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  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRECENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA NATUREZA FRUTICULTURA TROPICAL Profº. Sebastião Elviro de Araújo Neto Rio Branco – Acre 2012
  • 2. SUMÁRIO1. IMPORTÂNCIA DA FRUTICULTURA BRASILEIRA .......................................................... 3 1.1 - Aspectos econômicos e sociais .......................................................................................... 3 1.2 - Exportações brasileiras de frutas .................................................................................... 4 1.3 - Em busca da auto-suficiência........................................................................................... 5 1.4 - Desperdiço de frutas no Brasil ......................................................................................... 5 1.5 - Consumo Per Capta de frutas .......................................................................................... 6 1.6 - Principais países produtores de frutas ............................................................................ 6 1.7 Pólos frutícolas do Brasil .................................................................................................... 7 1.8 Divisão das plantas frutíferas quanto ao clima .......................................................... 7 1.9 - Aspectos sociais ................................................................................................................. 8 1.10 - Aspectos nutracêuticos ................................................................................................... 8 1.11 Função medicinal das frutas........................................................................................... 16 1.12 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 182. PANORAMA ATUAL E POTENCIAL DA FRUTICULTURA ACREANA ........................ 20 2.1 Fruticultura na Amazônia ................................................................................................ 20 2.2 Aspectos Gerais do Estado do Acre ................................................................................. 20 2.3 Principais fruteiras cultivadas no Acre ........................................................................... 20 2.4 Frutas potenciais ............................................................................................................... 24 2.5 Fruticultura nos Sistemas Agroflorestais-SAFs ............................................................. 25 2.6 Tecnificação dos pomares ................................................................................................. 25 2.7 Agroindústria ..................................................................................................................... 26 2.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 263. SISTEMAS DE PRODUÇÃO NA FRUTICULTURA ............................................................ 284. PROPAGAÇÃO DE PLANTAS FRUTÍFERAS ..................................................................... 39 4.1 - Propagação por semente................................................................................................. 39 4.2. Propagação assexuada ..................................................................................................... 45 4.3. Métodos de propagação vegetativa ................................................................................. 48 4.5 Matrizes copa e porta-enxertos ........................................................................................ 69 4.6 Referências ......................................................................................................................... 705. VIVEIROS ................................................................................................................................ 71 5.1 Tipos ................................................................................................................................... 71 5.2 Localização ......................................................................................................................... 72 5.3 Dimensionamento .............................................................................................................. 73 5.4 Instalações .......................................................................................................................... 73 5.5 Formação da muda............................................................................................................ 74 5.6 Substratos e recipientes .................................................................................................... 75 5.7 Recipientes ......................................................................................................................... 79 5.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 806. PLANEJAMENTO E IMPLANTAÇÃO DE POMAR ............................................................ 82 6.1 –Planejamento do pomar .................................................................................................. 82 6.2 – Talhões............................................................................................................................. 82 6.3 - Sistema de Plantio ........................................................................................................... 84 6.4 - Marcação das Covas ....................................................................................................... 85 6.5 - Preparo do solo ................................................................................................................ 86 6.6 - Abertura e preparo das covas ........................................................................................ 86 6.7 - Plantio .............................................................................................................................. 87 6.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 887. PODA DAS PLANTAS FRUTIFERAS ................................................................................... 90 7.1 Princípios fisiológicos que regem a poda......................................................................... 90
  • 3. 7.2 Poda e condução de frutíferas .......................................................................................... 92 7.3 Tipos de poda ..................................................................................................................... 93 7.4 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 978. FLORESCIMENTO E FRUTIFICAÇÃO ................................................................................ 98 8.1 Fatores internos que afetam a frutificação ..................................................................... 98 8.2 Fatores externos que afetam a frutificação ................................................................... 102 8.3 Efeito hormonal na frutificação ..................................................................................... 105 8.4 Referências ....................................................................................................................... 1059. COLHEITA E PÓS-COLHEITA DE FRUTOS ..................................................................... 106 9. 1 Definição de Fruto e Fruta ............................................................................................ 106 9.2 Fisiologia do desenvolvimento dos frutos ...................................................................... 106 9.3 Tipos de colheita .............................................................................................................. 111 9.4 Estádio de maturação...................................................................................................... 113 9.5 Pré-resfriamento.............................................................................................................. 114 9.6 Higiene do campo e aspectos fitossanitários ................................................................. 115 9.7 Sistema de armazenamento ............................................................................................ 118 9.8 Padronização e classificação ........................................................................................... 121 9.9 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 12210 CULTURA DO AÇAIZEIRO ................................................................................................ 124 10.1. Produção brasileira de açaí ......................................................................................... 124 10.2 Produtividade ................................................................................................................ 124 10.3 Origem, Dispersão e Botânica ...................................................................................... 125 10.4 Período de produção ..................................................................................................... 127 10.5 Ecofisiologia ................................................................................................................... 128 10.6 Melhoramento Genético ............................................................................................... 129 10.7 Cultivares ....................................................................................................................... 130 10.8 Propagação ..................................................................................................................... 131 10.9 Nutrição mineral ........................................................................................................... 132 10.10 Manejo agronômico..................................................................................................... 133 10.11 Pragas ........................................................................................................................... 134 10.12 Doenças ......................................................................................................................... 134 10.13 Colheita e Pós-colheita ................................................................................................ 134 10.14 Pós-colheita .................................................................................................................. 135 10.15 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 138 10.16 Coeficiente técnico ....................................................................................................... 140 10.17 Referências ................................................................................................................... 14011 CULTURA DO CUPUAÇUZEIRO ...................................................................................... 142 11.1 Aspectos Sócio-Econômicos .......................................................................................... 143 11.2. Origem, Dispersão, Botânica e Ecologia .................................................................... 144 11.3 Ecofisiologia ................................................................................................................... 144 11.4 Melhoramento Genético ............................................................................................... 145 11.5 Cultivares ....................................................................................................................... 151 11.6 Propagação ..................................................................................................................... 151 11.7 Nutrição mineral ........................................................................................................... 151 11.8 Manejo agronômico....................................................................................................... 152 11.9 Pragas do cupuaçuzeiro ................................................................................................ 154 11.10 Doenças do cupuaçuzeiro............................................................................................ 155 11.11 Colheita e beneficiamento ........................................................................................... 158 11.12 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 159 11.13 Coeficiente técnico ....................................................................................................... 159 3
  • 4. 11.14 Referências ................................................................................................................... 16012. CULTURA DO MARACUJAZEIRO .................................................................................. 162 12.1 Aspectos socioeconômicos ............................................................................................. 162 12.2 - Produção Brasileira .................................................................................................... 162 12.3 Origem, Dispersão e Botânica ...................................................................................... 163 12.4 Ecofisiologia ................................................................................................................... 164 12.5 genéticA do maracujazeiro ........................................................................................... 164 12.6 Melhoramento Genético do Maracujazeiro ................................................................ 166 12.7 Cultivares ....................................................................................................................... 167 12.8 Propagação ..................................................................................................................... 169 12.9 Solos e Nutrição Mineral .............................................................................................. 172 12.10 Manejo agronômico..................................................................................................... 173 12.11 Pragas ........................................................................................................................... 177 12.12 Doenças ......................................................................................................................... 180 12.13 Colheita e Pós-colheita ................................................................................................ 182 12.14 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 185 Custo de produção e rendimento econômico ...................................................................... 186 12.15 Coeficiente técnico para implantação de 1 hectare de maracujá (espaçamento 3,0 x 3,0m) ....................................................................................................................................... 187 12.16 Referências ................................................................................................................... 19013 CULTURA DO ABACAXIZEIRO ....................................................................................... 19514 CULTURA DO MAMOEIRO ............................................................................................... 210 4
  • 5. Importância da fruticultura brasileira1. IMPORTÂNCIA DA FRUTICULTURA No Brasil, o estado de São Paulo se destaca naBRASILEIRA produção de frutas, principalmente pela alta produção de citros e exportação de suco de laranja concentrado e O Brasil por possui uma extensa área congelado (SLCC), colocando o Brasil como o maiorterritorial, com 8.500.000 km2 encontra-se uma produtor mundial de citros e maior exportador dogrande variação climática e seus microclimas que SLCC. Além disso, destaca-se também pela grandepossibilitam o cultivo econômico da maioria das variedade de espécies frutíferas cultivadas em cada umfruteiras, que torna o país o terceiro produtor mundial de seus microclimas. Aliado a outros fatores, o altode frutas, atrás apenas da China e Índia, primeiro e índice tecnológico nos pomares paulistas, contribuisegundo maiores produtores, respectivamente. Aliado para a boa produtividade alcançada.ao volume de produção, a geração de renda eemprego, o consumo interno de frutas, torna a Quadro 1.1 Produção, produtividade e área cultivadafruticultura um ramo econômico que promove das principais espécies cultivadas no Brasil em 2009.desenvolvimento social no país. Além do valor da produção, a fruticultura fazparte de rotas turísticas, como os vinhedos do sul dopais, incorporando recursos econômicos e sociaisimportante para odesenvolvimento dessas regiões,especificamente do campo, com maior agregação devalor, diversificação de produtos e serviços.1.1 - Aspectos econômicos e sociais A cadeia produtiva das frutas no campo,abrange 2,5 milhões de hectares, gera 6 milhões deempregos diretos ou seja, 27% do total da mão-de-obra agrícola ocupada no campo. Este setor demandamão-de-obra intensiva, fixando o homem no campo. Apesar do baixo retorno econômico nosprimeiros anos do pomar, durante a frutificação de A maioria da produção brasileira é destinadamuitas espécies, há redução da mão de obra e do ao consumo interno, tanto ao natural quantocusto de produção, podendo garantir renda na processada na forma de doces, geléias, sucos, vinhosagricultura familiar, principalamente em propriedades e outros. Pois o terceiro maior produtor de frutas nãocom pouca mão-de-obra ou mão de obra de idosos. é um dos principais exportadores, em 2009, exportou Em se tratando de empresas rurais, é possível apenas 1,8% da produção. Porém, apesar de nãoalcançar um faturamento bruto de R$1.000 a aumentar o saldo na balança comercial brasileira comR$20.000 por hectare. Além disso, para cada 10.000 as exportações, o consumo interno pode reduzir adólares investidos em fruticultura, geram-se 3 importação pelo consumo das frutas brasileiras e comempregos diretos permanentes e dois empregos isso, melhorar a saúde da população que seindiretos. O valor bruto da produção de frutas em consientiza cada vez mais da importancial alimentar2009 situou-se em 17,5 bilhões de reais. das frutas na saúde humana. As principais frutíferas cultivadas no Brasil O principal motivo da baixa exportação desão: laranja, banana, abacaxi, melancia, coco, frutas pelo Brasil é a baixa qualidade das frutas,mamão, uva, maçã, manga, tangerina, limão, infraestrutura deficiente e principalmente osmaracujá, melão, goiaba, pêssego, Caqui, abacate, embargos econômicos e sanitários impostos pelosfigo, pêra dentre outras (Quasdro 1). Outras frutas países importadores.regionais “raras” (exóticas e nativas) possuem altopotencial de mercado, incluindo acerola, atemoya,açaí, cupuaçú, bacuri, marolo, pinha, castanhas, cajá,ceriguela, mangaba, sapoti, graviola, envira-cajú eoutras que necessitam ser estudadas (Alves et al.,2008, Farias, 2009). Dessas frutas, a laranja, representam 42,9% dototal da produção de frutas brasileria, seguida dabanana com 16,5% da produtção, por isso, seucomportamento tem influência muito forte nosnúmeros gerais. E elas registraram desempenho bemdiferenciado de 2004 para 2005. Atualmente, o Brasil é o maior produtor delaranja e o segundo produtor mundial de banana,atrás apenas da Índia. 3
  • 6. Importância da fruticultura brasileira1.2 - Exportações brasileiras de frutas 1000000 US$ 900000 t As frutas brasileiras, aos poucos, vão 800000ganhando o mercado mundial e abrindo espaço para 700000transformar o Brasil em um grande exportador, 600000criando novas oportunidades de negócio para osagricultores brasileiros em um empreendimento com 500000alta rentabilidade. No total, a receita com as 400000exportações brasileiras de frutas cresce 300000constantemente e atinge seus 609 milhores de reais 200000em 2010 (Figura 1.1). 100000 A colheita mundial de frutas, no entanto, é de 0540 milhões de toneladas, correspondendo ao 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2009 2010montante de US$ 162 bilhões, em valor comercial. AChina, sozinha, é responsável por 157.716 milhões de Figura 1.1 – Evolução das exportações brasileiras detoneladas (Quadro 1.2). Embora o País constitua um frutas frescas 1998-2010 (IBRAF, 2012).grande produtor, a participação do Brasil nosnegócios mundiais de frutas é pequena, representando Quadro 1.3 Exportação brasileira de frutas em 2009.1,6% em divisas e 2,3% em volume. A Nação situa- Frutas Valor Quantidadese em 20º lugar entre os exportadores. (US$) (kg) Uva 136.648.806 60.805.185Quadro 1.2 Produção dos principais países produtores Melão 121.969.814 177.828.525de frutas. Manga 119.929.762 124.694.284 País Produção (t) 2004 Maçã 55.365.805 90.839.409 China 157.716.081 Banana 45.389.163 139.553.134 Índia 54.581.900 Limão 50.693.603 63.060.909 Brasil 39.112.663 Mamão 35.121.752 27.057.332 Estados Unidos 32.523.920 Laranja 16.276.736 37.821.810 Itália 18.091.800 México 16.863.506 Abacaxi 998.318 1.889.842 Turquia 16.305.750 Melancia 12.356.105 28.261.716 Irã 15.139.110 Figo 7.310.886 1.446.458 França 11.764.270 Tangerina 1.850.034 1.977.479Fone: FAO/DATAFRUTA-IBRAF. Goiaba 326.364 147.348 Coco 121.240 407.737 Esse mercado movimenta US$21 bilhões por Outras frutas 1.931.663 815.874ano. Mas as vendas brasileiras vêm crescendo, tendo Outros citrus 4.978 4.51941.117aumentado em torno de 200% nos últimos seis anos. Total Frutas Frescas 609.612.136 759.420.595Em 2007, a receita com o comércio de frutas ao Fonte: SECEX/IBRAF em 03/12/2012exterior foi de US$ 642.743 milhões. A valorização do real em relação ao dólar foi o Mesmo com esses problemas, e com todas asprincipal obstáculo para um melhor comportamento exigências comerciais e sanitárias dos paísesdas vendas brasileiras de frutas a outros países. importadores, o Brasil continua com sua imagemAnalisando o caso da maçã: muitas empresas fortalecida como grande fornecedor mundial, poisexportaram porque havia contrato firmado e também ocupa o terceiro lugar nas exportações de mangapara não perder o cliente, pois o preço da espécie no (com 111 mil toneladas), depois de México (212 mil)mercado externo não compensava. A queda da maçã e Índia (156 mil), em números da safra 2004. O Paísfoi de 36,91% em valor e de 35,1% em volume em fica em quinto lugar nas exportações de melão, atrás2005, no comparativo com o ano anterior, quando ela da Espanha, Costa Rica, Estados Unidos e Honduras.fora a grande estrela. A banana, que representa o maior volume de vendas Outra fruta que teve redução acentuada – de por parte do Brasil (188,087 mil toneladas em 2004),58,34% em valor e de 65,99% em volume – nas torna o País o 15º exportador, sendo as primeirasexportações de 2005 foi a laranja. Além do dólar posições ocupadas por Equador, Costa Rica,baixo, a doença conhecida como pinta-preta Filipinas, Colômbia e Guatemala. No coco, osdificultou as remessas para o exterior. “Todos os brasileiros ocupam o 20º lugar; na maçã e na laranja,contêineres eram verificados e, se fosse constatado o 12º; e na uva, o 18º.qualquer indício, a firma era riscada do rol dos Além de ter havido crescimento nasexportadores por parte da Europa”, assinala o gerente exportações brasileiras nos últimos anos, com ade Exportação do IBRAF. Em razão disso, muitas conquista de novos mercados na Ásia e no Orienteempresas nem chegaram a abrir seus packing-houses. Médio, um ponto fundamental é que as importaçõesSebastião Elviro de Araújo Neto 4
  • 7. Importância da fruticultura brasileirade frutas foram acentuadamente reduzidas. Elas têm Quadro 1.4. Importação brasileira de frutas em 2009.se limitado a alguns períodos do ano em que aindanão se registra produção interna ou a alguns tipos Frutas Valor Quantidadeespecíficos. As mais importadas são pêra, maçã, (US$/mil) (tonelada)ameixa, kiwi, cereja e nectarina. Em 2005, segundo Pêra 161.974.250 189.840.518dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e Maçâ 60.046.723 76.879.090do Ibraf, as importações brasileiras chegaram a Ameixa 32.417.159 24.278.543224,494 mil toneladas em volume e a US$ 125,634 Quiwi 21.867.849 20.596.664milhões em valor. Uva 36.074.860 24.794.695 Os maiores compradores são os países baixos Ameixas 32.417.159 24.278.543(Holanda), com 32% do volume exportado, seguido Pêssegos 13.322.481 11.074.033pelo Reino Unido, com 18%, este, desde a década de Nectarinas 13.221.893 10.421.85790 vem se constituindo como o principal mercado Laranjas 4.841.635 6.002.603para as frutas brasileiras. Tangerinas 2.960.118 3.438.598 Também no Mercosul está crescendo o Total Outras Frutas 367.491.907 374.037.298mercado para a fruticultura nacional, sendo a Fonte: SECEX/DECEX/MDIC;DECOM/SPC/MAPAArgentina responsável por 12% das nossasexportações e o Uruguai por outros 6%. Além disso, Os investimentos realizados nos pólos deo Brasil exporta para Estados Unidos, Portugal, fruticultura irrigada no Nordeste, no sudeste do País eBélgica, Finlândia e Emirados Árabes Unidos. no Sul estão se consolidando porque há um grande Apenas para fazer uma comparação, o Chile retorno econômico e social nesta atividade. Para cadaque é um dos maiores exportadores de frutas ao hectare de pomar é gerada uma renda denatural, exporta cerca de US$1,6bilhão, aproximadamente R$ 15 mil. Isso que dizer que,aproximadamente o mesmo valor que rende a dentro da agricultura, o segmento frutícola está entreexportação do suco de laranja brasileiro, exportação os principais geradores de renda, de empregos e dede fruta na forma de suco e com valor agregado nas desenvolvimento rural.grandes industrias paulistas. Fatores que incentivam a produção Além dos US$ 643 milhões, o Brasil exportou 1. Geração de empregos no campo e na cidadeem frutas processadas, o equivalente a US$ 2.7 bi. 2. Renda de R$ 1 mil a R$ 25 mil por hectare 3. Sustentabilidade da produção1.3 - Em busca da auto-suficiência 4. Disponibilidade de recurso 5. Grande demanda no mercado interno Mesmo sendo o terceiro maior produtor 6. Grande demanda no mercado internacionalmundial de frutas, o Brasil, país de dimensões 7. Incentivo às exportaçõescontinentais, encontra dificuldade em atender ao seumercado interno e precisa importar para suprir sua Exemplos de rentabilidadedemanda de consumo. Mas, nos últimos anos, Cada hectare de vinho gera:observa-se um crescente aumento nas exportações e Renda/hectare/ano: R$ 20 mil de dinheiro novodiminuição na importação de frutas (Figura 1.2). circulando na região produtora Renda com industrialização Os problemas para este atendimento vão desde Mais R$ 20 mil (R$ 40 mil/ha/ano)aspectos culturais, precariedade de logística, falta de Cada hectare de vinhedo ofereceplanejamento e integração dos mercados regionais, 1 emprego direto, a permanência de uma família noaté as dificuldades econômicas da maioria da campo e 2 empregos indiretospopulação. Atualmente, o mercado interno segue atendência mundial de aumento do consumo de frutasfrescas, dentro dos princípios difundidos de melhoria 1.4 - Desperdiço de frutas no Brasilda qualidade de vida e cuidados com a saúde.Portanto, além de exportar para o mercado O Brasil acumula prejuízos de milhões deinternacional, o Brasil precisará aprender a exportar dólares todos os anos na produção e processamentopara ele mesmo, qualificando a produção, a de frutas. As perdas variam de 30% a 60% do totaldistribuição e a comercialização. produzido nos pomares brasileiros, dependendo da Contudo, a cadeia produtiva da fruticultura é a espécie e do estágio em que a fruta é descartada peloárea que mais cresce dentro do agronegócio brasileiro mercado.e deverá alcançar um patamar de grande exportador. As perdas começam na lavoura e terminam nas Todos os estados da federação acordaram para gôndolas dos supermercados. Antes disso, passa pelauma realidade: a fruticultura gera dinheiro, o País tem embalagem inadequada, o transporte indevido,potencial para produzir muito e com qualidade, há manejo equivocado e estocagem errada. As perdas naum mercado com alta demanda e em crescimento. lavoura ocorrem por desconhecimento do produtor, que adota manejo inadequado do pomar e usa variedades não-adaptadas. Além disso, há os fatoresSebastião Elviro de Araújo Neto 5
  • 8. Importância da fruticultura brasileiraclimáticos que podem influenciar, como tempestades,  O consumo de frutas do quintal também nãoventos, geadas, excesso hídrico ou estiagens. entra nas estatísticas. A utilização de embalagens inadequadastambém é fator de prejuízos à produção nacional de Quadro 1.5 Consumo Per Capta de frutas em algunsfrutas. No Brasil é costume utilizar caixas de madeira países.estreitas, impróprias para acondicionar o produto.Isso aperta as frutas, machuca e ainda provoca País Consumo (Kg / ano)contaminações pelo uso contínuo sem os cuidados de Alemanha 112,00higiene necessários. Por isso é necessária a Reino Unido 68,50adequação das embalagens. França 91,40 Outro ponto fraco do processo pós-colheita da Itália 114,80fruticultura brasileira é o transporte, que deveria ser Países Baixos 90,80feito em caminhões refrigerados e já com as frutas Espanha 120,10embaladas. Normalmente a operação é realizada em EUA 67,40caminhões comuns cobertos com lonas. E na comercialização, pelo falta de um bom Canadá 81,10sistema de informações para viabilizar o Japão 61,80planejamento da produção, medida que é rotineira na Brasil 57,00Europa e nos Estados Unidos. Com informações demercado, o produtor poderia se planejar para produzir De Angelis (2001) afirma que a educaçãoexatamente o volume de frutas que terá demanda. nutricional ao longo da vida é uma necessidade para melhorar as condições nutricionais.1.5 - Consumo Per Capta de frutas 1.6 - Principais países produtores de frutas O consumo per capta brasileiro é praticamentea metade em relação à Itália, Espanha e Alemanha e A China foi o maior produtor mundial debem abaixo de outros países (Quadro1.4). Vários frutas no ano de 2002, com a quantidade defatores estão relacionados a este fato: 133.077.000 toneladas e destacando-se como grande  O brasileiro ainda não tem consciência da produtora mundial de melancia, maçã, melão e pêra.importância das frutas na alimentação. A Índia foi o segundo produtor mundial neste  O baixo índice tecnologia empregada na mesmo ano quando registrou a quantidade defruticultura brasileira causa preços elevados das 58.970.000 de toneladas e sendo um grande produtorfrutas, além da baixa renda per capta do brasileiro. de banana, manga e coco.  O consumo de frutas nativas, como açaí,jabuticaba, cajá, jaca, cupuaçu, graviola e outras nãoentram na estatística do consumo per capta brasileiro.Quadro 1.6 Produção mundial de frutas em 2004. (mil toneladas) Mundo China Índia Brasil USA Filipinas Indonésia Itália México Espanha TurquiaTotal 503.278.149 157.716 54.582 39.113 32.524 18.092 16.864Melancia 94.938.957 68.300.000 255.000 622.060 1.669.940 107.056 - 500.000 970.055 764.600 4.300.00Banana 71.343.413 6.420.000 16.820.000 6.602.750 10.000 5.638.060 4.393.685 400 2.026.610 412.700 110.000Uva 66.569.761 5.527.500 1.200.000 1.278.885 5.418.160 120 - 8.691.970 456.638 7.147.600 3.600.000Laranja 62.814.424 1.977.575 3.100.000 18.256.500 11.729.900 28.700 871.610 2.064.099 3.969.810 2.883.400 1.280.000Maçã 61.919.060 22.163.000 1.470.000 977.863 4.571.440 - - 2.069.243 503.000 603.000 2.300.000Melão 27.703.132 14.338.00 645.000 180.000 1.150.440 19.000 - 608.200 590.000 1.102.400 1.700.000Manga 26.573.579 3.582.000 10.800.000 850.000 2.800 967.535 1.006.006 - 1.503.010 - -Tangerina 22.942.253 10.556.000 - 1.270.000 492.600 55.500 - 576.446 360.000 2.368.700 565.00Abacaxi 15.288.018 1.420.000 1.300.000 1.435.190 270.000 1.759,290 463.063 - 720.900 - -Limão 12.338.795 611.300 1.420.000 1.000.000 732.000 52.000 - 564.794 1.824.890 908.700 535.000Mamão 6.708.551 161.000 700.000 1.650.000 16.240 131.869 - - 955.694 - -Abacate 3.078.111 84.000 - 175.000 200.000 - 177.263 - 1.040.390 75.699 370Fonte: FAO (2005). O Brasil está classificado em terceiro lugar produtor de manga, citros, melão e outras frutascom a quantidade de 39.113.000 toneladas, sendo um tropicais.grande produtor de laranja, banana, coco e mamão. Depois em quarto lugar aparece os EstadosUnidos como grande produtor mundial de laranja,uva, maça e pomelo, a Itália em quinto lugardestacando-se como produtora de uva, maçã epêssego. O México em sexto lugar como grandeSebastião Elviro de Araújo Neto 6
  • 9. Importância da fruticultura brasileira1.7 Pólos frutícolas do Brasil Existem hoje no Brasil 30 pólos defruticultura, espalhados de norte a sul e abrangendomais de 50 municípios. O Pólo Assu/Mossoró, no Rio Grande doNorte, que se tornou a maior região produtora demelão do País, e o Pólo Petrolina/Juazeiro, que jáconta com mais de 100 mil hectares irrigados,exportando manga, banana, coco, uva, goiaba epinha, e garantindo emprego a 4000 mil pessoas emáreas do semi-árido da Bahia e Pernambuco, sãoexemplos de sucesso. Outro que vem crescendo e que é um dos maisavançados na produção de frutas para exportação é oPólo Baixo Jaguaribe, no Ceará, que já conta com 52mil hectares irrigados. Também o Pólo de desenvolvimento Norte deMinas/MG merece ser citado por sua importância naprodução frutícola que atingiu, em 1999, 264.050 Figura 1.1 – Localização do pólos frutícolas dotoneladas de banana, limão, manga, uva, coco e Brasil.mamão. Não pode ser esquecido o Pólo de São Paulo, 1.8 Divisão das plantas frutíferas quanto aoum dos primeiros a surgir no País e que hoje sofre a climaconcorrência do Nordeste nas exportações, mas queainda é o grande fornecedor do mercado interno de Quanto às exigências de clima, as plantasfrutas frescas, o primeiro nas exportações de citros e podem dividir-se em plantas de clima temperado,suco de laranja e tem forte presença em banana, subtropical e tropical.manga, goiaba, uva de mesa e outras. São Pauloexportou, em 2001, 194.660 toneladas de frutas, com Plantas de clima temperadodestaque para laranja (139.553 t), tangerina (17.250t), limão (12.498 t), banana (9.695 t), mamão (4.808 Essas plantas podem ser sub divididas, emt), abacaxi (2.560 t), manga (1.996 t), melão (1.783), muito exigentes e pouco exigentes em frio.uva (1.436 t) e outras, representando um faturamento Dentro de uma mesma espécie, encontramosde US$ 50,1 milhões. variedades que se acomodam a essa exigência, como Há ainda o pólo do Rio Grande do Sul, o pessegueiro, a macieira, a pereira, a ameixeira, atradicional produtor de uva para produção de vinho e pecã, o caqui. Existem variedades que produzemde pêssego para a industria e de mesa. Além disso, na satisfatoriamente em regiões de inverno brando, aoregião de Vacaria, nos Campos de Cima da Serra, passo que outras exigem inverno longo e rigorosoflorescem os pomares de maçã, dando ao Estado o para frutificar economicamente, que dure de dois asegundo lugar nas exportações dessa fruta, depois de três meses, com temperatura de 0ºC, podendo atingir,Santa Catarina, onde as macieiras se estendem pelos no verão, de 30 a 40ºC.municípios de Fraiburgo e São Joaquim. As espécies de clima temperado podem desenvolver a frutificação na área subtropical e mesmo na tropical, desde que o repouso hibernal seja substituído por período seco que impeça a vegetação, porém as plantas de clima tropical e subtropical dificilmente encontram condições para prosperar nas zonas temperadas. A área de distribuição favorável para as espécies frutíferas de clima temperado concentra-se no sul do Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul. Encontram-se, entretanto, dispersas pelo país, regiões microclimáticas, como a serra da Mantiqueira, a serra dos Cristais e regiões do interior e do norte do Brasil, que compensam a latitude com a altitude, oferecendo também microclimas favoráveis.Sebastião Elviro de Araújo Neto 7
  • 10. Importância da fruticultura brasileiraPlantas de clima subtropical e tropical em sistemas de produção de alta tecnologia geram apenas entre 2 a 40 horas/ha (Mello et al., 2000). Os vegetais tropicais e subtropicais encontram, A alta geração de emprego ocorre por se tratara partir do centro do Estado de São Paulo até o de cultivo extensivo e intensivo, exigindo a presençaAmazonas, condições ecológicas para o seu constante de mão-de-obra.desenvolvimento, com exceção das regiões Por isso, existe atualmente grandes incentivosmontanhosas, onde a queda de temperatura oferece à projetos de irrigação, principalmente por ser umasmicroclima favorável às culturas temperadas. das atividades agrícolas que exige pouco recursos Pelos conhecimentos adquiridos sobre espécies para gerar empregos.de clima temperado, subtropical e tropical, econhecendo-se as condições ecológicas de cada 1.10 - Aspectos nutracêuticosregião, podem-se estabelecer pomares comerciaiscom grande probabilidade de êxito. A estimativa dos órgãos governamentais é que Assim, as culturas de abacaxi, anona, banana, 70% das mortes de brasileiros ocorreram por motivococo-da-bahía, mamão, manga, tâmara, citros, abacate, de doenças crônicas. Aproximadamente 35% dosgoiaba, jabuticaba encontrariam condições ecológicas casos de câncer no mundo tem como causa principaldas mais favoráveis a partir da parte central do Estado uma alimentação desequilibrada.de São Paulo até o norte, incluindo as regiões central e Os alimentos vegetais, em geral, são alimentosnordeste, que se enquadram dentro de clima indispensáveis e mais importantes para a vida. Elessubtropical e tropical. As espécies de clima temperado, são fontes principais de minerais, vitaminas, fibras,entretanto, como ameixeira, figueira, macieira, açúcar, além de proteínas e gorduras, em menoroliveira, pecã, pessegueiro, pereira e videira, quantidade, substâncias essenciais para todo oencontrariam condições mais satisfatórias do sul do funcionamento do organismo. Os vegetais contém,Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul. também, substâncias protetoras e curativas, com ação anti-infecciosa, anti-inflamatória, anti-parasitária,1.9 - Aspectos sociais anti-reumática, anti-hipertensiva, diurética, laxativa, desintoxicante e vitalizadora de todo organismo. São Os 6 milhões de empregos gerados nos 2,5 alimentos equilibrados e determinam uma perfeitamilhões de hectares de fruticultura é em grande parte saciedade do apetite, impedindo o comer excessivo, apor causa do baixo investimento necessário para a busca constante por comidas, portanto, evitam egeração de emprego, pois, para cada 10.000 dólares curam a obesidade.investidos em fruticultura, geram-se 3 empregosdiretos permanentes e dois empregos indiretos. Visto 1.10.1 Comportamento alimentar do homempor outro ângulo, 2,5 milhões hectares com frutas noBrasil significam 6 milhões de empregos diretos (2 a Uma grande parte de nossa população passa5 pessoas por hectare). fome, no sentido de escassez ou de impossibilidade Química de adquirir os alimentos fundamentais, outra parte 220000 Investimento médio para gerar um emprego (US$) gasta-se além do necessário em sistemas alimentares de verdadeiras manias (De Angelis, 2001). Mas, para os que comem, “comer não é apenas uma questão de matar a fome” (Burgierman, Metalúrgica 145000 2002). A decisão sobre que comida colocar no prato Pecuária tem implicações econômicas, ambientais, éticas, 100000 Automobilísmo culturais, fisiológicas, históricas, religiosas e etc. 91000 Turismo Assim, os lactovegetarianos comem ovos, leite e 66000 Agricultura derivados, por não “resultarem” do sofrimento animal 37000 ou por não conter toxinas produzidas antes da morte Fruticultura animal; os vegans acreditam na liberdade total dos 6000 2500 animais e não se alimentam de produtos de origem animal e deveriam fotografar apenas com máquinasFigura 1.2 - Investimento médio para gerar um digitais, devido os filmes das máquinas analógicasemprego em algumas atividades industriais, turismo e conterem uma gelatina retirada da canela da vaca; osagropecuárias. frugivoristas não só rejeitam carne como evitam machucar ou matar vegetais. Por isso, comem apenas Um exemplo de geração de emprego é o caso aquilo que as plantas “querem” que seja comido:da atemóia no Estado de São Paulo. Segundo estudos frutas, castanhas e sementes, consideram o consumode Mello et al., (2004), a atemóia assim como outras de folhas, caules e raízes uma violência.frutíferas, é grande absorvedora de mão-de-obra, Mas afinal, o homem é onívoro ou frugívoro?requer cuidados agronômicos sistemáticos cerca de1.153 horas/ha/ano, enquanto que as culturas anuaisSebastião Elviro de Araújo Neto 8
  • 11. Importância da fruticultura brasileira Baubach, (1992) cita o Dr. Friedman, que como alguns biscoitos. A vitamina B12 pode estáafirma ser o homem um frugívoro, não só pela forma presente em alguns pró-bióticos, como o Kefir,e disposição do seu sistema dentário, mas, também, colônia de microrganismos lácticos.pela constituição dos órgãos digestivos, e muitos Um outro cuidado no balanceamento da dietaafirmam que é erro considerarmo-nos onívoros. dos vegetarianos é o iodo. Um trabalho de Portanto, acredita-se que as frutas são investigação constatou que a população vegetarianaalimentos naturais do homem, mineralizantes por (sem consumo de qualquer alimento de origemexcelência, e é nesta fonte pura e não nos cadáveres animal), a ingestão média de iodo foi abaixo de 100que se deve apoiar-se para a reparação das forças do g/dia, enquanto as recomendações são de 150organismo. g/dia (De Angelis, 2001). Um outro problema sério na alimentação dos1.10.2 Valor nutritivo das frutas vegetarianos é a pouca concentração de ferro nos vegetais ao contrário das carnes e víceras. Mas, aÉ possível o homem alimentar-se apenas de frutas? ingestão diárias de diversas frutas, hortaliças e outros Nas frutas tem-se os princípios necessários vegetais, garante a necessidade diária de ferro. Apara atender as necessidades vitais dos humanos goiaba é um dos frutos mais completos, em termos de(Quadro 1.7). balanço nutricional, mas possui baixo teor de Fe. No O tamarindo, as uvas, a banana, o açaí e geral, não existe um fruto ideal que possa serviroutros, fornecem os carboidratos; o coco, as como única fonte de alimento vegetal, mas que acastanha-da-amazônia1 e castanha-de-caju, sementes alimentação deve ser feita de uma “salada” de frutas,de baru e outras, fornecem gorduras e proteínas. As ou seja, uma alimentação com vários tipos de frutas efrutas também suprem com os mais variados sais de preferência respeitando a sazonalidade regional.minerais, vitaminas, fermentos, água (com o selo da As castanhas, a exemplo a castanha-da-vida) e fibras. Com regime exclusivo de frutas, o amazônia, pode suprir a necessidade diária dehomem pode viver em bom estado de saúde, mas é proteínas e cálcio, este último é encontrado em maiorpreciso individualiza-lo devidamente (Quadro 1.8). concentração que no leite de vaca, o leite de vaca e seus derivados, por ter também elevado teor de cálcio, leva os nutricionistas convencionais aQuadro 1.7 – Composição química em 100g de recomendarem este alimento, porém, esquecem dealgumas frutas. que o leite, muito importante para os mamíferos jovens, pode trazer problemas para a saúde humana, Vit.A Vit.B1 Vit.B2 Vit.B3 Vit.C Ca P Fe Prot principalmente pela contaminação por doenças dos Frutas Kcal (µg) (µg) (µg) (mg) (mg) (mg) (%) animais, muitas vezes mal tratados. Abacate 162 20 70 100 0,80 10,2 13 47 0,70 1,3 Em natureza, não se observa mamíferos Açaí 247 150 360 10 0,40 5,0 118 0,5 2,00 3,5 adultos mamando em suas genitoras, será que o Ameixa 54 200 120 150 0,37 6,8 11 16 0,36 0,6 homem adulto poderia alimentar-se de leite natural? Banana 89 10 92 103 0,82 17,3 15 26 0,20 1,3 Caqui 87 250 30 45 0,80 17,1 4 42 0,41 0,8 Quadro 1.8 – Necessidade diária de um homem Caju 37 16 58 50 2,56 200,0 50 18 1,00 0,8 adulto e elementos consumidos em 1,6 kg de frutas, Castanha 700 7 1094 118 7,71 10,3 172 746 5,00 17,0 Coco seco 619 0 60 40 0,50 1,6 108 209 4,80 5,0 castanhas e sementes. Goiaba 43 245 190 154 1,20 45,6 17 30 0,70 1,0 Necessidade Consumo 1,6 kg de frutas e Laranja 43 14 40 21 0,19 40,9 45 28 0,20 0,9 diária castanhas Limão 28 2,5 55 60 0,31 30,2 41 15 0,70 0,8 Maracujá 90 70 150 100 1,51 15,6 13 17 1,60 1,8 Energia Kcal >2600 3075 50 g de cada fruta Manga 64 220 51 56 0,51 43,0 21 17 0,78 0,6 Proteína (g) 56 83 Castanha-da- Coca-cola 39 0 0 0 0 0 2 1 0 0 Amazônia, Castanha- Fibra (g) 20 - 35 92Fonte: Franco, 1992; Aguiar et al., 1980; Donadio et al., 2002. de-Caju, Amêndoa, Cálcio (mg) 800 733 Burití, Pinhão, Ferro (mg) 10 41 Bacurí. Na alimentação dos frugivoristas e dos vegans, Fósforo (mg) 800 1650 100g de cada frutadeve haver um cuidado especial quanto ao Caju,açaí, manga, Vit. A (g) 1000 1200suprimento de vitamina B12, pois estas não contem maracujá, biribá, Vit. B1 (g) 1400 2940 jenipapo, baru,nos vegetais, é sintetizada por bactérias de solo, Vit.B2 (g) 1700 1620 goiaba.consumidas pelos animais durante o pastejo e Vit. B3 (mg) 18 22 150 g de cada frutaencontrada nas carnes dos mesmos. Porém, pode ser laranja, abacate Vit. C (mg) 60 560 200 g de bananaencontrada facilmente em alimentos enriquecidos, Fonte: Franco, 1992; Aguiar et al., 1980, Donadio et al., 2002.1 Castanha-da-Amazônia é o termo que respeitosamenteemprego para a Castanha-do-Pará, que não é apenas do Um concorrente direto na comercialização dasPará, ou Castanha-do-Brasil, que não é apenas do Brasil, frutas é o refrigerante, um produto artificial, semmas, a Bertholletia excelsa é da Amazônia Real, inclusive nenhum valor nutricional, intoxica e desmineraliza oda Bolívia, Peru, Colômbia, Guianas, Suriname eVenezuela. organismo. Têm muita caloria inútil e engorda. O "diet", com menos calorias, é artificial e tóxico. AoSebastião Elviro de Araújo Neto 9
  • 12. Importância da fruticultura brasileiracontrário das frutas, não contém vitaminas, proteínas, Os ácidos biliares são derivados do colesterolsais minerais (raro poucas exceções) e contém e sintetizados no fígado. Se mais componentes de bilecorantes e acidulantes, tóxicos ao organismo. Além são eliminados do corpo, mais estes deverão serde não respeitar o próprio corpo ao beber um sintetizados para fazer a bile normal. Este processorefrigerante multinacional, que tem inclusive acaba gastando mais colesterol (substrato), reduzindoincentivos fiscais (não oferecido às industrias assim o colesterol circulante (De Angelis, 2001).nacionais de refrigerante), paga-se aos estrangeiros e  Vitaminas e minerais – está comprovadodesempregam-se brasileiros nos campos de produção que a lignina, as hemiceluloses ácidas, as pectinas ede frutas, café e chás. algumas gomas são capazes de fixar determinados minerais, como cálcio, fósforo, zinco, magnésio eFibras dietéticas ferro, e algumas vitaminas podem ter alterado sua absorção. Esses efeitos, que, à primeira vista, Além dos carboidratos, proteínas, vitaminas e poderiam ser prejudiciais, na prática não constituemsais minerais, as frutas têm um outro componente problema quando a ingestão de fibras dietética émuito importante na nutrição humana, as fibras. moderada, ou seja, dentro das recomendaçõesAtualmente as fibras deixam de exercer apenas a nutricionais. Pode se observar balanço negativo defunção digestiva muito preconizada no passado e cálcio, magnésio, fósforo, ferro e zinco em grandespassa a ocupar o lugar que lhe corresponde dentro do consumidores de pão integral. Essas alteraçõesarsenal terapêutico atual, ganhando um novo subclínicas desapareceram quando se aumenta oconceito: o de “fibra dietética”. consumo de pão branco. Indivíduos que ingerem As características físico-químicas, menos que 50g de fibras ao dia, não estão expostos aconcernentes à solubilidade, viscosidade, nenhum desequilíbrio nutricional.geleificação, capacidade de incorporar substâncias As fibras dietéticas chegam ao intestino grossomoleculares ou minerais, determinarão as de forma inalterada e, ao contrario do que ocorre nodiferenciações entre fibras. intestino delgado, as bactérias do cólon, com suas As fibras classificam em fibras solúveis em numerosas enzimas de grande atividade metabólica,água (pectinas, gomas, mucilagens, hemicelulose B) podem digerir as fibras em maior ou menor grau,e Insolúveis em água (celulose, lignina e dependendo de sua composição química e estrutura.hemicelulose A). E ainda tem algumas substâncias As moléculas complexas são desdobradas aque participam do grupo das “fibras dietéticas” por hexoses, pentoses e álcoois, que já podem sersua similaridade (amido resistente, absorvidos pelo intestino, servindo de substrato afrutooligossacarídeos, açúcares não-absorvidos e outras colônias bacterianas, que, por sua vez, asinulina). degradam em ácido lático, água, dióxido de carbono, A fibra dietética passa através do intestino, no hidrogênio, metano e ácidos graxos de cadeia curtaqual desenvolve sua capacidade de hidratação e (acetato, propionato e butirato), com produção defixação, interferindo na absorção de substâncias energia. A produção e ação metabólica desses ácidosorgânicas e inorgânicas como segue: graxos têm sido o principal foco de investigação atual  Proteínas, carboidratos e lipídios – são os sobre fibras, pois podem se constituir de importanteprimeiros nutrientes a serem hidrolisados no intestino substrato energético, serem utilizados pelo fígadodelgado para serem absorvidos. Como a ação das para gliconeogênese, além de exercerem açãofibras solúveis, principalmente das gomas, pectinas e antitumoral.mucilagens, estas substâncias terão sua absorção Por outro lado, é sabido que uma dieta pobreretardada e algumas vezes sua excreção ligeiramente em fibras pode ocasionar mudanças na microbiota eaumentada. As perdas de proteínas, carboidratos e converter os lactobacilos habituais do cólon emgorduras nas fezes não são importantes do ponto de bacterióides capazes de desdobrar os ácidos biliaresvista nutricional, mas são, sem dúvida, relevantes em compostos cancinogênicos.para o controle de algumas doenças como os diabetese as coronariopatias. Carboidratos -  Sais biliares – a lignina, as gomas, pectinase mucilagens são capazes de seqüestrar os sais As frutas são ótimas fontes de carboidratos ebiliares, permitindo sua eliminação nas fezes, o que açúcar simples. Os carboidratos são recomendadostem grande importância na prevenção de tumores, já como o principal nutriente da composição dasque determinadas cepas de bactérias, particularmente pirâmides alimentares, mas podem se tornarema Clostridium putrificans, têm capacidade de vilões, como nos EUA, por exemplo, causandosintetizar cancerígenos utilizando-se dos ácidos obesidade, hipoglicemia e diabetes.biliares e colesterol como substrato. Não basta apenas consumir carboidratos, é A absorção de gorduras torna-se diminuída, preciso que esse carboidrato esteja nas frutas,pela impossibilidade de não serem emulsionadas e hortaliças e nos cereais integrais. Sua energia énem transportadas na mucosa intestinal. liberada durante um período mais longo e contínuo, ao contrário dos curtos derrames de energia do açúcarSebastião Elviro de Araújo Neto 10
  • 13. Importância da fruticultura brasileirasimples. Apesar de não serem considerados como vez mais sobre como a dieta pode prevenir doenças.complexos de carboidratos, os açúcares simples O tema nutrição é o ponto alto na relação entre dietaencontrados nas frutas estão misturados com e doenças crônicas como obesidade, doençasvitaminas, sais minerais e fibras. É nisso em que cardíacas e câncer. Em outras palavras, estamosdiferem do açúcar branco, refinado, que é usado em caminhando para promoção da saúde, longevidade ealtas concentrações associados com muitos alimentos qualidade de vida.ruins, repletos de “calorias vazias” (Blauer, 2004). As Por ser um tema “recente” e despertarfibras contidas nesses alimentos retardam a absorção interesses diversos, recebem também, diversasde glicose, permitindo que as pessoas se sintam terminologias. Os mais usuais são alimentosalimentadas por mais tempo. Isto também impede as funcionais, fitoquímicos ou compostos bioativos eoscilações da insulina, que sobe violentamente com a também nutracêutico, estudado pela “medicinaingestão de açúcares de tudo que se transforma ortomolecular", que consiste no combate aosimediatamente em açúcar no organismo, como o pão "radicais livres" através de substânciasbranco e a batata. "antioxidantes", representadas principalmente pelas vitaminas e pelos minerais.Os minerais das frutas Lajolo define os nutracêuticos como: “Alimento semelhante em aparência ao alimento Os minerais das frutas são minerais quelantes, convencional, consumido como parte da dieta usual,diferente dos minerais sintéticos, porque o organismo capaz de produzir demonstrados efeitos metabólicos oureconhece e usa mais facilmente, é por isso que uma fisiológicos úteis na manutenção de uma saúde física edieta rica em minerais orgânicos, é de fácil mental, podendo auxiliar na redução do risco deassimilação e ajuda a garantir que o organismo doenças crônico-degenerativas, além de manter suasreceba todos os minerais importantes de que precisa. funções nutricionais” (Lajolo, 2001). Os minerais das frutas e sucos naturais ajudam Estudos epidemiológicos, por exemplo, têma manter alta a energia do corpo, os nervos calmos, associado a dieta rica em vegetais ao uso da soja,os dentes, os ossos e as unhas. Além disso, mantêm o com uma menor incidência de osteoporose e câncersangue limpo e seu pH equilibrado. E fazem isso de mama na mulher. A dieta mediterrânea, rica emneutralizando os resíduos ácidos e alcalinos, ou seja, frutas e vegetais, óleo de oliva e carboidratos, leva aresíduos da digestão e do metabolismo humano. níveis de colesterol elevados, mas não correlacionado Em adição a essas funções gerais, cada mineral a um maior número de mortes por enfarto.tem uma função específica. As funções específicas devários dos mais importantes minerais existentes nas 1.10.4 - Fome ocultafrutas estão relacionados abaixo. O potássio é o mineral responsável pelo “Os fitoquímicos defendem as células doequilíbrio eletroquímico dos tecidos do coração e de corpo, as quais estão constantemente sofrendooutros músculos. O ferro é um componente das ataques, seja do meio ambiente, da alimentaçãocélulas vermelhas do sangue, que transporta o inadequada ou da própria genética”. A essaoxigênio para os pulmões e ajuda os alvéolos na necessidade do organismo em receber proteçãorespiração. O fósforo é essencial para o bom contra doenças por meio dos fitoquímicos. É umafuncionamento do cérebro e dos nervos. fome que não se percebe, mas de algo de que o corpo O cálcio mantém o equilíbrio ácido/alcalino do precisa (De Ângelis, 1999).sangue e fortalece os ossos. O enxofre ajuda o Estudos epidemiológicos têm confirmado essacérebro e os nervos a funcionarem; e é o depurador tendência que indica déficit do consumo de ácidosdo organismo. O iodo alimenta a glândula tireóide, graxos polinsaturados, proteínas de alto valor biológico,que controla o metabolismo. O magnésio ajuda o vitaminas, cálcio, ferro, iodo, flúor, selênio e zinco. Esterelaxamento muscular, a sintetização das proteínas, a estado nutricional carente tem originado elevadasprodução de energia e é um laxante natural. incidências de doenças crônico degenerativas, dentre O manganês é necessário para o elas, doenças cardiovasculares, câncer, hipertensão,funcionamento cerebral. O selênio funciona em diabetes, obesidade, entre outras. A fome oculta é umaconjunto com a vitamina E para evitar a oxidação dos fome universal, que agrava principalmente os habitantesácidos graxos. O sódio com o potássio, o cálcio e o de países desenvolvidos. Segundo dados da OMSmagnésio, agem na neutralização de ácidos, mantém mostram que essas doenças são responsáveis por 70% aa integridade das células e conserva a energia 80% da mortalidade nos países desenvolvidos e cerca deeletromagnética dos tecidos. 40% naqueles em desenvolvimento.1.10.3 Fitoquímicos ou alimentos funcionais 1.10.5 Antioxidantes Apesar da conexão entre dieta e saúde serreconhecida há muito tempo, à medida que Oxidação em sistemas biológicoscaminhamos para o século XXI, descobrimos cadaSebastião Elviro de Araújo Neto 11
  • 14. Importância da fruticultura brasileira A oxidação nos sistemas biológicos ocorre aberrações cromossômicas. Além destes efeitosdevido à ação dos radicais livres no organismo. Estas indiretos, há a ação tóxica resultante de altasmoléculas têm um elétron isolado, livre para se ligar concentrações de íon superóxido e peróxido dea qualquer outro elétron, e por isso são extremamente hidrogênio na célula.reativas. Elas podem ser geradas por fontesendógenas ou exógenas. Por fontes endógenas, Compostos antioxidantesoriginam-se de processos biológicos quenormalmente ocorrem no organismo, tais como: Os processos oxidativos podem ser evitadosredução de flavinas e tióis; resultado da atividade de através da modificação das condições ambientais ouoxidases, cicloxigenases, lipoxigenases, pela utilização de substâncias antioxidantes com adesidrogenases e peroxidases; presença de metais de propriedade de impedir ou diminuir otransição no interior da célula e de sistemas de desencadeamento das reações oxidativas.transporte de elétrons. Os antioxidantes são capazes de inibir a Esta geração de radicais livres envolve várias oxidação de diversos substratos, de moléculasorganelas celulares, como mitocôndrias, lisossomos, simples a polímeros e biossistemas complexos, porperoxissomos, núcleo, retículo endoplasmático e meio de dois mecanismos: o primeiro envolve amembranas. As fontes exógenas geradoras de radicais inibição da formação de radicais livres quelivres incluem tabaco, poluição do ar, solventes possibilitam a etapa de iniciação; o segundo abrangeorgânicos, anestésicos, pesticidas e radiações. a eliminação de radicais importantes na etapa de Nos processos biológicos há formação de uma propagação, como alcoxila e peroxila, através davariedade de radicais livres. São eles: doação de átomos de hidrogênio a estas moléculas, interrompendo a reação em cadeia.- Radicais do oxigênio ou espécies reativas do Sabe-se que, por um lado, as vitaminas C, E eoxigênio íon superóxido (O2 -*) os carotenóides funcionam como antioxidantes emHidroxila (OH·); Peróxido de hidrogênio (H2O2); sistemas biológicos, e por outro, o processoAlcoxila (RO*); Peroxila (ROO*); Peridroxila carcinogênico é caracterizado por um estado(HOO*); Oxigênio sinlete (1O2); oxidativo crônico, especialmente na etapa de promoção. Além disso, a fase de iniciação está- Complexos de Metais de Transição associada com dano irreversível no material genéticoFe+3/Fe+2; Cu+2/Cu+ da célula, muitas vezes devido ao ataque de radicais- Radicais de Carbono livres. Desse modo, os nutrientes antioxidantesTriclorometil (CCl3*); poderiam reduzir o risco de câncer inibindo danos oxidativos no DNA, sendo, portanto considerados- Radicais de Enxofre como agentes potencialmente quimiopreventivosTiol (RS·) (Silva e Naves, 2001). Outras doenças degenerativas do- Radicais de Nitrogênio envelhecimento, incluindo câncer, doençasFenildiazina (C6H5N = N·) cardiovasculares e cataratas são prevenidas ouÓxido nítrico (NO*) retardadas no início, por esses três antioxidantes Estes radicais irão causar alterações nas (vitamina C, vitamina E e carotenóides).células, agindo diretamente sobre alguns Para se ter uma idéia sobre a oxidação naturalcomponentes celulares. Os ácidos graxos no organismo, “o DNA em cada célula do corpopolinsaturados das membranas, por exemplo, são recebe aproximadamente 10.000 ataques oxidativosmuito vulneráveis ao ataque de radicais livres. por dia” (Ames et al., 1993). Estas moléculas desencadeiam reações deoxidação nos ácidos graxos da membrana • Carotenóideslipoprotéica, denominadas de peroxidação lipídica, Os carotenóides compreendem um grandeque afetarão a integridade estrutural e funcional da número de compostos, muitos dos quais commembrana celular, alterando sua fluidez e atividade biológica. Alguns, como o -caroteno, sãopermeabilidade. Além disso, os produtos da oxidação pró-vitaminas A (transforma-se em vitamina A nodos lipídios da membrana podem causar alterações organismo). Outros como o licopeno não sãoem certas funções celulares. Os radicais livres podem precursores de vitamina A, mas agem no organismoprovocar também modificações nas proteínas como antioxidantes, na eliminação de espécies ativascelulares, resultando em sua fragmentação, cross de oxigênio, formadas ou não no nosso organismo.linking, agregação e, em certos casos, ativação ou Ao contrário de muitas vitaminas, ainativação de certas enzimas devido à reação dos biodisponibilidade de carotenóides é aumentada comradicais livres com aminoácidos constituintes da o aquecimento dos alimentos, como nocadeia polipeptídica. A reação de radicais livres com processamento do tomate ou da goiaba, por exemplo.ácidos nucléicos também foi observada, gerandomudanças em moléculas de DNA e acarretando certasSebastião Elviro de Araújo Neto 12
