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Honra versus Paixão o adultério na visão de Eça de Queiros

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Transcript

  • 1. 81IntroduçãoQue desgraça ser mulher! Entretanto, apior desgraça quando se é mulher é, nofundo, não compreender que sê-lo é umadesgraça.1Não é fácil entender por que nos aproximamos de certos temas e livros. Ohistoriador Evaldo Cabral de Mello afirma que as escolhas são, muitas vezes, obrado acaso e, portanto, dificilmente encontramos justificativas racionais e plausíveispara elas. O que, segundo o historiador, pode “explicar” a nossa formaçãoacadêmico-ideológica é que há “um anjo da guarda da leitura”2que faz com queas obras, os livros e os discursos de que gostamos nos encontrem, contribuindoquase magicamente para ampliar o nosso campo do saber. Assim, posso afirmarque o encontro observado nessa dissertação se deu pela mistura do acaso com odesejo.Para esse encontro contribuíram diferentes leituras, mas especialmente aleitura efetuada por minha mestra e orientadora Izabel Margato, não apenasdurante uma disciplina que ministrou durante o curso mestrado, em 2007, sobreEça de Queirós e o Realismo Português, como, também, a de seu artigo, OIntelectual e o Poder, apresentado durante o XV Seminário Internacional daCátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses, O Intelectual e o EspaçoPúblico. Neste texto, a professora aborda a importância das idéias defendidas pelointelectual através de suas diferentes tribunas, mas em especial através dosromances que nos legou.Desse modo, em uma perspectiva anticartesiana, aberta e inconclusa,pretendemos analisar o romance O primo Basílio, procurando resgatá-lo de uma1Søren Aabye Kierkegaard In: Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Rio de Janeiro: Ed. NovaFronteira. 1980. P. 76.2MORAES, J.G.V. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002. P.148.
  • 2. 9possível desvalorização por parte da crítica canônica, que tenta diminuir o valorda obra, por acreditar que ela seja uma espécie de cópia temática e de enredo deMadame Bovary.O plágio, a acusação de plágio ronda o final do século XIX e especialmente onosso romancista, que desde O Crime do Padre Amaro se viu condenado noBrasil e em Portugal por plagiar Zola e La Faute de lAbbé Mouret 3.Na análise que propomos para o romance, traremos à discussão questõescomo: a tese do adultério, a deficiência na educação das jovens da baixa burguesialisboeta, a mulher como cidadã, Portugal no cenário europeu do século XIX e acontribuição de Eça, como intelectual, influenciando a opinião pública da épocaatravés de sua maior arma - a escrita.Neste início de século, muitas questões de ordem política, econômica,social e moral se colocam à humanidade com uma velocidade crescente.Acabamos inevitavelmente por nos interrogarmos acerca da evolução dassociedades humanas, sobre a nossa própria contribuição para o desenvolvimentodessas sociedades nas quais nos inserimos, agindo, sob tal perspectiva, comosujeitos ativos desencadeadores de muitas possibilidades de mudanças.Num desses momentos, questionamo-nos sobre qual seria o papelreservado à mulher e ao intelectual neste novo século. Se por um lado noscongratulamos por viver em uma época em que as suas capacidades começamfinalmente a ser reconhecidas e apreciadas, depressa compreendemos também queum longo caminho resta ainda percorrer para que se atinja uma verdadeiraigualdade entre homens e mulheres, apesar dos esforços aplicados a essa questão.Buscaremos focalizar os questionamentos acerca da contribuição dos intelectuaisna implementação de mudanças, e, em especial, o intelectual das Letras, comoatuante formador de opinião, onde, a despeito de opiniões contrárias, se efetiva asua participação nesse processo.Em relação à figura feminina, poderemos podemos chamar a atenção parao fato de que, embora hoje em dia ela desempenhe funções e ocupe cargos para osquais se encontra altamente qualificada, é inegável que o esforço que tem dedespedir para conquistá-los é bastante superior ao de um homem em idênticas3SANTAGO, Silviano. Eça o verdadeiro autor de Madame Bauvarie. In: Uma literatura nostrópicos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. Pp. 49-45.
