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Apresentação SPED da Delloite

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  • 1. Ano 6 • Nº 21 • 3º trimestre • 2008 Mundo corporativo As oportunidades sem fim de um país que precisa de fôlego e preparo para mergulhar fundo na globalização Um oceano a descobrir
  • 2. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Mundo Corporativo Conselho editorial: Juarez Lopes de Araújo Heloisa Helena Montes Edição: Renato de Souza MTb 26.563 resouza@deloitte.com Produção: Andrea Braga Daniela Zaha Julio Meneghini (MTb 52.308) Leonardo Salles Otavio Sarsano Arte: Mare Magnum Fotos: Gabriela Haddad Carlos Della-Roca (Santander, pág. 15) Nellie Solitrenick (Câmara Brasil-Alemanha, pág. 15) Pierre Rocha Gontijo (Manaus, pág. 20) Reportagens e artigos: André Sales Camila Viegas-Lee Dagoberto Souto Maior Jr. Eugênio Melloni Gleise de Castro Jander Ramon Roberto Rodrigues Colaboração: ANAHP Banco Santander BID Câmara Brasil-Alemanha General Motors Hospital do Coração Hospital São Luiz IFC José Goldemberg MRS Logística Sociedade Albert Einstein Universidade de Columbia Pesquisa econômica: Silvana De Sario Revisão: Miriam M. Soares Sonia Hagemann Gráfica: Intergraf Tiragem: 130.000 exemplares Contato para leitores: mundocorporativo@deloitte.com (fone 11-5186-6686) Filiada à Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) O conteúdo expresso nos artigos assinados pelos articulistas colaboradores e nas entrevistas concedidas à revista Mundo Corporativo não reflete necessariamente as opiniões da Deloitte. www.deloitte.com.br Acesse, no site da Deloitte, mais informações sobre os assuntos tratados nesta edição e em edições anteriores. 2
  • 3. Exploradores e visionários Estar sempre um passo à frente é a essência da estratégia vencedora nos nossos tempos. Mais do que nunca, o mundo dos negócios precisa de novas maneiras de pensar, agir e propor soluções. Os novos desafios requerem hoje líderes que também se desafiam, sobretudo, a explorar novas possibilidades. A preocupação em inovar está hoje na agenda das empresas, dos governos e da sociedade em todo o mundo. A edição 2008 do World Meeting da Deloitte, evento recentemente realizado na Califórnia, mostrou isso claramente a partir de visões expostas por personalidades – como o Prêmio Nobel da Paz, Al Gore – que hoje influenciam os rumos da globalização. O Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, no World Meeting da Deloitte: inovar para estar sempre à frente É desse ambiente de oportunidades, transformações, riscos e descobertas que tratam as reportagens desta edição de Mundo Corporativo: do peso dos mercados emergentes nas estratégias das multinacionais à consolidação do Brasil como fornecedor de produtos agrícolas, energias alternativas e tecnologias que viabilizam um mundo sustentável; da busca de fontes internacionais para financiar a nossa infra-estrutura à urgência do País em se planejar para não desperdiçar os ganhos que se projetam no médio prazo. Diante desse oceano de perspectivas a explorar, a Deloitte renova o seu compromisso de continuar ajudando os líderes empresariais e o País a estarem sempre à frente. Boa leitura! Juarez Lopes de Araújo Presidente da Deloitte Nesta edição As voltas que o mundo dá Sempre alerta 4 Mundos emergentes – Agora, 18 Bola em jogo – Os riscos são as nascentes economias potenciais de o País não se preparar do século 21 que ditam os rumos desde já para a Copa de 2014 das multinacionais 22 As páginas da nova era fiscal – 7 A (nossa) energia verde – Se Fique atento ao calendário do SPED, o mercado global precisa de o novo modelo contábil e fiscal alternativas, é o Brasil quem pode 26 Transparência nos níveis de ter a solução risco – Os esforços dos bancos para gerenciar o risco operacional Ajuste de rota Ondas que revelam 10 As vias do crescimento – Em 29 Estado crítico – Após anos de tempos de baixa liquidez e gargalos dificuldades, o mercado vê, enfim, na infra-estrutura, o País busca saídas para reduzir o alto custo dos novas fontes de recursos benefícios de saúde 14 Na dose certa – A busca do 32 Uma crise em vários tons – As equilíbrio entre as metas das empresas razões da inflação dos alimentos, na estrangeiras e o mercado brasileiro visão do ex-ministro Roberto Rodrigues
  • 4. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Mundos Os mercados das nascentes potências econômicas do século 21, da China ao Brasil, se projetam como as novas estrelas no céu de riscos e oportunidades das multinacionais Por Camila Viegas-Lee, de Nova York Já faz tempo que o motor do Grandes corporações européias ou crescimento econômico vem girando de norte-americanas de segmentos como modo mais rápido fora daqueles países logística, siderurgia ou máquinas e que, décadas atrás, eram chamados equipamentos precisam se relacionar de “desenvolvidos”. Os mercados cada vez mais com os mercados ditos “emergentes”, como China, emergentes, na busca de commodities Índia, Brasil, Rússia, México e outros, do Brasil, mão-de-obra da Índia, são os que oferecem hoje as melhores manufaturados em larga escala da oportunidades de expansão para as China e assim por diante. organizações multinacionais. Seus grandes e dinâmicos mercados internos Esse cenário global está refletido em boa se mostram receptivos às mais diversas parte das conclusões de três estudos novidades em produtos e serviços. Da recentes da Deloitte. Em “Os Poderosos mesma forma, porém, que esses milhões do Varejo Global”, que elenca as de pessoas se integram à economia principais redes varejistas do mundo, globalizada, cresce também o seu nível as conclusões indicam, mais do que a de exigência. Mais do que nunca, o relevância dos mercados de consumo consumidor dos mercados emergentes emergentes, a ascensão de empresas quer variedade, qualidade, ofertas nascidas em países como China, Rússia customizadas e, sobretudo, respeito. e Brasil. Por sua vez, o estudo “Os Os emergentes, enfim, amadureceram Poderosos da Indústria de Produtos de e ficaram exigentes, impondo às Consumo”, que destaca os fabricantes multinacionais a necessidade de repensar que fornecem ao varejo, aponta que, suas estratégias e sua forma das 50 empresas de crescimento mais de atuação. Esses acelerado no mundo, três são chinesas, novos desafios duas são da Índia e outras duas, de não se limitam Taiwan. Para Altair Rossato, sócio da ao varejo. Deloitte que lidera as estratégias de mercado para empresas de varejo e bens de consumo, a presença de empresas de países emergentes nesses rankings denota o estágio de equilíbrio que o setor vem alcançando no mundo. “Se, por um lado, a conquista de mercados emergentes se tornou difícil para empresas de economias mais desenvolvidas, as oportunidades de internacionalização se 4
  • 5. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 emergentes disseminaram entre as organizações e Planejamento da General Motors joint venture – passam pelo mesmo de todo o mundo, inclusive para as Corporation, explica que, apesar de esse teste de qualidade e utilizam os mesmos brasileiras”, afirma. processo ser mundial, as necessidades padrões e medidas. “É um processo específicas de cada mercado emergente internacional padronizado para garantir O terceiro estudo da Deloitte é o começam a influenciar a produção o mesmo sistema métrico de qualidade “Innovation in Emerging Markets”, cada vez mais cedo. “Os carros para a em todos os mercados, sem importar de que aborda as estratégias de empresas região dos Andes, por exemplo, têm de onde veio o produto.” manufatureiras, reforça um sinal da funcionar bem em altas altitudes e isso nova face exigente dos compradores é algo que colocamos em nossos livros Apfel destaca também, a respeito do de países emergentes, hoje mais desde o princípio e é acompanhado modelo de operação da GM, o que atentos a questões de segurança e por engenheiros até o processo de chama de “sistema de manufatura qualidade. É essa postura que ajuda a desenvolvimento”, diz Apfel. Ele garante global”, uma descrição detalhada de explicar, na avaliação de José Othon de que todas as fábricas – seja da GM, de como os produtos são construídos, Almeida, sócio da Deloitte que lidera uma montadora contratada ou de uma desde a participação dos funcionários o atendimento às empresas do setor manufatureiro, o fato de quase um quarto dos 651 executivos ouvidos pela pesquisa – a grande maioria baseada Gigantes em nossas fronteiras em países emergentes – indicar que suas empresas estiveram envolvidas em Apesar dos entraves que ainda autonomia para tomar decisões que processos de recall de produtos nos desestimulam o investimento façam sentido à realidade local.” estrangeiro, o Brasil segue firme entre últimos cinco anos. “À medida que os as prioridades das multinacionais. O A Pepsico, outra gigante mundial consumidores de mercados emergentes investimento de US$ 200 milhões da fornecedora do varejo, com 11 fábricas se mostram mais conscientes e exigentes General Motors na criação de uma nova no Brasil, vê o País como um mercado quanto à qualidade dos produtos que fábrica no País, em Joinville, gerando essencial às suas estratégias. “O Brasil compram, a responsabilidade dos 500 empregos diretos e mais 1.300 vem se tornando na Pepsico uma fabricantes aumenta. Esse grande indiretos a partir de 2009, é apenas das prioridades de investimento e número de recalls é um indicativo de uma entre as muitas boas notícias a desenvolvimento de novos negócios”, celebrar. A visão do diretor executivo afirma José Roberto Lettiere, Chief- que ainda há sérios riscos a serem da empresa, Martin Apfel, explica Financial Officer (CFO) da Pepsico. Lettieri gerenciados. Conhecer esses riscos, além por si o investimento: “os indicadores reclama, porém, da carga tributária e de prevenir situações desagradáveis, macroeconômicos do Brasil nos deixam dos juros que incidem sobre o crédito. também pode gerar oportunidades muito confiantes de que o País vai competitivas”, avalia. crescer sustentavelmente”. Os obstáculos inseridos no chamado “Custo Brasil” são as maiores A experiência da GM Essa certeza está expressa também preocupações da fabricante de nas estratégias da Kraft Foods, uma automóveis Renault em suas estratégias A preocupação com a segurança e a das maiores fabricantes de alimentos locais. As deficiências na logística de qualidade dos produtos não é novidade, do mundo, hoje presente em todos transportes, a burocracia, a complexidade mas, após os problemas ocorridos nos os grandes países emergentes, do sistema tributário e a instabilidade últimos anos – com a contaminação de como informa o diretor de Assuntos das regras, além da atual valorização brinquedos, creme dental e até ração Corporativos e Relações Governamentais do real, ainda inibem o investimento para cachorro –, a questão se tornou da empresa no Brasil, Fabio Acerbi. “Na externo, conforme revela à Mundo Kraft internacional – que compreende Corporativo a administração da empresa mais evidente para consumidores, todas as unidades da organização no Brasil. Apesar disso, entre as maiores empresas, investidores e reguladores. sediadas fora dos Estados Unidos e do economias emergentes do mundo, o Além disso, a discussão agora inclui Canadá –, o Brasil é o país que mais Brasil é hoje um país que oferece bons aspectos relacionados à preservação tem recebido atenção e está no foco resultados à Renault em termos de ambiental, por exemplo. Em entrevista dos investimentos”, afirma. A unidade rentabilidade e volume, se comparado à Mundo Corporativo, Martin Apfel, brasileira da Kraft tem uma gestão à Rússia, Índia e China, lembrando que, diretor executivo do Departamento autônoma, como explica Acerbi. “Isso nesses dois últimos, as operações da simplifica os processos e garante mais empresa ainda estão se iniciando. de Manufatura Global, Estratégia 5
  • 6. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 A estratégia da diferença: menos risco, mais valor Especialista em estratégias de terceirizados. Ao mesmo tempo, porém, multinacionais, investimento estrangeiro elas estão percebendo que a demanda e mercados emergentes, o professor da Índia por softwares está crescendo. de Administração Estratégica da Por isso, querem estar na Índia não Universidade de Columbia, Bruce Kogut, apenas para comprar, mas também para falou à Mundo Corporativo sobre os vender. E estão descobrindo que suas atuais riscos das empresas transnacionais fornecedoras, como a Wipro e a Infosys, e as oportunidades do Brasil. se tornaram também suas concorrentes. A outra razão é que a estratégia de Como lidar com os riscos do processo de contar com parceiros locais nem sempre suprimentos em países emergentes? funciona porque esses parceiros estão O risco é melhor gerenciado no contexto freqüentemente se tornando globais. do relacionamento entre fornecedores e compradores. Uma das razões desse Como o Brasil pode se diferenciar? problema é o fato de as multinacionais O Brasil oferece muitas vantagens às tradicionalmente avaliarem fornecedores corporações multinacionais. Antes de mercados emergentes apenas com de mais nada, é uma democracia que base no preço. No entanto, há custos conseguiu desenvolver instituições nessa estratégia, em particular, nos riscos Bruce Kogut, da Universidade de Columbia: estáveis, que apóiam o comércio e o da segurança e qualidade do produto. o diferencial competitivo dos emergentes não investimento estrangeiro. Depois, tem Os consumidores se importam com isso pode mais se limitar aos custos baixos uma notável força em engenharia, e estão dispostos a pagar “algo” para como a aeronáutica, mas também ter certeza de que os produtos sejam ser reduzida, pois as demandas de em TI e software. Em terceiro lugar, o bons. A questão é: como podem as investimento de capital são grandes. A País opera mais ou menos no mesmo multinacionais convencer o consumidor resposta para essas multinacionais tem horário dos Estados Unidos e isso torna a de que essa promessa de valor adicional sido buscar parceiros locais para dividir comunicação e a coordenação muito mais é verdadeira? Para isso, compradores e investimentos e riscos, enquanto mantêm fáceis. Há muito que o Brasil pode fazer fornecedores devem trabalhar juntos seu poder de barganha pelo controle e está fazendo para crescer sua posição para colocar em prática programas de canais globais de distribuição. na economia internacional. Eu resumiria transparentes e comprováveis, que todos esses esforços simplesmente garantam a qualidade e a segurança Que tendências podem ser esperadas dizendo que o Brasil entendeu, há muito do produto, além de assegurar ao dessa forma de atuação? tempo, que precisa competir pelo valor consumidor o respeito pelas condições A estratégia de manter o controle do que tem a oferecer e não apenas ambientais. pela distribuição está se desgastando pelo baixo custo. Made in Brazil deve rapidamente por duas razões. A primeira significar “qualidade”, assim como made Que fatores influenciam a experiência é que os mercados domésticos de muitos in England significava há 100 anos, das multinacionais nesses países? países emergentes têm se tornado ou made in U.S. há 60 anos e made in Elas aprenderam a operar até em interessantes. A Índia, por exemplo, Japan há 30 anos. Isso significa muito ambientes muito turbulentos e a está crescendo rapidamente e tem uma mais do que qualificar fornecedores por gerenciar, com muito cuidado, a enorme demanda por mão-de-obra suas práticas. Compreende tornar as exposição de seus investimentos em especializada para a sua indústria de TI. empresas brasileiras atuantes fora do certos países. Em algumas indústrias, Por isso, os custos estão aumentando Brasil. A Embraer, que eu visitei há uns 20 como a de petróleo e mineração, mas rapidamente. As multinacionais estão, anos, é um bom exemplo do que pode ser também a de produção de máquinas portanto, procurando em outros lugares, atingido. Valor, e não custo, é o futuro e bebidas, essa exposição é difícil de inclusive no Brasil, por softwares do Brasil. (C.V.L.) até o desenvolvimento e a aplicação de as multinacionais a reformarem e Para o diretor da GM, “o que os padrões de qualidade e aperfeiçoamento divulgarem suas políticas ambientais. mercados emergentes mais ensinam é contínuo. “Todas essas atividades são No caso da GM, muitos são os a necessidade de um sistema flexível, dissecadas nos mínimos detalhes e, princípios que devem ser respeitados. que permita a tomada de decisões com depois, acompanhadas de perto para “Investimos muito tempo e dinheiro pouca informação. É preciso ser capaz vermos como nossas fábricas estão com a auditoria da implementação de mudar sempre e aprender com as funcionando em todo o mundo”, explica. desses padrões, seja no Usbequistão, na experiências”. • Segundo o diretor, esse trabalho envolve Venezuela ou no Egito”, conta Apfel. um cuidadoso monitoramento para que No Brasil, a nova fábrica da GM, que Camila Viegas-Lee é correspondente do jornal o produto se adeque às necessidades deve ser inaugurada em Joinville no O Estado de S. Paulo, específicas do mercado e aos padrões de final de 2009, contará com um sistema com passagens por qualidade internacional. elétrico para os testes de motor, sem veículos como Wall Street Journal, Valor Econômico, o uso de gasolina ou etanol, a fim de Folha de S. Paulo e A preocupação sempre maior com a eliminar a geração de gases tóxicos telejornais das TVs Globo ecologia e a sustentabilidade levou dentro das fábricas. e Cultura 6
