Uma estrela atrás da Porta Segundo o conto de Maria Isabel Mendonça Soares
A senhora Docelinda tinha um nome tão mal posto! Não lhe dizia com a alma, nem lhe dizia com o rosto. Fora engano dos padr...
<ul><li>Que mulher tão barulhenta! Que feitio mais rezingão.  Chamaram-lhe doce, a ela? Só por troça! A Docelinda, azeda c...
<ul><li>Viesse pedir-lhe alguém: </li></ul><ul><li>- Ó vizinha, dá-me lume? </li></ul><ul><li>Respondia logo pronta, com  ...
<ul><li>Vinha a velha tia Marta, que tinha o neto na tropa, a pedir com humildade: </li></ul><ul><li>- Recebi hoje uma car...
<ul><li>E os que na aldeia moravam, uns  para os outros comentavam: </li></ul><ul><li>- Ai, credo! Que mulher esta! Não dá...
<ul><li>- Pois quem é que dela gosta? Repare vossemecê numa coisa que acontece: é costume cá da gente, às pessoas que conh...
<ul><li>Desde a fonte até ao rio, as línguas do mulherio não paravam de falar, e a senhora Docelinda ia atirando com as po...
<ul><li>Até que chegou Dezembro, o mês mais lindo do ano. </li></ul><ul><li>É um mês frio? Ora, ora: nisso é que está o en...
<ul><li>Os meninos da doutrina andavam a ensaiar uma canção pequenina que </li></ul><ul><li>na festa iam cantar. </li></ul...
<ul><li>Foram buscar o caixote das figurinhas de barro o João e o Manuel. </li></ul><ul><li>-Ora cá as temos todas  embrul...
<ul><li>- Olha o Menino Jesus! Como é lindo e rosadinho! Se eu soubesse fazer  </li></ul><ul><li>malha, fazia-Lhe um casaq...
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<ul><li>Nisto abriu-se uma janela. Era a Docelinda. Era ela! </li></ul><ul><li>- Que é lá isso, ó meu tratante! Girem daqu...
<ul><li>A Docelinda, zangada com os dois pobres garotos, em casa barafustava: </li></ul><ul><li>- Os atrevidos! Marotos! N...
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<ul><li>- Uma coisa tão esquisita só a mim acontecia! Mas quem é que me  </li></ul><ul><li>acredita se eu contar isto algu...
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<ul><li>Foi a Docelinda abrir e ouviu a Aurora pedir: </li></ul><ul><li>- Vizinha, faça o favor, tem azeite que me venda? ...
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<ul><li>Atrás da porta luzia, muito viva, muita acesa, a estrela vinda do céu. </li></ul><ul><li>- Não vai à missa do Galo...
<ul><li>A igreja estava cheia, com toda a gente da aldeia. </li></ul><ul><li>- Parece que estou no céu! Nunca vi coisa mai...
<ul><li>Por fim, a missa acabou. Todo o povo no portal desejava boas festas:  </li></ul><ul><li>- Feliz e Santo Natal! </l...
<ul><li>Foi uma ceia feliz, com todos à volta dela: </li></ul><ul><li>- Coma agora um bocadinho de arroz doce com canela. ...
<ul><li>Docelinda concordou: </li></ul><ul><li>- Pois tinham toda a razão. Inda não há muitas horas eu era assim tal e qua...
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Uma Estrela Atrás Da Porta

  1. 1. Uma estrela atrás da Porta Segundo o conto de Maria Isabel Mendonça Soares
  2. 2. A senhora Docelinda tinha um nome tão mal posto! Não lhe dizia com a alma, nem lhe dizia com o rosto. Fora engano dos padrinhos, baptizarem-na assim, visto que ela era embirrenta e de coração ruim.
