Roberto Axe     AFILOSOFIA    DO  DIABO        1
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PREFÁCIONapoleão dizia: raspe um russo e por baixo aparecerá o cossaco! Esta frase sempreme inspirou alguns pensamentos. Q...
invisível tapete abrigue os que se subtraem ao seu ‘inodoro’ calor, vá lá, é a grandemultidão dos friorentos! Porém, exist...
Este livro é dedicado a todo(a) caminhante que tem a coragem de inventar edançar os próprios passos.                      ...
‘Cuidado ao expulsares teus demônios, podes estarexpulsando o melhor de ti.’                                     Nietzsche...
A FILOSOFIA DO DIABOCap 01                           A APARIÇÃO    - Esta é a pior parte. – esta frase, pronunciada pelo p...
como um pingo de luz que teimava em não cair do teto. Pela janela semi-abertaum ar sereno e frio embalava a solitária lâmp...
mantinha atento, a tudo observava, extasiado com aquela experiência profissionalfascinante, seu primeiro crime... uau! Seu...
negro e redondo acompanhado pelos olhos indolentes. Tito sentiu um alívio eesboçou também um sorriso, meio que de alívio, ...
embriagado! Brinca, na escuridão da minha profunda alegria! E que, com Sileno,sábio quando sóbrio, eu ao contrário, aprend...
Mas foi munido de sua arma, cano longo, cromada,Que o Nestor é um cara grande ‘e eu não tô pra palhaçada!’Discussão começo...
caminhou com seus passos arrastados e encarou o senhorio quase encostando aponta de seu nariz na ponta do nariz do homem, ...
***Encaminhado o assassino à delegacia, todos saíram à rua e enquanto caminhavamSantos comentou: - O cara está cada vez me...
que carrega consigo. – virou-se subitamente para Tito abrindo os braçosenergicamente – Vamos pergunte! Pergunte logo, mate...
proverbial frase ‘veja bem o que você vai fazer ou o Homem da Sombra te pega!’.– Tito interrompeu o relato com viva empolg...
de pé de tão bêbado, e era amparado por dois homens, possivelmente seusamigos. Por delicadeza e até por reconhecido respei...
- Mas Nina, me diga... Você nunca ficou curiosa sobre esse homem nestes dezanos?       - Meu querido Cabacinho! É praticam...
A FILOSOFIA DO DIABOCap 02        ATRAINDO O OCEANO PARA UM PINGO D’ÁGUANa delegacia, na manhã seguinte, a agitação de sem...
rapidamente a mão - Não com tanta pressa amorzinho! Isto aqui é um verdadeirotesouro!    - Se é seu número de telefone, nã...
- Acho que isto é o que vamos descobrir a partir da agora; mas saiba, essacuriosidade é minha também, nem pense... Nem pen...
carreira em jogo, valeria a pena arriscar tudo assim? Logo agora que começara ainvestigar crimes? Se descobrissem poderia ...
*** Tito e Nina saíram juntos da delegacia. Percorreram alguns quarteirões e resolveram sentar em um bar para tratar da ex...
que sente cheiro de defunto e cabaço; logo, ele poderá chegar a nós farejandovocê! Vamos andar pela cidade e deixar que no...
embora aflita. Tito esperava com o aparelho junto ao ouvido, o rosto impassívelaos poucos descorava, e a mão começou a tre...
louvável meu garoto! Mas creio realmente que a estas ambições, algumascartilhas e manuais de procedimento poderão lhe ser ...
A FILOSOFIA DO DIABOCap 03                SOBRE SÓBRIOS E EMBRIAGADOSTrês dias se passaram sem nenhuma novidade. Neste ínt...
quando a bebida lhe afrouxava o espírito sisudo; olhava-a então com mais atençãoe tinha de admitir que o riso brincalhão d...
- Não, garotinho, você não está sonhando... – aquela voz bêbada e arrastada elejá conhecia. E o pavor da situação o fez pe...
botequim de quinta categoria, em uma esquina qualquer? Claro que sim! Tenhocerteza, há,há,há... mas não, meu filho, embora...
valente para me encarar, ou foi uma súbita curiosidade tola? Se foi, tudo bem,estará em casa logo mais e faz de conta que ...
ficam bêbados! e nesta condição encontram a desculpa adequada para todo tipode patifaria. ‘Eu estava fora de mim!’ é isso ...
esconderijos mais escuros e sujos, sempre com minha língua de dragão dandorápidas investidas no nada e sempre lascivo, com...
religiões ajoelhados em seus templos? Pois eu pratico meu misticismo fodendo,dançando e bebendo aqui no meu! Ah... As deli...
adolescentes para serem assassinos frios em suas guerras podres. Mais uma vez oproveito próprio vem em primeiro lugar. Viu...
Tito conseguira retomar agora amplamente seus sentidos, e mais que isto: jásentia os torpores do champanha com que insiste...
- Não é uma deliciosa ironia? – disse Epaminondas – dizer que engoliu o Céu,quando se está nos portais do inferno? Há,há,h...
e vice-versa, fique tranqüilo. Porra! Dou-lhe minhas boas vindas e você aindatem medo de mim, caralho! Que convidado difíc...
olho espantado para do que são capazes estes ‘deuses corporativos’.Encaixotar as mentes com seus rótulos, seus comportamen...
de morte o velho deus moral deles, comecem a bater cabeças gerando feridasnovas. Não imaginam, nem por sonho, que mundos p...
A FILOSOFIA DO DIABO
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Este é um livro irreverente sobre as sombras que diariamente somos obrigados a varrer para baixo do 'tapete' de nossa mente. Acostumados a pensar nossos 'pensamentos de estimação', esquecemos de uma força brutal e demolidora que habita nos recônditos escuros de nosso pensamento. Seria medo do animal que subsiste em nós? Mas, e se este for um leão? Podemos abrir mão desta força? A quem interessa nossa fraqueza e submissão? Pois este livro deixa bem claro a quem interessa esta redução. Esta é uma história irreverente, para pessoas irreverentes... pessoas que não têm medo de mergulhar na própria sombra...

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A FILOSOFIA DO DIABO

  1. 1. Roberto Axe AFILOSOFIA DO DIABO 1
  2. 2. ÍNDICEPág 03.....................................................................................................PREFÁCIOPág 07 ............................................................................................... A APARIÇÃOPág 19.................................. ATRAINDO O OCEANO PARA UM PINGO D’ÁGUAPág 27......................................................... SOBRE SÓBRIOS E EMBRIAGADOSPág 41................................................................................... .UM TIRO NA CHUVAPág 48................................................................ EXPLICANDO O INEXPLICÁVELPág 53................................................................................POR QUE O DIABO RI?Pág 84................................................. ARMADILHAS QUE JÁ NÃO FUNCIONAMPág 91..................................... OS HOMENS- ESQUELETO E SUAS CARNIÇASPág 98....................... .ROMPENDO COM OS PENSAMENTOS DE ESTIMAÇÃOPág 107.............. .PARA AS LUZES ELÉTRICAS O FOGO DA VELA É LOUCO! 2
  3. 3. PREFÁCIONapoleão dizia: raspe um russo e por baixo aparecerá o cossaco! Esta frase sempreme inspirou alguns pensamentos. Qual o sujeito que apareceria se raspássemos umcivilizado? Acho que quem mais aproximou o rosto deste quadro foi Freud. Ficadifícil, ao analisarmos nosso dia a dia, não entregar o cetro ao pai da psicanálise.Mas então somos obrigados a admitir que subjaz abaixo dessa tenra roupagem,uma força invisível, para a qual se fazem necessárias todas as formas de jogos einterpretações com o fito de decifra-la e distraí-la. Por que? É tão forte assim? É tãoterrível assim? Então por que não incorporamos esta força definitivamente comonossa? Como um poder atávico do animal que levamos conosco por onde querque andemos, embora ferido por lanças invisíveis, mas poderosas. Se olharmosmais atentamente para as mãos dos portadores destas lanças, veremos que elasestão vazias, as lanças não existem, apenas nos fizeram crer em suas pontasenvenenadas. Por que tanto medo do animal? Por que anatematiza-lo? Por que serele a fonte de todo o ‘Mal’? Não é preciso ir longe para encontrarmos a resposta, ésimples: os instintos são o inimigo mortal desta grande acomodaçãoorganizacional chamada sociedade. E não são poucas as distrações e arranjos queos instintos mais poderosos observam com seus olhos extáticos e atentos, como osde uma serpente. Quem não é do ‘ramo’ fica entre o espanto e o riso ante apantomima sem a qual esse grande negócio não iria para frente, esse grandenegócio que tem por essência a manutenção do ‘ser humano’ fora do ‘ser’. Afinal oque é ‘ser’? Ora, uma discussão ontológica reservada aos filósofos da teoria! Tudomuito bonito, muito erudito! Mas, enquanto isso a serpente de olhos extáticos eatentos continua lá... alheia, perigosa, segregada, observadora silenciosa... semprevarrida para baixo do imenso tapete platônico/teológico. Que este extenso e 3
  4. 4. invisível tapete abrigue os que se subtraem ao seu ‘inodoro’ calor, vá lá, é a grandemultidão dos friorentos! Porém, existem os animais selvagens que amam a neve!Eles se desvelam e saem lentamente debaixo deste abrigo aconchegante e vão àcaça, animais de rapina que são... animais curiosos, animais de andar lento e olhosde fogo! Ferinos de calmos e belos gestos. É preciso então que não saiam! Épreciso encontrar sempre uma ameaça, sim, mais uma ameaça... Pois quem nãotem medo do frio é porque é feito de fogo! Então se cria o inferno, lugar de fogo éno inferno! Mas é cada vez mais difícil dormir embaixo do imenso e tépido tapete,pois à noite os risos demoníacos lá de fora anunciam uma alegria que não étolerada, não pode ser tolerada, este riso desafiador dos ferinos de fogo... e seusinsuportáveis hálitos de liberdade! Este livro é dedicado a todos aqueles queandam na neve, quem sabe até derretendo-a com seus passos incandescentes edescobrindo a relva mansa que subjaz tranqüila sob seus pés descalços. Daí entãopossivelmente estes correrão, saltarão, darão cambotas, pularão, dançarão, darãomuitas risadas e quando finalmente estiverem vencidos pelo cansaço de tantaalegria, abrirão suas imensas asas e voarão para onde o infinito melhor lhesaprouver. Enquanto isso, muitas doutrinas serão ‘ensinadas’ lá embaixo do GrandeTapete; agora não só o fogo deverá ser evitado como pestilência, agora, tambémdeverão ser evitadas... as asas. Talvez então o coro exclame em uma só voz:‘Maldito seja, todo aquele que é feito de fogo! Maldito seja, todo aquele que voa!’,mas todos nós já estaremos longe demais para escutarmos as vozes uníssonasdesse patético coro, nada do que nos pertence e nos faz mais fortes pode servarrido para baixo desse tapete incolor e mortiço, até porque, teríamos então quequebrar nossas imensas asas de morcego para caber embaixo de qualquer coisa. Roberto Axe Porto Alegre, 02 de julho de 2009. 4
  5. 5. Este livro é dedicado a todo(a) caminhante que tem a coragem de inventar edançar os próprios passos. 5
  6. 6. ‘Cuidado ao expulsares teus demônios, podes estarexpulsando o melhor de ti.’ Nietzsche 6
  7. 7. A FILOSOFIA DO DIABOCap 01 A APARIÇÃO - Esta é a pior parte. – esta frase, pronunciada pelo pensativo inspetor Santos,quebrou o silêncio que normalmente acompanhava aqueles profissionais do crime.Parados e pensativos diante do corpo inerme que jazia no chão, em um pequenoapartamento perdido no meio da noite fria. Empoeirado e lúgubre, localizava-se nocentro baixo da cidade e a iluminação amarelada emprestava um ar mais sinistroàquela cena de morte. Quatro vultos analisavam, quietos, aquela cena. No chão, ocorpo de um homem estatelado bem no meio da pequena sala tinha comoadequada mortalha um sobre-tudo negro e pesado. Jazia deitado com o peito emuma imensa poça de sangue; um sangue denso e enegrecido pela iluminaçãoprecária. A saleta era de uma pobreza constrangedora; em um canto uma cadeiravelha arcava com o peso de algumas revistas, e ao lado, encostada na parede, umapequena e velha mesa suportava o peso de um traste que outrora fora umatelevisão. A iluminação pífia tinha como fonte uma lâmpada que balançavalentamente no centro da pequena sala, com o bocal amarrado do jeito que dava, 7