  • 15. Importância da fruticultura brasileira • Vitamina C cancerígena ou alteração celular promove O termo vitamina C é uma denominação sucessivamente o crescimento do câncer. Estegenérica para todos os compostos que apresentam crescimento não ocorre, porém, até que um dosatividade biológica do ácido ascórbico. Dentre eles, o vários fatores chamado “promotores” aja alterando aácido ascórbico é o mais largamente encontrado nos célula. Em câncer de mama, a causa mais comum dealimentos e possui maior poder antioxidantes mortalidade em mulheres, estes fatoresencontrado nos alimentos e possui maior poder (“promotores”) incluem danos oxidativos, a ação deantioxidante. Os possíveis efeitos anticarcinogênicos hormônios esteróides, e a ação de certos tipos deda vitamina C estão relacionados com sua habilidade prostaglandinas (PGS). Na Figura 1.3, estar umem detoxicar substâncias carcinogênicas e suas esquema altamente simplificado, ilustrando como eatividades antioxidantes. Além disso, tem-se quais estágios certos fitoquímicos podem agir paraconstatado que a vitamina C pode inibir a formação bloquear o processo de promoção do câncer,de nitrosaminas in vivo a partir de nitratos e nitritos combatendo o efeito de certos cancerígenos,usados como conservantes, sendo, portanto iniciadores e promotores (Caragay, 1992).adicionados para prevenir a formação dessescompostos reconhecidamente carcinogênicos. Danos oxidativos carotenóides, fenólicos, s fibras, terpenos, • Vitamina E flavonóides, terpenos. fenólicos, sulfetos, A vitamina E é uma substância lipossolúvel e isoflavonas Carcinogênicosexistente na natureza como tocoferóis e tocotrienóis, sem quatro formas diferentes (, ,  e ), sendo o - Iniciação Promoção dotocoferol a forma antioxidante mais ativa e do tumor tumor hormôniosamplamente distribuída nos tecidos e no plasma. A esteróidevitamina E constitui o antioxidante lipossolúvel mais cumarina, sulfetos, s flavonóides, isoflavonas fenólicos, flavonóides,efetivo encontrado na natureza, e importante fator de triterpenóides sulfetos, poliacetilenosproteção contra a peroxidação lipídica nas Prostaglandinasmembranas celulares e na circulação sanguínea. Figura 1.3 - Fitoquímicos podem afetar o padrão • Flavonóides metabólico associado com câncer dos seios. Os flavonóides são ativos, em geral variáveis, (Adaptada de Pierson, 1992).contra radicais livres, os quais, por sua vez, podemestar associados a doenças cardiovasculares (melhor Consumo de carne ou não consumo de vegetaisdistribuição periférica do sangue, melhora fluxoarterial e venoso), câncer, envelhecimento e outras: “Cerca de 80% dos cânceres de mamas,- antiinflamatória; próstata e de cólon são atribuídos aos hábitos- estabilizadora do endotélio vascular – melhora alimentares, especialmente consumo de carnesfunção da célula endotelial, diminuindo a vermelhas e gorduras” (Binhham, 1999, citado porpermeabilidade; De Angelis, 2001).- antiespasmódica- ação principal na musculatura lisa; A carne parece estar associada com câncer,- cardiovascular- - antialérgico; apenas em povos que não tem uma dieta variada. Os- antiulcerogênico; franceses e os mediterrâneos em geral, têm uma dieta- antivirais. variada e rica em vegetais frescos, azeite de oliva, Os flavonóides são constituídos vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dosprincipalmente de antocianina, flavonois, flavonas, americanos, esses povos comem com calma, emcatequinas e flavonoides. ambiente descontraídos, fatores também relacionados Para se ter uma alimentação saudável, com prevenção de doenças e qualidade de vida.recomenda-se comer pelo menos cinco (5) refeições Uma coisa ninguém tem dúvidas: vegetaisde frutas e hortaliças diariamente. As frutas e fazem bem. Uma dieta rica em frutas, e hortaliçashortaliças são as principais fontes dos três nutrientes claramente reduz as chances de ter câncer noantioxidantes mais importantes: vitamina C, estômago, na boca, no intestino, no reto, no pulmão,carotenóides e vitamina E. na próstata e na laringe, além de afastar os ataques cardíacos. Frutas e hortaliças amarelas têm caroteno,1.10.6 – Prevenção de câncer que previne câncer no estômago, a soja possui isoflavona, que diminui a incidência de câncer deCausas de indução mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece o sistema imunológico e por aí vai. Até o momento, a pesquisa determinou muitos Mas, a carcinogênese que não dependem daaspectos de desenvolvimento do câncer, se conhece alimentação pode ocorrer inclusive em vegetarianos,que o crescimento do tumor tem dois estágios com ocorrência de câncer de estômago, por exemplo,críticos: iniciação e promoção. A “iniciação” pois outros fatores estão relacionados com câncer,Sebastião Elviro de Araújo Neto 13
  • 16. Importância da fruticultura brasileiracomo a predisposição genética, o tabaco, o álcool, Muitas frutas são adequadas para as pessoas deinfecções viróticas e o ambiente (Anelli, 2004). Tipo O. Mas, algumas frutas são consideradas1.10.7 – As frutas e o tipo sanguíneo nocivas. A razão por que ameixas são tão benéficas ao Tipo O é que a maior parte das frutas de cor Os doutores James D’Adamo e Peter vermelha escura, azul e roxa tende a provocar umaD’Adamo, revelaram por meio de suas pesquisas e reação alcalina em vez de ácida no aparelhoestudos, que a escolha do tipo de alimento não deve digestível. O aparelho digestivo das pessoas de Tiposer casual, simplesmente por questões culturais ou O tem alto nível de acidez e precisa equilibrar areligiosas, mas que deve obedecer o tipo sanguíneo alcalinidade para reduzir úlceras e irritações dade cada pessoa. Seus estudos estão publicados no mucose estomacal.livro A dieta pelo tipo sanguíneo, publicado em 1996, Devido a sua alcalinidade, sucos de hortaliçaslançado no Brasil pela Editora Campus, em 1998 e são mais indicados para os de Tipo O que sucos dereeditado em 2005 (D’Adamo e Whitney, 2005). frutas. Os sucos de frutas devem ser de frutas pobres O sistema imunológico encontra-se no sangue, em sacarose (Tabela 1.9).e possui mecanismos sofisticados para determinar se O suco de abacaxi pode ser particularmenteuma substância é estranha ou não ao corpo. Um dos eficaz para evitar retenção de líquido e inchaço,métodos reside nos marcadores químicos chamados ambos fatores que contribuem para o aumento de“antígenos”, que são encontrados nas células do peso.corpo humano. Quando o antígeno do tipo sanguíneo percebe A dieta para o tipo Aque um antígeno estranho entrou no sistema, a As pessoas de sangue Tipo A se dão bem comprimeira coisa que ele faz é criar anticopos contra dietas vegetarianas – herança de seus ancestraisesses antígenos. agricultores, mais sedentário e menos guerreiros. Quando ocorre uma reação química entre o Precisam consumir alimentos em estado o maissangue e os alimentos consumidos, essa reação faz natural possível: frescos, puros e orgânicos. Esseparte da herança genética do tipo sanguíneo. É cuidado é importante para o sensível sistemaestranho, mas verdadeiro que hoje, no século XXI, imunológico dos organismos. Pois são pessoasnosso sistema digestório e imunológico ainda biologicamente predispostas para diabetes, câncer emantenha uma preferência pelos alimentos que doenças do coração.nossos ancestrais com o mesmo tipo sanguíneo O sistema digestível de pessoas Tipo A é maiscomiam. alcalino que ácido. Sabe-se disso devido a um fator chamado As laranjas devem ser evitadas, pois elaslectina. As lectinas são abundantes e variadas irritam o estômago do Tipo A e interferem tambémproteínas encontradas nos alimentos, têm propriedade na absorção de importantes nutrientes. Embora ade aglutinação, afetando o sangue. acidez estomacal seja em geral baixa nos organismos As lectinas dos alimentos incompatíveis com o de Tipo A e possa admitir um estimulante, as laranjasantígeno de um determinado tipo sanguíneo, ao irritam a delicada mucosa estomacal. O limão maisserem ingeridas atingem um órgão ou sistema ácido que a laranja, é excelente para esse tipocorporal (rins, fígado, cérebro, estômago etc.) e sanguíneo, pois apresenta tendência de alcalinidadecomeçam a aglutinar células sanguíneas nessa área. na digestão, auxilia na digestão e eliminação do muco do organismo, recomendado inclusive para A dieta para o tipo O tratamento de azia (acidez no estômago). O aparelho digestível de pessoas Tipo O A dieta para o tipo Bconserva a memória dos tempos antigos. A dieta rica As maiorias das frutas podem ser consumidasem proteína animal de caçador-coletor e as enormes pelas pessoas de Tipo B, pois possuem aparelhosdemandas físicas do sistema dos primitivos seres digestível muito equilibrados, com um saudável nívelhumanos de Tipo O provavelmente manteve a ácido-alcalino, de modo que, se pode consumir frutasmaioria deles em um branco estado de cetose – uma que são muito ácidas para outros tipos de sangue.condição em que o metabolismo do corpo fica O abacaxi pode ser particularmente benéficoalterado. A cetose é o resultado de uma dieta rica em para organismos de Tipo B. que são susceptíveis aproteína e em gordura que inclui poucos carboidratos. edemas – especialmente quando não inclui laticíniosO corpo metabolisa as proteínas e gorduras em e carnes na dieta. A bromelaína, uma enzimacetoses, que são usadas em lugar dos açúcares numa existente no abacaxi, ajuda-o a digerir maistentativa de manter os níveis de glicose estáveis. facilmente os alimentos. Para digerir melhor uma dieta rica em carnes,o sistema digestível de pessoas Tipo O é ácido. Por A dieta para o tipo ABisso, uma dieta ácida, acidifica cada vez mais oestômago dessas pessoas, causando problemas de O sangue Tipo AB é biologicamentesaúde, como úlcera e gastrites. complexo. Ele não se encaixa bem em nenhuma dasSebastião Elviro de Araújo Neto 14
  • 17. Importância da fruticultura brasileiraoutras categorias. Vários antígenos fazem com que o goiabas. Mas o abacaxi é um excelente auxiliar daAB às vezes seja semelhante ao A, outras ao B e às digestão para os organismos de Tipo AB.vezes parece uma fusão de ambos – uma espécie de No Quadro 1.9, está a relação de amêndoas,tipo sanguíneo centauro. frutas e sementes que são benéficas, nocivas e As pessoas de Tipo AB compartilham a maior neutros, que não apresentam efeitos ao organismo.parte das intolerâncias e preferências das de Tipo Apor certas frutas. Frutas alcalinas, como as uvas, as 1.5.8 As frutas e a energia do corpoameixas e frutas da família das rosáceas (morango,amora, framboesa etc), podem ajudar a neutralizar o As causas da falta de energia no organismo sãoefeito dos cereais que provocam acidez em seus várias, uma delas é o consumo de açúcar simples,tecidos musculares. contido nas “gulosemas”, sucos artificiais e As pessoas de Tipo AB, não se dão bem com refrigerantes, que estimulam o organismo. Mas, logocertas frutas tropicais especialmente mangas e a sensação de energia é substituída pelo cansaço.Quadro 1.9 – Amêndoas, frutas e sementes recomendadas na dieta de pessoas de diferentes tipos sanguíneos. Tipo O Benéficos Neutros Nocivossementes de abóbora torradas, amêndoas, avelãs, gergelim, nozes em amendoim,casctanha-de-caju e do Pará,sementes de linhaça geral, pinhão pistache, sementes de girassolameixas em geral, figos frescos e abacate, abacaxi, bananas, caqui, açaí, acerola, amora-preta, banana-da-secos, goiaba, jaca, manga carambola, limão, maçã, mamão, terra, coco (água e leite), cupuaçu, melancia, melão, morango, pêra, pêssego, graviola, kiwi, laranja ácida, maracujá, uvas melão cantalupo, tangerina ácida. Tipo A Benéficos Neutros Nocivosamendoim, sementes de linhaça e amêndoas, avelãs, castanha-portuguesa, castanha-de-caju, e castanha-da-de abóbora torrada gergelim, nozes em geral, pinhão, girassol amazôniaabacaxi, açaí, ameixas, amoras, abacate, caqui, carambola, goiaba, kiwi, bananas em geral, coco (água e leite),cerejas, damascos, jaca, figos kunquat, maçã, melancia, morango, pêra, cupuaçu, laranja ácida, manga,frescos e secos, limão pêssego, uvas maracujá, melões em geral, mamão, tangerina Tipo B Benéficos Neutros Nocivosnozes-negra amêndoas, castanha-portuguesa, castanha- amendoim, castanha-de-caju, pinhão, da-amazônia, linhaça gergelim, girassolabacaxi, ameixas, bananas (exceto ameixas secas, amora, banana-da-terra, abacate, caqui, coco (água e leite),banana-da-terra) jaca, mamão, figos, goiaba, kiwi, laranjas, limão, maçã, carambola, romãmelancia, uvas manga, melão, morango, pêra, pêssego, tangerina Tipo AB Benéficos Neutros Nocivosamendoim, castanha-portuguesa, amêndoas, castanha-de-caju, linhaça, avelã, abóbora-moranga, gergelim,nozes-de-natal castanha-da-amazônia, pinhão girassolabacaxi, ameixas, cerejas, figos, amora, banana-da-terra, fruta-pão, abacate, caqui, bananas,, caqui,jaca, kiwi, limão, melancia e uvas kumquat, maçã, mamão, melão, morango, carambola, coco (água e leite), goiaba, pêra, pêssego, tangerina laranja, mangaFonte: Teixeira (2002); D’Adamo (2005) células do cérebro, estimulando-as a produzir a Os carboidratos complexos, encontrados em acetilcolina, um neuro-transmissor do sistematodos os cereais, frutas, hortaliças e leguminosas, nervoso central que age sobre outras célulasproporcionam uma energia mais permanente no nervosas, bem como sobre os músculos e órgãos doorganismo, evitando a fadiga anormal. corpo inteiro. Existem muitos indícios associados as Além dos carboidratos complexos, as frutas células que usam a acetilcolina à formação dasão ricas em vitaminas do complexo B, que ajudam a memória.combater o cansaço e dobram sua energia em questão Outro estimulante encontrado nas frutas são asde minutos. enzimas. No complexo B, encontra-se a colina, uma das As enzimas das frutas e dos sucos naturais sãopoucas substâncias que consegue penetrar na rapidamente utilizadas, para aumentar a energia echamada barreira sanguínea do cérebro, atingindo as promover a cura e regeneração. Elas melhoram oSebastião Elviro de Araújo Neto 15
  • 18. Importância da fruticultura brasileirafuncionamento do sistema digestivo. Muitos do que a adriamicina, uma droga quimioterápicanutricionistas recomendam como primeiro alimentos muito utilizada. A Universidade de Purdue conduziudo dia, alimentos com vida, com enzimas, para uma grande pesquisa sobre acetogeninasenergizar um corpo adormecido pela dormida. annonaceaous incluindo aquelas encontradas na Os sucos naturais ajudam a decompor outros graviola. Em uma das revisões intitulada “Recentnutrientes, transformando-os em substâncias simples Advances in Annonaceous Acetogenins”, elesque podem ser rapidamente absorvidas na corrente confirmaram que “Annonaceous acetogenins é umasanguínea. As enzimas dos sucos executam substância amilóide consistindo uma cadeia longa derapidamente esses processos biológicos complexos ácido graxo de C32 ou C34 combinado com umasem calor e sem se tornarem parte dessas mudanças unidade de 2-propanol a C-2 para formar uma(Wade, 2004). lactona. Eles são encontrados em vários gêneros da família da planta Annonaceae. Suas diversas1.11 Função medicinal das frutas bioatividades como antitumor, imunosupressivo, pesticidal, antiprotozoário, vermífugo e agente Banana antimicrobiológico, tem atraído mais e mais o A banana é uma das frutas mais consumidas interesse do mundo. As acetogeninas Annonaceousno mundo por possuir ótima qualidade nutricional e podem inibir seletivamente o crescimento de célulasser saborosa (textura macia, aromática e doce). “É a cancerígenas e também inibir o crescimento defruta das frutas”. células de tumor resistente à adriamicina. O Dr. Teófilo Luna Ochoa citado por Balbach(1992) descreve o valor medicinal da banana: Goiaba “A banana madura... encerra uma substância A goiaba atalha a tuberculose incipiente,oleosa, que muito suaviza as membranas mucosas promove o metabolismo das proteínas, e ajuda airritadas em casos de colite e enfermidade do reto. prevenir a acidez e a fermentação dos hidratos deContém igualmente um fermento digestivo não bem carbono durante a digestão. É muito adstringente,conhecido, porém de alto valor, que, em determinada sendo aconselhada por alguns para curar as diarréiasenfermidade intestinal, a torna (a banana) o único mais rebeldes. Esta propriedade do fruto se observacarboidrato tolerado pela vítima, que (doutra também no seu doce ou goiabada. A goiaba émaneira) morre de fome”. eficiente ainda em Hemorragias, Tosse e Úlceras Essa fruta é muito recomendável também gástricas e duodenais.contra as enfermidades renais, nefrite, hidropisia,gota, obesidade, afecções do fígado, cálculos biliares, Mamãotuberculose, paralisia, enfermidades do estômago etc. O mamão é uma das melhores frutas do A banana, principalmente o caldo da banana mundo, tanto pelo seu valor nutritivo, como pelo seuverde fervida ou ainda a farinha de banana são poder medicinal. Um dos seus mais importantesexcelentes contra diarréias e disenterias. princípios é a papaína, reconhecida como superior a A dieta de bananas maduras dá resultados dos pepsina e muito usada para prestar alívio nos casos demais benéficos em todos os casos de prisão de ventre indigestão aguda.dentro de uma ou duas semanas. O mamão maduro é digestivo, diurético, Doença celíaca é uma indisposição intestinal emoliente, laxante, refrescante e oxidante,em crianças a partir de 16 meses de idade, rara e particularmente quando se come com as sementes,fatal, a banana é um dos poucos alimentos que o que contêm a papaína, fac-simile da pepsina.intestino não rejeita. Em casos severos de indigestão e gastrite, A banana ligeiramente assada, exalando seu onde a assimilação de alimentos causa grandearoma, come-se quente para combater as angústia, uma dieta constante exclusivamente depneumonias. mamão por vários dias, restaura a saúde do enfermo. Caju Uva O caju possui dois produtos comerciais, o As uvas são importantes na nutrição epedúnculo (comestível ao natural) e o fruto prevenção e cura de doenças, mas o vinho é overdadeiro, do qual se extrai o LCC e a amêndoa, principal produto da uva promotor de saúde. Osambos com efeito farmacêutico. Em se falando maiores responsáveis pelos efeitos benéficos doapenas do pedúnculo, este atua como: DIURÉTICO, vinho à saúde são os polifenóis, por terem:EXPECTORANTE, ANTIFEBRIL e DIABETES.  Um potente efeito antioxidante e  Uma ação antibiótica. Graviola O resveratrol, um dos polifenois encontrados Um dos estudos revelou que alguns no vinho, tem uma ação antioxidante 10.000 vezescomponentes da graviola eram cytotóxicos e levavam maior que o tocoferol (Vitamina E).à cura do adenocarcinoma do cólon através de O vinho aumenta a consistência e apotencilalidade quimioterápica, 10.000 vezes maior estabilidade da parede vascular, previne aSebastião Elviro de Araújo Neto 16
  • 19. Importância da fruticultura brasileiraaterosclerose e inibe a agregação plaquetéria, como alcalino, controlando a acidez no estômago eevitando a deposição de placas de gordura e no sangue.formação de coágulos nos vasos sanguíneos. Como as outras frutas cítricas, possui ótimoPrincipal causa de infartos do coração, gangrenas e teor de vitamina C, atuando notavelmente noderrames cerebrais. metabolismo do cálcio, particularmente nas senhoras O vinho é, sem dúvidas a bebida mais em estado de gravidez, nas crianças de peito e nosfavorável à digestão. O ácido cinâmico aumenta a adolescentes, e é um eficaz remédio contra osecreção biliar; as oxidades e peptases (enzimas) e o escorbuto, as estomatites e a piorréia.sorbitol, aumentam a secreção biliar e pancreática. O limão atua sobre as inflamações, dada suaAlém disso, o vinho diminui os movimentos atividade antiinflamatória.peristálticos do intestino delgado e do intestino A cura do limão tem vencido diáteses artríticasgrosso. Isso diminui o trânsito intestinal e aumenta o mais e melhor do que qualquer outra fruta,tempo de permanência dos alimentos no tubo apresentando resultados onde havia falhado a uva.digestivo. Com isso dá maior tempo para as enzimasprocessarem os alimentos, melhorando a digestão, o Castanha-da-Amazôniaque é muito saudável. As principais responsáveis por De modo geral, as castanhas, amêndoas eessa ação são as catequinas. Outra função na nozes, devido a riqueza em fibras, gordurasdigestão, é aumentar a sensibilidade do organismo monoinsaturadas e diversos antioxidantes (vitamina(das células, mais especificamente) à ação da E, selênio, ácido elágico), são excelentes protetoresinsulina. do coração. Atuam também, como redutores do O suco de uva não é tão benéfico para a saúde colesterol sanguíneo.quanto o vinho. O álcool contido no vinho tem uma O alto teor de cálcio combate a osteoporose eafinidade muito grande com o resveratrol e outros o raquitismo.polifenóis, sendo o seu melhor solvente. Além disso, a castanha-da-amazônia é um dos O suco de uva é sim uma excelente bebida alimentos mais ricos em selênio, diminui oenergética, muito adequada para se usar antes, envelhecimento celular e reduz o risco de cânceresdurante ou após a atividade física e/ou intelectual de como o do pulmão e o da próstata. O selênio combategrande consumo de energia. o mau humor denominado distimia (indisposição Por ser alcalinizante esta fruta combate a orgânica).acidez sanguínea, sendo indicada a pessoasintoxicadas pelo consumo excessivo de carne. MaçãCombate a dispepsia, as flatulências, a atonia Dentre as diversas funções de proteção à saúdeintestinal e as fermentações nos intestinos. que a maçã possui, uma delas é diminuir os riscos de derrame cerebral, desde que se coma esta fruta Limão regularmente, segundo pesquisa realizada na Finlândia que acompanhou a saúde e os hábitos O suco do limão tem sido recomendado para alimentares de mais de 9.000 pessoas durante 28combater numerosos estados patológicos, pois foi anos. A maçã é rica em querecetina, substância quecomprovado que é diurético e pode ser usado na ajuda a evitar a formação dos coágulos sanguíneosnefrite, com êxito, especialmente nas formas que capazes de provocar derrame.produzem um estado de hidropisia. Nas enfermidadesinfecciosas, o suco, em forma de limonada, é Morangorefrescante e favorece a ação dos medicamentos Comer morango ajuda a reduzir o risco de seantitérmicos. Nas gastrenterites diminui a inflamação contrair câncer e doenças do coração devido àda mucosa e atenua as náuseas. Nas enfermidades do presença do ácido fólico (composto orgânicofígado também produz bons resultados. No benéfico à saúde) principalmente na polpa e nasreumatismo atenua as dores. O suco de limão traz folhas. O morango ainda contém vitamina C, sódio,resultados notáveis de vitaminas no organismo. O potássio, cálcio e ferro.suco de limão tem igualmente propriedadesestimulantes sobre a pele, suavizando-a e fazendo Laranjadesaparecer as manchas cutâneas. Além de alta concentração de vitamina C, as O limão, com seus ácidos, facilmente laranjas contém pidoxina (a vitamina B6) e ácidotransformados em elementos alcalinizantes, e com fólico. Ambos são muito importantes no metabolismosuas bases, fermentos e vitaminas, contribui da homocisteina e importantes para prevenir apoderosamente para oxidar radicais livres. arteriosclerose. A arteriosclerose é a formação de Surpreende e não poucas pessoas, o fato de placas nas artérias, dificultando a circulaçãoque, sendo ácido o suco de limão, determina reação sanguínea. Estas afirmações foram confirmadas peloalcalina. Em outras palavras, o limão, ao terminar seu Dr. Rafael Carmena, catedrático de medicina e chefemetabolismo, se porta, não como ácido, mas, sim, do serviço de endoclinologia e nutrição do Hospital Clínico Universitário de Valência, Espanha.Sebastião Elviro de Araújo Neto 17
  • 20. Importância da fruticultura brasileira IBGE. Censo brasileiro 2000. www.ibge.gov.br,1.12 REFERÊNCIAS consulta 21/02/2003. IBGE. Agricultura, 2002. www.sidra.ibge.gov.br,AGRIANAUAL. Anuário da agricultura brasileira. consulta 27/04/2004.FNP Consultoria e Comercio, 2003. IBRAF. Estatísticas – Fruticultura: síntese.ALVES, R. E.; FILGUEIRAS, H. A. C. MOSCA, J. Disponível no sitio http://www.ibraf.org.br/x-es/f-L.; SILVA, S. M.; MENEZES, J. B. Postharvest esta.html. Acesso em 14/09/2008.Physiology and Biochemistry of Some Non- LAJOLO, F. M. Alimentos funcionais. Revista Racine,Traditional American Tropical Fruits. Acta 62, p.18-24, Maio/Junho, 2001.Horticulturae, 768, p.233-238, 2008. MELLO, Nilda T.C. de (coord.) Matrizes e coeficientesANELLI, A. Dieta saudável não garante resultado. técnicos de utilização de fatores na produção deFolha de São Paulo, 29/11/2004. culturas anuais no Estado de São Paulo. InformaçõesAMES, B. N.; SHIGENAGA, M. K.; HAGEN, T. M. Econômicas, SP, v.30, n.5, p: 47-105, maio 2000.Oxidants, antioxidants and the degenerative diseases of MELLO, N. T. C. de; NOGUEIRA, E. A.; MAIA, M.aging. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. v.90, p.7915-7922, L. M. Análise econômica da cultura da atemóia no1993. estado de são paulo: um estudo de caso. In:AGUIAR, J. P. L.; MARINHO, H. A.; REBELO, Y. S.; CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTICULTURA,SHRIMPTON, R. Aspectos nutritivos de alguns frutos 18, 2004. Florianópolis, Anais... SOCIEDADEda Amazônia. Acta Amazônica, Manaus, v.10, n.4, BRASILEIRA D EFRUTICULTURA. Florianópolis,p.755-758, 1980. 2004.BALBACH, A. As frutas na medicina doméstica. 21ª NAVES, M. M. V.; MORENO, F. S. Comunicaçõesed. Itaquetuba: “A edificação do lar” , 1992. 375p intercelular com conexinas: importância naBLAUER, S. O livro dos sucos. Tradução de Thereza carcinogênese e papel modulador dos carotenóides.Monteiro Deutsch. 8ª ed. – Rio de Janeiro: Record, Revista Brasileira de Ciências Farmacêutica, v. 36,2004. 220p. n.1, p.1-11, jan./jun., 2000.BLOCK, G.; PATTERSON, B.; SUBAR, A. Fruits, PIERSON, H. Diet as a factor in cancer and cancervegetables, and cancer prevention: a review of the prevention. Cancer Medicine. 1992.epidemiological evidence. Nutr, Cancer. V.18, p.3-4, ROACH, J. Cientistas aprovam frutas e verdures contra1992. o câncer.www.ngnews.com/news. ConsultadaBLOCK, G.; LANGSETH, L. Antioxidant vitamins and 20/07/2002.diseases prevention. Food Tecnology, v.48, n.7, p.80- SHEINBERG, G. Presença nos alimentos, fitoquímicos84, July, 1994. podem prevenir doenças. Folha de São Paulo,BURGIERMAN, D. R. Deveríamos parar de comer 14/02/2002.carne? Super Interessante, Edição, 175, p.43-50, abril SOUZA FILHO, J. M. de. Vinho e saúde. In: REGINA,2002. M. de A. et al. (eds). Viticultura e Enologia:CARAGAY, A. B. Câncer-preventive foods and Atualizando conceitos. Caldas: EPAMIG-FECD, p. 1-ingredients. Food Technology, Chicago, v.46, n.4, 15, abril, 2002.p.65-68, 1992. SOARES, S. E. Ácidos fenólicos como antioxidantes.D’ADAMO, P.J.; WUITNEU, C. A dieta do tipo Revista Nutrição, Campinas, v.15, n.1, p.71-81,sanguíneo: saúde, vida longa e peso ideal de acordo jan./abr., 2002.com seu tipo sanguíneo. Tradução de Sonia T. Mendes TEIXEIRA, S. A dieta que está no sangue: peso ideal,Costa, revisão técnica e atualização Augusto Teixeira. saúde e energia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2002. 295p.Rio de janeiro: Elsevier, 2005. 329p. VIGGIANO, C. E. Efeitos fisiológicos das fibrasDE ÂNGELIS, R. C. Fome oculta: impactos para a dietéticas. Revista Racine, v. 62, p.34-36, Maio/Junho,população do Brasil. Atheneu, 1999. 2001.DE ÂNGELIS, R. C. Importância dos alimentos WADE, C. A energia dos alimentos naturais: umvegetais na proteção da saúde: fisiologia da nutrição programa alimentar completo para restaurar eprotetora e preventiva de enfermidades manter sua energia e bem estar. Rio de Janeiro:degenerativas. São Paulo: Atheneu, 2001. Elsevier, 2001. 22.FAO. Dados agrícolas: Frutas tropicais. Disponívelem (http://faostat.fao.org/faostat/). Acesso em18/12/2005.FARIAS, J. F. Maturação e determinação do pontode colheita de envira-caju (Onychopetalumperiquino). 2009. 41f. Dissertação (Mestrado emProdução Vegetal) – Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Rio Branco- Acre, 2009.FRANCO, G. Tabela de composição química dosalimentos. 8ª edição. Atheneu, São Paulo. Rio deJaneiro, 1992.Sebastião Elviro de Araújo Neto 18
  • 21. Panorama atual e potencial da fruticultura acreana2. PANORAMA ATUAL E POTENCIAL DA extrativismo, verifica-se que a castanha-da-amazôniaFRUTICULTURA ACREANA contribuiu com 19.203 t e o açaí com 146.524 t, no ano de 1998 (Anuário estatístico, 1998). É importante2.1 Fruticultura na Amazônia salientar que, estas frutas possuíam apenas consumo local, e hoje são consumidas em vários estados do A Amazônia possui uma série de Brasil e no exterior.características que a tornam habilitada para investirno agronegócio da fruticultura. As frutas tropicais 2.2 Aspectos Gerais do Estado do Acresão, o primeiro grupo de alimentos, associados áAmazônia que, vêm na mente dos consumidores O Estado do Acre ocupa uma área estimada deocidentais. Além disso, o mercado de suco da frutas 152.589 km2, com uma população estimada detropicais esta em franca expansão, com o 557.526 habitantes, distribuídas em 66% na zonaenvelhecimento das populações, as bebidas não urbana e 34% na zona rural. O relevo é formado, naalcoólicas, como os sucos, têm seu consumo sua maior parte por uma plataforma regular, comaumentado (Clay et al., 1999). altitudes variando de 100 a 300 metros, sendo que a Na região há várias instituições de ensino, vegetação é formada por floresta úmida de terra firmepesquisa e extensão com conhecimento na área de (88,24%), várzea (11,37%) e campo (0,39%) (IBGE,fruticultura (Embrapa, INPA, CEPLAC, 2004). O clima da região é quente e úmido comUniversidades, Emateres, etc.). Mesmo sem dados estação seca e chuvosa bem definidas. A temperaturaconsolidados, sabe-se que mais de 50% das frutas média anual é de 25,8ºC, sendo a média das máximasconsumidas na região vêm de outros estados, sendo de 31,3ºC e a média das mínimas de 20ºC. As médiasque, a maioria têm condições de serem produzidas na anuais de precipitação umidade relativa do ar eregião. Para as grandes empresas seria uma grande insolação são de 1.710 mm, 84% e 1.522,1 horas.oportunidade de aliar a atividade com a marcaAmazônia, hoje com divulgação mundial. 2.3 Principais fruteiras cultivadas no Acre No entanto é preciso maiores investimentosgovernamentais em rodovias, ferrovias, hidrovias e O cultivo de fruteiras no estado do Acre,portos; dentre outras políticas específicas para concentra-se nos municípios de Cruzeiro do Sul,fomentar a fruticultura. Plácido de Castro, Acrelândia, Porto Acre (Projeto A região Amazônica é a terceira maior Humaitá) e Rio Branco (Tabela 2.1 e 2.2).produtora de banana do país, segunda em abacaxi e Na tabela 2.1, encontra-se a área colhida,quarta em coco e maracujá, onde os Estados da produção e produtividade das principais fruteirasregião já possuem tradição na produção de frutas. cultivadas no Acre.Verificando o mapeamento da fruticultura brasileirado ano 2000, o Estado do Pará é o segundo maior Tabela 2.1 - Área colhida (ha), produção eprodutor brasileiro de abacaxi (9.842 ha) e o Estado produtividade média das principais fruteirasdo Amazonas tem 7 municípios entre os 50 maiores cultivadas no estado do Acre, ano de 2002.produtores desta fruta (2.620 ha). Com relação a Área Produtividadebanana o Estado do Pará é o maior produtor (51.772 Produtos colhida Produção (fruto ouha), o do Amazonas o quarto maior produtor (41.701 (ha) ton/ha)ha), o Estado do Acre tem uma área plantada de Abacaxi (Mil frutos) 262 276.320 1.0549.276ha, Roraima 6.000 ha e Rondônia 5.729 ha. Abacate (Mil frutos) 88 568 6.454 Açaí (tonelada) 159 10 Na produção de coco, o Pará é o maior Banana (Mil cachos) 6.712 52.087 8,0produtor (17.229 ha). Na produção de mamão o Pará Côco-da-baía (Mil f) 68 359 5.279é o quarto maior produtor (1.258 ha) e o estado do CupuaçuAmazonas possui 7 municípios (819 ha) entre os 50 Guaraná (ton) 139 55 0,4maiores produtores. Em Maracujá o Pará é o sexto Laranja (Mil frutos) 560 4.879 8.713maior produtor. Com relação a laranja já existem Limão (Mil frutos) 76 542 7.13135.817 ha plantados nos estados do Amazonas, Pará e Mamão (Mil frutos) 250 2.180 8.720Roraima. No Estado de Rondônia já existe uma área Manga (Mil frutos) 48 358 7.458plantada de 38.500 ha com frutas tropicais. Maracujá (Mil fruto) 74 386 5.216 Além destas frutas exóticas, observa-se que, Palmito (ton) 763 1.951 2.555existe uma área considerável plantada com frutas Tangerina (Mil fruto) 190 1.673 8.805nativas. É o caso do cacau, com 4.573 ha plantados Fonte: IBGE (2004).no Estado do Amapá, 26.896 ha em Rondônia e99.742 no Pará (Anuário estatístico, 1998). Ocupuaçu tem uma área plantada de 16.000 ha naregião Amazônica (Ribeiro, 1997). O guaraná tem11.611 ha plantados na região. Com relação aoSebastião Elviro de Araújo Neto 20
  • 22. Panorama atual e potencial da fruticultura acreanaTabela 2.2 – Principais fruteiras produzidas nos municípios acreanos.Municípios Banana Laranja Limão Mamão Manga Abacate Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha)Acrelândia 8.640 2.808 1.200 250 88 25 12 4 1 90 54 6 40 8 5Assis Brasil 140 42 20 4 3 1 3 2 1 13 2 1 4 5 1Brasiléia 4.200 1.441 600 142 50 13 8 6 1 63 50 9 25 12 5 30 33 5Bujari 450 129 60 72 36 6 60 21 6 120 60 8 12 2 1 64 45 8Capixaba 148 56 26 45 9 5 8 8 1 136 136 17 7 1 1 13 13 3Cruzeiro do Sul 3.816 496 353 668 329 80 16 12 5 55 17 18 27 4 6 68 41 8Epitaciolândia 1.050 378 150 180 72 17 8 6 1 48 36 6 5 2 1 15 18 3Feijó 2.576 358 322 234 199 18 108 41 9Jordão 3.968 786 496 60 48 6 12 6 2 96 25 8 25 18 6Mancio Lima 360 47 33 52 25 7 3 1 1 7 5 1Manoel Urbano 120 70 12 30 12 3 24 12 2 27 14 3 15 2 2 7 7 1Marechal Talmaturgo 819 96 75 - - 110 7 2 2 3Plácido de Castro 5.135 1.325 738 990 297 43 60 15 10 340 170 34 18 3 3 15 9Porto Acre 1.750 336 284 344 103 1 105 37 15 400 280 50 30 15 5 20 12 5Porto Walter 927 108 86 8 2 14 4 2 1Rio Branco 6.810 2.570 1.135 900 252 100 208 54 16 150 75 10 50 8 5 140 112 20Rodrigues Alves 1.080 140 100 87 40 1 21 6 6 9 6 1Santa Rosa do Purus 100 10 10 8 4 25 12 7 2Sena Madureira 1.050 390 140 200 90 65 81 31 9 162 62 27 100 22 10 66 51 8Senador Guimard 1.305 320 205 455 159 10 40 12 8 130 85 13 8 3 1 15 11 5Tarauacá 4.792 657 599 100 70 10 114 40 12 24 21 6Xapurí 1.016 518 127 100 50 27 19 3 25 20 5 8 3 2 26 31 4TOTAL 52.087Fonte: IBGE (2004).Sebastião Elviro de Araújo Neto 21
  • 23. Panorama atual e potencial da fruticultura acreanaTabela 2.2 – Principais fruteiras produzidas nos municípios acreanos. (Continuação...)Municípios Maracujá Tangerina Coco Guaraná Palmito Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Mil R$ Área Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha) Fruto 1.000 (ha)Acrelândia 167 334 61Assis BrasilBrasiléia 16 16 4 52 26 4 73 146 20Bujari 20 12 4 125 50 10Capixaba 30 30 3 36 22 3Cruzeiro do Sul 302 190 53 72 36 14 29 87 73Epitaciolândia 27 32 9 65 33 5 82 14 14Feijó 60 53 6Jordão 46 36 5Mancio Lima 12 5 3 6 3 2 24 72 60Manoel Urbano 30 11 2Marechal TalmaturgoPlácido de Castro 27 10 10 120 60 10 30 15 5 123 246 55Porto Acre 100 25 25 33 17 5 179 358 74Porto WalterRio Branco 72 40 6 336 120 28 90 45 20 4Rodrigues Alves 36 15 8 3 2 1Santa Rosa do Purus 30 18 2Sena Madureira 10 9 2 228 96 24 130 85 20 159 318 100Senador Guimard 156 47 12 36 20 10 2 6 6 1.176 2.352 675Tarauacá 53 44 6Xapurí 40 24 4 10 6 2 29 58 10TOTALFonte: IBGE (2004).Sebastião Elviro de Araújo Neto 22
  • 24. Panorama atual e potencial da fruticultura acreanaBanana Açaí Pela crescente demanda do açaí, tanto no A principal fruteira plantada no estado é a mercado interno como externo, sua inclusão embanana, ocupando uma área de 6.712 ha, com programas estratégicos de desenvolvimento regionalprodução de 52.087 cachos anual (Tabela 2.1). As deve ser feita.principais cultivares plantadas são a prata, maçã e O estado do Acre apresenta aptidão para ocomprida, mas com a entrada da principal doença da cultivo do açaí. O plantio do açaí pode ser feito embananeira (Sigatoka Negra), vários produtores aproximadamente 50% dos solos do Acre (Franke etdiversificaram seus plantios com variedades al., 2001).resistentes, como a Caipira, Pioneira, Thap Maeo e aMysore, atualmente com opção de mais seis Restrita 1% Restrita Inápta 7%cultivares, MARAVILHA, PRECIOSA, Inápta 0%GARANTIDO, CAPRICHOSO, JAPIRA ePACOVAN KEM. Preferencia/ A produção de banana no estado do Acre, é Restrita 45%uma das atividades agrícolas de maior expressão,pelas facilidades de cultivo, produção continuada aolongo do ano e sua larga utilização e/ou aceitação nasmais variadas formas de consumo (Gondim et al., Preferencial 47%2001a). O Acre apresenta aptidão natural para o Figura 2.2 – Percentual de classes de aptidão naturalcultivo de bananeira em 15% do território, devendo- para o cultivo do açaizeiro no estado do Acre.se adotar práticas de manejo adequadas (cobertura do (Adaptado de Franke et al., 2001).solo, reposição nutricional etc.) e assim, corrigiralgumas limitações de ordem química e/ou Cupuaçumorfológica (adubação, medidas de conservação do Frutos grandes de cupuaçu (1,5 - 2,0 kg)solo, drenagem etc.) para os 25% das terras alcançam preços de R$ 1,00 a 2,00 no mercadoclassificadas como Preferencial/Restrita (Figura 2.1). varejista (feiras) de Rio Branco. A polpa é vendida de R$ 2,00 a 3,00 o kilograma Um hectare de cupuaçu Preferencial/Restrita 9% adulto (mais de 5-6 anos) bem conduzido, em ano de Restrita/Química boa produção, produz, aproximadamente, 1000 kg de Morofológica Restrita 23% polpa (em torno de 3000 frutos/ha/ano). Dos frutos 10% do cupuaçu pode-se explorar também as sementes (15 Preferencial/ a 20%) para produção de produto semelhante ao Restrita/Química chocolate, o cupulate, manteiga de cupuaçu e outros. 13% Restrita/ O estado do Acre não apresenta restrições Química 14% climáticas para o cultivo do cupuaçuzeiro, porém, Preferencial/ Restrita 3% observa-se que aproximadamente 28,4% dos solos do Estado do Acre são considerados aptos (4,1% são de aptidão preferencial e 24,3%, preferencial/restrita) e Inápta 13% Preferencial 15% 71,7% são considerados restritos e/ou inaptos (Figura 2.3)Figura 2.1 – Percentual de classes de aptidão naturalpara o cultivo da bananeira no estado do Acre.(Adaptado de Gondim et al., 2001a). Preferencial/ Restrita 45% Restrita 24% Os municípios de Acrelândia, Plácido deCastro, Rio Branco, Brasiléia, Tarauacá e Jordão,foram, no ano de 1999, os cinco maiores produtoresdo Acre, com área correspodendo a 62,66% da área Preferencial 4%do Estado com bananeira (IBGE, 2001). Embora nos municípios de Capixaba, PortoAcre, Senador Guiomar, não haja tradição para aprodução de banana (área colhidas de 90, 84 e 64 ha,respectivamente conforme IBGE, 2001), verifica-se Inápta 17%que a maior parte de suas terras é adequada, ou seja Restrita/Inápta 10%preferencial para exploração de banana. Figura 2.3 – Percentual de classes de aptidão natural para o cultivo do cupuaçuzeiro no estado do Acre. (Adaptado de Gondim et al., 2001b).Sebastião Elviro de Araújo Neto 23
  • 25. Panorama atual e potencial da fruticultura acreana O cupuaçuzeiro pode ser explorado, com Brasil, por produzir frutos de excelente flavor. Suapossibilidades de melhor retorno econômico, nos demanda vem crescendo pelo aumento do consumomunicípios de Acrelândia, Plácido de Castro, Rio de seus frutos nas regiões não produtoras do país, nãoBranco e Rodrigues Alves, sendo adotadas as práticas sendo suprida pela baixa produtividade, ocasionadaculturais e de manejo e conservação do solo (Gondim pelos problemas de produção, principalmente oe tal., 2001b). ataque das brocas do caule, do fruto e da semente e os baixos índices tecnológicos empregados nosAbacaxi plantios da gravioleira. A produção de abacaxi tem abastecido o No mercado de Rio Branco, a graviola alcançamercado local no período da safra, sendo necessário a preços muito altos, sendo comercializado até por R$importação da fruta de outros estados produtores, 7,00 o kilograma na rede de supermercado, assim, umpara suprir a demanda no período de entre-safra, fruto de 3 kg pode ser comercializado por até R$ficando claro a necessidade de estudos que viabilizem 21,00, porém, no mercado livre os frutos sãoa produção fora da época, o manejo da fusariose e comercializados por unidade, variando de R$ 3,0 acontrole da broca do fruto, da cochonilhas e 5,00, frutos grandes (1 a 3 kg). No cultivo da graviolapercevejo, dentre outras pragas. no Acre, a incidência da “broca-do-fruto”, “broca-da- semente” e a “broca-do-tronco” têm se constituídoMamão em fatores limitantes para expansão da cultura. O cultivo do mamão, assim, como do abacate, Todavia, os preços altamente compensadoresmanga e maracujá tem-se incrementado nos últimos viabilizam até mesmo práticas como o ensacamentoanos, porém, a produção não é suficiente para suprir a dos frutos (com telas), para evitar os danos causadosdemanda. pelos insetos, e fazer o tratamento para a broca-do- O mamão produzido no estado, apresenta tronco, com a injeção (usando seringa) de inseticidasbaixa qualidade, principlamente com relação a vólateis (ou até mesmo querosene ou gasolina), nosquantidades de frutos provenientes de plantas fêmeas, orifícios abertos pela broca no caule.plantas com flores hermafrodita pendândrica e flores Outro fator importante para o aumento dahermaflodita carpelóide, e até de plantas masculinas, produtividade da graviola é a necessidade deplantas estas que devem ser eliminadas do pomar, polinização manual, que alcança acima de 90% demas que o produtor não as retira e que produzem frutificação, ao contrário dos 6% de frutificaçãofrutos de baixo valor comercial, porém, o mercado no natural, pois a planta apresenta flores de conformaçãoAcre, ainda aceita estes tipos de frutos. anatômica complexa, o que dificulta a polinização natural.Maracujá O maracujá é outro fruto de baixa qualidade 2.4 Frutas potenciaiscomercial e organoléptica, provavelmente causadopela colheita ou coleta tardia, contribuindo com a Além destas fruteiras tropicais mais populares,aceleração dos processos fisiológicos e bioquímicos e outras espécies produzidas na região Amazônica,senescência dos frutos, além das manchas no fruto como o araçá-boi (Eugenia stipitata), a graviola, ocausado por pragas e doenças, em especial por camu-camu (Myrciaria dubia), o abricó (Mammeaantracnose e verrugose. americana) e o bacuri (Platonia insignis) dentre Uma das reclamações mais freqüentes, é a outras, são apreciadíssimas no mercado regional,baixa polinização e frutificação. Sabe-se que há tendo procura maior que a oferta, principalmente pelovários fatores que conduzem a baixa frutificação, ramo de lanchonetes e sorveterias. Também frutascomo auto-incompatibilidade genética, extremos de tropicais exóticas como a acerola (Malphighiatemperatura, precipitação excessiva, abelhas pequena glabra), o rambutam (Nephelium lappaceum), Sapoti(silvestre, Apis melífera, Irapuá), baixa população de (Manilkara achras) e o mangostão (Garciniamamangava, baixo teor de água no solo, dentre mangostana), têm mercado potencial com condiçõesoutros. propícias para cultivo no Estado do Acre.Guaraná O mangostão (Garcinia mangostana), espécie A produção de guaraná é praticamente, quase da família Clusiáceas, é muito comum no extremosua totalidade produzida no município de Cruzeiro do Oriente (China, Indonésia, Malásia e Tailândia), deSul, apesar dos 55 toneladas, não é suficiente para onde é originário, sendo considerada como a “rainhasuprir a demanda das fábricas que produzem guaraná das frutas”. Esta espécie, adaptou-se tão bem naem pó, refrigerante e extratos. Amazônia que produz até mais rápido (aos 6-7 anos), do que outros lugares em que é cultivada, onde leva até 10 anos para produzir.Gravioleira A gravioleira, planta exótica cultivada na O rambutam, árvore frutífera tropicalregião, possui ótimo potencial de mercado, em todo asiática, da mesma família do guaraná,Sebastião Elviro de Araújo Neto 24
  • 26. Panorama atual e potencial da fruticultura acreana(Sapindaceas), se enxertado produz rápido (aos 04 como feiras livres, lanchonetes, restaurantes,anos) e seus frutos, que externamente apresentam agroindústrias e supermercados.alguma semelhança com o urucum, encantam Estes dois fatores (diferenciação de produto e“crianças de todas as idades” por sua polpa diversificação de mercado), constituem emmucilaginosa, translúcida, adocicada e extremamente estratégias fortes na geração de emprego e renda,agradável. principalmente nas pequenas propriedades (Giovenarde, 2003). O araçá-boi e o bacuri (este último muitoapreciado em Belém, PA) são frutos de aroma e sabor 2.5 Fruticultura nos Sistemas Agroflorestais-SAFsmuito agradáveis e bem característicos, e, setrabalhados nos aspectos de melhoramento vegetal e Com uma filosofia “sustentável” oude marketing, reúnem boas condições de serem ecologicamente correta, muitas comunidadesexplorados comercialmente no Acre. agrícolas da Amazônia vêm investindo nos sistemas Agroflorestias - SAFs como uma alternativa O sapotizeiro (Manilkara achras) pertencente economicamente viável. Uma das pioneiras foi aa família Sapotacea, mesma do abiu (Pouteria associação de produtores do Projeto decaimito) é originário da América Central. No Brasil, Reflorestamento Econômico Consorciado ea cultura tem demonstrado boa adaptação, sendo Adensado (Reca) que, a partir de 1989, vemcultivado a partir do Norte do Paraná, até o extremo implantando sistemas agroflorestais do tiponorte dos estados das regiões Norte e Nordeste do multiestratos, tendo como componentes básicos oBrasil. Porém, a produção brasileira é originada cupuaçu (Theobroma grandiflorum), pupunhaprincipalmente de plantas consideradas de “fundo-de- (Bactris gasipaes), castanha-do-brasil (Bertholletiaquintal”, concentrada na região Nordeste, excelsa) e culturas anuais de subsistência.principalmente nos Estados de Pernambuco, Ceará, O Projeto Reca tem se tornado uma referênciaParaíba e Rio Grande do Norte. O cultivo do sapoti é na Amazônia. São 650 ha de SAFs, distribuídos nasum negócio tão doce quanto o próprio fruto. Não propriedades dos 274 agricultores associados.exige investimento muito alto se comparado a outras Entretanto, a implantação dos SAFs utilizandoculturas. Em regiões com grandes precipitações culturas como cupuaçu, pupunha e castanha sofrepluviométricas, como o Acre, onde a irrigação seria influência de fatores de risco, devido à elevadafeita apenas nos períodos de estiagem, a manutenção dependência do mercado de produtos. Tornando-sedo cultivo teria custo reduzido (Araújo Neto, 2000). necessário, maior diferenciação de produtos e diversificação de mercado. O camu-camu, Mirtácea muito comum nas Alguns agricultores ecológicos no Acre, comovárzeas da Amazônia, surge como preciosíssima no P.A. Humaitá, estão consorciando abacaxi,fonte de vitamina C, apresentando teores superiores mandioca, milho, bananeira, mamoerio, pupunheira,até mesmo aos da acerola, considerada a fruta de cupuaçuzeiro, açaizeiro e esencias florestais, em umamaior teor desta vitamina. Daí, a polpa do camu- mesma área de forma sucessional, com resultados decamu está sendo muito procurada para ser consumida produção de biomassa (20 t ha-1 ano-1) e de alimentosna forma de suco, principalmente por membros da (45 t ha-1 ano-1) muito acima dos monocultivos.classe médica, que a consideram um sucedâneo davitamina C sintética, largamente comercializada nas 2.6 Tecnificação dos pomaresfarmácias. Os Estados Unidos importam camu-camuda América do Sul para a produção de “camu-plus”, O sistema de produção da fruticultura acreanaque são tabletes de vitaminas C natural. O camu- é caracterizado por vários fatores: baixo uso decamu que é um arbusto relativamente fácil de ser tecnologias, principalmente no tocante a utilização decultivado, por ser bastante rústico e bem adaptável às mudas com baixa qualidade fitossanitário, práticas decondições ambientais da Amazônia, embora não seja manejo, insumos e cultivares produtivas eplanta de conformação morfológica tão regular como tolerante/resistentes à pragas e doenças, bem comoa jabuticabeira (Myrciaria cauliflora) (da mesma pela alta perda da produção por ocasião da colheita,família), produz frutos como esta (cauliflora), de armazenamento e transporte. Estes problemas sãopadrão idêntico, variando na cor (frutos mais agravados pela inexistência de entrepostos derosáceos e violáceos) e no sabor, sendo o camu-camu armazenamento e de malha viária adequada para oextremamente ácido, não se prestando, portanto, para escoamento da produção, principalmente no períodoconsumo “in natura”. chuvoso, e pela pouca disponibilidade de Outras espécies nativas possuem grande agroindústrias para o processamento das frutas (Ledo,potencial para comercialização, como envira-cajú, 1996).cajá-de-jaboti, cajuí, mapati, ata-do-mato, pequi A qualidade das frutas que chega aodentre outras. Estas frutas podem ser utilizadas como consumidor muitas vezes não se enquadram dentroestratégia de mercado: primeiro diversificando a dos padrões brasileiros para classificação de frutas,fruticultura; segundo: atingindo vários mercados,Sebastião Elviro de Araújo Neto 25
  • 27. Panorama atual e potencial da fruticultura acreanaporém são e comercializadas aceitas pelos As agroindústrias podem representar umconsumidores. elemento chave para introduzir opções de atividades Apesar da boa aptidão climáticas para muitas nas comunidades do interior, com efeito indireto nofrutas tropicais (banana, mamão, maracujá, açaí) e emprego rural. Segundo Prof. Samuel Pohoryles, dosub tropicais (citros), o Estado do Acre apresenta Settlement Study Center de Rehovot - Israel, arestrição hídricas para o cultivo em larga escala. agroindústria é uma poderosa força para melhorar o Por um lado, o excesso de precipitação uso dos recursos materiais, humanos e diversificarpluviométrica durante o período chuvo pode reduzir a fontes de renda das zonas rurais, promovendo ospolinização em maracujá, cauzar incidência de objetivos do desenvolvimento e da prosperidadedoenças chaves como o tombamento em mamoeiro, material da vida rural. A interdependência dapor outro, o déficit hídrico durante o período de agroindústria com a agricultura deve-se, também, aoestiagem prolongada pode reduzir a frutificação em caráter altamente perecível dos produtos e à grandemamoeiro, citros e maracujazeiro e até causar a morte perda de peso ou de volume no processo dede plantas como banana, açaizeiro (Euterpe industrialização. Assim, os produtos beneficiadosoleraceae), mamoeiro e outras. apresentam vantagens em termos de custo de O problemas do excesso de chuvas poderia ser transporte com o produto in natura; podem serresolvido em parte com plantio em camalhões e o transportados, a longas distâncias, maisdéficit hídrico com irrigação, o problema é que no adequadamente na forma industrializada.estado do Acre não há grandes reservatórios, rios e Diante deste contexto as frutas representamigarapés perenes, que possam ser utilizados em uma grande opção para agregação de valores a estesgrandes projetos de irrigação, se limitando em irrigar produtos, ampliando o leque de produtos a seremalguns pomares doméstico ou poucos hectares no comercializados, contribuindo para a viabilizaçãocampo, constituindo em um dos primeiros problemas desta atividade. Elas podem ser utilizadas em doces,de infraestrutura para expandir em larga escala a compotas, geléias, frutas cristalizadas, sucos,fruticultura no Acre. sorvetes, licores, entre outros. Como essas tecnologias podem ficar fora do Além da agregação de valor, redução daspoder dos agricultores, uma saída seria investir em perdas, diversificação de produto e facilidade defruticultura de sequeiro, com cultivo de espécies mais transporte, a agroindústria pode reduzir a importaçãoadaptas como o açaizeiro nativo (Euterpe de produtos processados e garantir uma expanção daprecatorio), graviola, pinha, envira-cajú, biriba, cajá, produção acreana, já que alcançar outros mercados decajá-manga, ceriguela, caju, bacurizeiro dentre frutas fresca exige produção em escala, altaoutras. tecnologia, logística de pós-colheita e transporte. Aém da questão hídrica. É importante focar É comum, nas lojas e supermercados acreanos,nos probelmas fitossaitários das culturas, no manejo não encontrar produtos processados no estado comodo solo, das plantas de cobertura e das plantas doce de goiaba, de banana, abacaxi em calda, licor,cultivadas. sendo estes produtos importados de outros estados No entanto, a aplicação de tecnologia na brasileiros.fruticultura acreana deve levar em consideração dois Fica claro, que o desenvolvimento dafatores importante: a difusão de tecnologia, seja de fruticultura acreana dependerá da implantação detécnico para o agricultor, entre agricultores e de agroindústrias, principalmente para a produção deagriultor para o técnico (Freire, 1977) e a trajetória sucos engarrafados, doces e geléias.do agricultor, que muitas vezes pode não ser capaz demudanças radicais no padrão de cultivo e de vida, 2.8 REFERÊNCIASsendo necessário identificar a capacidade da famíliaou de grupos de agricultor em adotar determinadas ANDRADE, F. G. de A. Trajetórias e Condições dotecnologias (Andrade, 2009). Camponês: as Relações Sociais nos Assentamentos do Ceará. Universidade Federal do Ceará, 2009.2.7 Agroindústria 232p. Tese de Doutorado em Sociologia. A produção acreana é praticamente para ARAÚO NETO, S. E. de. Sapotizeiro – um doceconsumo interno, com exceção de venda de banana negócio. O Rio Branco, 12/01/2000.para os mercados de Porto Velho e Manaus.Aumentar a produção acreana de frutos é interessante CLAY, J.W.; SAMPAIO, P.T.B.; CLEMENT, C.R.pela importância na geração de renda e emprego, Biodiversidade amazônica: exemplos e estratégias.reflorestamento e saúde humana, muito embora, Manaus: Programa de Desenvolvimento Empresarialinvestir em aumento de produtividade e redução de e Tecnológico, 409p. 1999.perdas pode representar aumentos significativos darenda do agricultor e redução dos preços ao FRANKE, I. L.; BERGO, C. L.; AMARAL, E. F. do;consumidor. ARAÚJO, E. A. de. Aptidão natural para o cultivo do açaí (Euterpe oleracea Mart. Euterpe precatóriaSebastião Elviro de Araújo Neto 26
  • 28. Panorama atual e potencial da fruticultura acreanaMart.) no Estado do Acre. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 2001. 5p. (EMBRAPA-CPAF/AC,Comunicado Técnico, nº142).FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? Rio deJaneiro-RJ: Paz e Terra; 1977.GIOVENARDI, E. Os pobres do campo. PortoAlegre: Tomo Editorial, 2003.GONDIM, T. M. de S.; AMARAL, E. F. do;ARAÚJO, E. A. de; SILVEIRA, M. M. da. Aptidãonatural para o cultivo da bananeira no Estado doAcre. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 2001a. 6p.(EMBRAPA-CPAF/AC, Instruções Técnicas, nº 34).GONDIM, T. M. de S.; AMARAL, E. F. do;ARAÚJO, E. A. de. Aptidão para o cultivo docupuaçuzeiro no Estado do Acre. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 2001b. 4 p.(EMBRAPA-CPAF/AC, Comunicado Técnico, nº127).IBGE. Sistema IBGE de recuperação automática –SIDRA. Produção agrícola municipal 1999.http://www.sidra.ibge.gov.br/. Acesso 07/05/2001.IBGE. Sistema IBGE de recuperação automática –SIDRA. Produção agrícola municipal 2002.http://www.sidra.ibge.gov.br/. Acesso 27/04/2004.LEDO, A. da S. Potencialidade da fruticulturaacreana. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 1996.16p. (EMBRAPA-CPAF/AC, Documentos, 20).RIBEIRO, G.D. Avaliação preliminar de sistemasagroflorestais no projeto água verde, ALBRÁS,Barcarena, Pará. Belém: Faculdade de CiênciasAgrárias do Pará, 1997. 100p. Dissertação (Mestradoem Ciências Florestais).Sebastião Elviro de Araújo Neto 27
  • 29. Sistemas de produção na fruticultura3. SISTEMAS DE PRODUÇÃO NA dimensões da sustentabilidade (ambienteal, social,FRUTICULTURA econômica, cultura e política). Dentro de um quadro evolutivo, observa-se a A fruticultura desempenha um papel muito tendência de produção de alimentos mais seguros,importante na geração de emprego e renda, inclusive com melhor qualidade e conservação ambiental,com crescimento constante das exportações de frutas mediante a aplicação de sistemas sustentáveis dee sucos, mas com os problemas ambientais produção (PRI e Orgânicos).intensificados nos diversos setores do planeta,inclusive na atividade agrícola, torna-se cada vez Produção orgânica (PO)mais necessário a produção de alimentos com o mínimo de impacto ambiental. Produção integrada (PI) Atualmente podemos considerar quatro principais sistemas de produção na fruticultura: Manejo Integrado de Pragas (MIP)a) Extrativismo natural e intencional b) Sistema convencional Produção a calendário fixoc) Sistema integrado d) Sistema orgânico Produção convencional O sistema extrativista de frutas compreendeum importante setor da fruticultura, principalmente As diferenças de manejo dos pomares nosna produção de frutas nativas feito por comunidades sistemas de produção convencional, integrada etradicionais. O termo extrativismo intencional se orgânica na Europa são apresentados no Quadro 3.1,refere aqui neste texto como uma fruticultura onde se verifica que não existe muito controle noimplantada, mas com baixo uso de insumos externo e sistema convencional e que a diferença básica entre omanejo. Um exemplo disto é o cultivo de banana em sistema integrado e o orgânico está no uso demuitas localidades da Amazônia, com quase produtos sintéticos.nenhuma trato culturas, se restringindo apenas noplantio, limpeza anual e colheita. Quadro 3.1 – Diferenças fundamentais entre a O sistema convencional, mas conhecido e produção convencional, integrada e orgânica depraticado na maioria dos pomares, consiste no uso alimentos.intensivo de recursos externos, grandes alterações na Prática Convencional Integrada Orgânicavegetação e solo e uso intensivo de fertilizantes Culturalquímicos e agrotóxicos, com pouco controle de Manejo do Intenso Mínimo Mínimo soloaplicação. Agroquímicos Pouco Restrito Naturais Neste sistema há os problemas graves com controleuso indiscriminado de agrotóxicos, como em uva, Pós-colheita Usa Não usa Não usamaçã, morango e melão; a salinização de área com agrotóxico Fertilização Sem controle Orgânicos e Só orgânicoirrigação intensiva, baixa remuneração da mão-de- químicosobra e outros. Defesa da Calendário Monitoramento Monitoramento O sistema integrado de fruta (PFI) consiste na plantaprodução de frutas de alta qualidade mediante o uso Legislação Não dispões Instrução Lei 10.831 de normativa 23/12/2003dos recursos naturais e de mecanismos reguladores nº20/01. Instruçãopara minimizar o uso de insumos e contaminantes e normativapara assegurar uma produção o mais sustentável nº64, depossível. Para isso, a garantia da conformidade é feito 18/12/2008.por certificadoras autorizadas e credenciadas paraeste fim. Na PIF, por exemplo, há algumas restrições 3.1 Sistema Integrado de frutascomo o uso de qualquer agrotóxicos em pós-colheita O conceito de Produção Integrada começoue em pré-colheita o uso de organoclorados e a ser analisado nos anos 70 pela Organizaçãopiretróides. Além disso, há diversas outras restrições, Internacional para Luta Biológica e Integradacomo o manejo do solo e das plantas espontâneas, (OILB). Em 1976, na Suíça, foram discutidas asdentre outros. relações entre o manejo das culturas de frutíferas e a A produção orgânica de frutas é muito proteção integrada das plantas.semelhante com a PIF, por incormporar o processo de A partir disso, ficou evidenciada agarantia da conformidade (certificação), ter necessidade da adoção de um sistema que atendesseregulamentação própria e priorizar a qualidade do às peculiaridades do agroecossitema, de forma aalimento, qualidade de vida e a conservação utilizar associações harmônicas relacionadas com asambiental ao mesmo tempo. Porém, a produção práticas de produção. Incluem-se nesse contexto oorgânica de frutos é mais rigorosa quanto aos manejo integrado e a proteção das plantas, fatoresaspectos de produção, por abranger todas as fundamentais para a obtenção de produtos de qualidade e para a sustentabilidade ambiental. MasSebastião Elviro de Araújo Neto 28
