Julie garwood   desejo rebelde
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Julie garwood   desejo rebelde Julie garwood desejo rebelde Document Transcript

  • ! ! JULIE GARWOOD ! DESEJO REBELDE ! Tradução: Celina Falck Cook Editora Landscape ! ! ! DISPONIBILIZAÇÃO, DIGITALIZAÇÃO E REVISÃO: MARISA H !
  • ABA LATERAL DA CAPA: De todos os duques da Inglaterra, Jered Marcus Benton, duque de Bradford, era o mais abastado, o mais atraente... e o mais arrogante. E, entre todas as damas de Londres, ele escolheu apenas uma para lhe prestar a mais terna obediência: Caroline Richmond. Nativa do Estado de Boston, nos Estados Unidos, ela era extraordinariamente bela, dona de um passado misterioso e espírito fogoso. Deixou-se atrair pelo poderoso duque, sem se deixar intimidar por sua soberba, com o objetivo de conquistar o coração do rapaz de forma definitiva. Mas Bradford não era homem de se deixar dobrar por mulher alguma, até uma conspiração mortal aproximá-lo tentadoramente de Caroline. A partir daí, unidos contra um inimigo comum, eles descobrem o poder da magnífica atração que os uniu... Um desejo nascido em meio ao perigo, mas destinado a arder até transformar-se em amor! CONTRACAPA: Vozes exaltadas os detiveram e Caroline e Benjamin, bem escondidos no mato denso, podiam ver razoavelmente bem o que esta se passando. A cena que se desenrolava na estrada fez calafrios de apreensão percorrerem a espinha de Caroline. Quatro homens corpulentos, todos a cavalo, cercavam um lado de uma linda carruagem preta. Todos usavam máscaras, menos um. Seu adversário era um homem obviamente abastado, que saía lentamente da carruagem. Caroline viu sangue vermelho-vivo escorrendo sem parar entre as pernas do homem e quase soltou um grito deindignação e compaixão. __ Ele viu minha cara __ disse o homem aos seus capangas. __ Não tem jeito. Vai ter que morrer. Dois dos salteadores imediatamente concordaram, mas o terceiro hesitoy. Caroline não perdeu tempo esperando para ver qual seria a decisão dele. Mirou com todo o cuidado e apertou o gatilho. Seu tiro foi certeiro, resultado dos anos que tinha passado em companhia de quatro primos mais velhos, os quais insistiam em lhe ensinar princípios de autodefesa. A mão do líder fopi o alvo, e o uivo de dor dele, a recompensa de Caroline. Benjamin fez um ruído de aprovação com a boca entregando-lhe sua arma e
  • aceitando a pistola vazia. Caroline voltou a atirar, ferindo o salteador à esquerda do líder. Copyright© 1986 by Julie Garwood CAPA: Daniel Rampazzo (Casa de Ideias) PROJETO GRÁFICO: Genilâo Santana REVISÃO: Monalisa Neves Cláudia Cantarin Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Garwood. Julie Desejo rebelde / Julie Garwood; tradução Ceíma Falck-Cook — São Paulo: Editora Landscape, 2008. Título original: Rebellious desire ISBN: 978-85-7775-058-0 I. Romance norte-americano I. Título. I. Romance : Literatura norte-americana 813 2008 Direitos para a Língua Portuguesa EDITORA LANDSCAPE Rua Ministro Nelson Hungria, 239 — cj 10 Fone/Fax (II) 3758-4422 atendimento @ editoralandscape.com.br www.editoralandscape.com.br ! ! !
  • ! Para Gerry, com amor. ! ! PRÓLOGO INGLATERRA, 1788 VOZES ALTERCANDO ZANGADAS DESPERTARAM A CRIANÇA. Ela sentou-se na cama e esfregou os olhos, para espantar o sono. — Babá? — murmurou, no silêncio súbito. Olhou para a cadeira de balanço ao lado da lareira, do outro lado do quarto, e viu que estava vazia. Voltou a encolher-se sob o acolchoado de penas, tremendo de frio e medo. A babá não estava onde devia estar. As brasas que aos poucos morriam na lareira estavam de um laranja intenso na escuridão, fazendo a menina imaginar olhos de demónios e bruxas quando as fitava. Decidiu, então, não olhar para elas. Passou a fitar as janelas duplas, mas os olhos a seguiram, aterrorizando-a ao pro-jetar sombras fantasmagóricas de gigantes e monstros nas janelas, dando vida aos galhos desprovidos de folhas que roçavam as vidraças. — Babá? — repetiu a pequena, baixinho, já à beira das lágrimas. Ouviu a voz de seu pai. Ele gritava, e, embora parecesse ríspido e inflexível, a menina imediatamente deixou de sentir medo. Ela não estava só. O pai estava por perto, e ela sentiu-se segura. Agora que se acalmara, ficou curiosa. Já morava naquela casa fazia um mês e até aquele momento não tinha visto nenhum visitante. O pai dela
  • estava gritando com alguém, e a menina queria ver e ouvir o que estava acontecendo. Quando chegou ao patamar das escadas, deteve-se. Tinha ouvido a voz de outro homem. O estranho tinha começado a berrar, arrotando insultos ruidosamente, e fazendo os olhos azuis da menina arregalarem de surpresa e medo. Ela espreitou o andar de baixo, oculta pela balaustrada, e viu o pai de frente para o estranho. De onde estava, no alto da escada, enxergou outra silhueta, parcialmente escondida pelas sombras do vestíbulo. — Recebeste as advertências, Braxton! - - berrou o estranho em
 tom gutural. — Fomos regiamente recompensados para garantir que
 não causes mais tumulto. O estranho empunhava uma pistola muito parecida com a que seu pai costumava trazer consigo para sua própria proteção. e a menina viu que ele estava apontando a arma para o seu paizinho. Começou então a descer a escadaria curva, com a intenção de correr até seu pai para ele acalmá-la e lhe dizer que tudo terminaria bem. Quando chegou ao último degrau, parou. Diante dos seus olhos, seu pai atacou o estranho e o fez soltar a pistola, que caiu fora do seu alcance. A arma aterrissou com estardalhaço aos pés da garotinha. Das sombras, o outro apareceu. — Perkins lhe envia seus cumprimentos — disse ele, ríspido. —
 Também a mensagem de que não deves te preocupar com a menina. Ele
 vai vendê-la por um bom preço. A menina então começou a tremer. Não conseguia olhar para o homem que estava falando. Sabia que se olhasse veria os olhos do demónio, alaranjados. O terror a dominou. Ela sentia o mal cercando-a por todos os lados, sentia o gosto e o cheiro dele e, se ousasse olhar, sabia que ele a cegaria. O homem que a menina pensou ser o próprio capeta ocultou-se nas
  • sombras justamente quando o outro atacou o seu pai e lhe deu um empurrão violento. — Com a garganta cortada, não vais mais poder fazer discursos
 - disse ele, soltando uma risada maldosa. O pai da menina caiu de joelhos, e ao tentar levantar-se surgiu uma faca nas rnãos do atacante. L ma gargalhada detestável e terrível saturou o vestíbulo, ecoando pelas paredes como cem fantasmas cegos soltando gritos estridentes entre si. O homem passou a faca de uma das mãos para a outra, e depois para a primeira mão de novo, andando vagarosamente em torno do pai da garotinha. — Espera aí, papai, vou te ajudar — disse a menininha em voz
 trémula, estendendo a mão para pegar a pistola. Era pesada e fria como
 se tivesse caído sobre a neve, e ela ouviu um estalido quando um de seus
 dedinhos rechonchudos deslizou pelo círculo debaixo dela. Com braços retesados, bem estendidos, as mãos trémulas de medo, ela apontou a arma mais ou menos para o lugar em que tinha visto os dois homens lutando. Vagarosamente, começou a andar na direção do pai, para lhe dar a pistola, mas parou de repente ao ver o estranho meter a faca longa e curva no ombro do pai. Aí a menina gritou de desespero. —Papai! Eu vou te salvar, paizinho! — O soluço da menininha,
 cheia de terror e desespero, penetrou entre os grunhidos ásperos dos dois
 combatentes. O estranho que antes estava oculto pelas trevas correu para
 a frente, para participar da cena. A luta cessou, e os três olharam incrédu
 los para a menininha de quatro anos que apontava a pistola para eles.
  • —Não! — gritou o demónio. Tinha parado de rir. —Foge, Caroline, foge, minha filha, foge. Mas já era tarde. A criança tropeçou na bainha da camisola ao correr para o pai. Instintivamente, pressionou o gatilho da pistola ao cair, enquanto tentava evitar a queda, e depois fechou os olhos, ao ouvir a explosão que reverberou de maneira tão obscena quanto o riso do demónio por todo o vestíbulo. A garotinha abriu os olhos e viu o que tinha feito. E depois não viu mais nada. ! ! CAPÍTULO I INGLATERRA, 1802 Tiros estilhaçaram o silêncio, perturbando a tranquila viagem pelo interior da Inglaterra. Caroline Mary Richmond, sua prima Charity e o negro que as acompanhava, Benjamin, ouviram o barulho no mesmo instante. Charity achou que era uma trovoada e olhou pela janela. Franziu a testa, confusa, pois o céu estava tão límpido e azul quanto no mais belo dia de outono. Não havia uma única nuvem negra à vista. Estava para fazer um comentário sobre o assunto, quando a prima agarrou-a pelos ombros e empurrou-a para o chão da carruagem de aluguel. Caroline certificou-se de que a prima estava bem protegida, depois
  • tirou uma pistola prateada com cabo de pérola da sua bolsa. Apoiou-se sobre as costas da prima quando o veículo parou de repente, ao descrever a curva da estrada. —Caroline, que diabo pensas que estás fazendo? — A pergunta,
 em tom ríspido, saiu abafada, vinda do chão. —Aquilo foram tiros — respondeu ela. Benjamin, no banco em frente à sua senhora, empunhando sua própria arma, cautelosamente espreitou por sua janela aberta. —Parece uma emboscada, logo à nossa frente! — gritou o co
 cheiro, com um forte sotaque irlandês. — Melhor nos escondermos no
 mato até eles irem embora — aconselhou, descendo depressa da boleia
 e passando correndo pela janela. —Viste alguma coisa? — indagou Caroline. —Só o cocheiro se escondendo ali naqueles arbustos — respondeu
 o negro, pelo seu tom obviamente desaprovando a atitude do rapaz. —Não estou vendo nada — comentou Charity, frustrada. —
 Caroline, por favor, sai de cima de mim. Meu vestido vai ficar cheio de
 pegadas nas costas. Ela esforçou-se para sentar-se, finalmente conseguindo ficar de joelhos. Sua touca pendia-lhe do pescoço, emaranhada nos cachos da abundante cabeleira loura, e em abundantes fitas rosas e amarelas. Os óculos de armação metálica estavam enviesados sobre seu narizinho delicado, e ela semicerrava os olhos, procurando concentrar-se enquanto tentava se recompor. — Francamente, Caroline, creio que não precisarias ter tanto zelo

  • assim por proteger-me — declarou, apressadamente. — Ai, meu Deus,
 perdi uma das minhas lentes... — acrescentou, com um gemido. — Pro
 vavelmente caiu no meio das pregas do vestido. Acha que são salteadores,
 que estão atacando algum viajante desprevenido? Caroline concentrou-se no último comentário de Charity. — Pelo número de tiros e pela reação do nosso cocheiro, imagino
 que sim — respondeu. Sua voz soou baixa e tranquila, uma reação
 instintiva à tagarelice nervosa de Charity. — Benjamin, por favor, vá
 acalmar os cavalos. Se eles não se espantarem, podemos avançar e ofe
 recer ajuda. Benjamin concordou, sem nada dizer, e abriu a porta da carruagem. Seu peso considerável balançou o veículo quando ele se levantou, e o negro precisou abaixar os ombros largos para sair pela porta de madeira. Em vez de correr para a frente, onde os cavalos estavam atrelados, foi para a traseira, onde os dois cavalos árabes de Caroline estavam amarrados. Os animais haviam sido importados de Boston, com os três, e eram presentes para o pai de Caroline, o conde de Braxton. O garanhão estava assustado, e a égua também, mas Benjamin. falando com eles baixinho no dialeto africano musical que apenas Caroline compreendia totalmente, tranquilizou os animais de imediato. Depois, soltou-os e os levou até a lateral da carruagem. —Espera aqui, Charity — ordenou Caroline. — E não botes a
 cabeça para fora. —Toma cuidado, sim? — recomendou Charity, voltando a sentar-
 se no banco do veículo. Imediatamente meteu a cabeça pela janela, fin
 gindo que não tinha ouvido a ordem de Caroline para ter cuidado, e viu
 Benjamm ajudando-a a montar no garanhão. — Benjamin, tu
  • também,
 cuidado — gritou Charity quando o homenzarrão montou na égua.. Caroline foi na frente, passando entre as árvores, com a intenção de abordar os salteadores pelas costas, para contar com o elemento surpresa em seu favor. Pelo número de tiros, deviam ser quatro, talvez cinco os bandoleiros, e ela não tinha a menor intenção de se ver no meio de um bando de foras-da-lei estando em condições de inferioridade numérica. Os galhos batiam na sua touca azul com violência, e ela resolveu retirá-la de um só golpe, jogando-a no chão. Sua espessa cabeleira negra, da cor da meia-noíte, soltou-se dos grampos ineficientes e espalhou-se pelos seus ombros, os cachos rebeldes dançando ao redor do seu rosto. Vozes exaltadas os detiveram, e Caroline e Benjamin, bem escon- didos no mato denso, podiam ver razoavelmente bem o que estava se passando. A cena que se desenrolava na estrada fez calafrios de apreensão percorrerem a espinha de Caroline. Quatro homens corpulentos, todos a cavalo, cercavam um lado de uma linda carruagem preta. Todos usavam máscaras, menos um. Seu adversário era um homem obviamente abastado, que estava saindo lentamente da carruagem. Caroline viu sangue vermelho-vivo escorrendo sem parar entre as pernas do homem e quase soltou um grito de indignação e compaixão. O cavalheiro ferido era louro e belo, mas seu rosto estava branco como giz, todo crispado de dor. Caroline viu-o encostar-se na carruagem e enfrentar os assaltantes. Notou a arrogância e o desdém no seu olhar enquanto ele examinava seus captores, e aí viu seus olhos arregalarem de repente. A arrogância desapareceu, substituída por puro terror. Caroline viu logo qual era o motivo da mudança súbita no comportamento do homem. O assaltante sem máscara, obviamente líder do grupo, pelo modo como os outros o olhavam, erguia vagarosamen a pistola. O bandido, sem dúvida,
  • estava para cometer um homicídio sangue-frio. — Ele viu a minha cara — disse o homem aos seus capangas. - Não tem jeito. Vai ter que morrer. Dois dos salteadores imediatamente concordaram, mas o terc;. hesitou. Caroline não perdeu tempo esperando para ver qual seria i : cisão dele. Mirou com todo o cuidado e apertou o gatilho. Seu tiro foí certeiro, resultado dos anos que tinha passado na companhia de quan primos mais velhos, os quais insistiam em lhe ensinar princípios de a todefesa. A mão do líder foi o alvo, e o uivo de dor dele, a recompensa de Caroline. Benjamin fez um ruído de aprovação com a boca, entregando-lhe sua arma e aceitando a pistola vazia. Caroline voltou a atirar, ferindo o salteador à esquerda do líder. E foi aí que terminou o assalto. Os bandoleiros, soltando impropé rios e ameaças, dispararam estrada abaixo, produzindo um estardalhaço. semelhante a uma trovoada. Caroline aguardou até os sons das patas dos cavalos sumirem aí manejou as rédeas, instigando o cavalo para que seguisse em frente. Quando chegou ao ponto em que estava o cavalheiro, desmontou com ligeireza. — Eles provavelmente não voltarão — disse, baixinho. Ainda estava de arma na mão, mas abaixou o cano quando o cavalheiro recuou um passo. O homem vagarosamente recuperou-se. Os seus olhos azuis incrédulos, um pouco mais escuros que os de Caroline, fitaram a moça compreendendo tudo de repente. — Foste tu quem atiraste neles? Tu atiraste... O pobre homem não devia estar encontrando palavras para arrematar seu pensamento. O que se passara obviamente tinha sido demais para ele. — Sim, fui eu. E o Benjamin — acrescentou, indicando o gigante
  • ao seu lado — me ajudou. O cavalheiro conseguiu por fim tirar os olhos de Caroline e espiar por cima da cabeça dela, vendo o seu amigo. Sua reação ao negro preocupou Caroline. Ele deu a impressão de que ia desmaiar. Parecia meio desorientado, mas Caroline achou que era por medo e pela dor do ferimento que ele estava custando a entender tudo. — Se eu não tivesse usado minhas armas, estarias morto. Depois dessa declaração bastante lógica do acontecido, Caroline virou-se para Benjamin e entregou-lhe as rédeas do seu garanhão. — Volta até a carruagem e conta a Charity o que se passou. Ela deve estar morta de preocupação a esta altura. Benjamin concordou e começou a afastar-se. — Traz a pólvora, por via das dúvidas — gritou Caroline, ainda, —, e a mochila de remédios da Charity. Então voltou-se para o estranho e perguntou: — Podes voltar para dentro da tua carruagem'? Vais sentir-te mais confortável enquanto cuido do teu ferimento. O homem concordou, e vagarosamente subiu os degraus e entrou na carruagem. Quase perdeu o equilíbrio e caiu para trás, mas Caroline o seguia, e ajudou-o a equilibrar-se, pondo-lhe as mãos nas costas. Quando ele já estava sentado no banco acolchoado cor de vinho, Caroline ajoelhou-se no piso, entre as pernas abertas dele. Viu-se subi- tamente envergonhada, pois o ferimento se situava em um lugar bastante inconveniente, e sentiu as faces ruborizarem diante da posição intima em que se encontrava. Hesitou, pensando no que devia fazer a seguir, até que um novo rio de sangue empapou os calções de camurça do homem. — Mas que coisa mais constrangedora — murmurou ele. Sua voz refletia mais sofrimento do que vergonha, e Caroline reagiu com pura comiseração.
  • O ferimento era exatamente entre as pernas dele, na parte interna da coxa esquerda. —Tiveste muita sorte — murmurou Caroline. — O tiro foi de raspão. Se me deres licença, vou rasgar só um pouquinho a camurça... —Vais arruinar minhas calças! — O homem parecia ter ficado indignado diante da sugestão de Caroline, e ela endireitou o tronco, para poder olhar bem para a cara dele. —Já bastam minhas botas! Olhai o estado das minhas botas! Ele parecia, segundo a avaliação de Caroline, estar a ponto de um ataque histérico. — Tudo vai dar certo — disse ela, baixinho. — Podes, por favor dar-me permissão para fazer só um cortezmho de nada nas tuas calças? O cavalheiro inspirou profundamente, revirou os olhos para o e concedeu permissão para Caroline prosseguir, com uma vénia de quem está concordando contra a vontade. — Se não há outro jeito... — disse, resignado. Caroline, então, depois de assentir, tirou um pequeno punhal onde o escondia, acima do tornozelo. O cavalheiro assistiu à manobra dela e conseguiu sorrir pela primeira vez. —Sempre viajas assim bem preparada, madame? —No lugar de onde viemos, viajar exige que tomemos todas as precauções — explicou Caroline. Foi uma dificuldade imensa meter a ponta da lâmina sob o couro, de camurça colado no corpo do homem. As calças pareciam ter sido perfeitamente moldadas à pele dele, e Caroline não pôde deixar de pensar que o simples ato de sentar-se devia ser terrivelmente incómodo para ele. Ela trabalhou com diligência até finalmente conseguir cortar o couro da costura
  • entrepernas, e depois afastou bem o couro, para a carne rósea ficar bem exposta. O cavalheiro, percebendo o sotaque diferente da bela mulher que tinha ajoelhada diante de si, reconheceu o modo de falar colonial sua voz rouca. — Ah, com que então, és das Colónias! Um lugar um tanto bárbaro, segundo me disseram — e soltou um gritinho involuntário quando Caroline começou a examinar as bordas do ferimento, prosseguindo depois: — Não admira que tragas contigo um arsenal. Caroline ergueu os olhos para o estranho, respondendo, sem conseguir esconder a surpresa: —Sim, sou das Colónias, não nego, mas não é por isso que porto armas, senhor. Não, de jeito nenhum — acrescentou, sacudindo vigorosamente a cabeça. — Acabo de vir de Londres. —Londres? — O estranho voltou a mostrar-se confuso. —Deveras. Já ouvimos falar dos crimes que ocorrem por aqui. Ora, inúmeras notícias de assassinatos e assaltos que ocorrem aqui já chegaram até Boston. É um covil de decadência e corrupção, não é? Minhã prima e eu juramos que tomaríamos todos os cuidados possíveis. O
 que, aliás, foi excelente, visto que testemunhamos esta emboscada logo no primeiro dia após nossa chegada. —Ah, mas já ouvi as mesmas histórias sobre as Colónias - respondeu o cavalheiro, abafando uma risada. — Londres é um lugar muito mais civilizado, minha prezada e equivocada senhora! — O tom do homem pareceu condescendente demais, na opinião de Caroline. Mas, estranhamente, ela não se deixou irritar por ele. —Estás defendendo tua pátria, o que é louvável da tua parte — respondeu a moça, com um suspiro. E voltou a atenção para a
  • perna do homem antes que ele pudesse encontrar uma resposta adequada, acrescentando: — Podes, por favor, me dar essa tua gravata? —Como foi que disse? — respondeu o estranho. Estava mordendo o lábio inferior entre cada palavra cuidadosamente pronunciada, e Caroline deduziu que a dor estava aumentando. —Preciso de alguma coisa para estancar essa hemorragia — ex- plicou Caroline. —Se alguém te ouvisse falar assim, eu sofreria uma humilhação acima de qualquer... tomar um tiro assim, nesse lugar inconveniente, ser socorrido por uma dama, e ainda por cima dar- lhe meu próprio plastrão para... Meu Deus, é demais, demais! —Não precisas ter receio de que eu vá inutilizar teu plastrão — acalmou-o Caroline, num tom que usava para tranquilizar criancinhas, — Olha, vou usar um pedaço da minha anágua. O cavalheiro ainda retinha um olhar meio desvairado e continuou a proteger seu precioso plastrão das mãos dela. Caroline obrigou-se a continuar procurando mostrar-se compreensiva: — E dou-lhe minha palavra de que não revelarei a ninguém este incidente tão escabroso. Nem mesmo sei vosso nome, ora! Muito simples, não vês? Daqui por diante, eu o chamarei... de Jorge, como Jorge, o vosso rei. Não é perfeitamente aceitável? O olhar desvairado nos olhos do homem intensificou-se e Caroline entendeu que não era aceitável coisa nenhuma. Reâetm um momeia( sobre aquilo e deduziu o motivo dessa nova irritação dele. — Naturalmente, como vosso rei não anda bem de saúde, talvez um outro nome seja mais adequado. Smith, por exemplo. Que tal Harold Smith? O homem concordou e soltou um longo suspiro.
  • — Otimo — disse Caroline. Deu um tapinha carinhoso nas rótulas do homem e saiu depressa da carruagem; depois curvou-se e começou a rasgar uma faixa da beirada da anágua. O som de cavalo e cavaleiro aproximando-se rapidamente assustou Caroline. Ela ficou paralisada ao ver que o tropel provinha do norte, a direção oposta àquela da qual Benjamin devia vir da carruagem alugada Seria um dos bandidos voltando? — Dá-me a minha pistola, sr. Smith — exigiu ela, enquanto recolocava depressa o punhal no seu esconderijo e jogava a faixa de anágua pela janela aberta da carruagem. — Mas está vazia — protestou o homem bem alto, apavorado. Caroline sentiu o mesmo pânico tentar apoderar-se dela. Procurou evitar ceder ao impulso de apanhar as saias e correr para pedir ajuda, Não podia obedecer assim a um impulso de tamanha covardia, deixaria aquele homem ferido sozinho, sem proteção. — Pode ser que a pistola esteja vazia, mas só nós sabemos disso — insistiu Caroline, simulando valentia. Recebeu a arma pela janela aberta suspirou profundamente, para acalmar-se e mentalmente rezou para que Benjamin também tivesse ouvido essa nova ameaça aproximando-se. Meu Deus, se ao menos suas mãos parassem de tremer tanto! Do outro lado da curva, cavalo e cavaleiro finalmente surgiram. Caroline concentrou-se no animal, um gigantesco corcel pelo menos três mãos mais alto do que seus árabes. Pensou, a esmo, que o homem ia atropelá-la e que ia morrer e sentiu a terra tremendo sob os pés. Ergueu a pistola, segurando-a com firmeza, embora recuasse um passo, sem sentir, e, não obstante fosse perigoso, ela precisou fechar os olhos por causa da poeira levantada bem na sua cara quando o cavaleiro freou o corcel. Caroline passou uma das mãos sobre os olhos e voltou a abri-los.
  • Do outro lado do magnífico corcel, viu uma pistola reluzente diretamente apontada para ela. Tanto o animal que bufava como a pistola intimidaram-na demais, de modo que Caroline voltou a atenção para o cavaleiro. Mas arrependeu-se. O homenzarrão que a olhava intimidou-a muito mais do que o cavalo ou a pistola. Os cabelos fulvos, caindo-lhe na testa, não suavizavam as feições austeras e cinzeladas daquele homem. Seu maxilar era rígido, nitidamente definido, assim como o nariz e os olhos, de um castanho dourado que não exprimia nem uma nesga de bondade ou compreensão, e agora tentavam atravessá-la como uma lança, debilitar-lhe as boas intenções. A carranca dele era tão medonha que chegava a arder. Ela não permitiria isso, pensou. Retribuiu o olhar arrogante do homem, tentando não piscar enquanto o sustentava. Jered Marcus Benton, o quarto duque de Bradford, não estava con- seguindo acreditar no que via. Tranquilizou o seu garanhão enquanto contemplava a formosíssima dama diante de si, a bela de olhos azuis que segurava uma pistola apontada direto para o seu coração. A situação em si já era incompreensível. — O que houve aqui? — quis saber ele, com tal intensidade que seu corcel começou a empinar-se ao ouvi-lo. Ele rapidamente controlou o animal, usando as coxas musculosas para neutralizar o movimento do animal. — Calma, Confiança — ordenou asperamente. Mas pareceu contradizer sua ordem firme acariciando o lado do pescoço do animal. Aquela manifestação inconsciente de afeto contrastava totalmente com a expressão brutal no seu rosto. Ele não afastava os olhos dela, e Caroline passou a desejar que um dos salteadores tivesse voltado, afinal. Já estava desconfiada, achando que o estranho iria perceber logo, logo que ela estava blefando. Onde terá se metido o Bemjamin? Caroline pensou, um tanto apavorada.
  • Não era possível que não tivesse ouvido o tropel do cavaleiro se apro- ximando. O chão ainda estava tremendo, não estava? Ou seriam suas pernas? Ela precisava se controlar, meu Deus! — Diga-me logo o que aconteceu aqui — ordenou de novo o estranho. A aspereza da voz dele surpreendeu Caroline, mas mesmo assim ela não se mexeu. Nem respondeu, temendo que seu medo se revelasse na sua voz, e ele passasse a ter essa vantagem sobre ela. Apertou ainda com mais força a pistola e tentou acalmar o coração, que batia disparado. Bradford arriscou uma olhadela rápida em torno de si. Sua carruagem predileta, emprestada a um amigo durante uma quinzena, estava a beira da estrada, com vários buracos de bala horrorosos no seu brasão. Captando um movimento dentro do veículo, reconheceu a cabeleira loura do amigo. Bradford quase soltou um suspiro de alívio. Seu amigo estava são e salvo. Entendeu, instintivamente, que a mulher que tinha de pé orgulhosamente diante de si não havia sido responsável por todo aquele prejuizo.Viu-a tremer ligeiramente e aproveitou a oportunidade. — Larga a tua arma! — Não era um pedido. O duque de Bradfoi raramente, se é que isso tinha alguma vez acontecido, solicitava alguma coisa. Ele mandava, não pedia. E sob circunstâncias normais, sempre recebia o que queria. Bradford foi obrigado a reconhecer que as circunstâncias em que se encontrava não eram normais quando a sirigaita continuou olhando para ele sem reagir, fingindo que não tinha ouvido sua ordem. Caroline concentrou-se em tentar não tremer enquanto observava o homem corpulento que tinha acima de si, como se fosse uma nuva de tempestade. O poder envolvia-o como uma capa, e Caroline viu-sei amedrontada pela intensidade da sua reação. Ele era, afinal, apenas um homem. Ela sacudiu a cabeça e fez força para organizar os pensamentos O
  • estranho parecia-lhe arrogante e pomposo e, pelas roupas que usaiva obviamente abastado. Seu colete era cor de vinho, de estilo idêntico, casaca verde-vegetal do sr. Smith. Seus calções dourados de camurça eram também tão elegantes quanto os do outro, e igualmente colados no corpo, pois era possível ver-lhe o relevo da musculatura através do tecido. As botas de cano alto reluziam de tão bem engraxadas, e o homen com cara de desconfiado até usava o mesmo tipo de lenço no pescoço. Caroline lembrou-se de como o ferido tinha se preocupado, temendo que um de seus conhecidos soubesse do acontecido, e lembrou da promessa que lhe havia feito de não contar a ninguém o sucedido. O estranho que a fitava de maneira tão agressiva definitivamente pareceu- lhe do tipo que espalharia fofocas sem a menor dor na consciência. Era melhor livrar-se dele o mais rápido possível. —Madame, será possível que és surda? Eu já vos disse para depordes a vossa pistola. — Ele não pretendeu gritar, mas sentia-se aprisio- nado tanto pela arma dela apontada para ele como, admitia agora para si, pelos olhos dela, que o desafiavam. Eram de uma cor que ele nunca
 tinha visto. —Deponde vós a vossa — Caroline finalmente respondeu. Adorou perceber que sua voz não tinha tremido demais e achou que pareceu tão zangada quanto ele. Tinha sido uma pequena vitória, mas, ainda assim, uma vitória. As costas de Carohne estavam voltadas para a carruagem, e ela, portanto, não viu o ferido acenando para o recém-chegado, que estava tentando matá-la de medo. Bradford cumprimentou o passageiro da carruagem com uma vénia seca. Suas sobrancelhas arquearam-se interrogativamente para o amigo, e seu olhar subitamente perdeu a expressão de desconfiança. Era como se de
  • repente tivessem apagado todo um quadro-negro repleto de anotações, e Carohne viu-se desejando que a sua aura intimidadora de poder também desaparecesse depressa assim. Não houve tempo para que ela entendesse a mudança de compor- tamento do seu adversário. — Parece que chegamos a um impasse — declarou o homem, numa voz grossa e melodiosa. — Devemos atirar um no outro? Ela não achou graça. Viu os cantos da boca contraída dele er- guerem-se ligeiramente e sentiu a coluna enrijecer, reagindo ao gesto. Como ele ousava assumir assim um comportamento tão descontraído e entediado, quando ela estava quase se borrando de medo? — Podeis depor vossa arma — insistiu Caroline, baixinho. — Não vou atirar em vós. Bradford não quis saber nem da ordem, nem da promessa dela, e continuou a olhá-la com toda a tranquilidade, enquanto acariciava o pescoço do seu corcel. Era evidente que valorizava o animal, e Caroline de repente entendeu que tinha nas mãos uma nova arma. Ele, pelo visto, não ia ceder nunca. Não ia curvar-se diante mulher alguma. Bradford tinha visto sua oponente tremer um instar antes e sabia que só precisaria esperar, que ela iria desmoronar todinf Relutantemente, admirava sua coragem, uma qualidade que jamais nhã encontrado em mulheres antes, mas também achava que, corajosa ou não, ainda era apenas uma mulher e, portanto, inferior. Todas mulheres eram basicamente iguais... todas elas... — Não vou atirar em vós, mas sim no seu cavalo. O estratagema dela funcionou. O homem quase caiu da sela. — Não terias essa coragem! — urrou ele, de pura indignação. A resposta de Caroline a essa reação foi abaixar o braço para suai
  • pistola vazia apontar direto para a cabeça do imponente corcel. —Bem entre os olhos — prometeu ela. —Bradford!— A voz, vindo do interior da carruagem, fez o duque deter-se antes de obedecer ao desejo irresistível de descer do cavalo e esganar a mulher que estava à sua frente. —Sr. Smith? Conhece este homem? — Caroline gritou. Ela não tirou os olhos do estranho furioso, que estava agora apeando e recolocando, para grande satisfação dela, a pistola no coldre. Uma onda de alívio dominou-a. Não tinha sido tão difícil assim convencê-lo, afinal. Se esse inglês era um espécime típico da alta sociedade local, então Caroline admitia que suas primas tinham razão. Talvez todos eles fossem maricas. Bradford virou-se para Caroline, interrompendo-lhe os pensamentos. — Nenhum cavalheiro que se prezasse jamais ameaçaria... E aí percebeu, no instante em que fazia aquele comentário, como ele era completamente absurdo. — Eu nunca me considerei um cavalheiro, mesmo — respondeu Caroline, quando percebeu que ele não ia terminar a frase. O sr. Smith meteu a cabeça pela janela e soltou um gemido baixo quando o movimento lhe causou dor, — Essa pistola que ela está empunhando está vazia, rapaz. Não precisa ficar aí todo apoplético. Teu cavalo não corre risco algum. Na voz dele era possível perceber um certo tom de mofa, e Caroline não conseguiu conter um sorriso. Bradford ficou temporariamente distraído ao ver o lindo sorriso da moça, o brilho malicioso que surgiu nos seus olhos. — Não foi nada difícil convencer-te — comentou Caroline. E
  • imediatamente desejou não ter dito nada, pois o homem avançou para cima dela, a uma velocidade alarmante. E não estava sorrindo. Obviamente padecia de uma horrível falta de senso de humor, refletiu ela,
 recuando um passo. A carranca dele eliminou qualquer possibilidade de atração física. Isso e seu tamanho. Ele era alto demais e espadaúdo demais para o gosto dela. Era quase tão grandalhão quanto o Benjamin, que, Caroline verificou aliviada, estava se aproximando às costas do estranho, sem fazer ruído. —Terias atirado no meu cavalo, se tua pistola estivesse carregada, é? — O estranho exibia agora um tique bastante acentuado na face direita, e Caroline, abaixando a pistola, decidiu que era melhor responder. —Claro que não. Ele é lindo demais para alguém querer matá-lo. Por outro lado, o senhor... Bradford ouviu alguém pisar no cascalho atrás de si e virou-se. Deu de cara com Benjamin. Os dois homens mediram-se, avaliaram-se durante alguns instantes, e Caroline percebeu que ele não tinha se deixado intimidar pela presença do seu acompanhante. Sua reação foi apenas mostrar-se curioso, uma diferença notável em relação à reação do sr. Smith. —Podes me entregar o remédio, Benjamin? Não te incomodes com esse aí — acrescentou ela, indicando com a cabeça o homem arrogante. — Parece que é amigo do sr. Smith. —Sr. Smith? — indagou Bradford, lançando um olhar intrigado ao homem que sorria para ele pela janela da carruagem. —Ele hoje se chama Harold Smith — prosseguiu Caroline. — Não quer que eu saiba o nome verdadeiro dele, pois está em posição bastante constrangedora. Sugeri que podia chamá-lo de Jorge, o mesmo nome do teu rei, mas ele imediatamente ofendeu- se, de modo que concordamos que seu nome seria Harold.
  • Charity escolheu justamente esse momento para vir correndo pela curva da estrada, segurando a saia cor-de-rosa rodada, que estava erguida bem acima dos seus tornozelos bem torneados. Caroline achou ótima a interrupção, enquanto Bradford, de cenho franzido, olhava para ela, totalmente desconcertado. Será que todos os ingleses pareciam assim confusos o tempo todo? — Caroline! O cocheiro se recusa a sair do mato — disparou Charity quando conseguiu recuperar o fôlego. Parou de repente ao lado de Benjamin e lançou-lhe um rápido sorriso antes de olhar para Bradford e depois, atrás dele, para o homem que a olhava encantado da janela da
 carruagem. — O perigo já passou? O cavalariço prometeu que retornaria à boleia se eu voltasse e lhe dissesse que tudo estava bem. Ele me mandou aqui perguntar — explicou. — Caroline. devíamos voltar para Londres. Sei que fui eu que insisti em ir para a casa de campo do teu pai,
 mas agora vejo como minha sugestão foi tola. Prima, tinhas razão! Vamos todos ficar na casa do teu pai na cidade e mandar-lhe um recado. Charity, tagarelando sem parar, pareceu um redemoinho ambulante para Bradford. Sua atenção alternava-se de uma a outra mulher e ele achou difícil crer que as duas fossem mesmo primas. Eram completamente diferentes uma da outra, tanto na aparência como no comportamento. Charity era de baixa estatura, mais ou menos com um metro e cinquenta e cinco de altura, calculou Bradford. com cachos dourados que não paravam de mover-se e olhos esverdeados que brilhavam travessos. Caroline era uns quatro ou cinco centímetros mais alta que ela, cabelos negros e cílios espessos circundando-lhe os deslumbrantes olhos azul-claros. Ambas eram esbeltas. Chanty era graciosa; sua prima era belíssima. As diferenças não paravam na aparência. A lourinha parecia ser estouvada, e seu olhar não tinha concentração nem firmeza. Não tinha conseguido olhar direto nos olhos dele. fazendo-o deduzir que ela era
  • tímida. Caroline dava-lhe a impressão de uma autoconfiança absoluta, tendo um olhar firme e direto. Seria capaz de olhá-lo nos olhos até fazê-lo cair de joelhos, e quase tinha conseguido. As duas primas eram opostos completos, segundo Bradford constatou, opostos sedutores e misteriosos. — Sr. Smith, esta é Charity — apresentou Caroline, com um sorriso afetuoso para sua prima. Deliberadamente fingiu que não via Bradford e justificou seu deslize dizendo para si mesma que o tinha cometido porque o homem continuava de cara fechada. Charity correu até a janela da carruagem, ficou na ponta dos pés e tentou espiar o interior. —Benjamin me disse que vos feriram, não foi? Pobre homem! Estais vos sentindo melhor agora? — Ela sorriu e esperou uma resposta, enquanto o cavalheiro ferido procurava desesperadamente cobrir a coxa exposta. — Sou prima de Carohne, mas fomos criadas como irmãs praticamente desde que éramos bebés, e temos quase a mesma idade. Eu sou só seis meses mais velha que ela. — Depois dessa explicação, Charity voltou-se para sorrir para Caroline, mostrando duas covinhas iguais nas faces ao fazer isso. — Onde está o cavalariço deles? Acha que também foi se esconder no mato? Alguém devia ir procurá-lo, não? —Sim — respondeu Caroline. — Esplêndida ideia. Por que não tentas encontrá-lo com o Benjamin, enquanto termino de cuidar da perna do sr. Smith? —Ai, meu Deus, perdão pelo mau jeito! Deveríamos todos nos apresentar, embora as circunstâncias sejam estranhas e seja difícil saber exatamente como se deve proceder. —Não! — O grito tinha saído de dentro da carruagem, com uma força que quase a fez cair de lado.
  • —O sr. Smith prefere continuar incógnito — respondeu Caroline, com toda a delicadeza. — E tu deves prometer, como eu prometi, que esquecerás este incidente. — Ela puxou a prima para um canto e cochichou: — O homem está terrivelmente constrangido. Sabe como são esses ingleses... — acrescentou. Bradford, que estava ali por perto, ouviu a explicação e estava para perguntar o motivo do último comentário de Caroline, quando Charity disse: —Ele está constrangido porque foi ferido? Mas que estranho. É grave? —Não — garantiu-lhe Caroline. — A princípio pensei que fosse isso, mas foi porque ele sangrou muito, e o ferimento é em um lugar inconveniente — terminou Caroline. —Ai, ai, ai, ai, ai! — exclamou Charity, com pena. Lançou um olhar ao homem dentro da carruagem, depois se virou para Caroline. —Inconveniente, é? —E — respondeu Caroline. Sabia que a prima queria uma descrição completa, mas, por respeito ao sr, Smith, não lhe disse mais nada. — Quanto mais rápido terminarmos aqui e seguirmos caminho, melhor. —Por quê? —Porque ele está fazendo o maior drama por causa do ferimento — respondeu Caroline, deixando a prima perceber sua exasperação. Não estava contando a Charity toda a verdade, admitia consigo. Desejava ir embora depressa por causa do amigo ameaçador do sr. Smith. Quanto
 mais depressa se afastasse dele, melhor. O homem a amedrontava
  • em um nível incomum, irritante, e Caroline não estava gostando nada daquele sentimento. — Ele é um peralvilho? — perguntou Charity aos cochichos, como se isso fosse alguma doença grave. Caroline não respondeu. Fez sinal a Benjamin e depois aceitou a bolsa dos remédios que ele trouxera. Voltou a entrar na carruagem e disse ao sr. Smith: — Não te incomodes com a Charity. Ela está sem óculos, mal consegue enxergar-te, Benjamin ouviu a explicação, depois ofereceu a braço a Charity. Quando viu que ela não se apoiou nele, Benjamin agarrou-lhe o braço e vagarosamente levou-a para longe dali. Bradford ficou ouvindo a dupla, tentando imaginar quem eles seriam e o que estaria havendo. — Podes entrar, não tem importância que vejas minha desgraça— chamou o sr. Smith, dirigindo-se ao seu amigou Readford concordou
 e contornou a carruagem pelo lado oposto. — Há poucos homens nos quais eu confiaria para manter segredo sobre esse meu apuro, mas Bradford certamente é um deles — explicou ele a Caroline. Caroline não fez comentários. Viu que o ferimento havia parado de sangrar. — O senhor traz consigo alguma bebida alcoolica?__ indagou ela, sem dar a menor bola para Bradford quando ele entrou na carruagem e se sentou diante do sr. Smith. A carruagem era muito mais ampla do que o coche de aluguel de Caroline, mas, apesar disso, a perna esquerda de Bradford encostava no seu ombro, enquanto ela estava ajoelhada diante do sr. Smith. Não seria de bom- tom sugerir que ele aguardasse lá fora até ela terminar de limpar a ferida e pôr bandagens, uma vez que o sr. Smith tinha convidado o homem para
  • entrar; mesmo assim, Caroline sentiu vontade de expulsá-lo. —Um pouco de conhaque — respondeu o homem, voltando os pensamentos de Caroline para si outra vez. — Acha que uma bebida forte ajudaria? — indagou, ao tirar uma garrafa cinza do bolso do peito. —Se restar ainda um pouco — respondeu Caroline, — vou der- ramar umas gotas no ferimento antes de atá-lo. Mamãe diz que o álcool protege contra infecções — explicou. Não acrescentou que a mãe dela não tinha certeza, se isso era verdade ou não, decretando que certamente mal não devia fazer. — Vai arder, de forma que, se sentires vontade de gritar, podes gritar, que não me incomodará. —Não vou dar um pio sequer, madame, e não é galante de vossa parte insinuar que daria — declarou o homem com ar pomposo apenas segundos antes de aquele fogo líquido tocar-lhe a pele. Ele então deixou escapar um urro de protesto a plenos pulmões e quase caiu do banco. Bradford, sentindo-se completamente deslocado, fez uma careta, solidarizando-se com a dor do amigo. Caroline apanhou um pequeno pote de pó amarelo que cheirava a chuva caída há certo tempo e folhas úmidas e polvilhou liberalmente o ferimento com ele. Depois pegou a longa faixa rasgada da anágua e trabalhou o mais rápido possível. — O remédio vai anestesiar o ferimento, e também cicatrizá-lo — informou com delicadeza. Bradford sentiu que estava sendo vítima da voz sensual e rouca da moça. Pegou-se desejando poder trocar de lugar com o amigo, e precisou sacudir a cabeça para livrar-se dessa ideia ridícula. O que estava acontecendo com ele? Sentia-se enfeitiçado e confuso. Era uma reação muito estranha a
  • uma mulher, que ele jamais tinha experimentado antes, e viu que não estava gostando nada daquilo. Ela o descontrolava totalmente. Essa reação assim tão intensa àquela rapariga de cabelos negros quase o amedrontava, e Bradford sentiu-se de repente como se fosse o estudante desajeitado que tinha sido muitos anos antes, sem saber como proceder. — Eu me comportei como um covarde, berrando daquele jeito — murmurou o sr. Smith. Enxugou a testa com urn lencinho bordado e abaixou os olhos. — Sua mãe é uma bárbara, usando esses métodos de tratamento assim tão cruéis. Bradford, vendo seu amigo assim angustiado, entendeu que era di- fícil para ele admitir um defeito, mas concluiu que, se tentasse dissuadi-lo de sua opinião, só pioraria as coisas. —Mas sr. Smith, mal abristes a boca — contradisse Caroline, com firmeza. Deu-lhe uns tapinhas no joelho e olhou de relance para ele. — Fostes um paciente muito valente. — E o modo como encarastes aqueles salteadores, tanta bravura! — Caroline viu que seu elogio estava
 produzindo o efeito desejado. O ar pomposo do sr. Smith estava voltando aos poucos. — Fostes corajoso, e não precisas lamentar- vos de nada. E vos perdoarei por chamar minha mãezinha de bárbara — acrescentou com um sorriso bondoso. —Fui mesmo bastante corajoso diante daqueles patifes — re- conheceu o sr. Smith. — Naturalmente, estava sozinho, e eles eram muitos, a senhora entende. —Estáveis mesmo — respondeu Caroline. — Devíeis orgulhar-vos da vossa conduta. Não concordais, sr. Bradford? —Concordo — respondeu imediatamente Bradford. muito satisfeito de ela ter resolvido afinal dirigir-lhe a palavra. O sr. Smith soltou um grunhido de prazer.
  • —O único covarde por aqui é o cocheiro irlandês que eu contratei — comentou Caroline, quando começou a enrolar a longa faixa de tecido da anágua em torno da coxa do sr. Smith. —Não gosta de irlandeses? — perguntou Bradford com voz ar- rastada. Estava curioso diante do tom veemente da voz dela. Caroline olhou-o de relance, os olhos faíscando de ódio. e Bradford viu-se perguntando-se se ela amaria com tanta intensidade quanto odiava. Aí
 tratou de afastar da cabeça mais essa ideia ridícula. —Todos os irlandeses que já conheci são uns tratantes — admitiu Caroline. — Mamãe diz que eu devia ser mais liberal no meu modo de ver o mundo, mas acho que não consigo. Ela suspirou e procurou concentrar-se nos seus deveres. — Uma vez, três irlandeses me atacaram, quando eu era bem mais nova, e se o Benjamm não tivesse me salvado, não sei o que teria acontecido. Provavelmente não estaria aqui lhes contando isso. — Acho difícil crer que alguém possa vencer-vos — comentou o sr. Smith. Aquilo parecia um cumprimento, e Caroline respondeu como se fosse. —Não sabia como me proteger naquela época. Meus primos ficaram muito revoltados com esse incidente e, desse dia em diante, revezaram-se como meus professores de defesa pessoal. —Essa mulher é um arsenal ambulante — comentou o sr. Smith para o amigo. — Diz que anda com toda essa proteção para defender-se dos criminosos de Londres. —Será que devemos discutir as diferenças entre as sofisticadas Colónias e vossa vergonhosa Londres uma vez mais, sr. Smith? — A voz de Caroline saiu com um timbre risonho. Ela estava
  • provocando o homem, mais para distraí-lo do que por qualquer outro motivo. Com gestos delicados e precisos, atou a longa faixa na coxa dele, formando várias camadas de bandagem. O sr. Smith aos poucos havia deixado de fazer caretas de dor. — Estou me sentindo consideravelmente melhor. Devo minha vida a vós, minha cara senhora. Caroline fingiu que não tinha ouvido essa declaração fervorosa, e rapidamente mudou de assunto. Cumprimentos a constrangiam, — Estarás dançando dentro de quinze dias — garantiu. — Vais aos grandes bailes da alta sociedade? Como dizem, pertenceis à nata? Essa pergunta inocente fez o sr. Smith tossir. Parecia que ele estava sufocando com alguma coisa presa na garganta. Caroline olhou-o um segundo, depois passou a olhar para Bradford. Pelo olhar dele, Bradford estava achando graça, e ela considerou que sua expressão nesse momento fazia-o parecer bonito. Pacientemente, esperou que o sr. Smith respondesse, enquanto ele, ainda tossindo e procurando recuperar o fôlego, simplesmente parecia não ser capaz disso. Bradford não era nenhum peralvilho, pensou ela, enquanto esperava a resposta. Era até meio decepcionante reconhecer isso. Não, ele não agia como o sr. Smith, de jeito nenhum. Os trajes deles eram parecidos, sim, mas Caroline seria capaz de jurar que Bradford não trazia consigo um lencinho feito de renda. Tampouco achava que a coxa dele se pareceria tanto com a bunda de um neném. Não, provavelmente era musculosa... e firme. Ele era muito mais musculoso do que o sr. Smith, também. Não tinha nem um pouco de gordura sobrando no corpo. Ela imaginava que ele poderia facilmente esmagar um adversário somente com seu peso. Como se comportaria quando estava com uma mulher? Caroline sentiu as faces ruborizarem quando essa fantasia alarmante lhe passou pela cabeça.. O que
  • estava acontecendo com ela? Tentar imaginar um homem sem roupa, ou como seria seu comportamento ao tocar uma mulher... Meu Deus, era uma coisa impensável! Bradford viu aquele lindo rosto enrubescendo e achou que ela estava pensando que o sr. Smith estava rindo dela. Imediatamente respondeu: — Pertencemos à alta sociedade, sim, mas o sr. Smith vai a muito mais bailes do que eu. — Ele não mencionou que raramente comparecia aos bailes e que considerava tudo aquilo uma mera chatice. Em vez de expressar seus verdadeiros sentimentos, Bradford indagou: — Vós mencionastes que estáveis visitando vosso pai? Morais então nas Colónias? Com vossa mãe? Bradford desejava descobrir o máximo que pudesse sobre Caroline. Ele se recusou a reconhecer sua súbita compulsão para obter tantas informações quanto pudesse e fingiu, até para si mesmo, que era apenas um interesse passageiro, nada mais. Caroline franziu o cenho. Seria falta de educação deixar de responder a perguntas educadamente formuladas, mas ela não sentia vontade alguma de contar àqueles cavalheiros nada sobre sua vida. Permaneceria em Londres durante muito pouco tempo, se nada atrapalhasse seus planos, e não queria fazer amizade com ingleses. Mesmo assim, não lhe pareceu que pudesse deixar de corresponder à expectativa no rosto dos dois homens. Ela precisava dizer alguma coisa. — Mamãe já morreu faz muitos anos — finalmente revelou. — Mudei-me para Boston quando era bem pequena. Minha tia e meu tio me criaram, e eu sempre chamei minha tia de mamãe. Ela me criou, entendeis? Era mais fácil... para eu não me sentir diferente dos outros
 — acrescentou, encolhendo os ombros de um jeito negligente. —Vais ficar muito tempo em Londres? — indagou Bradford e inclinou-se para a frente, pousando as mãos enormes nos joelhos, obviamente ansioso para ouvir a resposta.
  • —Charity gostaria de comparecer a alguns compromissos en- quanto estamos aqui — respondeu ela, evitando responder diretamente à pergunta formulada. Bradford franziu o cenho diante dessa manobra para deixar de responder à sua pergunta, mas depois disse: —Logo vai começar a temporada de bailes. Estais ansiosa por dar início a vossa aventura? — Ele procurou esconder o sarcasmo, admitindo que não queria estragar as expectativas inocentes da moça. Ela era uma mulher e, portanto, devia estar morrendo de vontade de participar de todas aquelas frivolidades. —Aventura? Não creio que considere esses bailes uma aventura. Mas tenho certeza de que Charity vai adorá-los — respondeu. Estava de cenho franzido para Bradford, e ele se deixou impressionar com a ideia de que o olhar dela, quando dirigido com tal intensidade, poderia fazer qualquer homem gaguejar e perder a sequência dos pensamentos. Naturalmente, Bradford procurou recordar-se depressa, enquanto tentava lembrar-se do que estavam falando antes, que tinha visto muita coisa nessa vida, que era muito experiente para se deixar levar pelas manhas de qualquer rapariga. Mas estava ficando cada vez mais alarmado diante daquelas suas reações indisciplinadas. Pelo amor de Deus, nunca tinha se sentido tão perturbado, tão dominado por uma mulher antes! O que diabo estaria havendo com ele? Devia ser o calor, refletiu, enquanto jurava, naquele mesmo instante, quando o olhar dos dois se encontrou, que iria descobrir tudo sobre a mulher ajoelhada diante dele. Ela irradiava inocência pura e promessas de um genuíno calor humano para um homem que já estava no frio fazia bastante tempo. O feitiço que os olhos de Bradford exerciam sobre Caroline se quebrou quando o sr. Smith pigarreou e indagou: —Não estais empolgada diante da perspectiva da chegada da
  • temporada de bailes, estais? — Ele parecia, conforme a forma de pensar de Caroline, totalmente assombrado com sua própria pergunta. —Ainda não pensei muito nela — respondeu Caroline. Ela sorriu, depois acrescentou: — Já ouvimos tantas histórias... A nata é um grupo fechado, muito reprovador, e os seus integrantes precisam comportar- se de maneira absolutamente correta. Charity está com medo de cometer algum erro que envergonhe meu pai na sua primeira noite em uma festa. Deseja comportar-se conforme as regras, como podeis compreender. A voz dela parecia tensa, e Bradford ficou ainda mais curioso. O sr. Smith comentou: — Pois eu prevejo que todos em Londres tecerão comentários a vosso respeito — disse em tom esnobe e arrogante. Ele pretendia fazer um cumprimento e ficou confuso quando Caroline concordou com uma vénia e franziu o cenho ao levantar o rosto para olhá-lo. — E disso mesmo que Charity tem medo com relação a mim. Ela teme que eu cometa alguma gafe terrível e que toda a Londres venha a tomar conhecimento dela. Raramente tomo iniciativas corretas, compreendeis? Minha mãe me chama de rebelde. Infelizmente, preciso
 reconhecer que ela tem razão. Ela fez esse comentário sobre si mesma de um jeito perfeitamente natural. —Não. Não, estais equivocada na vossa interpretação do meu comentário — declarou o sr. Smith. Ele então sacudiu o lenço no ar, como se fosse uma bandeira. — Quis dizer que a elite vai acolhê-la com prazer. Eu é que estou prevendo isso. —Muita bondade a vossa — murmurou Caroline. — Mas não tenho esperança quase nenhuma. Não importa, como vós ingleses gostais
  • de dizer, porque estou para regressar a Boston. Se o Pummer em pessoa me expulsar, isso não vai fazer diferença alguma. —Pummer; — Bradford e o sr. Smith pronunciaram esse nome ao mesmo tempo. —Plumer, ou Brummer — respondeu Caroline, dando de ombros. — sr. Smith, podeis deslocar vossa perna só um pouquinho para eu pegar essa ponta solta? Obrigada, agora posso continuar. —Quereis dizer Brummell? Beau Brummell? — perguntou Bradford, evidentemente achando graça. —Ê, esse provavelmente é o nome correto. A sra. Maybury nos disse, antes de sairmos de Boston, que esse Brummell é quem manda na nata, mas naturalmente sabeis disso. A sra. Maybury havia acabado de chegar às Colónias antes de partirmos, portanto cremos que a história que nos contou é verdadeira. —E qual foi essa história? — quis saber Bradford. —Que se o Brummell resolver vetar uma senhora, é melhor ela ir procurando um convento. Não irá encontrar nenhum par nos bailes, e retornará a casa com sua honra enxovalhada. Podeis imaginar que uma pessoa tenha tal poder? — fez essa pergunta a Bradford e olhou de relance para ele. Imediatamente desejou não ter olhado. Claro que ele podia imaginar tal poder, disse a si mesma. O homem provavelmente tinha sido o inventor dele. Suspirou, frustrada, e abaixou a cabeça. O fato de Bradford estar ali tão perto irritava-a. Ela olhou para o sr. Smith e viu que ele estava de cara amarrada, tenso. —Perdão, vossa bandagem está apertada demais? —N-não, está ótima — gaguejou o sr. Smith. —Deveis compreender que eu pessoalmente não me importo se Brummell me isolar ou não. Não creio que Londres seja o lugar
  • certo para mim. Mesmo assim, preocupo-me por Charity, temendo que sua reputação sofra a influência do meu comportamento e ela seja humilhada. Sim, eu me preocupo muito com isso. —Tenho a impressão de que Beau Brummell não irá isolar nem a vós nem a vossa prima — previu Bradford. —Vós sois bela demais para serdes rejeitada — interferiu o sr. Smith. —Ser atraente não devia interferir no processo de aceitação. E o que vai por dentro da pessoa que importa — aconselhou Caroline. —Além desse nobre fato, ouvi dizer que ele valoriza os seus cinzentos acima de qualquer outra coisa — comentou Bradford, em tom seco. —Os cinzentos? — estranhou Caroline, confusa. —Seus cavalos — respondeu Bradford. — Sem dúvida que ten- taríeis atirar neles se ele ousasse evitar que vós ou vossa prima frequentassem os bailes. Sua expressão parecia séria, mas seus olhos tinham um quê cálido e provocador. — Longe de mim! — respondeu Caroline, claramente confusa.
 Aí ele sorriu e Caroline sacudiu a cabeça. —Estais caçoando de mim — afirmou ela. — Pronto — disse, voltando-se para o sr. Smith. — Terminei. Levai este remédio convosco e mandai trocar o curativo uma vez por dia. E não permitais que ninguém vos aplique sanguessugas, por tudo quanto é mais sagrado. Já
 perdestes sangue demais. —Uma outra prática da vossa mamãe? — indagou o sr. Smith,
  • bastante desconfiado. Caroline confirmou, saindo da carruagem. Quando ficou em pé do lado de fora, voltou-se e apoiou as pernas do sr. Smith no banco em frente a ele, ao lado do corpulento Bradford. — Infelizmente, estais com a razão, sr. Smith. Vossas lindas botas estragaram-se. E vossas borlas estão cobertas de sangue. Talvez devais lavá-las com champanhe, como a sra. Maybury explicou que Brummell faz, e aí ficarão novas em folha de novo. —Mas esse é um segredo muito bem guardado — replicou o sr. Smith, indignado. —Não deve ser tão bem guardado assim — respondeu Caroline, —, pois a sra. Maybury sabia muito bem dele, e parece que vós também sabeis. — Ela não esperou uma resposta a sua afirmativa lógica e virou-se para Bradford. — Agora vais cuidar do vosso amigo? —Encontramos o cocheiro — gritou Charity, assim que Bradford confirmou para Caroline que iria cuidar do amigo, sim. — Ele está com um galo na cabeça do tamanho de uma torre de igreja, mas vem vindo aí. Caroline confirmou e despediu-se: — Bom dia para ambos. Benjamin, precisamos ir agora. O sr. Bradford cuidará do sr. Smith. O negro respondeu algo a Caroline em uma língua que Bradford ja- mais tinha ouvido antes, mas, pela forma como a jovem sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, viu que ela entendia perfeitamente. E aí o trio se foi. Nenhum dos dois nobres disse uma palavra en- quanto viam a ninfa de cabeleira negra afastar-se, conduzindo a prima, pela estrada. O duque de Bradford saltou da carruagem para olhar mais tempo, enquanto seu amigo metia a cabeça pela janela e também observava os três se afastarem.
  • Bradford pegou-se sorrindo. A priminha de cabelos louros estava falando com Caroline, e o preto caladão, de pistola em punho, seguia atrás das duas, obviamente protegendo-as. —Meu Deus, acho que contraí a loucura do rei — declarou o ferido. — Essa rapariga vem das Colónias — acrescentou, com um certo desprezo na voz —, e mesmo assim já estou cego de paixão por ela. —Pois trata de curar-te — alertou Bradford bruscamente. — Eu a quero para mim. — Seu tom não insinuou uma discussão, e o amigo sabiamente concordou, balançando a cabeça com vigor várias vezes. —Não importa se ela é das Colónias ou não. —Pois vais causar um tremendo rebuliço se a cortejares. Se o pai dela não tiver títulos... Ora, simplesmente não é possível. Lembra-te da tua posição. —E, portanto, estás condenando nossa união? — Bradford fez essa pergunta com uma curiosidade tranquila. — Não condeno. Eu te apoiaria. Ela salvou-me a vida. Bradford ergueu uma das sobrancelhas, e o seu amigo apressou- se em responder à pergunta que ele não fez. —Ela atacou os patifes e arrancou a arma da mão do líder segundos antes de ele atirar em mim. —Não tenho a menor dúvida de que ela seria capaz de fazer exatamente isso — comentou Bradford. —Feriu outro dos salteadores no ombro. — Notaste como ela procurou evitar responder às minhas perguntas? O sr. Smith começou a soltar risadinhas juvenis. — Achei que não seria possível vê-lo sorrir, Bradford, e mesmo assim, hoje eu o vejo fazendo isso sem parar. A nata vai fervilhar de tantas
  • especulações. Não será fácil para ti unir-se a essa rapariga. Eu até sinto inveja desse teu desafio. Bradford não respondeu, mas virou-se de novo e voltou a olhar para longe, para a curva da estrada na qual os três haviam desaparecido. — Ela vai causar uma reação e tanto quando as senhoras elegantes puserem os olhos nela. Notaste a cor dos olhos dela? Vais ter que lutar pela atenção dela, Bradford. Meu Deus, rapaz, olha só as minhas botas! O duque de Bradford fingiu que não tinha ouvido esse pedido. Depois, pôs-se a rir. — E então, Brummell, vais ter a ousadia de vetá-la? ! ! CAPÍTULO 2 A carruagem de aluguel percorreu a estrada para Londres a uma velocidade constante. Benjamin, desconfiado do desrespeito do cocheiro para com seus deveres, decidiu viajar ao lado do homem, na boleia, para ficar de olho em seu comportamento. Caroline e Charity iam sentadas uma diante da outra, dentro do veículo, e depois que Charity já havia se cansado de falar, as duas caíram em um silêncio reflexivo. Charity não costumava sentir-se tão nervosa. Caroline entendia que aquela sua tagarelice era uma forma de desabafar a insuportável tensão sob a qual sua prima se encontrava. Enquanto Caroline procurava raciocinar,
  • Charity contava a ela tudo o que lhe vinha à cabeça. Não era honra nenhuma, uma vez que sua prima gostava de falar de tudo que era assunto com absolutamente todo mundo. Sua mãe dizia, que Charity espalhava as últimas fofocas mais rapidamente que o Journal de Boston. Caroline era o total oposto de Charity; calada, tímida, já havia aceitado havia muito tempo que não tinha a menor queda para trocar confidências. Ao contrário de sua prima, Caroline procurava carregar seus fardos em silêncio. —Gostaria que tivéssemos um plano para pôr imediatamente em ação, agora que chegamos finalmente à Inglaterra — declarou Chanty, apressadamente. Estava torcendo as mãos, amarfanhando as luvas corde-rosa que segurava. — Estou contando contigo para me dizer como
 proceder. —Charity, já repetimos a mesma coisa um milhão de vezes. Sei que é difícil para ti, mas deves parar de preocupar-te assim. Vais ficar velha e enrugada antes do tempo. — Caroline falava com bondade, mas com firmeza. — Sabes que vou ajudar-te. Porém em troca precisas
 prometer-me que vais ter cautela. —Sim. Cautela! Esta é a chave. Se ao menos eu tivesse um pingo da tua autoconfiança, Lynnie... — respondeu a prima, usando o apelido de infância de Caroline. Charity tornou a suspirar, um suspiro longo e arrastado, certamente exagerado. — Mas, e se eu descobrir que ele é casado? Caroline decidiu que seria melhor não responder. Não ia ser capaz de evitar que a raiva e a frustração se revelassem na sua voz, e isso faria Charity entregar-se a novo ataque de choro. Depois de uma viagem tão longa, Caroline não estava nem um pouco disposta a aturar isso.
  • Os homens eram todos uns tratantes, com exceção dos seus que- ridos primos, naturalmente. Por que a adorável e querida Charity tinha entregado seu coração a um inglês, era uma coisa para a qual Caroline não conseguia encontrar explicação. Havia muitos pretendentes à mão de Charity em Boston mesmo, mas sua prima tinha que ter escolhido um sujeito lá do outro lado do mundo. O inglês, Paul Bleachley, estava visitando Boston quando os dois se conheceram por acaso, e ela imediatamente se apaixonou por ele. A única parte dessa bobagem em que Caroline acreditou foi o fato de ela ter se apaixonado. Charity estava sem óculos, e literalmente tropeçou em Paul Bleachley quando dobrou a esquina da rua da Nogueira, na praça da cidade. O namoro durou seis semanas, e foi dos mais intensos. Charity jurou seu amor e contou a Caroline que Bleachley tinha feito o mesmo. Ela achava que o inglês tinha as melhores intenções, mesmo depois do seu desaparecimento súbito. Era insuportavelmente ingénua. Mas Caroline não se deixava enganar com tanta facilidade assim. Ela e o resto da família nem mesmo tinham conhecido o homem, A cada vez que se marcava um jantar, Paul Bleachley encontrava, no último minuto, outros compromissos mais urgentes aos quais comparecer. A desconfiança de Caroline de que o inglês estava apenas enganando sua prima aumentou dez vezes mais quando ela começou a investigar discretamente a vida dele, fazendo perguntas pela cidade. Charity tinha mencionado que Bleachley estava em Boston para visitar os pais, mas ninguém na comunidade bastante unida em que viviam tinha ouvido falar do inglês. O desaparecimento do inglês coincidiu com a noite da terrível explosão no porto de Boston. Três navios ingleses e dois norte- americanos tinham sido completamente destruídos. Embora Caroline
  • não ousasse revelar sua desconfiança, e não tivesse provas, ficou convencida de que Paul Bleachley de alguma forma estava envolvido nessa conspiração. A família ficou aliviada quando Bleachley sumiu. Todos presumiram que ele tinha voltado à Inglaterra, e que Charity logo se esqueceria daquele romance passageiro. Mas estavam redondamente enganados. Charity ficou para morrer de pesar quando finalmente aceitou que Bleachley a tinha abandonado. Jurou vezes sem conta, até Caroline acreditar nela, que ia descobrir o que havia acontecido e por quê. — Sinto vergonha de mim mesma — disse Charity, interrompendo os pensamentos de Caroline. — Nunca mencionaste uma palavra das tuas preocupações, enquanto eu tagarelava sem parar, falando sobre as minhas. — Eu não tenho preocupações — protestou Caroline.
 Charity sacudiu a cabeça, demonstrando sua exasperação. — Faz catorze anos que não vês o teu pai, e não tens preocupações? Não tentes enganar-me, Caroline. É natural que estejas preocupada! Teu pai virou tua vida pelo avesso, e ages como se isso não tivesse a menor importância.. — Charity, não há nada que eu possa fazer para resolver isso! — replicou Caroline, demonstrando sua irritação. — Desde que aquela carta chegou vens escondendo-te atrás de uma máscara. Eu sei que deves estar perturbada! Fiquei morrendo de raiva do teu pai. Teu lugar é com a minha família, e não com um homem do qual nem mesmo te lembras. Caroline concordou, lembrando-se da cena horrível que tinha ocor- rido em sua casa de Boston quando ela e Charity voltavam da cavalgada
  • matinal. O resto da família estava esperando as duas, de cara fechada. A mãe de Charity chorava e gritava algo horrível, proclamando que Caroline era tão sua filha quanto Charity. Ela tinha criado a menina desde quatro anos, não tinha? E Caroline chamava-a de mamãe desde o início. O pai de Charity mostrava-se mais contido, mais decidido, enquanto lhe anunciava com toda a calma que ela teria de voltar para a Inglaterra. —Acha que ele realmente viria te buscar, como ameaçou na carta? — perguntou Charity. —Acho — respondeu Caroline, com um suspiro. — Nós não tínhamos mais desculpas — acrescentou. — Meu pai deve pensar que eu sou de uma fragilidade terrível. Sabe que cada vez que ele pedia que eu voltasse sua mãe lhe dizia que eu tinha contraído alguma doença.
 Creio até que a única doença que ela não inventou foi a peste, e isso só porque não se lembrou dela. —Mas ele não te quis. Deu-te para nós, para te criarmos. —Só ia ser por uns tempos — respondeu Caroline. — Não entendo o que aconteceu, mas depois que minha mãe morreu, meu pai não podia tomar conta de mim, e aí ele... —Ele é um conde — interrompeu Charity. — Podia ter contratado alguém para tomar conta de ti. E por que ia querer que voltasses agora, depois de tanto tempo? Nada disso faz sentido. —Se eu tiver um pouquinho mais de tempo, vou descobrir a res- posta — afirmou Caroline. —Caroline, lembras de alguma coisa que tenha acontecido quando eras bem pequena mesmo, um bebé? Eu só me lembro de coisas que aconteceram quando tinha seis anos, como aquela vez em que caí do sótão da casa do Brewster. —Não, só do que aconteceu em Boston — Caroline respondeu.
  • Sentiu um nó no estômago e desejou que a conversa terminasse. —Ora, não entendo como não detestas esse homem. Não me Olhes assim. Sei que é errado odiar as pessoas, mas teu paizinho obviamente não quis ficar contigo, e agora, depois de catorze anos, vem dizer que mudou de ideia. Ele não dá a mínima para os teus sentimentos. — Preciso acreditar que o meu pai fez o que considerou melhor— respondeu Caroline. — Caimen ficou furioso quando soube que ias embora — declarou Charity, referindo-se ao seu irmão mais velho. — Devo lembrar-me de que tenho para com teus pais e teus irmãos uma divida, e não devo zangar-me — respondeu Caroline. Suas palavras soaram como um juramento. — A raiva e o ódio são emoções destrutivas, e nenhuma das duas vai mudar os fatos. Charity franziu o cenho e sacudiu a cabeça. — Não entendo como te conformas assim. Sempre tiveste um plano. Conta-me o que vais fazer. Não és do tipo que aceita tudo assim. Es atirada, não sentada. —Sentada? — Caroline riu da descrição inventada pela prima. —Sabes do que estou falando. Não ficas só sentada, tu te atiras às coisas. — Ora, pensei em dar ao meu pai a oportunidade de conviver um ano comigo. Devo isso a ele. E tentarei gostar dele também. Depois, é claro, voltarei a Boston. — E se teu pai não permitir que voltes? — disse Charity,
  • torcendo as mãos e amarfanhando as luvas outra vez, e fazendo Caroline apressar-se a acalmá-la. — Preciso crer que, se eu me mostrar devidamente frustrada, ele vai me deixar regressar a Boston. Não te arrufes assim, Charity. E minha única esperança. Por favor, não tentes abalar-me a fé. —Não consigo evitar. Meu Deus, ele pode até casar-te com alguém antes mesmo que te acostumes aqui. —Isso seria uma indelicadeza que não creio que ele vá cometer. — Ouviste dizer que o Caimen disse ao Luke que te seguiria e te traria de volta a Boston, se não voltasses dentro de seis meses? Caroline confirmou. — Ouvi — respondeu ela. — E o George, sempre tão tímido e contido, disse a mesma coisa. Teus irmãos são muito leais a mim. Caroline viu-se sorrindo ao rememorar a imagem dos seus primos. Lembrou-se de novo de considerar-se sortuda por ter passado tanto tempo em sua companhia. Achava que sua natureza era resultado da influência deles. Ela fazia lembrar o irmão de Chanty, Caimen, tanto na aparência como no génio impetuoso, imitava a timidez de George às vezes, tinha a honestidade de Justm e o senso de humor original de Luke. — Devíamos ter escrito ao teu pai primeiro e depois aguardado até termos certeza de que a carta chegou às mãos dele antes de sair de Boston. Caroline sorriu. —Tens uma memória conveniente, Charity. Assim que tua mamãe te deu permissão para me acompanhar, insististe que devíamos partir imediatamente. —Isso apenas porque o Caimen estava procurando convencer mamãe de que eu não devia vir — explicou Chanty. Sua voz tinha o tom
  • de quem tenta explicar algo complexo a uma pessoa meio simplória. Ela suspirou, demonstrando sua irritação com Caroline, depois indagou: —Quem era o senhor alto que estava te ajudando com o cavalheiro ferido? — A mudança de assunto confundiu Caroline e Charity continuou, mesmo assim: -— Ele era mesmo muito formoso. —Não era formoso coisa nenhuma — Caroline respondeu na hora, de maus modos, surpreendendo-se diante da irritação que sentia. — Eu não senti a menor atração por ele. —Não pode estar falando sério! Mesmo sem os meus óculos, vi que ele era um homem bem fora do comum. —Fora do comum até demais. Era um arrogante — Caroline informou à prima. O tom dela saiu altivo, mas ela não se importou. — Provavelmente nunca mais o veremos, e, para mim, tudo bem. Charity lançou um olhar intrigado à prima e depois disse: —Um homem assim tão grandalhão como ele, com uns olhos azuis maravilhosos! —Eram castanho-escuros, não azuis, com uns pontinhos dourados — respondeu Caroline, antes de ter tempo de perceber o que dizia. Charity riu. — Tu te deixaste cativar por ele, sim! Eu te enganei. Eu sabia que os olhos dele não eram azuis — declarou, mostrando-se satisfeitíssima. — Mas reparei nos cabelos dele — continuou, sem deixar transparecer que notava a fisionomia irritada de Caroline. — Estão precisando de um bom corte, e são muito encaracolados. —Não demais — observou Caroline, dando de ombros. — Ele me deu um pouco de medo — admitiu Charity. — Parecia tão...
