Contar histórias, uma arte maior. In: MEDEIROS,Fábio Henrique Nunes & MORAES, Taiza Mara Rauen (orgs.). Me-morial do Proler: Joinville e resumos do Seminário de Estudos daLinguagem. Joinville, UNIVILLE, 2007.CIPIS, M. Era uma vez um livro. São Paulo: Cia das Letrinhas,2002.MELLO, R. Todo cuidado é pouco. São Paulo: Cia das Letrinhas,1999.Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  53. 53. 54nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCaixinhas Viajantes 2008A árvore generosaShel SilversteinEditora Cosac NaifyA árvore que dava sorveteSergio CapparelliEditora ProjetoA Festa das PalavrasKátia CantonEditora GirafinhaArmazém do FolcloreRicardo AzevedoEditora ÁticaAsa BrancaLuiz GonzagaEditora Difusão Cultural do LivroCacoeteEva FurnariEditora ÁticaContos que brotam nas flo-restas – Na trilha dos irmãosGrimmKátia CantonEditora Difusão Cultural do LivroDentro do espelhoLuise WeissEditora Cosac & NaifyFada cisco quase nadaSylvia OrthofEditora Editora ÁticaFico à esperaDavide Cali e Serge BlochEditora CosacNaifyLá vem históriaHeloisa PrietoEditora Companhia das Letri-nhasNo fundo do fundo-fundo Lávai o tatu RaimundoSylvia OrthofEditora Nova FronteiraO cabelo de LelêValéria BelémEditora Companhia EditoraNacionalO Carteiro chegouAs” Caixinhas Viajantes” são o acervo de livros entregue emcada uma das escolas das séries iniciais da rede pública dos municí-pios participantes-- Adrianópolis, Bocaiúva do Sul e Tunas do Paraná(2008-2009); Guaraqueçaba e Piraquara (2010).O “Acervo Gente e Livros“ são os livros adquiridos (através decompra, troca ou doação) para a sede do projeto na universidade.
  54. 54. 55Janet e Allan AhlbergEditora Companhia das Letri-nhasO EquilibristaFernanda Lopes de Almeida eFernando de Castro LopesEditora ÁticaO livro dos medosVários AutoresEditora Companhia das Letri-nhasO menino quadradinhoZiraldoEditora MelhoramentosPinote, o fracote e Janjão, ofortãoFernanda Lopes de Almeida eAlcy LinaresEditora ÁticaSob o sol, Sob a luaCynthia CruttendenEditora Cosac NaifyTodo cuidado é pouco!Roger MelloEditora Companhia das Letri-nhasTraquinagens e EstripuliasEva FurnariEditora GlobalVacas não voamDavid MilgrimEditora Brinque-BookZig ZagEva FurnariEditora GlobalCaixinhas Viajantes 2009Zé PiãoDucarmo PaesEditora Noovha AmericaTriângulos vermelhosÂngela-LagoEditora RoccoO homem que amava caixasStephen Michael KingEditora Brinque-BookO Caso das bananasMilton Célio de Oliveira e Maria-na MassaraniEditora Brinque-BookMania de ExplicaçãoAdriana FalcãoEditora SalamandraHistórias FabulosasEsopo e La FontaineEditora Difusão Cultural do LivroGuilherme Augusto AraújoFernandesMem Fox e Julie VivasEditora Brinque-BookMatéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  55. 55. 56nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCrianças como vocêUNICEFEditora ÁticaCaixinhas viajantes 2010Fábrica de poesiaRoseana MurrayEditora ScipioneFelpo FilvaEva FurnariEditora ModernaLá vem história outra vezHeloisa PrietoEditora Cia das LetrinhasO problema do ClóvisEva FurnariEditora GlobalRabisco – Um cachorro per-feitoMichele IacoccaEditora ÁticaRápido como um gafanhotoAudrey Wood / Don WoodEditora Brinque-BookUni Duni TêAngela LagoEditora ModernaVacas não voamDavid MilgrimEditora Brinque-BookAcervo Gente e LivrosA árvore curiosaDidier LevyEditora GirafinhaA velhinha na janelaSônia JunqueiraEditora AutênticaA menina do FioStela BarbieriEditora GirafinhaA rainha das coresJutta BauerEditora Cosac NaifyA verdadeira história de cha-péuzinho vermelhoAgnese Baruzzi e Sandro Nata-liniEditora Brinque-BookA verdadeira história dos trêsporquinhosJon Sciezka / Lane SmithEditora Companhia das Letri-nhasAlguns contos e fábulasLa FontaineEditora PaulusAs narrativas preferidas de umcontador de históriasIlan BrenmanEditora Landy
  56. 56. 57Bisa Bia, Bisa BelAna Maria MachadoEditora SalamandraBruxa, Bruxa – venha a minhafestaArden Druce / Pat LudlowEditora Brinque-BookCarta errante, Avó atrapalha-da, Menina aniversarianteMirna PinskyEditora FTDChapeuzinho amareloChico BuarqueEditora José OlympioChuva de mangaJames RumfordEditora Brinque BookClara manhã de quinta à noiteDon Wood / Audrey WoodEditora ÁticaConta uma história?Ana Lucia BrandãoEditora PaulinasContos de enganar a morteRicardo AzevedoEditora ÁticaContos de EstimaçãoVários AutoresEditora ObjetivaContos de Morte MorridaErnani SsóEditora Companhia das Letri-nhasDa pequena toupeira quequeria saber quem tinha feitococo na cabeça delaWerner Holzwarth / Wolf Erl-bruchEditora Companhia das Letri-nhasDe surpresa em surpresaFanny AbramovichEditora BragaDoze reis e a moça no labirin-to do ventoMarina ColasantiEditora GlobalEstão Batendo na PortaRicardo AzevedoEditora MelhoramentosFadas no divã – Psicanálise nashistórias infantisDiana L. Corso e Mario CorsoEditora ArtmedHistórias da PretaHeloisa Pires LimaEditora Companhia das Letri-nhasHistórias de fadasMatéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  57. 57. 58nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaOscar WildeEditora Nova FronteiraHistórias do CisneHans Christian AndersenEditora Companhia das Letri-nhasLilásMary E. WhitcombEditora Cosac NaifyLimeriques da CocanhaTatiana BelinkyEditora Companhia das Letri-nhasMariluEva FurnariEditora Martins FontesMeus primeiros contosAntologia de Contistas Brasilei-rosEditora Nova FronteiraMeus Primeiros VersosAntologia de Poetas BrasileirosEditora Nova FronteiraMil pássaros pelos céusRuth RochaEditora Editora ÁticaNo dia em que você nasceuDebra FrasierEditora AugustusNósEva FurnariEditora GlobalNossa rua tem um problemaRicardo AzevedoEditora ÁticaO caso do pote quebradoMilton Célio de OliveiraEditora Brinque-BookO Circo da luaEva FurnariEditora AticaO Fantástico mistério de feiu-rinhaPedro BandeiraEditora FTDO gato e a meninaSônia JunqueiraEditora AutênticaO grande livro dos medosEmily GravettEditora SalamandraO livro inclinadoPeter NewellEditora Cosac NaifyO menino e a gaiolaSônia JunqueiraEditora AutênticaO menino marrom