  3. 3. <ul><li>Que mulher tão barulhenta! Que feitio mais rezingão. Chamaram-lhe doce, a ela? Só por troça! A Docelinda, azeda como limão! </li></ul><ul><li>E como quem é azeda tem sempre a testa franzida e a cara toda amarela ou cinzenta cor de greda, a tal Docelinda era a criatura mais feia que havia na sua aldeia. </li></ul>
  4. 4. <ul><li>Viesse pedir-lhe alguém: </li></ul><ul><li>- Ó vizinha, dá-me lume? </li></ul><ul><li>Respondia logo pronta, com </li></ul><ul><li>os maus modos do costume: </li></ul><ul><li>- Não tenho nem uma brasa! </li></ul><ul><li>E a pobre da vizinha voltava </li></ul><ul><li>com frio para casa. </li></ul><ul><li>Se outra lhe batia à porta: </li></ul><ul><li>- Tem um pezinho de salsa? </li></ul><ul><li>- Eu hoje não fui à horta! </li></ul><ul><li>E que fosse!... A dar aos outros o que é meu, estava servida. Ainda acabava descalça! </li></ul>
  5. 5. <ul><li>Vinha a velha tia Marta, que tinha o neto na tropa, a pedir com humildade: </li></ul><ul><li>- Recebi hoje uma carta... Se a senhora Docelinda me fizesse a caridade de ma ler.... </li></ul><ul><li>- Tenha paciência. Agora estou ocupada. Há-de haver aí na aldeia muita gente que lha leia. </li></ul>
  6. 6. <ul><li>E os que na aldeia moravam, uns para os outros comentavam: </li></ul><ul><li>- Ai, credo! Que mulher esta! Não dá nada. </li></ul><ul><li>Nem empresta. Passa-lhe um </li></ul><ul><li>desgraçadinho mesmo diante da </li></ul><ul><li>porta, pois pensam que ela se </li></ul><ul><li>importa? Que lhe dá um tostãozinho? </li></ul><ul><li>- E a &quot;boa-tarde&quot;? O &quot;bom-dia&quot;? Nunca lhe saem da boca. Daquela boca fechada. </li></ul><ul><li>- Nunca diz &quot;se faz favor&quot;; nem </li></ul><ul><li>sequer &quot;muito obrigada&quot;. </li></ul><ul><li>- Compadre quer que lhe diga: a </li></ul><ul><li>Docelinda da Encosta não tem </li></ul><ul><li>uma só amiga. </li></ul>
  7. 7. <ul><li>- Pois quem é que dela gosta? Repare vossemecê numa coisa que acontece: é costume cá da gente, às pessoas que conhece, mesmo sem ser seu parente, tratá-las por tio ou tia. Ora diga francamente se a alguém apetecia tratá-la desta maneira? </li></ul>
  8. 8. <ul><li>Desde a fonte até ao rio, as línguas do mulherio não paravam de falar, e a senhora Docelinda ia atirando com as portas e dando respostas tortas, aos que a iam procurar. Más palavras e maus modos era o que tinha para todos. Sempre azeda e mal disposta, torcendo a tudo o nariz, a Docelinda da Encosta afinal era infeliz porque tinha a alma dura, seca, peca e toda escura. </li></ul>
  9. 9. <ul><li>Até que chegou Dezembro, o mês mais lindo do ano. </li></ul><ul><li>É um mês frio? Ora, ora: nisso é que está o engano. Como pode </li></ul><ul><li>haver friagem, se há calor no coração? E a verdadeira razão, é a </li></ul><ul><li>razão principal que o mundo vem aquecer: porque é o mês do </li></ul><ul><li>Natal e que Jesus vai nascer. </li></ul>
  10. 10. <ul><li>Os meninos da doutrina andavam a ensaiar uma canção pequenina que </li></ul><ul><li>na festa iam cantar. </li></ul><ul><li>- Manuel, Celeste, Inês e tu, Joaquim, vamos cantar outra vez, para ficar </li></ul><ul><li>bem aprendida do princípio até ao fim. </li></ul><ul><li>- E, afinal, Senhor Padre, quando é que se arma a lapinha? </li></ul><ul><li>- Se me querem ajudar, já não há tempo a perder. Pode-se já começar. </li></ul><ul><li>- Eu quero….- Eu quero… - Eu também. </li></ul>