  • —Poderoso? — interferiu Caroline. Charity concordou, e Caroline prosseguiu: — O nome dele é Bradford, e eu não quero mais falar dele. Achaste tua lente perdida? —Sim, eu a dei ao Ben. Ele prometeu consertar os óculos quando chegarmos à casa de teu pai, na cidade. Poderoso é justamente a palavra certa, creio eu. Esse tal Bradford não vai se deixar levar com muita facilidade — concluiu Charity, balançando a cabeça como quem sabe
 das coisas. —Como assim? —Só estou dizendo que não vais poder levá-lo pela coleira, como fazes com o Clarence. —Não estou levando o Clarence pela coleira a lugar nenhum — protestou Caroline. — Somos apenas amigos. —O Clarence segue-te como um cachorrinho — afirmou Charity. — Tu o dominas por completo. Até o Caimen diz isso. Precisas de um homem forte, senão o derrubas. —Mas que besteira estás dizendo! — respondeu Caroline, chateada com os comentários que Charity fazia com a maior naturalidade sobre sua personalidade. —Não perdes por esperar. Vi como o sr. Bradford estava olhando para ti. Acho que vai tentar te cortejar. Acho, sim — apressou-se em dizer quando Caroline abriu a boca para protestar. — Quando te apaixonares por alguém forte, como o sr. Bradford, esse homem vai
 te conquistar o coração, e aí teu comportamento vai mudar. Não vais querer mais ser tão independente. Claro que não será conveniente para ti apaixonar-te por um inglês, uma vez que juraste voltar para Boston.
  • Caroline recusou-se terminantemente a responder àqueles co- mentários absurdos de sua prima. Não tinha a menor intenção de se apaixonar por alguém. A falta de sono estava começando a deixá-la zonza, e os comentários ridículos de Charity faziam com que perdesse a concentração. A viagem de Boston ao porto de Londres tinha levado uma eterni- dade. Caroline rapidamente adaptou-se ao balanço do navio, pelo menos foi esse o cumprimento do capitão da embarcação, mas Charity e Benja-min não tiveram a mesma sorte. Caroline passou um bom tempo tomando conta de gente enjoada e contrariada. A tarefa tinha sido exaustiva. Eles tinham dormido no navio na noite anterior, e de manhã en- viado uma mensagem ao conde de Braxton, informando que haviam chegado. O mensageiro voltou, dizendo que o conde estava no momento passando uma temporada no campo, a três horas de distância de Londres. Caroline resolveu ficar na casa da cidade e enviou uma mensagem a seu pai anunciando sua chegada, mas Charity, impaciente por natureza, insistiu que alugassem uma carruagem e fossem para a casa de campo. — Afinal chegamos! — gritou Charity, ao pararem diante do sobrado. A voz dela irradiava entusiasmo, e ela não parecia nem um pouco cansada. Isso irritou Caroline quase tanto quanto a tagarelice chata dela. Charity estava debruçada à janela da carruagem, semicerrando os olhos para ver a casa, e Caroline foi obrigada a puxar-lhe o braço para poder abrir a porta. —Eu sabia que a casa era linda — exclamou Charity. — Teu pai é conde, afinal. Ai, Caroline, estás muito nervosa? —Claro que não. Meu pai não está — comentou ela, ao examinar o sobrado de fachada de tijolos elegante diante de si. Foi obrigada a admitir que parecia mesmo bem impressionante. As várias
  • janelas retangulares ficavam todas na fachada, e todas tinham contornos cor de marfim, contrastando de forma agradável com os tijolos vermelhos.
 Cortinas também cor de marfim encontravam-se penduradas do outro lado das vidraças, nos cantos das janelas, dando à casa uma aparência nobre e elegante. Era preciso subir três degraus para alcançar a porta da frente, que também era cor de marfim. A aldraba preta enfeitada com detalhes dourados ficava no meio da porta, mas quando Caroline ergueu a mão para pegá-la, a porta se abriu. O homem que Caroline presumiu ser o mordomo era tão impres- sionante quanto a casa que guardava. Vestido de cima abaixo de preto, sem nem mesmo uma gravata branca para amenizar o efeito, ele conservou uma expressão totalmente isenta de emoções até Caroline identificar-se como filha do conde de Braxton. Sua expressão mudou nesse momento, e seu rosto, voltado para cima, sorriu para .ela, pois o homem era apenas cerca de dois centímetros e meio mais alto do que a pequena Charity, e, embora Caroline considerasse o seu sorriso no máximo débil, ele lhe pareceu sincero. Ele recebeu os três dentro da casa, apresentou-se como Deighton. e explicou com ar de importância que era "o homem" do conde. Disse-lhe que tinha acabado de chegar a fim de supervisionar os criados na reabertura da casa para a temporada de bailes que se aproximava. O conde chegaria à noitinha. Se eles tivessem prosseguido na direção da casa de campo, teriam se desencontrado, percebeu Caroline. A casa estava que era uma azáfama só, de tanta atividade. Caroline sentiu-se um estorvo enquanto os criados corriam de um quarto para outro com panos de pó e baldes de água nas mãos. Ela gostou do comportamento sensato de Deighton. Ele provou ser
  • extremamente eficiente e mandou duas criadas abrirem as malas e tirarem tudo de seu interior em minutos. A casa contava com um amplo estúdio e cinco quartos no andar de cima, e Caroline e Charity receberam quartos adjacentes. Depois de Caroline ter passeado pelos quartos no segundo andar, acompanhou Benjamin até o terceiro andar, para ver se o seu quarto era satisfatório. Ela o deixou desfazendo as malas e retornou ao segundo andar para ajudar Charity a localizar seu par de óculos reserva. Caroline deixou Charity supervisionar as criadas que desfaziam suas malas. Sentia-se inquieta e incomodada, e sabia a causa. O pai ia chegar antes do cair da noite, e ela estava preocupada com a reação dele. Será que demonstraria a ela em pessoa o mesmo afeto que demonstrava nas cartas? Será que ficaria satisfeito ou decepcionado com sua aparência? Gostaria dela? E tão importante quanto isso, será que ela gostaria dele? Ela parou um momento diante da porta da impressionante biblioteca no alto das escadas e deu uma espiada no aposento. A sala reluzia de cima até embaixo, impecável. Não era uma sala que inspirasse conforto. Será que seu pai era tão impassível quanto sua biblioteca? Caroline ficou mais preocupada com o jeito de ser do pai ao passear por cada um dos cómodos do andar principal. Tudo estava tão arrumado! Arrumado e tão terrivelmente frio! O salão de recepção formal ficava à esquerda do corredor de entrada, revestido de azulejos, e era elegantíssimo. Todo decorado em ouro e marfim, com toques de amarelo-claro, era belíssimo, mas não parecia convidativo. Caroline tentou imaginar seus primos se colocando à vontade naquele aposento e depois constatou que isso era inútil. A mobília excessivamente estofada não parecia capaz de sustentar homens de grande estatura e modos desajeitados, vestidos com roupas de trabalho e botas das quais nunca se lembravam de raspar a terra. Não, Caimen, Justin, Luke e George se sentiriam tão deslocados ali quanto ela.
  • À direita do vestíbulo havia uma grande sala de jantar. A maciça mesa de mogno e doze cadeiras para complementar o conjunto eram o ponto central, mas os cálices de cristal fino e bordas douradas, no centro do bufe, contra a parede oposta, chamavam igualmente a atenção. Não havia nada de confortável naquela sala também. Ela irradiava abastança e luxo. Caroline seguiu o corredor comprido e encontrou nova biblioteca logo atrás da sala de recepção. Ficou profundamente aliviada quando abriu a porta e viu a bagunça. Aquela sala era obviamente o lugar onde o seu pai ficava. Ela hesitou à entrada, preocupada por estar invadindo um recanto secreto, mas por fim entrou. A linda escrivaninha chamou-lhe a atenção, assim como as duas poltronas de couro gasto, e os volumes de livros que revestiam as prateleiras de duas paredes. As janelas que davam para um jardim lateral isolado cobriam a terceira parede, e quando Caroline se cansou de olhar a linda vista que as janelas lhe proporcionaram, virou-se para a última parede. Surpresa, ficou totalmente imóvel enquanto examinava a bizarra disposição de elementos que tinha diante de si. Desde cima até embaixo, a parede estava coberta de desenhos, todos feitos por ela! Eles iam de primitivos rabiscos semelhantes a animais que tinha feito quando era muito pequena, até figuras mais avançadas de casas e árvores. No meio de todas aquelas suas obras, estava um desenho que Caroline lembrava de ter feito. Ela riu quando o olhou mais de perto, e sacudiu a cabeça. O desenho tinha sido sua primeira tentativa de fazer um retrato de família. Todos estavam ali, seus pais de Boston, Charity, seus primos, e até seu pai, embora ela o tivesse desenhado afastado do resto do grupo. A aparência de seus temas era bastante ridícula. Caroline tinha usado círculos imensos para fazer as barrigas de todos, e se concentrado nos dentes, como o principal foco de atração. Rostos minúsculos, todos sorrindo, com dentes imensos saindo deles! Ela devia ter por volta de seis anos
  • quando desenhou essa família e lembrou-se de que tinha sentido muito orgulho do seu desenho. O fato de seu pai ter guardado todos os seus desenhos deixou Ca- roline espantada e aliviada. A mãe de Charity devia tê-los enviado para ele, sem lhe contar nada. Caroline encostou-se na beirada da escrivaninha e examinou com atenção aqueles desenhos todos, durante muito tempo. Notou que os primeiros desenhos incluíam seu pai, mas à medida que ela progredia em idade e estilo, ele deixou de aparecer nos desenhos. Mesmo assim, ele tinha guardado todos. Percebendo isso, ela o viu menos como o conde e mais como pai. Era assim que ele tinha tomado conhecimento da sua infância, a jovem entendeu subitamente, e esse pensamento entristeceu-a. Caroline, uma pessoa de uma lealdade a toda prova, viu-se com- pletamente confusa. Aquela exibição dos seus desenhos indicava que ele gostava mesmo dela. Por que não tinha mandado buscá-la nas Colónias para morar com ele? Certamente percebia que, com o tempo, ela iria começar a chamar seu tio e sua tia de papai e mamãe. Ela só tinha quatro anos quando se tornou "filhinha" deles. Era perfeitamente natural que os irmãos de Charity se tornassem seus irmãos. Ele devia saber que suas primeiras memórias iriam desaparecer, substituídas pelo seu novo ambiente e sua nova família. A culpa invadiu-lhe os pensamentos. Ele tinha feito um sacrifício por ela. Mamãe tinha lhe contado isso inúmeras vezes! Tinha explicado que o conde queria que sua filha fosse criada com uma família estável e sentia que ela iria ficar mais feliz, sentir-se mais amada, com seu irmão mais novo e sua família. Por que ele não pensou que talvez seu amor fosse suficiente? Meu Deus, ela não tinha lhe dado nada como filha. Lembrava-se de reclamar quando era obrigada a escrever umas palavras educadas para
  • enviar a ele! Ela fora egoísta e, por mais que doesse reconhecer isso agora, desleal! Tinha tramado e planejado ficar em Boston, chamado de pai a uma outra pessoa e, o pior de tudo, tinha se esquecido de amar seu verdadeiro pai. Desejou jamais ter visto aqueles desenhos. Seus olhos ficaram cheios de lágrimas e ela saiu correndo da sala. Desejou voltar a Boston e sentiu vergonha de si mesma por desejar isso. Aquilo a fez sentir-se culpada e indigna. Uma covarde. Será que ela seria capaz de dedicar ao pai pelo menos uma parte do amor e lealdade que tão livremente dedicara à sua família de Boston? Caroline subiu até seu quarto e deitou-se na cama com dossel, de- cidida a analisar suas emoções. A parte lógica da sua mente insistia em que ela era apenas um bebezinho quando mudou de família e, portanto, o amor e a lealdade não eram importantes. Mas seu coração continuou a doer. Como teria sido mais fácil se o conde fosse frio e destituído de amor!Ela tinha desempenhado o papel de heroína trágica durante todo o caminho de Boston até Londres, e agora admitia que, afinal de contas, era só um papel. A realidade era bem diferente. Como iria prosseguir? Não conseguia encontrar uma resposta, e finalmente deixou o cansaço vencê-la, caindo em um sono profundo e sem sonhos. Caroline dormiu até a manhã seguinte, e só a interromperam uma vez. A certa hora da noite, ela acordou ao ouvir a porta ranger. Instan- taneamente, ficou alerta, mas fingiu dormir, enquanto observava um homem mais velho hesitar à porta e depois vir devagar até a cama. Ela fechou os olhos, mas não antes de ver as lágrimas que escorriam pelo rosto do homem. Ele parecia uma versão mais velha do seu irmão, e então ela viu que aquele ao lado da cama era seu pai.
  • Caroline sentiu a colcha ser levantada e metida sob seus ombros firmemente, e aquele gesto comoveu-a até o fundo do seu ser. E aí sentiu a mão dele, trémula, roçar na sua têmpora, bem de leve, e o ouviu murmurar baixinho, com amor, "Bem-vinda ao lar, minha filha". Ele inclinou-se e beijou-a na testa, e aquele toque suave trouxe alegria ao seu coração. Depois, endireitou o tronco devagar e voltou para a porta. O aroma de tabaco e especiarias perfumou o ar depois que ele se foi, e os olhos de Caroline abriram-se de repente, arregalando-se. Ela reconhecia aquele cheiro, lembrava-se dele. Tentou recordar-se das imagens que o acompanhavam, das sensações, mas como os vaga-lumes que tentava capturar quando era pequena, tudo lhe pareceu fugidio. A memória parecia estar bem ao seu alcance, porém ela não conseguia alcançá-la. A fragrância bastava no momento, pois com ela vinha uma sensação de contentamento e amor que a cercava como a bruma matinal, abraçando-a e enchendo-a de paz. Ela aguardou até a mão do pai pousar na maçaneta da porta e ele estar a ponto de fechá-la atrás de si. E não conseguiu mais conter as palavras, que saíram sem que ela sentisse: — Boa noite, papai. Era como se estivesse repetindo um ritual noturno muito antigo, e, embora não tivesse lembrança alguma dele, instintivamente viu que ainda não tinha terminado de dizer tudo. Procurou expressar os seus sentimentos com palavras, e, sem se dar conta, falou: — Eu te amo, paizinho. O ritual estava encerrado. Caroline fechou os olhos e deixou as lembranças, como os vaga-lumes do passado, afastarem-se saltitantes. Finalmente, tinha regressado ao seu lar. ! CAPÍTULO 3
  • O duque de Bradford não conseguia tirar aquela belíssima mulher de olhos azuis da cabeça. A inocência dela o tentava, seu sorriso deslumbrava-o, mas, antes de qualquer coisa, seu raciocínio desenvolto agradava-o totalmente. O duque tinha inclinação para o ceticismo e, portanto, não se deixava impressionar por qualquer mulher. No entanto, toda vez que pensava em como ela o havia desafiado sem o menor cons- trangimento, ameaçando dar um tiro em seu cavalo, pegava-se sorrindo. Aquela mulher tinha coragem, e Bradford admirava-a por isso. Lá pelo fim do dia do acidente, Bradford já havia transportado Brummell para casa e, após providenciar para que lhe fosse dado todo tipo de conforto, deixou-o aos cuidados efusivos de sua fiel criadagem. Depois foi para sua própria residência, em Londres, e tratou de dedicar-se à tarefa de descobrir qual seria a família de Caroline. A única pista que tinha para descobrir sua identidade era que ela estava voltando a Londres para visitar seu pai. Pelo modo como a jovem havia falado sobre as reuniões sociais da elite, presumiu que seu pai deveria pertencer à nata da sociedade. Talvez também fosse um nobre. A priminha dela havia mencionado que o grupo se dirigia a um sobrado em Londres, onde iriam esperar o pai de Caroline. Bradford concluiu que o homem possuía uma casa de campo e ainda estava descansando em sua propriedade até começar a temporada de eventos sociais. Tinha absoluta certeza de que teria suas respostas ao anoitecer. Mas no fim do quarto dia, já estava totalmente desesperado. Nem mesmo uma única pista havia surgido, e a frustração que ele estava sentindo era diferente de tudo o que já havia experimentado antes. Ficou mal-humorado, e os sorrisos que os criados ficaram abso- lutamente surpresos de ver quando o duque voltou para casa desapareceram por completo. Agora a criadagem, aos cochichos, comentava que devia ter se enganado redondamente. O seu patrão tinha voltado a ser distante e rude. A
  • cozinheira dizia a todos que estavam ao alcance da sua voz que estava aliviada, pois não gostava de ninguém nem de nada que tosse imprevisível. Mas o "braço direito" de Bradford, Henderson, sabia que alguma coisa bastante importante tinha acontecido a seu patrão, e ficou preocupado. Henderson sentiu-se ao mesmo tempo animado e aliviado quando o melhor amigo do duque, William Franklin Summers, conde de Milfordhurst, chegou para uma visita inesperada. Henderson escoltou o conde escadaria acima, até a biblioteca, com o maior prazer. Talvez, refletiu Henderson, enquanto andava ao seu lado, o conde pudesse inspirar seu patrão a voltar a ser acessível. Henderson tinha sido criado pelo pai de Bradford durante dez excelentes anos, e quando uma tragédia se abateu sobre a família, causando a morte do pai e do primogénito, Henderson passou a dedicar-se totalmente ao novo duque de Bradford. Apenas Henderson e o melhor amigo do duque, Milford, lembravam-se de como ele era antes de ser obrigado a herdar o título. Lançando um olhar de relance a Milford, Henderson lembrou-se de que os dois amigos costumavam ser bem parecidos. Houve tempo em que Bradford era um folgazão do mesmo calibre que seu amigo moreno, e, exatamente como ele, gostava de iludir as senhoras da elite. No entanto, durante os cinco anos durante os quais havia sido seu criado, Henderson desistira de esperar que o duque voltasse a ser a pessoa descontraída e despreocupada que era antes. Aconteceram coisas demais. Traições demais. —O Brad está te preocupando, Henderson: Estás subindo as escadas de cara amarrada — indagou o conde, com aquele seu sorriso rasgado de costume, mostrando bem o maroto que Henderson sabia que ele era. —Aconteceu alguma coisa para o duque ficar assim contrariado — respondeu Henderson. — Eu, é claro, não ouço confidências do
  • meu senhor, mas creio que vós notareis uma ligeira mudança no seu modo de ser. Henderson não quis tecer maiores comentários, mas suas palavras fizeram Milford franzir o cenho, pensativo. Assim que Milford pôde dar uma boa olhada no seu amigo, deduziu que Henderson era o rei dos panos quentes. "Ligeira" seria a última palavra que ele usaria para descrever a mudança de disposição do duque, pois ele parecia ter voltado de uma viagem de carruagem daquelas bem longas, só que como se tivesse feito a viagem arrastado debaixo do veículo, em vez de em seu interior. Bradford estava sentado de ombros caídos atrás da sua monstruosa escrivaninha, a cara amarrada, enquanto escrevia um nome em um dos vários envelopes amontoados sobre o tampo da mesa. A escrivaninha de mogno estava uma verdadeira bagunça, mas Bra- dford também estava desarvorado, segundo Milford concluiu. Seu amigo precisava desesperadamente barbear-se e colocar um plastrão limpo. — Milford! Um minuto, por favor, já estou acabando — disse
 Bradford ao amigo. — Serve-te de uma bebida. Milford recusou a bebida e sentou-se em uma poltrona confortável diante da escrivaninha. —Brad, estás escrevendo para todo o povo da Inglaterra? — in- dagou, ao colocar os calcanhares das botas polidas sobre o tampo da mesa, demonstrando total falta de educação. —Quase todo — resmungou Bradford, sem tirar os olhos da correspondência. —Parece que faz dias que não dormes — comentou Milford. Continuava sorrindo rasgadamente, mas os olhos traíam sua preocupação. Bradford não parecia estar nada bem, e quanto mais Milford examinava o amigo, mais ficava preocupado.
  • —Não tenho pregado o olho — finalmente respondeu Bradford. Deixou a caneta de lado e recostou-se no estofado macio de sua poltrona íergère. Suas botas também se apoiaram junto às do amigo, sobre o tampo da escrivaninha, e ele soltou um longo suspiro. Então, sem hesitar mais, ele contou ao amigo como tinha conhe- cido a linda mulher chamada Caroline, só omitindo a parte em que Brummell aparecia, pois ele também havia prometido não contar nada a ninguém sobre o incidente humilhante pelo qual o amigo havia passado ao ser atacado pelos assaltantes. Viu-se elogiando a beleza da moça, falando durante muito tempo para descrever adequadamente a cor dos olhos dela, mas por fim conseguiu controlar-se e passou a narrar apres-oaJamcjitc u Ciai da história, declarando revoltado que todas as suas investigações tinham dado em nada. — Estás procurando nos lugares errados — concluiu Milford, com uma voz cheia de empáfia, assim que conseguiu parar de rir da narrativa de Bradford sobre o assalto. — Ela acha mesmo que as Colónias são mais sofisticadas que nossa Londres? Bradford fez ouvidos de mercador para a pergunta e passou a frisar sua afirmativa anterior. —O que queres dizer, insinuando que estou procurando nos lu- gares errados? Ela veio visitar o pai. Vou seguir essa pista! — disse Bradford com rispidez. —A maior parte da elite não deve ter ainda regressado para a temporada de festas — explicou Milford, pacientemente. — E deve ser unicamente por isso que não recebeste ainda nenhuma resposta. Procure controlar-se, mancebo! Ela vai comparecer à festança dos Ashford. Eu te garanto isso. Todos comparecem. —Mas ela não é de frequentar bailes — Bradford cochichou, ao
  • repetir as declarações de Caroline acerca das atividades da elite, e sem se dar conta começou a sacudir a cabeça. — Ela disse exatamente isso. —Mas que coisa mais estranha — disse Milford, esforçando-se para não rir. Fazia tempo que não via o amigo perplexo daquele jeito. O alívio que sentiu ao constatar que não havia nada de grave deu-lhe disposição para fazer troça. Também lhe deu vontade de gozar com a
 cara do amigo, exatamente como costumava fazer antigamente, quando os dois faziam a ronda por Londres. —Não é tão estranho assim — retrucou Bradford dando de ombros. — Tu não compareces a nenhum evento. —Estás interpretando mal o que eu disse. Quis dizer que estás te comportando de uma maneira estranhíssima — respondeu Milford. dando uma risadinha. — Acho que nunca te vi assim tão transtornado. E preciso aproveitar a oportunidade! E a causa é uma senhora que vem
 nada mais, nada menos, que das Colónias. — Milford teria continuado, mas não conseguiu mais conter o riso e, apesar da cara de desaprovação do amigo, soltou várias gargalhadas escandalosas. ! —Estás te divertindo, não estás? — ralhou Bradford quando Milford conseguiu controlar-se o bastante para ouvi-lo. —Não posso negar — admitiu Milford, com toda a sinceridade. — Estou me lembrando de uma promessa ardente que fizeste há uns dois anos — prosseguiu. — Mais ou menos que todas as mulheres só serviam para uma coisa, e que dar a uma delas teu coração seria o

  • cúmulo da burrice. — Quem disse que alguém vai dar alguma coisa a alguém? — urrou Bradford. — Estou só curioso, só isso — insistiu ele, mais calmo.— Não me irrites, Milford. Senão vais te dar mal. — Acalma-te, rapaz — respondeu Milford. — Só o que quero é ajudar-te. — E obrigou-se a ficar sério, dizendo: — Deverias consultar os costureiros. Se ela é das Colónias, deve estar precisando urgentemente atualizar o guarda-roupa. A família não vai querer passar vergonha por
 causa das vestimentas antiquadas dela, portanto irá encomendar novos vestidos. —Tua lógica me espanta — respondeu Bradford. Um brilho de esperança surgiu nos olhos dele, e o duque até sorriu. — Por que não pensei nisso? —Porque não tens três irmãs mais novas que tu, como eu —- res- pondeu Milford. —Eu tinha me esquecido das tuas irmãs — confessou Bradford.— Nunca as vejo por aí. — Elas se escondem de ti — revelou Milford, prendendo o riso. — Tu as deixas apavoradas. — E aí encolheu os ombros, dizendo: —Mas eu te garanto que a moda é o assunto principal da maioria das mulheres, inclusive minhas irmãs. — Seu tom de voz tornou-se sério quando ele perguntou: — E apenas uma paixonite o que sentes por essa moça, ou é algo mais? Nos últimos cinco anos só te vi ao lado de cortesãs pela cidade. Não estás acostumado a senhoras bem-educadas, Brad. Essa reviravolta vai ser das mais impressionantes. Bradford não respondeu na hora. Não parecia ter nenhuma resposta definida na cabeça, apenas sentimentos a expressar. — Creio que é apenas uma insanidade passageira — finalmente respondeu. — Mas assim que tornar a vê-la, terei certeza. O
  • que pretendo é tirá-la da cabeça de uma vez por todas — terminou Bradford, dando de ombros. Milford concordou. Não acreditou em uma palavra do que o amigo havia dito, mas Bradford tinha se expressado com tanta seriedade que Milford não ousou contradizê-lo. Deixou o amigo escrevendo suas missivas. Desceu as escadas com passos leves, tão aliviado que chegou ; dar um tapa bem forte no ombro de Henderson para demonstrar afeiçãc antes de sair. O conde de Milfordhurst de repente sentiu uma vontade louca de conhecer aquela misteriosa feiticeira das Colónias, a mulher diferente que tinha conseguido o que nenhuma outra havia sido capaz de fazer nos últimos cinco anos. Embora não soubesse disso, a senhorinha chamada Caroline estava trazendo o duque de Bradford de volta ao mundo dos vivos. Milford sentiu que já gostava dela. A manhã chegou, e com o sol vieram novos pensamentos, novos planos. Caroline Richmond, sempre madrugadora, não importava a hora em que se recolhia, recebeu o sol espreguiçando-se devagar de contentamento. Colocou depressa um vestido cor de violeta e prendeu os cabelos desgrenhados em um rabo-de-cavalo, com uma fita branca de renda. Charity ainda estava dormindo, e Benjamm, pelo ruído abafado que vinha do andar de cima, parecia estar acordando naquele instante. Caroline desceu, pretendendo esperar o pai na sala de jantar. Encontrou-o já sentado à cabeceira da comprida mesa envernizada. Tinha uma
  • xícara de chá em uma das mãos e um jornal na outra. Não a viu de pé à porta, e Caroline nada fez para lhe chamar a atenção. Em vez disso esperou, enquanto o olhava com atenção, e ele parecia assimilar todas as notícias do jornal. O rosto dele era corado e cheio, mas as maçãs do rosto eram sa- lientes, como as dela. Ele era uma versão mais velha e arredondada do homem que a criara. Sim, ele se parecia um pouco com o seu irmão caçula, Henry, e ela de repente percebeu que podia se considerar uma mulher de sorte. Mentalmente, era filha de dois pais. O tio Henrv a criara e ela o amava. Não lhe pareceu deslealdade dividir esse amor com o homem que tinha lhe dado a vida. Seu verdadeiro pai. Ele era seu pai de verdade, tornou a admitir, e era seu dever amá-lo também. O conde finalmente percebeu que alguém o estava observando e desviou os olhos do jornal por um instante. Estava para tomar um goli-nho do chá, mas ficou paralisado no meio desse gesto. Seus olhos esverdeados demonstraram sua surpresa. Cintilaram ligeiramente, e Caroline sorriu, na esperança de que sua expressão fisionómica demonstrasse o afeto que estava sentindo e nem um pouco da sensação de incómodo que tentava combater. — Bom dia, meu pai. Dormiste bem? A voz dela tremia. Estava horrivelmente nervosa, agora que se en- contrava diante do seu pai. A xícara dele caiu, produzindo um barulho alto ao bater contra o tampo da mesa. O chá derramou-se, molhando tudo ao seu redor, mas ele não pareceu notar o barulho, nem a sujeira. Tentou ficar de pé, depois mudou de ideia e voltou a sentar-se pesadamente. Seus olhos encheram-se de lágrimas, que ele enxugou com a ponta de um guardanapo de linho branco. Estava tão nervoso e inseguro de si quanto ela. Percebendo isso,
  • Caroline sentiu alívio. O pai agia como se estivesse meio atordoado, e a jovem deduziu que ele simplesmente não sabia como proceder. Ela, vendo o papel que ele antes segurava flutuar lentamente até o chão, resolveu tomar a iniciativa. Continuou sorrindo, embora estivesse começando a ficar preocupada com a reação dele à sua presença, e entrou na sala. Só parou quando já estava perto do pai, e depressa, antes de poder pensar melhor no assunto, beijou-lhe o rosto vermelho como um pimentão. O contato dos lábios dela tirou-o do transe, e ele de repente come- çou a movimentar-se como um furacão. Derrubou a cadeira onde estava Sentado ao levantar-se e agarrou Caroline pelos ombros, puxando-a para perto de si, para abraçá-la —Não estás decepcionado; — sussurrou Caroline, contra o peito do pai. — Sou parecida com a pessoa em que esperavas que eu tivesse me transformado? —Jamais poderias decepcionar-me. Como podes pensar tal coisa? Fiquei momentaneamente deslumbrado contigo — explicou, dando-lhe outro abraço. — Es a réplica perfeita da tua querida mãe, que Deus a tenha. Não há como eu sentir mais orgulho de ti do que estou sentindo
 agora, —É mesmo, eu te faço recordar dela, meu pai? — indagou Caroline, quando ele finalmente a soltou. — Sim, fazes. Deixa-me olhar-te outra vez. A ordem pareceu um rosnado afetuoso. Caroline aquiesceu, recu- ando alguns passos e girando para que ele a inspecionasse. — És muito bela, sem dúvida alguma — elogiou-a o pai. — Senta- te — alertou, franzindo o cenho depressa. — Não vás exagerar e ficar doente. Não admito que te canses demasiado.
  • A culpa, mais do que a ordem dele, a fez sentar-se na cadeira que ele puxou para ela. — Meu pai. tenho algo a dizer-te. É difícil para mim dizê-lo, mas é a única forma, depois que vi aqueles desenhos que fiz na infância, e portanto... — Deixou os ombros caírem diante do olhar de expectativa dele e suspirou em vez de terminar a frase. — Estás querendo me dizer que és tão sadia quanto um cavalo? — perguntou o pai, com um brilho travesso no olhar. A cabeça de Caroline levantou-se na mesma hora e ela percebeu que devia estar com cara de espantada, — Estou! — admitiu ela. — Nunca estive doente, nem um dia na vida. Sinto muito, meu pai. O pai soltou uma risada sincera. —Desculpar-te por não teres estado doente ou por teres tentado me enganar em conluio com tua tia Mary? —Sinto tanta vergonha... — admitiu abertamente, mas não se sentiu melhor por isso. — E que eu era tão... —Feliz? — indagou o pai, com um meneio da cabeça. Levantando sua própria cadeira, tornou a sentar-se. —Sim, feliz. Morei com teu irmão e a família dele durante muito tempo, como sabes. Devo dizer-te que considerava minha tia Marv como minha mãe, e a chamava de mamãe. Meus primos se tornaram meus irmãos, e Charity sempre foi como uma irmã para mim. Mas
 nunca te esqueci, meu pai — apressou-se ela em dizer. — Coloquei-te em posição indevida, mentalmente, mas sempre soube que és meu verdadeiro pai. Só que não achava que um dia irias querer que eu voltasse. Pensei que estavas perfeitamente satisfeito vivendo como antes.
  • —Caroline, eu te entendo — anunciou o pai. Acariciou-lhe a mão e disse-lhe: — Esperei muito tempo para exigir tua volta. Mas tive meus motivos. Não vou te dar explicações ainda. Estás em casa agora, e só isso é importante para mim. — Achas que vamos nos dar bem um com o outro?
 A pergunta de Caroline deixou o pai surpreso. —Creio que sim — disse ele, depois. — Deves contar-me todas as notícias de meu irmão e sua família. Sei que Charity também está aqui. Conta-me, ela realmente é a bolinha que todas as cartas de Mary deixaram entrever? — Sua voz transbordava afeto, e Caroline sorriu ao sentir isso. Isso, e a descrição perfeita da sua prima. —Se estás perguntando se ela ainda é gorda, a resposta é não. Agora, em vez de comer, ela só fala — acrescentou, com um sorriso rasgado. — Ela está bem magrinha e muito atraente. Acho que vai causar sensação, meu pai. E loura e mignon, e ouvimos dizer que são esses os requisitos para que a elite daqui acolha uma mulher. — Infelizmente não tenho me atualizado quanto às últimas modas e requisitos — admitiu o pai. Seu sorriso evaporou-se, substituído pelo cenho franzido de preocupação. — Disseste que precisamos ser francos um com o outro, minha filha. E eu concordo. Também andei contando
 lorotas nas cartas que te enviei. Os olhos de Caroline arregalaram-se. —Contaste, foi? —Sim, mas agora vou contar-te a verdade. Deixei de comparecer a todos os bailes da elite desde que partiste com meu irmão e sua família para Boston. Parece que todos me consideram um eremita.
  • —Verdade? — Quando o pai confirmou, Caroline continuou: — Mas, meu pai, tuas carras continham todas aquelas descrições de eventos, e fofocas! Como é que conseguiste inventar tudo isso assim com tamanha precisão? —Meu amigo Ludman — respondeu-lhe o pai com um sorriso envergonhado. — Ele nunca deixa de comparecer a um só evento, e vem me contando mais ou menos tudo o que acontece. O suficiente para eu poder inventar as histórias que te contei, —E por quê: — indagou Caroline depois de refletir sobre esses comentários — não gostas de festas? —São muitos os motivos, e agora não desejo onerar-te relatando-os — desconversou o pai. — O irmão de tua mãe, o marquês de Aimsmond, e eu não nos falamos faz catorze anos. Como ele comparece a alguns desses bailes, eu não compareço. Esta é uma explicação bem simplificada,
 mas por enquanto vai ter que servir. Caroline estava curiosa demais para deixar o assunto de lado. —Catorze anos? Mas esse foi o tempo em que estive longe daqui. —Isso mesmo — concordou o pai. — O marquês ficou furioso porque partiste e declarou em púbico que não dirigiria mais nenhuma palavra a mim até que voltasses à Inglaterra. — E aí seu pai tossiu e acrescentou: — Ele não entendeu os motivos pelos quais eu te mandei para Boston e eu não lhe dei explicação alguma. —Entendo — comentou Caroline. Ela não entendia nada, é claro, e quanto mais pensava no que o pai estava lhe dizendo, mais confusa ficava. — Só mais uma última pergunta, meu pai, antes de passarmos a falar de outro assunto, por favor...
  • —Sim? — O pai estava sorridente, uma vez mais, e isso tornou a pergunta dela mais difícil de fazer. —Por que é que me mandaste para fora do país? Mamãe, quero dizer, a tia Mary, me explicou que ficaste muito pesaroso quando mi- nha mãe verdadeira morreu e não podias me criar. Disse que só estavas pensando no meu bem-estar, e que eu seria mais feliz com eles. Foi mesmo isso que aconteceu? E se foi — continuou Caroline antes que o pai pudesse formular a resposta —, por que eu fiquei fora tanto tempo? — Ela não externou o pensamento que estava por trás de todas as suas perguntas. Os fatos todos indicavam que o pai não tinha querido ficar com ela. Qual seria a verdade? Teria ela sido usada em alguma espécie de briga entre famílias? Teria sido mandada para longe para punir o marquês de alguma forma? Será que o pai não a amava... o bastante? Caroline franziu o cenho ao pensar em todas as possibilidades e suas ramificações. A explicação simplificada de sua tia era apenas isso. Simplificada. Não servia mais, agora que Caroline era adulta e não a criancinha ingénua do passado. Mesmo assim, aqueles desenhos con- tradiziam todas as explicações fáceis. Por que ele tinha guardado tudo aquilo? — Precisas ser paciente comigo, Caroline — declarou o pai. A voz dele saiu incisiva, encerrando a conversa. — Fiz o que considerei melhor na época, e te prometo que um dia te explicarei tudo satisfatoriamente. — Então pigarreou e mudou de assunto. — Deves estar esfomeada a ponto de devorar um urso! Marie! — berrou, virando a cabeça para trás, enquanto tentava enxugar o chá derramado com seu guardanapo. — Traz comida e mais chá, por favor. —Não estou com fome nenhuma — disse Caroline. — Essa emoção toda me tirou o apetite — admitiu. —Para mim não faz diferença — replicou o pai. — A Marie é
  • minha nova cozinheira, e a comida dela deixa muito a desejar. Já é a terceira que contrato este ano. Administração doméstica por aqui é um problema sem solução. Caroline sorriu, pensando em todas as incontáveis perguntas que estava louca para fazer. Mas não deu para fazer mais do que concordar ou discordar balançando ou sacudindo a cabeça, pois o pai monopolizou a conversa durante todo o desjejum. Quando terminaram, Caroline mal havia tocado nos pratos. A refeição estava mesmo inferior à comida com a qual ela estava acostumada. Os pães estavam tão duros que quem os comesse corria o risco de quebrar um dente, e o peixe estava queimado. A geléia, cuja camada de poeira sobre o pote deixava ver que era velha, estava líquida e azeda. Ela resolveu, ao seguir o pai até a biblioteca, que perguntaria a Benjamin se ele se importaria de ajudar na cozinha. Ele adorava cozinhar e costumava ajudar a preparar as refeições em Boston. Depois voltou a atenção para o pai. Ele, de pé diante de todos os desemhos dela, solrria radiante, enquanto mostrava a Caroline que tinha anotado a data de recebimento nas costas de todas as folhas. Era sua forma de acompanhar o desenvolvimento dela, explicou. —Parei de desenhar — disse-lhe Caroline, rindo. — Como podes constatar, papai, eu não tinha talento para isso. —Não importa. Henry me contou por carta que eras boa aluna e tinhas jeito para línguas. —E verdade — admitiu Caroline —, mas meu sotaque é horroroso. — E sorriu, acrescentando: — Quando canto, porém, não espanto os ouvintes, e até que sei tocar a espineta direitinho. O pai soltou uma risada também. — Não precisa se preocupar achando que vou pensar que és arrogante e vaidosa, Caroline. Não deves menosprezar teus talentos — ele
  • completou. Sentou-se em uma das cadeiras e fez sinal para Caroline sentar-se na outra. — Conta-me, por que o Henry permitiu que a Charity te acompanhasse? Não é que eu tenha me aborrecido com a presença dela, pelo contrário, mas fiquei surpreso. Caroline respondeu de imediato, contando ao pai sobre a paixão de Charity por Paul Bleachley e o desaparecimento súbito do rapaz. Depois da narrativa, perguntou: —Já ouviste falar nesse homem, meu pai? —Não ouvi, não — respondeu o pai. — Mas não significa nada, considerando-se que passei tanto tempo afastado da sociedade. —Pai, teu mordomo, o Deighton, disse que estavas regressando para a temporada de eventos sociais. Planejavas comparecer às festas este ano? —Não — respondeu o pai. — Sempre volto para Londres nesta época do ano. Não gosto de ficar na casa de campo no inverno; muitas correntes de ar. E o Deighton, teimoso corno uma mula, como são os mordomos, insiste em preparar o sobrado todo ano. E por precaução, caso eu mude de ideia — acrescentou. — Mas sabes que estou satisfeito por ter vindo para cá? Com minha linda filha ao meu lado, uma vez mais assumirei meu lugar na sociedade. E até estou ansioso para isso. — pai dela riu, genuinamente feliz. — Vais causar verdadeiro furor nas rodas sociais, Caroline. —Por causa do marquês? — indagou Caroline. —Não. Porque és formosíssima — respondeu o pai. — O marquês, é claro, vai sentir prazer em receber a filha da irmã de volta a Londres, mas estou é pensando nos mancebos e na reação deles a ti. Vai ser divertido assistir à cena. Tua mãe ficaria orgulhosa. — Como foi que a conheceste, meu pai? Não me recordo dela, e
  • isso me entristece. A tia Mary me disse que era uma senhora de muito bom coração. O olhar do conde de Braxton ficou distante, e ele sorriu ternamente. — E, tinha muito bom coração, sim, era muito carinhosa, Caro- line. — Ele pegou a mão da filha e contou-lhe como tinha conhecido aquela espirituosa mulher de cabelos negros pela qual se apaixonou. —Ela ficou tão contente quando nasceste, Caroline... Eu queria um menino, e nem mesmo queria escolher nome para uma possível menina. Quando nasceste, tua mãe riu até as lágrimas escorrerem- lhe pelo rosto. Ela gostou muito de ter te dado à luz. —E tu, ficaste decepcionado? — perguntou Caroline, sorrindo. Sabia que ele não devia ter ficado decepcionado pelo modo como ele lhe contou a história, mas queria ouvi-lo admitir isso. Sentia-se exatamente como uma menininha ouvindo histórias antes de dormir, ansiosa para
 saber mais sobre seu nascimento e seus primeiros anos de vida. —Gostei tanto de ti quanto tua mãe — admitiu seu pai. Ele lhe apertou a mão e depois procurou o lenço no bolso. Enxugou os olhos e pigarreou. Num tom que soou quase ríspido, disse: — Mas, agora, escuta. Precisamos mandar fazer uns vestidos novos para ti e para Cha-
 rity o mais depressa possível. O baile anual do duque de Ashford será dentro de apenas duas semanas, e é lá que vamos fazer nossa entrada triunfal. Aquele maroto me manda sempre um convite todo ano, sem falta. Vai ficar pasmo quanto eu aceitar. — E aí começou a casquinar ao imaginar a cara de Ashford quando ele entrasse trazendo sua linda filha pelo braço. Caroline, vendo o entusiasmo do pai enquanto ele descrevia as
  • atividades de que participaria, não teria se surpreendido se ele tivesse começado a esfregar as mãos uma na outra. Com os olhos cintilando de expectativa como ele estava, parecia até o primo dela, o Luke. Era como uma criança ansiosa para começar uma aventura. Ela desejou alertá-lo, para que ele não tivesse expectativas infundadas, mas resolveu não jogar água fria na fogueira. Jurou, enquanto o escutava, que se esforçaria ao máximo para não decepcioná-lo. Se Deus quisesse, talvez pudesse sair-se bem. Talvez, antes de se passarem as duas semanas, ela pudesse aprender etiqueta social. Sem dúvida tratava-se de um desafio, e Caroline resolveu esforçar-se ao máximo. Continuou sentada ao lado do pai durante a maior parte da manhã, escutando-o contar histórias do passado. Notou que ele falava mais dos problemas e das questões nacionais cada vez maiores, e raramente de si mesmo. Percebeu como era terrivelmente solitário e sentiu dor no coração. Tudo aquilo tinha sido opção única e exclusiva dele, disse consigo mesma, pois podia ter passado todos esses anos com a filha ao seu lado, mas ela entendeu que não podia culpá-lo por isso. Havia algum outro motivo por trás de suas desculpas para mandá-la para outro continente, ela tinha certeza disso. Com o tempo, depois que a elite a tivesse aceitado, ela saberia a verdade. Caroline entendeu então que precisaria quebrar a tola promessa que tinha feito a seus parentes em Boston. Era uma promessa de criança revoltada e confusa. Agora ela aceitava a verdade. Seu lugar era ao lado de seu pai. Ela nunca mais poderia voltar a Boston. Seu futuro seria ali, na Inglaterra. ! ! ! !
  • ! ! ! ! CAPÍTULO 4 O senso de humor de Caroline salvou-a de um desespero certo. Isso e a contínua empolgaçao de Charity com as atividades que estavam por vir. Sua prima adorou as atenções recebidas e fez amizade bem depressa com madame Newcott, uma costureira com tino para escolher tecidos e valorizar as silhuetas. Charity desfrutou cada segundo do que Caroline suportou sem reclamar, por considerar um calvário. O conde de Braxton não parou em apenas um vestido, mas insistiu para que ambas as moças sob seus cuidados recebessem guarda-roupas completos. Madame Newcott sugeriu tons de rosa e amarelo-claro para Cha- rity e acrescentou rendas aqui e ali para realçar-lhe a baixa estatura. Recusou-se, porém, a acrescentar babados, pois segundo sua opinião iriam abafar e deformar a linda silhueta da jovem. Caroline terminou com vários trajes em tons de azul, lilás e mar- fim, inclusive um vestido marfim-claro com um decote indecoroso, justo demais para seu gosto, mas que lhe realçava os cabelos e a cor da pele. Ela sentia-se uma devassa quando o usava, e disse isso a Charity. — Mamãe te recomendaria que cobrisses o peito com um xale —
  • recomendou Charity, sorridente. — E papai não te deixaria sair de casa. Meu tio vai precisar usar uma bengala para espantar os pretendentes quando o usares em público. — Já recebi tantos beliscões e alfinetadas que devo estar toda roxa — comentou Caroline. Madame Newcott, ajoelhada diante de Caroline e determinada a dar os toques finais àquilo que chamava de criação magnífica, fingiu que não tinha escutado o comentário. — Quando o seu pai vai voltar? — perguntou Charity, mudando de assunto. —Amanhã — respondeu Caroline. - - O marquês mora bem distante de Londres, e meu pai vai passar a noite lá e voltar amanhã. —O marquês é o irmão mais velho de tua mãe ou o caçula? — perguntou Charity. —E o mais velho. Tenho outro tio, chamado Franklin, que é dois anos mais moço que minha mãe seria se estivesse viva. Entendes? —Creio que sim — respondeu Charity, sorrindo. — Por que teu pai não mandou um recado para o marquês, dizendo que havias regressado a Londres? Trabalho demais ter que ir até lá dizer isso, não? —Meu pai queria contar-lhe pessoalmente. Disse que desejava dar- lhe explicações — respondeu Caroline, franzindo o cenho. — Sa- bes, nem mesmo percebi que tinha dois tios até meu pai me dizer isso. Estranho ele mostrar tamanha deferência agora, não é? Charity pensou nisso um instante e depois deu de ombros, sem pensar mais no assunto. - Se ao menos eu tivesse uma silhueta mais ou menos como a tua... — reclamou ao tirar o vestido de passeio rosa com todo o cuidado para não
  • deslocar as agulhas que pregavam os pedaços de fazenda. — E melhor ter de menos que de mais — comentou Caroline. — Tua silhueta é perfeita. — Madame Newcott, Caroline acha que tem pernas longas demais e seios grandes demais para estar na moda, acreditas? — exclamou Caroline. — Eu nunca disse isso — protestou Caroline. — E que sou prá- tica. Pernas compridas são boas para andar a cavalo, mas não consigo encontrar nenhuma utilidade prática para... — e. em vez de terminar a frase, deu uns tapinhas no peito, indicando os seios. Chanty desatou a rir. —Caimen iria nos dar um sopapo se nos ouvisse dizer essas coisas. —E mesmo — respondeu Caroline, que em seguida lançou um olhar de relance ao espelho, dizendo: — Meus cabelos estão totalmente rebeldes. Achas que eu devia cortá-los? —Não! —Está bem — concordou Caroline, de brincadeira. — Em vez disso, vou andar por aí feito uma maluca, com os cabelos todos arrepiados. —Eu poderia apará-lo um tanto, pois estará comprido de novo quando for hora de voltarmos para Boston. Caroline viu que precisava revelar a Charity sua decisão, e seu sor- riso sumiu quando ela balançou a cabeça. — Não sei se regressarei a Boston, Charity. Charity abriu a boca para protestar, mas Caroline, balançando depressa a cabeça, deteve-a. Não seria bom falar disso na frente de ma- dame Newcott, e felizmente Charity entendeu. Mas assim que a costureira se retirou, Charity voltou a tocar no assunto:
  • —Espero que não tomes uma decisão apressada, Caroline. Só estamos aqui faz duas semanas. Espera um pouco mais antes de decidires o que fazer. Meu Deus, nossos irmãos terão ataques de ódio se não voltares para casa. —Prometo não me precipitar — respondeu Caroline. — Mas não posso abandonar meu pai, Charity. Simplesmente não é possível. — E suspirou de tristeza e aceitação, sussurrando: — Já estou em casa. Aqui é meu lugar. Enquanto meu pai viver. —Dizes que não podes abandonar teu pai, mas foi exatamente o que ele fez contigo — redarguiu Charity. Estava corada, e Caroline viu que estava ficando bastante irritada. — Durante catorze anos ele fingiu que não existias! Como podes esquecer-te disso? — Não me esqueci — respondeu Caroline. — Mas houve um motivo para ele fazer isso — explicou. — Um que está por trás de todas as explicações fáceis, e um dia ele vai me contar. —Não discutirei contigo, mana — respondeu Charity. — Dentro de apenas alguns dias, iremos ao nosso primeiro baile juntas. Teu pai está empolgado por nós duas, e não vou jogar água fria no entusiasmo dele. Só me prometas que vais esperar para tomares tua decisão. Só voltarei a tocar no assunto... daqui a duas semanas. Então terás tido tempo de refletir sobre todas as possíveis consequências. Por que, Caroline, se nem mesmo gostas dos ingleses? —Não conheci tantos assim — respondeu Caroline. A conversa subitamente fez Caroline lembrar-se do cavalheiro ferido que ela havia socorrido e da conversa semelhante entre ambos. Então pensou no homem chamado Bradford e na reação que ele causara nela. Viu-se pensando nele mais do que desejaria, mas não parecia ser capaz de bloquear
  • seus pensamentos. Ele fazia Caroline sentir-se ameaçada, não sabia por quê, e quando reconheceu isso, imediatamente deduziu que estava fazendo tempestade em copo d'água. Ele, afinal de contas, era apenas um homem. A noite do primeiro baile das duas moças finalmente chegou. A festança dos Ashford, como seu pai a chamara, abria a temporada de bailes, e todos aqueles que eram importantes estariam presentes. Caroline levou muito tempo vestindo-se para o acontecimento. Seus cabelos insistiam em soltar-se dos grampos e fitas com os quais a criada inutilmente procurava prendê-los, e a jovem terminou escovando-o todo e deixando-o solto, em cascatas sobre os ombros. Seu vestido era cor de gelo violácea, com um decote que mostrava mais do que só um vislumbre dos seus fartos seios. Sapatos combinando com o vestido e luvas de um branco imaculado completavam-lhe o traje, e quando Caroline parou diante do espelho de moldura dourada do seu quarto, considerou-se mais do que aceitável. Mary Margaret, a dama-de-companhia sardenta que Deighton havia contratado para ajudar Caroline, elogiou-a sem parar. — Vossos olhos adquiriram a cor do vosso vestido — murmurou, espantada. — É magia pura, sem dúvida. Ai, se ao menos eu pudesse transformar-me em um ratinho para poder ir contigo ao baile.., Vais causar uma comoção e tanto. Caroline riu. — Se te transformares em um rato, aí sim é que vai haver comoção - provocou ela. — Mas se esperares até eu voltar, prometo contar-te tudo o que acontecer por lá. A criada ficou tão radiante que Caroline não se surpreenderia se ela tivesse caído de joelhos. Aquela adoração deixou-a sem jeito. — Estou muito nervosa, Mary Margaret. Este é meu primeiro lê. — Mas sois a Lady Caroline! — protestou Mary
  • Margaret. — Vossa posição é garantida pelo vosso nascimento! E estais tão bonita! — acrescentou ela, com um suspiro. — Não passo de uma caipira — replicou Caroline. A criada pa- recia pronta a rebater esse comentário, e Caroline mais do que depressa agradeceu ela pela ajuda, e depois foi procurar seu pai e Charity. Os dois estavam esperando por ela ao pé das escadas. Charity eslava linda. Seu penteado consistia em um aglomerado de cachos en- tremeados com uma fita rosa. Seu vestido era da mesma cor da fita, com um decote baixo bonito que mal lhe cobria os ombros. O rosa claro e reluzente realçava-lhe as faces rosadas. Caroline não teve dúvida de que a elite iria receber sua prima de braços abertos. O conde de Braxton assistiu à filha descer as escadas. Tinha um sorriso orgulhoso no rosto e os olhos cheios de lágrimas, sinal de que tinha gostado do que via. Ela esperou até ele tirar um lenço do bolso do colete e enxugar os olhos, e aí perguntou se já estava esperando por ela há muito tempo. __Catorze anos — respondeu ele, sem poder conter-se. Caroline sorriu, com genuína ternura, diante dessa resposta franca. — Estás linda esta noite — declarou ele. — Vou precisar proteger-te dos aventureiros. Quando estavam sentados na carruagem, e a caminho da festa, - hantv perguntou ao tio: — Ficas com alguém a maior parte do tempo? — Como disse? — O pai de Caroline não compreendia as coisas com rapidez. — Chanty deseja saber se tu te sentes atraído por alguma senhora em particular — traduziu Caroline. Ela não havia contado a Chanty que o pai vivia como um eremita.
  • —Ah, sim, é isso? Não, não há ninguém — respondeu ele, — Anos atrás, eu acompanhava Lady Tillman aos bailes. —Talvez ela esteja lá esta noite — comentou Caroline. —O mando dela morreu logo depois de eu ter me casado com tua mãe, Caroline — comentou o conde. — Ela teve uma menina. Pergunto-me como ela estará agora. —Mas, tio, morar sozinho, como moras, deve ter sido muito difícil, deves sentir-te muito solitário. Nem mesmo consigo imaginar isso — Charity comentou, com o cenho franzido. —E porque sempre viveste cercada por irmãos — respondeu ele. —E pela Caroline — completou Charity. — Ela vem sendo a minha irmã desde a infância. Os três ficaram calados enquanto a carruagem parava diante de uma imensa casa toda feita de pedra. Caroline achou-a parecida com um palácio e começou a sentir um frio na boca do estômago. Estava nervosa. — Está quente para um dia de outono — comentou o pai enquanto ajudava as moças a descerem da carruagem. Caminhou entre as duas, segurando o cotovelo de Caroline com a mão esquerda, e o de Charity com a direita. Charity tropeçou em um dos degraus, e Caroline precisou recordar- lhe que devia colocar os óculos. —Só enquanto estou aqui fora — replicou Charity. — Sei que sou irremediavelmente vaidosa, mas fico horrível de óculos! —Besteira — protestou o tio. - Ficas linda de óculos. Dão-te uma aparência de pessoa séria. Charity não acreditou nele. Assim que eles entraram no vestíbulo, profusamente iluminado com centenas de velas. Charity tirou os óculos do nariz e meteu-os na casaca do tio. — Não te disse como estás bonito esta noite, meu tio — comen-
  • tou ela. O pai de Caroline respondeu com outro elogio, mas Caroline mal prestou atenção nele. Estava tentando contrair o queixo para evitar que caísse diante do esplendor aristocrático de tudo o que a cercava. O conde de Braxton imediatamente apresentou a filha e a sobrinha ao anfitrião, que estava de pé à frente de uma longa fila de recepção. O duque de Ashford era idoso, com uma cabeleira branca ligeiramente amarelada. Sua voz era forte e nasalada, como se alguém lhe estivesse apertando o nariz. Caroline considerou-o uma pessoa extremamente presunçosa, mas gostou dele assim mesmo, porque ele abraçou o pai dela afetuosamente. O duque não conseguiu tirar os olhos dela, e até usou o monóculo para examiná-la com mais cuidado. Caroline ficou se perguntando, enquanto tentava fingir que não via aquele olhar indiscreto, se tinham brotado nela mais braços ou pernas, e notou que ele não estava olhando para Charity da mesma forma. Ela sentiu alívio quando o pai lhe pegou o braço e acompanhou-a até os degraus que davam para o salão. Para Charity, tudo estava lindo e embaçado. Ela deixou o entusiasmo da noite apoderar-se dela. Aquela noite ela iria entrar em contato com a elite preponderante. Certamente um deles conhecia Paul Bleach-ley. Aquela noite ela daria o primeiro passo para descobrir tudo sobre seu amor desaparecido. O conde de Braxton, com a filha de um lado e a sobrinha do outro, penduradas nos seus braços, parou à porta do salão. Dali, quatro degraus levavam para a pista de dança, e o trio podia ver todos os convidados. O pai e a filha não se tocavam, embora Charity apertasse muito o braço do tio para não tropeçar ao descer as escadas. Seus olhos cintilavam e o rosto estava afogueado de expectativa. Caroline, por outro lado, parecia totalmente controlada. Orgu- lhosa, comparava-se ao pai em altura e dignidade, olhando para toda aquela
  • gente, que a comia com os olhos, com uma expressão tranquila no rosto. O conde ficou parado onde estava até ter certeza de que todos os olhos estavam voltados para sua bela filha e sua linda sobrinha. Aquele momento, ali naquele lugar, foi, segundo ele, o apogeu da sua existência! O salão ficou em silêncio, e enquanto Charity ficava um pouco nervosa por causa dessa demora excessiva, o tio desfrutava o seu momento de orgulho. A orquestra voltou a tocar, e vários homens de aparência ousada começaram a aproximar-se do grupo. — Aí vêm eles — murmurou o pai de Caroline, com uma
 risadmha. Então a aventura era essa, pensou Caroline, enquanto ouvia apre- sentações vindas de todos os lados. Quanto mais os pretendentes avan- çavam, mais Caroline se retraía. Ela ficou ao lado do pai, com cara séria e radiante, mas morrendo de medo por dentro. Não pôde deixar de admirar a forma pela qual Charity trocava comentários tímidos com os pretendentes ao seu redor. Parecia estar no seu lugar, florescendo como uma flor de primavera em pleno esplendor, e Caroline perguntou-se o que teria acontecido com a sua própria autoconfiança. Sentia-se tímida, desajeitada e completamente fora do seu lugar. A carteia de danças de Charity já estava cheia, e ela foi levada para a pista para participar de uma dança já começada, mas o conde de Braxton rejeitou um pretendente que estava querendo levar sua filha para a pista, declarando que ela primeiro precisava ser apresentada a seus amigos. Então, o olhar de seu pai desviou-se para o outro lado do salão, e Caroline voltou a atenção para aquele lado, para ver quem ele estaria procurando. Um homem idoso destacou-se de um grupo e passou a avançar lentamente até a beira da pista. Seus ombros eram caídos, ele era já bem calvo, e usava uma bengala para se apoiar.
  • —Quem é ele, pai? — indagou Caroline. —O marquês de Aimsmond — respondeu-lhe o pai. — O irmão mais velho da tua mãe. —O homem que foste visitar? — indagou Caroline. —Sim, Caroline. Eu precisava dar-lhe uma explicação — declarou o conde. Sorriu e deu tapinhas afetuosos na mão da filha, acrescentando depois: — Ele não vai rejeitar-te agora. Já tratei de tudo. Caroline ficou intrigada diante daqueles comentários. O que ele havia explicado? E por que seu tio a rejeitaria? Ela sabia que não podia interrogar o pai agora, mas decidiu descobrir do que ele estava falando, quando voltassem para casa. Ela virou-se para olhar o marquês, achando-o muito frágil. — Acho que devíamos ir ao encontro dele, pai — disse Caroline ao pai. Ela não esperou a resposta do pai, mas, muito empertigada, co- meçou a caminhar na direção do homem que não falava com seu pai há catorze anos. O marquês sorria para Caroline, e ela viu que eles não estavam mais brigados. A visita de seu pai na semana anterior obviamente tinha quebrado o gelo. Ela o alcançou no meio do salão. Sem hesitar um segundo, endere- çou-lhe o sorriso mais radiante de que era capaz e beijou-lhe a face. O tio reagiu com um sorriso emocionado. Pegou as duas mãos da sobrinha, mas precisou soltar uma para voltar a equilibrar-se com a bengala. Os dois continuaram a encarar-se, sem nada dizei. Caroline estava sem saber como começar a conversa. O marquês finalmente rompeu o silêncio: —Eu me sentiria honrado se me chamasses de tio — disse ele. Sua
  • voz saiu rouca, quase áspera. Estava cheia de emoção. — Só tenho um irmão mais moço, Frankhn, e sua esposa, Loretta. Desde a morte de tua mãe, eles são meus únicos parentes. —Não — respondeu Caroline, baixinho. — Tens também meu pai e a mim. As palavras dela o agradaram. As suas costas, Caroline ouviu o pai pigarreando. O marquês olhou para o conde de Braxton com a testa inegavel- mente franzida. —Não me disseste que ela era a cara da mãe. Quase caí para trás quando a vi. —Mas eu disse — respondeu o conde. — Ê que estás fraco demais para te lembrares. —Que nada! Meus miolos estão tão aguçados quanto uma navalha nova, Brax! O pai de Caroline sorriu. — Franklin e Loretta vieram ao baile? Faz tempo que não os vejo, e desejo apresentar Caroline a seu outro tio. O marquês amarrou a cara. — Estão aqui, sim, em algum lugar — comentou, dando de ombros. Depois se virou para Caroline e acrescentou: — Ela tem os meus olhos, Brax! Sim, senhor, é a imagem perfeita do meu lado da família. Caroline precisou admitir que seus olhos realmente lembravam o dele e perguntou-se por que o tio estaria provocando seu pai. Seu olhar estava repleto de malícia. — Mas tem meus cabelos, e não podes negar isso, Aimsmond!
 Caroline começou a rir. Os dois estavam brigando por causa dela era inacreditável. — Que bom, assim todos saberão que sou parente dos dois — disse
  • ela. Pegou o braço do tio com uma das mãos e o do pai com a outra sabendo que não poderia menosprezar nenhum dos dois. — Que tal encontrarmos um canto para nos sentarmos e conversar? Embora vós tenhais
 recentemente conversado, ainda devem ter muito a dizer um ao outro. Os três foram andando até um recanto próximo. Charity veio até eles, e a conversa rapidamente passou a versar sobre o baile e os homen- disponíveis que estavam tentando chamar sua atenção. — Posso chamar-vos de tio também? — perguntou Charity ao marquês. — Gostaria, se aceitardes. Somos parentes distantes, de certa forma, não? O marquês gostou dessa franca demonstração de afeto de Charity, e concordou. —Somos parentes, sim, por afinidade, creio eu. Adoraria que me chamasses de tio. Tio Milo, é como Caroline me chamava, quando era pequenimnha. —Sabe, Aimsmond, estou me perguntando, qual é a comoção? — indagou Braxton de repente. Estava de pé ao lado do assento estofado perto da janela onde o marquês estava sentado. Caroline estava de pé do outro lado do tio. O marquês segurava a mão da sobrinha, apertando-
 a como se fosse um torno, sua forma de garantir que ela não sumiria pensou Caroline. O pai dela estava olhando para a entrada do salão, e Caroline virou- se. Seus olhos arregalaram-se quando viu quem estava parado lá, causando tanta comoção entre os convidados. Era o cavalheiro que ela tinha ajudado no dia da tentativa de assalto à carruagem. O sr. Smith! ! Mas claro que ele não era sr. Smith coisa nenhuma, pois esse era apenas o nome que ela tinha inventado para o homem para ele não
  • precisar ficar constrangido. De pé ali, ela o olhava, os cantos da boca querendo formar um sorriso, e achou-o muito parecido com um pavão, exibmdo-se todo, ali de pé, na entrada. Pela forma como os convidados lançavam-lhe olhares discretos, presumiu que ele era um almofadinha bastante conhecido. Suas roupas pretas discretas eram igualzinhas às de todos os outros homens do salão, mas ele estava com outro lenço branco no pescoço, o qual lhe subia até as orelhas. Ela perguntou-se se ele estaria com dificuldade de virar o pescoço sem amarrotar o plastrão. —Então o Brummell chegou, afinal — observou seu tio, satisfeito. — O baile do duque agora recebeu o selo de aprovação. —Brummell? — disse Caroline, sentindo alfinetadas nos braços e pernas. — Dissestes Brummell? — perguntou, sabendo muito bem que ele tinha dito isso mesmo. Mas que confusão, pensou, sem nada comentar, lembrando- se de que tinha falado com o homem a quem chamou de sr. Smith sobre Brummell. Tentou se lembrar dos detalhes da conversa, na esperança de não ter dito nada comprometedor sobre o tal Brummell. Meu Deus do céu, não é que tinha chamado o homem de Plummer? Brummell permaneceu ali parado, sozinho, olhando o salão em torno de si. Estava claramente entediado, mesmo ao balançar a cabeça para cumprimentar alguém do outro lado do salão. Depois começou a descer os degraus e continuou, sem pressa, a caminhar entre as pessoas. Andava com um ar de suprema importância, e, à medida que a multidão ia se afastando, Caroline percebeu que ele era mesmo importante. Também caminhava sem mancar. Seu ferimento devia estar completamente curado, notou Caroline, satisfeita. Ela fitava diretamente as costas de Brummell, curiosa para ver
  • quem ele havia parado para cumprimentar. Foi então que viu o outro. Bradford! Ele estava apoiado com toda a tranquilidade na parede oposta, cercado por três homens. Charity estava na frente, e Caroline precisou inclinar a cabeça para um lado para ver melhor. Os homens que estavam conversando com Bradford pareciam estar loucos para lhe atrair a atenção, mas Bradford fingia que não os via. Estava olhando para ela! O pai estava lhe dizendo alguma coisa, e Charity também estava tentando chamar sua atenção. Tio Milo estava lhe puxando o braço, mas Carohne não deu a mínima para ninguém. Não conseguia tirar os olhos do homem que a estava fitando de forma tão atenta. Era mais atraente do que ela tinha pensado, ao conhecê-lo, e mais alto do que todos os que estavam ao seu redor, pelo menos uns vinte centímetros. Seus cabelos estavam penteados, mas, mesmo assim, pareciam ligeiramente desalinhados, e isso evitava que ele parecesse com-pletamente intocável. Quase o faziam parecer vulnerável. A boca dele, porém, não parecia nada vulnerável, estava contraída. Ela perguntou-se com que frequência ele sorriria. Por que não se lembrava de como ele era alto, de como seus ombros eram largos? De repente, recordou-se de um guerreiro espartano, o rei Leônidas, talvez, e pensou que, em alguma outra ocasião, em alguma outra vida, Bradford poderia muito bem ter pertencido à família desse intrépido guerreiro. O duque de Bradford passou a noite inteira olhando para Caroline Richmond. Desde que ela surgiu, tão nobre e contida, de pé ao lado do conde de Braxton, ele se sentiu enfeitiçado. Ela estava deslumbrante, e sua aparência causou um impacto instantâneo. Ele sabia que não tinha sido o único a sentir-se atraído por ela e ficou muito aborrecido com isso. Ora, todos os mancebos do salão ficaram boquiabertos ao vê-la!
  • Droga! Ele é que tinha direito a ela. Ela ia pertencer a ele. Bradford viu-se sacudindo a cabeça diante dessa necessidade tão intensa de tê-la, de dominá-la. Seu tédio com a sociedade e toda a frivolidade da vida da elite sumiu quando ela passou pela porta do salão. Ele de repente sentiu vontade de viver, coisa que estava certo de ter perdido quando o pai e o irmão morreram. Bradford só havia aceitado o convite para o baile daquela noite com a esperança de que ela aparecesse. Todos na elite iam ao baile anual de Ashford, e Bradford acreditava que o pai de Garoline não seria exceção. O olhar insistente do rapaz aqueceu Caroline de uma forma que ela não entendia completamente. Sentiu as faces quentes e viu que estava envergonhada. Bradford estava fazendo-a sentir-se muito constrangida e extremamente nervosa. Esse efeito intimidador que ele exercia sobre ela não era nada bom, porque Caroline sentia que estava a ponto de explodir em risadinhas histéricas. E como explicaria isso aos que a cercavam?, perguntava-se a si mesma. Passaram-lhe vários pensamentos pela cabeça, como rajadas de vento varrendo uma campina vazia. Ela não conseguia fixar-se em nenhum deles, concentrar-se em nada. Caroline continuou a retribuir o olhar de desejo dele enquanto refletia sobre uma forma tortuosa ou outra de bloquear aquele efeito tão perturbador que ele exercia sobre ela. Será que ele tinha alguma ideia do efeito que produzia sobre ela? Certamente esperava que não! Suas mãos tremiam, seus sentidos pareciam aguçados ao extremo, e seus pensamentos descontrolavam-se, perdendo-se em fragmentos irracionais. Ela ficou cada vez mais nervosa. Pior, começou a preocupar-se, achando que tinha cometido alguma impropriedade muito grave. Isso não a consolava de jeito nenhum, pensou, pois ele provavelmente iria desprezá-la
  • por sentir-se perturbada assim. E se ela se comportasse como uma boba, ele provavelmente iria gostar de saber que sua presença tinha causado essa reação. Caroline concentrou-se, procurando fazer a fisionomia demonstrar isenção de ânimo e tédio. Estava tentando imitar a expressão da maioria das senhoras do salão, e descobriu que, depois de aprender como era, não conseguia conservá-la. Começava a sorrir, e aceitou o fato de que, nunca tendo se entediado de verdade, não conseguiria fingir que estava entediada. Simplesmente não sabia como fazer isso. Bradford viu seu sorriso e retribuiu-o, surpreendendo-se com a facilidade com que demonstrou essa emoção. Raramente deixava que algo lhe transparecesse no rosto, e agora estava agindo como um jovem mancebo em seu primeiro baile. Caroline tentou conservar um pouco da sua dignidade, e fez um movimento, aceitando o sorriso do rapaz. Quando finalmente percebeu que não seria capaz de fazê-lo desviar o olhar, começou a virar-se para o grupo que a cercava. O olhar de Bradford adquiriu uma expressão travessa, e isso a deteve. Ela ficou prestando atenção, encantada, enquanto ele lentamente fechava um olho, lançando-lhe uma piscadela exagerada e provocante. Caroline sacudiu a cabeça, desaprovando aquele galanteio, e tentou fazer cara de irritada, mas estragou tudo com uma risada. Admitindo sua derrota, rapidamente deu as costas ao rapaz, sabendo que ele tinha visto sua reação. Sentmdo-se uma bobmha que precisava de supervisão, Caroline inspirou profundamente e procurou prestar atenção na conversa. O marquês e o conde estavam concentrados em um debate acirrado sobre a quem apresentar Caroline e Charity, e, ainda mais importante do que isso para eles, quem faria as apresentações. Caroline aproveitou para puxar a prima para um canto e cochichar-lhe ao ouvido: —Eles estão aqui, Charity. Lá, naquela parede. Não olhes agora! —
  • avisou. —Quem? — perguntou Charity. Semicerrando os olhos, procurou ver quem estava atrás de Caroline. —Não olhes! Não ias poder vê-los mesmo! Estão longe demais. —Lynnie, controla-te, quem está aqui? — Charity deixou sua irritação transparecer colocando uma das mãos nos quadris. —O homem que ajudamos naquele dia da nossa chegada — explicou Caroline, percebendo que Charity tinha razão. Ela precisava mesmo controlar-se. O que estava havendo com ela? Sentia-se tão espantada quanto uma das suas éguas, e não podia, por mais que se esforçasse,
 entender por quê. — E Bradford também — continuou Caroline. —Estão aqui os dois. —Ah, mas não é uma maravilha? — sorriu Charity, satisfeita. — Precisamos ir até lá cumprimentá-los. —Não é maravilha nenhuma — retorquiu Caroline. — Não acho nada maravilhoso. Charity amarrou a cara. — Caroline, o que é isso? O que é que está havendo contigo? Parece até que estás com medo. — Charity parecia admirada com essa constatação. Em todos os anos que tinha convivido com Caroline, nunca tinha visto a prima com medo. Charity de repente sentiu-se muito superior a sua prima, sempre muito racional. Caroline parecia estar com os nervos à flor da pele, e Charity precisou fazer força para não ficar de queixo caído de espanto. Não houve mais tempo para discutir o assunto, pois alguém levou Charity para a pista para sua segunda dança. O visconde de Claymere apareceu, curvando-se diante de Caroline, todo alvoroçado, e requisitou sua imediata atenção.
  • Caroline foi andando ao seu lado para o meio da pista de dança, notando que a mão dele, que lhe segurava o cotovelo, estava suada. Ela achou que o visconde estava nervoso e tentou acalmá-lo. Deu-lhe um sorriso e depois desejou não ter tomado essa iniciativa. O homem tro-reçou sozinho e Caroline foi obrigada a agarrá-lo pelo cotovelo para que ele não caísse. Daí por diante teve o cuidado de evitar demonstrar qualquer emoção e não olhar diretamente para ele, pois quando se virava e fazia uma reverência, olhando de relance para seu rosto, ele voltava a perder ? equilíbrio. A música começou, e Caroline concentrou-se nos passos intrincados que precisava dar, grata por Caimen ter se dado ao trabalho de ensiná-la a dançar. Sabia que Bradford estava de olho nela, mas jurou ;ue não olharia para o seu lado. Tinha resolvido, enquanto dançava, fingir que não o via. Ele era, lembrou-se pela quinta vez, assustador demais. Parecia mesmo um espartano, pensou de novo, só disciplina e arestas. Então concluiu que não gostava mesmo da civilização espartana, afinal de contas. Bradford aguardou até a dança terminar, e aí avançou. Fez um movimento na direção de Caroline quando Brummell lhe perguntou -uem é que estava olhando assim tão fascinado. Brummell virou-se e, procurando esconder suas emoções com todo o cuidado, também olhou para a jovem. A dança finalmente terminou, e Caroline sentiu vontade de cair de - relhos, tamanho foi seu alívio. O visconde tinha pisado nos seus pés mais de uma vez, e agora eles estavam doendo, em protesto. O pai de Caroline veio reunir-se a ela antes de o visconde poder machucá-la mais, e o desajeitado mancebo curvou-se de novo exagerada- mente antes de se retirar. De repente mudou de ideia, virou-se e agarrou i não de Caroline. Antes que ela pudesse recolhê-la, ele inclinou-se e beijou- lhe o dorso da mão com espalhafato. Caroline lembrou-se de não sorrir, e o visconde, depois de prometer
  • que voltaria, finalmente se afastou. —Não te ofendas, meu pai, mas os ingleses são uns sujeitos bastante nervosinhos — disse Caroline, enquanto olhava o visconde afastar-se, —Como és inglesa, eu não admitirei exceções — respondeu o pai, sorrindo. Depois, de repente, o homem da estrada surgiu diante dela, com Brummell ao seu lado. Caroline não ia poder fingir que não estava vendo os dois, pois eles lhe bloquearam o caminho e a visão. Ela primeiro olhou para o peito de Bradford, e finalmente obrigou-se a olhar para cirna. — Estamos aqui para sermos apresentados — declarou Bradford, em voz grossa. Suas palavras dirigiram-se ao pai dela, mas o olhar dele não se desviava da moça. Caroline notou que ele estava de olhos pregados na sua boca, e nervosamente umedeceu os lábios com a ponta da língua. O conde de Braxton sentiu-se lisonjeado. — Mas naturalmente. Permita-me apresentar-te minha filha, Ca- roline Mary. Caroline, querida, é meu prazer apresentar-te o duque de Bradford e o sr. George Brummell. Bradford virou-se para Brummell e sorriu largamente. —Tu primeiro, dessa vez, imagino? —Naturalmente — respondeu Brummell, voltou a atenção para Caroline e sorriu. O barulho tinha diminuído, e ela teve a impressão de que todos no salão estavam tentando escutar o que eles estavam falando.