  58. 58. 59ZiraldoEditora MelhoramentosO outro ladoIstvan BanyaiEditora Cosac NaifyO pequenino grão de areiaRicardo FilhoEditora PaulusO que os olhos não vêemRuth RochaEditora SalamandraO três mosqueteirosAlexandre DumasEditora MelhoramentosO Urubu e o Sapo e O Velho eo tesouro do reiSilvio RomeroEditora PaulusOnde tem bruxa tem fadaBartolomeu Campos QueirósEditora ModernaOs Cigarras e os FormigasMaria Clara MachadoEditora Nova FronteiraPoemas para brincarJosé Paulo PaesEditora ÁticaPoemas para criançasFernando PessoaEditora Martins EditoraProcura-se LoboAna Maria MachadoEditora AticaQuem viu o meu soninho?Alfredo GarciaEditora LêTem cavalo no chiliqueSylvia OrthofEditora FTDUm garoto chamado RorbetoGabriel o PensadorEditora Cosac NaifyUm zoológico de papelTatiana BelinkyEditora Noovha AmericaUma idéia toda azulMarina ColasantiEditora GlobalUma professora muito malu-quinhaZiraldoEditora MelhoramentosZooJoão Guimarães RosaEditora Nova FronteiraMatéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  59. 59. 60nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaBrincando com narrativas na sala de aula: uma busca porlacunas preenchidas em livros de recordações Andressa Machado TeixeiraVocê já deve ter pensado muitas vezes que ser criança é umestado da gente que deixa saudades, não é mesmo? Pois bem. Seradulto tem responsabilidades agudas, mas, há coisas que podemosfazer que são mais divertidas do que pagar contas. Uma delas é po-der recordar e narrar, principalmente aos menores, coisas boas doamadurecer. Se nossas recordações fossem um livro, ele seria escri-to ao longo da vida inteira. Quanto mais percebemos a vida, maisnosso livro adquire características próprias. Alguns podem ser gros-sos volumes, outros ficam mais abertos do que fechados, uns sãoesquisitos, também existem versões de bolso, e alguns poucos sótem imagens. Há livros com conteúdos apagados, de páginas poucolidas e amareladas. Ou páginas e páginas de rabiscos tempestuososque quanto mais lidos, menos compreendidos. Mas há nesses livrospáginas bem conservadas que, ao lermos e relermos - para nós mes-mos e para os outros -, ganham uma linguagem mais madura e clarado que a própria recordação. É a diferença entre a espreguiçadeira ea rede. A recordação e a narrativa.Até que nossa adultência nos tome de assalto pelo meio do ca-minho, muitas lembranças permanecem como uma extensa lacuna aser completada no texto do pensamento. Vamos crescendo e inter-calando ao texto da nossa história lacunas de lembranças cheirosascomo o bolo da tia, chulezentas como primos reunidos, ardidas deum beliscão, relaxantes como um banho quente depois de brincarum dia todo, entre outras que não se pode escrever aqui, a não serna sua forma mais pura: ____________________. O que cabe a cada umde nós para preencher essa lacuna torna nossas memórias preciosas,enquanto as suas narrativas equivalem a uma verdadeira façanha degente grande!Criança ou adulto, todos temos o que contar. Talvez se conside-rarmos narrativas de cinco figuras cujos universos verbais são muito
  60. 60. 61distintos, algo surja na lacuna que temos sem preencher. Meu amigoEnzo, que já viveu seu considerável primeiro ano de vida, contou aminha irmã o seguinte episódio depois de uma trupicada: “Casi caí!”Ele ainda não fala muitas palavras da nossa língua então esse foi oprimeiro causo compreensível e inteiro que ouvimos dele.Já Juan tem oito anos. Sempre o encontro na casa de sua avó,dona Neide. Na maioria das vezes brincamos juntos, exceto pelo diaem que qualquer brincadeira seria imprópria diante dos dois riosde lágrimas que corriam pela face vermelha e inchada de Juan. Elesdesaguavam numa bocarra aberta que fazia ecoar pela casa gritoschorosos vindos das profundezas, de além da garganta. Segurei omonstrinho indesejável perto, demonstrei minha compaixão porsuas lamúrias desconhecidas e minha curiosidade em conhecê-las.A história foi mais chorada do que contada. Algo assim: Juan queriaa companhia de sua nova e única amiga, Meg, uma vira-lata encon-trada na porta de sua casa alguns dias atrás. Pelo grande apego delepela cadelinha a família concordou em adotá-la. Desde então, sepa-ravam-se apenas nos momentos inevitáveis - mas Juan achava queas visitas à casa da vó Neide não se incluía neles. Ao fim, legitimavao choro enquanto associava tudo isso a um plano maquiavélico desua mãe para separá-lo de Meg. Ele me contou como era linda a suapelagem, as coisas sapecas que aprontava e o choro foi soluçando, osoluço cessando... até a respiração normalizar.Numa certa noite meu pai lembrou-se, à toa, de um episódiocertamente inesquecível, passado no passado do interior de sua in-fância - interior de seus grandes medos. Foi a vez que o mandarambuscar, já de noitezinha, água no poço. Sem muita opção seguiu opequeno carregando um balde vazio e reluzente sob o luar. Apenaso som quieto do mato era audível, além de seus modos ofegantes.Tinha uma coragem muito cautelosa no seu caminhar que o manti-nha atento pelo instinto, pois não exergava abaixo dos joelhos ou aum palmo diante do nariz. De repente passa por ele um porco cor-rendo, que o faz largar o balde, gritar e dar no pé rapidinho.. tudoao mesmo tempo! Ainda deu para ouvir o balde trepidar rolandono mato enquanto voltava para a casa. Com toda a bambeira nasMatéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  61. 61. 62nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhapernas adentrou a porta, despertou o riso dos adultos e recebeuordens marotas para voltar e procurar o balde imediatamente! Oraveja, medo de porco!Thaise tem a minha idade, e é claro, também tem suas histó-rias. Uma vez, quando tinha apenas dois aninhos explorava inocen-temente o quintal e notou uma escada encostada na parede de suacasa. Perguntei o que ela pensou, mas não houve resposta. Imedia-tamente pensei naquela sensação de João ao observar o pé de feijãoemergindo continuamente para o alto. Continuando o causo, diantede meus olhos e ouvidos, Thaise, como boa aproveitadora da vida,simplesmente subiu a escada intercalando as mãozinhas e os pe-zinhos a cada ripa até alcançar a laje. Lá sentou-se na beirada e sepreocupou em contemplar a vista. Passados vinte anos a memórialhe permite ter essa vista novamente quando lhe aprouver, e casooutrem estivesse diante dela escutando, como eu estive, veria emseus olhos, não o reflexo de si mesmo, mas a vista da laje. Mas, con-tinuando, tranqüilidade de criança dura pouco. Foi então que algunsbarulhos, que vinham do chão, chamaram a atenção da pequena.Com cara de interrogação mirou em baixo e viu sua mãe aos berros,impotente. “E o que você sentiu?” – insisti. Outra vez a resposta veiocheia de silêncio. Thaise continuou, altiva e gigante, a encarar o mi-núsculo rosto da mamãe desesperada, até que a cabeça de seu paiveio à tona, ajeitando-se na escada para tomá-la nos braços e salvaro dia, mesmo com terrível medo de esborrachar-se com Thaise, es-cada e tudo.Seo Ceriaco, um menino falador de oitenta e três anos, brincacom sua linha do tempo e diz que faltava dinheiro para comprarbicicleta, mas tinha condições de fazer. Era a bicicleta de pau. Per-cebendo a minha curiosidade, ele explica passo a passo: “pegavauma tábua, levava na serraria. Segurava um compasso e passava umlápis que marcava a roda. Então, na serra fita, aquela que corta carneno açougue e faz xiiim xiiiiiim, exatamente em cima do risco, viravaaos poucos para sair a roda. Com uma pua de manivela furava nomeio onde se encaixava o eixo. Pua é uma broca. Não tinha furadei-ra elétrica, então o furo se fazia no muque. Depois apertava o eixo
