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Uma Estrela Atrás Da Porta
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Uma Estrela Atrás Da Porta

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uma história de amizade e magia...

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  • 1. Uma estrela atrás da Porta Segundo o conto de Maria Isabel Mendonça Soares
  • 2. A senhora Docelinda tinha um nome tão mal posto! Não lhe dizia com a alma, nem lhe dizia com o rosto. Fora engano dos padrinhos, baptizarem-na assim, visto que ela era embirrenta e de coração ruim.
  • 3.
    • Que mulher tão barulhenta! Que feitio mais rezingão. Chamaram-lhe doce, a ela? Só por troça! A Docelinda, azeda como limão!
    • E como quem é azeda tem sempre a testa franzida e a cara toda amarela ou cinzenta cor de greda, a tal Docelinda era a criatura mais feia que havia na sua aldeia.
  • 4.
    • Viesse pedir-lhe alguém:
    • - Ó vizinha, dá-me lume?
    • Respondia logo pronta, com
    • os maus modos do costume:
    • - Não tenho nem uma brasa!
    • E a pobre da vizinha voltava
    • com frio para casa.
    • Se outra lhe batia à porta:
    • - Tem um pezinho de salsa?
    • - Eu hoje não fui à horta!
    • E que fosse!... A dar aos outros o que é meu, estava servida. Ainda acabava descalça!
  • 5.
    • Vinha a velha tia Marta, que tinha o neto na tropa, a pedir com humildade:
    • - Recebi hoje uma carta... Se a senhora Docelinda me fizesse a caridade de ma ler....
    • - Tenha paciência. Agora estou ocupada. Há-de haver aí na aldeia muita gente que lha leia.
  • 6.
    • E os que na aldeia moravam, uns para os outros comentavam:
    • - Ai, credo! Que mulher esta! Não dá nada.
    • Nem empresta. Passa-lhe um
    • desgraçadinho mesmo diante da
    • porta, pois pensam que ela se
    • importa? Que lhe dá um tostãozinho?
    • - E a "boa-tarde"? O "bom-dia"? Nunca lhe saem da boca. Daquela boca fechada.
    • - Nunca diz "se faz favor"; nem
    • sequer "muito obrigada".
    • - Compadre quer que lhe diga: a
    • Docelinda da Encosta não tem
    • uma só amiga.
  • 7.
    • - Pois quem é que dela gosta? Repare vossemecê numa coisa que acontece: é costume cá da gente, às pessoas que conhece, mesmo sem ser seu parente, tratá-las por tio ou tia. Ora diga francamente se a alguém apetecia tratá-la desta maneira?
  • 8.
    • Desde a fonte até ao rio, as línguas do mulherio não paravam de falar, e a senhora Docelinda ia atirando com as portas e dando respostas tortas, aos que a iam procurar. Más palavras e maus modos era o que tinha para todos. Sempre azeda e mal disposta, torcendo a tudo o nariz, a Docelinda da Encosta afinal era infeliz porque tinha a alma dura, seca, peca e toda escura.
  • 9.
    • Até que chegou Dezembro, o mês mais lindo do ano.
    • É um mês frio? Ora, ora: nisso é que está o engano. Como pode
    • haver friagem, se há calor no coração? E a verdadeira razão, é a
    • razão principal que o mundo vem aquecer: porque é o mês do
    • Natal e que Jesus vai nascer.
  • 10.
    • Os meninos da doutrina andavam a ensaiar uma canção pequenina que
    • na festa iam cantar.
    • - Manuel, Celeste, Inês e tu, Joaquim, vamos cantar outra vez, para ficar
    • bem aprendida do princípio até ao fim.
    • - E, afinal, Senhor Padre, quando é que se arma a lapinha?
    • - Se me querem ajudar, já não há tempo a perder. Pode-se já começar.
    • - Eu quero….- Eu quero… - Eu também.
  • 11.
    • Foram buscar o caixote das figurinhas de barro o João e o Manuel.
    • -Ora cá as temos todas embrulhadas em papel. Um rei mago... Uma
    • pastora...
    • Olha aqui está o burrinho. Três ovelhas... Outro rei... O moleiro e o
    • moinho...
    • - Esta é a Nossa Senhora. E o S. José, onde está?
    • Não tenhas pressa, Joaquim. A seu tempo aparecerá.
  • 12.
    • - Olha o Menino Jesus! Como é lindo e rosadinho! Se eu soubesse fazer
    • malha, fazia-Lhe um casaquinho.