 Sentiu-se como se fosse o foco de uma feira agropecuária. —E mesmo um grande prazer conhecer-te — declarou Brummell, com enorme formalidade. Curvou-se, tanto que a ponta dos seus dedos roçou o chão, e em seguida endireitou-se. — Es das Colónias? — indagou, ao pegar a mão da moça e levá-la
  • vagarosamente até seus lábios.
 Ouviram-se gritinhos de empolgação diante desse gesto de afeição, e os olhos de Caroline faiscaram de malícia e gratidão; Ela sentiu o calor do prazer que o pai estava sentindo aquecer-lhe o rosto. Certamente era esse o motivo para o seu rosto estar corado como sentia que estava! —Por favor, pode chamar-me de Beau. Embora já tenham sugerido que me chamem pelo nome de batismo, Jorge, adoro meu apelido. —Teu nome é mesmo Jorge? — indagou Caroline, tentando desesperadamente prender o riso. Mas esse era exatamente o nome que ela havia sugerido quando ele lhe fez sentir que desejava manter sua identidade secreta. Como também era o nome do rei da Inglaterra, ela
 considerou o fato uma coincidência lógica. —Sim, é, e recentemente uma linda senhorita sugeriu que eu vol- tasse a usá-lo. Eu recusei a oferta — acrescentou com um suspiro. Ele estava se divertindo à vera com ela, desafiando-a a não rir de seus comentários. Caroline achou que devia responder à altura. — Pelo jeito, temos um amigo em comum, Beau.
 Brummell pareceu meio desconcertado, e Caroline sorriu. — Sim, o senhor Harold Smith costuma falar muito de vós. Pode ser que não vos recordeis desse conhecido, porém, este prezado cavalheiro vendeu tudo o que tinha e mudou-se para as Colónias, faz muito tempo. Disse que Londres era muito... bárbara. E, creio que foram essas
 as palavras dele. Brummell e Bradford entreolharam-se e depois tornaram a olhar para ela. Ambos desataram a rir, e, antes que terminassem, Brummell precisou enxugar os cantos dos olhos com o lenço. — E como vai o sr. Smith? — indagou Bradford, quando recupe-
  • rou o fôlego. Caroline sorriu para Bradford, depois se virou para Brummell. —Ora, ele está bastante bem, na minha opinião. Estava com um probleminha em uma perna, mas eu tenho certeza, pela forma como se porta agora, de que deve ter sarado completamente. —E que problema era esse que afligia o pobre homem? — inter- rompeu o conde. —Gota — respondeu Caroline no ato. Brummell começou a tossir, e Bradford precisou dar-lhe um tapa nas costas. — Faz anos que não rio tanto assim — admitiu Beau. — Senho- rita, foi um prazer, estou ansioso para encontrar-vos de novo. — Brummell falou mais alto no final da conversa, e Caroline percebeu que era para que os outros ao redor ouvissem. — Não deixes de apresentar-me
 vossa prima antes do final do baile. Caroline concordou e ficou assistindo à retirada de Brummell. Finalmente voltou-se para Bradford e desejou ter coragem de lhe perguntar se ele também não tinha que ir a algum outro lugar. A música começou de novo exatamente quando o pai de Caroline lhe anunciou que ia pegar uma taça de champanhe para o marquês. Bradford solicitou permissão formal do pai de Caroline para dançar com ela. Estava começando uma valsa, e, embora o conde desse sua permissão, Caroline sacudiu a cabeça. Bradford fingiu que não viu a recusa da moça e pegou-lhe a mão. Praticamente arrastou-a até quase a porta do salão que levava para o jardim. Então, virou-se e tomou-a nos braços. Caroline manteve o olhar concentrado na casaca preta dele. — Não sei dançar valsa — murmurou ela. Bradford afastou a mão da cintura dela e usou-a para virar-lhe o
  • rosto para si. —Meus botões não vão responder aos teus comentários — disse ele, com voz de quem acha graça. —Eu disse que não sei dançar valsa — repetiu Caroline. Os dedos de Bradford acariciavam uma área sensível perto do queixo, e ela sentiu um tremor súbito nas pernas. —Põe o braço no meu ombro — murmurou Bradford, de man- sinho. Inclinou-se até que seus rostos quase se tocassem. Caroline sacudiu a cabeça. Bradford voltou a fingir que não tinha percebido e pôs a mão dela no seu ombro. Se ela movesse a mão uns dois centímetros, tocaria os cabelos dele. Ambos começaram a deslocar-se, e ela passou a ser conduzida pelo salão, e a única coisa em que conseguia concentrar-se era na sensação de estar nos braços dele. Eles não disseram uma palavra durante a dança, e Caroline ficou aliviada por isso. Sentiu-se mal e insegura. A mão dele parecia estar ardendo, passando através do seu vestido, marcando-a como um ferrete. Caroline ergueu a mão esquerda e aproveitou a posição: seus dedos subiram devagar até tocarem os cabelos castanhos e sedosos dele, na base do pescoço. Ela surpreendeu-se ao sentir que eram tão macios. Seus dedos recuaram antes que Bradford pudesse perceber esse gesto ousado. Mas ele percebeu. Aquele ligeiro toque na pele sensível da sua nuca deixou-o desnorteado. Ele sentiu unia vontade súbita e incontrolável de apertar Caroline e beijá-la até que ela ficasse dominada pelo desejo, tanto quanto ele estava naquele exato instante. Caroline olhou em torno de si e imediatamente notou que as outras senhoras que estavam dançando não estavam com as mãos tão perto dos cabelos dos seus pares. Imediatamente deslocou a mão, imitando a posição correta, e lançou um olhar contrariado a Bradford. — Estamos dançando muito colados um no outro — avisou Ca-
  • roline. — Não pretendo envergonhar meu pai. Bradford, relutante, soltou-a e deixou-a afastar-se um pouco. Depois deu um sorriso bastante maroto e perguntou: —E esse o único motivo pelo qual não queres ficar perto de mim? —Mas claro — respondeu Caroline. Suas pernas estavam bambas e o coração estava batendo desenfreado, mas ela não iria admitir nenhuma dessas reações. Recusou-se a voltar a olhar para ele, e só então notou que muitas mulheres estavam fitando-o de fora da pista e demonstrando
 um desprazer evidente. —Bradford? Por que essas mulheres todas estão de cara amarrada para nós? — indagou ela, ousando olhar para cima rapidamente. Bradford olhou de relance o salão e voltou-se outra vez para Caroline. — Estás fazendo algo incorreto? — quis saber ela, a voz um tanto desconfiada. Bradford riu. — Infelizmente, estamos sendo bastante corretos — informou-lhe ele. — Algumas das senhoras mais velhas não gostam desta nova dança. A valsa ainda não obteve a aprovação das pessoas mais tradicionais. Caroline balançou a cabeça. —Entendo. — Voltou a olhar de relance para cima, encontrou o olhar dele e sorriu. — E tu, és um radical ou um tradicionalista? —O que achas? — indagou Bradford. — Ah, um radical, imagino — respondeu Caroline, de imediato. — Aposto que és alguém que está constantemente criando caso na Câmara dos Lordes. Acertei, não? Bradford deu de ombros. —Parece que já me consideraram obstinado em algumas
  • ocasiões, mas só quando a moção que estou apoiando corre risco de não ser aprovada, —Mesmo assim és respeitado — anunciou Caroline. — É por causa do título que herdaste ou porque conquistaste teu próprio prestígio? Bradford riu. —Estás me perguntando se conquistei algo valioso? — Fez uma pausa, e depois perguntou: — E como sabes que sou respeitado? —Pela forma como olham para ti — respondeu Caroline. — Meu pai é tradicionalista. Se ele ainda estivesse atuando na política, provavelmente seria teu oponente em todas as questões. Bradford, poderíamos, por favor, parar de girar? Estou ficando bastante tonta. Bradford imediatamente parou de dançar, segurando o cotovelo de Caroline, e levou-a para a varanda. — Teu pai era mais radical na sua época do que eu jamais serei — comentou Bradford. Caroline demonstrou seu espanto. —E verdade — confirmou Bradford. — Ele era conhecido como o defensor da causa irlandesa. —Que causa irlandesa? — perguntou Caroline. —Independência — explicou Bradford. — Seu pai não achava que os irlandeses estavam prontos para ser independentes, mas lutou para conseguir que eles tivessem representação no governo e melhorar suas condições de vida. Caroline ficou espantada de ouvir essas revelações de Bradford. Tentou imaginar o pai jovem, lutando pelo que acreditava ser justo. — Ele é um homem tão comportado, tão calmo hoje em dia — comentou Caroline. — Difícil crer no que me dizes. Mas acredito em ti —
  • apressou-se em asseverar, esperando não ter ofendido o rapaz insinuando que duvidava das suas palavras. Bradford não conseguia parar de sorrir. Notou como ela tinha se apressado em corrigir sua afirmação de não acreditar nele. Será que ela era sempre assim tão zelosa com os sentimentos das pessoas? Caroline não notou Bradford olhando para ela. Estava pensando no pai, perguntando-se o que o teria feito desistir de lutar pelas suas causas. Por que ele tinha se retirado assim de tudo... da vida? Bradford viu que vários pretendentes estavam se apaixonando, bas- tante decididos, para onde eles estavam. A música tinha recomeçado, e Bradford puxou Caroline para seus braços outra vez. Não estava ainda preparado para deixá-la dançar com outros. Lembrou-se do comentário jue tinha feito ao conversar com Milford, de que queria rever Caroline rara poder esquecer-se dela, e agora achava esse comentário absurdo. Caroline não protestou quando Bradford a tomou nos braços de novo. Não se importou com as expressões de desaprovação também. Sentia-se enfeitiçada nos braços do rapaz e tremia quando sentia os dedos dele acariciando-lhe as costas. Caroline nunca tinha reagido a um homem como estava reagindo a Bradford. Estava confusa diante dessa intensa atração física. Sabia que devia comportar-se com decoro, mas percebia que adoraria ficar nos braços dele o resto da noite. Quando começou a perguntar-se como devia ser o beijo dele, viu que era hora de afastar-se da tentação. — Não gosto... Não houve tempo para ela terminar a frase. Estava para lhe dizer que não gostava de dançar valsa, mas ele a interrompeu com um comentário arrogante: — Não gosta do que está lhe acontecendo?
  • Os olhos dela arregalaram-se, e ela quase concordou. Viu-se para- lisada no tempo e no espaço e franziu o cenho. —Como assim? —Não negues, Caroline, também está acontecendo o mesmo comigo. —Não está acontecendo nada — respondeu Caroline, tensa. — Estás me deixando tonta outra vez, com os mesmos círculos constantes. Aqui dentro também está muito quente. Não achas que já dançamos bastante? — indagou, a voz esperançosa. — Sim, ficou mesmo muito quente — respondeu Bradford. Eles tinham acabado de completar nova volta pela pista de dança e estavam diante das portas de novo. Caroline sorriu, achando que estava para se livrar de Bradford, mas quando eles pararam de dançar, ele não a soltou. Em vez disso, pegou-lhe o braço e obrigou-a a acompanhá-lo. Antes que ela pudesse protestar, ele já a havia arrastado pela porta afora e se dirigido para o ar livre, sob o céu noturno. ! ! ! ! CAPÍTULO 5 __Solta o meu braço. Não podemos ficar os dois aqui sozinhos
  • — cochichou Caroline, agressiva. Porém, sua irritação não pareceu causar nenhuma perturbação na armadura de determinação de Bradford. O teimoso mancebo continuava andando e arrastando Caroline consigo, e vários casais que estavam tomando ar viraram-se para olhá-los, curiosos. Assim que Caroline percebeu que outras pessoas estavam olhando os dois, procurou deixar de parecer zangada e fazer cara de indiferente. Era difícil, e ela só sentia vontade de derrubar o duque de Bradford no chão e pregar-lhe uns pontapés. Apesar de esses pensamentos não serem nada comportados, Caroline sentiu muito prazer com eles. E não duvidava nada de que seria capaz de conseguir isso, ou pelo menos de lhe tirar uma boa parte da empáfia, porque seus primos tinham lhe ensinado todas as formas de causar verdadeira dor a um homem. Aquele seu acesso de autoconfiança evaporou-se quando ela perce- beu que nem sequer conseguia puxar a mão, soltando-se dele. Será que tinha deixado sua autoconfiança em Boston?, perguntou, enquanto o seguia como se fosse um carneirinho. A varanda circundava três lados da casa, e Bradford continuou até eles estarem completamente sós, bem no final da balaustrada. Várias velas encontravam-se ao longo do alto da balaustrada da varanda, em copos altos, para o vento não as apagar, dando à noite embalsamada um ar romântico. Bradford parou quando a grade da va- randa terminou e virou-se de frente para Caroline. A vela mais próxima de ambos projetava um brilho cálido no seu rosto, suavizando-lhe os traços másculos. — Agora acredito que terei tua atenção total — começou Bradford, sem preâmbulos. — Não pretendo dividir tua atenção com metade de Londres. — Ora. agora que tens minha atenção, o que farás
  • comigo? Bradford sorriu diante do desafio na voz dela. Percebeu temor e confusão no seu olhar, mas a voz suave da moça negava que fossem genuínos. Aquela sua falsa valentia o agradava. Ela não era do tipo que se acovardava ou perdia os sentidos. Era, segundo ele havia deduzido, uma adversária à sua altura. Ele quase respondeu que a possuiria, pois desejava ficar com ela, por mais obstáculos que ela pusesse em seu caminho. Caroline de-via ter percebido essa intenção no olhar dele, pois começou a recuar, devagarinho. Bradford rapidamente a impediu. Pegou seus ombros, sentiu a ma- ciez sedosa sob seus dedos e quase se esqueceu do que ia fazer até ela procurar soltar-se dele à força. —Ah, não vai fugir, não — murmurou ele. Puxou-a para si e virou-a, e ela sentiu-se uma marionete, sendo ele o manipulador, presa entre a parede e a grade. Estava completamente sem saída, e Bradford sorriu ao perceber isso. —Podes, por favor, deixar-me passar? — perguntou Caroline. —Só depois da nossa conversa — respondeu Bradford. Agia como se tivesse todo o tempo do mundo. Caroline então deixou transparecer sua exasperação. —Como és teimoso! Estás fingindo não perceber que não quero conversar contigo! —Queres sim — informou-lhe Bradford. — Algo está acontecendo entre nós. Eu sinto isso, e sei que também sentes. Creio que devíamos reconhecer isso, e quanto mais cedo, melhor. Não tenho tempo para brincadeirinhas de namoro, Caroline. Quando quero algo, vou e pego. Caroline não havia mentido. Não queria mesmo ficar sozinha com ele. Bradford deixava-a nervosa.
  • Não sentia que era capaz de controlar-se quando estava ao seu lado. Tinha acabado de falar com ele de uma forma bastante ríspida, mas ficou espantada quando ele respondeu com a mesma rispidez. — E resolveste que me queres? — Caroline tinha perdido a voz, e Bradford precisou inclinar-se para lhe ouvir a pergunta. Ele não respondeu, mas continuou a olhar para ela, seu olhar dizendo tudo o que precisava saber. —Ela tinha achado que ia conseguir obrigá-lo a desistir, colocá-lo no seu lugar com uma reprimenda daquelas, mas de repente percebeu que tinha ficado muda. — A minha franqueza te amedronta? — disse Bradford, rompendo o silêncio subitamente, com a voz cheia de ternura. — Esse sentimento me incomoda — admitiu ele, com um sorriso forçado — e não é facil de reconhecer. —O olhar dele era suficiente para transformar água em vapor. Certa- mente a aquecia, e ela descobriu que não sabia como reagir. — Deixas-me nervosa quando me olhas assim — admitiu Caroline . Suspirou e sacudiu a cabeça. — É melhor eu te avisar. Se ficar muito nervosa, vou começar a rir sem parar, e aí vais te sentir ofendido. —Caroline — interrompeu-a Bradford. — Vai, admite logo que há alguma coisa ocorrendo entre nós. —Não nos conhecemos — objetou ela. —Eu te conheço melhor do que pensas — respondeu Bradford. Os olhos de Caroline demonstraram sua descrença, e ele confirmou sua afirmativa, balançando a cabeça. — És leal, digna de confiança e tens imenso amor por todos os teus entes queridos. — Sabia pela forma como ela corou que a estava deixando constrangida, mas não se importou nem um pouco com isso.
  • Estava decidido a fazê-la admitir o que sentia por ele. Nada mais parecia lhe importar. —Como é que podes saber disso? — indagou Caroline. —Percebi no dia em que a conheci. Tu estavas assustada na hora, mas me enfrentaste. Tua única preocupação era proteger um homem praticamente estranho, evitando que se machucasse mais do que já estava ferido. A bravura é uma característica que admiro — acrescentou ele.
 Não estava mais sorrindo, e falava com toda a seriedade. — Quando conversamos, contaste-me que temias causar vergonha a teus parentes fazendo algo errado. Também falastes da tua família nas Colónias e de tua lealdade a ela. Por último — concluiu Bradford —, chamaste tua tia de mamãe, e teus olhos me mostraram a profunda afeição que sentes por ela. —Um cachorro é leal, digno de confiança e dedicado aos seus donos. A piada de Caroline obrigou o homem a sorrir relutante, acima dela. — Esta noite tremeste nos meus braços quando dançamos. Vais me dizer que foi de frio? — Ele agora estava provocando-a, e Caroline reagiu com um sorriso também. — Podes ser franca comigo? — A franqueza é uma característica que admiro nos outros — respondeu Caroline — porque é completamente inexistente na minha personalidade. — E suspirou com exasperação, continuando: — Sou desonesta, nas palavras e nos atos, e não tenho como evitar. Portanto —
 acrescentou ela —, se concordar que existe um sentimento especial entre nós, não terás como provar se estou dizendo a verdade ou não, terás? Bradford sorriu e sacudiu a cabeça. —Então vamos ter que fazer algo que nos dê essa prova — sugeriu ele.
  • Seu olhar revelou que estava achando graça, e Caroline percebeu que ele não tinha acreditado em nada do que ela havia acabado de dizer. Ela estava mentindo, e ele sabia disso. —E exatamente como é que uma pessoa prova o que sente ou não por ti? — indagou Caroline. Seu cenho estava franzido de concentração, mas um brilho súbito surgiu nos seus olhos, e Bradford viu logo que ela estava preparando alguma armadilha. Era exatamente igual ao olhar que ele tinha notado logo antes de ela fazer Brummell cair na sua armadilha. Ficou ansioso para ver o que ela faria. —Talvez exista um jeito, sim! Por que não pulas da varanda? Se eu não gritar para evitar que te jogues, saberás que não sinto nada por ti. —E se me disseres para parar? — disse Bradford. com uma risadinha de divertimento. —Ora, então saberás que eu sentia mesmo algo por ti. Claro que todos os teus ossos terão se quebrado, mas terás tua resposta, não terás? Ela estava sorrindo encantadoramente, e Bradford achou que devia mesmo estar se divertindo com o quadro que tinha acabado de imaginar. —Há uma alternativa — sugeriu Bradford. — Uma que não destruirá meu corpo, uma vez que ele é importante para ti. —Não acho teu corpo importante — apressou-se Caroline em dizer — E esta conversa está se tornando um tanto indecente. Se alguém nos escutar... —Vives preocupada com o que outros vão escutar, não? —Nunca me preocupei com isso antes de vir para a Inglaterra — admitiu Caroline. — É mesmo um estorvo. Agir corretamente é uma coisa por vezes extenuante. Bradford sorriu diante dessa franqueza dela.
  • — Caroline, gostaria de beijar-te e acabar logo com isso. Ela não se moveu. Sentiu-se fascinada como um animal prestes a ser capturado por uma rede enorme. Bradford pôs ambas as mãos na parede, atrás dela, e vagarosamente aproximou-se da moça. — Es tão romântico — murmurou Caroline. — Acabar logo com isso? Será que é tão difícil assim? Por que continuava a provocá-lo?, perguntou-se ela, meio apavorada. Só ia deixar as coisas piores do que já estavam. — Insistes que não há nada entre nós, evitas olhar-me nos olhos sempre que possível, e mesmo assim tremes quando estás em meus braços. Teu corpo contradiz tuas palavras de protesto. Caroline surpreendeu Bradford concordando com a cabeça. — Eu sei — sussurrou. Aquela confissão dela o agradou, quase tanto quanto os lábios ro- sados dela o atraíam. Ele não conseguiu esperar nem mais um segundo, mas jurou que seria delicado. Sua boca roçou de leve a dela. Caroline tentou virar a cabeça, contudo Bradford prendeu-lhe o lábio inferior e deteve-a. Beijou-a outra vez, pressionando mais os lábios contra os dela e, embora tivesse planejado apenas lhe dar um beijo casto, percebeu que queria mais. Sua boca se abriu sobre a dela, e quando Caroline tentou resistir à invasão da quentura úmida pela língua do rapaz, Bradford usou uma das mãos para obrigá-la a baixar o queixo. A língua dele possuiu o que seu corpo desejava incontrolavelmente, golpeando, explorando e penetrando a doçura que ela lhe oferecia. Caroline sentiu-se chocada quando a língua dele a tocou. Não sabia que os homens beijavam as mulheres assim! Encolheu-se toda de vergonha, mas ouviu-se gemendo de puro prazer. Não conseguiu evitar u Lciju nem refrear sua língua que, tocada pela dele, timidamente a princípio, retribuiu o beijo com cada vez mais ardor. Ouviu o gemido
  • profundo de incentivo de Bradford e passou os braços ao redor do pes- coço dele, para trazê-lo mais para perto de si. Não imaginou que fosse possível, mas o beijo aprofundou-se, ficou mais ousado. Ela pendurou-se nos ombros musculosos de Bradford e sorveu-lhe a língua, dando-lhe e recebendo dele um prazer que fluía como vinho suave entre eles. Quanto mais se beijavam, mais Bradford exigia. Sua paixão era agressiva, ele segurava o rosto dela para poder beijá-la mais fundo. Nunca um único beijo o havia deixado assim tão excitado, tão empolgado. Ele a queria com um desejo ardente que nenhuma outra mulher iria poder satisfazer. Quanto mais sorvia-lhe os lábios, mais a desejava. Sua língua penetrava, recuava e depois voltava a mergulhar. Caroline, perdida num oceano de sensações, começou a tremer e sentiu um calor líquido a fluir pelo seu corpo. A intensidade do que estava sentindo apavorou-a. Finalmente afastou-se e precisou apoiar-se na parede. Sua respiração estava tão irregular quanto seus pensamentos. Bradford levou um minuto inteiro para voltar a se controlar. Caroline ficou olhando para o chão, para ele não ver o constran- gimento nos olhos dela. Tinha se comportado como uma libertina, e achou que ele ia pensar que ela era uma mulher imoral, sem pudor. — Agora me diga que não há nada entre nós — exigiu Bradford. Sua voz saiu rouca, e, segundo ela notou com irritação, horrivelmente vitoriosa. ! —Não vou negar que gostei do teu beijo — disse Caroline. Olhou para ele, e Bradford voltou a sentir-se enfeitiçado pelo seu olhar. __Eu te quero, Caroline. — Nada de palavras açucaradas,
  • pensou Bradford, contrariado por dentro. Começava a arrepender-se da sua falta de delicadeza, quando notou a mudança de expressão da moça. Fez-se silêncio entre os dois, enquanto Caroline refletia sobre qual a resposta que lhe daria. Estava furiosa, mas só podia culpar a si mesma. Tinha correspondido ao beijo dele como se fosse uma prostituta, não tinha? — Tu me queres? — perguntou, a surpresa na voz. — Como ousas dizer algo assim a mim? Por que correspondi a teu beijo? — E seus olhos ficaram marejados de lágrimas, mas ela estava abalada demais para controlá-las. — Não me importa que me queiras. Ela não deu tempo para Bradford responder. —Achas que, por causa do teu nome e da tua posição, podes ter tudo o que queres? Ora, estás enganado se pensas que podes ter-me, meu senhor. Não sou da alta sociedade, e não me deixo impressionar por promessas de coisas materiais. —Todas as mulheres se deixam impressionar por ofertas materiais — murmurou Bradford, usando a própria expressão dela para designar riqueza e poder. — Estás insinuando que, se ofereceres o preço certo, podes ter qualquer uma que queiras? — Caroline empertigou-se, até ficar completamente ereta, quando Bradford deu de ombros, indicando que achava completamente natural sua resposta. E ela enfrentou-lhe o olhar furioso. — Estás me ofendendo. —Porque estou sendo franco contigo? —Não! Porque acreditas mesmo de verdade no que estás me dizendo! — respondeu Caroline. — Eu não me entregaria a ti nem que fosses o próprio rei Jorge — acrescentou.
  • —Só porque eu te disse que te quero, já concluíste que te quero como amante. Estás ofendida quando devias sentir-te lisonjeada — replicou ele. Estava furioso, e deixou-a sentir toda a força de sua ira. — Mas se eu te cortejar e depois pedir tua mão em casamento, o que farás? — Suas mãos estavam apoiadas dos dois lados da cabeça de Caroline, seu rosto a apenas alguns centímetros do dela. Ele sabia, sim, o que ela queria, e por mais que se enfurecesse por admitir isso, queria-a quase o suficiente para dar tudo o que ela lhe pedisse. — Mudarias de comportamento na mesma hora, não? Caroline concentrou-se na sua resposta anterior. A audácia dele era inacreditável, —Lisonjeada? Pois sim! Dizes-me que existe algo entre nós — redarguiu —, mas é apenas atração física, nada mais. Achas mesmo que eu me entregaria a ti por um motivo assim tão torpe? Eu não me casaria contigo — declarou enfaticamente Caroline. — Dizes que queres uma
 esposa leal, digna de confiança, amorosa — prosseguiu, precipitadamente —mas não demonstras ter as mesmas qualidades. —E como sabes disso? — inquiriu Bradford. Caroline estava transtornada demais para se deixar intimidar pelo olhar indignado dele. __Em primeiro lugar, insinuas que me torne tua amante. Só por que sentimos atração um pelo outro. __Por que outro motivo eu te quereria por amante? — indagou Bradford, tentando entender o raciocínio da moça. — E não te pedi para seres minha amante. — Agora estava berrando a plenos pulmões, sem se importar com quem pudesse ouvi-lo. !
  • —Ah, mas ia pedir. Em segundo lugar, és egocêntrico demais para o meu gosto. Enxergo além das aparências, meu senhor. Desposarei alguém que seja atencioso. E não vai ser um inglês. —Mas por que é que os ingleses te incomodam? — rugiu Bradford. Sua fúria de repente sumiu, como num passe de mágica, e ele começou a rir. Ela tinha conseguido inverter o desdém! Eram os ingleses que desdenhavam os colonos, não o contrário. — Tu te esqueceste de que também
 és inglesa? Caroline resolveu fingir que não tinha ouvido a pergunta. — A maioria dos membros da elite inglesa é desleal — respondeu Caroline. Estava tentando enfurecê-lo, e sabia que estava perdendo de dez a zero. As risadas dele a incomodaram, e ela não sentia mais vontade de continuar. A raiva que ele antes havia demonstrado era muito melhor, e essa mudança súbita não fazia sentido. Caroline sentiu-se desnorteada outra vez. —A maioria voltou-se contra seu próprio rei na hora em que ele mais precisava de apoio. Seu próprio filho traiu-o uma vez e, sem dúvida, voltará a traí-lo. Por que estás rindo? Não vês que estou te ofendendo? — Caroline terminou sua invectiva, sentindo-se tão murcha como
 uma flor recém-cortada que ficou ao sol durante muito tempo. —Agora, imagino que é a minha vez — declarou Bradford com firmeza. — Primeiro vou dizer-te que te quero. — Não me importa que me queiras — objetou Caroline. Lançou um olhar rápido para trás para ver se alguém estava prestando atenção na conversa dos dois, e depois voltou a olhar para o seu oponente. — Imagino — cochichou —, pela forma como me beijou, que o que desejas...
 o que queres é meu corpo. — Ela corou, mas não conseguiu conter-se. —Admito que te quero na minha cama. Tu és uma mulher
  • belíssima. —E isso não tem importância — replicou Caroline. Bradford en- tendeu, pela forma como ela fez essa declaração, que não sabia o quanto era bela. Isso era reconfortante. A maioria das mulheres usa sua beleza como arma para obter o que deseja. —Sabes que me faz rir? — perguntou ele. Caroline esperou que ele continuasse, mas quando viu que ele não ia continuar, demonstrou sua frustração. —Claro que sei que te faço rir — respondeu ela, exasperada, deixando isso transparecer em sua voz. — Acabaste de rir de mim. Não sou surda. E imagino que a maioria das pessoas lá no salão também te ouviu rindo — acrescentou, de cara amarrada. —Eu não estava rindo de ti — insistiu Bradford, tentando fazer cara de sério sem conseguir. — Mas sim contigo. —Como assim, se eu não estava rindo? — contestou Caroline. — Não me venha com diplomacia. Não adianta. Como insistes que sejamos francos, vou te dar uma informação logo de cara. Não quero sentir atração por ti. Gosto de sentir que posso me controlar, e não me agrada ser dominada nem amedrontada por ninguém. Portanto, como estás procurando dominar-me e estás te comportando de maneira arrogante, intimidadora e autoritária, não nos daríamos nada bem. Infelizmente vais ter que querer alguma outra pessoa. Alguém bem mansinha, acho eu, que não se importe de ser comandada o tempo todo. Queres que eu te ajude a encontrar a moça apropriada? Já me forneceste alguns dos teus requisitos. — Os olhos dela voltaram a apresentar aquele brilho peculiar, e Bradford sentiu vontade de ouvir o que ela diria a seguir. —Queres alguém leal, digna de confiança, amorosa e... ah, sim!
  • quase me esqueci. Alguém de quem possas rir. —Esqueceste da franqueza — interrompeu Bradford com um sorriso forçado. Estava também sorrindo por dentro, pois Caroline, soubesse ou não, tinha lhe dado esperança. Bradford interpretou que ela sentia medo da sua reação a ele. Sentiu sua autoconfiança renovar-se
 diante dessa informação. —Mas claro, ela deve ser franca — concordou Caroline com um meneio de cabeça. — Agora, preferes uma senhora loura, ou de cabelos castanhos? Olhos azuis ou esverdeados? Baixa ou alta? É só me dizeres, que vou entrar e dar uma olhada no salão. —Cabelos pretos, olhos violeta, assim bem furiosos — declarou
 Bradford. — E a estatura nem alta, nem baixa. __ Mas acabaste de me descrever — respondeu Caroline. — Não sou perfeita, meu senhor. Tenho defeitos. — Eu conheço vários — disse-lhe Bradford. E não pôde resistir nem mais um segundo, inclinando-se rapidamente para beijá-la outra vez. Caroline não teve tempo de resistir, pois o beijo terminou antes que ela pudesse fazer outra coisa senão piscar. Ela o empurrou para longe de si. __Conheces meus defeitos? — indagou ela, sem tomar conheci- mento do beijo. —Detestas ingleses e irlandeses, ris em momentos inoportunos, tens um génio impetuoso, e tiras conclusões apressadas e nem sempre corretas — respondeu Bradford. — Devo prosseguir? —Não deves, não — respondeu Caroline. — Mas tua lista está incorreta; não detesto todos os ingleses e irlandeses, só os mal- educados. Tenho mau génio, sim, e rio em momentos inoportunos, mas estou procurando melhorar nesses dois aspectos. Raramente
  • tiro conclusões que
 não sejam corretas. Mas tu pareces ser arrogante demais para admitir quaisquer defeitos e, portanto, és muito pior do que eu. —Tua franqueza me espanta — respondeu Bradford, com um sorriso de orelha a orelha. — E tua humildade quase me faz cair de joelhos. — Soltou uma risada espontânea, que sua adversária detestou. Bradford percebeu que se continuasse a provocá-la assim certamente
 não iria conseguir nada, mas não conseguia se controlar. Não se divertia assim fazia anos. —Não creio que ninguém seja capaz de fazer-te cair de joelhos — comentou Caroline. Depois sorriu, e Bradford sacudiu a cabeça. —Mas estás gostando de imaginar isso, não? — indagou ele. —Estou sim — respondeu Caroline. — Precisamos voltar para dentro antes que sintam nossa falta. Bradford deixou-a acreditar que havia uma possibilidade de que não tivessem visto os dois saírem. Ele, porém, sabia a verdade, que àquela altura todos no salão deviam estar cochichando, trocando especulações e espalhando histórias. Nada importante escapava aos olhos de águia da maioria das senhoras presentes. E, por sua experiência anterior, o duque de Bradford sabia que qualquer coisa que ele fizesse gerava boatos. A reputação de Caroline não iria ficar manchada porque ele estava dedicando atenção a ela. Além do mais, se ele lhe desse informações sobre o assunto, ela insistiria em voltar a ficar ao lado do pai. Ele só queria um minuto a mais com ela, disse a si mesmo, só mais um minuto a sós. — Não devíamos ter nos beijado, e não devíamos ter conversado assim com tanta familiaridade um com o outro. Não nos conhecemos o bastante para confidenciar tais coisas — declarou Caroline, Estava para lhe dizer que esperava que ele esquecesse toda aquela conversa,

  • mas o comentário seguinte de Bradford deixou-a sem saber o que dizer de novo. — Eu sei tudo ao teu respeito — gabou-se ele. — Moraste com tua tia e teu tio em uma fazenda nos subúrbios de Boston durante os últimos catorze anos. Teu tio adotou Boston como seu lar e rejeitou a Inglaterra. Tua prima, Charity, é como uma irmã para ti. Embora seja
 mais velha seis meses, segue tua liderança em tudo. Teu pai, o conde de Braxton, agora é considerado excêntrico, tendo levado vida de eremita durante muitos anos. Tu sabes manejar pistolas, embora antes ficasses até doente se tocasses uma. Consideravas isso um defeito e procuraste superá- lo até conseguir. É o suficiente? Estás convencida de que sei tudo sobre ti? Ou devo prosseguir? Caroline ficou assombrada diante dos comentários de Bradford. — Como descobriste tudo isso? — indagou —Não importa — respondeu Bradford. —Por que é que... —Estou interessado em ti — interrompeu-a Bradford. Essa decla- ração foi feita bem baixinho. A expressão do rapaz ficou séria, e Caroline começou a sentir-se nervosa de novo. — Caroline, sempre consigo o que quero. Quando me conheceres melhor, irás aceitar. —Não quero saber disso!— Caroline fez esse protesto em voz baixa, mas agressiva. — Pareces um menino mimado! Bradford não se sentiu ofendido por esse comentário dela. Sacudiu seus ombros gigantescos e respondeu: —Vais ter que te acostumar comigo, imagino. Mas com o tempo, vais te conformar. Não vou me dar por vencido, Caroline, só vou dar tempo ao tempo. —Já ouvi dizer que muitas das senhoras casadas em Londres têm amantes — disse Caroline. — E por isso que estás insinuando
  • que eu me torne tua amante? —Nunca insinuei que te tornasses minha amante — respondeu Bradford. — Estás tirando tuas próprias conclusões, Caroline. Mas, sim, há aquelas que se deitam com outros depois que se casam. —Isso é deplorável — comentou Caroline, com raiva no tom de voz. — Elas não só traem os maridos como também desprezam os votos que trocaram com eles. Aquela declaração agradou a Bradford, mas ele não a deixou saber disso. Esperou que ela continuasse. — Dizes que me conheces muito bem, mas me insultas achando que sou como uma das suas senhoras inglesas. Tu é que tiraste as con- clusões erradas. Bradford teve dificuldade em acompanhar aquele raciocínio da moça. Caroline notou a confusão dele e suspirou, irritada. — Estou esperando teu pedido de desculpas. Mas Bradford inclinou-se e beijou a testa dela, em vez de responder. — Estou te avisando, Caroline. Não vou me deixar derrotar. Tu vais ser minha. Caroline começou a replicar, mas percebeu que seria inútil. O homem tinha enfiado aquela ideia na cabeça, e ela sabia que não iria conseguir tirá-la. —Assim, até parece que estás me desafiando. —De fato — respondeu ele, sua voz sem deixar a menor dúvida. —E se é um desafio — disse Caroline, baixinho —, então és meu adversário. Aviso-te, meu senhor, não jogo nada que não possa ganhar. —Pois já eu, Caroline, acho — respondeu Bradford, murmurando
  • de uma forma que deixou Caroline emocionada — que ambos sairemos vencedores. — E selou sua promessa com um beijo longo e satisfatório. —Lynnie, o que está fazendo! -- A voz de Charity meteu-se entre Bradford e a prima no meio do beijo. — Ah, sois vós, milorde! Eu sabia que irias procurar cortejar minha prima, mas não devíeis estar aqui fora assim sozinhos. Não me parece uma coisa decorosa. Charity sorriu para Bradford quando ele se afastou de Caroline. — Não te falei, Caroline, que ele ficou encantado contigo? Bradford sorriu e Caroline soltou urn gemido. Tinha acabado de ser surpreendida em uma situação bastante delicada, e não iria convencer Charity de jeito nenhum de que tudo aquilo estava acontecendo contra a sua vontade. Seus braços até continuavam pendurados nos ombros de Bradford. —Pára de sorrir e te explica para a minha prima — exigiu Caroline, cutucando o braço de Bradford. —Mas claro, sem dúvida — respondeu Bradford. — Primeiro, porém, permita-me que eu me apresente — disse ele, com uma seriedade fingida. Caroline, percebendo como ele estava se divertindo, resolveu intervir. —Charity, este é Bradford. Ele é duque — acrescentou, quase como se tivesse se esquecido antes. — E aquele era um beijo de despedida, para nunca mais, que nós estávamos nos dando, não era, milorde? —Até amanhã, isso sim — Bradford respondeu. E fingiu que não percebeu o cutucão mais forte de Caroline, pegando a mão de Charity. — É um grande prazer conhecê-la, Charity. Bradford e Charity trocaram amabilidades, depois ela perguntou:
  • — Por acaso conheces um homem chamado Paul Bleachley? E olhou de relance para Caroline, como que pedindo sua aprovação, e a prima meneou a cabeça, incentivando-a com um sorriso suave. Sabia como isso era importante para Charity e sentia-se culpada por não ajudar mais. — Conheço sim. A resposta de Bradford, em tom baixo, causou grande comoção. Caroline agarrou-lhe o braço e tentou virá-lo de frente para si, mas era como tentar virar um olmo gigantesco. Ele estava firmemente preso ao chão. Charity também tentou obter sua atenção total, puxando com in- sistência seu outro braço. — Viste esse homem ultimamente? — indagou ela, quase sem fôlego. Bradford pegou a mão de Caroline e puxou-a para o seu lado. Depois, deu toda a sua atenção a Charity. O polegar dele acaraciava a palma da mão de Caroline enquanto ele ouvia Charity explicar como ela havia conhecido Paul Bleachley. —Podes dizer-me se ele é casado? — indagou Charity. — Ele saiu de Boston tão de repente, sem dar explicação nenhuma, que... —Não — respondeu Bradford. — Não é casado. Voltou das Colónias faz vários meses, e agora mora na casa dele, nos arredores de Londres. Havia muito mais coisas a contar, mas Bradford estava relutante em prosseguir. Pela reação de Charity à notícia de que Bleachley estava de volta à Inglaterra, ele percebeu que eles deviam ter namorado quando Bleachlev esteve em Boston. Os olhos dela encheram-se de lágrimas, e Caroline tentou livrar-se da mão de Bradford para consolar a prima. Bradford não permitiu. Tirou um lenço do bolso e ofereceu-o a Charity, sugerindo que ela voltasse para perto do tio, que ele e Caroline logo entrariam também.
  • Caroline sorriu ao ver o lenço. Não havia nem uma rendinha sequer nele. Não era como o lencinho fresco de Brummell, de jeito nenhum. — Ela está apaixonada pelo Paul? A pergunta de Bradford exigia uma resposta. Caroline confirmou. —Ele fez promessas que não cumpriu — respondeu ela. — Partiu o coração dela. —Paul também está infeliz — disse Bradford. — Acho que a ama va, senão não teria feito essas promessas. Ele é um homem honrado. —Pois estás enganado — argumentou Caroline. — Charity me contou que ele a pediu em casamento, e ela aceitou. Aí ele sumiu. Bradford continuou a segurar a mão de Caroline enquanto ambos se dirigiam à porta. — Vou contar-te o que sei, mas precisas refletir muito sobre isso antes de decidires que vais contar a Charity. O que estou para te revelar só vai causar mais sofrimento a tua prima, e acho que talvez seja melhor esconder a verdade dela. Caroline virou-se de frente para Bradford e bloqueou-lhe o caminho. —Conta-me, que eu mesma decidirei — exigiu. —Paul feriu-se em Boston. Houve uma explosão no navio dele, que destruiu a embarcação. Ele quase morreu, vai ter que conviver com as cicatrizes o resto da vida. Mora como um ermitão em uma casinha mais ou menos a uma hora a cavalo daqui e não deixa nem os parentes virem visitá-lo. ! —E tu, já o viste? — indagou Caroline. Condoeu-se diante da história e também se preocupou com a prima e com Paul Bleachley.
  • —Sim, logo depois de ele ter voltado de Boston. Um dos seus braços está inutilizado, e o rosto ficou desfigurado. Caroline fechou os olhos e sacudiu a cabeça. — Pensei o pior dele quando desapareceu daquele jeito, mas Charity nunca aceitou o fato de ter sido abandonada de propósito. — Ela inspirou profundamente, depois disse: — Descreve o rosto dele para mim. Não penses que gosto de coisas fantasmagóricas, Bradford. E que preciso saber, para poder contar a Charity. Bradford sacudiu a cabeça. — Não estás prestando atenção no que estou te dizendo. Paul nem mesmo deixa que eu o veja mais. E olha que o conheço desde criança. Um lado do rosto dele foi totalmente queimado, e o olho esquerdo está saltando da órbita. Ele não é mais belo. — Ela nunca o amou por ser belo — replicou Caroline, com convicção. — Nós, os Richmonds, não somos assim tão superficiais, Bradford. Era o que eu estava tentando dizer-te antes. Querer alguém só porque ela ou ele é atraente não é importante. Charity é muito mais profunda do que pensas. Ela pegou a mão de Bradford, sem perceber o gesto de ternura, e sua reação a ele. Ele sabia que ela não tinha percebido o que estava fazendo, entendeu que estava só se concentrando no que ele acabara de lhe dizer, mas mesmo assim sentiu-se ligeiramente vitorioso ao entrar em contato com ela. Era um começo, e Bradford reconheceu o gesto como tal. Ele podia, sem dúvida, obrigá-la a reagir. Ela havia reagido ao seu beijo, mas fora preciso tomar a iniciativa. O gesto dela foi, de certa forma, simbólico para ele. Bradford viu-se sorrindo por dentro. - A família deu um apelido a Charity. Eles a chamam de Borboleta -- disse Caroline. -- Ela parece flutuar como uma, e é tão linda como uma também — prosseguiu. — Mas também é forte. Adora Paul Bleachley. e
  • não creio que suas queimaduras e ferimentos irão mudar o que sente por ele. Então estás planejando contar a ela? — Bradford perguntou isso em tom preocupado. — Paul é meu amigo, e não desejo lhe causar mais sofrimento. Ele já passou por coisas terríveis. Caroline concordou. Compreendeu sua preocupação e admitiu que, fosse inversa, provavelmente agiria de forma tão protetora quanto Bradford. __ Vais precisar confiar em mim quanto a isso — disse a ele. Teria sido mais fácil se ela tivesse lhe pedido para lhe entregar toda a sua fortuna, ou até seu braço direito. Confiar? Não era possível. O rosto de Bradtord voltou a assumir uma expressão severa e cética. Caroline notou a mudança abrupta, e a tensão em sua boca e mandíbula. Depois de ter sido beijada por aquela mesma boca, ter tocado a maciez por trás daquela fachada pétrea, Caroline sabia que aquela aparência granítica era apenas uma forma de bloquear o que ele estava realmente sentindo. — Presumo, pelo jeito como estás me olhando, que minha decla- ração não te agradou — disse Caroline. — Queres confiar em mim? Ele não respondeu à pergunta dela, e Caroline franziu a testa, intrigada. Resolveu deixar isso de lado e soltou a mão dele. — Obrigada por me contar o que houve com Bleachley — disse. Antes que ele pudesse detê-la, ela correu para a porta aberta. E parou à entrada, virando-se para olhar para ele. — E também por pedir desculpas. Sei que foi difícil para ti. Bradford a princípio ficou irritado por ver-se assim dispensado tão despreocupadamente, e depois viu a graça que tinha aquela situação. Ele era o duque de Bradford, e percebeu que Caroline Richmond não havia se deixado impressionar nem um pouco por isso. Ele foi até onde ela estava e pegou-lhe o cotovelo. — Eu não pedi desculpas.
  • Caroline olhou de relance para ele, sorrindo. — Mas teria pedido, se eu te concedesse um pouco mais de tempo. — E virou-se para olhar a multidão, dispensando-o uma vez mais. Bradford começou a rir. Fazia tempo que não ria nem sorria, e sabia que ela estava certa. Se tivesse tempo suficiente, provavelmente teria pedido desculpas. Ela tinha razão, e também adivinhara suas intenções. Ele talvez a transformasse em sua amante, apesar das consequências, se ela estivesse disposta a isso. Ele fora rude, presumindo que ela era como í maioria das outras mulheres que conhecia, e agora descobrira que ia ter de reavaliar sua posição e pensar no que fazer a seguir. Caroline Richmnd cofundia-o, e ele não gostava nada de ter que admitir isso. Havia desprezado seu título e seu dinheiro, e ele quase havia acreditado nela. Será que ela não sabia o que ele podia lhe oferecer? Não podia aceitar o fato de que suas ofertas materiais não fossem importantes para ela. Ela era uma mulher, afinal. Só que sabia jogar melhor que as outras. E era mais teimosa. Ora, ele não se deixaria derrotar. Perguntava-se se ela percebia o que iria enfrentar. Obviamente não, concluiu. E viu que agora estava de cara amarrada, mudando de expressão depressa para não demonstrar as emoções desencontradas que o perturbavam. Caroline havia declarado que queria alguém atencioso! Em toda a sua vida, Bradford sabia que nunca o tinham considerado atencioso. Brutal e insensível eram descrições que ouvia facilmente as pessoas mur- murarem contra ele. Mas atencioso? Ele nem mesmo sabia exatamente o que isso significava. Descobriria, é claro. Se ela exigia que ele fosse atencioso, então, ela teria isso, sem sombra de dúvida. —Ah, aí estás, minha filha. — A voz do pai de Caroline inter- rompeu os pensamentos de Bradford. Ela tinha acabado de chegar à entrada do salão, quando foi interceptada pelo conde. — Não fica bem desapareceres assim, meu bem.
  • —Desculpa-me, papai — respondeu Caroline, fazendo cara de contrita. E beijou-o rapidamente. — Eu me deixei levar pela emoção —acrescentou, olhando para Bradford de relance. — Sim, é claro — concordou o pai. — Ê compreensível, na tua primeira festa. Estás te divertindo? — indagou, com um sorriso de expectativa. Caroline viu o que ele esperava dela e imediatamente respondeu: — Tudo está uma maravilha, estou conhecendo muita gente interessante. A afeição ficou óbvia no seu olhar terno ao sorrir para o pai, e Bradford viu-se invejando a relação especial existente entre os dois, ao chegar perto deles. Julgou isso notável, também, porque sabia que Braxton tinha mandado a filha para as Colónias e não a via fazia catorze anos. Parece que a longa ausência não havia feito o amor dela por ele diminuir, e Bradford considerou isso uma coisa bastante rara. — Eu sabia que te divertirias. E tu, Bradford? — continuou o pai, sorridente. — Estás divertindo-te esta noite? Antes que Bradford pudesse responder, Braxton prosseguiu: —Causaste uma comoção e tanto hoje. Não costumas comparecer a estes bailes, não é? —Ando meio desleixado ultimamente — respondeu Bradford. — Mas planejo mudar. Esta noite terminou por revelar-se bastante estimulante — continuou, olhando para Caroline de relance. — Estou me divertindo imensamente. — Ah! Aí vêm o marquês e Charity. — O duque esperou até sua sobrinha e seu cunhado terem se reunido ao grupo, e disse a Bradford: — Lembras-te do marquês de Aimsmond? — Caroline notou que a voz do pai agora estava com uma inflexão bastante formal. Ela ouviu o tom de
  • deferência e entendeu que Bradford devia ser o mais importante dos nobres ali presentes. Achou isso divertido, pois ele era muito mais jovem que seu pai ou seu tio. Bradford indicou que se lembrava do marquês, sim, com uma ex- pressão seca. Era a mesura de um duque, o reconhecimento de um homem acostumado a sua posição. Ele certamente sabia comportar-se! Ca-roline sorriu sem conseguir explicar por quê. O comportamento correto dele a agradava, acrescentava uma dimensão nova a sua personalidade. —É um prazer revê-Io, Aimsmond. —Também para mim, Bradford — respondeu o marquês, sorrindo. Voltou-se, então, para o pai de Caroline e disse: — Nosso anfitrião solicitou que fôssemos trocar umas palavras com ele. —Mas sem dúvida que iremos — respondeu o conde. — Estarei de volta num instante, Caroline. —Com vossa permissão — interrompeu-o Bradford —, gostaria de apresentar Caroline ao conde de Milfordhurst e depois trazê-la de volta a vossa companhia. O pai de Caroline sorriu e meneou a cabeça, aprovando. Com Charity pelo braço, seguiu o marquês. Bradford conduziu Caroline na direção contrária, para o lado oposto do salão. Milford viu Bradford aproximando-se dele com aquela formosa mulher ao seu lado e imediatamente pediu licença ao grupo com o qual estava conversando. Foi ao encontro do casal. —Caroline, gostaria de lhe apresentar meu amigo, William Summers, conde de Milfordhurst — anunciou Bradford. — Milford, esta é Lady Caroline Mary Richmond, filha do conde de Braxton. —É um prazer conhecer-vos — disse Caroline, com uma rápida
  • mesura, avaliando o homem atraente que lhe pegou a mão. Ele parecia ser bastante ladino, pelo sorriso e pelo brilho no olhar. —O prazer é todo meu — anunciou Milford, com uma reverencia formal. — Então é esta a senhora das Colónias — comentou com Bradford. — E está de vestido novo? — perguntou a Caroline. Ela ficou surpresa com essa pergunta, mas confirmou. — Sim, é um modelo de madame Newcott — acrescentou.
 Milford lançou um olhar de homem experiente a Bradford, e riu de leve. Caroline não entendeu o que estava se passando entre os dois ho- mens, mas não teve tempo para investigar. Charity umu-se ao grupo, sua saia-balão rodopiando quando ela parou de repente. Sorriu para Bradford e depois para o seu amigo. Bradford imediatamente apresentou-a a Milford. Enquanto Charity confidenciava sua opinião sobre a festa, Braxton chegou, e Bradford, fingindo que não via o sorriso cada vez maior do amigo, imediatamente solicitou uma conversa em particular. Assim que Bradford e o conde entraram em um aposento à parte, Milford tratou de ir buscar bebidas e canapés para Charity e Caroline. Charity continuou a controlar a conversa, e Caroline sorriu pacien- temente, enquanto ouvia os comentários animados da prima. Pela forma como Milford prestava extrema atenção a Charity, Caroline concluiu que ele era um rapaz simpático, do qual não era difícil gostar. Ele parecia ter uma personalidade empática. — Há quanto tempo vos conheceis um ao outro, tu e Bradford? — indagou Caroline quando Charity fez uma pausa nos comentários. —Desde a infância — respondeu Milford. — Somos como irmãos. —E nós duas, como irmãs — intrometeu-se Charity. — Minha
  • nossa, é o nosso anfitrião que está fazendo sinal para mim? Estou me lembrando de que prometi conceder-lhe esta dança. Ele é certamente lépido para alguém de idade tão avançada! Com vossa permissão — e
 suspirou ao arregaçar ligeiramente a saia e murmurar para Caroline: — Reza para os meus pés aguentarem. — E afastou-se, num turbilhão de seda rosa. —Devo-te um favor — anunciou Milford quando se viu a sós com Caroline. Caroline lançou um olhar intrigado a Milford e esperou que ele explicasse. — Brad não sabia mais sorrir. E tu o ajudaste a lembrar-se.
 Caroline sorriu. —Ele tem uma personalidade difícil, não?
 Milford soltou algumas risadinhas, concordando. — Comentário astuto — disse. — Eu sabia que gostaria de ti.
 Os olhos de Caroline arregalaram-se. Aquela noite estava mesmo se revelando surpreendente. Primeiro, Bradford calmamente lhe narrara sua história, e agora seu amigo indicava que também sabia quem era ela. Será que havia ali quem não a conhecesse? — Já ouvi vários comentários sobre Bradford — disse Caroline. — Por que para ele é tão difícil sorrir? Milford encolheu os ombros. —Ele simplesmente não tem muito de que sorrir na vida. — A resposta dele foi genérica demais para satisfazer a curiosidade de Caroline. —Es simpático — declarou Caroline. —Ele é simpático, mas eu não? — A voz de Bradford veio de algum ponto atrás de Caroline, e ela vírou-se, ao mesmo tempo assustada
  • e satisfeita. —Exatamente — respondeu Caroline. — Podias tomar umas lições do teu amigo aqui. Bradford franziu a sobrancelha, e Milford, observando os dois, percebeu que o amigo não tinha agastado Caroline nem um pouco. Caroline lembrava-se de ter dito a Bradford que desejava casar-se com alguém educado e que ele não era a pessoa certa. Sorriu ao perceber a irritação dele. Alguém anunciou que o jantar estava servido, e Caroline sentiu pena de ter que interromper a conversa e parar de provocar seu contrariado adversário. Tanto Bradford como Milford ofereceram-lhe o braço, mas Caroline recusou ambos os convites, declarando que devia ir sentar-se ao lado do tio e do pai, à mesa deles. Olhando de relance em torno de si, viu o pai cercado por um grande grupo de rapazes. Bradford seguiu-lhe o olhar e franziu a testa ainda mais. —Eles pretendem obter tua atenção através de teu pai — anunciou Bradford. Sua voz evidenciou repulsa, e Caroline vírou-se para olhar para ele. —Planejas passar o resto da noite ao lado de Caroline? — indagou Milford, com um largo sorriso. — Não — respondeu Bradford. Ele sabia que o amigo estava brincando, mas sua irritação continuou. — Porém, terei uma breve conversa com alguns dos mancebos mais atirados antes do fim da noite. Milford soltou risadinhas, fez uma reverência para Caroline e afastou-se. Bradford pegou o braço da jovem, no que só se podia interpretar como um gesto de posse, e vagarosamente a conduziu até a mesa do jantar. — Não é o conde de Stanton que está ali conversando com Charity? — perguntou Caroline. Lembrava-se de ter sido apresentada a ele, no início do baile.
  • — Não — respondeu Bradford. — Ele é só um conde de Stanton.
 Caroline olhou para Bradford, para ver se ele estava brincando com ela, mas sua expressão tinha mudado, e ela não conseguiu adivinhar-lhe os pensamentos. — Não acabei de dizer que era ele? — redarguiu. Bradford percebeu que Caroline não tinha entendido seu comentário e sorriu. O sorriso foi terno, e Caroline ficou imaginando o que ele quereria dizer. —Quando usamos o artigo "o", é para dar destaque — explicou. — Se te digo que ele é o conde de Stanton, saberás que ele é o que detém o mais alto título de sua família. Mas se te digo que ele é conde de Stanton, sabes que há um outro na família dele com um título mais elevado. —Agradeço-te por instruir-me — disse Caroline. Sua voz estava cheia de gratidão. — Então te chamam de "o" duque de Bradford, por tanto tu tens o título mais elevado da tua família? —Sim — admitiu Bradford. — Mas também sou conde de Whelburne, conde de Canton, marquês de Summertonham e visconde de Benton. Bradford sorriu diante do espanto de Caroline, ao ouvi-lo desfiar seus títulos. —E és cavaleiro também? — perguntou ela, sacudindo a cabeça. —Ainda não — respondeu ele. — A honra de tornar-se cavaleiro deve ser concedida pelo rei, não é coisa que se possa herdar. —Entendo — disse Caroline. — Deves pensar que não tive muito boa educação. Mas morava em Boston, onde os títulos não têm importância alguma. Além disso, meu tio Henry não achava que iria um dia, voltar para a Inglaterra. E não dava muita importância a títulos, também. Achava que eram as realizações de
  • um homem que o definiam como alguém honrado, não o que seus pais tinham feito antes dele. Por isso não recebi uma educação própria para a vida na corte — disse Caroline, com um suspiro. — Meu tio e eu simplesmente não a considerávamos necessária nem importante. O conde de Braxton veio até onde estava o casal, e Bradford foi obrigado a retirar-se. — Prosseguiremos nossa conversa amanhã — declarou, antes de afastar-se. Relutou em largar o braço da moça, imediatamente sentindo falta do contato com ela. — Quando for visitá-la. Teu pai me deu permissão. Durante o jantar, Caroline sentou-se ao lado do tio e em frente ao pai. Quando os dois homens começaram a recordar-se da mãe de Caroline, a mulher que ambos amavam, ela viu que a reconciliação tinha sido completa. Bradford acompanhou Charity até a mesa deles, e uma vez mais afastou-se. Sua expressão, quando ele deu boa-noite a Caroline, era estudada, mas a jovem percebeu que seus olhos estavam risonhos. Perguntou-se do que ele estaria achando tanta graça, e obteve a resposta imediatamente, — Mas que coisa mais constrangedora! — murmurou Charity para Caroline quando se sentou. — Pensei estar conversando com nosso anfitrião, mas ele deve ter se afastado enquanto eu estava distraída olhando para outras pessoas ao meu redor, e quando Bradford veio até prerto de mim, acho que ele pensou que eu estava tendo uma discussão bastante filosófica com uma planta que estava ali por perto. Caroline quase engasgou enquanto tomava seu champanhe. Tentou desesperadamente não rir, sabendo que Charity se ofenderia. Sua prima estava totalmente passada. — O que ele disse? — perguntou Caroline. — Absolutamente nada — respondeu Charity, ainda aos
  • cochichos. — Só pegou meu cotovelo e me conduziu até onde tu estavas. Ele é um cavalheiro — terminou ela, com um suspiro. Caroline assentiu. Virou-se para o pai e pediu-lhe os óculos de Charity. Entregou-os à prima com cara de quem estava sugerindo que ela os colocasse. —Ouviste os comentários sobre teu Bradford? — perguntou Charity, sussurrando de novo. Não desejava perturbar a conversa entre o pai e o tio de Caroline. —Ele não é meu Bradford — protestou Caroline; mas sem con- seguir evitar, perguntou: — Que comentários? —Ele nunca vai a festa nenhuma. Todos ficaram pasmos de ele ter vindo ao baile hoje. Ele parece estar se divertindo muito, aliás. Nosso anfitrião adorou. Caroline! Sabias que faz anos que teu pai não aparece em público? Todos acham que tu és a causa de ambos os milagres. Caroline lembrou-se do que Milford havia dito a ela, e que ele lhe devia um favor por fazer seu amigo sorrir. — Ele só tinha se esquecido de como era — murmurou Caroline. Caroline, olhando de relance para cima, viu Bradford de pé no meio de uma roda de senhoras muito bonitas. Estavam todas soltando nsadmhas discretas, e a moça percebeu-se irritada ao ver todas aquelas mulheres ali, em volta dele, bajulando-o. Não podia entender o motivo da irritação e tentou dizer a si mesma que devia estar aliviada. O que estava havendo com ela? Ela não teve tempo para pensar mais no que estava sentindo, e ficou feliz por isso. A hora seguinte foi dedicada às apresentações de amigos e conhecidos de seu pai e de seu tio. Alguns eram nobres, outros não. Caroline falou o mínimo possível com cada um que se aproximava, com medo de
  • cometer alguma gafe ao cumprimentar alguém importante, e assim demonstrar sua ignorância. Caroline sentiu-se uma fazendeira isolada, coisa que realmente era, e um peixe fora d'água enquanto fazia reverências após reverências para a nata da sociedade inglesa. Apresentaram-lhe Lady Tillman, velha amiga do seu pai, e ela soube, por um comentário que seu tio fez para ela em voz baixa, que aquela mulher almejara casar-se com seu pai. Lady Tillman parecia-se muito com as outras convidadas, só que mais velha e mais cheia de corpo. Devia ter praticado suas expressões na frente de um espelho, deduziu Caroline, pela forma como demonstrava encanto, interesse e prazer cuidadosamente, com bastante lentidão. Caroline considerou-a chata e artificial e ficou decepcionada ao notar sua falsidade. Já seu pai, parecia estar verdadeiramente encantado pela mulher. Caroline chegou à conclusão de que Laày Tillman apenas suportava as outras pessoas. Então sentiu culpa ao lembrar-se da solidão do seu pai. Só por causa dele, procurou gostar daquela mulher de cabelos grisalhos e olhos castanhos, mas descobriu em breve que não poderia, principalmente quando a senhora mais velha se dissolveu em risadinhas muito bem controladas por causa de um comentário que não era nem um pouco engraçado. A filha de Lady Tillman era uma versão mais jovem da mãe, tanto na aparência como nas expressões. Parecia também ser uma pessoa de personalidade duvidosa, A mão de Rachel Tillman estava prometida a um rapaz, informou Lady Tillman a Caroline e Charity. Depois pediu ao conde para ir procurar o futuro marido da filha, e assim que ele retornou e ela lhes apresentou Nigel Crestwall, Caroline sentiu uma emoção nova por Rachel Tillman. Sentiu uma pena imensa dela.
  • Nigel Crestwall tinha os olhos de uma raposa astuta. Não olhou para Caroline apenas, devorou-a com os olhos. Ela sentiu-se totalmente constrangida diante dele e ficou aliviada quando Rachel o convenceu a dançar com ela, em tom lamurioso. O marquês estava começando a parecer cansado, e Caroline sugeriu que voltassem à sala de jantar para a sobremesa. Depois que eles se sentaram, o visconde de Claymere pediu licença, de um jeito bastante espalhafatoso, para entrar na roda; Terrence St. James solicitou que lhe apresentassem Caroline, e também se sentou com eles. Caroline cansou-se depressa da forma competitiva como o visconde e o ousado St. James procuraram monopolizar sua atenção. Olhando de relance para cima, surpreendeu Bradford olhando para ela do outro lado da sala. Uma mulher que Caroline só podia descrever como deslumbrante estava ao seu lado, com uma expressão de adoração no olhar. Bradford segurava uma taça de vinho e inclinou-a para cumpri- mentar Caroline, e talvez até erguer um brinde a ela, foi a impressão que a jovem teve. Ela cumprimentou-o com a cabeça, e estava para erguer o copo para retribuir o gesto, quando o visconde se inclinou e derrubou a taça de cristal, fazendo-a cair da sua mão. A toalha de linho ficou saturada de champanhe, mas Caroline não deu importância a isso, tanto se empenhou em acalmar o visconde. Ele fez uma cena e tanto, pedindo desculpas, e ela precisou morder a língua e ouvir tudo. Quando ele finalmente se tranquilizou, Caroline tornou a olhar para cima e viu que o duque de Bradford tinha se divertido muito com o incidente. Seu sorriso ia de uma orelha a outra. Caroline sorriu em retribuição ao sorriso dele, sacudiu a cabeça e voltou a conversar com o grupo. St. James insistia em pegar na sua mão o tempo todo, e ela precisava recolhê-la a todo instante. A festa finalmente estava terminando. Caroline abraçou o tio e
  • prometeu, pela décima vez, que iria visitá-lo depois de amanhã e tomar chá com ele. Ela e Charity então se despediram e disseram ao duque de Ashford que tinham adorado o baile. —Sobre o que o Bradford conversou contigo? — indagou Caroline quando o pai terminou de ouvir as descrições de Charity sobre o evento. —Ele virá visitar-te amanhã — anunciou o pai. Parecia bastante satisfeito. — Disse-lhe que ele era o quinto a vir me pedir permissão — acrescentou, com uma risadinha. — Ele não gostou nada disso, posso garantir-te. — Bradford está querendo cortejar Caroline — comentou Charity. —E eu lhe afirmo que a maioria dos mancebos de Londres está querendo a mesma coisa — disse o conde. — Mas tua prima não é a única que recebeu convites. Recebi também uma verdadeira torrente de pedidos para visitar-te, Charity. —Ah, recebeste, foi? — Charity não pareceu muito satisfeita com esse comentário do tio. —Sim, e devemos estudá-los todos juntos amanhã. Creio que recebereis flores as duas, e também bilhetes, embora tenham-se passado anos desde a última vez que cortejei alguém, e por isso pode ser que os rituais tenham mudado um pouco. É difícil manter-se a par da moda
 vigente, se é que me entendeis. A expressão alarmada de Charity aumentou ainda mais diante dos comentários do tio sobre os pretendentes adequados à sua mão, Caroline atraiu-lhe o olhar e sacudiu a cabeça, fazendo-lhe sinal para não dizer nada. Não queria tirar aquele prazer do pai e teria uma longa conversa com Charity assim que as duas estivessem a sós.
  • Charity entendeu a mensagem e balançou a cabeça afirmativamente. Caroline tentou concentrar-se na conversa do pai, mas o rosto de Bradford insistia em surgir a toda hora na sua cabeça. Ela de repente imaginou Clarence, seu pretendente de Boston. Clarence e Bradford rassaram a figurar lado a lado na sua imaginação, e Caroline soltou um gemido sem sentir. A comparação entre os dois era risível. Clarence ainda era um garoto, Bradford era um homem feito. Clarence sempre recordava a Caroline um dos potros novos da fazenda, desajeitado e terrivelmente inseguro de si sempre que estava perto dela. Bradford, por outro lado, recordava a Caroline seu garanhão predileto. Ela imaginou se, como o garanhão, ele também era resistente. Esse pensamento a fez deter-se. Será que o desejo que ele sentia por ela resistiria ao teste do tempo e das tribulações? Era uma comparação maluca, e Caroline culpou seu cansaço por essas ideias desencontradas. ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
  • Capitulo 6 Caroline havia resolvido falar com Charity sobre Paul Bleachley de manhã, depois que a prima estivesse descansada. Entrou no quarto dela para dizer boa noite e encontrou-a sentada na cama, apoiada em travesseiros fofos de pena de ganso, chorando com o rosto contra um deles, que mantinha apertado contra o peito. — Tinhas razão, desde o inicio — disse Charity a Caroline, entre um soluço e outro. — Ele não prestava mesmo. Estou tendo as ideias mais negativas do mundo, Caroline. Gostaria que fosses ao encontro dele comigo e lhe desses um tiro por mim. Caroline sorriu e sentou-se na beira da cama da prima. —Esta ideia é mesmo negativa — concordou. — Mas eu é que estava errada, não tu, Charity. De agora em diante, prestarei atenção ao que disseres, quando se tratar dos homens. Tua intuição foi perfeita. —Estás querendo mangar comigo? — disse Charity, enxugando os olhos na fronha do travesseiro e sentando-se com o tronco mais ereto. — Sabes de algo, não sabes? Conta-me! — Bleachley foi vitima da explosão de Boston. Lembras-te daquela noite, Charity? Quando o porto ardeu em chamas e vimos o clarão da janela do nosso quarto? —Sim, é claro que me lembro. Ai, meu Deus, conta-me o que houve com ele! — E o desespero de Charity fez Caroline contar o
  • resto da história rapidamente. —O que farei? — perguntou Charity quando Caroline terminou a narrativa. — Bradford contou-te que nem mesmo deixa os amigos irem visitá-lo. Coitado do meu Paul! Deve estar sofrendo muito! Durante vários minutos, Charity continuou chorando, até seu tra- vesseiro ficar ensopado. Caroline escutou-a até seu coração não conseguir mais aguentar os soluços. Procurou formular um plano qualquer, descartando uma ideia absurda após outra. Se ao menos Charity não fizesse tamanho escândalo ao chorar! E aí, de repente, tudo se encaixou. Sorriu para a prima e disse: —Se já terminaste de chorar, creio que temos uma saída. Significa que precisarei pedir ao Bradford um favor, mas não há escapatória. —Quê? — E Charity pegou as mãos de Caroline e apertou-as com toda a força. Embora fosse baixinha, apertava com uma força hercúlea. —Precisamos falar com Paul a sós e convencê-lo de que tu o amas, certo? Charity confirmou, balançando a cabeça com tanta veemência que seus cabelos se soltaram do coque no alto da cabeça. __Bradford vai conseguir que entremos na casa do Paul — anunciou Caroline, animada com o plano. Deixa que cuidarei disso. O resto é por tua conta, Charity. Meu plano exige que desempenhes um papel muito difícil. Precisas ser malvada. Porque bancar a boazinha estragaria tudo. —Não entendi — admitiu Charity, franzindo a testa. —Lembras-te da manhã em que eu trouxe o Benjamin para dentro de casa? —Lembro, sim. Fiquei tão assustada quando entrei na cozinha, e o
  • vi ali sentado, com aquela faca na mão! —Mas não demonstraste medo. E nem teus irmãos. Lembras-te de que Caimen apresentou-se e insistiu em apertar a mão do Benjamin? —Sim, mas o que isso tem a ver com Paul? —Deixa-me terminar — insistiu Caroline. — O Benjamin estava muito ressabiado, mas todos agiram como se fosse a coisa mais normal do mundo encontrá-lo ali. Aí a mamãe chegou, deu uma olhada nele e imediatamente declarou que iria lhe colocar ataduras nos ferimentos. O coitado do Ben não teve chance de escapar. Ela pôs curativos nele, alimentou-o e o pôs para dormir antes de ele poder dizer uma palavra sequer. Se me lembro direito, ele nem soltou a faca. Acho até que dormiu com ela naquele primeiro dia. Caroline sorriu, lembrando-se de como a sua tia havia sido cari- dosa, e continuou: — Bom, segundo a minha ideia, se tu disseres ao Paul... Quero dizer, se tu demonstrares compaixão ou piedade para com ele. simplesmente não vais chegar a lugar nenhum. — Ela continuou a explicação e, quando terminou, sentiu-se confiante de que iria mesmo dar certo. Elas conversaram durante uma hora, e Caroline finalmente anunciou que precisavam descansar. —Mas ainda não falamos da tua experiência na festa. Caroline. Preciso contar-te os elogios que fizeram a ti! Causaste um alvoroço tremendo. Todas as senhoras ficaram roxas de inveja. E todos os homens procuraram apresentar-se a ti através do teu pai, sabias? Ah, tenho tanto
 para te contar! Sabias que teu tio Franklin estava lá e nem mesmo veio cumprimentar-te? Estava sim — apressou-se Charity a
  • continuar. — Teu outro tio não, o marquês, ele é um velhote adorável! Até me mostrou o Franklin e depois acenou para chamar a atenção do irmão, mas o
 Franklin simplesmente nos deu as costas e foi para outro lado. —Talvez não vos tenha visto — comentou Caroline. —Ora, eu não estava de óculos na hora, mas vi que ele fechou a cara. Não estava tão longe assim. Foi estranhíssimo, mas já disseste várias vezes que os ingleses são esquisitos, portanto vou usar essa explicação para justificar essa falta de educação do homem. —Estranho — respondeu Caroline. — Nem mesmo o conheço, e parece até que ele... —Já te contei que ouvi dizer que Bradford nunca vem aos bailes? Acho que o único motivo pelo qual ele estava lá hoje é porque sabia que virias. Não sacudas a cabeça para mim assim — ralhou Charity. — Avisei-te que ele iria querer cortejar-te. Antes disseste que irias confiar
 nos meus instintos, lembra? Agora precisas admitir que estás te sentindo atraída por ele. Pelo amor de Deus, Caroline. Encontrei os dois se beijando na varanda. Além disso, vi como o acompanhavas com o olhar, quando pensavas que ninguém estava notando. — Dei tanto na vista assim, foi? — perguntou Caroline, mortificada. —Só para mim, porque te conheço muitíssimo bem — respondeu Charity. —Estou mesmo sentindo atração por ele — admitiu Caroline. — Mas ele me deixa nervosíssima. Charity sorriu e deu tapinhas maternais na mão da prima.