  • 7. Mundo Corporativo Nº 21 A (nossa) 3º trimestre 2008 energia verde As chances de o Brasil aproveitar o cenário global de instabilidade na oferta de alimentos e energia para se projetar como um grande fornecedor de etanol, produtos agrícolas e tecnologia Por Eugênio Melloni O etanol brasileiro foi colocado, como parte “do velho jogo internacional Brasileira dos Produtores e Exportadores nos últimos meses, diante de uma de interesses comerciais” entre os países. de Frangos (Abef). “Temos a possibilidade encruzilhada, no caminho que percorre “Essa polêmica, no Brasil, não existe”, de explorar mais de 90 milhões de rumo à criação de novos mercados diz Ferreira, acrescentando que apenas hectares de áreas agricultáveis, sem no exterior. Incensado como uma das 6% da área agricultável do País, cerca afetarmos áreas de preservação principais alternativas para a redução de 6 milhões de hectares, é ocupada ambiental, como a Mata Atlântica e a do efeito estufa, o combustível pela cana e que a expansão do plantio Floresta Amazônica”, assegura Turra. extraído da cana-de-açúcar passou tem se dado sobre áreas de pastagens a ser acusado, juntamente com os degradadas e não em locais destinados A própria alta dos preços no mundo demais biocombustíveis, de ser um dos ao plantio de alimentos. poderá gerar oportunidades ao principais agentes da crise mundial da agronegócio brasileiro. O economista da oferta dos alimentos. As acusações Acusações e defesas à parte, a crise Sociedade Rural Brasileira (SRB), André provocaram reações rápidas e severas do na oferta de alimentos e a busca por Diz, considera que a alta dos alimentos governo brasileiro, de especialistas em energias alternativas representam é capaz de contribuir também para que energia e alimentos e de representantes uma grande oportunidade. Para o países como os Estados Unidos venham a do agronegócio de todo o País, que têm Brasil, a produção de etanol e o cultivo flexibilizar as rígidas barreiras que mantêm conseguido, aos poucos, desmobilizar de alimentos, além de não serem para a importação de produtos agrícolas. com argumentos técnicos o arsenal atividades excludentes, representam, “A redução das taxas de importação antibiocombustíveis (leia artigo de ambas, frentes de negócios com permitiria, por exemplo, ao banco central Roberto Rodrigues nas págs. 32-34). grande potencial. “Somos o único norte-americano (o Federal Reserve), país capaz de ampliar a sua oferta adotar uma política de taxas de juros mais Na opinião do diretor-titular do de alimentos e atender à crescente branda para conter a inflação”, avalia. Departamento de Agronegócio da demanda mundial, valendo-se de uma Federação das Indústrias do Estado de grande produtividade”, diz o ex-ministro “Temos grandes potenciais, mas também São Paulo (Fiesp), Benedito da Silva da Agricultura Francisco Turra, atual grandes desafios”, afirma o professor Ferreira, o episódio somente se explica presidente-executivo da Associação Antônio Márcio Buainain, do Instituto de 7
  • 8. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Economia da Unicamp. Como exemplo, relacionadas a biocombustíveis, destaca Ao estruturar seus projetos, parte ele aponta os pontos de estrangulamento que não há indícios no Brasil de que dessas organizações está partindo para existentes na infra-estrutura brasileira e áreas dedicadas ao plantio de soja, investimentos que envolvem a aquisição a falta de mecanismos de proteção aos milho e outros grãos estejam sendo de terras visando ao plantio próprio riscos do agronegócio. “O risco, que deslocadas pelo cultivo da cana- de cana. Esse comportamento tem é elevado, leva, a cada três ou quatro de-açúcar. Ele alerta, porém, para a sido verificado inclusive em regiões do anos, a um desgastante processo de possibilidade de essa contraposição Centro-Oeste, dedicadas atualmente à renegociação das dívidas dos produtores vir a existir no futuro. “O aumento produção de grãos. “Não está afastada rurais, que implica atrasos na ampliação significativo da produção de etanol no a possibilidade de, no futuro, por conta da produção de grãos”, acrescenta Brasil ocorreu há apenas três anos”, da aquisição de terras por esses grupos, Buainain. lembra Andrade, que alerta para a existir uma pressão da cana sobre áreas expectativa de uma série de usinas dedicadas ao plantio de grãos”, admite. Mauro Andrade, gerente sênior do entrar em operação até 2010, marcando Petroleum Services Group da Deloitte a chegada de grandes grupos no Volta por cima e também especialista em questões negócio do etanol no Brasil. Apesar do intenso tiroteio a que foi submetido, o etanol à base de cana também desfruta de imensas oportunidades. O presidente da O futuro do etanol, na visão de um precursor Companhia Brasileira de Energia O físico José Goldemberg, professor Renovável (Brenco), Philippe Reichstul, emérito do Instituto de Eletrotécnica e afirma que continuam intactos, após Energia, da Universidade de São Paulo os ataques contra o etanol, os planos (USP), com passagens pelos ministérios da empresa de investir no País R$ 5,5 da Educação e da Ciência e Tecnologia bilhões até 2015, sendo R$ 4,5 bilhões e pela Secretaria Nacional do Meio- na construção de novas usinas e R$ 1 Ambiente, foi um dos estudiosos precursores do programa Pró-Álcool, bilhão em logística e comercialização. que deu início, em meados da década “O etanol é cada vez mais uma idéia de 70, à produção de etanol a partir acertada, se se levar em conta o da cana-de-açúcar, como alternativa preço do barril do petróleo”, declara ao súbito encarecimento da gasolina Reichstul. A Brenco – que conta com após a crise do petróleo. Ele falou acionistas como o ex-presidente à Mundo Corporativo sobre o atual norte-americano Bill Clinton e o ex- cenário energético e as oportunidades O cientista e ex-ministro José Goldemberg do Brasil. presidente do Banco Mundial James O etanol brasileiro volta então a ser D. Wolfensohn – planeja construir As autoridades e o agronegócio uma alternativa ao mundo? oito novas usinas. Com isso, ela conseguiram desarmar a campanha São muito boas as perspectivas para o produzirá, a partir de 2015, cerca de antibiocombustíveis? álcool brasileiro, que continua a ser um 3,8 bilhões de litros de etanol por ano, Acredito que sim. O instituto criado excelente substituto para a gasolina. o correspondente a 15% da produção recentemente pelo ex-secretário A produção de etanol no mundo todo nacional e 4% da mundial. geral da Organização das Nações equivale a 1 milhão de barris por dia, Unidas (ONU), Koffi Annan, realizou enquanto o consumo de petróleo é de 80 recentemente uma conferência que milhões de barris por dia. Naturalmente, “O mercado do álcool é impulsionado por tratou da questão dos alimentos de o etanol deverá ganhar espaço, dois fatores: a alta internacional do preço forma favorável ao etanol brasileiro. influindo na fixação dos preços para os do petróleo e o aquecimento global”, O Prêmio Nobel da Paz, Rajendra combustíveis. Hoje, o custo de um barril diz Marcos Sawaya Jank, presidente da Pachauri, presidente do IPCC (painel de etanol produzido no Brasil equivale União da Indústria de Cana-de-Açúcar da ONU para o clima), fez uma análise a US$ 40. Nos Estados Unidos, o barril dizendo que, na questão envolvendo (Unica), a maior entidade representativa de etanol custa o dobro. É por isso que a produção de biocombustíveis e os norte-americanos impõem barreiras do setor sucro-alcooleiro, que congrega de alimentos, é preciso distinguir o alfandegárias ao álcool brasileiro. mais de 100 usinas, responsáveis por álcool de cana dos seus congêneres. mais de 50% da produção de álcool no A Royal Society, a academia britânica A produção de etanol a partir da Brasil. “Com o petróleo no preço atual, de ciências, também tem analisado a celulose, estudada pelos norte- o álcool passa a ser viável”, justifica. questão, diferenciando o etanol à base americanos, pode limitar o potencial Mauro Andrade, da Deloitte, acredita de álcool dos demais biocombustíveis do etanol de cana? em relação à sua sustentabilidade. que seja irreversível o efeito da alta do Ainda é muito cedo para se dizer como Estamos conseguindo, por meio de essa tecnologia irá se afirmar no cenário petróleo como estímulo à produção de trabalhos científicos, mostrar que mundial. Ela encontra-se em fase de biocombustíveis. “É pouco provável que o etanol de cana é diferente, no testes, com a produção feita apenas ocorra um recuo grande dos preços do que se refere à competição com os em usinas-piloto. Não há ainda plantas petróleo. Muito pelo contrário: os preços alimentos, dos etanóis feitos a partir comerciais. É preciso esperar a evolução ainda podem subir um pouco mais”, de beterraba e de milho. das pesquisas. estima. 8
  • 9. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Jank, da Unica, vislumbra oportunidades as vendas de álcool combustível A exemplo de Biagi, Mauro Andrade, no longo prazo para o álcool brasileiro correspondem a 50% do consumo da Deloitte, acredita que a Europa teria nos Estados Unidos. Os norte-americanos, brasileiro de gasolina, enfatiza o benefícios a partir de uma abertura de que produzem 35 bilhões de litros de presidente da Unica. seu mercado ao etanol brasileiro. “Os etanol, projetam para 2022 um mercado consumidores europeus reclamam muito de 118 bilhões de litros, dos quais Tecnologias e mercados dos altos preços dos combustíveis”, 57 bilhões serão supridos por etanol Para Andrade, da Deloitte, há hoje nos enfatiza, acrescentando o peso dos convencional e 61 bilhões por etanol Estados Unidos um fator que transforma impostos nessa questão. “O etanol de celulose. “A produção de etanol é, em incógnita a performance do etanol brasileiro, misturado aos combustíveis, para os Estados Unidos, uma questão brasileiro. “Em no máximo cinco anos, poderia contribuir para uma redução de segurança energética, o que explica os norte-americanos deverão dominar desses preços. Como vi em muito poucas a proteção a esse mercado”, diz Jank. a tecnologia que permitirá a produção ocasiões os governos baixarem impostos, “Será um grande negócio se pudermos de etanol a partir da celulose”, prevê. acredito que a melhor alternativa para conquistar um pedacinho desse mercado, Com a posse dessa tecnologia, ainda baratear os combustíveis é permitir a atuando de forma complementar no em fase inicial de desenvolvimento (leia entrada do etanol”, sugere o especialista suprimento de álcool”, acrescenta. entrevista na pág. ao lado), será possível em energia da Deloitte. Ele acrescenta utilizar como matéria-prima tudo que que há várias multinacionais européias Jank ressalta, porém, que, apesar das contém celulose – de folhagem a restos entrando na produção de etanol no oportunidades fora do País, “o nosso de safras agrícolas, por exemplo. “Eles Brasil. “Com a entrada dessas empresas, principal alvo é o mercado interno”. As podem, com essa tecnologia, criar um o álcool poderá ser embarcado para a vendas de álcool seguem aquecidas no produto competitivo em relação ao Europa sem a caracterização de produto mercado interno desde o advento dos etanol produzido à base de cana-de- importado”, indica. carros flex fuel, em 2003. Atualmente, açúcar”, alerta. Nesse mercado, a perspectiva de A preocupação dos Estados Unidos projeção do Brasil no exterior não se com o desenvolvimento do etanol tem limita ao etanol, nem aos alimentos. relação também com a urgência de Na esteira das transformações reduzir sua enorme dependência do energéticas em curso, o País pode petróleo, o que explica os constantes também exportar tecnologia. De subsídios concedidos aos produtores acordo com o presidente da Associação locais. Um dos mais importantes Brasileira de Engenharia Automotiva usineiros do Brasil, Maurílio Biagi Filho, (AEA), José Edson Parro, a tecnologia de Sertãozinho (SP), na região do adotada pelos carros flex fuel, que principal pólo de produção de tem obtido sucesso no Brasil, também etanol do País, acredita que, poderia vir a encontrar mercados mesmo nos Estados Unidos, no exterior. “Esse modelo poderia os altos dispêndios com facilmente ser exportado, uma vez os subsídios já estão que os detentores das tecnologias são provocando protestos. empresas multinacionais, como a Delphi “Os subsídios e a Bosch”, avalia Parro. Ele acrescenta, são também um porém, que o fator determinante da problema em países expansão dessa tecnologia seria a como a França, disponibilidade, em grande escala, que produz etanol do etanol produzido a partir da cana a partir do trigo. nesses países. Seria melhor para a França se importasse Parro diz também que não conhece etanol brasileiro e exemplos de tecnologias semelhantes exportasse o trigo aos motores flex fuel brasileiros que para o Brasil”, estejam sendo desenvolvidas em outros salienta. países. “Já existem carros híbridos, movidos simultaneamente, por exemplo, a eletricidade e diesel, mas que contam Mauro Andrade, do Petroleum Services com dois motores. Os carros flex Group da Deloitte: brasileiros têm um único motor movido etanol brasileiro a dois combustíveis”, compara. São como solução aos altos impostos sinais das oportunidades que hoje se sobre combustíveis apresentam para o Brasil nessa nova na Europa era energética. • 9
  • 10. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 As vias do crescimento Para suprir as enormes demandas do País em infra-estrutura, os organismos financeiros multilaterais se consolidam como fontes alternativas de recursos, especialmente, em períodos de menor liquidez global Por Gleise de Castro Estabilidade econômica, aumento emperram o desenvolvimento pleno do dos R$ 84,1 bilhões que o País destinou acelerado do consumo e expansão do País. Sinal dessa preocupação são as obras a esse fim, segundo levantamento da Produto Interno Bruto (PIB) a taxas acima previstas no Programa de Aceleração Associação Brasileira da Infra-estrutura e das registradas por países desenvolvidos do Crescimento (PAC), do Governo Indústrias de Base (Abdib). são fatores que não deixam dúvidas: o Federal, que prevê o investimento de Brasil está definitivamente na rota do R$ 503,9 bilhões em infra-estrutura Com isso, ganha destaque o papel dos crescimento. E, para crescer de forma de 2007 a 2010. A esses recursos, bancos de fomento e dos organismos sustentável, são necessários investimentos somam-se os feitos diretamente pela multilaterais, aos quais o governo e a maciços em infra-estrutura, a fim de iniciativa privada, que corresponderam, iniciativa privada podem recorrer para remover os inúmeros gargalos que ainda apenas entre 2003 e 2007, a 43,5% obter boa parte do capital necessário para que as obras saiam do papel. Isso porque essas instituições operam com projetos de longo prazo de maturação e que envolvem grandes volumes de recursos, oferecem prazos mais dilatados de financiamento e costumam ser imunes a percalços conjunturais, como a crise dos títulos subprime nos Estados Unidos, que afetou a liquidez global. Há também a vantagem da isenção fiscal do imposto de renda sobre a remessa para pagamentos de juros, que incide sobre os demais empréstimos feitos no exterior. Para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o PAC compõe, com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e a agenda social do Roberto E. Soares, da IFC, braço do setor privado do Banco Mundial: confiança no País 10