  11. 11. <ul><li>Foram buscar o caixote das figurinhas de barro o João e o Manuel. </li></ul><ul><li>-Ora cá as temos todas embrulhadas em papel. Um rei mago... Uma </li></ul><ul><li>pastora... </li></ul><ul><li>Olha aqui está o burrinho. Três ovelhas... Outro rei... O moleiro e o </li></ul><ul><li>moinho... </li></ul><ul><li>- Esta é a Nossa Senhora. E o S. José, onde está? </li></ul><ul><li>Não tenhas pressa, Joaquim. A seu tempo aparecerá. </li></ul>
  12. 12. <ul><li>- Olha o Menino Jesus! Como é lindo e rosadinho! Se eu soubesse fazer </li></ul><ul><li>malha, fazia-Lhe um casaquinho. </li></ul><ul><li>- Aqui ao fundo, na palha, ponho o burro e a vaquinha, mais um pastor... </li></ul><ul><li>- Mais um rei... Com estes já faz os três; onde é que os ponho? </li></ul><ul><li>- Não sei. </li></ul><ul><li>- Aqui ficam bem, Inês. </li></ul>
  13. 13. <ul><li>- Cá temos o S. José de que andavas à procura. Ah! Mas que cabeça a </li></ul><ul><li>minha! Ainda não temos verdura! </li></ul><ul><li>Foram buscar buxo e hera , a Celeste e o João, mais um ramo de </li></ul><ul><li>azevinho; mas de musgo para o chão era preciso também arranjar um </li></ul><ul><li>bocadinho. </li></ul><ul><li>Disse o João: - Sei de um sítio onde há-de haver todo o que a gente </li></ul><ul><li>quiser. </li></ul><ul><li>Disse a Celeste: - E haverá? </li></ul>
  14. 14. <ul><li>- Anda comigo acolá ao princípio da encosta. No muro da Docelinda há </li></ul><ul><li>musgo como um veludo. </li></ul><ul><li>- E se ela nos vê? Vai tudo raso. Já estou a tremer. </li></ul><ul><li>- Ela nunca limpa os muros, para não gastar com isso. A gente sem pedir </li></ul><ul><li>paga, presta-lhe o mesmo serviço. Até é para agradecer. Tenho aqui um </li></ul><ul><li>canivete; corta o musgo num instante. </li></ul>
  15. 15. <ul><li>Nisto abriu-se uma janela. Era a Docelinda. Era ela! </li></ul><ul><li>- Que é lá isso, ó meu tratante! Girem daqui! Os dois! Já! </li></ul><ul><li>- Mas a gente não fez mal... Vinha só apanhar musgo para o presépio de </li></ul><ul><li>Natal... </li></ul><ul><li>- Não quero saber de razões! Seus patifes! Seus ladrões! Toca a andar, </li></ul><ul><li>senão vou lá! </li></ul><ul><li>A Celeste e o João foram-se embora a correr, pela encosta até à estrada. </li></ul>
  16. 16. <ul><li>A Docelinda, zangada com os dois pobres garotos, em casa barafustava: </li></ul><ul><li>- Os atrevidos! Marotos! Não queriam eles mais nada! </li></ul><ul><li>Ouviu-se um grande trovão: </li></ul><ul><li>- Santa Barbara! Deus meu! É trovoada decerto... Ai, outro trovão mais </li></ul><ul><li>perto! Até a casa tremeu. </li></ul>
  17. 17. <ul><li>Olhou para o lado, e que </li></ul><ul><li>viu atrás da porta a luzir? </li></ul><ul><li>Era uma luz, pisca-pisca... </li></ul><ul><li>Seria alguma faísca que </li></ul><ul><li>ali viera cair? </li></ul><ul><li>E uma voz suave dizia: </li></ul><ul><li>- Desculpa, dá-me </li></ul><ul><li>licença? </li></ul><ul><li>- Quem será a atrevida </li></ul><ul><li>que se esconde ali atrás. </li></ul><ul><li>Ande lá à sua vida e </li></ul><ul><li>deixe-me cá em paz. </li></ul>