  • 30. Sistemas de produção na fruticulturasomente em 1993 a OILB publicou os princípios e as Normativa Nº 20, de 20/09/2001, publicada no Diárionormas técnicas pertinentes, que são comumente Oficial da União-DOU, no dia 15 de outubro deutilizadas e aceitas como base nas diretrizes gerais de 2001, Regulamento de Avaliação da Conformidade-composição. RAC, Definições e Conceitos-PIF, Regimento Os procedimentos do sistema de Produção Interno da Comissão Técnica-CTPIF, Formulários deIntegrada na Comunidade Européia foram Alemanha, Cadastro-CNPE e outros componentes de igualSuíça e Espanha. Esses países já tinham começado importância, documentos estes, resultantes daanteriormente este processo, diante da necessidade de parceria entre o MAPA e o Instituto Nacional desubstituir as práticas convencionais onerosas por um Metrologia, Normalização e Qualidade Industrialsistema que diminuísse os custos de produção, que (Inmetro) - Ministério do Desenvolvimento, Indústriamelhorasse a qualidade e reduzisse os danos e Comércio Exterior (MDIC).ambientais. Na Espanha, o rei estabeleceu no ano de No processo de certificação, as normas são2002 um Decreto Real implantando definitivamente a exigidas e devem ser empregadas pelos produtores,PI de produtos agrícolas em todo o país. O exemplo que são posteriormente e periodicamente verificadasvem em 2002, quando ocorreu a diminuição na mediante inspeções e auditorias.aplicação de ditiocarbamato em 8.660 hectares de Os produtos comercializados devem sermaçã. O uso a menos de 600 toneladas do produto, ao rotulados, indicando a origem e os atributos básicoscusto de R$15,00 o kilograma, resultou em economia dos produtos presentes no interior das embalagens,de R$9milhões. Na análise não foram considerados permitindo a rastreabilidade do produto.os efeitos inegáveis relacionados com a preservação A certificação resulta em benefícios não sóde recursos naturais, como água, ar, solo e para os associados diretamente ao processobiodiversidade. produtivo, mas também indiretos para a sociedade. É A seguir, demonstrativo da área com PIF no definida pela ABNT como “um conjunto demundo. atividades desenvolvidas por um organismo independente da relação comercial, com o objetivo de atestar publicamente, por escrito, que determinado produto, processo ou serviço estão em conformidade com os requisitos especificados. Estes requisitos podem ser: nacionais, estrangeiros ou internacionais. A atividade de certificação pode envolver: análise de documentação, auditorias/inspeções na empresa, coleta e ensaios de produtos, no mercado e/ou na fábrica, com o objetivo de avaliar a conformidade e sua manutenção”. O processo de auditoria difere dos processos de consultoria e de inspeção (ou avaliação) periódica da propriedade. Auditoria é um exame sistemático e independente realizado para verificar se as atividades e os resultados estão em conformidade com medidas planejadas e se estas medidas estão sendo implantadas com eficácia e são adequadas para que se alcancem os objetivos. A auditoria, diferentemente da avaliação, requer a obtenção e a documentação de evidências relevantes suficientes. A inspeção (avaliação) restringe-se apenas à comparação local com3.1.1 Processos inseridos na produção integrada exigências acordadas para determinação de provável(PI) de forma direta ou indireta conformidade subseqüente. Para assegurar a objetividade do processo de A comercialização das frutas da produção auditoria e de suas conclusões, os membros da equipeintegrada deve ser feita com o selo da certificação de auditoria devem ser independentes das atividadesoferecido pela certificadora, mediante normas pré- que estão sendo auditadas.estabelecidas pela certificadora em conjunto com osinteressados (consumidores e produtores) e Rastreabilidadeobedecendo normas oficiais quando existe. O Brasil já possui seu Marco Legal da A necessidade de comprovação da origem dosProdução Integrada composto de Diretrizes Gerais e produtos agrícolas visa atender a necessidades doNormas Técnicas Gerais para a Produção Integrada consumidor e do produtor (incluindo-se indústrias) dede Frutas regulamentadas por intermédio da Instrução manter um registro confiável, ágil e seguro de todosSebastião Elviro de Araújo Neto 29
  • 31. Sistemas de produção na fruticulturaos passos envolvidos nos processos da cadeia O selo também pode ser utilizado porprodutiva (desde fornecedores de mudas e insumos indústrias de alimentos, empresas empacotadoras eaté transporte, armazenamento e disponibilidade do distribuidoras do produto em sua forma original ou jáproduto ao consumidor). processada, desde que cumpridas as seguintes regras A existência de um código universal para gerais:rastreamento de produtos (industriais, agroindustriaise agrários), com base no posicionamento global por a) utilizar linhas de empacotamento distintassatélite, proporciona a identificação de informações daquelas utilizadas para produtos produzidos emgeorreferenciadas coletadas durante o processo outros sistemas de produção;produtivo, assim como o tratamento e cruzamento b) adquirir produtos agrícolas de produtoresdelas em Sistema de Informação Geográfica (SIG). credenciados à PI;Além disso, sua presença no rótulo das embalagens e) possuir responsabilidade técnica relativa a suado produto possibilita a identificação da origem do linha de atuação e credibilidade junto aoproduto enviado para o exterior, garantindo a consumidor;rastreabilidade da carga, bem como de toda a d) apresentar pessoal técnico capacitado e eminformação de sua cadeia produtiva, em um único constante reciclagem em PI no seu quadrocódigo. funcional; f) seguir normas relativas a tratamentos ou manejo3.1.2 O processo de Produção Integrada (PI) pós-colheita associadas à PI; g) possuir e disponibilizar, para inspeções e Os produtores que aderirem ao sistema de PI, auditorias, um livro de registro de controle dealém de receberem a credencial de filiação a esse procedência dos produtos, assim comosistema de cultivo, também assumem o compromisso informações de operações e tratamentosprévio de cumprir o regulamento de produção realizados, principalmente, nas etapas deestabelecido pelas normas e de se submeterem a processamento do produto;inspeções específicas e controles técnicos. Também h) permitir livre acesso de pessoal qualificadodevem possuir uma forma única de documentar os pertencente ao governo ou a empresasregistros de campo referentes às operações culturais e certificadoras, credenciadas em PI pelo governo,fitossanitárias realizadas em sua propriedade, nas suas instalações.preestabelecidas para o produto, conhecidas como“cadernos de campo” ou “cadernetas de campo”. As auditorias realizadas nas parcelas que O período de vigência e revogação da aderirem à PI são realizadas por empresasautorização de utilização da marca de PI também é credenciadas junto a um órgão de certificaçãopreestabelecido na admissão do produtor ao sistema internacional.de PI, podendo ser revogada ou suspensa, caso sejam O processo de auditagem difere do processodetectadas, pelas inspeções de auditorias, in- de inspeção periódica, que pode ser realizado peloconformidades com as normas preestabelecidas que Comitê Gestor da PI ou por pessoal competente porretratem procedimentos não autorizados ou ele delegado.reincidências sucessivas. Assim, para o produtor ingressar, permanecer 3.1.3 Produção Integrada (PI) no Brasile manter-se autorizado a praticar PI, devem-secumprir as seguintes condições mínimas: A Produção Integrada de Frutas no Brasil começou pela demanda da Cadeia Produtiva daa) arcar com as responsabilidades técnicas de Maçã, em 1998/99, por meio da demanda feita pela produção e de controle inseridas no contexto da ABPM (Associação Brasileira de Produtores de PI; Maçãs), ao Ministério da Agricultura, Pecuária eb) participar de cursos de formação em PI Abastecimento, alegando que estava sofrendo credenciados pelo governo ou pertencer a pressões comerciais relacionadas com as exportações associações ou entidades que disponham de de maçã para a Comunidade Européia. Estava sendo pessoal técnico habilitado; exigido maiores garantias sobre o processo produtivoc) registrar em cadernetas de campo as operações e da fruta. práticas de cultivo e controle, apresentando-as No estágio atual, o Sistema PIF já atingiu a sempre que solicitadas pelas inspeções periódicas consolidação de 17 espécies frutíferas em 14 Estados e auditagem feitas por entidades credenciadas da Federação, estando em andamento 23 projetos de para o controle e certificação de PI. fruticultura com o envolvimento de aproximadamente 500 instituições públicas e privadas, destacando a Uma vez dentro das especificações, o produtor participação e parcerias de instituições, tais como:pode fazer uso do selo de PI, reconhecido facilmente EMBRAPA, CNPq, INMETRO, Universidades,pelo consumidor por logomarca associada. Instituições Estaduais de Pesquisa, SEBRAE, SENAR, CEAGESP, Associações de Produtores,Sebastião Elviro de Araújo Neto 30
  • 32. Sistemas de produção na fruticulturaCooperativas, Certificadoras, entre outros, obtendo-se total cultivada de videiras e 35% da área total deresultados de destaque: i) 60% da área total nacional produção de manga.de produção de maçã; ii) aumento de emprego e Dentre outros benefícios do PI Frutas, hárenda na ordem de 3,0% (PIF Maçã); iii) diminuição aumento da produtividade, melhor qualidade da frutados custos de produção na maçã (40,0% em produzida, diminuição do uso de fertilizantes em atéfertilizantes); iv) diminuição da aplicação de 40%, economia do uso da água na irrigação, aumentoagrotóxicos e de resíduos químicos nas frutas; e v) de infiltração de água no solo e conseqüente elevaçãomelhoria do meio ambiente, da qualidade do produto do lençol freático, diminuição dos processos erosivos,consumido, da saúde do trabalhador rural e do incremento na diversidade e população de inimigosconsumidor final. No pólo de fruticultura do Vale do naturais das pragas e doenças e manutenção das áreasRio São Francisco estão sob regime PIF 36% da área de reservas naturais.Quadro 3.2 – Espécies cultivadas no sistema PI no Brasil.PIF Nº Produtores Área (ha) Produção (t)Maçã** 283 17.319 461.860Manga** 242 7.025 172.221Uva** 182 3.725 133.070Mamão** 26 1.200 120.000Citros** 95 2.038 37.065Banana** 119 2.678 77.729Pêssego** 105 520 6.240Caju** 15 1.500 1.800Melão** 30 3.560 96.176Goiaba** 27 75 300Figo ** 25 120 1.093Caqui** 23 84 3.000Maracujá** 30 56 5.500Coco ** 12 414 20.368Abacaxi 05 122 3.904TOTAL 1.219 40.446 1.140.326(**) – projetos concluídos e Normas Técnicas Específicas publicadas.Fonte: DEPROS/SDC/MAPA/20063.1.4 Desenvolvimento da produção integrada de crescimento ao sistema radicular das plantas. Na escolha do local para a instalação de um programa de Para que haja sustentabilidade das atividades PI de alimentos, deve-se dar preferência para solosagrárias, refletindo na correta gestão ambiental, é profundos, bem drenados e, se possível, com texturapreciso seguir as normas que dispõem e assegurem média (Nachtigall et al., 2000).uma cuidadosa utilização dos recursos naturais, Na fase produtiva, o manejo do solo nasminimizando o uso de agrotóxicos e outros insumos, entrefilas deve ter como objetivos manter apara isso, não basta apenas receber orientações dos diversidade biológica e controlar a compactação einspetores, mas ter um quadro técnico trinado para a erosão, minimizando o uso de herbicidas (evitando osexecução das seguintes atividades: residuais). No caso de pomares de fruteiras de clima temperado, não é permitido manter o soloa) manejo e conservação do solo; completamente limpo de vegetação, devendo serb) nutrição de plantas; empregada a cobertura viva do solo com gramíneas ec) manejo integrado de pragas, doenças e plantas leguminosas (consorciadas ou alternadas), ou com as daninhas; próprias espécies nativas do local. E recomendáveld) formação e condução das plantas; manter uma faixa livre de invasoras, de cada lado dasf) colheita, conservação e qualidade do produto filas das plantas, por meio de capinas manuais ou agrícola. roçadas. Nas faixas de projeção das copas das fruteiras, só é permitido o uso de herbicidas pós-Manejo e conservação do solo emergentes, com duas aplicações anuais, no máximo, como complemento dos métodos culturais de controle De modo geral, o solo é o recurso natural mais das plantas daninhas (Nachtigalletal.,2000).utilizado e o menos protegido na produçãoconvencional de alimentos. As indicações de calagem Formação e condução das plantase adubações, tanto corretivas como de manutenção,devem ser orientadas conforme as sugestões para a Em todas as normas para a PI de alimentosregião e condições do solo. O preparo do solo para o deve estar implícito o uso de materiais sadios, deplantio deve ser de acordo com o desenvolvimento de origem conhecida e idônea. No caso de PI de frutas,cada cultura, visando oferecer as melhores condições orienta-se para o uso de porta-enxertos tolerantes ouSebastião Elviro de Araújo Neto 31
  • 33. Sistemas de produção na fruticulturaresistentes à acidez do solo, ao excesso de umidade, à direcionam doses, épocas e locais de aplicação dosseca, à salinidade e a determinadas doenças. fertilizantes para nitrogênio, fósforo, potássio,Sintetizando, devem-se eleger as cultivares mais magnésio, zinco e boro. Como exemplo, cita-se oadaptadas às condições edafoclimáticas de cada local, caso do nitrogênio, que deve ser parcelado em trêspara que produzam nas condições mais naturais épocas, a saber: 30% antes do início da brotação,possíveis frutos com qualidade (Nachtigall et al., 30% depois do raleio dos frutos e 40% após a1998). colheita, e a quantidade do nutriente não deve ultra- Na formação das plantas, devem ser utilizadas passar de 40 kg ha-1 em cada parcelamentoas podas que proporcionem uma copa uniforme e de (Nachtigall et al., 2000).fácil manejo, com objetivo de obter um equilíbrioentre as atividades vegetativa e produtiva, para Manejo integrado de pragas, doenças e plantasprodução de frutos de qualidade. Deve ser evitada a daninhasformação de forquilhas em ramos na estrutura básicada planta. Para uniformizar a brotação, não é O controle de pragas e doenças é de sumapermitido o uso de fitorreguladores de síntese não importância no processo de PI, não só pela melhorpresentes na natureza. O excesso de crescimento deve aparência dos alimentos, como também para reduçãoser controlado pela poda de verão, pela redução nas da contaminação por agrotóxicos. A decisão sobre osdoses de fertilizantes, principalmente para nitrogênio, tipos de tratamentos com fungicidas e inseticidas,pela redução na irrigação, objetivando estimular a bem como a ocasião de executá-los, deverá estarfrutificação efetiva. No outono, a poda pode ser embasada nas características das doenças, norealizada para rebaixar as plantas e paralisar o monitoramento das infestações, na própria culturacrescimento delas. No inverno, a poda de frutificação (tolerância a determinados princípios ativos) e nasdeve ser realizada com o objetivo de desbastar e informações das estações de aviso sobre as condiçõesdespontar os ramos, bem como o de retirar ramos meteorológicas (Nachtigall et al., 1998, 2000). Osdoentes e mal posicionados. Deve-se ter o cuidado produtos a serem utilizados para o controle de pragaspara não fazer uma poda drástica que favoreça o e doenças devem fazer parte das relações contidas nascrescimento vegetativo, reduzindo o número de normas para a PI de cada cultura.gemas floríferas. Todos os locais dos cortes devem Os principais cuidados durante o preparo eser protegidos com óleo vegetal misturados com aplicação dos produtos fitossanitários, dentro docalcário, ou pasta bordalesa, ou ainda com tinta programa de PI, são:plástica, para evitar a penetração de fungos. Para a) utilizar equipamentos de proteção individual;assegurar uma produção de frutos de qualidade (peso b) não trabalhar isoladamente quando utilizaradequado ao tipo de fruto), deve-se fazer um raleio produtos muito tóxicos;deles, pois quando houver a polinização excessiva de c) preparar o produto em local fresco e ventilado;flores haverá excesso de produção. A carga da planta d) seguir as instruções e recomendações contidas nasdeve estar de acordo com o vigor e o diâmetro do embalagens dos produtos;tronco. No raleio manual retiram-se frutos injuriados, e) evitar aplicações durante a florada (para nãoatacados por pragas, doenças ou danos mecânicos eliminar os insetos polinizadores);(Nachtigall et aI., 2000). f) evitar aplicações nas horas quentes do dia, nos dias chuvosos e com fortes ventos;Nutrição das plantas g) não aplicar agrotóxicos próximo de fonte de água, riachos, lagos etc.; Para a adequada nutrição das plantas, deve-se h) guardar os produtos bem fechados, longe defazer o levantamento das condições de fertilidade alimentos e do alcance de crianças;natural do solo, no início da instalação do sistema de i) evitar a inalação, respingos ou qualquer contatoPI, através das análises físicas e químicas de cada direto com os agro-tóxicos.unidade de produção. Durante o processo produtivo,é preciso acompanhar o estado nutricional das plantas Na PI de frutas deve-se, obrigatoriamente,por meio de análises de solo e foliar. Com este calibrar e controlar os pulverizadores periodicamenteprocedimento, é possível a obtenção de ciclos de com equipamentos e métodos reconhecidosnutrientes equilibrados e a identificação de pontos internacionalmente, com o objetivo de melhorar acríticos, bem como de suas correções. A melhoria e a eficiência dos tratamentos fitossanitários, bem comomanutenção da fertilidade do solo são fundamentais o de diminuir o desperdício de produtos e apara a preservação da qualidade ambiental e da contaminação ambiental.diversidade do meio ambiente, que são fatores Dentro da PI deve ser adotado oessenciais ao processo de PI. Devem ser observadas monitoramento da densidade populacional das pragasalgumas orientações no manejo de certos e doenças, bem como o uso de níveis de controle.fertilizantes, principalmente para os que contêm Para pragas isso é feito pela contagem do número denitrogênio e potássio. No caso específico de PI de insetos capturados em armadilhas, o que facilita amacieiras no Brasil, já existem normas que adoção de uma medida de controle. O monitoramentoSebastião Elviro de Araújo Neto 32
  • 34. Sistemas de produção na fruticulturaserve, também, para identificar os locais de maior menor dano possível ao meio ambiente. Nesteinfestação das pragas e doenças e, portanto, onde sentido, é preciso observar as normas da PI, poisdevem ser concentradas as ações de controle. Em alguns produtos só são admitidos no sistema comcada tomada de decisão, deve ser registrada a algumas restrições e só podem ser usados se a safrajustificativa no caderno de campo. Na definição de estiver sobre risco sério de comprometimento. Aqual produto utilizar, devem ser consideradas alternância de produtos acaricidas é obrigatória paraalgumas características, tais como: registro do evitar o surgimento de populações resistentes.produto para a cultura e fitotoxicidade; eficiência; Para a PI de maçã no Brasil já existemseletividade para inimigos naturais; toxicidade ao ser algumas definições quanto ao nível de controle dashumano; efeito residual; período de carência e custo. principais pragas, bem como a restrição e admissãoDeve-se dar preferência aos produtos que causem o de certos produtos (Quadro 3.3).Quadro 3.3 – Monitoramento e nível de controle das principais pragas da macieira no Brasil.Praga Armadilha Atrativo Densidade de Nível de controle armadilhaLagarta-enroladeira Delta Feromônio sexual sintético 1 para 7 ha 20 machos/armadilhaBonagota cranaodes /semanaGrafolia Delta Feromônio sexual sintético 1 para 10 ha 40 machos/armadilhaGrapholia molesta /semanaMosca-das-frutas McPhail Suco de uva 25% 1 para 2 ha 0,5 moscas/frasco/diaAnastrepha fraterculusÁcaro vermelho Amostragem - - 70% de folhas com presençaPanonychus ulmi seqüencialFonte: Kovaleski (2000).Quadro 3.4 – Produtos proibidos e aditidos com restrição para macieria no Brasil, em PI. Categoria Proibidos Admitidos com restrições Inseticidas Organoclorados e Piretróides Diazinin, Dimetoato, Fenitrothion, Vamidotion, Acaricidas - Dicofol, Pyridaben, Fenpyroxemate Fungicidas - Mancozeb, Benomil, Iprodione Herbicidas - Simmaina, OrizalinaQuadro 3.5 – Redução de porcentual de agrotóxicos em pomares de PIF.Produtos Maçã Manga Uva Mamão Caju Melão PêssegoInseticidas 25 43 53 30 25 20 30Fungicidas 15 61 43 78 30 10 20Herbicidas 67 80 61 30 - - 50Acaricidas 67 - - 30 - 20 - Ainda para maçã, já existem alguns produtos packing house, com todo o cuidado para evitar danosfitossanitários considerados proibidos e outros mecânicos e exposição ao sol. Sempre que possível,admitidos com restrições (Quadro 3.4). as frutas devem ser colhidas e colocadas diretamente Os princípios de utilização de herbicidas para nas próprias embalagens de comercialização eo controle de plantas invasoras seguem as mesmas conduzidas para a câmara fria onde passarão por umorientações básicas de utilização dos fungicidas e pré-resfriamento. Nesta fase é importante tomar todoinseticidas. Além disso, é necessário orientar-se nas o cuidado com os frutos, principalmente com relaçãoindicações de uso dos herbicidas para cada cultura, a emprego de embalagens e transportes adequados;dentro do processo de PI, evitando aqueles de efeitos evitar danos mecânicos; colher o fruto na época maisresiduais. Do mesmo modo que para os fungicidas e adequada, observando o índice de maturação; manterinseticidas, já existem relações de herbicidas limpo o material de colheita e caixas com hipocloritopermitidos para uso em PI de maçã e frutos de caroço de sódio; aplicar corretamente o frio; escolher(Nachtigall et al., 2000). períodos melhores para a comercialização. Não é permitido nenhum tratamento químico em pós-Colheita, conservação e qualidade do produto colheita para as frutas de caroço como pêssego, No momento da colheita das culturas, deve-se ameixa e nectarina (Marangoni, 2000 e Nachtigall etdar toda a atenção para a definição da cor, firmeza e al., 2000).acidez dos frutos, específicos para cada variedade,região e destino da produção. A colheita deve serrealizada nas horas mais frescas do dia. Os frutos 3.2 Produção orgânica de frutasdevem ser conduzidos o mais rápido possível para oSebastião Elviro de Araújo Neto 33
  • 35. Sistemas de produção na fruticultura Neste sistema as restrições para a produção principalmente de cálcio e de magnésio.de frutas são maiores que nos sistemasanteriores, pois A aplicação máxima de calcário em cultivoso uso de agrot´roxicos é proíbido em qualquer etapa agroecológicos é de 2,0 t/ha/ano. A elevadada produção, o uso de fertilizantes químicos de alta quantidade de matéria orgânica, que deve estarconcentração e solubilidade e outras práticas presente no solo, favorece a troca catiônica e aagrícolas. recuperação do pH. A produção orgânica de frutas é uma das Como nossos solos são geralmente ácidos,atividades na agricultura orgânica de baixo risco, pois torna-se necessário, ao instalar o pomar, mandar analisá-a maioria das espécies se adaptam a períodos com los com bastante antecedência, para fazer a correçãocondições desfavoráveis (seca, frio, calor), o período com calcário, por ocasião do preparo do terreno.de sasonalidade permite maior elasticidade no A quantidade do corretivo recomendada deveplanejamento da atividade e principalmente por não ser incorporada, metade, por ocasião da subsolagem eutilizar área total dispensa grandes revolvimentos de a outra metade na aração e gradagem. Apesar dasolo. aplicação do calcário na área total do terreno, recomenda-se ainda aplicar boa quantidade de farinha3.2.1 Preparo do Solo de ossos na cova, que contém cálcio e fósforo para as plantas novas. O solo deve ser bem preparado, inclusive Manter a relação cálcio/magnésio em torno dedescompactado, para permitir a boa penetração das 3-4:1, para manter a disponibilidade destes elementosraízes, da água e do ar, nas camadas inferiores. O para as plantas. Utilizar preferencialmente calcáriospreparo do solo deve ser feito com uma antecedência calcíticos e magnesianos para que esta relação possade 60 a 90 dias, até atingir a profundidade de 50 a 60 manter-se nos solos orgânicos.cm. Solos pesados devem receber, no mínimo, A correção é geralmente efetuada nossubsolagens e arações profundas, seguidas das primeiros anos de instalação do pomar, depois com agradagens necessárias. incorporação de matéria orgânica e o plantio de No sistema orgânico recomenda-se fazer o adubos verdes, há uma estabilização do teor deplantio direto. Em áreas compactadas, com uso nutrientes no solo.anterior de pastagens ou uso excessivo de máquinas, A fosfatagem é feita com o solo ácido, cercadeve-se fazer subsolagem ou o plantio de adubos de 30 dias antes da calagem. Incorporar junto com overdes, usando plantas com raízes fortes, como fósforo natural elevada quantidade de matériagandú, temoço e nabo forrageiro (subsolagem orgânica, para melhorar a solubilização do fósforo.biológica). A incorporação de fósforo natural pode ser Importante: calagem em culturas instaladasfeita com vantagens, uma vez que os nossos solos sãogeralmente pobres nesse nutriente e é na instalação Em culturas já instaladas deve ser feita ado pomar a melhor época de colocar o fósforo em análise do solo a cada 2-3 anos, aplicando-se omaior profundidade. calcário necessário para elevar o pH a níveis Para melhor condicionamento do solo, superiores a 6 e a saturação em bases a 70%.recomenda-se, após o preparo do solo, o plantio de Em pomares instalados, é muito comum aadubos verdes que serão roçados ou incorporados. aplicação superficial do calcário em pequenas dosesPode ser feito o plantio de milho e, depois de anuais, principalmente em terrenos cobertos comformada a espiga, é feito o plantio de adubo verde, de palhada. Alguns agricultores vêm utilizando aalta produção de massa vegetal, como a mucuna e mistura com gesso na proporção de 2:1, para daroutras. maior mobilidade ao calcário e fazer com que atinja Depois da colheita do milho, toda matéria maiores profundidades.vegetal deve ser roçada e deixada sobre o solo As épocas mais usadas para a calagem são oenriquecendo. Plantios de ervilhaca e aveia preta outono e o inverno. E fundamental que hajapoderão ser instalados para proteger e enriquecer o disponibilidade de cálcio no solo, pois a maiorsolo, no período de outono e inverno. absorção desse elemento se dá pelo xilema, até a fase de divisão celular dos frutos (30 dias após a floração).3.2.2 Correção do pH do solo Depois dessa fase, devem ser feitas aplicações de calcário via foliar, de menor absorção. De modo Para que as fruteiras alcancem um bom geral, aplicam-se 200g/m2/ano de calcítico oudesenvolvimento vegetativo e produzam frutas de magnesiano.qualidade em quantidade, é favorável que o pH dosolo esteja na faixa de 6,0 a 6,5. Os solos ácidos 3.2.3 Adubação no plantio(abaixo de 5,5) não são adequados à exploraçãoeconômica, principalmente quando apresentam teores Para o bom desenvolvimento inicial da planta,de alumínio. Outras conseqüências negativas são: incorporar na cova de plantio:excesso de manganês, a baixa absorção de nutrientes, • 20 L de esterco bovino curtido ou compostoSebastião Elviro de Araújo Neto 34
  • 36. Sistemas de produção na fruticulturaorgânico ou 5 litros de esterco de galinha curtido; desse nutriente nas quantidades adequadas.• 1 a 2 kg de fósforo, sendo 50 a 70% de rocha A agricultura orgânica preconiza o cultivo denatural moída ou farinha de ossos. Colocar 30 a 50% duas a três culturas no mesmo tempo e espaço, parade fósforo parcialmente solúvel (termofosfato = efeito de diversificação. No caso de culturas perenes,yoorin); a questão da biodiverdade poderá ser manejada,• 0,5 a 1,0 kg de Calcário calcítico ou magnesiano; sendo as ervas nativas ou a introdução de plantios• 4 a 5 kg de bórax por hectare; consorciados de adubos verdes manejados para criar• 2 a 5 kg de cinza de madeira ou casca de café (fonte condições de micro-biodiversidade.de potássio, quando necessário). ADUBOS VERDES: Intercalada com as fruteiras• Boro e Zinco (analisar o solo): fritas (FTE), algas poderão ser empregadas espécies de adubos verdesou em biofertilizantes. não muito agressivas conduzidas nas entrelinhas, que Em cobertura, fazer 2 a 3 aplicações ou não subam na copa das plantas. Recomenda-seincorporações de adubos orgânicos, como compostos alternar o plantio de adubos verdes, em cada ano. Asorgânicos ou húmus de minhoca ou Bokashi, a partir principais recomendações são:da brotação das folhas novas, fevereiro/março. As quantidades recomendadas devem variar • Cultura da banana: feijão-de-porco, soja perene,de acordo com a análise do solo, o estado nutricional crotolárias, mucuna-anã.da planta e a fase de desenvolvimento da planta e dos • Cultura do citros: crotolária spectabilis, siratro,frutos. guandu, mucuna-anã, calopogônio, nabo forrageiro. O plantio e a incorporação de adubos verdes • Culturas da goiaba e do caqui: mucuna-anã,melhoram a estrutura e a fertilidade do solo, sendo crotolária spectabilis.muito recomendadas leguminosas, como as • Culturas da maçã e do pêssego: trevo, tremoço,crotalárias. aveia preta, mucuna-anã, crotolárias. • Cultura do maracujá: tefrósia, mucuna-anã e3.2.4 Biodiversidade aveia preta. • Cultura da seringueira: kudzu, mucunas, siratro. Biodiversidade é um termo muito comum na • Cultura da uva: ervilha forrageira, ervilhaca ouagricultura orgânica. Ela nada mais é do que a chícaro, amendoim rasteiro, aveia preta.manifestação da vida sob diferentes formas. Aoestudarmos a maioria dos ecossistemas naturais 3.2.5 Manejo das plantas espontâneasbrasileiros, podemos observar a grande quantidade deespécies vegetais e animais que os integram, o que Na agricultura orgânica, o mato não ésignifica uma afta biodiversidade nesses sistemas. considerado uma erva daninha, porém um Um dos princípios da Ecologia nos ensina que componente do ambiente, que deve, se possível, sera estabilidade de um sistema e a sua capacidade de manejada e não erradicada. As ervas pioneiras ourecuperação, quando exposto a alguma alteração nativas podem proteger o solo e serem abrigo deestão diretamente ligados ao grau de biodiversidade, inimigos naturais das pragas da cultura.pois muitos seres executam as mesmas funções e Quando as ervas presentes tornam-sesubstituem uns aos outros no funcionamento geral do invasoras e afetam as plantas, poderão sersistema. Assim, as populações das diversas espécies substituídas por outras menos agressivas. De formacontrolam umas às outras, sem que nenhuma delas geral, nos pomares, as áreas da coroa são limpas compossa se desenvolver fora de controle. enxadas, sendo que a área total é mantida com No momento em que introduzimos uma cobertura morta ou viva ou gramada.monocultura em larga escala, nós oferecemos uma As ervas invasoras podem concorrer com agrande quantidade de alimento para uma determinada planta na absorção de água e de nutrientes.espécie, cuja população aumenta rapidamente, e ela Geralmente, o período de maior concorrência e quese transforma em praga; seus inimigos naturais traz maiores prejuízos, se estende de setembro atédemorarão um pouco mais para aumentar sua março. O método recomendado para o controlepopulação e poder controlá-la, e, nesse meio tempo, consiste em manter a área sob a projeção da copa,entram os agrotóxicos, causando um desequilíbrio sempre livre de mato e, nas entrelinhas, umaainda maior e provocando o aparecimento de cobertura vegetal.indivíduos resistentes a ele. O manejo das ervas invasoras pode ser feito Para reverter esse quadro, é imprescindível com enxada ou roçadeira. A enxada deve ser usadamontar sistemas de produção que promovam a com cuidado, pois os ferimentos por ela causadosbiodiversidade, tanto das plantas como dos animais, podem provocar podridões nas raízes. Ela pode sertanto acima como abaixo do solo. Isso pode ser usada com vantagens no inverno, na eliminação deconseguido através de programas de cultivos ervas daninhas resistentes. O uso de roçadeiraconsorciados, de cultivo de espécies de leguminosas, permite a incorporação de matéria orgânica quecomo adubo verde, pois elas são capazes de fixar o favorece as plantas, quanto à melhoria das condiçõesnitrogênio da atmosfera e prover as necessidades do solo e absorção de umidade.Sebastião Elviro de Araújo Neto 35
  • 37. Sistemas de produção na fruticultura Manter o solo com cobertura viva ou morta é plantas. O princípio é obter uma planta resistente e auma prática necessária em regiões tropicais e população de inimigos naturais.subtropicais, pois protegem o solo da incidência Como fatores prepoderantes para manter adireta da insolação e da erosão das chuvas. Além saúde da planta e baixa ocorrência de pragas edisso, mantém a vida do solo, com a presença de doenças, estão a preservação do meio ambiente,microrganismos e minhocas e fornecem nutrientes adequado manejo do solo, nutrição equilibrada eessenciais para as plantas. cultivo adaptado às condições locais. A cobertura vegetal do solo com matéria Estes preceitos estão baseados na teoria deorgânica (palhas, bagaços ou capins) é feita durante Francis Chaboussou, que afirma que qualquertodo o ano ou parte dele. Quando são trazidos restos adubação que deixe a planta em sua condiçãode culturas ou capim para cobrir o solo do pomar, fisiológica ótima, oferece-lhe o máximo dechama-se cobertura morta. É uma prática nos cultivos resistência ao ataque de fito-moléstias.de figo e uva. Para o mesmo pesquisador “insetos e fungos A cobertura em redor da planta, com palha ou não são a causa verdadeira das moléstias das plantarestos de culturas, formando um “mulch”, traz vários elas só atacam as plantas ruins ou cultivadasbenefícios, sendo recomendada a mistura com fontes incorretamente”, pó isso, quando são seguidos osricas de nitrogênio, como esterco de galinha ou de princípios orgânicos, há redução significativa decurral. danos causados por insetos ou microrganismos. A cobertura viva consiste no plantio de adubos No entanto, se cumprindo todos os preceitosverdes, que são depois incorporadas na superfície do orgânicos, ocorrerem ataques de insetos nocívos outerreno ou então procura-se manter as ervas pioneiras patógenos, há alternativas para substituir os(mato) sob controle de roçadeira manual ou agrotóxicos, por produtos de baixo custo e que nãomecânica. Nunca deve ser passada a grade no terreno, afetam a saúde do homem e nem causampois afeta e prejudica o manejo e conservação do desequilíbrio na natureza.solo. Neste caso, o princípio de atuação destes Nas entrelinhas, recomenda-se manter uma produtos alternativos não é erradicar os insetos oucobertura vegetal, para evitar a erosão do solo. O microrganismos nocivos, mas aumentar a resistênciacontrole do mato nas entrelinhas é feito da planta.O produtor deve tirar as dúvidas, conhecerperiodicamente com roçadeira mecânica, quando as dosagens, época de aplicação e métodos paraervas daninhas atingirem 20cm de altura. produzir o seu próprio defensivo natural. Em pomares em formação com até 4 anos, Há grande vantagem em produzir alimentospodem ser feitas culturas intercalares com orgânicamente, sem agrotóxicos, são sadios,leguminosas (feijão, soja, melancia ou abóbora). A saborosos e de elevada cotação comercial.cultura intercalar deve receber adequada adubação econtrole fitossanitário e situar-se a um metro da Vantagens dos defensivos alternativosplanta. Ultimamente vêm sendo conduzidosexperimentos sobre plantio intercalar de leguminosas • Aumento da resistência natural das plantas: Aspara produção de massa verde e sua incorporação ao plantas tratadas com estas caldas defensivassolo. apresentam-se geralmente mais vigorosas, oferecendo O plantio de leguminosas nas ruas do pomar, maior resistência á infecção por patógenos, insetospara cobertura vegetal, é recomendado, pois nocivos e às intempéries climáticas.fornecem grande quantidade de massa vegetal enutrientes, que beneficiam as plantas. As espécies • Obter produtos sadios, com preçosque têm apresentado bom desenvolvimento em diferenciados: A cotação obtida pelos produtos semplantio intercalar no período de inverno são: agrotóxicos ou produtos orgânicos são geralmenteervilhaca, tremoço, azevém e trevo. mais elevados e valorizados, devido sua qualidade, As caracteríscas desejáveis são: alta produção quanto ao sabor e isenção de contaminantes.de massa, crescimento determinado (não cresçam • Equilíbrio nutricional: A utilização de produtossobre as fruteiras), fácil erradicação e que não sejam ricos em enxofre, cobre, micronutrientes e outrasperenes. Em locais onde for constatada a ocorrência substâncias orgânicas e naturais, complexados ou nãode fungos causadores de Rosellinia (podridão de com a cal, representam excelentes opções aosraízes), deve ser evitado o plantio de leguminosas. produtores, para o equilíbrio nutricional e A seguir apresentamos algumas alternativas de favorecimento dos mecanismos de defesa natural.leguminosas de verão: • Longevidade da vida útil da planta: Porque fornecem nutrientes essenciais às plantas e renovam o3.2.6 Manejo Fitossanitário vigor vegetativo, favorecem uma maior longevidade dos frutos em pós-colheita e aumento da vida A agricultura orgânica não emprega os produtiva da planta.agrotóxicos para o controle dos insetos nocivos e • Baixo impacto ambiental: Sua ação benéfica, nãopatógenos que podem causar prejuízos para as favorece o surgimento de patógenos resistentes, temSebastião Elviro de Araújo Neto 36
  • 38. Sistemas de produção na fruticulturabaixa toxicidade aos inimigos naturais e não afetam o 2.3 Referênciaambiente e o homem. Quando são aplicadospesticidas, todos os integrantes da cadeia alimentar CANUTO, J. C. Dimensão sociambiental dasão contaminados com os resíduos, afetando toda a agricultura sustentável. In: UZÊDA, M. C. (org.) Ofauna, conforme ilustração abaixo. desafio da agricultura sustentável: alternativas viáveis para o Sul da Bahia. Ilhéus, BA: Editus,3.2.7 Comercialização 2004. p.13-32. Uma exploração econômica de frutas necessita COMETTI, N. N.; MATIAS, G. C. S.; ZONTA, E.;para sua comercialização, de tres fatores básicos: MARY, W.; FERNANDES, M. S. Comportamentoquantidade, continuidade e qualidade, sendo nitrogenados e açucares solúveis em tecidos de alfaceigualmente importantes e inseparáveis. A escolha da orgânica, hidropônica e convencional. Horticulturaespécie a ser cultivada deve levar em consideração as brasileira, Brasília, v.22, n.4, p. 748-753, out-características edafo-climáticas e a posição dez.2004.geográfica com relação ao centro consumidor. DAROLT, M. R. Agricultura Orgânica: As regiões próximas aos grandes centros inventando o futuro. Londrina:IAPAR, 2002. 250p.consumidores sofrem grande especulação imobiliária,obrigando o fruticultor a procurar áreas mais baratas. GOULET, D. Desenvolvimento autêntico: fazendo.Quando ocorrer da produção estar em grandes In:CAVAL-CANTI, C. (org.). Meio ambiente,distâncias do centro consumidor, fazem-se desenvolvimento sustentável e políticas públicas.São“necessários” transportes especializados, como a Paulo : Cortez, 1997. p.72-82.frigoconservação, o que aumenta seu custo nacomercialização, e a preocupação de observar se na KHATOUUNIAN, C. A. A reconstrução ecológicaregião os produtores locais possuem aptidão para a da agricultura. Botucatu: Agroecologia, 2001.348p.fruticultura e daí se formar um futuro pólo deprodução. MASCARENHA, G. C. C. A atual conjuntura No caso de o produtor ficar isolado dos pólos socioeconômica e ambiental da região Sul da Bahia ede produção, distante dos grandes centros a agricultura sustentável como uma alternativaconsumidores, deverá ter a preocupação de concreta. In: UZÊDA, M. C. (org.) O desafio dadimensionar sua área para viabilizar toda a estrutura agricultura sustentável: alternativas viáveis para ode base, como: mão-de-obra especializada, produtos Sul da Bahia. Ilhéus, BA: Editus, 2004. p.13-32.agro-químicos, transporte, paking house,comercialização, etc. PENTEADO, S. R. Fruticultura orgânica: A preocupação com o escalonamento da safra, formação e condução. Viçosa: Aprenda Fácil, 2004.também, é de grande importância, uma vez que 308 p.facilita as operações do produtor e atende ao mercadode maneira mais equalizada. As diversas etapas na PINHEIRO, S.; BARRETO, S. B. “MB-4”:comercialização do produtor ao consumidor final são, agricultura sustentável, trofobiose emuitas vezes, longa, o que prejudica as duas biofertilizantes. Fundação Junquiraextremidades de maior relevância. Candiru/MIBASA, 1996.273. Para melhor atuação no mercado, o produtordeve procurar um fortalecimento no mercado local, PRIMAVESI, A. A alimentação no século XXI. In:escolhendo seus parceiros comerciais e atuando em ENCONTRO DE PROCESSOS DE PROTEÇÃO DEblocos (através de associações, cooperativas ou PLANTAS: CONTROLE ECOLÓGICO DEmesmo grupos) e, de outro lado, o consumidor sendo PRAGAS E DOENÇAS. 1, 2001. Botucatu:mais bem atendido, com qualidade, quantidade e Agroecologia, 2001. p.7-12.preços mais acessíveis. A estrutura de comercialização depende muito PRIMAVESI, A. A. Os problemas da agriculturada área a ser implantada, pois pequenos pomares de 1 orgânica. In: SALES, R. O. (Org.). Produçãoa 2 ha poderão ser destinados a abastecer a região, Orgânica de Frutas. SEMANA INTERNACIONALenquanto áreas maiores deverão procurar centrais de DA FRUTICULTURA E AGROINDUSTRIA, 7.abastecimento, redes de supermercados e até a 2000. Fortaleza. Anais... Fortaleza: FRUTAL, 2000.exportação. 149p. CDrom. PRIMAVESI, A. O manejo ecológico do solo: agricultura em regiões tropicais. São Paulo, Nobel, 1982. 541p. REZENDE, A. J.; JUNQUEIRA, A. M.R; XIMENES, M. I. N.; BORGO, L. A. Teores de nitritoSebastião Elviro de Araújo Neto 37
  • 39. Sistemas de produção na fruticulturae nitrato em alface hidropônica produzida ecomercializada no Distrito Industrial. In:CONGRESSO BRASILEIRO DEOLERICULTURA, 39, 1999. Tubarão. Anais...Tubarão: SOB, 1999. nº307.SALES, R. O. (Org.). Produção Orgânica deFrutas. SEMANA INTERNACIONAL DAFRUTICULTURA E AGROINDUSTRIA, 7. 2000.Fortaleza. Anais... Fortaleza: FRUTAL, 2000. 149p.CDrom.SOUZA, J. L. de; RESENDE, P. Os motivos, ascausas e os incentivos para a busca dasustentabilidade agrícola. In:SOUZA, J. L. de;RESENDE, P. Manual de horticulturaorgânica.Viçosa: Aprenda Fácil, 2003. p.19-34.BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária eAbastecimento. Instrução Normativa nº 20, de 27 defevereiro de 2001. Diário Oficial [da] RepúblicaFederativa do Brasil, Brasília, 15 out. 2001. Seção1, p.40-44.EPAMIG. Produção Integrada de Frutas. InformeAgropecuário, v.22, n.213, 2001.FACHINELLO, J.C. Produção integrada de péssegos.In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DECITROS, 6., 2000, Bebedouro, SP. Anais... Produçãointegrada. Bebedouro: Fundação Cargill, 2000. p.l4.FACHINELLO, J.C.; HERTER, F.G. (Ed.). Normaspara Produção Integrada de Frutas de Caroço (PIFC).Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2000. 46p.(Embrapa Clima Temperado. Circular Técnica, 19).ISO. IS0 2000. Disponível em:<http://www.iso.org>. Acesso em: 2004.SENAI. Guia para elaboração do plano APPCC:geral. Brasília, 1999. 31 7p. (Série Qualidade e Se-gurança Alimentar). Projeto APPCC-ConvênioCNI/SENAI/SEBRAE.TITI, A. el; BOLLER, E.F; GENDRIER, J.P. (Ed.).Producción integrada: principios y directricestécnicas. [S.l.): IOBC/WPRS, 1995. 22p. (Bulletin,18).Sebastião Elviro de Araújo Neto 38
  • 40. Propagação de plantas frutíferas4. PROPAGAÇÃO DE PLANTAS FRUTÍFERAS enraizamento e menor teor de RNA (ácido As árvores frutíferas, em geral, propagam-se ribonucleico). Durante a juvenilidade não hátanto por via sexual, ou gâmica, ou seminípara, como produção de frutos, o que acarreta um prolongamentopor via vegetativa, ou assexuada, ou agâmica. Para do período improdutivo do pomar.diferenciar esses dois modos de propagação, dá-se onome de reprodução à propagação sexuada e o de 4.1.1 Vantagens e desvantagensmultiplicação aos processos de propagaçãovegetativa. As vantagens e as desvantagens do uso da A transmissão das características da planta propagação sexuada em fruticultura encontram-se nadepende dos gens presentes nos cromossomos. Tabela 4.1. A soma total dos gens determina o genótipo da Tabela 4.1. Vantagens e desvantagens da propagaçãoplanta. Em combinacão com o ambiente, o genótipo sexual em plantas frutíferas.produz uma planta com uma determinada aparência,o fenótipo. VANTAGENS DESVANTAGENS Cultivar é sinônimo de variedade. São plantas * Maior longevidade * Dissociação dos caracteresidênticas, com as mesmas características. A palavra (segregação genética)cultivar é resultado da contração das palavras * Desenvolvimento vigoroso * Frutificação mais tardiainglesas cultivated variety. Os melhoristas de plantas, * Obtenção de variedades * Porte elevadoseguindo essa linha de raciocínio, conceituam * Obtenção de plantas livres * Presença de espinhos (emcultivar como um material genético melhorado de doenças algumas variedades)(planta ou população de plantas) e sob cruzamento * Perpetuação da espécie * Heterogeneidade entre por bancos de germoplasma plantas (porte, arquitetura,controlado, enquanto que o termo variedade, usa-se fenologia)para definir um material genético de cruzamento * Sistema radicular mais * Irregularidade de produçãolivre, e portanto com alta variabilidade genética. vigoroso e profundo (cor, características organolépticas, tamanho)4.1 - Propagação por semente * Menor custo Fonte: Adaptado de Fachinello et al., 1995. As plantas obtidas por sementes apresentamgrandes variações. Assemelham-se aos seus Plantas propagadas por sementes apresentam oprogenitores, porém não são idênticas a eles, nem fenômeno da juvenilidade, que é uma faseentre si. Apresentam uma variabilidade em normalmente de longa duração, na qual a planta nãoconseqüência da constituição genética, devido à responde aos estímulos indutores do florescimento.segregação e à recombinação de gens que têm lugar Plantas em estado juvenil tendem a apresentarno processo de reprodução sexual. características, tais como a presença de espinhos, Quando as plantas propagadas são folhas lobuladas, ramos trepadores, fácilhomozigotas e predomina a autofecundação, têm-se enraizamento e menor teor de RNA (ácidolinhagens praticamente puras, que apresentam ribonucleico). Durante a juvenilidade não hácaracterísticas idênticas às das plantas das quais produção de frutos, o que acarreta um prolongamentoprovieram. Essas características são difíceis de ser do período improdutivo do pomar.mantidas, dado que, na natureza, a polinização O porte mais elevado pode representar umacruzada é mais comum. desvantagem nas práticas de manejo do pomar, como As plantas que produzem sementes na poda, raleio, colheita e tratamentos fitossanitários.poliembriônicas possibilitam a sua propagação por Além disso, a propagação sexuada pode induzir ameio de sementes e a manutenção da constituição desuniformidade das plantas e da produção,genética idêntica, pois são procedentes de embriões normalmente indesejadas em pomares comerciais.nucelares e de origem somática. As plantas triplóides, que normalmente 4.1.2. Emprego de sementesapresentam forma vegetativa maior que as diplóides,apresentam quase sempre uma grande esterilidade, A semente é o processo natural dedevido à irregularidade da meiose, e seus frutos têm disseminação das espécies. Em fruticultura, porém, opouca ou quase nenhuma semente. É, portanto, difícil uso de sementes é restrito e delimitado asua propagação sexuada. determinados casos, tais como: Plantas propagadas por sementes apresentam o • plantas que não podem ser propagadas porfenômeno da juvenilidade, que é uma fase outro meio;normalmente de longa duração, na qual a planta não • obtenção de porta-enxertos;responde aos estímulos indutores do florescimento. • obtenção de variedades novas;Plantas em estado juvenil tendem a apresentar • obtenção de clones nucelares;características, tais como a presença de espinhos, • sementes poliembriônicas;folhas lobuladas, ramos trepadores, fácil • plantas homozigotas.Sebastião Elviro de Araújo Neto 39
  • 41. Propagação de plantas frutíferasPlantas que não podem ser propagadas por outro propagação vegetativa, dificilmente poderiam sermeio propagadas comercialmente se não fosse por meio de sementes. Certas espécies, como o coco-da-baía e omamão, apesar da possibilidade tecnológica da Nesse caso, procura-se obter plantas tão Os embriões nucelares, ao se desenvolverem,uniformes quanto possível, para evitar o estabelecem uma concorrência entre si e, muitasaparecimento de tipos distintos dos desejados. vezes, o embrião gamético é reduzido, de forma a ser eliminado. Obtenção de porta-enxertos A concorrência entre os embriões se dá tanto em relação ao espaço a ocupar como em relação à A fruticultura moderna assenta-se na nutrição.propagação vegetativa, isto é, na enxertia das A eliminação do embrião gamético, em algunsvariedades comerciais sobre porta-enxertos, obtidos casos, ao que parece, está ligada à sua posição, poisem muitos casos a partir de sementes, como em ele se situa no ápice do saco embrionário e, portanto,citros, abacate, caju, manga, graviola e outras. em posição desvantajosa em relação aos embriões nucelares quanto à nutrição, através dos feixes Obtenção de variedades novas vasculares. O embrião sexual pode germinar, porém, por ser de constituição genética mais fraca, ou por Toda variedade que se pretenda conseguir atrasar o inicio da germinação, ou por ser dedeve reunir qualidades superiores às existentes, crescimento inicial mais lento, sendo dominado pelosporém, em fruticultura, isso nem sempre é fácil de embriões nucelares.obter, dado o alto grau de heterozigose e, portanto, a O número de embriões por semente varia degrande variabilidade dos descendentes. A mangueira, acordo com a espécie, a variedade e as condiçõesque vem sendo cultivada há mais de 5.000 anos, climáticas. Em citros, encontram-se de dois apoucos resultados apresentou com os cruzamentos e, quarenta e, em manga, têm-se registrado até dezesseisem citros, as tentativas, durante os últimos cinqüenta embriões nucelares.anos, de obtenção de variedades novas, altamenteeconômicas, falharam. Se, de um lado, dificilmente - Apomixiase obtêm novas variedades com cruzamentosdirigidos, de outro, tal processo tem sido favorável, Resulta da produção de um embrião quecomo no caso do pêssego, da maçã, da tâmara e do ultrapassa o processo de meiose e fertilização.caqui. Há também a possibilidade de obter plantas O genótipo do embrião e o da planta resultantetriplóides ou tetraplóides que, em algumas espécies, seriam o mesmo da semente.apresentam valor comercial. A produção dessa semente é assexuada e dita Atualmente, com a biotecnologia, podem-se apomíctica.obter plantas transgênicas, híbridas e novas A apomixia pode ser obrigatória sementes que —variedades. só produzem embriões apomícticos ou facultativa — — quando produzem embriões apomícticos e sexuais. Obtenção de clones nucelares - Poliembrionia O clone nucelar ou variedade revigorada éobtida a partir de sementes poliembriônicas, que Células específicas do nucelo ou do tegumentoreproduzem as mesmas características das plantas têm potencial embriogenético. Geralmente, essesmatrizes. embriões têm o mesmo genótipo e são também A poliembrionia é um fenômeno pelo qual se apomícticos nessas espécies. Ambos, embrião eforma mais de um embrião em uma semente. Isso é zigoto apomíctico, necessitam do estímulo dafreqüente em manga, citros e algumas outras plantas. polinização para serem produzidos. Os embriões são de origem nucelar e possuemcaracterísticas genéticas semelhantes, não passando, Sementes poliembriônicasportanto, de uma multiplicação vegetativa que se dána semente, pois nada mais é do que uma propagação Quando certas variedades apresentamsomática. sementes poliembriônicas, é possível, porém nem A polinização parece ser, em quase todos os sempre desejável, a propagação delas diretamente decasos, necessária para ativar a formação de sementes sementes (Figura 4.1).e embriões nucelares. dois embriões três embriãoSebastião Elviro de Araújo Neto 40
  • 42. Viveiro As árvores escolhidas são denominadas matrizes e devem apresentar os seguintes requisitos: • vigor; • sanidade; • regularidade de produção; • qualidade dos frutos; • idade. O vigor de uma planta é característica importante, por se encontrar relacionada à sanidade e à produtividade. A regularidade de produção constitui importante característica de valor econômico. Há árvores que apresentam produção alternada e outras, produção constante. Sendo possível, é preferívelFigura 4.1. Detalhes de sementes monoembriônica e escolher a segunda para a propagação, porpoliembriônicas de Poncirus trifoliata. possibilitar maior estabilidade ao fruticultor. As árvores devem também ser selecionadas Elas deverão transmitir as mesmas pelas qualidades dos frutos. Há variedades que,características, mas estão sujeitas a variações, por quando multiplicadas por sementes, apresentamgerminação do embrião sexuado. Além do mais, o frutos com diferentes sabores, uns mais doces, outrosinicio da produção é sempre retardado e as plantas mais ácidos. O teor vitamínico, a forma dos frutos,tendem a atingir dimensões maiores do que as bem como a coloração, variam de árvore para árvore.enxertadas. A idade da planta para retirada de frutos apresenta valor até certo ponto relativo. Sabe-se que4.1.3. Escolha das matrizes plantas novas, bem como as velhas ou em decrepitude, apresentam sementes com menor poder Para a produção de mudas de alto padrão, germinativo. Nas primeiras, as reservas sãoverifica-se que há necessidade de plantas destinadas à constituição da copa, e nas velhas, emfornecedoras de material básico para propagação. virtude de estarem em decadência, apresentam-seAlém de tudo isso, para que se tenha um material subnutridas.genético de qualidade e isento de pragas e doenças, Devem-se preferir sempre árvores de idadealguns tratos culturais são imprescindíveis. Esses média, isto é, as já formadas e antes de mostraremtratos culturais, para facilitar o entendimento e a sinais de decrepitude.redação, podem ser resumidos em um conjunto deoperações básicas para manutenção e qualidade do 4.1.4. Escolha dos frutosmaterial de propagação. O condicionamento pode promover ou A escolha dos frutos para a retirada defacilitar a propagação, porém, muitas vezes requer sementes deve ser feita levando-se em consideraçãoque se associe o uso de substâncias químicas os seguintes aspectos:reguladoras de crescimento. • conformação; Plantas matrizes são aquelas também • tipo-padrão;denominadas plantas elites, por possuírem qualidade • sanidade;genética e fitossanitária superior e comprovada. Essas • maturação.matrizes são obtidas por seleção e utilizadas para Escolhidas as plantas matrizes, passa-se àdiferentes finalidades, como o fornecimento do escolha dos frutos que apresentam as característicasmaterial básico para propagação vegetativa e as desejadas. De preferência, eles devem ser colhidos nasementes, particularmente para porta-enxertos. periferia da copa, evitando os pouco expostos à luz. Quanto à maturação, deve-se atentar para que o frutoMatriz fornecedora de sementes tenha atingido a sua maturação flsiológica. Muitas vezes, ele encontra-se morfologicamente maduro, Nesse caso particular, as plantas são porém essa maturação não coincide com aselecionadas, visando particularmente as seguintes flsiológica; outras vezes, a maturação flsiológicacaracterísticas: produtividade, sanidade, frutos com antecede a morfológica, como ocorre comgrande número de sementes viáveis, porte baixo, mangueiras, citros e mirtáceas.grande longevidade, resistência à pragas e doenças, A observação do estágio de maturação é desistema radicular abundante, resistência à seca, além importância na conservação do poder germinativode outras. das sementes. Uma das principais utilização das sementes épara a obtenção de porta-enxertos. Deve-se selecionar a árvore para a colheita desementes.Sebastião Elviro de Araújo Neto 41
