Totalitarismo e sociedade de massas o espaço público em risco

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Totalitarismo e sociedade de massas o espaço público em risco

  1. 1. TOTALITARISMO E SOCIEDADE DE MASSAS: O ESPAÇO PÚBLICO EM RISCO.1 Prof. Ms. Ricardo George2ResumoO presente texto tem por objetivo trazer à baila o debate em torno do Totalitarismo e sua relação com asociedade de massas. Busca-se aqui esclarecer os efeitos de uma sociedade despolitizada, marcada porhomens e mulheres atomizados e politicamente desengajados do espaço público. Pretendemos, pois, semquerer esgotar o debate, pontuar os malefícios do totalitarismo, enquanto pretenso regime político que,fazendo uso da violência e do terror, encontrou respaldo legal e apoio nas massas que por estaremdespossuídas de um significado político, passam a se “encantar” com as estratégias de um movimento quevisa apenas o domínio total, sem considerar os meios para alcançar seu objetivo.Palavras chaves: Totalitarismo, Massas, Violência.abstractThe present text aims to bring up the debate around the Totalitarianism and its relationship with thesociety of masses. Its objective here is to explain the effects of a not political society, marked by men andwomen atomized and politically not envolved in the public space. We do not intend, therefore, to end thedebate, but to point out the harms of the totalitarianism, that as an assumed political regime, making useof violence and terror, found legal support in the masses that are not filled with a political meaning, theywere deceived by the strategies of a movement that just seeks the total domain, without considering themeans to reach its objective.Key-Words: Totalitarianism, Masses, Violence.1 Este artigo é parte integrante da nossa Dissertação de Mestrado intitulada: Política e Liberdade emHannah Arendt, defendida em janeiro de 2006, no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federaldo Ceará - UFC. Este trabalho foi realizado sob a orientação do Prof. Dr. Odílio Alves Aguiar, da UFC econtou com uma bolsa de incentivo à pesquisa da Funcap.2 Prof. Assistente I da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). 1
  2. 2. O TOTALITARISMO COMO PRETENSO REGIME POLÍTICO ESUA RELAÇÃO COM AS MASSAS Origens do totalitarismo entra no cenário editorial como um dos textos maismarcantes do pensamento político contemporâneo. Ao tratar do tema ‘totalitarismo’,Hannah Arendt se propõe esclarecer algo que para ela é novo, ou seja, algo que não temprecedentes na história (ARENDT, p. 343). Essa novidade política traz no seu bojo apretensão de domínio total, o uso da violência e a negação da liberdade. O totalitarismosurge, assim, como sistema negador da política. Apoiado nas massas, nelas encontraterreno fértil para cultivar sua ideologia. No processo de “atomização da sociedade”,fruto da falta de interesse comum das massas e desenraizamento político, o sistematotalitário estrutura seu edifício de terror e domínio total. Nessa perspectiva,encontramos as massas como constituindo a estrutura básica do totalitarismo3, isto é, osgovernos totalitários edificam-se sobre bases que são as massas que eles organizarampoliticamente. Podemos perceber, então, que as massas ocupam lugar central nocontexto do totalitarismo e servem a esse regime em várias frentes, pois lhes sãosolícitas quanto à implantação de uma ideologia, já carecem de enraizamento eidentidade política. Elas lhes são solícitas quanto ao contingente numérico quefortalecem os partidos totalitários e os também os favorecem com a condução ao poderpelas vias democráticas, como ocorreu com Hitler e o Nazismo na Alemanha do períodoentre guerras, o que nos conduz à reflexão de que os movimentos totalitários colocaram,à vista de todos, duas fragilidades dos regimes democráticos parlamentares (ARENDT,p. 362), a saber: a) a crença de que povo, em sua maioria, participa ativamente do governo e, b) de que as massas neutras e desarticuladas constituem apenas o “pano defundo silencioso” da vida política da nação. Nesse contexto de relações frágeis ou até inexistentes entre os homens é queencontramos elementos para afirmar que as massas fornecem material para a construção3 Duarte (2000, p. 48) esclarece o quanto as massas são importantes na estrutura básica do sistematotalitário. Assim diz ele: “As massas constituem o ingrediente ou a matéria básica da configuração dosgovernos totalitários, pois eles se alimentam justamente da possibilidade da sua organização edestruição.” 2