  • 3. 10condições, continuando a existir, apesar de nos encontrarmos já no século XXI,uma acentuada distinção entre papéis tradicionalmente considerados femininos,como zelar pelo bem estar do marido, cuidar do lar e da educação dos filhos, e osmasculinos, como mantenedor da estrutura familiar.Contudo, graças à sua forte tenacidade, a mulher, hoje, mais do que esposae mãe, ou de uma peça decorativa do mobiliário, tem demonstrado suas reaiscapacidades intelectuais e físicas nas mais diversas áreas, contribuindoigualitariamente para os mais diversos avanços sociais e tecnológicos. Este fatosintomático da profunda revolução operada nas mentalidades não nos impede,todavia, de verificar que a mulher continua a ser vista por muitos homens comoum ser inferior, a quem não se confere o direito de lutar por uma carreira, deforma a dignificar a sua imagem pessoal e socialmente. Parece-nos, portanto, queo nascimento de um novo milênio seria o momento ideal para colocar à parte estetipo de preconceito e aceitar naturalmente as semelhanças e as diferençasinerentes a cada sexo, criando uma sociedade fundamentada num clima de partilhae conjunção de interesses.Desse modo, não podemos deixar de felicitar a mulher do século XIX, porter sido ela a primeira a iniciar a dura caminhada que, provocando importantesmudanças estruturais na sociedade da época, conduziria à conquista da suaautonomia como indivíduo. No entanto, apesar de considerarmos o século XIXcomo um ponto de virada para as perspectivas femininas, as amarras que, duranteséculos, as mantiveram sob o poder masculino, não se quebraram de súbito.Assistimos, no final do século XIX, a uma prática feminina de submissão a regrassociais muito codificadas, que obrigam a mulher a viver à sombra do homem,dependente e subjugada ou, por outro lado, a buscar a conquista dos seus direitos,perseguindo os seus sonhos e paixões pela questão vital de manter viva a chamade sua honra. A França aparece neste cenário oitocentista como um terreno fértil àemergência do socialismo e das idéias igualitárias, como também ao surgimentode pensamentos e práticas libertárias, dando ao mundo expoentes como FloraTristan (1803-1844), que lutaram pelas conquistas femininas, marcaram a gênesedo movimento operário e a defesa do direito da mulher - direito ao trabalho, aosaber e ao prazer.Será a partir da leitura de O primo Basílio que se buscará analisar aimportância da figura da mulher na sociedade portuguesa daquela época e,
  • 4. 11principalmente, a força da opinião fomentada pelo intelectual Eça de Queirós, aoabordar uma temática particularmente delicada, como a do adultério, e discutir asdeficiências e os equívocos pedagógicos como possíveis responsáveis pelos“desvios de conduta” destas mulheres, chamando a atenção da sociedadeportuguesa em pleno século XIX para este problema. Ao situar essas questões,tentaremos mapear as transformações das cidades européias em função damodernização e, principalmente, buscaremos retratar Lisboa através da vida e doscostumes de uma parcela de sua população – a baixa burguesia.Como a modernização das cidades européias, naquela época, já seencontrava em fase avançada e, segundo Eça, a pacata Lisboa ainda se encontravanum estado de “letargia”, buscaremos trabalhar comparativamente esses doismomentos de modernização, identificando a comparação tensa entre a poucamodernidade portuguesa versus a modernidade européia.No romance O primo Basílio, Eça focaliza a pequena burguesia lisboeta,seus costumes, valores e ranços morais. A partir da análise desses elementos,buscaremos localizar a questão do adultério relacionando-o à estrutura do larburguês onde sua importância pode ser analisada sob diferentes óticas, tais como,moral, legal, sociológica, econômica, religiosa e pedagógica. Assim, além deanalisar as opiniões defendidas por Eça, no que se refere às leituras românticas eseus efeitos na formação do caráter da mulher, analisaremos, prioritariamente,fatos da enunciação e do discurso, procurando obter uma compreensão daimagem feminina que circulava socialmente através dos discursos e dosimperativos de conduta "aconselhados" às mulheres. Além disso, privilegiaremos,neste texto, as estratégias de reconstrução do “real”, levada a cabo pelo narrador,através das quais busca dar sentido tanto a sua tese de responsabilidade pelosdesvios morais, quanto à trama engendrada para justificar seus argumentos.Num terceiro momento, será focalizada a ação do escritor como intelectualcomprometido com os assuntos do seu tempo, através da análise de artigos em queo escritor busca empreender mudanças que possibilitem conduzir Portugal àmodernidade já conquistada pelos principais centros europeus. Também serãoanalisados, como mais um eixo dessa ação, os tópicos construídos por Eça noromance O primo Basílio para demonstrar a fragilidade das bases que compunhama família pequeno burguesa, reforçando sua crítica à educação feminina que