  • 43. Viveiro4.1.5. Escolha das sementes da germinação, tais como fenóis, cumarinas e ácido abscísico, estão associadas ao fruto ou aos Sendo as sementes o material básico na envoltórios da semente.propagação, devem-se selecioná-las com critério,levando-se em consideração: tamanho, sanidade, Dormência Morfológica:poder germinativo e tamanho normal (volume epeso), de acordo com a variedade ou espécie a que Embrião rudimentar - quando o embrião épertencem. As sementes maiores possuem sempre pouco mais do que um pró-embrião envolvido pormaiores quantidades de reservas e, portanto, dão um endosperma.origem a árvores mais vigorosas. Embrião não-desenvolvido - quando, na Com relação à sanidade, sabe-se que todas as maturação do fruto, o embrião encontra-sesementes que apresentam aspecto distinto do normal parcialmente desenvolvido. Um crescimentodevem ser eliminadas. posterior do embrião se dará após a maturação e O poder germinativo das sementes e sua senescência do fruto.longevidade devem ser conhecidos para maiorgarantia. Há espécies cujo poder germinativo dura Dormência Interna:somente algumas semanas e outras, vários anos. As sementes provenientes de plantas que Dormência fisiológica - comum na maioriamostram grandes variações no seu desenvolvimento das plantas herbáceas. Ocorre devido a mecanismoscomunicam aos enxertos alterações semelhantes, internos de inibição e tende a desaparecer com orazão pela qual se deve ter coleção de plantas armazenamento a seco. Existem dois casos especiaismatrizes para a retirada de sementes. de dormência fisiológica: a) - dormência térmica - a germinação é4.1.6. Fatores que afetam a germinação das inibida em temperaturas superiores a um limite,sementes variável conforme a espécie; b) fotodormência - ocorre em espécies cujas A germinação abrange todo o processo que vai sementes necessitam de escuro para germinarem. Nadesde a ativação dos processos metabólicos da presença de luz, não há germinação.semente até a emergência da radícula e da plúmula. O Dormência interna intermediária - épercentual de germinação depende de fatores internos característica de coníferas e é induzida pela presençae externos. Como fatores internos, podem ser citados dos envoltórios ou tecidos de armazenamento dao estado de dormência, a qualidade da semente e o semente.potencial de germinação da espécie. Os fatores Dormência do embrião - ocorre quando oexternos mais importantes são água, temperatura, embrião é incapaz de germinar normalmente, mesmogases e luz. que separado da semente. Dormência do epicótilo - ocorre quando a - Fatores internos exigência do epicótilo, para germinação, é diferenciada da do embrião.Dormência A dormência representa uma condição em que Qualidade da sementeo conteúdo de água nos tecidos é pequeno e ometabolismo das células é praticamente nulo, A qualidade da semente pode ser expressa porpermitindo que a semente seja mantida sem germinar dois parâmetros: viabilidade e vigor. A viabilidade édurante um período relativamente longo. expressa pelo percentual de germinação, o qual Segundo HARTMANN & KESTER (1990), a indica o número de plantas produzidas por um dadodormência pode ser classificada em: número de sementes. O vigor é definido como sendo a soma de todos os atributos da semente queDormência devida aos envoltórios da semente: favorecem o estabelecimento rápido e uniforme de uma população no campo. Dormência física - a testa ou partes Uma semente em senescência se caracterizaendurecidas dos envoltórios da semente são por apresentar urna diminuição gradual do vigor eimpermeáveis à água, mantendo-a dormente subseqüente perda da viabilidade.(quiescente) devido ao seu baixo conteúdo deumidade. Potencial de germinação da espécie Dormência mecânica - os envoltórios As sementes da maioria das plantas perenesimpõem urna resistência mecânica à expansão do apresentam dificuldade de germinação, requerendo aembrião. Em geral, a dormência mecânica está utilização de métodos de superação da dormência. Naassociada com outras causas de dormência, como a maioria das vezes, a diferença de potencial defísica. germinação entre espécies e cultivares é devida à Dormência química - substâncias inibidoras interação entre os diversos fatores que podem afetar aSebastião Elviro de Araújo Neto 42
  • 44. Viveiroviabilidade da semente. Não somente a germinação é por deiscência ou por decomposição das paredes.influenciada pelo fator genético, como também o Este tipo de fruto não tem grande expressão navigor e a longevidade. fruticultura, pois a maioria dos frutos de importância econômica são carnosos. Quando um fruto carnoso é - Fatores externos formado por um ou mais carpelos, contendo uma ou mais sementes, como é o caso da uva, maçã, pêra,Água citros, caqui, entre outros, é genericamente chamado A água é necessária para ativação do de baga. Quando o fruto é formado por um únicometabolismo da semente no momento da germinação. carpelo que contém no seu interior uma só semente,O teor de água mínimo para germinação depende da como pêssego e ameixa, é chamado de drupa.espécie, variando entre 40 e 60% de água, com base Para extração das sementes de frutos carnosos,no peso da semente. estes devem estar maduros, a fim de facilitar a separação da polpa e da semente. Deve-se tomar oTemperatura cuidado para não deixar restos de polpa aderidos à É o fator mais importante para a germinação, semente, os quais, pela sua decomposição epois exerce influência nas reações metabólicas, fermentação, podem provocar sérios danos ao poderafetando também o crescimento das plântulas. germinativo. Caroços com polpa aderida e mantidosConforme a espécie, as temperaturas mínimas, ótimas amontoados podem ter sua temperatura aumentada,e máximas são bastante variáveis, sendo que a em virtude da fermentação, a ponto de prejudicar atemperatura ótima, para a maioria das sementes que viabilidade do embrião, reduzindo o podernão se encontram em repouso, varia de 25 a 30ºC. germinativo e vigor da plântula.Temperaturas alternadas são geralmente maisfavoráveis do que temperaturas constantes. 4.1.9. Conservação das sementesGases A finalidade da conservação das sementes é O oxigênio, em geral, favorece a germinação, manter a sua viabilidade pelo maior tempo possível,por ativar o processo da respiração. Já o CO2, em de modo a permitir a semeadura na época maisconcentrações elevadas, pode impedir ou dificultar o adequada, bem como garantir a manutenção dodesencadeamento deste processo. germoplasma na forma de semente.Luz A viabilidade após o armazenamento é O efeito da luz sobre a germinação das resultante dos seguintes fatores:sementes é variável de espécie para espécie, ainda a) viabilidade inicial na colheita, determinadaque a luz sempre favoreça o crescimento das por fatores de produção e métodos de manejo. Noplântulas. A germinação das sementes da grande caso de sementes que não requerem quebra demaioria das plantas cultivadas não é afetada pela luz, dormência, o armazenamento pode, no máximo,porém sementes de muitas plantas daninhas manter a qualidade das mesmas;apresentam exigências de luz variáveis, sendo b) taxa de deterioração das sementes, tambémalgumas favorecidas e outras inibidas pela luz. A denominada de taxa de trocas flsiológicas oupresença ou ausência de luz só é efetiva após a envelhecimento. Esta é determinada pelo potencialembebição da semente e atua na remoção de um genético de conservação da espécie e pelas condiçõesbloqueio no metabolismo do embrião. de armazenamento, principalmente temperatura e umidade.4.1.7. Escolha dos frutos A durabilidade da semente é bastante variável com a espécie. Podem ser encontradas desde espécies Da mesma forma que para a escolha das cujas sementes perdem rapidamente o seu poderplantas matrizes, a escolha dos frutos deve obedecer a germinativo em condições naturais, como outras quealguns critérios, como sanidade e maturação. Como mantêm o poder germinativo por longos períodos. Asregra geral, os frutos atacados por doenças, pragas, sementes de citros armazenadas em condiçõesou caídos no chão, devem ser descartados, como normais perdem rapidamente o seu poderforma de evitar uma possível contaminação das germinativo devido à dessecação dos tecidos.sementes. Os frutos também devem ter atingido a Sementes com embriões dormentes, como macieira,maturação fisiológica, de maneira que as sementes pereira e videira, possuem maior capacidade deencontrem-se completamente desenvolvidas. conservação, mesmo em ambiente normal. É conveniente lembrar que, quanto maior for o período4.1.8. Extração das sementes de armazenamento da semente, maior será o consumo das substâncias de reserva, resultando assim numa As sementes, no momento da colheita, estão redução do vigor do embrião.envolvidas pelos frutos, os quais, de acordo com suas As características das sementes podemcaracterísticas, são divididos em dois grandes grupos: determinar seu potencial de conservação. Sementessecos e carnosos. Os frutos secos liberam as sementes amiláceas apresentam, em geral, maior longevidadeSebastião Elviro de Araújo Neto 43
  • 45. Viveirodo que sementes oleaginosas. Além disso, sementes e a germinação é facilitada. E importante que sejamcom embriões dormentes e envoltório impermeável eliminados todos os resíduos de ácido que, aderidos àapresentam maior tempo de conservação. semente, podem prejudicar a germinação, o que pode No que se refere a condições ambientais, a ser feito através de lavagem em água corrente.relação umidade/temperatura é muito importante na Método mecânico - pode ser realizado comredução da taxa de respiração. Para a maioria das uso de uma superfície abrasiva, agitação em areia ouespécies, ambientes com baixo teor de umidade, pedra ou por quebra dos envoltórios. Deve-se teracompanhados de baixas temperaturas, oferecem cuidado para que o embrião não seja danificado. Ascondições adequadas para prolongar a conservação sementes escarificadas tornam-se mais sensíveis aodas sementes. Além disso, a modificação da ataque de patógenos.atmosfera de armazenamento, especialmente naredução do teor de oxigênio, mostra-se favorável à Maturação do embriãomanutenção do poder germinativo da semente. No que se refere à umidade da semente, acima Destina-se à superar a dormência da sementede 8 a 9% de umidade, insetos podem entrar em através do amadurecimento do embrião ou doatividade; acima de 12 a 14%, fungos podem tornar- estabelecimento de um balanço hormonal favorável àse ativos; acima de 18 a 20%, pode ocorrer germinação. Isso é obtido pelo armazenamento dasaquecimento devido à fermentação; e acima de 40 a sementes em ambiente úmido e frio por um60%, ocorre germinação. Caso a semente seja determinado período (estratificação).tolerante à dessecação, é importante que ela seja De um modo geral, o meio adequado para amantida com baixo teor de umidade. estratificação é aquele que retém um adequado teor As baixas temperaturas prolongam a vida das de umidade e não contém substâncias tóxicas. Comosementes, sendo que, em temperaturas de 0 a 450C, exemplos, podem-se citar o solo, areia lavada,cada diminuição de 50C duplica a vida de musgo, vermiculita e serragem ou a mistura destes.armazenamento destas. Camadas de sementes são intercaladas com camadas de substrato à temperatura ambiente ou em câmaras - Meios de conservação refrigeradas, com temperaturas entre O e 100C. Há inúmeros processos para manter a O período de armazenamento varia conforme aviabilidade do poder germinativo. Dentre eles, espécie, sendo que, para a maioria, estádestacam-se os seguintes: compreendido entre 1 e 4 meses. Durante a  conservação em sacos de polietileno; estratificação, deve-se ter cuidado com o teor de  estratificação; umidade do substrato e com a eventual germinação  câmaras frigoríficas; cloreto de cálcio; das sementes antes que o período previsto para a  vácuo. estratificação das sementes esteja terminado. Em variedades precoces, nas quais em geral o4.1.10. Superação da dormência embrião não esta completamente desenvolvido quando da maturação do fruto, muitas vezes é O tratamento para superação da dormência necessário cultivar o embrião em meio de culturavaria com o tipo de dormência que a semente adequado, permitindo que seja completado o seuapresenta. desenvolvimento. Este processo é utilizado em cultivares precoces de pessegueiro que se destinamAumento da permeabilidade dos envoltórios ao melhoramento genético. É utilizado quando a causa da dormência é a 4.1.11. Manejo das sementeirasimpermeabilidade do tegumento da semente. Aescarificação é o método que objetiva tornar os Antes da semeadura em viveiro, é importanteenvoltórios da semente mais permeáveis à entrada de que se adote um tratamento das sementes comágua e a trocas gasosas, bem como facilitar a fungicida ou hipoclorito de sódio. Dessa forma, éemergência da radícula e/ou da plúmula, podendo ser possível minimizar a ocorrência de doenças querealizada por métodos físicos, químicos ou possam vir a prejudicar as plântulas.mecânicos. A sementeira deve estar localizada fora da área Método físico - consiste na imersão da de produção e, de preferência, em terreno bemsemente em água quente, entre 65 e 850C, durante 5 a drenado, com pequena declividade, plena exposição à10 minutos. A temperatura elevada diminui a luz e boa disponibilidade de água para irrigação. Aresistência dos envoltórios e facilita a germinação. má drenagem favorece a ocorrência de uma doença Método químico - consiste no tratamento das denominada “damping-off’. E recomendável o uso desementes com hidróxido de sódio ou de potássio, áreas submetidas a uma prévia rotação de culturas,formol e ácido clorídrico ou sulfúrico, em geral por como forma de reduzir o potencial de inóculo deum tempo entre 10 minutos até 6 horas, conforme a doenças. Não é aconselhável o uso de uma mesmaespécie. Dessa forma, os tegumentos são desgastados área como sementeira por mais de 2 anos.Sebastião Elviro de Araújo Neto 44
  • 46. Viveiro O tratamento do solo é útil para reduzir a doenças de sementeiras são pertencentes aos gênerosincidência de patógenos nas futuras plantas, Pythium, Rhizoctonia e Phytophthora, agentesespecialmente considerando a sensibilidade das causadores do “dampingoff’, que afeta a germinaçãomesmas no estágio de plântula. Este pode ser e a sobrevivência das plantas jovens.realizado com uso de fumigantes, fungicidas, A partir da sementeira, assim que as mudassolarização ou calor (1050C por 30 minutos). Apesar atinjam um crescimento satisfatório, estas sãode suas vantagens, a esterilização completa interfere submetidas a uma seleção por tamanho, visandona biologia do solo e na disponibilidade de nutrientes. obter-se um padrão adequado das plantas destinadas A semeadura pode ser realizada a lanço ou em ao viveiro, quando estarão colocadas em maioreslinha. A semeadura a lanço exige menor mão-de-obra espaçamentos. As plantas no viveiro poderão serinicial, mas cria dificuldades para realização dos utilizadas como porta-enxertos ou como mudastratos culturais, tais como controle de plantas destinadas à formação de pomares. No caso deinvasoras. Por essa razão, a semeadura em linha é a mudas, é necessário realizar uma seleção de plantasmais utilizada. A quantidade de sementes a ser próximas a um padrão característico da planta-mãe.utilizada deve ser de 3 a 4 vezes o número desejadode plantas, de modo a permitir uma seleção rigorosa; 4.2. Propagação assexuadaporém, deve-se evitar uma densidade muito elevadade plântulas, para que não ocorra redução do tamanho 4.2.1 Conceitoe do vigor, conduzindo à obtenção de plantas com A propagação assexuada, vegetativa ousistema radicular pouco desenvolvido. agâmica é o processo de multiplicação que ocorre A cobertura das sementes pode ser realizada através de mecanismos de divisão e diferenciaçãocom solo ou areia e a cobertura do canteiro pode ser celular, por meio da regeneração de partes da planta-realizada com uma fina camada de palha. O objetivo mãe.da cobertura com palha é impedir o crescimento de Baseia-se nos seguintes princípios:plantas invasoras, bem como conservar a umidade do  Totipotência: é a informação genética quesolo. A palha deverá ser removida pouco tempo antes cada célula possui para reconstrução de uma planta eda emergência das plântulas. de suas funções, assim, as células da planta contêm Cuidados especiais devem ser dispensados no toda a informação genética necessária para aque se refere à irrigação, considerando a exigência de perpetuação da espécie.água para o processo da germinação e a sensibilidade  Diferenciação: é a capacidade de célulasdas plântulas à falta de umidade do solo. A irrigação maduras retornarem a condições meristemáticas edeve ser feita por aspersão, com uso de regadores ou desenvolverem um novo ponto de crescimento,de um sistema de irrigação, no caso de sementeiras portanto, são células somáticas e, por conseqüência,de maior porte. O controle da umidade pode ser feito os tecidos, apresentam a capacidade de regeneraçãopor avaliação visual ou com uso de tensiômetros. de órgãos adventícios, O controle de plantas invasoras pode ser A propagação vegetativa consiste no uso derealizado através de métodos químicos ou mecânicos. órgãos da planta, sejam eles estacas da parte aérea ouA distância entre as linhas deve possibilitar a da raiz, gemas ou outras estruturas especializadas, ouutilização de implementos agrícolas e o uso de ainda meristemas, ápices caulinares, calos eherbicidas pode ser realizado em pré ou pós- embriões. Desse modo, um vegetal é regenerado aemergência. A definição da forma de controle das partir de células somáticas sem alterar o genótipo,plantas invasoras deve considerar a viabilidade devido à multiplicação mitótica.econômica de cada método, bem como a O uso deste modo de propagação permite asensibilidade das plantas aos herbicidas. formação de um clone, grupo de plantas provenientes De acordo com a espécie e o tempo de de uma matriz em comum, ou seja, com cargapermanência na sementeira, pode ser aconselhável a genética uniforme e com idênticas necessidadesrealização de adubação, tanto de correção, quanto de climáticas, edáficas, nutricionais e de manejo.cobertura. É importante que o pH seja corrigido,conforme a exigência da espécie, com uso de 4.2.2. Importância e utilizaçãocalcário. A adubação nitrogenada, se necessária, deve Enquanto em fruticultura a propagaçãoser realizada com cautela, pois aplicações em excesso sexuada tem importância restrita, a propagaçãopodem criar um desequilíbrio nutricional, que resulta assexuada é largamente utilizada na produção deem excesso de crescimento e elevada suscetibilidade mudas. Isso se deve à necessidade de se garantir aa pragas e doenças. Por outro lado, elevadas manutenção das características varietais, as quaisconcentrações de sais produzidos por um excesso de determinam o valor agronômico do material a serfertilizantes inibem a germinação. propagado, em espécies de elevada heterozigose, Dada a sensibilidade das plântulas e a elevada como as frutíferas.densidade na sementeira, é necessário que se adotem A utilização da propagação assexuada dizmedidas eficientes de monitoramento e controle de respeito à multiplicação tanto de porta-enxertospragas e doenças. Os principais fungos causadores de quanto da cultivar-copa. A importância e aSebastião Elviro de Araújo Neto 45
  • 47. Viveiroviabilidade da utilização da propagação assexuada gerado um clone diferenciado e de menor qualidadesão uma função da espécie ou da cultivar, da que a planta matriz. Entre plantas de um clone podemcapacidade de regeneração de tecidos (raízes ou parte ocorrer mudanças que resultam em degenerescência eaérea), do número de plantas produzidas, do custo de variabilidade dos mesmos. A exposição a umcada processo e da qualidade da muda formada. ambiente continuamente desfavorável pode conduzir De modo geral, o uso da propagação à deterioração progressiva do clone, manifestada emassexuada justifica-se nos seguintes casos: perda gradual do vigor e da produtividade, ainda que a) propagação de espécies e cultivares que não o genótipo básico não se altere. A degenerescência doproduzem sementes viáveis, como, por exemplo, clone é causada principalmente por doenças delimão Tahiti, laranja de umbigo e figueira; natureza virótica. O uso inadvertido das mesmas b) perpetuação de clones, pois as frutíferas são matrizes, sem que uma prévia indexagem tenha sidoaltamente heterozigotas e perderiam suas realizada, aumenta o risco de propagação de doençascaracterísticas com a propagação sexuada. e de degenerescência do clone. Além disso, a A escolha do método a ser utilizado depende replicação do DNA (ácido desoxirribonucleico)da espécie e do objetivo do propagador. Basicamente, durante a divisão celular no meristema pode resultarum bom método de propagação deve ser de baixo em alterações no genótipo e originar mutações. Ocusto, fácil execução e deve proporcionar um elevado efeito da mutação na variabilidade de um clonepercentual de mudas obtidas. depende da taxa de mutação e da extensão que as células oriundas da célula mutante original ocupam4.2.3. Vantagens e desvantagens dentro do meristema. Entretanto, como as células do meristema são relativamente estáveis e menos Dada a sua larga utilização na multiplicação sujeitas a mutações, a significância das mutações emde plantas frutíferas, a propagação assexuada boas condições fitossanitárias é reduzida;apresenta diversas vantagens, que a toma, muitas e) a ausência de variabilidade gerada no clonevezes, mais viável que a propagação sexuada. pode levar a problemas na futura área de produção, São vantagens da propagação assexuada: aumentando o risco de danos em todas as plantas por a) permite a manutenção do valor agronômico problemas climáticos ou fitossanitários, uma vez quede uma cultivar ou clone, pela perpetuação de seus foram fixadas todas as características varietais e todascaracteres; as plantas têm a mesma combinação genética. b) possibilita que se reduza a fase juvenil, uma As principais vantagens e desvantagens davez que a propagação vegetativa mantém a propagação assexuada são resumidas na Tabela 4.2.capacidade de floração pré-existente na planta-mãe.Desse modo, há redução do período improdutivo; Tabela 4.2. Principais vantagens e desvantagens da e) permite a obtenção de áreas de produção propagação assexuada em plantas frutíferas.uniformes devido à ausência de segregação genética.Assim, plantas obtidas por propagação assexuada VANTAGENS DESVANTAGENSapresentam uma maior uniformidade fenológica, bem * perpetuação de caracteres * transmissão de doençascomo uma resposta idêntica aos fatores ambientais, o agronômicosque permite uma definição mais fácil das práticas de * redução da fase juvenil * risco de mutação dasmanejo a serem executadas no futuro pomar; gemas d) permite a combinação de clones, * obtenção de plantas * risco de danosespecialmente quando utilizada a enxertia. uniformes generalizados na área de produção Como desvantagens da propagação assexuada, * combinação de clones napodem ser apontadas: enxertia a) possibilita a transmissão de doenças, Fonte: Adaptado de Fachinello et al., 1995.especialmente as cansadas por vírus e bactérias. Omaterial utilizado na propagação vegetativa (estacas,ramos, gemas), constitui-se de tecido somático, o 4.2.4 Matriz fornecedora de material paraqual pode ser infectado por estes patógenos através propagação vegetativade vetores ou pelo uso de ferramentas. O usoprolongado das mesmas plantas matrizes aumenta o Essas plantas devem ser preferencialmenterisco de propagação de doenças. Os patógenos produtivas, características da espécie ou variedade,associados à propagação vegetativa incluem fungos frutos de ótimas qualidades organolépticas,(Phytophthora spp., Pythium spp., Rhizoctonia spp.), resistentes a pragas e doenças, isentas de virosesbactérias (Erwinia spp., Pseudomonas spp. e precoces, com grande capacidade de regeneração eAgrobacterium tumefasciens), vírus, rnicoplasmas e produtoras de grandes quantidades de brotosorganismos tipo Ricketsia; vigorosos, entre outras características. b) ainda que a manutenção dos caracteres sejacitada como uma vantagem, pode ocorrer, ao longodo tempo, uma mutação das gemas, podendo serSebastião Elviro de Araújo Neto 46
  • 48. Viveiro4.2.5 Ação da copa sobre o porta-enxerto empregada. O enxerto age sobre o cavalo de vários modos, Produtividadeporém as alterações sofridas pelo cavalo nem semprepodem ser bem apreciadas, pelo fato de ele se situar O porta-enxerto interfere na produção,abaixo do solo. A influência se estende ao sistema aumentando-a ou reduzindo-a. A produtividade deradicular, alterando o desenvolvimento, a penetração uma árvore está intimamente relacionada à presençae a distribuição no terreno. de carboidratos, que são responsáveis pela formação das gemas floríferas.4.2.6 Ação do porta-enxerto sobre a copa Porta-enxerto vigoroso às vezes predispõe a planta a um desenvolvimento excessivamente Na fruticultura moderna, com algumas raras vegetativo, em detrimento da frutificação. Um deexceções, quase todas as árvores frutíferas cultivadas menor porte tende a reduzir o volume da copa, porémsão formadas por uma associação de duas espécies ou propicia condições para o suprimento adequado devariedades diferentes, uma chamada porta-enxerto e a carboidratos e, portanto, predispõe a planta aooutra, enxerto ou copa. florescimento. Ambas as partes devem apresentar perfeita Em citros, a produtividade está em grandeharmonia e, portanto, evitar, tanto quanto possível, parte relacionada ao porta-enxerto. Assim, laranja-alterações no comportamento biológico, fisiológico enas adaptações às condições ecológicas. azeda leva a planta a maior produtividade que laranja Entretanto, como o enxerto atua sobre o caipira, e esta, por sua vez, supera o limão-cravo, quecavalo, alterando o seu comportamento, o inverso suplanta o poncirus.também se dá, isto é, o porta-enxerto age sobre o Com relação à precocidade da produção, istoenxerto, e as alterações são mais visíveis, pelo fato de é, o tempo necessário para a planta entrar ema copa se encontrar ao alcance do observador. produção, observa-se um efeito pronunciado do Conhecida, portanto, a influência do cavalo porta-enxerto.sobre o enxerto, devese, ao se associar dois Em citros, o porta-enxerto que induz maior precocidade é o do limão-cravo, seguido do deindivíduos, procurar escolher aqueles que melhor se caipira e laranja-azeda. E o que mais retarda ainterligam em cada situação. A localidade, por várias produção é a tangerina cleópatra.razões, pode alterar o comportamento das plantas,obrigando a um estudo do assunto. Maturação O cavalo atua sobre o enxerto, alterando ocomportamento em relação ao seu desenvolvimento, A época de maturação dos frutos, e a suaprodutividade, época de maturação, qualidade, permanência na árvore, parece estar, em grande parte,resistência a baixas temperaturas, a doenças fúngicas condicionada ao porta-enxerto.e viróticas e à nutrição. Os porta-enxertos que comunicam à copa maior vigor vegetativo tendem a atrasar a maturaçãoDesenvolvimento dos frutos. Em citros, o porta-enxerto de poncirus antecipa a maturação dos frutos em relação aos Em geral, a copa da árvore enxertada tende aatingir um tamanho igual àquele que o cavalo teria se cavalos de caipira e azeda.não fosse enxertado. Há, porém, exceções, como A permanência dos frutos na árvore está emocorre em citros. A laranja-azeda normalmente grande parte relacionada ao porta-enxerto. A laranja-comunica a toda a copa grande desenvolvimento, azeda induz a copa a manter os seus frutos madurosporém, quando enxertada com a variedade Satsuma, por mais tempo do que outros porta-enxertos. Já oesta tem o seu porte diminuído. limão rugoso retém apenas por pouco tempo os frutos A ação do porta-enxerto sobre o enxerto pode que já atingiram a maturação.ser apreciada em diferentes espécies. Assim, emcitricultura, a laranja-doce adquire maior Comportamento com relação às doençasdesenvolvimento quando enxertada sobre laranja-azeda do que sobre laranja caipira ou limão-cravo e A vegetação, a composição dos tecidos e a maturação do lenho estão mais associadas ao hábitotorna-se ainda mais reduzida quando o cavalo é de de vegetação do porta-enxerto e à afinidade existentePoncirus trifoliata. entre eles. O desenvolvimento da copa alterado, O cavalo pode predispor as copas a maiorinfluência obrigatoriamente o fruticultor a tomar incidência de doenças causadas tanto por fungosmedidas em cada caso, principalmente no que se como por vírus, bem como pode comunicar maiorrefere ao espaçamento. Assim, a distância entre resistência à copa.plantas num pomar está condicionada, além de à Não se conhece, até o momento, maiorfertilidade do solo, ao porta-enxerto e à variedade resistência da copa a doenças causadas por fungos,Sebastião Elviro de Araújo Neto 47
  • 49. Viveiropor ação direta do porta-enxerto. Se alguma 4.3.1. Estaquiainfluência existe, ela é de ação indireta, ligada àmelhor distribuição dos ramos. Estaquia é o termo utilizado para o processo de As doenças causada por vírus podem estar propagação no qual ocorre a indução dorelacionadas à maior ou menor suscetibilidade do enraizamento adventício em segmentos destacados daporta-enxerto ou enxerto. Elas podem ser planta-mãe, que, uma vez submetidos a condiçõestransmitidas pelas borbulhas ou se devem à maior favoráveis, origina uma muda. A estaquia baseia-sesensibilidade da variedade. no princípio de que é possível regenerar uma planta a A doença chamada tristeza ocorre quando se partir de uma porção de raízes (regeneração deenxerta laranja-doce sobre laranja-azeda. A ramos). Desse modo, a partir de um segmento, éxiloporose ocorre na combinação laranja-barão sobre possível formar-se uma nova planta.lima-da-pércia. Entende-se por estaca qualquer segmento da Alterando-se a combinação enxerto e porta- planta-mãe, com pelo menos uma gema vegetativa,enxerto, a doença deixa de prejudicar o capaz de originar uma nova planta podendo haverdesenvolvimento, por serem ambos tolerantes à estacas de ramos, de raízes e de folhas.exocortis, que surge quando se enxerta laranja-docesobre cravo ou poncirus e desaparece quando se Utilizaçãosubstitui pelo porta-enxerto de laranja caipira. A estaquia é, sem dúvida, um dos principais Atualmente, a morte súbta dos citros ocorreu métodos utilizados na multiplicação de plantasem laranja doce enxertadas em determinados porta- frutíferas. Inúmeras espécies de interesse comercialenxerto, assim, as variedades Valência, Pêra, Hamlin, podem ser propagadas por este método, destacando-Natal, Westin e Pineapple apresentam se altamente se a produção direta de mudas de figueira e asusceptíveis à MSC quando enxertadas sobre o limão propagação de porta-enxertos de videira.Cravo, e a variedade natal mantém susceptível sobre Em espécies que são comumente propagadaso porta enxerto limão Volkamericano. por outros métodos (sementes, mergulhia, enxertia), a estaquia pode ser uma alternativa viável para aIndução de deficiência nutricional produção de mudas. A viabilidade do uso da estaquia na propagação comercial é função da facilidade de Muitas deficiências que surgem nas copas das enraizamento de cada espécie e/ou cultivar, daplantas enxertadas têm como causa a barreira qualidade do sistema radicular formado e dolevantada na região do enxerto. Essa barreira impede desenvolvimento posterior da planta na área deou dificulta a translocação ou movimento de produção. Muitas espécies de folhas caducas, como éelementos nutritivos. o caso do pessegueiro e da ameixeira, não são Quando a planta é enxertada, há em alguns propagadas comercialmente através de estacas.casos um estrangulamento na região da enxertia. Esta Porém, se utilizadas técnicas como a nebulizaçãofunciona algumas vezes como crivo, podendo intermitente, a aplicação de reguladores defacilitar ou dificultar a translocação de certos crescimento, o anelamento, o estiolamento, a dobraelementos e exercer uma ação seletiva, levando a dos ramos, entre outras, os resultados poderão serplanta a exibir sintomas de deficiência. satisfatórios e viáveis na maioria das espécies Analisando situação da combinação limão frutíferas.sobre laranja-azeda ou pomelo, verificaram que os De modo geral, as aplicações da estaquia são:cavalos apresentavam teor mais baixo de magnésio, a) multiplicação de variedades ou espécies quequando comparado com esses porta-enxertos não- possuem aptidão para emitir raízes adventícias;enxertados. Quando se enxertaram laranja-doce e b) produção de porta-enxertos clonais;pomelo em cavalo de laranja caipira, encontrou-se c) perpetuação de novas variedades oriundasmaior teor de magnésio solúvel no cavalo. de processos de melhoramento genético. Assim, a deficiência de uma planta não estáligada somente à maior ou menor disponibilidade dos Vantagens e desvantagenselementos no solo, mas também à afinidade quedeterminados porta-enxertos possuem em absorver e Como vantagens da estaquia podem sertranslocar esses elementos. apontadas: a) permite que se obtenha muitas plantas a partir de uma única planta matriz em curto espaço de tempo;4.3. Métodos de propagação vegetativa b) é uma técnica de baixo custo e de fácil execução; c) não apresenta problemas de incompatibilidade Dentre os processos de propagação agâmica, entre enxerto e o porta-enxerto;os principais são: estaquia, mergulhia e enxertia. d) plantas produzidas com porta-enxertos originados de estacas apresentam maior uniformidade do que plantas enxertadas sobre mudas oriundas de sementes.Sebastião Elviro de Araújo Neto 48
  • 50. Viveiro LenhosasTipos de estacas São obtidas de ramos lenhosos ou lignificados, com idade entre 8 e 15 meses. As estacas lenhosas A estaca pode ser obtida de órgãos aéreos ou encontram maior campo de aplicação do que assubterrâneos. herbáceas e, quase sem exceção, constituem-se no folha material básico de propagação de árvores frutíferas. herbáceas ramos ponteiros Aéreas • Estaca simples simples A estaca simples é obtida subdividindo-se o talão ramo em pedaços de 20 a 30 cm de comprimento. O cruzeta diâmetro dessa estaca normalmente varia de 0,5 a 1,5Estacas lenhosas tanchão cm e cada uma deve possuir de quatro a seis gemas gema (Fig. 4.3A). enxerto Subterrâneas raiz Pode-se afirmar que a propagação por estacaspraticamente não apresenta inconvenientes.Entretanto, nem sempre é viável se reproduziremplantas por estacas, especialmente quando a espécieou cultivar apresenta um baixo potencial genético deenraizamento, resultando em pequena percentagemde mudas obtidas. Por outro lado, mesmo que hajaformação de raízes, o seu desenvolvimento pode ser A B C D Einsuficiente e o percentual de mudas que sobrevivemapós o plantio no viveiro pode ser muito baixo. Figura 4.3. Diferentes tipos de estacas: A) simples;Nestes casos, ainda que seja possível se produzirem B) talão; C) cruzeta; D) gema; E) raiz.estacas enraizadas, deve-se dar preferência a outros Esse tipo de material constitui-se num dosmétodos de propagação assexuada. mais efetivos, tanto pelo rendimento que oferece como na prática da estaquia. • Estaca-talão Herbáceas Difere da anterior por trazer consigo parte do As estacas herbáceas são obtidas de ramos lenho velho, que se denomina talão. É obtidaapicais. Sua retirada deve ser feita pela manhã, destacando-se um ramo no ponto de inserção comquando ainda estão túrgidas e com níveis mais outro de dois anos. E utilizada quando a espécie ouelevados de ácido abscísico e de etileno, que são variedade apresenta dificuldade de enraizamento.elementos favoráveis ao enraizamento (Fig. 4.2). O número de estacas, nesse tipo, é inferior aoFigura 4.2. Estaca herbácea. Parte terminal de um das simples, pois só podem ser obtidas quando osramo em desenvolvimento. ramos apresentam bifurcação (Fig. 4.3B). • Estaca-cruzeta Assemelha-se ao tipo anterior, porém, em vez de ser retirada com um pedaço de lenho velho na forma de pata de cavalo, é obtida secionando-se o ramo de dois anos, de modo a permitir maior porção de lenho. Apresenta o formato de uma cruz (Fig. 4.3C). • Estaca-tanchão É um tipo de estaca pouco comum, que apresenta comprimento que varia entre 60 e 80 cm ou mais e diâmetro de 4 a 20 cm. É utilizada na multiplicação de jabuticabeira, no Brasil, e de oliveira, nos países europeus. A presença de lenho velho na lingüeta favorece o enraizamento, por possuir raízes pré-formadas. O mesmo ocorre com as estacas de talão. • Estaca-gema O material de propagação é representado por uma única gema e é utilizado em casos muito especiais. Seu uso se restringe à multiplicação deSebastião Elviro de Araújo Neto 49
  • 51. Viveiromaterial muito valioso ou quando não se dispõe de de raízes adventícias. Pode-se dividir a formação dematerial em quantidade suficiente (Fig. 4.3D). raízes adventícias em duas fases. Uma primeira fase, • Estaca-enxerto de iniciação, caracterizada pela divisão celular e As estacas de difícil propagação podem ter o após, uma fase de diferenciação das células em umseu enraizamento facilitado utilizando-as como garfo primórdio radicular, que resulta no crescimento dae a estaca de mais fácil enraizamento, como cavalo. raiz adventícia. Estes processos, em geral, ocorrem em seqüência. Subterrâneas • Estaca-raiz É um tipo de estaca pouco utilizado. Temalgumas aplicações em pessegueiro, goiabeira ecaquizeiro (Fig. 4.3E). A melhor estaca é retirada deplantas com dois a três anos de idade. A época maisfavorável é o fim do inverno e o início da primavera, Figura 4.4. Estruturas morfológicas do caule equando as raízes estão bem providas de reservas. Ao formação de primórdios radiculares (adaptado deplantá-la, deve-se manter a polaridade correta. JANICK, 1966). A estaca-raiz produz primeiro uma haste Durante a iniciação das raízes, quatro etapasadventícia, sobre a qual ocorre o enraizamento. de modificações morfológicas podem ser citadas: A polaridade é inerente aos ramos e raízes. A a) desdiferenciação de algumas células adultas;estaca forma o broto na posição distal e as raízes, na b)formação de iniciais de raízes próximas aosproximal. feixes vasculares; A estaca-garfo deve ter comprimento maior c) formação de primórdios radiculares;que o da estaca-cavalo e a enxertia é feita em d)desenvolvimento dos primórdios elaboratório (enxerto de mesa). emergência, através do córtex e epiderme da estaca, Na estaquia, enterra-se também parte do garfo. das raízes adventícias, acompanhado da sua conexãoO seu enraizamento pode ser facilitado pelo uso de com o sistema vascular da estaca.um estimulante de raiz na região de união de ambas O local de emissão dos primórdios radicularesas estacas. O AIB é recomendado. é bastante variável conforme a espécie e o tipo de Após o enraizamento das duas estacas, estaca. Em estacas herbáceas, que não possuem umreduzem-se as raízes do cavalo para estimular as do cambio desenvolvido, os primórdios podem surgirgarfo. entre os feixes vasculares e para fora destes e as Em citros, C. medica enraíza facilmente, ao raízes podem emergir em filas, acompanhando ospasso que o C. aurantium apresenta dificuldade, e feixes vasculares. As raízes adventícias tambémesse processo facilita a sua propagação vegetativa. podem ser formadas a partir da epiderme e do periciclo. Já em estacas lenhosas, os primórdios sePrincípios anatômicos do enraizamento formam a partir do xilema secundário jovem, em geral, em um ponto correspondente à entrada do raio No momento em que uma estaca é preparada, vascular. Também podem ser formados primórdios aesta consiste de uma ou mais gemas (sistema aéreo partir do câmbio, do floema, das lenticelas ou daem potencial) e de uma porção de tecido medula. À medida que o ramo se toma maisdiferenciado, aéreo ou subterrâneo, sem sistema lignificado, o local de formação das raízes parece seradicular formado. As raízes formadas na estaca deslocar em direção centrípeta, ou seja, em estacasserão, portanto, uma resposta ao traumatismo semilenhosas, originadas do floema, e em estacasproduzido pelo corte. lenhosas, do câmbio. De modo geral, as raízes Com o preparo da estaca, há uma lesão dos adventícias se originam próximas ao cilindrotecidos, tanto de células do xilema quanto do floema. vascular.Este traumatismo é seguido de cicatrização, que Em algumas espécies, como Citrus medica,consiste da formação de uma capa de suberina, que Populus sp. e Ribes sp., há primórdios radicularesreduz a desidratação na área danificada. Nesta região, pré-formados latentes no momento da coleta dasem geral, há a formação de uma massa de células estacas, de modo que, uma vez colocadas emparenquimatosas que constituem um tecido pouco condições favoráveis, formam raízes.diferenciado, desorganizado e em diferentes etapas de Muitas vezes é observada, na base da estaca,lignificação, denominado calo. O calo é um tecido como resultado de um traumatismo, a formação decicatricial que pode surgir a partir do câmbio calo. Ainda que sejam fenômenos independentes, avascular, do córtex ou da medula, cuja formação formação do calo e o aparecimento das raízesrepresenta o início do processo de regeneração. As adventícias são influenciados, na maioria dos casos,células que se tornam meristemáticas dividem-se e pelos mesmos fatores e podem ocorreroriginam primórdios radiculares. Após, células simultaneamente. Tem sido observado que, ao menosadjacentes ao câmbio e ao floema iniciam a formação para algumas espécies de difícil enraizamento, aSebastião Elviro de Araújo Neto 50
  • 52. Viveiroformação de raízes se dá sobre o calo, ainda que a folhas novas, de onde é translocada para a base daformação de calo não seja um prenúncio seguro da planta por um mecanismo de transporte polar. Osformação de raízes adventícias. Não há uma relação ápices radiculares também produzem auxinas, porémdireta entre formação de calo e enraizamento. O calo não há acumulação nas raízes devido ao elevado teorpode ser ainda uma barreira protetora ao ataque de de substâncias inativadoras de auxinas nesta parte damicrorganismos. É possível que estacas com calo planta.respondam mais facilmente ao uso de promotores O aumento da concentração de auxina exógenaexógenos de enraizamento do que estacas sem aplicada em estacas provoca efeito estimulador deformação de calo. raízes até um valor máximo, a partir do qual qualquer A localização das raízes adventícias é variável acréscimo de auxinas tem efeito inibitório. O teore algumas espécies somente formam raízes na base adequado de auxina exógena para estímulo doda estaca, outras em nós ao longo do caule, e outras enraizamento depende da espécie e da concentraçãonos nós e entrenós. de auxina existente no tecido. A casca pode constituir-se em uma barreira à No momento em que a auxina é aplicada, háemergência das raízes. Um anel de esclerênquima um aumento da concentração na base da estaca e,contínuo altamente lignificado entre o berna e o caso os demais requerimentos fisiológicos sejamcórtex pode ser uma das causas da dificuldade de satisfeitos, há formação do calo, resultante daenraizamento em determinadas espécies. Caso este ativação das células do câmbio e das raízesesclerênquima não seja rompido mecanicamente, as adventícias.raízes podem emergir na base da estaca. GiberelinasPrincípios fisiológicos do enraizamento Dentre as giberelinas encontradas na natureza, A capacidade de uma estaca emitir raízes é o AG3 (ácido giberélico) é o mais importante. Umafunção de fatores endógenos e das condições vez que a principal ação das giberelinas é o estímuloambientais proporcionadas ao enraizamento. O ao crescimento do caule, em concentrações a partir demanejo da estaquia, para proporcionar o desejado 10-3 molar as giberelinas inibem o enraizamento,sucesso na produção de mudas, requer o possivelmente devido à interferência na regulação daconhecimento e a aplicação destes princípios. Além síntese de ácidos nucléicos. Por outro lado, inibidoresdisso, o estudo destes aspectos pode auxiliar a da síntese de giberelinas, como SADH (ácidocaracterização de uma espécie como sendo de fácil succínico 2,2-dimetilhidrazida) ácido abscísico eou difícil enraizamento. Tem sido observado que a paclobutrazol, mostram efeito benéfico noformação de raízes adventícias deve-se à interação de enraizamento.fatores existentes nos tecidos e à translocação desubstâncias localizadas nas folhas e gemas. Entre Citocininasestes fatores, os reguladores de crescimento são deimportância fundamental. Outros compostos, alguns As citocininas tem efeito estimulador dadeles parcialmente conhecidos, também têm divisão celular na presença de auxinas. Dessa forma,influência indireta sobre o enraizamento. há um estímulo à formação de calos e à iniciação de gemas. Entretanto, espécies com elevados teores de Auxinas citocininas em geral são mais difíceis de enraizar do que aquelas com conteúdos menores, sugerindo que a As auxinas compõem o grupo de reguladores aplicação de citocininas inibe a formação de raízesde crescimento que apresenta o maior efeito na em estacas. Por outro lado, em estacas de raiz, asformação de raízes em estacas. Possuem ação na citocininas podem estimular a iniciação de gemas.formação de raízes adventícias, na ativação das Uma relação auxina/citocinina baixa estimulacélulas do câmbio e na promoção do crescimento das a formação de gemas ou primórdios foliares, ao passoplantas, além de influenciarem a inibição das gemas que uma relação elevada estimula a formação delaterais e a abscisão de folhas e frutos. raízes. No cultivo “in vitro”, uma relação equilibrada O AIA (ácido indol-3-acético) foi identificado promove a formação de calo e permite uma boaem 1934 e se constitui na auxina de ocorrência mais regeneração de plantas a partir de meristemas.comum nas plantas. Uma das primeiras utilizaçõespráticas da auxina foi a de promover o enraizamentoem segmentos de plantas. Posteriormente, outras Ácido abscísicosubstâncias de origem exógena, como o AIB (ácidoindolbutírico) e o ANA (ácido naftalenacético) A princípio, os dados sobre ácido abscísico,mostraram-se até mesmo mais eficientes do que o um inibidor do crescimento na formação de raízesAIA na promoção do enraizamento de estacas, adventícias, são contraditórios, dependendo damesmo que fossem de origem exógena. concentração e do estado nutricional da planta-mãe. A auxina é sintetizada nas gemas apicais eSebastião Elviro de Araújo Neto 51
  • 53. Viveiro Etileno Ácido abscísico (antagônico ao AG) Em baixas concentrações (próximas a 10ppm), o etileno estimula a formação e o COFATOR 1 Ácido giberélico (AG)desenvolvimento de raízes. Possivelmente, o etileno (bloqueia a divisão celular) Oxidase de ácidosintetizado quando da aplicação de auxina explica o COFATOR 2 indolacéticoefeito desta no enraizamento de estacas. Entretanto, oefeito do etileno é mais dependente de interações COFATOR 3 Iniciaçãocomplexas do que da simples concentração deste (Ácido iso- + Auxina Complexo RNA de raízes (AIA) cofator/AIA clorogênico)regulador. O estudo isolado do efeito de um regulador, Polifenolem geral, não permite explicar satisfatoriamente a sua COFATOR 4 oxidase Glicose (terpenóides Compostosinfluência no enraizamento, de forma que o equilíbrio oxigenados) nitrogenadosentre estes diferentes compostos pode realmente Cálcioexplicar os mecanismos fisiológicos envolvidos. O Outros nutrientesequilíbrio hormonal numa planta varia com a épocado ano e com a fase fisiológica. Os inibidores do enraizamento, ainda que na Além dos reguladores do crescimento, outras sua maioria não estejam determinados quimicamente,substâncias de ocorrência natural, denominadas são freqüentemente associados com a facilidade de“cofatores do enraizamento’, que atuam enraizamento em algumas espécies. Em determinadassinergicamente com as auxinas, são necessárias para situações, a lavagem dos inibidores e sua lixiviaçãoque se dê o enraizamento. Estes cofatores são estimulam o enraizamento.sintetizados em gemas e folhas jovens e, em maior Em nível bioquímico, o enraizamento e oquantidade, em estacas provenientes de plantas desenvolvimento de raízes são acompanhados dajovens. São transportados pelo floema a partir dos síntese de proteínas e de RNA (ácido ríbonucleico).locais de síntese. Dessa forma, é caracterizada a Além disso, há modificações nos padrões eimportância, para muitas espécies, de serem mantidas concentrações de DNA (ácido desoxirribonucléico) eas folhas e gemas em atividade vegetativa. Estes aumento da atividade enzimática à medida que asórgãos atuam como um laboratório de produção de raízes se desenvolvem. Em estacas de ameixeira,reguladores de crescimento e nutrientes. As folhas observouse que o calo e as raízes em formação atuamcontribuem para a formação das raízes, devido à como um dreno dos carboidratos da estaca.síntese de cofatores ou carboidratos. O termo “rizocalina” foi adotado inicialmente Fatores que afetam a formação de raízespor Bouillenne e Went (1933) e engloba o conjuntode substâncias, além dos reguladores de crescimento, O conhecimento dos fatores que afetam aque estimulam o enraizamento, muitas delas ainda formação de raízes é importante para que se possanão conhecidas totalmente. Em 1955, foi proposto explicar por que uma espécie tem facilidade ouque a rizocalina seria um complexo formado por 3 dificuldade de enraizar. Além disso, o adequadocomponentes: manejo destes fatores permitirá que haja mais chance a) um orto-dihidroxifenol, fator especifico de sucesso na produção de mudas por estaquia.transportado a partir das folhas; Podem-se classificar os fatores que afetam o b) a auxina, fator não-especifico; enraizamento em: e) uma enzima especifica, do tipopolifenoloxidase, encontrada em alguns tecidos Fatores internos(periciclo, floema e câmbio). A reação entre estes trêscomponentes origina a rizocalina. - Condição fisiológica da matriz As relações hipotéticas entre os vários - Idade da plantacomponentes que conduzem à iniciação de raízes - Tipo de estacaadventícias, segundo HARTMANN & KESTER - Época do ano(1990), são mostradas no esquema a seguir: - Potencial genético de enraizamento Os cofatores do enraizamento não estão todos - Sanidadequimicamente determinados. Sabe-se que o cofator 3 - Balanço hormonalé o ácido isoclorogênico e o cofator 4 consiste de - Oxidação de compostos fenólicos.terpenóides oxigenados. Além disso, o compostofenólico catecol, que atua protegendo a auxina da Fatores externosação da AIA oxidase, o ácido abscísico, de açãoantagônica à síntese de giberelinas e o floroglucinol, - Temperaturaque atua sinergicamente com o AIB, são substâncias - Luzcom atividade no enraizamento, mas há necessidade - Umidadede comprovação. - SubstratoSebastião Elviro de Araújo Neto 52
  • 54. Viveiro - Condicionamento conteúdo excessivo de N e Mn na planta-mãe, demonstrando a importância de um adequado manejo De modo geral, a interação entre fatores, e não de adubação das plantas matrizes para obtenção daso estudo isolado destes, é que permite se explicarem estacas.melhor as causas do enraizamento. Quanto maisdifícil for o enraizamento de uma espécie e/ou Idade da plantacultivar, tanto maior a importância dos fatores que oafetam. De modo geral, estacas provenientes de plantas jovens enraizam com mais facilidade e issoFatores internos especialmente se manifesta em espécies de difícil enraizamento. Possivelmente este fato esteja Condição fisiológica da planta matriz relacionado com o aumento no conteúdo de inibidores e com a diminuição no conteúdo de Por condição flsiológica da planta matriz cofatores (compostos fenólicos) à medida queentende-se o conjunto das características internas da aumenta a idade da planta. É recomendável amesma, tais como o conteúdo de água, teor de obtenção de brotações jovens em plantas adultas, asreservas e de nutrientes, por ocasião da coleta das quais, mesmo não caracterizando uma verdadeiraestacas. condição de juvenilidade, têm mais facilidade de Estacas retiradas de uma planta matriz em enraizamento.déficit hídrico tenderão a enraizar menos do que Tipo de estacaaquelas obtidas sob adequado suprimento de água. A condição nutricional da planta matriz afeta Em espécies de fácil enraizamento, afortemente o enraizamento. No que se refere ao teor importância do tipo de estaca na formação de raízes éde carboidratos, tem-se observado que reservas mais pequena. Entretanto, quanto maior a dificuldade deabundantes correlacionam-se com maiores formação de raízes adventícias, tanto maior apercentagens de enraizamento e sobrevivência de necessidade da correta escolha do tipo de estaca. Oestacas. A importância dos carboidratos refere-se ao tipo ideal de estaca varia com a espécie ou, atéfato de que a auxina requer uma fonte de carbono mesmo, com a cultivar.para a biossíntese dos ácidos nucléicos e proteínas, e Como a composição química do tecido varialeva à necessidade de energia e carbono para a ao longo do ramo, estacas provenientes de diferentesformação das raízes. Além do teor de carboidratos, a porções do mesmo tendem a diferir quanto aorelação C/N (Carbono/Nitrogênio) é importante. enraizamento. Assim, em estacas lenhosas, o uso daRelações C/N elevadas induzem a um maior porção basal geralmente proporciona os melhoresenraizamento, mas com produção de uma pequena resultados. Isso pode ser devido à acumulação departe aérea, ao passo que estacas com baixa relação substâncias de reserva, a um menor teor de NC/N, devido a um elevado teor de nitrogênio, são (resultando uma relação C/N mais favorável) e àpobres em compostos necessários ao enraizamento e presença de iniciais de raízes pré-formadas nestamostram pouca formação de raízes. Relações C/N região. Fato inverso se observa com estacasadequadas permitem que se obtenha um bom semilenhosas, para as quais os maiores percentuais deequilíbrio entre as raízes e a parte aérea formada, enraizamento são obtidos com a porção mais apical.além de maior enraizamento. O teor de carboidratos Neste caso, isto pode ser atribuído a uma maiorvaria conforme a época do ano, sendo que em ramos concentração de promotores do enraizamento, pelade crescimento ativo (primavera/verão) o teor é mais proximidade dos sítios de síntese de auxinas, e àbaixo. Ramos maduros e mais lignificados menor diferenciação dos tecidos, resultando em(outono/inverno) tendem a apresentar mais maior facilidade de as células voltarem a sercarboidratos. Em geral, estacas com um maior meristemáticas.diâmetro apresentam maior quantidade de substâncias Estacas com gemas floríferas, ou coletadasde reserva e tendem a enraizar mais, ainda que, por durante a floração, tendem a enraizar menos quevezes, um maior diâmetro esteja relacionado com aquelas provenientes de ramos vegetativos em fase demais brotações e poucas raízes. crescimento ativo, o que mostra um antagonismo No que se refere à composição nutricional, um entre a floração e o enraizamento.conteúdo equilibrado de alguns nutrientes, como o P, A presença de um talão (segmento de ramoK, Ca e Mg, favorece o enraizamento. Ainda que o N velho na base da estaca) pode, em certos casos, comoseja necessário para a síntese de proteínas e ácidos no marmeleiro, favorecer a formação de raízes,nucleicos, essenciais ao enraizamento, seu teor em provavelmente em função da existência de iniciais deexcesso pode ser prejudicial. O excesso de Mn raízes pré-formadas em tecidos de mais idade.também pode prejudicar o enraizamento. O zinco é Estacas mais lignificadas geralmenteativador do triptofano, precursor da auxina, e deve apresentam maior dificuldade de enraizamento doestar presente para que se dê a formação de raízes. que estacas de consistência mais herbácea.Cuidados devem ser tomados especialmente com oSebastião Elviro de Araújo Neto 53
  • 55. Viveiro Época do ano pelos tratamentos fitossanitários que venham a ser realizados neste período. A época do ano está estreitamente relacionadacom a consistência da estaca, sendo que estacas Balanço hormonalcoletadas em um período de crescimento vegetativointenso (primavera/verão) apresentam-se mais O equilíbrio entre os diversos reguladores doherbáceas e, de modo geral, em espécies de difícil crescimento tem forte influência no enraizamento deenraizamento, mostram maior capacidade de estacas. Assim, é necessário que haja um balançoenraizamento. Já estacas coletadas no inverno adequado, especialmente entre auxinas, giberelinas epossuem um maior grau de lignificação e tendem a citocininas. Uma das formas mais comuns deenraizar menos. Entretanto, estacas menos favorecer o balanço hormonal para o enraizamento élignificadas (herbáceas e semilenhosas) são mais a aplicação exógena de reguladores de crescimentopropícias à desidratação e à morte, requerendo um sintéticos, tais como o AIB (ácido indolbutírico), omanejo adequado de irrigação, ao passo que estacas ANA (ácido naftalenacético) e o AIA (ácidolenhosas podem até mesmo serem enraizadas no indolacético), os quais elevam o teor de auxinas nocampo. Em muitos casos, especialmente em espécies tecido. O paclobutrazol, por outro lado, é um inibidorcaducifólias, as estacas lenhosas dormentes são da síntese de giberelinas, que são inibidoras dopreferidas em função da sua facilidade de transporte e enraizamento, e seu uso favorece o equilíbriomanuseio. hormonal para o enraizamento. No que se refere à época mais adequada paraobtenção das estacas, há diferença entre espécies,sendo que algumas enraízam melhor no início da Tipos de auxinas sintéticasprimavera e outras, de folhas grandes e persistentes,desde a primavera até fins do outono. As principais auxinas sintéticas e algumas A influência da época de coleta das estacas no de suas características constam na Tabela 4.3.enraizamento pode ser também atribuída a condiçõesclimáticas, especialmente no que se refere àtemperatura e à disponibilidade de água. Tabela 4.3. Principais auxinas sintéticas no enraizamento de estacas. Potencial genético de enraizamento Nome Sigla Vantagens Desvantagens Ácido indo- AIA alta atividade de Fotossensível, sujeito à A potencialidade de uma estaca formar raízes lacético IAA enraizamento decomposiçãoé variável com a espécie e também com a cultivar. enzimática (oxidase do AIA) e bacterianaNesse sentido, pode ser feita uma classificação como Ácido AIB fotoestável, de açãoespécie ou cultivar de fácil, mediano ou difícil indolbutírico IBA localizada, persistente eenraizamento, ainda que a facilidade de enraizamento não tóxica em ampla gama de concentrações,seja resultante da interação de diversos fatores e não não é atacado por açãoapenas do potencial genético. biológica Ácido nafta- ANA mais ativo que o AIB e mais fitotóxico que o lenoacético NAA AIA AIB e AIA Ácido 2,4-di- 2,4-D alta atividade enraizante, Altamente fitotóxicos, a Sanidade clorodwnoxi- viável de ser utilizado concentração ótima fica acético 2,4,5-T em misturas muito próxima do limite Ácido 2,4,5- de toxidez; em altas Em estacas de macieira e de Ribes spp., triclorofeno- concentrações são xiacético produzidas raízesobservou-se que clones livres de vírus têm uma maior grossas e atrofiadasfacilidade de enraizamento do que o materialenvirosado, havendo também efeito das viroses sobrea qualidade das raízes formadas e sobre a Oxidação de compostos fenólicosvariabilidade de resultados entre diversas estaquiasrealizadas sob as mesmas condições. Da mesma Em algumas espécies, especialmente asforma que com as viroses, o ataque de fungos e pertencentes à família Myrtaceae, o fortebactérias pode ocasionar a morte das estacas, antes ou escurecimento na região do corte da estaca,após a formação de raízes, podendo afetar a ocasionado pela oxidação de compostos fenólicos,sobrevivência das estacas ou a qualidade do sistema pode dificultar a formação de raízes. Os diferentesradicular da muda. tipos de fenóis nos tecidos, ao entrarem em contato A sanidade durante a estaquia é influenciada com o oxigênio, iniciam reações de oxidação, cujospelo grau de contaminação do material propagativo, produtos resultantes são tóxicos ao tecido. Apelo substrato, pela qualidade da água de irrigação e oxidação destes compostos pode ser minimizada comSebastião Elviro de Araújo Neto 54