  8. 8. como um pingo de luz que teimava em não cair do teto. Pela janela semi-abertaum ar sereno e frio embalava a solitária lâmpada de tal jeito, que projetava assombras daquelas pessoas ali de pé ao redor do defunto, numa dança lenta emacabra, tendo como palco as imundas paredes daquela... - Pocilga! Isto mais parece uma pocilga! – exclamou o inspetor Santos – o cheiroda decadência chega a infectar minhas narinas. Acho que se alguém vive em umlugar como este não tem realmente motivos que lhe prendam a esta vida, talvez amorte lhe caia como uma libertação. - Acho que o morto concorda com o senhor. – Edson, investigador, braço direitode Santos disse isso se levantando calmamente depois de apanhar no chão, comuma pinça, um pequeno bilhete ao qual acabara de ler e entregava-o ao inspetor.Santos pegou o bilhete sem tirar os olhos de Edson enquanto tateava o bolso dopaletó à procura de seus óculos – Bosta! Nunca sei onde ponho esta merda deóculos! Achei! Vejamos...hummm – leu então em voz alta o conteúdo dopapelzinho: - Não deixo nada, não tenho amigos, família, não tenho sonhos, nãotenho nenhum motivo para que ficar aqui! Minha vida é uma verdadeira merda! Praquem achar que estou mentindo, que olhe em volta, isto é tudo que eu tenho! Ah, etenho também 60 anos! Não é mole! Larguei! A quem interessar possa, vão todospara a puta que os pariu! Ninguém vale nada! Ass Nestor. – Coitado, morreu pobree revoltado. – esta observação veio de outra pessoa presente, investigadora Nina. –Pudera! - ponderou Santos – isto aqui é o próprio olho da miséria. - E no quarto, além de algumas baratas mortas, – disse Edson saindo do outroaposento – tem uma cama de solteiro e um armário sem portas com umas poucase rotas vestimentas, o homem era um miserável, coitado. - Bem, vejamos, mande entrar o senhorio desta porra toda! – ordenou Santos.Ato contínuo entrou um sujeito que parecia ter saído das entranhas daquele lugar,e levava a sua triste história decadente no semblante. Vestia todo de negro e asolheiras profundas davam um ar mais fantasmagórico ao seu rosto muito pálido esulcado; era um senhor de alguma idade e parecia nervoso. - Está bem nervoso não é senhor? – inquiriu Santos. - Pudera – respondeu o senhorio – isso nunca aconteceu em meu prédio! Doque este homem morreu? De tiro? Foi morto? Matou-se? – indagou o homem semtirar os olhos do morto. - É o que queremos saber – prosseguiu Santos – seu nome era Nestor? - Bem, pelo menos este é o nome que ele me deu quando fez a papelada aqui, etambém da identidade. - Eis a arma! A numeração está raspada. – interrompeu Nina apontando para um38 cano longo cromado, quase embaixo do corpo. O quinto personagem naquelasala, quieto e observando tudo era Tito, um novato que estava acompanhandoseus colegas policiais pela primeira vez em uma cena de crime. Tito a tudo se 8
  9. 9. mantinha atento, a tudo observava, extasiado com aquela experiência profissionalfascinante, seu primeiro crime... uau! Seu primeiro crime! Ele, tão jovem e tãopolicial, tava no sangue afinal. Tito divagava nestas coisas quando a voz baixa deEdson lhe trouxe de volta à cena do crime. - Hoje você vai conhecer nossa arma secreta! Sei que já mandaram chamá-lo,chego a me arrepiar! Aguarde. - Arma secreta? De que você está falando? - Calma, aguarde. - Há quanto tempo – prosseguia Santos - este Nestor é seu inquilino, senhor...senhor... - Irineu, meu nome é Irineu. - Pois bem, Sr Irineu, há quanto tempo? - Uns três meses. - E qual era o comportamento do Nestor? - Esquisitão. - Melhore isso, como assim, esquisitão?Neste momento algum alvoroço veio do corredor, o que fez com que os presentesficassem calados; Irineu ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido por umschhhht! - É ele, é ele... – cochichou Edson para Tito; este entendia cada vez menoso que se passava. Do lado de fora do apartamento, que estava com a portaescancarada, crescia uma voz alta e risonha que derrapava em algumasgargalhadas; pastosa, parecia a voz de um bêbado que vinha da farra. – Ele estáchegando! – disse Edson a Tito que divisou então na soleira da porta uma silhueta,ou melhor, duas silhuetas, um homem grande parecia carregar outro, menor e decasacão escuro e um chapéu preto estilo Homburg inclinado desleixadamentesobre a testa e... bêbado! Sim, o homem menor estava totalmente embriagado.Falava sem nexo, dava algumas gargalhadas e dizia algumas coisas meio estranhascomo: - Estou sentindo o cheiro do defunto! hummmm e de cabaço! – foi entãoque o estranho homem parou debaixo da luz mortiça e o novato percebeu, nãosem tremer levemente, uma figura misteriosa; parecia uma daquelas intrigantesdivindades saídas do panteão do umbanda. Era um homem negro, baixo, quasegordinho, tinha uma idade indefinida e que enquanto ajeitava o chapéu desleixadosobre sua careca reluzente, esparramou malevolente um olhar que jamais lhe sairiada memória. Tito recebeu o olhar do homem; um olhar agudo, injetado, sanguíneoe cortante que saltava dos olhos esbugalhados do estranho. Este olhar inquietanteera entrecortado sistematicamente por pálpebras preguiçosas que teimavam embaixar indolentes, mas reabriam num sacrifício contínuo e penoso. O odor doálcool logo se espalhou pelo pequeno recinto. Um homem imenso e de rostoinsosso mantinha o recém chegado, mesmo que às duras penas, de pé. O pesodaquele olhar foi amenizado por um sorriso que lentamente desabrochou no rosto 9
  10. 10. negro e redondo acompanhado pelos olhos indolentes. Tito sentiu um alívio eesboçou também um sorriso, meio que de alívio, meio que de uma verdadeira eestranha alegria; por não ter sido devorado talvez? Reparou nos dentesamarelados, mas sem falhas apresentados pela alegria ruidosa de uma bocagrande e de imensos beiços. O negrão arfava – Vai ter um treco – pensou Tito,reparando no suor que fazia as têmporas reluzirem naquela luz amarelada. Oestranho apontou lentamente para Tito, deu uma gargalhada e depois disparoucom sua voz embriagada e lenta: - Bom, o cabaço eu já encontrei, quem é esse, umnovato? - Este é Tito, - respondeu Santos – está sentindo o cheiro de sangue pelaprimeira vez, e seja muito bem vindo Epaminondas! - Seja bem vindo Epaminondas! – repetiu o negrão, ensaiando alguns passos,mas sempre carregado pelo seu anjo da guarda – Seja bem vindo Epaminondas!Vocês acham que é mole! Saí de uma roda de samba cheia de boceta, trago, eoutras ilicitudes, he, he, pra vir aqui lamber sangue de morto! Vocês acham que eusou o que? Um mísero vampiro, ou já serei um personagem mitológico destacidade? Uma gárgula sanguinária que adquire vida tão logo é evocada pelosnecessitados! Mas então minhas asas são de pedra, preciso de muito tempo parame mover, e sair para a luz me é penoso demais! Isto é sabido. - Pare com esses discursos Epaminondas, - comentou o impaciente Santos – efique à vontade para dar uma boa olhada por aí. - Bem, - prosseguiu o recém chegado – o cabaço eu já encontrei, só falta ocadáver – e ato contínuo, apontou para Irineu – Eis o defunto! Viram, não perdi ofaro! Ecce Homo! Há,há,há,há,há... – os presentes riram meio constrangidos, comexceção, claro, do senhorio e de Santos que emendou: - Agora chegaEpaminondas! Dá uma força pra nós... - Chega é o caralho! – interrompeu Epaminondas perdendo a paciência – nãoganho pra isso, moreno! Vocês que são sóbrios que se entendam, eu, perturbadona minha embriaguez, minha divina e cristalina embriaguez, tenho que socorrersóbrios! Era só o que faltava! Levar sermão de sóbrio! Oh, filhos do Bem e do Mal!– levantou as mãos imitando um discurso grandiloqüente, dando mais trabalhopara seu atento arrimo - Vocês batem suas cabecinhas sóbrias quando acontece oinusitado, não são preparados para isso não é? Oh, filhos do Bem e do Mal!Miquinhos amestrados da civilização! Tão sóbria e séria esta civilização, mamãezelosa! Por quê recorrem a este velho embriagado quando lhe faltam as respostas?Taí o corpo no chão, e vocês querem trabalhar pouco, não é assim? Do contrárionão me chamariam em horas tais. Dou a mão, querem o saco! Precisam dasrespostas, sempre as respostas, - tirou do bolso do casaco uma pequena garrafa ea ergueu numa libação - a Dionísio! Meu amado Dionísio! Meu sangue negro é teuditirambo! Meu sangue entorpecido na tua profunda orgia! Brinca, deus 10
  11. 11. embriagado! Brinca, na escuridão da minha profunda alegria! E que, com Sileno,sábio quando sóbrio, eu ao contrário, aprenda a brincar de esconde-esconde como Sol! - ato contínuo deu um imenso gole e guardou a garrafa novamente nobolso, limpou a boca com as costas da mão e emendou – agora vamo lá! o quetemos aqui, um possível suicida certo? - Exato, teria deixado este bilhete – Santos entregou o papelzinho aEpaminondas. Este apanhou o bilhetinho e após lê-lo rapidamente, desabou emruidosa gargalhada. Ria tanto, que seu anjo da guarda tinha alguma dificuldade emsegurá-lo, as risadas eram entrecortadas por eventuais acessos de tosse. A risadacontagiou a todos, menos Irineu, que arfava, muito intrigado com tudo aquilo. Acena sugeria que o evento transformava-se rapidamente em uma tragicomédia.- Meu caro senhorio – prosseguiu Epaminondas, limpando com um lenço aslágrimas que o riso descontrolado provocara em seus imensos olhos esbugalhados– o senhor obviamente deve ter um livro de registro de seus hóspedes...inquilinos... ou seja lá o que for, traga para mim rapidamente, por obséquio. - ohomem saiu rápido e silencioso. Epaminondas deu uma rápida olhada no quartosoltando um comentário – Porra, que miserê do caralho! – voltou então para asaleta e rondou o morto com seu passo trôpego e evitando pisar no sangue quasecaiu, mas foi amparado prontamente por seu guardião. Neste momento adentrouna cena mórbida o senhorio Irineu, trazia o livro com os apontamentos e oentregou ao bêbado. Este o apanhou levando-o para onde a tímida iluminaçãotinha uma melhor incidência. Após uma rápida olhada, perguntou para Irineu,enquanto lhe devolvia o documento: – Este pobre coitado nunca lhe pagou não é? - Nunca, ele estava desempregado, para dizer a verdade, nem sei o que ele fazia. - Então o senhor o matou não é? É bem verdade que quase acidentalmente, issovai amenizar sua pena, mas o melhor é confessar logo, nêgo véio! - Como ousa! – o velhote colou as costas na parede, como que procurando umapoio para não desabar ao chão. - Como ousa? Diz ele! Como ousa? Pois então, o que se passou aqui eu voucontar agora, - tirou o chapéu e começou a batucar na copa como se fosse umpandeiro – se liga moçada neste sambinha que vou improvisar – ato contínuo,começou a cantarolar, batucando no chapéu:- Era uma vez um senhorio, que tinha o nome de Irineu.Hospedou um tal Nestor, que mancada ele deu!Era pobre o tal Nestor, não tinha nada nem ninguém.Ficou ruim pro senhorio, dele arrancar algum vintém!Foi então que um belo dia, num acesso passional,Decidiu o senhorio, nisto botar ponto final.Procurou ao tal Nestor, pra pôr fim a esta contenda, 11
  12. 12. Mas foi munido de sua arma, cano longo, cromada,Que o Nestor é um cara grande ‘e eu não tô pra palhaçada!’Discussão começou, e desandou pra pancada;Irineu apavorado usou então sua cromada;Merda feita, Nestor no chão!Bolou então o matador, seu plano malsão.Escreveu um bilhetinho, sua arma na mão do morto, tudo certinho.Não percebia, Irineu, que com este plano cretino,Escrevia em sua testa, a palavra ‘assassino’.Um bilhetinho, Irineu? Um bilhetinho?De onde tirou idéia tal! Quanta asneira escrita em papelzinho!Ora, não se deu conta o assassino, que na penúria o inquilino,Se fosse o conteúdo escrito, ao pé da letra levar,Justamente um bilhete, é a ultima coisa que ia deixar.E foi mais desatento o tolinho, no que tange ao bilhetinho.Ora, se o coitado, morrendo de fome estava, e fome é coisa brava!Capaz de distorcer, os sentimentos mais nobres;É de estranhar que a cromada, mesmo raspada, não seja passada nos cobres!Olhem em volta, amigos, que no meio desta miséria,A arma é o único bem do morto, que não se presta à pilhéria!Mas não parou por aí, a peraltice do Irineu;Pasmem agora, com esta mancada que ele deu!Ao botar a arma, na mão direita do morto,Realizou na Razão, um admirável aborto.Embora tenha acertado, pois o defunto usava a destra,Para tanto basta olhar o seu quarto, a mesinha de cabeceira,Ao lado direito da cama, nisto não cometendo asneira.Porém, não percebeu o maroto!Que a porra do bilhetinho, fora escrito por canhoto.Embora o tenha escrito, em desgraçada caligrafia,Não foi o suficiente, para não entrar numa fria.Quando o negão aqui, pediu seu livro de anotação,Foi só pra tirar a cisma e lhe apontar o dedão;O Irineu é canhoto! Minha gente, é um canhotão!Eis o assassino, deste coitado no chão!A esta altura, realmente os presentes não continham as gargalhadas, com exceçãoóbvia de Irineu. Que num acesso de raiva disparou para Epaminondas: - Bêbadodesgraçado! Quem ou o que é você? Como pode saber tudo isso? Você arruinouminha vida! - Epaminondas ficou sério. Desprendeu-se calmamente de seu poste, 12