  • 11. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Os “nós” do Custo Brasil – Em 2008, pelo menos 20% do mínimo que o Brasil precisa de investimento anual em infra-estrutura continuará não atendido pelos recursos públicos e privados previstos para o período governo, os três eixos prioritários do de longo prazo, corroborado pela E esses recursos tendem a crescer. O projeto nacional de desenvolvimento e, obtenção do grau de investimento”, BID registra uma demanda potencial por isso, serve como ponto de partida complementa Guerra. de 21 projetos em fase de preparação, para a definição de sua estratégia para que somam US$ 2 bilhões e poderão o Brasil nos próximos quatro anos. “O O Brasil é o principal parceiro e mutuário ser aprovados em 2008 ou 2009, para BID vislumbra uma perspectiva de plenas do BID, mantendo a média histórica de beneficiar os segmentos de transportes, possibilidades para que o País mantenha 21% dos empréstimos aprovados desde saneamento, meio ambiente e infra- a aceleração nos investimentos públicos a criação do banco. A dívida total do estrutura do setor privado, com destaque e privados”, diz Wagner Guerra, País hoje com o banco é de cerca de para energia. “Hoje, diante do atual economista do BID que representa a US$ 13,5 bilhões, equivalentes a 25% ritmo de aceleração dos investimentos, instituição no Brasil. “A estabilidade dos empréstimos totais do BID. Nos estima-se que o Brasil possa absorver macroeconômica e a consistência últimos cinco anos, os desembolsos mais de 40% dos recursos disponíveis na política fiscal e de endividamento anuais médios ao Brasil têm ficado em do BID em 2008”, diz Guerra. público têm sido fundamentais para US$ 1,5 bilhão. Só na área de infra- assegurar um cenário favorável à estrutura, o banco tem hoje em carteira Os investimentos do Banco Internacional economia brasileira mesmo diante de 33 projetos em execução, um total para Reconstrução e Desenvolvimento eventos internacionais desfavoráveis. contratado de US$ 1,5 bilhão, que (BIRD), braço direito do Banco Mundial, Os ganhos manifestam-se não só representa 22% de todos os projetos também são ascendentes no Brasil. pela redução da incerteza e do risco, em execução do BID no País. São 23 Entre 2005 e 2008, o banco aplicou que inibiam a taxa de retorno dos projetos realizados com entidades do US$ 1,6 bilhão em projetos de infra- investimentos privados, como também setor público (US$ 734 milhões) e 10 estrutura no País. Para o período de pelo favorecimento ao financiamento com o privado (US$ 730 milhões). 2008 a 2011, as expectativas são de 11
  • 12. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 investir US$ 4,6 bilhões no setor, de um duas décadas de crescimento econômico Infra-Estrutura da International Finance total estimado de US$ 7 bilhões. Entre emperrado e pouco investimento em Corporation (IFC), o braço do setor os projetos envolvidos, figuram o de infra-estrutura, o Brasil se encontra em privado do Banco Mundial. “O País vem desenvolvimento regional do Rio Grande uma posição extremamente favorável atraindo um volume crucial de capital do Sul, com US$ 180 milhões, e o plano para iniciar um ciclo de desenvolvimento privado para infra-estrutura. Com a para trens e sinalização de São Paulo, sustentável”, diz Roberto Emrich Soares, melhora dos fundamentos econômicos e com US$ 550 milhões. “Após mais de investment officer do Departamento de os avanços em marcos regulatórios, A longa e compensadora jornada rumo ao crédito Apesar da disposição dos organismos internacionais em ampliar o crédito ao País, há um longo caminho a ser percorrido pelos interessados em tomar esses empréstimos, como alerta Susana Furquim, gerente sênior da área de Corporate Finance da Deloitte. Ela ressalta a importância de que a organização que busca o crédito se prepare de tal forma que a instituição multilateral possa entender bem o contexto da aplicação do recurso. “Para se credenciarem ao recebimento de recursos dessas instituições, as empresas privadas e públicas precisam lançar mão de uma análise adequada da viabilidade de seus projetos, de uma avaliação econômico-financeira bem estruturada e do estabelecimento de um plano de gestão, entre outras medidas. Tudo para atender às exigências dessas instituições e também para melhorar sua própria gestão interna”, explica Susana. “As exigências prévias constituem um Henrique Pillar, da MRS Logística: esforço recompensado com a captação de US$ 100 milhões da IFC processo trabalhoso para a estrutura interna da companhia. Elas são bastante flutuações do dólar em casos nos quais na distribuidora Enersul. Na área de consumidoras de esforço e tempo”, as receitas são em moeda estrangeira) geração, o EDP tem investido até agora diz Henrique Aché Pillar, diretor de constitui outra dificuldade inerente a basicamente em hidrelétricas, cujo índice Planejamento e Finanças da MRS Logística. esses empréstimos, como lembra Carlos de nacionalização é de praticamente Ele afirma que muitas empresas levam Andrade, diretor financeiro do grupo 100% e, por isso, os financiamentos até um ano na montagem da operação. EDP Energias do Brasil. “Isso encarece provêm do BNDES. “Os investimentos A MRS conseguiu fazer isso em tempo um pouco as operações, mas, como essas de instituições multilaterais fazem mais relativamente rápido, quatro meses, em fontes de recursos são mais competitivas sentido quando destinados à compra de uma operação para a captação de US$ em juros e prazos em relação a outras equipamentos importados, como no caso 100 milhões com a IFC, contratada no fontes de financiamento externo, acaba de termelétricas, área em que também final de 2005, com prazo de oito anos e compensando”, diz Andrade. O grupo temos projetos”, afirma Andrade. três meses de carência. Os recursos foram lançou mão de um empréstimo do BID aplicados na compra de ativos importados: pela primeira vez em 2004, para sua Já a CCR fechou uma operação de locomotivas, trilhos e sistemas de distribuidora controlada Bandeirante US$ 128,9 milhões com o BID, por 14 sinalização e telecomunicação. “O lado Energia, no valor de US$ 100 milhões, anos, para a compra de equipamentos bom da história foi termos conseguido nas modalidades A (recursos do BID) e B destinados à linha 4 do Metrô de São uma linha não disponível no Brasil na (bancos comerciais). “Foi uma operação Paulo. “Se tomássemos esses recursos época, com a combinação de prazo e pioneira, em uma situação difícil para o diretamente dos fabricantes, teríamos de custo competitivo”, afirma Pillar. “Agora setor elétrico. As negociações começaram pagar cerca de US$ 20 milhões adicionais que a companhia já está organizada para em 2003, quando tínhamos acabado de por conta do imposto de renda sobre buscar esse tipo de financiamento, se sair do racionamento e o dólar havia remessa de juros”, diz Arthur Piotto, viermos a nos credenciar novamente, disparado”, conta o executivo. diretor financeiro e de relações com fica muito mais fácil.” investidores da companhia. “Outra O EDP também contratou uma operação vantagem é a percepção de que esses A necessidade de se fazer uma operação de US$ 40 milhões com o Banco Europeu recursos são mais abundantes do que os de hedge cambial (que permite à de Investimento (BEI), em 2002, com do crédito direto, por causa da menor empresa proteger seu balanço das prazo de seis anos, para investimentos liquidez internacional”, afirma Piotto. 12
  • 13. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 o cenário para a participação de agentes técnicos e financeiros para estruturar se recursos públicos e privados, financeiros tem sido muito favorecido. e fomentar projetos de infra-estrutura corresponde a pouco menos de Investidores estrangeiros passaram na forma de Parcerias Público-Privadas 80% do necessário. “As instituições a considerar o Brasil como um país (PPPs). Desse total, a IFC entra com multilaterais são fundamentais e sempre confiável para aplicações de recursos de US$ 1 milhão, o BID com mais US$ 1 consideradas na hora de estruturar longo prazo, principalmente em infra- milhão e o BNDES, via BNDESPar, com o financiamentos para empreendimentos estrutura”, avalia Soares. restante. “As captações com organismos de infra-estrutura”, diz Godoy. “Basta multilaterais podem representar olhar para São Paulo e verificar que uma A IFC participou no Brasil de projetos um complemento importante para série de empreendimentos nas áreas de de infra-estrutura que envolveram um enfrentar a forte demanda por água, esgoto e transporte público foi financiamento de cerca de US$ 660 financiamento que o banco vivencia financiada por esses bancos.” milhões nos últimos seis anos e mais hoje”, diz Terezinha Moreira, chefe do US$ 276 milhões em empréstimos Departamento de Captação junto a Paulo Resende, diretor do Núcleo sindicalizados, incluindo segmentos tão organismos internacionais do BNDES. de Logística da Fundação Dom variados como energia, rodovias, portos “Com o dinamismo do PAC e uma Cabral, entende também que é e ferrovias. A carteira comprometida série de projetos em infra-estrutura, essencial o papel dessas agências na total da IFC no País é hoje de cerca de é importante contar com fontes de construção da infra-estrutura brasileira, US$ 2,4 bilhões e mais US$ 846 milhões recursos adequadas, em prazos e em principalmente porque elas podem em empréstimos sindicalizados. Desse condições, para o atendimento desses suprir projetos não tão atraentes ao total, 22% estão concentrados em investimentos.” investimento privado. São projetos que projetos de infra-estrutura. têm como características estimular o Potencial ainda maior desenvolvimento regional e ampliar O principal agente de fomento brasileiro, O Brasil pode ampliar ainda mais o alcance social. Ele avalia que 40% o Banco Nacional de Desenvolvimento a utilização dessas instituições nas dos projetos de logística de transporte Econômico e Social (BNDES), também operações de financiamento. Segundo compreendidos pelo PAC se encaixam utiliza as fontes multilaterais para levantamento da Abdib, o País precisa nessa categoria. Além disso, Resende financiar seus projetos. A meta do de R$ 108,4 bilhões de investimentos estima que a necessidade real de banco para este ano é captar US$ 1,5 em infra-estrutura por ano, ao longo investimentos em obras de logística bilhão desses organismos, dos quais de uma década, sem interrupção, “para no Brasil é de R$ 80 bilhões, contra US$ 500 milhões destinam-se à área de evitar que problemas nos sistemas os R$ 58,3 bilhões previstos no PAC. infra-estrutura. Do KfW, da Alemanha, de energia, transporte, saneamento “Daí o papel indispensável dessas devem ser captados € 50 milhões para e telecomunicações se transformem agências de fomento”, afirma Resende. a construção de pequenas centrais em impeditivos ou gargalos ao hidrelétricas e usinas eólicas e mais crescimento econômico”, diz Paulo Essa visão é compartilhada por José € 100 milhões para saneamento. Além Godoy, presidente da entidade. Hoje, o Paulo Rocha, sócio que lidera a área disso, estão em fase de desembolso total investido por ano, considerando- de Corporate Finance da Deloitte. uma operação firmada, em dezembro “Uma análise feita apenas a partir de de 2007, com o China Development uma ótica exclusivamente financeira Bank (CDB), de US$ 750 milhões, para não colocaria investimentos em a construção do Gasoduto Sudeste- saneamento, habitação, estradas e Nordeste (Gasene), e um financiamento portos, por exemplo, no topo das do Japan Bank for International prioridades dos investidores privados”, Cooperation (JBIC), fechado em 2005, diz. “Já as agências multilaterais, por de US$ 500 milhões, para obras gerais terem uma visão de desenvolvimento de infra-estrutura. Esses recursos, humano de longo prazo, acabam somados aos de outras instituições, dando peso maior a essas áreas, em entram no funding do BNDES para que o Brasil tem grande carência.” compor o total de R$ 80 bilhões que Para Pieter Freriks, sócio da mesma serão desembolsados em 2008. Nos 12 área da Deloitte, “os organismos meses anteriores a abril deste ano, o financiadores internacionais tendem total de financiamentos do banco somou a se consolidar, cada vez mais, como R$ 76,2 bilhões, dos quais R$ 30,2 uma excelente alternativa na busca de bilhões em infra-estrutura. recursos, especialmente em tempos nos quais a liquidez global pode ficar Além disso, o BNDES firmou, em comprometida”. E conclui: “essas outubro de 2007, um convênio com instituições oferecem boas condições de a IFC e o BID para a criação de um crédito e o Brasil deve aumentar o uso fundo, com aporte inicial de US$ 3,9 Wagner Guerra, do BID: Brasil como principal dessas fontes de recursos para financiar milhões, destinado a prover recursos parceiro e mutuário da instituição o seu desenvolvimento”. • 13
  • 14. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Na dose certa O esforço contínuo Os dados sobre Investimentos solidez das instituições e a perspectiva Estrangeiros Diretos (IED) no Brasil de continuidade do ciclo de crescimento das empresas indicam uma fase excepcional de de atividade – com a oferta de atratividade da economia local para os oportunidades de negócios em setores estrangeiras em capitais externos. Em 2007, corporações ainda inexplorados – formam um ajustar os objetivos produtivas e financeiras internacionais trouxeram ao País a quantia recorde ambiente de sedução para a entrada de investimentos. Boa parte desses recursos e a cultura de de US$ 34,6 bilhões, conforme dados do Banco Central (Bacen). Apenas no chega na forma de investimento direto feito pelas próprias empresas estrangeiras suas matrizes às período de janeiro a maio deste ano, o volume atingiu a casa de US$ 14 que mantêm negócios no País. peculiaridades do bilhões, quase o mesmo obtido em Como traço comum, todas as todo o ano de 2005, por exemplo, em corporações que investem no Brasil mercado brasileiro, uma clara indicação de manutenção seguem as mesmas premissas, como a a fim de garantir do elevado ritmo de expansão. Em um cenário interno que combina meta da geração de lucros e de retorno aos seus acionistas, seja pela expansão o sucesso de seus estabilidade econômica, política e regulatória, a recente obtenção do das suas atividades, pela eficiência na gestão de custos ou por meio da investimentos “grau de investimento” (investment obtenção de ganhos de produtividade. grade) das agências de classificação Basta posicionar, entretanto, uma Por Jander Ramon de risco Standard & Poors e Fitch, a lupa sobre o modo como atuam essas organizações que se dispõem a remeter altos investimentos ao País para que se identifique uma série de peculiaridades nas operações desenvolvidas, nem sempre alinhadas com os parâmetros culturais e mesmo de negócios da realidade local. “Percebemos situações inusitadas, na qual um negócio não é concretizado puramente por aspectos culturais. Os valores acertados podem agradar a estrangeiros e brasileiros e a operação pode ser interessante para ambos, mas o negócio não se materializa pelo simples fato de os dois lados não se entenderem”, cita o sócio da Deloitte que lidera a área de Relações com Clientes, Edgar Jabbour. Ele também é responsável pela recém- criada Spanish Desk, a versão espanhola da estrutura de apoio que a Deloitte oferece a empresas estrangeiras que realizam investimentos no Brasil. Exatamente por ser crescente a presença de investidores internacionais no mercado brasileiro, cada vez mais é observada a necessidade de as empresas lançarem mão de um “olhar local” para que não apenas o ingresso dos recursos, 14