  • — Charity, não achas que desde que cheguei na Inglaterra todas as minhas convicções se inverteram? Sinto-me como se estivesse pendurada de cabeça para baixo. Acreditava com toda a certeza que voltaria para Boston... Lembras-te de como vivia declarando que voltaria para lá? E agora aceito mansamente a ideia de morar por aqui. E aí conheço Bradford, considero-o um tipo arrogante e dominador, e agora admito que estou gostando desse mancebo! O que há comigo? — Acho, minha irmã, que estás aprendendo a ceder. Só isso. Nunca gostaste de transigir em nada. Creio que isso faz parte do processo de se tornar mulher. Caroline lançou-lhe um olhar exasperado, e Charity riu. - Sei que pareço uma senhora já idosa e experiente falando assim, mas creio que estás te apaixonando, Lynnie. Creio mesmo. Não faça cara de horrorizada. Não é o fim do mundo. — E discutível — anunciou Caroline. E ficou de pé, espreguiçan- do-se. — Dorme bem, Charity. Eram mais de três horas da madrugada quando Caroline finalmente conseguiu deitar-se. Sua cabeça estava repleta de perguntas, todas sobre Bradford. Por que seria um milagre assim tão grande o fato de ele sorrir? Ela precisava lembrar-se de lhe perguntar isso. E aí caiu no sono, com um sorriso nos lábios. Caroline despertou ao raiar da aurora, como fazia sempre, e sentiu-se mal ao olhar-se no espelho. Mal tinha dormido quatro horas, e pelas olheiras, não haveria como negar. Pôs um vestido de passeio bege com decote arredondado. Depois atou os cabelos, formando um rabo de cavalo, e desceu as escadas para tomar uma xícara de chá. A sala de jantar estava vazia, e não se via sequer sinal de chá. Caroline
  • percorreu o longo corredor e finalmente encontrou a cozinha. Uma mulher, que Caroline presumiu ser a cozinheira, estava sentada em uma cadeira perto da lareira. Caroline anunciou sua presença e depois olhou a sala imensa ao seu redor. A poeira e a sujeira que encardiam as paredes e cobriam o chão deixaram-na alarmada, e ela sentiu que estava ficando furiosa com aquela falta de higiene. — Meu nome é Marie — disse-lhe a cozinheira. — É minha pri- meira semana de trabalho aqui na casa. Estou vendo que está fazendo cara de desaprovação para a sujeira, mas ainda não tive tempo de limpar nada... Caroline lançou-lhe um olhar penetrante, e a cozinheira, aos poucos, começou a mudar de comportamento. — E melhor que saiba logo o meu problema. Estraguei a comida de novo. — Caroline não conseguia notar raiva na voz da moça e ela estava triste. —Isto aqui está que é um verdadeiro chiqueiro — respondeu Caroline. —O pão não está bom — respondeu a cozinheira. — Vou ser .despedida, e aí, o que farei? — E começou a chorar, usando a bainha do avental sujo para enxugar os olhos. Caroline não sabia como reagir. A mulher pareceu-lhe totalmente histérica. —Não lhe explicaram quais eram seus deveres quando aceitaste o cargo? — indagou Caroline. A pergunta pareceu causar ainda mais nervosismo à mulher, que começou a soltar altos soluços. —Acalme-se! — A voz de Caroline saiu meio áspera, e a cozi- nheira reagiu procurando recuperar o fôlego. —Menti, e o Toby me ajudou a escrever minhas referências — ad- mitiu ela. — Foi desonestidade minha, sim, senhora, mas estava
  • desesperada para encontrar um emprego, e só consegui pensar em fazer isso. O Toby não ganha o suficiente para pagar nossas despesas, entende, e eu preciso garantir mais uns xelins para alimentar meu pequenino Kirby. —Quem são Toby e Kirby? — indagou Caroline. Agora sua voz havia se suavizado, e demonstrava preocupação. Marie pareceu-lhe uma mulher honesta, por confessar seu embuste, e Caroline sentiu pena dela. —Meu marido e meu filhinho — respondeu Marie. — Cozinho para eles, e eles nem reclamam, e achei que ia ser capaz de agradar ao conde — continuou. — Agora ele vai me demitir, e não sei o que será de nós! Caroline parou para avaliar Marie um instante. Ela parecia re- sistente, embora fosse magra, mas Caroline deduziu que era porque provavelmente não podia comer nada do que preparava. —Vai contar ao teu pai, senhorinha? — indagou Marie, enquanto torcia o tecido do avental em torno dos dedos. —Quem sabe podemos chegar a algum acordo — respondeu Caroline. — Ate que ponto irias para ficar trabalhando aqui como cozinheira? —Faria qualquer coisa, senhorinha, qualquer coisa — disse Marie, mais do que depressa. Pela expressão esperançosa nos seus olhos, Caroline entendeu que a mulher não era muito mais velha do que ela. Sua pele ainda não tinha rugas. Só seus olhos pareciam velhos, velhos
 e cansados. — Conheceste meu amigo Benjamin, não? — perguntou ela. Marie confirmou. — Disseram-me que ele a protegeu — respondeu Marie.

  • Obviamente Benjamin ou o pai dela tinham mencionado o relacionamento entre os dois, e Caroline confirmou: — E verdade — disse ela. — Mas ele também é muito eficiente na cozinha. Vou pedir a ele para preparar as refeições, e tu vais observá-lo e aprender com ele. Marie voltou a assentir e prometeu fazer tudo que Benjamin quisesse. Benjamin sorriu quando Caroline explicou a situação a ele, a única reação que revelou era ter gostado de saber que ia poder ajudar. Caroline jamais teria sugerido que ele assumisse o cargo de cozinheiro temporariamente se não soubesse o prazer que ele sentia em criar pratos especiais. Quando Mare e Benjamin definiram quais seriam suas posições na cozinha, tudo passou a correr tranquilamente. Marie parecia muito humilde e agradecida, e Benjamin fingia que ela nem estava lá. Caroline deixou os dois trabalhando e foi tomar uma xícara de chá quentinho na sala de jantar para esperar o pai. O conde de Braxton entrou na sala de jantar uma hora depois. Ca- roline sentou-se em sua companhia enquanto ele comia o que chamou de o desjejum mais fantástico da sua vida. Depois ele repassou a pilha de recados que tinham chegado pela manhã. Caroline recebeu um mar de flores, e pediu uma audiência imediata com o pai. —Mencionei que o duque de Bradford virá visitar-te às duas da tarde? — indagou o pai. —Às duas? — exclamou Caroline, assustada. Ficou de pé num pulo, passando as mãos nos cabelos, quase distraidamente. — Mas é daqui a duas horas! Preciso mudar de roupa neste instante! O pai dela concordou, depois avisou, quando ela ia saindo: — Esta noite vamos comparecer a um banquete oferecido pelo visconde de Claymere e sua família.
  • Caroline parou à porta de saída da sala. — Não é aquele cavalheiro meio desajeitado que conheci ontem à noite? Quando o pai confirmou, Caroline revirou os olhos para o teto. — Então não vou usar o vestido marfim esta noite. Ele na certa vai derramar alguma coisa nele e manchá-lo. Uma pena não estar na moda a cor preta — disse, olhando para trás. Bradford atrasou-se quinze minutos. Caroline estava andando de um lado para outro no vestíbulo principal. Ouviu Deighton cumprimentá-lo como 'Sua Graça', e depois as portas se abriram e ele surgiu. Seu corpo másculo pareceu-lhe extremamente bem torneado na- quele traje de equitação. As calças de camurça eram tão justas quanto da última vez em que ela o vira com elas, e ela sorriu sem querer diante da beleza daquele homem. O blusão dele era cor de chocolate bem escuro, contrastando com o branco imaculado do plastrão. Suas botas de montaria estavam polidas à perfeição, e Caroline calculou que, caso se inclinasse, poderia ver nelas o reflexo de seu próprio rosto. Ele obviamente havia se vestido com todo o cuidado, mas ela também, admitiu Caroline. Ela usava um vestido de cor lavanda com mangas engomadas. O decote era quadrado, de cor azul, mais escura. Mary Margaret havia lhe enrolado os cabelos, formando um aglomerado de cachos na altura da nuca, com cachinhos a emoldurar-lhe os lados do rosto. Caroline percebeu então que estava olhando fixamente para Bradford, e ele também estava olhando para ela, admirado. Ela ergueu a bainha da saia, mostrando os sapatos de couro azuis, e fez uma cortesia formal. — Estás atrasado, milordf, o que o deteve?
 Aquela rudeza dela produziu um sorriso. —E tu estás adiantada. Não sabes que uma senhora de boa edu-
  • cação deve deixar seu pretendente esperando pelo menos vinte minutos, para não dar a impressão de estar excessivamente ansiosa? —E tu és meu pretendente? — perguntou Caroline ao aproximar-se dele. Bradford viu os olhos dela cintilando, travessos e belos, e concordou. —E tu, estás ansiosa demais? — replicou. —Mas claro — respondeu Caroline. — Sei que és rico e respeitado, portanto naturalmente sinto-me ansiosa. Não é nisso que acreditas? — E riu da expressão dele, achando que estava se sentindo tremenda mente sem jeito. —Nem mesmo a cumprimentei como se deve, e já estás aí me espicaçando — disse Bradford, soltando um forte suspiro. —Pensei que tivéssemos acabado de nos cumprimentar — contra- disse-o Caroline. Ela começou a deixar de sorrir e de flertar quando o duque de Bradford começou a avançar em sua direção a uma velocidade alarmante. Caroline recuou, e teria evitado que ele a agarrasse se não
 fosse por um canapé que bloqueava a passagem. Bradford pegou Caroline pelos ombros e vagarosamente a puxou para junto de si. Sua intenção estava claríssima, e Caroline procurava desesperadamente afastá-lo, enquanto espiava por cima do seu ombro. As portas estavam escancaradas, e o pai podia entrar a qualquer momento. Ela sabia que Deighton tinha ido lhe avisar que Bradford tinha chegado. Certamente não seria adequado encontrá-la em uma atitude tão comprometedora. __Meu pai... — e Caroline interrompeu-se, sem ter tempo para pensar.
  • Bradford apossou-se de sua boca, dando-lhe um beijo ardente e embriagador que imediatamente afastou da cabeça da moça qualquer boa intenção. Ela reagiu quase de imediato, segurando o rosto de Bradford com as duas mãos. O beijo acabou com qualquer ideia de rebelião da parte dela, e quando Bradford se afastou dela, Caroline decepcionou-se. Seu rosto deve ter lhe mostrado isso, pois ele começou a rir. —Por que não me beijaste do mesmo modo que ontem à noite? — indagou Caroline. Percebeu que ainda estava lhe tocando o rosto e deixou as mãos caírem. —Porque depois que eu a beijo daquele modo — disse ele, usando as mesmas palavras escolhidas por ela com um sorriso carinhoso — não sinto vontade de parar. Conheço meus limites — continuou ele. — Estás insinuando que eu poderia fazê-lo descontrolar-se?
 Bradford percebeu no olhar cor de violeta dela um certo ar travesso, e voltou a pensar em como ela era inocente. Ela queria provocá-lo, e não fazia a menor ideia de como era verdade o que dizia. Ela era capaz de fazê-lo perder o controle, sim. — Como não respondes, só posso concluir que poderia! — disse Caroline, rindo, unindo as mãos, e andando a requebrar-se até uma das poltronas bergère que ladeavam a lareira de mármore. — Isso me faz muito poderosa, não, milorde? E olha que minha estatura é só metade
 da tua. Bradford sentou-se na outra bergère e estendeu as pernas longas e musculosas diante de si. Uma bota cruzou-se sobre a outra em uma posição relaxada, enquanto ele pensava que resposta daria a Caroline. Ficou olhando a moça assim durante um minuto inteiro, de modo que ela chegou a considerá-lo melancólico. —Está bem — disse Caroline, suspirando. — Não estás com
  • vontade de aceitar provocações, e, além disso, tenho algo importante a te pedir antes de meu pai entrar. Preciso de um favorzinho seu, Bradford, e se concordares, serei para sempre tua devedora. — Caroline pôs as mãos
 uma sobre a outra no colo e esperou a resposta de Bradford. —Para sempre? — indagou Bradford, uma das sobrancelhas erguida. — É muito tempo para dever algo a alguém. —Exagerei — admitiu Caroline. — Gostaria que acompanhasses Charity e eu até a casa de Paul Bleachley e nos ajudasse a entrar. Bradford sacudiu a cabeça, com pena de ter que lhe negar esse favor. —Paul jamais concordaria. —Não, não estás entendendo — argumentou Caroline. Ficando de pé, começou a andar de um lado para outro. — Aliás, é até imprescindível que Paul se recuse a nos deixar entrar! Planejo surpreendê-lo. — Parou na frente de Bradford e sorriu. — E um plano muito simples,
 sabes? — disse ela. Quando Bradford franziu o cenho de novo, Caroline viu-se ficando cada vez mais frustrada. Seu pai chegaria a qualquer instante, e ela queria ter terminado de combinar o que seria feito. Pôs as mãos nas cadeiras. — Eu planejei tudo isso — explicou — só pensando
 na minha prima... e no Paul também. Estou fazendo o que é melhor para ambos. Essa declaração causou uma reação. Bradford até começou a rir. __ E só tu sabes o que é melhor para eles? — perguntou, quando conseguiu controlar-se. __ Vives rindo de mim — murmurou Caroline, deixando que ele percebesse o desespero na sua voz. E ao ouvir o pai descendo as escadas,
  • tentou apressá-lo. — Por favor, concorda, Bradford. Sei mesmo o que estou fazendo. Tudo vai ser feito com a máxima consideração! Caroline viu então que parecia estar implorando. Suas costas rete- saram-se, e ela lançou a Bradford o que torcia para ser um olhar firme. __ Não vais me fazer desistir, só terei paciência — sussurrou. Tinham sido as mesmas palavras de Bradford para ela na noite anterior, embora o assunto fosse bem diferente. O conde entrou no vestíbulo e sorriu. Bradford estava rindo, e Caroline parecia bastante satisfeita consigo mesma. Durante a hora seguinte os três conversaram descontraidamente. O pai de Caroline não tinha intenção de sair antes de Bradford, e Caroline não conseguia pensar em um jeito de conseguir falar a sós com o duque. Tanto o pai quanto a filha acompanharam. Bradford até a porta de entrada. — Esperarei ansiosa um bilhete teu — disse Caroline, dando-lhe uma deixa. — Antes de amanhã à noite — acrescentou — senão serei obrigada a marcar outros compromissos. — Vais ao jantar na casa dos Claymere esta noite? — perguntou o conde a Bradford. — Deve ser um evento bastante interessante. A pequena Clarissa vai tocar espineta e a irmã vai cantar. Bradford não conseguia imaginar nada mais divertido. — Vou usar o avental da cozinheira para o visconde não estragar meu vestido — comentou Caroline. O pai lançou-lhe um olhar que fez com que ela sentisse que seu comentário não era apropriado, e Caroline baixou o olhar, envergonhada. Realmente precisava aprender a manter a boca fechada, pensou. Seria possível que estivesse virando uma taga rela como a Charity, revelando cada pensamento que lhe passava pela cabeça? Bradford gostou da piada dela. —Tanto Milford quanto eu compareceremos — prometeu ele, en-
  • quanto imaginava, ao mesmo tempo, como iria arrancar um convite dos Claymere. Sabia que o visconde queria cortejar Caroline. Naturalmente, não poderia permitir isso. Caroline Richmond pertenceria apenas a ele, Jered Marcus Benton, e a mais ninguém. —Será possível que todas as festas começam depois da hora de dormir? — perguntou Caroline ao pai. E bocejou. O balanço da carruagem fechada embalava-a, deixando-a sonolenta. —Tu é que te levantas cedo demais — comentou Charity. — Dormi até o rneio-dia e estou me sentindo maravilhosa — acrescentou. — Caroline, belisca de novo tuas faces. Estás pálida. Caroline obedeceu, bocejando outra vez, — Acho que as duas irão se divertir esta noite — anunciou o conde. — A família Claymere é muito acolhedora. Eu te contei que as irmãzmhas do visconde vão tocar e cantar para nós? Caroline confirmou que tinha ouvido. Fechou os olhos e cochilou durante o resto da viagem, ouvindo a conversa que fluía entre o pai e a prima. Charity estava animada, pois o bilhete de Bradford chegara no início da noite. Estava redigido em uma caligrafia rebuscada, e ia dire-to ao ponto. Ele dizia que chegaria às dez da manhã e acompanharia Charity e Caroline até a casa de Bleachley. Na última linha, indagava: "E consideração suficiente para ti?" Depois de receber o bilhete de Bradford, Caroline explicou a situ- ação ao pai. Ele concordou em permitir que ela fosse, mas acrescentou que precisaria estar de volta à uma da tarde para que fossem tomar chá na casa do tio, à tarde. Bradford não chegou antes deles à festa dos Claymere, deixando Caroline decepcionada. O visconde ocupou-lhe o tempo e despertou-a
  • totalmente. Pisou nos pés dela mais de uma vez, e suas desculpas doíam mais do que o machucado. Ele simplesmente não sabia quando parar, e Sua delicadeza fazia Caroline perder a paciência e pensar em outra coisa. Bradford chegou apenas minutos antes de o recital começar. Caro- line sentou-se na última fila, com Charity de um lado e o pai do outro. Não foi por acaso. Caroline tinha obrigado os dois a se sentarem dos dois lados dela para o visconde desistir e ir procurar outro lugar. A pequena Clarissa devia pesar bem uns 25 quilos além do que devia. Levou muito tempo se preparando, depois começou a tocar, sem parar, até Caroline perder a conta do número de vezes que ela recomeçou. A coitada estava procurando dar tudo que tinha, mas tudo que conseguiu foi provar que não tinha o menor talento para a coisa. Caroline fechou os olhos e tentou escutar. E aí caiu no sono. Bradford apoiou-se na parede do outro lado da sala, tentando não deixar o rosto revelar seus pensamentos. Estava jurando para si mesmo que, se aquela menina recomeçasse aquela bendita música do princípio só mais uma vez, atravessaria a plateia de um só pulo, agarraria Caroline e iria até a porta. Milford entrou, contornou o grupo e veio ficar de pé ao lado do seu amigo. —Do que estás rindo? — indagou ao amigo em voz muito baixa para não perturbar a garotinha Claymere. —Do fato de estar aqui. suportando esse assassinato de uma peça de Mozart, só para poder estar perto de Caroline — admitiu Bradford. — E onde está ela? — indagou Milford, olhando ao seu redor.
 Bradford olhou para a última fila, e começou a rir. Várias pessoas olharam para ele, e ele as cumprimentou com a cabeça procurando a todo custo recuperar sua expressão de indiferença.
  • ! __Ela está no meio da última fileira, dormindo. —Está mesmo — murmurou Milford, soltando uma risadinha de leve. — Esperta, essa moça. Caroline dormiu durante todo o recital de Clarissa. Fez-se uma ligeira agitação, um breve intervalo, enquanto Clarissa aguardava a irmã se preparar para seu número. O conde de Braxton aproveitou a oportunidade para mudar de lugar, pois estava louco para escutar Catherme Claymere. O visconde tinha garantido que Catherine era uma cantora esplêndida, e tinha uma voz de soprano muito nítida. Quando Charity seguiu o tio, tanto Bradford quanto Milford sentaram-se em seus lugares. Bradford sentou-se à direita de Caroline e Milford à esquerda. —N ó s a c u t u c a m o s p a r a a c o r d á - l a ? — i n d a g o u Milford,travesso. —Só se ela começar a roncar — respondeu Bradford. — Meu Deus, corno ela fica linda assim adormecida — disse. —Ainda estás procurando esquecê-la? — perguntou Milford, fingindo interesse. Bradford não respondeu. Tinha pensado, no início, que iria tirar dela o que queria e depois deixá-la, passá-la adiante. O plano agora parecia-lhe desagradável. Ele foi poupado de responder à pergunta de Milford quando Clarissa começou a tocar a introdução da música que sua irmã cantaria. Quase chegou a ser agradável até Catherine abrir a boca e começar a cantar. O som era estridente demais. Bradford, porém, até que gostou, pois aquele guincho pavoroso acordou Caroline. Ela pulou visivelmente, agarrou a coxa de Bradford e soltou um gntinho de susto.
  • Depois se lembrou de onde estava e do que estava fazendo. Corou, mais porque tinha adormecido do que por sua odiosa reação àquela mulher que guinchava feito um pássaro aprisionado. Bradford pôs sua mão sobre a dela, e só aí ela percebeu onde a havia colocado. Recolheu-a, lançando-lhe um olhar vexado, e virou-se imediatamente para sorrir para Milford. — Conta-me o teu segredo, para eu poder dormir também durante essa sessão de tortura — sussurrou Milford. Caroline precisou inclinar-se para o lado dele para ouvir o que dizia, e viu-se subitamente puxada por Bradford. Pondo as mãos uma por cima da outra no colo, ela fingiu que não o via, olhando direto para frente. Bradford espichou-se e, antes que ela o detivesse, já estava com o braço passado em torno de seus ombros. Ela tentou afastá-lo, mas foi inútil. —Comporta-te — murmurou para ele. — O que os outros vão pensar? —Que és propriedade minha — disse Bradford. Seus dedos co- meçaram a massagear a nuca de Caroline e ela viu-se combatendo a sensação inebriante produzida por esse gesto. —Teu amigo não tem educação nenhuma mesmo — disse ela ao sorridente Milford. — Já lhe disse isso em inúmeras ocasiões — retrucou Milford, baixinho. Ela viu. pela expressão abobalhada do rosto do amigo de Bradford, que daquele mato não sairia coelho, e suspirou, exasperada. Depois tentou levantar-se, com a intenção de encontrar outro lugar para sentar-se. Iria sentar-se na primeira fileira, e aturar aquela voz estridente de Catherine, se fosse preciso, com a ajuda de Deus. Bradford não permitiu que ela se movesse. Aplicou-lhe uma sutil
  • pressão nos seus ombros. — Realmente gostaria de me retirar — murmurou Caroline, e tentou outra vez fazê-lo desviar os olhos, tentando obrigá-lo a envergonhar- se. Mas não deu certo, pois Bradford simplesmente lhe retribuía o olhar, descaradamente, com um sorriso oblíquo que a deixava toda derretida. Quando Catherine terminou de cantar, as pessoas aplaudiram por uma questão de educação. Várias delas começaram a se levantar, inclusive Bradford e Caroline, mas aí Catherine começou outra canção. Todos se deixaram cair de novo em seus lugares — menos Caroline, que aproveitou aquela oportunidade para se afastar da fileira onde estava sentada antes, e sorriu porque Bradford não pôde fazer nada para detê-la. Ela subiu as escadas correndo, depois de perguntar à criada onde poderia encontrar um espelho para se mirar. Várias pessoas estavam conversando no térreo, mas o segundo andar estava curiosamente deserto. No final de um comprido corredor, Caroline encontrou o toalete. Nele havia um espelho de corpo inteiro, e Caroline demorou-se por lá um bom tempo, arrumando-se toda. Não precisou beliscar as faces para lhes dar cor agora. Bradford tinha lhe melhorado bastante a palidez só por estar presente, pensou. Ele a fazia enrubescer por dentro e por fora! Caroline abriu a porta e viu o corredor escuro. Alguém tinha apa- gado as velas que levavam até as escadas. Ela achou aquilo esquisito e cautelosamente percorreu o corredor. Tinha acabado de chegar ao patamar das escadas quando pensou ter ouvido um ruído abafado atrás de si. Começou a virar-se, a mão esquerda pousada delicadamente no corrimão, quando de repente foi empurrada para frente. Nem mesmo houve tempo para ela gritar. Ela literalmente saiu voando e ficou tentando desesperadamente agarrar o corrimão. Fez um esforço para virar o corpo e seu cotovelo bateu no corrimão,
  • levando a pancada mais forte. Ela acabou aterrissando sentada, com grande estardalhaço. Um de seus sapatos prendeu-se na bainha do vestido, rasgando-o, mas isso não a preocupou tanto quanto o fato de que seu decote também se rasgou todo. Ela tinha causado esse acidente, percebeu, ao instintivamente agarrar o cotovelo para aliviar a dor da primeira pancada. Seus dedos tinham se prendido na fita entrelaçada nos passadores do corpete. Caroline ficou sentada no meio das escadas, os cabelos desgrenhados a lhe rodearem os ombros. Esfregou o cotovelo, dolorida do alto da cabeça até as pontas dos artelhos. Suas pernas tremiam, mas ela fez força para se levantar, agarrando-se ao corrimão com uma das mãos, enquanto puxava o pano do corpete do vestido para cima com a outra, de modo a esconder o peito. A única salvação para aquele vexame era o fato de ninguém tê-la visto. A dor foi vagarosamente passando, embora ela se sentisse como quem tinha acabado de levar uma surra de mil mãos. E aí a raiva se manifestou. Caroline virou-se, gemendo quando esse movimento causou-lhe dor, e olhou para o alto das escadas. Eram muito longas. Ela podia ter quebrado o pescoço! E aí tudo se encaixou na sua cabeça. Alguém tinha tentado lhe quebrar o pescoço mesmo. Foi Bradford quem a encontrou. Quando percebeu que Caroline estava demorando a voltar para o salão, começou a ficar alarmado, até Milford lançar-lhe olhares de desaprovação. - Por que ela está demorando tanto? — murmurou Bradford. E aí achou que talvez ela tivesse sido interceptada por algum outro pretendente. Ao pensar isso, levantou-se, pisando nos sapatos do Milford, sem nem mesmo parar para pedir desculpas por aquela falta de educação. Agora curioso, Milford seguiu o amigo, tentando não dar na vista seu estremecimento quando Catherine Claymere atingiu uma nota
  • agudíssima. — O que é que aconteceu, meu Deus... — Bradford ficou parado ao pé das escadas, uma expressão confusa no rosto. Ela parecia ter acabado de transar em algum estábulo. A única coisa que faltava era a palha nos seus cabelos. E, pensou com ceticismo, o homem para quem ela tinha dado. Ele sabia que estava se precipitando, mas ela estava ali, diante dos seus olhos, com o peito todo exposto, o vestido rasgado, indicando que tinha se comportado de forma bastante imprópria. Quanto mais pensava no assunto, menos sentido aquilo tudo fazia. E mesmo assim... Caroline percebeu quais eram as emoções que se manifestavam naquele momento no rosto de Bradford. E decidiu que ele e Milford já haviam ficado ali olhando para ela bastante tempo. Enxugou as lágrimas dos cantos dos olhos, e então notou que Milford estava com a mão no braço de Bradford. Ora essa, até parecia que Milford estava tentando deter o amigo! — Cavalheiros de verdade não ficam olhando embasbacados assim para ninguém. Oferecem a uma dama em apuros sua ajuda — disse Caroline com tanta altivez quanta foi capaz de conjurar. Bradford foi o primeiro a sair do seu estupor. Empurrou a mão de Milford para o lado e começou a subir as escadas. — Deixe-a explicar, Bradford — insistiu Milford, em um sussurro desesperado, enquanto seguia o amigo. Parou para pegar um dos sapatos de Caroline, que estava no meio do caminho. Bradford tentou fazer uma cara mais calma, mas estava tão furioso que sabia que não ia conseguir. Só queria pôr as mãos no homem que tinha feito aquilo, e já! Tirou a casaca e colocou-a sobre os ombros de Caroline em questão de segundos. — Quem estava lá em cima contigo? — indagou Bradford. Sua voz saiu enganadoramente calma. Caroline olhou para Milford, na esperança de que ele pudesse explicar o estranho comportamento do seu amigo, e viu que
  • Milford estava lançando a Bradford um olhar preocupado. Bradford agarrou os ombros de Caroline. Seu rosto irradiava fúria pura. A voz de Catherine Claymere passou pelas portas, penetrante, aumentando de volume. — É melhor sairmos daqui antes que essa rapariga dos Claymere termine. Ali embaixo tem muita gente desesperada, só querendo uma chance para escapar. — Milford tentou aliviar a tensão do seu amigo e achou boa ideia levar ambos para fora antes de Bradford dar vazão a sua fúria. Caroline virou-se para Milford, ignorando o aperto de Bradford. — O que ele pensa que aconteceu? Milford deu de ombros enquanto Bradford tomava Caroline nos braços. — Diz ao Braxton que Caroline rasgou o vestido e estou levando-a para casa. — Sua voz era áspera, sem admitir nenhum argumento. Depois olhou para Caroline e disse: — Quando estivermos lá fora, me diga o nome do homem que fez isso, que eu... — Achas que eu estava lá em cima com um homem? — E de repente ela começou a entender tudo, e seus olhos arregalaram-se. — Ele acha que eu me encontrei com alguém lá em cima e que nós... — Bradford começou a descer as escadas a toda velocidade, e Caroline agarrou-lhe os ombros. — Bradford — disse ela, ao tentar virar a face dele para si, __ eu caí da escada. — E imediatamente ficou furiosa por lhe dar uma explicação. — Naturalmente, foi depois do meu encontro secreto. O homem, aliás, era incrível... e muito rápido — ralhou Caroline. Ouviu Milford rir atrás de si, mas fingiu que não tinha ouvido nada, e continuou a provocar Bradford. — Também tinha ideias um tanto incomuns. Até insistiu em rasgar a bainha do meu vestido e atacar meus pés. Um jeito um tanto
  • estranho de demonstrar afeto, não concorda? __ Não podes falar mais baixo? — Bradford exigiu. Sua voz tinha perdido a aspereza e sua expressão tinha se suavizado. — Estás come- çando a parecer a senhorita Claymere. Eles tinham ido até a porta da frente, e Milford correu para abri-la e fechá-la depois que eles passassem. Daria o recado de Bradford ao pai da moça. mas só depois que eles tivessem partido. Não queria perder nada. Tinha um palpite sobre esses dois, e queria ver se estava correto. __ Podias ter te ferido — murmurou Bradford contra os cabelos Bradford roçou a mandíbula na cabeça da moça, e Milford ; inchado de tanta satisfação. Raramente errava nos seus palpites, e perguntou-se quando é que Bradford iria reconhecer o que estava acontecendo com ele. Bradford ouviu Milford casquinando, e virou-se para fuzilá-lo com o olhar. __ Ela podia ter se matado, homem. — Eu me machuquei, sim — interrompeu-o Caroline, querendo algun consolo. __ Bati com o cotovelo e caí sentada... __ O que houve meu amor? Usas óculos, como a Charity? __Sua voz estava cheia de ternura e compaixão, e isso para Caroline foi a aota d água. __ Foi terrível __ confessou ela, pensando que estava causando bastante piedade . Seus olhos encheram-se de lágrimas, enquanto ela pensava em como tinha ficado aterrorizada, e aí percebeu que ele tinha usado um termo carinhoso com ela. — E não te dei permissão para me chamar de meu amor. A carruasem de Bradford chegou e Milford apressou-se a abrir a
  • porta. __Protege a cabeça dela, Brad — avisou ele, apenas segundos antes de Caroline abaixar a cabeça. Ela precisou encostar a face contra o ombro de Bradford, e gostou dessa sensação de imediato. O aroma provocante dele era bem gostoso, pensou ela com um discreto sorriso. Ele acomodou-a no seu colo, lembrou a Milford como explicar o caso ao pai dela. e depois inclinou-se para diante, satisfeito por poder segurá-la bem perto de si. Inspirou a fragrância especial dela, e não conseguiu conter um suspiro de satisfação. Segurá-la assim pareceu-lhe ideal, mas ele estava ficando cada vez mais insatisfeito. Segurá-la era bom, mas Brad queria mais, muito mais. A carruagem partiu, e Caroline, relutante, retesou o tronco, sentando- se ereta. Bradford olhava-a com uma expressão que nada escondia, e Caroline começou a tremer outra vez. —Este teu jeito de me olhar não é nada bem-comportado — murmurou Caroline. O rosto dela estava a apenas alguns centímetros do dele, mas mesmo assim ela não podia afastar-se mais. Nem queria, admitiu para si mesma, enquanto aproximava as lapelas da casaca dele
 ainda mais de seu peito. —Nunca tive fama de ser bem-comportado — respondeu Bra- dford. A voz dele era doce como o mel. — E esse é um dos requisitos para ser seu pretendente, não? —Também és malicioso — comentou Caroline, tentando quebrar o feitiço que ele estava lançando sobre ela. —E por que chegaste a tal conclusão? — perguntou Bradford, erguendo uma das sobrancelhas, curioso. —Porque concluíste que eu tinha cometido alguma indecência respondeu Caroline. — Não faças esta cara de inocente,
  • Bradford!__continuou ela, quando ele lhe dirigiu um dos seus sorrisos sonsos. — Só por um momento, e não achei que tinhas te comportado mal — explicou ele. E aí afastou os cabelos dela do rosto, ajeitando-os com delicadeza. — Imaginei que alguém havia tirado vantagem da situação e tentado te forçar a ceder — prosseguiu. Caroline sacudiu a cabeça. — Sempre pensas o pior das pessoas? — perguntou ela, franzindo o cenho. — Isso também é malícia. Bradford soltou um suspiro fingido. — Será que há em mim pelo menos uma coisa de que gostes? — indagou. A ponta de um dedo dele traçou uma longa linha na lateral do rosto dela. Caroline sentiu os braços se arrepiarem e empurrou a mão dele para longe de si. Queria, mais do que qualquer coisa no mundo, que Bradford a beijasse. — Gosto do jeito como me beijas — sussurrou ela. — Seria in- decência admitir isso? Bradford não respondeu. Em vez disso, pegou o rosto dela entre as mãos e puxou-a para si. Sua boca acariciou a dela, suavemente, e produziu um suspiro de contentamento. Caroline abriu seus lábios e comprimiu o corpo contra Bradford. adorando sentir como ele era musculoso e resistente, deliciando-se ao sentir as diferenças entre os dois. Uma das mãos dele foi até o pescoço dela, e a outra desceu até lhe apalpar a cintura. Ele abriu sua boca, os lábios colados aos dela, e o beijo mudou de intensidade imediatamente. Bradford deixou de ser terno e passou a ser exigente, tomando o que ela lhe oferecia de tão boa vontade, tão inocentemente. O coração de Caroline começou a bater a toda velocidade, e ela viu que não conseguia respirar direito. Ele estava sugando dela toda a
  • lucidez, toda a cautela. A língua dela acariciava a dele, enquanto os dedos dele exploravam a textura macia dos cabelos da moça. Ela sentiu-se dominada por aquelas carícias, pelo aroma dele. Não queria que o beijo terminasse, protestou com um gemido baixo quando Bradford a custo conseguiu afastar os lábios dos dela. Ele suspirou fundo, na esperança de que isso arrefecesse o desejo cada vez mais forte que estava sentindo de possuí-la. Mas foi em vão. Ela lhe parecia tão macia, tão incrivelmente gostosa de apertar contra si... Aí ele resolveu dar uma de genuíno cavalheiro, colocá-la no banco diante de si e proteger a inocência dela como qualquer nobre que se prezasse faria, mas depois fitou os olhos dela, e o olhar era sequioso, como se ela tivesse acabado de despertar para os prazeres físicos que um homem e uma mulher podem compartilhar. Bradford foi obrigado a beijá-la de novo, dizendo a si mesmo que esse beijo seria o último deles naquela noite, e viu, quando sua língua tocou a dela, quando a excitação imensa que sentia transformou-se de repente em uma paixão nua e crua entre os dois, que não poderia deter-se. Seus dedos desceram, roçando o pescoço esguio dela, hesitando uma fração de segundo antes de continuarem, chegando até a curva suave dos seios. E aí ele se esqueceu completamente de que tinha pensado em agir como um cavalheiro. Caroline tentou protestar contra essa nova forma de intimidade, lutando contra o que sentia. A boca de Bradford passou para o lado do pescoço dela, e o bafo quente e sensual dele aqueceu-lhe a orelha enquanto sua língua a confundia e deliciava. Ele foi lhe beijando o pescoço até chegar aos seios, e Caroline não encontrou forças para impedi-lo. Sentia-se como se flutuasse nos seus braços, totalmente segura e protegida, e deixou a torrente de emoções arrebatar-lhe a atenção. Ela era totalmente inocente, e cada toque, cada beijo, abria um novo mundo de sensações. Instintivamente confiou em
  • Bradford, na certeza de que ele saberia quando parar. Ele estava lhe abrindo as portas desse mundo erótico, novo para ela, e Caroline achava que ele saberia quando era hora de deter-se. Ele é que era o experiente. — Caroline, tu és tão saborosa... — sussurrava Bradford, sua voz agora rouca de desejo. __ Tão macia, foste feita para o amor. — Sua língua circundava o mamilo de um dos seios dela, enquanto a outra mão acariciava o outro seio. Caroline contorceu-se nos braços dele, tentando evitar aquela deliciosa tortura, mas ao mesmo tempo agarrava-se aos seus ombros, numa súplica muda para que ele não parasse. Bradford imobilizou-a e finalmente conseguiu prender-lhe o mamilo, antes em constante movimento, entre seus lábios. Quando começou a sugá-lo, e sua língua começou a roçar a pele sensível da extremidade do bico do seio, Caroline pensou que fosse enlouquecer de tanto prazer. Estava começando a sentir uma frustração ardente bem no fundo de suas entranhas. Sentia uma necessidade que não conseguia definir, nem entender. Aquilo a apavorava, a tortura sensual que ele estava lhe infligindo, e ela começou a fazer força para se soltar. — Bradford, não! Agora precisamos parar! Ele calou-a com um beijo longo e apaixonado, e virou-lhe o corpo para encostá-la contra seu membro viril já ereto. Caroline ficou mais alarmada, percebendo que Bradford não tinha a menor intenção de encerrar aquela agressão carinhosa. — Eu te quero, Caroline, como nunca quis nenhuma outra mulher... Então ele lhe ergueu a saia e acariciou-lhe a coxa. Caroline sentiu-se como se estivesse sendo marcada com um ferro em brasa, de tão sensual que era sua carícia, sua sofreguidão. Afastou-se dele, bruscamente. Sua respiração estava tão irregular quanto a dele, embora a raiva tivesse
  • substituído a paixão. — Devias ter parado antes de chegar a esse ponto — sussurrou ela. Bradford levou uns instantes para entender essa observação de Caroline, tão consumido pela paixão estava. Quando conseguiu recobrar um mínimo de autocontrole, Caroline já estava no banco diante dele. uma vez mais com a casaca dele apertada contra o vestido rasgado. De repente, ela sentiu uma horrível vergonha. Tremia, e o nó que sentia dentro de si não se desfazia. Percebeu que sentia mesmo desejo por Bradford, e isso a deixava absolutamente horrorizada. Ela era uma dessas mulheres de taverna, pensou. Tinha esfriado agora, fria por dentro da vergonha que a penetrava, e por mais humilhante que fosse, começou a chorar. Meu Deus, fazia anos que não chorava, e era tudo culpa dele, droga. Ele é que tinha experiência, e devia saber o que estava fazendo! Bradford viu as lágrimas escorrendo pelas faces de Caroline, mas não sentiu inclinação para consolá-la. Estava sentindo uma dor terrível, e era culpa dela. Será que não percebia como era atraente? Não sabia a tentação que era estar a seu lado? Que tipo de pessoa tinha criado aquela menina, perguntou-se ele, cada vez mais furioso. Será que ninguém tinha procurado lhe explicar quais eram os limites do flerte? Ela tinha reagido com tanto ardor, que Bradford pensou que ela estava sentindo tanta necessidade de terminar o ato quanto ele. Sinceramente esperava que sim, pensou, irritado. Esperava que ela estivesse se sentindo tão excitada quanto ele se sentia. Caroline olhava Bradford com raiva enquanto enxugava as lágrimas do rosto com a beirada da casaca dele, torcendo para ele querer criticá-la por isso, para que então ela pudesse lhe dizer poucas e boas. Alisou o seu vestido e deslocou-se, soltando um gemido. Suas costas estavam tão doloridas, e provavelmente roxas da queda nas escadas, que ela até achou engraçado não ter sentido nada quando Bradford a beijou.
  • A carruagem pulou em um dos buracos das transversais que leva- vam até o sobrado do pai de Caroline, e ela cerrou os dentes, quando sentiu nova pancada nos quadris. Estava com a impressão de que não ia poder se levantar nem que fosse para salvar sua própria vida. — Por que é que estás gemendo aí, hein? — Bradford perguntou quase berrando. Espichou as pernas, tanto quanto a carruagem permitia, e nisso, empurrou a bainha rasgada do vestido de Caroline. —Estou sentindo dor — replicou Caroline. —Excelente — respondeu Bradford. O tom de voz dele era áspero, mas ele não estava gritando. Caroline ficou decepcionada porque estava louca para brigar com ele. — Eu também. —E por quê? —Está falando sério? Está doendo porque tu me fizeste desejar-te. És mesmo assim tão inocente? — A voz dele ficou mais alta, e ele inclinou-se para diante, as mãos nos joelhos, fuzilando-a com o olhar. —Era inocente, até tu te aproveitares de mím. Achava que eras um cavalheiro, e que pararias antes de tomar essas... liberdades comigo! Um cavalheiro! — A voz de Caroline saiu carregada de vergonha. — Tu me queres! Ah! Exatamente o que planejavas, Bradford? — Agora era ela que
 estava gritando, de modo que pensou estar se comportando como uma criança. Mas não se importou nem um pouco. A raiva estava dissolvendo o nó nas suas entranhas, e suas pernas tinham parado de tremer. —Dás muito valor a ti mesma — respondeu Bradford. — Duvido que conseguisses conservar-me interessado em ti durante muito tempo. Uma noite seria suficiente para que eu te esquecesse. Suas palavras ofenderam Caroline, mas ela não lhe diria isso nem
  • morta. — Quais exatamente são tuas intenções? — indagou ela. Sua voz estava baixa e decidida. — Passar-me na cara, depois procurar outra? Eu confiava mesmo em ti! Fui uma tola. Bradford via o sofrimento no olhar de Caroline e sua raiva evaporou- se. Ele é que estava causando toda aquela dor Tinha agido como um libertino, e, pela primeira vez na vida, arrependia-se disso. —Estava agindo como cavalheiro, até tu me enfeitiçares, Caroline. — Bradford murmurou, na esperança de que ela entendesse que ele estava pedindo desculpas. Mas pararia por ali. Segundo sua filosofia de vida, era mais do que suficiente. —Estás me dizendo que fui a culpada? — disse ela, incrédula. —Caroline, pára de agir como se eu tivesse acabado de desvirginar- te — retrucou Bradford. — Falei no calor da paixão. — Então não devo prestar atenção ao que dizes? — perguntou Caroline, franzindo o cenho. — Não devo confiar em ti? —Não deve existir confiança entre homem e mulher — declarou Bradford. E seu tom tinha voltado a ser áspero. —Não se pode amar ninguém se não se pode confiar nessa pessoa — argumentou Caroline. Agora toda a sua raiva tinha sumido, mas os comentários dele a estavam deixando confusa. Ele não respondeu àquele comentário, e Caroline percebeu que ele realmente acreditava no que tinha dito. Então a tristeza invadiu-a. —Jamais poderia casar-me com um homem que não confiasse em mim. —E eu te disse que me casaria contigo? — indagou Bradford. ! —Não — respondeu Caroline. — Não vejo motivo para esta atração continuar, Bradford. Quero algo que não podes me dar —
  • prosseguiu. — Como acabamos de concordar que não há futuro para nós, creio que é melhor nos despedirmos. —Pois muito bem — comentou Bradford, imitando-a. E per- cebeu, na hora em que disse isso, que não tinha a menor intenção de afastar-se dela. Mas que coisa, ela continuava deixando-o confuso. — O que queres é um boboca — comentou Bradford. Caroline não respondeu. A carruagem parou diante de sua casa, e ela tentou abrir a porta antes de Bradford. Os pés dele estavam presos na bainha do vestido dela, e ele se rasgou ainda mais. Bradford desvencilhou-se, saiu da carruagem e depois ergueu Caro- line nos braços. Ela não resistiu a esse gesto, mas seu rosto demonstrou contrariedade. — Vais estar toda dolorida amanhã — comentou Bradford.
 Caroline pensou em lhe dizer que alguém devia tê-la empurrado do alto das escadas, mas imediatamente desistiu dessa ideia. Estava começando a acreditar que só tinha imaginado o barulho que tinha ouvido atrás de si. Estava cansada, por causa do dia cheio, e não queria conversar com Bradford sobre a terrível possibilidade de que alguém realmente tivesse querido feri- la. Deighton abriu a porta ao ouvir os resmungos de Bradford. Para a idade que tinha, até que era bem ágil. Saiu da frente exatamente quando Bradford entrou correndo com Caroline agarrada a ele com todas as forças. — Creio que deves ir ao médico para ver se precisas de óculos o mais breve possível — comentou Bradfbrd ao seguir Deighton pelas escadas, segurando Caroline com tamanha força que ela considerou isso doloroso quanto sua queda. — Precisas de um protetor, Caroline. — Fala mais baixo — exigiu Caroline. — E não preciso de
  • protretor nenhum. —Precisas, sim. Precisas de alguém para proteger-te de ti mesma. —Estás te candidatando para o cargo? __ perguntou Caroline. Bradbrd continuou zangado, e Caroline apressou-se a comentar: —Preferiria estar nas garras de uma matilha de lobos que sob tua proteção. Teria melhor chance de sobreviver — acrescentou, triunfante. —Nas garras de lobos? — os olhos de Bradford revelaram que ele tinha achado graça. —Sabes o que quero dizer — resmungou Caroline. — Se essa tua carona até aqui na tua carruagem foi um exemplo do teu tipo de proteção... —Caroline, estás gritando — comentou Bradford, indicando Deighton com a cabeça. Caroline fez cara de alarmada, e depois abaixou o tom de voz. — Presta bem atenção, Bradford. Não há mais nada entre nós. Benjamin é que é o meu protetor. Deighton abriu a porta do quarto dela e postou-se de pé ao seu lado. Mary Margaret estava em uma cadeira de balanço ao lado da janela, mas ficou de pé num pulo e correu para perto da sua patroa ao vê-la. — Saia daqui. — A ordem lacónica literalmente impeliu Mary Margaret porta afora. Ela não hesitou nem um segundo, e isso deixou Caroline furiosa. —Não dá ordens à minha dama de companhia — ralhou Ca- roline, enquanto via Mary Margaret fechar a porta. — Se eu chamar Benjamin, ele vai estar aqui em um piscar dos teus olhos de canalha e vai te despedaçar sem fazer nem uma pergunta. —Então chama-o! — O desafio era mais do que claro, e Caroline
  • imediatamente recuou. Bradford foi até a cama e pôs Caroline sobre a colcha. Tentou ser delicado, mas ela ainda ricocheteou no colchão duas vezes antes de ficar totalmente imóvel na horizontal, — Já te disse, chama-o! — Não vou chamá-lo — declarou Caroline com grande ênfase. Tirou a casaca de Bradford de cima de si, sem ligar para o fato de seu vestido estar exibindo muito mais do que era considerado decente. Jogou a casaca para o homem de pé à sua cabeceira, dizendo: — Retira-te da
 minha presença. Espero que nunca mais torne a ver-te. Bradford nem ligou para a casaca, debruçando-se sobre a cama c prendendo Caroline entre seus braços. Quando seu rosto estava a apenas centímetros do dela, ele disse: —Escuta bem, minha pequena adversária. O que existe entre nós ainda não terminou. Tu vais ser minha, de uma forma ou de outra. Se precisar me casar contigo, nós nos casaremos. Mas vamos obedecer às minhas regras, Caroline Richmond, não às tuas. Estás me entendendo? —Só quando o inferno virar céu, meu senhor — respondeu Ca- roline, com ênfase. -- Quando as Colónias anexarem a Inglaterra, e quando o rei Jorge abdicar, e mais especialmente quando patifes maleducados virarem cavalheiros, quando o odioso duque de Bradford
 aprender a ter consideração. Em outras palavras, Jered Marcus Benton, nunca serei tua. Entendeste o que eu disse? E aí fechou os olhos e esperou ele ter um ataque de nervos, retaliar como um desvairado. Mas um barulho que ouviu deixou-a confusa. Abriu os olhos e vm Bradford fazendo uma força incrível para conter o riso. —Alguém realmente precisa te levar para um canto e explicar-te quando estás sendo insultado, senhor. Talvez Milford pudesse te
  • ensinar isso. Ele certamente parece ser teu oposto — prosseguiu Caroline. — Não entendo como ele pode te considerar seu amigo. És um homem tão inflexível, tão detestável... —Inflexível? Acabei de quebrar um juramento que fiz há anos. -;tudo por causa de uma mulher maluca de olhos cor de violeta que esta me deixando louco. Em apenas duas semanas tu viraste minha vida do avesso. Caroline franziu o cenho ao ouvir essa declaração, imaginando o que ele estaria querendo dizer com um juramento que tinha feito fazia muito tempo. E o que isso teria a ver com ela? Não teve oportunidade de perguntar. A boca de Bradford de repente cobriu a dela, em um beijo que exigiu sua total atenção. Suspirou de frustração, pegou o vestido que tinha acabado de tirar e colocou-o sobre a cadeira, e aí foi para a janela, olhar a noite escura. Ficou ali durante muito tempo, tentando encontrar respostas que teimavam em escapar-lhe. Suas defesas vagarosamente foram aban- donando-a, e ela finalmente admitiu a verdade. Ela sempre tinha se considerado uma pessoa honesta, e sabia que naquele exato momento não estava sendo completamente honesta consigo mesma. Fingia estar indignada, mas estava sorrindo por dentro. Assim que admitiu esse fato repelente, começou a rir. Ai, meu Deus, a constatação quase a fez cair de joelhos. Estava se apaixonando por um inglês arrogante.' Que contradição ela havia se tornado desde que chegara à Inglaterra! Até agora continuava rindo, as lágrimas de melancolia escorrendo-lhe pelas faces. Ele não prestava, era um canalha, totalmente desprezível, admitiu. E ela havia saído da linha por ter-se deixado atrair por ele. O homem tinha afirmado, todo convencido, de que ela iria pertencer a ele, mas jamais tinha mencionado a palavra amor, e declarado como se fosse a coisa mais natural
  • do mundo que a confiança não era necessária entre um homem e uma mulher. Ela ainda não havia percebido que amar podia causar tamanha infelicidade, tamanha depressão. E se amar Jered Marcus Benf-nn era deprimente, ela jurou que ele sentiria tanta depressão quanto ela. Seria necessário um tremendo esforço de sua parte, mas era um desafio ao qual ela não podia resistir. A recompensa valia a pena. Exatamente como ele havia declarado que não ia desistir dela, ela agora jurava que não iria nunca desistir dele. É claro que ele só estava querendo possuí-la fisicamente, mas ela queria muito mais. Coitado dele! Ela quase sentia pena do homem. Quase! Mas não iria sentir piedade alguma, não podia, para que tudo desse certo. Talvez, pensou, com uma risada que ecoou pelo quarto, com a ajuda de Deus, ela conseguisse mesmo o que pretendia. Ele era um canalha, um imprestável, rnas ela tinha acabado de aceitar que ele era seu canalha, seu imprestável. Sim, ela amava de verdade aquele homem arrogante, e por isso, nem que fosse preciso mover céus e terras, ela encontraria um jeito de obrigá-lo a amá-la. Ah, mas ele estava redondamente enganado! Dizia que tudo aquilo era um jogo, que eles teriam de jogar segundo as regras dele! Caroline sorriu e realmente sentiu um pouco de pena dele. Pois se ele é que era o inocente! E simplesmente não entendia... ainda. Aquilo esta de ser um mero jogo. ! CAPITULO 7 ! Precisamente às dez da manhã seguinte, Bradford apareceu para pegar Charity e Caroline. Não tinha dormido bem, ainda com os pensaamentos desencontrados, refletindo sobre Caroline, e estava quase
  • irritado. Não sabia bem qual era o plano dela para o Bleachley e estava querendo desistir. — Agora precisas me dizer o que pretendes fazer — anunciou a Caroline, quando ela estava sentada diante dele na carruagem. Charity, sentada ao lado de Caroline, respondeu à pergunta. — Estou tão nervosa, Bradford! Mas Caroline me fez repassar tudo de novo, e tenho plena confiança de que vai funcionar. Essa não era a resposta que ele estava esperando, pois o que queria era tomar conhecimento do plano, com todos os detalhes, não ouvir aquela avaliação de Charity, dizendo que ia funcionar. Voltou a atenção para Caroline. Ela sorriu para ele, e ele viu que sabia como ele estava se sentindo frustrado. Bradford considerou-a especialmente tentadora naquele dia. Estava de vestido de passeio azul-escuro, com galões brancos. A capa que rinha nos ombros era do mesmo azul. Mas foi o brilho no olhar dela que lhe prendeu a atenção. Pelo que notou, ela se sentia capaz de conquistar o mundo. Ergueu uma sobrancelha, curioso, quando viu que ela continuava sorrindo para ele. Caroline imitou essa expressão na mesma hora. Estava bastante atrevida naquela manhã, e tinha obviamente se esquecido das palavras furiosas que haviam trocado na carruagem na noite anterior. O humor dela fez o dele melhorar, e ele viu-se sorrindo rasgada- mente. Que esquisito, refletiu ele, ela poder influenciá-lo assim com tanta facilidade, fazê-lo mudar de disposição assim tão rápido... Caroline sentiu vontade de rir quando percebeu a mudança de expressão na fisionomia de Bradford. Um momento antes ele estava de cenho franzido, e agora sorria. Ela considerou-o muito atraente, e bem menos mtimidador do que na festa da noite anterior. Ainda estava de calças apertadas demais para sua concepção de decoro, mas a casaca, de um castanho cálido que a fazia lembrar uma pele de vison, combinava muito
  • bem com a cor dos olhos dele. Quando eles finalmente chegaram à residência de Bleachley, Bradford ajudou Charity a sair da carruagem com toda a boa vontade, seus ouvidos vibrando, porque a moça não parava de falar. Ele virou-se para ajudar Ca- roline, fingiu não ver a mão que ela lhe estendia, pegando-a pela cintura, e deu-lhe um beijo rápido no alto da testa antes de a soltar. — Não podes mais tomar liberdades — anunciou Caroline. Sua voz era firme, mas ela estava olhando para a prima, e Bradford não podia ver sua expressão, Charity já estava parada nos degraus da varanda do chalé de Bleachley, aguardando. Bradford obrigou Caroline a olhar para ele, e viu-a de testa fran- zida. Estava para dizer que um beijinho à toa na testa para ele não era tomar liberdade, quando ela disse: —Creio que seria melhor se ficasses aqui fora, Bradford, Senão
 podes tentar interferir, e vais atrapalhar tudo. —O quê...'? — perguntou Bradford, sem conseguir terminar, temporariamente mudo. —Não faças essa cara indignada — disse Caroline, Falou em tom irritado, não houve como conter-se. Agora'que tinha chegado o momento, estava ficando tão nervosa quanto Charity. Se o tiro saísse pela culatra, Charity ficaria arrasada, Bleachley provavelmente ficaria furioso e tudo seria culpa dela, Caroline. Ela é que havia concebido o plano, — Exatamente qual é esse teu plano, podes me dizer, pelo amor de Deus? — indagou Bradford. Tinha agarrado os ombros de Caroline, e agora apertava-os de leve, Caroline soltou-se e disse: — Agora é tarde demais para explicar-te, e prometeste que con- fiarias em mim.
  • Ela saiu correndo pelo caminho que levava à casa, pegou a mão de Charity e bateu à porta. Sentiu Bradford de pé atrás dela, ouviu seu comentário em voz baixa. —Eu nunca disse que confiaria em ti.
 Caroline sorriu e virou a cabeça. —Mas terias dito — comentou. A porta se abriu, e apareceu uma mulher com cara de poucos amigos, um avental de um branco imaculado atado ao redor da cintura imensa. — Estais atrasado — comentou ela, baixinho. Olhou para Bradford, fingindo que não via as duas moças em frente dele. — Ele está na biblioteca — acrescentou. E ai se virou e afastou-se correndo. Charity e Caroline entreolharam-se confusas. Bradford foi obri- gado a empurrar Caroline para frente e ela, por sua vez, puxou Charity pela mão consigo. Bradford viu a porta fechar-se atrás deles e apontou para a porta à esquerda da entrada. —Ele está ali, Charity, vou entrar contigo. — Disse isso com muita delicadeza, e Caroline viu que Charity quase perdeu o controle com isso. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela continuou segurando a mão de Caroline com toda a força. —Não podes agir assim — sussurrou Caroline. — Controla-te agora mesmo, e faz o que combinamos. E agora ou nunca, Charity. Com essas palavras de incentivo, Caroline abriu a porta da biblioteca, empurrou a prima de um jeito bem impróprio para uma dama, e depois
 fechou a porta. Bradford fez menção de entrar com Charity, mas Caroline deteve-o. Encostando-se à porta de carvalho, sorriu para ele.
  • —Agora é com a Charity. E deixa de fazer essa cara amarrada, Bradford. Estás me deixando nervosa. —Caroline, sinceramente, creio que eu deveria ser o mediador. O Paul está mudado. — Vais ter que confiar em mim nesse assunto — exigiu Caroline. Bradford não respondeu nada. Estremeceu ao ouvir o grito indignado de Bleachley, sentindo seus ombros caírem. E ouviu a voz agradável de Charity, ficando estupefato. A primmha parecia uma megera, falando aos gritos com o homem que Bradford pensava que ela na verdade amasse. Bradford amarrou ainda mais a cara e abriu a boca para dizer a Caroline exatamente o que estava pensando, mas ela sacudiu a cabeça e avisou-o para ficar calado. — Como ousas estar vivo! — berrou Charity, enunciando essa acusação alto o bastante para Caroline e Bradford entreouvirem. — Acreditei que eras honrado, seu salafrário! Bradford não ouviu a resposta do Paul. Mas Charity estava dando tamanha bronca nele que Bradford surpreendeu-se de ver que a porta não estava tremendo. —Não vou me retirar coisa nenhuma. Só depois de lhe dizer como és abominável. Prometeste-me casar-se comigo, sr. Bleachley! Não levaste a sério meus sentimentos. Disseste que me amavas! —Olha bem para mim! — Essa ordem, parecendo o rugido de um leão furioso, saiu de Paul Bleachley. —Estou olhando! — gritou Charity. — Até que enfim, aliás. Faz meses que te vi pela última vez, e cada um desses dias foi repleto de lágrimas e sofrimento, Paul. Pensei que tivesses morrido. Ai, que tola fui. Não tens um mínimo de dignidade, tens?
  • Bradford esperou a resposta de Paul, mas em vez disso, ouviu-se o barulho de vidro quebrando. — O que está havendo lá dentro? — gritou ele, quando tentou afastar Caroline da porta. Caroline procurou evitar que ele entrasse, e percebendo que ele era bem mais forte, resolveu improvisar, passando os braços sobre os ombros dele e puxando sua cabeça para si. E aí o beijou, com tanta força e paixão quanto ele lhe havia ensinado. Aquele truque funcionou para distrai-lo, e Bradford rapidamente começou a reagir e participar do beijo de boa vontade. Seu único pensamento coerente foi o de que afastaria Caroline da porta e arrastaria Charity para longe da biblioteca assim que terminasse de beijar a mulher que realmente acreditava que podia lhe sabotar as intenções. Dentro da biblioteca, Charity continuava a fazer papel de mulher sprezada. Pegou outro vaso e atirou perto da mesa do Paul. No fundo estava literalmente horrorizada pelo seu procedimento, sentia vontade de chorar de pura tristeza, cada vez que olhava para seu amor e via o sofrimento em seus olhos. Paul foi obrigado a desviar-se quando o segundo vaso quase acertou alto da sua cabeça. Então se agarrou à beirada da escrivaninha, incli-nando- se para frente. Não tentou mais esconder o rosto com as mãos. — Pelo amor de Deus! Não consegue enxergar minhas lesões? Põe os óculos, Charity, e olha bem para o meu rosto. Charity não discutiu. Abriu a bolsa, jogou tudo que ela continha na mesa mais próxima de si, e rapidamente colocou os óculos de armação de arame. Depois, virou-se, as mãos nas cadeiras, e deu uma boa olhada em Paul. —E o que tem? — quis saber ela, depois. —Será possível que és cega, é? — A raiva subitamente dominou Paul Bleachley. Ele estava extremamente confuso diante da reação
  • dela. — Não sou mais atraente como era, Charity. Será que preciso mostrar-te cada cicatriz? Sua voz saiu cheia de desespero, mas Charity não demonstrou o mínimo sinal de estar impressionada. —Seu vaidoso! Então é isso que vais usar como desculpa, é? Tentar convencer-me de que algumas cicatrizes são o motivo pelo qual me rejeitaste? Mas imagina só. Não sou imbecil, Paul. Certamente podias encontrar alguma desculpa melhor que essa. Eu te entediava? Encontraste outra? Conta-me qual foi o verdadeiro motivo, que talvez eu te perdoe. —Não há nenhuma outra — respondeu Paul, a plenos pulmões outra vez. — Só que perdi uma das vistas, Charity, Só um dos meus olhos funciona agora. Estás vendo como o outro está saltado? Vais dizer que achas isso atraente? Charity foi obrigada a agarrar um arranjo de flores bastante intrin- cado e jogá-lo em cima do Paul. — Usa um tapa-olho, se isso te incomoda — sugeriu ela. — E as cicatrizes, Charity? O que faço para disfarçar as cicatrizes? — Por tudo que é mais sagrado, Paul, usa barba, e vê se pára de mudar de assunto. Estamos falando de como quebraste tua promessa de te casares comigo. Vaidade não vem ao caso. Charity ajeitou os cabelos ao parar para respirar, depois virou-se e recolocou o conteúdo da bolsa dentro dela outra vez. Demorou a fazer isso, sabendo que Paul observava cada gesto dela. —Estou de penteado novo, e nem mesmo comentaste nada — disse ela, enquanto puxava o barbante da bolsinha. — Só consegues pensar em ti mesmo. Só estou contente de saber que descobri como és vaidoso agora, antes do casamento. Vou precisar te modificar,
  • Paul. Entendes isso, não?
 Ou és tão tapado quanto és vaidoso? —Modificar-me? Charity entendeu o sussurro e olhou de novo para Paul. Viu o brilho de esperança no olhar dele e entendeu, naquele instante em que seus olhares se cruzaram, que tinha vencido a parada. —E agora, antes de eu sair, vou te dar um ultimato — disse Charity. Sua voz saiu clara e desembaraçada, e ela ficou satisfeita. Cuidadosamente calçou as luvas brancas e começou a andar de um lado para outro na frente da escrivaninha do Paul. — Vais te apresentar diante do meu tio e declarar a ele tuas intenções, dentro de uma quinzena, ou presumirei que não me amas mais. —Nunca deixei de te amar, Charity, mas... —E eu jamais deixei de te amar, Paul — interrompeu ela. Sua expressão era solene quando ela vagarosamente foi até a lateral da mesa. Paul virou-se para ela, e ela suavemente acariciou suas faces. Ficou na ponta dos pés e começou a dar beijinhos no rosto coberto de cicatrizes do homem que amava. — Por favor, não me entendas mal, Paul. Fiquei
 consternada por saber que te feriste, mas águas passadas não movem moinhos, e precisamos tratar do nosso futuro. Ela permitiu um beijo longo e satisfatório, que Paul instigou, e depois se afastou dele. Seu comportamento ficou subitamente enérgico outra vez. — Nem tente fugir de novo, hein? Eu te encontraria em qualquer lugar onde tentasses te esconder. E se não te vir na casa do meu tio em breve, creio que irei me comportar de forma bem violenta. E a culpa será somente tua, Sr. Bleachley. E com essa advertência, Charity, de ombros bem aprumados, abriu
  • a porta. Passou direto por Bradford e Caroline, fingindo que não via a expressão assustada da prima, afastando-se de Bradford, e continuou até sair. Caroline ficou mais abalada pelos beijos que tinha dado em Bradford do que gostaria de admitir. Corou e saiu correndo atrás da prima, resmun- gando que tinha certeza de que tinha dito a Bradford que ele não podia tomar mais liberdades com ela. Bradford ficou ali parado de boca aberta, enquanto ouvia os res- mungos de Caroline. Virou-se ao ouvir Paul chegar perto dele, e surpre- endeu-se ao ver o amigo sorrindo. Perguntou-se o que tinha acontecido enquanto ele estava distraído, beijando Caroline. E viu Paul subir até o segundo andar. —Aonde vais? — exigiu saber ele, frustrado por não estar mais beijando Caroline e por não fazer a menor ideia do que tinha ficado decidido entre Bleachley e Charity. —Vou deixar a barba crescer — gritou Paul, olhando para trás, soltando uma gargalhada de felicidade. ! Charity ficou rindo e chorando durante a maior parte da viagem de volta para casa. Caroline acariciava-lhe a mão, enquanto a escutava dizer como amava Paul e como ele tinha sofrido. Bradford ficou tentando dar opinião, descobrir exatamente o que tinha ocorrido, e finalmente Caroline sentiu pena dele e explicou: — Eu sabia que se a Charity demonstrasse nem que fosse um _pouquinho de dó, Paul iria se revoltar contra ela. Foste tu que me deste esta ideia, Bradford — comentou. — Ah, fui eu, é? — Bradford revirou os miolos, sem conseguir lembrar-se de ter dito nada que desse a Caroline uma ideia assim. — Mas certamente — respondeu Caroline. — Piedade seria a
  • última coisa que Paul aceitaria. A forma como ele se fechou em copas indicava isso — acrescentou. Sua voz parecia a de uma mestra instruindo uma pessoa muito simplória. Virou-se para Charity e disse: —Disseste a ele que atirarias nele se ele tentasse fugir, minha prima? —Acho que disse — respondeu Charity, balançando a cabeça. — Ou acho que disse a ele que o processaria na justiça por quebrar sua promessa. Posso fazer isso, não posso? —Não vai haver necessidade — previu Caroline. — Acabou de me dizer que ele te beijou e disse que ainda te amava. Não creio que vás ter que atirar nele. Bradford revirou os olhos de pura exasperação. —Pelo amor de Deus! Charity não teria coragem de atirar em ninguém! —Sei que não teria — imediatamente respondeu Charity. E sor- rindo radiante acrescentou: — Mas a Caroline seria capaz de abrir um rombo em uma partícula de pó, se quisesse. E ela atiraria no Paul se eu pedisse a ela. Bradford fez cara de assustado, e tanto Charity quanto Caroline começaram a rir. —Caroline, farei o que disseres, prometo. Salvaste-me a vida com teu plano. Jamais me esquecerei dessa tua ajuda. —Então o plano dela funcionou muito bem, não foi? — indagou ele a Charity. — Entendo a complexidade dele agora — acrescentou, com um sorriso irónico na direção de Caroline. — Ela mandou que desses um sermão no Paul, para ele abaixar a cabeça e te obedecer. Caroline fez cara de vexada, mas Charity soltou urna risada.
  • —Disseste-me que ele não tinha senso de humor — comentou ela com Caroline. — E agora parece que está querendo fazer piada. —Aliás, Caroline — continuou Bradford, — a Charity pode ter prometido não contar ao teu pai sobre nosso beijo, mas eu não prometi. —O que exatamente estás querendo dizer? — indagou Caroline, os olhos arregalados de pânico. — Vais descobrir em breve — disse Bradford, com uma risadinha. — Não fiques tão preocupada assim — acrescentou, sem o mínimo sinal de remorso na voz. — Só precisas confiar em mim. — Confio em ti tanto quanto mostraste que confias em mim — respondeu Caroline, irritada. Virando-se para Chanty, comentou: — Para sua informação, isso quer dizer que não confio de jeito nenhum. Bradford não confia em mulher alguma. Charity não disse absolutamente nada, só olhou para Carohne e para Bradford e novamente para Caroline, perguntando-se o que teria ocorrido. De repente, o clima tinha mudado de forma drástica, e aquela mudança deixou-a confusa. — Não contarás ao meu pai, — A voz de Caroline não estava indicando uma discussão. —Contarei, sim. — A voz de Bradford saiu com a mesma inten- sidade da de Caroline. —A conversa não vai dar em nada — previu Caroline. —Aí é que te enganas — anunciou Bradford. — Eu vou... ! —Não digas nada! — quase gritou Caroline, certa de que ele estava para dizer que faria de tudo para que ela fosse sua. Seria possível que não tinha dito o suficiente? E agora estava para dizer tudo na frente da sua delicada prima...
  • —Dizer o quê? — indagou Charity. Nem Caroline nem Bradford responderam. Ambos viraram-se e olharam para Charity com raiva, e Charity recostou-se ainda com mais força contra o banco da carruagem. Perguntava-se o que teria feito de errado. E decidiu não expressar seus pensamentos nem fazer perguntas, para variar. ! ! CAPITULO 8 ! ! As semanas seguintes foram repletas de jantares e bailes, e os dias cheios de visitas intermináveis. Caroline visitava o tio Milo, que era o nome pelo qual o marquês insistia que ela o chamasse, uma tarde sim outra não, e ficou gostando muito dele. O tio Franklin, irmão caçula do marquês e mais novo que ele cerca de dez anos, em geral estava lá. Lembrava oirmão na aparência, .mas seu olhar não era tão acolhedor quando o dele. Ele era mais contido no seu comportamento. Caroline sentia certa tensão entre os seus dois tios e não conseguia definir com precisão por que ela existia. Eram muito educados um com o outro, mas havia também uma distância entre eles. Franklin era bem-apanhado, com cabelos castanho-escuros e olhos esverdeados, mas havia nele uma frieza que Caroline considerava um tanto desanimadora. Sua esposa, Loretta, raramente visitava o marquês, e Franklin explicou mais de uma vez"que sua esposa tinha muitos com- promissos sociais. Sua presença era muito requisitada pela elite, gabava-se Franklin. Caroline não podia deixar de imaginar quem seriam os que a requisitavam, pois ela não tinha visto Loretta em nenhuma reunião dal às quais comparecera.