  18. 18. <ul><li>- Sou uma estrela... </li></ul><ul><li>- Uma estrela?!!! Ora adeus, sua impostora! Saia já daí para fora, senão </li></ul><ul><li>dou-lhe com a vassoura! </li></ul><ul><li>Mas parou, admirada! A vassoura ficou cheia de uma poeira doirada, </li></ul><ul><li>como se fosse uma teia de aranha de ouro! </li></ul><ul><li>- É bruxedo! </li></ul><ul><li>- Sossegue, não tenha medo. Vou explicar-lhe quem sou eu. Sou uma </li></ul><ul><li>estrela cadente que andava a correr pelo céu... Mas veio uma trovoada... </li></ul><ul><li>Eu assustei-me e fugi. Muito aflita, já cansada, entrei, e abriguei-me aqui. </li></ul><ul><li>Chove ainda tanto lá fora. Por Deus, não me mande embora! </li></ul>
  19. 19. <ul><li>- Uma coisa tão esquisita só a mim acontecia! Mas quem é que me </li></ul><ul><li>acredita se eu contar isto algum dia? </li></ul><ul><li>- Não precisa de contar. É um segredo só nosso. </li></ul><ul><li>- Não. Vai-te embora daqui; não podes ficar. </li></ul><ul><li>- Não posso? </li></ul><ul><li>- Que é que eu fazia de ti? Não me ajudas a varrer, nem a lavar ou </li></ul><ul><li>comer, nem a fazer o comer, nem mesmo a tratar da horta. </li></ul><ul><li>- Era lindo possuir uma estrela atrás da porta! </li></ul><ul><li>- Oh! Que serventia tem? </li></ul>
  20. 20. <ul><li>- Posso ajudá-la daqui, e penso que muito bem. Tem a testa tão franzida! </li></ul><ul><li>Porquê? E nunca se ri? Também não sabe cantar? Gostava de a ensinar. É tão </li></ul><ul><li>fácil experimentar... Quando estiver aborrecida, ou triste, ou até zangada, verá </li></ul><ul><li>como isso a conforta, pense em mim que estou escondida, aqui por detrás da </li></ul><ul><li>porta. Posso até, se preferir e a coisa correr mal, ligeiramente tossir para lhe </li></ul><ul><li>fazer sinal. Quer aceitar a experiência? </li></ul><ul><li>- Que disparate! Que asneira, entrar nessa brincadeira! </li></ul><ul><li>- Com bons modos no falar e um pouquinho de paciência... Assim só... </li></ul><ul><li>Deste tamanho... </li></ul><ul><li>- Está bem... se tens empenho. </li></ul>
  21. 21. <ul><li>Entretanto, à mesma hora, em casa da tia Aurora, dizia ela ao marido: </li></ul><ul><li>- Ora esta! Já não tenho nem um fiozinho de azeite para fritar as filhós. E o Zé da loja já vendeu todo o que havia! </li></ul><ul><li>- Pede a alguém que to ceda. A Docelinda, talvez. </li></ul><ul><li>- A Docelinda?!! Essa azeda?!! </li></ul><ul><li>- Podias experimentar, pergunta-lhe e logo vês. </li></ul>
  22. 22. <ul><li>Vai daí a tia Aurora bateu ao portão fechado. </li></ul><ul><li>Mas a estrela estava atenta: </li></ul><ul><li>- Ah, ah!... olhe o combinado! </li></ul><ul><li>- Não estou habituada ainda. Então, o que hei-de fazer? </li></ul><ul><li>- Vá abrir p'ra ver quem é. Se estiver atrapalhada, lembre-se de que </li></ul><ul><li>estou ao pé. </li></ul>
  23. 23. <ul><li>Foi a Docelinda abrir e ouviu a Aurora pedir: </li></ul><ul><li>- Vizinha, faça o favor, tem azeite que me venda? Já se acabou o da tenda. </li></ul><ul><li>Logo à noite é a consoada e as filhós estão por fritar... </li></ul><ul><li>Azeite! Mas quem lhe disse que eu o tinha para lhe dar? - disse logo a </li></ul><ul><li>Docelinda. </li></ul><ul><li>- Assim não, que é rabugice - segredou a estrela linda. </li></ul><ul><li>A Docelinda emendou: </li></ul><ul><li>- Espere aí... Talvez se arranje. Traz aí para onde o deite? </li></ul><ul><li>E foi buscar o azeite. </li></ul>