  • 15. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 entrega do que foi prometido. O estilo do mundo e trabalha para isso”, de trabalhar é seco, muitas vezes, com exemplifica o vice-presidente da palavras duras, algo por vezes não instituição financeira. compreendido pelos brasileiros”, relata o executivo. Se poucos países do mundo contam, como o Brasil, com investimentos Para dirimir esses ruídos, o responsável de procedências tão diversificadas, pela Spanish Desk da Deloitte comenta há de se ter também versatilidade que as empresas espanholas precisam, para que os negócios possam fluir em muitas ocasiões, de facilitadores no mercado local. Assim acontece que atuem como “espuma entre com as organizações japonesas, que cristais”. “É preciso, por exemplo, contam com características muito harmonizar e convergir relatórios de próprias em seus modelos de gestão. uma operação brasileira para atender As relações comerciais estabelecidas à regulamentação espanhola, medida pelos nipônicos são baseadas em que exige ajustes aos dois mercados”, uma receita de confiança e que exige explica Jabbour. Também faz parte paciência dos interlocutores, comenta do processo compreender o perfil o sócio que lidera a chamada “Prática de realização de negócios, no caso Japonesa”, a Japanese Desk da espanhol, muitas vezes, rotulado de Deloitte, Tosiyuki Nakamura. “Pesam “agressivo”, quando analisadas as muito o relacionamento pessoal e subsidiárias locais de gigantes como o cumprimento preciso do que foi Ulrico Barini Filho, vice-presidente de RH do banco espanhol Santander: uma cultura de pragmatismo, Telefônica, OHL e o próprio Santander. estabelecido no contrato, sem jeitinhos urgência e desburocratização “O estilo da corporação espanhola ou flexibilizações”, acrescenta. “Antes atende a um objetivo claro de que de chegar ao presidente da empresa, como também a manutenção das as empresas se tornem líderes dos o assunto é analisado profundamente operações, se torne bem-sucedido. “No mercados que disputam”, analisa o e de forma exaustiva pelos níveis caso dos espanhóis, houve uma clara sócio da Deloitte. “Há, claramente, gerenciais de comando, em uma cultura decisão de destinar investimentos para a arrojo e determinação. O Santander de trabalho coletivo, com levantamento América Latina, pelos motivos óbvios de decidiu ser um dos primeiros bancos de todos os riscos. Isso demanda tempo históricos laços culturais e facilidade com o idioma. Embora o Brasil não tenha o espanhol como língua, trata-se da maior economia da região e as organizações espanholas identificaram nosso mercado como prioritário”, explica Jabbour. Agressividade e paciência Em 2007, o capital de origem espanhola foi um dos líderes em IED no Brasil. A presença ibérica no País advém de longa data, revestida de pleno conhecimento das peculiaridades que permeiam o ambiente de negócios local. “Não são muito diferentes de franceses, portugueses ou italianos. Caracterizam- se por uma gestão de perfil mais centralizador, com regras definidas no país de origem e que devem ser seguidas à risca por suas subsidiárias”, relata Jabbour. Acostumado ao “jeito espanhol” de negociar, o vice-presidente de Recursos Humanos do Santander, Ulrico Barini Filho, destaca a forma “pragmática e desburocratizada e o sentido de urgência” pelos quais o alto comando da empresa opera. “Um dos valores do Santander está no grau altamente ético e na garantia de Rolf-Dieter Acker, da Câmara Brasil-Alemanha: cerca de 1.200 empresas alemãs, como a Basf, atuam no País 15
  • 16. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 e não adianta o empresário local se vezes, evita dar respostas negativas comenta, ao vincular tal preocupação enervar e ter pressa, porque a visão diretamente, para não contrariar o com as estratégias de longo prazo. japonesa estabelece que, coletivamente, parceiro estrangeiro logo no começo”, é mais difícil errar”, pondera Nakamura. exemplifica. Os fatores culturais se mostram também muito relevantes nos Característico, e paciente, também é o O sócio-líder da German Desk da relacionamentos conduzidos pelas modo de uma empresa nipônica operar, Deloitte, Maurício Pires Resende, empresas francesas, como conta o sócio sempre focada em objetivos de longo esclarece que a superação de barreiras Philippe Canel, que lidera a French Desk prazo. “Se tomarmos o exemplo da se torna mais fácil a partir do momento da Deloitte. “Entender as diferenças entrada da Toyota e da Honda no Brasil, em que os brasileiros compreendem, culturais é fundamental nas relações notamos que iniciaram a produção com com precisão, quais são as expectativas transnacionais. O executivo francês tem volumes baixos, em torno de 20 mil do investidor alemão quando ingressa uma forma mais direta para encaminhar veículos por ano, e foram crescendo em um negócio. “Culturalmente, uma negociação, o que pode ser aos poucos”, cita. Hierarquia também é o executivo alemão é detalhista e interpretado como uma atitude rude ou outro ponto-chave no relacionamento objetivo e tende a ser mais formal indelicada. Porém, com a globalização com executivos japoneses. “Um e centralizador. Muito organizados, das empresas, o aprendizado sobre presidente de uma organização mostram-se profundamente restritivos como outras culturas conduzem os japonesa não admite, por exemplo, sobre a qualidade do que contratam”, negócios e a interação com os costumes discutir negócios com um interlocutor informa. “Embora a impressão que o praticados em outros países tornam-se que não tenha um cargo elevado”, povo alemão passe seja de excesso de credenciais essenciais”, avalia Philippe. comenta. rigor, na realidade, trata-se de um perfil A respeito da complexidade encontrada extremamente focado e disciplinado em questões técnicas relacionadas à Foco e disciplina na busca de resultado”, adiciona. prática de negócios no Brasil, como o Ao ingressarem no Brasil, os investidores sistema tributário, Philippe considera não estrangeiros, independentemente Também é recorrente a preocupação ser um grande problema, desde que se do país de origem, têm queixas com questões de preservação ambiental, possa contar com um assessoramento freqüentemente relacionadas à conforme destaca Acker, da Câmara adequado. complexidade do sistema tributário e do Brasil-Alemanha. “As empresas alemãs, excesso de burocracia. “Mas isso não em geral, se caracterizam pela busca Ligeiros e certeiros impede que as empresas invistam no contínua por inovação e qualidade Se, em grande parte, os investimentos Brasil. Não conheço nenhum caso de de serviço. Estão entre os líderes diretos estrangeiros estão atrelados uma empresa estrangeira ter desistido em tecnologia de ponta. Zelam pela a projetos de maturação de longo de investir no País justificando a decisão implantação de normas ambientais e prazo, como enfrentar então o desafio apenas com o ‘Custo Brasil’”, ressalva o sociais e pelo cumprimento destas”, imposto pelo grupo de investidores presidente da Câmara Brasil-Alemanha, Rolf-Dieter Acker. Presentes há décadas no País, Bem-vindos sejam com cerca de 1,2 mil empresas e Ao mesmo tempo em que o movimento de internacionalização de empresas brasileiras representando cerca de 8% do Produto se intensifica, os investimentos de organizações estrangeiras no País também crescem. Interno Bruto (PIB) industrial brasileiro, Os recentes recordes no montante de Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil os alemães também vinculam sua refletem essa tendência. instalação no território nacional a IED e IBD uma relação de confiança e respeito à (Em US$ bilhões) íntegra dos contratos. “Dependendo 45 um pouco do lugar, encontramos no 40 38 Brasil uma cultura empresarial em 35 33 35 muitos aspectos semelhante à européia, 30 29 29 28 sobretudo no sul do País. Ao contrário 25 22 19 19 do que acontece, por exemplo, em 20 17 18 18 15 países da Ásia, o estrangeiro adapta-se 15 11 10 10 aqui mais facilmente, pois os brasileiros 10 7 são um povo aberto e receptivo”, 5 0 1 3 2 2 2 0 3 -2 descreve Acker. “No entanto, o 0 alemão, pelo menos no começo, -5 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 pode estranhar certas situações. Por Investimento Estrangeiro Direto (IED) líquido Investimento Brasileiro Direto (IBD) líquido exemplo, aqui demora um pouco mais Fonte: Deloitte (a partir da consolidação de dados do Banco Central do Brasil); montantes de investimentos para se obter uma resposta definitiva acumulados em 12 meses móveis a uma solicitação. O brasileiro, às 16
  • 17. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 ampliação da empresa, transformando Sinal de compromisso uma receita de R$ 100 milhões em, O incremento do Investimento Estrangeiro Direto (IED) verificado em 2007 reflete por exemplo, R$ 150 milhões. Depois também a relativa expansão, naquele ano, dos investimentos de países com histórico de, em média, cinco anos, vendem o mais longo de atuação no Brasil, caso de Estados Unidos, Espanha, Alemanha, França negócio a um concorrente ou efetivam e Japão (evolução abaixo). Mesmo os investimentos do Japão – que se mostram uma uma fusão ou ainda abrem capital em exceção à regra, por terem registrado nos 12 meses de 2007 uma queda em relação a Bolsa”, exemplifica o especialista. 2006 – já sinalizam, a partir de estatísticas mais recentes, uma acentuada recuperação, ao se levar em conta o período de 12 meses anteriores a maio de 2008. Xavier conta que são várias as Ingresso de Investimento Estrangeiro Direto (IED) experiências de os fundos manterem (Em US$ bilhões) antigos donos ou gestores à frente do Estados Unidos Espanha negócio, porém, com a implantação 4,5 Alemanha França de uma nova cultura administrativa Japão e empresarial. “Os antigos gestores 3,5 passam a ser cobrados por geração de resultados e devem estar prontos para 2,5 enfrentar os novos desafios. Há uma profunda mudança de cultura, balizada 1,5 em maior agressividade e busca de resultados”, salienta. Essa modalidade 0,5 de investimento também deve ser considerada pelas empresas brasileiras -0,5 2003 2004 2005 2006 2007 entre as possibilidades de negócios. Trata-se de um mecanismo alavancador Fonte: Deloitte (a partir da consolidação de dados do Banco Central do Brasil); até 2005, os dados acima não incluem investimentos em bens e imóveis de negócios que se encontram ainda em estágio de maturação e que oferecem um nível de risco aos investidores superior ao encontrado Muito a crescer em alternativas mais tradicionais do mercado. Apesar do aumento nos investimentos diretos recebidos de países com histórico de atuação mais longo, a participação do Brasil no total de recursos destinados ainda Um levantamento da Deloitte aponta é muito pequena, o que sinaliza, sobretudo, o grande potencial de crescimento. que o País experimentou, em 2007, um Da soma das saídas de investimentos diretos de cinco países selecionados (abaixo) total de 705 operações anunciadas de ao longo de 2007, o Brasil foi o destinatário de cerca de somente 1% dos capitais. fusões e aquisições, tendo os fundos (Em US$ bilhões) de private equity uma participação Saída de Destinação de Participação importante nesses negócios. “Embora País investimentos investimentos do Brasil diretos diretos ao Brasil no total (%) ainda tenhamos de enfrentar questões cruciais, como a elevada carga tributária, Estados Unidos 316,7 3,8 1,19 a necessidade de equilíbrio dos gastos públicos e o permanente cuidado com Espanha 121,5 1,8 1,47 o meio ambiente – um tema bastante sensível aos investidores –, o cenário Alemanha 103,6 1,4 1,38 brasileiro é extremamente positivo e incentivador a novos ingressos de França 219,7 1,0 0,46 capital. Nosso ciclo de IED não só vai se manter, como será expandido”, enfatiza Xavier. Japão 73,5 0,8 1,10 Total 835,0 8,8 1,06 Entender as características e Fonte: Deloitte (a partir da consolidação de dados da Economist Intelligence Unit) particularidades dos investidores pode ser um fator importante para as empresas tirarem proveito do excelente atual com perfil de permanência menos modelos de gestão, explica Ronaldo momento de ingresso de capitais no País. duradoura no País, os chamados Xavier, sócio da área de Consultoria Ao mesmo tempo, tentar entrar no Brasil fundos de private equity? Eles Tributária da Deloitte, especialista sem contar com um olhar sobre a cultura identificam oportunidades de negócios, nos aspectos tributários relacionados do mercado local pode ser um risco para adquirem participações em empresas, a essas operações. “Geralmente, os estrangeiros – talvez a diferença entre injetam capital e reestruturam os esses fundos trazem recursos para a um negócio ser ou não concretizado. • 17
  • 18. Mundo Corporativo Nº 21 Bola em jogo 3º trimestre 2008 A Copa do Mundo de 2014 já deveria ter começado, pelo menos, para as cidades e os centros esportivos que ainda pretendem capitalizar tudo o que esse evento poderá gerar em negócios e desenvolvimento para o Brasil Por Dagoberto Souto Maior Jr. A Copa do Mundo de 2014 é nossa e O alerta é de Robson Calil Chaar, sócio a apoiar a organização do evento no já começou. O que ela coloca em jogo da área de Consultoria em Gestão de Brasil, endossa a preocupação. “Mais é nada menos do que a capacidade de Riscos da Deloitte e um dos responsáveis importante do que os estádios são todo um país se organizar para tornar pelo grupo multidisciplinar dedicado ao todas as atividades complementares, realidade as oportunidades que um “Projeto Copa do Mundo 2014”. “Se como obras de infra-estrutura, preparo evento dessa magnitude propicia não os preparativos para a Copa não forem do capital humano e planejamento dos apenas ao esporte, mas à economia, acelerados imediatamente, o País corre eventos a serem realizados em torno dos à sociedade e ao futuro da nação. As o risco de ter de arcar com todos os encontros esportivos. A mobilização deve cifras envolvidas na realização de uma custos demandados pela iniciativa, mas Copa do Mundo impressionam e dão não ter, em contrapartida, os benefícios uma idéia da dimensão dos negócios que um evento desse porte tende a que podem ser gerados e revertidos em oferecer”, avisa Calil. Edgar Jabbour, lucro e desenvolvimento (veja quadro sócio da Deloitte também dedicado na pág. 21). Porém, para que o Brasil consiga aproveitar todo esse potencial, há uma partida a ser travada todos os dias dos próximos seis anos e que tem como determinante da vitória o planejamento. 18
  • 19. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 por exemplo, o Rio de Janeiro, cidades sediarão os jogos da Copa, a candidato à Olimpíada de 2016. Fédération Internationale de Football “Os dois eventos, Copa e Olimpíada, Association, a FIFA, cogitou oito capitais. poderiam ser coordenados como O objetivo da entidade, ao contar um apenas um, quanto às atividades para a número reduzido de sedes, é otimizar melhoria da infra-estrutura da cidade”, os recursos alocados no evento e propõe. Ele lembra que já há várias evitar o que aconteceu na Coréia do ações em curso no País, mas ainda sem Sul e no Japão, por exemplo, quando a organização e integração necessárias. alguns empreendimentos se tornaram “Essa mobilização está mais adiantada economicamente inviáveis após o em alguns Estados e inexistente em torneio de 2002. outros. Ainda falta um grande projeto para a Copa. É preciso haver um grupo Foram pré-selecionadas 18 cidades de agentes focados nesse processo, como candidatas a sediar jogos da identificando oportunidades e lacunas. Copa: Manaus, Belém, Fortaleza, Natal, E, se isso não acontecer rapidamente, Recife/Olinda, Maceió, Salvador, Belo algumas decisões acabarão sendo Horizonte, Brasília, Goiânia, São Paulo, atropeladas. Não estamos atrasados, Rio de Janeiro, Campo Grande, Cuiabá, ser bem direcionada e envolver governos, mas essa é a hora de começar para Rio Branco, Curitiba, Florianópolis investidores privados e, obviamente, a que tudo saia direito”, ressalta. e Porto Alegre. A CBF entende, por Confederação Brasileira de Futebol (CBF), outro lado, que 12 cidades seriam uma além de todos aqueles que, de alguma O Comitê Gestor da Copa, entidade quantidade adequada, considerando forma, participarão do evento”, afirma. privada criada para administrar todo as dimensões e a repercussão que o torneio, ainda não deu início a o evento trará ao Brasil. A previsão Jabbour alerta também para a ações efetivas. Enquanto isso, o é de que, no início de 2009, a FIFA oportunidade de algumas cidades cronograma fica mais apertado a cada já defina as cidades-sede. É preciso otimizarem esforços e recursos, como, dia. Embora não se saiba ainda quais considerar, contudo, que um evento dessa natureza é tão eficiente ao atrair investimentos que, mesmo as cidades que não forem escolhidas também 19