  • O conde de Braxton começou a acompanhar Lady Tillman a al- gumas das festas especiais e Caroline gostou disso. Muito embora não gostasse nada da mulher, era bom ver seu pai se divertir. Ele merecia ser feliz, e se Lady Tillman era o que ele queria, que assim fosse. Ela não interferiria. O incidente na residência dos Claymere perdeu a importância à medida que o tempo foi passando. Caroline ficou grata por não ter revelado a ninguém a impressão de que alguém podia tê-la empurrado, pois agora aceitava que tudo tinha sido fruto de sua imaginação exacerbada. Ela só estava exausta e tinha perdido o equilíbrio. Embora não se considerasse mais uma dama em risco de ser atacada por algum desconhecido, sentia-se extremamente ameaçada pelo duque de Bradford. O homem a estava levando à beira do desespero. Sentia-se constantemente desequilibrada. Bradford acompanhava-a a todos os eventos e nunca se afastava dela, deixando bem claro para todos os homens que se aproximassem à distância de uni grito que ela pertencia a ele, Bradford. Ela não se importava com essa possessividade, nem com a forma arrogante como ele a arrastava para os cantos e a beijava até que ficasse louca de desejo. O que a confundia completamente era sua vontade cada vez maior de ficar perto dele. Sua reação física a alarmava, pois bastava um olhar do homem para que Caroline sentisse as pernas bambas. Bradford disse-lhe que a queria, e ela tinha zombado dele. No entanto, depois de passar tanto tempo assim com ele, tinha passado a desejá-lo também. Sentia-se arrasada toda vez que se separavam, e ficava furiosa consigo por isso. O que tinha acontecido com seu autocontrole, sua independência? Pelo menos ela tinha admitido para si mesma que o amava. Ele, por outro lado, nunca tinha mencionado essa palavra. O desejo era apenas uma parte do motivo pelo qual ela sentia saudades dele quando não estavam
  • juntos. O homem certamente tinha defeitos, sim, mas tinha também qualidades. Era bondoso e generoso ao extremo, e tinha uma força de caráter que Caroline considerava inflexível. Só que também era diabólico! Ela sabia o que ele tinha em mente, qual era seu 'jogo'. Toda vez que a beijava seu olhar deixava transparecer sua sensação de vitória. Ela se derretia em seus braços e tinha certeza de que ele gostava de ver isso. Será que estava esperando que ela admitisse que o desejava: Só de pensar em sua situação ela já sentia os nervos à flor da pele. Jamais lhe diria que o amava antes que ele lhe dissesse que a amava. E se o duque de Bradford queria jogar, Caroline usaria sua própria estratégia de jogo. Charity, por outro lado, estava nas nuvens. Paul Bleachley tinha vindo, conforme o combinado, apresentar-se diante do conde de Brax-ton e agora era oficialmente o noivo de Charity. Ia a toda parte com um tapa-olhos de cetim preto que o fazia parecer intrépido, e também havia deixado a barba crescer. Caroline gostava de Paul. Era um homem sossegado, com sorriso fácil, e pela forma como olhava para Charity, Caroline podia ver que ele a amava, e sentia grande ternura por ela. Por que ela não tinha encontrado alguém assim tão simpático e terno como Paul: Sentia inveja do relacionamento da prima com aquele inglês pacato, e desejava que Bradford olhasse para ela como Paul olhava para Charity. Ai, Bradford olhava muito para ela, sim, mas com sensualidade demais, dando a Caroline a impressão de que não sentia ternura alguma por ela. Braxton tinha decidido dar um jantar, e convidaria vinte pessoas. Na lista estavam os tios de Caroline, o marquês, Franklin e sua esposa, Loretta, Lady Tillman e a filha, Rachel, e para grande desagrado de Caoline, o noivo repelente de Rachel, Nigel Crestwall. Bradford e Milford
  • também foram convidados, assim como Paul Bleachley. Seria um jantar no início da noite, em deferência ao marquês, que ficava cansado com facilidade, e quem fosse mais resistente poderia, depois do jantar, ir à ópera. Benjamin adorou a oportunidade de preparar uma refeição à altura e já havia recheado pombos, tirado as espinhas do peixe, e posto os francos no espeto sobre o braseiro bem antes do meio-dia. Deighton mostrou-se terrivelmente autoritário ao organizar os detalhes de última hora. Caroline e Chanty faziam ambas tudo que Deighton sugeria, uma vez que ele sabia muito melhor o que era adequado do que elas, e Charity até pediu seu conselho sobre que vestido deveria usar. Caroline já tinha decidido usar o vestido cor de marfim com decote ousado. Era bastante escandaloso, e, segundo ela esperava, extremamente sedutor. Planejava fazer o papel de tentadora, achando que estava na hora de ficar por cima na sua relação com Bradford. Se ele gostava de tirá-la do sério o tempo todo, ela podia muito bem lhe retribuir o favor. Ela vestiu-se com todo o cuidado, ficando cada vez mais nervosa à medida que transcorriam os minutos. Jurou que seria uma noite perfeita. Seu plano era bem simples. Ia deixar Bradford para morrer de tanto desejo, fazendo-o ir até o limite, e depois obrigá-lo a dizer-lhe o que verdadeiramente sentia por ela. Charity encontrou Caroline de pé diante do espelho e ficou bo- quiaberta ao dar uma boa olhada na prima. —O Bradford vai perder a fala quando te vir — previu Charity. — Pareces até Vénus, a deusa do amor — murmurou. —E tu estás tão linda quanto eu — retribuiu Caroline com um sorriso. Charity girou, mostrando-lhe o vestido verde-limão que usava. — Sinto-me imensamente feliz, Caroline. O amor é que causa isso,
  • sabe? Faz a pessoa sentir-se extremamente animada. Caroline não concordava, mas ficou calada. Puxou o corpete do vestido, tentando levantá-lo só um tantinho, até Charity comentar que ela ia rasgar a peça e precisar mudar de roupa. Caroline deu um suspiro e acompanhou a prima até o andar de baixo, aguardando no vestíbulo para cumprimentar os primeiros convidados. —Paul e eu decidimos nos casar na Inglaterra — revelou Charity a Caroline, —Mas claro que sim — respondeu Caroline. — Onde mais se casariam'? —Em Boston — respondeu Charity, franzindo o cenho. — Mas não queremos esperar, e não ficaria bem viajarmos juntos, se não fôsse- mos casados. Os olhos de Caroline arregalaram-se, revelando sua confusão. — Mas vão morar aqui, Charity. Aqui é o país do Paul. Vai só visitar a família, não? Charity estava ocupada assistindo ao trabalho de Deighton, que andava de um lado para outro diante da porta, de modo que não viu a expressão no rosto de Caroline. __O Paul quer recomeçar a vida. Não tem títulos de nobreza, portanto não vai deixar nada de importante aqui. Mas também não épobre, e tem planos grandiosos. Papai vai ajudá-lo a criar raízes — ter- minou Charity. —Sim, claro — comentou Caroline. — O que ele pretende fazer — E tentou parecer interessada, mas de repente sentiu uma tristeza fenomenal. Não achava que estivesse pronta para perder a companhia de Charity. Sua prima era o único vínculo entre ela e sua família de

  • Boston. —Ele já conversou muito com o Benjamm — disse Charity. — Paul quer comprar umas terras e se tornar criador de gado. Benjamin já concordou em ajudá-lo. —Criador de gado? Charity, isso não vai dar certo — previu Caroline, irritada. — Nas colónias, pelo menos, não. Dá um trabalho danado, ponto final. Trabalhar em uma fazenda é serviço de tempo integral, todos os dias da semana. —O Paul está disposto a trabalhar com afinco — respondeu Charity. — Está vagarosamente recuperando o uso da mão que ficou ferida, e sabe que meus irmãos também vão dar uma mãozinha. —Sei — disse Caroline, com um suspiro. Ainda estava refletindo sobre o comentário de Charity de que Benjamin ia ajudar. Ela não tinha o direito de pensar que ele permaneceria na Inglaterra com ela. Por que então sentia que estava sendo abandonada? Â campainha tocou, indicando que estavam chegando os primeiros convidados, e Caroline deu um sorriso forçado. Deighton parou à porta, virou-se e lançou a Charity e a Caroline uma última olhada, a título de inspeção. Demonstrando aprovação com uma vénia, fez cara de indiferente, e virou-se para abrir a porta. A festa estava para começar. Bradford foi um dos últimos a chegar. Caroline resmungou, recla- mando daquele atraso, assim que o cumprimentou, e depois refletiu que esse não era um começo muito bom para sua noite perfeita. E as reações dele ao seu vestido não foram muito positivas também. Em vez de lhe dizer que ela estava lindíssima, ele cochichou para ela uma agressiva insinuação de que ela devia voltar para o quarto e terminar de se vestir. — Mas já estou pronta — argumentou Caroline. Eles estavam parados à entrada do vestíbulo. Milford veio unir-se aos dois, e também se virou para ouvir a resposta de Bradford.
  • —Ela está muitíssimo bem, a meu ver, Brad — anunciou Milford em tom aprovador, sem tirar os olhos de Caroline. —Não tem corpete nesse vestido — declarou Bradford. — Suba e vista algo menos ousado. —Não vou subir nada — respondeu Caroline, enfaticamente. —Estás indecente — ralhou Bradford. Milford começou a soltar risadinhas disfarçadas, e tanto Caroline como Bradford viraram- se e lançaram um olhar furioso a ele, até fazê-lo parar. Aí Caroline virou-se para enfrentar Bradford. —Estou tão decente quanto tu, com essas tuas calças. —O que há de errado com minhas calças? — indagou Bradford revoltado. O comentário dela tinha-o pego desprevenido. —São apertadas demais. Até fico admirada de ver que não o te machucas ao sentar-te — respondeu Caroline. E vagarosamente olhou o da cabeça aos pés, admirando-lhe o corpo secretamente. Ele era um homem e tanto, sim, senhor! E também parecia muito distinto, assim 
 de traje formal de noite, refletiu Caroline, Milford começou a rir de novo. —Posso acompanhar-te até a mesa do jantar? — perguntou a Caroline, oferecendo-lhe o braço. —Eicaria encantada — respondeu ela. E pôs a mão no braço de Milford, lançando um olhar enregelado a Bradford. — Quando te lembrares de tua educação, podes vir reunir-te a nós. Bradford ficou parado ali, perplexo diante daquela conversa. Come é que ela havia conseguido colocá-lo assim na defensiva tão rapidamente. sem esforço nenhum? E será que não fazia a menor ideia de como e? sedutora com aquele vestido? Duvidava que houvesse um homem ali que não se sentisse tão excitado quanto ele ao vê-la.
  • Caroline fingiu que não via Bradford durante todo o jantar. Sentou- se à direita de Paul Bleachley e conversou com ele e Milford, que estava sentado à sua frente. Bradford sentou-se à direita de Caroline. Ela nem mesmo olhou na sua direção. Bradford não gostava de ser desprezado. Mal tocou no seu prato, embora os comentários sobre a comida fossem bastante favoráveis. Notou com certa satisfação que Caroline também não estava comendo muito. Combateu a vontade de tirar a casaca e cobrir os ombros de Caro- line com ela e prometeu a si mesmo que iria acabar com a raça do Nigel Crestwall se ele continuasse a comer Caroline com os olhos. No meio da sobremesa, Bradford concluiu que já tinha suportado demais. No início tinha pretendido ir com calma, dar a ela tempo para aceitá-lo, aceitar o fato de que ela pertenceria a ele. Agora admitia que não tinha mais paciência para esperar. Era hora de ter uma conversmha com Caroline, e quanto antes melhor. Caroline tentou concentrar-se nos comentários de Milford sobre a ópera à qual todos iriam depois do jantar, mas sua atenção ficou toda hora voltando-se para Loretta Kendal, a esposa de Franklin. A mulher de cabelos castanho-avermelhados não escondia de ninguém que estava tentando jogar charme para Bradford, e Caroline sentiu que iria cometer alguma loucura se Loretta não parasse de flertar com ele em breve. Pensou em jogar uns barquilhos de framboesa no vestido da mulher. Aquele decote dela era amplo o suficiente para que um bom número de barquilhos coubessem dentro dele. O jantar finalmente terminou, e as senhoras ficaram de pé para sair. Os homens ficariam tomando um drinque juntos, mas Bradford rompeu essa tradição. Não estava disposto a falar com ninguém a não ser com Caroline. Seguiu-a depois que ela passou pela porta, agarrou-a pelo cotovelo, e solicitou-lhe uma conversa em particular. Fez a solicitação de
  • maneira muito formal, porque Lady Tillman e Loretta Kendall estavam de olho nele. Caroline concordou com um gesto seco, por educação, e respondeu: — Se for importante... — Só para as senhoras que estavam presentes escutarem. Conduziu Bradford até o escritório do pai no térreo, Irada com a fornia como Loretta devorava Bradford com os olhos. — Deixa a porta aberta, por favor — pediu Caroline, em voz altiva. — Não é conveniente que outros escutem nossa conversa — anunciou Bradford. Sua voz parecia tensa. Ele bateu a porta, encostou-se nela e olhou fixamente para Caroline. — Venha aqui. Caroline franziu o cenho ao ouvir aquela ordem áspera. Ele estava querendo mandar nela! Será que aos seus olhos ela era o mesmo que uma criada? Obviamente não! Caroline procurou controlar-se, achando c^; tinha acabado de atingir o limite de sua tolerância. E antes esperava que a noite fosse perfeita. Perfeitamente horrive era uma descrição muito melhor, e a noite nem tinha terminado. Ela ainda ia ter que aturar a ópera. Se ela se descontrolasse, Bradford é que sena o culpado. Primeiro aquele arrogante tinha chegado uma hora depa do horário marcado, depois tinha criticado seu lindo vestido, flertado escandalosamente com uma mulher casada, e agora tinha a audácia de exigir que ela o obedecesse. Respondendo a essa ordem, Caroline encostou-se contra a escriva- ninha de seu pai, cruzou os braços sobre o peito e disse: — Não sinto vontade, obrigada. Bradford inspirou profundamente. Sorriu, mas isso não lhe abrandou o olhar nem um pouco.
  • — Caroline, meu amor. Lembra-te de que me disseste que eu não percebia quando alguém estava me insultando? Caroline confirmou que se lembrava. A pergunta pegou-a no contrapé, e a brandura na voz dele a enganou. —Lembro-me, sim — respondeu, com um sorriso. —Pois agora devo avisar-te de que tu não sabes quando sentir medo. Caroline parou de sorrir. Seus olhos arregalaram-se, demonstrando um pavor genuíno quando Bradford avançou para ela. —Não estou com medo — mentiu. —Ah, mas devia estar — declarou Bradford, baixinho. Ela não teve saída. Antes mesmo de poder decidir em que direçic correria, Bradford já lhe havia agarrado pela cintura e estava puxando-a para si. Não tirou os olhos dela nem um instante. Quando ela já estava colada contra o seu peito, o rosto erguido para olhar o dele, falou: — Tu exibiste teus encantos, permitiste que todos os homens da casa vissem teu corpo por completo, me ignoraste, e agora procuras furtar-te a obedecer a uma ordem minha. Sim, meu amor, creio que este é um daqueles momentos em que devias sentir medo. Estava furioso. O músculo na lateral de sua mandíbula denunciava isso, com um tique nervoso, um sinal certo de que ele estava sentindo uma dificuldade extrema de controlar-se. Caroline ficou espantada diante daquelas declarações dele. Inacreditável como ele tentava inverter a situação, quando ele é que tinha se comportado muito mal. — Não exibi meus encantos — começou Caroline. — O vestido da Loretta é bem mais... ousado do que o meu. E tu é que flertaste, Bradford, não eu. Não ouses olhar para mim desse jeito furioso, flertaste com uma mulher casada, ou te esqueceste de que ela é casada? Não esperou a
  • resposta dele, e prosseguiu: — Eu te ignorei, sim, mas só depois que insultaste meu vestido. Provavelmente foi um comportamento infantil da minha parte, mas eu queria que a noite fosse perfeita, e me irritei com teus comentários Arrasadores. — Por quê? — A expressão de Bradford era indefinível, e Caroline conseguiu entender como ele estava reagindo a esse argumento dela. — Por que estava esperando que a noite fosse perfeita? Caroline voltou o olhar intencionalmente para a gravata dele. — Esperava que... tu... ou seja, acreditava que... — Caroline suspirou. Não conseguiu continuar. Bradford deixou-se amenizar pelo nervosismo na voz dela. Parou de apertá-la e começou a acanciar-lhe as costas. — Vamos ficar aqui a noite inteira, se necessário — avisou Bradford — até me dizeres o que está se passando pela tua cabeça. Caroline sabia que ele estava falando sério. Ela concordou, depois disse: — Esperava que me dissesses alguma coisa... boa! Pronto, disse a verdade, e te agradeço por não rir. Queria que me dissesses alguma coisa diferente de 'eu te quero'. E pedir muito, isso, Bradford? Bradford sacudiu a cabeça. Obrigou-a a olhar para o rosto dele, levantando-lhe o queixo com uma das mãos. — Não estou me lembrando de nenhuma palavra gentil agora. Acho que seria melhor te esganar. Tu vens me levando no bico faz meses. Pior ainda — acrescentou, com um olhar que fez Caroline tremer de medo — eu permiti isso, — E aí fez uma pausa, decidido a falar baixo. — O caos terminou, Caroline, e o jogo também; minha paciência esgotou-se. — Tens sido paciente porque esperaste que eu admitisse que te

  • quero? — Cochichou essa pergunta, um recuo proposital, para acalmá-
 lo. A expressão de Caroline demonstrava-lhe a tensão. — Eu te quero
 sim. Pronto, gostaste que eu admitisse isso? Antes de te gabares disso,
 Bradford, compreende que no meu coração isso não é suficiente. Tam
 bém acontece que te amo. Portanto, mentalmente, é aceitável querer-te
 porque te amo. A irritação de Bradford esvaiu-se com essa declaração da moça. Ele viu-se sorrindo, radiante, sentindo uma satisfação que quase o fez perder os sentidos. Estava contente. Inclmando-se, tentou beijar Caroline, mas ela desviou-se, sacudindo a cabeça bruscamente. — Não faças essa cara de pretensioso, Bradford. Não queria me apaixonar por ti. Não és um homem apropriado para se amar. Por que não escolhi alguém como o Paul Bleachley, jamais saberei. Acho que a afeição por ti brotou espontaneamente em mim — continuou Caroline,
 — mas as verrugas também aparecem espontaneamente, portanto essa não é uma explicação satisfatória, é? — E suspirou de novo, dessa vez resignada. — E agora, vais me beijar até me fazer perder os sentidos, não vais? Bradford sorriu e depôs um beijo casto no alto da cabeça de Caro- line. Inspirou sua doce fragrância e sentiu-se embriagado por ela. —Eu realmente desejaria que não fizesses isso, Bradford. —Achavas mesmo que poderias usar esse vestido e não ser beijada? —Achava. — Foi um mero sussurro contra a boca de Bradford. E aí ele a beijou, e ela retribuiu o beijo, a boca dele tão cálida, sua língua como um calor sedoso penetrando-lhe entre os lábios e acariciando a língua dela. Caroline passou os braços em torno da cintura de Bradford,
 exatamente como os braços dele circundavam a dela, e permitiu
  • que ele a enredasse na sua teia mágica de paixão. O beijo finalmente terminou e Bradford precisou segurar Caroline para ela não cair. Ela descansou a face contra a face dele, esperando que ele lhe dissesse o que tinha no coração. —E assim tão doloroso me amar? — indagou Bradford. Ela só per- cebeu na voz dele um certo divertimento, e ficou irritada ao percebê-lo. —Exatamente como uma dor de estômago — disse-lhe Caroline. — Passei tanto tempo te detestando, acostumada com esse sentimento, e de repente, isso bateu em mim. — A dor de estômago ou a constatação do teu amor por mim? —disse Bradford, rindo da comparação dela. — E ainda me acusas de não ser romântico! Uma batida discreta na porta interrompeu a conversa. Caroline ficou frustrada, pois estava certa de que Bradford estava para lhe confessar que a amava. — Brad? Aimsmond gostaria de trocar uma palavra contigo — era a voz de Milford, e parecia contrariada. — Provavelmente deixaste meu tio zangado por me arrastar até aqui — disse Caroline. — Vou procurá-lo e trago-o para falar contigo — acrescentou ela, ao dirigir-se para a porta. — E não penses que nossa conversa terminou, Bradford. — Com essas palavras de advertência,
 Caroline fechou a porta e saiu. Caroline esperava ver Milford esperando do outro lado, mas ele tinha ido embora. Parou um momento para ajeitar os cabelos e arrumar a saia, depois se apressou a voltar para o salão. Nigel Crestwall, oculto pelas sombras, agarrou-a quando ela estava para contornar a esquina. Aquele homem revoltante prendeu-a contra a parede antes que ela pudesse soltar uma única palavra de protesto. Começou a depositar beijos molhados e
  • gosmentos no seu pescoço e a sussurrar sugestões obscenas nos seus ouvidos. Caroline ficou tão indignada que não conseguiu empurrá-lo imediatamente para longe de si. Finalmente começou a reagir, exatamente quanto Bradford dobrou a esquina e os viu. Nigel nem percebeu o que o atingiu. De repente, já estava voando pelo espaço e aterrissando contra a porta dos fundos, produzindo um ruído abafado. O vaso sobre a mesa ao lado do corpo de Nigel balançou e caiu sobre sua cabeça. Caroline olhou para Crestwall durante um minuto inteiro, tre- mendo de nojo. — Isso foi culpa sua — resmungou Bradford, e Caroline ficou tão surpresa pela veemência dessa afirmação que olhou espantada para ele. Ficou verdadeiramente assustada então, pois nunca tinha visto tanta raiva no rosto dele antes. A prepotência estava de volta, tanto na sua postura intimidadora quanto na sua expressão, e Caroline sentiu medo dele. Sacudiu a cabeça, tentando afastar o medo, e procurou continuar olhando para ele. — O homem me atacou, e a culpa é minha? — indagou ela, baixinho. Nigel estava tentando ficar de pé, olhando para um lado e outro, e Caroline viu que ele estava procurando por onde escapar. Bradford ficou de olho nele enquanto dizia para Caroline: — Se não te vestisses como uma rameira, não te tratariam como se fosses uma. Essa declaração ficou no ar entre eles. Caroline deixou de sentir medo e ficou indignada. — E essa a desculpa que dás a ti mesmo quando me tocas? Que
  • sou uma mulher da vida, e, portanto, é aceitável? Bradford não respondeu a essa acusação dela. Nigel estava procu- rando sair de fininho, os olhos demonstrando pavor. Bradford estendeu um braço, agarrou-o pelo colarinho, e empurrou-o com violência contra a parede, deixando os pés do homem pendurados sem apoio. — Se voltares a encostar um só dedo nela, eu te mato. Estamos entendidos? Nigel não podia responder, pois Bradford, pressionando-lhe o pes- coço, evitava que ele emitisse qualquer som, mas conseguiu concordar com a cabeça. Bradford soltou-o e continuou de olhos pregados nele até ele correr até a porta da frente, abri-la e sumir na noite. Caroline perguntou-se se Rachel teria notado o súbito desaparecimento do noivo, e depois deixou aquele assunto de lado. Bradford então voltou sua fúria contra Caroline. Colocou-se à sua frente, bloqueando-lhe o caminho. Caroline endireitou os ombros e disse: —Nada fiz para provocá-lo. E deves confiar em mim nesse parti- cular. Não viste o que aconteceu. —Não menciones a palavra confiança para mim outra vez! Senão eu te dou uma surra! Ê hora de nos entendermos, Caroline. — Ah aí estás, Bradford — e a voz do marquês rompeu a tensão. Caroline foi a primeira a mover-se. Virou-se, fez força para sorrir, e assistiu ao tio Milo aproximando-se lentamente deles. — Vou para casa agora — explicou o marquês. Pegou a mão de Caroline e sorriu. — Vais vir me visitar de novo amanhã? — pediu ele à sobrinha, num tom de voz ansioso. — Claro, como não — concordou Caroline com um sinal afirmativo. —Excelente! Bradford, espero vê-lo à minha porta em breve, meu rapaz — declarou o marquês. —Eu o visitarei em breve — respondeu Bradford. Caroline notou
  • que em seu tom havia certa deferência, sem qualquer nuance de raiva. Ela deduziu então que ele era mais sofisticado do que ela quando se tratava de controlar emoções. Ainda sentia vontade de gritar, e rezou para que
 essa vontade não lhe transparecesse no rosto! —Estão se preparando para sair agora — informou o marquês. — A Loretta vai deixar-me em casa no caminho para outro compromisso. — E virou-se, Caroline segurando-lhe o braço, para ir até a porta. — Não sei para onde foi o Franklin — continuou. — Assim
 que o Brax anunciou com quem iria, Franklin simplesmente se levantou e saiu sozinho. Caroline sentiu que Bradford estava atrás dela. —Vou com meu pai — anunciou ela. —Não — comentou o tio. — Ele vai acompanhar a Lady Tillman e a Rachelzinha. Não sei onde se meteu o Nigel, mas imagino que vai aparecer mais cedo ou mais tarde. Milford sugeriu que fosses com ele e o sr. Bradford. Caroline sentiu seus ombros caírem. Não queria ir com Bradford a lugar nenhum. Precisava de um tempo longe dele para examinar melhor seus sentimentos. A única maneira de ela se hvrar de sua raiva era encontrar um canto tranquilo onde refletir. Não era possível pensar muito quando Bradford estava por perto. Além do mais, ela disse a si mesma, precisava estar em plena forma quando encetasse sua esgrima com Bradford. E agora se sentia decididamente... sem forças. Caroline pensou em inventar uma enxaqueca. Levou o dorso da mão à cabeça em um gesto dramático, pensando ao mesmo tempo na covardia com que estava agindo. —Não estou me sentindo... — e não terminou a frase. A porta
  • tinha acabado de fechar-se atrás do marquês, e alguém virou Caroline bruscamente para si. Colocaram-lhe a capa sobre os ombros, de um jeito um tanto brusco. —Que foi? Está sentindo dor de estômago? — perguntou Bradford com um tom preguiçoso, enquanto ajeitava a gola da capa da moça. Caroline procurou fingir que não tinha entendido sua pergunta. Sabia que ele estava se referindo a seus comentários anteriores de que o amava, e não considerou aquilo nem um pouco engraçado. Arriscou-se a olhar para cima, viu que a expressão de Bradford ainda era séria, e percebeu que ele não considerava aquilo engraçado também. Milford chegou, permitiu que Deighton abrisse a porta para ele, depois os seguiu até a rua. Conversou sobre a ópera, comentando que a soprano italiana era considerada espetacular, mas Caroline não prestou lá muita atenção. Subiu na carruagem e acomodou-se no meio do banco acolchoado revestido de couro. Milford seguiu-a e sentou-se no banco em frente a ela. Bradford se sentaria ao lado do amigo, pensou Caroline. Mas Bradford não tinha a menor intenção de sentar-se longe dela. E também entrou na carruagem feito um touro em loja de louças. Caroline saiu de baixo dele bem a tempo, agarrando a saia do vestido, para ele não pisar em cima dela, encostando-se contra a parede lateral da carruagem. Caroline passou a viagem toda para o teatro calada. Sabia que Mil- ford devia ter sentido a tensão no ar e não se importava nem um pouco com o mal-estar dele. Não tinha sido ideia dele, viajarem os três ]untos? Bradford pareceu descontrair-se um pouco ao conversar com o amigo. Ignorou Caroline exatamente como ela fizera com ele. Mas sentou- se tão perto dela que seu braço roçava continuamente contra o corpo dela, e sua musculosa perna estava colada à dela. —Caroline, estás muito calada — comentou finalmente Milford. —
  • Não estás te sentindo bem? —Está com dor de estômago — anunciou Bradford, em voz entrecortada. — Uma dor que não vai passar. Assim que ela se conformar, vai se sentir bem melhor. Milford demonstrou sua perplexidade diante dos comentários do amigo. Olhou de relance de um para outro, várias vezes. __Existem remédios específicos para uma dor de estômago odiosa, insuportável e avassaladora — respondeu Caroline. E seu tom de voz denotava tensão. Bradford não respondeu. Milford fez cara de quem estava ouvindo Caroline falar em um idioma estrangeiro, que ele não conhecia. Caroline então sorriu para Milford. Bradford estava conseguindo de novo tirá-la do sério. Também estava deixando-a decididamente nervosa. Começou a rir, e só balançou a cabeça quando Milford ergueu uma sobrancelha interrogativamente. A ópera foi magnífica, e Caroline divertiu-se de verdade. Bradford ficou ao seu lado e apresentou-a a várias pessoas. Brummell também veio e piscou para Caroline bem na frente de um grupo imenso. Bradford e Caroline mal trocaram uma palavra. Diante do teatro, enquanto todos aguardavam a carruagem, uma multidão se acotovelava. Tinha começado a chover, e várias senhoras soltavam gritinhos, contra- riadas. Caroline ficou entre Milford e Bradford, sem nem sequer notar a chuva, e esperou até a carruagem de Bradford chegar. Quando o veículo parou diante deles, Bradford abriu a porta e ajudou Caroline a entrar. Parecia preocupado e de repente voltou-se e andou até a frente da carruagem. Quando voltou e reuniu-se a Milford e a Caroline, estava de cara fechada. — Correm boatos de que teu pai vai casar-se com Lady Tillman — Milford comentava com Caroline quando a carruagem partiu.
  • Caroline estava olhando pela janela, pensando que estavam certa- mente voltando, pois a carruagem devia ter dobrado à esquerda, descendo a rua príncipal, e não ir na direção em que iam agora. Franziu o cenho quando pediu a Milford para repetir o seu co- mentário e, lançou um rápido olhar a Bradford. Ele estava olhando para algum ponto ao longe, obviamente perdido em pensamentos. — Meu pai parece que está interessado na Lady Tillman, sim — respondeu Caroline. Voltou a olhar pela janela, procurando evitar o assunto, e de imediato notou a abrupta mudança de localidade. — Baixa a cortina! — Essa ordem súbita, dada por Bradford, abalou Caroline. Ele parecia furioso. — Droga, minha intuição falhou — disse a Milford. Caroline não entendeu o que ele estava dizendo a Milford. Os dois homens entreolharam-se e depois sacaram suas pistolas. A carruagem tinha acelerado, e Caroline preparou-se para o pior. Bradford passou-lhe o braço ao redor dos ombros e puxou-a para perto de si, dando-lhe o apoio de que ela precisava. —Mas para onde está indo o Harry? — indagou o Milford, referindo-se ao cocheiro da carruagem. —Não é o Harry — respondeu Bradford. — Sua voz agora estava mais calma, e Caroline pensou que ele estava tentando se controlar por causa dela, de forma que ela não se alarmasse. Uma série de emoções entrechocavam-se dentro de Bradford. Ele estava furioso consigo mesmo por não prestar mais atenção, por aceitar a explicação do cocheiro de que Harry tinha ficado doente e tinha-o mandado substituí-lo, mas acima de tudo, preocupava-se por Caroline, por medo que ela se ferisse. Caroline tinha se envolvido naquilo contra a sua vontade. Alguém estava querendo matá-lo, provavelmente por seu envolvimento com o esforço de guerra, mas quem quer que fosse tinha
  • cometido um erro. Tinha envolvido Caroline, e morreria por isso. Milford ergueu a pontinha da cortina, exatamente quando o co- cheiro pulou da boleia. — O cocheiro pulou — disse ele, com naturalidade. Bradford apertou Caroline com mais força exatamente quando uma das rodas soltou-se do veículo. O barulho foi ensurdecedor! A cortina caiu, e Caroline viu as fa- gulhas que o metal soltou ao entrar em atrito com as pedras da rua. Milford apoiou os pés no banco em frente a si, e Bradford fez o mesmo. Comprimiu os ombros largos contra um dos cantos da carruagem, e puxou Caroline bruscamente para o seu colo, a cabeça protegida contra o seu peito. A carruagem caiu de lado, com tamanha violência que Caroline perdeu o fôlego. Ouviu os cavalos correndo, sabia que os arreios deviam ter se rompido, libertando-os, e ficou aliviada por não ter sido arrastada para baixo pelo peso da carruagem. Bradford foi quem recebeu a maior parte do impacto. Acabou em baixo daquele amontoado de gente, com Caroline sobre si e Milford caído em cima dos dois. Caroline abriu os olhos devagar e viu a pistola de Milford a apenas uns dois centímetros do seu nariz. Empurrou-a com toda a delicadeza com a mão até a pistola apontar para outro lado, enquanto continuava a tentar recuperar o fôlego. Soltou um gemido, mais pelo peso de Milford do que pela posição bizarra na qual estavam suas pernas, e Milford imediatamente rolou para baixo, saindo de cima dela. Caroline começou a sentar-se, e percebeu que suas pernas estavam uma de cada lado dos quadris de Bradford. Na mesma hora procurou rapidamente comprimir-se de encontro a ele. Procurou erguer uma das pernas, perdeu o equilíbrio, e o seu joelho enfiou-se entre os joelhos dele.
  • Bradford soltou um gemido e agarrou Caroline pelos quadris. —Pelo jeito não estás ferida — comentou ele com uma careta que alarmou Caroline. Ela estendeu a mão e afagou um lado da cabeça dele. —Estás bem? — perguntou. O medo transpareceu em sua voz, e Bradford percebeu que ela tinha ficado mais assustada pelas lesões que ele poderia ter sofrido do que pelo que tinha acabado de acontecer. Ele precisou afastar os cabelos dela do seu rosto para vê-lo. — Se não tirares logo teu joelho daí, serei para sempre um eunuco — disse-lhe baixinho. Milford ouviu o comentário e riu baixinho. Caroline corou e depois voltou a gemer, quando a bota de Milford a acertou. Milford pediu desculpas enquanto segurava a porta e depois saiu. Bradford protegeu a cabeça de Caroline das botas de Milford enquanto o amigo tomava impulso e passava pela porta. Depois puxou Caroline pela abertura. A carruagem estava caída de lado, e Caroline contornou-a para avaliar seu estado, enquanto Bradford saía de dentro dela. Bastou um olhar para Bradford ver que tinham vindo parar bem no meio do bairro mais pobre de Londres. Uma multidão já havia se formado, mas eles todos estavam olhando embasbacados para Caroline, em vez de olharem para a carruagem. Bradford resmungou alguma coisa bem baixo para Milford e depois contornou o veículo, puxando Caroline para perto de si. Caroline notou então que tanto Milford quanto Bradford ainda estavam de arma em punho. Percebeu que o perigo ainda não tinha passado de todo. Bradford viu a placa que indicava uma notória taverna no meio da rua e disse a Milford:
  • — Leva Caroline para dentro enquanto encontro alguém que quei- ra ir buscar socorro. Milford concordou e Caroline viu-se subitamente arrastada para perto dele e levada pela mão. Olhou de relance para Bradford lá atrás e estava para avisá-lo para tomar cuidado, só que mudou de ideia. Ela não queria que as pessoas pobres que os olhavam pensassem que ela podia estar preocupada com a segurança deles naquele lugar. Só isso já podia lhes dar alguma ideia indesejável. — 'O Diabrete' — anunciou Caroline ao ler a placa pendurada meio torta sobre a porta da taverna. — Nome mais estranho. Vamos entrar e cometer diabruras aí dentro, é? — perguntou a Milford. Sua voz estava trémula e as pernas tinham começado a tremer, e ela sabia
 que estava finalmente reagindo ao acidente. Milford revelou-se uma influência tranquilizadora. Sorriu, apertou- lhe o ombro para acalmá-la, e depois abriu a porta para eles entrarem. —Senhora Caroline — disse Milford, em voz muito formal, — estou para apresentar-lhe a arte de frequentar os bairros pobres. Estás ansiosa para tomar a primeira lição? — indagou, dando aquele sorriso de velhaco do qual Caroline tinha passado a gostar. —Imensamente — respondeu Caroline, retribuindo o sorriso. Ela entrou na sala repleta de fumaça e logo de cara sentiu-se totalmente deslocada. Seu vestido elegante e capa de peles eram um contraste extremo com as roupas marrons e cinzentas de camponês que os fregueses
 da taverna usavam. O salão estava apenas pela metade, e Caroline estimou que não havia mais de cinquenta fregueses olhando embasbacados para ela. Milford cutucou-a, instigando-a a prosseguir, até que eles chegaram no final do balcão do bar. Ela percebeu então qual era a intenção dele. Ele a fez
  • sentar-se a um canto, para suas costas ficarem protegidas, e depois assumiu seu lugar, de pé diante dela. O dono daquele estabelecimento desprezível finalmente deixou de olhar para os dois maliciosamente e perguntou-lhes o que iam pedir. Milford disse ao homem que por enquanto dois conhaques seriam mais do que suficientes. E como estava muito bem-humorado, gostaria de pagar uma rodada para todos. O silêncio antes da declaração de Milford de que pagaria uma rodada de bebidas foi desalentador. Um grito de aceitação se fez ouvir e depois se ouviram pedidos de cerveja e uísque ecoando ao redor de Caroline. —Boa jogada, Milford — elogiou Caroline. — Transformaste possíveis inimigos em amigos em apenas alguns minutos. Mereces os meus parabéns. — Caroline viu-se obrigada a dirigir seu cumprimento ao ombro de Milford, pois ele se recusou a virar-se e olhar para ela.
 Tinha colocado a pistola no coldre outra vez, mas sua posição sugeria que ele ainda estava preparado para qualquer eventualidade. —Estou quase sentindo saudade — admitiu Milford, deixando perceber que estava achando graça. — Faz anos desde que me meti na minha última briga de bar, meu Deus. Caroline sorriu, mas o sorriso sumiu quando a porta da taverna abriu-se com estrondo e um grupo heterogéneo de homens mal-enca-rados entrou. — Pode ser que ainda possas realizar teu desejo — cochichou Caroline, enquanto observava os homens que a olhavam cobiçosos. Fez-se silêncio, e um dos homens, um homem alto, com uma pança imensa, que parecia não ter tomado banho nos últimos dez anos, vaga-
  • rosamente começou a avançar na direção deles. —Deixa eu dar uma olhada nessa pombinha que está escondendo aí — exigiu ele. E estendeu a mão para empurrar Milford para um lado assim que terminou sua ordem, mas Milford ficou firme onde estava. —Fique quietinha aí — recomendou Milford a Caroline com um suspiro de resignação. E em seguida, deu início à pancadaria. O punho de Milford atingiu a mandíbula do homem imundo, e ele foi rodopiando para trás. Os amigos dele imediatamente entraram na briga. Caroline assistiu, horrorizada, enquanto desviava-se de copos e corpos. Era uma briga totalmente desigual, e ela ficou preocupada por Milford, achando que ia sair muito ferido. O dono da taverna então decidiu aproveitar o momento e estendeu a mão, puxando Caroline pelos cabelos, procurando arrastá-la para si, em torno da esquina do balcão do bar. Ela soltou um grito e imediatamente se arrependeu, pois sua voz interrompeu Milford. Ele se virou para olhá-la, ficando imediatamente vulnerável. — Preste atenção! — gritou Caroline ao pegar uma garrafa cheia de uísque no balcão do bar e dar uma pancada com ela no dono da taverna. A criatura odiosa caiu no chão com grande estardalhaço, e Caroline correu a pegar mais garrafas atrás do balcão. Percebeu que Milford precisava de ajuda, e começou a jogar garrafas nos homens que tentavam derrubá-lo. Sua mira não era tão boa assim, e um homem foi até o bar, quase conseguindo pular o balcão antes que ela pudesse deixá-lo desacordado para deter seu avanço. Ele caiu com um gemido alto, pendurado sobre o balcão. Vários outros fregueses tinham entrado na briga, e agora Caroline não sabia mais exatamente quem estava do lado de quem. Como todas as garrafas da prateleira atrás dela tinham desaparecido, Caroline precisou
  • procurar mais munição e armas embaixo do balcão. Empurrou a caixa de dinheiro para um lado, para tirá-la do caminho, e encontrou novo arsenal. O dono devia ter precisado enfrentar muitas brigas antes, porque Caroline encontrou ali várias facas compridas e curvas, duas pistolas carregadas e um porrete pesado demais para ela levantar, muito menos usar. Caroline escolheu as pistolas. Pôs uma sobre o balcão do bar e segurou a outra. As chances agora estavam do lado de Milford, concluiu ela, embora achasse que ele, ocupado em tentar derrubar três homens de uma vez só, não devia estar percebendo isso. Um brilho de aço chamou a atenção de Caroline. Um homem de pé no canto oposto ergueu o braço e estava para lançar uma faca nas costas de Milford. Caroline disparou imediatamente. A faca caiu e o homem gritou, indignado. A briga parou, e todos, inclusive Milford, viraram-se para olhar para o homem, que estava apertando a mão ferida com a mão sã. E depois todos se viraram para olhar para Caroline, e ela sentiu que devia dar algum tipo de explicação. — Nada de facas na briga — anunciou ela em tom afetado e autoritário. Sua intenção era clara. Ela pegou a segunda pistola e olhou para Milford. — E então? — perguntou, quando viu que ele estava parado, olhando-a boquiaberto. — Vai continuar, ou devemos sair? Milford soltou um urro, agarrou dois homens pelo pescoço e bateu as cabeças deles uma contra a outra. Ambos caíram exatamente na hora ern que um terceiro atacou. E o tempo todo Caroline aguardou pacientemente a briga terminar. Terminou antes do que ela imaginava. A porta da taverna bateu contra a parede, soltando-se das dobradiças. O som podia não ter sido suficiente para distrair os homens e interromper a briga, mas o urro emitido pelo homem que surgiu à entrada certamente foi.
  • Bradford parecia mesmo pronto a matar alguém. Caroline sentiu alívio por ele estar ao lado dela. — Você demorou demais! — berrou Milford, entre um soco e outro. Bradford encontrou Caroline. Ela lançou-lhe um sorriso, mostrando- lhe logo que estava bem, e a expressão dele imediatamente passou de fúria para interesse casual. Caroline viu-o tirando a casaca, dobrando-a cuidadosamente, e colocando-a sobre o encosto de uma cadeira de madeira. Ele estava demorando de propósito! Milford voltou a chamá-lo, e Bradford finalmente entrou na briga. E encerrou-a bem depressa, por sinal. Caroline, muito embora sou- besse que ele era forte, agora estava admirada diante de tanto vigor. Ele nem mesmo demonstrou estar fazendo esforço, mesmo quando levantou um homem que pesava o dobro do peso dele e jogou-o porta afora. Depois dele, jogou outro, depois mais outro, até a calçada ficar juncada de gente caída gemendo. Bradford agarrou o último que estava em cima do Milford, t chutou-o porta afora sem perda de tempo. Ainda parecia impecável, embora seus cabelos estivessem meio re- voltos. Milford, por outro lado, estava lamentável. Sua casaca estava rasgada, as calças imundas. Caroline viu-o flexionar as mãos e ajeitar a gravata. —Bebidas por conta da casa — anunciou Caroline, fazendo ambos virarem-se para ela. — Isto é, se eu puder encontrar alguma garrafa. —Pois eu creio, minha cara, que todas foram quebradas — co- mentou Milford. —Tu estavas encarregado de defendê-la — resmungou Bradford, exasperado. — Caroline, sai de trás desse balcão. O carro de aluguel está à nossa espera.
  • Caroline concordou e vagarosamente foi passando por cima dos corpos que estavam caídos no caminho. Bradford foi até lá ver o que estava impedindo Caroline de sair e sacudiu a cabeça. —Não vou perguntar nada — comentou com Milford, que tinha vindo até o seu lado. —Ê melhor mesmo — respondeu Caroline. — No seu modo de ver, eu devia estar desmaiada ou desfeita em lágrimas agora, não? Milford? Visitar o bairro pobre é mesmo muito divertido — prosseguiu. — E briga de bar é uma coisa sensacional. Por que parou? Milford riu e Bradford franziu o cenho. Pegou a mão de Caroline e puxou-a para fora da taverna. O veículo de aluguel era apertado, e Caroline foi obrigada a sentar-se no colo de Bradford. Ele estava de cara amarrada, e Caroline achou que ele nem mesmo estava prestando atenção à conversa. Sabia que não estava zangado com ela, pois lhe acariciava uma face distraidamente enquanto espiava pela janela. Quando a carruagem parou diante da casa de Caroline ela sorriu para Milford e disse: — Mas que noite fantástica, cavalheiro! Primeiro uma ópera, depois uma briga de bar! E nunca tinha visto nenhuma das duas antes! Bradford saiu do carro de aluguel corn dificuldade e ficou parado esperando para ajudar Caroline. Milford deteve-a um pouco mais, segurando-lhe a mão e beijando-lhe a palma. —Até nossa próxima aventura, Lady Caroline. — Seus olhos cintilavam travessos, e Caroline riu agradecida. —Não vai haver mais aventura nenhuma — declarou Bradford em um tom que soou bastante decidido. Caroline permitiu que ele a ajudasse a descer do veículo, e mansa-
  • mente seguiu-o até a porta. — Bradford, estás mesmo zangado comigo? — perguntou baixinho. — Não permitirei que corras nenhum risco — Bradford respondeu. Pegou os seus ombros e puxou-a para perto de si para abraçá-la. — Não quero que aconteça nada a ti. — E inclinando-se, beijou-a no rosto. Deighton abriu a porta, e Caroline, relutante, entrou na casa. Ficou decepcionada por Bradford não segui-la. A conversa deles teria que esperar até o dia seguinte, pensou ela. Aí ele admitiria que a amava. E tudo seria maravilhoso. ! ! CAPITULO 9 ! ! ! — Alguém soltou a roda da carruagem de propósito — disse Bradford a Milford assim que eles seguiram caminho. — Foi por isso que ela saiu. —Estás fazendo inimigos de novo, Brad? -- indagou Milford. Agora não estava sorrindo. Caroline estava segura dentro de casa, e ele podia demonstrar sua preocupação e raiva. — Podíamos ter morrido. —Quem está atrás de mim não é de perder tempo com detalhes — comentou Bradford. — Caroline não tem nada a ver com isso, e não vou mais permitir que corra perigo algum. —Que planejas fazer: — indagou Milford. Estava com a testa franzida de preocupação, exatamente como Bradford. —Vou descobrir quem está por trás disso e acabar com ele —
  • previu Bradford. — Mas até conseguir, vou parar de visitar Caroline. Para todos os efeitos, rompemos o namoro. —Explicarás tudo a ela, não; — perguntou Milford. Concordava que Bradford evitasse sair com Caroline até a ameaça passar. Mas tam- bém pensava nos sentimentos de Caroline e em como a separação iria fazê-la sofrer. — Não. É melhor ela também achar que não estamos mais um com o outro. Perdi o interesse. Senão ela não vai se portar de maneira muito convincente. E imprescindível que todos acreditem, senão ela pode ser usada como arma contra mim. —E Braxton? Vais falar com ele?
 Bradford sacudiu a cabeça. —Não. Ele pode não resistir e contar tudo a Caroline. — E por onde começamos? — perguntou Milford. — Quanto
 mais cedo encontrarmos o homem, melhor. Pelo Harry, que tal? Bradford concordou. —E também vou falar com meus amigos do Ministério da
 Guerra. —Quando tudo isso terminar, vais ter uma outra guerra nas
 mãos... — decretou Milford. E ambos disseram o nome dela juntos. As duas semanas seguintes foram insuportáveis para Caroline. A princípio, ela simplesmente se recusava a crer que Bradford a tivesse abandonado. Usava todas as desculpas, todos os argumentos imagináveis, até a noite em que deu de cara com ele na residência dos Almacks e Bradford agiu como se ela fosse invisível. Nessa hora, Caroline precisou aceitar a verdade. Estava tudo terminado. Charity ficou ainda mais nervosa do que Caroline. Resmungava sem parar, revoltada, dizendo que Bradford merecia uma boa surra de
  • chicote. E inadvertidamente fazia Caroline sofrer mais, contando todas as fofocas que corriam sobre as atividades notórias de Bradford. O duque de Bradford tinha voltado à pândega, supostamente levando para a cama a maioria das mulheres de Londres. Viam-no todas as noites, cada vez com uma mulher diferente pelo braço. Tinha voltado a ser como antes, participando de jogos de azar e bebendo em excesso. Todos, inclusive Charity, acreditaram que Bradford estava se divertindo como nunca. Depois de dar de cara com Bradford na casa dos Almacks, Caroline resolveu recusar todos os outros convites. Ficava em casa noite após noite. Escreveu uma longa carta para Caimen, desabafando sua mágoa, mas depois de Deighton a. remeter, arrependeu-se desse impulso. A carta só levaria preocupação ao primo, e não havia nada que ele pudesse fazer para ajudá-la. O conde de Braxton não fazia a menor ideia da tensão que Caroline estava enfrentando. Ela sempre o cumprimentava com um sorriso pronto, e a seus olhos parecia inteiramente contente. Ele aceitou sua desculpa de que ela estava cansada de ir sempre a tantas festas e queria ficar em casa para concentrar-se no planejamento do casamento de Charity. Caroline fingia assim para o pai ter paz de espírito. Percebia que sua relação com o conde era no máximo superficial, mas só desejava evitar que se preocupasse com ela. Ele perguntou por que Bradford não aparecia, e toda vez Caroline lhe dizia que eles haviam decidido terminar o namoro. Na segunda de manhã chegou uma carta de Boston. Trazia as últimas notícias, e uma lista imensa de perguntas sobre as atividades de Charity e Caroline. O tio Henrv deu a aprovação para o casamento de sua filha, e incluía um pedido para Benjamin voltar a Boston assim que possível. Todos precisavam muito de suas orientações sobre os novos cavalos recentemente adquiridos e os sete potros nascidos na primavera anterior. Benjamin estava ansioso para voltar. Caroline podia ver essa ânsia
  • em seus olhos. —Estás com saudades de casa, não? — provocou ela. —Não sei como vamos nos sair sem ti — comentou o pai de Ca- roline. — Vamos voltar a passar fome — acrescentou. Deixou os dois a sós, para tratar dos preparativos para a viagem. Caroline também não sabia como iria ficar sem o Benjamin, embora não revelasse a ninguém essa preocupação. — Nós passamos por tudo juntos, não? — indagou Caroline.
 Ela sorriu e disse: — Ê verdade. — E não pôde resistir à vontade de lhe dar um abraço. — Jamais te esquecerei, meu amigo. Tu sempre me ajudaste quando precisei de ti. Na segunda-feira seguinte, Caroline acompanhou-o ao cais do porto. O conde tinha providenciado um guarda-roupa muito elegante para Benjamin, incluído um sobretudo grosso. —Lembras-te de quando me encontraste no estábulo? — perguntou Benjamin, quando eles se despediram. —Parece que foi há um século — respondeu Caroline. —Agora estás por tua conta, menina. Fico, se me pedires — acres- centou. — Devo-te a minha vida. —Assim como eu te devo a minha — respondeu Caroline. — Teu futuro é em Boston, Benjamin. Não te preocupes comigo. —Se um dia precisares de mim... — começou Benjamin. —Eu sei. — interrompeu Caroline. — Tudo vai correr bem co- migo, juro. Naturalmente, ela não estava bem, e chorou durante toda a viagem para casa. Era difícil não se entregar à autopiedade. Caroline fez tudo que
  • podia para conservar-se animada. A primeira nevasca cobriu Londres, e ela ainda não tinha tido notícias de Bradford. Ela aceitou um convite de Thomas Ives e acompanhou-o a um jantar oferecido por Lady Tillman. Foi uma festa chatíssima, mas ao ir, Caroline agradou seu pai. No dia seguinte, foi visitar o seu tio Milo. Frankhn ainda não tinha chegado, e ela e o marquês tiveram uma conversa agradável. Ele tinha ouvido falar que Benjamin tinha partido para Boston, e lhe pediu para explicar-lhe sua relação com ele. —Eu o encontrei no estábulo um dia — disse Caroline. — Era um escravo fugido, e tinha vindo de muito longe, das Virgínias. — Ca- roline não lhe deu maiores detalhes, e o tio foi obrigado a provocá- la a lhe contar um pouco mais. —Seu pai disse que ele se tornou seu protetor. Boston é assim um lugar tão selvagem e sem lei, é? Caroline riu. — Creio que acabaste de me descrever, não de descrever Boston. Eu vivia me metendo em encrenca, e Benjamin estava sempre presente, procurando garantir a minha segurança. Salvou minha vida mais de uma vez. O tio Milo soltou uma risadinha sardónica. — Pareces mesmo muito com tua mãe, então — comentou. — Mas e o Benjamin? Não podem obrigá-lo a voltar para o Sul? Não há ninguém procurando escravos fugidos em troca de alguma recompensa? Caroline franziu o cenho. — É verdade, há homens que ganham a vida caçando escravos, mas Benjamin agora é livre. Papai, quero dizer, tio Henry, mandou Caimen pagar pela alforria dele. Franklm chegou e imediatamente mencionou o nome de Bradford.
  • Carolíne procurou manter-se impassível e informou ao tio que não tinha mais nada que ver com o duque. Aquele relacionamento tinha terminado. — E agora, pretendes voltar a Boston? — indagou Franklin. Caroline surpreendeu-se ligeiramente quando o tio perguntou isso, imaginando como ele teria chegado a uma conclusão dessas. O tio Milo ficou furioso com o comentário do irmão. Ela nunca o tinha visto tão irritado! Levou quase uma hora para convencê-lo de que não tinha a menor intenção de sair da Inglaterra, e finalmente conseguiu acalmá-lo. Franklin aí explicou que tinha ouvido boatos de que ela ia voltar para Boston, e que o pai dela tinha decidido se casar com â Lady Tillman. De acordo com a fofoca, o conde ia levar sua noiva em viagem por toda a Europa antes de voltar ao país para iniciar sua vida de casado com ela. Caroline tinha acabado de passar um bom tempo acalmando o tio Milo. Franklin, dizendo isso. deixou-a furiosa. Ela lhe disse que seus comentários eram ridículos. Com a situação na França começando a complicar-se de novo, seu pai não se arriscaria a sair da Inglaterra. —Meu pai não vai a lugar algum. —E se for, tu te mudas para cá, vens morar comigo — anunciou tio Milo. E lançou um olhar furioso ao irmão, obviamente esperando algum tipo de briga. — Ideia esplêndida - - replicou Franklin. E ai mudou de assunto. Quando Caroline voltou para casa. encontrou uma carta endereçada a ela. Pegou-a em cima da mesa do vestíbulo e foi para a sala de estar. Ficou aliviada por estar só, pois quando leu a terrível mensagem que o envelope continha, soltou um grito de indignação. O primeiro parágrafo tinha comentários odiosos e maliciosos sobre sua personalidade em gêral. No segundo, havia coisas mais específicas. O empurrão das escadas na casa dos
  • Claymere não tinha sido com o objetivo de matá-la, só de assustá-la. E também o acidente de carruagem. Ela morreria, prometia o autor da carta, mas no seu devido tempo. O destino se cumpriria, e o dia da vingança finalmente chegaria! A carta terminava com várias descrições aterronzantes da precisa forma pela qual ela seria assassinada. Caroline ficou sem saber o que fazer. Pôs a carta de volta no enve- lope e escondeu-a no seu guarda-roupas. Desejou de todo o coração que Benjamm não tivesse ido embora! E aí procurou controlar-se e perguntou a Deighton como era a pessoa que tinha deixado aquela carta. Nem Deighton nem o resto da criadagem sabiam nada sobre a carta. Caroline escondeu seu espanto e seus motivos, dizendo apenas que tinha achado a carta na mesa do corredor e ficado imaginando quem a teria mandado. Explicou que tinham se esquecido de assinar a carta. Deighton ficou preocupado com essa falta sua. Era seu dever abrir a porta, e alguém tinha ousado aventurar-se no seu território! Insistiu que a porta estava sempre trancada, e ficou suspeitando que uma das criadas teria aberto a porta sem sua permissão. E agora o culpado estava com medo de confessar seu crime. Caroline deixou Deighton resmungando e subiu as escadas outra vez. —Aposto que a Marie recebeu esta carta e está morrendo de medo de admitir isso. Vive perambulando pela casa — resmungou Mary Margaret. — A comida agora piorou de novo, só porque o Benjamin foi embora. Essa burra não aprendeu nada! Acho que o Deighton devia
 demiti-la. —Não sejas tão severa assim — admoestou-a Caroline. Ela agora pensava na família de Marie, Toby e Kirby, e sabia que a cozinheira estava fazendo o máximo que podia. — Tem só um
  • pouco mais de paciência, Mary Margaret. A Marie precisa deste emprego. Vou conversar
 de novo com ela em breve — prometeu, quando teve a impressão de que a criada ia voltar a protestar. Caroline sentia-se exasperada diante da mesquinhez dos problemas que era obrigada a resolver. Alguém estava querendo matá-la, e ela não fazia a menor ideia de qual era o motivo, mas a rotina diária da administração do lar parecia vir em primeiro lugar. Ela decidiu não contar ao pai sobre a carta ainda. Se eJe percebesse o perigo que ela estava correndo, podia mandá-la de volta para Boston, e embora essa ideia realmente não fosse tão desagradável assim, Caroline percebeu que seria como fugir da situação. Também significaria deixar Bradford, nunca mais tornar a vê-lo. Isso não era exatamente importante, disse consigo mesma, porque Bradford tinha deixado perfeitamente claro que tudo entre eles estava terminado. Não podia conversar com ninguém. Charity não poderia ser sua confidente, porque contaria a todos que quisessem escutá-la. E também ficaria assustada, exatamente como aconteceria ao pai de Caroline. Seus comentários anteriores, referentes aos motivos pelos quais tinha mandado chamar seu irmão quatorze anos antes, faziam-na crer que ele tinha tendência a isso. Ele havia dito que queria que ela estivesse protegida, e Caroline tinha deduzido que, sem saber como, tinha se envolvido no jogo político em que o pai estava envolvido. Bradford tinha lhe dito que o conde era antes considerado radical, e Caroline sentia que sem querer tinha acabado sendo incluída em alguma conspiração. Era a única conclusão que fazia algum sentido para ela. Durante uma semana interminável ela ficou calada. Tinha insónia e comportava-se de forma retraída.. Rejeitou uma infinidade de convites e pulava ao menor ruído. A
  • única vez que se arriscou a sair de casa foi para suas visitas ritualísticas ao seu tio Milo. O conde veio perguntar a Caroline o porquê de seu estranho com- portamento, e aceitou em seu nome um convite de Milford para ir ao teatro. Discutiu com sua teimosa filha até ela concordar em ir. Caroline decidiu ir ao teatro para satisfazer o pai. Sentia-se ao mesmo tempo ansiosa e triste diante da possibilidade de ver Milford. Gostava dele e apreciava sua sagacidade, mas toda vez que pensava nele, lembrava-se de Bradford. Pôs um vestido verde-água, e arrumou-se com todo o esmero. Mary Margaret encaracolou seus cabelos e trançou uma fita por todo o pesado penteado. A falta de sono deixava Caroline irritadiça, e os grampos a incomodavam até ela sentir vontade de gritar. — Mary Margaret, temos mais de uma hora até o Milford chegar. Vai buscar tua tesoura — ordenou Caroline, num tom que não admitia resposta. — Já vi como cortaste os cabelos da Charity e gostaria que cortasses os meus. Agora, Caroline falou enquanto tirava o vestido atabalhoadamente e ar- rancava os grampos do cabelo, tudo ao mesmo tempo. — Corre, Mary Margaret. A decisão está tomada. Já estou cansada de andar com esse peso todo na minha cabeça por aí. Mary Margaret arregaçou a saia e saiu correndo do quarto. Ca- roline fingiu que não tinha escutado os resmungos da moça e deu uma boa olhada em si mesma no espelho. Endireitou os ombros e lançou um olhar decidido ao seu reflexo. —Já te lamentaste demais, Caroline Richmond.
 Charity entrou e ouviu Caroline falando consigo mesma. —O que estás fazendo aí? — indagou.
  • — A partir deste instante, estou assumindo o controle — anun- ciou Caroline. — Lembras-te de que me disseste que não sou de ficar sentada? Charity confirmou, com um sorriso radiante. — Então vais procurar o Bradford?
 Caroline sacudiu a cabeça. — Não. Mas já resolvi o que vou fazer em vários outros casos — esquivou-se Caroline. — Explico tudo semana que vem — prometeu. — Vais ter de confiar em mim, lembrar que não perdi o juízo. Charity confirmou, embora parecesse estar confusa. Mary Margaret entrou correndo no quarto outra vez, enquanto Caroline empurrava Charity para fora. — Mary Margaret e eu precisamos trabalhar. Desço dentro de pouco tempo. A criada recusou-se terminantemente a cortar mais do que dois dedos do cabelo de Caroline e fincou pé até Caroline lhe tirar a tesoura das mãos e começar a cortar os seus próprios cabelos. A criada soltou um grito de susto, mas logo entendeu o que Caroline esperava dela. E aí, quando terminou, sorriu encabulada e admitiu que Caroline estava com uma aparência sensacional. Aquela pesada massa de ondas tinha sido substituída por cachos suaves e encaracolados que terminavam logo abaixo das orelhas da moça. Quando Caroline mexeu a cabeça, sentia tamanha liberdade que chegou a rir. —Sabe, estou me sentindo fantástica — disse Caroline à criada. —E estás fantástica — disse Mary Margaret. — Teus olhos parecem ter o dobro do tamanho de antes, e estás mais feminina, senhorinha — continuou. — Vais causar uma comoção e tanto. O corte de cabelo fez Caroline sentir-se melhor. — Agora, se eu conseguir enfrentar só esta noite, acho que serei
  • capaz de enfrentar qualquer coisa. Mary Margaret franziu o cenho ao ouvir aquele comentário, mas Caroline não lhe deu maiores explicações. Milford chegou cedo, e quando Caroline tornou a vestir-se e beliscou as faces para ficar mais corada, ele já estava esperando fazia algum tempo. Milford estava de pé no centro do vestíbulo e ficou olhando Caroline descer as escadas. Imediatamente notou os cabelos dela e fez vários elogios a sua aparência. Achou-a mais linda do que nunca, mas também notou sua fadiga. Ela obviamente não andava dormindo bem. Quando eles se sentaram na carruagem de Milford no caminho para o Teatro Drury Lane, ele sorriu para a moça. —Faz algum tempo, não, chuchuzinho? —Chuchuzinho? Tu nunca me chamastes assim — respondeu Caroline, Milford deu de ombros. —Estás passando bem? — perguntou. Seu olhar estava cheio de compaixão, e Caroline ficou toda abespinhada. Será que estava com pena dela?, perguntou-se. Ficou exasperada só em pensar nisso. —Ninguém morreu, Milford. Não precisas fazer esse drama todo. E estou muito bem, sim, obrigada. ! —Bradford não anda dormindo bem também — comentou Milford. —Não toques no nome dele na minha frente! — exigiu Caroline. E percebeu que tinha gritado, imediatamente abaixando o tom de voz. — Prometa, Milford, senão saio desta carruagem e volto a pé para casa. —Prometo — respondeu ele, mais que depressa. — Não direi ne- nhuma palavra mais sobre... aquele sujeito. Só pensei que devias
  • tomar conhecimento de algumas... — Milford! — avisou Caroline, com voz trémula. — Não quero saber de nada sobre ele. Terminou. E agora — continuou, com um suspiro fatigado — conta-me o que andas fazendo. Andas te metendo em alguma briga de bar? Foi muito difícil manter a conversa descontraída. Os nervos de Caroline estavam praticamente em frangalhos, e na hora do intervalo no teatro ela já estava exausta de tentar parecer feliz. A peça foi no máximo medíocre, e entre os atos via-se uma verdadeira multidão nos corredores. Caroline ficou sorrindo até seu rosto parecer um espelho a ponto de estilhaçar-se em mil fragmentos. Quando pensou ter visto Bradford do outro lado do saguão, seu coração quase saiu pela boca. O homem virou-se, e não era Bradford, mas o coração de Caroline continuou a bater desenfreado, e ficou mais difícil do que nunca manter a compostura. Ela e Milford estavam no meio de uma roda de gente, e então Caroline percebeu que não devia estar se expondo assim em público. Era um alvo fácil. Voltou a pensar naquela carta assustadora e sentiu um arrepio. Exatamente nessa hora alguém acidentalmente empurrou Caroline, e ela girou nos calcanhares, com um olhar de puro terror. Mudou rapidamente de expressão e sorriu. Mas não foi rápida o bastante. Milford observou a mudança de expressão dela e claramente ficou impressionado com seu comportamento. — O que é que há contigo? — indagou, puxando-a para um canto. Caroline estava de costas para a parede e acalmou-se visivelmente. Sacudiu a cabeça, admitindo para si mesma que não era capaz de suportar nem a multidão nem o barulho um minuto sequer a mais. — Não me sinto segura — murmurou. — Acho que gostaria de voltar para casa agora.
  • Milford escondeu seu alarme. O rosto de Caroline perdeu toda a cor e ela parecia prestes a desmaiar. Ele esperou até eles estarem de novo na carruagem, a caminho para o sobrado do pai dela, antes de tocar no assunto outra vez. Caroline, sentada diante dele, tinha as mãos cruzadas no colo. —Caroline, explica-me por que não te sentias segura. —Não é nada — respondeu Caroiine. Ela olhou pela janela, es- condendo sua expressão. — Planejas comparecer ao baile dos Stanton na semana que vem? — indagou, torcendo para conseguir mudar de assunto. Mas sua tentativa não deu em nada. Milford pegou as mãos dela e apertou-as ligeiramente. — Olha para mim, Caroline. Ela foi obrigada a obedecer, pois Milford estava lhe puxando as mãos com insistência. — Por que não te sentiste segura? Ele não ia desistir. Caroiine suspirou e sentiu os ombros caírem. — Alguém está querendo me matar — murmurou. O queixo de Milford caiu e ele perdeu a fala. Soltou as mãos dela e recostou-se no assento. —Conta-me — disse finalmente. E seu tom parecia tão inflexível quanto o de Bradford dando uma ordem. —Só se me deres tua palavra de que guardarás sigilo — exigiu Caroline. Milford concordou, e Caroline prosseguiu: — Eu não caí da escada na casa dos Claymere. Alguém me empurrou. E o acidente da carruagem não foi acidente coisa nenhuma. Milford fez uma cara tão espantada que Caroline começou a contar tudo depressa, para convencê-lo de que não tinha enlouquecido. — Na semana passada recebi uma carta terrível, Milford. Alguém
  • me odeia e jurou me matar. Não entendo quem é, nem o motivo. Milford soltou uma exclamação. Perguntas e ideias passaram-lhe pela cabeça como um relâmpago. — Ainda tens esta carta? A quem contaste isso? — E não esperou Caroline responder a nenhuma das duas perguntas, fazendo uma terceira. — O que acha disso o teu pai? E por que é que ele te deixou sair de casa, meu Deus? Estava a ponto de ter um acesso de cólera. Caroline resolveu res- ponder a última pergunta. — Meu pai não sabe da ameaça. Milford lançou-lhe um olhar de descrença e Caroline apressou-se a explicar. —Creio que ele me mandou para outro lugar tantos anos atrás porque estava com medo. Não vou permitir que isso aconteça de novo, Milford! Ultimamente ele vem se sentindo tranquilo e feliz. E direito dele! —Não acredito nisso — resmungou Milford. — Alguém querendo te matar e tu me dizes que não queres perturbar a paz de espírito do teu pai! Meu Deus, Caroline, devias estar pensando em ti mesma agora. —Por favor, Milford, acalma-te — disse Caroline. — Já tomei uma decisão, não precisas te preocupar comigo. Sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim mesma. —E que pretendes fazer? — indagou Milford quase distraidamente. Estava louco para deixá-la em casa e encontrar Bradford, para lhe contar o que tinha descoberto. Não iria cumprir a promessa de guardar segredo que tinha feito a Caroline. Pelo amor de Deus! E os
 dois achando que o atentado tinha sido contra Bradford. Milford
  • ficou sacudindo a cabeça, pasmo e cada vez mais irado. Percebeu como ela estava sozinha e desprotegida, e sabia que Bradford iria ficar arrasado ao saber da verdade. Certamente iria! —Ora, eu tinha pensado em contratar investigadores — disse Caroline, começando a expor seu plano. Só dizer isso já a fazia sentir-se mais dona da situação. — Vou enviar mensagens convocando entrevistas sem perda de tempo, logo amanhã bem cedo, e depois... —Pois podes ir parando aí mesmo — interrompeu Milford. Agora estavam passando pela sua cabeça mil possibilidades, e ele desejava um momento de tranquilidade para estudá-las. Caroline logo ficou decepcionada diante do comentário dele. Per- cebeu que estava jogando seus problemas em cima do amigo, e não tinha direito de fazer isso. — Entendo — disse ela. — Não te culpo, Milford. Quanto menos souberes, melhor. Desculpa-me por deixar-te assim transtornado. Seria até melhor te afastares de mim, até tudo isso passar. Os olhos de Milford arregalaram-se, e ele quase riu. — E por quê? —Bem — disse Caroline — porque é possível que saias ferido. Por que estás olhando para mim desse jeito? —Não sei por quê, mas tenho a impressão de que acabaste de me ofender — anunciou Milford. Ele não parecia estar nada chateado, e agora sorria para Caroline. —Ah, afinal, chegamos a tua casa. Amanhã virei visitar-te, Caroline. —E por quê? — perguntou Caroline. — Acabei de explicar-te que devias ficar longe de mim.
  • Milford revirou os olhos para o céu, acompanhou Caroline até dentro de casa, e retirou-se. Levou uma hora para localizar Bradford. Milford mal conseguiu conter-se ao entrar na sala de jogos de azar e ver o amigo sentado a uma das mesas com uma quantia de dinheiro imensa diante de si. Bradford parecia entediado com o jogo e com os homens que o cercavam. Milford abriu caminho até a mesa e inclinou-se para dizer ao ouvido de Bradford algo que ninguém mais ouviu. A expressão entediada de Bradford desapareceu na hora. Para assombro de todos, ele soltou um urro de fúria, levantou-se com tal rapidez que jogou a mesa e a cadeira ao chão e aí, sem uma palavra de explicação e sem deter-se um instante para recolher seu dinheiro, seguiu Milford para fora do salão. Ouviu Milford repetir a história de Caroline e depois declarou que ia visitá-la. —Já passa da meia-noite. Brad. Vai ter de esperar até amanhã.
 Bradford sacudiu a cabeça. — Agora — exigiu. — Deixa-me na porta da casa de Caroline, e vai para casa. Milford sabia quando era inútil discutir com o amigo. Concordou e prometeu que mandaria sua carruagem de volta para levar Bradford para casa. Deighton abriu a porta, diante das pancadas insistentes de Bradford. — Ê um prazer revê-lo. Sua Graça — cumprimentou o mordomo, com uma reverência formal. — Diz à Caroline que desejo falar com ela — disse Bradford.
 Deighton abriu a boca na intenção de negar e dizer que Caroline estava ferrada no sono, mas a cara que o duque estava fazendo fê-lo mudar de ideia.
  • Concordou, e subiu as escadas rapidamente. Caroline estava na cama, mas ainda totalmente acordada. Quando Deighton anunciou quem estava esperando por ela no térreo, Caroline imediatamente adivinhou por quê. Só podia ter sido o Milfordl Ele obviamente tinha ido direto contar ao Bradford a história sobre a qual ela tinha lhe pedido sigilo. —Por favor, informa a Sua Graça que não desejo falar com ele — disse Caroline a Deighton. — Deighton? — chamou ela, quando ele começou a percorrer o corredor. — Meu pai já chegou em casa? —Sim — respondeu Deighton. — Ele se recolheu faz mais de uma hora. Desejas que eu vá chamá-lo? —Mas claro que não, imagina — disse Caroline. — Não deves perturbar meu pai por motivo nenhum, Deighton. Deighton concordou e continuou andando. Caroline fechou a porta e andou devagarinho até a janela. Seus pés sentiram frio ao pisar no piso de madeira de lei. Previa que Deighton não ia conseguir se livrar de Bradford com facilidade, e que ele obrigaria o mordomo a convencê-la a sair do seu quarto pelo menos uma vez mais. Quando a batida soou à sua porta, Caroline já sabia que era isso que ocorreria. — Diz-lhe que vá embora, Deighton. A porta abriu-se, e Bradford apareceu, preenchendo o espaço entre os batentes. — Não vou a lugar algum. — E ficou ali parado, incrivelmente belo, e Caroline sentiu uma reação imediata. Suas pernas começaram a tremer, e ela começou a sentir falta de ar. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela disse a si mesma que era só por causa do cansaço extremo
 que estava sentindo.
  • Bradford ficou contemplando emocionado a beleza extrema que tinha diante de si, enquanto tentava resistir à tentação de trancar a porta e toma-la em seus braços. Caroline finalmente conseguiu falar. — Não devias estar aqui, Bradford. E uma transgressão da moral. — Sua voz saiu rouca. Bradford sorriu. — Vais ter que aceitar o fato de que nem sempre ligo para a moral — disse. Sua voz parecia uma carícia suave. Caroline ficou hipnotizada por ela e pelo olíiar dele. que percorria ardentemente seu corpo, dos artelhos até o alto da cabeça, Bradford vagarosamente entrou no quarto. Fechou a porta, e Caro- line ouviu o estalido da fechadura. Estavam sozinhos e trancados no seu quarto. O coração de Caroline quase parou, e ela tentou sentir um pouco de raiva e indignação. NTão conseguiu sentir nenhuma das duas coisas, e ficou parada como se fosse uma estátua, esperando o que Bradford faria a seguir. —Ou isso é algum pesadelo, ou perdeste completamente o juízo — finalmente disse Caroline. - - Destranca essa porta e sai daqui, Bradford. —Ainda não, querida — disse ele, com uma voz cheia de ternura. Começou a aproximar-se dela. e Caroline imediatamente recuou. Bradford viu-a agarrar o roupão e vesti-lo. Ficou ligeiramente surpreso por ela não gritar com ele. Tinha-a tratado como um crápula, e embora seus motivos tivessem sido bastante respeitáveis, Caroline não tinha como conhecê-los. Ele a havia repudiado publicamente. Por que ela não estava atirando nada em cima dele? Caroline continuou com o olhar pregado nele. Mil pensamentos lhe passavam pela cabeça, mas ela não conseguia concentrar-se ern nenhum. Estava, pela primeira vez na vida, completamente indefesa.
  • Bradford parou de avançar quando se viu diretamente diante de Caroline. Estendeu a mão e acariciou delicadamente a face dela. — Pára. — Foi um murmúrio sofrido. Bradford notou que sua mão tremia quando a deixou cair de novo ao lado do corpo. Ela deu mais um passo para trás enquanto Bradford procurava uma forma de fazê-la reagir a sua carícia. — Senti saudades tuas, Caroline. Caroline não podia acreditar no que tinha escutado. Sacudiu a cabeça e começou a chorar. Bradford pegou Caroline e puxou-a para perto de si. —Desculpa, meu amor, pelo amor de Deus, me perdoa — sussurrava, sem parar, a boca encostada nos cabelos dela, as mãos sern parar de acariciá- la, afagá-la, apertá-la contra si. Caroline continuou chorando, aceitando o consolo que ele lhe oferecia. Bradford ergueu-lhe o queixo e usou seu lenço para enxugar-lhe as lágrimas das faces. — Também sofri muito — admitiu baixinho. Depositou beijos suaves na testa da moça e no nariz dela, depois fi- nalmente na boca. Caroline terminou por controlar-se e afastou-se dele. — Por que sofreste? Bradford suspirou, desejando poder continuar beijando-a em vez de explicar. Viu a cadeira de balanço e foi até ela, puxando Caroline consigo. Quando já havia se acomodado nela, Caroline firmemente segura no seu colo, sorriu de contentamento e então começou: — Jura que não vais me interromper até eu terminar.
 Caroline concordou, com uma cara solene. —Pensei que alguém queria me matar. Quando a carruagem virou e vi depois que alguém tinha soltado a roda, entendi que quem queria me matar não se importava com quem estivesse comigo. Então
  • decidi... —Por que foi que achastes que alguém queria matar-te? — in- terrompeu Caroline. —Prometeste que esperarias até que eu terminasse — recordou-lhe Bradford. — Foi minha carruagem que foi sabotada, Caroline, e meu cocheiro que recebeu uma porretada na cabeça. Foi uma conclusão lógica. — Conclusão mais egocêntrica — comentou Caroline.