  3. 3. do que Arendt chamou de movimento totalitário.4 Cabe aqui a distinção entremovimento e regime totalitários na medida em que Hannah Arendt põe abaixo amáxima segundo a qual uma sociedade democrática não pode conviver com ummovimento totalitário. Segundo Newton Bignotto, o que se observou na Alemanha e oque vemos nas sociedades atuais é que as democracias são passíveis de ser usadas pelosmovimentos extremistas exatamente porque não podem impedir a manifestação dedivergências. Nunca é demais lembrar que Hitler chegou ao poder por meios legais. Noentanto, as massas, dadas suas características, só se tornam ativas quando conduzidaspor um líder, que lhes empresta um rosto e confere sentido a suas ações.5 O papel do líder para as massas funciona como o do pastor de ovelhas parao rebanho de modo que, sem pastor, o rebanho fica sem rumo, e lhe falta à identidade. Opastor é aquele que direciona e que fornece segurança a respeito do futuro: “Ele conheceo caminho”. Essa metáfora nos ajuda a entender a importância do líder, daquele quedireciona e conhece o caminho. As massas, então, devotam a esse líder a esperança eaquilo que lhes falta. Agora, fincam raízes sobre a ideologia que esse líder-pastor lhesoferecer, sendo as palavras deste a verdade, e suas bandeiras, a glória. As massasencontram identidade ainda que sob a forma de manobra. É a manobra a grande formade dominação e controle utilizada pelo movimento totalitário junto às massas, já que oisolamento social é uma de suas grandes características, o que favoreceu a ação domovimento totalitário. A respeito disso nos diz Arendt: A verdade é que as massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma classe. A principal característica do homem de massa não é a brutalidade nem rudeza, mas o isolamento e a sua falta de relação. (ARENDT, p. 366-367). As massas, nesse contexto, apresentam-se como os habitantes de uma partedestruída do espaço político, isto é, são aqueles para quem o espaço da ação e dodiscurso não tem sentido, porque já não há nessas pessoas vínculo social ou motivaçãopolítica, sendo sua grande marca a apoliticidade. Assim, indicam, por sua presença, umespaço público negado, onde ela mesma pode ser eliminada, justamente por não ocupar4 Cf. ARENDT, p. 373: “Movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados eisolados, distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita eincondicional e inalterável de cada membro individual.”5 Cf. BIGNOTTO, Newton. O totalitarismo hoje. In: AGUIAR et al., 2001, p. 39. 3
  4. 4. o espaço público, sendo esse vácuo de ação solo fértil para o controle das massas. É,portanto, sua inércia diante da cena pública que a conduz a manipulações de toda sorte.6 Hannah Arendt, em nota de rodapé da terceira parte de Origens doTotalitarismo (p. 366-367), destaca quanto um líder pode fascinar. É evidente que essefascínio ocorre a partir de circunstâncias específicas e favoráveis. Ora, se levarmos emconta esse “terreno desertificado” em que vivem as massas, que representa toda suaindiferença com o que é da ordem do comum, temos aí as condições favoráveis para olíder aparecer como esclarece Hannah Arendt: O fascínio é um fenômeno social, e o fascínio que Hitler exercia sobre o seu ambiente deve ser definido em termos daqueles que o rodeavam. A sociedade tende a aceitar uma pessoa pelo que ela pretende ser, de sorte que um louco que finja ser gênio sempre tem certa possibilidade de merecer crédito. (ARENDT, p. 355). Esse crédito dado a qualquer desvairado só pode dar frutos onde ainda não háfrutos para colher, ou seja, só encontra onde fincar raízes onde o terreno fordesertificado, a partir do que constatamos serem as massas um grupo extremamentepropenso ao nascimento do movimento totalitário. As massas fascinadas dão todo suporte necessário para o totalitarismoestabelecer sua ideologia, e os recursos utilizados para isso são a propaganda e aviolência, que se apresentam como as grandes estratégias de consolidação e manutençãodo movimento totalitário. Como público-alvo, ele tem as massas. A propaganda promovida aparece como o momento antecedente da instauração dos regimes totalitários, contudo vai adiante e o acompanha em todo seu curso de abuso de poder, oferecendo-lhe uma imagem que possa ser cultuada, ainda que à custa da mentira. (ARENDT, p. 357). A violência, por sua vez, apresenta-se como o marco definidor daquilo quevai ser o regime totalitário, pois sua ação garante aos regimes totalitários o medo e o“encanto” necessários para dar continuidade ao seu propósito de domínio total a partirda descartabilidade de pessoas. O medo aparece para aqueles que, de uma forma ou deoutra, se mostram contrários aos métodos do totalitarismo enquanto, para a ralé, o“encanto” representa um sinal de esperteza, apesar da violência dos crimes. Tal é o nívelde entrega das massas a essa proposta, que, mesmo quando o totalitarismo destrói os6 A reflexão dessa constatação de inércia política é fundamentada por Newton Bignotto como um “terrenodesertificado”, para ressaltar o desenraizamento político das massas e a influência que um líder pode tersobre a mesma (Cf. AGUIAR et al. 2001, p. 39). 4