  62. 62. 63com parafuso enquanto a roda de madeira ficava engatada. Passavaqualquer graxa que deixasse liso para deslizar o giro. Por fora daroda era só pregar uma tirinha de pneu mais curta com uma pontabem pertinho da outra. Depois, puxava o pneu com força e apertavaa roda bem ajustado. Sem pneu, a roda saia fazendo pó pó pó pópó pó. O celim era de pano, ou trapo. Punha a tábua na altura quequisesse pra sentar e cobria. Depois tinha cada corrida que Deus olivre! Toda a gurizada queria ser o melhor na bicicleta. Quem tivessea bicicleta mais rápida ganhava o prêmio! A nossa rua era uma desci-da e acabava numa curva lá em baixo. Não era fácil de fazer a curva.Às vezes a gente se arrebentava. Todo mundo fazia. Algumas guriasmeio atrevidas faziam também. Era divertido...”Vivendo, brincamos de criar histórias. Ouvindo histórias, brin-camos com a criatividade. Linguagem e imagens são coreografadasem nossos cenários mentais. Ao narrar, e ao escrever narrativas, cria-mos jogos lingüísticos. Jogos com regras possíveis e impossíveis. Ea vida é uma oportunidade constante para jogar com a linguagem.Cada ponto da linha do tempo de nossas vidas pode ser desvendadocom palavras. Futuro, presente e passado. A linguagem oferece aotempo aquele abraço de urso. Seo Ceriaco contava, setenta e seteanos depois, sobre como fazer uma bicicleta de pau – com detalhesfotográficos. Enquanto existir narrativa o garoto e o velho são ape-nas um e não é muito fácil distingui-los. Assim como a criança Thaiseque contempla a vista sobre o telhado com seus olhos de moça. Gra-ças a esses olhos, seus mirantes do passado, a narrativa desvela aslembranças tão bem narradas, mesmo que a vida passe. Elementossinestésicos são tesouros que guardamos nos baús do pensamento,e alguns deles transformamos em palavras ou imagens para publicarem nosso livro de recordações. Meu pai relembrou-se no mato e defato - nunca saberemos ao certo - ouviu com nitidez o balde tilintare rolar no chão quando foi lançado para o ar e caiu. As lembrançasnão permanecem intactas. Elas são ressignificadas. Quanto à matu-ridade de nossa essência verbal, eu pergunto: quem teria gritado ecorrido enquanto o balde se perdia? O garoto tão alerta que não erameu pai, ou o homem, ainda tão alerta?Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  63. 63. 64nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaNos três causos os “adultos” lançam-se em suas linhas do tem-po - complexos nas suas narrativas de diferentes fases da vida. En-quanto Juan, que pouco compreendia seu distanciamento com Meg,falou de um tempo recente - apenas uma semana antes; Enzo narroualgo muito repentino e muito próximo do momento de sua narrativa.O tempo entre sua narrativa “Casi caí!” e o acontecimento narradotem a distância do pensamento. Seria por que as narrativas infantisestão mais próximas de seu presente, de suas carências, emoções edesequilíbrios? Nos livros das narrativas infantis percebe-se mais osfatos do que a organização dos registros. O amadurecimento nosajuda a organizar as narrativas. Há lacunas em branco que surgempela vida e alguns de nossos textos mentais podem ter lacunas emenorme quantidade. Há palavras que pulam nessas lacunas sem sa-ber ao certo onde devem permanecer. Algumas delas passamos avida inteira sem saber onde se posicionar. Os critérios e regras paradar-lhes um bom contexto semântico variam de pessoa crescidapara adulto infante, e no geral, não há como montar um esquema.Ter disposição para ouvir e falar é um aprendizado tanto pessoalquanto cultural. Por meio do contato com as narrativas, preenchemosas lacunas e encontramos tesouros para o baú de sensações. Logo,existe uma contribuição verbal das histórias cheias de preciosidadesàs mentes cheias de lacunas. A escola é um espaço vital dessas expe-riências. Para estimular o desenvolvimento da linguagem verbal e ahabilidade de narrar, é possível oferecer possibilidades para compor,recriar, ouvir, perceber, restabelecer elementos que agucem nossavontade de contar o que vemos pelo mundo. Apresentar aos edu-candos (as) a diversidade das formas de falar, escrever, representar,seqüenciar, brincar com o tempo, descrever tempos, etc... mostrá-loslugares com infinitas opções de mobília para decorar seus cenáriosmentais. Levá-los em um mergulho ao chão do oceano onde há umbarco que afundou e conserva tesouros - não se sabe de onde vinha,não se sabe desde quando, mas se sabe que traz uma história quepodemos inventar. Uma boa viagem verbal requer bagagem volu-mosa, mas ao mesmo tempo singela. Como uma bagagem recheadade livros e recordações que, uma vez abertos, são braços aconche-
  64. 64. 65gantes de escritores e ilustradores nos carregando no colo, ou em-balando nossa rede. Podemos viajar carregando um jogo de caça aotesouro na mala e muita disposição para esconder pistas. Podemosperguntar às crianças: que histórias tem ouvido? Que outras gos-tariam de contar? Mas não esqueça! Quando a resposta delas vier,mantenha os olhos e ouvidos abertos, mesmo que a resposta sejauma lacuna vazia. Pois ela pode se transformar em narrativa. Talvezdo tempo presente, talvez para trás, talvez para frente.Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”
  65. 65. Capítulo 2 - Dentro do cozinheiro: anatomia funcional doque não aparece, mas aparece na arte de fazer comidaQualidades do contador de história; Reflexões autobiográ-ficas de quem ama literatura
  66. 66. “Sou barulhento como um leão, sou quieto como umaostra, sou corajoso como um tigre, sou medroso comoum camarão...” (RÁPIDO COMO UM GAFANHOTO, deAudrey Wood )
  67. 67. 68nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaUma aventura na chácara: uma infância com uma pontinhade medo.Márcia T. Azevedo RochaEssa é a história de uma menina que aos oito anos de idade foimorar com sua família em um sítio longe da cidade. O olhar dessamenina brilhou ao entrar em contato com a natureza. Ela se sentiaencantada por poder ficar próxima aos animais; brincar, pular e cor-rer em um campo enorme; andar de bicicleta e de balanço; colher asfrutas e verduras com seu pai, diretamente da plantação. Essas eramalgumas das diversões e distrações dessa menina. Um dia ela estavabrincando com suas bonecas e seu pai apareceu, dizendo:- Vamos passear na chácara?Ela ficou muito contente, pois seu pai sabia o quanto ela gostavade ir até aquela chácara. Esse lugar encantador possuía um grandelago; cada um dos animais tinha sua própria casa: os cavalos mora-vam num lindo celeiro, os porcos em um chiqueiro e as galinhas emum galinheiro. Era um lugar mágico em meio à beleza da natureza.E ela respondeu dando um pulo de alegria:- Já estou pronta!Chegando lá, a menina encontrou com os donos daquela chá-cara - eram os velhinhos mais queridos que ela já havia visto. En-quanto aquele humilde senhor cuidava dos animais, sua senhorafazia manteiga e queijo com o leite retirado da vaca.- Uhmmmm...que delícia! - exclamou a menina ao provar umdos deliciosos queijos fresquinhos.Enquanto ela esperava na cozinha, seu pai foi buscar um barcode madeira bem pequeno para levar sua filha pra passear no lago.Ela não esperava por isso, pois sempre foi uma menina muito me-drosa. Tinha tantos medos e o maior deles era justamente o de andarde barco.- E se ele virar? - perguntou ela ao seu pai.Ele disse para ela não sentir medo, pois não iria virar. E não éque virou?!