  13. 13. caminhou com seus passos arrastados e encarou o senhorio quase encostando aponta de seu nariz na ponta do nariz do homem, que encarava o negrão comvisível pavor nos olhos. – Seu sóbrio filho da puta, – disse Epaminondas, com suavoz bêbada e calma – olhe para você, sua vida está arruinada desde que nasceu.Seu zumbi desgraçado, morto-vivo de uma figa... ou você pensa que o fato derespirar, comer e cagar, lhe dá o direito de se sentir vivo? Não fosse você umsujeito que me inspirasse pena eu me alongaria no assunto. Como pode um enteque se pretende homem, não arcar com as próprias atitudes? Como pode nãomatar no peito seus atos? Que tipo de homem pode escolher se esconder namentira a encarar a vida de frente, de peito aberto, senhor dos seus atos, mesmoquando estes dão em merda? encarar sem medo? Foi para seres humanos comovocê que foram inventadas as regras e a moral, afinal, não passam de criançasidiotas que brincam com dinheiro e gravatas; afinal que digo eu? – Epaminondasencaminhou-se para a porta, sendo carinhosamente seguro por seu fiel amigo –Estou entre sóbrios, e o apanágio do sóbrio é o medo. Seguir as regras é o crèmede la crème de toda uma vida sóbria. Sem coragem, sem riso, sem dança, semdemônios ruidosos e risonhos. Acocorados atrás das regras, atiram pedrinhas nosque têm coragem de andar. Você nunca mudará, Irineu, vai sempre preferir amentira à responsabilidade de ser homem, ou seja, nada mais nada menos do queser você mesmo, com coragem de ser autêntico; mas você não tem nada pordentro não é? Não tem demônios, não tem conflitos, não tem nada que possa darum pingo de dignidade a essa existência de mera casquinha, para que? Se vocêssóbrios imaginam fora de vocês o que os tornariam pessoas interessantes, parafazer o que mais gostam; jogar pedras ou ajoelhar-se diante desses totens, seustotens do Bem e do Mal! Bem, já não tenho mais nada a fazer aqui. – e partiucalmamente, sumindo na escuridão dos corredores do antigo prédio, não semantes os presentes escutarem uma gargalhada, e ainda sua voz: – Às bocetas,amigão, às bocetas, há,há,há,há - que desapareceram rapidamente. - O que é tudo isso? – comentou um patético Irineu – como ele poderia saber osdetalhes? Quem é esse cara? - Esse cara – disse Santos enquanto Edson botava as algemas no velhote – é opesadelo de quem não se comporta direitinho Sr. Irineu – vamos... - Hmmm... Quem não se comporta direitinho? – disse o velhote lá com seusbotões - acho que não... Acho que não... 13
  14. 14. ***Encaminhado o assassino à delegacia, todos saíram à rua e enquanto caminhavamSantos comentou: - O cara está cada vez melhor, aí está um mistério que jamaisentenderei; Epaminondas... Epaminondas... Às vezes penso que este homem é umenviado dos infernos, zomba da gente, da nossa incapacidade, se sente superior,no entanto não passa de um bêbado inveterado. Caramba! - Zomba da nossa preguiça, se me permite, senhor – começou Edson –poderíamos desvendar, ou não, este caso. Quanto tempo de trabalho penosoteríamos de encarar? Virar a vida do defunto de cabeça pra baixo e sacudir até cairas migalhas com que pudéssemos trabalhar! Ademais, quem liga para esse morto?É só mais um, não é verdade? Teríamos saco pra levar isto adiante? Pra queiniciarmos algo que nos sacrifica, se o negão resolve na hora? Ele vem, olha epimba! Está feito. É bem verdade que sempre nos faz escutar aquela merda toda,acho que o cara é místico, sei lá... sempre tem aquele sermão! Aquele negócio desóbrios e embriagados. – Vocês sóbrios que se entendam! – falou Edson imitando o jeito ébrio deEpaminondas. - Místico é o caralho! – refutou com veemência Santos – esse cara é um grandefilho da puta! Aposto que agora está rindo da nossa cara lá com as putas dele! Eurealmente de minha parte não chamaria essa entidade infernal! Confesso pra vocêsque às vezes ele me dá medo; de onde ele tira essas respostas tão rápidas? Alguémduvida que tem parte com o diabo? Decididamente não é dos nossos, não fosse odelegado Fidelis nos empurrar goela abaixo essa figura dantesca, há muito que nãoprecisaríamos encarar aquele olhar assustador presente nas cenas dos crimes; aísim sou obrigado a concordar com Edson, o Fidelis não quer é trabalho.Nina então botou sua mão no ombro de Tito e deixou um belo sorriso se achegarmanso no seu rosto sereno, deu uma carinhosa chacoalhada no novato – E então,neófito? Nos diga o que achou do seu primeiro dia? De uma coisa eu gostei,confesso, o broto não teve náusea, isso é um bom começo. – Tito riu e respondeu:- Náusea realmente não tive, mas, mais do que a cena do crime, de fato fiqueimuito impressionado com esse tal Epaminondas... - Não disse! – interrompeu Santos – o senhor Epaminondas roubou a cena maisuma vez! Com sua bruxaria, com seu hálito de cachaça, e aquele muro de arrimo 14
  15. 15. que carrega consigo. – virou-se subitamente para Tito abrindo os braçosenergicamente – Vamos pergunte! Pergunte logo, mate esse verme da curiosidadeque corrói esse coraçãozinho novato! De onde surgiu esse ente, Epaminondas! Ora,poderia te responder que ele não existe. Sim, não existe, é só uma alma penadaque sai do Cemitério das Camélias para ajudar policiais quando estes se deparamcom casos escabrosos. – Santos de repente parou a pantomima, e sério, encarouTito, os outros dois embarcaram com notória curiosidade naquele repentinosilêncio. – Bem, na verdade... na verdade não é bem assim. – prosseguiucaminhando calmamente, no que foi seguido pelos demais; Tito tinha os olhoscravados no semblante de Santos e este reparou no vivo interesse do rapaz, deuentão um leve sorriso e prosseguiu. - Epaminondas era um policial da velha guarda, aliás, era excelente policial,daqueles de meter a cara no fogo, não tinha medo de nada. Não precisou muitotempo para despertar o espanto e a admiração dos seus superiores, era destemidoe muito inteligente; suas diligências invariavelmente apontavam para o culpado, ouos culpados; sempre trabalhou no crime. Subia morro e encarava de igual paraigual todo mundo, se pesca bandido com isca de chumbo! Dizia. Pulava em telhado,disparava forte, não deixava colega na mão. Todos queriam ir para a linha de frentecom ele, aliás, se espelhavam nele. Certa vez tomou dois tiros durante uma batidano morro, caiu e todos pensaram que era o fim de Epaminondas; achegaram-seentão ao ferido. Iam pedir ajuda pelo rádio quando para espanto de todos, onegão levantou de um pulo empunhando sua ponto 45 e saiu gritando e correndocomo um ensandecido na direção dos tiros inimigos. Pulou para dentro de umacasa através da janela, que estava fechada e, diga-se de passagem, espatifou-acom o impacto de seu corpo ágil e uma vez lá dentro fuzilou a todos, semclemência! Bem, este feito lhe rendeu uma honra ao mérito é claro, porém,também rendeu uma imensa desconfiança por parte de seus superiores; quem,diabos, era aquele homem? Bom, Epaminondas logo se recuperou de seusferimentos com rapidez espantosa. Ficou mais alucinado ainda, pediu a seussuperiores para agir somente à noite, no que foi atendido. Começou a trabalharmimetizado sob as sombras noturnas, se tornou invisível... e implacável! Os colegasapenas davam cobertura à distância, mas em vão, pois o demônio sumia naescuridão; a partir daí, quem presenciou suas ações conta que o negócio era dearrepiar! Não demorava muito e os gritos dos vagabundos apanhados por ele sefaziam ouvir em toda a vila ou morro onde a ação se passava. Eram gritosalucinados de verdadeiro e vivo pavor! Ninguém saiu vivo de suas investidas. Erasilencioso, invisível e... mortal! Bem, disso resultou que a criminalidade começou acair na cidade; os marginais, por incrível que pareça, começaram a temer o tal ‘homem da sombra’. A repercussão à época foi tanta, que até as mães humildesdesses locais ameaçavam seus filhos, no caso de mau comportamento, com a 15
  16. 16. proverbial frase ‘veja bem o que você vai fazer ou o Homem da Sombra te pega!’.– Tito interrompeu o relato com viva empolgação - Êpa! Minha mãe cansou de meameaçar com o tal Homem da Sombra! Este então realmente existiu? Há,há,há,há...não acredito que acabei de conhecer um mito de coação infantil! Cresci sendoameaçado com ele e o tal ‘velho do saco’! Puta merda! Quem diria! - É isso aí, garoto. – prosseguiu Santos - Conheceu o home! É difícil saber o queé verdade e o que é lenda na história deste demônio; as coisas hoje se confundem,mas tudo que relatei até então é a mais pura verdade. Mas, mais verdadeiro aindaé o final desta história. Os superiores começaram a desconfiar de que uma pessoanormal não poderia agir daquela maneira; veja bem, não que os resultados osdesagradassem, ao contrário, a criminalidade caiu tanto que até a mídia deu umaforça e começou a divulgar, irmanada com a polícia, tratar-se os eventos de umesquadrão de justiceiros. Assim, nosso herói poderia agir à vontade. Porém,resolveram examinar Epaminondas mais de perto e descobriram que ele agia sobefeito de drogas pesadíssimas, que eu não saberia descrever agora, tratava-se deverdadeiros coquetéis de entorpecentes, os quais, dizia-se, um ser humano normalnão agüentaria um décimo! Harmonizava tudo isto com generosas doses decachaça; realmente não fosse ele um sujeito fora do normal e há muito teriasucumbido. Foi então que os superiores perceberam de que não valia a pena correro risco de abalar a reputação da corporação caso algo saísse errado. Até porqueEpaminondas estava cada vez indo mais longe com suas diabruras, e tudo indicavaque não terminaria bem. Epaminondas há algum tempo já começara a discutir comseus superiores, a zombar mesmo da cara das autoridades, chegou até aquestionar se estava do lado certo desta briga. Submeteram então o endiabrado aum tratamento para livra-lo das drogas e do álcool, mas foi tudo em vão; empouco tempo todos os que tratavam Epaminondas ou já não o suportavam maisou estavam viciados, isso mesmo, viciados. Foi nesse tempo, na clínica, quecomeçou a pedir para ficar afastado da luz, passou a não suportar claridade,tiveram que improvisar um quarto totalmente escuro para ele. Passou por outrasclínicas, e transformou-se numa rotina ter de acomoda-lo em quartos escuros.Passou a ter comportamento estranho, pois quando privado da bebida e dasdrogas, escutava música clássica e jazz, e passava horas e mais horas de pé comum roupão negro com capuz, dizia coisas incompreensíveis. Acendia velas peloquarto escuro, e todos, sabedores do que ele era capaz, não o contrariavam,faziam-lhe as vontades. Epaminondas sempre foi espantosamente persuasivo,porém, nessa época falava muito pouco. Bom, segue-se daí que obviamente oaposentaram. Epaminondas então sumiu. Ninguém sabia dele. Foi então que umcrime aconteceu em um bairro bacana da cidade, aquele da loira com o vibrador,recordam? Pois é, para espanto de todos, o homem apareceu na cena do crime eos antigos companheiros o saudaram com alegria e emoção. Ele mal se agüentava 16