  • 56. Viveiroo uso de substâncias antioxidantes, tais como o ácido consistência mais herbácea. O uso da nebulizaçãoascórbico, o PVP (polivinilpirrolidona), o ácido intermitente permite a redução da perda de umidadecítrico e o DLECA (dietilditiocarbamato), além de pela formação de uma película de água sobre asoutros. Têm sido obtidos resultados preliminares que folhas, além da diminuição da temperatura, comdemonstram a importância do controle da oxidação manutenção da atividade fotossintética em estacasno cultivo “in vitro’. Entretanto, a significância e a com folhas. Por outro lado, a alta umidade favorece oeficiência do controle da oxidação na propagação por desenvolvimento de patógenos, para os quais devemestacas ainda carecem de maiores informações, visto ser dispensados cuidados especiais.que os resultados obtidos até o momento sãoincipientes. SubstratoFatores externos O substrato destina-se a sustentar as estacas Temperatura durante o período do enraizamento, mantendo sua base em um ambiente úmido, escuro e O aumento da temperatura favorece a divisão suficientemente aerado. Os efeitos do substrato, tantocelular para a formação de raízes; porém, sobre o percentual de enraizamento como sobre aespecialmente em estacas herbáceas e semilenhosas, qualidade das raízes formadas, relacionam-seestimula uma elevada taxa de transpiração, induzindo especialmente com a porosidade, a qual afeta o teoro murchamento da estaca. Além disso, pode de água retida e o seu equilíbrio com a aeração.favorecer o desenvolvimento de brotações antes que Diferentes materiais são utilizados como meios parao enraizamento tenha ocorrido, o que é indesejável. enraizamento, como, por exemplo, a areia, aCom o objetivo de estimular o enraizamento de vermiculita, a cinza de casca de arroz, a casca deestacas lenhosas, recomenda-se manter o substrato arroz carbonizada, o solo e outros.aquecido de modo a reduzir a respiração e a O substrato mais adequado varia para cadatranspiração na parte exposta ao ar, e a favorecer a espécie. De um modo geral, pode-se afirmar que umdivisão celular na região de formação de raízes. E bom substrato é aquele que:citado que temperaturas diurnas de 21 a 26 0C e a) proporciona a retenção de um teor de águanoturnas de 15 a 21 0C são consideradas adequadas suficiente para manter as células túrgidas e prevenir oao enraizamento. murchamento das estacas; b) permite uma aeração na base da estaca, de Luz modo a permitir a iniciação e o desenvolvimento das raízes; A importância da luz no enraizamento diz c) apresenta uma boa aderência à estaca;respeito à fotossíntese e à degradação de compostos d) não favorece a contaminação e ofotolábeis como as auxinas. De modo geral, baixa desenvolvimento de organismos patógenos eintensidade luminosa sobre a planta-mãe previamente saprófitos;à coleta das estacas, tende a favorecer a formação de e) permite que as estacas enraizadas sejamraízes, provavelmente devido à preservação das removidas com um mínimo de dano às raízes;auxinas e de outras substâncias endógenas. f) é de baixo custo de aquisição e de fácil O estiolamento dos ramos dos quais serão obtenção;retiradas as estacas facilita o enraizamento e é uma g) não contém ou libera qualquer tipo deprática recomendada, especialmente no caso de substância que exerça efeito fitotóxico à estaca.espécies de difícil enraizamento. Na região basal da O pH do substrato afeta o enraizamento, sendoestaca, onde serão formadas as raízes, é necessário que para algumas espécies a diminuição do pHque se mantenha um ambiente completamente escuro. favorece o enraizamento e dificulta o desenvolvimento de microorganismos. Não é Umidade necessário que o substrato forneça nutrientes, uma vez que o enraizamento se dá às expensas da própria Para que haja divisão celular, é necessário que estaca.as células se mantenham túrgidas. O potencial deperda de água em uma estaca é muito grande, seja Condicionamentoatravés das folhas ou das brotações emdesenvolvimento, especialmente considerando o Em espécies de difícil enraizamento, algunsperíodo em que não há raízes formadas. A perda de tratamentos que venham a ser realizados previamenteágua é uma das principais causas da morte de estacas. à estaquia podem permitir a obtenção de bonsPortanto, a prevenção do murchamento é resultados. Em diversos casos, o condicionamento éespecialmente importante em espécies que exigem fundamental para que se possa obter um percentualum longo tempo para formar raízes e nos casos em de enraizamento satisfatório. Como exemplos, podemque são utilizadas estacas com folhas e/ou de ser citados o tratamento com reguladores deSebastião Elviro de Araújo Neto 55
  • 57. Viveirocrescimento, o anelamento, o estiolamento, a dobra O tratamento com reguladores de crescimento podede ramos, entre outros. ser realizado ainda no armazenamento. O uso de estacas de folha com gema é citadoPreparo e manejo das estacas na propagação de limoeiro, framboesa negra, camélia e azaléia, além de outras; porém, é pouco usado em Uma vez selecionados os ramos, é necessário fruticultura. Utiliza-se um nó com uma folha e umaque estes sejam levados a um galpão ou estrutura gema por estaca, preferencialmente de material quesemelhante, onde as estacas serão preparadas. O tenha gemas bem desenvolvidas e folhas sadias empreparo das estacas pode ser feito com tesoura de crescimento ativo.poda ou para estacas lenhosas em grandes Para algumas espécies, cortes laterais na basequantidades, com uso de senas elétricas. Uma vez da estaca favorecem o enraizamento, especialmentepreparadas, as estacas devem ser mantidas em água naquelas em que o esclerênquima se constitui numaaté o momento de serem colocadas no substrato. barreira física à emissão de raízes. A exposição do O comprimento e o diâmetro das estacas varia câmbio, propiciada por estes cortes, também podeconforme a espécie e o tipo de estaca. Estacas facilitar a absorção de substâncias promotoras dolenhosas podem ter um comprimento variável de 20 a enraizamento.30 cm e um diâmetro que geralmente se situa entre0,6 e 2,5 cm. Estacas semilenhosas apresentam um Estaqueamentocomprimento, em geral, de 7,5 a 15 cm, e estacasherbáceas podem ser ainda menores. O plantio das estacas pode ser realizado em Após o preparo, é conveniente a separação das recipientes (sacos plásticos, vasos, baldes, caixas,estacas em grupos conforme o seu tamanho. Isso entre outros) em estruturas de propagação oupermite a obtenção de lotes homogêneos de plantas, o diretamente no viveiro. O primeiro caso é aplicadoque facilitará a realização de operações posteriores. É para estacas folhosas (semilenhosas ou herbáceas), asainda recomendável a identificação dos lotes de quais necessitam de umidade constante sobre a folha.estacas por cultivar, visando evitar a mistura Já o plantio direto no viveiro pode ser adequado paraposterior no viveiro. estacas lenhosas, especialmente de espécies Em estacas semilenhosas e/ou de consistência caducifólias, quando a manutenção da umidademais herbácea, a presença de folhas favorece o propiciada pela chuva e/ou por irrigações esporádicasenraizamento, devido, provavelmente, à produção de é suficiente. Esta prática, denominadacofatores do enraizamento nas folhas. Da mesma ‘enviveiramento’, destina-se principalmente àforma, em estacas lenhosas, a presença de gemas nas propagação de plantas em larga escala e àestacas aumenta o percentual de enraizamento em multiplicação de espécies ou cultivares de fácildiversas espécies. A presença de folhas nas estacas, enraizamento. Neste caso, devem ser utilizadas áreaspor outro lado, representa uma superfície de solos profundos, ~m drenados e com viabilidadetranspiratória cuja taxa de perda de água é aumentada de uso da irrigação.em condições de elevada temperatura, normalmente A profundidade de plantio é variável conformeobservada nas épocas de coleta de estacas menos o tipo de estaca, sendo que, para estacas de ramos, élignificadas. Por esta razão, é necessário o uso de aconselhável que dois terços sejam enterrados nonebulização nas estacas folhosas. Em geral, são substrato. No que se refere a estacas de raiz, émantidas apenas 2 ou 3 folhas na parte superior da importante a manutenção destas em profundidade deestaca, podendo estas ser cortadas ao meio, como 2,5 a 5,0 cm, na posição horizontal, de modo aforma de facilitar o manejo e reduzir a perda de água. manter sua correta polaridade. O corte superior da estaca deve ser feito logo Como prevenção ao aparecimento de doenças,acima de uma gema e o inferior, logo abaixo. Esta é recomendável a imersão das estacas em soluçãorecomendação é mais viável de ser seguida quando é fungicida (Benomyl ou Captan). Para aumentar afeito o preparo individual das estacas. Quando se sobrevivência das estacas, pode-se misturar otrabalha com estacas lenhosas, com corte em feixes fungicida com o AIB (ácido indolbutírico), caso sede 50 ou 100 estacas, o posicionamento do corte pode trabalhe com o regulador na forma de pó.não ser o mais adequado. No momento do plantio, é importante garantir uma boa aderência do substrato à estaca, uma vez que É possível o armazenamento das estacas grandes espaços porosos podem aumentar alenhosas durante o inverno e este procedimento desidratação da estaca.permite, em alguns casos, a formação de calo ou deiniciais de raízes. Para tanto, podem ser utilizados Técnicas de condicionamentoleitos aquecidos ou o simples armazenamento emsubstrato umedecido. Deve-se evitar a desidratação Estratificaçãodas estacas armazenadas, bem como acompanhar abrotação das mesmas, pois, caso contrário, ocorrerá É uma prática que consiste na disposição deuma perda de água, com prejuízos ao enraizamento. camadas alternadas de areia grossa ou solo, emSebastião Elviro de Araújo Neto 56
  • 58. Viveirocondição úmida, e que objetiva proporcionar a desenvolvimento com plástico preto ou outroformação prévia do calo, além de permitir a material similar (papel alumínio, fita isolante econservação da estaca. O aumento da temperatura e outros), de modo que estes cresçam na ausência deda umidade, até certos limites aumenta a intensidade luz. O estiolamento parcial é realizado com ade formação de calo. Devem ser tomados cuidados cobertura apenas da base do ramo. O tempo depara evitar o desenvolvimento de fungos ou bactérias, estiolamento é variável conforme a espécie.a acumulação de água e o dessecamento, que sãoprejudiciais à formação de raízes. E necessário que as Anelamentoestacas sejam retiradas da estratificação, logo quetenham formado o calo e/ou tenha ocorrido a Consiste na obstrução da casca de um ramo nabrotação das gemas. planta matriz, de modo a bloquear a translocação descendente de carboidratos, hormônios e cofatores Lesões na base da estaca do enraizamento, permitindo a acumulação destes compostos acima do local da obstrução, região que Especialmente em estacas que apresentam será a base da futura estaca. O acúmulo destesmadeira velha na sua base, os cortes nesta região compostos favorece a formação e o crescimento dasfavorecem a formação de calo e de raízes nas bordas raízes. Além disso, há um aumento da quantidade deda lesão (Figura 4.5). células parenquimatosas e de tecidos menos diferenciados. O anelamento pode ser realizado com um anel de arame ou com um corte na região basal ou mediana do ramo de onde será retirada a estaca. O anelamento deve ser realizado assim que o comprimento do ramo permita, durante a fase ativa de crescimento vegetativo, de forma a assegurar uma acumulação significativa de compostos. Entende-se por anelamento a obstrução realizada através de um corte na região do córtex. O estrangulamento, que apresenta a mesma finalidade, é feito com a torção de um arame em volta do ramo (Figura 4.6).Figura 4.5. Lesão na base de uma estaca com folhas. Nesta região, a divisão celular é estimuladapor um aumento na taxa respiratória e nos teores deauxina, carboidratos e etileno na área lesionada. Alesão faz com que haja mais absorção de água e dereguladores de crescimento, aumentando a suaeficiência. Por outro lado, as lesões permitem quehaja rompimento da barreira física formada por anéisde esclerênquima, a qual pode até mesmo impedir aemergência das raízes. Para tanto, efetuam-se um oudois cortes superficiais de 2,5 a 5,0 cm na base daestaca. Estiolamento Entende-se por estiolamento odesenvolvimento de uma planta ou parte dela na Figura 4.6. Processos de anelaniento (A) eausência de luz, resultando em brotações alongadas, estrangulamento (B) em ramos da planta matriz.com folhas pequenas e não expandidas e com baixoteor de clorofila. Além disso, são encontrados em Rejuvenescimento de ramostecidos estiolados teores baixos de lignina e altos deauxinas endógenas e de outros cofatores do Estacas oriundas de ramos com juvenilidadeenraizamento, uma vez que estes últimos compostos tendem a apresentar um percentual maior desão sensíveis à luz (fotolábeis). Dessa forma, o enraizamento. Assim, qualquer técnica que permitaenraizamento é favorecido. que o ramo retome à fase juvenil permitirá que se Pode-se efetuar o estiolamento de toda a evite a diminuição do potencial de enraizamento àplanta, de todo um ramo ou de parte do mesmo. Para medida que a planta matriz envelhece. Uma podatanto, faz-se uma cobertura dos ramos em drástica da planta matriz induz à emissão deSebastião Elviro de Araújo Neto 57
  • 59. Viveirobrotações juvenis, de maior capacidade de neste período. Em alguns casos, o enraizamento foienraizamento. Muitas vezes estas brotações são aumentado com uso do fungicida Captan. Entretanto,resultantes dos esferoblastos, formações verrugosas não está claro se este aumento se deve ao controle decom tecido meristemático. Em algumas espécies, doenças ou a um aumento da ação do regulador decomo a macieira, é possível forçar a obtenção de crescimento, até mesmo como ativador da síntese debrotos adventícios juvenis a partir de estacas de raiz. auxina no tecido da estaca. Dobra de ramos Uso de nutrientes minerais Estes ramos ficam presos à planta por uma Objetiva favorecer a condição nutricional daporção de lenho e casca até a época de utilização das estaca para o enraizamento. A adição de compostosestacas lenhosas (inverno). Este tipo de injúria nitrogenados estimula o enraizamento em diversasprovoca um aumento da relação C/N e a formação de classes de plantas, possivelmente pelo fato de estesum tecido pouco diferenciado, resultante da compostos intervirem em interações hormonais. Ocicatrização, na região da dobra, com aumento da uso do boro em combinação com o AIB aumentou acapacidade de emissão de raízes. Resultados percentagem e a rapidez de formação de raízes empromissores foram obtidos com esta técnica no Ilex sp.. A adubação de estacas de videira com zincoenraizamento de estacas lenhosas de pessegueiro resultou em maior enraizamento e desenvolvimento(FACHINELLO et al., 1982). Ainda que a dobra dos de raízes, devido possivelmente a um incremento noramos não dispense o uso de fitorreguladores, há um teor de triptofano, precursor da auxina, do qual o Znfavorecimento do potencial de formação de raízes. é ativador. A adubação de plantas matrizes de ameixeira com zinco e boro aumentou os teores de Tratamento com reguladores de crescimento triptofano nas estacas. O uso de reguladores de crescimento tem porfinalidade aumentar a percentagem de estacas que Uso da nebulizaçãoformam raízes, acelerar sua iniciação, aumentar onúmero e a qualidade das raízes formadas e aumentar A nebulização é a aplicação de água na formaa uniformidade no enraizamento. Alguns reguladores, de névoa (gotas de tamanho reduzido) sobre ascomo as auxinas sintéticas, podem inibir o estacas, criando uma atmosfera destinada a reduzir adesenvolvimento das gemas e, conseqüentemente, perda de água pelas folhas. A redução das taxas dedos ramos. transpiração e de respiração pelas folhas, bem como a Esta prática destina-se a estabelecer um redução da temperatura das mesmas, são obtidas pelabalanço hormonal favorável ao enraizamento. Em formação de uma película de água sobre as folhas,geral, são utilizadas auxinas sintéticas (AIB, ANA, proporcionada pela nebulização intermitente. IstoAIA, 2,4-D), que visam elevar o conteúdo hormonal assegura a destinação de fotossintatos e nutrientesnos tecidos da estaca. Além disso, podem também ser para a formação das raízes.utilizados inibidores da síntese de giberelinas, as É importante que a água seja aplicada emquais são antagônicas ao processo de iniciação intervalos regulares, durante todo o período diurno.radicular. Como exemplo, pode ser citado o Para evitar o excesso de aplicação de água, pode serpaclobutrazol. O tratamento com citocininas dispensado o funcionamento da nebulização durante(cinetina, benziladenina, benzilaminopurina) estimula a noite. Nas horas mais quentes do dia, os intervaloso desenvolvimento das brotações adventícias, o que é entre as nebulizações devem ser menores.importante, caso se trabalhe com estacas de folhas ou A nebulização pode ser instalada em telados,de raízes. estufas plásticas, ou mesmo no ambiente externo. O A melhor substância promotora do ambiente protegido é o mais adequado para estaenraizamento, bem como as concentrações e métodos técnica, uma vez que permite uma aplicaçãode utilização mais adequados para uma determinada controlada da água, além de evitar o efeito do ventosituação, variam com a espécie e com o tipo de sobre a irrigação.estaca. Para verificar a sua eficiência, são necessários O controle dos intervalos de acionamento dotestes empíricos. sistema de nebulização pode ser efetuado através de alguns mecanismos, tais como: Tratamento com fungicidas - folha úmida, na qual há uma superfície de tela, que simula a superfície de uma folha. Quando Uma vez que a estaca, especialmente antes e esta superfície perde água a um nível pré-logo após o enraizamento, é bastante vulnerável ao estabelecido, é acionado o mecanismo daataque de microorganismos e se encontra num nebulização;ambiente favorável à proliferação de doenças, a - temporizador, que consiste em um aparelhoproteção com o uso de fungicidas constitui-se numa que aciona o sistema a intervalos regulares de tempo;prática importante para a sobrevivínmcia das estacas - controlador eletrônico de umidade,Sebastião Elviro de Araújo Neto 58
  • 60. Viveiroconstituído de um sistema computadorizado de A mergulhia é feita no solo, em plena terra ouacionamento da irrigação, com base na temperatura em vaso, quando os ramos das espécies são flexíveisna umidade relativa do ar. e de fácil manejo. O uso de nutrientes na água de irrigação pode O ramo ou mergulho, em qualquer um dosmelhorar a qualidade das raízes formadas e o processos de mergulhia, deve ser anelano, com anelcrescimento subseqüente das estacas enraizadas. de  2cm, e pode ser tratado com auxina. 4.3.2. Mergulhia - Mergulhia simples normal Consiste em enterrar a porção mediana do É o método de propagação assexuada no qual ramo no solo. A parte terminal do ramo é mantidao enraizamento de uma porção da planta, fora do solo e em posição vertical. A parte quenormalmente um ramo, é obtido com esta porção permanece sob o solo emite raízes e forma umaainda unida com a planta-mãe. Após a formação de planta (Figura 4.7).raízes, a porção enraizada é destacada da planta-mãe.Os princípios que regem a formação de raízes, neste - Mergulhia simples invertidacaso, bem como os fatores que afetam o É semelhante à anterior, mas, em vez de oenraizamento, são semelhantes aos mencionados na ramo-mergulho apresentar a parte apical fora do solo,estaquia. Porém, enquanto na estaquia o esta é dirigida diretamente para o terreno.enraizamento se dá às custas da própria estaca, na O enraizamento se dará na parte apical, quemergulhia, a planta-mãe continua a fornecer ficará enterrada, como uma estaca investida.fotoassimilados e fitorregulares, substâncias Como o ramo permanece em posiçãofavoráveis ao enraizamento. O enraizamento é invertida, as folhas, ao serem emitidas, apresentamfavorecido porque são dadas condições de ausência pequenas curvaturas, dando aspecto diferente àsde luz, provocando o estiolamento e umidade, além plantas. Esse processo é mais ornamental do quedo curvamento dos ramos, que provoca a acumulação econômico e tende a dar origem a plantas de menordas substâncias envolvidas no enraizamento. porte (Figura 4.8). A mergulhia é utilizada comercialmente napropagação de porta-enxertos de macieira (mergulhiade cepa), de mudas de lichieira e sapotizeiro(alporquia), entre outras espécies. A mergulhia éespecialmente interessante para propagar espéciescom grande dificuldade de formação de raízes. É ummétodo pouco utilizado comercialmente, por ser debaixo rendimento. Os fatores que favorecem a regeneração deplantas através da mergulhia são a ausência de luz(que provoca estiolamento do ramo e, porconseqüência, acúmulo de auxinas e redução dosteores de lignina e de compostos fenólicos), coberturacom solo úmido e poroso, nutrição adequada e Figura 4.7. Mergulhia simples, normal.elevada atividade fisiológica da planta-mãe, poucaidade dos ramos, aplicação de fitorreguladores eprática de anelamento. Existem basicamente dois tipos de mergulhia -a mergulhia no solo e a mergulhia aérea ou alporquia. normal simples invertida chinesa no solo contínua serpenteada invertida Mergulhia cepa no alto alporquia A mergulhia no solo pode ser classificada emalgumas formas principais:- No solo Figura 4.8. Mergulhia simples, invertida.Sebastião Elviro de Araújo Neto 59
  • 61. Viveiro - Mergulhia contínua da planta-mãe, a qual pode ser novamente utilizada A mergulhia contínua difere das outras por para um novo ciclo de produção de mudas. De todaspossibilitar a obtenção de maior número de novas as formas de mergulhia, a mergulhia de cepa é a maisplantas. Na mergulhia simples, uma única planta é utilizada em nível comercial, pois além dos bonsformada; na contínua, dependendo do interesse e do resultados que proporciona, pode ser uma práticacomprimento do ramo-mergulho, pode-se obter maior parcialmente mecanizada, o que favorece onúmero de plantas. rendimento da operação (Figura 4.11). - Mergulhia contínua chinesa A mergulhia contínua chinesa é executadamergulhando-se o ramo no terreno, de modo a manterenterrada a maior extensão possível dele,permanecendo apenas a parte apical fora do solo. Para que o ramo fique em contato com o solo,faz-se um sulco com profundidade aproximadamentede 30 cm (Figura 4.9). Figura 4.11. Mergulhia de cepa. No alto A mergulhia no alto é denominada alporquia. É uma prática que consiste em se envolver um ramo com substrato de enraizamento (musgo, solo ou outroFigura 4.9. Mergulhia no solo, contínua, chinesa. material que proporcione boa aderência), acondicionado em plástico ou papel alumínio (Figura - Mergulhia contínua serpentada 4.12). A adoção da alporquia justifica-se em espécies Neste tipo, o ramo-mergulho apresenta aspecto de difícil enraizamento, quando há dificuldade desemelhante ao simples normal, pois o ramo, após ter levar o ramo até o solo. É uma prática trabalhosa e,uma de suas partes enterrada, eleva-se, novamente é portanto, de baixo rendimento. O anelamento e amergulhado, e assim sucessivamente, dando a aplicação de fitorreguladores pode aumentar oimpressão de uma serpentina (Figura 4.10). percentual de alporques enraizados.Figura 4.10. Mergulhia, contínua, serpenteada. - Mergulhia de cepa Na mergulhia de cepa, a planta matriz sofre,inicialmente, uma poda drástica a cerca de 5 cm do Figura 4.12. Alporquia ou mergulhia no alto.solo. Isto estimula a emissão de brotações jovens, asquais serão posteriormente cobertas com solo. Após oenraizamento, as brotações enraizadas são destacadasSebastião Elviro de Araújo Neto 60
  • 62. ViveiroPreparo de ramos e forçamento O enxerto pode consistir de um segmento de - Antes da mergulhia ramo com uma ou duas gemas (garfo) ou de uma com Os ramos devem ser preparados antes de entrar uma pequena porção de casca (borbulha). O enxertoem contato com o solo. As operações consistem na deverá ser retirado de uma planta com todas asdesfolha e em anelamento, incisões ou torções da características da cultivar, bem como que tenhaparte que ficará enterrada. ultrapassado o período da juvenilidade. Assim, tão Após ser enterrado, o ramo é mantido preso ao logo haja área foliar suficiente para percepção dossolo por um tutor ou forquilha. estímulos indutores do florescimento e para - Após a mergulhia sustentação dos frutos, a planta irá produzir, Os ramos-mergulhos, após determinado reproduzindo fielmente as características da planta-tempo, enraízam e devem ser separados da planta mãe.matriz. A separação pode ser feita de uma só vez ou Normalmente, a propagação por enxertiagradualmente. A essa operação dá-se o nome de consiste nestas duas partes. Porém, em certasdesmame. O desmame gradual tem por finalidade a situações, há problemas de compatibilidade entre oredução lenta da alimentação da nova planta, de enxerto e o porta-enxerto ou há a necessidade demodo a forçá-la a nutrir-se de suas próprias raízes. controlar o vigor da copa, requerendo o uso de um Uma separação brusca pode secar a planta, terceiro componente, o interenxerto.principalmente quando ela não se encontra ainda Interenxerto, enxerto intermediário ousuficientemente enraizada. filtro, normalmente pertencente a uma cultivar diferente do enxerto e do porta-enxerto, que seja 4.3.3. Enxertia compatível com ambos, bem como possa conferir as características desejadas à copa. A enxertia é o método de propagaçãoassexuada que consiste em se unir duas ou mais Finalidades do uso da enxertiaporções de tecido de modo que a união destas partes - Aproveitamento de características favoráveisvenha a constituir-se em uma nova planta. É um dos do porta-enxerto: o porta-enxerto pode definirprincipais métodos de propagação e é largamente diversas características importantes da copa, taisutilizada em um grande número de espécies, tais como o vigor, a produtividade, a qualidade doscomo os citros, pessegueiro, ameixeira, goiabeira, frutos, a resistência a fatores adversos, etc. Alémmacieira, pereira, abacateiro, entre outros. A grande disso, os porta-enxertos diferem na sua adaptação aimportância da enxertia deve-se ao fato de que são diferentes condições de solo e de clima e à ocorrênciaconjugados os aspectos favoráveis (vigor, tolerância a de pragas e doenças. Desta forma, é possívelfatores bióticos e abióticos adversos, produtividade, trabalhar-se com uma mesma cultivar-copa ementre outros) de duas ou mais plantas, as quais podem diferentes condições ambientais;ser de uma mesma variedade ou de variedade e - Propagação de plantas com difícilespécies diferentes ou até mesmo, gêneros diferentes. multiplicação por outros métodos: se a propagação de O cavalo ou porta-enxerto passa a ser uma planta por sementes ou por estacas, ou ainda porresponsável pela nutrição e fornecimento de água outro método, for pouco viável, a enxertia permiteatravés de suas raízes e ainda servirá de suporte. A que se possa propagar esta planta;cepa ou enxerto, por seu lado, encarrega-se da - Alteração da cultivar-copa em plantasnutrição do porta-enxerto, fornecendo-lhe as adultas: em pomares estabelecidos, devido a questõessubstâncias elaboradas, e compete-lhe ainda o de mercado, hábito de crescimento inadequado,florescimento e frutificação. frutos de baixa qualidade, suscetibilidade a pragas e O porta-enxerto é denominado hipobioto e o doenças, entre outros, pode ser requerida a troca daenxerto, epibioto. Muitas vezes, devido à diferença cultivar-copa. Isto é possível sem a erradicação dono vigor entre porta-enxerto e enxerto, há pomar, através da enxertia, utilizando as plantasnecessidade de intercalar outra planta, que funciona como porta-enxerto, lançando-se mão, para tanto, dacomo filtro ou região de equilíbrio. Essa porção sobreenxertia;intermediária recebe o nome de mesobioto. Ao - Correção de deficiências de polinização: emconjunto formado pelas duas partes denomina-se espécies que necessitem da presença de cultivaresdibiose e, quando a planta é constituída de três partes polinizadoras dentro do pomar, a sobreenxertia podedistintas, polibiose. corrigir a falta de polinizadoras. Para tanto, pode ser O porta-enxerto pode ser proveniente de feita tanto a troca da cultivar-copa (como no casosementes ou de propagação vegetativa. Porta- anterior), como também a sobreenxertia em algunsenxertos oriundos de sementes em geral, são mais dos ramos da planta;vigorosos e com sistema radicar pivotante e mais - Recuperação de partes danificadas da planta:profundo. Porta-enxertos oriundos de propagação danos por pragas, doenças ou outros agentes podemvegetativa, como a estaquia ou mergulhia podem ser causar danos significativos às raízes ou à parte aéreamenos vigorosos, porém são geneticamente mais da planta. Técnicas de enxertia permitem auniformes que os originados de sementes. recuperação total ou parcial destes danos;Sebastião Elviro de Araújo Neto 61
  • 63. Viveiro - Estudo de viroses: a enxertia é extremamente distintos, ocorre a incompatibilidade (Fig. 4.13).útil em testes de indexação, quando se deseja O porte e o vigor das plantas enxertadas devemverificar se a planta matriz está isenta de ser, tanto quanto possível, semelhantes,enfermidades viróticas. Para tanto, utilizam-se principalmente no que se refere ao vigor.plantas denominadas indicadoras as quais Porta-enxerto excessivamente vigoroso obrigamanifestam, em pouco tempo após a enxertia, os a copa a um maior desenvolvimento vegetativo, esintomas da virose em estudo. isso atrasa o início e a época de frutificação. De outro lado, copa vigorosa não se desenvolve bem sobreFatores que afetam o pegamento do enxerto porta-enxerto fraco. - Compatibilidade: A habilidade de uma plantaenxertada de formar uma combinação bem-sucedida Epidermeestá relacionada, em grande parte, com a suaconstituição e o seu modo de desenvolvimento. Córtex As falhas que ocorrem entre plantas enxertadaspodem ser devidas a uma incompatibilidade, quepode estar ligada a questões estruturais e fisiológicas. Periciclo Assim, ao se estudar a enxertia, deve-se Pericicloconsiderar a afinidade existente entre os indivíduos Floemaque irão compor uma planta. A maior ou menor compatibilidade está Câmbiointimamente relacionada aos seguintes fatores: • fisiológicos; Xilema • biológicos; • consistência dos tecidos; • anatômicos; • porte e vigor; Meristema • sensibilidade a doenças viróticas A afinidade fisiológica relaciona-se àsexigências das partes em nutrientes. Há plantas que,por sua fisiologia, selecionam determinadoselementos, podendo essa ação seletiva impedir quecertos elementos exigidos pela copa cheguem até ela,causando perturbações. O comportamento biológico está ligado aomodo de vida de cada um dos componentes. Asespécies de folhas caducas, que perdem suas folhasno inverno, normalmente não podem ser enxertadassobre espécies de folhas persistentes. Figura 4.13. Corte transversal do tecido da planta. O ciclo vegetativo de ambos é distinto, o queacarretaria uma incompatibilidade. Podem-se, A diferença de vigor pode causar má ligaçãoentretanto, em alguns casos, utilizar porta-enxerto do enxerto e, em certos casos, engrossamentodecíduo e copa de plantas persistentes (citros xponcirus), porém o inverso nunca é bem-sucedido. exagerado do cavalo ou do enxerto. A A consistência de tecidos é importante no incompatibilidade pode se manifestar imediatamente,sucesso da enxertia. Plantas com tecidos lenhosos são bem como ser retardada por vários anos.incompatíveis com as de tecidos herbáceos, pois A incompatibilidade pode ser contornada ementre elas há diferenças de ordem biológica e parte pela interposição de uma terceira espécie oufisiológica, além das de ordem estrutural. variedade compatível com ambas (filtro). A afinidade anatômica é necessária para o Quanto à sensibilidade a doenças viróticas, emperfeito desenvolvimento da planta. A base da alguns casos de enxertia, a falta de afinidade ouenxertia consiste na intima associação dos tecidos compatibilidade está associada à presença de vírus.cambiais, de modo a formarem uma conexão Se a parte suscetível ao vírus é o cavalo, a planta todacontínua. O tecido meristemático entre o xilema vem a morrer; quando a suscetibilidade é da copa, a(lenho) e o floema (casca) está, segundo a espécie, planta apresenta desenvolvimento, porém declinaem continua atividade, dividindo-se e formando lentamente. As plantas cítricas apresentam exemplos bemcélulas, e como na enxertia não há intertroca de característicos dessa incompatibilidade.células, cada tecido continua a fabricar as suas.Quando há células de tamanho, forma e consistênciaSebastião Elviro de Araújo Neto 62
  • 64. ViveiroClassificação da enxertia Finalmente, no terceiro sistema, conquanto o Os vário tipos de enxertia que se conhecem, cavaleiro seja, também, representado por um ramo dapodem ser divididos em três grupos ou sistemas planta padrão, difere do sistema anterior pelodistintos de enxertia, que são: seguinte: 1º - Borbulhia 1º) Na encostia o ramo cavaleiro continua 2º - Garfagem ligado à planta que se pretende multiplicar até que se 3º - Encostia solda ao cavalo ou porta-enxerto (Figura 4.19). 2º) Para se executar a encostia, ao invés de se O primeiro sistema recebe o nome de levarem os cavaleiros aos cavalos, criam-se estes emborbulhia, porque em todos os tipos de enxertos que a recipientes (vasos, jacazinhos, caixas, sacolasele pertencem, o cavaleiro é representado por uma plásticas) para leva-los aos cavaleiros.borbulha ou gema da planta que se pretendemultiplicar: borbulha ou gema essa que se extrai Borbulhiajuntamente com um fragmento de casca em forma de Existem diversas técnicas de enxertia deescudo, do ramo em que ela se acha inserida, donde o borbulhia, dentre as quais podem ser citadas:nome de escudagem que também se dá ao sistema(Figura 4.14. Borbulhia em “T” normal, que consiste na incisão do porta-enxerto (com diâmetro em tomo de 6 a 8 mm) na forma de um corte vertical de cerca de 3 cm de comprimento, em cujo ápice é feito um corte horizontal (figura 4.14A). Com estes cortes, abre-se um espaço para introdução da gema. Estes cortes B normalmente são feitos a uma altura de 20 a 25 cm a partir do colo. A gema é obtida da porção mediana de A ramos da última estação de crescimento. Com um canivete bem afiado, retira-se a gema, sem lenho e introduz-se a mesma na incisão feita no porta- enxerto. Deve-se ter o cuidado de fazer a operação o mais rápido possível, para evitar que ocorra a desidratação e a oxidação da gema e do porta- enxerto. Após, faz-se o amarrio, utilizando-se uma fita de polietileno, a qual deverá ser retirada tão logo o enxerto tenha brotado. - Borbulhia em T invertido, feita de modoFigura 4.14– Borbulhia em T norma (A), T invertido semelhante ao anterior, porém diferindo quanto à(B). forma da incisão — o corte horizontal é realizado na No segundo sistema o cavaleiro é representado base do corte vertical (Figura 4.14B).por um ramo destacado da planta padrão; ramo este - Borbulhia de gema com lenho, cujaque recebe o nome de garfo; daí a denominação de utilização é justificada quando a casca não segarfagem dada a esse sistema (Figura 4.15. desprende facilmente, dificultando a enxertia em T. assim, retira-se a gema com uma porção de lenho, a qual é introduzida no porta-enxerto em uma incisão de mesmo tamanho da borbulhia. A - Borbulhia em janela aberta, que consiste em se abrir uma placa quadrada ou retangular no porta-enxerto, bem como em retirar-se uma placa com as mesmas dimensões do ramo com as gemas. Para tanto, usa-se um canivete de lâmina dupla . - Borbulhia em janela fechada, o porta- enxerto recebe duas incisões transversais e uma vertical no centro. A borbulha é obtida de maneira semelhante ao tipo anterior. Para assenta-la, levanta- se a casca do cavalo. O enxerto é completado B fixando-se com o amarrilho (Figura 4.15 A).Figura 4.15 - Enxertia tipo garfagem à inglesacomplicado. Enxerto (A) e porta-enxerto (B).Sebastião Elviro de Araújo Neto 63
  • 65. ViveiroFigura 4.15 – (A) Enxerto de borbulhia janelafechada e (B) de anel. - Borbulhia em anel, na qual é retirado, tantono porta-enxerto quanto no ramo com as gemas, umanel de casca, ambos de iguais dimensões, para que oanel contendo a gema seja introduzido no porta-enxerto (Figura 4.15B). Figura 4.17 – Garfagem à inglesa simples. - Garfagem em fenda dupla, tambémGarfagem chamada de inglês complicado, é semelhante à técnica anterior, diferindo pelo fato de serem feitas Entre as técnicas de garfagem mais uma incisão transversal na base do garfo e outra, noconhecidas, podem ser citadas: ápice do porta-enxerto. isso aumenta muito a - Garfagem em fenda cheia, que consiste na aderência e o pegamento entre as partes justapostas,introdução de um garfo em forma de cunha, cuja base embora implique em maior dificuldade na realizaçãoé afilada com um canivete, em um corte longitudinal (figura 4.15).feito em todo o diâmetro do porta-enxerto,amarrando-se logo após com fita plástica. Podem ser Encostiacolocados dois garfos por porta-enxerto quando este Tem pouco uso em nível comercial. Háapresenta grande diâmetro (figura 4.16). diversas técnicas de encostia, podendo ser citadas as seguintes: - Encostia à inglesa simples no topo do porta-enxerto, o porta-enxerto é cortado em bisei no seu ápice (Figura 4.18).Figura 4.16 – Garfagem à inglesa em fenda cheia. Figura 4.18 – Encostia no topo, simples. - Garfagem em fenda simples, tambémchamada de inglês simples, consiste em se fazer - Encostia em placagem, simples – nestecortes em bisei tanto no enxerto quanto no porta- sistema, é feito um corte na superfície da casca doenxerto, justapondo-se as duas partes e amarrando-se enxerto e do porta-enxerto, unindo-se, após, ascom fita plástica logo após (figura 4.17). superfícies com fita de polietileno, ráfia, barbante ou outro material (figura 4.19).Sebastião Elviro de Araújo Neto 64
  • 66. Viveiro Aspectos técnicos da enxertia A enxertia, para ser bem-sucedida, considerando que haja afinidade entre as partes a serem unidas, deve ser praticada com todo o cuidado, O êxito da operação assenta-se, em grande parte, na capacidade operacional e nas condições ambientes. Para realizar com êxito a união de duas plantas da mesma variedade ou de espécies distintas, deve-se considerar o seguinte: • união perfeita das camadas cambiais (Fig. 4.22); • as partes que ficarão em junção devem ser lisas e livres de substâncias estranhas; • a época de enxertia deve ser aquela apropriada a cada espécie e tipo de enxerto; • as condições climáticas devem ser objeto de observação, pois tanto as altas como as baixasFigura 4.19 – Encostia lateral simples. temperaturas, o teor de umidade e a luminosidade - Encostia à inglesa complicado - é podem causar dessecação rápida do enxerto;semelhante ao processo de garfagem à inglesa • as condições edáficas devem sercomplicado, porém na forma de encostia (Figura examinadas. Em solos pobres e secos, normalmente,4.20). a percentagem de pegamento é menor que em solos férteis e frescos; correto errado erradoFigura 4.20 – Encostia à inglesa complicado. - Encostia à cavalo no topo do porta-enxerto– este é de fato, um magnífico processo de enxertiapara todas as plantas de lenho mais ou menos mole, emais ou menos rebelde aos outros sistemas deenxertia, como o sapotizeiro, por exemplo (Figura4.21). correto errado errado Figura 4.22. Modo correto e errado de colocação do garfo no porta-enxerto. • o vigor da planta e o estágio de desenvolvimento do enxerto devem merecer atenção particular. A enxertia é mais bem sucedida em plantas vigorosas do que em plantas fracas. Os garfos, na enxertia por garfagem, devem apresentar gemas dormentes. As borbulhas, na borbulhia, devem apresentar as gemas próximas ao estágio de abrolhamento; • o uso correto do canivete, da tesoura, dos amarrilhos, dos mastiques, para que se possamFigura 4.21 – Encostia no topo, inglesa. realizar as operações com rapidez e correção, e a fixação perfeita entre ambas as partes; • tratos culturais convenientes durante oSebastião Elviro de Araújo Neto 65
  • 67. Viveiroperíodo em que se dá a soldadura e após o dano significativo no sistema radicular da planta oupegamento. esta tornar-se inviável por outros motivos, como A enxertia é um método que exige, tolerante a doênças. Consiste em se enxertar, na copa,fundamentalmente, habilidade e cuidados na sua um novo porta-enxerto, que será total ourealização. Para tanto, um bom treinamento do parcialmente responsável pela absorção de água eenxertador é o primeiro passo para o sucesso da nutrientes. A garfagem, especialmente de fendaenxertia. dupla, é o sistema mais adotado neste caso (Figura Para a realização da enxertia, são necessárias 4.23).algumas farramentas básicas: tesoura de poda, O caso mais recente que está adotando acanivete de enxertia (com lâmina e espátula, podendo subenxertia é a substituição do porta-enxerto limoeiroser de lâmina simples ou dupla), pedra de afiar, Cravo por outros porta-enxertos na citriculturaetiquetas e produtos para desinfestação paulista. A morte súbita dos citros (MSC) tem(normalmente, é utilizado o hipoclorito de sódio). causados grandes prejuízos nos laranjais de SãoAlém disso, os materiais para amarrio e proteção são Paulo, principalmente quando o porta-enxerto é oindispensáveis. Para tanto, são utilizados os limoeiro Cravo.mástiques (misturas de resina, cera de abelha, sebo e Enxertia de ponte, realizada quando a plantasolventes), fio de ráfia ou barbante e fitas de apresenta um dano significativo na casca, a ponto depolietileno. Os mástiques apenas reduzem a perda de interromper o fluxo de água, nutrientes e assimilados.água e a entrada de microorganismos e o fio de ráfia Neste caso, a enxertia, normalmente de garfagem,ou barbante apenas dão sustentação ao conjunto permite que sejam colocados ramos sobre a regiãoporta-enxerto. Assim, devem ser utilizados em danificada, de modo a restabelecer o fluxo normal deconjunto. As fitas de polietileno, além de manter a substâncias.união da enxertia, reduzem a desidratação do enxerto,as trocas gasosas e a entrada de microorganismos.Sacos plásticos, colocados sobre o conjunto porta-enxerto/enxerto são úteis como câmaras úmidas, nocaso de ser realizada a enxertia de garfagem noperíodo de primavera-verão. As máquinas de enxertiasão ferramentas úteis na enxertia em escalacomercial, quando se trabalha com grandes volumesde mudas ou não se dispõe de pessoal com grandehabilidade. O local de realização da enxertia pode variarconforme a época. A enxertia de inverno pode serrealizada no viveiro (enxertia de campo) ou emgalpões (enxertia de mesa), ao passo que a enxertiade primavera/verão e a do verão/outono é realizadano viveiro ou em telado (no caso de se trabalhar commudas em recipientes). Sobreenxertia, na qual o porta-enxerto é umaplanta adulta, já previamente formada. A Figura 4.23 – Subenxertia.sobreenxertia é útil em casos em que a copa foiseriamente danificada por pragas ou doenças, em 4.4 Biotecnologiacaso de necessidade de troca da cultivar-copa equando da falta de plantas polinizadoras em um A biotecnologia de plantas é uma aplicação dapomar. Normalmente é feita por garfagem (fenda engenharia celular, a qual manipula os genomas dascheia ou fenda dupla), substituindo total ou células vegetais, regenerando plantas com aparcialmente a copa. Desta forma, é possível finalidade de aumentar a produtividade e auxiliar emproduzir-se, em uma mesma planta, diferentes soluções fundamentais, tais como:cultivares.  produção de plantas sadias; Interenxertia, caso em que é interposto um  obtenção de novas cultivares;enxerto intermediário entre o porta-enxerto e o  transmissão de caracteres genéticos entreenxerto, normalmente, através de garfagem. É útil, espécies incompatíveis;principalmente, em duas situações: quando o enxerto  obtenção de plantas transgênicas após ae o porta-enxerto são incompatíveis entre si, inserção do DNA em células e protoplastos.devendo-se utilizar um interenxerto compatível com As plantas transgênicas podem ser definidasambos, e quando há necessidade de controlar o vigor como aquelas que apresentam genes queda copa devido ao porta-enxerto induzir elevado originalmente não fazem parte do seu genoma.vigor. A hibridação de espécies é utilizada para Subenxertia, realizada quando houver um oferecer resistência a doenças e, em certos casos, darSebastião Elviro de Araújo Neto 66
  • 68. Viveiroorigem a uma nova espécie. A tecnologia utilizada para iniciar a Podem-se utilizar cruzamentos entre plantas propagação é explant, que corresponde a um processofltogeneticamente distantes ou a fusão de de propagação como estaquia, enxertia ou sementes.protoplastos. Quando não há possibilidade de Quanto menor o explant, maior a proporção decruzamento intra-específico, por incompatibilidade plantas sadias.entre o embrião híbrido e o endosperma da célula- O explant é essencialmente uma estacamãe, in vivo ou in vitro, pode-se usar a fusão dos miniaturizada.protoplastos. O princípio da cultura de tecido baseia-se na Nessa técnica, as células das duas plantas são separação dos componentes biológicos do sistema ecultivadas isolada-mente in vitro e em seguida suas do alto grau de controle em cada aspecto daparedes são submetidas a digestão enzimática. regeneração e do desenvolvlinento. A cultura de Pode então ocorrer, através da corrente tecido é baseada no princípio de totipotência, isto é, oelétrica, a fusão do protoplasto e a hibridação do conceito de que cada célula tem o potencial genéticocitoplasma e do genoma cromossômico, dando de se reproduzir identicamente.origem a um calo e, posteriormente, a uma plantainteira. 4.4.1 Cultura de tecidos 4.4.2 Cultura meristemática A habilidade de regeneração e crescimento Trata-se da extração do meristema apical oudos tecidos da planta (calos, célula, protoplastos), dos primórdios foliares. Esse sistema de propagaçãoórgãos isolados (haste, flores, raízes) e embriões em consiste basicamente em obter uma planta livre decultura asséptica tem sido base para a propagação. vírus (Figura 4.25). As células que se separam do tecido Quanto menor o explant, maior a segurançaconstituem material para cultivo de células em obter uma planta livre de patógeno.individuais. Estas podem ser separadas utilizando-se O meristema apical com 0,10 a 0,15 mm éum microscópio. mais efetivo na eliminação do patógeno que o de 1 Cultura de tecido é a expressão usada para mm. Porém, quanto menor o ex-plant, maior aindicar cultura asséptica in vitro de uma porção de dificuldade para a sua sobrevivência.parte extraída da planta, sempre que sejam células O uso de explantes maiores que 0,25 a 1 mmcapazes de se dividir. facilita a propagação, mas a ausência de vírus deve Em geral, os tecidos próximos à zona vascular ser conferida pela indexação. O meristema apical édas raízes e da haste proliferam mais facilmente. O incapaz de sobreviver e produzir raízes isoladamente.cultivo de parte do fruto, endosperma e embrião, Para a sua sobrevivência, deve levar consigotanto maduro como imaturo, também pode ser primórdios foliares.efetuado. A cultura de tecido, ou micropropagação,inicia-se pela retirada de um tecido da planta, livre demicrorganismos e transferido para um meio decultura (Figura 4.24).Figura 4.24 – Diagrama da produção de mudas Figura 4.25 - Diagrama da cultura de meristema: aadvindas da micropropagação de gemas terminais e limpeza clonal poderá ser obtida no final desteaxilares. processo. Outra opção seria a utilização daSebastião Elviro de Araújo Neto 67
  • 69. Viveiromicroenxertia como meio de produzir uma planta germinar em um meio especial. Uma das vantagenslivre de vírus. A microenxertia consiste em enxertar desse processo é a obtenção de plantas deápices caulinares com aproximadamente 0,15 mm em cruzamentos interespecíficos.plântulas provindas de sementes, sob condições de A desinfecção do material pode ser feitacultivo in vitro (citros) Figura 4.26. utilizando-se ácido carbônico a 5% por cinco minutos, ou álcool, ou hipoclorito Ca ou Na. 4.4.5 Meio e materiais da propagação O método asséptico de micropropagação consta de: • assepsia — as plantas apresentam contaminação por bactérias, fungos ou ambos, daí a necessidade de um meio de propagação asséptico; • ambiente — deve ser isolado, livre de pó e de correntes de ar. Devem-se utilizar lâmpadas germicidas; • instrumentos escapelo, fórceps, agulha, placa de Petri, tubo de ensaio, frasco de Erlemnmayer etc.;Figura 4.26 – Representação das etapas do processo • meios ágar, meio sólido de propagação.de microenxertia. A) o porta-enxerto é retirado do Juntar 0,5% à solução;tubo de cultura; B) os ápices caulinares e radicular • complexo orgânico — água ou leite de cocosão cortados, deixando 1,5 a 2 cm do epicótilo e 4 a 6 na proporção de 10 a 15% por volume;cm do hipocótilo; C) a incisão em T invertido é feita; • elementos inorgânicos — N, P, K, Ca, Mg,D) o ápice caulinar (meristema apical com 2 Bo, Mn, Zn, Mo, Cu, Co, Fe;primórdios foliares) é excisado, colocado em contato • açúcar — 2 a 4%, como fonte de energia;com a casca, para que o ápice fique voltado para • vitaminas (tiaminas, inositol, ácidocima; E) o microenxerto é colocado em meio de nicotínico, pirodoxina) —reguladores decultura sobre porta-enxerto preexistnte com diâmetro crescimento, auxina, citocinina ou AIA;igual a um lápis, desenvolvido em casa de vegetação. • AIA de 1 a 50 mg/litro, 2,4-D diclorofenilacético 0,05 a 0,5 mg/ litro, ANA 0,1 a 10 4.4.3 Microgarfagem mg/litro; • tubo com meio de cultura deve ser Em citros, utilizam-se suas sementes como esterilizado a 1200C por 15 minutos, em autoclave.cavalo. Elas são esterilizadas e semeadas em meio As substâncias químicas devem ser preparadasinorgânico, com solução de ágar. O embrião germina antecipadamente, com uma concentração dez a cemno escuro, em duas semanas. O seedling é removido, vezes superior à requerida. Essas soluções devem serdecapitado a 1 ou 1,5 cm de comprimento; os armazenadas em câmaras frias e conservam-se porcotilédones e as gemas laterais são removidos com muito tempo. O pH da solução deve ser de 5 a 6.uma lâmina. Um meristema apical com 0,14 a 0,18 mm, com três folhas primordiais, é 4.4.5 Indexaçãoutilizado como enxerto. Pode-se também enxertar porborbulhia, em T invertido, com 1 mm de Vem a ser o método para detectar a presençacomprimento. ou a ausência de vírus conhecidos em plantas A planta enxertada é colocada em um meio suspeitas.líquido, utilizando-se papel de ffltro como suporte da A técnica para identificação biológica éhaste. A cultura é mantida em condições de conhecida como dupla enxertia, isto é, introduzem-seiluminação por três a cinco semanas, até que haja o duas a três gemas da planta a ser testada em umpegamento do enxerto. porta-enxerto e acima a gema indicadora. Quando duas folhas expandidas aparecem no A indexação permite detectar todos osenxerto, a planta pode ser transplantada para outro patógenos envolvidos e importante nos trabalhos demeio. Processo semelhante é utilizado para maçã e limpeza clonal em relação às viroses.ameixa e outras espécies de Prunus. É importante que materiais livres de vírus sejam indexados após algum tempo de obtenção. Os 4.4.4 Cultura de embrião métodos biológicos de diagnose, basea dos na utilização de plantas indicadoras, ainda são eficientes É obtido separando-se o embrião da semente ser trabalho de limpeza clonal.na fase de desenvolvimento e colocando para O processo consiste em enxertar um materialSebastião Elviro de Araújo Neto 68
  • 70. Viveirosuspeito sobre um cavalo sadio, mas suscetível, variedades diferentes, uma chamada porta-enxerto e achamado planta indicadora, que é um planta que outra, enxerto ou copa.reage a determinado patógeno específico e que Ambas as partes devem apresentar perfeitaposterior mente mostrará sintomas. harmonia e, portanto, evitar, tanto quanto possível, Se o tecido estiver infectado, o vírus será alterações no comportamento biológico, fisiológico etransmitido por meio de enxertia, e a planta sadia nas adaptações às condições ecológicas.reproduzirá os sintomas. O teste de sorologia Entretanto, como o enxerto atua sobre oidentifica uma proteína associada com partículas do cavalo, alterando o seu comportamento, o inversopatógeno. também se dá, isto é, o porta-enxerto age sobre o O uso do teste imunológico do Elisa e do Isem enxerto, e as alterações são mais visíveis, pelo fato detem a vantagem de maior rapidez e capacidade para a copa se encontrar ao alcance do observador.um grande número de amostras Por esse motivo, esse Conhecida, portanto, a influência do cavaloteste é adequado para acompanhar programas de sobre o enxerto, devese, ao se associar doiscertificação de material testado, livre de vírus. A indivíduos, procurar escolher aqueles que melhor seleitura é baseada na mudança de cor do substrato. interligam em cada situação. A localidade, por várias É interessante assinalar que características razões, pode alterar o comportamento das plantas,agronômicas vantajosas podem resultar da infecção obrigando a um estudo do assunto.por vírus ou outro patógeno. A vantagem se refere,em alguns casos, ao menor porte; em outros, à O cavalo atua sobre o enxerto, alterando oprecocidade de produção. comportamento em relação ao seu desenvolvimento, O limão Taiti quebra-galho, assim produtividade, época de maturação, qualidade,denominado pela constante quebra de galhos, resistência a baixas temperaturas, a doenças fúngicasapresenta porte baixo, devido à presença de exocortes e viróticas e à nutrição.dos citros. Quando enxertado por uma borbulhasimples, tem crescimento vigoroso, quando livre do Desenvolvimentoviróide. Recomenda-se uma borbulha para formar aplanta e outras para garantir a infecção, reduzindo o Em geral, a copa da árvore enxertada tende aporte e a precocidade de frutificação. atingir um tamanho igual àquele que o cavalo teria se não fosse enxertado. Há, porém, exceções, como4.5 Matrizes copa e porta-enxertos ocorre em citros. A laranja-azeda normalmente comunica a toda a copa grande desenvolvimento, Para a produção de mudas de alto padrão, porém, quando enxertada com a variedade Satsuma,verifica-se que há necessidade de plantas esta tem o seu porte diminuído.fornecedoras de material básico para propagação. A ação do porta-enxerto sobre o enxerto podeAlém de tudo isso, para que se tenha um material ser apreciada em diferentes espécies. Assim, emgenético de qualidade e isento de pragas e doenças, citricultura, a laranja-doce adquire maioralguns tratos culturais são imprescindíveis. Esses desenvolvimento quando enxertada sobre laranja-tratos culturais, para facilitar o entendimento e a azeda do que sobre laranja caipira ou limão-cravo eredação, podem ser resumidos em um conjunto de torna-se ainda mais reduzida quando o cavalo é deoperações básicas para manutenção e qualidade do Poncirus trifoliata.material de propagação. O desenvolvimento da copa alterado, O condicionamento pode promover ou influência obrigatoriamente o fruticultor a tomarfacilitar a propagação, porém, muitas vezes requer medidas em cada caso, principalmente no que seque se associe o uso de substâncias químicas refere ao espaçamento. Assim, a distância entrereguladoras de crescimento. plantas num pomar está condicionada, além de à fertilidade do solo, ao porta-enxerto e à variedade4.5.1 Ação da copa sobre o porta-enxerto empregada. O enxerto age sobre o cavalo de vários modos, Produtividadeporém as alterações sofridas pelo cavalo nem semprepodem ser bem apreciadas, pelo fato de ele se situar O porta-enxerto interfere na produção,abaixo do solo. A influência se estende ao sistema aumentando-a ou reduzindo-a. A produtividade deradicular, alterando o desenvolvimento, a penetração uma árvore está intimamente relacionada à presençae a distribuição no terreno. de carboidratos, que são responsáveis pela formação das gemas floríferas.4.5.2 Ação do porta-enxerto sobre a copa Porta-enxerto vigoroso às vezes predispõe a planta a um desenvolvimento excessivamente Na fruticultura moderna, com algumas raras vegetativo, em detrimento da frutificação. Um deexceções, quase todas as árvores frutíferas cultivadas menor porte tende a reduzir o volume da copa, porémsão formadas por uma associação de duas espécies ou propicia condições para o suprimento adequado deSebastião Elviro de Araújo Neto 69
  • 71. Viveirocarboidratos e, portanto, predispõe a planta ao exocortis, que surge quando se enxerta laranja-doceflorescimento. sobre cravo ou poncirus e desaparece quando se Em citros, a produtividade está em grande substitui pelo porta-enxerto de laranja caipira.parte relacionada ao porta-enxerto. Assim, laranja-azeda leva a planta a maior produtividade que laranjacaipira, e esta, por sua vez, supera o limão-cravo, quesuplanta o poncirus. Indução de deficiência nutricional Com relação à precocidade da produção, isto Muitas deficiências que surgem nas copas dasé, o tempo necessário para a planta entrar em plantas enxertadas têm como causa a barreiraprodução, observa-se um efeito pronunciado do levantada na região do enxerto. Essa barreira impedeporta-enxerto. ou dificulta a translocação ou movimento de Em citros, o porta-enxerto que induz maior elementos nutritivos.precocidade é o do limão-cravo, seguido do de Quando a planta é enxertada, há em algunscaipira e laranja-azeda. casos um estrangulamento na região da enxertia. Esta funciona algumas vezes como crivo, podendoMaturação facilitar ou dificultar a translocação de certos elementos e exercer uma ação seletiva, levando a A época de maturação dos frutos, e a sua planta a exibir sintomas de deficiência.permanência na árvore, parece estar, em grande parte, Analisando situação da combinação limãocondicionada ao porta-enxerto. sobre laranja-azeda ou pomelo, verificaram que os Os porta-enxertos que comunicam à copa cavalos apresentavam teor mais baixo de magnésio,maior vigor vegetativo tendem a atrasar a maturação quando comparado com esses porta-enxertos não-dos frutos. Em citros, o porta-enxerto de poncirus enxertados. Quando se enxertaram laranja-doce eantecipa a maturação dos frutos em relação aos pomelo em cavalo de laranja caipira, encontrou-secavalos de caipira e azeda. maior teor de magnésio solúvel no cavalo. A permanência dos frutos na árvore está em Assim, a deficiência de uma planta não estágrande parte relacionada ao porta-enxerto. A laranja- ligada somente à maior ou menor disponibilidade dosazeda induz a copa a manter os seus frutos maduros elementos no solo, mas também à afinidade quepor mais tempo do que outros porta-enxertos. Já o determinados porta-enxertos possuem em absorver elimão rugoso retém apenas por pouco tempo os frutos translocar esses elementos.que já atingiram a maturação.Comportamento com relação às doenças 4.6 Referências A vegetação, a composição dos tecidos e a CÉSAR, H. P. Manual prático do enxertador: ematuração do lenho estão mais associadas ao hábito criador de mudas de árvores frutíferas e dos arbustosde vegetação do porta-enxerto e à afinidade existente ornamentais. 14 ed. São Paulo: Nobel, 1986.entre eles. O cavalo pode predispor as copas a maior FACHINELLO, J.C.; HOFFMANN, A.;incidência de doenças causadas tanto por fungos NACHTIGAL, J. C.;. KERSTEN, E.; FORTES, G.R.como por vírus, bem como pode comunicar maior de L. Propagação de plantas frutíferas de climaresistência à copa. temperado. 2ª ed. Pelotas: UFPEL, 1995. 178 p.: il. Não se conhece, até o momento, maiorresistência da copa a doenças causadas por fungos, RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia depor ação direta do porta-enxerto. Se alguma produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.influência existe, ela é de ação indireta, ligada à Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.melhor distribuição dos ramos. As doenças causada por vírus podem estar SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:relacionadas à maior ou menor suscetibilidade do FEALQ, 1998. 760p.: il.porta-enxerto ou enxerto. Elas podem sertransmitidas pelas borbulhas ou se devem à maiorsensibilidade da variedade. A doença chamada tristeza ocorre quando seenxerta laranja-doce sobre laranja-azeda. Axiloporose ocorre na combinação laranja-barão sobrelima-da-pércia. Alterando-se a combinação enxerto e porta-enxerto, a doença deixa de prejudicar odesenvolvimento, por serem ambos tolerantes àSebastião Elviro de Araújo Neto 70