  68. 68. 69Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte defazer comidaFoi assim que aconteceu: estavam os dois no barco quando seupai, para impressioná-la, começou a balançar o barco pensando quea menina iria gostar daquela brincadeira. Só que o barco virou e elanão viu mais nada, somente água. Nesse momento, aquele pequenolago tornou-se uma imensidão para ela.Quando abriu os olhos, uma esperança nasceu ao ver uma dasmãos de seu pai resgatando-a do fundo do lago.A menina saiu da água muito assustada, chorando e respirandofundo.Ao voltar para casa, depois do grande susto, percebeu que, apartir daquele instante, não teria mais coragem para enfrentar umaaventura como essa.***Vinte anos se passaram e essa menina cresceu. Hoje ela fazparte de um projeto de literatura infantil e passou por uma situaçãosemelhante quando precisou vencer o desafio de atravessar, destavez não mais um lago, mas um imenso mar. O que fez ela viajar esuperar o seu medo foi o enorme desejo de levar um pouquinhode literatura para crianças que moram em uma ilha. Foi com muitasuperação que se rompeu mais uma barreira em sua vida, dentremuitas, mas, com certeza, a MAIS prazerosa. Apesar de ter vivido umgrande medo em alto mar, ao desembarcar na ilha aquela meninapercebeu o entusiasmo dos alunos ao se depararem com algo queeles não estavam acostumados a vivenciar todo dia. Era uma escolapequena, mas com certeza agora com algum diferencial. A partir deum trabalho sério, ela acabou entrando em MAIS uma aventura, como intuito de brotar uma sementinha no coração de cada criança edespertar nelas uma fome de leitura e um desejo por histórias.Hoje ela continua contando com a esperança de que no futuropossa haver uma colheita embasada no amor pela leitura e pela lite-ratura. Ela acredita que as histórias infantis podem levar às criançasum prévio contato com situações imaginárias que serão vividas fu-turamente em um dado momento de suas vidas, como as própriashistórias de medo ou os contos de fadas.
  69. 69. 70nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaO caso com a literatura!Ela lá, eu cá,ela andando pra cáeu indo pra láBum...encontroQuando criança eu sabia apenas que gostava de inventar...ah, como minhas bonecas sabiam disso...nem sempre era bom para elas,por vezes eram devoradas por incríveis monstros da clandesti-nidademas em compensação eram imensamente amadas por heróisde algum reino escondido nas profundezas do meu quarto.Quando adolescente, eu sabia apenas que nem todas aquelashistorinhas me convenciam,mas bastava um belo versinho para me derreter toda, comouma floquinha de neve que se derrete ao se apaixonar pelo grandee quente sol.e assim eu fui crescendoentre fatos reais,realidades tristes e alegresfatos imaginárioscheios de razão, imaginação e teimosia!e só depois de muito tempo eu fui entenderque esta tal literaturaque tanto falavam na escolatão escondida lááá na bibliotecaestava dentro de mim o tempo todo!!!!
  70. 70. 71Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte defazer comidae mais uma vez o tempode uma experiência nem tão distanteme mostrou que o conhecimento sensívelmora mesmo dentro do meu peito!hoje eu conto histórias para não deixar o tempo em brancoe sim colorir de sonhos, sons e gestoso gosto pelo contato com o próximoo gosto por conhecer o poder fantásticode um mundo que sempre surpreende:a vida!Juliana Leitoles
  71. 71. 72nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaQuando penso nos tempos de infância lembro de boneca, dearmazém, de ursinho de pelúcia, de pega-pega, de desenho na tele-visão, e de fazer João de Barro depois da chuva. Mas não me lembrodos meus pais contando estórias durante o dia, ou antes da hora dedormir; tão pouco me dando um livro com a estória do João Pé deFeijão envolto num embrulho de presente de Natal ou aniversário.Eles me davam brinquedos e roupas nas datas comemorativas por-que julgavam ser o mais importante para o meu bem estar - e euera pequena demais para saber quais necessidades de fato eu tinha.Como quem procura fotos antigas de família, aquelas que ficamescondidas nos lugares mais difíceis do guarda-roupa, fui buscarnas recordações de 1ª série algum momento em que a escola tenhame dado a oportunidade de levar um livro de literatura infantil paracasa; para minha tristeza, lembro-me das estórias contadas apenasem sala de aula pela professora. Ah, se ela soubesse o quanto eudesejava ter o prazer de pegar um livro e folhear as páginas comminhas próprias mãos, ler e reler a mesma estória, com o mesmoentusiasmo que ela parecia sentir quando lia. Mas eu era pequena etímida para expressar meu desejo de experimentar, sozinha, as aven-turas no mundo da leitura.Na 2ª e 3ª série as únicas estórias que tive o prazer de eu mes-ma ler, sem a leitura das professoras, estavam na cartilha ou em pe-quenos papéis que deveriam ser colados no caderno para a execu-ção de alguma tarefa. Mal eu sabia que os dias de pouco encanto efantasia estavam prestes a mudar. Certo dia na escola, na 4ª série, aprofessora disse que todos da turma poderiam ir à biblioteca parapegar livros emprestados. Lembro que entrei amedrontada na bi-blioteca pela primeira vez e avistei a prateleira de livros de literatu-ra infantil, rapidamente escolhi um e levei para a casa. A bibliotecanaquela época me causava arrepios, pois o silêncio reinava e até ospassos não deveriam fazer barulho. Eu não fazia idéia que depoisde ler o primeiro livro minha vida não seria mais a mesma. Pois asestórias me levaram a vários cantos do mundo - é um universo semfim! Depois do primeiro livro, a biblioteca se tornou o meu baú detesouro. A ansiedade de ler as estórias só aumentava, tanto que eu