    • - Aqui ao fundo, na palha, ponho o burro e a vaquinha, mais um pastor...
    • - Mais um rei... Com estes já faz os três; onde é que os ponho?
    • - Não sei.
    • - Aqui ficam bem, Inês.
  • 13.
    • - Cá temos o S. José de que andavas à procura. Ah! Mas que cabeça a
    • minha! Ainda não temos verdura!
    • Foram buscar buxo e hera , a Celeste e o João, mais um ramo de
    • azevinho; mas de musgo para o chão era preciso também arranjar um
    • bocadinho.
    • Disse o João: - Sei de um sítio onde há-de haver todo o que a gente
    • quiser.
    • Disse a Celeste: - E haverá?
  • 14.
    • - Anda comigo acolá ao princípio da encosta. No muro da Docelinda há
    • musgo como um veludo.
    • - E se ela nos vê? Vai tudo raso. Já estou a tremer.
    • - Ela nunca limpa os muros, para não gastar com isso. A gente sem pedir
    • paga, presta-lhe o mesmo serviço. Até é para agradecer. Tenho aqui um
    • canivete; corta o musgo num instante.
  • 15.
    • Nisto abriu-se uma janela. Era a Docelinda. Era ela!
    • - Que é lá isso, ó meu tratante! Girem daqui! Os dois! Já!
    • - Mas a gente não fez mal... Vinha só apanhar musgo para o presépio de
    • Natal...
    • - Não quero saber de razões! Seus patifes! Seus ladrões! Toca a andar,
    • senão vou lá!
    • A Celeste e o João foram-se embora a correr, pela encosta até à estrada.
  • 16.
    • A Docelinda, zangada com os dois pobres garotos, em casa barafustava:
    • - Os atrevidos! Marotos! Não queriam eles mais nada!
    • Ouviu-se um grande trovão:
    • - Santa Barbara! Deus meu! É trovoada decerto... Ai, outro trovão mais
    • perto! Até a casa tremeu.
  • 17.
    • Olhou para o lado, e que
    • viu atrás da porta a luzir?
    • Era uma luz, pisca-pisca...
    • Seria alguma faísca que
    • ali viera cair?
    • E uma voz suave dizia:
    • - Desculpa, dá-me
    • licença?
    • - Quem será a atrevida
    • que se esconde ali atrás.
    • Ande lá à sua vida e
    • deixe-me cá em paz.
  • 18.
    • - Sou uma estrela...
    • - Uma estrela?!!! Ora adeus, sua impostora! Saia já daí para fora, senão
    • dou-lhe com a vassoura!
    • Mas parou, admirada! A vassoura ficou cheia de uma poeira doirada,
    • como se fosse uma teia de aranha de ouro!
    • - É bruxedo!
    • - Sossegue, não tenha medo. Vou explicar-lhe quem sou eu. Sou uma
    • estrela cadente que andava a correr pelo céu... Mas veio uma trovoada...
    • Eu assustei-me e fugi. Muito aflita, já cansada, entrei, e abriguei-me aqui.
    • Chove ainda tanto lá fora. Por Deus, não me mande embora!
  • 19.
    • - Uma coisa tão esquisita só a mim acontecia! Mas quem é que me
    • acredita se eu contar isto algum dia?
    • - Não precisa de contar. É um segredo só nosso.
    • - Não. Vai-te embora daqui; não podes ficar.
    • - Não posso?
    • - Que é que eu fazia de ti? Não me ajudas a varrer, nem a lavar ou
    • comer, nem a fazer o comer, nem mesmo a tratar da horta.
    • - Era lindo possuir uma estrela atrás da porta!
    • - Oh! Que serventia tem?
  • 20.
    • - Posso ajudá-la daqui, e penso que muito bem. Tem a testa tão franzida!
    • Porquê? E nunca se ri? Também não sabe cantar? Gostava de a ensinar. É tão
    • fácil experimentar... Quando estiver aborrecida, ou triste, ou até zangada, verá
    • como isso a conforta, pense em mim que estou escondida, aqui por detrás da
    • porta. Posso até, se preferir e a coisa correr mal, ligeiramente tossir para lhe
    • fazer sinal. Quer aceitar a experiência?
    • - Que disparate! Que asneira, entrar nessa brincadeira!
    • - Com bons modos no falar e um pouquinho de paciência... Assim só...
    • Deste tamanho...
    • - Está bem... se tens empenho.
  • 21.