  • 72. Viveiro5. VIVEIROS mudas de raiz nua e viveiros com mudas em recipientes. Os viveiros para produção de mudas em A muda é o insumo mais importante na raiz nua são aqueles feitos no solo, em área de soloimplantação de um pomar – mudas produzidas com profundo (pelo menos 1 metro) e bem manejado,qualidade, desde que adequadamente manejadas, objetivando que as mudas, para comercialização,originam pomares produtivos e rentáveis. No sejam retiradas com raiz nua (mesmo que, em algunsprocesso de produção de mudas de boa qualidade, casos, um torrão possa acompanhar a muda). Nestediversos cuidados devem ser tomados, desde a tipo de viveiro, são feitos canteiros, delimitados porescolha da planta matriz até a comercialização da carreadores, por onde transitam os veículos. Osmuda. viveiros para produção de mudas em recipientes Assim, um dos aspectos de grande implicam, em geral, em menor necessidade de área,importância é a infra-estrutura do viveiro. Uma infra- sendo mais versáteis e permitindo que uma mesmaestrutura adequada, racional e tecnificada é o área seja utilizada por muito mais tempo que o tipoprimeiro passo para que o viveirista tenha uma anterior, desde que o substrato seja tratado e torne-seatividade tecnicamente viável. isento de pragas, doenças e propágulos de invasoras. A escolha da infra-estrutura do viveiro deprodução de mudas frutíferas é dependente dediversos fatores, tais como: quantidade de mudas Viveiro à céu abertoproduzidas, regularidade desejada da oferta demudas, número de espécies a serem propagadas,método de propagação, custo das instalações e graude tecnificação do viveirista. Em relação a esteúltimo fator, vale ressaltar que a propagação deplantas é uma atividade muito dinâmica efreqüentemente tem tido avanços que possibilitam aprodução com qualidade e eficiência – daí, aimportância do viveirista estar em contínuo contatocom os órgãos de pesquisa, universidade e serviçosde extensão, para o seu constante aperfeiçoamento. Viveiro sob telado5.1 Tipos Entende-se por viveiro a área onde sãoconcentradas todas as atividades de produção demudas. Os viveiros podem ser classificados, quanto àsua duração, em permanentes e temporários. Osviveiros permanentes são aqueles que têm caráterfixo e, neles, a produção de mudas prolonga-se porvários anos. Por isso, requerem um bomplanejamento para a instalação, incluem uma infra-estrutura permanente e apresentam, em geral, maioresdimensões. É importante frisar que, por mais que oviveiro seja permanente, quando o plantio é feito nosolo, uma mesma área pode ser utilizada com amesma espéc ie por, no máximo, dois anos e por nom áximo três anos se rotacinada, devido à altasensibilidade das mudas a pragas, doenças einvasoras, sendo necessária a adoção de rotação deculturas. Os viveiros temporários destinam-se àprodução de mudas apenas durante certo período e,uma vez cumpridas as suas finalidades, sãodesativados. Viveiros temporários, embora menoscomuns que os viveiros permanentes na produção demudas frutíferas, podem representar menor custo,quando não é necessária uma infra-estruturadefinitiva. Figura 5.1 – Tipos de viveiro quanto a sanidade da Quanto à proteção do sistema radicular, os muda.viveiros podem ser classificados em viveiros comSebastião Elviro de Araújo Neto 71
  • 73. Viveiro Quanto ao controle sanitário das mudas, há localizado em áreas muitos planas que venham adois tipos básicos de viveiros: à céu aberto e sob acumular a água das chuvas ou das irrigações.telado (proteção com telas anti-afídica). Independente do grau de declividade da área, os canteiros devem estar localizados no sentido5.2 Localização perpendicular à movimentação da água, para reduzir os ricos de erosão. Quanto maior a declividade, A escolha do local é o primeiro passo para a maiores devem ser os cuidados quanto à práticasinstalação do viveiro e apresenta grande importância, conservacionistas.desde que atendidos os seguintes aspectos: g) Aspectos físicos do solo: é conveniente a a) Facilidade de acesso: é conveniente que o instalação de viveiros em área com solos profundos, eviveiro tenha fácil acesso aos compradores das medianamente arenosos. Porém, como nem sempremudas, pois é um fator que favorece a isto é possível, deve-se escolher as áreas cujo solocomercialização e a escolha do viveirista. Neste apresenta as melhores condições físicas possíveis.sentido, deve-se dar especial atenção às estradas que Solos muito argilosos dificultam a mecanização e oconduzem ao viveiro, possibilitando o fácil trânsito desenvolvimento radicular. Solos com elevadados veículos que transportam as mudas. Por outro porosidade são desejáveis – esta característica podelado, o viveiro deve estar afastado de estradas ser parcialmente melhorada com incorporação depúblicas de grande movimento, para reduzir o risco matéria orgânica e adubação verde. Especialmentede infestação das mudas. em áreas onde há intensas chuvas, o solo deve ter boa b) Suprimento de água: a água é o principal capacidade de drenagem, devendo serem evitadasinsumo em um viveiro. O cálculo da necessidade de áreas encharcadas ou sujeitas à inundação, pois issoágua, para a irrigação e tratamentos fitossanitários, aumenta o risco de podridões de raízes e de toxidezdepende do número de tratamentos fitossanitários, do de manganês. Para a adoção de sistemas deconsumo de água por irrigação, das necessidades drenagem, deve-se estudar as características físicashídricas das mudas e da precipitações médias. do solo, tais como a profundidade do horizonte c) Distância da área de plantio: embora seja impermeável, condutividade hidráulica e textura.aconselhável que o viveiro esteja localizado na h) Aspectos químicos do solo: embora asmesma região onde se concentram os pomares, condições químicas dos solos podem ser modificadas,reduzindo o tempo de transporte das mudas e as a localização do viveiro em área cujo solo não sejaperdas devido à movimentação, deve-se ter grandes muito ácido, tenha boa fertilidade natural e bom teorcuidados para que uma distância mínima de pomares de matéria orgânica reduz os custos de implantação.seja observada. De modo geral, se recomenda que o i) Aspectos biológicos do solo: solos emviveiro esteja localizado a, no mínimo, 50 metros de riscos de matéria orgânica tem vida micro eum pomar de mesma espécie, porém, quanto maior a macrobiana mais ativa, o que pode favorecer odistância, menor o risco de infestação das mudas. Os desenvolvimento das mudas. Porém, deve-se utilizarmaiores cuidados quanto ao isolamento do viveiro áreas isentas de nematóides, insetos de solo, fungosdizem respeito a vetores aéreos de viroses (afídeos) e patogênicos e bactérias fitopatogênicos. Por isso, évetores do solo (nematóides). necessário o monitoramento através de análises d) Ocorrência de invasoras: o viveiro deve microbiológicas do solo a ser utilizado como viveiro.estar localizado em área livre de invasoras. Viveiros Essas características de solo são dispensáveiscom determinadas invasoras não podem ser utilizados para casos em que o viveiro é do tipo mudas eme a comercialização de mudas produzidas dos recipentes, neste o máixmo decuidado com amesmos é proibida por lei. As principais invasoras qualidade do substrato.incluídas nesta classe são a tiririca (Cyperus j) Cultivos anteriores: o viveiro deve estarrotundus) e grama-seda (Cynodon dactylon). Além localizado em área onde não existiram pomares há,disso, como o controle de invasoras é mais difícil em pelo menos 5 anos, e onde não existiram viveiros há,viveiros, deve-se fazer uma contínua vigilância e pelo menos 3 anos. Quando se utilizam áreas onde,erradicação das invasoras. O uso de substratos anteriormente havia mata ou outras plantas perenes,solarizados resolve o problemas de plantas dainhas, deve ser feita a destoca no mínimo 2 anos antes dade pragas e doenças. implantação do viveiro, plantando-se gramíneas e) Facilidade de obtenção de mão-de-obra: anuais até que o viveiro seja implantado. Estasviveiros demandam grande quantidade de mão-de- gramíneas podem ser incorporadas ao solo paraobra, tanto para a produção de mudas em si, como elevação do teor de matéria orgânica. Algumastambém para o monitoramento e controle de plantas frutíferas liberam no solo algumas fitotoxinas,invasoras, pragas e doenças. A disponibilidade de as quais comprometem os cultivos posteriores,mão-de-obra próxima ao viveiro contribui para a implicando na necessidade de ser feita a rotação deredução do custo de produção de mudas. culturas. f) Declividade da área: é recomendável que a k) Aspectos climáticos: o melhor clima doárea tenha pouca declividade e esteja localizada em local onde o viveiro será implantado depende da(s)área de relevo levemente ondulado, porém não esteja espécie(s) a ser(em) propagada(s). Entre os fatoresSebastião Elviro de Araújo Neto 72
  • 74. Viveiroclimáticos mais limitantes estão a temperatura, a luz e 5.4 Instalaçõesa ocorrência de ventos. No que se refere àtemperatura, é importante que o viveiro esteja A necessidade de instalações depende delocalizado em área o mais livre possível de geadas. diversos fatores e deve considerar a máximaAlém disso, temperaturas médias mais elevadas eficiência no uso das mesmas, economicidade parafacilitam a produção de mudas em menor tempo. construção e facilidade no manejo para produção dasComo exemplo, pode ser citado o fato de que, mudas. O grau de sofisticação das instalaçõesenquanto mudas cítricas requerem cerca de 24 meses depende da interação entre fatores como a espécie apara serem produzidas em SP, no RS requerem cerca ser propagada, quantidade de mudas a seremde 36 meses. A exposição à luz é fundamental, produzidas, o poder aquisitivo do viveirista eespecialmente na fase final de propagação, sendo cumprimento da legislação vigente. As principaispreferencial a exposição Norte. Ventos muito fortes instalações necessárias no viveiro são:aumentam a quebra no local da enxertia, podendo a) Escritório, onde são armazenadas todas asrequerer a implantação de quebra-ventos. informações referentes à produção de mudas, bem como a centralização das operações de5.3 Dimensionamento comercialização, contratação de mão-de-obra e comunicação com clientes e outros viveiristas. A extensão da área do viveiro depende de b) Depósito para equipamentos ediversos fatores, sendo os principais: ferramentas, onde são guardados ferramentas e a) Quantidade de mudas para plantio e equipamentos.replantio, determinada pela capacidade operacional c) Depósito para produtos químicos.do viveiro e da demanda por mudas pelos produtores. d) Telado, que é estrutura, de madeira ou b) Densidade de mudas, o que depende da metal, coberta com tela de sombreamento, conhecidaespécie e do tempo de permanência, de modo a popularmente como Sombrite. O telado é útil nasproporcionar as melhores condições para o seu seguintes situações: manutenção de plantas matrizesdesenvolvimento. isentas de viroses, aclimatação de mudas e produção c) Período de rotação, que se refere ao tempo de mudas que exigem sobreamento inicial. As telasque a muda permanece desde o início da sua podem apresentar diferentes graus de sombreamento,produção até o seu replantio ou comercialização. sendo importante considerar que, quando maior oTambém é dependente da espécie, além de depender grau de sombreamento, maior ocorrência dedo método de propagação e do manejo da muda. estiolamento das mudas que permanecerem por longo d) Dimensões dos canteiros e carreadores, que tempo no telado e, por conseqüência, maior adependem da espécie a ser propagada e do grau de facilidade das mudas morrerem quando da suamecanização adotado. Viveiros com maior grau de transferência para o pomar. O tipo de tela maismecanização requerem canteiros mais longos, utilizado é o que permite um sombreamento de 50%.maiores distâncias entre linhas e carreadores mais O telado pode ter diferentes dimensões, podendo serlargos. permanente ou temporário. O telado pode ser ou não e) Dimensões das instalações, que são dotado de sistema de irrigação por nebulização.determinadas principalmente, pela quantidade de Em casos de telado para matrizes protegidasmudas que são produzidas, pelo método de de virose, a malha deve ter abertura de no máximopropagação adotado e pelo grau de tecnologia 0,8 mm2.empregado. e) Estufa, também conhecida como casa de f) Áreas para rotação, fundamentais para a vegetação, é uma estrutura parcial ou completamenteprodução de mudas sadias, especialmente se a fechada, com estrutura de madeira ou metalprodução de mudas for feita diretamente no solo. O (alumínio, aço ou ferro galvanizado), coberta, emdimensionamento do viveiro deverá considerar a geral com plástico especial para esta finalidade. Adisponibilidade de áreas para rotação, de modo que estufa pode ainda ser coberta de vidro ou fibra deuma mesma área não seja utilizada para produção de vidro, porém isto acarreta maior custo. A grandemudas por mais de 2 anos. vantagem do uso de estufas em viveiros é a Um dos aspectos fundamentais a serem possibilidade de controle ambiental de modo aconsiderados no planejamento e dimensionamento maximizar a produção de mudas, reduzindo o tempodos viveiros é a seleção das espécies a serem necessário para a propagação e permitindo que aspropagadas. Há viveiristas especializados em mudas possam ser produzidas em mais épocas dopropagar apenas uma espécie, bem como viveiristas ano. Normalmente, as estufas possuem sistemas deextremamente ecléticos, os quais propagam inúmeras nebulização intermitente, o que mantém elevada aespécies. umidade relativa do ar, permitindo a propagação através de estacas com folhas (técnica que, em certas espécies, viabiliza a propagação através de estaquia). A elevada umidade do ar e a elevada temperatura aumentam a velocidade de crescimento das plantas.Sebastião Elviro de Araújo Neto 73
  • 75. Viveiro As estufas podem ser construídas pelo próprio 5.5 Formação da mudaviveirista ou adquiridas de empresas especializadasna construção das mesmas. Além do sistema de Uma vez planificados os trabalhos a seremnebulização, as estufas podem ser dotadas de executados, a obtenção de mudas não apresentasistemas automatizados para aquecimento do grandes dificuldades, pois as operações desde asubstrato, diminuição da temperatura, controle do semeadura até a retirada das plantas obedecem a umafotoperíodo, entre outros. Entre os problemas seqüência lógica e natural.relacionados com o uso de estufas, podem ser citados As mudas podem ser formadas a partir deos seguintes: aumento da dependência da planta em sementes ou estacas. O uso inicial de uma ou de outrarelação ao homem, elevado custo de implantação, depende da maior facilidade de multiplicação daaumento da sensibilidade e ocorrência de doenças e espécie.dificuldades na aclimatação. O enraizamento de estacas de muitas espécies, 5.5.1 Sementesespecialmente através de estacas semilenhosas eherbáceas é muito difícil se não for adotado um O uso de sementes e a época de semeaduracontrole ambiental, principalmente em relação a três decorrem da época de maturação dos frutos e dopontos: a) manter alta umidade relativa do ar com poder germinativo das sementes.uma baixa demanda evaporativa, de modo que a Há frutos, segundo a espécie ou variedade,transpiração das estacas seja minimizada e haja um que são colhidos de janeiro a dezembro, podendo,mínimo de perda de água; b) manutenção de assim, fazer-se a semeadura praticamente durante ostemperatura adequada para estimular o metabolismo doze meses do ano.na base das mesmas e suficientemente amena na Há espécies que têm poder germinativo departe aérea para reduzir a transpiração e c) manter a curta duração e outras que o mantêm por váriosirradiação dentro de um limite suficiente para meses. As sementes das primeiras devem serocasionar elevada atividade fotossintética, sem no semeadas tão cedo quanto possível e as das ultimas,entanto, causar aumento excessivo de temperatura nos períodos mais favoráveis. Há ainda sementes quenas folhas. As estufas têm esta finalidade de controle necessitam de um período de repouso para germinar.ambiental. Quanto mais controladas as condições de Elas devem ser tratadas para eliminar a dormência, opropagação, maiores as chances de sucesso, que é feito em câmaras frigoríficas ou por meio deespecialmente naquelas espécies de difícil estratificação.propagação. Um dos problemas a serem enfrentadosem estufas nas condições brasileiras é o aumento Semeaduraexcessivo de temperatura, o que implica no uso de A semeadura é feita normalmente em alfobre,mecanismos de resfriamento do ar. Na literatura, há em caixas, bandejas e sacos plásticos, e o modo decitações de que, temperaturas ao redor de 35-40ºC distribuição das sementes, a quantidade e alimitam o crescimento das raízes da maioria das profundidade dependem da espécie.espécies lenhosas. Por isso, é fundamental, além de A semeadura em caixa só é utilizada quando seuma boa ventilação, um bom sistema de resfriamento dispõe de pequena quantidade de sementes.e sombreamento. Mesmo que a luz seja favorável à O uso de tubetes ou bandejas de isopor feitasatividade fotossintética das mudas, alta luminosidade de poliestireno expandido, com uma série denão parece ser a condição mais favorável. Filmes de cavidades chamadas células, ambos de formatopolietileno mais modernos estão disponíveis no afunilado e de fundo aberto, para drenagem, facilita amercado com alguns aditivos, tais como acetato de formação das mudas e impede o enovelamento dasvinil, alumínio e silicatos de magnésio, os quais raízes.aumentam a opacidade do plástico às ondas longas(infravermelho), favorecendo o enraizamento. Repicagem f) Estufins, que são, na verdade, pequenas Uma vez semeadas, germinadas e formadas asestufas, com maior versatilidade, menor custo e mudinhas, elas serão desplantadas e a seguirmenor tamanho. Os estufins são construídos, plantadas no viveiro.normalmente, em madeira e com cobertura de A repicagem vem a ser a retirada daspolietileno e podem ser utilizados tanto para a mudinhas (seedlings) do alfobre e o seu plantio noprodução de mudas através de sementes quanto viveiro.através de estacas semilenhosas. A época em que se faz a repicagem está ligada g) Ripados, os quais também têm a finalidade à espécie. Para espécies como mamoeiro,de proporcionar sombreamento, podendo substituir os maracujazeiro, ingazeira, cupuaçuzeiro e outras ételados. São construções simples, relativamente feita logo após a germinação e, para espécies comoduráveis, baratas e fáceis de construir, apresentando açaizeiro, buritizeiro em 45 dias, mas para espéciescomo inconveniente o fato de que o sombreamento mais lentas em 120 dias ou mais.não é completamente uniforme. A repicagem constitui uma das operações mais importantes, por possibilitar uma seleçãoSebastião Elviro de Araújo Neto 74
  • 76. Viveirorigorosa das plantas. Essa é uma das oportunidades 5.5.4 Transplantaçãopara eliminar todas as plantas defeituosas e doentes.E no viveiro que se plasma a longevidade da futura É a operação de retirada das mudas do viveiroárvore, e o desbaste, em algumas ocasiões, chega a e seu plantio no campo ou seu envasamento paraser tão rigoroso que apenas um quarto das mudas é posterior plantio.aproveitado. A época está ligada à biologia da planta. As A repicagem pode compreender apenas uma plantas hibernantes devem ser transplantadas quandooperação, mas pode resultar em várias etapas de se encontram em estado de repouso vegetativo. Omudanças do ambiente das mudas, desde a período mais favorável é de junho a agosto, quesementeira passando por várias etapas até o viveiro. coincide com a queda das folhas (junho) antes que Um dos problemas levantados na revisão de novas brotações tenham origem (agosto).Baldassari et al. (2003), em que sugere como As plantas de folhas persistentes seguemhipótese de que a poda excessiva por várias direção inversa, isto é, devem ser transplantadasrepicagem de mudas de citrus em tubetes possa quando se encontram em atividade vegetativa,predispor a futura planta ao declíneo dos citrus. período esse que coincide com a elevação da temperatura e o início das chuvas e se prolonga até oTransplante término do período das águas e queda de temperatura. Após a desplantação e seleção, as plantinhas A retirada da muda do local onde ela sesão submetidas a tratamento da copa e do sitema encontra para posterior aproveitamento chama-seradicular. desplantação, operação delicada e exerce influência Da copa, elimina-se parte dos ramos e das no pegamento.folhas, para reduzir a transpiração, e, do sistema As mudas podem ser desplantadas de raízesradicular, parte das raízes, para manter o equilíbrio nuas ou com o torrão, dependendo da espécie, dohídrico e evitar o enovelamento, sempre prejudicial. interesse do viveirista e do comprador. As plantas assim preparadas serão plantadasno viveiro, à distância de 0,30 a 0,50 m em linha de 1 5.6 Substratos e recipientesa 1,20 m de rua. Após o plantio, os cuidados culturaisdevem ser contínuos, de modo a favorecer o Entende-se por substrato qualquer materialdesenvolvimento o mais rápido possível. que é usado com a finalidade de servir de base para o desenvolvimento de uma planta até a sua5.5.2 Enxertia transferência para o viveiro ou para a área de A idade da planta a ser enxertada varia com a produção, podendo ser compreendido não apenasespécie, podendo-se proceder à enxertia do oitavo como suporte físico, mas também como fornecedormês até os dois anos e meio. Excepcionalmente, de nutrientes para a muda em formação. Em geral, ocomo no caso do abacateiro, a enxertia pode ser feita termo substrato refere-se a materiais dispostos emde quinze a quarenta dias após a germinação. recipientes, mas pode incluir também o solo da A época de enxertia depende da biologia da sementeira ou do viveiro, onde muitas vezes se dá oplanta. As espécies caducifólias podem ser desenvolvimento inicial da muda. As característicasenxertadas durante o período de repouso vegetativo e mais adequadas para uso como substrato sãoas de folhas persistentes, durante a primavera e o semelhantes para materiais em recipientes ou para overão e mesmo durante o outono. Isso de um modo solo em sementeira ou viveiro.generalizado, pois a época de enxertia, além de estar O substrato é um dos principais fatores queligada à biologia da planta, também depende do tipo condicionam o sucesso na propagação de plantas. Nade enxerto utilizado. opção por um determinado material como substrato, objetiva-se otimizar as condições ambientais para o5.5.3 Condução da muda desenvolvimento da planta em uma ou mais etapas da As mudas (plantas enxertadas) são conduzidas propagação.em haste única, apoiadas por tutores laterais, de Inúmeros materiais podem ser usados comobambu ou madeira. Os tutores têm por finalidade substratos na produção de mudas frutíferas. Aguiar as mudas no sentido vertical, de modo a dar escolha do substrato, ou mistura de substratos, maisuma forma correta a copa. adequada para uma determinada situação é função da As correções durante o desenvolvimento são técnica de propagação, da espécie (e, em algunsfeitas por meio de podas. Estas são chamadas casos, da cultivar), das características do substrato,educação e têm por finalidade manter as mudas com do custo e da facilidade de obtenção de cada material.um fuste perfeito. Podem estar incluídos desde materiais que Quando as mudas em formação atingem permitam a germinação das sementes e o posteriordesenvolvimento conveniente, são podadas para que desenvolvimento dos seedlings, até outros quea haste forme as pernadas iniciais. possibilitem o enraizamento de estacas e o desenvolvimento das raízes adventícias, bem como materiais que proporcionem condições adequadasSebastião Elviro de Araújo Neto 75
  • 77. Viveiropara a aclimatização de plantas propagadas através de convenientes fazer a transferência para um meio comtécnicas de micropropagação. nutrientes tão logo ocorra a emergência. Segundo Kämpf (2000), um substrato deve Inúmeros materiais são citados na literaturapossuir boas condições físico-hídricas e químicas: como adequados para a germinação e/ouEm geral, os valores do espaço de aeração deve desenvolvimento de plantas propagadas porvariar entre 2 a 30% do volume, pois há plantas sementes. No Quadro 5.1, são apresentadas algumasadaptadas para as diferentes faixas de macroporos no características de materiais que podem ser utilizadossubstrato. A condutividade elétrica pode variar entre como substratos na propagação por sementes.2,0 a 4,0 dS m-1 é alta para substrato, de 1,0 a 2,0 dS A associação de materiais permite melhor asm-1 é normal e < 1,0 dS m-1 é baixa. Em relação à condições para desenvolvimento das mudas. Assim, aágua disponível (AD), De Boodt e Verdonck (1972), grande maioria dos trabalhos com substratos na fasecitado por Ferraz et al. (2005) afirmam que os valores de desenvolvimento de mudas inclui misturas deideais variam de 0,20 m3 m-3 a 0,40 m3 m-3. solo, materiais orgânicos e condicionantes físisico Segundo Plank (1989), os substratos para (fino de carvão, vermiculita e casca-de-arrozplantas deve ter como teores ótimos de nutrientes, os carbonizada). A mistura com materiais orgânicosseguintes valores: 110 a 179 mg L-1 de K, 140 a 219 além do fornece nutrientes, favorecendo omg L-1 de Ca, 8 a 13 mg L-1 de P, 60 a 99 mg L-1 de desenvolvimento das raízes e da planta pela melhoriaMg e 80 a 139 mg L-1 de N. das condições físicas do substrato (Ferraz et al., A casca de arroz não teve ser quimada, apenas 2007; Galvão et al., 2007; Mendonça et al., 2008;carbonizada. Uma das formas de carbonizar a casca Araújo Neto et al., 2009).de arroz é utilizar uma espécie de tacho imborcado,com alças para permitir entrada de oxigênio por 5.6.2 Substratos para enraizamento de estacasbaixo e uma chaminer, que pode ser substituído poruma lata de tinta furada com uma chaminer, de O substrato é um dos fatores de maioracordo com Figura 5.2. Outra forma é o uso de forno influência no enraizamento, especialmente naquelascom chapa de ferro, tipo forno de farinha, que utiliza espécies com maior dificuldade de formação delenha como fonte de calor. Este forno pode ser raízes. O substrato não apenas afeta o percentual deutilizado também para esterilizar o substrato de estacas enraizadas como também a qualidade dodoenças e plantas espontâneas. sistema radicular da muda. Destina-se a sustentar as estacas durante o período de enraizamento, mantendo5.6.1 Substratos para sementes sua base em um ambiente úmido, escuro e suficientemente aerado. Em um sentido mais restrito, Considerando que, tanto a germinação quanto o substrato deve garantir as condições adequadaso desenvolvimento das mudas requer água, oxigênio apenas para o enraizamento das estacas. Numae suporte físico, a germinação das sementes pode abordagem mais ampla, porém, é conveniente queacontecer em qualquer material que proporcione algumas condições sejam oferecidas para que haja oreserva de água suficiente para a germinação, como desenvolvimento inicial das raízes adventícias, taispor exemplo papel-toalha, areia, serragem e outros, como o fornecimento de nutrientes e o uso dedesde que atendidas as seguintes condições: materiais orgânicos, os quais podem favorecer o a) ter boa capacidade de drenagem da água, desenvolvimento radicular e, por conseqüência, omas retendo suficiente teor de umidade que garante pegamento e desenvolvimento no viveiro ou noágua suficiente para a embebição da semente; campo. b) proporcionar ambiente escuro, em virtude Para proporcionar um bom enraizamento ede muitas espécies serem fotoblásticas negativas e desenvolvimento da muda, um bom substrato édas raízes serem fototrópicas negativas; aquele que possui as seguintes características: c) estar isento de inóculo de patógenos ou a) Retém água suficiente para manter assaprófitos, os quais podem prejudicar a germinação e células túrgidas, evitando o murchamento da estaca;o desenvolvimento das mudas. A presença de b) Garante aeração suficiente, através de umpatógenos pode provocar a ocorrência de "damping- adequado espaço poroso, para a formação das raízes eoff", que ocasiona desde um baixo índice de para o metabolismo radicular;sobrevivência das plantas na repicagem até a morte c) Adere-se bem à estaca e às raízes formadas;das plântulas logo após sua emergência; d) Não favorece a contaminação e o d) estar isento de propágulos (sementes ou desenvolvimento de patógenos e saprófitos, tanto porestruturas vegetativas) de invasoras, especialmente ser fonte de inóculo quando por criar condiçõesno caso de a muda oriunda deste processo ser favoráveis ao desenvolvimento de microorganismos;comercializada ou levada ao campo com torrão. e) Permite que as estacas enraizadas sejam Cuidados especiais devem ser dispensados removidas com um mínimo de dano às raízes;quando do uso de serragem, pois, em estado fresco, f) Tem baixo custo e é fácil aquisição;pode liberar toxinas prejudiciais à sementes e à g) Não contém ou libera quaisquer substânciasplântula. No caso de se utilizar materiais inertes, é fitotóxicas à estaca.Sebastião Elviro de Araújo Neto 76
  • 78. ViveiroQuadro 5.2 Vantagens e desvantagens de alguns o tipo de ambiente para propagação. No caso de usosubstratos para enraizamento. de nebulização intermitente, a drenagem é um dos fatores mais importantes, de forma a se evitar a Substrato Vantagens Desvantagens asfixia na base da estaca. Em se trabalhando comSolo Adequado para estacas Pouca drenagem em estacas lenhosas, em solo ou em recipientes com lenhosas nebulização; fácil disseminação de doenças algum outro material, mas sem nebulização, a (exige desinfestação) retenção de água assume maior importância.Areia Baixo custo; fácil Sob nebulização, a areia A escolha do substrato é feita levando-se em disponibilidade; boa muito fina pode ser consideração a espécie, o tipo de estaca, as drenagem sob compactada e as raízes nebulização; adequada podem ser menos características do substrato, a facilidade de obtenção para estacas herbáceas ramificadas; inadequada e o custo de aquisição. A determinação do substrato e semilenhosas para ambiente externo, mais adequado para cada espécie deve ser feita devido à pouca retenção através de experimentos. No Quadro 5.2 são de água; peso elevado, resultando em danos às apresentadas algumas vantagens e desvantagens de raízes na repicagem alguns substratos que podem ser utilizados emTurfa Reação ácida, Difícil obtenção em estaquia. adequada para algumas regiões O meio de enraizamento não afeta apenas o algumas espécies enraizamento em si. Tem sido obtida grandeCasca-de- Possui estrutura física apresenta salinidade decoco vantajosa média a alta, relação C/N influência do substrato sobre a qualidade do sistema proporcionando alta alta, condutividade radicular adventício, no que tange a diversos porosidade e alto elétrica alta. parâmetros. É conveniente atentar-se para a qualidade potencial de retenção do sistema radicular formado, pois esta irá influenciar de umidade, além de ser um resíduo diretamente o pegamento no viveiro e o biodegradável desenvolvimento posterior da muda. Em geral, raízes contribuindo com a desenvolvidas em areia são mais grossas, menos diminuição do lixo ramificadas e mais quebradiças, ainda que as industrial.Fino-de- Aumenta a porosidade, características do sistema radicular também sejamcarvão (pó a capacidade de função da espécie. A mistura da areia com turfa oude carvão retenção de água e outros materiais orgânicos freqüentemente permitemvegetal) facilita a proliferação que se forme um melhor sistema radicular. A de microorganismos benéficos. permanência das folhas também podem ser afetadasVermiculita Não dissemina Custo elevado. Exige pelo substrato. Substratos com menor contato com a doenças; adequado fertilização para o estaca tendem a ocasionar maior queda de folhas e para estacas herbáceas desenvolvimento das consequentemente morte das estacas. e semilenhosas; baixo mudas. peso; elevada A asfixia na porção da estaca enterrada no porosidade; boa substrato pode desfavorecer o enraizamento, retenção de umidade ocasionando até mesmo a morte das estacas. A baixaComposto Fornece nutrientes Pode ser fonte de inoculo capacidade de drenagem do substrato na base daorgânico para a futura muda; de organismos saprófitos; boa retenção de exige desinfestação estaca pode ocasionar a ocorrência de um problema umidade; baixo custo; denominado necrose na base. Além disso, o pouco boa retenção de água; espaço poroso pode favorecer a ocorrência de alto poder tampão doenças. O teor de oxigênio requerido na formaçãoCoprólitos Alta atividade Em alta concentração de raízes é variável conforme a espécie, mas éde minhoca microbiana; Contém pode causar compactação substâncias húmicas; e asfixia; Falsa fertilidade, sempre indispensável. É citado que, para Salix spp., 1 retém nutrientes, pois a concentração de ppm de oxigênio é suficiente para o enraizamento, impedindo sua nutrientes depende da podendo o mesmo enraizar em água, ao passo que lixiviação; alta CTC; qualidade do material alta capacidade de consumido pelas para Hedera helix, um mínimo de 10 ppm é retenção e minhocas. necessário. disponibilidade de Em algumas espécies, o aumento do teor de umidade; oxigênio incrementou o enraizamento de estacas.Casca de Fácil obtenção; baixo Baixa retenção de água, Assim, é importante analisar as características físicasarroz custo; usada pura no porém superior a da areia.carbonizada enraizamento de Ver esquema de do substrato a ser utilizado nesta condição. Espaço estacas; boa aeração; carbonização Fig. 5.1. poroso (macro e microporosidade), oxigênio drenagem rápida e disponível, aeração, drenagem e excesso de água no eficiente substrato são aspectos interligados entre si e éSerragem Baixo custo; fácil Risco de fitotoxicidade, obtenção pouco aderência à estaca, necessário observá-los. se mal decomposto, pode fermentar.Fonte: Fachinello et al. (1995); Kampf (1999); Fernades e Corá,2000; Zanetti et al. (2003); Freitas et al., (2002). Atenção diferenciada deve ser dada conformeSebastião Elviro de Araújo Neto 77
  • 79. Viveiro 5.6.3 Substratos em micropropagação Objetiva-se aqui dar algumas informações a respeito do uso dos substratos na fase de aclimatização das plantas propagadas in vitro e do enraizamento ex vitro de brotações, ainda que possa- se considerar como substratos também os diversos meios de cultura utilizados no estabelecimento e cultivo de plantas em laboratório. Dentro deste enfoque, o objetivo do substrato nesta fase é propiciar condições que minimizem o stress da planta quando da sua transferência de um ambiente mais favoráveis para outro com condições mais adversas, bem como na passagem de um mecanismo heterotrófico para outro, autotrófico. O substrato de transplantio na aclimatização é um ponto crítico. Além dos fatores endógenos que controlam a rizogênese, fatores externos relativos ao substrato, como o pH e a aeração do meio são importantes. Devido à fragilidade do sistema radicular desenvolvido em ágar, a transferência na aclimatização é uma fase - Acenda o carvão, através dos orifícios da muito delicada. Além disso, devido ao pequeno lata, até obter brasas; número de raízes e a sua não-funcionalidade, há - Coloque a casca de arroz sobre a lata, necessidade de readaptação de um meio saturado para formando um cone até a metade das altura da chaminé; outro, mais seco. - Revolva o material até ficar com a cor Algumas características desejáveis de um bem escura; substrato para uso em aclimatização são: a) Com relação à planta – estéril; não tóxico; que não provoque dano às raízes; que ofereça facilidade de penetração pelas raízes, mesmo que sejam finas; pH adequado ao desenvolvimento das plantas; com poder tampão do pH; com reservas de nutrientes ou com CTC; com relação ar/água próxima a 50% sob irrigação; capaz de absorver exsudados tóxicos produzidos durante a rizogênese; capaz de - Resfrie o material com rega abundante; permitir a estocagem das mudas; capaz de permitir a - Armazene o material em local isento de inoculação com microrrizas; fontes de contaminação; b) Com relação ao uso – fácil armazenamento; OBSERVAÇÃO fácil manejo e possível de ser usado com - Cuide para que a casca não entre em combustão, revolvendo com freqüência. mecanização; capaz de permitir um fácil transplante Para cada m3 5 horas de trabalho e o de plantas herbáceas; alta densidade por unidade de volume do material se reduz em área; fácil regulação da umidade; capaz de permitir a aproximadamente 50% após carbonização. esterilização por autoclavagem; com uma competitiva relação qualidade/preço. Inúmeros materiais podem se utilizados nesta fase da micropropagação. Podem ser usados materiais como vermiculita, perlita, areia, turfa, casca de eucalipto ou Pinus curtida, casca de arroz carbonizada e pó de carvão. O substrato ou mistura de substratos mais adequados é variável conforme a espécie. Outros materiais têm sido utilizados, como fibras de polipropileno, fibras de viscose, rockwool e lã de vidro. Devido à sua esterilidade, o Plantmax ou outros substratos comerciais similares sãoFigura 5.2 – Esquema da carbonização da casca de comumente utilizados.arroz. Fonte: Kämpf, 1999. Uma técnica que pode se utilizada é a do enraizamento ex vitro. O enraizamento diretamente no substrato induz à produção de um sistema radicular mais completo e funcional, com maior número de raízes secundárias do que aqueleSebastião Elviro de Araújo Neto 78
  • 80. Viveirodesenvolvido em meio de cultura com ágar. Esta d) Redução da competição entre as mudas;prática é mais viável em espécies herbáceas ou em e) Redução da área necessária de viveiro;espécies lenhosas com facilidade de enraizamento em f) Proteção do sistema radicular contra danosestaquia, as quais, ao serem retiradas de um estado de mecânicos e desidratação;alta disponibilidade de nutrientes, são capazes de g) Proteção da muda contra doenças e pragasemitir raízes rapidamente para absorver os nutrientes de solo, além de facilitar, quando necessário, anecessários. Além disso, é possível reduzir-se o stress prática da esterilização do substrato;que ocorre quando é feito o transplante com mudas h) Aumento da facilidade no transporte dasde raiz nua para outro substrato. O enraizamento de mudas;brotações obtidas "in vitro" pode ser efetuado em i) Redução do estresse no momento doareia não-esterilizada. Esta areia é enriquecida com transplante.fitorreguladores e tem o pH ajustado, como num Três aspectos são essenciais quando dameio normal de cultivo. Brotações de 3 a 5 cm são produção de mudas em recipientes:utilizadas e transferidas para areia sob alta umidade a) Manutenção da umidade, especialmente emrelativa do ar. É neste meio que o enraizamento é recipientes com pequena capacidade de volume deinduzido e esta técnica pode reduzir os custos da substrato;micropropagação. Tem sido sugerido o uso de plugs, b) Adubação, pois o substrato pode facilmenteblocos de substrato (em geral compostos de materiais ser esgotado quanto à disponibilidade de nutrientes;fibrosos), nos quais é impregnada a solução nutritiva, c) Limitação ao desenvolvimento radicular,de maneira que a planta é aclimatada e transplantada aspecto que deve ser constantemente observado, deno lugar definitivo sem qualquer injúria no sistema modo que o recipiente não venha a ser uma barreiraradicular. para as raízes, a ponto de prejudicar o crescimento da muda.5.7 Recipientes É conveniente que um bom recipiente apresente as seguintes características: Entende-se por recipiente todo e qualquer  Ter boa resistência para suportar a pressãomaterial destinado a acondicionar o substrato durante devida ao peso do substrato e da planta.a produção de mudas. O uso de recipientes tem  Possuir bom sistema de drenagem.acompanhado a evolução tecnológica dos sistemas de  Possibilitar boa retenção da umidade.propagação, pois são ferramentas indispensáveis na  Permitir boa retenção do substrato.produção intensiva de mudas. Na medida em que se  Ter durabilidade a ponto de resistir durante todoavança na pesquisa de substrato para a propagação, o processo de produção da muda.os recipientes assumem cada vez mais importância.  Ser de fácil manejo quando da transferênciaEmbora, em diversos casos a produção de mudas (leveza e resistência).diretamente no viveiro, dispensando o uso de  Ter baixo custo de aquisição.recipientes, possa ser mais econômica, cada vez mais  Ser reutilizável ou construído com materiala produção de mudas embaladas vem sendo adotada. facilmente reciclável.Mesmo nesses casos, os recipientes podem tomar  Ter estrias que evitem o enovelamento dasparte em alguma das etapas da propagação. É o caso raízes.de mudas cítricas – o porta-enxerto pode ser Mesmo que um recipiente possa não reunirinicialmente desenvolvido em tubetes ou bandejas e todas estas qualidades, deve-se selecionar aquele queposteriormente transferidas para o viveiro ou reúne o maior número de vantagens, pois isto estárecipiente maiores, onde são mantidas até a estreitamente relacionado com a eficiência do sistemacomercialização. Em outras situações, toda a de propagação e da viabilidade de uso de recipientes.produção da muda pode ser feita em um ou maisrecipientes. A adoção de recipientes na produção de Tipos de Recipientesmudas frutíferas apresenta, como principais Vários são os recipientes utilizados navantagens: produção de mudas frutíferas, como os sacos a) Quando associado ao uso de telados ou plásticos, tubetes, citropotes, bandejas plásticas ou deestufas, permite o cultivo sob quaisquer condições isopor, caixas de madeira ou metal, vasos plásticos,climáticas, o que permite cumprir-se rigorosamente entre outros.um cronograma de produção; Os sacos plásticos: são recipientes que podem b) Redução da utilização de tratores e carretas apresentar as mais diferentes dimensões, tais como 8na área de viveiro; cm (diâmetro) x 12 cm (altura) e 12 x 20 cm. c) Redução do tempo necessário para a Normalmente, apresentam coloração preta ou escuraprodução das mudas (em mudas cítricas, no sistema para impedir o desenvolvimento de algas e invasorasde sementeira, são necessários 18 a 24 meses para dentro do recipiente e proporcionar melhoresprodução das mudas, enquanto que, com uso de condições de desenvolvimento para as raízes. Sãobandejas ou tubetes, são necessários 12 a 15 meses); perfurados na sua base para a drenagem da água.Sebastião Elviro de Araújo Neto 79
  • 81. ViveiroApresentam a vantagem de serem muito versáteis, "containers", apresentam esta denominação, poradaptando-se a uma grande variedade de situações, terem sido desenvolvidos e difundidos para aalém de terem baixo custo de aquisição, serem produção de mudas cítricas. São confeccionados emreutilizáveis e serem de fácil manejo. Porém, se o plástico preto rígido e acondicionam grande volumeplástico for de pouca espessura, facilmente se rompe de substrato, de modo a permitir que a muda sejadevido ao peso do substrato ou ao crescimento das mantida neste recipiente desde a repicagem da mudaraízes e não permitem a sua reutilização por várias (produzida em tubetes ou bandejas) até avezes. Além disso, as perfurações devem estar comercialização e apresentam diversas vantagens,localizadas próximo à base da embalagem, caso dentre as quais a facilidade de manuseio da muda, acontrário, não permitem um bom escoamento da água possibilidade de produção de mudas numa mesmaem excesso, prejudicando o crescimento da muda. É área durante vários anos (desde que o substrato sejaimportante atentar-se para a qualidade do plástico, oriundo de local isento de patógenos), bem comoalém do número e posição das perfurações no permitindo o plantio da muda no pomar sem danos aomomento da aquisição. sistema radicular. Uma das principais limitações ao Tubetes: são recipientes de formato cônico, uso do citropote é seu levado custo de aquisição.construídos em plástico rígido e de cor escura.Internamente, apresentam estrias que impedem oenovelamento das raízes. Podem acondicionar 5.8 REFERÊNCIASdiferentes volumes de substrato. Para o uso dostubetes, é necessário um sistema de suporte, que pode ARAÚJO NETO, S. E. ; AZEVEDO, J. M. A. de;ser uma bandeja de isopor, de plástico ou metal, bem GALVÃO, R. de O.; OLIVEIRA, E. B. de L.;como uma bancada com fios de arame distanciados FERREIRA, R. L. F. Produção de muda orgânica dede forma a possibilitar a colocação dos tubetes. pimentão com diferentes substratos. Ciência Rural,Assim, os tubetes ficam suspensos, de modo que a v. 39, p. 20-25, 2009.sua base fique exposta ao ar, proporcionando a BALDASSARI, R. B.; GOES, A. de; TANNURI, F.denominada "poda pelo vento" das raízes. Declínio dos citros: algo a ver com o sistema de Como vantagens são reutilizáveis por muitas produção de mudas cítricas?. Revista Brasileira devezes, além de permitir a produção de um grande Fruticultura, ago. 2003, vol.25, no.2, p.357-360.número de mudas por unidade de área. Por serem FACHINELLO, J.C.; HOFFMANN, A.;unidades independentes, os tubetes permitem a NACHTIGAL, J. C.;. KERSTEN, E.; FORTES, G.R.seleção das mudas com a embalagem. Por reterem de L. Propagação de plantas frutíferas de climaum pequeno volume de substrato, requerem que se temperado. 2ª ed. Pelotas: UFPEL, 1995. 178 p.: il.retire a muda tão logo as raízes ocupem todo o FERRAZ, P. de A.; MENDES, R. ; ARAÚJO NETO,substrato – por isso, são úteis para a primeira etapa da S. E. de. Produção de mudas de bertalha compropagação, além de necessitarem de irrigações substratos organicos. In: V Congresso Brasileiro deperiódicas, visto que o substrato facilmente se Agroecologia, 2007, Guaraparí. Revista Brasileira deresseca. Agroecologia. Porto Alegre : Sociedade Brasileira de Bandejas: podem ser confeccionadas em Agroecologia, 2007. v. 2. p. 1519-1522.plástico, normalmente apresentando um espaço único FERNANDES, C.; CORÁ, J. E. Caracterizaçãoe contínuo para acondicionamento do substrato, bem físico-híidrica de substratos utilizados na produção decomo podem ser feitas de poliestireno expandido mudas de espécies olerícolas e florestais.(isopor), constituídas de um número variável de Horticultura Brasileira, Brasília, v.18, p. 469-471,células, nas quais é feita a produção da muda. As jul. 2000.células apresentam forma piramidal invertida, com FERRAZ, M. V.; CANTURION, J, F,. BEUTLER,capacidade de até 120 cm3 de substrato por célula. Na A. N. Caracterização física e química de algunsbase, a célula apresenta um orifício para escoamento substratos comerciais. Acta Sci. Agron., Maringá, v.da água. As bandejas podem ser reutilizadas por 27, n. 2, p. 209-214, April/June, 2005.diversas vezes. Assim como o tubete, as bandejas são GALVÃO, R. de O.; ARAÚJO NETO, S. E. de;úteis na primeira etapa da propagação, pois SANTOS, F. C. B. dos ; SILVA, S. S. da.acondicionam pequeno volume de substrato. Desempenho de mudas de mamoeiro cv. Surinse soloPreferencialmente, as bandejas devem ficar sob diferentes substratos orgânicos. Caatingasuspensas, permitindo a "poda pelo vento". A (Mossoró), v. 20, p. 144-151, 2007.durabilidade da bandeja está em função do ambiente KÄMPF, A. N. Substrato. In: KÄMPF, A. N.onde é feita a propagação e do cuidado no manuseio Produção comercial de plantas ornamentais. 1999.das mesmas. Para uma dada espécie, em sistemas MENDONÇA, V.; ARAÚJO NETO, S. E. de;tradicionais de propagação (viveiros), podem ser RAMOS, J. D.; PIO, R.; Diferentes substratos eproduzidas cerca de 25 a 30.000 mudas/ha, enquanto recipientes na formação de mudas de mamoeirocom uso de bandejas, podem ser produzidas cerca de Sunrise Solo. Revista Brasileira de Fruticultura,200.000 mudas/ha. Jaboticabal, v.25, n.1, p.127-130, Abril, 2003. Citropotes: também conhecidos comoSebastião Elviro de Araújo Neto 80
  • 82. ViveiroMENDONÇA, V.; ARAÚJO NETO, S. E.; RAMOS,J. D.; PIO, R.; CHAGAS, E. Crescimento de mudasde maracujazeiro-amarelo sob diferentes substratos erecipientes. Revista de Ciências Agrárias (Belém),v. 49, p. 177-180, 2008.PLANK, C. O. Soil test handbook for Georgia.Athens, university of Georgia, 1989. 316p.RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia deprodução, gerenciamento e comercialização. 1 ed.Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:FEALQ, 1998. 760p.: il.ZANETTI, M.; CAZETTA, J. O.; MATTOSJÚNIOR, D. de; CARVALHO, S. A. de. Uso desubprodutos de carvão vegetal na formação do porta-enxerto limoeiro ‘cravo’ em ambiente protegido.Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal, v.25, n. 3, p.508-512, 2003.Sebastião Elviro de Araújo Neto 81
  • 83. Planejamento e implantação de pomar6. PLANEJAMENTO E IMPLANTAÇÃO DE 6.2 – TalhõesPOMAR Os talhões desempenham função importante6.1 –Planejamento do pomar na vida de um pomar, pois separam espécies, variedades e idade das plantas, facilitando o manejo A fruticultura é um dos ramos da horticultura do pomar, a colheita, a transmissão de doença dentreque exige-se um cauteloso planejamento, pois os otras vantagens. Outro fator importante, que estácustos de implantação são altos, o retorno econômico associado aos talhões são os carreadores que oslento e em muitos casos um erro pode ser divide e que permitem o transporte dos insumos parairremediável, por isso, o sucesso da fruticultura está o pomar e das frutas para a casa de embalagem.no planejamento da atividade, analisando desde O tamanho dos talhões não devem ser muitocondições edafoclimáticas da cultura, preferência do grandes, nem muito pequenos , para facilitar oconsumidor, logística de mercado, disponibilidade de manejo.mudas, insumos e equipamentos e outros fatores, Em alguns casos, o uso dos talhões édentre os quais: indispensável, como no cultivo de banana, pois essa cultura exige renovação anual de 20% do plantio, quea) O clima favorável, deve-se avaliar os vários devem ser feitos em talhões de aproximadamente 1 aspectos de altas e baixas temperaturas, ventos ha cada. fortes, quentes, secos ou frios, umidade relativa Em citros, os talhões têm cerca de 2 mil do ar baixa ou alta, a quantidade de chuvas e a sua plantas, os talhões não podem ser muito pequeno, distribuição; pois é necessário avaliar as perdas com carreadores,b) O solo, analisando os aspectos químicos, físicos, que, geralmente, consomem de 6 a 8% da área biológicos, topografia, compactação e destinada aos pomares. uniformidade; A recomendação para citros é de que o talhãoc) A localização do pomar, deve ser próximo ao quadrado tenha de 285 a 380 metros de lado ou mercado consumidor e de vias de acesso, em número múltiplo de espaçamento adotado, resultando regiões com poucos problemas fitossanitários, numa área útil de 8 a 15 hectares. Os retangulares com água abundante e de qualidade e com mão- devem ter de 250 a 300 m no sentido das ruas por de-obra suficiente e especializada; 400 a 500 m de largura, no sentido perpendicular dasd) Para a seleção de cultivares, copas e porta- ruas, com área útil de 10 a 15 ha (FUNDECITROS, enxertos, deve-se considerar o destino da 2010. produção, época de maturação, produtividade, De acordo com De Negri et at. (2005), os tamanho das plantas, tamanho dos frutos, talhões podem ser quadrados ou retangulares com resistência à pragas e doenças, uniformidade de carreadores contínuos (Figura 6.1) em caso de pouca produção, adaptabilidade aos diferentes tipos de declividade (5% a 6%) ou com carreadores solos, rendimento industrial e preferência do desencontrados quando há desnível acentuado em um consumidor; sentido (Figura 6.2).e) Os fatores técnicos, tais como: aquisição ou Há também os carreadores irregulares quando formação de mudas, distribuição dos talhões de o terreno for irregular e apresentar mais de uma acordo com o relevo, sistema de plantio, declividade e mais sujeitos à erosão (Figura 6.3). espaçamento, tratos culturais, irrigação, maquinários, equipamentos e principalmente infra-estruturas;f) Fatores comerciais, como: comercialização das safras, capital investido (necessário), número conveniente de plantas, problema de super oferta, plano de desembolso, rendimento, custo de produção e de comercialização. Um exemplo disso é o plantio de coco emsolos razos e com baixa capacidade dearmazenamento de água, como nos solos argissolos e Figura 6.1 – Talhões quadrados com carreadoresplintossolos mal drenados no Acre, limitando o contínuos (Adaptado de De Negri et al., 2005).crescimentos das plantas e a produção de cocoquando há períodos longos de esiagem, ao contráriosdas áreas marginais aos rios na Amazônia, com solosprofundos bem drenados e úmidos a maior parte doano, condições ideais para palmeiras como o coco,muito exigente em água.Sebastião Elviro de Araújo Neto 82
  • 84. Planejamento e implantação de pomarFigura 6.2 – Talhões quadrados com carreadoresdesencontrados (Adaptado de De Negri et al., 2005). 45°Figura 6.3 – Talhões irregulares com carreadoresdesencontrados (Adaptado de De Negri et al., 2005).Sebastião Elviro de Araújo Neto 83
  • 85. Planejamento e implantação de pomar6.3 - Sistema de Plantio O sistema de plantio a ser utilizado dependerádo tipo de pomar a ser implantado e da declividadedo terreno. De maneira geral, pode-se optar pelosseguintes sistemas de plantio: quadrado, retangular,hexagonal, quincôncio e triangular. Caso a área deplantio seja plana pode-se optar por linhas retas, nãoutilizando curvas de nível, facilitando os tratosculturais. Neste caso, a orientação do terreno ficariarelacionado com a disponibilidade de luz, assim,plantio de espécies exigentes em luz como o Figura 6.4 – Esquema de marcação de covas emmaracujazeiro, bananeira, gravioleira, coqueiro, sistema de triângulo eqüilátero. (Adaptado de Demangueira, citros, cajueiro e outras, as linhas de Negri, Stuchi e Blasco, 2005).plantio devem ser orientadas no sentido leste-oeste,para que se possa captar o máximo de luz. O sistema de quincôncio, que propicia um Mas para espécies de origem sub-bosque como maior número de plantas inicialmente, é um sistemao cupuaçuzeiro, as linhas de plantio devem ser que necessita desbaste no futuro para espécies dedirecionadas no sentido norte-sul, principalmente porte alto, e pode ser adotado para pomar doméstico,quando não se usa consórcio, ou leste-oeste quando o com plantio de espécies de menor porte no meio,plantio for feito em faixas sob espécies funcionais (de evitando o desbaste no futuro. A figura 6.5. contém asombreamento). Ou ainda obedecendo o equinócio ilustração dos diferentes sistemas de plantiopara espécies com maior ou menor exigência em luz. utilizados, citados. Em terreno com declive maior que 15%, deve-se utilizar curvas de nível, com espaçamentoretangular. O sistema em quadrado é o mais simples,porém, não proporciona bom aproveitamento da áreae da radiação solar. O sistema retangular permite um maiornúmero de plantas por área quadrangular, facilitandotambém os tratos culturais. Quadrado Retângulo No sistema triangular usa-se o triânguloisósceles ou o eqüilátero. O sistema de triângulo eqüilátero permite ocultivo em três sentidos, melhor aproveitamento doterreno e muito mais fácil traça-lo do que parece aprimeira vista. Para isto primeiro traça-se no terrenouma linha básica. Sobre ela marcam-se as primeirascovas, com a distância entre plantas determinada. Triângulo Equilátero Triângulo IsóscelesDigamos que sejam 7 metros. Enfia-se um piquete emcada ponto marcado. Toma-se um cordel com 14 m decomprimento, terminado em laços e com o meio marca-se uma nova cova. Continua-se assim até marcar todasas covas do pomar. Este sistema permite plantio de 15%mais plantas que o sistema em quadrado (Figura 6.4). O sistema hexagonal, que é baseado no Quincôncio Hexágonotriângulo equilátero, sem plantar no ponto central dohexágono, é pouco funcional, por reduzir o número Figura 6.5 – Sistemas de plantio. (Adaptado dede plantas em 33% comparado com o sistema em Ramos, 1998)triângulo eqüilátero. Seu uso é mais freqüente emculturas de alta densidade como abacaxizeiro e para Para cada sistema de plantio há uma fórmulaculturas com espaçamento triplo como bananeira, para o cálculo do número de plantas na área donestes casos chega a ser necessário já que a planta plantio (Quadros 6.1 e 6.2).central do triângulo eqüilátero poderá impedir otrabalho rua para o manejo das das plantas nas linhastriplas seja manual, com tração animal oumecanizada.Sebastião Elviro de Araújo Neto 84
  • 86. Planejamento e implantação de pomarQuadro 6.1. Fórmulas de cálculo do número deplantas em cada sistema de plantioSistema de Plantio FórmulaQuadrado ou retângulo n = A / Dl x DpHexágono n = A / L x h??????????Quincôncio n = A / Dl x DpTriângulo eqüilátero n=A/LxhTriângulo isósceles n=A/bxhn = número de plantas A = área do terreno (m2)D1=distância entre linha(m) Dp=distância entre plantas (m)L = lado do triângulo (m) b = base do triângulo (m)h = altura do triângulo (m) (h2=L2-L2 ) 2Para triângulo eqüilátero h = L3 2 No caso do triângulo eqüilátero, quando se tem Figura 6.6 - Alinhamento em retas paralelas ao carreador.apenas a informação da distância entre as ruas, calcula- (Adaptado de De Negri, Stuchi e Blasco, 2005).se os lados pela fórmulas L = h / (3/2) e quando setem apenas o espaçamento entre plantas, calcula-se aaltura (espaçamento entre ruas) pela fórmula: L . 3. 2Quadro 6.2. Número de plantas por hectare, emalguns espaçamentos.Espaçamento Quadrangular Retangular Triangular Triângulo em metros Isósceles Equilátero 2X2 2.500 ........ 2.500 2.890 4X5 ........ 500 500 ........ 6X6 277 ........ 254 320 7X8 ........ 178 178 ........ 9X9 123 ........ 112 142 10 X 10 100 ........ 91 1156.4 - Marcação das Covas Antes da demarcação das covas deve-se definirqual o espaçamento a ser utilizado. Quando o terreno éplano adota-se o alinhamento em retas paralelas aoscarreadores (Figura 6.6). Quando o terreno apresentacom declive uniforme pode-se utilizar linhas retas Figura 6.7. Alinhamento em retas paralelas a linha deparalelas às linhas de nível (cortando as águas) (Figura nível. (Adaptado de De Negri, Stuchi e Blasco,6.7). Nos dois casos anteriores a demarcação das covas 2005).é utilizado com o auxílio de linhas intermediárias,distanciadas 40 metros umas das outras. Em terrenos com declive acentuadorecomenda-se a utilização de uma nivelada básicafazendo o primeiro sulco com trator e sulcador decana. Os outros poderão ser feitos a partir deste como uso de uma vara, ou bambu, com o espaçamentodeterminado nas entrelinhas, com dois bambus, demaneira que o primeiro homem caminhe sobre o Sulcosulco já aberto e o segundo paralelamente. O tratorseguirá as pegadas do segundo homem abrindo ossulcos (Figura 6.8). Figura 6.8. Demarcação de sulcos paralelos à nivelada básica. (Adaptado de De Negri, Stuchi e Blasco, 2005).Sebastião Elviro de Araújo Neto 85