  17. 17. de pé de tão bêbado, e era amparado por dois homens, possivelmente seusamigos. Por delicadeza e até por reconhecido respeito, deixaram Epaminondas darseus pitacos sobre a cena do crime. Ele então descreveu o que ocorrera ali comuma precisão cirúrgica; bom, é óbvio que todos fingiram, por gentileza ou quemsabe até por um pouco de medo, que levavam a sério o que o bêbado dizia.Epaminondas assim como apareceu, foi embora. Dias depois o crime foi elucidado,e para espanto geral, era ipsis verbis o que o negão descrevera. A partir daqueleepisódio, e já faz tempo, quando o caldo engrossa, quando se calcula ser um crimeencardido: chama o Epaminondas! Ah, sim, ele deixou um número de telefone paracontato quando da primeira vez, alegando que o chamassem para que ele pudessepraticar um pouco de esporte. Bem, senso de humor ele tem. Meu jovem, acreditoter lhe dado o cartão de visita de nosso amigo misterioso, e se me perguntar poronde esse cara andou ou anda, não saberia lhe responder, ele é uma aparição, etodos querem que continue assim.Tito a tudo escutara impressionado, quando a voz de Nina interrompeu seupensamento que já viajava longe – Vamos comer alguma coisa, Cabaço! Não é tãotarde assim, e esses dois têm família esperando em casa, eu não tenho e pelo quesei você também não. - Claro, apesar de não ter muita fome, o defunto embrulhou meu estômago. - Normal, mas isso passa logo, coisa de novato nestas coisas. - Não vai comer o rapaz já logo de saída Nina, você nem engorda o porco? –brincou Edson.Nina fez um conhecido sinal com o dedo médio e pegando na mão de Tito, oretirou da presença dos outros, que seguiram na direção oposta não sem antesouvir de Santos alguma recomendação em tom jocoso. Não precisaram andarmuito para acharem um bar de esquina já com poucos clientes. Sentaram, pediramum sanduíche aberto e duas cervejas pequenas. Nina reparou que Tito seguia meioaéreo, e o chamou ao chão novamente. - Primeiro dia na pauleira é assim mesmo, malandro! E olhe que você foiagraciado! Conheceu já de saída, o grande Epaminondas! – o grande Epaminondasfoi dito numa imitação de grandiloqüência. - Realmente estou impressionado, admito que nunca vi nada assim, o homemchegou e pum! Resolveu tudo! De que manga ele tirou tão rapidamente a soluçãodo caso? Ou realmente – agora com um sorrisinho maroto – ele tem parte com odemo? - Parte com o demo? – disse Nina interrompendo um gole direto da garrafinhade cerveja – não sei. A única coisa que sei é que estou há dez anos na polícia etodos se borram de medo desse homem. Mas não tenha receio querido, pelo queeu sei, ele só sai à noite e não muito. Como já fez sua ‘aparição’ hoje, duvido quenos assombre mais uma vez. 17
  18. 18. - Mas Nina, me diga... Você nunca ficou curiosa sobre esse homem nestes dezanos? - Meu querido Cabacinho! É praticamente proibido tocar no assunto‘Epaminondas’ na polícia. É uma espécie de totem em que a gente não toca.Realmente acho que o pessoal tem medo de que o negão encha o saco e sumapara nunca mais voltar. Seria um prejuízo incalculável se ele sumisse. Você viu, elechega e mata a charada. Ninguém quer correr o risco de afugentar o cara. Agora,você me pergunta se nunca tive curiosidade, é óbvio que sim. Para dizer a verdade,perdi noites de sono tentando desvendar o segredo deste homem, o ‘Homem daSombra’; mas quer saber? Nunca cheguei à conclusão nenhuma, então desisti.Acho que existem alguns mistérios que se explicam por si, e isso é tudo; paciência. - Acho que quem não vai dormir a partir de agora sou eu. Fiquei com estaimensa pulga negra atrás da orelha. – neste momento Tito pousou os olhos commais calma em sua interlocutora, e reparou que Nina apesar de não ser umamulher bonita, tinha um rosto interessante: olhos levemente puxados que sorriamem consonância com sua boca pequena e bem desenhada. Tinha possivelmenteuns trinta e alguma coisa, de corpo mignon e sarado, apesar do excesso de roupanaqueles dias frios. Tinha cabelos castanhos claros invariavelmente presos e pelebranca como neve. Agora na claridade daquele bar podia vê-la pela primeira vez,assim, de pertinho, e estava surpreso por não ter reparado antes nos sutis e bemescondidos encantos de Nina. É bem verdade que a achava meio abuzadinha, meioespaçosa para seu gosto. Bom, era o jeito dela, e ele agora estava imbuído emcoopta-la para um grande plano que se desenvolvia com grande velocidade emsua cabeça. - Estou cansado demais por hoje Nina, me desculpe se já bocejei duas vezes, éque foi dose pra elefante estes acontecimentos desta noite. - Não seja por isso, Cabacinho, vamos embora porque eu também não agüentomais esse negócio de Epaminondas. - Mas aquele sambinha, aquele sambinha foi sensacional. Nunca esquecereiaquilo. - e os dois riram, pediram a conta e se foram. 18
  19. 19. A FILOSOFIA DO DIABOCap 02 ATRAINDO O OCEANO PARA UM PINGO D’ÁGUANa delegacia, na manhã seguinte, a agitação de sempre; gente entre balcões emesas protagonizava o tráfego ruidoso do ambiente policial. Nina digitava seurelatório num ultrapassado computador, há muito que o pessoal reivindicava poraparelhos mais avançados, mas sabem como é... repartição, etc. tem de esperar. Elaesbravejava alguma coisa baixinho quando Tito aproximou-se sorrateiro e por trássussurrou no seu ouvido: - Consegui! - Nina deu um pulo – Droga, seu puto! Vaiassustar a sua mãe!Tito riu despreocupadamente, e prosseguiu balançando um pequeno pedaço depapel – Ta aqui, neguinha, ta aqui! - ela tentou apanhar o papel, mas ele recolheu 19
  20. 20. rapidamente a mão - Não com tanta pressa amorzinho! Isto aqui é um verdadeirotesouro! - Se é seu número de telefone, não me interessa, seu abestado! – brincou Nina,retomando seus afazeres no velho computador. - Nada disso, o que tenho aqui, me foi dado pelo comissário Gordon, é onumero do telefone direto do Batman. - Então liga pra ele e diz pro morcegão que eu acho ele um saco. - Se liga mulher! Se liga, consegui o telefone do Epaminondas, há,há,há...A mulher tirou rapidamente os olhos de sua tarefa e com vivo interesse, levantou-se para contemplar aquela pérola apanhada nos mais recônditos mares. – Comovocê conseguiu? - Isso, fala mais alto. O que temos aqui é o maior segredo da policia! Quer que adelegacia toda descubra? Vamos sair daqui quietinhos. – e os dois retiraram-se dolocal. Já no corredor ela acendeu um cigarro, e eufórica, pedia para ver opapelzinho – Olha - disse Tito - é uma pérola conseguida graças a minha cara depau; arrisquei o couro pra conseguir essa porra! - E como você conseguiu? - Bem, hoje cedo, Santos me chamou em sua sala para que eu assinasse algunsrelatórios sobre a ação de ontem. A partir daí começamos a conversar. Ele estavasentado à sua mesa e em dado momento alguém o chamou para uma merdaqualquer, ele pediu que eu esperasse e se retirou. Percebi seu celular em cima damesa, e então me veio a idéia! Ora, eu sabia que Santos havia ligado paraEpaminondas ontem à noite. A partir daí bolei um plano; senteidespreocupadamente o bundão em sua mesa, peguei um pedaço de papel e umacaneta, fingi então que anotava alguma coisa, e realmente anotava, anotava asúltimas ligações do Santos, que estavam na memória do celular. - Putz! Você é louco, malandro? Se o homem te pega... - Mas não pegou, chhht, deixa-me terminar. O Santos voltou e veio com umaspapeladas, disse então que falaríamos outra hora e me dispensou. Procurei umtelefone público e testei os números. O da casa dele eu conheço, esse eu pulei,outros dois atenderam mulheres diferentes, talvez uma seja sua esposa e a outrasua amante sei lá... Noutra deu numa casa de penhores, acho que ele anda mal degrana... Depois, em outra deu no escritório de um tal Dr. Palácios advocacia cível,etc. e finalmente, pimba! Atendeu um sujeito estranho que disse ‘alô’ e ficoumudo, é aí, pensei, então eu disse: - É da parte do inspetor Santos – o homemrespondeu o seguinte: - Inspetor Santos? Mas ele sabe muito bem que o home nãoatende de dia, vão ter de se virar sem ele. - Nesse momento eu desliguei. Não hádúvidas este é o número do negrão! Diga-me, sou ou não sou um bominvestigador? 20
  21. 21. - Acho que isto é o que vamos descobrir a partir da agora; mas saiba, essacuriosidade é minha também, nem pense... Nem pense em fazer qualquer coisasozinho! Desvendaremos este mistério juntos, capisci, Cabacinho? - Então vamos começar desvendando outro mistério; que prazer é esse que vocêtem de me chamar de Cabacinho? Porra, esse troço enche o saco, capisci? Sequiser ser minha companheira neste negócio, das duas uma: ou confere meucabacinho na cama, ou pára com essa merda! - Tá se agigantando, malandro? Mais devagar... ter esse segredinho no bolsonão lhe torna policial experiente, e pra encarar essa merda toda tem que ser galovelho! Só quero ver. Quanto a lhe chamar de Cabacinho, certo, negócio fechado. Euparo. Quando começamos as investigações, Pequeno Hímem! – Nina caiu na risada,e foi acompanhada por um sorriso meio sem graça de Tito; não era hora parapolêmicas, ele tinha uma idéia fixa e aquela mulher era a melhor cúmplice com quepodia contar. – Bem, vamos ter de esperar anoitecer para fazer contato.- comentou Tito. - E alegar o que? Ou vamos matar alguém para atrai-lo ao local do crime. Diga-se de passagem, que esta seria a maior burrice do mundo, uma vez que ele matariaa charada em dois segundos. - Vamos dizer a verdade. - Que? - A verdade, pura e simples, nada mais. - E qual é a verdade pura e simples, nada mais? - Que somos fascinados nele, é nosso herói etc., sei lá, porra! - Você não conhece este homem. Ele vai rir da nossa cara, esse negócio de heróicom ele não cola e de mais a mais, por quais nobres motivos ele nos receberia emsua toca? - Bem, vou pensar em algo até a noite, agora vamos trabalhar para nãopensarem que estamos de namoro no serviço. - Oh!Os dois então entraram e foram às suas respectivas mesas. Mas foi difícil trabalharnaquele dia, a expectativa era grande e nada acontecia, o dia foi lento e sem graça;pequenas e corriqueiras ocorrências, boletins e papeladas. A única graça que osdois acharam para se entreterem naquela modorra burocrática, era a de rápidosolhares cúmplices trocados sorrateiramente. Quando enfim, começou a anoitecer,Tito percebeu que estava ficando nervoso, e isto não era bom. Se quisesse que oplano desse certo, teria de encará-lo com naturalidade. Começou então a pensarde como conseguiria uma audiência com Epaminondas. Onde afinal vivia o negrão?Que tipo de recepção eles teriam? E se o cara se negasse a recebe-los? Sereclamasse deste assédio a Santos? Como ele explicaria a aquisição do numero dotelefone? Percebeu então que começara a suar frio. Poderia estar botando sua 21
  22. 22. carreira em jogo, valeria a pena arriscar tudo assim? Logo agora que começara ainvestigar crimes? Se descobrissem poderia tomar um cano, e ficar por mesesrebaixado ao envolvimento com a burocracia da delegacia. Mas estavairreversivelmente fascinado com aquela misteriosa e profundamente enigmáticafigura. Achava estranho, mas seus instintos diziam que ele teria muito a ganharcom aquele desconhecido, sentia algo místico, que o impelia a correr riscos paraatingir seu fim; mais ainda: achava que se não houvesse riscos, seuempreendimento seria de bem menor valia. Estava convencido de queEpaminondas era um daqueles raros sujeitos que realmente tem algo a dizer. Oproblema era de como convencê-lo de que eram de confiança; que seus possíveissegredos estariam em total segurança. Às vezes Tito perdia seu olhar na paisagemcinzenta que a janela oferecia e alguns pensamentos lhe provocavam algumaspontas de desânimo; e se tivesse mitificado aquele sujeito? Se não fosse nadadisso, se o cara não passasse de um bêbado comum que acertava palpites emcenas de crimes? Se, ao encontrá-lo, finalmente percebesse que Epaminondas eraum pobre coitado, miserável e rancoroso por ter sido relegado ao ostracismo dapolícia, um homem que choramingasse as mágoas de ser um incompreendido einjustiçado, que dera seu sangue, literalmente, ao seu trabalho e que quando estápara chover, os ferimentos dos tiros doem e lhe causam grandes transtornos desaúde? Ele mostraria os remédios de que era obrigado a tomar para depressão,cirrose, etc. enquanto sua velha e paciente companheira diria que ele não bebiatanto antes de sair da policia – Agora está virado nisso aí! – e apontaria para umEpaminondas baboso, atirado em uma velha e furada poltrona, com uma garrafade conhaque no colo. A paciente senhora se retiraria para preparar-lhes café, eentão o ex-policial começaria, com sua voz pastosa, a desfiar o rosário familiar e decomo era mal tratado por todos os seus circundantes, para em seguida, em vozalta para a esposa escutar, contar bravatas de valentia, dos seus bons e velhostempos. Quem sabe à luz, seu olhar amedrontador não passe de olhos embaçadospelo vício e pela idade; que já não dizem nada, sem força e sabe-se lá, até mesmosuplicante e patético. De repente, Tito despertou deste devaneio. Não, claro quenão, ele não seria este ente patético e deprimido. E Tito deixou escapar uma risada;não, um cara assim jamais desvendaria um crime compondo e cantando um sambade improviso! Não, decididamente este ser doente não seria jamais aquelerepentista fascinante e embriagado que o assombrou na noite passada. Eprincipalmente, o homem que disse o que disse, olhando nos olhos assombradosdo assassino, na noite anterior. Olhando então pela janela, Tito esqueceu a noitepassada, porque a noite de hoje já havia chegado. 22