  • 20. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 serão potencialmente beneficiadas, futebol possam atrair capital privado ser muito mais amplos. A Associação lembra Rachel Toledo, gerente sênior e fomentar a construção de estádios e Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias da Deloitte, dedicada ao setor público. instalações acessórias. Isso sem falar do de Base (Abdib) alerta que não basta Segundo Rachel, dependendo do ganho turístico que virá para o município pensar onde a bola vai rolar. Para que a tamanho da cidade, ela vai poder e os seus arredores”, avalia Rachel. Copa seja um sucesso, o Brasil precisa abrigar, no máximo, de quatro a seis sofrer uma mudança profunda, pois jogos, o que gera demanda por locais Goleada de investimentos terá de eliminar problemas crônicos e adequados para que outras seleções Para que tudo saia sem erros, será históricos de infra-estrutura, além dos possam treinar enquanto esperam pelas preciso investir muito dinheiro. O aporte gargalos que existem há décadas. partidas. E os melhores lugares para mais evidente e urgente terá de ser feito suprir essa demanda, diz ela, são os na construção ou reforma de estádios Para Ralph Lima Terra, vice-presidente centros de treinamento dos clubes, que e arenas esportivas que receberão os executivo da Abdib, toda a preparação também são obrigados a cumprir as jogos. Segundo a CBF, poderão ser 12 deve partir de um plano diretor que rígidas exigências da FIFA se quiserem estádios – de acordo com o número identifique quais os empreendimentos credenciar suas instalações para esse de sedes a ser confirmado –, cada um de infra-estrutura e de esportes objetivo. “É uma grande oportunidade avaliado em cerca de US$ 100 milhões. que o Brasil precisa construir. “É de negócio para que os clubes de No entanto, os investimentos deverão importante que haja envolvimento e comprometimento dos governos, em todos os níveis da Federação, além, e sobretudo, da iniciativa privada. A estréia da “Copa Verde” Quanto maior a participação dela no planejamento e nos investimentos, Edição brasileira do evento será a primeira a contar com ações pela maiores as chances de haver sucesso”, sustentabilidade afirma Ralph Lima. No fim de junho, a Abdib fechou um termo de cooperação A Copa do Mundo de 2014 entrará técnica com a CBF e com o Ministério para a história como a primeira a estabelecer parâmetros ecológicos dos Esportes, a fim de identificar oficiais a serem cumpridos por governos cada projeto a ser implementado e e empresas privadas que participem de o valor estimado para a iniciativa. É sua organização. É o que a FIFA chama preciso investir em transporte, fontes de “green goal” (gol verde), criado geradoras de energia, saneamento – para marcar a preocupação com o principalmente coleta e tratamento de meio ambiente e a sustentabilidade na realização de grandes eventos. Entre as esgoto –, telecomunicações etc, tudo exigências “verdes” da FIFA, que deverão Manaus: candidatura com apelo ecológico para que o País funcione direito e atenda ser obrigatoriamente seguidas pelo aos brasileiros, ao setor produtivo e Brasil, estão a criação de programas de onde não se identifique desmatamento aos turistas que aqui estarão, deixando reutilização, reciclagem e redução do via satélite. O Estado diz não ao um legado pelo desenvolvimento. Os lixo e a neutralização de todo o carbono crescimento de certos setores, como investimentos necessários para resolver produzido no evento. pecuária extensiva, soja e cana-de-açúcar. os gargalos da infra-estrutura foram Queremos que este seja um Estado de Nesse contexto de fazer uma “Copa turismo, de indústria e energia limpos, estimados em R$ 87,7 bilhões, a serem Verde” no Brasil, o governo do de serviços ambientais, de utilização realizados em dez anos. Como a Copa Amazonas, Estado que abriga a maior de recursos naturais com tecnologia e não permite esperar uma década inteira, porção de floresta amazônica do País, sustentabilidade e com uma economia os esforços terão de aumentar para foi um dos primeiros a trabalhar para de serviços forte”, afirma o secretário. acelerar os investimentos. incluir Manaus, sua capital, entre as sedes do evento. Para o secretário Thiago Moreira Salles, gerente sênior Se o propósito é construir um legado, de Planejamento e Desenvolvimento da Deloitte que atua no “Projeto Copa Econômico do Amazonas, Denis do Mundo 2014”, avalia que o evento é preciso pensar no uso das instalações Benchimol Minev, Manaus se diferencia representa uma oportunidade para que após o evento. “Precisamos desenvolver das demais cidades pela bandeira da Manaus passe por melhorias expressivas empreendimentos de infra-estrutura e sustentabilidade. “Temos hoje uma dos pontos de vista estrutural, social, de esportes pensando na viabilidade taxa de desmatamento de 0,05% ao econômico e cultural. De acordo com econômica deles para o futuro, a fim ano, drasticamente melhor do que a do Salles, a Copa é um “vetor de antecipação de que a Copa do Mundo deixe um resto do Brasil e do histórico do próprio às necessidades futuras”, o que pode Estado. Fizemos isso com um conjunto significar que muitos investimentos que rastro de crescimento no Brasil. Dou de ações que valoriza a floresta em pé, objetivam o aprimoramento da qualidade um exemplo: o País precisa aderir que vai desde o estabelecimento de de vida de toda a população – e que ao conceito de arenas com múltiplas preço mínimo para produtos sustentáveis geralmente são realizados no longo funções, conciliando esportes, (como borracha, óleo de andiroba e prazo –, poderão ser antecipados para entretenimento e serviços diversos. copaíba, entre outros) ao pagamento do 2013, quando o Brasil sediará também Os estádios hoje são pouco utilizados ‘Bolsa Floresta’ para famílias de regiões a Copa das Confederações. e têm infra-estrutura e tecnologia 20
  • 21. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Sem tempo a perder A lição deixada pela maioria dos países que sediaram grandes eventos esportivos, como Copa do Mundo ou Olimpíada, mostra ao Brasil que quem começa antes e se planeja bem ganha mais. A Copa da Alemanha, em 2006, é tida como um sucesso de público e crítica. Só para ficar no aspecto esportivo, o país ganhou em infra- estrutura de estádios – que agora se reflete em maior público e renda aos A Alemanha se tornou, em 2006, uma referência clubes locais – e em receitas geradas pelo na organização de uma Copa do Mundo marketing esportivo, que crescem sem parar. A economia ganhou também e próxima Copa, o desafio do Brasil é muito (números à direita). urgente e enorme. Tão grande quanto as dimensões logísticas, econômicas e A Inglaterra, que começou a se preparar esportivas de uma Copa do Mundo. para a Olimpíada de 2012 ainda em 2002, é outro exemplo no qual o Brasil Experiência e expectativa deve se espelhar. Em julho de 2007, Números da última e da próxima Copa* um dia depois de Londres receber a notícia de que sediaria os Jogos, já havia um grupo reunido para planejar o evento. Desde então, o trabalho dos Alemanha (2006) organizadores segue sem interrupções, Incremento de € 8 bilhões no PIB, com as operações coordenadas a partir entre 2003 e 2010 de uma base que funciona dentro do Geração de 50 mil novos empregos próprio escritório da Deloitte na cidade. 7 milhões de visitantes em eventos Já na África do Sul, houve demora em oficiais, em 12 cidades-sede defasadas. Os empreendimentos podem começar os preparativos, impondo € 5,5 milhões faturados em diárias ter investimento e operação privados, um alto preço alto à comissão de hotéis garantindo um melhor aproveitamento organizadora. A preparação só se € 800 milhões gastos por turistas dos projetos após a Copa”, diz Lima. iniciou efetivamente há cerca de um € 1,5 bilhão investidos em estádios e ano e meio. “O resultado foi um atraso geral nos preparativos, obras feitas em € 7,5 milhões em transportes Outro desafio, como lembra Elias de caráter de emergência e o aparecimento 32,5 bilhões de espectadores, em mais Souza, também gerente sênior da de inúmeras dificuldades, não apenas de 200 países (soma dos públicos na área da Deloitte que atende ao setor do ponto de vista do projeto, mas transmissão dos jogos) público, é quanto ao modo de operação também de falta de material”, afirma entre o Comitê Gestor da Copa, que Edgar Jabbour, um dos responsáveis executa tarefas representativas da FIFA, pelo “Projeto Copa do Mundo 2014”, África do Sul (2010) a entidade organizadora do evento, e as da Deloitte. O país sediará, já em 2009, seguindo o compromisso com US$ 3,1 bilhões em patrocínios e atividades dos órgãos do Poder Público. a FIFA, a Copa das Confederações, direitos de transmissão para os “Como o Comitê vai se posicionar quando no mínimo cinco estádios próximos três anos perante os diversos órgãos públicos terão de estar prontos. “Hoje a África US$ 2,5 bilhões investidos pelo sobre as necessidades que atendam do Sul é um grande canteiro de obras, governo local (US$ 1,4 bilhão em aos requerimentos mínimos definidos com empreendimentos do porte de construção e reforma de estádios e para a realização do evento? E como vai aeroportos, meios de transporte público US$ 1,1 bilhão em transporte público e deliberar sobre prazos de construção e etc. Em algumas cidades, não há infra-estrutura) tempo para fazer metrô convencional concessão para a exploração de uma Aumento do efetivo de policiais do e optou-se pelo metrô de superfície estrada a ser criada, por exemplo? E País (serão 193 mil até 2010) para acelerar e baratear os custos”, como vai influenciar sobre o uso de um explica Elias de Souza, gerente sênior Expectativa de acréscimo no PIB de novo estádio ou a mudança de traçados da Deloitte. US$ 3,5 bilhões de ruas? Somente o governo tem esse Previsão de US$ 1,5 bilhão em poder, em nome do cidadão, usando A experiência da África do Sul, que arrecadação de impostos e taxas pelo hoje se esforça para recuperar o tempo governo local verbas públicas. Esse é apenas um dos perdido, parece indicar ao Brasil Estimativa de US$ 1,6 bilhão em gastos modelos de gestão e de realização de que este é mesmo o momento de se pelos visitantes negócios para os quais deveremos achar planejar. Com problemas estruturais padrões”, pontua. É dessas definições parecidos, mas com um território * Estimativa a partir de atividades econômicas que depende o sucesso do Brasil em muito maior do que o do país-sede da diretamente ligadas à Copa do Mundo 2014, pelo menos, fora dos campos. • 21
  • 22. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 As páginas da O desafio e a pressa para se ajustar ao SPED, o novo modelo contábil e fiscal em vigor, que abre um novo tempo nas relações entre Fisco e empresas, substituindo o papel pelo tráfego on-line das informações Por Jander Ramon O Brasil acaba de ingressar em uma nova era contábil e fiscal e a causa dessa revolução responde pela sigla SPED, de Sistema Público de Escrituração Digital, que lança praticamente todas as forças produtivas do País ao imenso e profundo desafio de fornecer informações aos órgãos governamentais de fiscalização (municipais, estaduais e federal) de forma eletrônica. A implementação do SPED traz às empresas muito trabalho e alguns riscos, mas também uma série de avanços ao País e ao próprio ambiente de negócios, que passa a adquirir um nível de transparência que permite o livre acesso de informações ao Fisco e a identificação, cada vez mais ágil, de eventuais falhas, que serão sempre acompanhadas, na mesma velocidade, por eventuais punições que se façam necessárias. “Com o SPED, a Secretaria da Receita Federal e os órgãos fiscalizadores municipais e estaduais passam a capturar informações de uma forma mais consistente, racional e padronizada, disponibilizada em uma mesma base de dados. Ele acaba com a forma dispersa existente hoje, de falta de compartilhamento de informações entre as três esferas de governo”, explica José Othon de Almeida, sócio que lidera na Deloitte o atendimento às empresas do setor manufatureiro. “Um mundo completamente novo se abre, de exposição profunda e abrangente para 22
  • 23. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 nova era fiscal as organizações”, acrescenta. O sistema Circulação de Mercadorias e Serviços 2009, todas as empresas tributadas pelo foi criado a partir de uma iniciativa (ICMS) e do Imposto sobre Produtos lucro real, sujeitas a Acompanhamento integrada das administrações tributárias Industrializados (IPI) deverão apresentar, Fiscal Diferenciado, notificadas pela das três esferas governamentais, no layout padrão da EFD, a escrituração Receita e que tenham ao longo de 2008 tendo como objetivo padronizar e de documentos fiscais e outras efetivado algum evento especial – como unificar a recepção, a validação, o informações de interesse dos Fiscos, cisão, fusão ou incorporação –, passem armazenamento e a autenticação de bem como o registro de apuração de a atender ao novo modelo. Dessa forma, livros e documentos que integram a impostos referentes às operações e todos os registros contábeis e tributários escrituração comercial e fiscal, por meio prestações praticadas pelo contribuinte. deverão ser apresentados digitalmente. de um fluxo único e computadorizado. Em resumo, a EFD compreenderá No total, mais de 20 instituições, entre a versão digital que substituirá a Ajustes internos órgãos públicos, conselhos de classe, escrituração e impressão dos livros A lista de obrigações, por si só, já associações e entidades civis, além de de registros de entradas, saídas, demonstra um extenso conjunto uma série de empresas, participaram do inventários, contribuições e apuração de medidas a serem adotadas pelas processo de modelagem do SPED. de IPI, ICMS e Livro de Apuração do empresas. “Ao contrário do que Lucro Real (LALUR). Detalhe: o ano-base poderia aparentar inicialmente, a Essa nova fase de relacionamento entre considerado é o atual, 2008, o que implementação do SPED não envolve o contribuinte e o Fisco será construída faz necessário, na prática, que as apenas uma mudança na área de dentro de um calendário relativamente empresas deflagrem imediatamente Tecnologia de Informação (TI) da apertado. Neste momento, três os processos de ajuste. empresa. É preciso planejar de forma são as etapas em pleno vigor de muito mais ampla, abrangendo implementação: “SPED Fiscal”, a A mesma lógica vale para a ECD, que todos os processos de negócio da Escrituração Fiscal Digital (EFD); “SPED envolve a entrega de livros contábeis e organização”, analisa João Maurício Contábil”, de Escrituração Contábil balancetes. Nesses casos, o calendário Gumiero, sócio da área de Outsourcing Digital (ECD); e “Nota Fiscal Eletrônica” exige que, a partir de 30 de junho de da Deloitte. Ele ressalta que, nesse (NF-e), de âmbito nacional. No futuro, outras medidas serão adotadas para o atendimento on-line das obrigações com os Fiscos. Quem ganha com as mudanças Calendário em curso Algumas das vantagens que o Sistema Público de Escrituração Digital, o SPED, deve trazer ao País: Em estágio mais avançado, a NF-e já é exigida hoje para os setores de cigarros, Empresas combustíveis líquidos, transportadoras Redução de custos envolvendo papel, impressão e armazenamento de documentos e retalhistas. Até o final do ano, será Agilização dos trâmites nos postos fiscais de fronteiras interestaduais aplicada aos segmentos de montadoras, Eliminação de digitação de notas fiscais na recepção de mercadorias cimento, medicamentos, frigoríficos, Oportunidade de planejar a logística de entrega de mercadorias graças à recepção atacadistas, bebidas alcoólicas, antecipada dos dados da NF-e refrigerantes, energia elétrica, produtos semi-acabados de aço e ferro-gusa Fisco Aprimoramento dos controles fiscais (quadro na pág. 24). “Até abril último, Menor tempo despendido com ações de auditores fiscais nas instalações do mais de 8 milhões de NF-e foram contribuinte emitidas, em um volume superior a Acesso à informação em tempo real e antes mesmo da ocorrência física da operação R$ 91 bilhões, um verdadeiro sucesso”, Cruzamento eletrônico de informações avalia Othon de Almeida, da Deloitte. Sociedade Já os sistemas de EFD e ECD também Menor impacto ecológico pela substituição das notas em papel Incentivo ao comércio eletrônico e ao emprego de novas tecnologias estão em fase avançada de aplicação. Padronização das relações fiscais no País A partir de 1º de janeiro de 2009, todos Redução do Custo-Brasil os contribuintes do Imposto sobre 23