  24. 24. <ul><li>Quando a tia Aurora saiu, a estrelinha aplaudiu com a sua luz pisca­ </li></ul><ul><li>pisca: </li></ul><ul><li>Bravo! Para começar não se saiu nada mal. Mas podia desejar </li></ul><ul><li>também um feliz Natal. </li></ul><ul><li>Pronto. A conversa acabou - disse a Docelinda, arisca. E o jantar que </li></ul><ul><li>está ao lume, se calhar já se queimou! </li></ul><ul><li>Na cozinha grande e fria, a Docelinda comeu. Depois levantou a mesa. </li></ul>
  25. 25. <ul><li>Atrás da porta luzia, muito viva, muita acesa, a estrela vinda do céu. </li></ul><ul><li>- Não vai à missa do Galo? - Perguntou ela, baixinho. </li></ul><ul><li>- Com poucas pessoas falo. E está tão mau o caminho. Não vou por aí </li></ul><ul><li>assim, aos tropeções sem ter luz. </li></ul><ul><li>- Pois quê?! Queria ir sem mim ao presépio de Jesus? Estou pronta </li></ul><ul><li>para a guiar. Escute bem o que lhe digo: tem uma lanterna, não tem? Eu </li></ul><ul><li>meto-me dentro dela. Pode levar-me consigo. </li></ul><ul><li>Deste modo a Docelinda, com a lanterna na mão e dentro dela estrelinha, </li></ul><ul><li>desceu à povoação. </li></ul>
  26. 26. <ul><li>A igreja estava cheia, com toda a gente da aldeia. </li></ul><ul><li>- Parece que estou no céu! Nunca vi coisa mais linda! </li></ul><ul><li>- Então faça como eu: cante também, Docelinda - disse-lhe a estrela </li></ul><ul><li>em segredo. </li></ul><ul><li>- Eu?! Tenho vergonha. E medo. Porque sou desafinada. </li></ul><ul><li>- Experimente, não custa nada. </li></ul><ul><li>E a Docelinda cantou. </li></ul>
  27. 27. <ul><li>Por fim, a missa acabou. Todo o povo no portal desejava boas festas: </li></ul><ul><li>- Feliz e Santo Natal! </li></ul><ul><li>- Boas festas, Docelinda. Inda bem que está presente. Não quer ir à </li></ul><ul><li>nossa casa para consoar com a gente? - convidou a tia Aurora. – Venha </li></ul><ul><li>provar as filhós fritinhas no seu azeite. </li></ul><ul><li>A Docelinda hesitava, mas a estrela aconselhava, brilhando: </li></ul><ul><li>- Vá lá... Aceite. </li></ul>
  28. 28. <ul><li>Foi uma ceia feliz, com todos à volta dela: </li></ul><ul><li>- Coma agora um bocadinho de arroz doce com canela. Oferece-lhe </li></ul><ul><li>Pinhões. E um copo de vinho fino? Já provou dos coscorões? </li></ul><ul><li>- Vossemecês são tão bons - dizia ela, envergonhada. - Têm tanta </li></ul><ul><li>gentileza... Não quero mais nada, obrigada. </li></ul><ul><li>- A gente tem muito gosto em sentá-la à nossa mesa. </li></ul><ul><li>- E dizíamos, nós, dantes... Desculpe mas era isso: que a senhora </li></ul><ul><li>Docelinda picava como um ouriço. E que tinha a voz azeda como sumo </li></ul><ul><li>de limão! Vê como a gente se engana? </li></ul>
  29. 29. <ul><li>Docelinda concordou: </li></ul><ul><li>- Pois tinham toda a razão. Inda não há muitas horas eu era assim tal e qual. Mas tive uma boa estrela nesta noite de Natal. </li></ul><ul><li>- E agora tem-nos a nós. Viva a tia Docelinda, mais linda do que uma estrela e mais doce do que as filhós! </li></ul><ul><li>Nunca mais a Docelinda deu uma resposta torta. </li></ul><ul><li>Tinha sempre a ajudá-la a estrelinha atrás da porta. </li></ul>
  30. 30. Fim Jardim de Infância de Valejas Ano Lectivo 2009/2010
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