  • 5. 12possibilitaria, segundo ele, os desvios morais, responsáveis pela dissolução daestrutura familiar, a base da sociedade de então.Como teremos oportunidade de demonstrar, as personagens femininas emO primo Basílio rompem até certo ponto com as convenções sociais, queconferem às mulheres os cuidados com a casa e com a família. Luisa, personagemcentral da trama de O primo Basílio foi concebida para evidenciar um tipofeminino de personalidade frágil e indiferente aos riscos que poderiam envolver oato de afastar-se do código de conduta oitocentista. Esses códigos ditavam ocomportamento feminino da burguesia no que se refere à conduta moral esperada.O afastamento de Luisa desses códigos, de alguma forma, irá contribuir para asmudanças que presenciamos nos dias de hoje, no que diz respeito a essa temática.Isso, sem dúvida, por si só já demonstra a força e a importância do intelectual queaborda tais temas, colocando-os em debate na sociedade. Luisa funcionará comoexemplo de mulher frágil, fadada a sucumbir pelo atraso de sua educação. Acriação deste personagem servirá de contraponto à cidade de Lisboa que,estagnada social e culturalmente, jamais irá atingir os índices de modernidadealcançados pelo resto da Europa.Neste romance que Eça subintitulou “episódios domésticos”, vimos seremabordados tanto os aspectos econômicos, como os valores morais, psicológicos eeducativos4, abordados como traços que o autor considerava como responsáveispelos “desvios” cometidos pelas mulheres e, mais particularmente, comoresponsáveis pelo adultério cometido por Luisa. Com isso, analisando a situaçãosocial das mulheres-personagem, o intelectual Eça de Queiros irá denunciar,questionar e responsabilizar os princípios da educação vigente em Portugal e, emespecial, a leitura de romances românticos, como responsável pelos “desvios”praticados pelas mulheres, ou pela “má educação” a elas destinada. Ou seja, a máformação intelectual da mulher é apreendida como a responsável pelaimpossibilidade de traçar o seu próprio destino.Se compararmos a conduta de Luisa à de Maria Monforte, do romance OsMaias, verificaremos que a educação e os valores cultivados e cultuados emclasses sociais diferentes irão condenar ou absolver, além de diagnosticar comofado ou como escolha a história vivida por essas mulheres.4SARAIVA, António José e LOPES, Oscar. Eça de Queirós. História da literatura portuguesa. 12ª.edição. Porto: Porto Editora, 1982. P.563.
  • 6. 13O adultério, na obra O primo Basílio, demonstra como os diferentessuportes de informação podem constituir-se em importante fonte de representaçãoda realidade. No decorrer desta dissertação, pretendemos verificar os possíveissignificados do adultério para, a partir daí, dar continuidade à linha de raciocínioque pretendemos empreender. Outro ponto importante a ser observado dizrespeito aos diferentes olhares sobre o adultério, quando esse é praticado por umhomem ou por uma mulher. Finalmente, refletiremos sobre o papel do intelectualEça de Queirós que, em pleno século XIX, usa seu poder como formador deopinião para trazer à tona um tema polêmico e proibitivo, como o adultério. Naleitura contemporânea, Eric Hobsbawm, no livro A era dos impérios, oferece-nosa seguinte reflexão:O adultério, muito provavelmente a mais difundida forma de sexo extraconjugalpara as mulheres da classe média, pode ou não ter aumentado com o aumento daautoconfiança feminina. Existe grande diferença entre o adultério, como umaforma utópica de sonho de libertação de uma vida conjugal restrita, tal como naversão padronizada de Madame Bovary dos romances do século XIX, e aliberdade relativa entre maridos e mulheres, da classe média francesa, de teremamantes desde que mantidas as convenções, conforme apresentam as peças deteatro dos boulevards, no século XIX. Todavia, o adultério do século XIX, bemcomo a maioria do sexo então praticado, resiste à quantificação. Tudo o que sepode dizer com alguma certeza é que essa forma de comportamento era maiscomum em círculos aristocráticos e círculos da moda, sendo que nas grandescidades as aparências podiam ser mantidas com maior facilidade. 52Portugal no processo de modernização na Europa doséculo XIX e em Eça de Queirós5HOBSBAWM, Eric J. A era dos Impérios. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1998. P.290.