  23. 23. *** Tito e Nina saíram juntos da delegacia. Percorreram alguns quarteirões e resolveram sentar em um bar para tratar da execução do plano. - Muito bem, maroto. O que você bolou. Qual será nosso cavalo de Tróia para entrarmos na vida do Sr. Misterioso? – perguntou Nina. - Para dizer a verdade, não me ocorreu nada. Acho que temos que ligar e pronto. Sem muito esquema. – disse Tito, enquanto observava o garçom colocando dois copos na mesa e uma garrafa de cerveja. - Quem sabe o convidamos para beber? Não é o que ele mais gosta? À nossas expensas. – brincou Nina. - Seria como atrair o oceano para um pingo d’água. Se existe uma coisa da qual, creio eu, Epaminondas não se ressente, é da falta de trago. Não acredito que é por aí o negócio. Temos que pensar em algo que realmente lhe agrade. – comentou Tito enquanto servia os copos. - Mais que a cachaça? Você tá brincando! Um brinde, tim tim! - Tim tim!Nina então reparou com mais calma no seu teimoso colega. Achou que era, até,um sujeito bonito. Tinha estatura média e forte. A pele queimada pelo solrealçava um belo sorriso, embora Tito fosse o que Nina considerava homemsério, não muito afeito a brincadeiras fora de hora. O cabelo extremamentenegro e um pouco comprido para seu gosto, apresentava nuances do trabalhoinclemente do Sol, enquanto os olhos grandes igualmente pretos, dificilmentepousavam por muito tempo em alguma coisa, ao que Nina atribuía a umapossível timidez mal disfarçada. Talvez não passasse de um menino. - Quantos anos você tem? – disparou curiosa. - Vinte e seis. Porquê? Pareço muito velho? É esta porra desta luz, dá bem em cima de mim! Quanto eu aparento, trinta, trinta e cinco? - Com a boca fechada. Quando fala, uns... dez. – falou Nina divertindo-se. - Ah, sim, é que tenho de fazer jus a meu gracioso apelido de Cabacinho. - Mas não fique brabo comigo, quem lhe presenteou com esta maravilhosa alcunha foi seu amado ídolo. Aliás, me ocorreu uma idéia! Epaminondas disse 23
  24. 24. que sente cheiro de defunto e cabaço; logo, ele poderá chegar a nós farejandovocê! Vamos andar pela cidade e deixar que nos ache, há,há,há... - Isso, tira sarro... você não está ajudando em nada para acharmos umasolução. Me pergunto se não seria melhor trabalhar nisso sozinho. Não é moleagüentar todo esse seu sarcasmo. - É que você é muito sério, precisa relaxar. Desde que botou esse bebum nacabeça não fala de outra coisa. E se por acaso tudo isso não der em nada? Oque você vai fazer? Aguardar outro assassinato para encontrar-se com seuúnico e verdadeiro amor? Ele aparecerá e desaparecerá no nada, como sempre. - Quantas vezes você presenciou suas aparições? - Não muitas, mas lhe garanto, ninguém nunca se atreveu a segui-lo ou coisaparecida. Todos têm respeito ou medo dele. Você viu ontem? O Santos,sempre cheio de pose, metido a sabichão, gosta de vomitar ordens, etc. meteuo rabo no meio das pernas quando o negão abriu a boca. O que você querfazer, na verdade, é praticar um crime de lesa-majestade. No momento queencontrar o cara e ele não gostar, pode desistir de ajudar a polícia. E aí, o quevocê vai dizer para o Santos? E para o delegado Fidelis? E para toda acorporação? O que dirá você? Amigos, o homem da sombra não virá nuncamais, pois fui impertinente o suficiente a ponto de procurá-lo e aborrecê-lo,agora ele não quer mais saber da policia! – Nina deu uma parada, suspirou eprosseguiu – Sei o que você deve estar pensando, que eu então não devia tertopado esta empreitada... - Exatamente. - Mas eu também morro de curiosidade sobre esse homem. Só que temosque ter um plano que não dê errado do modo algum, só isso. Acho precipitado,você conheceu o cara ontem e já quer procurá-lo hoje, e assim, sem nenhumacarta na manga! Você nem sabe com o que está lidando, e se ele for perigoso, ese há muito ele já não esteja em seu juízo perfeito? Porra o cara é uma esponja!Duvido muito que não haja algum dano naquele cérebro. - Puta merda! Se aquele cérebro tem algum dano, também quero um deste.Você não tem vergonha de dizer uma coisa destas? Quatro policiais sóbriosprecisam que um bêbado, vindo não se sabe de onde, resolva um crime! Dano?Que dano pode ser esse, que faz com que o sujeito improvise um samba econte a história do assassino e do morto? Assim, num estalar de dedos! Aocontrário de você, eu realmente acho que estamos diante de um misteriosofenômeno. E quero descobri-lo. Só não sei se ainda posso contar com você. - Pode... Claro que pode – disse Nina, fazendo um ar cansado - mas volto adizer, precisamos de um plano. - Você quer um plano? Está aqui o plano... – ato contínuo, Tito pegou ocelular e ligou, com tanta determinação, que Nina preferiu ficar em silêncio, 24
  25. 25. embora aflita. Tito esperava com o aparelho junto ao ouvido, o rosto impassívelaos poucos descorava, e a mão começou a tremer levemente – Droga! Nãoposso fraquejar agora.Alguém atendeu do outro lado. Tito estremeceu. Os olhos saltavam no rostoexangue. Nina tinha os olhos cravados na fisionomia do rapaz, como se atravésdesta, pudesse decifrar o enredo daquela conversa que enfim começava. Umavoz grave e pastosa atendeu do outro lado – Ora, ora, ora... se não é o meuamigo cabaço! Fale meu rapaz, onde foi a merda desta vez? - Não... não houve nenhum crime Sr. Epaminondas. – Tito sentia que a vozlhe saia miúda e a garganta parecia fechar. - Não? Então o que vocês querem de mim, porra? Estava me preparando pradar uma sonora trepada! Ou lembraram deste velho diabo porque finalmentereconheceram que é chagada a hora de recompensá-lo com um gordo cachê?Desembucha meu filho! - Não é a policia que está lhe ligando, sou eu. É particular. Gostaria inclusiveque eles não soubessem deste contato. Aliás, não sei como adivinhou ser eu aotelefone. - Há,há,há... Não, meu filho, adivinhação não existe. Eu apenas sabia ser vocêao telefone, nada mais. É particular? Hummm... Qual é o rolo que você semeteu? Eu tô dizendo... vão acabar me chamando até para fazer parto! Essa éboa! O cara quer atendimento particular! Agora escute com atenção, filhote, seeu abrir uma exceção para atendimento particular, este telefone não vai maisparar de tocar, que horas vou achar para me embriagar? Meu negócio é beber,me chapar a valer, trepar muito, brincar, dançar, cantar e dar risadas, a quehoras poderei fazer isto? Não poderei, pois terei de trabalhar sob a incidênciade luz... urghh! Tá louco! Por isso, não me leve a mal, não é nada pessoal, apolícia é uma exceção por questões sentimentais, pois dei uma parte da minhavida a ela em troca de algum dinheiro. Agora lhe dou uma ínfima parte daminha vida e não quero dinheiro nenhum, faço por esporte, isso é tudo, garoto. - Não desligue! Deixe-me dizer! Não sei como o senhor vai interpretar isso,mas realmente, como um policial que está iniciando uma carreira nainvestigação de crimes. Cabaço você diz; sim, totalmente cabaço! Gostariamuito que me ensinasse sua técnica dedutiva! Seria-me de grande valia, isto é...Obviamente, se o senhor tiver um pouco de paciência com seu jovem aprendiz.Sou de aprender rápido sei que não se arrependerá. – Tito disse isto quase quede um fôlego só, e começava a sentir uma incômoda sensação de quecomeçava a fazer papel de idiota. - Há,há,há... Espere que vou dar mais um gole! Êta vinho bom! Hummm....Delícia! Bom, que você queira ser um dedicado filhotinho do Estado, possocompreender, afinal está há pouco tempo nesse negócio. Todo o tesão é 25
  26. 26. louvável meu garoto! Mas creio realmente que a estas ambições, algumascartilhas e manuais de procedimento poderão lhe ser de maior utilidade que doque eu. Obviamente, meu caro, além de um dom natural que, espero, vocêtenha. De minha parte, se tem alguma coisa que nunca me passou pela cabeçaé ensinar alguma coisa; me seria terrivelmente penoso vestir essa carapuça, a demestre; porra, só de falar disso me deu sede! Bravo! Mais um gole... êta vinhobom! Agora, se me permite, filhote, tem uma mulata... eu adoro mulata, ossóbrios costumam dizer que ela tem a cor do pecado! há,há,há... tem umamulata maravilhosa na minha cama, exalando seu cheiro amoroso de cravo, elafaz agora uma dança de cigana, quer o seu negão! Seu negão! Bemembriagado! E todo amor e tesão que pode sorver, egoísta, desta minhaembriaguez despreocupada e profana! Sim, todos os meus sentidos estão emprofunda alegria, tem uma mulata na minha cama! Portanto irmãozinho sóbrio,sem rodeios: sinto que você quer mesmo é me conhecer mais de perto, eu lheimpressionei, etc. e tal... Eu li isto ontem nos seus olhos. Por que vocêsimplesmente não fala a verdade? Dá para sentir o cheiro da mentira daqui!Enquanto optar pela mentira, não poderei fazer nada por você. Pare parapensar, nessa luz parca que incide sobre vocês, sóbrios, que induz à mentirapara atingir um fim, mesmo que este tenha nascido dos mais profundossentimentos. - Perdoe-me, o senhor tem razão, – disse Tito totalmente sem jeito sob oolhar estupefato de Nina que não imaginava que o rapaz pudesse levar aconversa tão adiante - talvez eu não esteja pronto para este contato. - Sim está; tanto que, creio eu, deve ter conseguido meu telefone de formanão muito lícita. Arriscou seu pescoço. Isto demonstra paixão, paixão aoempreendimento ao qual você se propôs. Com isso angariou meu respeito.Livre-se destas pequenas mentiras e me aguarde, eu te acho. Uau! Estou mederretendo de tão embriagado e tesudo; tem uma mulata na minha cama, eela... ela faz uma dança de cigana... Ah! Antes de desligar, dê um beijo aí, para aNina... é Nina o nome dela não é mesmo? Tchau!Tito desligou o telefone sem tirar os olhos da atônita Nina. – Lhe deixou umbeijo! – disse em júbilo – yes, yes, yes... Consegui! Consegui! Ele me dará umachance e se não tivesse eu, usado de subterfúgios mentirosos, me daria bem jáhoje. Lembra quando lhe disse que a verdade seria o melhor caminho parachegarmos a ele? Você queria planos mirabolantes! Não, para se achegar a elebasta apenas ser você mesmo, sem estas mentirinhas nojentas que inventamostodos os dias para abrir pequenas portas. Sim, eu tinha razão. - Certo, você ganhou, tinha razão, mas me conte tudo, tudinho, fale, falegaroto! - e Tito cheio de um entusiasmo anormal, pediu mais uma cerveja ecomeçou a descrever sua rápida conversa. 26
  27. 27. A FILOSOFIA DO DIABOCap 03 SOBRE SÓBRIOS E EMBRIAGADOSTrês dias se passaram sem nenhuma novidade. Neste ínterim, não aconteceranenhum crime que justificasse a presença de Epaminondas no local. Mas, uma frasenão saia da cabeça de Tito: me aguarde, eu te acho... o que o ex-policial queriadizer com eu te acho? Nestes dias quando saía da delegacia, nem que fosse parafazer um lanche, olhava para todos os lados à procura de algum sinal. Procuravaalguma pessoa estranha, algum aceno no outro lado da rua, alguém que lheentregasse sorrateiramente algum bilhete contendo instruções sobre como equando encontrar aquela enigmática figura. Estava criando o hábito de tomaralgumas cervejas com Nina quando um ou outro não estava de plantão. Às vezesEdson também participava, mas nestas ocasiões tinham os dois, ele e a colega, decuidarem o que diziam, afinal, tinham um segredo. Um olhava para o outro, de umjeito que ficasse claro quando o álcool ameaçava fazer derrapar a língua, pondoem perigo seus planos. Às vezes reparava melhor na mulher, principalmente 27