  72. 72. 73Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte defazer comidanão aguentava esperar chegar em casa, já ia lendo no recreio. Esseperíodo marcou minhas lembranças, pois até hoje recordo de algunstítulos da Coleção Vaga-lume: Sozinha no mundo, A Ilha Perdida; Asaventuras do cachorrinho Samba, dentre outros.Depois que entrei no fantástico mundo encantado da litera-tura, nunca mais consegui sair.Luciane Fabiane dos Santos
  73. 73. Capítulo 3 - História encontra histórias ou Comendo nomesmo pratoDepoimentos de integrantes do projeto da Universidade eda Comunidade
  74. 74. “Eu quero agora:A mesa fartaO canto alegreO riso de festaO odor de rosa.”(poesia De volta, em A ÁRVORE QUE DAVA SORVETE,de Sérgio Capparelli)“Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o seupensamento reapresenta um capítulo.” (MANIA DEEXPLICAÇÃO, de Adriana Falcão)
  75. 75. 76nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaPedimos a todos que participam ou já participaram do(s)projeto(s) Gente e Livros (2007-2009) e MAIS Gente e Livros (2010)um breve relato de um encontro ou um depoimento de como foi oprojeto para cada um. Seguem os depoimentos dos que puderamnos atender. Os relatos da equipe se encontram com os relatos dosprofessores, comentando sobre os livros das caixinhas viajantes, agente, si mesmos, seus alunos e comunidade.Gente e Livros***Depois das conversas iniciais, éramos designados para nossasmissões quase impossíveis, sempre desafiadoras e exaustivas. Dessavez já sabíamos o que iríamos enfrentar: depois de duas horas emeia até chegarmos à secretaria de educação, faríamos outra via-gem de cerca de duas horas por uma estrada de chão para chegar-mos ao nosso destino. Passamos por paisagens ainda mais belas.A estrada era cortada por riachos e quando a kombi passava pordentro era como se pudéssemos sentir o frescor da água em nossoespírito, aquele frio na barriga do barco em alto mar (acredito queseja assim, nunca estive em alto mar).Na escola havia certa expectativa. As crianças nos conheciam echegávamos, apesar do cansaço, com muita disposição - com cer-teza influenciada pela nossa líder atômica. Nos apresentávamos einteragíamos com as crianças ao mesmo tempo. O dia transcorriacheio de histórias, músicas e brincadeiras.A volta era animada pelas conversas sobre as impressões do diaou embalada pelas curvas (quando não pelo Dramin) que nos faziamadormecer.Jamais vou esquecer este dia maravilhoso.Abraços.Vinícius Rodrigues dos Santos, em sua primeira viagem às es-colas rurais de Adrianópolis.Equipe 2007/2008.
  76. 76. 77História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato***Só tenho elogios aos nossos encontros. Em todos os encontrosaprendemos uma maneira diferente para trabalharmos com os nos-sos alunos.Professora de Adrianópolis***Não tenho críticas, só elogios, ao trabalho tanto da parte damanhã quanto à tarde. Foi um verdadeiro aprendizado, nos deu umaorientação de como trabalhar com as crianças.Professores de Tunas do Paraná***Tem uma cena que será difícil de esquecer. Foi um sábado decontação de estórias e brincadeiras divertidas com crianças – emmeio a árvores gigantes e montanhas cobertas de mata nativa - naComunidade Quilombola João Surá, em Adrianópolis, divisa dos es-tados Paraná e São Paulo. Essa região é um espetáculo da natureza!Quando eu e Liliane estávamos retornando pra casa, dentrodo carro com colegas de outro projeto, avistamos diversos animaispasseando pela estrada. Quando, de repente, avistamos uma cobraespessa e comprida logo à nossa frente. Ela atravessava a rua lenta-mente, exibindo sua elegância. Tudo que pudemos fazer foi desace-lerar o carro, admirá-la e esperá-la passar. Diferente dos filmes, ela sóestava passeando, tomando seu banho de final de tarde, sem inten-ção de nos perseguir, e nós, que nem éramos caçadores de bichospeçonhentos, estávamos voltando para a casa. O que nos restou foiguardá-la em nossas recordações para nossas futuras histórias.Luciane Fabiane dos Santos,Equipe 2007/2008/2009.***“O trabalho com livros de literatura incentiva os alunos a ler eescrever cada vez melhor.” / “Essas histórias são muito interessantes.Agradeço pela oportunidade.”Professores de Tunas do Paraná
  77. 77. 78nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha***“A linguagem de imagens do livro Traquinagens e Estripuliasdesperta o interesse e a imaginação, possibilitando uma interaçãoentre o leitor e a história, e permitindo que a criança crie suas pró-prias histórias.”“O livro Fico à espera retrata a vida humana em todas as suasfases de uma maneira simples, direta, criativa e, acima de tudo, emo-cionante. Com ilustrações e frases curtas, que permitem à criança acriação e a interpretação de acordo com a sua experiência de vida.Instiga a criança a descobrir a sua história genealógica, sua vivênciae cultura. Ela poderá notar que é igual a outras crianças (no cursoda vida) e ao mesmo tempo diferente (formação familiar e cultural,experiências)”Professoras de Bocaiúva do Sul***Como esquecer a minha primeira viagem... foi para Tunas doParaná, no teatro da cidade. As crianças todas reunidas para ouviras histórias e músicas que o projeto havia preparado. Não foi umtrabalho muito fácil, prender a atenção das crianças num espaço tãogrande exigia muito empenho. Mas as histórias foram maravilhosas,criava-se um suspense, cantava-se uma música e até brincávamos(de montanha-russa, foi muito divertido). A ludicidade do momentoenvolvia as crianças nas atividades. E os circuitos realizados em algumas escolas... era muita lou-cura! Dividíamo-nos e montávamos diversas atividades: a sala demúsica, de histórias, de criação, de brincadeiras de pátio. Assim, asturmas - com uma média de 30 crianças cada pessoa do projeto- iam circulando pelas atividades, permanecendo em cada uma 30minutos. Uma verdadeira maratona. Nós nos cansávamos, mas, tam-bém, nos divertíamos.Liliane Machado Martins,Equipe 2008/2009.