  • 24. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 processo, é essencial avaliar as refere à segurança da informação. “Há a Auditoria da Deloitte e responsável condições da empresa de se adequar necessidade de se manter em segurança pelos escritórios de Curitiba e Joinville. às novas exigências do Fisco, seja os dados digitais, já que o arquivamento “As atividades de contabilidade, quanto a sistemas, pessoas e modelos de papéis será substituído pelo formato tributos e controles internos permeiam de operação. “Em alguns casos, digital, mas é essencial um controle mais o negócio principal e, quando não fornecedores e clientes também rígido do acesso às informações em bem administradas, trazem, pela sua devem ser treinados e adequados alguns casos, considerando trilhas de relevância, riscos comprometedores para esse novo mundo corporativo”, auditoria e revisão de perfis de acesso, à rentabilidade e ao crescimento do complementa. “No fundo, estamos entre outros pontos, para garantir que negócio principal da organização, falando de uma grande reengenharia somente pessoas habilitadas possam especialmente em um contexto de no sistema de gestão”, observa Cláudio incluir ou alterar os cadastros e informar ajuste a um sistema que mudará toda Coli, diretor da Mastersaf, empresa de os dados contábeis”, ressalta. a maneira de apresentar informações, soluções na área tributária. como é o caso do SPED”, afirma. De forma adicional, alerta Robson Calil “Os principais desafios para as empresas Chaar, sócio da área de Consultoria Cuidados e penalidades se adequarem a esse novo modelo em Gestão de Riscos Empresariais da Quanto aos cuidados na área fiscal, serão vencer suas barreiras internas, Deloitte, um dos riscos relacionados Edirceu Rossi, sócio da área de tecnológicas e culturais, para a migração a sistemas – e que merece atenção Consultoria Tributária da Deloitte, que e adaptação à escrituração e assinatura especial das empresas – diz respeito atua a partir do escritório de Porto digital de documentos eletrônicos com à integridade das informações: a Alegre, alerta que as organizações validade jurídica”, prevê Carlos Sussumu necessidade de garantir que o que for deverão aprimorar a avaliação da Oda, supervisor-geral do SPED e auditor transmitido ao órgão governamental qualidade de suas informações e fiscal da Receita Federal. De acordo seja exatamente igual ao processado dos seus procedimentos fiscais, com o gerente de Projeto da Gerdau, pelos sistemas internos de informação pois, com a entrega dos arquivos Paulo Roberto da Silva, coordenador da organização. “A materialização dos eletrônicos, elas estarão mais expostas dos trabalhos das empresas que riscos afeta a imagem e a credibilidade a questionamentos pela eventual participaram do projeto-piloto do da empresa e, especialmente, envolve adoção de procedimentos fiscais em SPED, para a adequação aos projetos, problemas de ordem legal e regulatória. desacordo com a legislação. “Para as grandes empresas utilizaram-se de Isso afeta a percepção sobre a isso, é recomendável o mapeamento técnicas de planejamento e controle governança corporativa da empresa das informações contábeis e fiscais que sinalizam o tempo necessário diante do mercado”, enfatiza. disponíveis, a avaliação de sua ao desenvolvimento e aos testes de qualidade e a validação dos principais softwares, assim como as prioridades Esses riscos aos quais as empresas estão procedimentos, atentando para a a considerar com os fornecedores e as sujeitas tendem a aumentar à medida existência de controles internos que equipes internas de TI. que ocorre uma expansão das operações venham a assegurar o atendimento e de sua complexidade, como analisa das obrigações e a identificação de Ainda na área de TI, Ricardo Balkins, Cosme dos Santos, sócio da área de deficiências que possam gerar riscos sócio da Deloitte que lidera a área detectáveis quando da apresentação de Consultoria Empresarial, comenta do SPED”, recomenda. Ele lembra que que cada empresa deve se preparar eventuais erros, além de autuações, em relação à aquisição, customização podem levar os Fiscos a avaliarem a e integração de sistemas, além de se vida fiscal da empresa nos últimos preocupar com a infra-estrutura de cinco anos. “Os cadastros de clientes tudo o que se refere à comunicação. “A e fornecedores também devem ser implementação das soluções não é tão aprimorados. Como haverá um aumento simples como muitos acreditam. Não muito grande no controle de suas se trata de instalar um novo módulo do operações pelas autoridades fiscais, ERP (de “Enterprise Resource Planning”) poderá haver, inclusive, a interrupção de e pronto. Não é como instalar o MS- uma operação de venda de mercadorias, Office no desktop. É preciso fazer que passará a ser previamente aprovada com que os demais módulos dos ERPs pelos Fiscos”, destaca. tenham as informações necessárias. Esse aspecto geralmente apresenta A atenção merece ser redobrada em lacunas, exigindo customização de alguns setores, como o de varejo, módulos já em produção e mudança no lembra Altair Rossato, sócio da Deloitte modo como a informação é inserida no sistema”, explica. José Augusto Brochini, Joacir Padilha, da Sadia: “processo difícil gerente da mesma área, complementa e trabalhoso” na transição ao SPED, mas com que outro aspecto a ser considerado se benefícios concretos à empresa 24
  • 25. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Regime de urgência: os prazos do SPED O cronograma definido pelo Fisco para cada grupo de empresas se adequar ao Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) indica que a preparação e os processos de ajuste devem começar imediatamente 2008 2009 2010 Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) Empresas dos setores de cigarros, combustíveis líquidos, transportadoras e retalhistas Empresas montadoras, de cimento, medicamentos, frigoríficos, atacadistas, bebidas alcoólicas, Implantação refrigerantes, energia elétrica, semi-acabados de aço e ferro-gusa* Empresas de 25 setores, entre os quais, automóveis, derivativos de petróleo Implantação e gás, tintas e vernizes, derivados de fumo, aço e bebidas** Escrituração Fiscal Digital (EFD) Implantação Todos os contribuintes de ICMS e IPI Escrituração Contábil Digital (ECD)*** Dados a partir do ano-base 2008 Empresas tributadas pelo Lucro Real e sujeitas a acompanhamento fiscal diferenciado (notificadas pela SRF) Implantação Dados a partir do ano-base 2009 Implantação Demais empresas (Lucro Real) Mês da entrada em vigor de cada uma das etapas do SPED * Para as empresas que operam em Mato Grosso, a NF-e entrará em vigor em setembro de 2008 ** Para aço e bebidas, esse prazo é válido somente para distribuidores e comerciantes, pois os fabricantes já terão sido enquadrados *** Nos casos de extinção, cisão parcial ou total, fusão ou incorporação, a ECD deverá ser entregue pelas empresas até o último dia útil do mês subseqüente ao do evento (excepcionalmente, em relação aos fatos contábeis ocorridos em 2008, o prazo se encerrará no último dia útil de junho de 2009) que lidera o atendimento ao setor dificuldades com sistemas, treinamento às empresas, aos Fiscos e a toda a varejista e de bens de consumo. “Para de pessoas e processos internos. sociedade. A agilização e o melhor as empresas de varejo, a adaptação É mais difícil convergir para uma controle dos procedimentos sujeitos às ao SPED representa um desafio informação única quando considerados administrações tributárias permitirão excepcionalmente grande, em especial, os sistemas de faturamento, financeiro, um combate mais efetivo à sonegação por conta do volume de transações contabilidade e custeio, por exemplo”, e, conseqüentemente, à concorrência efetuado diariamente. Esse é um fator explica. Ao mesmo tempo, Padilha desleal, fazendo com que haja uma complicador diante da emergência entende que esse processo, em um competitividade mais justa entre as do ajuste ao novo modelo e do risco segundo momento, trouxe benefícios empresas”, cita Carlos Oda, da potencial de perda de receita”, pontua. importantes à empresa, como a Receita Federal. Como lembra Coli, da Mastersaf, facilidade de atendimento aos Fiscos mudar procedimentos interfere inclusive por meio de um layout único, além Ao mesmo tempo em que o combate em aspectos logísticos. “Antes, ao da padronização dos processos. à sonegação tende a ser mais mesmo tempo em que a nota fiscal “Tivemos também a eliminação eficiente, espera-se por um aumento era emitida manualmente, o setor de de papel, de uso de mão-de-obra de arrecadação pelos governos, transportes já efetuava o carregamento para conferência e de envio e abrindo espaço, por essa via, para o da carga. Imagine a situação, agora, armazenamento de arquivos, pois aprofundamento do debate em torno de o comprador estar com seu CNPJ tudo passa a ser digital”, conta. de uma Reforma Tributária para o País. suspenso. Se o carregamento já tiver “À medida que o sistema arrecadador sido feito e a emissão da NF-e não Desse imenso conjunto de desafios, se sofistica, a arrecadação cresce for autorizada pelo Fisco, será preciso o SPED traz uma série de benefícios e tende a facilitar a viabilização da descarregar”, exemplifica. ao Brasil como um todo, projetam os Reforma Tributária, uma vez que o especialistas. “Os efeitos da substituição potencial de perdas para eventuais Quem já viveu essa experiência, da emissão de livros e documentos segmentos prejudicados da sociedade como Joacir Padilha, especialista em contábeis e fiscais em papel por tende a ser menor, gerando menos Controladoria da Sadia, encara a documentos eletrônicos assinados atritos entre os agentes econômicos transição como “um processo difícil digitalmente farão com que uma e sociais”, analisa Othon de Almeida, e trabalhoso”. “Tivemos grandes série de vantagens seja incorporada da Deloitte. • 25
  • 26. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Transparência nos níveis de risco Os esforços dos bancos em se ajustarem às normas do risco operacional abrem caminho para uma visão mais clara e eficiente dos custos, além de fortalecer no Brasil as práticas de uma gestão transparente Por Jander Ramon Entre todos os setores da economia das economias também tornou mais Riscos da Federação Brasileira de Bancos formal, o financeiro é, sem dúvida, o complexas as análises dos fatores (Febraban), afirma que, “dentro do que desperta mais temores quando se de risco e, por conseqüência, o seu sistema financeiro, não há espaço para fala em crise. E por uma simples razão: gerenciamento. “É importante o atraso, já que eventuais erros podem sua penetração nos demais segmentos lembrar que o negócio principal da ter impactos relevantes à economia. econômicos é muito abrangente e, maioria das instituições financeiras está Da mesma forma, a implementação portanto, uma turbulência grave no em se expor aos riscos e não em evitá- das melhores práticas de gestão de sistema tem o potencial de afetar toda a los, a fim de ganhar sua recompensa riscos pode representar um diferencial economia de um país, se não do mundo com o capital exposto a essa situação. muito importante para uma instituição inteiro. Exemplos dessas chamadas Esses riscos podem ser chamados de competitiva”. “crises sistêmicas” ao longo da história ‘intencionais’ e incluem os riscos de não faltam e o simples indício de que crédito, mercado e seguros. Entretanto, elas possam ocorrer costuma motivar há diversos sub-riscos, como o saltos qualitativos na regulamentação sistêmico, de liquidez, legal, operacional dos mercados financeiros. Em meio à e, é claro, o de credibilidade”, explica recente crise do subprime nos Estados Leon Bloom, um dos líderes mundiais Unidos, por exemplo, algumas das da Deloitte para o atendimento às mais importantes instituições do instituições financeiras e especialista mercado, como o Instituto de Finanças em riscos operacionais. Internacionais (IIF, na sigla em inglês), começaram a propor códigos para A compreensão de que o negócio dos melhorar a segurança e disseminar as bancos é o próprio risco tem levado melhores práticas aos agentes do setor diversas instituições financeiras a financeiro (leia a edição 20 de Mundo aprimorarem sua gestão, de olho não Corporativo, págs. 24-26). apenas na melhor administração das suas eventuais perdas com operações Desde a década de 80, a preocupação malsucedidas, mas também nos ganhos com a gestão dos riscos das de competitividade e lucratividade que instituições financeiras tem crescido um controle mais rígido e adequado exponencialmente. O desenvolvimento dos riscos pode proporcionar. Fernando de novas tecnologias no fim do Busnello, diretor setorial de Gestão de século passado promoveu uma maior integração entre os mercados, Leon Bloom, um dos líderes mundiais ampliando o número possível de da Deloitte no setor financeiro: operações a serem realizadas por um a essência do negócio depende da banco. Ao mesmo tempo, o dinamismo exposição adequada ao risco 26