  5. 5. seus, isso não os afeta, como se aniquilar os próprios companheiros fosse um “malnecessário.” Consoante Hannah Arendt: O que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo de seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazista ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o fato espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. (ARENDT, p. 357).Massas e Classes: uma diferença importante no contexto doTotalitarismo Todo sustentáculo “político” do regime totalitário se deu sob apoio dasmassas, levando em conta que por um motivo ou por outro, desenvolveram o gosto pelaorganização política (ARENDT, p. 361) ainda que, como ressalta Arendt, desprovida detoda e qualquer consciência de interesse comum, sendo as mesmas carentes de umaarticulação de classes.7 As massas são diretamente antagônicas às classes, justamentepor não apresentarem um ideal comum, um anseio comum que expresse objetivosdeterminados. A pergunta que surge é sobre como poderíamos definir as massas, vistoentendermos que elas não se enquadram no conceito de classes tendo em vista que estaadmite, em sua definição, a caracterização de grupo que luta por interesse comumpoliticamente articulado. Hannah Arendt define massas como: “Os grupos que,potencialmente, existem em qualquer país e constituem a maioria de pessoas neutraspoliticamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem opoder de voto.” (ARENDT, p.361). As massas são, portanto, o denso grupo de indivíduos que não conseguemarticular-se, sendo o individualismo e o isolamento suas grandes marcas. Em outraspalavras, as massas são um agregado numeroso de indivíduos atomizados, em função da7 As massas são diretamente antagônicas às classes, justamente por não oferecerem, em suacaracterização, um ideal comum, um anseio coletivo. Ao contrário, seus ideais apresentam-se isoladosformando apenas aglomerados, o que indica estarem as massas potencialmente sujeitas a aceitar qualquerinteresse e qualquer ideologia, bastando que se usem meios capazes de aglutiná-los. O totalitarismoaplicou esses meios (propaganda e violência) e instaurou uma ideologia onde nada havia no seio dasmassas. 5
  6. 6. dissolução das relações sociais costumeiras. Estes indivíduos são tambémdesenraizados, ou seja, destituídos de referências comuns, permanecendo alheios aqualquer interesse, seja ele comum ou próprio. A perda radical do interesse do indivíduoem si mesmo, isto é, o sentimento de ser dispensável (Cf. DUARTE, 2000) é umfenômeno sem precedentes históricos que se tornou generalizado após a primeira guerra,inclusive com assassinatos em grande escala. Para Hannah Arendt, os massacres humanos cometidos como umaverdadeira “fabrica de cadáveres” pelos regimes totalitários de direita e de esquerda nãotiveram nenhuma “raison d’état no antigo sentido do termo”. Esse dado nos permitecompreender uma característica fundamental para a definição do caráter inédito dototalitarismo como forma de dominação. O totalitarismo se diferencia de todas asformas precedentes de ditaduras tirânicas pelo fato de não se contentar com aeliminação de toda oposição interna possível, mas atinge o seu verdadeiro propósitoapenas quando toda resistência já foi aniquilada. Não basta para o terror totalitárioesvaziar a esfera política que lhe faça oposição, pois o mesmo visa o domínio sobre atotalidade do tecido social, penetrando e destruindo aquilo que é da ordem das relaçõesprivadas, do âmbito do íntimo negando o caráter autônomo de quaisquer atividades quese dêem aí. A respeito dessa novidade que marca o totalitarismo, diz-nos HannahArendt: “O que é importante em nosso contexto é que o governo totalitário é diferentedas tiranias e das ditaduras.” (ARENDT, p. 343). É preciso, portanto, esquivar-se decomparações com formas políticas do passado na tentativa de fornecer ao totalitarismoum “fundo histórico” do ponto de vista da origem, pois, para Hannah Arendt, ele seapresenta como novo modelo de domínio, que lança seus tentáculos aos pontos maisarticulados do tecido social com a finalidade de anular toda e qualquer ação dosindivíduos. É um fenômeno negador do espaço público e da ação. O espaço públiconegado pelo regime totalitário tem suas bases fragilizadas desde o período em que aburguesia assumiu o cenário público. A postura burguesa, individualista, e seus valorespautados no lucro conduziram os indivíduos a uma indiferença com a coisa pública,“cada um faça o seu” tornou-se o grande lema da burguesia. A burguesia como classemantinha interesses comuns, mas eram interesses que não se filiavam às ordens dopúblico, mas à ordem do privado, de tal modo que o modus vivendi da burguesiapossibilitou o desgaste da consciência política que privilegiava o comum em detrimentodo privado. A sociedade competitiva de consumo criada pela burguesia gerou apatia eaté mesmo hostilidade em relação à vida pública, não apenas entre as camadas sociais 6