  28. 28. quando a bebida lhe afrouxava o espírito sisudo; olhava-a então com mais atençãoe tinha de admitir que o riso brincalhão de Nina ‘mexia com ele’. Algumas vezeslhe ocorria convidá-la para continuarem a festa em seu apartamento, mas emseguida sua costumeira insegurança com as garotas apossava-se de seus nervos.Melhor deixar assim, de mais a mais, ela tinha um espírito brincalhão que talvez ofizesse confundir as coisas. Sabia também, que não podia perder esta forte aliada;se cometesse algum deslize que desgostasse a moça poderia pôr tudo a perder.Foi assim que três dias se passaram e ele já começava a cogitar ligar mais uma vezpara o homem; no entanto, quando pegava seu celular desistia. O que dizer?Epaminondas disse que o achava, e se isto fosse alguma regra que deveriaobedecer com total reverência? Poderia ser a condição sine qua non para oencontro. Não, melhor não; desistia então da ligação e ficava entregue à ansiedade.Foi pensando nestas coisas que chegou em casa, depois de mais um dia detrabalho em que nada acontecera digno de nota. Cansado, talvez da modorra dodia, não conseguiu naquela noite nem ver um pouco de televisão, indo diretodesabar em sua cama, de roupa e tudo, adormecendo em seguida. Caiu então naimensidão do nada. O sono profundo em que mergulhara aos poucos dava lugar auma voz arrastada e grave, era a voz de Epaminondas. Enquanto despertavalentamente, juntava preguiçosamente as migalhas de seu raciocínio perdidas naescuridão silenciosa do sono. Aquela voz... Achou que estava iniciando um sonho eentregou-se lentamente à doçura etérea daquele canto de Morfeu. Umagargalhada então, alta e lasciva, o trouxe à superfície. Abriu lentamente os olhosnuma luta serena contra pálpebras de chumbo. Começou aos poucos a divisaralgumas coisas à sua frente; a princípio imagens desconectas que dançavam; eramluzes salpicadas de escuridões. Num esforço mais intenso obrigou suas pupilas alhe fazerem uma tradução mais fiel do que via. Dezenas de círios acesos, pretos evermelhos, emprestavam suas luzes a imagens assustadoras, carrancas, cabeças debronze com imensos chifres. Nas paredes pululavam imagens estranhas, pareciamdemônios que zombavam do recém chegado com seus sorrisos ruidosos. A dançalenta, porém intensa daqueles pontos de fogo faziam com que claridade e sombrabrincassem em suas fisionomias assustadoras e alegres. Davam-lhes osmovimentos necessários para que mostrassem todo o êxtase de suas alegriaspagãs; demônios orgulhosos que realizavam extáticos, suas danças infernais. Omedo exalado pelo inusitado visitante parecia arrancar-lhes risadas maldosasembora surdas, como que em agradecida celebração pelo inocente, que agora ali,petrificado, era oferecido em holocausto. Tito reparou então em uma imensa etemerosa pira que ardia no centro do recinto, sentindo arrepios. Estava nauseado everdadeiramente apavorado. Não, aquilo não era um sonho! Decididamente aquilotudo era real, podia sentir o calor daquelas chamas e sentia também o aromainebriante e suave de incenso; sim, seus olhos estavam bem abertos. 28
  29. 29. - Não, garotinho, você não está sonhando... – aquela voz bêbada e arrastada elejá conhecia. E o pavor da situação o fez pensar se realmente acertara naquelaprocura. Estava com muito medo. E se Epaminondas fosse um louco! E seingenuamente, caíra como um cãozinho estúpido e xereta nas garras de umdepravado! Ali imóvel, a mercê de seu raptor, que reação poderia exercer? Levou amão, num ato mecânico, abaixo do braço; procurava sua arma no coldre axilar, omovimento saiu lento e em vão. Ouviu então a risada debochada de Epaminondas.Aquilo o fez tremer. Sentiu uma vontade incrível de chorar, chorar um choroinfantil, de criancinha desamparada e então percebeu que estava entrando empânico. Começou a respirar fundo e tentou levantar-se de um só golpe; nãoconseguiu. O sentimento de medo foi dando lugar ao de raiva, seu corpo imóvelpossivelmente drogado, fora conduzido sabe-se lá como, para aquele lugarassustador. Pesava agora trezentos quilos. Desistiu de uma reação, apenas olhoupara o raptor à procura de alguma indulgência. Nos seus olhos estava escrita arendição, e os de Epaminondas pareciam-lhes mais sinistros do que nunca – Meucaro e indefeso amigo - prosseguiu Epaminondas, que vestia uma grande capanegra com capuz. Esta indumentária dava aspecto mais sinistro ao evento e a seuprincipal personagem – Permita que me apresente: eu sou eu e não eles. Eu souaquele que escutou quando menino, ‘seja nós’, e respondeu: não posso porque eusou eu. Mais tarde escutou, então seja igual, e respondeu: impossível, porque soudiferente. Por fim escutou, então pelo menos seja ‘bom’ e respondeu: como assim,me pedir um sentimento? Ficou então enojado dos pedintes e foi embora. Não mepresto a ser comestível, queriam que eu fosse mais um arroz...branquinho, coletivoe indefeso, mas não. Eu sou a mosca que pousou no prato! Este sou eu. Portantomeu caro espero que você não seja um babaca qualquer, que venha apentelharmeu sossego. Imagino que o que lhe fascinou naquela noite, foi o inusitado, estouerrado? Claro que não. O inusitado, quando se está entre sóbrios é entretenimentoque desconcerta, é diversão. Sob a luz mortiça da Razão, todo mundo é valente!Todos, sob a tutela da sobriedade, essa parca luz, são muito curiosos. No entanto,basta apagar a luz, e voltam a ser as criancinhas mimadas, desprotegidas echorosas, que os sóbrios, em ultima instancia, são. Crianças que têm medo doescuro. Apresenta-se a você uma situação inédita, e seu coraçãozinho sóbrio entraem desespero. Por que? Porque o dia a dia em que sua cabecinha é viciada, nãopode prever que exista vida onde você não enxerga. Ninguém me vê durante o dia.Pois saiba novato! Na sombra a vida é mais intensa que na luz. Porque à sombra,só enxerga quem ilumina com o próprio fogo, se não, morre de fome! Quem nãotem luz própria, apavora-se na escuridão, não vê nada, e que perigos podem surgirde onde não se enxerga! Ajoelha-se então e reza por uma lanterna salvadora. Alanterna da luz sóbria! Olhe você! Queria ter comigo. Dou-lhe uma chance e vocêse caga nas calças! O que você imaginou? Que eu estaria à sua espera em um 29
  30. 30. botequim de quinta categoria, em uma esquina qualquer? Claro que sim! Tenhocerteza, há,há,há... mas não, meu filho, embora adore botequins de quintacategoria. Só cuide com esse hábito sóbrio de rebaixar o que não conhece àimagem e semelhança do conhecedor. – Epaminondas abriu os braços e saiuandando pela imensa sala com seus passos trôpegos – Olhe tudo isso! Estes todossão avatares de uma embriaguez cósmica! Estão lhe recepcionando com intensaalegria! São os melhores amigos que você pode ter, desde que possa percebe-losquando vêm dançar, no silêncio misterioso da sombra. Oh, não! Esqueci-me, você éum sóbrio! Tem pra você tudo bem iluminadinho! Escolhe as coisas pela incidênciade luz que nelas refletem; narcisicamente, escolhe então os reflexos de luzes quemais lhe agradam. Alimenta-se de luzes refletidas, reflexos de luzes alheias. Mas, ea sua luz? Não existe? Há,há,há... Você só saberá se dançar com seus demôniosdanças infernais, menino, sob a luz negra de sua própria sombra. Olhe essas velas...iluminam na escuridão com luzes feitas de fogo! Luzes que dançam! E só podehaver fogo, se este vier da nossa mais profana profundidade. Para mim, filhote, nãohá dúvidas, ou iluminamos com nosso fogo ou somos iluminados por luzesmofadas. Esse pavor estancado em seus olhos vem do mofo sóbrio em que vocêfoi criado. Vocês civilizados, há.há.há... os civilizados me divertem muito! Você saberealmente o que é ser um civilizado? Eu tenho um palpite: é nada mais nada menosdo que assumir o compromisso de ser hoje, ao acordar, o mesmo que você foiontem. Você se transformar no seu próprio circulo vicioso, é isso que esperam devocê, que seja um óbvio, um previsível. Só assim pode ser medido o grau de perigoque você eventualmente possa representar à sociedade sóbria; se for um óbvio,receberá o selo de ‘bom’. Divirto-me quando vejo aquelas figuras empoladasfalando; o discurso combinando com a gravata, almas decoradas. Aliás, creio que a‘alma’ é a armadilha do ser. Caralho! A ‘alma’ é a jaula dos instintos! Para quem ostêm bem fracos ou praticamente não os têm, essa dama é uma benção!Praticamente pode justificar toda uma existência débil. É o manto sagrado vestidopelo sóbrio; no entanto, é uma camisa de força a ser rasgada pelo embriagado!Quem não tem nada se apega a qualquer coisa, principalmente se vem pintada debranco e tem ornamentos santarrões. A alma é a carteira de identidade dossóbrios, assim, reconhecendo-se nela, reconhecem-se todos, e todos queremtambém a imortalidade dos seus pequenos egos. E assim conduzem àimortalidade... o ‘divino’ Platão. Nada mais. Divertem-me esses sóbrios, acocoradossob a luz platônica! Lutando contra seus instintos, lutando contra si próprios! Ficamcom a ‘alma’ e jogam no lixo o que têm de mais profundo, forte e original, dando-lhe o nome de diabo. Mas é no lixo dos sóbrios que faço minhas melhorespescarias. Qualquer coisa que não sirva para um sóbrio torna-se uma iguaria paraum embriagado! Costumam desfazer-se do fruto, consumindo avidamente a casca.Bem, digo-lhe tudo isto, porque realmente me surpreende seu medo. Você foi 30
  31. 31. valente para me encarar, ou foi uma súbita curiosidade tola? Se foi, tudo bem,estará em casa logo mais e faz de conta que tudo não passou de um pesadelo;agora não repare, mas tenho que tomar um gole! Minha boca está ficando seca.Porra, eu falo pra caralho, compadre! Foi você aí deitado, abatido, que me inspirouesta fúria verborrágica! É que vocês me enchem o saco com esses medinhos tolos.– Epaminondas serviu-se de uma garrafa de champanha, enchendo também umataça para Tito. Estendeu-a ao assustado rapaz, que a apanhou com mão trêmula.Este em seguida conseguiu sentar-se com dificuldade no acanhado sofá, que sóagora percebia, estivera por este tempo todo deitado. O pior já havia passado, eaos poucos, Tito reorganizava suas idéias. Planejara não fraquejar quando estivessena presença do negrão e dava-se conta de ter protagonizado um pequeno vexame.Embora tivesse ficado este tempo todo em silêncio, o lance de tentar pegar suaarma demonstrava uma patetice à toda prova. Resolveu então, entrar de bem nadança. Epaminondas sugeriu um brinde e os dois bateram os copos. Em seguida,Tito ensaiou suas primeiras falas. - Perdoe-me Sr. Epaminondas – disse isso levando a mão à cabeça, ainda estavameio zonzo – foi tudo muito rápido, ainda agora dormia em minha casa e... derepente... - Deixa comigo que eu sei como é, mas não posso correr riscos. Compreenda,estou em meu habitat, não posso permitir que venham xeretar por aqui, tomei aprecaução de remove-lo dormindo, sei alguns truques, é fácil. Assim, com estepequeno ardil, eu garanto minha tranqüilidade, pois se você falar disso paraalguém, dirão que sonhou e que você não passa de um lunático. Aliás, penso quevocê é meio maluquinho, não e? - Epaminondas sentou-se em uma poltrona deespaldar alto, ornada com mantos de cetim com variadas cores e estranhosbrocados, mas estava difícil para Tito divisar pormenores naquele ambiente; onegrão olhava-o e sorria com a taça de champanha na mão, o rapaz achou melhorcorresponder-lhe o sorriso. - Você é corajoso garoto, gosto disto. O pessoal da policia é só interesseiro.Querem somente os meus préstimos, e quanto mais rápido eu partir da cena docrime, melhor. Mal sabem eles que tudo que quero é sair logo de suas presençassóbrias. É um bando de cínicos. O Santos mal consegue disfarçar o seu desgostocom minha presença, mas trabalhar pouco é tudo que ele quer, portanto, chama onegão Epaminondas! Só vou nessas porras todas porque gosto de praticar, botarum vagabundo mentiroso e covarde na cadeia é uma delícia! Veja, e você é novatoe vai se acostumar, como é a condição humana; eles cometem crimes e escondem-se atrás de mentiras, das mais variadas, isso não é uma vergonha? Os sóbrios eseus crimes... não conseguem nem assumir a própria violência de suas paixões. Nãoassumem nada, afinal. O que me deixa puto é que muitos botam a culpa nabebida! Ora! Eles são sóbrios! Sóbrios quando bebem não ficam embriagados, 31