    • Entretanto, à mesma hora, em casa da tia Aurora, dizia ela ao marido:
    • - Ora esta! Já não tenho nem um fiozinho de azeite para fritar as filhós. E o Zé da loja já vendeu todo o que havia!
    • - Pede a alguém que to ceda. A Docelinda, talvez.
    • - A Docelinda?!! Essa azeda?!!
    • - Podias experimentar, pergunta-lhe e logo vês.
  • 22.
    • Vai daí a tia Aurora bateu ao portão fechado.
    • Mas a estrela estava atenta:
    • - Ah, ah!... olhe o combinado!
    • - Não estou habituada ainda. Então, o que hei-de fazer?
    • - Vá abrir p'ra ver quem é. Se estiver atrapalhada, lembre-se de que
    • estou ao pé.
  • 23.
    • Foi a Docelinda abrir e ouviu a Aurora pedir:
    • - Vizinha, faça o favor, tem azeite que me venda? Já se acabou o da tenda.
    • Logo à noite é a consoada e as filhós estão por fritar...
    • Azeite! Mas quem lhe disse que eu o tinha para lhe dar? - disse logo a
    • Docelinda.
    • - Assim não, que é rabugice - segredou a estrela linda.
    • A Docelinda emendou:
    • - Espere aí... Talvez se arranje. Traz aí para onde o deite?
    • E foi buscar o azeite.
  • 24.
    • Quando a tia Aurora saiu, a estrelinha aplaudiu com a sua luz pisca­
    • pisca:
    • Bravo! Para começar não se saiu nada mal. Mas podia desejar
    • também um feliz Natal.
    • Pronto. A conversa acabou - disse a Docelinda, arisca. E o jantar que
    • está ao lume, se calhar já se queimou!
    • Na cozinha grande e fria, a Docelinda comeu. Depois levantou a mesa.
  • 25.
    • Atrás da porta luzia, muito viva, muita acesa, a estrela vinda do céu.
    • - Não vai à missa do Galo? - Perguntou ela, baixinho.
    • - Com poucas pessoas falo. E está tão mau o caminho. Não vou por aí
    • assim, aos tropeções sem ter luz.
    • - Pois quê?! Queria ir sem mim ao presépio de Jesus? Estou pronta
    • para a guiar. Escute bem o que lhe digo: tem uma lanterna, não tem? Eu
    • meto-me dentro dela. Pode levar-me consigo.
    • Deste modo a Docelinda, com a lanterna na mão e dentro dela estrelinha,
    • desceu à povoação.
  • 26.
    • A igreja estava cheia, com toda a gente da aldeia.
    • - Parece que estou no céu! Nunca vi coisa mais linda!
    • - Então faça como eu: cante também, Docelinda - disse-lhe a estrela
    • em segredo.
    • - Eu?! Tenho vergonha. E medo. Porque sou desafinada.
    • - Experimente, não custa nada.
    • E a Docelinda cantou.
  • 27.
    • Por fim, a missa acabou. Todo o povo no portal desejava boas festas:
    • - Feliz e Santo Natal!
    • - Boas festas, Docelinda. Inda bem que está presente. Não quer ir à
    • nossa casa para consoar com a gente? - convidou a tia Aurora. – Venha
    • provar as filhós fritinhas no seu azeite.
    • A Docelinda hesitava, mas a estrela aconselhava, brilhando:
    • - Vá lá... Aceite.
  • 28.
    • Foi uma ceia feliz, com todos à volta dela:
    • - Coma agora um bocadinho de arroz doce com canela. Oferece-lhe
    • Pinhões. E um copo de vinho fino? Já provou dos coscorões?
    • - Vossemecês são tão bons - dizia ela, envergonhada. - Têm tanta
    • gentileza... Não quero mais nada, obrigada.
    • - A gente tem muito gosto em sentá-la à nossa mesa.
    • - E dizíamos, nós, dantes... Desculpe mas era isso: que a senhora
    • Docelinda picava como um ouriço. E que tinha a voz azeda como sumo
    • de limão! Vê como a gente se engana?
  • 29.
    • Docelinda concordou:
    • - Pois tinham toda a razão. Inda não há muitas horas eu era assim tal e qual. Mas tive uma boa estrela nesta noite de Natal.
    • - E agora tem-nos a nós. Viva a tia Docelinda, mais linda do que uma estrela e mais doce do que as filhós!
    • Nunca mais a Docelinda deu uma resposta torta.
    • Tinha sempre a ajudá-la a estrelinha atrás da porta.
  • 30. Fim Jardim de Infância de Valejas Ano Lectivo 2009/2010