  7. 7. exploradas e excluídas da participação ativa no governo do país, mas, acima de tudo, nointerior de sua própria classe (ARENDT, p. 363). É evidente que o modelo burguês seresguardou dos fundamentos do totalitarismo à medida que manteve em seu bojo acaracterística do individualismo, postura essa que apesar da apatia pela coisa pública,manteve firme a luta competitiva pela vida. Contudo, acabou minando o espaço público,pois descaracterizou o individuo como ser de relações. Isso destruiu o tecido social edeixou aparecer um grupo de pessoas adormecidas e sem representação para as quais acoisa púbica, cada vez mais, deixava de ter sentido. Contudo, esse grupo, ao encontrarquem lhes conferisse identidade, estaria disposto a uma violenta oposição, como nos dizHannah Arendt: O colapso do sistema de classes significou automaticamente o colapso do sistema partidário, porque os partidos, cuja função era representar interesses, não mais podiam representá-los, uma vez que a sua fonte e origem eram as classes. [...] Assim, o primeiro sintoma do colapso do sistema partidário continental não foi a deserção dos antigos membros do partido, mas o insucesso em recrutar membros dentre as gerações jovens e a perda do consentimento e apoio silencioso das massas desorganizadas, que subitamente deixaram de lado a apatia e marchavam para onde vissem oportunidade de expressar a sua violenta oposição. (ARENDT, p. 365-366). É nesse contexto de colapso que emerge um novo tipo social: o homem-de-massa. O homem-de-massa é um tipo desenraizado, mas, sobretudo, sem sentido.Quando falamos “sem sentido”, referimo-nos aos diversos campos da vida social, poisesse homem-de-massa carece de significado político, cultural, institucional e atépessoal. A atmosfera de colapso social que atingiu as classes lançou esse tipo deindivíduo em uma certeza acerca de si próprio, a de que tinha alcançado o fracasso, eum fracasso individual, a ponto de nada mais fazer sentido. O isolamento era tamanhoque até o fracasso lhe pareceu solitário o que, para Hannah Arendt, representou umclaro enfraquecimento do instinto de autoconservação. Essa situação levou a umaconsciência mais comum na medida em que a desimportância e a dispensabilidadedeixavam de (ARENDT, p. 365-366) ser a expressão da frustração individual e setornavam fenômeno de massa. O isolamento e o descontentamento desse homem-de-massa, como indivíduo sem raiz e sem vínculo social que o permitissem existir em umgrupo foram tamanhos que ele se desesperançou de si mesmo (ARENDT, p. 366),apresentando uma perda radical do interesse por sua própria pessoa, o que conduziu aoengrossamento do grupo dos chamados “não-alinhados”, isto é, dos indivíduos isoladossem relações sociais normais, enfim, de indivíduos sem o menor interesse comum, 7
  8. 8. totalmente sem noção do valor da coisa pública. O homem -de- massa, enquantoindivíduo sem vínculo é potencialmente, para o movimento totalitário, o tipo ideal namedida em que oferece todas as condições para consolidar compromissos com essaideologia e a ela prestar fidelidade total. Justamente por não haver lealdade a nenhumacausa ou grupo, tal esvaziamento possibilita uma lealdade total (ARENDT, p. 373).Assim nos fala Hannah Arendt: Não se pode esperar lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais de família, amizade, camaradagem só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento, pertencem ao partido. (ARENDT, p. 375). Observado isso, conclui-se que qualquer corpo de regras pode levar esseindivíduo, mais cedo ou mais tarde, a voltar-se contra o movimento. Portanto, sualealdade, para ser total basta estar fundada no vínculo ao grupo, e isto, para o homem-de-massa, que vivia isolado, já significa muito. Os líderes do movimento totalitárioentenderam bem essa questão. Não é à toa que Hitler, em seus discursos, declarava:“Quando tomarmos o governo, o programa virá por si mesmo.” (ARENDT, p. 374).Esse dado é confirmado na frase de Himmler para os homens da SS: “Minha honra é aminha lealdade.” (ARENDT, p. 374), e isso sugere que a lealdade vivida nos regimestotalitários é fruto de um sentido encontrado por indivíduos até então sem sentido, o quedispensa programas e regras. Esse sentido encontrado é manifesto e corporificado emum líder, como anteriormente falamos, ele confere identidade e rosto às massas.Contudo, é preciso que