  • 27. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 reguladores mais centrado na supervisão e a necessidade de maior transparência ao mercado. É dentro dessa maior autonomia para definir modelos próprios, que os bancos brasileiros têm se deparado com um calendário que prevê a implementação das novas regras até 2012, ano estabelecido pela autoridade monetária nacional para que o sistema esteja totalmente adequado aos preceitos do Basiléia II. Uma mudança relevante já foi introduzida no Brasil com a Circular n° 3.360/2007, que estabeleceu as regras para o risco de crédito, reduzindo o fator de ponderação de alguns tipos de financiamento imobiliário de 100% para 50% e o de algumas operações do varejo de 100% para 75% (anteriormente, o fator utilizado para todas as linhas era de 100%). Na prática, isso significa que o volume No caso brasileiro, a gestão eficiente de de capital mínimo alocado para cobrir riscos sempre foi uma pré-condição para eventuais perdas nessas linhas será operar no mercado local. Os motivos são de um empréstimo ou uma operação menor, o que pode contribuir para mais do que conhecidos: inflação alta, de mercado. Naquele momento, ficou liberar ao sistema financeiro recursos mudanças constantes trazidas por planos estabelecido que a alocação mínima passíveis de utilização na alavancagem econômicos e uma forte sensibilidade seria de 8% dos ativos do banco, de empréstimos. Há de se considerar às oscilações nos humores dos mercados ponderados pelos níveis de risco que esse cálculo não considera a internacionais, fato sempre agravado aos quais estivesse exposto. No caso exigência de capital mínimo para pela fragilidade de uma economia que do Brasil, essa exigência é de 11%, créditos pré-aprovados, como cheque se desenvolveu longe dos grandes percentual estabelecido pelo Banco especial e crédito ao consumidor com centros de decisão. “Obviamente, Central (Bacen). aprovação prévia, nem os recursos que vivemos hoje uma situação bem serão destinados para cobrir eventuais diferente, mas as instituições brasileiras No entanto, a evolução do sistema problemas operacionais. foram, desde cedo, acostumadas a lidar financeiro global e algumas crises que com muitos eventos negativos, o que se seguiram a esse primeiro acordo Preocupação central fez com que ocorresse uma sofisticação fizeram emergir a necessidade de É justamente a figura do risco natural dos seus sistemas de risco”, controles mais rígidos, ou seja, de um operacional a que mais preocupa os lembra Busnello. novo acordo: o Basiléia II. Estipuladas em bancos neste momento, já que ainda 2004, essas novas regras internacionais não estão claros os modelos que A preocupação com a melhor gestão visam dar maior autonomia aos bancos poderiam servir de referência para o dos riscos é global, considerando-se na gestão dos seus riscos, introduzindo gerenciamento desse tipo de risco. que os mercados estão há tempos novas metodologias de mensuração Segundo o relatório “Global Risk integrados. E essa integração exige dos riscos e instituindo uma nova Management – Formulas for Success que a regulamentação do sistema seja figura a ser considerada no cálculo do in Financial Services”, da Deloitte, que homogênea e as práticas coincidam capital mínimo a ser alocado: o risco apresenta um estudo realizado com 164 internacionalmente. Essa visão resultou, operacional, uma combinação que executivos de instituições internacionais, ainda em 1988, no Acordo da Basiléia, abrange possíveis falhas na gestão do o risco operacional é o que mais chama carta de regras construída por mais banco, fraudes internas, problemas a atenção dos bancos atualmente. De de 100 países que compõem o Banco com sistemas de tecnologia ou mesmo acordo com o levantamento, que foi de Compensações Internacionais (BIS, perdas com ações judiciais. A inovação lançado em maio último, em Roma, na sigla em inglês), que instituiu, pela das novas normas está contida na durante o “Global Financial Services primeira vez, a “exigência mínima estrutura do acordo, que se sustenta Industry Summit” – evento promovido de capital”, um conceito que prevê a em três pilares: a possibilidade de pela Deloitte com a participação de alocação de recursos prévios para cada empregar múltiplas abordagens líderes de dezenas das principais operação, levando-se em conta as para o cálculo do requerimento de instituições financeiras do mundo –, eventuais perdas que possam decorrer capital mínimo, um papel dos órgãos 77% dos executivos entrevistados dizem 27
  • 28. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 endereçar a esse tipo de risco uma (APAS) e a “Abordagem de Mensuração de perdas mensuráveis, bem como atenção especial. Avançada” (AMA). considerar aquelas intangíveis, graças à melhor avaliação e mensuração dos No Brasil, conforme o estudo Dentro das possibilidades apresentadas riscos. Segundo o sócio da Deloitte, “Novo Acordo da Basiléia – Risco pelo Bacen, Mendes avalia que a APAS os ajustes internos nos bancos têm Operacional”, conduzido pelo sócio apresenta algumas vantagens para os envolvido medidas como a capacitação da área de Consultoria em Gestão bancos com foco em operações de do núcleo que trabalha com gestão de Riscos Empresariais da Deloitte, crédito. “Dificilmente a APAS não será de riscos e a busca de adequação dos Rodrigo Mendes Duarte, a exigência interessante para os bancos que têm sistemas que melhor se apliquem à de capital adicional para cobrir os parcela significativa dos resultados cultura da instituição. “Além de se riscos operacionais no País pode atingir proveniente de operações de crédito”, capacitar, será fundamental que o cerca de R$ 21 bilhões em 2010, enfatiza. De acordo com as regras, banco incorpore modelos que melhor quando considerada a “Abordagem nesse modelo, ao invés do índice de funcionem à sua cultura”, ressalta. do Indicador Básico”, um dos métodos exposição ser baseado nas receitas, definidos pelo Bacen para calcular utiliza-se 3,5% da média dos saldos Evolução constante os recursos destinados a cobrir riscos semestrais dos créditos registrados no Para o sócio-líder da Deloitte para o operacionais, pelo qual um percentual ativo. O especialista ressalta, entretanto, atendimento às instituições financeiras fixo de 15% é aplicado sobre a média que o Bacen ainda não regulamentou o no Brasil, Clodomir Félix, a questão dos resultados brutos da instituição AMA. “O que vamos assistir até 2011 do gerenciamento de riscos se mostra nos três anos anteriores. De acordo é o desenvolvimento de como esse “inesgotável”. “O Basiléia II chegou com a definição do Bacen, há ainda risco será calculado e os bancos terão em um momento muito adequado, mais três metodologias que podem de apresentar ao Bacen seus modelos em função do processo de globalização ser adotadas pelas instituições internos para aprovação”, antecipa. e do dimensionamento atingido pelas financeiras: a “Abordagem Padronizada operações financeiras”, comenta. Alternativa” (APA), a “Abordagem De uma forma geral, Mendes avalia que Segundo ele, a uniformização de Padronizada Alternativa Simplificada” a revisão de processos para aferir riscos critérios de avaliação de riscos é operacionais abre a possibilidade de bem-vinda, quando considerada, as instituições financeiras se tornarem principalmente, a intensidade de mais eficientes e, por meio da redução relacionamento entre os mercados. de custos, gerarem maior lucratividade “No entanto, o Basiléia II não é o dentro do novo limite de alavancagem fim da linha. É preciso evoluir nesse estipulado. “O risco operacional é um processo em razão dos novos desafios novo limite estabelecido em função das impostos pelo mercado”, adverte. receitas do banco. Portanto, a pressão e o incentivo pela redução de custos, Na percepção de Félix, as instituições observando esse limite, podem levar financeiras do País estão devidamente o banco a gerar mais valor para os capacitadas e sensíveis ao acionistas”, argumenta. enfrentamento das mudanças na forma de gerenciar os riscos. “Os bancos e A nova regulamentação, na visão de o mercado financeiro, de forma mais Mendes, possibilitará a aplicação de ampla, tendem a dar uma resposta melhores práticas de gestão. “Vários muito positiva a esse processo. Basta bancos enxergam esse processo não lembrar que, quando foi criado o apenas como uma iniciativa para atender Sistema de Pagamentos Brasileiro à legislação, mas principalmente (SPB), havia uma série de incertezas, como um profundo avanço na mas a implementação foi um sucesso gestão de riscos e no cálculo de absoluto”, recorda. “Não consigo ver capital econômico, algo muito o sistema financeiro brasileiro como um salutar”, avalia. modelo maduro sem o enfrentamento desse tema”, acrescenta. O melhor tratamento do risco operacional permite também, Félix estima que todo o processo no entendimento de Mendes, resultará em uma melhor gestão das envolver a identificação instituições e, no conjunto do setor, em menores riscos de proliferação de Rodrigo Mendes, da área de turbulências no mercado. “De certa Consultoria em Gestão de Riscos da Deloitte: estudo sobre os forma, estamos mais preparados para impactos da exigência de capital enfrentar problemas e evitar crises para cobrir riscos operacionais sistêmicas”, finaliza. • 28
  • 29. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Estado crítico A dificuldade em manter benefícios de saúde aos funcionários reflete um diagnóstico de custos altos e crescentes, que lança empresas, hospitais e operadoras de planos a buscar alternativas Por André Sales Economizar com saúde é quase sempre uma questão fora de propósito, praticamente um tabu. Nas empresas, a assistência médica tem sido um dos benefícios mais valorizados pelos funcionários e a abrangência do plano de saúde oferecido pode ser decisiva para atrair ou reter profissionais. Contudo, na balança dos negócios, os custos com saúde estão ficando cada vez mais pesados. Esse é hoje um dos temas mais debatidos por governos e empresas no mundo todo. A crescente elevação dos custos com saúde tem como principais causas o envelhecimento da população, que passa a demandar mais cuidados médicos e hospitalares, a incorporação de novas tecnologias – equipamentos, materiais cirúrgicos e medicamentos – e a mudança do perfil de morbidade e mortalidade da população, com o aumento da incidência de doenças crônicas, que exigem mais do sistema. José Domingos do Prado, sócio da Deloitte, líder para o atendimento às empresas do setor de saúde, ressalta que o nível de tecnologia dos novos procedimentos de medicina requer altos investimentos. “As inovações nessa área têm vida útil breve. Além disso, o treinamento dos médicos para a utilização de equipamentos de ponta, como o Da Vinci (robô controlado PhD em Economia da Saúde pela John Atualmente, como a Agência Nacional pelos cirurgiões em procedimentos), Hopkins University, dos Estados Unidos. de Saúde (ANS) regula os preços pode levar até 45 dias fora do País. São Em estudo feito com o professor Gerard praticados para os planos de saúde fatores que aumentam o custo”, aponta. La Forgia, o principal especialista em individuais, muitas operadoras do setor saúde do Banco Mundial, ele concluiu passam a oferecer somente planos para “À medida que os custos na saúde que mais de 30% das internações empresas. Sem regulação, os aumentos subiram, foi preciso maximizar a nos hospitais brasileiros (públicos e dos valores dos planos corporativos eficiência e os resultados dos recursos”, privados) são desnecessárias, o que causa têm ocorrido semestralmente. Como ressalta o professor Bernard Couttolenc, desperdício de R$ 10 bilhões por ano. gerenciar esse impacto sem comprometer 29
  • 30. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Por uma gestão efetiva da saúde André Staffa, presidente do Hospital melhor os tratamentos. Essa solução e Maternidade São Luiz, de São Paulo, evita, por exemplo, que as pessoas acredita que as empresas ainda não façam exames em duplicidade. Ou seja, praticam uma gestão efetiva dos não irão gerar custos desnecessários. benefícios de saúde. “Esse custo “Queremos ajudar pessoas e empresas quintuplicou nos últimos dez anos, a fazerem uma gestão mais efetiva da saltando de 2% para quase 10% da saúde, por meio de uma rede ampla de folha de pagamentos. Mesmo assim, atendimento e da estruturação de um vemos apenas algumas ações aleatórias novo programa de atenção integrada e erráticas nas organizações”, avalia. à saúde, direcionado especialmente às “Peço ao plano de saúde detalhes das empresas”, adianta Staffa. contas de atendimento prestado aos nossos colaboradores e não tenho acesso. Segundo Enrico De Vettori, da Deloitte, Depois, recebo relatórios mostrando a a solução para os desafios do setor passa André Staffa, do Hospital São Luiz: uma evolução dos custos, mas isso é como por alternativas ousadas de ruptura com alternativa para otimizar os custos fazer gestão olhando por um espelho o modelo atual, citando, como exemplo, retrovisor”, compara. a substituição do sistema de pré- dos participantes respondem por somente pagamento para o de pós-pagamento. 4% das despesas. Portanto, um serviço Diante dessa experiência, o Hospital “Várias empresas já tentaram isso, mas, de triagem dos casos, por um médico São Luiz está estruturando um novo sem sucesso, já que não contaram com de confiança do beneficiário, evitará serviço, baseado em um sistema de uma metodologia e um modelo de gestão consultas desnecessárias e aumentará a prontuário eletrônico dos pacientes, adequados para a mudança. Sabemos que, prevenção de doenças. Ou seja, o foco acessível pela internet. O beneficiário em média, apenas 1% dos beneficiários não é baixar custo, mas entender cada poderá monitorar a evolução de sua é responsável por 30% dos custos de um indivíduo e ajudá-lo a cuidar de sua saúde junto ao seu médico e direcionar plano de saúde de grupo, assim como 60% saúde”, diz De Vettori. a qualidade do atendimento aos um bom estudo atuarial, uma avaliação possibilitado “manter a qualidade do funcionários e seus dependentes? “O epidemiológica, um alinhamento com atendimento e reduzir o impacto do grande desafio das empresas é conseguir o sistema de medicina interna do aumento crescente dos custos dos driblar a armadilha de supor que existem trabalho e uma análise adequada dos planos de saúde”, segundo André de apenas dois caminhos: reduzir custos ou prestadores, procedimentos, materiais e Souza Maurino, diretor administrativo e trocar a operadora do plano de saúde medicamentos, pode-se alcançar níveis de benefícios. A entidade subsidia 40% por outra mais econômica”, alerta Enrico elevados de otimização de custos e do custo dos remédios para doenças De Vettori, diretor da Deloitte que lidera, uma melhoria sensível na qualidade da crônicas e de 15% a 40% para os na área de Consultoria Empresarial, assistência ao grupo de beneficiários”, demais. Já o Grupo Sílvio Santos, com o atendimento às empresas do setor avalia De Vettori. cerca de 12 mil funcionários, conseguiu de saúde. “Com uma estratégia bem reduzir em 25% seus custos de saúde definida do que se deseja para a carteira Novos modelos nos últimos dois anos. “Adotamos de beneficiários e com a realização de As empresas têm procurado construir a co-participação, que tem feito o modelos alternativos para a gestão colaborador valorizar ainda mais dos benefícios de saúde. A Brasil o benefício e controlar gastos que Telecom, por exemplo, resolveu poderiam passar despercebidos em contratar planos de saúde de auto- um volume de despesas tão expressivo”, gestão para seus 26 mil beneficiários. relata Regina Aguiar, gerente “Essas operadoras não assumem o corporativa de RH. risco do plano, mas administram todas as formas de prestação de serviços A necessidade de diminuir os custos com médico-hospitalares, disponibilizando saúde está na agenda da administração indicadores que subsidiam uma gestão de RH dos próprios hospitais. O eficaz”, diz José Roberto Alves da Silva, Hospital do Coração (HCor), de São gerente administrativo de Recursos Paulo, também tomou medidas para Humanos (RH) e Benefícios da empresa. reduzir os custos de assistência aos seus “Além disso, fazemos exames periódicos funcionários. “Os profissionais dessa mais completos, visando identificar área são mais preocupados com a saúde grupos de risco e orientá-los sobre e muito próximos dos médicos e isso cuidados com a saúde”, afirma Silva. Na aumentava o uso dos recursos, como Claudio Luiz Lottenberg, da Sociedade Albert Fundação CESP, que oferece assistência exames de ressonância”, conta Silvana Einstein: ferramentas para monitorar custos a 120 mil pessoas, a prevenção tem Castellani, gerente de RH do HCor. O 30