  78. 78. 79História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato***“O tempo foi pouco; mas o conteúdo, ótimo. Amei.” / “O cursocontribuiu bastante para o meu crescimento profissional, trazendonovas idéias e estimulando o prazer pela leitura.”Professoras de Adrianópolis***“Foi de extrema importância o curso de hoje, pois vimos quepara ser criativo e dar uma aula gostosa e diferente não dependesomente de recursos financeiros, podemos usar materiais do dia-a--dia.”“O quê achei do curso? Muito proveitoso, aprendi muitas ati-vidades para fazer com meus alunos. Os professores foram muitoagradáveis, espero que voltem mais vezes (...) os alunos: dava paraver o brilho nos olhos deles de tanta felicidade por estar aprendendocoisas novas.”Professores de Tunas do Paraná***Participar do Projeto Gente e Livros foi uma experiência ines-quecível e também – sem exageros! – a realização de um sonho, poissempre ansiei por um trabalho que envolvesse capacitação docentee literatura infantil.E foi ainda melhor do que eu poderia esperar, pois tive a opor-tunidade de sair de Curitiba – cidade onde moro e que em condições“normais” seria a única em que eu trabalharia –, conhecer a realidadeeducacional de três municípios pelos quais nunca tinha passado eajudar a modificá-la.Fabiana da Cunha Medeiros,Equipe 2008/2009.***Quarta-feira, 14h. Aguço os ouvidos para ouvir mais uma his-tória... contos, cantos, versos, textos e contextos... palavras se agluti-nam ao vento enquanto viajo na narrativa da companheira ao lado...
  79. 79. 80nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhamomento sublime de fantasia em meio ao caos do dia-a-dia.Amanhã tem viagem. Planejamento elaborado e reelaborado,materiais separados, carro confirmado (?), horário marcado. Lá, pes-soas nos aguardam (quase sempre)...Dia de festa... biscoitos na Van, conferência de responsabilida-des, curvas, sonos e risos e é chegada a hora. Na platéia, perguntaspipocam antes e depois da fala. Vozes e corpos se transvestem defiguras e palavras, dando vida ao Local de Informações Variadas Reu-tilizáveis e Ordenadas (L.I.V.R.O.), como diria o Millôr.No retorno, o cansaço superado pela alegria da missão cum-prida... comentários sobre os depoimentos que motivam a prepararmelhor o próximo encontro... mais curvas, mais sonos, mais risos...E na próxima quarta, renovada... aguço os ouvidos para ouvirmais uma história...Silvana Galvani Claudino,Equipe 2009.***Gostaria que o projeto continuasse para melhorar o desenvol-vimento das crianças do nosso município. Essas histórias são muitointeressantes. Agradeço pela oportunidade.Professora de Tunas do Paraná***Como sempre, o curso foi ótimo. Espero que possamos contarcom esse maravilhoso trabalho no próximo ano. Os livros sugeridose as propostas de trabalho proporcionam aulas e momentos muitoprazerosos para alunos e professoras.Enfim, parabéns e que Deus abençoe todos.Professora de Adrianópolis
  80. 80. 81História encontra histórias ou Comendo no mesmo pratoMAIS Gente e Livros***Primeiro a idéia. Depois a oportunidade. Aos poucos foi che-gando um, mais um e MAIS um e, de repente, já éramos muitíssimos!Muita gente para poucos livros.E a mesma coisa martelando na cabeça da Gente: ô de casa,vambora! Vamos fazer acontecer!Vamos pegar a estrada, o barco, beirando a encosta, o vale, orio, o mar, o mangue; vamos espalhar literatura por esse mundo afo-ra! e pra dentro da sala de aula também!Saudades das viagens que fiz e das que não fiz, dos encontrose dos desencontros, dos olhos nos olhos, das crianças e dos adultostornando-se meus mais novos velhos conhecidos, da torcida por dartudo certo, da acolhida dos educadores e parceiros das secretariasde educação - cada vez mais unidos nessa missão que ainda nãoacabou!Pois há muito MAIS histórias e livros a serem semeados. Nos lei-tores que nascem e naqueles que estão por nascer, e terão na escolaa nascente para conhecer como é a outra margem do rio - depoisdaquela queda d’água por onde uma vez passou o pai do seu pai doseu pai do seu pai... com a mãe da sua mãe da sua mãe da sua mãe...e outros com os quais eles se encontraram.Costumamos dizer que esse é um projeto despretensioso: sótemos o OBJETIVO de revolucionar o mundo por meio da literaturana educação!Certamente há o estopim para a revolução. A revolução damente, do meu pensamento, de meus conceitos. De ser e estar omais inteira possível por onde passo. Marcando em mim e nos ou-tros o precioso momento que nenhum livro pode eternizar, mas quepode provocar mudança nos momentos seguintes.Agradeço a todos que já estiveram no projeto (toda a Gente etodos os Livros), que incluíram a universidade em sua comunidade efizeram do encontro entre educação básica e educação universitáriaum sonho possível, não somente um projeto encarcerado nas pági-
  81. 81. 82nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhanas de um livro qualquer, cheio de “verdades” e fechado na estantede intelectuais com a cabeça nas nuvens e seus pés também.Para alguém que cursou pedagogia com o ideal de escreverpara crianças, Gente e Livros e MAIS Gente e Livros são um baitapresente! Foi aí que aprendi que “literatura infantil é aquela tambémapreciada por adultos”, como me ensinou Ana Maria Machado emminhas leituras e como comprovei, comprovo e comprovarei com-provando em minhas andanças.Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves,Equipe 2007/2008/2009/2010.***“A iniciativa do projeto é importante, pois contar histórias já nãoestava sendo muito freqüente nas escolas.” / “É muito boa, pois aleitura é pouco praticada em nossa comunidade.” / “É muito boa eajuda muito no trabalho pedagógico de nossa escola.”Professores de Guaraqueçaba***O que me atrai na Educação é ver como ela pode mudar a vidadas pessoas. Ver alguém interessado em aprender e ensinar é algoque me encanta profundamente.Fazer parte do Projeto Gente e Livros me permitiu contemplaresta cena muitas vezes. Ver professores (nas cidades em que passa-mos) interessados em criar repertórios, buscar mais e novas manei-ras para o trabalho com as crianças, ouvir relatos de como colocaramem prática os ensinamentos que aprenderam. Ver a expressão dealegria e entusiasmo em seus rostos quando nos recebiam, só refor-çaram as minhas crenças de que a Educação no Brasil e no mundodá certo!Rosicler Alves dos Santos,equipe 2008/2009/2010.***Gostei muito do trabalho realizado com as crianças, principal-
  82. 82. 83História encontra histórias ou Comendo no mesmo pratomente a idéia do medômetro, que as crianças adoraram. O projetoestá de parabéns.Professora de Piraquara***Lembranças de um tempo bom...Lembro-me do ano em que entrei no Projeto Gente e Livros(2008), quando começaram as primeiras viagens com as caixinhascheias de livros, sonhos e fantasia. Tudo aquilo foi tão fascinante:trabalhar com contação de histórias e deixar as crianças se envolve-rem no mundo da imaginação. Que maravilha ver o sorriso daquelesalunos encantados com a literatura! E mais, sabendo que eles esta-vam aprendendo muito com isso, pois em contato com os livros elesacabam se identificando com alguns personagens e se sentem cadavez mais atraídos pelas histórias, contribuindo desde cedo para oprocesso de leitura e escrita.Foi no projeto que pude me identificar mais com as diversashistórias e perceber que era possível a aplicação delas em sala deaula. Confesso que no início eu me identificava mais com os contosde fadas, mas aos poucos a minha experiência no projeto foi de-monstrando o quanto o universo literário é amplo e maravilhoso.Percebi que, além de suscitar o imaginário, as histórias facilitam odesenvolvimento infantil, levando as crianças a possíveis descober-tas e a situações semelhantes as que serão vivenciadas futuramen-te por elas. Minha experiência no projeto foi significativa, pois ashistórias infantis trouxeram de volta o encantamento de uma fasemaravilhosa que é a infância, bem como muitas lembranças, o quetornou possível reviver pequenas situações em grandes histórias. E,mais importante que isso, é saber que, de certa forma, fazendo par-te do projeto eu pude contribuir para a formação de novos leitoresdentro da sociedade.Márcia Tarouco de Azevedo Rocha,Equipe 2008/2009/2010.