se esclareça que tanto o líder confere sentido às massas, quantotem seu sentido a partir delas. Aí se desenvolve, portanto, uma relação deinterdependência em que um e outro se encontram para significar seus objetivos: o dolíder é instaurar o domínio total via terror, violência e assim por diante, e o das massas édar sentido a seu existir, rompendo com o isolamento, fazendo brotar um sentimento depertença a uma causa, a um grupo, ainda que isso signifique a negação de outros. Olíder totalitário funciona como um “funcionário” das massas que dirige, mas quedepende delas tanto quanto elas dele. A esse respeito escreve Hannah Arendt: Essencialmente, o líder totalitário é nada mais e nada menos que o funcionário da massa que dirige; não é um individuo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária. Como simples funcionário, pode ser substituído a qualquer momento e depende tanto do “desejo” das massas que ele incorpora, como as massas dependem dele. Sem ele, elas não teriam representação externa e não passariam de um bando amorfo; sem as massas, o líder seria uma nulidade. Hitler, que conhecia muito bem essa interdependência, exprimiu-a certa vez num 8
  9. 9. discurso perante a SS: “tudo o que vocês são, o são através de mim; tudo o que eu sou, sou somente através de vocês.” (ARENDT, p. 375). A partir desse contexto, Hannah Arendt lembra que, não havendo umafinalidade política nos movimentos totalitários, a chegada ao poder em um Estadoespecifico representa apenas uma etapa transitória, um momento-chave, mas nãoestanque daquilo que é o movimento maior, ou seja, a articulação de pessoas, tendocomo fim prático moldar, à sua estrutura, o maior número possível de pessoas(ARENDT, p. 376). Dessa maneira, tal relação de interdependência entre líder e massa éque garante o sucesso do movimento totalitário. Portanto, enquanto existirem indivíduosisolados que possam ser “encantados” pela ideologia do terror e do domínio total e essespuderem oferecer lealdade como sustentáculo ao movimento totalitário, o movimentoavançará na sua pretensão de domínio precisamente naquilo que consiste: promover adescartabilidade de pessoas pelo uso do terror e da violência.Conclusão Sendo assim, Concluímos que o movimento totalitário não tem origem históricano passado de tiranias. Contudo, não nasceu do nada, mas, ao contrário, encontrou basespara se fundamentar e, por mais discutível que possa ser essa questão, não podemosperder de vista a relação entre as massas, enquanto grupo amorfo, atomizado edespolitizado e a instauração do movimento totalitário. Considerando os eventos do período entre guerras tais como; invasões deterritórios; violação de direitos humanos; uso de violência; destruição em grande escalade pessoas; campos de concentração; entre tantas outras arbitrariedades aliados aosilêncio e a conivência de muitos, é que nos instiga a investigar e procurar entendercomo uma população pôde conviver e, em muitos casos, aprovar tais situações. Éevidente que não é de nosso interesse esgotar o debate em torno de tal questão nempretendemos isso, queremos ser nesse contexto mais uma provocação no sentido derefletir a ação humana enquanto ação constituidora da política e do espaço público, porentendermos ser vital a preocupação com o comum, que garante os espaços deconvivência e protege a sociedade de oportunistas em busca do poder, pautado nacontrasenso da violência. 9
  10. 10. Referências BibliográficasADEODATO, João M. L. O Problema da legitimidade: no rastro do pensamento deHannah Arendt. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.AGUIAR, Odílio Alves. Filosofia e política no pensamento de Hannah Arendt.Fortaleza: Edições UFC, 2001._____ et al. Origens do totalitarismo: 50 anos depois. Rio de Janeiro: RelumeDumará,2001.ARENDT, Hannah. A Condição humana. 10. ed. Tradução Roberto Raposo. Rio deJaneiro: Forense Universitária, 2001._____. Lições sobre a filosofia política de Kant. Tradução André Duarte. Rio deJaneiro: Relume-Dumará, 1993b._____. O que é política.Tradução de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,2002._____. Origens do totalitarismo. 8. ed. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro:Companhia das Letras, 1998._____. Homens em tempos sombrios. Tradução de Denise Bottman. São Paulo:Companhia das Letras, 1987._____. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de JoséRubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2000._____. A dignidade da política: ensaios e conferências. 2. ed. Tradução de HelenaMartins et al. Rio de Janeiro: Relume- Dumará, 1993a.BIGNOTTO, Newton; JARDIM, Eduardo (Org.). Diálogos, reflexões e memórias. BeloHorizonte: Editora UFMG, 2003. 10

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