 Bradford deu de ombros, pensando consigo mesmo que ela prova- velmente estava certa. —Bom, não importa, decidi fingir que tinha terminado tudo entre nós, para todos pensarem que eu não estava mais interessado em ti. E assim — disse ele, falando mais alto quando Caroline abriu a boca para protestar — eu poderia ter certeza de que tu não serias usada contra
 mim, nem atacada. —Mas por que não me disseste? — protestou Caroline. Tinha finalmente conseguido se irritar. Só de pensar na agonia que tinha passado por causa dele, já ficava furiosa. Bradford viu a mudança tomar conta de Caroline e preparou-se para sua fúria. —Não precisas responder — disse Caroline, baixinho, exasperada. — Sei o motivo. Foi porque não confias em MIm. — E saiu do colo dele, ficando de pé na sua frente. — Admite, Bradford. —Caroline, eu só queria proteger-te. Se eu tivesse feito confidências a ti, poderias ter contado a alguém e te exposto ao perigo. — Bradford achou que era bastante lógico o seu raciocínio. Seu argumento fazia sentido perfeito para ele. Caroline obviamente não concordou. Olhou de relance para o
  • quarto ao seu redor, e Bradford achou que ela podia estar procurando uma arma. —Ocorreu-te, nem que fosse por um instante, que eu podia ter guardado teu segredo? — argumentou Caroline. —Não — admitiu Bradford. — E mesmo que eu confiasse em ti, não teria funcionado. Mostras nas tuas expressões fisionómicas tudo que sentes, amor, e todos teriam percebido que não eras uma mulher rejeitada. Bradford estendeu a mão e tentou puxar Caroline de volta para seu colo. Mas ela esquivou-se. —Caroline, fiz isso para o teu bem. —Estás interpretando mal minha raiva, Bradford. — E a voz de Caroline soou fria. — Quando vais aprender que não sou como as outras? E quando vais decidir que podes confiar em mim? Não podes formar um vínculo permanente sem confiança. Ela continuava de pé diante dele, com cara de repulsa. —Estás sempre me comparando às mulheres que já tiveste antes. E já estou farta disso. —Meu coração, estás gritando. — E o comentário de Bradford deixou Caroline louca de raiva. — Se acordares teu pai e ele me encontrar aqui, vai exigir que me case contigo na mesma hora. Caroíine soltou um grito de surpresa, e Bradford concordou. — Excelente — comentou ele. — Não tenho a menor intenção de me casar amanhã. Sábado para mim está ótimo, para dar tempo de tratar de todos os preparativos. Caroline não conseguiu esconder seu assombro. — Não ouviste uma só palavra do que te disse? —Ouvi, sim — respondeu Bradfbrd. — E imagino que a casa
 inteira tenha ouvido também, cada palavra. Agora me dá a
  • carta, por
 favor, como uma menina comportada. A cama está perto demais, e tu
 és uma tentação irresistível. —Meu Deus, por que fui confiar no Milford — resmungou Caroline, baixinho, revoltada. — Devia ter previsto isso. Se ele te chama de amigo, é porque não presta também. —A carta, Caroline — insistiu Bradford. E levantou-se, espreguiçando-se, chegando perto dela. — Dá-me a carta, e deixa-me decidir o que se deve fazer a respeito disso. —Não vais decidir nada — anunciou Caroline. — E não me casarei contigo, nem neste sábado, nem um ano depois dele. Não sabes o que significa a palavra amor — declarou ela. — Se soubesses, respeitarias meus sentimentos. E confiarias em mim. —Caroline, se disseres a palavra confiança uma vez mais, acho que irei te estrangular. E o olhar de Bradford disse a Caroline que ele era mais do que capaz de fazer exatamente isso. Ela recuou, afastando-se dele. —Vá embora agora. Já conversamos bastante. —Concordo plenamente — replicou Bradford. Estava de cara fechada, e Caroline pensou que ele ia mesmo embora, até ele voltar a sentar-se, dessa vez na beira da cama, tirando metodicamente a casaca e depois as botas. Aí Caroline foi obrigada a repensar suas conclusões. —O que pretendes fazer? — disse Caroline, correndo até a cama e tentando evitar que ele tirasse as meias. — Precisas sair daqui! —Já estou cansado de tanto falar — disse-lhe Bradford. E
  • deixando a segunda bota cair, agarrou Caroline, Ela de repente viu que estava deitada de costas na cama, com Bradford por cima dela. — Senti falta dos teus beijos, Caroline. — E aí os lábios dele colaram-se aos dela, obrigando-a a abrir a boca. Caroline tentou detê-lo, e sua luta ficou mais insistente quando os quadris dele encostaram-se aos dela e ela sentiu o membro viril dele, rijo, contra seu corpo. Bradford continuou a beijar-lhe a boca, removendo-lhe todas as resistências. Ela sentia-se tão macia contra ele, tão incrivelmente bem. A mão dele lhe acariciou os seios sob o tecido fino da camisola, e ele soltou um gemido de puro prazer. Caroline não sabia bem como tinha acontecido, mas não estava mais de roupão, e os botões de sua camisola estavam abertos, antes que ela pudesse reunir forças suficientes para deter Bradford. Ela pressionou seus quadris contra o corpo dele, ouviu-o gemer, e percebeu que devia estar lhe dando prazer em vez de dor. Bradford prendeu-lhe as pernas usando sua coxa pesada para evitar que se mexesse, e depois beijou devagarinho o seu pescoço, de cima até embaixo. Ela procurou evitar que ele continuasse, com as mãos, mas Bradford não parou. Sua boca continuou aquela tortura suave com uma insistência ardente. Ele chegou aos seios dela. e não hesitou, sugando-lhe um dos mamilos eretos. Caroline voltou a mexer os quadris contra o corpo dele, mas a reação foi um movimento sensual e primitivo, que ela mal conseguiu perceber. Suspirou, entregando-se, e arqueou as costas, pedindo mais. A boca dele continuou reverenciando-lhe um dos seios enquanto com a mão ele acariciava o outro. — Bradford! — sussurrava Caroline. tão perdida naquelas sensações eróticas que ele lhe proporcionava que mal conseguia falar.
  • Sua camisola estava abaixada até a altura dos joelhos, e Bradford empurrou-a mais para cima. para acariciar a pele sensível das pernas dela. Quando a mão dele inseriu-se entre as pernas de Caroline, ela instintivamente tentou impedir o avanço, Bradford usou o joelho para obrigá-la a afastar as pernas e lhe calou os protestos com outro beijo apaixonado. Seus dedos então encontraram o centro de seu prazer e Caroline pensou que fosse morrer, tal foi a sensação que ele lhe causou. Ele agora estava ofegante de tão excitado. — Nunca vou conseguir te esquecer, Caroline. Estou sentindo-te tremer, meu amor. — E tornou a beijá-la de novo. enquanto seus dedos acariciavam a maciez molhada que o atraía. Ele pretendia apenas dar-lhe prazer, dar-lhe uma demonstração da excitação e do prazer que eles teriam juntos, e sabia que tinha de parar. Estava se descontrolando. Bradford gemeu e deitou-se de costas. Com as mãos atrás da cabeça, respirou profundamente várias vezes e pensou em outra coisa, procurando não lembrar do corpo momo dela ao seu lado. — Nós nos casaremos este sábado. — Disse isso rispidamente, sem conseguir evitar. Estava zangado, mas só consigo mesmo. Caroline sentiu-se como se tivesse acabado de ser jogada em um monte de neve. Ela só queria envolver Bradford com os braços e suplicar que ele continuasse a fazer amor com ela. Sabia que tinha de afastar-se da tentação, e saiu da cama. Suas pernas estavam trémulas, e ela precisou segurar-se em um dos postes da cama. —Não entendo como consegues fazer isso comigo — admitiu ela. Sua voz soou fraca. Bradford contemplou-a, viu a confusão no seu olhar, e sorriu. —É que sentes tanta paixão por mim quanto eu por ti — disse a
  • ela. Sua voz soou suave e rouca. — E não tens sofisticação suficiente para te controlares, nem usar essa paixão como arma contra mim. —Como tuas outras mulheres? — A voz de Caroline estava enganadoramente calma. Bradford não ia se deixar levar por isso, viu que os olhos dela cintilavam como brasas. Estava pensando em matá-lo de novo, deduziu ele com um suspiro. Ele se sentou bem a tempo de pegar as botas que Caroline atirou em cima dele, e tentou uma vez mais aplacá-la, pensando consigo mesmo que ela se deixava irritar pelas coisas mais ridículas. —Não tenho outras mulheres — declarou Bradford. E pretendia continuar, dizer-lhe que não tinha tocado mais nenhuma mulher desde seu encontro predestinado naquela estrada rural. Mas Caroline deu-lhe as costas enquanto vestia o roupão. — A carta, por favor — insistiu ele. Ela foi até o guarda-roupas e pegou a carta, onde a tinha escondido. Depois vagarosamente foi até Bradford e entregou-a a ele. Ouviu-se uma batida à porta. Os olhos de Caroline arregalaram- se. —Sai da minha cama — sussurrou ela, meio apavorada. E passou os dedos nos cabelos, tirando-os do rosto, correndo para a porta, os de dos trémulos impedindo-a de destrancá-la com desenvoltura. Finalmenteconseguiu abri-la, e viu o conde de Braxton, de camisa de dormir, roupão e chinelos, ali de pé, com uma expressão desnorteada estampada no rosto. —Ai, papai, nós te acordamos? — A voz de Caroline estava tré- mula, e ela achou que fosse perder os sentidos de vergonha. Virou-se e viu Bradford logo atrás de si. Ele estava de botas e casaca outra vez, e Caroline deu graças a Deus por isso,
  • —Boa-noite — cumprimentou Bradford. Sua expressão era calma, e Caroline percebeu que ele não estava nem um pouco preocupado com o fato de ter sido surpreendido trancado no quarto com a filha do conde. O homem devia estar bem acostumado com esse tipo de coisa,
 pensou ela, cada vez mais furiosa. —Boa-noite? — repetiu Caroline incrédula. — Bradford, isso é tudo que consegues dizer? — E lançou-lhe um olhar raivoso, virando-se depois para seu pai. — Papai, não é nada do que pensas. Sabes, eu não queria descer, e ele.., — Parou para lançar um olhar indignado ao
 Bradford — insistiu, teimou tanto que... Bradford interrompeu-lhe os comentários puxando-a para perto de si. — Deixa que eu falo — disse, em tom arrogante, Caroline olhou para ele, e depois para o pai. Coitado do seu pai!Sua expressão tinha ido de transtornada para furiosa, e agora estava decididamente confusa de novo. — Eu gostaria de ter uma palavra contigo, Braxton, se não for
 inconveniência a esta hora da noite. O conde concordou com uma vénia. —Dá-me um instante, para me vestir — pediu. — Encontro-me contigo lá embaixo dentro de alguns minutos. —Perfeitamente — disse Bradford, quando o pai de Caroline continuou parado ali. Aguardou, aplicando uma pressão suave no ombro de Caroline, uma sutil recomendação de que ficasse calada.. O conde começou a percorrer o corredor e Bradford fechou a porta. Caroline estava tão transtornada com a reação do pai, sua cara de decepção, que só queria chorar.
  • —Bradford! — exclamou, parecendo uma histérica. —O que fizeste com teus cabelos, caramba? — disse Bradford, abraçando-a e beijando-a. —Ah, não vais fazer isso, não — disse Caroline, empurrando-lhe o peito. — Estás querendo me tirar do sério de novo, e não vou deixar. Ainda não combinamos nada!Não te disse como és desprezível! Somos completamente diferentes, e tu és... Ele tornou a beijá-la-, e os esforços insignificantes dela não o detive- ram nem um pouco. Só quando ela parou de resistir ele passou a beijá-la com mais suavidade, abraçá-la com mais ternura. —Caroline, estás horrível. Andaste com insónia? Vai para a cama agora, precisas descansar. —Mas nem que caias morto aqui e agora — replicou ela. Ele estava com ela firmemente presa contra o peito, e ela estava falando com a boca encostada na sua casaca. — Vou lá embaixo contigo. Só Deus sabe o que vais dizer para aplacar meu pai. Preciso estar lá para defender-me. A resposta de Bradford a essa exigência dela foi erguê-la nos braços e levá-la até a cama. Ele a largou no meio do colchão e empurrou-a até ela estar com a cabeça sobre os travesseiros. — Deixa que eu cuido de tudo — tranqúilizou-a. Seus olhos cintilaram quando ele acrescentou: — Confia em mim. E tornou a beijá-la, rapidamente na face, dirigindo-se depois à porta. — Bradford, isso ainda não terminou — gritou Caroline às suas costas. Bradford abriu a porta. Estava dando as costas para ela, mas ela ouviu o tom de riso na sua voz. — Eu sei, querida. Já era hora de en- tenderes isso.
  • Caroline saiu da cama e correu antes que Bradford fechasse a porta. — Não vais contar a ele que recebi a tal carta, vais? Ele vai me mandar de volta a Boston se contares. Não quero que se preocupe!— declarou Caroline, enfaticamente. Bradford sacudiu a cabeça e deixou a sua exasperação transparecer. Começou a andar peio corredor quando Caroline teve uma lembrança súbita, terrível. Agarrou Bradford pela beira da casaca. — Se ele exigir um duelo, não concordes. Bradford não respondeu. Continuou andando, seguido por Caroline. — E exatamente o que eu devo fazer? — indagou ela. Percebeu que estava ainda agarrada à casaca do moço, e imediatamente a soltou. Ele a fazia mesmo agir como uma imbecil. Simplesmente precisava se controlar, pensou, enquanto se ouvia re- petir sempre a mesma pergunta: "O que devo fazer?". Estava se referindo à carta e à ira do seu pai, mas não conseguia formular uma explicação para lhe dar. Bradford estava descendo os degraus de dois em dois sob o olhar de Caroline, que ficou agarrada à balaustrada. — Quem sabe deixas o cabelo crescer um pouquinho até sábado — gritou Bradford, olhando para ela. Caroline perdeu toda a bazófia com aquele comentário ridículo do Bradford. Sentou-se no último degrau e apoiou a cabeça nas mãos. O que estava acontecendo com ela, meu Deus? Precisava controlar-se, disse a si mesma. Precisava pôr sua vida em ordem. Ia pôr tudo em seus devidos lugares, disse a si mesma ao voltar para seu quarto. Então ele tinha voltado para ela, pensou com um suspiro. Tê-lo por perto, perseguindo-a de novo, era um alívio e ao mesmo tempo um
  • tormento. Seu coração estava em festa, mas a parte lógica, isenta de ânimo da sua personalidade, sabia que os problemas entre eles continuariam a existir. Se ela não conseguisse ensiná-lo a amar, a confiar nela o suficiente para lhe dar seu amor, eles não teriam futuro juntos. Ela achava que não passava de um mero trofeu para Bradford. Quanto tempo duraria sua atração por ela? Quanto tempo se passaria antes que ele se entediasse e voltasse suas atenções para outra? Ele tinha chamado de jogo a relação amorosa, e Caroline estava começando a achar que não passava mesmo de um jogo para ele. Ela ainda não podia casar-se com ele. Queria dividir sua vida com um homem que a amasse quando a beleza dela já não existisse mais, quando as rugas do tempo lhe marcassem o rosto. Não era um sonho impossível. Seu tio Henry e a tia Mary amavam- se ainda mais agora, depois de muitos anos juntos. E Charity e Paul Bleachley amavam-se da mesma forma. Caroline lembrou-se de que Bradford tinha achado que Charity iria rejeitar Paul porque ele não era mais belo. Ela não sabia se seria capaz de mudar a forma dele de ver o mundo. Ele tinha sido criado em uma sociedade superficial, onde a aparência parecia ser o mais importante. Que tipo de casamento seria o deles? Será que ela ia começar a se preocupar corn sua aparência, com seu corpo, suas roupas? Será que tudo que ela sempre tinha considerado sem importância iria passar a ser preponderante em sua vida? Ela iria mudar tanto que iria começar a rir descontroladamente e extasiar-se diante de qualquer besteira, feito a Lady Tillman? Caroline sacudiu a cabeça, tentando deter a torrente de ideias ri- dículas que estavam lhe passando pela cabeça. Foi para a cama e tentou conciliar o sono. Pelo menos, consolou-se, tinha admitido que não iria poder
  • se casar com ele. "Pelo menos até ele tomar jeito", jurou ela, baixinho, no escuro. E aí chorou até adormecer. ! ! ! CAPITULO 10 ! ! Foi um lindo casamento. Pelo menos foi o que todos ficaram dizendo a Caroline, enquanto ela estava recebendo os cumprimentos, ao lado do homem com o qual tinha acabado de trocar votos, jurado amar e respeitar até que a morte os separasse. Caroline ficou aliviada por aquele sacrifício finalmente chegar ao fim. Tinha parado de lutar contra o inevitável no dia anterior, quando ela, Charity e o pai viajaram até Bradford Hills. Decidiu-se que o casamento ia ser ali, para respeitar a tradição. O pai. o avô e o bisavô de Bradford tinham todos se casado naquela mansão. Bradford tinha cuidado de todos os preparativos, ao passo que Charity e o conde trataram dos proclamas e dos convites. Agora, enquanto olhava discretamente o lindo salão de baile em torno de si, Caroline espantava-se por tudo ter se passado sem incidentes. Todos pareciam imensamente felizes. Todos menos Caroline. Ela ainda estava tendo dificuldade para aceitar. Bradford tinha aplacado o pai dela na noite em que ele os sur- preendera, e na manhã seguinte o conde tinha anunciado que estava felicíssimo com o enlace. Caroline tentou fazê-lo ver que não ia dar certo, mas o pai recusou-se terminantemente a ouvir a voz da razão. Ela lembrou- se de que ele havia lhe perguntado se ela amava Bradford, e ela caiu na besteira de admitir que sim. Desse momento em diante, ele passou a fazer
  • ouvidos de mercador a todos os seus argumentos. Ela ficou sem ter ninguém a quem pedir auxílio. E Charity fazia de tudo para lhe desviar a atenção. Caroline não podia sair de casa, portanto, não podia escapar das atenções dela. Madame Newcott e três costureirinhas nervosíssimas trabalharam dia e noite no seu vestido de casamento, ali mesmo na sua casa, e Bradford contratou dois guarda-costas para proteger sua noiva. O pai de Caroline não fez comentário algum sobre isso, e ela se perguntou o que ele estaria pensando. Além do mais, não estava convencida de jeito nenhum de que os brutamontes estavam ali só para garantir sua proteção. Achava que Bradford seria capaz de tudo, até de instruí-los a evitar que ela fugisse. Essa ideia lhe passou pela cabeça, e ela pensou em voltar a Boston mais de uma vez. A vida certamente seria bem menos complicada por lá. Caroline só foi conhecer a mãe de Bradford quando já estava hos- pedada na mansão magnífica chamada Bradford Hills. Estava no quarto destinado a ela, trocando de roupa para o jantar, quando entrou uma senhora muito distinta. Era mais alta do que Caroline, muitíssimo bem vestida, e caminhava como se fosse uma rainha. Caroline tirou depressa um roupão do armário, vestiu-o e depois tentou fazer uma reverência decente enquanto a duquesa a examinava. —Estás esperando um filho dele? — perguntou a duquesa, com um tom tão agressivo que Caroline ficou abalada. —Não. — E não deu maiores explicações. Se a mãe de Bradford era mal-educada a ponto de perguntar isso, ela a trataria exatamente da mesma forma. As duas ficaram entreolhando-se durante um minuto interminável. Caroline notou que os olhos da mulher eram da mesma cor que os de Bradford. Havia rugas profundas nos cantos deles, o que deixou evidente para Caroline que ela sorria frequentemente.
  • — Não o deixes intimidar-te — recomendou a duquesa. Sentou- se em uma das cadeiras estofadas, e fez sinal para Caroline sentar-se na outra. — Eu nunca me deixei intimidar na minha vida — comentou Caroline enquanto se sentava diante daquela que logo seria sua sogra. — Nem mesmo saberia como fazer isso. — Ele sempre foi impaciente. Quando cisma com alguma coisa,
 quer que aconteça imediatamente. Caroline concordou. Aquela agressividade na voz da mulher não lhe parecia mais ofensiva, e ela percebeu que estava sorrindo. — Ele não só é impaciente, como também dominador e arrogante. Creio que devias saber que não nascemos um para o outro. A duquesa sorriu, aparentemente sem se sentir intimidada pela franqueza de Caroline. —No fundo, não queres casar-te com ele, queres? — perguntou. —Ele não me ama — admitiu Caroline, com toda a naturalidade.— E não confia em mim. Início nada promissor, não concorda? Quem sabe, se falares com ele, ele reconsidera essa decisão... —Bobagem, minha filha. Ele obviamente te quer como sua mulher, senão não se casaria contigo. Meu filho jamais faz nada que não queira fazer. Tu é que tens de ensiná-lo a te amar, coisa que, contudo, não é exatamente necessária. —Não é necessário o amor? — indagou Caroline, deixando trans- parecer sua confusão. —O mais importante é um ser a pessoa certa para o outro — respondeu a duquesa. Ela levantou-se e foi até a porta. —Creio que meu filho escolheu bem. — E depois desse veredicto, ela saiu da sala.
  • —Caroline! Estás divagando no dia do teu casamento? — Charity puxava o braço dela para lhe chamar a atenção. — Pensa só nisso, agora és duquesa. Caroline não tinha percebido que Bradford tinha se virado para ouvir aquele comentário entusiasmado de Charity. Ela sacudiu a cabeça e replicou: — Não, antes de qualquer coisa sou a esposa de Bradford. Isso para mim, por enquanto, já é bastante complicado. Bradford sorriu, contente com o comentário dela. Milford apareceu, fazendo uma reverência diante de Caroline, e pegou a mão dela. O anel de safira que Bradford lhe pusera no dedo cintilou à luz das velas, chamando a atenção de Bradford, e ele sentiu uma onda de satisfação tomar conta de todo o seu ser. O anel era prova de que ela pertencia a ele. Quando Milford terminou de dar-lhes os parabéns, disse: — Vais perdoar-me por quebrar minha promessa?
 Caroline sacudiu a cabeça. — Não. Foi uma patifaria da tua parte, e por causa dela, vê só onde vim parar. Milford não demonstrou nenhum sinal de remorso. —Conta-me, o que achaste tão engraçado quando estavas recitando teus votos matrimoniais? — indagou. —Se te referes ao fato de que minha esposa riu enquanto os pronunciava, posso lhe garantir que foi de felicidade suprema. — O comentário de Bradford obrigou Caroline a dar um sorriso relutante. —É que sou muito bem-humorada — disse Caroline a Milford. Virou-se para o marido e acrescentou: — A menos, é claro, que seja empurrada contra a parede, e não possa fazer nada para me livrar da situação. Aí pode ser que eu me transforme num bicho.
  • Bradford não reagiu ao seu comentário. Meramente pegou sua mão e levou-a até o centro do salão. Era hora de começar o baile. O resto da noite, para Caroline, foi insuportável. Ela desejava passar nem que fossem apenas alguns minutos a sós, só o suficiente para ter um único pensamento coerente, recuperar o fôlego, mas Bradford não saía do lado dela. E depois, chegou a hora de subir as escadas para o quarto. Charity ajudou-a. Tinha resolvido ficar calada, t Caroline ficou aliviada por isso. Só depois do banho, e depois de estar vestida com uma camisola transparente, foi que Charity fez a pergunta que a estava deixando preocupada. — Entendes o que vai acontecer, Caroline? Mamãe te explicou o que um marido e uma esposa fazem quando estão a sós? Caroline sacudiu a cabeça. —Mamãe teria desfalecido depois da primeira frase — disse. Charity ficou desanimada __ Ah, então preciso esperar até a próxima vez em que nos encontrarmos para descobrir exatamente... —Charity! Não me «deixa mais nervosa ainda! Por que é que temos
 que passar a noite aqui. hein: __ reclamou. Pensou no que ia acontecer,
 e aí imaginou como ia encarar todos na manhã seguinte. — Todos eles
 vão saber — murmurou. —Não fica nervosa — recomendou Charity. — Se rires enquanto. .. bom, tu sabes, então acho que Bradford se zangará. Antes que Caroline pudesse fazer um comentário qualquer, Charity abraçou-a e retirou-se. — Rezarei por ti — sussurrou antes de fechar a porta.
 Caroline ficou parada no meio do quarto, esperando. Pensou em deitar-se,
  • mas decidiu que se esconder sob as cobertas não seria nada bom. Bradford podia achar isso engraçado e ela morreria se ele risse dela. A porta de comunicação com o quarto de Bradford abriu-se e ele de repente apareceu. Bradford encostou-se no umbral e ficou admirando a esposa. Estava tão deslumbrantemente bela que ele sentiu a respiração presa na garganta. A camisola sedutora que Caroline usava mostrava praticamente tudo, e Bradford passou muito tempo lhe admirando as longas e torneadas pernas, os quadris esguios e os seios grandes. Caroline retribuiu o olhar do marido. Ele tinha tirado a casaca, o plastrão e os cabelos estavam caídos para a frente, o que lhe abrandava as feições. Sua expressão era cautelosa, e Caroline considerou-o ao mesmo tempo irresistivelmente belo e assustador. Não estava mais nervosa, só apavorada. Desejava não ter cortado os cabelos, achando que, compridos, eles poderiam ter coberto em parte os seus seios. Seria infantil de sua parte agarrar o acolchoado que cobria a cama e enrolar-se nele? Tremia, e não sabia ao certo se era por causa do quarto frio ou do escrutínio indisfarçado que estava sofrendo da parte do marido. —Charity vai rezar por mim — disse. Sua voz saiu bastante fraca, mas ela sabia que ele tinha ouvido, porque uma de suas sobrancelhas ergueu-se ligeiramente. E aí ele sorriu, e Caroline deixou de sentir-se apavorada. ! Virou-se, tentando lembrar-se de onde tinha deixado o roupão, e Bradford finalmente conseguiu articular algumas palavras. — Não tenhas medo, Caroline. Ele começou a andar na direção dela, cheio de ternura no olhar. — Não estou com medo, só gelada — respondeu ela. E tentou sorrir enquanto esfregava os braços. Agora estava tremendo e não conseguia
  • parar. Bradford abraçou-a e perguntou, a voz rouca: — Estás te sentindo melhor?
 Caroline confirmou. — Tens uma casa linda, Bradford, mas é muito frio aqui — sus- surrou ela, de encontro ao peito dele. — E cheia de correntes de ar — acrescentou, quando Bradford ergueu-a nos braços e começou a levá-la para o seu quarto. — As lareiras não aquecem os aposentos como
 deveriam. — Meu Deus, pensou ela, enquanto dizia aquelas palavras, desejava poder se controlar. O que havia com ela? Caroline fechou a boca e decidiu não dizer mais nenhuma palavra. Bradford fechou a porta, trancou-a e depois levou Caroline para a cama. As cobertas da gigantesca cama de quatro colunas com dossel estavam afastadas, e Bradford colocou-a bem no meio do colchão. Assim que ele a soltou Caroline começou a tremer de novo. — Vais estar quentmha dentro de urn minuto, meu amor — pro- meteu Bradford. Havia certo humor em seu olhar e sua voz, e Caroline entendeu que ele estava sorrindo porque achava que ela estava tremendo por causa do que estava para acontecer. Ela lhe lançou o que esperava
 ser um olhar de enfado. Ele definitivamente estava por cima agora, e Caroline sentia-se completamente perdida. Pensou, enquanto olhava o marido tirar os sapatos e a camisa, que se pudesse ao menos parar de olhar para ele, podia ser capaz de achar urn jeito de recuperar um pouco que fosse do controle. Ele estava sentado na beira da cama, e Caroline sentiu vontade de estender o braço e tocá-lo. Lembrou-se de como os beijos dele a haviam incendiado antes, e como ela não queria que as carícias terminassem, e só esses pensamentos já afastaram parte do medo que ela sentia. Bradford levantou-se, começou a tirar as calças, e depois
  • hesitou. Virou-se, deixando Caroline ver seu peito musculoso. Pêlos negros e encaracolados cobriam toda aquela massa de músculos. Caroline sabia que estava de olhos arregalados, mas não deu para evitar. —Tu me lembras um pouco um guerreiro espartano, sabias? — disse Caroline, sem conseguir evitar. Notou a cicatriz logo acima da cintura dele e perguntou: — Foi em alguma batalha que te feriste? —Em uma briga de bar — corrigiu Bradford. Sorriu e sentou-se de novo na cama. Decidiu ficar de calções por enquanto, por respeito à inocência da mulher. Era tão espantadiça quanto uma potrinha nova, e ele não queria amedrontá-la ainda mais. — Milford tem uma cicatriz
 igualzinha, só que do lado esquerdo. Lembranças da nossa primeira noite do outro lado da cidade. —Vou ter que pedir a ele que me mostre — comentou Caroline com um brilho nos olhos. Estava se descontraindo com aquela troca de gracejos. Bradford agia como se tivesse todo o tempo do mundo, e o pânico inicial que tinha dominado Caroline agora estava passando. Ela
 sentia-se quase como se tivesse recuperado o controle sobre a situação. —Não vais, não — respondeu Bradford, num grunhido baixo. — Mesmo sendo meu melhor amigo, ele provavelmente rasgaria as roupas se tu apenas insinuasses isso. — Não confias no Milford? — disse Caroline em tom incrédulo. Bradford não respondeu a essa pergunta. Estava tendo dificuldade de tentar acompanhar aquela conversa. Estava sentindo um tesão
  • louco, e só conseguia pensar em tomar a sua mulher nos braços. — Creio que devia alertar-te, Bradford... — começou Caroline. Não conseguiu olhar para ele, e abaixou os olhos, olhando para suas próprias mãos. Bradford franziu o cenho, perguntando-se o porquê da seriedade na voz dela. Ele estendeu as mãos, emoldurando-lhe o rosto com elas, e obrigou-a a olhá-lo, — Não tenho plena certeza de como proceder,.. Não sei bem o que devo fazer. Bradford indicou com um gesto de cabeça que compreendia, ten- tando continuar sério com todas as forças. — Não esperava que tu tivesses experiência — disse. Caroline continuou olhando para ele, sua expressão muito séria, mas Bradford notou que aquele brilho especial tinha voltado aos olhos dela. — Presumo que tu saibas o que fazer, não? Bradford vagarosamente assentiu, os cantos da boca esticando-se, num sorriso, e Caroline acrescentou: — Achava que sabias, mas estás só aí sentado, ainda de calções, e até mesmo eu sei que é preciso que os tires. Ele não respondeu, mas tomou-a nos braços. Deitou-se, levando-a consigo, e levou as mãos até os quadris dela, puxando-a firmemente contra si. —Considerei melhor ficar de calções por respeito a teus senti- mentos de virgem. —Só que creio que tu assim não vais chegar a lugar algum — sussurrou Caroline, com os lábios encostados à sua face. Bradford começou a acariciar as costas de Caroline e empurrou sua cabeça para um lado com a mandíbula para poder beijar-lhe delicadamente o pescoço.
  • — Assim, como? Tendo respeito ou ficando de calções?
 Caroline começou a responder, mas o bafo quente dele contra seu ouvido fê-la distrair-se. — Estás me aquecendo — murmurou ela em vez disso. — Não é suficiente — disse-lhe Bradford. E rolou com ela, até ela ficar deitada com as costas na cama, deixando que ele a cobrisse com seu corpo. — Quero que estejas fervendo, Caroline, tão quente que teu corpo sue por causa do calor. — Sua boca cobriu a dela, em um beijo que prometia o cumprimento daquele seu requisito. Os lábios de Caroline abriram-se sob os dele, e a língua de Bradford invadiu-lhe a boca, penetrando no interior delicioso e macio. Ela suspirou, ao desfrutar das sensações eróticas que ele lhe oferecia, e começou a acariciar-lhe vagarosamente os ombros. A pele dele lhe pareceu muito rija e incrivelmente cálida, muito musculosa. Bradford continuou atacando com ternura a boca de Caroline até ela não conseguir mais formular um único pensamento. Ela permitiu que as ondas sensuais de prazer a consumissem, ouviu-se gemendo em protesto quando ele se afastou dela. Ele ficou de pé e tirou rapidamente o resto das roupas, e Caroline considerou-o o mais belo homem vivo da face da terra. Ele portava-se de forma tão desinibida assim nu, tão natural, que Caroline não ficou tão encabulada quanto imaginou que ficaria. Naturalmente, não conseguiu olhar diretamente para aquilo, parando um pouco acima de suas coxas musculosas. Bradford continuou ali de pé, ao lado da cama, até Caroline fi- nalmente olhar para o seu rosto. Sabia que estava vermelha da cabeça aos pés, e desejou ser um pouco mais sofisticada para poder levar tudo aquilo com mais tranquilidade. Afinal, tinha sido criada em uma fazenda, e sabia muito bem como era a ordem natural das coisas!E tinha quatro primos homens, que se vestiam de maneira bastante confortável e não disfarçavam
  • os comentários que trocavam entre si... quando não percebiam que ela podia escutá-los. Mas, recordou-se, aquilo jamais tinha acontecido com ela. Essa, deduziu ela, ao contemplar o homem que lhe tiraria a virgindade, era a grande diferença. — Olha para mim, querida — a voz de Bradford soou tão possante quanto sua postura. Caroline pensou em responder que já estava olhando, mas sabia o que ele queria dizer. Não disse nada, mas abaixou lentamente o olhar, seguindo a trilha de pelos que cobria seu peito musculoso, parando no ventre perfeito e depois continuando, até estar olhando para a prova rija de que ele estava excitado. Ficou apavorada de novo, pensando que o casamento não poderia ser consumado, e que por ela, tudo bem, porque eles não combinavam mesmo... Bradford viu o pânico no olhar de Caroline, e suspirou, sôfrego, porém paciente. Voltou a deitar-se depressa ao lado dela, puxou-a para os seus braços. Ela sentiu o pênis duro dele encostado ao seu corpo, sentiu aquele calor rígido através da camisola, e tentou, sem conseguir, afastar-se nem que fosse um pouquinho. Bradford não permitiu que ela se movesse, murmurando palavras ternas para acalmá-la quando começou a tirar-lhe a camisola devagar. Caroline sabia que devia tirá-la, que provavelmente era outro requisito indispensável. Mas mesmo assim tentou deter as mãos de Bradford. O tecido fino rasgou-se durante aquele cabo-de-guerra amoroso, e Bradford conseguiu desnudá-la. Dentro de segundos, ela estava nua. — Foi a Charity que me deu essa camisola — disse Caroline, ofegante. — Se ela descobrir que a destruíste... Ele rolou, colocando-se por cima de Caroline, e fazendo-a ofegar de novo ao sentir seu corpo inteiramente em contato com o dela de forma tão íntima, e ver o olhar apaixonado dele. Ele não era pesado, e ela
  • entendeu que estava se apoiando nos cotovelos, para não esmagá-la. — Não vamos contar a ela, amor — murmurou Bradford. Sua voz parecia uma carícia suave, um roçar calmante no medo cada vez maior de Caroline. Ele sabia que ela ainda não estava preparada, e procurou controlar- se. Seu corpo estava louco por terminar o ato, e ele sentiu o suor brotando na testa. Beijou-a novamente, um beijo intenso e descontrolado. Tinham terminado os gracejos. Caroline sentiu a mudança em Bradford, a tensão no seu abraço, nas suas carícias. Preparou-se para sentir dor, mas Bradford não a obrigou a abrir as pernas. Em vez disso, abaixou a cabeça até a boca estar roçando-lhe o pescoço, e depois desceu mais, até o vale entre os seios dela. Caroline suspirou de prazer. O nó quente dentro do ventre dela começou a expandir-se, e Caroline sentiu-se como se o sol estivesse fluindo pelas suas veias. Bradford excitou-lhe os mamilos, circundando cada um várias ve- zes, até Caroline começar a arquear-se contra ele. Quando finalmente começou a sugá-los, Caroline gemeu de satisfação e sentiu uma inquietação cada vez maior. A mão dele acariciou-lhe os quadris, e quanto mais ele se aproximava do ponto entre suas pernas, mais indócil ela ficava. Não conseguia respirar direito, e começou a movimentar os quadris, inquieta. Quando ele finalmente começou a acariciar a quentura úmida entre suas pernas, Caroline gemeu de prazer. Estava mais do que preparada para ele. As pétalas macias, lisas e molhadas, os movimentos vagarosos e eróticos dos quadris contra a mão dele, quase fizeram Bradford perder o controle de vez. Ele vagarosamente enfiou os dedos na vagina dela, sentiu aquela resistência quente e apertada, ouviu-a gemer seu nome e viu então que não iria mais poder esperar. Olhou para cima, para os olhos dela, observando-a, ao colocar-se
  • entre suas pernas. — Não vou te machucar — murmurou. — Só que não consigo
 esperar mais. — Sua voz estava rouca de tanto tesão. Bradford segurou os quadris da esposa, imobilizando-a contra si, e inclinou-se para beijá-la. — Abraça-me, meu amor — sussurrou. E aí sua boca cobriu a dela. Ele a penetrou vigorosamente, tão vigorosamente quanto sua lín gua invadiu-lhe a boca. Caroline arqueou-se contra ele, gritando de dor, e aí tentou afastar-se. Foi inútil, porque o marido não permitiu que se movesse. Usou seu peso para aprisioná-la. A ardência que ela sentiu terminou imediatamente, mas depois ela sentiu um latejamento incómodo. Afastou a boca da de Bradford e procurou afastá-lo outra vez. — Não te movas, Caroline. Ainda não. Espera até... — e ele não conseguiu terminar a frase, concentrando-se em vez disso em beijá-la de novo. Suas mãos subiram dos quadris dela para os lados do rosto molhado de lágrimas de sua esposa. Caroline sentiu-o tremer quando
 o envolveu com os braços, e aí achou que a dor não era assim tão insu portável. Então Bradford começou a mexer-se, a princípio devagar, com paciência, e a dor imediatamente recomeçou. Não deixou que ela o detivesse, continuando o ataque amoroso contra seus lábios até ela perder o fôlego. A dor foi logo esquecida em meio ao prazer sonolento que estava lhe invadindo os membros. Ela sentiu-o colocar as pernas dela em torno de seus quadris, e depois ele afastou a boca dos lábios dela, e olhou para ela. Caroline estendeu a mão e tocou-lhe o maxilar de leve, desenhando a boca firme do marido com um dedo. Bradford virou-se, abocanhou o dedo da mulher, acariciou-lhe um lado com a língua. Caroline arqueou-se contra ele, pegou-lhe o rosto entre as mãos, e puxou-o para si. Foi a última coisa que se lembrou de fazer.
  • Então Bradford perdeu completamente o controle, permitindo que a paixão fluísse entre ambos. Um prazer primitivo dominou Caroline, puxando-a para junto do sol. Ela agarrou-se a Bradford, instintivamente confiando nele para mante-la segura, e recebeu o calor de braços abertos. A respiração de Bradford estava acelerada. Ele deixou de tentar ser delicado, passou a acariciá-la com força, e o prazer aumentou. Quando Caroline contraiu-se toda debaixo dele e gritou seu nome, num sussurro amedrontado, ele percebeu que ela estava para gozar, libertando-se do tormento prazeroso que eles estavam se proporcionando. Ela se arqueou contra ele com tal força, tal intensidade, que Bradford gozou, sentiu os tremores até o fundo da alma. Pensou em acalmá-la, dizer- lhe que estava tudo bem, mas o tremor foi tão avassalador que ele só conseguiu abraçá-la com força. Bradford levou vários minutos para fazer seu coração bater mais devagar, acalmar sua respiração irregular. Sentia-se plenamente satisfeito, completamente saciado. Ainda dentro dela, apoiou-se nos cotovelos e olhou para Caroline. Seu olhar estava sonolento de satisfação. Uma gatinha de olhos cor de violeta, decidiu Bradford, com um sorriso. E era sua gatinha. Caroline tentou retardar sua pulsação. Também estava assombrada pelo que tinha acabado de acontecer com ela. Seus lábios estavam inchados dos beijos dele, e ela ainda estava latejando do prazer escaldante que Bradford tinha-a obrigado a sentir. Não tinha permitido que ela se recolhesse, nem que se desse pela metade, e quando ela pensou na sua reação intensa, sentiu-se corar. Bradford sorriu abertamente ao ver o constrangimento e a timidez na expressão de sua esposa. Ele a beijou demoradamente, sorrindo por dentro pela reação recatada dela. Apenas minutos antes ela tinha se comportado como uma verdadeira pantera em seus braços. Ele ainda podia sentir a ardência causada pelas unhas dela lhe penetrando os ombros, lembrar
  • de suas súplicas desesperadas para que não parasse enquanto ele estava arremetendo sem parar, penetrando-a vezes sem conta. — Bradford, estás me esmagando — informou Caroline, contra o lado da boca dele. Ele suspirou e relutantemente rolou para o lado. A separação não durou muito, pois Bradford imediatamente puxou Caroline para seus braços, aninhando-a junto a si. Ternamente empurrou um cacho de cabelos molhados da testa dela. — Eu te machuquei, amor? Caroline estava observando o pescoço dele, mas concordou com a cabeça para responder à pergunta do marido. Bradford tentou afastá-la o suficiente para olhar nos seus olhos. —A princípio. O resto não doeu nada — admitiu ela. A voz saiu abafada contra o pescoço do rapaz, mas Bradford percebeu a timidez em seu tom. —O resto? — indagou ele, em tom de quem provoca. Relaxou a cabeça contra o alto da cabeça dela, apertando-a carinhosamente. Caroline não respondeu. Sorriu de contentamento e suspirou. — Vais querer repetir tudo que fizemos agora com frequência? — perguntou, fingindo inocência. Sentiu um tremor dentro do peito dele segundos antes de ele soltar a gargalhada. E aí se viu subitamente presa embaixo dele de novo, fitando seus olhos castanhos cheios de fagulhas douradas. — A toda hora — grunhiu. Caroline sorriu, imensamente satisfeita consigo mesma. Seus olhos arregalaram-se de assombro quando sentiu contra si a dureza do desejo de Bradford. —Bradford? Nós podemos... —Mas sem dúvida alguma. — Sua boca apossou-se da de Caroline,
  • calando-lhe o resto das perguntas. Ela passou os braços ao redor dele, e apertou-o contra si. adorando a sensação causada pelo seu peito encostado contra seus seios, a rigidez dele contra sua maciez. Um pensamento súbito interferiu naquela sensação erótica, e ela afastou a boca dos lábios dele. —Vai doer outra vez? — indagou ela, meio nervosa. —Provavelmente sim — disse Bradford. E recostou-se, fitando o rosto de Caroline durante um bom tempo, perguntando depois: — E te importarás com isso? — Ele sabia que pararia se ela lhe desse o mínimo sinal de que estava sentindo ardência. —Provavelmente — respondeu Caroline. E aí puxou a cabeça dele para perto de si, e eles beijaram-se perdidamente, esquecendo toda a precaução. Os 'provavelmentes' logo se perderam no fogo de sua paixão. Depois de Bradford ter caído em um sono profundo, Caroline passou a alternar-se entre devaneios e lucidez. Não estava acostumada a dormir com ninguém, e aceitou isso como desculpa para ter um sono inquieto. Isso e o fato de que estava se sentindo ao mesmo tempo dolorida e machucada. O sol estava apenas começando o ritual de erguer-se no horizonte quando Caroline saiu da cama e foi para o quarto ao lado. Tomou um banho completo, esfregando-se da cabeça aos pés, e vestiu um roupão macio e quente quando terminou. O perfume de rosas aromatizava seu corpo quando ela voltou para perto do corpo inerte de Bradford. Estava inteiramente acordada agora, e perguntava-se quanto tempo o marido continuaria a dormir. Seu roupão ficou enrolado nos lençóis e finalmente ela o removeu. Estava nevando, e Caroline, da cama, olhando pela janela, ficou as- sistindo à leve cascata de flocos durante vários minutos. Sentou-se, com os
  • braços em torno dos joelhos, pensando em Benjamin, perguntando-se como ele estaria enfrentando o frio ao voltar para Boston. Preocupava-se com sua segurança e orou por ele. E aí sentiu a mão de Bradford subindo devagar pelas suas costas. Virou-se para olhá-lo e sorriu. —Eu te despertei? — sussurrou, como quem pede desculpas. Ele parecia intimidador para ela por causa da forma como a contemplava. Ela estendeu a mão para lhe tocar o rosto, sentiu a barba que tinha despontado durante a noite em suas faces. —No que estavas pensando? — indagou Bradford. Espreguiçou-se e depois ergueu os braços, entrelaçando as mãos atrás da cabeça e dando um bocejo enorme. A intimidação aumentou com aquele espreguíçamento dele, e Ca- roline achou-o parecido com um urso monstruoso. —Estava pensando em Benjamin — respondeu ela. — Deve estar congelado agora. —Entre outras coisas — respondeu Bradford. — Ele queria voltar, e precisavam dele em Boston, amor. Ele não tinha mais o que fazer aqui. —Como sabes disso? — indagou Caroline. —Tive uma longa conversa com teu protetor antes de ele ir embora — contou-lhe Bradford. Caroline sorriu ao ouvir aquele comentário de que Benjamin era seu protetor. —Nós nos protegemos mutuamente — disse ela. — Ele é meu amigo. —Ele me contou como tu o conheceste — admitiu Bradford. E sorriu, daquele jeito meio torto que Caroline tanto gostava, fazendo seu coração dar um pulo. —Benjamin não fala facilmente com qualquer um. Estou surpresa de
  • ele ter trocado confidências contigo. — E franziu a testa, perguntando-se exatamente corno Bradford o teria convencido a isso. —Eu lhe disse que íamos nos casar, e que de agora em diante eu é que cuidaria da tua proteção — respondeu Bradford, respondendo sem querer à pergunta que ela estava pensando em formular. —Mas que arrogância a tua — disse Caroline. Bradford não se deixou intimidar pelo seu comentário. Rolou para o lado, chutando as cobertas de cima de si, e começou a mordiscar o quadril de Caroline. Caroline pulou e tentou lhe dar um tapa na cara. Riu quando lhe disse que ele não estava se comportando como um cavalheiro, mas o riso parou quando ela viu o membro viril dele rijo de novo. — Bradford, estou muito ardida, ainda. Tu vais ter que... —Te amar de um jeito diferente — terminou Bradford. Caroline virou-se até estar de joelhos e franziu o cenho para o marido. Ele a fitava de um jeito extremamente sensual e concupiscente. Passou muito tempo contemplando os seios dela, os mamilos eretos, já instintivamente se preparando, a cintura fina e os quadris esguios da sua mulher, apreciando sua nudez com um olhar cheio de promessas. Ela sacudiu a cabeça quando ele a chamou com o dedo. — Vem aqui, Caroline. Dessa vez não te machucarei, juro. — Foi isso que disseste da última vez — murmurou Caroline quando ele estendeu o braço e a puxou para cima de si. — Bradford, estou mesmo dolorida, juro. O tom de voz dela era temeroso, e Bradford tratou de acalmá- la. — Existem inúmeras formas de se fazer amor, Caroline. Relaxa — murmurou, acariciando-lhe as costas.
  • Caroline não estava entendendo muito bem o que Bradford lhe dizia. Afastou-se dele, apoiada nos cotovelos, e lançou-lhe um olhar incrédulo proposital. Ele a beijou para tranquilizá-la, enquanto lhe acariciava as nádegas. Os beijos leves logo ficaram insatisfatórios, e a intensidade, o calor da fome escaldante dele explodiram, transformando-se em paixão pura. A boca de Bradford violou o corpo de sua esposa impiedosamente, forçando-a a esquecer de sua resistência vacilante. Ele empurrou-a, fazendo-a deitar de costas, e depois, aproximando dela a cabeça, sugou- Ihe os seios palpitantes. Os dedos de Caroline desceram pelos cabelos macios e sedosos de Bradford. Ela tentou rolar, para se aproximar mais do corpo do marido, mas a perna dele estava prendendo-a contra a cama, sem permitir que se movesse. E aí ele passou a descer mais ainda, formando uma trilha escaldante com seus beijos quentes, sua língua aveludada. Ela só percebeu o que ele pretendia quando o joelho dele a obri- gou a afastar as pernas uma da outra e as mãos dele lhe seguraram os quadris. Seus dedos penetraram-lhe entre as pétalas acetinadas do sexo, acariciando-o e bolinando-o até ela estar molhada e escorregadia, de tanta excitação. A boca substituiu os dedos de Bradford, e ele fingiu que não ouvia as súplicas amedrontadas de Caroline para que ele parasse. Aquele tipo de prazer era uma delícia torturante. Os quadris de Carohne passaram a movimentar-se de modo vagaroso e letárgico. Ela agarrou os lençóis, e sua cabeça mexia-se para um lado e outro no tra- vesseiro, inquieta, enquanto os quadris rebolavam em consequência da magia de Bradford. Quando ela pensou que não seria mais capaz de suportar aquele êxtase cada vez mais intenso, o calor no seu interior explodiu em mil fragmentos. Ela arqueou o corpo, entregando-se a ele, e ouviu-se cha-
  • mando o nome do marido. Bradford tinha pensado apenas no prazer dela, mostrar-lhe a que alturas ele era capaz de elevá-la. E aí precisou combater a necessidade imperiosa de penetrar-lhe a quentura tentadora. Estava tão apertadinha, tão quente, e a reação impetuosa dela a suas carícias quase o fez perder a cabeça e esquecer suas boas intenções. Ele suspirou fundo, acalmando seu corpo trémulo, e afastou-se dela. Obngou-se a pensar em outra coisa que não fosse a criatura sensual ao seu lado, jurando, com um grunhido selvagem, não possuí-la. Caroline sentou-se, seu olhar ainda sonolento de paixão. Sua mão acariciou a coxa de Bradford em círculos lentos e ela ficou surpresa quando ele agarrou sua mão e a fez parar. — Dá-me um minuto para esfriar — pediu Bradford. Sua voz estava rouca, mas não havia como evitar isso. Sentia uma palpitação forte no sexo, pedindo que ele se satisfizesse. — Senão vou quebrar minha promessa, minha querida, e vais andar mancando uma semana. Caroline sorriu. — Uma semana, Bradford: Certamente deves estar exagerando. — Ela soltou a mão e passou o dedo pelo meio do peito do marido. — Parece que estás sentindo dor, meu marido — comentou ela, a voz baixa e provocante. A mão dela hesitou um instante, e Caroline notou que
 o marido tinha prendido a respiração. E de repente ela se sentiu pode- rosíssima, e muito sedutora. A mão continuou até ela tocar o membro rijo de Bradford. Bradford estremeceu visivelmente e depois soltou um gemido alto. Caroline sorriu ao ver isso, e murmurou: —Tu me destes prazer. Bradford... Não há uma forma de eu também te dar prazer? —Caroline, tu és mesmo uma criança inocente... — O resto da
  • explicação ficou presa na garganta dele, perdeu-se no grunhido baixo que ele soltou quando Caroline lentamente abaixou a cabeça e depositou beijos provocantes e levíssimos como plumas no umbigo do mando. —Vais ter de me dizer o que fazer — murmurou ela. O duque de Bradford imediatamente passou a explicar tudo tintim por tintim. ! ! ! CAPITULO II ! A preocupação de Caroline com o constrangimento que sentiria quando encarasse seus convidados não se realizou. No final do fim de semana, quando ela e o marido finalmente saíram do quarto, todos os convidados já haviam partido. — Uma falta de educação terrível essa nossa — disse Caroline ao marido durante o jantar, naquela noite. O sorriso malicioso dela revelou ao rapaz que ela não tinha se importado muito com sua gafe, e ele não pôde evitar o riso. Bradford tinha planejado uma viagem de lua-de-mel como manda o figurino, mas ele e sua esposa jamais passaram pela porta da frente, naqueles dias e noites cheios de urna felicidade perfeita. Caroline adaptou-se rapidamente a sua nova vida, e assumiu as responsabilidades de administrar aquela imensa mansão com relativa facilidade. Henderson, o mordomo de Bradford, e a sra. Lindenbowe, a governanta, ensinaram-lhe tudo. Caroline veio a descobrir que Bradford não era tão fácil assim de controlar. Aliás, conforme disse a si mesma em várias ocasiões, também não
  • era um homem fácil de se amar. Seu mau génio comparava-se ao do monte Vesúvio quando ele se zangava., mas suas explosões logo pas- savam. Caroline sempre o enfrentava, replicando palavra por palavra, e devagar passou a aceitar o fato de que o relacionamento deles seria sempre imprevisível. Esperava com frustração cada vez maior que o marido lhe dissesse que a amava. Achava que, com o tempo, os muros que Bradford tinha erigido em torno de seu coração iriam dissolver-se e ele lhe permitiria ver sua vulnerabilidade. Ele, sem dúvida, era o homem mais teimoso do mundo. Ela aprendeu, durante as semanas seguintes, que havia certos assuntos que ele não queria discutir de jeito nenhum. E sua família era o primeiro tópico da lista. Caroline nunca tinha sido muito paciente na vida, mas conseguia se controlar bem, achando que no fim a recompensa valeria o esforço. Bradford terminaria por confiar nela do fundo do coração. Caroline sentiu pena quando eles precisaram voltar a Londres. Foi para o casamento de Charity, que certamente seria festivo, mas ela detestou encerrar a lua-de-mel. Disse exatamente isso a Bradford, e ele riu, apertando-a contra si dentro da carruagem na viagem de volta à cidade. — Também se pode fazer amor em Londres, querida. Meu Deus, acho que fiz de ti uma mulher extremamente lasciva. — E te arrependes disso? — perguntou Caroline, com um sorriso. A resposta de Bradford foi levantá-la e colocá-la em seu colo, e lhe mostrar que não se arrependia nem um pouco. Caroline nunca tinha visto o sobrado de Bradford na cidade e considerou-o bastante confortável. Era espaçoso e masculino, atravan-
  • cado de mobília pesada, antiga e forrada de couro, indicando que aquele espaço pertencia a um homem. A cama imensa de baldaquino no quarto de Bradford tinha cor- tinas espessas que ficavam atadas nas colunas durante o dia. Caroline testou o colchão enquanto Bradford preparava-se para o jantar. Ele a observou de soslaio enquanto ela desamarrava ambas as cortinas. Esta- va oculta por elas quando suas gargalhadas indicaram a Bradford que estava se divertindo. — Essa cama deve ser bem quente — gritou ela para ele. — Bem
 confortável e morninha. Bradford foi até a cama e afastou a cortina. Seu peito nu cintilava depois do banho. Caroline sorriu para ele, deitada sobre a colcha. Entrelaçou as mãos atrás da cabeça, imitando o jeito do marido, e lançou-lhe uma piscadela vagarosa e sedutora. — Alguma vez já sentiste frio na minha cama? — perguntou Bradford, fazendo-se de zangado, mas com um riso na voz que con- trastava com a cara de mau. Caroline estava apenas de roupão e com uma coxa à mostra para o marido ver. O olhar de Bradford percorreu todo o caminho entre a cabeça dela e seus artelhos, e quando ele voltou a olhá-la nos olhos, não estava mais achando graça. —Tu me provocas, Caroline — disse Bradford. Sua voz estava roufenha agora. —Temos tempo? — perguntou Caroline, sussurrando ofegante, uma reação ao olhar cobiçoso de Bradford. Desamarrou a faixa que atava seu roupão com um sorriso sedutor que apenas intensificou o desejo de Bradford, tirou a peça de roupa que a restringia, e estendeu os braços ao marido. Bradford não recusou o convite. Tirou os calções que tinha acabado
  • de vestir e deitou-se ao lado da esposa. Caroline aguardou até ele a erguer nos braços e depois de um longo minuto percebeu que ele estava esperando que ela virasse para ele. Ela riu, uma risada alegre, sem inibições, que fez Bradford sorrir, e subiu em cima do marido. E aí começou a exercer sua magia sobre o corpo dele, transfor- mando-o de duque de Bradford controlado e disciplinado no guerreiro indomável que se ocultava imediatamente sob sua pele. Bradford permitiu que a deliciosa agonia que estava sentindo con- tinuasse até estar pronto a explodir. Sua voz ficou rouca nessa hora, e ele pediu que ela parasse de atormentá-lo e terminasse logo com aquilo. Caroline fingiu que não tinha escutado e continuou a levá-lo até o ponto de êxtase completo. Bradford soltou um grito de batalha e Caroline de repente se viu deitada de costas. — Não vou ter piedade — grunhiu ele, com o rosto encostado no da esposa, E embriagou-a de prazer até ela suplicar que ele terminasse logo. Ele fez uma careta de satisfação e de dor devido à tensão acumulada nas suas entranhas, puxou-a para cima de si de novo e penetrou-a
 com força, pondo fim a todas as carícias preliminares. Caroline jogou a cabeça para trás e soltou um gemido baixo que Bradford respondeu com outra estocada, e depois mais outra. Ambos gozaram exatamente no mesmo instante. Caroline sentiu-se como se estivesse no centro do céu, e Bradford a segurasse para mante-la protegida. Vagarosamente flutuou de volta à realidade, com um sorriso satisfeito. Sua cabeça descansou no peito de Bradford, e ela ficou escutando o coração dele bater contra o seu. Esperou até a respiração dele ficar mais vagarosa e depois murmurou: — Eu te amo.
  • Tinha se tornado um ritual, dizer-lhe que o amava assim que ter- minavam o ato sexual, e, como sempre, ela o esperava dizer o mesmo. Sabia que podia exigir isso, e provavelmente conseguiria que ele respondesse o que ela queria, mas desejava que ele fizesse essa declaração do fundo do coração. Bradford apertou Caroline contra si e suspirou de satisfação. Foi esse o único sinal que deu de que tinha sequer ouvido a declaração da esposa, e Caroline voltou a aceitar que ele ainda não estava pronto. Ela se esforçou por não demonstrar tristeza e apoiou-se nos coto- velos para olhá-lo nos olhos. —Vamos ficar aqui o resto da noite. —Sugestão interessante — respondeu Bradford com um sorriso malicioso. — Mas tua família provavelmente exigirá uma explicação. Vais dizer a eles por que ficamos aqui, ou será que eu é que devo explicar? Caroline ficou vermelha na mesma hora. — Um cavalheiro não falaria nesses assuntos — disse ela. — Creio, então, que é melhor nos vestirmos. E tentou sair de cima de Bradford, mas ele a prendeu nos seus braços. — Ainda não, Caroline, acho que devíamos repassar o combinado uma vez mais. Caroline revirou os olhos e suspirou exasperada, — Já sei tudo de cor e salteado, Bradford. Não vou sair do seu lado durante o baile, não vou fugir para canto nenhum com Charity, e se acontecer alguma coisa, e precisares sair de perto de rmm, devo ficar perto do Milford até voltares. Bradford confirmou, com uma expressão solene. Caroline alisou-lhe as rugas da testa com a mão.
  • — Por favor, não te preocupes, Bradford. Os homens que contrataste não encontraram nenhuma pista sequer. Além disso, eu te disse que provavelmente foi alguma mulher vingativa que queria que tu pertencesses a ela e achou que fazendo aquilo me assustaria. Agora Bradford é que demonstrou exasperação. —Então essa dama te empurrou do alto de uma escada, serrou o eixo da roda da minha carruagem, depois te enviou aquela carta? E isso que pensas? —Não foi uma dama, Bradford, foi uma mulher. Há uma dife- rença considerável. E faz sentido para mim. Ela podia ter contratado alguém para fazer o serviço na tua carruagem. Bradford evitou expressar o que lhe passava pela cabeça. Sua esposa era tão inocente que ele não desejou alarmá-la com as informações que tinha reunido. Era seu dever protegê-la de qualquer atentado e ele não queria que ela se assustasse, apenas que tivesse cautela. Até a armadilha ter se fechado, a prova ser cabaí, ela não iria sair do alcance de sua visão. Ela agora pertencia a ele, e quem ousasse tocá-la não iria sair vivo. Bradford vestiu-se calado. Caroline ficou o tempo todo se metendo no seu caminho, e quando ele fez uma pausa para lhe dizer que o quarto dela era bem ao lado, e que ela podia vestir-se com facilidade lá, sua esposa riu na cara dele e disse-lhe, com toda a clareza, que não gostava de ter um quarto à parte para si. — Não posso permitir que Henderson venha aqui me ajudar con- tigo despida assim, sassaricando pelo quarto — resmungou Bradford. Caroline parou diante do espelho oval, penteando os cabelos, sem se deixar incomodar pelo comentário dele. —Então, como é? —Não és mais um garoto, Bradford. Podes vestir-te sozinho agora. Eu faço isso há anos.
  • —Tua dama de companhia reclama disso. —Mary Margaret já tem bastante serviço, não precisa ficar ban- cando minha babá. Bradford desistiu da discussão e desceu as escadas para esperar. Ficou andando de um lado para outro no vestíbulo, com um copo de conhaque na mão, refletindo sobre a festa. Quase rejeitou o convite para ir à Clavenhurst, a grandiosa mansão do marquês de Aimsmond, por causa da dificuldade que seria manter Caroline a salvo no meio de tantas pessoas. Ele não podia recusar, é claro, pois o marquês era tio de Caroline, e ficaria ofendido se ela não comparecesse. O baile tinha dois objetivos. Charity e Paul iam casar-se dentro de dois dias, e era uma comemoração pré-nupcial. Também era uma festa em homenagem ao duque e à duquesa de Bradford, o primeiro evento onde ele e Caroline apareceriam como marido e mulher. Caroline surgiu à porta, com um vestido brilhante de seda azul- metálica, e viu o marido encostado no consolo da lareira. Sua expressão furiosa vagarosamente abrandou-se, substituída por uma expressão ar- rogante que intrigou Caroline. Ela fez uma reverência exagerada, com os olhos cor de violeta bri- lhando, da cor do seu vestido, e sorriu quando Bradford ergueu o copo, para saudá-la. — Estavas de cara amarrada um instante atrás, e agora pareces muito convencido — comentou Caroline. E belíssimo, pensou consigo. Estava de casaca preta, e quando se afastou da lareira, parecia incrivel mente poderoso e musculoso outra vez. Caroline perguntou-se quando
 sua aparência deixaria fazer sua pulsação se acelerar. Só de olhar para ele ela já sentia os músculos contraírem-se de desejo de ser abraçada pelo marido. Caroline nunca tinha conseguido esconder seus sentimentos muito
  • bem, e Bradford viu claramente o que ela estava pensando: — Se continuares a me olhar assim, não vamos a lugar algum — comentou Bradford. Ele colocou a taça de conhaque sobre o consolo da lareira e vagarosamente aproximou-se de onde estava a esposa, parando diante dela. Seu sangue tinha começado a ficar desconfortavelmente
 quente, e tudo porque sua linda esposa lançara-lhe aquele olhar especial. Ele não estava conseguindo resistir à tentação de toma-la nos braços e beijá-la apaixonadamente. Com um suspiro de relutância, ajudou-a a colocar a capa de peles, e chamou a carruagem. Eles já estavam atrasados, e quanto mais cedo terminasse a festa, mais rápido poderiam ficar a sós de novo. O conde de Barton estava esperando logo à entrada da casa do marquês, e abraçou Caroline antes mesmo de ela tirar a capa. — Senti saudades suas. filha — anunciou o pai. Ele a puxou para um canto e murmurou, embora não tão baixo que Bradford não pudesse ouvir: — Estás feliz. Caroline? Ele está cuidando de ti direitinho? Caroline sorriu. — Estou muito feliz. sim. meu pai. — E parou de falar, sabendo muito bem que Bradfbrd podia entreouvi-los. Se dissesse ao pai o quanto era verdadeiramente feliz, como estava satisfeita, o marido se transformaria no sujeito mais insuportável do mundo, a ponto de ser impossível conviver com ele. A humildade não era um dos seus fortes, e ele iria ficar insuportavelmente presunçoso. Charity e Paul desviaram-lhe a atenção, e depois o tio Franklin, com a esposa ao seu lado. entraram na conversa. O duque e a duquesa de Bradford entraram no salão em grande estilo, e imediatamente foram até o seu anfitrião. O tio Milo estava sentado perto da entrada, e Caroline viu perfeitamente que ele já estava fatigado. Começou a levantar-se, mas Caroline sacudiu a cabeça e ime-
  • diatamente sentou-se ao seu lado. Bradford deixou Caroline na companhia de seu tio, depois de lhe lançar um olhar de advertência para ela não desaparecer. O marquês admitiu que estava cansado, sim. mas apenas de toda a empolgação. Piscou para Caroline e cochichou-lhe que não tinha trabalhado nem um pouco na preparação da festa. Franklin e Loretta tinham cuidado de todos os preparativos. Caroline segurou-lhe a mão e escutou-o explicar suas atividades durante as últimas semanas. Contentar-se-ia em ficar ali sentada o resto da noite, se isso lhe desse prazer, e recusou vários convites para dançar. Quando o tio Milo perguntou-lhe, daquele seu jeito sem rodeios, exatamente quando ele poderia esperar que a família aumentasse, Caroline riu. —Ainda não conversamos sobre isso — admitiu ela para ele. — Quando isso acontecer — acrescentou — nem mesmo sei quantos filhos o Bradford quer ter. —Eu gostaria de ainda estar vivo para segurar seu primeiro filho no colo — disse-lhe o marquês. —Gostaria que o senhor nunca morresse — murmurou Caroline, em resposta. Aquele seu comentário agradou seu tio e ele apertou-lhe a mão com muita afeição. Bradford estava conversando com Milford do outro lado do salão, sem conseguir tirar os olhos de Caroline. Milford tentou atrair a atenção do amigo puxando conversa sobre os mais diversos tópicos, e finalmente, quando viu que não obteria lá grande reação, permitiu que sua exasperação se manifestasse. — O rei vai divorciar-se de sua esposa e se mudar para a França na semana que vem — comentou, para ver se ele se assustava. Bradford fez sinal de que tinha ouvido e continuou olhando para
  • sua mulher. —Ela não vai sumir, Brad. Pelo amor de Deus, homem, controle-se. — Milford começou a soltar risadinhas disfarçadas e deu um tapa nas costas de Bradford, fazendo-o distrair-se de sua preocupação por um momento. —Ela não colocou jóia nenhuma. Milford demonstrou sua confusão diante desse comentário, virou-se para olhar para Caroline e depois voltou a olhar o amigo. —Ela está com seu anel na mão — comentou. —Ela jamais tiraria esse anel do dedo. — Esse comentário arro- gante fez Milford sorrir. —Bradford, por que é que estamos conversando sobre jóias? — indagou ele. Bradford deu de ombros e finalmente deu sua total atenção a Milford. — Já soubeste de alguma coisa sobre o meu problema? — indagou ele. Estava se referindo à investigação sobre o inimigo de Caroline, mas havia gente demais ali por perto que podia escutar. — Nosso problema, e sim, descobri uma coisa que acho importante. Bradford mostrou que tinha entendido com uma vénia comportada. — Mais tarde, depois do jantar, conversaremos sobre isso, então. Do outro lado do salão. Caroline ajudou o tio a levantar-se e entre- gou-lhe a bengala. Tinha passado mais de uma hora com ele, e ele agora estava satisfeito. Beijou-a para se despedir, depois que ela prometeu três vezes visitá-lo na tarde seguinte, depois foi até o vestíbulo. Caroline acompanhou-o, cumprimentando com a cabeça quem chamasse seu nome. —Vais ser capaz de dormir com todo esse barulho? — indagou-lhe
  • Caroline, —Tenho dormido feito um bebezinho ultimamente — declarou o tio Milo. — Agora vá aproveitar a festa, querida. Vou descansar, e amanhã estarei novinho em folha, esperando ansioso a tua visita. Caroline ficou parada, com as mãos entrelaçadas, olhando o tio subir as escadas vagarosamente. Quando ele desapareceu de vista, ela virou- se, pensando em procurar Bradford, mas Rachel Tillman, com o noivo, Nigel Crestwall. a interceptaram. Rachel chamou a atenção de Caroline de forma bastante agressiva. Agarrou-a pelo braço, apertando-o até fazê-lo doer. —Deves estar te sentindo a maioral — disse Rachel. Caroline ficou tão surpresa diante dessa veemência em sua voz, e do apertão doloroso do seu braço, que só conseguiu olhar para a mulher, espantada. —Veja só como ela finge inocência — disse Rachel a Nigel. O tom de sua voz era de zombaria, e Caroline ficou horrorizada ao notar isso. —De que estás falando. Rachel? — perguntou Caroline, enfezada. Puxou o braço, para soltá-lo, e procurou o marido em torno de si, meio assustada. Rachel interpretou mal seu olhar e disse: —Ah, não se preocupe, não vou estragar sua linda festa. Foi uma grande honra ser convidada. Eu só queria que soubesses que não me enganas. Estragaste tudo! Tudo! — Rachel agarrou o braço de Caroline de novo, enterrando as unhas em sua pele. — Vais pagar por isso, sua vagabunda. Não perdes por esperar. —Eu nunca bati em uma mulher antes, bati, Milford? — Bradford fez esse comentário em tom bastante descontraído atrás de
  • Rachel, e, portanto, não viu a cara de indignação que ela fez. — Mas se não soltares o braço da minha esposa imediatamente, srta. Tíllman, serás infelizmente a primeira. Rachel recolheu a mão com um gesto brusco que fez Caroline re- cuar um passo. Olhou para Nigel furiosa, como se o censurasse por não avisá-la de que Bradford estava se aproximando, e depois virou-se e foi até o salão de baile. Nigel precisou correr para alcançá-la. Caroline ficou assistindo à retirada dos dois com uma raiva cada vez maior. Milford foi o primeiro a comentar a mudança de expressão dela. Pegou o braço de Caroline e começou a esfregar as marcas das unhas de Rachel para removê-las. — Deves reagir na hora se alguém te agredir, não depois — disse ele, com um sorriso irónico. Caroline olhou Milford, que estava sorridente, e para o marido, de cara amarrada. —Eu sempre reajo devagar — disse ela. — Bradford, a Rachel me odeia. Disse que foi tudo culpa minha. —O quê? — perguntou Milford. Caroline deu de ombros. Notou que várias pessoas estavam olhando para ela espantadas, e rapidamente fez desaparecer a expressão de raiva. — Não faço a menor ideia. —Vamos para casa. Milford, toma conta dela enquanto vou chamar a carruagem. —Não vamos para casa coisa nenhuma — declarou Caroline. — Não vou fugir de gente como Rachel Tillman. E já prometi que me encontraria com... —Não vais te encontrar com ninguém — a voz de Bradford ficou mais irritada., e Caroline tratou de calar-se, toda abespinhada por dentro.
  • Não ia embora. O pai ia ficar decepcionado, pois ela não tinha passado nem um minuto ao lado dele, e depois do jantar ela iria ter uma conversa confidencial com Charity. Não explicou nada disso ao Bradford, só murmurou: —Ainda não dançaste comigo. —Ê verdade, Brad — interferiu Milford. E continuou a sorrir, mesmo quando o duque e a duquesa lançaram-lhe olhares de censura. — Está bem! Vamos dançar, depois saímos. — Bradford pegou o cotovelo de Caroline e puxou-a para o salão de baile. Caroline sorriu, percebendo que tinha acabado de vencer uma batalha. —Obrigada, meu mando — disse, tentando não parecer muito convencida. —Uma dança — insistiu Bradford, quando ambos entraram na pista, com os casais que iriam dar início a uma nova dança. —Sim, Bradford. Aquela aceitação branda da parte dela não o enganou nem um mi- nuto. Assim que terminou a dança, Milford apareceu do nada, e exigiu dançar com Caroline. Bradford concordou, relutante. Seu humor melhorou muito quando ele viu Rachel e Nigel saindo da casa. Ele não queria mais nenhuma briga naquela noite. No dia seguinte teria uma breve conversa com aquela bruxa e exigiria saber o motivo de todo aquele ódio. Caroline dançou com a maioria dos homens de Londres, e já estava exausta quando terminou a ceia e as danças recomeçaram. Bradford contentou-se em assistir à esposa. Até se pegou sorrindo algumas vezes ao perceber o rebuliço que sua esposa estava causando. Ela comportava-se com uma dignidade e uma autoconfiança que o agradavam. E duas vezes,
  • quando ele menos esperava, ela virou-se no meio da dança e sorriu para ele. Bradford notou que Terrence St. James estava sempre por perto de sua esposa. E também um mancebo chamado Stanton. Ficou de- monstrando toda a paciência do mundo e acrescentou os nomes deles à sua lista cada vez maior de dândis com os quais iria precisar ter uma conversinha amigável. — Estás de cara amarrada de novo, Brad. Ainda pensando na Rachel? Bradford sacudiu a cabeça. — Não, só de olho nos sujeitos que estão dando em cima da minha mulher — comentou ele. O tom de voz dele saiu entediado, mas Milford viu, pelo olhar do amigo, que estava irritado. — Vou ter uma conversinha com alguns deles antes da festa terminar. Milford sacudiu a cabeça. — Vais ter que falar com todos os homens da festa — comen- tou. — Olha, Caroline está seguindo o pai dela até a pista. Vai passar alguns minutos em segurança. Seria uma hora boa para termos a nossa conversa, não concordas? Bradford concordou, e seguiu Milford até outra sala. Parou um segundo, o bastante para ver Stanton ficar constrangido, e depois continuou. Milford agia de maneira totalmente natural, mas o fato de ele ter falado na informação que tinha obtido duas vezes até aquele momento indicou a Bradford que não era mais uma pista furada. Eles encontraram o escritório do marquês, encararam o casal que tinha procurado aquele aposento para ficar a sós um instante até o homem e a mulher saírem da sala, sem trocarem com eles uma só palavra, depois fecharam a porta. Caroline terminou a dança com o pai quando Charity veio correndo até ela sem fôlego de tanta expectativa. — Tio, dá-me licença um instante, Caroline e eu precisamos
  • conversar — pediu Charity. Caroline seguiu a prima feito um cordeirinho até o outro lado da sala. — Esta alcova aqui vai nos dar a privacidade necessária — de- clarou Charity. Ela segurava os óculos nas mãos e colocou-os no nariz quando estava sentada ao lado de Caroline. — Eu achava que íamos poder conversar na varanda, mas naturalmente iríamos ficar congeladas. Caroline sorriu e deu tapmhas amistosos na mão da prima: —Não fique nervosa, Charity. Em dois dias vais estar casada com o homem que amas e tudo será maravilhoso. —E é maravilhoso? — cochichou Charity, franzindo o cenho. — Gostaria que mamãe estivesse aqui. Estou assustada por causa do... bom, tu já sabes por causa do quê, tenho grandes apreensões. —Charity, vai dar tudo certo. — Caroline sentiu-se bem mais experiente, e depois se lembrou de como estava assustada na noite depois do casamento. Sentiu-se corar. — O Paul sabe que és inexperiente — explicou com um constrangimento cada vez maior ao falar sobre aquele
 assunto. — E no fim, vais até gostar. Charity sorriu. — Gosto quando ele me beija, sim — admitiu. — E sei que não mentirias para mím. Se dizes que é maravilhoso, então é porque deve ser. Caroline sorriu, na esperança de que Charity não fizesse perguntas mais específicas, e ficou aliviada quando a prima se levantou e tirou os óculos. — Tu me fizeste sentir muito melhor. Charity desapareceu, num turbilhão de seda rosa, sem dúvida à procura do seu amado, e Caroline tinha acabado de se levantar quando o alto e magncela Terrence St. James surgiu e suplicou que ela lhe concedesse
  • um minuto de sua atenção. Caroline recusou o convite. Não era de bom-tom, porque a alcova os ocultava completamente do resto dos convidados. Além disso, Caroline não queria conversar com o dândi. Ele não estava fazendo a menor questão de esconder a atração que sentia por ela, e ela ficou enfezada ao notar isso. Afinal de contas, era casada! — Só queria pedir-te permissão para encontrar-me contigo en- quanto estás em Londres — declarou St. James. — Só como distração, agora que já te casaste... — Deu de ombros, deixando que a imaginação dela completasse o resto da frase. Caroline ficou escandalizada ao ver a audácia daquele cafajeste. — Desta vez, passa — disse ela. Sua voz saiu tão gelada quanto o olhar que ela dirigiu a ele, depois ela procurou afastá-lo para passar, com um estremecimento de repulsa. — Mas não entendes — murmurou Terrence, atrás dela.