  32. 32. ficam bêbados! e nesta condição encontram a desculpa adequada para todo tipode patifaria. ‘Eu estava fora de mim!’ é isso que alegam. Porém, como aquelescãezinhos de circo que só têm valor porque andam ‘de pé’, nas patinhas de trás,adestrados que foram para isso, quando andam com as quatro patinhas perdem oglamour e a serventia, porém tornam-se o que realmente são, cãezinhos, nadamais. Assim é que imagino a condição humana, ‘eu estava fora de mim!’, aqui ó!Quando botou as patinhas no chão, tornou-se por um momento o que é lá nosrecantos mais profundos de seu ser: uma besta! É quando a máscara doadestramento sóbrio cai, e vemos o rosto que se esconde por detrás da mascara‘civilizada’. É irmãozinho... acho que o velho Freud realmente tinha razão. Dá umtremendo mal estar ter de estar sóbrio o tempo todo! Mas estar embriagado é umadelicia! Amo a embriaguez! Por isso, vamos tomar outra! – encheu então sua taça ea de Tito, que continuava um pouco aéreo, sentou novamente e continuou – Àbesta humana! – ergueu um brinde, ato contínuo, sorveu tudo em poucos goles - Àbesta humana, por encenar esta maravilhosa ópera buffa que me diverte tanto! Aessa canga pesada que são obrigados a carregar, sua santa Razão, uma Razão detúnica branca. Muito bonita e que cheira a jasmim, para combinar com suas almaspuras, tão branquinhas. Tudo muito bonitinho, muito comovente... oh, como metoca! Sabe, pimpolho, a maioria dessas caras que você encontra lá fora, quandoestá ao Sol, precisam mesmo de uma alma, de um rótulo, de um comportamento;ser sóbrio é uma profissão. Parece-me que agradecem aliviados, já existir deantemão um molde os aguardando, para que, tal qual a água que toma a forma dorecipiente no qual é vertida, seu ser assuma uma função nesse grande negócio.Será remunerado com grana! Grana e reconhecimento.Terá uma bela família, paramostrar fotos aos amigos. Não precisará existir fora disso, para alívio seu, pois nãoteria para onde ir. Não é nada, só um molde. Acho isso a ditadura do frasco sobre aessência, quando esta é parca ou não existe. O sóbrio é uma aparência. Masexistem os embriagados, ah... os embriagados, os que vertem seu ser para fora doacanhado recipiente, porque este por si só não basta. Uma coisa eu aprendi nestasminhas andanças pelos becos da existência: o pequeno precisa de um conteúdoque lhe dê forma, e o grande, precisa livrar-se de um conteúdo que lhe deforma.Isto é tudo. Saiba, esta pode ser a fórmula para entender o mundo sóbrio. Asociedade detesta qualquer superfície em que não possa colar seus rótulos. Eu, porexemplo, sou um ‘bêbado’! Há,há,ha... um mero bêbado, porém, pensam eles,talvez até um homem demoníaco! Há,há,há... a única coisa que quero do sóbrio é oseu medo. Assim, ficam longe de mim. Que vão pra puta que pariu! Há,há,há... osóbrio e sua ‘alma’! Eu não tenho alma, meu garoto! Sou só instintos! Sou ummonstro instintivo, uma espécie de Dragão de Komodo, negro, gordo emalevolente, que anda nas quatro patas com aquela lassidão que uma existênciaconfortável proporciona. Carrego comigo uma garrafa de aguardente, e ando pelos 32
  33. 33. esconderijos mais escuros e sujos, sempre com minha língua de dragão dandorápidas investidas no nada e sempre lascivo, com meu pau arrastando por ondeando! Desapareço nas sombras atrás de minhas presas, caço os demônios maisescrotos, os devoro com a calma dos crocodilos, mas sempre mastigando comcuidado para não matá-los, pois ao ingeri-los vivos, passarão a fazer parte do quesou, acolherei suas danças em meu ventre. O velho e bom dragão sai de suassombras de buxo cheio, mais pesado, mais preguiçoso, e mais forte. Quero que mechamem de diabo! Quero os epítetos mais escabrosos! Quero ser o adversário! Odo contra! O bárbaro! O parta! O godo! O herege! Quero ser queimado em suasfogueiras! E então, em meio às chamas, riria minha mais diabólica risada e diria emalto e bom som:Cá estou euNa fogueira de novo!Mas saibam, senhores:De tanto ser queimado,Fiquei amigo do fogo!Epaminondas falava alto e transpirava. Estava bastante embriagado e Tito nãosabia realmente onde tudo aquilo ia dar. O negrão falava todas aquelas coisas queo confundiam, era um sujeito extremamente debochado, concluíra Tito; e vertiaaquelas palavras de um jeito que realmente pelo que parecia, estavam engasgadashá muito. Tito então era o ‘sóbrio’ que caiu em suas redes; mais que isto, àsprocurou. Achou, então, que devia dizer alguma coisa; talvez dizer que muitasvezes não se sentia como um sóbrio, e quando isso acontecia tinha vontade desumir. Mas ‘sumir para onde?’ Talvez tivesse uma ‘alma’ e não soubesse lidar comela, mais que isto, talvez algumas vezes sentisse o peso da responsabilidade de ater, mas quem sabe era tudo que tinha. Seria ele um ‘sóbrio’? Estava confuso.Teriam as recém chegadas palavras de Epaminondas despertado alguma coisaadormecida na sua curta existência? No torvelinho da situação, preferiu deixar parapensar nestas coisas em outra ocasião. Reparou então que Epaminondas dançava,e naquela dança estranhamente, sua bebedeira parecia haver passado. Dançavacom uma leveza surpreendente para o cara pesado que era, estava de braçosabertos e dava suaves e precisos rodopios no ar, parou então e encarou Tito. – Éaqui que pratico meu misticismo. Sacou, garoto! É aqui que mergulho nos meusmais profundos abismos. É aqui que confraternizo com meus demônios, é aqui quea cachaça que é o meu ser exala seu perfume, um perfume negro e demoníaco,profundamente delicioso e inebriante! Instintos lascivos e embriagados encontramguarida nas mais tesudas companheiras de jornada. Adoro mulata, então trepomuito! Bebo e trepo! E aí? Quem vai dizer o que? Os sóbrios não praticam suas 33
  34. 34. religiões ajoelhados em seus templos? Pois eu pratico meu misticismo fodendo,dançando e bebendo aqui no meu! Ah... As delicias dionisíacas... este hedonismomanso, esta alegria incontida no meu corpo e na minha mente! Sempre mais vinho,garoto! Sempre mais vinho! Quem poderá me atirar uma pedra? Acaso não éenojado que eu volto daquelas cenas de crimes? Crimes de sóbrios! Aqui nãoexiste mentira, não existe cinismo nem a desfaçatez, sou o que sou no meu maispuro ser. Não quero a luz, quero a escuridão. Não quero o ranço da existênciacomprometida com o desempenho, o ranço das coisas ditas e repetidas, depessoas carameladas pelo açúcar da alma. A chatice desse dia a dia na parca luz. Oque poderia dizer a mim, o que não tem voz? O que não tem cor? Só o odor depensamentos coagulados! A roda morta do dia a dia na promessa traiçoeira demais dinheiro! Muito pouco, meu nêgo! Muito pouco pra mim. Quero ascachoeiras que brotam de mim mesmo, cachoeiras de cerveja preta! Delicia!Sóbrios filhos das putas! Deixem-me viver o que é meu, fora daqui! Fora da minhacabeça! Pulgas brancas! Sanguessugas de meus mais violentos instintos! Se ovelho Freud tinha razão, se temos dentro de nós sentimentos aos quais eledenominou Eros, instinto de vida, e Tanatos, instinto de morte; este segundo, eudei para o Estado. Matei muito. E quando matava todos me amavam. Este meuinstinto, então, servia à sociedade! Meu instinto de morte! Sempre o tive muitoforte e eu matava mesmo. Sem perdão, sem compaixão. Matar ou morrer, foda-se!E sabe que mais, neguinho... eu adorava fazer isto: matar! Sempre tive comigo, quesó me realizaria enquanto o homem que sou, se matasse. Sentia um poderindescritível, o poder de sentenciar e executar a sentença. Nunca questionei estesmeus sentimentos, pois sabia serem instintivos e eu não questiono meus instintos,apenas dou a eles a mim mesmo, inteiro, total. Sempre fiz meu trabalho comeficiência; alguém há de duvidar? O que me impressiona é esse seu olharassustado. Assustado com o que? Não é isso que esperam de um bom policial? Deum bom servidor da sociedade? Não espantei, por acaso, os vagabundos dacidade? Não fiz despencar os índices de criminalidade nesta porra de cidadesóbria! Esta cidade sóbria, por isso mesmo hipócrita e cínica, que diz: ‘bandidobom é bandido morto?’ Todos passaram a dormir tranqüilos em suas camasquentes, não sem antes beijarem as testas dos filhos, assegurando-se de que seusanjinhos dormiam seguros. Enquanto isso o negão aqui, com o olhar repleto desangue, no vento frio da madrugada violenta e com o dedo coçando a ponto 45,encarava os lugares mais escabrosos. Lugares, meu querido novato, que fariamvocê tremer, suar pela bunda e pedir pela mamãe. Sou um louco sanguinário? Queseja, mas no mundo sóbrio é uma linha tênue a que separa um louco sanguináriode um herói, não é mesmo? Eu seria um assassino filho da puta, caçado pelosquatro cantos, tendo sob meus ombros o ódio desta sociedade se esta não tirasseproveito de meus instintos mortais. A mesma sociedade que tem exércitos e treina 34
  35. 35. adolescentes para serem assassinos frios em suas guerras podres. Mais uma vez oproveito próprio vem em primeiro lugar. Viu como tudo é relativo meu caroaprendiz de polícia? Há,há,há... se eu levasse chumbo, caísse morto em qualquerbeco escuro, todos continuariam dormindo seus sonos de anjo, afinal, me pagavampara isso, certo? Saí de cena amiúde, ninguém viu meu rosto. Sou um homem dassombras, para que os sóbrios me vissem, eu precisaria sair à parca luz. Talvezentão, esta sociedade que dorme tranqüila, me olhasse nos olhos e horrorizada, meexpulsasse para a sombra, esconjurando seu protetor, dizendo ser lá o meu lugar ede onde nunca deveria ter saído. Não precisariam mais de mim, me chamariam dedemônio. Eu agradeceria comovido, pois meu habitat natural é o escuro e uma veznão precisando mais de meus préstimos, me proporcionariam a alegria de mededicar à lascívia serena de minha proverbial embriaguez. Eu sumi nas sombras e apartir deste dia um batalhão de inseguros insones assumiu os corpos daquelesseguros dorminhocos de outrora. O medo, apanágio do sóbrio, estava de volta.Mas eu sou a morte impiedosa. Sou aquele que as lagrimas e pedidos de piedadenão convencem. A sociedade sóbria sempre precisará de mim! Só tenta seconvencer de que não. Mas de minha parte já chega; sugaram meu Tanatos comoum bebê suga as tetas fartas de uma mãe matrona. Aposentaram-me. E sabe porque? Porque descobriram que meu Eros não interessava; deste meu instinto, ela, asociedade sóbria, não tiraria nenhum proveito! Não é irônico? Sempre a utilidade!O que ou quem, não é função, não interessa. Você só é reconhecido enquantofunção. Mesmo quando eles tenham de fechar os olhos para seu zelador, enquantoele faz o trabalho sujo! De minha parte, dei algo de mim para esses utilitaristas demerda e é o que basta! Agora desabrocho em mim mesmo, na volúpia deliciosadesta embriaguez. Nesta dança alegre do autoconhecimento, neste despencardespreocupado e inebriante dentro de mim mesmo. Longe das pulgas morais,soldadesca espúria, sempre zelosa em sua missão de cravar ‘nãos’ em nosso Sim!Mas comigo não, sou mais eu, sou um embriagado. E não se consegue colarrótulos em um copo transbordante. Saiba garoto! Só se deixa apanhar o que éextático, parado, inerte. Um corpo dançarino estará sempre livre! E longe... bemlonge das redes dos sóbrios. *** 35
  36. 36. Tito conseguira retomar agora amplamente seus sentidos, e mais que isto: jásentia os torpores do champanha com que insistentemente Epaminondascompletava seu copo. Talvez até pelo efeito do álcool, agora se sentia àvontade com seu raptor. Sentia mesmo até um sentimento de cumplicidade.Achava que Epaminondas não estava tão errado naquilo que até entãoexpusera com sua língua arrastada, embora claramente compreensível. Avaliaraque o ex-policial fizera seu trabalho, e bem, ao tempo em que prestou seusinestimáveis serviços à corporação. Também não era falso quando afirmava queseus instintos assassinos foram de grande proveito seu, enquanto a puracatarse de sua agressividade; e, todavia, também proveitoso a todos, porquantodisto a sociedade também usufruiu. A franqueza enigmática de Epaminondaslhe impressionava, não julgava que merecesse tão rapidamente a confiança dealguém, principalmente daquele velho ex-policial. Mas tinha de admitir queestava gostando do crédito que lhe era concedido. Mais que isso, aquilo lheconferia até uma certa importância, julgava ele. E o sentimento de medo agoradava lugar a uma sensação de felicidade. Este é um momento etéreo, devosegura-lo, pensou. E então tomou a iniciativa de erguer a taça paraEpaminondas – Estou feliz de estar aqui, veterano colega! – disse, com umbrilho verdadeiro nos olhos. - Há, há,há... – gargalhou despreocupadamente o negrão -Ora, ora... quemsabe você tenha algumas sombras que precisam ser visitadas! Quem sabe estaminha humilde moradia não seja a porta de entrada para um mundo muitomaior? E que você não pode ver, por estar ainda sóbrio? Você me diz que estáfeliz! Ora, ora... Não seria por causa do champanha? Do incenso? Do fogodançarino das velas? Dos rostos dos faunos risonhos que brotam das paredes?De toda essa infinita escuridão que nos circunda? E deste seu amigo, que dizcoisas embriagadas? - Acho que de tudo isso, estou feliz, realmente feliz! Há,há,há.... - Há,há,há... – Epaminondas riu junto com Tito, tornando mais hilária a cena. Eos dois então desabaram em muitos risos. Um não podia olhar a cara do outrosem dar início a novas gargalhadas. Tito sentiu uma alegria extasiante, pareciaperceber, que um átimo de tempo poderia conter a eternidade. Talvez até, osegredo da existência coubesse num momento fortuito. Estava feliz e nadamais. Nada mais existia em sua volta, somente aquelas presenças fantásticas...seu hilário anfitrião, os demônios risonhos, o fogo inquieto, o deliciosoincenso. Seus sentidos estavam em festa, nunca vivera algo parecido, era asensação da alegria mais pura e mais inebriante. Sem porquês, sem motivosaparentes, sem responsabilidades, sem perguntas e sem respostas, só aquelaalegria etérea, - Acho que engoli o Céu! Há,há,há... – brincou então. 36