  • 87. Planejamento e implantação de pomar6.5 - Preparo do solo pulverização do solo e futura compactação, dificultando o crescimento radicular e o O preparo do solo (aração, calagem e desenvolvimento da planta (Primavesi, 2002;gradagem) na agricultura convencional é feito com Khatounian, 2001), além do velho problema de “colouso de tratores e outras máquinas movidas a afogado”.combustíveis fósseis não renováveis, e sua queima Simão (1971) afirma que quanto maior a cova,produz fontes de dióxido de carbono, outros gases e melhor, sendo as limitações apenas de ordemmaterial particulado lançados na atmosfera. Esses econômica. E relaciona o tamanho da cova com opoluentes são responsáveis pela baixa qualidade do ar tipo de solo e a espécie a ser plantada, variando entree contribuem para o efeito estufa, que aumenta o 40 x 40 x 40 cm a 60 x 60 x 60 cm.aquecimento global. Em um trabalho com laranjeira Koller et al., Além disso, o uso de tratores é um fator de (1975) e Dornelles (1975), verificaram que covasdegradação por meio de compactação e erosão do pequenas podem promover um bom desenvolvimentosolo, desmatamento e aumento da incidência de das planta e produção de frutos (Tabelas 6.1 e 6.2).pragas e doenças (Reinjntzes et al., 1994; Primavesi,2002; Souza & Resende, 2003). Tabela 6.1 – Produção de laranja Valência plantada O preparo inadequado do solo, principalmente em 4 sistemas de coveamento, avaliadas no 4º anocom uso de máquinas pesadas pode promover após o plantio. RS, 1974.compactação do solo, que diminui a infiltração deágua, a concentração de ar, a absorção de nutrientes, Tratamentos Peso de frutos por planta (kg)o desenvolvimento radicular e a produção, neste caso, São Jerônimo Arroio 30x30x30 Lavrado/Gradeado 30,3 b 13,6 ba aração é um dos erros mais graves, pois o 100x100x60 Idem 12,3 c 7,8 brevolvimento do solo promove a incorporação da 30x30x30 Idem+subsolagem 25,5 bc 15,6 abcamada superficial, o que pode aumentar a 30x30x30 Camalhões 54,1 a 29,3 amineralização da matéria orgânica, resultando em Fonte: (Koller et al., 1975)maior adensamento do solo e formação de compostoshúmicos de menor peso molecular e de menor Tabela 6.2 – Diâmetro médio dos troncos deestabilidade (Primavesi, 2002). laranjeira Franck em mm, a dez centímetros acima do Assim, o plantio direto ou cultivo mínimo são ponto de enxertia. RS, 1974.sistemas de plantio usados em larga escala e super Tratamentos Vinte mesesadaptados à fruticultura, que não necessita de preparo Diâmetro (mm)total da área devido o espaçamento amplo das Jacá + adubo* cobertura 26,6plantas. 30x30x30 Idem 27,8 Com isso, o plantio direto tem a função de 60x60x60 Idem 28,8minimizar os efeitos negativos sobre a vida do solo, 30x30x30 adub. na cova 29,3reduzindo sua perda dágua por evaporação e suas Fonte: Dornelles (1975) *Yoorin 1kgoscilações térmicas. Além de contribuir namanutenção da umidade e da temperatura do solo ele Resultados semelhantes foram encontradospode ainda lhe fornecer matéria orgânica, favorecer para maracujazeiro, por Araújo Neto et al. (2009) esuas atividades biológicas e aumentar a Queiroz et al. (1997).biodiversidade, reduzir a erosão causada pelas Segundo Araújo Neto et al., (2009), o númeroelevadas taxas de precipitação que desestrutura o solo de frutos por planta e a produtividade, na segunda ee cumpri função reguladora e protetora (Pauletti, na somatória das duas safras, foram maiores com1999). plantio direto e com covas cúbicas de 0,30m. Após dois anos de cultivo, a densidade do solo foi maior na6.6 - Abertura e preparo das covas camada de 0-5cm de profundidade num raio de 20cm da planta para o plantio em covas de 0,50m com O preparo do solo para o plantio (coveamento) adubação na cova e menor para o plantio direto, nãoé um dos fatores que onera o custo de implantação, a havendo diferença entre os demais tratamentos. E osliteratura atual sobre preparo do solo para fruteiras custos econômicos e operacionais médios foramnão trás novidades, recomendando geralmente maiores para os sistemas com plantio em covas decoveamento de 50 cm x 50 cm x 50 cm, inclusive em 0,50 m, por apresentarem elevado custo total desistema orgânico (Simão, 1998; Ramos, 1998; produção e menor produtividade. A receita líquida foiPenteado, 2004). Porém, sabe-se que em cultivo maior nos sistemas de preparo com covas de 0,30 m,orgânico, o revolvimento do solo, enterrando a com adubação na cova (R$10.234,19/ha) e adubaçãocamada orgânica não trás benefícios para o solo e em cobertura (R$11.501,44/ha) – e no plantio diretoconseqüentemente para a planta, pois esta matéria (R$8.925,08/ha) (Araújo Neto et al., 2008).orgânica poderá oxidar-se e transformar-se em ácidos Alguns estudos avaliando o plantio direto comfúlvicos que mobilizam Al+3 e Fe+3 e imobilizam alface e berinjela revelam que a produção no plantiocátions essenciais, além disso, pode ocorrer aSebastião Elviro de Araújo Neto 86
  • 88. Planejamento e implantação de pomardireto não difere do sistema convencional de preparo m3), não verificaram efeito na produtividade ede solo (Castro et al., 2005; Oliveira et al., 2006). qualidade dos frutos do maracujazeiro-amarelo na Queiros (1997), avaliando diferentes tamanhos Paraíba.e formas de covas (0,125 m3), (0,205 m3) e (0,285Tabela 6.3 – Produtividade, número de frutos e peso médios de frutos de maracujazeiro-amarelo plantados emdiferentes tamanhos de cova sobre cultivo orgânico. (Araújo Neto et al., 2009).* Tratamentos N° de frutos por planta PRODUTIVIDADE (kg/ha) 1° Safras 2° Safra Total 1° Safras 2° Safra TotalPlantio direto + Adub. em cobertura 21,8 a 61,2ab 83,0ab 3.829,3a 7.444,6ab 11.273,9abCovas de 30x30x30 + Adub. na cova 15,5 a 79.3 a 94,8 a 2.736,8a 9.664,8 a 12.401,5 aCovas de 30x30x30 + Adub. em cobert 25,3 a 73,3 a 98,6 a 4.177,5a 8.951,9 a 13.129,2 aCovas de 50x50x50 + Adub. na cova 10,0 a 36,8 c 46,8 c 1.795,3a 4.491,2 c 6.286,6 cCovas de 50x50x50 +Adub. em cobert 10,8 a 43,8ab 54,6bc 1.911,0a 5.331,4bc 7.242,3bcMédia 16,7 58,9 75,6 2.890,0 7.176,8 10.066,7C.V. (%) 26,49 10,49 17,93 28,1 10,42 10,56* Médias seguidas de letras distintas na diferem entre si pelo teste de Tukey à 5% de probabilidade.* PMF – Peso médio de fruto da segunda safra. A adubação deve ser feita obedecendo aos O plantio direto poda na oser eficiente em resultados da análise de solo e as necessidades decondições de solo compactado e com baixo teor de cada cultura. Para assegurar um bommatéria orgânica. Ao decidir pela abertura de covas, desenvolvimento da planta recomenda-se a utilizaçãoestas devem varia de 40 a 60 cm nas três dimensões de matéria orgânica (esterco de curral, de galinha,cúbicas, dependendo da agressividade do sistema composto de lixo, torta de mamona ou similares) aradicular da espécie cultivada. A abertura das covas adubação química com macros e micronutrientespode ser feita manualmente ou mecanicamente com (Figura 6.9B).sulcador acoplado ao trator ou outro equipamento Deve-se, no enchimento da cova, manter asimilar. Na abertura da cova, obedecer a separação do ordem de retirada do solo e misturar a terra inferiorsolo da superfície e do fundo da cova, porém, não da cova com a adubação orgânica e calcário. Depoisinverter as camadas no momento do fechamento da do fechamento da cova deve ser colocada novamentecova (Figura 6.9A). a estaca para demarcação do centro de cova e efetuar o plantio no mesmo dia ou dias depois. A literatura tradicional recomenda a inversão das camadas de solo no momento do enchimento da cova, porém, por princípios ecológicos, isto causaria a morte do solo orgânico ao ser enterrado, com um agravante, pois a matéria orgânica de maior peso molecular seria oxidada em baixo peso molecular, mobilizando cátions e contribuindo para a toxidez de Al e Fé (Primavesi, 2002). 6.7 - Plantio - Escolha da Muda O sucesso do pomar dependerá de muitos fatores, entretanto a muda se reveste de capitalMicronutrientes Fosfato solúvel importância. A boa muda é como se fosse o alicerce 50g de FTE 50% do pomar, por isso sua escolha deve ser criteriosa. Geralmente são adquiridas de raiz nua ou com torrão, Calcário dependendo da época e da espécie, dar preferência (500g) para aquelas enxertadas e com torrão. Esterco de curral Para conservação das mudas com torrão deve- (20 litros) se colocá-las durante 1 a 2 minutos em um recipiente com água, de maneira que sua profundidade cubra Fosfato natural 50% todo o torrão. Logo a seguir colocá-la em localFigura 6.9 – Abertura e adubação de covas. sombreado. Nesse caso, se o plantio não for feitoSebastião Elviro de Araújo Neto 87
  • 89. Planejamento e implantação de pomarimediatamente, estas mudas deverão ser irrigadas muda, cobertura permanente do solo e fixaçãodiariamente. biológica de nitrogênio. Em pequeno plantio, como em chácaras e- Época quintais, é importante fazer irrigação logo após o plantio e nos dias subsequentes até o seu completo A época mais recomendada para o plantio é no pegamento, mas em grandes áreas, geralmente não háinício do período chuvoso, que nas regiões mais sul sistemas de irrigação ou água disponível para tal,do Brasil compreende os meses de outubro a devendo realmene realizar o plantio durante odezembro. Entretanto, se houver disponibilidade de período chuvoso.irrigação pode ser realizado em outras épocas, porémcom maiores cuidados, especialmente quando setratar de mudas em raíz-nua.- Colocação da Muda na Cova Para o plantio propriamente dito é necessário autilização da tábua de plantio (Figura 6.10). Maiorescuidados devem ser dispensados para mudas de raiz- b a cnua, para essas dar preferência para dias nublados,com chuva e com uma boa rega após o plantio. Para oplantio de mudas com recipientes ou embalagens,deve-se atentar para a retirada destes, antes doplantio. Em casos de embalagens de sacos, deve-secortar o fundo do torão+saco, aproximadamente 1(um) centímetro, para cortar raízes enoveladas. Na retirada da embalagem tomar o máximocuidado possível para não destorroá-la, expondo edestruindo raízes. Nunca levantar ou transportar amuda pegando-se na haste principal, usar sempre asduas mãos apoiadas no torrão, preservando-o. Aaltura do plantio deve obedecer ao nível do solo,recomendando que a planta seja colocada a 5 cmacima do nível do solo. Após a colocação da muda,com todos os cuidados já citados, deve-se ter ocuidado de apertar bem, evitando deixar espaçosvazios. Logo a seguir, de preferência fazer otutoramento da muda com uma estaca de 60 a 80 cmvisando protegê-la contra ventos fortes eprincipalmente orientar o seu crescimento vertical. Logo após a colocação da muda deve-se Figura 6.10. Plantio da muda na cova com tábua deconstruir em volta desta uma “bacia” com plantio: as incisões b e c são ajustadas nas estacas deaproximadamente 50 a 80 cm de diâmetro para referência; a muda que estiver sendo plantada serámelhor acumular água da das irrigações ou das ajustada em a.chuvas. No entanto, em solos mal drenados e emperíodos de chuvas intensas, ao invés de “bacia”, 6.8 REFERÊNCIASdeve-se construir um “morro” ao redor da muda, paraescorrimento da água das chuvas. ARAÚJO NETO, S. E. de; FERREIRA, R. L. F.; Uma prática recomendada é a colocação de PONTES, F T. da S.; NEGREIROS, J. R. da S.cobertura morta (capim seco, bagaço de cana ou Rentabilidade econômica do maracujazeiro-amarelosimilares), protegendo assim a muda com maior plantado em covas e em plantio direto sob manejoaproveitamento de água e já impedindo o crescimento orgânico. Revista Brasileira de Fruticultura, v. 30,de plantas indesejáveis. Após essas operações p. 940-945, 2008.deverão ser realizados uma série de tratos culturais ARAÚJO NETO, S. E. de; SOUZA, S. R. de;que serão discutidos em outros capítulos e para cada SALDANHA, C. S.; FONTINELE, Y. da R.;cultura específica. NEGREIROS, J. R. da S.; MENDES, R.; Ao redor da muda, pode-se plantar AZEVEDO, J. M. A. de; OLIVEIRA, E. B. de L.leguminosas de crescimento determinado, como Produtividade e vigor do maracujazeiro-amarelofeijão-de-porco, crotaçária, feijão vgna ou feijão-de- plantado em covas e plantio direto sobcorda e amendoim forrageiro, com finalidade de manejo orgânico. Ciência Rural, Santa Maria, v.39,promover a diversificação no ecossistema próximo a n.3, p.678-683, 2009.Sebastião Elviro de Araújo Neto 88
  • 90. Planejamento e implantação de pomarCASTRO, C. M. de, ALMEIDA, D. L. de, RIBEIRO, SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:R. de L. D., CARVALHO, J. F. de. Plantio direto, FEALQ, 1998. 760p.: il.adubação verde e suplementação com esterco de aves SOUZA, J. L. de; RESENDE, P. Manual dena produção orgânica de berinjela. Pesquisa horticultura orgânica.Viçosa: Aprenda Fácil, 2003.agropecuária brasileira, Brasília, v.40, n.5, p.495- p.19-34.502, maio 2005.DE NEGRI, J. D.; STUCHI, E. S.; BLASCO, E. E.A. Planejamento e implantação do pomar de citros.In: MATTOS JUNIOR, D. de; DE NEGRI, J. D.;PIO, R. M.; POMPEU JUNIOR, J. Citros: InstitutoAgronômico e Fundag, 2005. p.411-430.DORNELLES, c. M. M. Experimento comparativode tamanho de covas e método de aplicação deadubação em plantio de laranjeira (Citrus sinensisOsbeck). In: CONGRESSO BRASILEIRO DEFRUTICULTURA, 3, 1975, Rio de Janeiro. Anais…Rio de Janeiro: SBF, 1975. p.359-363.FUNDECITRUS. Distribuição e dimensões dostalhões. In: FUNDECITRUS.Greening:profissionais discutem os avanços nomanejo da doença. FUNDECITRUS: Araraquaras,ano I, nº5, 2010. p.13.GOMES, R. P. Fruticultura brasileira. 9 ed. SãoPaulo: Nobel, 1983.KHATOUNIAN, C. A. A reconstrução ecológica daagricultura. Botucatu: Agroecologia, 2001.348p.KOLLER, O. C.; BARRADAS, C. I. N.; GRIGS, R.J.; SANTIM, S. A. Sistema de preparo do solo para oplantio de laranjeiras Valencia (Citrus sinensis, Osb.).In: CONGRESSO BRASILEIRO DEFRUTICULTURA, 3, 1975, Rio de Janeiro. Anais…Rio de Janeiro: SBF, 1975. p.225-263.OLIVEIRA NG; DE-POLLI H; ALMEIDA DL;GUERRA JGM. Plantio direto de alface adubadacom “cama” de aviário sobre coberturas vivas degrama e amendoim forrageiro. HorticulturaBrasileira, Brasília, v. 24: p.112-117. 2006.PAULETTI, V. Plantio Direto: atualizaçãotecnológica. Fundação Cargill, Fundação ABC,São Paulo, 1999. 171p.PENTEADO, S. R. Fruticultura orgânica:formação e condução. Viçosa: Aprenda Fácil, 2004.308 p.PRIMAVESI, A. O manejo ecológico do solo:agricultura em regiões tropicais. São Paulo,Nobel, 2002. 541p.QUEIRÓS, M. do S. Tipos de covas e coberturamorta sobre a produção e qualidade dos frutosdo maracujazeiro amarelo. Campina Grande -PB. 01/10/1997. 1v. 67p. Mestrado.UNIVERSIDADE FEDERAL DAPARAÍBA/AREIA - MANEJO ECONSERVAÇÃO DE SOLOS.RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia deprodução, gerenciamento e comercialização. 1 ed.Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.REINJNTZES, C; HARVESKORT, B.; WATERS-BAYER, A. Agricultura para o futuro. Rio deJaneiro: ASPTA/ILEA, 1994.Sebastião Elviro de Araújo Neto 89
  • 91. Poda das plantas frutíferas7. PODA DAS PLANTAS FRUTIFERAS depotencial). Portanto, as relações hídricas vegetal, estabelecem leis nas quais se baseiam as podas das Poda é a arte e técnica de “educar” as plantas:plantas por meio de cortes de ramos, folhas e até A eliminação de ramos ou parte de ramos pelaraízes, de modo a direcionar a arquitetura e fisiologia poda altera-se não apenas a forma mas também ade plantas frutíferas para fins de obter qualidade e fisiologia da planta alterando o volume e a pressão dasprodutividade de frutos, forma e sanidade da planta. seivas bruta e elaborada contendo nutrientes e Especificametne em fruticultura a poda é substâncias químicas responsáveis por estímulos eutilizada com objetivo de regularizar e aumentar a bloqueios de atividades fisiológicas, como oprodução, melhorar a qualidade dos frutos e ajustar a florescimento ou surtos vegetativos.arquitetura das plantas as técnicas de cultivo. Os princípios que regem a poda podem ser A poda não resolve os problemas da assim apresentados:fruticultura, no entanto, é uma alternativacomplementar a outras tecnicas de manejo. 1º. A rápida circulação da seiva favorece o Segundo Chalfun Junior e Chalfun (2006), a desenvolvimento vegetativo, enquanto a circulaçãoimportância de se podar, varia de espécie para lenta estimula a frutificaçãoespécie, assim poderá ser decisiva para uma,enquanto que para outra, ela é praticamente Em outras palavras, quanto mais rápida for adispensável. Com relação à importância, as espécies circulação da seiva no interior do ramo, maior será opodem ser agrupadas em: número de gemas que originarão crescimentosDecisiva: Videira, pessegueiro, figueira; vegetativos vigorosos e, ao contrário, quanto maisRelativa: Pereira, macieira, caquizeiro, goiabeira, difícil e lenta for essa circulação, mais numerosasaceroleira; serão as gemas que se transformarão em botõesPouca importância: Citros, abacateiro, mangueira. floríferos. Isso, de certa forma, pode ser explicado pelo A poda pode causar danos graves as plantas fato de haver uma intensa competição por nutrientese para que ela seja benéfica é importante ser entre os ramos produtivos e vegetativos, uma vez queexecutada levando-se em consideração a fisiologia e durante a acumulação de sais minerais, açúcares ebiologia da planta e seja aplicada com moderação na aminoácidos nos órgãos reprodutivos, é possível seidade e época serta. constatar um decréscimo correspondente e aproximadamente igual nas quantidades desses7.1 Princípios fisiológicos que regem a poda nutrientes presentes nas folhas. A produção de gemas floríferas depende da O conhecimento de algumas regras sobre a acumulação de fotossintatos nos tecidos que asfisiologia vegetal faz se necessário para auxiliar o originarão. Essa acumulação depende da velocidadepodador. com que a seiva circula no interior do ramo que, por As funções vegetativas e reprodutivas são sua vez, depende da relação entre a produção e ogeralmente antagônicas, assim, uma planta com consumo desses produtos.excesso de frutos frente ao total de folhas conduz à Que condições morfológicas ou fisiológica auma produção qualitativamente inferior, bem como velocidade de circulação da seiva em uma planta édepauperamento da árvore e comprometimento da alterada?produção da próxima safra. a) maior quando ela se encontra em fase de Por outro lado, o crescimento vegetativo crescimento vegetativo intenso, com grandeforte tende a produzir poucos frutos, de forma que o divisão e crescimento celulares;equilíbrio entre essas duas fases promove produções b) A circulação da seiva será tanto mais intensaconstantes e mantém o crescimento vegetativo. quanto mais retilíneo for o ramo; Esse equilíbrio está ligado principalmente às Como decorrência, dentro de certos limites,reservas de carboidratos e sua utilização pela planta. quanto maiores forem os obstáculos que se opuseremAssim, a poda tem a função de equilibrar o acúmulo e à livre circulação da seiva em uma planta ou ramo,a utilização de carboidratos pela planta. tanto maior será sua predisposição para florescer e Um exemplo seria o pessegueiro. Essa frutificar.relação é de 1 por 40, ou seja, para cada fruto, 40 Nisso baseiam-se as conhecidas técnicas defolhas. forçamento da produção, como anelamento, A circulação da seiva na planta está ligada estrangulamento e ferimento do caule, este muitoao transporte ascendente de nutrientes e descentendes usado em mangueiras pelos caboclos brasileiros.de car boidratos e compostos do metabolismo Por outro lado, as podas sucessivas feitas emsecundário. uma mesma unidade produtiva criam obstáculos à A seiva tem sua ascendência ligada à circulação da seiva, favorecendo a produção emtranspiração (diferença de potencial e difusão) ou plantas vigorosas ou jovens. Em plantas velhas oudescendente pela capilaridade e diferença de fracas a poda deve, em contrapartida, aproximar aSebastião Elviro de Araújo Neto 90
  • 92. Poda das plantas frutíferasunidade produtiva da estrutura básica da planta, 4º - O desbaste de um ramo secundário não sóeliminando a tortuosidade da sucessão de ramos. aumenta o vigor do ramo principal, como tambémc) Os ramos em posição vertical favorecem uma inibe ainda mais a brotação das gemas axilaresmaior velocidade de circulação da seiva em seu nele existentesinterior; Ramos verticais dificilmente florescem, Desbaste é a eliminação total de um ramo,sendo por isso mesmo chamados de “ladrões”. Por por meio de um corte raso feito na sua base. Essaessa razão, e por absorverem grande quantidade de poda remove os ramos laterais, mas se for deixadaseiva, em detrimento das demais ramificações intacta a extremidade do ramo principal, aumentaráexistentes no ramo sobre o qual se desenvolvem, seu vigor. Sua prática avoluma excessivamente asesses ramos devem ser eliminados ainda no início de dimensões da copa, conferindo-lhe uma forma maisseu desenvolvimento, por meio de um corte raso na aberta. Induz, também, a frutificação nassua base, ou através de um corte inclinado de 15 a 20 extremidades dos ramos longos para espécies quecm de altura, quando se pretende aproveitar uma possuem o florescimento na extreminade dos ramos,brotação lateral para preencher um vazio existente na como amangueira.copa. 5º - O encurtamento do ramo favorece od) Após o amadurecimento dos ramos novos a aparecimento de brotação lateralvelocidade de circulação da seiva no interior daplanta diminui; Encurtamento do remo elimina a dominância apical, por supor-se que há redução da produção de Nessa ocasião, acumulam-se, nesses órgãos, auxinas e da relação C/N, com isso, as gemas axilaresgrandes reservas de fotossintatos, que criarão as passam á se desenvolver. Essa brotação é maiscondições para que as gemas vegetativas sejam vigorosa do que aquela originária da gema apical,transformadas em frutíferas. caso o ramo não tivesse sido podado. Entretanto, Para as espécies que apresentam ramos como não chega a compensar a porção retirada com amistos (vegetativo e reprodutivo), como goiabeira, a poda, a sua pratica confere à planta uma forma maisfrutificação ocorre simultanemante com o baixa e compacta.crescimento vegetativo e o acúmulo de carboidrato. Para espécies como a goiabeira, que Após a colheita das frutas os fotossintatos produzem em ramos mistos, o encurtamento é desão armazenados para a próxima safra ou para novo grande importância por estimular as brotações lateraiscrescimento. que contém gemas floríferas. Durante o período de repouso, as plantas2º. A seiva dirige-se com maior intensidade para armazenam fotossintatos predominantemente nosas partes altas e iluminadas da copa tecidos jovens, existentes na extremidade do ramo, enquanto a disponibilidade de nitrogênio é maior nos Nas posições altas e externas da planta a tecidos mais velhos, que se encontram na sua base.transpiração e a fotossíntese são mais intensas, gerando Quanto mais severo for o encurtamento feitomaior pressão negativa de água, o que resulta no fluxo em um ramo, mais estreito será a relação C/N nosascendente da seiva bruta. Pela mesma razão, os ramos tecidos próximo à gema que ficará na posiçãoenfolhados atraem muito mais seiva bruta do que os que terminal, razão pela qual esse crescimento é maispossuem poucas folhas. Ainda como conseqüência vigoroso e menos frutífero que o de plantas nãodesse princípio, os ramos secundários próximos à podadas. Assim, se o encurtamento for feito deextremidade do ramo primário recebem mais seiva que maneira insuficiente, a planta produzirá uma grandeos situados em sua base. quantidade de frutos pequenos e de baixa qualidade; Assim, ramos no interior da copa dificilmente se muito severo, o ramo vegetará intensamente e nãopossuem capacidade para florescer e sua eliminação produzirá.durante a poda promover maior circulação de ar e menor O crescimento adicional apresentado porincidência à doênças. uma planta podada não é suficiente para compensar a porção retirada, razão pela qual a poda é, na3º - Quanto mais amplo for o ponto de inserção de realidade, um processo ananicante.um ramo, mais seiva por ele, circulará Esse nanismo pela planta não compensar a porção retirada com a operação, que seria acrescida A taxa de translocação é diretamente do novo crescimento que ele teria caso a planta nãoproporcional à secção dos vasos condutores. Esse tivesse sido podada.aspecto, pela sua importância, deve ser considerado A poda feita logo após um fluxo dequando se faz a seleção dos ramos que permanecerão crescimento é mais ananicante, não só porque ana planta por ocasião das podas. planta acabou de utilizar suas reservas para realizá-lo, mas também porque a poda pode estimular um novo crescimento, exaurindo-a ainda mais. Como a plantaSebastião Elviro de Araújo Neto 91
  • 93. Poda das plantas frutíferasfica no final com menor número de folhas, a entanto, esse estímulo sempre existe, e uma podareposição das reservas é mais difícil e lenta. desequilibrada, que reduz mais severamente certas A poda de plantas sempre-verdes não tem o partes da copa que outras, leva à produção de ramosefeito estimulante da poda de inverno, nem o efeito “ladrões” na porção mais afetada pela operação.depressivo da poda de verão executada em plantasdecíduas. 7º - A poda da parte aérea tende a reduzir, na Tanto o desbaste como o encurtamento são mesma proporção, o volume do sistema radicularmétodos igualmente importantes na formação emanejo de uma árvore frutífera; o encurtamento é Há uma relação ótima entre o tamanho damais valioso na fase de formação, por facilitar a copa e do sistema radicular de uma planta que elaobtenção de uma copa bem-conformada, enquanto o procura manter. A redução da copa através da podadesbaste favorece a produção de ramos frutíferos e a influi no tamanho do sistema radicular, resultando emsua manutenção em boas condições. Por outro lado, à morte de parte deste até que o equilíbrio do conjuntomedida que a planta vai ficando mais velha, ela deve seja restabelecido. O equilíbrio entre a parte aérea e oreceber mais desbaste e menos encurtamento. Entre sistema radicular rompido pela poda é restabelecidooutras formas de supressão de ramos ou de suas mais rapidamente nas plantas sempre-verdes.partes, as mais importantes são: Entretanto, o crescimento total é menor que o de umaDesponte: é o encurtamento praticado em planta não podada.verde, sobre a extremidade do ramo novo. Sua práticadiminui o vigor da planta e reduz seu porte. 8º. Ramos em ângulo agudo são fracos e tendem aDesbrota: é a intervenção que se faz em verde, para se quebrar quando sob pressãoeliminar ramos supérfluos e concorrentes.Poda em coroa: é o encurtamento total do ramo, que O vigor estrutural de um ramo pode serfica reduzido à “coroa”, que é a porção mais grossa prognosticado com bastante exatidão com base na suaexistente em sua base e onde existe um cordão de aparência. Essa fraqueza estrutural dos ramos em ângulogemas. agudo deve-se à falta de um câmbio contínuo e àPoda em esporão: é o encurtamento deixando-se compressão da casca para fora, no ponto de bifurcação.apenas a base do ramo, geralmente com duas ou trêsgemas, ou com quatro a seis centímetros de 7.2 Poda e condução de frutíferascomprimento.Poda em vara: é o encurtamento em que se deixa o 7.2.1 Hábitos de frutificação de algumas espéciesramo com um número maior de gemas, em geral com10 a 20 cm de comprimento. É indispensável saber que parte da planta deve ser podada, pois, há ramos cuja supressão é6º. Quanto mais severa for a poda, maior será o indispensável, mas outros, sua eliminação redundariavigor da brotação resultante. em grave prejuízo para a produção, porque neles Esse efeito da poda pode ser explicado pela encerram a própria safra de frutos dentro de suasmaior disponibilidade relativa de nitrogênio gemas.acumulado pela planta na porção mais velha de seus A fim de compreender e entender asramos, bem como pela maior quantidade disponível necessidades de poda das plantas sem comprometer ade reservas acumuladas em ramos, troncos e raízes, produção, é necessário um conhecimento prático dospara os pontos de crescimento que permanecem na seus hábitos de frutificação. Conforme a natureza dosplanta apos a operação. Pela mesma razão, a poda ramos que possuem, as plantas frutíferas podem sersevera, freqüentemente, favorece também a divididas em três grupos: ramos especializados,frutificação em plantas senis. ramos mistos e ramos do ano. Isso é verdadeiro para as plantas de climatemperado, que têm um período de repouso bem a) Plantas com ramos especializadosdefinido antes de iniciarem novo ciclo produtivo,quando há acúmulo de fotossintatos nos ramos, São apresentados por algumas espécies,troncos e raízes, ou para plantas sempre verdes principalmente de folha caducas, que só produzemregularmente submetidas à poda severa. nestes ramos. Os demais ramos dessas plantas À medida que a planta se habitua ao novo produzem brotos vegetativos e folhas. Ex.: macieirasmanejo, ela passa a responder bem este tipo de poda, e pereiras.possivelmente por se adaptar nutricional e São ramos geralmente curtos e muitos deleshormonalmente ao novo sistema ao qual está sendo denominados esporões, com as seguintessubmetida. denominações: De qualquer forma, no caso das plantas Dardos: são estruturas pequenas e pontiagudas, comsempre-verdes, o estímulo ao novo crescimento entrenós muito curtos. Apresentam uma roseta decausado pela poda severa é sempre menos intenso folhas na extremidade, sendo pouco maior que umaque no caso das espécies de folhas caducas. No gema.Sebastião Elviro de Araújo Neto 92
  • 94. Poda das plantas frutíferasBolsa: parte curta, inchada, com enorme quantidade Ramos Lenhososde substâncias nutritivas, que se formam no ponto deunião da fruta colhida com o ramo. Pode dar origem a Caracterizam-se pelo vigor, pelo aspecto danovas gemas florais, dardos, lamburdas, brindilas ou casca, normalmente lisa, e pelos internódiosvários deles de cada vez. Geralmente, são originadas relativamente longos.a partir de um esporão depois de vários anos. Os ramos lenhosos, segundo sua origem eBrindilas: são ramos finos, com diâmetro de 3 a posição, podem dividir-se em adventícios e ladrões.5mm e de 10 a 20 cm de comprimento. Em sua ponta, Os ramos adventícios são aqueles que têmpodem apresentar um dardo, uma gema vegetativa ou origem em causa mecânica: pancada, incisões etc.floral. Surgem em plantas mal podadas ou naquelas Os ladrões têm origem em gemas aparentes.velhas e não tratadas. Eles se classificam, segundo a sua localização, emLamburda: ramo curto com nodosidades na base, naturais e bravos. Os naturais são aqueles que nascemsem gemas laterais, podendo terminar em gemas das gemas do enxerto e os bravos, de gemas do porta-vegetativas ou floríferas (coroadas). enxerto.Botão floral: forma arredondada e destacada, em Os ramos recebem denominação particular,geral, apresenta um volume maior que as gemas de acordo com a sua posição na árvore. Assim, asvegetativas. primeiras ramificações, que partem diretamente do tronco ou da haste, chamam-se pernadas. Destasb) Plantas com ramos mistos surgem ramos que são denominados braços. As ramificações dos braços dizem-se genericamente Além de frutificarem sobre os esporões, ramos. Recebe a denominação de ramo-guia oufrutificam também sobre os ramos do ano anterior. ortotróficos aquele que tem por função prolongar aEssas fruteiras possuem, consequentemente, copa em altura. Os ramos que crecem na horizontalcrescimento vegetativo e produção de flores, já que são denomiados de plagiotróficos.os seus ramos possuem gemas vegetativas efloríferas. Exemplos: pessegueiro, ameixeira,goiabeira (Fig. 7. 1B).c) Plantas com produção em ramos do ano A frutificação surge sobre os ramos dabrotação nova. O ramo frutífero, ao invés de serformado no inverno, aparece na primavera e floresceapós certo grau de maturação. Ex.: Plantas cítricas,caquizeiro, figueira, mangueira, abacateiro.7.2.2 Orgãos das plantasGemas São órgãos produtores de ramos e folhas(vegetativas) ou flores (floríferas), que variam noaspecto, na forma, no tamanho e na distribuição, de Figura 7.1 – (A) Ramo vegetativo e (B) misto.espécie para espécie. As gemas de folhas ou lenhosas distinguem-sedas floríferas ou de frutos pela sua constituição interna e 7.3 Tipos de podaexterna. As de frutos são quase sempre mais volumosas,de forma oval-alongada, e as de lenho são mais 7.3.1. Quanto à Fase da Vida das Arvoresalongadas e afuniladas. As primeiras apresentam-semais macias ao tato, e as últimas, mais ásperas. Quanto a fase de vida das árvors, as podas As gemas podem ser naturais ou adventícias. podem ser: Formação; Frutificação eAs naturais são aquelas que surgem nos ramos Rejuvenecimento.normalmente segundo a tendência da planta, e asadventícias, as que emergem sob ação mecânica. a) Poda de formação: corresponde a poda nas A duração das gemas está intimamente árvores novas durante a fase de crescimento vegetativo erelacionada à biologia da planta e aos tratos culturais. formação da planta. O seu objetivo consiste emHá espécies em que as gemas não ultrapassam um construir, no mais curto período possível, umaciclo vegetativo, e outras em que duram vários anos. arquitetura de copa que forneça um suporte adequado à máxima produtividade e sanidade das plantas. Essa arquitetura geralmente consiste em uma forma de tarça-invertida, de forma que favoreça os tratos culturais como o controle fitossanitário,Sebastião Elviro de Araújo Neto 93
  • 95. Poda das plantas frutíferasensacamento e colheita dos frutos, além de o equilíbrio entre as funções vegetativa e produtiva,possibilitar o plantio de maior número de árvores por buscando dentro dos limites possíveis, realçá-las aounidade de área. Divide-se em poda de educação, máximo;transplantação e formação propriamente dita. Educação Tem por finalidade orientar as plantas noviveiro, desde o seu nascimento até o momento emque de lá serão retiradas. Transplantação É praticada para manter o equilíbrio entre aparte aérea e a parte subterrânea da planta. Por maiorque seja o cuidado no desplante de uma muda, hásempre perda de raízes, e as plantas são tanto maissensíveis quanto mais velhas forem. Formação propriamente dita A poda de formação na forma de tarça-invertida é dada durante os quatro primeiros anos daplanta. No primeiro ano, a árvore normalmenteapresenta uma haste única, e a poda consiste emsuprimir a parte superior à altura desejada e permitira emissão de três a quatro pernadas. Figura 7.2 – Poda de formação vista de cima: A) A poda, no segundo ano, limita-se a eliminar o pernadas; B) braços; C) ramos.excesso de ramos e deixar apenas três a quatro,distantes entre si de 15 a 20 cm. A poda de frutificação interfere, diretamente, A distância das pernadas entre si exerce com os órgãos ou ramos de frutos especializados. E umainfluência na resistência da copa. Quando muito vez que tais órgãos e ramos possuem característicaspróximas umas das outras, há tendência de funcionais diferenciadas, a sua poda deve-se levar emdesaparecerem com a idade, pelo engrossamento, conta tais diferenças. Um ramo misto, por exemplo,formando verdadeiras bifurcações. Estas, quando depois de frutificar uma vez, não volta a produzir, razãoopostas, fendem-se facilmente. porque os pessegueiros, que produzem basicamente Deve-se levar em consideração também o sobre estes ramos, necessitam de uma poda queângulo de inserção das pernadas. Quando muito promova a sua renovação anual, como meio ou processoagudo, a copa tende a fechar, o que não é de manter uma frutificação adequada e constante. Já nasconveniente. pereiras e nas macieiras, cuja produção predomina Escolhidas as pernadas que irão formar o principalmente nos esporões, órgãos que duram porarcabouço da planta, elas são podadas a 0,20 ou 0,30 vários anos, a renovação anual destes órgãos não só nãom de comprimento ou deixadas de três a cinco gemas. é necessária, como se tomaria desastrosa para estas frutíferas.As últimas gemas devem estar situadas lateralmenteem relação ao eixo da planta. No terceiro ano, Intensidade da podaprocede-se de maneira semelhante ao segundo, A intensidade depende da idade, do número deobtendo-se os ramos. Sobre cada pernada deixam-se pernadas, do vigor, do hábito de vegetação.ramos dispostos lateralmente (Fig. 7.2). A poda, com relação à intensidade, divide-se Muitas espécies já entram em produção durante em curta, longa e média.o segundo ou terceiro ano (cupauçuzeiro, araçazeiro- A poda curta ou drástica consiste na quaseboi). Outras, porém, exigem mais um ano de formação. total supressão do ramo. Pode-se praticar ainda aFinalmente, no quarto ano, as plantas já mostram sinais poda ultracurta, a qual deixa sobre o ramo de uma ade entrar em frutificação e, em vista disso, a poda é feita duas gemas. A longa, também chamada leve, deixa oeliminando-se apenas um terço a um quarto do ramo com o máximo de comprimento (0,40 a 0,60comprimento dos ramos. A poda curta ou drástica m). A poda média é um tipo intermediário entre osatrasará o inicio do florescimento, forçando uma maior dois anteriores.vegetação. c) Poda de rejuvenescimento: são podas b) Poda de frutificação: engloba o conjunto realizadas em árvores em decadência, mas em fase quede intervenções aplicado nas frutíferas, não só no evidencie ainda capacidade de recuperação. Destina-seperíodo em que a arquitetura se aproxima da sua esta poda a revigorar a arquitetura e renovar a vegetaçãoforma definitiva, como também durante a fase e órgãos de frutificação das plantas.produtiva das plantas. Seu objetivo principal é manter Há pomares onde, pela deficiente formação, porSebastião Elviro de Araújo Neto 94
  • 96. Poda das plantas frutíferascarência ou inadequação de podas de frutificação, por arquitetura, como no caso das pernadas e dos braços,adubações deficientes, por defeitos cumulativos por exemplo, de forma a evitar a sua competição e adesfavoráveis de natureza cultural, climática ou de outra favorecer, portanto, um maior e mais rápidoordem, as árvores começam a gerar desequilíbrios que, crescimento vegetativo dessas ramificações;progressivamente, vão-se conduzindo para uma fase deesgotamento precoce. Nestes casos, uma poda de e) Poda de equilíbrio: tem como finalidaderejuvenescimento, pode ainda recuperar as árvores em restabelecer o equilíbrio relativo entre os diversosníveis econômicos de produção. eixos do esqueleto das plantas, notadamente das Essa poda corresponde a uma renovação mais pernadas e da flecha. Esta poda baseia-se naou menos intensa e profunda do esqueleto da planta e, aplicação de inclinações sobre esses eixos.dos próprios órgãos de frutificação. Efetua-se essapoda encurtando bastante as pernadas, braços e outros f) Poda de abertura central: é a desbrota doscomponentes do esqueleto. Os suportes e órgãos de ramos que, não interessando à formação do esqueletofrutificação remanescentes, notadamente os esporões, das plantas, se dirigem para a parte interna das copas,serão revitalizados, se inseridos em boa localização e promovendo o seu adensamento ou estabelecendoem condições de aproveitamento. De outro modo competição com outros ramos essenciais à estrutura.serão suprimidos, tal como todos os ramos secos,debilitados e inúteis. g) Poda lateral: esta poda tem a finalidade de A intensidade da poda em cada árvore deve controlar o crescimento lateral das plantas, evitando apermitir que a sua estrutura fique equilibrada, de sobreposição entre plantas na linha e mantendo amaneira a obter uma reação vegetativa quanto possível distância de trabalho entre as ruas.uniforme. As brotações e ramificações provenientes danova vegetação devem ser acompanhados depois com h) Poda de topo: esta operação visa promoverpodas em verde promovendo a reconstituição da copa, o rebaixamento da copa, de modo a evitar que estano mais curto período possível. atinja uma altura indesejável e inapropriada para a execução de diversos trabalhos culturais, desde a 7.3.2. Quanto à Época em que são colheita dos frutos, até aos tratamentos fitossanitáriosExecutadas e á própria prática das podas. Emprega-se para esta finalidade, encurtamentos laterais, já que estes não a) Poda de inverno ou seca: também criam os reflexos negativos, derivados da reaçãodesignada por poda de inverno, sendo praticada nos vegetativa terminal, que ocorreriam na hipótese defins do inverno, próximo da época de brotação, no usar simples encurtamentos. Freqüentemente, a podaperíodo, portanto, em que as frutíferas caducifólias de recuo também é utilização quando as árvoresestão despidas de folhas. Porém, em virtude dos começam a enfraquecer e os ramos terminais dasefeitos negativos e prejudiciais dos encurtamentos pernadas e braços mostram uma debilitaçãoefetuados nesta época, as podas em seco tendem, vegetativa e necessitam, portanto, de uma renovação.atualmente, a se restringir ao mínimo, durante aformação e condução das árvores; i) Poda de levantamento da saia: Consiste na eliminação dos ramos que estiverem até 0,70m de b) Poda verde ou de verão: engloba todas as altura. Essa operação ajuda no controle das ervasoperações de poda que são praticadas no período em daninhas e a melhor distribuição da água de irrigaçãoque as plantas se mantém em atividade vegetativa, por aspersão; também evita que os frutos dos ramosquando os ramos se encontram, portanto, verdes e baixos entrem em contato com o solocom folhas. As podas em verde apresentamsubstancial relevância nos modernos sistemas de j) Poda de limpeza: a poda de limpezacondução. objetiva a retira de ramos doentes, praguejados ou quebrados pelo processo de colheita ou sobrepeso das c) Podas anuais ou de produção frutas. Estas podas estão aqui divididas de forma As podas anuais são aplicadas geralmente em didática, mas elas podem ser realizadas isoladamenteplantas decíduas e referem-se às realizadas durante a para atender cada um de seus objetivos ou realizadasfase produtiva da planta (essas são naturalmente numa única operação que atenda várias finalidades.realizadas após a colheita). Nesta prática estãoincluídas as atividades de limpeza, levantamento decopa, abertura central, equilíbrio, correção da 7.3.3 Cortesarquitetura, além da poda lateral e de topo. Encurtamento d) Poda de correção da arquitetura: objetiva Consiste na eliminação de parte de um ramosuprimir os ramos que concorrem com as através de um corte praticado junto a uma gema. Oramificações selecionadas para a formação da encurtamento é o tipo básico de intervenção realizadoSebastião Elviro de Araújo Neto 95
  • 97. Poda das plantas frutíferastanto na poda de frutificação como condução, custa de cortes efetuados na casca e até na parte doapresentando efeitos imprevisíveis e danosos. lenho, no presente é conseguido pela própria Realizado na fase de crescimento os compressão dos tecidos vasculares.encurtamentos das árvores sob condições normais,promove quase sempre uma intensa brotação a partir Inclinaçõesdas gemas situadas na proximidade dos cortes. São realizadas estas operações, deslocando aQuando aplicados em toda a árvore e de forma posição dos ramos de sua direção vertical, ou quasesistemática, para promover a ramificação das vertical, para uma posição oblíqua. A inclinação,pernadas, braços ou de outras estruturas, com a porém, abrange todo o comprimento dos ramos, umafinalidade de formar o esqueleto definitivo das vez que ela é praticada justamente na própria baseplantas, sabe-se que a intensa e vigorosa renovação desses ramos.vegetativa, que é caracterizada por essas Quanto maior for a inclinação dada a um ramointervenções, atrasa a entrada das árvores na em relação à vertical mais enfraquecido este ficará.frutificação. Esta prática realizada no final do período Assim, quando um ramo, destinado à formação dedo repouso vegetativo (poda de inverno) agrava ainda uma pernada se apresentar com pouco vigor emmais esses efeitos. relação a outro, deve ser deixado com uma inclinação menor. Ou seja, quando acontecer um desequilíbrio Supressão vegetativo entre dois ramos, podemos realizar Esta operação é a eliminação total do ramo. inclinações adequadas para restabelecer seuAs supressões são bastante utilizadas durante a poda equilíbrio inclinando bastante o ramo mais vigoroso ede formação, principalmente em plantas que chegando até a deixar o mais fraco, se disso for oapresentam considerável vigor vegetativo. Em caso, na própria verticalárvores com atividade vegetativa pouco acentuada, as As inclinações dos ramos constituemsupressões devem ser utilizadas com cuidado e só intervenções muito comuns nos modernos sistemasdurante a fase em que as plantas mostram, de fato, de condução. Porém, a inclinação dos ramosuma atividade vegetativa mais intensa, para não destinados a formar pernadas, normalmente não éfavorecer sua debilitação precoce. E ainda aplicada feita de uma só vez, mas por sucessivas intervenções.na poda de frutificação, visando a eliminação dos A primeira inclinação que os ramos sofrem, pararamos excedentes e sem interesse para a produção ou abrir o esqueleto das plantas, dá-se o nome devegetação das árvores. inclinação de abertura. As que se seguem são destinadas a ajustar os ramos a posições mais Desponta favoráveis ao seu desenvolvimento e ao melhor Constitui num simples encurtamento, praticado equilíbrio da copa, sendo designadas por inclinaçõescom a planta em vegetação, eliminando cerca de 5 a 20 de ajuste. Finalmente, as últimas inclinações que secm, ou mais de sua extremidade. Entretanto, estas praticam, deixando as pernadas na sua posiçãointervenções devem ser praticadas preferencialmente definitiva são, chamadas de inclinações definitivas.sobre árvores vigorosas para não enfraquecer mais osramos e, às vezes, as próprias plantas. As despontas são Horizontalizaçõesnormalmente utilizadas na fase de condução das plantas,evitando-se assim qualquer concorrência em relação aos As horizontalizações são inclinações queramos que foram selecionados para compor o esqueleto atingem 90º em relação à vertical, deixando portantodessas plantas. os ramos numa direção horizontal. Há casos, porém, em que os ramos por terem de ser desvigorizados, são Desbrota levados a uma posição invertida, isto é, a extremidade Considerada como uma supressão, aplicada dos ramos é deixada num plano mais baixo que aaos ramos do ano, tão logo começam a crescer e a horizontal. As horizontalizaçães são mais comumenteconcorrer com o crescimento e evolução daqueles utilizadas em ramos subsidiários de elaboração ouque deverão formar o esqueleto. Trata-se de uma frutificação e, com caráter temporário.poda em verde, objetivando eliminar ramossupérfluos e concorrentes, chamadas também de Desbaste ou raleio de frutospodas de concorrência ou de limpeza. O desbaste ou raleio de frutos consiste na Arqueamentos remoção de uma parte da produção, antes da Aqui englobam todas as operações que maturação morfológica dos frutos.alteram a posição normal no topo ou em parte, a O desbaste tem como objetivo, reduzir odireção original dos ramos. O efeito desta prática é número de frutos por planta, melhorando a qualidadeidêntico ao das incisões ou descorticações, diferindo, dos frutos remanescentes (tamanho, cor, sabor eentretanto, no processo de promover o bloqueio da sanidade); evitando a quebra dos ramos; reduzindo asseiva. Enquanto nos últimos casos, esse bloqueio é despesas com a colheita dos frutos imprestáveis; alémobtido pela interrupção dos tecidos vasculares, à de evitar a alternância de safra, comum em diversasSebastião Elviro de Araújo Neto 96
  • 98. Poda das plantas frutíferasespécies de citros, especialmente tangerinas (Coelho Anais... Fortaleza: Sociedade Brasileira dee Medina, 1992; Marinho et al., 1996; Simão, 1998). Fruticultura, 1998. p.258. O desbaste pode ser feito manualmente, SHARMA, R. K.; AWASTHI, R. P. Effect of growthretirando-se os frutos, com a supressão de ramos ou regulators on crop regulation of Kinnow (Citrusatravés de aplicação de hormônios vegetais. nobilis x Citrus deliciosa). India Journal of Algumas espécies apresentam estreita Horticulture, v.47, n.2, p.162-166, 1990.correlação entre número de folhas e qualidade do SILVA, J. A. Z A. da; DONADIO, L. C.fruto. Assim, em citros, é boa a relação de um fruto Reguladores vegetais na citricultura. Jaboticabal:para cada vinte folhas. Funep, 1998. 38p. (Boletim citrícola, nº. 3). Como o desbaste constitui uma operação SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:onerosa, tem-se experimentado o uso de hormônios ou FEALQ, 1998. 760p.herbicidas para eliminar o excesso de flores e frutos. SOUZA, P. V. D. de; KOLLER, O. C.; SCHWARZ, O Ethel quando aplicado em concentrações de S. F.; BARRADAS, C. I. N. Influencia de200 a 350 mg.L-1, pulverizado na forma de neblina concentrações de etefon e pressão de pulverizaçãosobre a copa das plantas com frutos de 0,5 a 2,0 cm foliar sobre a produção de frutos e o teor dede diâmetro, promove o raleio de 40 a 70% dos frutos substâncias de reservas em tangerineiras. Pesquisa(Silva e Donadio, 1992; Sharma e Awasthi, 1990). Agropecuária Brasileira, v.28, n.5, p.613-619, maioDosagens baixas (100 mg.L-1) podem não promover 1993.raleio significativo de frutos ao nível de não quebrara alternância de produção e concentração alta deethrel (300 mg.L-1) promove excessivo raleio (Souzaet al., 1993). Em tangerineira ‘Ponkan’, emconcentração de 300 mg.L-1, o Ethrel aplicado aos 40dias após o florescimento promove até 95% de raleiode frutos, incrementando o tamanho e peso dos frutosremanescentes (Pacheco e Castro, 1998). E quandoaplicado acima de 500 mg.L-1, o etefon pode causarabscisão de folhas (Domingues et al., 2001). O ácido naftaleno acético a 0,2% numa únicaaplicação, ou 2,4 D a 0,001%, tem sido empregado. O2,4 D, embora efetivo, causa certas distorções nasfolhas.7.4 ReferênciasCHALFUN JUNIOR, A.; CALFUN, N. N. J. Poda: ahora da tesoura. <www.ufla.br> . Acesso em 17 de12 de 2006.COELHO, Y. da S.; MEDINA, V. M. Desbaste defrutos. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DECITRUS, 2, 1992, Anais... Campinas. FundaçãoCargil, 1992. P.187-194.DOMINGUES, M. C. S.; ONO, E. O.;RODRIGUES, J. D. Reguladores vegetais e odesbaste químico de frutos de tangor Murcot.Scientia Agrícola, v.58, n.3, p.487-490. jul/set 2001.MARINHO, C. S.; BARROSO, D. G.; SOUZA, M.de. Efeito do desbaste de frutos e do KNO3 + óleomineral sobre a produção da ‘Murcot’ (Citrussinensis L. x Citrus reticulata Blanco) na entressafra.In: CONGRESSO BRASILEIRO DEFRUTICULTURA, 14, 1996. Curitiba, Anais...,Curitiba: Sociedade Brasileira de Fruticultura, 1996.p.134.PACHECO, A. C.; CASTRO, P. C. R. Efeito dereguladores vegetais no desbaste químico datangerineira ‘Ponkan’ (Citrus reticulata Blanco). In:CONGRESSO BRASILEIRO DEFRUTICULTURA, 15, 1998, Poços de Caldas.Sebastião Elviro de Araújo Neto 97
  • 99. Florescimento e frutificação8. FLORESCIMENTO E FRUTIFICAÇÃO A seguir alguns casos que ocorrem com o mamoeiro. O florescimento e a frutificação dependem de O mamoeiro: o mamoeiro apresenta, segundocondições internas e externas, fatores que alteram a alguns autores oito ou mais classes de plantas,frutificação das espécies frutíferas de um ano para o segundo a distribuição da flor. E dependendo aindaoutro. A frutificação difere de região para região, da combinação ou separação dos estames e pistilo.com o manejo de cultivo, condições edafoclimáticos As principais classificações são as seguintes:e da própria biologia da espécie. 1) plantas com flores só pistiladas; 2) plantas com flores só estaminadas;8.1 Fatores internos que afetam a frutificação 3) plantas com flores estaminadas e hermafroditas (polígamas); São vários os fatores internos que afetam a 4) plantas com flores estaminadas efrutificação nas fruteiras, podendo serem hermafroditas com pólen estéril (pseudo-classificados em evolução da espécie, genéticos e hermafroditas);fisiológicos. 5) plantas com flores estaminadas e hermafroditas nas quais nem o pistilo nem os estames8.1.1 Evolução são férteis; 6) plantas com flores estaminadas, pistiladas e Na natureza, os vegetais possuem fertilização hermafroditas;livre, mesmo em espécies que desenvolve a 7) plantas com flores pistiladas eautogamia e principalmente nas alogamas, ocorre o hermafroditas;cruzamento de gametas. Este é o fator de garantia, 8) plantas com flores pistiladas e estaminadas.que mantém o vigor da espécie em seu habtat natural. Os tipos 2 e 5 não frutificam. Os tipos 1 e 4 Devido à polinização cruzada (alogamia) são auto-estéreis. Os tipos 1, 2 e 3 são os maisaparecem formações distintas, oferecendo muitas comuns.vezes dificuldades à autopolinização, tomando-a, emcertos casos, impraticável. As plantas auto-estéreis b) Heterostiliaapresentam sérias dificuldades na exploraçãoeconômica, sendo necessário um estudo biológico, É o fenômeno pelo qual certas espéciespois elas exigem uma disposição ou distribuição toda apresentam duas a três classes de indivíduos, cujosparticular no pomar para produzirem. pistilos e estames têm comprimento variável. Essa A tendência evolucionária afeta a distribuição peculiaridade de forma e de estrutura é de tale o número de flores nos ramos de uma mesma árvore natureza que impede a autopolinização e faz com quee altera completamente a forma e a fertilização da a polinização cruzada seja mais efetiva. Se esta nãoflor. se dá, a planta pode não frutificar, mesmo que seus As características evolucionárias mais órgãos sejam desenvolvidos. Há dados registrados deimportantes são: flores incompletas, heterostilia, impossibilidade de polinização devido à heterostilia,arranjamento estrutural, dicogamia, impotência da pois se um inseto visitar uma flor longistila podeflor, impotência do pólen. tocar a antera mas não ter altura suficiente para tocar o estigma da flor brevistila e vice versa.a) Flores incompletas ou imperfeitas: plantas Poderia ainda ocorrer a polinização direta damonóicas e dióicas flor brevistila, pela queda do pólen, por possuir filete mais longo, porém isso dificilmente acontece, por se A maioria das frutíferas possui flores dar, neste caso, o fenômeno da dicogamia, como emperfeitas, isto é, bissexuais (plantas monoclinas). Há, gravioleira com brevistilia além da protoginia.entretanto, outras que apresentam apenas um sexo: Quando se dá a autopolinização ou queda do pólen desão as chamadas unissexuadas. Neste caso, podem outra flor de estilete de igual altura, terá lugar aexistir flores masculinas e femininas separadas na fecundação. É, porém, comum a ocorrência demesma planta (monóicas) ou em plantas diferentes esterilidade em diferentes graus, induzindo o fator de(dióicas). incompatibilidade. No caso de flores unissexuadas, há,obrigatoriamente, a polinização cruzada, que pode ser c) Arranjamento estruturalfeita pelo vento (anemófila), pelos pássaros(ornitófila) e pelos insetos (entomófila). As flores de uma variedade de aparência Há ainda que se considerar certas espécies que normal podem apresentar pequenas particularidadesproduzem tão pouco pólen, como algumas variedades estruturais que impedem em parte a polinização.de ameixeira, que podem ser classificadas como Em maracujazeiro o tamanho da flor e aunissexuadas. Estas, para se tornarem produtivas, distância das sépalas e corona (plataforma) para odevem ser interplantadas com outras variedades estigma, inviabiliza a polinização por abelhasprodutoras de pólen. pequenas, como a Apis melifera. Em cupuaçuzeiro, aSebastião Elviro de Araújo Neto 98
  • 100. Florescimento e frutificaçãocúculas e coroa de estaminódios, promovem uma baixa fertilização.barreira morfológica que impedem a autopolinização. Em figueira, a flor feminina desenvolve eEm manga, devido à posição em que se encontram o amadurece seis a sete semanas antes das floresfilete e o estilete, quando ocorre a deiscência, prati- masculinas, ocorrendo uma pronunciada dicogamiacamente torna-se impossível a ocorrência de protogínica, e a polinização só é realizada pela vespaautopolinização. A fertilização se dá pela queda do Blastophaga psenes.grão de pólen de outras flores vizinhas, e quase nunca Vários fatores ambientais interferem,pelo pólen da mesma flor. aumentando ou reduzindo o tempo de duração do fenômeno da dicogamia, entre eles: a umidaded) Dicogamia relativa do ar, a temperatura e a luminosidade. A dicogamia vem a ser o fenômeno que e) Impotência da florconsiste na antecipação da maturação do estigma(protoginia) ou da antera (protândria). A fixação e a maturação dos frutos dependem, A dicogamia é fenômeno de ocorrência na maioria das espécies, da queda do pólen nonormal nas plantas monóicas e dióicas e se verifica estigma, e qualquer interferência no desenvolvimentotambém com freqüência entre vegetais que da flor ou no funcionamento dos gametas resultaria,apresentam flores hermafroditas, devido à posição provavelmente, na infrutificação ou esterilidade.relativa da antera e do estigma e à biologia da flor. É comum um desenvolvimento parcial da flor Em abacateiro, anonáceas, mangueira e ou dos botões floríferos, ou o aborto do ovário ou dafigueira, é comum a dicogamia. Esta varia antera.consideravelmente com as condições ambientes e, em Em laranjeira, há degeneração do sacocertas variedades, pode ser explicada como causa de embrionário em várias etapas do desenvolvimento.falha na frutificação. Na variedade baianinha e lima ácida taiti, entretanto, O espaço de tempo entre a maturação dos dois os frutos podem desenvolver-se independentementeórgãos reprodutores pode levar muitas espécies à desse defeito, porque são partenocárpicos.esterilidade e outras à produção de frutos O aborto do saco embrionário, em certaspartenocárpicos. condições, é responsável mais pela falta de sementes Em mangueira, que apresenta flores do que pela infrutificação.bissexuadas, ocorre uma dicogamia protogínica que Em muitos casos, portanto, o aborto de parteem parte afeta o rendimento. Os estigmas encontram- dos óvulos não significa falha na frutificação, porémse receptíveis, desde as oito horas, enquanto a influi no desenvolvimento e no número de sementes.deiscência da antera só se verifica após as doze horas. Na mangueira, é comum a presença de flores O abacateiro apresenta fenômeno muito mais abortivas. Há variedades que apresentam 6 mil oupronunciado. Esse fenômeno é o responsável pela mais flores por panícula e, no entanto, a percentagembaixa produtividade de muitas variedades quando de frutificação não chega a 0,002%.cultivadas isoladas ou mesmo em mistura com outras Em bananeira comestíveis, as flores femininasvariedades pertencentes ao mesmo grupo. possuem anteras atrofiadas, o filamento é mais curto O abacateiro classifica-se, de acordo com a e o pólen, degenerado, sendo desnecessário amaturação dos órgãos reprodutores, nos grupos A e polinização, pelo crescimento do fruto ser feito porB. As flores do grupo A, ao se abrirem pela manhã, partenocarpia. As variedades selvagens apresentamapresentam o estigma receptível, porém os estames só sementes em frutos comestíveis porém nãose apresentam maduros e, portanto, em condições de comercial.soltar os grãos de pólen a partir das treze horas.Nesse período, os estigmas não se mantém mais f) Impotência do pólenreceptíveis e, portanto, não há a polinização. Nogrupo B, o fenômeno se dá de modo inverso: a flor Muitas flores morfologicamente perfeitasapresenta a antera com pólen maduro pela manhã e quando dependem de seu próprio pólen. Sãoestigmas receptíveis só a partir das treze horas. classificadas como auto-estéreis. Portanto, para que haja polinização, há a O grau de auto-esterilidade varia de regiãonecessidade de plantar no mínimo duas variedades para região, de ano para ano, porém as autoférteispertencentes cada uma a um grupo, ensejando-se apresentam-se sempre produtivas, em qualquerassim a polinização cruzada e, portanto, a situação.frutificação. Pode-se determinar a viabilidade do grão de Em anonáceas, o pólen é emitido na maioria pólen pela germinação em meio artificial.das espécies das quinze às dezesseis horas, mas osestigmas encontram-se receptíveis de doze a trinta 8.1.2 Genéticoshoras antes da deiscência das anteras. Esse atraso nasoltura dos grãos de pólen provoca a queda de grande A influência genética na frutificação estánúmero de frores durante o desenvolvimento, dada a associada à constituição fundamental do citoplasma.Sebastião Elviro de Araújo Neto 99