 Caroline fingiu não ter ouvido. Viu o pai em um grupo do outro lado do salão, e imediatamente tratou de abrir caminho até ele. Reprimiu a raiva, achando que compreendia exatamente o que aquele inglês odioso tinha em mente. Estava resolvida a denunciar a Bradford o descaramento de alguns dos homens que tinha conhecido, depois resolveu deixar para lá. Caroline passou vários minutos procurando Bradford, depois de uma dança curta com Paul, o qual sugeriu que ela procurasse o marido na biblioteca. Caroline foi naquela direção, depois de dizer ao pai que estava cansada e ia voltar para casa logo. Agora só precisava encontrar o marido e ir embora. Rachel Tillman e Terrence St. James tinham-na feito cair na defensiva, e ela só queria sair do meio de todo aquele barulho e frivolidade. Acima de tudo, queria que Bradford a abraçasse, Caroline não percebeu que Terrence a seguiu até bater à porta da
  • biblioteca e espiar por ela. A sala estava vazia, e Caroline estava para voltar, quando Terrence empurrou-a para dentro e fechou a porta. —Sai da minha frente — exigiu Caroline. Estava zangada a ponto de não se importar por fazê-lo suplicar, e ficou mais furiosa ainda quando St. James sacudiu a cabeça. —Sou extremamente rico — começou. — Poderia dar-te... A paciência de Caroline estava se esgotando. Ela empurrou-o para um lado e começou a dirigir-se à porta. Ele aí falou, ofendido: —Não tenho um tostão furado — confessou, metendo-se entre ela e a porta. — E estão me pagando uma quantia altíssima para te colocar em uma situação comprometedora. Seu marido é ciumento, minha cara. —E sim — respondeu Caroline. Recuou, pensando em ir até a escrivaninha e apanhar o candelabro para usá-lo como arma. — Ele pode até te matar. —Nunca aqui, no meio de todos esses convidados — respondeu ele. —Por quê? — indagou Caroline. — Por que estás fazendo isso? —Pelo dinheiro, é claro — respondeu Terrence, dando de om- bros, indiferente. — Rachel vai me pagar amanhã. Ela quer mesmo te ver pelas costas, querida. Caroline chegou à mesa e virou-se, mas não logrou seu intento. Terrence St. James pulou em cima dela, torcendo-lhe o corpo até seus braços ficarem presos contra os lados do corpo. Ele a segurou com toda a força, decidido a ir até o fim. — Não vai ser assim tão ruim eu te beijar. Tu és uma mulher muito atraente. Vai até valer a pena levar uns socos do teu marido revoltado. Caroline ficou parada, toda contraída, nos braços dele. Parou de contorcer-se, mas esperou uma oportunidade de se livrar. As pernas de
  • Terrence estavam afastadas o suficiente para ela fazer o que planejava, e, assim que ele bobeasse, ela faria justamente o que seu primo Caimen tinha-a instruído a fazer para poder se livrar de um homem. — Meu marido só vai acreditar no que eu lhe disser — gabou-se Caroline. Terrence moveu as pernas e Caroline imediatamente colocou seu pé direito entre os pés dele. O som de vozes chegou até eles nesse mesmo instante. Carolíne abriu a boca para gritar, e Terrence tratou de silenciá-la com a boca. A porta abriu-se exatamente quanto Caroline estava para levantar o joelho da perna direita e causar ao seu agressor uma dor excruciante. Só que não teve oportunidade de fazer isso. A ira de Bradford foi mais fulminante que um raio. Ele arrancou Terrence St. James de cima da sua esposa, jogando-o sobre a escrivaninha com tal velocidade que Caroline ficou pasma. Saiu do caminho exatamente no momento em que os pés de Terrence passaram voando diante do seu rosto. Caroline não podia ver o rosto do marido, pois ele estava de costas para ela. Estava de olho em St. James, esperando ele tentar ficar de pé outra vez. Virou-se para a porta, onde estava Milford, obviamente para evitar que qualquer outra pessoa passasse. St. James finalmente se levantou, mas caiu de novo na mesma hora, depois de levar um soco violento na barriga. Caroline correu para o lado de Bradford e finalmente viu-lhe a expressão. Um arrepio de apreensão percorreu-lhe a espinha. Ele olhou para ela, e no seu rosto via-se indignação, nojo e desdém. —O que estás pensando? — murmurou Carolíne, esperando a resposta. —Cala-te.' Aquela ordem fria deixou Caroline espantada. Ficou tão desacor-
  • çoada pela fúria na voz dele e pela expressão em sua fisionomia que começou a chorar. Meu Deus do céu, será que ele acreditava mesmo que ela tinha aceitado de boa vontade que aquele homem horrível a beijasse? Ela sacudiu a cabeça, sem querer acreditar que fosse verdade. Negou que ele pudesse pensar tão mal assim dela. Terrence parecia uma marionete, procurando debater-se para soltar- se das mãos de Bradford enquanto seu rosto ia ficando cada vez mais vermelho. Caroline tentou afastar a mão do marido do pescoço do rapaz, mas não conseguiu. Virou-se para Milford e lhe suplicou que interferisse. — Não o deixes matá-lo — implorou. A resposta de Milford foi dar de ombros, indiferente. Caroline enxugou as lágrimas dos olhos e virou-se para o mando. —Bradford, vão te enfocar se matares o homem. E ele ainda nem te contou o que estava fazendo — argumentou ela. —Sei perfeitamente o que vós estáveis fazendo — replicou Bradford, furioso. Milford, então, resolveu interferir. —Não vale a pena, Bradford. Joga-o no olho da rua, com o resto do lixo. —E exatamente o quê estávamos fazendo? — indagou Caroline. — Diz-me, Bradford, diz-me o que estás pensando. A expressão de Bradford mudou lentamente até ele parecer quase entediado. Soltou sua presa e viu-o cair no chão. St. James não tinha morrido. Caroline ficou escutando-o tentar recuperar o fôlego enquanto esperava o marido responder a sua pergunta. —Brad, escuta tua esposa. Caroline, explica o que houve aqui — suplicou Milford, tentando desempenhar o papel de mediador. —Não vou explicar nada — declarou Caroline. Sua voz saiu sem expressão, sem qualquer emoção. Suas mãos estavam crispadas,
  • os punhos cerrados, única prova de sua fúria. — Viste o que ocorreu. Tira tuas próprias conclusões. Meu marido já tirou. Não tirou, Bradford? — E dirigiu-se à porta, mas Bradford a deteve segurando-lhe o braço de leve. —Creio que não tiveste culpa — disse Bradford, por fim. Sua voz saiu entrecortada, terrivelmente fria. — Fica aqui até estarmos prontos para partir. Milford, por favor, vai buscar a carruagem. —Vai tu — respondeu Milford. Não ia deixar Bradford sozinho com St. James. Sabia, pelo jeito como ele estava, todo retesado como uma vara, que o amigo não tinha ainda conseguido dominar toda a sua fúria. Bradford praguejou e saiu da sala. Milford foi até Terence e cutucou-o com a bota. — Ê melhor saíres daqui, mesmo te arrastando, antes que Bradford volte. Caroline estava no meio da sala, o olhar baixo, e St. James procurou ficar bem longe dela. Milford viu-o sair. e aí se aproximou de Caroline. Pôs a mão no ombro dela para consolá-la, e depois franziu a testa quando ela encolheu o ombro. — Conta-me o que houve — implorou ele. Sua voz era carinhosa, ele queria acalmá-la. Caroline sacudiu a cabeça. —Você contaria a Bradford — murmurou ela. —E será que é assim tão terrível? Sua voz, tão terna e afetuosa, fez Caroline ceder. Ela tremia, e torceu as mãos, esforçando-se para parar. Não ia permitir que Milford lhe oferecesse aquele consolo, sabendo instintivamente que qualquer
  • demonstração de bondade acabaria com sua compostura. — Gostaria de ir para casa agora — disse, e foi para outro canto da sala quando Milford tentou voltar a tocá-la. A angústia na voz dela deixou-o envergonhado. Ela procurou manter-se ereta, a cabeça erguida com dignidade, e sua expressão estava controlada, mas a dor ainda se fazia notar no seu tom de voz. — Bradford vai voltar dentro de um minuto — disse Milford. — Caroline, ele acabou de te dizer que sabe que és inocente. Só está furioso com o St. James. Caroline sacudiu a cabeça, interrompendo a explicação de Milford. —Não me considerou inocente na hora — contradisse ela. — Pensou o pior... —Quando ele se acalmar... —Não quero ir para casa com Bradford — a declaração de Caroline interrompeu a resposta sincera de Milford. —Vou mesmo achar isso uma pena tremenda, minha cara. — Esse comentário ofensivo veio da porta, onde estava o duque de Bradford. Caroline recusou-se a olhar para ele. Sentiu sua capa ser colocada sobre seus ombros e depois Bradford puxá-la contra o lado do seu corpo. Eles não disseram uma única palavra um ao outro na volta para casa. Caroline procurou acalmar-se durante esse tempo. Sentia como Bradford a olhava furioso, e procurou não olhar para ele. Seu coração estava partido, e ela não podia culpar ninguém a não ser a si mesma. Chegou à conclusão de que era mesmo uma ingénua. Ele não poderia magoá-la assim se ela não tivesse se apaixonado por ele. Ti- nha confiado nele, entregado a ele seu coração, e agora estava se sentindo praticamente arrasada por causa dele. Aquele seu ciúme sem sentido e
  • sua falta de confiança nela eram ambos infundados, e tão ilógicos, que Caroline nem sabia como combater esses sentimentos, como se proteger. Lembrou-se de que ele tinha se voltado contra ela quando Claymere lhe roubara os beijos contra a sua vontade na noite do jantar dado por seu pai. Sua ira tinha se dirigido a ela tanto quanto a Claymere. Esta noite ela tinha testemunhado a mesma atitude, durante uma fração de segundo. A fúria tinha sido dirigida a ela. Na hora em que chegaram à casa de Bradford, Caroline só desejava trancar-se no seu quarto e chorar. Sentia-se como um animal ferido, em busca de um abrigo seguro. Bradford viu Caroline começar a subir os degraus que iam até os quartos de dormir, e exigiu que ela o seguisse até a biblioteca para con- versarem sobre o acontecido. Caroline, porém, fingiu que não tinha ouvido a ordem do marido, e continuou a subir. Conseguiu ir até a porta do seu quarto, e nessa hora Bradford virou-a de frente para si, violentamente. —Não me ouviste? Vamos à biblioteca! —Não. — Caroline virou-se, entrou no quarto e depois fechou a porta na cara do seu espantado marido. A porta abriu-se e bateu na parede, com força. Bradford entrou no quarto dela e seguiu Caroline até a cama. Sua esposa sentou-se na beirada dela, torcendo as mãos no colo. Ele ficou diante dela, as pernas abertas, as mãos nos quadris. Ca- roline olhou para o seu rosto, viu sua expressão furiosa, e aí deu vazão a sua própria raiva. —Depois desta noite, provavelmente nunca mais saiarei contigo.
 A veemência na voz dela deixou-o furioso. — Vais explicar por que estavas na biblioteca com o St. James, senão vou espancar-te até me contares.
  • —Não ousarias encostar sequer um dedo em mim. — Essa de- claração tranquila de Caroline surpreendeu Bradford, fazendo-o perder um pouco a empáfia. —E como sabes disso? — gritou ele, em voz mais baixa agora. — Não precisas usar teus punhos quando tua aparência e pensamentos já causam tamanho dano. E jamais serias capaz de bater em uma mulher; não é do teu feitio. Bradford admitiu para si mesmo que ela estava certa-. Ameaças falsas não iriam ter efeito algum. Ele então resolveu usar o raciocínio tranquilo: —Conta-me o que aconteceu. —Se responderes a minha pergunta, eu te conto tudo — replicou Caroline. — Já sei a verdade, mas quero que admitas. — Então ficou de pé de frente para o marido. — Quando me viste com o St. James, achaste que eu estava te traindo, não? —Sei que não foste culpada dessa... —Não foi isso que perguntei — afirmou Caroline. — Responde a minha pergunta agora. Bradford. Diz a verdade! Ele franziu a testa e depois sacudiu os ombros. — Foi uma conclusão natural, e sim, por um ou dois segundos, achei que tinhas me traído. Disseste antes, durante a festa, que ias te encontrar com alguém. Entendi que estava reagindo de modo exagerado, porém, e sei que nunca serias capaz de me enganar. Os ombros de Caroline caíram, e ela sacudiu a cabeça. —Eu ia ter uma conversa em particular com a Charity — res- pondeu. — Era com ela que eu ia me encontrar. Agora vou te dizer o que ocorreu. Fui procurar por ti. Paul sugeriu que talvez estivesses na biblioteca. Terrence St. James me seguiu. Rachel vai pagar a ele para me

  • colocar em uma situação comprometedora. Como estás vendo, todos sabem como és ciumento, todos menos esta tua esposa ingénua! E St. James precisa de dinheiro. Até me gabei para ele, dizendo que acreditarias em mim, não no que visses. Mas estava enganada. — Essa última
 frase foi sussurrada com um soluço. —Não procura inverter os papéis — respondeu Bradford, de maus modos. — Tu me juraste que ias ficar o tempo todo ao meu lado esta noite. Da primeira vez que viro as costas, tu terminas... — Estava te procurando — defendeu-se Caroline. — Cometi um erro. —Nisso tens razão — respondeu Bradford. —Meu erro foi casar contigo. Meu erro foi confiar em ti de todo o coração. Mas o amor e o ódio são muito parecidos, e neste exato minuto acho que quase te odeio. E tudo por tua própria culpa — desabafou Caroline. — Estás pouco a pouco me sufocando e extraindo de mim
 todo o amor que sinto por ti. E deu as costas para ele, começando a despir-se, para procurar tirar da mente até a presença dele. Quando ela tinha tirado tudo, menos a anágua, tentou passar por Bradford para ir ao quarto dele pegar o roupão, mas ele se colocou na sua frente. —Por que estás de cara amarrada, Bradford? Devias estar feliz agora, todo convencido — comentou Caroline, em tom gelado. — Desde o dia em que nos conhecemos, estás esperando que eu te engane. Tinhas plena certeza, de que sou igualzinha a todas as outras com quem já estiveste, e acabei de provar que estás certo. Não passo de uma mulher da vida, não é?
  • —Do que estás falando? — respondeu Bradford, confuso. —Achas que é teu dever proteger-me para que não me comportei mal, não achas? Nós, pobres mulheres, somos tão fraquinhas, naturalmente nenhuma tem nenhum senso de moral. Não podemos evitai ir para a cama com o primeiro que se oferecer, podemos? Então me diz,
 Bradford, como é que consegui chegar virgem ao nosso casamento? —Mas que droga, não estás dizendo coisa com coisa. — Ele não tinha a intenção de gritar, mas ela estava perto demais da verdade para que ele se sentisse à vontade. —A Inglaterra é uma terra amaldiçoada — sussurrou Caroline. — Durante todos os anos em Boston, só me deixei envolver com patifes uma vez! Eram três bêbados, eu estava num bairro de segunda categoria. Mas aqui, para todos os lados onde me volto, sou atacada e ameaçada...
 E não só por estranhos, meu Deus, mas pelo meu próprio marido, que me agride com seus pensamentos revoltantes. Quero voltar para casa. Quero voltar para Boston. Caroline começou a chorar. —Caroline. nunca escondi o fato de que tenho um temperamento violento. —Não adianta gritar com um surdo nem exigir que um cego enxergue. Esta noite entendi que acreditas tanto nas tuas crenças que nada vai mudar o que pensas. Nunca vais confiar em mini de todo o coração. Não és capaz — disse Caroline. — Nunca devia ter me casado contigo — repetiu. —Mas não tiveste escolha — comentou Bradford. E sentiu que estava ficando zangado outra vez com aquelas acusações dela.
  • Detestava ouvi-la falar com tanta aspereza assim com ele. Viu Caroline deitar-se na cama e puxou as cobertas para aconchegá- la. Ela virou de lado. dando-lhe as costas. —Faz o favor de sair do meu quarto — ordenou Caroline. Tremia de frio e desespero, e sabia que dentro de poucos instantes iria começar a soluçar sem parar. Só queria que a deixassem sozinha com sua tristeza. Só depois que ela terminasse de chorar poderia decidir racionalmente
 o que fazer. —Entendeste tudo ao contrário, minha esposa. Vives entendendo tudo mal, meu Deus — resmungou Bradford. — Não tens motivo para estares com raiva de mim. Fui eu que te encontrei na biblioteca com aquele canalha. Depois que me deste tua palavra de que não irias sair de perto de mim — continuou Bradford. — Tu tens confiança demais nas pessoas, Caroline. E por isso estás sempre te metendo em situações que não podes controlar. —Não entendi nada ao contrário — respondeu Caroline. Rolou para o lado de Bradford, olhando furiosa para as costas dele. — Finalmente estou começando a entender tudo muito bem, isso sim. Tu é que explicaste que temos quartos separados. E este é meu quarto, portanto vai saindo. Não quero que durmas ao meu lado — ralhou Caroline. Lágrimas quentes começaram a arder nos seus olhos quando ela acrescentou, em tom de desafio: — Não vou permitir. —Permitir: Não vais permitir? — O urro dele calou Caroline. Ele virou-se, deixando que ela visse sua fúria sem véus, mas Caroline agora não se importava mais. — Ninguém jamais ousou falar assim comigo! Ninguém!Compreende de uma vez por todas, Caroline, eu sou o
  • único que permite neste casamento. Tu, não. Bradford foi até a carna, tirando a camisa no caminho. Caroline rolou, ficando de barriga para baixo. Sentiu que ele arrancava as cobertas de cima dela, ouviu a cama ranger com o peso de Bradford quando ele se deitou ao seu lado. Depois ele começou a tirar-lhe a camisola, passando as alças sobre os ombros dela, puxando-a para baixo até a cintura, e depois retirando-a sobre as pernas dela. Ela não se mexeu, e apenas a ligeira contração de seus músculos sob a pele lisa das costas demonstrava uma reação. Esperou pelo ataque dele, prendendo a respiração, até pensar que seus pulmões iriam explodir, mas o ataque não veio. Em vez disso ela sentiu os lábios de Bradford roçando-lhe a nuca. —Não quero que me toques — murmurou Caroline, contra o travesseiro. —Não é bem assim, minha esposa. O que queres não importa — a voz de Bradford era áspera, inflexível. Caroline virou-se com tal força que Bradford caiu de lado na cama. O rosto dela estava apenas a alguns centímetros do dele. Ficaram olhando-se durante um longo momento de silêncio, deixando a raiva que cada um estava sentindo fluir entre eles, sem barreiras. Caroline, contra a vontade, falou baixo: — Talvez, para o duque de Bradford, meus desejos não sejam importantes, mas neste leito matrimonial, teu poder e teu dinheiro não significam nada. Neste leito, és meu marido. O público pode ser subserviente diante do duque de Bradford, mas eu jamais serei subserviente
 ao meu marido. Jamais! Aprende a separar teu título do homem, pois o voto matrimonial é a única coisa que nos prende um ao outro. A expressão dele demonstrou a confusão que sentiu diante
  • dessas palavras. Caroline sentiu vontade de gritar para fazê-lo entender. — Deixa teu ciúme e raiva do lado de fora da porta, junto com a tua arrogância. Vem ao meu encontro como Jered Marcus Benton. Ela murmurou esse desejo e rolou de volta, ficando de barriga para baixo, dispensando-o. Sabia que ele ainda não tinha entendido, e seu coração doía de arrependimento. Ele achava que ela estava lhe pedindo algo impossível. Falava com ele de um jeito enigmático, e ele não tinha paciência para decifrar esses enigmas. Ele era o duque de Bradford, afinal de contas! E não era possível separar o título do homem. Porcaria, será que ela não entendia que aquele título era o que o distinguia? Estaria ela querendo lhe tirar todo o seu valor, sua dignidade? Uma incerteza teimosa apossou-se dele. Ou será que ela estava querendo fazê-lo desistir de suas defesas? E se conseguisse, o que acon- teceria? Será que sobraria alguma coisa dele? Exigia demais dele. E não entendia como ela mesma pensava. Ne- gava o poder, a riqueza e a posição, mas era por isso que tinha se casado com ele. Ou seria por outro motivo? Será que ela realmente amava Jered Marcus Benton. o homem, não o título? Bradford sacudiu a cabeça, tentou livrar-se do turbilhão de dúvidas que ela estava lhe causando. Meu Deus, como ela fazia sua cabeça girar, com todas as dúvidas que levantava. Pela primeira vez, desde a morte de seu irmão e de seu pai, ele se sentia vulnerável. E protestou contra esse sentimento. Ela o confundia, e ele não estava preparado para enfrentar as crenças que ela desafiava, as mudanças que exigia. O que sabia era que sentia vontade de possui-ía, naquele exato momento... mas queria que ela se entregasse a
  • ele por sua própria vontade... carinhosamente,.. e com uma paixão equivalente à que sentia. Caroline apertou os olhos fechados, um esforço inútil para conter as lágrimas. Sentiu Bradford mover-se ao seu lado, quando sua coxa pesada tocou a parte de trás de suas pernas. A mão dele passou a acariciar-lhe as costas de cima até embaixo. Era uma carícia tão suave que ela sentiu-se confusa de novo. O bafo dele contra suas costas lhe causava arrepios na pele. Os dedos dele vagarosamente traçaram uma linha erótica da nuca dela até o alto das nádegas, hesitaram por uma fração de segundo, depois penetraram entre as coxas dela para acariciar o calor cada vez mais intenso dentro dela. Ela sentiu a mudança no mando, viu que a raiva tinha passado, e re- agiu àquela terna sedução. Pensou em rejeitar as carícias dele, dizendo a si mesma que detestaria o prazer sensual que ele a obrigasse a sentir, mas aí admitiu que não estava sendo obrigada a reagir de jeito nenhum. A boca dele lhe dava beijos ardentes nas costas enquanto seus dedos realizavam sua mágica, deixando-a molhada e quente de tanto desejo. Ela agarrou os lençóis enquanto ele aumentava a pressão que se intensificava dentro dela, sentiu os músculos contraindo-se contra os dedos dele, e não teve como evitar os tremores. Os dedos dele entraram e saíram dela diversas vezes, até ela achar que certamente morreria por causa daquela deliciosa agonia. Arqueou o corpo contra o dele, tentando livrar-se daquele tormento, gemeu o nome dele de um jeito sensual, que exigia e suplicava. Bradford, então, deslocou-se e ajoelhou entre suas pernas. —Diz-me o quanto queres esse prazer — exigiu. Sua voz saiu rouca, trémula de excitação. Ele queria que ela dissesse que o desejava tanto quanto ele a desejava. —Eu quero é a ti, Jered — sussurrou Caroline. — Por favor,
  • agora. —E eu te quero, Carolíne — gemeu ele. Suas mãos seguraram-lhe os quadris e ele penetrou nela com vigor. Ele gritava para ela, chamava-a através do mormaço do prazer inexprimível, palavras carinhosas, gentis, de um amante para outro, suplicando-lhe que ela recebesse o que ele lhe oferecia. Esperou que ela se entregasse por completo e quando ela voltou a chamar seu nome, penetrou com ela no calor do sol, atingindo um êxtase ardente. Deixou-se cair ao lado da esposa com um grunhido baixo de satis- fação, e quando deixou de tremer, rolou, deitando-se de lado, e abraçou-a, apertando-a contra si. A cabeça dele descansou sobre a dela, e a sua mão acariciou-lhe suavemente a face. Ele sentiu as lágrimas dela nas pontas dos dedos, e murmurou: —Não chores, amor, não chores — vezes sem conta, até Caroline finalmente controlar-se e permitir que ele a consolasse. —Sempre me fazes querer-te — sussurrou Caroline. Sua voz era de quem estava confessando um pecado grave. Bradford não respondeu de imediato. Puxou os cobertores sobre ambos e estreitou-a contra si, aninhando-a com tamanha ternura que Caroline voltou a chorar. — Caroline. queres ouvir-me pedir desculpas? Eu estaria mentindo — admitiu, com um suspiro. — Não te possuí à força. Tu querias tanto quanto eu. Ela estava sacudindo a cabeça antes de ele ter terminado de falar. —Não querias? - perguntou ele, assombrado por ela mentir para ele. Ela sempre dizia a verdade, às vezes de um jeito meio honesto demais, e ele tinha passado a acreditar que ela era sincera. —Eu te queria, sim — respondeu Caroline —, mas queria ouvir-te pedir desculpas por teu comportamento rude hoje no baile. —
  • explicou. Sua voz foi abafada pelo travesseiro, e Bradford foi obrigado a apoiar-se no cotovelo para ouvi-la claramente. Depositou um beijo na têmpora dela e disse: —Estás exagerando. —Eu, exagerando? — Caroline estava pasma diante desse comen- tário tão tranquilo da parte dele. — Quase mataste um homem esta noite e estavas com uma cara infernal ao me olhares! Querias acreditar que eu era culpada, não querias? —Pelo amor de Deus, estás fazendo tempestade em copo d'água — argumentou Bradford. Parecia exasperado, e Caroline também ficou irritada. Ele não tinha a menor ideia de quanto a havia magoado. — Eu logo entendi — argumentou ele. —Mas demorou um pouco — replicou Caroline. Ela procurou sentar-se e virou-se para olhar para ele. — Nosso casamento vai estar ameaçado até teres confiança completa em mim. Quero confiança cega, e não vou aceitar menos que isso. Quero uma fé incondicional, tanta
 que se me encontrares na cama com dois homens, faças uma pausa para pedir uma explicação antes de me condenares. — Não te casaste com um tolo, Caroline — resmungou Bradford. —Não tenho tanta certeza assim — respondeu ela. Viu o brilho de fúria nos olhos do marido, mas prosseguiu assim mesmo. — Um tolo não fica querendo encontrar desculpas para o comportamento do seu adversário. Tu tiraste conclusões apressadas sobre o meu caráter e
 atacaste aquilo que mais valorizo. —E o que seria isso? — quis saber Bradford. O tom de voz dele era mais suave, muito controlado.
  • —Minha honra. —Nosso casamento, a teus olhos, é um campo de batalha? — zombou Bradford. — Somos marido e mulher, Caroline, não inimigos de guerra. —Não vejo a diferença, neste exato instante — declarou Caroline. — Nosso casamento pode muito bem ser um campo de batalha até a hora em que admitires que eu... —Não vou admitir nada — replicou Bradford. Não estava en- tendendo mais nada daquela conversa. Alguma coisa que ela havia dito antes lhe voltou à lembrança, e ele tentou se lembrar exatamente o que tinha sido. Ia se lembrar em breve, fosse o que fosse, decidiu ele bocejando. Pois agora só queria dormir abraçado à esposa. Com isso em mente, procurou encerrar a discussão: — Tu é que vais ceder à minha força, minha liderança. Ousas sugerir que deve ser o contrário? —Tu estás sendo deliberadamente obtuso — respondeu Caroline. — Sabes exatamente o que estou te pedindo. Ou confias em mim, ou... —Talvez com o tempo, quando tiveres provado que és mesmo digna da minha confiança — respondeu Bradford. Voltou a bocejar, deixando o assunto de lado, e tentou puxar Caroline de volta para os seus braços. Caroline empurrou-o e foi ficar de pé diante da cama. Apanhou a colcha e envolveu-se nela, tremendo de cólera. — Já cansei de tentar provar a ti quem sou. Se fosse como queres, eu tremeria de medo toda vez que um homem abrisse a boca para falar comigo, com medo de tirares conclusões apressadas de novo. Quando perceberes que não sou uma mulher superficial que só quer lucros materiais, nem uma piranha matreira que quer conquistar metade da
  • população londrina, então talvez nosso futuro seja tranquilo. Até lá, podes dormir sozinho, que não me importo. Deixa que tuas suspeitas te aqueçam. Ela saiu do quarto. Sentiu satisfação ao bater a porta depois de passar, mas logo parou de senti-la, e quando se deitou na cama de Bradford, estava tremendo de raiva de novo. Esperava que ele a arrastasse de volta para o seu lado, e ficou surpresa quando viu que ele não tinha vindo atrás dela. Ele abriu a porta de comunicação entre os quartos, e ficou ali, de pé, olhando-a, sacudindo a cabeça. — Que seja — anunciou, num tom de voz que a deixou gelada por dentro. — Este quarto é meu. Tens minha permissão para dormir no teu próprio quarto, esposa. Quando perceberes como teu comportamento está sendo tolo. estarei disposto a ouvir teu pedido de desculpas. Caroline não respondeu nada. Saiu da cama dele e voltou para o seu quarto. Deitou-se em sua cama, tremendo de frio, e chorou até dormir. Seu último pensamento foi que Bradford era o homem mais teimoso da face da terra. Bradford ouviu o choro de sua mulher. Começou a levantar-se para ir até lá consolá-la, depois se deteve. Ela tinha sido a culpada por tudo isso, e agora teria de tomar a iniciativa. Fechou os olhos, e tez torça para eliminar todos os pensamentos da mente. E exatamente quando já estava adormecendo, lembrou-se do que o estava incomodando, persistindo insistentemente, lá no fundinho. Ela o chamara por seu nome de batismo. Enquanto estavam se amando, ela o chamara de Jered. Ele franziu o cenho, perguntando-se por que isso seria tão importante. ! ! CAPITULO 12
  • ! Caroline não entedeu bem como conseguiu passar os dois dias seguintes. O casamento de Charity foi quase doloroso para ela. Sua prima estava tão feliz, delirantemente apaixonada, que Caroline sentiu verdadeiras pontadas de inveja. Escondeu seus sentimentos e fez papel de esposa dócil sempre que era forçada a posar de pé ao lado do marido. Alternou-se entre ataques de saudades da sua casa em Boston e de seus parentes de lá e ondas de melancolia sempre que pensava em sua situação com Bradford. Sentia-se aprisionada por seu amor por ele, e desejou, mais de uma vez, que pudesse deixar de sentir a dor que vinha junto com o sentimento amoroso por um libertino daqueles. A cerimónia de núpcias foi lindíssima, fazendo Caroline chorar durante toda a troca de votos entre noivo e noiva, enquanto o marido franzia a testa, contrariado. Ele meteu um lenço nas mãos dela, dando um alto suspiro de irritação, que ela teve certeza de que todos na igreja escutaram. Embora Caroline pensasse que estava conseguindo esconder bem sua infelicidade por ter Bradford como marido, ficou irritada por ele não tentar esconder sua repulsa por ela. Franzia, o cenho como um estudante infeliz. Ah, sim, foi muito simpático na recepção depois da cerimónia, até mesmo riu uma ou duas vezes, mas só com os outros, não com ela. Fingiu não vê-la durante a maior parte do tempo, a não ser quando era necessário dar alguma ordem. Rachel e a mãe vieram ao casamento e à recepção. Caroline ficou surpresa ao ver a aparência delas e esperou até ela e Bradford voltarem para casa em companhia de Milford, que pegou carona com eles, antes de fazer comentários sobre o assunto. —Não entendo porque a Rachel veio ao casamento — começou Caroline. — Ela não esconde que me odeia, e sabia que eu ia
  • estar presente. —Foram ambas convidadas — informou Milford. — Tanto a mãe quanto a filha. —Mas ela disse coisas horríveis para mim — Caroline argumentou, sacudindo a cabeça. —Sim, mas só tu, o Bradford, o Nigel e eu sabemos disso — respondeu Milford. — A mãe dela ainda está interessada em casar-se com seu pai. —Tentei chamá-la de lado para conversar com ela — admitiu Ca- roline. — Mas ela se comportou como um camundongo. Toda vez que eu chegava perto dela, ela corria para outro canto para fugir de mirn. Milford deu um sorriso triunfante. — Ela até se parece com um camundongo mesmo.
 Bradford não achou graça. —Não quero que te aproximes daquela mulher — declarou ele, asperamente. —Eu só queria descobrir por que ela me odeia tanto. Ela disse que tudo era culpa minha. Acho que é meu direito saber o que fiz para causar tanto ódio assim, Bradford. Ela podia ter me matado quando me empurrou das escadas na casa dos Claymere. —Por que achas que foi ela? — Milford estava olhando para Bradford quando perguntou isso, e quando o amigo fez uma vénia ele entendeu que era hora de mudar de assunto. Milford ergueu uma das sobrancelhas, confuso, e depois mudou de assunto mesmo. — Vais sentir falta de Charity quando ela partir para as Colónias? — uma pergunta ridícula, mas ele só conseguiu se lembrar de perguntar isso para distrair Caroline.
  • —O quê? Ah. sim, claro que sentirei — respondeu Caroline, demonstrando surpresa ao ouvir a pergunta. — Andei pensando em ir visitar minha família. — E lançou um olhar de esguelha a Bradford para ver como ele reagia a essa ideia, mas ele estava olhando pela janela,
 ignorando-a de novo. — Talvez na primavera eu pudesse ir até lá e passar uma temporada — acrescentou. —Não vais a lugar algum — interferiu Bradford. Seu tom de voz não deu a Caroline oportunidade de argumentar, e Caroline estava cansada demais de todos os acontecimentos daquele dia para brigar com ele naquele momento. Milford revirou as ideias, procurando outro assunto mais seguro. A tensão dentro da carruagem era quase palpável, fazendo-o sentir-se extremamente desconfortável. —E seu tio. como vai? — disse de repente. — Ouvi dizer que ele não anda muito bem de saúde. —Só pegou um resfriado — respondeu Caroline. — Bradford e eu o visitamos ontem, e ele está com o nariz bem brilhante e vermelho e os olhos lacrimejanres. mas o médico diz que dentro de apenas alguns dias vai estar plenamente recuperado. Ficou muito contrariado de perder
 o casamento da Charity. Chegaram a casa neste momento, e Caroline imediatamente subiu para o seu quarto. Bradford e Milford retiraram-se para a biblioteca, para conversarem. Caroline ficou andando de um lado para outro entre as quatro paredes do seu quarto antes de deitar-se. Detestava aquele colchão, batendo com seus punhos nos calombos para desabafar parte da sua frustração. Estava se sentindo arrasada com o abismo que aumentava cada vez mais
  • entre o marido e ela e começando a achar que era um problema sem solução. A porta de comunicação com o quarto de Bradford estava aberta, e Caroline ficou de pé à entrada, olhando para a cama imensa e convidativa. Seria errado ela exigir o amor dele? Seria ele o teimoso? Bradford havia-a acusado de tecer fantasias. Talvez ele estivesse certo, refletiu Caroline. Talvez ela estivesse exigindo demais dele. — Não vou aceitar prazer pela metade — murmurou. No fundo do coração ela sabia que Bradford não pensava corretamente. Não podia permitir que seu desejo de estar em seus braços lhe abalasse a decisão. Caroline rezou para ter forças de continuar a evitá-lo, fechou a porta que se comunicava com o quarto do marido, e vagarosamente voltou para sua cama fria e vazia. Na manhã seguinte, Bradford declarou que era hora de voltar a Bradford Hills. Caroline não discutiu, mantendo uma distância que refletia o humor do marido. Bradford já estava ficando cansado daquele clima de hostilidade. Tinha passado a apreciar o senso de humor mordaz da esposa, e gostava de esgrimar verbalmente com ela. Era uma mulher inteligente, que compreendia os fatos políticos tanto nas Colónias como na Inglaterra, e ele sentia falta dos seus debates acirrados sobre as diferenças entre os dois países. Eles se acostumaram depressa na casa de campo. Bradford tinha certeza de que Caroline ia se sentir solitária por ser forçada a isolar-se e iria procurar sua companhia. Sentia falta da relação física entre eles, também, e esperava que ela pedisse desculpas para que pudessem retomar seu relacionamento conjugal. No fim da semana, precisou reavaliar seu modo de pensar. Caroline não parecia estar se sentindo nem um pouco solitária, e se ele não a conhecesse muito bem, teria achado que ela preferia a vida no campo à vida
  • social que Londres oferecia. O pai de Caroline tinha insistido que ela ficasse com os dois cavalos árabes, e toda manhã ela montava em um deles, sempre acompanhada por seus guarda-costas. Os negócios obrigaram Bradford a voltar para Londres, e, enquanto esteve na cidade, comprou várias jóias caras. Sua preferida era um colar de diamantes e rubis. Ele o enviou por um mensageiro especial para a esposa, com a intenção de voltar para Bradford Hills no dia seguinte e receber os humildes agradecimentos da esposa. O colar foi devolvido pelo mesmo mensageiro, no fim daquela tarde. Não veio com bilhete nenhum, mas o mensageiro exausto declarou que a duquesa tinha lhe pedido para levar o colar de volta ao marido o mais depressa possível. Bradford ficou irritado com a recusa do seu presente por parte dela, e depois concluiu que talvez ela não tivesse gostado da jóia. Por via das dúvidas, ele tinha adquirido várias pedras preciosas magníficas que ainda não tinham sido montadas, e ia levá-las consigo, ao voltar para casa. Sua carruagem continha também um sortimento dos mais recentes tecidos, oferendas de paz a Caroline. Nenhuma mulher poderia resistir a um vestido, e Bradford estava convencido de que ela iria cair de joelhos perante aquele seu assalto vigoroso de generosidade. Mas verificou que estava errado, e ficou ainda mais furioso consigo mesmo do que com a rejeição de sua mulher. Ela recusou-se a aceitar qualquer dos presentes e até pareceu ofender-se com eles. Eram oferendas de paz, e ela era teimosa demais para reconhecer isso! Claro que ele não tinha explicado seus motivos, mas qualquer mulher com um pingo de inteligência entenderia o que ele estava querendo dizer. Já era noite alta quando Bradford foi tirar satisfações com a mulher no escritório. Admitiu que estava confuso diante do comportamento dela,
  • e isso pareceu enfurecer Caroline ainda mais. Ela estava com um vestido azulão de corte simples e um xale grosso em torno dos ombros para se aquecer. —Quando vais aceitar que não sou como as outras? — perguntou Caroline. E postou-se diante do fogo crepitante, aquecendo as mãos, dando as costas para o mando. — Não quero tuas jóias caras. —Então as coisas mais requintadas da vida não te atraem? — indagou Bradford. Sua voz estava enganadoramente calma. Caroline
 virou-se e viu o brilho de raiva em seus olhos, —Há outras coisas bem mais tentadoras de se possuir — replicou Caroline. E aí hesitou, tentando formular um jeito de dizer a ele que aceitaria seu amor. e sua confiança acima de tudo. Sabia que assim que começasse a tocar no assunto o marido deixaria de escutar tudo que ela
 dissesse, e ficou desesperada para encontrar um caminho de chegar ao coração dele. —Cometi um grave erro no meu relacionamento contigo — de- clarou Bradford. A arrogância tinha voltado a sua voz, quando ele prosseguiu: — Amanhã farás tuas malas e te mudarás para o outro lado da propriedade. Há ali uma casa, a primeira construída por um Bradford. Diz-me que não te atrai o luxo. Então vais me provar isso, esposa! Vamos ver quanto tempo aguentas até admitires a verdade. Caroline concordou, tentando esconder sua frustração. Como eles poderiam resolver suas diferenças, se morassem em casas diferentes. — E tu, vais para lá comigo? — perguntou ela, baixinho. Bradford viu o alarme nos seus olhos e quase sorriu. Achava que
  • finalmente havia descoberto uma forma de fazê-la recobrar o juízo. —Não — respondeu. — Os homens que contratei para proteger-te irão contigo e eu voltarei a Londres. Quando terminar de tratar dos meus negócios lá, voltarei para esta casa. Ao contrário de ti, minha cara esposa, admito que gosto dos confortos que minha fortuna me proporciona. —E vais dormir com outras mulheres enquanto estiveres em Lon- dres? — perguntou Caroline, em tom muito suave. Estava com as costas voltadas para o marido, e ele não podia ver sua expressão. Ele ficou claramente espantado ao ouvir essa pergunta. Desde que tinha conhecido Caroline não tinha pensado em tocar nenhuma outra mulher, e agora, só de pensar nisso já sentia nojo. Reconhecia que essa era outra arma com a qual podia magoá-la, mas não teve coragem de usá-la. — Não. E não deu mais nenhuma outra explicação, aguardando que Caroline fizesse um comentário. — Obrigada. — Essa resposta simples desconcertou-o outra vez. — Por quê? — indagou Bradford. — Por que isso te importaria?
 Caroline foi andando devagar e parou bem em frente ao marido. Ele estava apoiado contra a beirada da escrivaninha. —Porque eu te amo, Jered Marcus Benton — disse ela, olhando-o direto nos olhos, sem esconder seus sentimentos. —Tens uma forma bem estranha de demonstrar esse teu amor — comentou ele. Ele estendeu os braços e tomou a nuca dela entre as mãos, puxando-a para perto de si. — Não te obriguei a sair da minha cama, Caroline. Saíste porque quiseste. Caroline não respondeu a esse comentário. Só continuou a olhar para ele, até que ele não pudesse resistir à tentação nem mais um segundo. Seus lábios roçaram os dela, e quando viu que ela não lhe recusava os
  • beijos, voltou a beijá-la novamente. E depois uma vez mais. A boca de Caroline abriu-se sob esse assalto de ternura dele, e as mãos dela lhe envolveram a cintura. Ela entregou-se totalmente, deixando-o sentir que ela o desejava, o amava. A língua de Bradford acariciou a doce quentura que a boca de Caroline oferecia, acendendo-lhe as brasas do desejo a cada toque erótico. O beijo mudou, ficou mais forte e insistente. O xale caiu no chão quando Bradford puxou-a abruptamente contra seus quadris. Ela não queria que aquele beijo terminasse nunca mais, e quando Bradford conseguiu separar seus lábios dos dela e começou a provocá-la e atormentá-la beijando-lhe um lado do pescoço, Caroline soltou um suspiro que era uma mistura de prazer e de frustração cada vez maior. — Esta noite vou te possuir — disse Bradford, com a voz tão macia quanto veludo Beijou-a de novo, um beijo demorado, quente, embriagador, destinado a afastar qualquer pensamento de resistência. Depois ergueu-a no braços e levou-a até seu quarto. __ Não vais te opor, mulher? — perguntou Bradford depois de ter
 fechado a porta e virado para ela. Caroline sacudiu a cabeça. Bradford voltou a beijá-la, e depois, metodicamente, despiu-a, tirando a seguir suas roupas, surpreso quando Caroline ajoelhou-s diante dele e ajudou-o a tirar as botas. Ela estava cedendo aos seus desejos naquela noite, e Bradford viu-se franzindo o cenho diainte daquela mudança súbita. Caroline ficou de pé e foi até a cama. Bradford contemplava-a, considerando-a a mais graciosa das mulheres, e a mais inocentemente sensual. E aí parou de pensar. Duas velas ardiam, uma de cada lado da cama, e Bradford não as apagou, desejando ver a paixão de Caroline enquanto também a sentia. Jogou as cobertas para um lado e deitou-se de lado. Queria saborear
  • aquele momento, fazer suspense, mas assim que a tomou nos braços e sentiu a maciez de sua pele contra si, não conseguiu mais controlar-se. Beijou-a de um jeito quase selvagem, consumido por uma fome intensa que só ela podia satisfazer. Não conseguiu ser delicado naquela noite, e Caroline, tão excitada quanto o marido, não quis o tormento provocante que sempre vinha antes. Suas unhas arranharam-lhe os ombros enquanto seus quadris rebolavam contra os dele, procurando satisfazer sua ânsia de prazer. Bradford penetrou-a de uma estocada só. Caroline soltou um gri- tinho e ele imediatamente parou, contraindo-se contra ela. — Meu Deus, Caroline, não quero te machucar — sussurrou. E começou a afastar-se, mas Caroline arqueou-se contra ele, deten- do-o, com as unhas enterradas nos seus quadris. — Não pára, Bradford, por favor — suplicou. E Bradford segurou seu rosto, prestando atenção ao prazer que causava na esposa cada vez que arremetia. Os olhos dela tinham adquirido um tom azul-escuro, e quando ele acelerou o ritmo, ela gemeu, de um jeito primitivo que o emocionava, incentivando-o a prosseguir rumo ao olho do furacão. Ele se entregou ao esplendor do prazer máximo quando sentiu Caroline contraindo-se ao redor do seu membro e viu que ela tinha atingido o clímax. E aí deixou-se cair em cima dela, exausto e satisfeito. Caroline ouviu a respiração ofegante de Bradford, sentiu seu co- ração batendo contra o dela, e fechou os olhos, com um suspiro de contentamento. E aí esperou que ele lhe dissesse que a amava. A cada segundo que passava, seu contentamento diminuía. Bradford rolou, ficando de lado, e abraçou Caroline. —Parece que este é o único lugar onde não discutimos — mur-
  • murou ele. —As camas de Bradford Place são confortáveis? — indagou ela. Aquela pergunta, feita assim com tanta naturalidade, mostrou a Bradford que nada havia mudado. Ele recusou-se a deixar que ela o irritasse. —Parte da casa não está mobiliada. Meu Deus, como és teimosa, Caroline. Ê só admitires que pertences a mim, que podes ficar aqui. —Eu nunca disse que não pertencia a ti — respondeu Caroline, surpresa por esse argumento dele. — Sabes exatamente por que discutimos. E até perceberes que não vou me conformar só com... —Podes levar tudo que quiseres desta casa — interrompeu-a Bradford. Não ia recuar na sua decisão, e essa afirmação informou a Caroline como ele era inflexível. —Por que vais mandar os guarda-costas comigo? — indagou ela, mudando de assunto. - Sei que conversaste com Rachel — acrescentou, tentando ver-lhe o rosto. Bradford mantinha o rosto dela preso contra seu peito, sem se dar conta de que ela estava querendo mover-se. —Rachel não foi a responsável — anunciou ele. — Não estava por trás dos atentados. —Tem certeza? - - E aí Caroline conseguiu livrar-se dos braços de Bradford. Sentou-se e franziu o cenho, confusa. Bradford admirou o belo corpo da mulher. Seus cabelos enca- racolados emolduravam-lhe o rosto, realçando-lhe a coluna esguia do pescoço. A parte superior dos seios dela aparecia ligeiramente por cima das cobertas que ela estava segurando contra si, e isso o excitou. — Bradford eu te perguntei se tinhas certeza — insistiu Caroline.
  • Bradford. relutante, procurou voltar ao assunto. — Tenho, sim.
 Caroline suspirou. —Sabes, acho que estás encarando tudo isso com calma demais — resmungou. - alguém tivesse tentado te matar, eu poria Londres inteira abaixo para descobrir quem foi. Tu ages como se estivesses entediado com o assunto. —Prometi que iria tratar disso — declarou Bradford. — Não precisas saber mais. Eu é que tenho de me preocupar, não tu. __Não, Bradford nós dois precisamos nos preocupar com isso juntos. Bradford suspirou ao ouvir esse comentário, e depois observou: —Rachel acha que conseguiste convencer o teu pai a não se casar com a mãe dela. Ela estava fazendo planos grandiosos do ponto de vista financeiro, e aí tu vais e jogas água fria na fervura. —Por que é que ela pensaria uma besteira dessas? — indagou Caroline, demonstrando seu assombro. Bradford ficou pensando durante um minuto inteiro e depois tomou a decisão de contar a ela. —Porque teu pai lhe disse isso. —E por que ele faria uma coisa dessas? — Caroline, teu pai estava sendo pressionado e te usou como desculpa. Era difícil demais dizer à mãe da Rachel a verdade, que ele não queria se casar com ela. E aí usou essa saída, que julgou mais fácil, de usar- te como seu bode expiatório. Caroline sacudiu a cabeça, negando que fosse verdade, —Mas isso seria uma covardia — murmurou. —Na maioria dos casos, sim — concordou Bradford. E estendeu o braço, puxando Caroline de volta para perto de si, para abraçá-la.
  • — Mas com teu pai é diferente. Ele morou sozinho no seu próprio mundo durante tanto tempo... —Catorze anos — informou Caroline. —Sim, e não é sofisticado o suficiente para conviver com mulheres como Tillman. As garras dela estavam prontas para prendê-lo numa armadilha, e ele usou a única saída que conseguiu imaginar para escapar. —Estava com medo de ser franco com ela? — indagou Caroline. — E o que estás insinuando? Bradford voltou a suspirar. —Ele já é idoso, Caroline, já não quer mudar muito seu modo de viver. Deves compreender que ele estava desnorteado, não com medo. —Estava com medo há quatorze anos, quando me mandou morar com o irmão dele em Boston. Tenho certeza. —Ele tinha acabado de perder a esposa e o filho recém-nascido, Caroline, estava transtornado pelo pesar. Ela mal estava escutando o que ele dizia, enquanto ele continuava apresentando argumentos a favor do seu pai. Ela percebeu que ele estava defendendo o comportamento de seu pai. Em vez de tirar a conclusão rígida e inflexível de que o pai dela tinha agido como um covarde, argumentava que na verdade era o contrário. Estava sendo ao mesmo tempo compreensivo e compassivo. Por que não podia ser mais compreensivo com ela?, perguntou-se. Por que não podia dobrar-se nem que fosse um pouquinho só, diante dela? Havia um escudo em torno do seu coração protegendo-lhe a vulnerabilidade, Caroline tinha certeza, mas não sabia como eliminar esse escudo. Bradford parou de falar, e sua respiração profunda e regular indicou a ela que ele tinha caído no sono. Ela tentou afastar-se, mas ele a abraçou
  • com mais força. Caroline fechou os olhos, porém levou muito tempo para adormecer. Tinha milhares de dúvidas e decisões a tomar na cabeça. Sabia que o marido gostava dela. mais do que ela podia perceber. Talvez fosse só uma questão de tempo até ele admitir o seu amor. E será que a confiança viria com essa confissão? Caroline francamente não sabia. Tinha chamado o marido de adversário na batalha de compreensão mútua que estavam travando. Lembrava-se de lhe ter dito que ele não a conhecia bem. Bradford tinha provado a verdade de suas convicções quando tentou comprar seu perdão com jóias caras. Talvez as mulheres que ele tinha conhecido antes na vida o perdoassem por esse preço, mas Caroline exigia ainda mais. Queria que e eliminasse aquele escudo que protegia seu coração. Queria tudo sem restrições. A surpresa de ouvir Bradford defendendo seu pai revelou que ela também tinha cometido um grave erro. Nunca tinha procurado descobrir quais eram os motivos de seu ceticismo, só protestado contra os resultados de sua amargura no tocante às mulheres. Também não conhecia seu adversário. Ela então resolver atacar de novo, na tentativa de destituir seu adversário de sua armadura, e viu-se rezando, com determinação. Podia não ser capaz de demolir suas defesas, mas iria conseguir penetrar nelas, ah, isso ia! Caroline tinha se levantado, se vestido, e já estava fazendo as malas quando Bradford acordou. Assim que a viu fazendo aquilo, ele se irritou. — Isso é uma bobagem — resmungou. Caroline parou de dobrar o vestido e deixou-o cair na cama. — Eu concordo.
  • Ela foi até a porta de comunicação, onde o marido estava, e ficou na ponta dos pés para beijar-lhe a face. —Não quero sair daqui — disse a ele. — E se me prometeres que vais confiar completamente em mim daqui por diante, tiro tudo das malas. —Caroline, não estou ainda completamente acordado para esgrimar contigo. E meu dever proteger-te de qualquer ameaça, tanto de forças externas quanto internas. Não preciso fazer promessas, quando eu mesmo providenciarei para que não tenhas oportunidade de sair por aí sem proteção. — Estás me ofendendo com as tuas convicções, Bradford — anunciou Caroline. — Mas te perdoarei por isso. Não tens como evitar. — Ela, então, deu-lhe as costas e voltou a colocar suas coisas na mala, com os olhos ardendo, marejados de lágrimas. Bradford já estava cansado daquela mania dela de tentar manipulá-lo o tempo todo. Teria exigido que ela parasse se não tivesse dois motivos para mandá-la sair da casa. O principal era para proteção de Caroline. Queria que sua mulher estivesse segura quando ele começasse a pôr em prática seu plano de tentar fazer seu inimigo agir, e Bradford Place, uma fortaleza construída durante a Idade Média, seria perfeita para esse fim. A residência era toda de pedra, situada no alto de um morro sem nenhuma vegetação. Qualquer pessoa que se aproximasse podia ser vista a mais ou menos uns oitocentos metros de distância. Ele enviaria dois guardas com Caroline, e três outros já estavam na fortaleza. O outro motivo, embora fosse torpe em comparação à segurança de sua mulher, tinha a ver com o método de conseguir controle. Estava decidido a ensinar a Caroline uma lição merecida, e quando aquela semana de isolamento terminasse, tinha certeza de que ela estaria mais do que disposta a retornar ao luxo que ele podia lhe proporcionar.
  • Ela teve a audácia de dar-lhe um beijo de despedida! Parados frente a frente nos degraus de mármore de Bradford Hills, eles se despediram. Bradford pensou que estava com uma fisionomia austera devido à sua deter- minação, e refletiu que sua esposa parecia pronta a conquistar o mundo. Pensou em contar a ela que não era uma aventura, mas uma pe- nitência, mas decidiu ficar calado. Quando ela visse Bradford Place, entenderia qual era a verdadeira finalidade daquela separação. — Caroline, precisas ficar uma semana inteira, por mais que te- nhas inclinações de partir. Compreendeste? Caroline concordou, e virou-se para sair, mas Bradford deteve-a com a mão. — Primeiro precisas me dar tua palavra. Não vais sair da proprie- dade uma semana, por qualquer motivo que seja, não importa qual seja a razão... —Por quê? —Não preciso dar-te explicações — resmungou Bradford. — Quero tua palavra, Caroline. Estava apertando os ombros dela com tamanha firmeza que Caroline pensou que ficaria com marcas roxas durante uns dois dias. Franziu o cenho diante da exigência dele. —Tens minha palavra, Bradford. —E quando decidires, depois dessa semana inteira, voltar para o meu lado, que é o teu lugar, vou estar esperando tuas desculpas. Caroline soltou-se das mãos dele e começou a descer os degraus. — Bradford, não fica assim tão preocupado — gritou ela, olhando para trás. — Eu já te dei minha palavra. — E começou a entrar na carruagem, mas voltou-se de repente para ele. — Naturalmente tu vais ter de confiar em mim, senão como sabes que vou cumpri-la?
  • Não pôde resistir a soltar essa insinuação, e sentiu-se muito con- vencida ao ver a reação de susto do marido. O convencimento sumiu num instante, com a distância que a se- parou do marido. Foram necessárias quase quatro horas para chegar a Bradford Place. A imensa propriedade do mando era repleta de morros, e Caroline contou três no caminho para sua residência temporária. Ela rezou para que fosse temporária e o marido sentisse falta dela. Talvez essa separação valesse a pena. Talvez ele sentisse falta dela o bastante para perceber que a amava. E talvez um dia o sertão vire mar, pensou Caroline quando fi- nalmente viu a casa. Aquela monstruosidade parecia fria e deprimente. Situava-se no alto de um morro sem uma única árvore para amenizar a austeridade. Um regato largo circundava o pé do morro. Uma ponte de madeira com aparência decrépita levava ao castelo, passando sobre as águas turvas, mas os guardas que a acompanhavam insistiram que ela passasse pela ponte a pé, por via das dúvidas, pois a madeira talvez não suportasse o peso da carruagem. Quando viu sua nova casa de perto, Caroline não sentiu nenhum alívio. O edifício de dois andares era feito de pedra cinzenta, e Caroline refletiu que devia ser esse o único motivo pelo qual aquele pardieiro continuava de pé. — Deus Todo-Poderoso, a única coisa que falta é um fosso e um pouco de musgo — resmungou Caroline. Mary Margaret caminhava ao lado da sua senhora até a porta da frente sem fazer sequer um comentário. —Não precisas ficar aqui comigo — disse Caroline a sua criada pessoal. — Eu entendo se quiseres voltar a Bradford Hills. —Tudo está planejado — respondeu Mary Margaret. Caroline virou-se e viu seu sorriso com covinhas, — Não sei por que
  • precisas exilar-te, mas minha lealdade é para convosco, assim como para com vosso marido. E prometi a ele que cuidaria de vós. —Bom, então é melhor entrarmos e levarmos logo o susto que te- mos de levar com essa feiúra toda — disse Caroline com um suspiro. A porta estava trancada, e Huggins, um dos guardas, precisou usar de certa força para abri-la. A porta, empenada pelo tempo e pelas in- tempéries, gemeu, protestando, quando o guarda finalmente conseguiu empurrá-la. O saguão era austero, e consistia de um piso de pedra e paredes revestidas de reboco, ambos marrons de tanta sujeira. Escadas levavam ao segundo andar, mas o corrimão destacava-se de um lado e parecia prestes a despencar. À direita estava a sala de jantar. Caroline foi até a mesa que estava no meio da sala escura e passou os dedos sobre a camada de poeira. Olhou depois para as janelas. As cortinas cor de vinho, denotando o peso da idade, arrastavam-se no chão de tão compridas, Caroline vagarosamente voltou à entrada. O salão principal ficava em frente à sala de jantar, e embora a planta baixa da casa fosse seme- lhante a casa de seu pai na cidade, tal semelhança parava por aí, A sala principal era isolada por portas de vidro que alguém devia ter acrescentado depois de a casa ter sido construída. Ela as abriu e desceu os três degraus que levavam ao salão. — Estou tentando visualizar como vai ficar este lugar quando estiver limpo — comentou Caroline com sua criada, que vinha atrás dela. A sala era bastante espaçosa. Havia uma enorme lareira de pedra na parede à direita, duas enormes janelas na parede diante dela, e portas que levavam para o exterior no meio da parede em frente.
  • Caroline foi até as portas, mas não conseguiu ver através das vidraças. Abriu-as e encontrou um caminho de pedras. __ Na primavera, esta sala deve ser linda __ comentou com a criada. — Se houvesse plantas no jardim, e. . . — Não planejas ficar aqui tanto tempo assim, planejas? — Mary Margaret não conseguiu esconder a preocupação que estava sentindo ao dizer isso. Caroline não respondeu nada. Estremeceu por causa do vento que penetrou pela porta aberta e fechou-a depressa. A poeira levantou-se ao seu redor enquanto ela voltava até os degraus. Ela se sentou, os ombros caídos, sentindo-se derrotada. Meu Deus, levaria meses para deixar o lugar habitável. Bradford esperava mesmo que ela voltasse depois daquela semana de penitência, e agora entendia porque ele tinha tanta certeza! — Queres votar para casa? — perguntou Mary Margaret.
 Caroline sacudiu a cabeça. __ Vamos começar pelos quartos. Isto é, se não morrermos ao tentar subir a escada. O segundo guarda, um gigante chamado Tom, entreouviu o comen- tário de Carol aediatamente foi verificar se a escada era segura. — Está tão firme quanto no dia em que foi construída — anunciou. — Só é preciso consertar o corrimão com uns preguinhos aqui e ali. Uma súbita inspiração ocorreu a Caroline. — Vamos deixar este lugar um brinco num piscar de olhos — previu ela, com um: onda de entusiasmo. Mary Margareti revirou os olhos ao ouvir quais eram as expecta- tivas da sua senhora. —Vai levar uma semana só para limpar um desses cômodos.
  • —Não se arranjarmos ajuda! Vá até a aldeia pela qual passamos a caminho daqui e contrata alguns empregados — explicou Caroline. — E também uma cozinheira, Mary Margaret. Caroline tez sua lista e Mary Margaret partiu na carruagem da sua senhora. Mas aquele acesso de otimismo segundo o qual não levaria muito tempo para limpar a casa foi desmentido da mesma forma. Foi preciso o resto da semana inteira, trabalhando do nascer ao pôr do sol, para que a limpeza terminasse. A transformação foi extraordinária. As paredes não eram mais marrons e sombrias, mas agora brilhavam, recém-pintadas com uma camada de tinta branca. Os pisos de madeira da sala de jantar e do salão principal reluziam de tão polidos. A mobília encontrada na área de armazenagem do sótão tornou a sala de estar, antes vazia, confortável e convidativa. Caroline comprou uma estufa redonda de ferro e mandou colocá-la no canto oposto da sala principal, e quando se fechavam as portas do vestíbulo, a sala ficava quentmha e aconchegante. Mas depois que aquela semana terminou, Caroline viu-se inquieta. Tinha esperado ver Bradford à sua porta no fim da semana, mas ele tardou a aparecer. E ela esperou. Passou-se mais uma semana inteira, até ela finalmente aceitar a verdade. Caroline chorava até dormir toda noite, amaldiçoando-se, amaldi- çoando o marido e as injustiças da vida em geral. Finalmente tomou a decisão de desistir e aceitar a situação. Informou a Mary Margaret que iria voltar a Bradford Hills no dia seguinte. Caroline parou diante da lareira do vestíbulo enquanto pensava no que diria a Bradford. Não tinha a menor intenção de pedir que ele a perdoasse, e sentia que se simplesmente voltasse para junto dele, ele concluiria que tinha vencido. Ela ia ter que encontrar uma forma de fazê-lo
  • entender o que lhe passava pelo coração. Sacudiu a cabeça, sabendo que ele iria tirar conclusões totalmente erradas, que ia achar que ela tinha sentido falta do luxo, sem dúvida nenhuma. E isso lhe feria o orgulho, fazendo-a sentir-se toda eriçada. Mas de que adiantavam esses seus ideais e motivos, se ficasse completa-mente só? Ela tinha se gabado de que não aceitaria nada pela metade, e agora admitia que metade era melhor do que absolutamente nada. Mary Margaret abriu a porta e anunciou que o conde de Milfordhurst tinha chegado para visitá-la. — Pode mandá-lo entrar — disse Caroline, sorrindo.
 Milford apareceu à porta, sorrindo radiante. Mary Margaret ajudou-o a tirar a sobrecasaca pesada de inverno e depois fechou a porta. — Es meu primeiro visitante, Milford — disse-lhe Caroline. Correu e apertou-lhe as mãos nas suas, e impulsivamente beijou-lhe a face. — Minha nossa, estás gelado — comentou. — Vem aqui para perto da lareira, para aquecer-te. Por que vieste até aqui? — indagou. —Só quis passar para ver como ias — esquivou-se Milford. —Vieste lá de Londres para me visitar? — perguntou Caroline.
 Milford fez cara de meio encabulado. Pegou a mão de Caroline e levou-a até um canapé, depois sentou-se ao seu lado. —Tu emagreceste — comentou ele. — Caroline, vou interferir de novo. Que que me escutes. Brad não vai recuar. O orgulho dele é importantíssimo para ele. e quanto mais cedo aceitares isso, melhor será para ti. —Eu sei. —Tu sabes? Então por que... — Milford tinha sido pego no contrapé pela sua admissão imediata. — Ora, mas até que foi fácil. Então vamos, Caroline. Vamos voltar agora para Bradford Hills. —Bradford está lá? Pensei que ele estivesse em Londres — disse
  • Caroline. —Não está na cidade, não, parei lá para visitá-lo primeiro — disse-lhe Milford __Mas ele planeja voltar a Londres amanhã. Tu não precisas fazer as malas, só vir comigo. Caroline soem e sacudiu a cabeça. — Milford. gostas desta sala? Milford estava pronto para discutir com Caroline, mas essa pergunta educada confundiu-o. __ De quê? Da sala?- e olhou em torno de si, voltando a olhar para Caroline depois,__Gosto, sim. Por quê? __ Gostaria que Bradford viesse até aqui e visse a sala também —explicou Caroline, __É pequena para os padrões dele, mas agora está quente e confortável... E virou um lar. Talvez ele entendesse, se ao menos pudess ver... — Caroline, do que estás falando? Acabei de te explicar que o Brad não vai vir aqui. ___ Mas não é preciso __ acalmou-o Caroline. — Vou mandar-lhe um bilhete, e pedir que ele venha me buscar. — Estás querendo adiar as coisas? — perguntou Milford, franzindo o cenho. Caroline sacudiu a cabeça e Milford olhou para ela durante um minuto inteiro. Depois decidiu que ela estava falando sério, e disse: —Então escreve logo esse bilhete. Como és teimosa, meu Deus! Não admira que Bradford tenha se casado contigo. São farinha do mesmo saco. Sois muito parecidos, sabias? —Não somos nada parecidos — replicou Caroline. — Sou calada e tímida, e ele só sabe gritar. Sou uma pessoa simpática, meu marido é teimoso e cético. —Es a santa e ele o pecador? — indagou Milford, com uma
  • risadinha. Caroline não respondeu nada a ele. —Queres passar a noite aqui antes de voltares a Londres? — per- guntou ela. — Ficarias bem? —Ficaria sim — respondeu Milford, com um sorriso. — Tens guardas suficientes para te garantir a privacidade. Milford jantou com Caroline e conversaram sobre vários assuntos. A conversa acabou girando em torno de Bradford de novo, e Milford contou- lhe como eles tinham se conhecido. Descreveu algumas das peças absolutamente horrorosas que eles costumavam pregar nos mais velhos, e Caroline riu, encantada. —E o que o fez mudar tanto, Milford? — indagou Caroline. — O que o deixou tão cético? —As responsabilidades o obrigaram a amadurecer antes da hora — comentou Milford. Ele voltou a encher as taças de vinho dos dois, e tomou um trago caprichado. — Quando seu pai e seu irmão mais velho eram ainda vivos, Brad era um memnão descuidado. Seus pais pareciam apenas gostar do herdeiro. Bradford era um garoto de maus modos, indisciplinado. Apaixonou-se por uma mulher chamada Víctoria. Na quela época, nada conhecia acerca do fingimento feminino. Caroline quase deixou cair a taça. — Ele nunca me disse nada disso. Apaixonou-se mesmo? Victoria quem? Ela ainda está viva? O que houve? Mas que homem miserável, não me conta nada! — Suas perguntas e comentários saíram-lhe da boca sem pensar. Apenas pensar em Bradford, o seu Bradford, apaixonado por outra era uma coisa difícil demais de encarar. Milford fez sinal para ela se calar. — Como eu estava explicando, ele era muito jovem, e Victoria
  • jurou que era tão pura quanto qualquer virgem devia ser. Era uma bruxa manipuladora. e todos que a conheciam bem sabiam disso. Brad disse ao seu irmão e aos seus pais que ia se casar com ela, e que reação isso
 causou! O irmão de Brad era tão ladino quanto Victoria, e achou que seria interessante mostrar ao seu irmão caçula como Victoria era, na verdade, experiente, foi tudo uma encenação, é claro, e o Brad entrou justamente na hora certa. __Por que foi que ele simplesmente não contou ao Bradford que ela estava fingindo? __ perguntou Caroline. — Por que teve de ser tão cruel? — Ficou horrorizada com aquela história, e seu coração ficou pequenmino de pena do marido. __Ele queria que Brad fizesse papel de bobo — declarou Milford. — A Victoria recebeu uma boa compensação pelo inconveniente. Caroline, já conh este a mãe do Brad. Ela se abrandou com a idade e a solidão, mas mesmo assim, sempre foi insensível, como também o pai do Bradford. Duas semanas depois da humilhação de Bradford, seu pai e seu irmão morreram. A carruagem deles virou. De repente a duquesa ficou só com o Bradford, mas a essa altura já era tarde demais. Ele a trata como uma estranha e ela sabe que é a única culpada disso. __ Desde essa época o Brad só passava o tempo com... senhoras profissionais, vamos dizer assim. E aí conheceu uma certa mocinha inocente de olhos de cor violeta vinda das Colónias, que virou o mundo seguro dele de pernas para o ar. — E Milford ergueu a taça, fazendo um brinde a Caroline, e sorriu. __ O que foi feito da Victoria? — perguntou Caroline. __Ela provavelmente está sofrendo de sífilis a esta altura. Não faças essa cara de alarmada. Caroline. Brad nunca a levou para a cama. — disse, com uma risadinha. — Faz anos que ninguém ouve falar nessa mulher. —Está me contando tudo isso porque quer que eu tenha paciência
  • com o meu marido - Esse comentário tranquilo de Caroline fez Milford sorrir radiante. __ Tu és um bom amigo, Milford — anunciou Caroline. — Bradrord, como bem sabes. Mas não é fácil. Os
 motivos não importam — acrescentou. — Águas passadas não movem moinhos. O Bradford quis se casar comigo, e não vou desistir. —Desistir de quê? — perguntou Milford. —De combater seu ceticismo — respondeu Caroline. Levantou-se e deu um suspiro. — Já é tarde, e provavelmente estás muito cansado, mas se quiseres, podemos jogar cartas. Milford seguiu Caroline até o vestíbulo. Estava cansado, e um jogo de uíste ou faraó não o atraía, mas como Caroline já estava sozinha ali fazia mais de duas semanas, ele achou que seria capaz de aturar uma partida. —O que tinhas em mente? — indagou. —Pôquer, é claro — respondeu Caroline. — Não conto a nin- guém, se não contares também. — E foi conduzindo-o até à sala de estar. — Andei tentando ensinar a Mary Margaret a jogar, mas ela não gosta de jogar cartas. Ouviu o Milford casquinar atrás de si e acrescentou: —Ê claro que, se isso te ofende, não jogaremos a dinheiro. Caroline sentou-se à mesa quadrada atrás do canapé, pegou o baralho que estava no meio dela, e começou a embaralhá-lo com tanta perícia quanto qualquer homem. Milford soltou uma gargalhada e tirou a casaca. Enrolou as mangas da camisa e sentou-se diante de Caroline. —Eu não me sentiria bem ganhando teu dinheiro — admitiu, torcendo para ela discutir com ele. —Mas não vou perder — replicou Caroline. — Além do mais, o dinheiro é do Bradford, não meu. E depois que perderes as primeiras partidas, pode até ser que mudes de ideia.
  • Eles jogaram até tarde da noite. Quando Caroline finalmente anun- ciou que estava cansada demais para continuar, Milford reclamou. —Precisas me dar uma oportunidade de recuperar meu prejuízo — protestou. —Mas foi esse o argumento que usaste faz uma hora — respon deu Caroline. Ela lhe deu boa noite e subiu para seu quarto. A solidão pareceu pior ainda quando ela se deitou na sua cama fria. Depois sentiu mais falta de Bradford do que jamais sentira antes. Aquele colchão velho era todo encaroçado, cheio de palha dura, e suas costas doíam toda vez que ela se virava. Pensou no passado de Bradford e sentiu-se meio envergonhada de não ter se mostrado mais paciente com ele. E depois finalmente adormeceu, segurando o travesseiro contra o peito, e fingindo que ele era seu marido. O mensageiro que Caroline tinha enviado à casa de Bradford voltou no fim da manhã seguinte, dizendo que o duque de Bradford tinha sido convocado paia ir a Londres no dia anterior. Milford resmungou. pensando como seria inconveniente ter de
 ir procurar o amigo, e preocupou-se achando que Caroline teimaria e mudaria de idéia, e aí deu-lhe um beijo de despedida e começou sua viagem de volta a cidade. Caroline tambem ficou decepcionada. Passeou pelos cómodos de Bradford Place, pensando no marido, e em como procederia quando eles voltassem a se encontrar. Voltou para o seu quarto, sentou-se na cama e pensou em que vestido iria usar quando ele finalmente viesse buscá-la. Queria passar uma noite ali em Bradford Place com ele, pois gostava daquele ambiente acolhedor, e aí refletiu que o marido não dormiria mais de dois minutos naquele colchão horroroso. Esse pensamento levou a outro, depois esse a mais outro, e Caroline teve uma ideia das mais bizarras. Riu de felicidade e
  • correu de volta ao térreo para executá-la. Um golpe final contra a armadura dele, justificou-se Caroline. de- pois de completar sua obra-prima. Só um último ataque final. Depois ela se conformaria, e aprenderia a aceitar as coisas como eram. ! ! ! ! ! CAPITULO 13 ! Bradford estava em pânico. Quando o mensageiro chegou a Bradford Hills e anunciou que Franklm Kendall tinha despistado os espiões que seguiam todos os seus movimentos, o impulso imediato de Bradford foi ir até onde estava Caroline. Depois que se acalmou um pouco, desistiu dessa ideia, sabendo que ela estava segura com os cinco guardas que tinha contratado para protegê-la. Era possível, além disso, que estivessem vigiando Bradford, também, e que se ele viajasse para Bradford Place levaria o inimigo di-reto até a porta da frente dela. Ele saiu para ir a Londres jurando que vasculharia a cidade até encontrar o homem. Duas vezes tinha tentado capturá-lo, e nas duas seu adversário ladino tinha se negado a cair na sua armadilha. Agora não queria mais saber de armadilhas. Sabia que o irmão caçula do marquês era o culpado, e se ele precisasse desafiá-lo para um duelo, faria exatamente isso. Tinha tido a ideia de fazer Caroline prometer que não iria se cor- responder com nenhum de seus parentes, e sabia que ela achava que tinha sido por causa da falta de consideração com a qual ele a estava tratando. Mas não era esse o motivo, de jeito nenhum. Ele nem tinha se incomodado
  • de explicar a ela. Não queria que ninguém soubesse onde ela estava, e tinha confidenciado qual era o local apenas a Milford. Seu amigo, é claro, manteria sigilo. Sentia-se culpado por não compartilhar suas preocupações com Caroline, mas argumentou que quanto menos ela soubesse, menos se preocuparia. Bradford chegou à sua casa da cidade tarde da noite. Um dos de- tetives que ele havia contratado estava esperando na frente da casa e informou-o rapidamente que Franklin tinha voltado a aparecer. Ele tinha ido se encontrar às escondidas com uma nova amante, e passado o fim de semana inteiro com ela. Os agentes receberam novas instruções, e Bradford entrou em casa. Estava andando de um lado para outro na biblioteca, quando o conde de Braxton chegou e solicitou uma audiência imediata. Braxton olhou-o cansado e meio descontrolado, e foi direto ao ponto. —Eu arrisquei e vim até aqui, na esperança de encontrar-te. Ca- roline não está contigo, está? —Não. — Bradford não teceu maiores comentários, mas ofereceu uma bebida ao sogro, sentando-se depois diante dele. —Estais brigados? Não pretendo meter o bedelho na vossa vida, mas o marquês está desesperado. Franklin vive fazendo insinuações maldosas, e Milo está muito preocupado. Ela não veio mais visitá-lo nem escreveu mais nem uma palavra, e ele está se sentindo abandonado.