  83. 83. 84nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha***Achei o trabalho muito legal e gostei das idéias para trabalharcom os livros. As crianças também gostaram e já perguntaram sevocês vão voltar. Apesar de ter participado de outros momentos comvocês, na prática é muito mais interessante.Professora de Piraquara***Ler. Viajar.Ler: conhecer as letras do alfabeto e saber juntá-las em palavras;Viajar: ir de um lugar a outro, deslocar-se;Nenhuma dessas definições traduz o que aprendi sobre lere viajar durante minha participação no projeto. Nesses dois anosde atividade pude perceber que a leitura não se restringe ao livro.Quando falamos de contação, aprender a ler os sinais é tão impor-tante quanto ler uma história. É preciso saber interpretar o olhar dacriança; as mãos que não se controlam frente ao livro; o rosto queexpressa os momentos de angustia ou de felicidade; o corpo queora relaxa, ora tensiona. Esta sintonia entre contador e ouvinte éfundamental para que a leitura se torne um prazer e não apenas umdiscurso. É justamente esta via de mão dupla que vai levar o leitor aviajar na história.E é aí que entra o segundo aprendizado. Como eu disse, nãocabe aqui somente a definição do dicionário. Por mais que nossotrabalho dependa de um deslocamento - ora de carro, a pé ou barco- a viagem de que eu falo é outra. É uma viagem no tempo e no es-paço, sem sair do lugar. Uma boa história sempre carrega o ouvintepra dentro dela e é preciso se deixar levar. Pois esse viajar não temlimite de quilometragem, você não precisa ter milhas acumuladas eseu lugar sempre estará reservado.Bruna Fialla Alves,Equipe 2009/2010.***“A reação dos meus alunos foi muito boa. São esses momentos
  84. 84. 85História encontra histórias ou Comendo no mesmo pratoque fazem com que os alunos desenvolvam suas habilidades e pas-sem a ter gosto pela leitura.” / “No início da história ficaram encanta-dos, e entraram para o mundo da fantasia e do faz-de-conta.”Professores de Guaraqueçaba***Literal, literar.Olhar, ouvir,Sentir, falar,O que mais eu poderia esperarDe um projeto que visa contar?Contar o que se lê e se senteDe histórias de brincar, de contrariar,De amar, de arrepiar.Como querer fugir do que veio para unir?Idéias, pensamentos, ações...As situações também são de arrepiar,Ora é a trepidação...Ora é a embarcação...Ai ai, que dá até um medão.Às vezes aparece tudo diferenteE o que era estratégiaVira mudançaSituação irreverente, difícil de lidar.Inusitado...Um tudo literal,Às vezesÉ preciso rebolarPara que do fundo do coraçãoA gente possa
  85. 85. 86nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaEnfimLiterar!Juliana Beltrão Leitoles,Equipe 2010.***Gostei muito do trabalho e as crianças, mais ainda; vou usar amúsica da caveira para apresentação da turma no início de ano. Omedômetro foi muito interessante porque podemos conhecer me-lhor os alunos, claro que muitos deles colocaram alguns medos es-tranhos, mas alguns confirmaram algumas situações que vivem. Voucolar o medômetro no caderno deles, pedir que escrevam ou tentemescrever seus medos. Espero que tenham gostado da nossa escola eestamos com as portas abertas para quando quiserem voltar.Professora de Piraquara***PROJETO, TRABALHO, GENTE, LIVROS, CRIAR, IMPRESSÕES,INTENÇÕES, LINGUAGEM, ESCRITA, IMAGINAÇÃO FANTÁSTICA,CONVERSAS, IDÉIAS... LIVROS, GENTE, PESSOAS, ESTRADA, TERRA...PIRAQUARA, PROFESSORES IDÉIAS CONTAÇÃO SOMBRAS FANTO-CHES, TERRA TRE-PI-DAN-TE, GUARAQUEÇABA MAR ILHA RASACRIANÇAS CRESCIDAS A “VERDADEIRA HISTÓRIA DOS TRÊS POR-QUINHOS” ESCONDER RECOMEÇAR... CAIXAS CAIXAS CAIXAS PA-PEL COLA, TERRA ESTRADA PIRAQUARA CRIANÇAS GAFANHOTOSRETRATISTAS ESPELHO ANA ANA ANA ... MAR BARCO PROFESSORESDESENHAR PLANEJAMENTO CLÓVIS É O MEU PROBLEMA LIVROSNOSSO GRUPO. MAR ONDAS CAIXAS ONDAS ILHA ONDAS BELEZASUPERAGÜI CAIXAS PEÇAS MAR MAR MANGUE SEBUÍ MAR MARMAR MANGUE MANGUE TERRA TERRA VARADOURO OLHARES IN-VASÃO SUSTO SORRISO LIVROS. CURITIBA MEGALOMANÍACO ES-CREVEREDESENHARUMLIVRO GRAVARUMFILME JOGARUMJOGOLIVRO LIVRO OFICINA ESTRADA TERRA SÃO JOSÉ OUVIR DESENHARRECEITAS POÉTICAS... LIVRO, DESENHO, TINTA, ORELHASFELPUDAS,
  86. 86. 87História encontra histórias ou Comendo no mesmo pratoRITMOACELERADO, LIVRO, JUNTARTUDONUMACAIXAVIAJANTEELI-TERÁRIA, ACONTECER, ACONTECEU...Ana Luiza Suhr Reghelin,Equipe 2010.***Acha que encontros como esse contribuem para seu crescimen-to como educador?“Acho que encontros como esse contribuem para meu cresci-mento como educadora porque com essas atividades tenho certe-za que meus alunos irão bem além.” “Acredito que esses encontrostrazem novas idéias.” “Todo aprendizado é uma troca, e em cadatrabalho feito por vocês eu aprendo.”Professores de Guaraqueçaba***Optei por colocar em versos o meu depoimento. Quando fuiescrever, as letras se transformaram em sensações, palavras em can-ção; ao pé do ouvido escutei meu coração.Lá vem história outra vezOs olhos que acompanhamRápido como gafanhotoO sorriso que agradeceFelpo FilvaO aplauso que enalteceBruxa, bruxa, venha à minha festaA cada históriaDe vida, de fantasiaRabiscoCada cantinhoAluno ou professorO problema do ClóvisO meu, o seu, agora nosso
  87. 87. 88nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaA troca que aconteceVacas não voamLiteratura e imaginaçãoAprendizado e emoçãoLembrançasUni duni têSaudade que ficaNo coração habitou.Karla Fernanda Ribeiro Neves,Equipe 2010.***O que mais chamou minha atenção foi a história do passarinhosem gaiola. Talvez em meu interior, apesar da idade, ainda exista umser que voa através da imaginação.Professora de Guaraqueçaba