  37. 37. - Não é uma deliciosa ironia? – disse Epaminondas – dizer que engoliu o Céu,quando se está nos portais do inferno? Há,há,há... Você me diverte muitoquerido amigo! Curta! Curta este momento intenso! - ato contínuo, bateupalmas, duas vezes, e a porta daquele estranho recinto abriu dando entrada aduas mulheres fantásticas, de formas voluptuosas, que fizeram Tito estremecerde prazer ante aquela visão. Estavam nuas, porém portavam máscarasestranhas, com imensos chifres e intensa cabeleira; eram máscaras de demôniossemelhantes àqueles da parede. Começaram elas então a dançar numacoreografia mansa e estranha; uma terceira pessoa entrou então no local, destavez um corpo masculino, mas com máscara semelhante e tocava flautaenquanto saracoteava numa dança mais frenética. Uma das mulheres sentou nocolo de Epaminondas, que, para surpresa de Tito, havia colocado umaamedrontadora máscara de demônio. Tito reparou também que Epaminondasnão vestia nada por baixo da sua capa negra, estava completamente nu. Amulher começou então a manusear a imensa pica do negrão e este começou asoltar gemidos de incontido prazer. Em seguida, a outra mulher sentou-se nocolo de Tito, que a princípio ficou meio atônito, mas, embriagado com aquelasituação cedeu com alegria àqueles deliciosos apelos eróticos. Caíram no chão.O cheiro daquela pele eriçou seus sentidos, entregando-se ele então a um sexocarnal e despreocupado, de puro tesão incontido, emitindo gemidos prazerososque se confundiam com os da companheira; esta, após arriar calças, montavana posição ‘cavalinho’ no rapaz que se encontrava saborosamente vencido,estirado no grosso tapete. Os gemidos de Epaminondas, abafados pelamáscara, eram cada vez mais lascivos e o sátiro continuava a tocar sua ruidosaflauta; dançava circulando por todo o recinto. Acirrava sua música, conformepressentia o momento do gozo dos participantes da orgia. De repenteEpaminondas levantou-se de chofre e prensou a mulher contra a parede,cavalgando-a por trás, com força e determinação, até atingir um gozoalucinado; gritando, gemendo e bufando como um potro. Tito tesionou-se maisainda com aquela cena e no embalo, acabou-se numa alucinação deliciosa,intoxicado pelo incenso e por aquela dança ardente das velas; o sátiro pulavaem volta com sua flauta em êxtase! – Que tesudo esse rapaz! – brincouEpaminondas, trazendo à Terra um saciado Tito. Este reparou que o negrãoestava de pé ao seu lado, já sem a máscara, acompanhando o gran finale doato. O manto negro do anfitrião estava entreaberto, dando vista a Tito doimenso membro pendurado e em proximidade temerosa. Tito então removeucarinhosamente a moça, e procurou distancia segura. Epaminondas,percebendo a preocupação do rapaz caiu em sonora gargalhada. - Há,há,há... Meu assustado amiguinho! Mesmo que eu quisesse, não teriafôlego para tanto! Portanto, que minhas amigas desfrutem de seus dotes físicos 37
  38. 38. e vice-versa, fique tranqüilo. Porra! Dou-lhe minhas boas vindas e você aindatem medo de mim, caralho! Que convidado difícil de agradar esse! – disse,enquanto com um sinal, mandou que os demais se retirassem. - Não, não... fique tranqüilo. – disse Tito ofegante - Apenas, tudo isto é muitopra mim! Não estava preparado para estas emoções. É natural que fique umpouco assustado, só isso. Estou extasiado, realmente extasiado, só posso lheagradecer por esta noite louca. - Isso não é nada meu filho! – disse Epaminondas sentando-se em suapoltrona, visivelmente cansado – vamos beber... é sua vez, sirva-nos de maischampanha! O véio aqui está mortinho.Tito serviu duas taças e entregou uma ao ex-policial, este então ergueu umalibação. - A Dionísio! Deus embriagado! A Sileno, sátiro safado! Às ariscas ninfas, comseus aromas de mato e rio! Duendes e Egipãs! À flauta de Pã! Flauta daembriaguez, da desmesura, dos sentidos em êxtase... deus ao qual as fronteirassóbrias que delimitam os seres seriam motivo de risos. Ah... que trepadagostosa! Celebremos, meu amigo, celebremos! – Tito ergueu a taça aEpaminondas em retribuição. Estava sereno e feliz, o efeito da embriaguez já sefazia sentir. Sentou-se então no velho sofá, e observou seu extasiadointerlocutor sem o sinistro capuz, com o rosto à mostra com seus olhos de sapoe a capa aberta sentado em seu ‘trono’. Ostentava várias correntes no pescoçoque serviam de amparo a mandalas estranhas e em quase todos os dedos dasmãos havia anéis das mais variadas formas e tamanhos. Estava com as pernasdespudoradamente abertas, quase que em exibicionismo desleixado e ofereciauma visão desconfortável a Tito; o imenso pênis jazia desabusado tendo comoarrimo um gordo saco, imenso e negro. O rapaz evitou então, esbarrar os olhosnaquela região. Epaminondas, indiferente às comezinhas preocupações domoço, prosseguia: - Ah... como eu gosto destas incursões orgásticas! É a famosablitz do prazer! Gostou? Criei este negócio para meu mais etéreo gozo. Derepente, estamos no caminho desse ditirambo frenético de sexo e alegria. Essesdeliciosos súcubos nos acham, nos usam, e partem com seu sátiro saltitante;voyeur lascivo na excitação de sua flauta! Aí, celebro sua aparição bebendochampanha e vinho. Posso querer mais que isto? Que tipo de papel eu teria derepresentar, que personagem teria a força de me remover do meu mundo? Asobriedade de qual função utilitarista teria o condão de me remover dasombra? Diga-me, fazer o quê, sob a incidência da parca luz? Ou talvez, seusapelos de consumo exerceriam sobre mim alguma influência? Há,há,há... essa éboa! Por que eu abriria mão do meu paganismo; meu, só meu? Este deliciosomisticismo saído das minhas impressões digitais, para cair no canto das sereiascorporativas? Tão zelosas com os hábitos de seus clientes. Sabe garoto... hoje 38
  39. 39. olho espantado para do que são capazes estes ‘deuses corporativos’.Encaixotar as mentes com seus rótulos, seus comportamentos. Fabricandogente em série. Até quando vendem ‘rebeldia’, deixam claro que estãofabricando um ‘rebelde’. Você é ‘rebelde’ desde que consuma seus produtos...há,há,há... me divirto muito! Ah... vocês sóbrios... há muito achei uma funçãopara vocês, a função de me divertirem com seus comportamentoscomprometidos, assépticos, consoantes. Vendem também ‘liberdade’,há,há,há... me perdoe, mas não consigo parar de rir; ‘liberdade’ há,há,há... –Epaminondas riu muito e então enxugou com as costas da mão as lágrimasprovocadas pelo riso – Ah, que deliciosa bebedeira! Não repare menino, é quegosto de caçoar dos sóbrios. O que me restaria em relação a eles? Leva-los asério? Impossível. Acho até que eles hoje têm vergonha de seus dentes caninos.Talvez estes lhes lembrem o animal desfalecido que são obrigados a carregar;até acredito, ao contrário de Aristóteles, que esta é a única essência do serhumano. E o que dizer de seus entretenimentos patéticos? E suas mídias? E opânico das grandes corporações de que em suas iniciativas persuasivas possavazar inadvertidamente um átomo de inteligência? E que dizer da Arte? Quefinalmente agora se encontra quase que totalmente sob o domínio dos sóbrios?A Arte agora é sóbria, pobre, comprometida. Os sóbrios finalmente abriramtotalmente mão da Arte, acho que este era um velho sonho. Ela não precisamais expressar, não precisa mais exprimir beleza, não precisa mais ser a flornascida da criação. A que sobrou só precisa vender, nada mais. Que fim levou acapacidade do homem de admirar-se perante as coisas, perante o própriohomem? Foi relegada aos becos escuros da existência, onde o artista cria apartir do próprio sangue, quem ousará molhar os dedos nesse sangue? Agoratudo o que viceja sob a parca luz é o que se pode comercializar. Os sóbriossempre ‘toleraram’ a Arte. Detestam qualquer coisa que não possam reduzir aotamanho da palma de suas mãos; haja vista de como sempre interpretaramseus textos religiosos. A metáfora, ou seja, a pérola contida na ostra, amensagem viva, é desprezada; porém, a forma como ela é dita, através das maisvariadas metonímias e polissemias, são consumidas ao pé da letra! Os sóbriossó consomem a forma, posto, que são só forma. São incapazes de perceber quea forma é a encarnação de uma mensagem mais profunda. As formas sãofantoches que ganham vida e movimento pela mão da Arte. Só que essa mão éinvisível ao sóbrio, portanto, este ficará somente com as formas e asinterpretará colando seus rótulos, principalmente os seus preferidos: os do‘Bem’ e do ‘Mal’. Sendo assim, criam seu próprio Céu e Inferno, creio quejamais poderiam viver sem estas instituições; precisam submeter-se a elas, ossóbrios são altamente ‘morais’. Acho até que é só para isso que existem. Talvezagora nesta porra de pós-modernidade, em que a economia de mercado feriu 39
  40. 40. de morte o velho deus moral deles, comecem a bater cabeças gerando feridasnovas. Não imaginam, nem por sonho, que mundos possam existir fora de suasredomas em forma de ‘Céu’. Ahhhh! como vivo bem fora do Céu! No orgasmoconstante da minha singularidade, um ébrio de mim, um homem das sombras!Bem, assim penso eu. Ninguém é obrigado a concordar comigo, aliás, sempredesconfio quando assentem muito rápido com minhas idéias. Esta é minhaleitura de mundo. Isto é tudo. Adoro opinar; mais que isto, preciso!principalmente quando encontro um amigo tão atento. Tenho opinião,portanto a exponho; claro, à medida que o silêncio de meu interlocutor permita.Posto isto, eu pergunto: quem poderá me atirar uma pedra? Os ‘livres’?há,há,há... portanto, querido amigo, que marche o exército de autômatossóbrios, que o façam com seus olhares mortos sob essa parca luz! Porque daminha parte, prefiro observar tudo daqui da minha sombra, que é o meu lugar.É na sombra que constatamos até onde nosso olhar alcança, porque somosobrigados a enxergar emitindo nossa própria luz, a luz de nosso fogo, a luzmais intensa do mundo, porque é nossa! Este é o lugar mais negro e mais beloda face da Terra! Porque é meu! Meu paraíso, minha delícia! Bebamos, há muitoque celebrar! Celebremos! Celebremos a alegria de existir, de existir no únicolugar onde podemos realmente ser felizes... em nós mesmos! Não queroseguidores, não quero ser exemplo de nada, não nasci para ser função de porranenhuma! Nasci para a embriaguez, a embriaguez de desabrochar em mimmesmo! Celebremos! - Tito ergueu sua taça com incontida alegria, mas sentia opeso da bebida sorvida em excesso, longe de tentar acompanhar o ritmo doraptor-anfitrião Epaminondas. Sabia que não teria a menor chance depermanecer consciente. Observou Epaminondas levantar-se, colocar novamentesua máscara de demônio e iniciar uma dança em volta da pira cantando coisasdesencontradas, talvez num dialeto desconhecido. Os gestos e as palavras donegrão foram confundindo-se suavemente em sua cabeça, as luzes vivas doscírios concediam um pano de fundo que dançava amarelado, pontilhado porinfinitas escuridões; e foi numa destas que Tito mergulhou sua mente cansada,para em seguida, carrega-la consigo e dissolver-se no nada. 40

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