  • 101. Florescimento e frutificaçãoA esterilidade, em muitas plantas, característica formam e produzem sementes.hereditária, e a auto-esterilidade é uma condição A auto-esterilidade ou auto-incompatibilidadedeterminada pela herança, porém só atinge a ocorre em muitas espécies frutíferas e tem sidoperfeição dentro de condições ambientes favoráveis. registrada em certas variedades de pereira, macieira,A auto-esterilidade devida a fatores genéticos está ameixeira e oliveira. Nas espécies cupuaçuzeiro eassociada ao hibridismo, à incompatibilidade, à maracujazeiro isto ocorre em todas as variedades. Eminterfertilidade. todos esses casos, as variedades deixam de frutificar quando são autopolinizadas, mas frutificam ea) Hibridismo produzem sementes quando a polinização é cruzada. A auto-incompatibilidade é muito freqüente na A falta de frutificação ou esterilidade tem sido natureza. Nas espécies cultivadas ela se torna menosassociada ao hibridismo. Geralmente, quanto mais freqüente, em função da pressão de seleção contrária,longos ou amplos forem os cruzamentos, maiores causada pela domesticação. A auto-incompatibilidadeserão as possibilidades de ocorrer a esterilidade ou pode ser heteromórfica ou homomórfica, conformeausência de sementes. Os cruzamentos, seja ou não baseada em diferenças morfológicas entreprincipalmente os efetivados entre espécies, levam à as estruturas florais. A incompatibilidadeauto-esterilidade ou ausência de sementes, dando homomórfica, a mais importante entre as plantasorigem a frutos partenocárpicos. cultivadas, pode ser gametofítica ou esporofítica. Híbrido interespecífico de pêssego e ameixa A auto-incompatibilidade é denominadaproduz abundância de flores, mas estas não gametofítica quando é determinada pelo genótipo doapresentam pistilos ou pétalas. Os estames são grão de pólen, que é haplóide. Neste caso, a presençanumerosos, porém malformados. Em citros, muitos de determinado alelo G, de uma série de alelosdos híbridos citrange (laranja-doce e trifoliata) múltiplos, tanto no pólen como no estilete da florproduzem poucos grãos de pólen férteis e nenhum polinizada determina a incompatibilidade,gameta feminino fértil. A falta de sementes em geralmente, por meio da inibição do crescimento domuitas variedades comerciais de banana e abacaxi é tubo polínico. A auto-incompatibilidade esporofíticaatribuída à natureza híbrida de seus ancestrais e ao é similar, mas determinada pelo genótipo da plantanúmero de cromossomos. que produziu o grão de pólen, que é diplóide. Pode A esterilidade bas variedades comerciais de haver diferentes relações de dominância entre osbanana está associada, de um lado, aos cruzamentos alelos. A reação de incompatibilidade ocorre,entre espécies ancestrais. A bananeira comestível geralmente, na superfície estigmática, resultando damais primitiva era portanto um strain diplóide de inibição da germinação do grão de pólen.Musa accuminata e o desenvolvimento subseqüente No sistema esporofítico, ao contrário dofoi baseado em hibridação com Musa balbisiana e na gametofítico, podem ser encontradas diferenças emocorrência de poliploidia. cruzamentos recíprocos e homozigotos como A fertilidade da semente está relacionada à constituintes normais do sistema. As diferenças entreorigem. Assim, a Pisant Awak (ABB) chega a os dois sistemas podem ser interpretadas em funçãoproduzir treze sementes por fruto, enquanto as do tempo de ação gênica. No sistema gametofítico, osvariedades do grupo Cavendish (AAA) parecem ser fatores inibitórios, ou seus precursores, seriamtotalmente estéreis. produzidos pelos alelos S, após a anáfase da primeira A esterilidade tem suas causas nos seguintes divisão da meiose. No sistema esporofítico, estafatores, entre outros: meiose, hibridismo, estrutura produção se daria antes da anafase 1. Assim, no casohíbrida, espécies híbridas. gametofítico, dois pares de esporos bioquimicamente Em macieira, as variedades triplóides diferentes seriam produzidos (codominância),produzem pólen abortivo em grande número, e em enquanto que no sistema esporofítico todos ospereira a germinação do pólen da variedade triplóide esporos são fenotipicamente idênticos (dominânciaé muito mais baixa quando comparada com as completa).diplóides. C) Fisiológicosb) Incompatibilidade Além dos fatores da evolução e das Uma das causas da auto-esterilidade é a influências genéticas em limitar a fixação dos frutos,incompatibilidade entre o pólen e os óvulos de uma há outros, que podem ser agrupados comomesma planta, em clones ou plantas irmãos. Ambos, fisiológicos.pólen e óvulos de uma mesma variedade, são férteis, A baixa frutificação de uma árvore ou aporém falham na união. Outras vezes, o pólen causa presença de reduzido número de sementes podemqueima da flor, provocando sua queda prematura, estar relacionadas à deficiência nutritiva da planta.enquanto os estigmas não-polinizados mantêm-se Essa improdutividade pode ser causada por umafrescos e túrgidos. Entretanto, quando os estigmas desnutrição devida à alta produtividade em anosrecebem pólen de variedade compatível, os frutos se anteriores ou a um desequilíbrio na relaçãoSebastião Elviro de Araújo Neto 100
  • 102. Florescimento e frutificaçãonitrogênio/carboidrato. As causas podem estarrelacionadas a um dos seguintes fatores: As condições de desenvolvimento e vigor da • desenvolvimento do tubo polínico; planta exercem influência na formação das flores e na • polinização antecipada ou tardia; produção final. • condições internas de nutrição; As árvores que apresentam deficiências em • viabilidade do pólen; nutrição tornam-se menos efetivas para a produção. O • deficiência do pistilo. estado interno de nutrição de uma planta afeta a formação da flor e esta, por sua vez, pode apresentar Desenvolvimento do tubo polínico anteras e ovários rudimentares ou imperfeitos. O desenvolvimento do tubo polínico obedece 8.1.3 Viabilidade do pólena uma seqüência normal, característica de cadaespécie ou variedade. Muitos tubos polínicos O pólen, para se desenvolver e formar o tuboapresentam desenvolvimento lento, às vezes anormal, polínico, necessita encontrar-se bem provido. Estudosem virtude da presença de substâncias quimiotrópicas feitos em macieiras, entre árvores que apresentavamou hormonais que podem interferir na frutificação. vigor bem distinto, mostraram que as plantas mais Quando a interferência não é total, o fruto vigorosas apresentavam um índice mais elevado depode se desenvolver, porém os frutos apresentam-se grãos de pólen germináveis do que aquelas da mesmacom poucas ou nenhuma sementes e muitas vezes variedade, porém mais fracas.defeituosas. No que diz respeito à duração do período de A auto-esterilidade ocorre em maior formação do tubo polínico, as plantas vigorosasintensidade entre plantas que exibem o fenômeno da completavam o seu desenvolvimento em menos deheterostilia. vinte horas, enquanto as menos vigorosas Em árvores que apresentam o fenômeno da necessitavam de quase trinta horas. Em conseqüênciaheterostilia, o pólen de uma flor brevistila, quando cai da baixa germinação e do atraso na fertilização,sobre o estigma de uma flor longistila, leva dezoito muitas flores não se fecundam, e muitas daquelashoras para atingir o desenvolvimento completo do fertilizadas não chegam a completar o ciclo. Taltubo polínico, ao passo que, quando ocorre a fenômeno ocasiona baixa produtividade.polinização de uma flor brevistila pelo pólen de outra Em mangueira, os grãos de pólen de grandeflor brevistila, ou no caso de ocorrer entre flores número de variedades apresentam baixa viabilidade elongistilas, a duração do fenômeno é mais longa, pois muitos são incapazes de formar tubos polínicos, nãoserão necessárias 76 horas para o completo chegando a se completar. Há, pois, intensa queda dedesenvolvimento do tubo polínico. frutos, ocasionando baixa produtividade nessa Esse fato concorre para reduzir a frutificação, espécie.o número de sementes viáveis e, em certos casos,chega a ser responsável pela improdutividade. b) Deficiência do pistilo Polinização antecipada ou tardia A planta, para frutificar abundantemente, necessita encontrar ao seu alcance condições A fertilização, e conseqüente frutificação, favoráveis de nutrição, umidade e temperatura. Édepende em grande parte da polinização. Em algumas muito comum verificar-se em árvores vigorosas,espécies, como caqui, pêra e ameixeira, quando as altamente produtivas, falhas quase completas naflores são polinizadas antes da antese, ocorre menor frutificação, em determinados anos.fixação de frutos e uma redução no tamanho das A improdutividade de tais árvores muitassementes. vezes se encontra relacionada à exaustão causada por Estudos sobre outras espécies demonstraram frutificações abundantes em anos anteriores e,que, quando ocorria uma demora maior do que a embora a planta receba adubações anuais, o desgastenormal na polinização, isto é, quando ela era com a produção vegetativa, florífera e frutíferaatrasada, obtinha-se maior porcentagem de sementes impede que a árvore se recupere e se equilibre para apoliembriônicas, o que normalmente não ocorria produção em anos posteriores.quando a polinização era antecipada, pois, neste caso, As plantas em estado de recuperação muitasas sementes se apresentavam quase invariavelmente vezes exibem menor número de flores do quemonoembriônicas. habitualmente e, quando florescem abundantemente, Em mangueira, a maior porcentagem de grande parte de suas flores apresenta deficiência dosgerminação de grãos de pólen se dá antes da órgãos estaminados ou dos pistilados.deiscência da antera e, à medida que a polinização se Em mangueira, bem como em abacateiro, aatrasa, menor se torna a possibilidade de formação e deficiência pistilar verifica-se comumente de modoprodução de frutos (SIMAO, 1961). especial nos anos seguintes aos de grande produção. As panículas de mangueira exibem maior Condições internas de nutrição número de pistilos perfeitos e frutificação maisSebastião Elviro de Araújo Neto 101
  • 103. Florescimento e frutificaçãointensa no terço médio e na parte apical do que na pode atuar sobre o cavalo, modificando o seuparte basal (SIMAO, 1960). desenvolvimento Inúmeros fatores interferem na fertilidade da Em videira, a variedade Moscatel deflor. Assim, queda prematura de folhas, quer por Hamburgo, em certas localidades, quando enxertadaataque de doenças quer por outras causas, bem como sobre Rupestris-du-Lot, deixa de frutificar, devido àpoda mal executada ou excessivamente rigorosa, queda das flores (coulure).podem determinar uma redução de carboidratos naplanta, em virtude da menor atividade fotossintética. Poda8.2 Fatores externos que afetam a frutificação Sendo a frutificação uma conseqüência da acumulação de substâncias nutritivas (hidratos de Os fatores externos atuam constantemente carbono, com predominância de amido), umasobre os vegetais, favorecendo ou prejudicando o seu eliminação excessiva de ramos pode causar baixadesenvolvimento, florescimento e frutificação. Os produtividade.fatores ambientais, quando desfavoráveis, interferem A poda deve ser praticada com moderação,na compatibilidade, na época do florescimento, na evitando exaurir as reservas vegetais.formação das flores, no comportamento dos estames Em videira, verificou-se que podas levese, ainda, na transferência do pólen. Agem, portanto, levam a planta a maior produtividade do que podassobre a planta toda, favorecendo ou dificultando sua drásticas.produtividade. A poda, reduzindo grande parte dos ramos, Os principais agentes externos a serem automaticamente afeta o numero final de frutos deconsiderados são: uma planta. Não se podando, porém, os frutos seriam em número tão elevado que não chegariam a se • nutrientes do solo; desenvolver bem e, conseqüentemente, não • enxertia; apresentariam valor comercial. • poda; A poda deve ser praticada com moderação e • localidade; em épocas adequadas. Deve ser executada durante o • época; período de repouso vegetativo (inverno), após a • idade e vigor da planta; queda das folhas e antes do início da nova vegetação. • fatores climáticos: temperatura, luz, chuvas, A poda antecipada, quando as plantas ainda umidade relativa, ventos; apresentam folhas funcionais, reduz o vigor das • doenças e pragas. árvores, pois impede que acumulem reservas para a vegetação e frutificação posterior. Do mesmo modo, Nutrientes do solo quando se executa a operação após o abrolhamento das primeiras gemas ou o surgimento de folhas, a A presença de elementos minerais no solo poda apresenta efeito negativo, pois nessa fase aexerce importante influência no florescimento e na plaina encontra-se em atividade vegetativa e, nessasfixação dos frutos. Muitas vezes, porém, torna-se condições, a poda eliminaria grande quantidade dedifícil separar a influência exercida pelos elementos reservas acumuladas, além de predispor as partescontidos na planta (carboidratos) daquela exercida secionadas a infecções.pelos elementos existentes no solo. Uma planta bem nutrida muitas vezes pode Localidadedeixar de frutificar por influência das condiçõesclimáticas desfavoráveis. Chuvas copiosas durante o A localidade influi de maneira notável sobre oflorescimento podem acarretar a queda das flores, de comportamento e a frutificação. Uma mesmaum lado; de outro, períodos secos impedem a variedade sofre variações no seu índice deabsorção de elementos nutritivos colocados à produtividade de acordo com a região em que édisposição das árvores. cultivada. Certas espécies, como a mangueira, o A manga Itamaracá-Primavera, proveniente daabacateiro e a videira, podem falhar quando chove ilha de Itamaracá, só produz frutos num dos lados dadurante o período de florescimento. A aplicação de ilha, falhando em frutificar no outro lado.fertilizantes nitrogenados antes do florescimento A influência da localidade pode estarfavorece a fixação dos frutos de mangueira, associada a fatores edáficos e climáticos, às vezes deabacateiro, ameixeira, pereira, videira e macieira. difícil separação. Enxertia Época Plantas enxertadas apresentam-se sobcondições um tanto distintas das de pé-franco. O Muitas vezes, é difícil determinar se a baixacavalo pode influir sobre o enxerto, alterando seu produtividade de uma árvore se deve a fatores decomportamento. Do mesmo modo, o enxerto também nutrição ou estacionais.Sebastião Elviro de Araújo Neto 102
  • 104. Florescimento e frutificação Uma mesma localidade sofre, durante o ano, A temperatura exerce notável influência nomudanças bruscas nas suas condições climáticas, que comportamento, desenvolvimento, florescimento ealteram o comportamento e, portanto, influem sobre o frutificação das espécies vegetais. Constitui elementorendimento final. principal na delimitação de áreas favoráveis à Muitas plantas apresentam fertilidade maior implantação de uma fruticultura econômica. Devemno período final do que no inicio do seu ser evitadas as zonas de temperaturas inferiores àsflorescimento. Em manga e uva, isso se verifica, ao exigidas, bem como aquelas em que as temperaturaspasso que, em moranguinho, as últimas flores se elevam em demasia.apresentam tendência à esterilidade. Na figueira São O metabolismo da planta pode ser observadoPedro Branco, os primeiros frutos, isto é, aqueles que como uma complicada máquina de reações químicasse desenvolvem em ramos com mais de um ano, são sujeita a influências as mais diversas, e a temperaturapartenocárpicos e os últimos, que são os que se constitui-se na mais importante.desenvolvem nos ramos da estação, necessitam de Algumas plantas exigem altas temperaturas ecaprificação. outras baixas temperaturas para se desenvolver. Certas espécies, principalmente dióicas, Temperatura muito baixa força a planta a entrar emsofrem alteração no sexo de suas flores. Em mamão, repouso. O mesmo fenômeno ocorre quando aé comum a alteração de sexo de masculino para temperatura se eleva acima do ótimo exigido.hermafrodita em determinadas estações. Certas Portanto, quando se deseja instalar pomaresvariedades de caqui exibem tendência a mudar o sexo comerciais, deve-se atentar para esse problema.de suas flores, como aquelas do grupo dos Assim, em citros, a variedade Natal ou Pêraestaminados esporádicos. normalmente apresenta acidez elevada quando cultivada em regiões com temperatura média inferior Idade e vigor da planta à necessária. A mangueira não frutifica bem e torna- se pouco produtiva em climas temperados. A produtividade de uma planta encontra-se A temperatura exerce influência direta eintimamente relacionada à sua idade e ao seu vigor. indireta sobre a polinização. Em macieira, a O caquizeiro originário de semente depois de temperatura ótima para a polinização situa-se aovários anos, só produz flores femininas, pois redor de 15 ºC. Quando a temperatura cai a 10 ºC, ainicialmente exibe quase somente flores masculinas. germinação dos grãos de pólen torna-se mais lenta, A macieira e a pereira, quando jovens, quase reduzindo grandemente a fixação de frutos. Alémnão frutificam, e a frutificação aumenta à medida que desse fator, a polinização em macieira é feita quaseenvelhecem, até certo limite. que exclusivamente pelas abelhas, que chegam a Em ameixeira, é comum a ocorrência de flores transportar de 70 mil a 100 mil grãos de pólen.com pistilo defeituoso quando nova, ao passo que, em Quando a temperatura abaixa, elas são afugentadasplantas adultas da mesma variedade, esse defeito dos pomares e, portanto, deixam de realizar atende a desaparecer. polinização. Em videira, certas variedades, como a A mangueira, planta de origem tropical,Moscatel de Alexandria e outras, são suscetíveis ao encontra condições ótimas para a germinação doscoulure (queda das flores) nos dois primeiros anos. grãos de pólen em temperaturas ao redor de 20 ºC.Posteriormente, o fenômeno desaparece. Videira Quando a temperatura cai, os tubos polínicos não sejovem tem sido encontrada produzindo menos pólen desenvolvem e, conseqüentemente, não há formaçãoque as velhas da mesma variedade. de frutos. O coco-da-baia normalmente não segura os O mamoeiro polígamo, denominado macho,frutos das primeiras floradas e, em figueira variedade que normalmente não frutifica, entra em produção emSão Pedro Branco, a frutificação nos ramos velhos se épocas de temperaturas mais baixas ou em altitudesdá por partenocarpia, ao passo que os frutos que mais elevadas. Isso ocorre porque, ao lado de floressurgem nos ramos do ano necessitam de polinização estaminadas, encontram-se rudimentos de florespara se fixarem. pistiladas que, sob a influência de baixas temperaturas, desenvolvem-se e fixam frutos, denominados de mamão-macho ou mamão-de-corda. Fatores climáticos É de comum ocorrência a queda de flores e frutos de muitas espécies durante o período de alta Os fatores climáticos influenciam os vegetais, temperatura e baixa umidade. Esse fenômeno temfavorecendo ou dificultando sua frutificação. origem na transpiração excessiva e no desequilíbrio Os principais elementos do clima são: de água nos tecidos da planta. A planta, nãotemperatura, luz, chuva, umidade relativa e vento. conseguindo equilibrar a perda rápida de água por novos suprimentos, determina então a queda de Temperatura frutos, que são por ela rejeitados. LuzSebastião Elviro de Araújo Neto 103
  • 105. Florescimento e frutificação as plantas e os frutos são menos sujeitos a doenças A luz exerce função importante na economia causadas por fungos. O contrário ocorre em regiõesdas plantas, como fonte de energia na síntese de de elevada umidade.carboidratos e de outros compostos orgânicos e dos Porém, em áreas sujeitas a baixa umidadeconstituintes inorgânicos de que são formadas. atmosférica, temperatura alta, ventos intensos e solos As espécies frutíferas, principalmente as de com baixo teor de umidade, as plantas nãofolhas caducas, necessitam anualmente acumular conseguem manter o equilíbrio hídrico, acarretandoreservas em seus tecidos para propiciar posterior com isso a queda das folhas, flores e frutos.desenvolvimento e frutificação. Muitas espécies frutíferas, como o abacateiro, As reservas de carboidratos são feitas à custa a mangueira, a macieira, a oliveira, o caquizeiro, osda fotossíntese, fenômeno que se dá em presença da citros e outras, perdem grande quantidade de frutos,luz. A intensidade luminosa exigida por uma espécie devido ao déficit de umidade na planta e àdifere da de outras. Assim, espécies exigentes em luz incapacidade dessas espécies de equilibrar as perdasdevem ser plantadas em regiões com maior por transpiração.luminosidade e o espaçamento também deve ser Em citros, têm-se registrado porcentagensmaior do que para aquelas menos exigentes. elevadas de queda de frutos, ocorrência essa mais Há plantas que não toleram sombra no período pronunciada na variedade baianinha.de florescimento. Para eliminar em parte os fatores adversos A mangueira, não florescem à sombra, além causados pela falta de umidade, recomenda-se odisso, só florecem ao redor de sua copa e emprego de cobertura morta, quebra-ventos e, sepraticamente nenhum fruto se forma no seu interior. possível, irrigação, para manter o solo com teor de umidade suficiente e contornar em parte os efeitos Chuva adversos da escassez de umidade no ambiente. Os vegetais necessitam de umidade no solo e Ventona atmosfera para o seu desenvolvimento. As chuvas são a principal fonte de O vento favorece a circulação, renovandofornecimento de água aos vegetais e, para que sejam constantemente o ar circunvizinho ao vegetal, ebenéficas, devem ser bem distribuídas e em constitui precioso auxiliar na polinização das plantas.quantidade suficiente. Infelizmente, porém, nem Ventos intensos mostram-se desfavoráveis e,sempre a quantidade de precipitação, bem como a quando constantes, praticamente delimitam a área dedistribuição, se apresentam de modo favorável. cultivo. Ventos frios, como ocorre normalmente emChuvas excessivas atrasam o florescimento, causam a nosso meio no período de florescimento, agravam olixiviação dos elementos minerais do solo e da planta, desenvolvimento das flores e impedem, muitas vezes,além de favorecem o desenvolvimento de doenças. a polinização, de um lado, pela baixa temperatura do As precipitações durante o período de ambiente, e, de outro, pela ausência de insetos,florescimento criam dificuldades à polinização, de principalmente abelhas, que se escondem emum lado, afugentando os insetos e, de outro, situações como essas.provocando a lavagem dos grãos de pólen. Diluem Grande parte das plantas de folhas caducastambém as secreções estigmáticas, impedindo a tem sua polinização realizada por insetos, e as degerminação dos grãos de pólen e, conseqüentemente, folhas persistentes, em muitos casos, são anemófilas.levando a planta à improdutividade. A precipitação Nas primeiras, os ventos intensos dificultam areduz a frutificação de várias espécies frutíferas, entre atividade dos insetos polinizadores e, nas últimas, porelas o abacateiro a mangueira, a videira, a macieira, a excesso de velocidade, muitos grãos de pólen que seameixeira, o maracujazeiro entre outras. acham sobre o estigma desprendem-se. Em anos chuvosos, a mangueira praticamente Um modo de reduzir os efeitos desfavoráveisdeixa de frutificar pois as chuvas causam danos às desse agente atmosférico é a formação de renquesflores, impedem a polinização e propiciam condições com arvores de porte elevado. Os quebra-ventos,favoráveis ao desenvolvimento de doenças causadas quando bem orientados, prestam reais serviços, pois opor fungos, principalmente antracnose. reduzem o ímpeto dos ventos e contribuem para que a Em espécies com grãos de pólen higroscópico, planta produza frutos e os mantenha até a colheita.como no maracujázeiro, se houver muita água Em mangueiras, pelos dados: levantados, observou-sedisponível, ocorre absorção até o pólen estourar e que, anualmente, de 15 a 20% dos frutos seconsequentemente não germinar. desprendem pela ação dos ventos intensos, que ocorrem normalmente de agosto a setembro. Umidade Relativa Doenças e pragas A umidade relativa do ar ou déficit desaturação tem grande ação sobre os vegetais. Além de causar redução de área fotossintética Em condições de baixa umidade atmosférica, na planta, quando ocorre no florescimento e naSebastião Elviro de Araújo Neto 104
  • 106. Florescimento e frutificaçãofrutificação, as doenças e pragas, podem causar dormência dos ramos como etileno e nitrato dequedas de flores e frutos, como a podridão floral dos potássio.citros (Colletotrichum acutatum). Os insetos estão intimamente relacionados 8.4 Referênciascom a frutificação, principalmente quando sãoagentes polinizados, mas o problema é quando são ALBUQUERQUE, J. A. S. de; MEDINA, V. D.;agentes anti-polinizadores, como as abelhas pragas MOUCO, M. A. do C. Indução floral. In: GENÚ, P.do maracujazeiro (Apis melífera, Irapuá e silvestres), J. de C.; PINTO, A. C. De Q. A cultura daque roubam polém e danificam a flor para coletar o mangueira. Brasília: Embrapa Informaçõesnecta, tornando as não atrativas e com pouco pólen Técnicas, 2002. p.260-276.para a visita dos mamangavas (abelhaspolinizadoras). GOMES, R. P. Fruticultura brasileira. 9 ed. São Paulo: Nobel, 1983.8.3 Efeito hormonal na frutificação RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia de Os ramos vegetativos em desenvolvimento são produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.fontes de auxinas e giberelinas que estão envolvidas Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.no processo de regular a emissão de brotosvegetativos e reprodutivos. Altas concentrações SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:internas inibe a emissão de brotos reprodutivos. FEALQ, 1998. 760p.: il. O crescimento alternado de raízes, depois deemissão de brotos vegetativos é explicado pela TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia vegetal. Trad.presença de altas concentrações de auxinas (nas Eliane Romanato Santarém ... [et al.] – 3. ed. Portoraízes). As raízes novas que se desenvolvem são Alegre: Artmed, 2004.fontes de citocinina, que são transportadaspassivamente para brotos vegetativos. As auxinasinibem a iniciação de brotos, reforçando adominância apical. Esse efeito da auxina (inibidoras)aliado a citocinina (promotoras), podem, de formainterativa, estarem envolvidas no processo de quebrade dormência dos ramos, a iniciação dos brotos podeestar regulada por um balanço crítico entre estas e umterceiro fitormônio (giberelina A3). A temperatura fria em muitas espécies defruteiras pode anular o efeito inibidor das auxinas einduzir o florescimento. O estresse hídrico (6 a 12 semanas) causadesidratação do meristema apical que torna-se maissensível a indução floral, por causa da maior áreafoliar madura, pode conpensar a falta de temperaturasbaixas nas regiões tropicais de baixa latitude, outrofator responsável pela indução floral, como emmanga e caju. O etileno é um homonio com várias funções,dentre essas a promoção do florescimento em plantaslenhosas e a aceleração da maturação em órgãos dasplantas. O produto químico mais utilizado para liberaretileno é o etefon (ácido 2-cloroetil-fosfoiônico).Aplicado por meio de pulverizações na dosagementre 100 a 300 ppm, possui mais eficiência quandocombinado com estresse hídrico ou paralizador decrescimento, como paclobutrazol ou 2,4D, porexemplo. O paclobutrazol (PBZ) tem sido usado paraestimular a floração, promovendo a paralisação docrescimento vegetativo por interromper a síntese degiberelina. Após a aplicação do PBZ geralmenteaplica se alguma substância promotora de quebra deSebastião Elviro de Araújo Neto 105
  • 107. Colheita e pós-colheita de frutos9. COLHEITA E PÓS-COLHEITA DE FRUTOS Formação e crescimento O estudo da fisiologia do fruto é importante É a primeira fase na vida do fruto,para nortear o seu manuseio pós-colheita, reduzindo caracterizada por um rápido crescimento do ovário,o desperdiço e mantendo a qualidades das frutas. que usualmente se segue à polinização e fertilização, Em um estudo sobre as perdas de hortaliças, que são acompanhadas por mudanças tais como,Vilela et al. (2003) relatam que até 40% das frutas e murchamento de pétalas e estames. Considera-se quehortaliças produzidas no Brasil são desperdiçadas em o crescimento do fruto começa no primórdio floral, ovárias fases do sistema de produção, entre a colheita pericarpo se desenvolve a partir da parede do ovário ee a mesa do consumidor: pode diferenciar-se em três regiões distintas: o  35% na pós-colheita; exocarpo, o mesocarpo e o endocarpo. Entretanto, o  30% na propriedade; desenvolvimento do fruto não se restringe ao ovário e  30% no transporte; algumas vezes envolve as partes não carpelares da  7 a 50% na rede atacadista; flor. O crescimento inicial ocorre principalmente por  13 a 40% na rede varegista; divisão celular. Os frutos provêm da expansão das  20% nos domicílios. paredes do ovário. Na realidade, a maioria dos frutos provém do crescimento de ovários isolados. Outros,9. 1 Definição de Fruto e Fruta como os morangos, são formados por diversos ovários, pertencentes a uma única flor e espalhados A palavra fruta é derivada do latim fructa, do sobre a superfície de um único receptáculo; asverbo fruor-eri, que significa desfrutar, deleitar-se, estruturas semelhantes à sementes, que aparecem naapreciar. Portanto, a fruta é na linguagem comum, um periferia do morango, são, na realidade frutos, sendofruto comestível, de sabor adocicado, utilizado o receptáculo, a principal porção comestível. Algunshabitualmente como sobremesa (Awad, 1993). frutos consistem em ovários alongados justapostos, Do ponto de vista botânico, o fruto é incluindo as partes florais secundárias, fundidas paraconstituído de ovário e cujo desenvolvimento é formar um único fruto, ou infrutescência como odependente dos eventos que ocorrem no mesmo, ou abacaxi. (Figura 9.1.).pode ser ainda constituído de diversos ovários e terou não estruturas acessórias (indúvias), como opedúnculo do caju ou o receptáculo da maça (Vidal eVidal, 2000). Há o entendimento também de que frutosdesenvolvidos sem a fecundação do óvulo, porpartenocarpia e os pseudofrutos, constituídosestruturas acessórias da flor, como o pedúnculo docaju e o receptáculo da maçã não são consideradosfrutos e sim frutas (Chitarra e Chitarra, 2005). Portanto, nem todo fruto é uma fruta, pois osfrutos são o produto do desenvolvimento de flores ouinflorescências das angiospermas. Alguns sãoclassificados como hortaliças, mas, sob aspectobotânico, são frutos, como tomate, berinjela, pepino,por exemplo, que não são considerados frutas, poisnão são consumidas como sobremesa (refrescante).9.2 Fisiologia do desenvolvimento dos frutos O conhecimento da fisiologia dos frutos énecessário para melhor entender as transformaçõesfísicas, químicas, fisiológicas e bioquímicas queocorrem na pós-colheita e que tem relação direta com Figura 9.1 – Diagrama de três diferentes tipos dea vida útil e qualidades dos frutos. frutos.Desenvolvimento fisiológico do fruto O ciclo vital dos frutos inicia-se com afertilização, que é seguida por etapas distintas:formação, crescimento, maturação e senescência.Torna-se, porém, difícil fazer uma diferenciaçãoprecisa entre as mesmas.Sebastião Elviro de Araújo Neto 106
  • 108. Colheita e pós-colheita de frutos Uma vez estimulado, o ovário cresce, podendo Maturaçãoapresentar curva de crescimento sigmóidal simples(Figura 9.2 ) ou dupla curva em S. Neste caso, há um A maturação ocorre na vida do fruto, quando ocrescimento rápido após a fecundação e outro durante seu desenvolvimento completo é atingido,um curto período, antes da maturação, com uma zona independentemente da planta mãe.intermediária de detenção do crescimento. (Figura A maturação compreende, a fase de9.3.). crescimento do fruto e amadurecimento, que começa no final do crescimento (maturação fisiológica), após este estádio, não há mais aumento no tamanho do fruto. Os frutos são normalmente colhidos nesse estádio, após o qual, vivem utilizando-se dos substratos acumulados. A maturação é um evento interessante no ciclo vital dos frutos, por transformá-los em produtos atrativos e aptos para o consumo humano. É uma etapa intermediária entre o final do desenvolvimento e o início da senescência, sendo um processo normal e irreversível; porém, pode ser retardado com o uso de meios adequados. Essa fase é discutida sob doisFigura 9.2 Frutos de sapotizeiro em diferentes aspectos: a) Pode ser entendida como a manifestaçãoestádios de desenvolvimento (Araújo Neto et al., da senescência, na qual a organização intracelular2001). começa a ser destruída; b) representa o estádio final da diferenciação, e por isso é um processo dirigido Crescimento cumulativo que requer a síntese de enzimas específicas. Volume A maturação dos frutos pode ser definida como a seqüência de mudanças na cor, “flavor” e textura, conduzindo a um estado que os torna Taxa de crescimento comestíveis, e, com isto, apropriados para o consumo “in natura” e/ou industrialização. Este, entretanto, não é um estado fisiológico fixo, pois, pode variar de um para outro fruto e em alguns casos as mudanças podem ocorrer até em direções opostas. Por exemplo, Tempo em maçãs, há uma perda de ácido málico no fruto I II III a maduro, porém, em bananas, ocorre o inverso, ou 0 I II III b seja, um acúmulo desse ácido (Chitarra e Chitarra, I IIA IIB III c1 2 3 4 5 d 1990). A graviola é outro fruto que aumenta a acidez durante o amadurecimento, contrariando a lógica geral do amadurecimento dos frutos (Araújo Neto etFigura 9.3 – Crescimento do fruto em curva al., 2002).sigmóidal dupla (volume x tempo), expressa emtermos de base e cumulativa. As principais mudanças que ocorrem durante aa)Método clássico maturação, são:b)Designação de uma fase preliminar  Desenvolvimento das sementesc)Divisão da fase “lag” em duas etapas  Mudanças na cord)Alocação das fases de acordo com o piso e atravésda taxa de crescimento.  Mudanças na taxa respiratória Dentre os frutos que apresentam padrão de  Produção de etilenocrescimento sigmóidal simples, encontram-se: maçã,  Mudanças na permeabilidade dos tecidospêra, tâmara, abacaxi, banana, abacate, morango,  Mudanças na texturalaranja, tomate, sapoti e melão. Dentre os que  Mudanças químicas nos carbóidratos, ácidospossuem dupla sigmóidal estão pêssego, nectarina, orgânicos, proteínas, fenólicos, pigmentos,ameixa, cereja, figo, framboesa, uva e azeitona. pectinas, etc. O intervalo entre a antese e o amadurecimento  Produção de substâncias voláteisvaria nos frutos das diferentes espécies entre três  Formação de ceras na casca.semanas (morango) a 60 semanas (laranja Valência);porém, na maioria, é de cerca de 15 semanas. Duranteesse período o fruto aumenta milhares de vezes empeso e volume, como, por exemplo, o abacate queapresenta um dos maiores aumentos (300.000 vezes).Sebastião Elviro de Araújo Neto 107
  • 109. Colheita e pós-colheita de frutos Quadro 9.1. Transformações que ocorrem durante o amadurecimento de frutos (de Biale e Young, 1962). Síntese Degradação Manutenção da estrutura mitocondrial Destruição dos cloroplastos Formação de carotenóides e antocianinas Quebra de clorofila Interconversão de açúcares Hidrólise do amido Aumento na atividade do ciclo de Krebs Destruição de ácidos Aumento na formação de ATP Oxidação de substratos Síntese de voláteis aromáticos Inativação de fenólicos Aumento na incorporação de aminoácidos Solubilidade de pectina Aumento de membranas seletivas Ativação de enzimas hidrolíticas Prevenção de membranas seletivas Início de rompimento de membranasFigura 9.3 – Etapas do ciclo vital dos frutos. Formação da vida do etileno Amaciamento da parede1.Início da formação da polpa celular induzida pelo C2H42.Térmico do crescimento em tamanho3.Início do período de utilização, mas, ainda imaturo Uma grande demanda de energia ocorre no4.Período ótimo de consumo sistema para a continuação do processo, incluindo5.Predominância de reações degradativas síntese protéica, síntese de etileno e compostos6.Não utilizável para consumo (Ryall e Lipton, 1979) aromáticos, entre outros. A energia é suprida por alguns processos degradativos, particularmente aAmadurecimento hidrólise de amido. A glicose produzida, por esse processo, é conseqüentemente utilizada durante o A etapa correspondente ao amadurecimento, é processo de amadurecimento. A interelação eaquela na qual o fruto completamente maduro torna- mecanismos pelos quais essas mudanças sãose mais palatável, pois, sabores e odores específicos coordenadas, ainda não são bem conhecidos. Umase desenvolvem em conjunto com o aumento dos das dificuldades nessa determinação ocorre naaçúcares e diminuição da acidez, proporcionando distinção entre os fatores causativos e seus efeitos. Omaior doçura ao fruto. O amaciamento do fruto amadurecimento pode ser considerado como umocorre e é usualmente acompanhado por mudança na número de processos “chaves” que ocorremcoloração. A clorofila decresce nos cloroplastos, simultaneamente, cada um tendo seu próprioenquanto que os pigmentos carotenóides e mecanismo de controle, o que, por sua vez, éantocianinas se desenvolvem. Portanto, o livremente coordenado com os mecanismos dosamadurecimento corresponde basicamente às outros processos.mudanças nos fatores sensoriais do sabor, odor, cor e As unidades básicas de interesse notextura que tornam o fruto aceitável para o consumo. amadurecimento, são as células e suas organelas queAlgumas dessas mudanças podem ser detectadas por contêm a maquinária que dirige as reações de vida eanálise ou observação das transformações físicas morte. Os sistemas enzimáticos contidos dentro dasvisíveis, ou pelas transformações endógenas, como organelas refletem a seqüência da desorganizaçãomudanças nos pigmentos, ácidos, taninos, dessas organelas. Uma vez iniciado, ocarboidratos, pectinas, etc. amadurecimento conduz ao envelhecimento e à morte As diferentes mudanças que ocorrem durante dos tecidos.o processo de amadurecimento parecem estarsincronizadas e encontram-se provavelmente sob Senescênciacontrole genético. Essa afirmativa tem suporte no fatode que o intervalo entre a antese e o amadurecimento, A senescência é definida como os processosem condições climáticas similares, é relativamente que se seguem à maturidade fisiológica ouconstante para um determinado fruto. Um resumo das horticultural e que conduzem à morte dos tecidos.mudanças sugeridas por Biale e Young (1962), que Não há, entretanto, uma distinção bem delineadaocorrem durante o processo de amadurecimento, é entre amadurecimento e senescência, embora cadaapresentado no Quadro 9.1. um dos processos que contribui para a síndrome da No amadurecimento ocorrem atividades senescência, conduza diretamente à morte dosanabólicas e catabólicas. Há perda de energia à tecidos. O processo da senescência aumenta amedida que os substratos são convertidos em probabilidade de morte, como, por exemplo, pormoléculas simples, calor e ligação fosfato (rica em desidratação ou invasão de microorganismos; porém,energia). A ligação energética é usada para várias não há evidências de que ela inclua a morteatividades fisiológicas e para manutenção da programada do tecido. Na Figura 9.4. encontram-seintegridade celular. as mudanças que ocorrem no abacaxi, desde o florescimento até a sua senescência com separação das diversas etapas fisiológicas na vida desse fruto.Sebastião Elviro de Araújo Neto 108
  • 110. Colheita e pós-colheita de frutos nestas alterações são as proteínas, glicídeos, lipídeos, ácidos orgânicos, vitaminas, minerais e alguns M a tu r a ç ã o componentes específicos da parede celular como hemi-celulose e pectinas. A respiração resulta em C lo ro fila d a c a s c a modificações profundas desses constituintes, sendo que podem ser altamente indesejáveis sob o ponto de vista da qualidade. Em condições não controladas, estas mudanças podem levar rapidamente à A ç ú c a re s re d u t o re s senescência, e os tecidos tornam-se muito pH susceptíveis ao ataque de microorganismos e à perda de umidade. Assim, o controle da respiração passa a ser condição essencial para obtenção de condições B rix adequadas de armazenamento dos produtos perecíveis. O tipo e a intensidade de atividade fisiológica pós-colheita as quais dependem das funções naturais P es o de cada parte da planta, determinam, em grande extensão, a longevidade do material, durante o Am a dure cim e nto A c id e z armazenamento na etapa pós-colheita. Se ne scê ncia As mudanças químicas que ocorrem no fruto, pós-colheita, são direta ou indiretamente relacionadas com atividades oxidativas e fermentativas, C a ro t e n ó id e s d a designadas como oxidações biológicas. c as c a A respiração é o processo relacionado com a oxidação predominantemente de substâncias orgânicas das mitocôndrias e com sistemas enzimáticos das células. Ocorre em três fases, a-1 0 0 -8 0 -6 0 -4 0 -2 0 0 20 saber: • Quebra ou hidrólise de polissacarídeos em açúcares D i a s a p a r ti r d o a m a d u r e c i m e n to simples. Figura 9.4 – Transformações das características • Oxidação dos açúcares a ácido pirúvico (ciclo físicas, físico-químicas e químicas do abacaxi durante glicolítico). o período do florescimento até a senescência. • Transformação aeróbica do ácido pirúvico e outros (Gortner et al., 1967). ácidos orgânicos em CO2, água e energia (ciclo de Krebs). Respiração As proteínas e os lipídeos também podem Após a colheita do fruto, a respiração torna-se servir como substratos no processo de hidrólise, o seu principal processo fisiológico, uma vez que ele, porque existe uma interelação nos seus processos não depende mais da absorção de água e minerais metabólicos. Os glicídeos podem ser convertidos em efetuados pelas raízes, da condução de nutrientes pelo lipídeos e aminoácidos. Os lipídeos podem ser sistema vascular, nem da atividade fotossintética das transformados em aminoácidos, porém, dificilmente folhas da planta mãe. Portanto, após a colheita, os se transformam em glicídeos. frutos têm vida independente e utilizam para tal, suas Muitos compostos importantes podem ser próprias reservas de substratos, acumulados durante o sintetizados a partir dos intermediários do ciclo seu crescimento e maturação, com conseqüente glicolítico e do cicio de Krebs. Por exemplo, tem-se a depressão progressiva nas reservas de matéria seca síntese de ácido ascórbico a partir da glicose 6- acumulada. Deve-se salientar que as atividades não fosfato; ácido clorogênico a partir do são apenas catabólicas. Alguns órgãos vegetais fosfoenolpiruvato; fenólicos ou compostos utilizam a energia liberada pela respiração, para aromáticos voláteis a partir da Acetil CoA e clorofila continuar a síntese de pigmentos, enzimas e outros a partir da Sucinil-CoA. materiais de estrutura molecular elaborada, tão logo Alguns trabalhos têm sido realizados, isolados eles são destacados da planta. Essas sínteses são parte a mitocôndria e verificando sua relação com a essencial do processo de amadurecimento de muitos atividade respiratória. Tem-se observado um aumento frutos. da atividade das mitocôndrias isoladas a partir de A atividade respiratória é influenciada pelo vários frutos, em diferentes estádios de maturação. menos em parte, pela composição do fruto Esse aumento pode ser interpretado como um completamente formado e pelas alterações químicas aumento no número de mitocôndrias, ou um aumento que ocorrem durante a fase da maturação. As na atividade do sistema mitocondrial pré-existente. substâncias que possivelmente tomam parte ativa Entretanto, não existem evidências claras para Sebastião Elviro de Araújo Neto 109
  • 111. Colheita e pós-colheita de frutosdistinguir entre essas duas possibilidades. Atualmente climatéricos”. Entretanto, muitos desses frutosalguns pesquisadores sugerem que, quando o fruto apresentam um aumento na produção de etileno, comcompleta a fase climatérica, portanto, quando a aumento na taxa respiratória em alguma fase do seurespiração já se elevou, a oxidação torna-se desenvolvimento na planta.progressivamente desacoplada da atividade Os frutos são, portanto, classificados emfosforilativa. “climatéricos” e “não climatéricos”, com base nas A respiração num sentido mais restrito características respiratórias antes do amadurecimento,corresponde às reações químicas que requerem conforme apresentado na Figura 9.6. Desta forma,oxigênio, enquanto que a fermentação, também pode-se dizer que o climatério faz a transição entre oreferida como glicólise, é característica de oxidações crescimento e a senescência e é iniciado pelabiológicas em ambiente livre de oxigênio, (Figura produção autocatalítica de etileno.9.5); porém, a fermentação também pode ocorrer ematmosfera contendo oxigênio. Há uma distinção entre Quadro 9.2 - Exemplo de frutos climatéricos e nãoa glicólise “aeróbica” e a “anaeróbica”, com base nas climatéricos.condições de exposição do material fermentável. Os Frutos climatéricos Frutos não-climatéricosdois processos podem ser ilustrados com as seguintes Abacate Uvareações: Banana Limão Manga Laranja AMIDO Mamão Abacaxi Maracujá Morango AÇÚCARES Pêra Figo Ameixa Sapoti ÁCIDO PIRÚVICO + Oxigênio Fruto climatério (Respiração aeróbica) - Oxigênio (Respiração anaeróbica) 100 (abacate) Fermentação B 80 Deterioração e Absorção Relativa de O2 C (rápida perda doCO2 Ciclo sabor e do aroma)HCO2 de 60CalorEnergia Krebs (dos ácidos ColheitaEnergia química 40 orgânicos) Novas células para + minerais do solo crescimento dos A + açúcares, etc. tecidos 20 1 3 5 7 9 11 (Dias) Fruto não climatério (limão)Figura 9.5 – Esquema geral das principais 0 1 2 3 4 5 (Meses)transformações metabólicas que ocorrem na vida dos Tempofrutos. Figura 9.6 – Padrão de atividade respiratória emPadrões de atividade respiratória frutos climatéricos e não climatéricos (Biale, 1960). Se a atividade respiratória for acompanhada Observa-se através da Figura 9.6, um declínioapós a formação do fruto e através de seus estádios de na taxa de captação de O2 (ou evolução de CO2)divisão celular, crescimento e maturação, pode-se imediatamente após a colheita, seguido por umobservar um decréscimo consistente na taxa de acréscimo brusco. O menor valor da captação de O 2 érespiração, se expressa em unidade de peso fresco, designado como “mínimo pré-climatérico”. O pico depeso seco, ou unidade de proteínas. Porém, no final respiração designado como “máximo climatérico” éda maturação há um aumento marcante na evolução seguido por um período de declíneo na atividade,de CO2, observado em maçã por Kidd e West (1925), designado como estádio “pós-climatérico”. O valorque designaram o evento de subida “climatérica”. Os real nos pontos mínimos e máximos, bem como ofrutos que apresentam esse padrão de atividade espaço de tempo decorrido entre ambos, érespiratória são então designados como frutos característico de cada espécie ou mesmo de cada“climatéricos”. Outros frutos não apresentam esse cultivar em condições externas definidas. O tempopadrão respiratório e são, portanto, chamados de “não decorrido entre a colheita e o ponto mínimo é função do estádio de maturação da fruta, na colheita.Sebastião Elviro de Araújo Neto 110
  • 112. Colheita e pós-colheita de frutos Em alguns frutos, como maçã e tomate, o grande demanda de energia, responsável pela súbitaaumento na taxa respiratória ocorre, tanto no fruto ascensão na taxa respiratória. Ambos os grupos depreso à planta, como após a colheita. O abacate, frutos contêm quantidades apreciáveis de etileno,apresenta pico respiratório climatérico apenas após embora, a quantidade seja consideravelmente variávelser desligado da planta. Em alguns frutos como com a espécie. Além da variação no nível endógenoabacate, banana e manga, o aumento na taxa de etileno, as respostas à aplicação de etilenorespiratória é rápido e o estádio de amadurecimento exógeno são bastante variáveis entre os dois gruposcomestível, está intimamente relacionado com o pico de frutos.climatérico. Além das modificações na textura da Uma classificação mais conveniente parapolpa, conhecidas como “amadurecimento frutos, quanto ao seu padrão de atividade respiratória,comestível”, ocorrem transformações na cor, tais foi elaborada por Iwata et al (1969), relacionando ocomo verde a amarelo em bananas, verde a vermelho amadurecimento e a flutuação na produção de CO2em manga, verde a marrom escuro em algumas pelos frutos e hortaliças. Foram propostos 3 tipos devariedades de abacate. Essas mudanças ocorrem padrão de atividade respiratória.nesses frutos durante o pico climatérico ou • Tipo decréscimo gradual: a taxa de respiraçãoimediatamente após. Em outros, como maçã e tomate, decresce gradualmente através do processo deo amadurecimento só se completa algum tempo após amadurecimento, como por exemplo nos frutoso pico climatérico. cítricos.Dentre os frutos não climatéricos podem ser citados: • Tipo ascensão temporária: a taxa de respiraçãocereja, pepino, figo, uva, cítricos, morango, abacaxi e aumenta temporariamente e o completogoiaba. amadurecimento ocorre após o pico respiratório, Os frutos não climatéricos devem estar no como em banana, tomate, manga e abacate.estádio ótimo de amadurecimento comestível, à • Tipo pico tardio: a taxa máxima de respiração éépoca da colheita. Para que apresentem melhor apresentada desde o estádio completamente maduroqualidade, devem ser deixados na planta até até o supermaduro, como no caqui japonês, morangoatingirem a composição desejável. No caso do limão e pêssego.a colheita é baseada no tamanho do fruto, porque De um modo geral, a taxa de respiração éobjetiva-se volume e acidez no suco. Em laranjas, os indicativa da rapidez com que as mudanças defatores determinantes são o conteúdo de açúcares e composição ocorrem no material. Se o fruto forácidos, bem como o volume de suco. Neste grupo de colhido no estágio de ótima qualidade comestível, oufrutos, a senescência celular aparentemente se segue à próximo à mesma, poderá apresentar uma elevadamaturação celular, sem a intervenção de nenhum taxa de deterioração antes da comercialização. A vidaestádio de transição. Nesses frutos, há uma ligeira de armazenamento de diferentes tipos de frutos, emqueda na taxa respiratória, após serem destacados da geral, varia inversamente com a taxa de respiração.planta. Existe, entretanto, uma possibilidade de que, Produtos com taxas de respiração relativamentenuma idade fisiológica mais apropriada ou sob baixas são os que podem ser armazenados porcondições de armazenamento mais apropriadas, estes períodos mais longos sem perdas da aceitabilidade.frutos possam apresentar um padrão respiratóriocaracterístico de frutos climatéricos, como o melão e 9.3 Tipos de colheitao abacaxi. Embora não apresentem comportamento Colheita manualrespiratório, como os frutos do tipo climatérico, já foiobservado em laranja e pomelo um padrão de A colheita manual ainda é o procedimentorespiração tipo climatérico, quando uma série mais utilizado, mesmo em países desenvolvidos. Acronológica suficiente de amostras foi colhida e colheita mecânica é utilizada para produtosanalisada. Outras alterações no amadurecimento destinados ao processamento ou àqueles que não sãoseguiram o climatério; porém, este ocorreu bem antes facilmente danificados.da colheita comercial. Para resolver as opiniões A colheita manual apresenta como principaisconflitantes sobre a ubiqüidade do climatério, há vantagens:necessidade de medições mais precisas, abrangendo • Seleção acurada da maturidade.períodos cronológicos mais longos, bem como • Danos mínimos ao produto.maiores períodos para realização dessas medições. • Pequeno investimento de capital. As evidências demonstram que não existemdiferenças fundamentais entre os dois grupos de Produz menos danos aos produtos que afrutos quanto ao mecanismo de amadurecimento. Os mecanizada; as vantagens porém, podem serfrutos não climatériccos, apresentam amadurecimento reduzidas pelos tratamentos subseqüentes. Paramais lento, necessitando de um longo espaço de realização da colheita manual, vários instrumentostempo para completar o processo, sem mudança são utilizados, sempre com o objetivo de proteger osúbita na demanda de energia. Nos frutos produto. Os mais comuns, são:climatéricos os eventos ocorrem rapidamente e com • Baldes e sacos: São utilizados para facilitar aSebastião Elviro de Araújo Neto 111
  • 113. Colheita e pós-colheita de frutoscolheita de uma só vez em algumas árvores. No caso irão se refletir posteriormente na sua qualidade pós-do uso de saco, deverá ser dada atenção à sua forma colheita. Esse tipo de colheita, porém, apresentapara reduzir os danos, particularmente durante a algumas vantagens como:descarga, bem como para o conforto de quem outiliza. O mais comum é aquele que possui uma • Rapidez potencial, com maior rendimento;abertura na parte inferior, o qual após cheio, possa ser • Melhores condições de trabalho para os colhedores;aberto e permitir um fluxo normal sem danificar o • Redução de mão-de-obra.produto.• Varas/prendedores: Uma grande variedade de varas As culturas que podem ser colhidascom prendedores ou facas combinadas com sacos na mecanicamente têm, em geral, equipamentosponta é utilizada. Tal sistema pode ser feito a custos especialmente desenvolvidos para elas.relativamente baixos. Em frutos cítricos, a colheita O sucesso de uma boa colheita estávaria de região para região, podendo ser feita através diretamente relacionado com uma coordenaçãode prendedores na ponta da vara, ou então através do eficiente da mesma, no que diz respeito àpróprio homem (torcendo e puxando). Os disponibilidade de trabalhadores, transporte,prendedores devem ser usados com critérios para operações nas centrais de embalagens e demanda deevitar problemas de doenças. mercado. A maturidade do produto e condições de• Facas e tesouras: Dependendo do produto, há ou tempo também afetam a colheita. A supervisão dosnão a necessidade de se cortá-lo da planta. Muitos trabalhos é real importância para assegurar métodosprodutos podem ser efetivamente cortados ou adequados de colheita e correta manipulação.torcidos da planta sem danos à mesma ou ao produto. Nos locais onde o produto é colhidoContudo, alguns devem ser cortados com faca, como manualmente, o trabalhador deve carregar seupor, exemplo, abacaxi e banana. O uso de faca pode próprio material. Contudo, a equipe deverá trabalharreduzir a necessidade de uma limpeza secundária nas sistematicamente na área da colheita. O tamanho dacentrais de embalagem. O corte pode evitar danos, os equipe dependerá do tipo de produto e dasquais ocorrem pela remoção de partes do vegetal, dificuldades experimentadas na colheita. Como osquando se usa o método de puxar com a mão. Deve- colhedores são pagos pela quantidade colhida, umase também observar que o uso de facas ou tesouras boa supervisão torna-se necessária para assegurar apode trazer desvantagens, como a transmissão de qualidade do produto colhido. Os colhedores devemdoenças de planta para planta, por contaminação ser treinados para colher o produto com a qualidadeatravés do utensílio. Deve-se assim observar as desejada, devendo ser encorajados e treinados paracondições higiênicas do material utilizado na atingi-la.colheita. O nível de mecanização aplicado na colheita• Roupas especiais: Somente no caso de alguns de produtos frutícolas requer um evado grau deprodutos, como por exemplo abacaxi, onde se supervisão e desenvolvimento da habilidade doutilizam luvas para reduzir os danos ao produto e trabalhador. Os equipamentos devem ser manuseadoscomo proteção ao homem. Contudo, deve-se observar por pessoal bem treinado, para evitar danos aoos aspectos higiênicos do uso. produto ao próprio equipamento, em geral muito dispendioso. Deve haver um serviço de manutençãoColheita mecânica regular e de emergência, para um funcionamento adequado. A colheita mecânica não é na atualidade amais utilizada para a maioria dos produtos perecíveis Cuidados no manuseiodestinados à comercialização “in natura”, porque asmáquinas raramente são capazes de realizar uma Os frutos que se destinam à comercializaçãocolheita seletiva, bem como tendem a danificar os “in natura” devem ser colhidos manualmente emprodutos, além do que é um processo dispendioso. baldes ou sacos, os quais são colocados em caixasEm geral, é utilizado para produtos menos sensíveis à maiores para posterior transporte. Os baldes (deinjúria mecânica, produtos que podem ser colhidos de plástico ou metálicos) são usados para frutos macios,uma só vez, pós o que são processados rapidamente, enquanto que os sacos são usados para frutos compara minimizar o efeito das injúrias mecânicas. Deve- baixo potencial de compressão ou dano. Frutos muitose ainda considerar que os produtos precisam ser delicados, como cerejas, uvas, pêssegos e nectarinasresistentes à colheita mecânica, ou seja, as árvores ainda podem ser transferidos dos baldes para umnecessitam ser podadas para minimizar o dano sistema transportador do campo, ou podem sercausado ela queda dos frutos, através da copa. Há colhidos no balde e embalados em ‘containers’ paranecessidade de condições uniformes no apoio para posterior transporte.um melhor rendimento. O impacto de quedas em Os frutos muito macios e delicados, comosuperfícies duras ou sobre o próprio produto morangos, devem ser colhidos, selecionados eacumulado, bem como as vibrações transmitidas das embalados diretamente dentro do “container” demáquinas para a matéria prima, causam danos que transporte. As injúrias físicas dos frutos podemSebastião Elviro de Araújo Neto 112
  • 114. Colheita e pós-colheita de frutosresultar do procedimento incorreto na colheita, como Índices de maturidadequeda excessiva dos frutos nos baldes ou sacos,superenchimento desses “containers”, pancadas Os índices de maturidade podem ser utilizados(especialmente sacos com laterais macias) contra não só para o estabelecimento da época de colheita,galhos e escadas, falta de cuidado na transferência como também em alguma etapa da cadeia dedos frutos para as caixas e o superenchimento das comercialização (por exemplo, no local de inspeção,caixas no campo. As quedas dos frutos, mesmo que na recepção da matéria-prima numa indústria, etc.). Osejam de pequenas alturas causam impacto e mais difícil e complexo, porém, é encontrar a formaamassamento. de previsão do tempo no qual o produto atingirá sua maturidade. A maturidade para a colheita pode ser9.4 Estádio de maturação indicada por meios físicos ou visuais, análises químicas, computação dos dias pós-florada e fatores O estádio de maturação no qual o fruto é fisiológicos.colhido, será decisivo para a sua vida de prateleira, A época ou ponto de colheita para cadabem como em relação ao seu potencial de espécie