  • 31. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 hospital mostrou como o uso exagerado objetivo é olhar para o indivíduo na sua o tempo médio de permanência dos impacta o custo do benefício. Hoje, totalidade e motivá-lo para que adote pacientes em internações”, salienta. o departamento interno de Medicina hábitos saudáveis”, avalia. Claudio Luiz do Trabalho atende a cerca de 80 Lottenberg, presidente da Sociedade Fábio Patrus, superintendente de pessoas por dia e presta orientações de Beneficente Israelita Brasileira Albert Gestão de Pessoas e Qualidade do saúde, o que diminui a utilização do Einstein e ex-secretário municipal de Hospital Sírio Libanês, espera que a benefício. “Com isso, não temos mais Saúde em São Paulo, resume o desafio recente certificação do hospital pela aumentos no plano, que vinham sendo do setor em uma frase: “Saúde não tem Joint Commission “favoreça uma semestrais”, diz a gerente. preço, mas tem custo. E este deve ser melhor negociação com as operadoras monitorado com ferramentas sólidas e de planos de saúde, à medida que Do ponto de vista das operadoras de de qualidade”. será possível demonstrar a viabilidade saúde suplementar, o mais importante de se promover melhor qualidade para reduzir os custos está no poder de Hospitais “acreditados” a custos menores”. Na sua visão, negociá-los com os hospitais. “Nossos A urgência de monitorar custos, “gradativamente as operadoras têm 3,4 milhões de segurados representam processos e performance tem feito com reconhecido a melhoria da qualidade e uma vantagem competitiva na relação que os hospitais procurem parâmetros segurança dos processos assistenciais, com os prestadores de serviços”, e mecanismos mais avançados, o que resulta em menores gastos para salienta Heráclito de Brito Gomes Júnior, a fim também de receberem um todos no sistema”. diretor-geral da Bradesco Saúde. “Além reconhecimento por esse esforço, que disso, com um faturamento anual de hoje se dissemina em todo o setor. Relações instáveis quase R$ 5 bilhões, temos capacidade Atualmente, qualquer instituição que O relacionamento por vezes conflituoso de investimento em sistemas de queira se filiar à Associação Nacional entre os diversos agentes da saúde gerenciamento dos benefícios, o que de Hospitais Privados (ANAHP) tem de parece refletir o próprio estado crítico no é fundamental para equalizar custos, possuir um certificado de “acreditação” qual o setor se encontra, todos buscando pois podemos oferecer um desenho (avaliação para determinar se uma soluções para a sustentabilidade de customizado aos nossos clientes organização cumpre um conjunto seus respectivos negócios. Um efeito corporativos”, afirma. Antonio Jorge de requerimentos estabelecidos dos desafios surgidos nesse mercado ao Kropf, diretor técnico da Amil Brasil, como padrão). Entre as acreditações longo da última década (leia a edição acredita que o modelo assistencial deve hospitalares tidas como referência para 13 de Mundo Corporativo, págs. ser reorganizado. “As operadoras devem o mercado, está a da Joint Commission 19-21) está no fato de que, com o gerar saúde e não apenas ser uma fonte International, uma das mais importantes controle de custos dos planos de saúde pagadora. Os prestadores de serviços entidades do mundo no setor. Para sobre as diárias e taxas hospitalares, devem mais cuidar do que atender. O Roberto Cury, superintendente da os prestadores de serviços tiveram de cidadão tem de manter a sua saúde. E ANAHP, “os hospitais que passam aumentar suas margens de lucro sobre as empresas contratantes não podem por esse processo (de acreditação) os materiais médicos. André Luis da apenas pagar um benefício”, pondera. mudam sua forma de atendimento e Silva, gerente executivo-comercial do Segundo o superintendente executivo de gestão, adotando novos processos e HCor, afirma que, nos últimos cinco da Unimed do Brasil, Luiz Eduardo monitorando o seu desempenho. São os anos, a inflação de materiais médicos foi Barreto Perez, houve, de fato, uma que apresentam os melhores resultados de 400%, enquanto as diárias e taxas mudança no foco do negócio. “Hoje, o financeiros e de qualidade. E diminuem hospitalares subiram de 10% a 15%. “Queremos ser remunerados pela nossa competência”, pontua. Sérgio Bento, superintendente de Operações do Hospital Samaritano, afirma que “os fornecedores de materiais de custo mais elevado não são acompanhados pela agência reguladora, trazendo sempre novidades – muitas delas, de eficácia duvidosa para o paciente, mas sempre com custo superior. E o Poder Judiciário, cada vez mais acionado para dirimir conflitos entre pacientes e planos de saúde, toma muitas decisões com base no aspecto emocional e social”. Para Bento, é preciso neste momento “melhorar o Silvana Castellani, do HCor: orientações para Roberto Cury, da ANAHP: certificado de nível de confiança entre todos os atores o uso responsável do benefício qualificação em todos os hospitais filiados do sistema de saúde suplementar”. • 31
  • 32. Mundo Corporativo Nº 21 Uma crise em 3º trimestre 2008 São diversas as Como ocorre com qualquer produto, o preço dos alimentos varia em função da de arroz hoje são 51% mais baixos do que em 2000, os de trigo, 46%, e os de razões e verdades oferta e da procura. Quando os preços caem, os agricultores deixam de plantar milho, 41%. É claro que só isso já seria suficiente para os preços subirem. que explicam a e, com isso, os estoques diminuem e os preços voltam a subir. Historicamente, Contudo, há também fatores que inflação dos alimentos a produção agrícola vem crescendo e seguirá assim porque novas tecnologias contribuem para esse aumento: os custos de produção, que explodiram; os no mundo e seus aumentam, a cada dia, a produtividade por área plantada. Com isso, a oferta é preços do petróleo, que não pararam de crescer nos últimos anos; e os de impactos no Brasil, ampliada e, de maneira sistemática, os fertilizantes, que mais do que dobraram preços caem. E voltam a subir quando a em apenas dois anos. É evidente mas todas indicam oferta fica menor do que a demanda. Essa que esses movimentos também se é uma regra constante e é exatamente refletem no preço final. Outro elemento para a urgência de isso o que está acontecendo neste encarecedor é o fato de que investidores momento: a renda per capita nos países e fundos que aplicavam, por exemplo, políticas públicas emergentes vem crescendo muito mais do no mercado imobiliário norte-americano migraram recentemente para o setor de em benefício do que nos países ricos. Por outro lado, mais de 70% do crescimento da população alimentos. E, por último, há a questão agronegócio mundial vem ocorrendo na Ásia e na África, continentes mais pobres. Ora, o do milho utilizado para a produção do etanol nos Estados Unidos. Cerca de consumo de alimentos dos mais ricos 20% das safras dos últimos três anos Artigo de Roberto Rodrigues não aumenta se sua renda cresce. Porém, viraram álcool combustível, reduzindo quando os mais pobres ganham mais, a a oferta de alimentos. Como o etanol primeira coisa que decidem fazer é comer – assim como o próprio milho – é melhor. Vivemos, portanto, um ciclo de fortemente subsidiado, a gramínea preços altos, acima da média histórica, já ocupou áreas de outros produtos, como que a demanda explodiu e a oferta não a soja. E o aumento do preço de ambos a acompanhou. Secas em vários países, contaminou o mercado mundial. incluindo o Brasil – que deixou de produzir 40 milhões de toneladas de grãos entre No entanto, esse fator, pela sua 2004 e 2006 –, afetaram os estoques, visibilidade, foi o mais responsabilizado que estão baixos. Os estoques mundiais pelo aumento dos preços dos 32
  • 33. Mundo Corporativo Nº 21 vários tons 3º trimestre 2008 alimentos, quando, na verdade, teve com a rotação de culturas, necessária políticas públicas nos países produtores. um peso muito menor do que o para a renovação dos canaviais, essas Estamos importando uma inflação de referido desequilíbrio entre a oferta áreas passam a produzir leguminosas, alimentos que definitivamente não é e a demanda. Certamente grandes como soja, feijão, amendoim etc. Com nossa. E intervenções governamentais interesses comerciais contrariados se tudo isso, é claro que não há falta de podem complicar ainda mais o quadro. encarregaram de fazer uma propaganda alimentos no Brasil, de modo que nossa enganosa, desinformando e – o que agricultura não produzirá inflação. Quanto ao caso do milho dos norte- é pior – colocando todo e qualquer americanos, não podemos condená- etanol no mesmo tanque. Não há como Ao contrário, nos últimos 15 anos, a los pelos subsídios que oferecem, já comparar as duas matérias-primas, a área plantada com grãos cresceu 24% que a questão energética é estratégica começar pelos subsídios que favorecem e a produção, 140%. A produção para aquele país, que importa metade a produção do milho, enquanto de carne de frango cresceu 200%, do petróleo que consome, precisando nossa cana-de-açúcar e nosso etanol a de suínos, 103%, e a de bovinos, reduzir essa dependência. É algo têm “subsídio zero”. Além disso, os 80%. Novas tecnologias nos levarão a parecido com a preocupação com a rendimentos são muito diferentes: um aumentar ainda mais a produtividade. segurança alimentar, que deu origem hectare de cana produz 8 mil litros de Cultivamos hoje 72 milhões de hectares à Comunidade Européia em meados álcool; um hectare de milho produz e temos 200 milhões de hectares de do século passado: ela era estratégica pouco mais de 3 mil litros; e, por fim, pastagens, dos quais 71 milhões estão também. A Organização das Nações o próprio balanço energético é díspar: aptos para a agricultura, de modo que Unidas para a Saúde e Alimentação a cana consome 1 unidade de energia temos potencial para dobrar a área (FAO) prevê que, em 20 anos, a oferta fóssil para gerar 9 unidades renováveis cultivada e aumentar em pelo menos de grãos e de carnes precisará crescer e o milho gasta 1 para produzir 1,5. 30% a produtividade. Vamos garantir 42% para atender à demanda mundial. sempre o abastecimento interno e Cerca de 80% desse aumento virá de Além disso, a cana não concorre com teremos sobras para exportar. novas tecnologias em áreas já cultivadas, alimentos. Tanto é verdade que, neste porém, 20% virão de áreas novas, ano, estamos colhendo a maior safra de Todavia, se tudo isso é verdade, também especialmente pastagens. E o Brasil grãos da nossa história – 140 milhões de é fato que a renda dos é, de longe, o país mais preparado toneladas –, mas também a maior safra países emergentes segue aquecida e para contribuir positivamente nessa de cana, a maior de carnes e a maior de a demanda por produtos agrícolas, campanha: tem disponibilidade de leite. No Brasil, há sinergia, até porque idem. Por algum tempo ainda, o terras, a melhor tecnologia do mundo a cana está entrando principalmente desequilíbrio entre oferta e demanda tropical e um agricultor jovem, em áreas de pastagens degradadas, se manterá, já que a oferta vai depender moderno, eficiente e, sobretudo, onde não se produziam grãos. E, dos custos de produção, do clima e das disposto a ganhar espaço. 33
  • 34. Mundo Corporativo Nº 21 3º trimestre 2008 Por causa disso, nos últimos dez anos, mesmo sem acordo em Doha, nossas Um pouco de luz na escuridão exportações de soja cresceram 102% em Os agentes do mercado têm tentado explicar a inflação global dos alimentos a partir volume, as de produtos florestais, 106%, de visões e interesses que, em alguns casos, encobrem outras razões essenciais, como o as de milho, 3.024%, as de café, 68%, desequilíbrio entre a oferta e a demanda, o custo mais alto de produção e a migração as de carnes, 526%, e assim por diante. de investidores para o mercado de commodities agrícolas. Nesse cenário, os preços dos Mas nada disso foi capaz de frear a alimentos alcançaram, no Brasil, patamares mais elevados nos meses recentes (abaixo). importação da inflação dos alimentos. E o que dizer do aumento muito maior dos Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) preços do petróleo e dos metais? Nesse Índice mensal (número-base: agosto de 2002 = 100) 190 cenário preocupante, políticas públicas Carnes 191 Leites e derivados 182 adequadas ofereceriam ao agronegócio 180 Aves e ovos 172 Cereais e Leguminosas 174 brasileiro uma oportunidade rara de 170 159 crescimento sustentado. 160 156 150 146 Crédito rural 140 No curto prazo, só há uma coisa a 130 fazer internamente: como os custos de 120 produção explodiram, é indispensável aumentar o volume de crédito rural 110 110 barato, mas a maior parte do crédito 100 Jun 2006 Dez 2006 Jun 2007 Dez 2007 Jun 2008 rural vem do depósito compulsório dos bancos, correspondente a 25% Fonte: Deloitte (a partir da consolidação de dados do IBGE) do volume de depósito à vista. E o depósito à vista despencou com o fim da Contribuição Provisória sobre Todavia, isso ainda é apenas um E, por último, há questões Movimentação Financeira (CPMF), paliativo. Há muito mais para ser macroeconômicas que afetam nossa derrubando a oferta de crédito rural feito e as autoridades já têm essa competitividade, atrapalhando a barato. É preciso recompor as fontes informação há tempos. A questão mais condição espetacular que o agronegócio porque a agricultura tem prazos: se relevante mesmo é a que envolve infra- brasileiro tem para ajudar a combater o dinheiro demora para sair, passa o estrutura e logística: investimentos a inflação: quando o produto agrícola tempo do plantio e um ano inteiro se em transporte intermodal e em portos sai da fazenda, onde é competitivo perde. Com essa medida imediata, os são essenciais, bem como uma rede globalmente, já começa a perder. agricultores brasileiros poderiam ampliar de armazenagem bem localizada. Nossos juros ainda são elevados, nossos a área plantada, com mais tecnologia, Precisamos de uma política de renda impostos são os mais altos do mundo, gerando uma safra maior, de forma a para o campo que estabilize a atividade nosso câmbio rouba do produtor os garantir o abastecimento interno e a rural, como já acontece há décadas nos preços altos em dólar e nossa logística ajudar a reduzir a inflação externa, que, países concorrentes: o seguro rural, nos massacra. frise-se, não é só de alimentos. criado em 2003, tem de entrar em vigor para valer. A tecnologia é Do governo depende o encaminhamento a alavanca da competitividade e desses temas. Os agricultores brasileiros investimentos nesse setor são essenciais não precisam de favores para aumentar para seguirmos na vanguarda do a produção, reduzindo a inflação e mundo tropical, na direção da produção aplacando a fome mundial. Precisam sustentável, com respeito ao meio apenas de condições iguais às dos seus ambiente. concorrentes. E nem pedem subsídios, mas que os concorrentes reduzam Precisamos aproveitar os altos preços os seus. No limiar de uma nova era atuais para pressionar os países ricos a energética, em que os biocombustíveis reduzirem os subsídios agrícolas, agora terão um papel importante, o Brasil indefensáveis. Um dia, os preços voltarão pode liderar um projeto que mudará a cair e aí os subsídios esmagarão os a geopolítica mundial, alterando os que tiverem investido para aumentar paradigmas agrícolas atuais: dominamos a produção. a agroenergia, sobretudo, a partir do etanol de cana, que pode ser produzido Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, em todos os países tropicais. Tudo isso Pecuária e Abastecimento, é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação depende de uma estratégia clara dos Getúlio Vargas (FGV) e ganhador do Prêmio governos. Tão claro que só não vê “Personalidade do Agronegócio” quem não quer! • 34
  • 35. www.deloitte.com.br A Deloitte oferece serviços nas áreas de Auditoria, Consultoria Tributária, Consultoria em Gestão de Riscos Empresariais, Corporate Finance, Consultoria Empresarial, Outsourcing, Consultoria em Capital Humano e Consultoria Atuarial para clientes dos mais diversos setores. Com uma rede global de firmas-membro em mais de 140 países, a Deloitte reúne habilidades excepcionais e um profundo conhecimento local para ajudar seus clientes a alcançar o melhor desempenho, qualquer que seja o seu segmento ou região de atuação. Os 165 mil profissionais da Deloitte estão comprometidos a tornarem-se o padrão de excelência do mercado e estão unidos por uma cultura colaborativa, que encoraja a integridade, o comprometimento, a força da diversidade e a geração de valor aos clientes. Eles vivenciam um ambiente de aprendizado contínuo, experiências desafiadoras e oportunidades de carreira enriquecedoras, dedicando-se ao fortalecimento da responsabilidade corporativa, à conquista da confiança do público e à geração de impactos positivos em suas comunidades. No Brasil, onde atua desde 1911, a Deloitte é uma das líderes de mercado e seus mais de 3.500 profissionais são reconhecidos pela integridade, competência e habilidade em transformar seus conhecimentos em soluções para seus clientes. Suas operações cobrem todo o território nacional, com escritórios em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Fortaleza, Joinville, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife e Salvador. A Deloitte refere-se a uma ou mais Deloitte Touche Tohmatsu, uma verein (associação) estabelecida na Suíça, e sua rede de firmas-membro, sendo cada uma delas uma entidade independente e legalmente separada. Acesse www.deloitte.com/about para a descrição detalhada da estrutura legal da Deloitte Touche Tohmatsu e de suas firmas-membro. Para mais informações, contate-nos pelo e-mail comunicacao@deloitte.com ou pelo telefone (11) 5186-6686. © 2008 Deloitte Touche Tohmatsu. Todos os direitos reservados.