 Não acredita nas sórdidas mentiras que aquele seu irmão imprestável vive pregando. Mas está convencido de que ela está adoentada, e estás escondendo a verdade dele. Sempre se preocupou com tudo, o Milo. Naturalmente, ela está bem de
  • saúde, não está? Seu olhar denunciava como estava alarmado, e Bradford confirmou rapidamente com a cabeça. — Está bem, sim — respondeu. — Temos uma diferença de opi- niões, mas nada com que precises te preocupar. Que comentários foram esses que o Franklin fez? — Não vou repeti-los — replicou o conde. — Ele pretende acabar com a reputação da minha amada filha. Sente antipatia por ela, e não consigo imaginar por quê. Bradford não fez nenhum comentário. Ficou fervendo de raiva por dentro, sabendo muito bem porque Franklm estava contando aquelas mentiras. —Ora, meu rapaz, ela precisa voltar para Londres para fazer uma visita ao meu irmão! O Milo está que não se aguenta. Vais providenciar isso imediatamente não vais? —Sei que vou decepcioná-lo, mas infelizmente este não é o momento. —Põe o orgulho de lado, Bradford! Tenha um pouco de compaixão. Tens uma vida inteira pela frente, para conviver com minha filha. Faz uma trégua agora. Milo não é forte e jovem como tu és. Tem pouco tempo de vida, e já esperou quatorze anos para que Caroline voltasse
 para ele. Ele a ama tanto quanto eu. O conde parecia estar pronto a agarrar Bradford e sacudi-lo para lhe meter um pouco de juízo na cabeça. Bradford hesitou durante um minuto inteiro, aturando o olhar de raiva do seu sogro, depois finalmente tomou uma decisão. — Caroline e eu tivemos uma diferença de opiniões, mas não é esse o motivo pelo qual ela não está aqui comigo.
  • Devagar, sem ser interrompido, Bradford explicou o verdadeiro motivo da ausência de sua esposa. Disse que alguém a tinha empurrado das escadas na casa dos Claymere, descreveu com detalhes o 'acidente' com a carruagem, citou partes da carta ameaçadora que Caroline tinha recebido e terminou essa narrativa sórdida com suas conclusões de que Franklin é que estava por trás de tudo aquilo. — Ele é quem tem mais a ganhar — explicou Bradford. — De várias fontes, já descobri que o marquês vai deixar um bocado de dinheiro de herança para Caroline. As terras e o título, é claro, ficarão com o Franklin, mas sem o dinheiro ele vai ter que se virar para manter seu
 atual estilo de vida. Loretta tem dívidas de jogos de azar que chegam a uma fortuna bastante respeitável, e o único motivo pelo qual os abutres ainda não caíram em cima da mulher é que ela assinou promissórias, nas quais consta que vai pagar as dívidas assim que o marquês morrer. — Quando Caroline voltou para Londres — prosseguiu o duque
 — o marquês alterou seu testamento, e disse ao Franklin e à Loretta que
 tinha feito isso depois que todos os papéis já haviam sido assinados. Braxton foi encolhendo-se cada vez mais na poltrona durante a explicação de Bradford, e depois escondeu a cabeça entre as mãos. — O marquês está decepcionado com o seu irmão e seu séquito de
 amantes, e está perfeitamente a par do vício de Loretta. O conde sacudiu a cabeça e começou a chorar. Bradford preocupou-se com a reação do sogro e correu para acalmá-lo. — Não é tão ruim quanto parece, senhor — prometeu ele. —
 Caroline está bem protegida, e Franklin não pode fazer nada sem que
 eu tome conhecimento. Não tenho provas suficientes para condená-lo,
 por isso pensei em ir ao seu encontro t duelar com ele, para acabar logo
 com tudo. Braxton continuou sacudindo a cabeça.
  • —Não estás entendendo. Por que ela não me contou nada? Eu
 podia tê-la mandado de volta antes de te casares com ela. — E aí sua
 voz demonstrou sua angústia e seu desespero: — Eu podia... —Mandá-la de volta? Para Boston? — Bradford estava com di- ficuldade de entender aquele desabafo meio confuso. Uma sensação de
 pavor começou a dominar seu coração, e ele puxou o seu sogro, pondo-o
 de pé. — Conta-me! Sabes de alguma coisa, não sabes? Pelo amor de
 Deus, conta-me o que estás pensando. —Foi há muito tempo, e eu esperei até ele morrer antes de ela
 voltar. Faz tanto tempo, e, no entanto, para mím, parece que foi ontem.
 Minha esposa tinha morrido, e o bebé também, e Caroline e eu fomos
 para nossa casa de campo. Eu tinha causado certo tumulto por expressar 
 meus pontos de vista radicais sobre a Irlanda, e Perkins, um dos líderes
 que se opôs a mim, não gostou muito da minha interferência. Ele tinha
 terras na Irlanda, muito mais do que qualquer nobre, e a medida que
 eu apoiava tinha acabado de ser aprovada, permitindo aos irlandeses
 católicos serem donos das suas próprias terras. Eu sabia que Perkins me

  • detestava, mas não sabia como ele era mau. Para o mundo inteiro, ele
 era um cidadão irrepreensível. O conde voltou a afundar na poltrona, e a esconder a cabeça entre as mãos. Bradford procurou ser paciente. Serviu mais uma bebida para o sogro e entregou-lhe o copo. O conde tomou um gole caprichado e depois continuou sua narrativa. — O Perkins mandou uns capangas atrás de mim, porque queria me silenciar de uma vez por todas. As terras que possuía não corriam
 risco, mas ele queria expandir suas propriedades, e eu estava conseguin
 do muita popularidade para o seu gosto. Ele achava que eu encontraria
 uma forma de tirar as terras dele. A ironia foi que eu já tinha perdido a
 coragem de batalhar por essas causas. Meu mundo tinha caído depois da
 morte da minha mulher, e. eu só queria viver em paz e em tranquilidade
 com a minha garotmha. —Caroline tinha só quatro anos. Era muito vivaz, muito traquinas — o conde suspirou fundo e depois endireitou a coluna. -
 vieram durante a noite. Só dois. Caroline estava no andar de cima dor
 mindo, mas os gritos devem tê-la despertado. Ela desceu as escadas. Um
 dos homens estava empunhando uma pistola, e eu o fiz soltá-la.
  • Caroline
 pegou-a e conseguiu atirar no homem. Ele morreu três dias depois. Bradford recostou-se na sua poltrona, claramente espantado com a narrativa. — Foi um acidente — disse o conde. Ela estava querendo me
 entregar a arma. Estava só querendo ajudar. O homem tinha me esfa- queado, e tudo estava salpicado de sangue. Caroline começou a correr
 na minha direção e tropeçou, disparando a pistola. Bradford fechou os olhos, —Meu Deus, ela era uma criancinha mal saída das fraldas. —
 Sacudiu a cabeça. — Nunca me disse nada. —Ela não se lembra. Bradford mal o escutou. Estava só tentando imaginar a pequena Caroline, como ela devia ter se sentido horrorizada. Finalmente, conseguiu entender o que o sogro lhe declarou. — O que sei é que ela morria de medo de pistolas, quando era
 menor. Considerava isso um defeito, e procurou corrigi-lo. — A voz de
 Bradford tremia, ele não conseguia controlá-la. —Sim — respondeu Braxton. — Henry me escreveu uma carta
 contando isso. Meu irmão caçula era o único da família que sabia o
 motivo pelo qual Caroline tinha ido morar com ele. Não contou nem
 à esposa. —E o que houve com os homens em questão? Disse que um deles
 morreu três dias depois, não? —Sim, o tiro foi no estômago — respondeu o conde. — Seu
 nome era Dugan.
  • —E a família dele? —Ele não tinha família, —E os outros? — Perkins morreu no ano passado. O terceiro era um sujeito cha- mado McDonald. Não tinha família também, que eu soubesse. Fazia só dois meses que estava em Londres. Admitiu que tinha recebido dinheiro do Perkins, mas teve medo de dar testemunho se eu desse queixa. Como se eu tivesse coragem!Minha hlhinha, exposta a um escândalo desses! Nunca! E eu não sabia se o Perkins tinha enviado outros ou não. Não podia confiar nele, entende? — Então preparei as malas da Caroline, mandei-a para a América
 com dois dos meus amigos mais confiáveis e fui atrás do Perkins eu
 mesmo. — Como? Como é que foi atrás dele? — indagou Bradford.
 Suas mãos apertavam os braços da poltrona, de modo que ele procurou acalmar-se. — Fui à casa dele com a minha pistola. Ele tinha dois filhos, e
 quando encontrei o Perkins sozinho lhe disse que tinha contratado
 gente para matá-lo e matar os dois garotos se acontecesse alguma coisa
 comigo ou com a minha filha. Ele entendeu o recado. Era capaz de jurar
 que eu estava falando sério. Esperou que Bradford confirmasse que tinha entendido, e depois continuou: — Achei que a ameaça tinha terminado, mas mesmo assim não
 podia arriscar-me. Caroline era tudo que restava da minha família! Pro
 curei afastar-me do cenário político e jurei que minha filha só voltaria
 quando todos eles tivessem morrido. Bradford subitamente sofreu uma transformação, portando-se de maneira mais brusca, mais neutra. A proteção de sua esposa, do seu ponto
  • de vista, era imprescindível, e não havia tempo para permitir que outras emoções interferissem. A hora da compaixão chegaria depois, quando ele contasse a Caroline. — Muito bem. Então Perkins e os assassinos de aluguel dele morreram todos. E agora, como ficamos? — esfregou a mandíbula, pensa- tivo, olhando fixamente as chamas da lareira. O som do relógio dando as horas era o único ruído na sala enquanto ambos os homens refletiam sobre aquele enigma. — Tens certeza de que ninguém mais tomou conhecimento do que
 houve? Será que Perkins não poderia ter contado a mais alguém? Braxton sacudiu a cabeça. — Ele não teria ousado fazer isso — comentou. — E eu não
 contei a ninguém, a não ser o meu irmão. Bradford levantou-se e começou a andar de um lado para outro na sala. —O que vão fazer? — indagou o conde. Agora estava torcendo as
 mãos, e Bradford achou-o tão velho e frágil quanto o marquês. —Não sei ainda. Mas agora a carta faz sentido. Quem a escreveu
 prometeu vingança, mas também havia nela outras tantas obscenidades
 sem sentido às quais não prestei a menor atenção. —Ai. meu Deus, ela não está segura! Ela... Bradford interrompeu o sogro com um tom subitamente áspero que não conseguiu conter. — Nada vai lhe acontecer. Droga., só agora é que fui entender o
 quanto ela significa para mim. Não vou deixar ninguém encostar a mão
 nela. Eu... — Sim? __ incentivou o conde, quando Bradford parou. — Eu a amo. — Bradford soltou um suspiro alto. — E não
  • pretendo perdê-la agora — acrescentou, fazendo essa declaração como se fosse
 um juramento. — Olha, tenta o melhor que puderes não te preocupar.
 Diz ao marquês que Caroline está resfriada ou coisa assim. Convence-o de
 que ela está convalescendo, e pretende continuar escrevendo para ele. Isso
 deve abrandar o homem até eu conseguir formular outro plano de ação. O conde sentiu-se como se um peso que vinha carregando desde o início dos tempos finalmente tivesse sido retirado de seus ombros. Concordou com tudo e foi até a porta. — Não vais contar a Caroline que troquei confidências contigo,
 vais? Não há motivo para ela saber disso — declarou ele. — Minha
 filhinha entrou nessa história como uma inocente. Bradford concordou. — Vou guardar segredo por enquanto, mas depois, quando tudo
 passar, vou ter de lhe contar. E acompanhou o sogro até a porta, fazendo o seguinte comentário: —Caroline não te contou sobre a ameaça porque não queria te
 preocupar. E eu disse muito pouco a ela sobre meus pensamentos re
 ferentes ao inimigo, porque não queria que ela se preocupasse. Ambos
 estávamos tão preocupados em proteger um ao outro que acho que
 todos perdemos um pouco a noção da realidade. Sempre insisti na confiança cega... — E Bradford parou assim que essas palavras saíram da
 sua boca. Sacudiu a cabeça. — Confiança cega. Exatamente o que ela

  • exigiu de mim — admitiu. —O que é? — O conde de Braxton parecia confuso. —Ela me deu seu amor e sua confiança — comentou Bradford.
 Sua voz parecia áspera, mas era a única maneira pela qual ele podia
 controlar o tremor que sentia por dentro. — Sabias que ela às vezes me
 chama de Jered? O sogro sacudiu a cabeça e franziu o cenho, obviamente perplexo diante da mudança de assunto. Bradford tossiu e agarrou a maçaneta da porta. — Olha, prometo te manter informado. Agora vai para casa e
 descansa um pouco. O conde já estava no meio das escadas quando Bradford deteve-o com uma pergunta. —Quando exatamente aconteceu tudo isso? —Quê? A data, senhor, em que esses homens o procuraram? — Faz quase quinze anos — respondeu o conde. — Não, estou querendo saber a data exata. O dia, o mês... vós
 vos lembrais? — Fevereiro, na noite do dia 20, 1788. É tão importante assim?
 Bradford não permitiu que seu rosto traísse nenhuma reacão. — Pode ser que sim. Enviarei notícias — prometeu, sem dizer
 mais nada sobre suas suspeitas. Mas assim que a porta se fechou, sua expressão mudou, e sua preocupação ficou claramente visível. Ele rezou para estar errado, tremendo de ódio. Se suas suspeitas se confirmassem, ele não tinha muito tempo. Apenas seis dias para encontrar aquele salafrário! Seis dias até o dia 20 de
  • fevereiro... As mãos de Bradford estavam trémulas enquanto ele fazia a lista do que precisava ser feito. Só foi para a cama bem depois de meia-noite. No dia seguinte, depois de ter colocado em ação seu plano, voltaria para o lado da mulher. Essa ideia acalmou-o, e ele entendeu que estava louco para confessar-lhe seu amor e suplicar seu perdão. Ele ma ao seu encontro como duque de Bradford e como Jered Marcus Benton. Ele sabia no fundo de seu coração que ela o amava. E se o poder, a riqueza e o título desaparecessem no futuro, ela continuaria ao seu lado. Bradford sentiu imenso contentamento, imensa paz de espírito ao pensar no futuro e em como abraçaria sua esposa. Começou a pensar em todas as formas diferentes como iria amá-la, e adormeceu com um sorriso nos lábios. Milford chegou à casa de Bradford em Londres exatamente quando seu amigo estava se preparando para partir. Bradford explicou rapidamente que achava que quem estava que- rendo matar Caroline atacaria dentro de apenas seis dias. mas não explicou por quê. Sentia que a esposa devia saber primeiro, e seria sua decisão contar a Milford ou não, ou a qualquer outra pessoa, sobre o que tinha ocorrido tantos anos antes. —Agradeceria se viesses comigo até Bradford Place. Pode ser que
 possas me ajudar. Quanto mais gente de confiança perto da Caroline,
 melhor — disse ele. —Meu Deus, minhas costas ainda estão doloridas da viagem de ontem, mas sabes que irei contigo — respondeu Mllford. — Além de querer te ajudar, também quero ouvir quem pede desculpas primeiro.
  • — E vendo a exasperação do amigo, riu. —O que é que te faz pensar que vou pedir perdão? — indagou
 Bradford, sorrindo abertamente. —O fato de que és teimoso, meu amigo, mas não és burro —
 retrucou Milford. Bradford surpreendeu o amigo ao concordar com ele. — Então vais mesmo pedir perdão? — indagou Milford. —Se for preciso, de joelhos — anunciou Bradford.
 E aí riu da cara que o amigo fez. —Que foi? Pensei que já estavas cansado de bancar o mediador —comentou, ao dar um tapa nas costas do amigo. — Foi por isso que
 foste falar com a Caroline. não foi? Para que ela enxergasse a razão? Milford fez cara de encabulado. —Foi, eu confesso — respondeu. — Mas Brad, não exagera, hein?
 Se caíres de joelhos só uma vez. Caroline vai mandar e desmandar em
 ti pelo resto da vida. Além do mais, está decidida a voltar para casa. Só
 Deus sabe o quanto a adoro, mas ela... —Eu também — interrompeu-o Bradford. —Eu também o quê? —Adoro-a — explicou Bradford. — Não diz isso a mim. rapaz, diz à Caroline. Bradford sacudiu a cabeça. — E eu diria, meu amigo, se tu começasses a se mexer para
 partirmos. Os dois mal disseram uma palavra durante a viagem, pegando vários atalhos que diminuíram a distância de Londres até Bradford Hílls em quase uma hora. A cada quilómetro que passava, o humor de Bradford
  • melhorava um pouco mais. Ele entrou na sala de estar da sua mansão chamando Henderson aos berros para poder lhe dar novas instruções, e depois para servir-se de conhaque. Depois de tomar um trago caprichado, virou-se para sentar-se alguns minutos. Sua poltrona de couro preferida não estava ali, e ele franziu o cenho ao sentar-se na cadeira de encosto baixo. Tomou mais um gole do copo que segurava, e depois virou-se para colocá-lo na mesa de três pés que sempre estava ao lado de sua poltrona. Só que a mesinha não estava mais lá, e Bradford só foi notar isso quando seu copo quase caiu no chão. Ele franziu o cenho diante dessa ligeira inconveniência e aí Milford entrou na sala e chamou-o. — Brad, já esteve na sua biblioteca? Bradford sacudiu a cabeça. Estava só pensando na esposa e ten- tando formular como lhe diria o quanto tinha sido idiota sem parecer um. Viu que estava ficando nervoso e entendeu que ainda não se sentia bem com a ideia de abrir o coração e a alma para a mulher que amava. O problema, enquanto ele estava sentado ali, analisando tudo, era que não tinha muita prática nisso. Milford não quis permitir um momento de privacidade e insis- tiu, entre mordidas no pão que segurava, que Bradford fosse com ele à biblioteca. — Acho que deixaram um recado lá para ti, mas não entendi a
 mensagem — murmurou, de boca cheia. Bradford cedeu, seguindo Milford até a porta da sua biblioteca. — Mas que raio é que... Henderson? — Bradford gritou, recebendo um eco como resposta. Entrou devagar em seu santuário, olhando em torno de si, assom- brado. A sala estava completamente vazia. A escrivaninha, as cadeiras, os livros, os papéis e até mesmo as cortinas haviam sido retiradas.
  • Bradford virou-se para Milford e sacudiu a cabeça, atordoado. — O Henderson deve estar escondido em algum lugar — disse
 Milford. — O que é que está havendo, hein? Bradford deu de ombros, ainda de cara amarrada. —Vou ter que descobrir o motivo mais tarde. Agora nesse momento eu só quero partir para Bradford Place. — E começou a subir as
 escadas, de dois em dois degraus, gritando enquanto isso para o amigo: —Podes vestir uma das minhas camisas, se quiseres mudar de
 roupa. Bradford parou ao chegar à porta do quarto de Caroline. Abriu-a num impulso e deu uma olhada rápida dentro dele. Tudo estava exatamente onde devia estar, e mesmo assim ele não desfez a carranca. Fechou a porta e continuou até o seu quarto. Assim que abriu a porta, começou a rir. O quarto estava tão vazio quanto a biblioteca. Henderson apareceu correndo com Milford ao seu lado. —Não será possível mudar de roupas, Sua Graça — anunciou
 Henderson, com altivez. Seu rosto estava vermelho como uma brasa,
 como se ele tivesse ficado parado no frio a manhã inteira. —E por quê, pode-se saber? — perguntou Bradford. E continuou
 rindo até as lágrimas brotarem nos seus olhos. — Vossa esposa solicitou que todos os vossos pertences fossem
 transferidos. Creio, senhor, que por ordem vossa. Bradford assentiu. —Naturalmente acreditaste. Henderson. — E virou-se para seu
 amigo, que estava atônito, dizendo: — Ela levou só minhas coisas, Milford. É um recado sim, e nada sutil.
  • —E qual é o teor da mensagem? — indagou Milford, descobrindo
 que o riso de Bradford era contagioso. Começou a casquinar sem fazer
 idéia do motivo. Bradford demonstrou sua exasperação. — Levaram minhas coisas todas para Bradford Place. Está na cara
 que está pretendendo me mostrar qual é o meu lugar — concluiu, dando
 um tapa forte no amigo meio lento de compreensão, começando a per-
 rorrer o corredor. — Como é que eles conseguiram levar minha cama,
 hein, Henderson? Devem ter sido pelo menos uns quatro homens... Henderson ficou imensamente aliviado por seu patrão ter achado iquilo engraçado. —Na verdade foram cinco — confessou. Pigarreou e depois
 acrescentou: — Eles tentaram rne recrutar também, Sua Graça. Estou
 encabulado de admitir que fui obrigado a me esconder na copa até eles
 saírem. —Esconder-se não vai adiantar, Henderson — anunciou Bradford
 quando conseguiu controlar-se. — Ela vai te encontrar, mais cedo ou
 mais tarde. Se estiver decidida a levar-te para Bradford Place, é melhor
 ir aceitando logo. — E vós, onde estareis, posso lhe perguntar? — indagou Henderson. — Com minha esposa — disse Bradford, sorrindo. Milford e Bradford partiram de novo, com outros cavalos, mas levaram quatro horas para chegar a Bradford Place, pois os morros que
  • existiam no caminho não lhes permitiram pegar atalho algum. Era quase hora do jantar quando eles entraram na fortaleza som- bria. Só que lá dentro não era mais uma fortaleza. Era uma casa. Bradford ficou deslumbrado, parando no meio do vestíbulo. —Ela transformou a fera em uma coisa bela. —Estás te referindo a ti mesmo ou a nossa casa? — A pergunta
 reboou vinda de cima, e Bradford virou-se para olhar para o alto das
 escadas. Sua esposa estava parada ali, esperando a resposta dele. O peito de Bradford contraiu-se, e ele não conseguiu articular nenhuma palavra. Caroline não queria mais nada senão descer correndo as escadas e jogar-se nos braços do marido. Esperou, desejando ver se ele estava zangado ou feliz por vê-la, primeiro. O marido continuou olhando para ela e quanto mais durava aquele silêncio, mais mal ela se sentia. Tinha acabado de pôr um vestido simples, amarelo, que lhe fazia a pele pi doentia. Se ao menos tivesse escolhido o azul, censurou-se ela. Se ao menos soubesse que ele vinha! Meu Deus, mas os cabelos dela nem mesmo estavam bem penteados, e ela sabia que estava com cara de intrigada. — Tu demoraste muito para chegar, hein? — disse ela. deixando
 de lado o problema de sua aparência. Se ela estava toda desarrumada, a
 culpa era dele, não dela. Ela desceu as escadas e parou bem na frente do marido. Ele estava com uma expressão muito séria, muito bem-comportada, mas havia ternura nos seus olhos também. Aquilo a surpreendeu, e ela decidiu que ele obviamente não tinha parado em Bradford Hills no caminho para a fortaleza. Senão estaria gritando com ela agora. Caroline fez uma reverência e sorriu para o marido. — Bem-vindo ao seu lar — disse.
  • E não ousou encostar o dedo nele. Sabia que depois que estivesse em seus braços esqueceria completamente o discurso que tinha preparado, e estava decidida a terminar isso primeiro. Ficou olhando o marido enquanto cumprimentava Milford. — E tu, trouxeste o dinheiro que me deves? — indagou. Bradford ouviu a pergunta de Caroline, mas teve dificuldade de compreender exatamente do que ela estava falando. Ele só conseguia concentrar-se na proximidade dela. Estava tão linda! E percebeu, ao dar o primeiro sorriso, que ela parecia estar um tanto nervosa. Ele se perguntou o que estaria passando naquela cabecinha complicada dela. Não precisou esperar muito pela resposta. __ Vieste direto de Londres para cá? Não paraste em Bradford Hills? — perguntou Caroline, olhando fixamente para um dos botões da sua casaca. —Paramos lá. sim. —Ah. pararam? E não estás zangado comigo? — Ela achou essa
 uma pergunta tola, assim que acabou de fazê-la. Era óbvio que ele não
 estava zangado, porque estava sorrindo para ela. Portanto, concluiu que
 ele não tinha ficado por lá tempo suficiente para saber o que ela havia
 feito. Ah, sim, pensou ela, com uma risada nervosa, vai descobrir logo,
 logo. Aí então sim, é que as coisas iam esquentar. Melhor terminar logo o discurso, antes de Bradford subir, decidiu Caroline. —Eu preciso mesmo falar contigo, Bradford. —Diz boa-noite para o Milford, amor.
  • —O quê? Mas ele acabou de chegar. Certamente não vai embora
 agora, vai? —Não é o Milford, é a Caroline — contradisse Bradford. —Milford não vai embora? O convidado em questão foi bem mais rápido em entender o que Bradford estava dizendo à esposa. Pegou a capa sobre a mesa do vestíbulo e foi percorrendo o corredor, procurando a sala de jantar e assobiando uma musiquinha atrevida. —Hora de ir para a cama, Caroline. —Mas ainda não estou cansada. —Otimo. —Ainda é dia, Bradford. Não vou conseguir dormir. —Espero que não. Caroline enrubesceu quando Bradford ergueu-a nos braços e levou-a para cima. Ela finalmente tinha entendido qual era sua intenção. — Não podemos fazer isso — protestou ela. — Milford vai ficar sabendo! Bradford já havia alcançado o topo da escada e perguntado: —No seu quarto ou no meu? —No nosso — corrigiu Caroline, desistindo de argumentar. Apontou para a primeira porta à direita. Quando o marido estava para abri-la, agarrou-lhe a mão, lembrando-se da mobília. —Há uma coisa que gostaria de te explicar sobre esse quarto — apressou-se a dizer. Bradford fingiu que não tinha ouvido e abriu a porta. A mobília do seu quarto estava onde ele esperava que estivesse, e ele procurou manter sua expressão neutra ao entrar e fechar a porta. Caroline esperou o comentário dele, mas Bradford pareceu satis- feito ali encostado à porta, segurando-a nos braços.
  • Viu a banheira vazia a um canto do quarto e lembrou-se de que ele estava coberto de pó da estrada. Relutante, deixou Caroline deslizar para o chão e deu-lhe apenas um beijo casto no alto da cabeça. Sabia que se a beijasse como ela gostava de ser beijada não tomaria banho. —Primeiro o dever, querida — murmurou, com um suspiro re- lutante. Virou-se e abriu a porta, pedindo água com um grito alto o bastante para todos os guardas ouvirem. —Bradford, quer, por favor, me dar tua atenção agora? — perguntou Caroline. Foi até a cama e sentou-se na beirada dela. — Notou alguma coisa diferente? — perguntou. —Notei tudo — respondeu Bradford. — Seu cabelo está todo despenteado, e com esse teu vestido horrível pareces até um cadáver. Tira o vestido assim que o banho estiver preparado. Caroline não se ofendeu nem um pouco com seus comentários, admitindo consigo mesma que ele tinha razão. Estava sorrindo para ela e sua expressão aqueceu-a. Ele a desejava. —Nunca te vi de tão bom humor — confessou ela, baixinho. — Pensei que ficarias zangado por eu ter trazido a mobília para cá, mas nem mesmo notaste. Aliás, teu escritório fica no fim do corredor. —Notei — disse Bradford, com uma risadmha. — Tem só uma cama desse tamanho na Inglaterra inteira, imagino eu. — Bradford, tenta falar sério só um minuto. Tem uma coisa que eu
 gostaria de discutir contigo. E estás me deixando nervosa assim sorrindo
 o tempo todo para mim. Uma batida à porta interrompeu-a. Bradford abriu-a, viu que eram u» gudidds cum baldes de água e permitiu que entrassem. Arrastou a banheira para perto da lareira e acendeu o fogo enquanto enchiam a banheira.
  • A espera durou uma eternidade para Caroline. Ela queria terminar logo o seu discurso. Bradford certamente ficaria para arrebentar de tão convencido. E aí tudo fez sentido. Tinha sido o Milford! Ele devia ter contado ao Bradford. Era esse o motivo pelo qual seu marido estava tão despreocupado agora. — O que o Milford lhe contou? — perguntou Caroline. — Quando ele me visitou, ele... Ela não conseguiu terminar a frase. Bradford estava se despindo, o que a distraiu. Passou a camisa sobre a cabeça e deixou-a cair no chão, depois foi até a mesa onde estavam a jarra e a bacia. Caroline ficou olhando, hipnotizada, o marido lavando o rosto e as mãos na bacia de porcelana. — Estás te lavando antes de tomar banho? — indagou ela, meio
 desorientada. —Um exagero, isso, não achas? Bradford sorriu. Foi até a cama e sentou-se ao lado da esposa. — Ajoelha, mocinha — grunhiu. Caroline ficou surpresa com essa ordem. —Agora vais querer também que eu me ajoelhe diante de ti? —
 Sentiu a coluna começando a enrijecer-se. — Olha aqui, Bradford, não
 sei o que o Milford lhe disse, mas... —Ajuda-me a tirar as botas, sim, Caroline? —Ah, sim. — Caroline demonstrou sua exasperação. Não se ajo- elhou, mas em vez disso sentou-se sobre as pernas dele, proporcionando
 a Bradford uma visão deliciosa de suas nádegas. Quando ela terminou
 de tirar-lhe as botas, virou-se com as mãos nos quadris. — Queres me
 ouvir, por favor?
  • —Depois do nosso banho. —Nosso banho? Bradford confirmou, rindo do jeito como Caroline corou. E então passou a tirar-lhe as roupas bem devagar. Caroline notou que suas mãos tremiam, e ficou surpresa com essa demonstração de sentimentos, pois o rosto do marido não traía nada do que ele estava pensando naquele instante. Ele ergueu-a nos braços, lutando contra as sensações que a maciez da pele da esposa despertavam nele, e tratou de meter-se na banheira com Caroline no colo. — Estás corada como uma virgem, minha esposa — comentou Bradford com um olhar malicioso proposital. — Começa a banhar-me — ordenou. Ele lhe entregou uma barra de sabão e Caroline começou a lavar o peito do marido. Nenhum deles disse nada durante os minutos ofegantes que se seguiram. Caroline perdeu o sabão quando começou a enxaguar a espuma para removê-la do peito dele. Não conseguia concentrar-se em nada, ouvindo-se murmurar que ele ia ter de se levantar para que pudesse esfregar suas pernas, e achou que sua voz parecia tão áspera quanto o vento que circundava as paredes lá fora. — Acho que não vou conseguir me levantar — disse-lhe Bradford. Sua esposa estava admirando-lhe abertamente o peito, sem disfarçar, e ele obrigou-a a olhar para o seu rosto. — Também despertas em mim as mesmas emoções, e sabes muito bem disso — disse, em voz rouca. Desperto o quê? — murmurou Caroline, timidamente. __ Tiras as minhas forças, tamanho é o desejo que sinto
  • por ti. Queria ir devagar, saborear os momentos antes de tocar-te, criar um clima de expectativa... __ Se não me beijares logo, morrerei — sussurrou Caroline. pen- durando-se no pescoço dele e puxando sua cabeça na direcão da sua. Ele lhe deu um beijo provocante, mais uma mordiscada, mas Caroli- ne estava impaciente demais. Mordeu-lhe o lábio ínfcuui, puxando-o. Bradford não foi mais capaz de provocá-la. Beijou-a ardentemente, e sua boca estava tão quente, tão exigente, que Caroline reagiu com seu próprio ardor, sua própria necessidade. A língua dela enleou-se na dele, e Bradford virou-a até ela estar de frente para ele, com uma perna de cada lado dos seus quadris. Os seios dela o enlouqueciam, roçando tentadoramente contra seu peito, e ele não conseguia parar de beijá-la, de acariciá-la. Caroline pendurou-se no pescoço dele, assaltada pela paixão que se acendeu entre os dois. A língua dele a atormentava; ela não parecia sentir que estava perto dele o suficiente, sentia um ardor incontrolável tomar conta de si. Ele murmurava palavras de amor, eróticas, provocantes, mas os vapores da paixão eram tão espessos, tão consumidores, que ela só conseguia concentrar-se naquele fogo que crescia a cada momento. As mãos dele acariciaram-lhe as costas, aumentando a chama do desejo, e aí ele passou a acariciar o centro dela, e ela ouviu seu próprio grito de agonia e de êxtase cada vez maior. —Jered: — Era uma exigência. Então Bradford penetrou-a várias vezes seguidas. Caroline arqueou-se contra ele. apertando-o ainda mais, e recebeu, aliviada, o clímax dos dois. Caiu contra o seu peito, exausta, do prazer resultante do amor impaciente dele, da sua reação impaciente.
  • O coração de Bradford parecia estar para explodir, e Caroline aguardou até o ritmo cardíaco do rapaz reduzir-se antes de se mexer. —Eu tinha me esquecido de que estávamos em uma banheira —
 disse ela, com uma risada trémula. Suspirou, aninhando-se contra o lado
 do pescoço do marido, e fechou os olhos. — Eu te amo, Bradford —Nunca vou me cansar de ouvir-te dizer isso — murmurou
 Bradford. Caroline concordou, sua única reação a suas palavras. E aí ela começou a chorar, e por sinal, mais alto que Charity. Bradford deixou-a soluçar contra o seu peito, ternamente lhe acariciando os ombros, e quando ela começou a parar e conseguiu ouvi-lo ele disse: —Caroline presta atenção no que vou te dizer. —Não — disse Caroline. — Precisas prestar atenção ao que vou te dizer primeiro. Entendo que não podes me amar ainda. Fui muito
 impaciente e exigente — continuou, soltando outro soluço alto. — Não
 tiveste tempo suficiente para conheceres mulheres que prestassem, e eu exigi de ti o que não poderias me dar de jeito nenhum. Vou te suportar e aceitar-te como és. Se ela acreditou que seu discurso fervente acalmaria o marido, estava enganada. Bradford amarrou a cara. —É muita generosidade tua, cara esposa. Estás desistindo, então ? Caroline lançou-lhe um olhar de soslaio e viu pelo seu olhar que ele estava achando graça. —Que foi? Não, só aceitando, Bradford — respondeu ela. —E exatamente quanto tempo planejas ter paciência, meu amor? — Estás me confundindo, Bradford — comentou Caroline. —

  • Pensei que estavas comovido com minha decisão, e em vez disso cons
 tato que achas isso engraçado. E exatamente o que devo achar disso? Ela ficou de pé, usando a barriga dele como degrau para sair da banheira, satisfeita quando ouviu seu gemido alto de protesto. —Bem feito, por seres tão arrogante — anunciou Caroline. —
 Milford lhe disse que eu queria voltar para casa, não foi? Por isso é que
 estás tão contente, não é? —Estou feliz porque acabei de fazer amor com minha obediente esposa — replicou Bradford, com um sorriso descarado. —De obediente não tenho nada — contradisse Caroline. E ela se ajoelhou ao lado da banheira, pescou o sabão dentro d'água, e começou a
 esfregar o marido. — A menos que eu te dê minha palavra, claro. Então
 acho que podes contar que vou obedecer-te e cumpri-la. — Suspirou e
 disse: — Acho que venceste, não foi? Bradford não sabia se ela estava percebendo o que estava fazendo. Parecia que estava acumulando tanto nervosismo quanto acumulava espuma na sua perna direita, e ele começou a rir de novo. — Acho que vais arrancar minha pele — comentou Bradford. — Não fica assim tão perplexa, amor. E então, terminaste de me pedir
 desculpas ou ainda tem mais alguma coisa a me dizer? — indagou, com
 um interesse preguiçoso. —Não pedi desculpas, mas não vou discutir sobre isso. —Então acho que chegou a minha vez — anunciou Bradford. Perdoa-me, Caroline. Sei que não vem sendo fácil me amar, e te causei um bocado de sofrimento. Minha única desculpa é que te amo tanto que me comportei como um tolo. Eu... Caroline tinha deixado cair o sabão, e ficado de pé durante o discurso
  • dele. —Não te atrevas a brincar com meus sentimentos, Bradford. —
 Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, e ela as enxugou com o dorso da
 mão. — Estás me dizendo a verdade? Tu me amas de verdade? Bradford tinha saído da banheira, e já estava abraçando Caroline antes que ela pudesse fazer sequer um gesto. —Fui eu que causei isso? — indagou ele, a voz deixando transparecer o sofrimento. — Meu Deus, Caroline, eu te amo! Acho que
 sempre te amei. E agora que finalmente consigo dizer isso, tu choras!
 Nunca menti para ti, Caroline. nunca! — Disse isso em tom agressivo,
 e Caroline percebeu sua angústia. Ela chorou de encontro ao peito dele, e Bradford ficou parado ali, sentindo-se completamente apático. Pingava água no chão todo enquanto ela derramava lágrimas quentes sobre todo o seu ser. —Não podes mais retirar o que disseste. A voz de Caroline foi abafada, e ele precisou pedir que repetisse o que tinha acabado de dizer. Estava fungando e soluçando, mas finalmente conseguiu repetir. —Eu disse que não vais mais poder retirar o que disseste. Bradford começou a rir, e certamente foi esse o motivo para as lágrimas nos seus próprios olhos. Ele arrastou a sua esposa trémula para a cama e abraçou-a sob as cobertas. Beijou-a, um beijo longo e satisfatório, e voltou a repetir várias vezes que a amava muito até ela ter certeza de que podia acreditar nele. —Estou querendo ouvir o resto — disse-lhe Caroline. E tamborilou com os dedos no peito dele durante um minuto inteiro até perceber que Bradford não ia dizer mais nada. E aí começou a rir. — Meu Deus, mas que homem mais teimoso que és! Claro que me amas. Eu já sei disso faz tempo — mentiu descaradamente. — Agora admite que confiarás em mim, não
  • importa quais sejam as circunstâncias. — Pode enumerar todas antes que eu me comprometa — respondeu Bradford com uni sorriso franco. E empurrou sua cabeça para debaixo do seu queixo, inspirando sua fragrância especial. — Estás cheirando a rosas — murmurou. —E tu também — disse-lhe Caroline. — Usamos meu sabão. Ê
 perfumado. Bradford resmungou qualquer coisa consigo mesmo. —Pelo menos não estás mais cheirando como o teu cavalo — disse Caroline, com uma risadinha zombeteira. — Sabes, Bradford, o nome do teu cavalo foi uma pista definitiva, só agora estou percebendo. —Do que estás falando? — indagou Bradford, confuso. —Confiança! Foi uma pista para o que valorizas, o que faltava em tua vida — explicou Caroline. —Eu confio em ti, sim, Caroline — admitiu Bradford. — Mas
 quanto ao ciúme, não posso prometer nada. Vou tentar — jurou. E
 disse-lhe que a amava de novo, encontrando uma liberdade e uma alegria
 que não sabia que fossem possíveis apenas com essa admissão, e fizeram
 amor de novo, bem devagar dessa vez. Ele preparou a fogueira da paixão
 de forma bem calculada, sabendo exatamente o que tocar, como dar
 a ela o prazer que tinha imaginado durante todas as noites que tinha
 passado longe dela. Amou-a com uma intensidade que a fez chorar outra vez, —Eu te amo, Caroline — disse, apertando-a contra si. —Nunca vou me cansar de ouvir isso. Passou-se um instante antes que Bradford se lembrasse de que aquelas
  • tinham sido exatamente as palavras que ele tinha dito a ela. Ele sorriu, gostando daquele toque humorístico da esposa. — Bradford? Quando foi que descobriu? Quando foi que entendeu que me amava? —Não foi de uma hora para outra — disse-lhe Bradford. Caroline estava deitada de costas, e Bradford apoiou-se em um cotovelo para olhar para ela. Sorriu do olhar decepcionado dela, e foi obrigado a beijar-lhe as rugas da testa para alisá-la, antes de continuar. —Eras como uma farpa na minha pele — disse-lhe Bradford. Uma chateação constante. Caroline deu uma risada. —Nossa, mas como és romântico! —Tão romântico quanto tu és. Parece que estou me lembrando de que tu me disseste que me amar era como ter uma dor de estômago. —Eu estava irritada naquela hora — confessou Caroline. —Senti-me imediatamente atraído por ti — continuou Bradford.
 — Teria feito de ti minha amante sem pensar nas consequências, se
 tivesses permitido — admitiu. —Eu sabia. —Mas não eras como qualquer outra mulher. Na noite em que
 fomos ao baile dos Aimsmond, não estavas coberta de jóias. —E o que tem o pé a ver com a mão? — perguntou Caroline. —Jóias não eram importantes para ti — explicou Bradford. E riu,
 pensando na sua burrice, confessando: — Tentei comprar teu afeto, sim,
 com presentes, não tentei? —Tentaste — disse-lhe Caroline. feliz por ele ter reconhecido. —
 E também me trataste muito mal. Sabias como estava este lugar
  • quando
 me mandaste para cá? Bradford fez uma careta e relutantemente confessou que sim. —Estava zangado, Caroline. Estavas rejeitando tudo que eu tinha a oferecer — acrescentou ele, dando de ombros. —Nem tudo — murmurou Caroline. E agora sua voz tinha ficado séria, tão séria quanto seu rosto. — Eu só queria teu amor e tua
 confiança. —Agora entendo isso — respondeu Bradford. — Ficarás satisfeita em viver comigo no campo o resto da vida? —Eu moraria contigo até em um cortiço londrino, contanto que me amasses — respondeu Caroline. — Adoro a vida rural. Fui criada numa fazenda, afinal de contas. ! —E achas que vais aprender a considerar a Inglaterra a tua
 pátria? —Preciso admitir que vem sendo difícil adaptar-me. Em Boston
 a vida era bem mais sossegada, Bradford. E eu acho que ninguém me
 odiava a ponto de querer matar-me. E alguns dos cavalheiros daqui não
 têm vergonha nenhuma na cara! Já notaste isso? Claro — prosseguiu ela, a tagarelar —, também existem patifes nas Colónias, mas eles não se disfarçam de nobres. Bradford sorriu. —Já tiveste que passar por muitas dificuldades na vida — admitiu. — Mas agora vou tomar conta de ti. —Sei que vais — respondeu Caroline. — E conheci pessoas muito simpáticas. A Inglaterra agora é minha terra. — Caroline suspirou e aninhou-se junto ao marido, numa felicidade imensa. — A vida aqui
  • não é nada monótona, isso eu posso lhe afirmar. —Minha amada, a vida nunca te aborrece — respondeu Bradford. —Teu pai devia pôr as mãos para o céu por que o irmão dele precisou
 cuidar de ti enquanto estavas crescendo. Tu dás um trabalho danado,
 acho eu. —Sempre fui calada e tímida — anunciou Caroline com convicção. Percebeu que o marido não concordava com sua avaliação, pois soltou uma gargalhada. — Ora, tentei me comportar como uma pessoa calada e tímida — confessou. — E acho que meu pai passou esses ca- torze anos desejando que eu estivesse com ele. —Tenho certeza que sim — disse Bradford. Sua fisionomia então ficou resoluta, e ele acrescentou: — Ele se sacrificou por ti, Caroline. Ela confirmou que entendia. —Tenho certeza de que sim, mas não entendo por quê. Achas que
 um dia ele me contará? Bradford lembrou-se então de que o pai de Caroline tinha lhe suplicado para não mencionar a Caroline o acidente com a pistola, e que ele tinha prometido lhe contar depois que o perigo tivesse passado. Percebia agora que seria um erro esconder a verdade dela. Era sua esposa, seu amor, e deviam dividir suas preocupações, assim como suas alegrias. __ Seu pai me fez uma visita enquanto eu estava em Londres. Ele me contou um incidente que aconteceu quase quinze anos atrás. Certa noite, dois homens vieram à casa do teu pai, à casa de campo dele — especificou. __ Estavas dormindo, e deves ter ouvido o barulho e descido as escadas. Os homens tentaram matar teu pai, e tu acidentalmente mataste um deles. O rosto de Caroline revelou-lhe o espanto. —Eu matei?
 Bradford confirmou.
  • —Não te lembras de nada, lembras? E Bradford explicou a história do jeito que tinha sido narrada a ele. Quando terminou, esperou Caroline assimilar tudo. Ela passou toda a narrativa sentada com as costas bem eretas, olhando o marido com uma expressão compenetrada no rosto. —Graças a Deus que não matei meu pai — murmurou, por fim. —Não era possível que eu soubesse o que estava fazendo. Bradford concordou na mesma hora. —Eras apenas uma menininha. — E aí ele notou que ela parecia
 apenas ligeiramente transtornada, mas mesmo assim procurou consolá-
 la. — Foi um acidente. Caroline. —Coitado do meu pai! O que ele deve ter passado! — disse Caroline. — Tudo agora está fazendo sentido para mim. Por que ele me mandou para a casa do tio Henrv e por que esperou tanto tempo para me trazer de volta. Ai, coitado do meu papaizinho! — Lágrimas de angústia escorreram-lhe pelo rosto. Bradford puxou-a para os seus braços e abraçou-a, enxugando-lhe as lágrimas. Caroline aceitou-lhe o calor e pensou muito tempo sobre aquela história bizarra. Não conseguia se lembrar nem mesmo de um detalhe, por mais que tentasse, e finalmente desistiu. — Achas que algum dia vou me lembrar daquela noite? —perguntou, —Não sei, querida — respondeu Bradford. — Teu pai disse que
 depois que atiraste no homem, tu perdeste os sentidos. E só acordaste
 na manhã seguinte. Depois agiste como se nada tivesse acontecido. Ê
 como se tivesse apagado a lembrança do que aconteceu da memória —

  • foi o palpite dele. —Perdi os sentidos? — Caroline ficou assustada e meio ofendida,
 e Bradford sorriu sem querer. —Só tinhas quatro anos — recordou-lhe ele. —Bradford! A carta! — gritou Caroline. Ela afastou-se dele, os
 olhos arregalados, entendendo tudo. — Tem algo a ver com o que aconteceu há tantos anos atrás, não? Alguém quer se vingar de mim! Era isso que dizia a carta. A expressão de Bradford ficou sombria. —Eu já tinha tirado urna conclusão muito diferente antes do
 seu pai me contar essa história sobre ti — declarou ele, admitindo sua
 confusão. —Então achas que é algum parente de um dos homens? E o homem no qual atirei? Ele tem um filho ou filha? Bradford sacudiu a cabeça. —Ainda não encontrei ninguém. Caroline, se meu palpite estiver
 correto, não ternos muito tempo. —Por quê? — indagou ela, preocupada com a frustração na voz do marido. —Dentro de seis dias vai ser o aniversário... Vai fazer quinze anos que o acidente aconteceu. —Então só há uma coisa a fazer — anunciou Caroline. E no seu
 olhar havia um brilho de determinação. — Vamos armar uma armadi- lha, e eu serei a isca. —Espera aí, mocinha! Já decidi que vamos fazer uma arapuca, sim, mas não te meterás nisso. Entendeu? — Sua voz não permitia ar- gumentos. Caroline beijou-o e aninhou-se junto a ele de novo. Estava tão feliz por ele estar confidenciando-lhe coisas que nem queria lhe causar mais irritação neste momento. Além disso, disse a si
  • mesma com um sorriso, tinha seis dias para fazê-lo mudar de ideia. Tinha todas as intenções de ajudar a prender o homem que estava querendo matá-la. Uma ideia súbita chamou-lhe a atenção. —Bradford, quem sabe o que aconteceu naquela noite? —Vamos ver... — respondeu Bradford. — Ele contou ao teu tio Henry, mas o resto da tua família de Boston não sabe. E contou a mim. Então apenas nós quatro sabemos o que aconteceu. —Não — respondeu Caroline, quase distraidamente. Estava pensando no seu tio Henry e como ele a havia ajudado a superar seu medo de pistolas. Ele tinha sido tão paciente e compreensivo quando ela foi até ele pedir ajuda. Lembrou-se de que tinha querido sair para caçar com Caimen e Luke, e sentia-se uma covarde diante do terror que sentia ao ver qualquer tipo de arma. Tinha levado mais de um ano para superar esse medo, mas com a ajuda do tio, ela tinha conseguido. — Não o quê? — perguntou ele, intrigado. — Só quatro pessoas sabem o que ocorreu. Se excluir os três envolvidos na tramóia. Estão mortos, e isso só deixa teu pai, teu tio Henry, tu e eu. — E tio Milo — respondeu Caroline.
 Bradford sacudiu a cabeça. —Não, amor. Teu pai foi bastante específico. Disse que só contou ao seu irmão caçula. A ninguém mais — declarou ele. — Tenho certeza. Caroline concordou. —Sim, entendo o que disseste — respondeu. — Ele não contou
 naquela época, quando tudo aconteceu, mas depois que eu voltei para
 casa, ele foi até a casa do marquês e lhe contou tudo. Tenho quase
 certeza, porque ele disse que devia a ele uma explicação completa para
 ele não me rejeitar. Eu não entendi o que ele queria dizer na hora, mas

  • agora acho que... Bradford. por que está me olhando assim? Qual é o
 problema? —Por que ele não me disse isso? — gritou Bradford, e vendo o
 alarme da esposa, rapidamente abaixou a voz. — Não, está tudo bem.
 Tudo está começando a fazer sentido, só isso. Droga, eu sabia, eu sabia
 que o Franklin estava por trás de tudo isso! —Franklin? Bradford. tem certeza? — disse Caroline, em tom
 incrédulo. — Mas que canalha, aquele homem! Não se entende com o
 irmão, e vive tentando irritá-lo, mas não pensei que fosse capaz de...
 meu próprio tio! E de repente ficou muda. o rosto rosado de raiva. —Sou capaz de apostar que é isso — declarou Bradford. — Ele
 tem um motivo bastante forte. Caroline. Cobiça. O marquês vai te dei- xar de herança uma boa quantia. Ele mudou seu testamento e só depois contou ao irmão o que tinha feito. Graças a Deus por isso — murmurou. — Seu tio Franklin teria matado o homem, se o testamento não tivesse sido alterado. —E a Loretta? — indagou Caroline. — Achas que ela está envolvida? — Estava horrorizada só de pensar naquela dupla maligna, lembrando-se como Loretta tinha flertado com Bradford na noite do jantar dado pelo seu pai. —Ela acumulou uma alta quantia em dívidas de jogos de azar, e está desesperada para conseguir dinheiro. Assinou promissórias para os credores, que estão esperando o marquês morrer. —Está querendo dizer que ela prometeu a eles o dinheiro do meu tio Milo? — disse Caroline, indignada. — Mas já respondeste à minha pergunta! Claro que ela está metida nisso. Essa mulher é uma
  • depravada mesmo! —Franklin deve ter ouvido seu pai conversando com o marquês e lhe contando o que houve, e está usando essa informação para desviar as suspeitas. Caroline sacudiu a cabeça. —Não entendi. —Tu mostraste a carta ao Milford, e eu e teu pai ainda estamos
 vivos para revelar o que realmente ocorreu na época, mas o Franklin
 resolveu fazer de conta que tua morte vai ser uma vingança. Por isso é
 que a data é importante. Se alguma coisa te acontecer no dia 20, vai ser
 ideal para o Franklin. O tom de voz de Bradford era tranquilo, mas seus olhos deixavam transparecer sua raiva. Caroline tremia e sentia sua pele arrepiando-se toda. Ele percebeu a reação dela e puxou-a para cima de si. —Meu Deus. espero que eu esteja certo, e que seja mesmo o
 Franklin. Nunca gostei daquele safado mesmo! —Vamos descobrir logo, logo — murmurou Caroline. —Não fica assustada, meu amor. Esperei minha vida inteira por ti. Não vou deixar ninguém te fazer mal. —Sei que vais proteger-me — respondeu Caroline. Ela beijou o
 queixo do mando. — Sempre me sinto segura contigo. Menos quando
 gritas comigo, quero dizer. —Nunca grito contigo — respondeu Bradford, sorrindo, sabendo
 muito bem que estava mentindo. Caroline retribuiu o sorriso. E aí ouviu o estômago roncar. —Estou com fome — disse ao marido. Bradford resolveu entender mal de propósito o que ela estava querendo dizer. Disse-lhe que também estava com fome, e beijou-a apai- xonadamente. E aí rolou com ela, colocando-a deitada de costas, e
  • começou a fazer amor com ela. Caroline pensou em explicar que estava querendo jantar, mas a explicação se perdeu em algum ponto no fundo de sua mente. O jantar podia esperar um pouco mais. Além disso, Caroline pensou, como esposa, ela era sempre obediente. ! ! CAPITULO 14 ! A disposição de Bradford mudou da noite para o dia. Sua voz agora era brusca, seus modos abruptos. Caroline entendeu que ele estava se concentrando no seu plano de armar uma arapuca para o Franklin e não ficou nada preocupada. Nem Bradford nem Milford a excluíram de suas conversas. Milford certamente ficou assombrado quando Carolinbe lhe contou o que tinha acontecido com ela quinze anos antes, mas não estava inteiramente convencido de que Franklin estivesse usando essa informação corno forma de despistar as pessoas no seu intento de assassinar Caroline. Acautelou o amigo, declarando que podia ser mesmo um parente querendo vingar-se. —Acho que o Franklin sabia tudo sobre o passado da Caroline
 quando a empurrou das escadas. Também penso que ele tramou o acidente de carruagem antes de sua mente doentia conceber esse plano de simulação de uma vingança. —Mas se isso for verdade, então o tio Milo teria contado ao
 Franklin — argumentou Caroline, sacudindo a cabeça. —Caroline, teu tio Franklin vivia querendo depreciá-la aos olhos do irmão mais velho. O marquês bem podia estar tentando defendê-la quando contou a história ao irmão. Bradford deu de ombros, concentrando-se em suas teorias, e
  • continuou: —O Franklin não queria que você morresse na hora em que te empurrou do alto das escadas, querida, mas queria te assustar, pois presumiu que contarias ao teu pai. A maioria das filhas contaria — acrescentou. — Tu não contaste nada, e aí ele tramou o acidente da carruagem. Sabia que estavas comigo e com Milford no veículo, lembras-te? Caroline confirmou. —Lembro sim! O tio Milo nos contou que meu pai tinha resolvido que ia com a... e aí o Franklin sumiu — acrescentou ela. — Fiquei tão zangada contigo, Bradford. que não pensei nesse súbito desapare- cimento dele. —Por que ficaste tão furiosa com o Brad? — perguntou Milford,
 tentando entender tudo que eles estavam dizendo. —O Nigel Crestwall estava em cima dela, querendo um beijo, e eu me descontrolei um pouco — admitiu Bradford. — Um pouco? — indagou Caroline ao marido.
 Bradford deu de ombros, e mudou de assunto. —Acho que o Franklin estava certo de que um de nós iria contar o incidente ao seu pai. Ele só queria que tu voltasses para Boston naquele
 momento. Teu pai ficaria furioso de novo, e pediria que Milo te removesse do testamento. Estás vendo como tudo isso é simples? Milford assentiu, vendo a lógica no raciocínio do amigo. —Deves ter sido outra frustração para o Franklin — comentou
 ele. — Todos sabiam que tu querias ter Caroline por esposa. Bradford estava para responder ao comentário do amigo, quando Caroline interrompeu-o. —Isso tudo não passa de especulação. Mas se for verdade, então
 o tio Milo também não estará correndo um risco? Bradford concordou. Estava se perguntando quanto tempo levaria para a
  • sua esposa chegar a essa conclusão, e previu muito bem qual seria o próximo pensamento dela. —Precisamos voltar a Londres — declarou Caroline. —Não é seguro — respondeu Milford, de cenho franzido. —
 Além do mais, se o Brad estiver certo, o marquês precisa continuar vivo
 até tu... — E aí interrompeu-se, percebendo que não estava se expressando lá de forma muito delicada. Caroline concordou. —Até eles me matarem, certo? — E virou-se para o marido, dizendo: — Podes pensar em uma forma para garantir minha segurança em Londres. Ficou surpresa quando o marido concordou. —Vais ficar perfeitamente segura — anunciou ele. — Vamos
 partir ao romper da aurora. —Brad, use a cabeça!Agora só faltam quatro dias, e independente do que digas, não tens absoluta certeza de que é o Franklin o culpado. —Como é que sabes que ele não tern certeza? — perguntou Caroline a Milford. —Simples — replicou Milford. — Se tivesse, Franklin já estaria morto. Caroline espantou-se ao seguir a linha de raciocínio de Milford. —Tu realmente acreditas que teu marido permitiria que ele continuasse vivo? — agora quem parecia espantado era Milford, —Não a faças preocupar-se — interrompeu Bradford. E tomou a
 esposa nos braços, beijando-lhe o alto da cabeça. — Precisamos voltar
 a Londres para armar nossa arapuca. Assim que Caroline estava em segurança, escondida na sua casa de Londres, Bradford enviou uma mensagem ao pai dela, solicitando imediatamente uma entrevista. Caroline estava tão fatigada da longa viagem que adormeceu no canapé,
  • e Bradford levou-a para cima e deitou-a na cama. Só foi saber o que o pai tinha dito ao marido na manhã seguinte. Aí confirmou que o pai tinha revelado ao marquês o verdadeiro motivo pelo qual ele tinha mandado a filha para Boston. —Podemos ir visitar o tio Milo? — perguntou Caroline. —Mas eu ia justamente insistir nisso __ respondeu Bradford.Vendo a cara de surpresa da esposa, sorriu. — O Franklin está entocado em algum canto com uma de suas amantes, mas a Loretta está lá. Vou mencionar que voltaremos a Bradford Hills na manhã do dia 20. — Como sabes que Franklin está com uma amante e a
 Loretta... —Caroline, queres, por favor, reconhecer de uma vez por todas que eu tenho um mínimo que seja de bom senso? — respondeu ele. — Já faz algum tempo que mando homens espionarem os dois. —Tens certeza, de que Loretta está envolvida? — indagou Caroline, ficando decididamente nervosa. Bradford suspirou e vagarosamente balançou positivamente a cabeça. —Vai aprontar-te. Caroline subiu as escadas, correndo, mas Bradford deteve-a com o seguinte comentário: —Coração, procura não ficar surpresa quando vires a mais recente
 empregada do teu tio. —E quem poderia ser essa pessoa? — perguntou Caroline, intrigada por essa recomendação. —A ex-cozinheira do teu pai. —Marie? Estás falando sério? — E Caroline agarrou o corrimão,
 os olhos inquietos, a olhar para todas as direções, diante das possíveis
 implicações do que Bradford estava insinuando. — Meu Deus do céu!

  • Ela podia ter nos envenenado... por que não fez isso? —Provavelmente teria, se o Franklin não tivesse bolado o seu
 planozinho funesto. Mas acontece que seu dever era apenas vigiar-te e
 passar informações. —Ela é que pôs aquela carta repelente na mesa, para eu encontrá-la!
 Bradford confirmou, e ficou chocado quando a esposa repetiu uma das suas imprecações preferidas. Não achou que seria justo criticá-la por isso. Caroline virou-se e correu para o seu quarto, resmungando que confiaria na intuição da Mary Margaret dali por diante. A partida dos dois para a casa do marquês atrasou-se quando Charity e Paul chegaram para visitá-los. Caroline ficou tão encantada por ver a prima, que Bradford foi paciente e ouviu aquela tagarelice até seus nervos atingirem o ponto de resistência máxima. Queria que a visita terminasse, preocupado com a volta de Franklin. Não achava que Caroline fosse se ferir, mas preocupava- se com a possibilidade de sentir vontade de esganá-lo bem na frente do irmão. Tinha todas as intenções de cuidar do Franklin como ele merecia, mas torcia que Caroline não fosse obrigada a testemunhar o ato. Sua esposa ficou tão contente em descobrir que Charity e Paul só iriam para Boston em meados do verão que estava animadíssima quando eles finalmente foram visitar o marquês. Bradford tinha ensinado à esposa direitinho o que devia dizer e pensar, de modo que ela se comportou extremamente bem. Nem mesmo piscou ao ver Marie, mas sua voz saiu meio tensa quando conversou com Loretta. O marquês estava sentado diante da lareira, no salão principal, parecendo muito bem disposto. Caroline sentou-se ao lado dele, se- gurando-lhe a mão. Ela já havia mencionado que eles iam voltar para Bradford Hills no dia 20, usando a desculpa de que o marido tinha
  • deveres a cumprir e ela não queria sair do lado dele. Seu tio Milo provocou-a, dizendo que isso era porque ela era recém- casada, e Caroline ficou corada, e com isso ainda mais bela. Loretta finalmente saiu, e Bradford ficou de pé, seu sinal para a esposa de que era hora de irem embora. —Tio Milo, tenho um favor a pedir-vos — anunciou Caroline. Olhou para o marido e fez sinal para ele se sentar. Bradford franziu o cenho, mas Caroline fingiu que não o tinha visto e virou-se para o tio. —Sabes que eu faria qualquer coisa por ti — respondeu o tio Milo. —Estou preocupada com meu pai — disse Caroline. — Ele não anda se sentindo muito bem, e mora sozinho, não quer vir morar conosco em Bradford Hills. —Brax está adoentado? — indagou Milo. Seus olhos mostraram
 a sua preocupação e ele pegou a mão de Caroline. Ela apressou-se em acalmá-lo. —O médico diz que ele está muito bem, não há muito com que
 se preocupar. — Caroline olhou de relance para o marido. Ele estava
 olhando-a fixamente, com uma cara que insinuava que ela tinha perdido
 o juízo. — É coisa da cabeça dele, sabes? Ele agora está totalmente só,
 muito solitário. Eu tive a ideia de pedir-vos para vos mudares para a casa
 dele durante algum tempo. Até ele se acostumar com a ideia de eu não
 estar mais com ele. Tio Milo ficou encantado com a sugestão. —Esplêndida ideia — anunciou. — Terei imenso prazer em
 ajudar-te. —Bradford vai ajudá-lo a levar teus pertences para lá — ofereceu
 Caroline. Sorriu para o marido, depois acrescentou: — Eu só pararei de preocupar-me quando estiveres com meu pai, tio Milo. Achas que
  • poderias mudar-te para a casa dele hoje? Bradford apoiou o plano, achando que seria um excelente método de proteger o tio. Ele também notou o brilho de sofreguidão nos olhos do homem, e percebeu que ele devia estar mesmo muito solitário. Mas sua bondosa esposa tinha compreendido. Combateu a vontade de abraçá-la e beijá-la, percebendo de novo que possuía a mais bela de todas as mulheres. E a beleza vinha do seu coração. Esperou até estar a sós com ela na carruagem e então tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente. —Por que fizeste isso; — indagou Caroline. Sua voz tremia, tão
 intenso havia sido o beijo, e aquela sensação especial de fraqueza lhe
 invadiu o estômago. — Por seres bela — disse-lhe Bradford.
 Caroline suspirou. —Estou contente de pensares que sou bela, Bradford. Mas o que
 acontecerá quando eu envelhecer e ficar enrugada? — Sua voz saiu te- merosa, e ela procurou adivinhar a resposta observando-lhe o rosto. Eu te amo, minha adorada, mas não por causa da tua aparência. E o que vai por dentro de ti, e isso jamais mudará. Pensas que eu poderia ser fútil a ponto de dizer-te que te amo por tua aparência? Caroline sacudiu a cabeça, negando essa verdade, e Bradford tornou a beijá-la de novo. Ele puxou a cabeça dela, encostando-a no ombro, para ela não poder ver a malícia em seus olhos, e acrescentou: —Se fosse esse o caso, eu teria te abandonado quando cortaste
 o cabelo. Caroline não mordeu a isca. Riu, encantada com a sagacidade do marido, e disse-lhe que o único motivo pelo qual ela havia se casado com ele tinha sido o dinheiro. Foi a última vez que os dois se provocaram durante os dois dias
  • seguintes. Os homens que seguiam Franklin avisaram que ele estava para agir novamente. E na manhã do dia 20, a carruagem do duque de Bradford partiu para Bradford Hills. Caroline estava encarando a armadilha como algo bastante prático, até chegar a hora de ela funcionar, e foi aí que pediu ao marido para ficar com ela e mandar os homens cuidarem do Franklin. Quando percebeu que não conseguiria convencê-lo, ela exigiu que ele tornasse todas as precauções possíveis. —Não precisas deixar tantos guardas comigo — argumentou. —Vais ficar no quarto até eu voltar — respondeu Bradford, sem dar atenção ao argumento dela. —Veja se contas bem o número de homens antes de atacares no
 meio de uma emboscada — avisou ela. —Pelo amor de Deus, Caroline! Tem um pouco de confiança na
 capacidade do teu marido! — berrou Bradford. Ele a beijou nesse mo- mento, sua forma de mostrar-lhe que havia gritado sem querer. Caroline seguiu-o até a porta do quarto, onde Milford se encontrava, aguardando, e sussurrou: —Toma bem conta dele, hein, Milford. Bradford ouviu-a e sacudiu a cabeça, exasperado. Deu-lhe um rápido abraço e depois fechou a porta ao sair, deixando a esposa a andar exasperada de um lado para outro, até a sua volta, Bradford colocou dois homens para dirigir a carruagem vazia. Ele e Milford, com seis bons homens, tomaram outro caminho, e quando chegaram aos subúrbios de Londres, saíram da estrada e foram para os morros. Havia diversos lugares ideais para uma emboscada, segundo Bradford
  • calculava, e eles levaram bem umas duas horas de cavalgada, sem parar, para encontrarem os capangas de Franklm. Havia quatro homens de cada lado de uma encosta, agachados contra a densa vegetação, com as armas preparadas para atirar. Bradford viu outro homem, destacado desses grupos, vigiando do topo do morro. Não dava para ver o rosto dele. mas ele estava convencido de que era o Franklin. Ele indicou-o para o Milford, que se virou e também viu a silhueta do homem solitário. —É o Franklin? —Deixa ele comigo — avisou Bradford, num tom agressivo. Os homens que estavam aguardando não tiveram como escapar. O ataque de surpresa terminou rapidamente. E aí Bradford correu para o seu garanhão, na intenção de chegar até onde estava o homem que, sozinho, observava tudo lá de cima. Bradford, montado no seu cavalo, já estava no encalço da sua presa antes de o homem ter chegado ao cume do morro. A floresta era densa, mas a neve tornava fácil seguir os rastros, e Bradford alcançou o inimigo antes de ele ter acabado de descer o morro seguinte. Os dois corriam numa velocidade estonteante, e quando Bradford alcançou o homem, pulou em cima dele. Os dois caíram rolando no chão. Bradford rolou e levantou-se. O outro ficou de bruços, sem mexer-se, e pelo ângulo esquisito da cabeça. Bradfõrd viu que tinha quebrado o pescoço na queda. Ficou furioso diante da rapidez com que ele tinha morrido, ainda com uma tremenda necessidade de vingar-se. O miserável tinha morrido com muita facilidade. Bradford foi até o homem de bruços e usou a bota para virar o cadáver de barriga para cima. Uma estola de lã escondia a parte de baixo do rosto do morto, mas Bradford reconheceu-o assim mesmo. Era mesmo o Franklin, como ele tinha deduzido.
  • Não perdeu tempo remoendo o que fazer do corpo. Franklin devia ser enterrado como tinha vivido. Sem homenagens. Seu corpo agora pertencia aos predadores. E esse foi o fim da história. Loretta e Marie foram detidas pelos homens de Bradford. Não seriam entregues à justiça. Bradford tinha prometido à mulher que Loretta ia ser expulsa do país. E ele entendia por quê. Ela estava pensando no tio Milo e em como ele reagiria se soubesse da verdade. A ameaça tinha passado, e apenas o futuro preocupava Bradford agora. O seu futuro com a mulher que ele amava. ! ! ! ! ! ! ! ! EPILOGO ! O duque de Bradford concluiu alguns negócios necessários em Lon- dres e voltou para casa, em Bradford Hills, já no fim de uma tarde, louco para rever a esposa. Só tinha estado longe da mulher três dias, mas para ele pareceu uma eternidade, e ele queria mais do que tudo no mundo toma- la nos braços. Ficou surpreso quando Henderson informou-lhe que a esposa estava no andar de cima, com dois rapazes que tinham vindo visitá-la. Contra suas objeções, a sua dócil esposa tinha convidado a mãe para visitá-la, e,
  • na semana passada, Paul e Charity tinham passado quatro dias na casa dos Bradford. Ele suspirou, exasperado, e subiu, com toda a intenção de dizer a Caroline que já estava cansado de ser hospitaleiro. O som de risadas vindas do quarto fê-lo parar, e ele hesitou antes de abrir a porta. A visão diante de seus olhos realmente quase o fez perder a paciência. Havia dois homens no seu quarto. Um deles estava todo à vontade, na sua espreguiçadeira, e o outro estava sentado na beirada da cama, com os braços pendurados nos ombros de Caroline. — Se não parares de torcer e contorcer o corpo assim, não conse- guirei tirar tuas botas — disse Caroline ao estranho. Bradford ergueu uma sobrancelha ao ouvir essa ameaça, e aí a esposa olhou de relance para o seu lado e o viu. —Tu bem que poderias me ajudar— gritou para ele. Ele não argumentou, mas foi até o homem que estava se segurando nos ombros da sua esposa, e devagar tirou seus braços de cima dela. —Agora me diz, o que tens em mente? — perguntou, com toda a tranquilidade. O homem caiu para trás quando seus braços não puderam mais se segurar em nada. Seus olhos estavam fechados, e assim que ele tocou o colchão, começou a roncar. —Acho que é melhor me dar um beijo primeiro — disse Caroline,
 sorrindo. — Bem-vindo ao lar— murmurou. Colocando-se na ponta dos pés, depositou um beijo casto na face do marido. __ Mas que recepção mais sem graça — reclamou Bradford. —Essa foi para o duque de Bradford — disse-lhe Caroline. — E
 esta aqui __ prosseguiu, puxando a cabeça dele para perto de si — é
 para o meu marido. __E aí beijou-o, pendurada no pescoço dele, um
 beijo demorado e apaixonado, extremamente provocante.
  • — Já descobri que só me chamas de Jered quando queres que eu te leve para a cama — murmurou Bradford. —Mas que esperteza, a sua — respondeu Caroline. Seus olhos,
 cálidos, eram convidativos, seu amor por ele claramente expresso para
 ele ver. Um dos estranhos resmungou alguma coisa enquanto dormia, e a atenção de Bradford voltou-se para eles. —Quem são esses dois. Caroline? Caroline já tinha dado as costas para o homem que estava deitado na cama, e ficou tentando remover-lhe uma das botas. —Ajuda-me a despi-lo — ordenou. Bradford suspirou, exasperado e agarrou-a. Obrigou-a a olhar para ele, e perguntou de novo: —Quem são? —O Henderson não te avisou? __ E os olhos de Caroline arre- galaram-se de repente. Ela olhou para o homem que roncava na cama e depois para o marido. E aí se jogou nos seus braços, abraçando-o e beijando-o até ele quase nem querer mais se importar com quem eram aqueles homens nem com o que estaria acontecendo. —Por que eles estão aqui no nosso quarto? — indagou. —Estes dois são o Caimen e o Luke, meus primos — explicou ela, sorrindo. — O Caimen é o que está na cadeira — identificou. — Ah, eu queria tanto que eles deixassem em você uma primeira impressão impecável, mas meus primos começaram a comemorar assim que chegaram a Londres, e agora estão na maior água. O máximo que consegui foi trazê-los até nosso quarto, não pude levá-los mais longe — desculpou-se. — Bradford, percebes que não estás gritando comigo? Não tiraste nenhuma conclusão apressada. Bradford fingiu exasperar-se outra vez, mas por dentro estava sorrindo.
  • Não tinha mesmo imaginado nenhuma sordidez. —Confio em ti — declarou. —Eu sempre soube disso — respondeu Caroline. Seus olhos encheram- se de lágrimas e ela precisou abraçá-lo de novo. — Acho que amo Jered Marcus Benton e o duque de Bradford também — murmurou. —Eu sempre soube disso — respondeu o marido, nurn tom ar- rogante... e terrivelmente terno. Ele ergueu a esposa nos braços e foi
 saindo do quarto, exigindo saber onde é que eles poderiam ir para po- derem ter um pouco de privacidade. Caroline beijou o marido, e foi lhe indicando para onde devia levá-la, aos cochichos. ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! Julie Garwood começou sua carreira iterária quando o caçula de seus três filhos entrou na escola. Depois de publicar dois livros juvenis, Julie enveredou-e para a ficção histórica. Desejo Rebelde é o segundo livro de sua série de romances históricos no Brasil.