  88. 88. Capítulo 4 -Contar e (des) cansar é só começar: descas-cando em plena sala de aulaRecursos externos e outras maneiras de contar histórias
  89. 89. “A sábia não sabia que o sábio sabia que o sabiá sabiaque a sábia sabia que o sábio não sabiaque o sabiá não sabia que a sábia não sabiaque o sabiá sabia assobiar.”(ARMAZÉM DO FOLCLORE, de Ricardo Azevedo)
  90. 90. 91Contar e (des) cansar é só começar: descascando em plena sala de aulaBruna Fialla Alves
  91. 91. 92nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaF...Olá, gostaria de me apresentar. Talvez nós já nos conheçamos,você pode já ter me visto por aí, mesmo assim gostaria que soubesseum pouco (ou até muito) mais sobre mim. Vou começar falando dasqualidades: eu adoro falar! Se me derem voz, não perco tempo e de-sando a falar. Sou super comunicativa, basta que você dê a oportuni-dade para que eu me expresse. Sou muito versátil e por isso mesmofaço o maior sucesso. Posso me vestir de vários personagens: já fuifada, já fui bruxa, já fui príncipe e princesa, já fui dragão, já fui cava-leiro, já fui rei e rainha, já fui idoso, já fui criança, já fui leão e já fui co-bra e, se você se dispuser, posso ser qualquer animal. É a mais puraverdade.. difícil de acreditar? Calma, lembre-se de que você está meconhecendo, ainda vou revelar detalhes mais íntimos.Como a maioria dos indivíduos, acredito que o ser é muito maisimportante que o ter, isto quer dizer que vale mais o que a gente tempor dentro do que o quê a gente tem por fora, e é por isso que nãosou muito exigente quanto a minha forma física. Talvez eu não tenhasido muito claro, então vou explicar melhor. Como sou por fora de-pende mais de quem vai trabalhar comigo do que de mim mesmo.Alguns preferem que eu seja de garrafa pet, saquinho de papel, decolher de pau, de EVA, TNT, feltro, meia, retalhos de tecido, papelmachê e até de galhos de árvore. Isso depende da sua criatividadee imaginação!Se você ainda não descobriu quem eu sou, vou revelar: algunsme chamam de marionete, outros de boneco, mas eu gosto mesmoé que me chamem de fantoche.Sou assim, vivo para e pela contação de histórias – e é por issoque sou versátil. Elas me mantém vivo! E não é só isso, não. Neces-sito de todos aqueles que de alguma forma são apaixonados pelaleitura e literatura, e que me utilizam como recurso para a contaçãode histórias. Quando eles se propõem a investir parte do seu tempoe talento para me confeccionar, me dando voz e movimentos, pas-sam a ser a razão da minha existência e do meu sucesso. Em trocaeu também lhes ofereço muito mais, posso proporcionar horas de
  92. 92. 93recreação educativa, tanto para o professor como para as crianças;pois, ao servir-se de mim para a contação de histórias, o professorestimula seus alunos a desenvolverem certas atitudes como: empa-tia, estima, cooperação, comunicação, coletividade, inclusão, ludici-dade. Eu também auxilio no desenvolvimento da percepção visual,auditiva e tátil; ajudo na organização de idéias e pensamentos; edesperto a integração, a interação, a socialização e ampliação dovocabulário do aluno. É por tudo isso, e por proporcionar as pessoas um turbilhãode emoções e sentimentos quando estou em cena, que sou muitofeliz!Rosicler Alves dos SantosReferências:BLOIS, Marlene M. e BARROS, Maria A.F. Teatro de fantoches naescola dinâmica. Rio de Janeiro: Ao livro Técnico S.A., 1967.LADEIRA, Idalina e CALDAS, Sarah. Fantoche e Cia. São Paulo:Scipione, 1989.Contar e (des) cansar é só começar: descascando em plena sala de aula
  93. 93. 94nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaQuem sabe onde encontrar o que o vento roubou de nossaimaginação?Andressa Machado TeixeiraPistas enigmáticas, chaves velhas, cadeados enferrujados, baúsacomodados no fundo do oceano e navios seculares... é muito fáciladivinhar do que eu estou falando! É uma coisa misteriosa, vem dotempo que os piratas não usavam fio dental, pois passavam me-ses num convés! Bacalhau? Não, não é comida! Estou falando dealgo mais duradouro que porcelana chinesa, mais empolgante queos bailes de máscaras, mais misterioso que a cortina do teatro (fe-chada)! Ainda não adivinhou? Ô- ou! Vamos tentar a próxima pista...Todas essas tralhas podem ser reunidas numa brincadeira só!Ela é mais eletrizante que um choque, e já se viu das reações maisinesperadas entre os participantes, como pulos involuntários e von-tade de rolar no chão de alegria! Em alguns casos extremos os parti-cipantes chegam a sentir o coração retumbante e os olhos saltados.Também pode ser perigosamente envolvente e provocar uma imen-sa vontade de abraçar quem você nunca abraçou, sem ao menospedir permissão. Quanto ao acompanhamento das pistas, algunssentem uma compaixão tão verdadeira por quem fica para trás queinsistem em jogar até o final de mãos dadas, mesmo que esse gestocomprometa a primeira olhadela do objeto quando é encontrado. Enessa hora ouve-se um coletivo e sonoro: oooooohhh!!! Expressãode espanto e surpresa que nunca foi combinada, nem ensaiada! Ain-da não descobriu?Aí vai outra dica. Dá pra ser feito de muitos jeitos: usando pis-tas e mapas em pequenas escalas, cochichos de coisas que todomundo sabe, personagens reais ou do além, caixas fechadas espa-lhadas, objetos esquisitos sem ponta, sapatos de diversas cores etamanhos, dicas, bolas, músicas, teatro, histórias... ixe! É muita pos-sibilidade para uma brincadeira só! Por isso que eu jogo tanto caçaao tesouro e nunca me canso! AH meu Deus acabo de revelar o quevocê tanto se esforçava para descobrir. Sem meias palavras.. é muitosimples, divertido e pode acontecer até dentro da sala de aula. Querum exemplo?

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