  • 7. 14A primeira tentativa de caracterização da modernidade no século XIXpode ser descrita como uma mudança de estilo, de costume de vida ou da própriaorganização social. Essa modernidade surge na Europa, já a partir do século XVIIe sua influência veio a se tornar uma espécie de movimento mundial.Circunscrita no tempo, a modernidade pode ser associada a um períodohistórico e como tal, difícil de ser analisado, por ser ao mesmo tempo, passado epresente (mesmo considerando a dificuldade de se distanciar do que se pretendeanalisar, reflexivamente, os rumos do hoje e do porvir, esse movimento éextremamente importante para que possamos compreender os fenômenos sociaisdo nosso tempo).Profundas transformações sociais, econômicas e políticas começam aocorrer a partir do início do século XIX. Essas mudanças formavam um ladoluminoso, principalmente pelos que estavam, de certa forma, excluídos destasnovidades. É a esta parcela excluída dos movimentos de mudança que Eça irádedicar sua produção intelectual, seja através de seus romances, seja através deartigos, em que denunciou uma série de questões à sociedade portuguesa.Assim sendo, a modernidade se apresenta carregada de ambigüidades, poisao mesmo tempo em que oferece segurança, também oferece perigo; ao mesmotempo em que oferece confiança, oferece risco. Fomos e somos acometidos porum ritmo vertiginoso de mudanças, em que os avanços da intercomunicação nospuseram e nos põe em conexão com diferentes partes do globo sem que, noentanto, o desenvolvimento das forças de produção tenha trazido uma melhorasignificativa na qualidade de vida dos homens. Pelo contrário, eles viviam umgrande dilema em relação aos contrastes daquela época: seja na produção aflitivada violência; seja nos surpreendentes avanços tecnológicos, em contraste com amiséria e com o analfabetismo de grande parte da população; seja na crise dosparadigmas que, durante tanto tempo, foram tomados como verdade e que nãorespondiam satisfatoriamente às indagações do presente; seja no desafio de
  • 8. 15conviver com o diferente, com a multiplicidade de versões e na ambigüidadeconstante entre o que passou a ser considerado velho e ultrapassado e o novo,muitas vezes difícil de ser identificado, ou capaz de trazer dentro dele parte dovelho.Se de um lado o século XIX expunha um desenvolvimento tecnológicoinglês ou um avanço nos costumes culturais e sociais da sociedade francesa,podemos perceber na obra de Eça de Queirós o relato de uma estagnação nos doiscampos, o que distanciava cada vez mais Portugal do restante da Europa. Pode-sedizer que a sociedade portuguesa do século XIX é o verdadeiro objeto daobservação eciana, o pretexto para o qual se volta e, a partir do qual, sedesenvolve toda a obra do escritor. A minúcia e o rigor, bem como o humor e aparódia são atributos que caracterizam a forma como nos é apresentada asociedade, retrato de uma época que o autor pretendeu moralizar, através dadescrição e da representação próprias do realismo. Assim, Eça afirma sem rodeiosque “os costumes estão dissolvidos e os carateres corrompidos”6. E é essadissolução que Eça pretende denunciar, utilizando o instrumento que maneja commaior destreza, a sua escrita.O adultério na obra O primo Basílio, foco dessa pesquisa, é qualificadopelo autor como um “ato fatal da moral moderna”7, decorrente, decerto de umasérie de fatores como a educação recebida pelas jovens da baixa burguesiaportuguesa. A justificativa apontada é o fato de a mulher ser “educadaexclusivamente para o amor”8e não ser preparada para o mundo real.As descrições das classes que compõem o espectro social oitocentista sãotesouros de minúcia, verdadeiros “documentos históricos” que, levam em contaliberdades literárias e pontos de vista pessoais, bem como o toque de humor tãocaracterístico do autor. Através de seus escritos, o autor pretender esmiuçar,ironizar, criticar e diagnosticar as causas das mazelas que assolam Portugal, emespecial Lisboa e seu corpo social. Seu alvo principal é a burguesia, para a qualsua pena e sua luneta estarão sempre apontadas e focando de modo implacável.No século XIX, a burguesia continua em plena ascensão, afirmando-secomo classe dominante no comércio, nas letras e na política. Não é, pois, de6As Farpas, 1871. P.178.7QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.Volume II,Capítulo XXXIII: O problema do adultério P. 180.8Ibidem. P. 196.
  • 9. 16estranhar que este seja o grupo social mais atingido pela descrição e crítica eciana.Relatam-se também as suas relações com os outros grupos sociais, como sedepreende do trecho abaixo:A classe média (…) abate-se na inércia (...) O povo está na miséria (...) Aburguesia proprietária de casas explora o aluguel. (...) E é sobre o operário,sobre o trabalhador, sobre o soldado, sobre o pobre que pesa a espoliação!Os srs. capitalistas tiveram o cuidado delicado de não fazer pagar nemmais 5 réis diários a quem ganha ou tem por mês de l00$000 réis paracima: e por isso fazem pagar mais 10 réis diários a quem tem por dia de240 réis para baixo! Isto alegra-nos profundamente. E tanto que, fundadosna nossa argumentação, não deixaremos de pedir que a cidadãos tãoprestantes como os ilustres fabricantes, se dê a honra de se lhes oferecerum banco na Boa Hora, com o modo mais risonho! Com o que temos oprazer de desejar as maiores prosperidades a SS. S.as , senhores do nossorespeito e espoliadores do nosso tabaco! 9.As classes sociais desfilam sob os olhos atentos dos leitores dos romancesde Eça de Queirós. Do Conselheiro à empregada, ninguém escapa a esta análiseperscrutadora. Mais do que uma simples descrição das classes propriamente ditas,o autor mostra-nos os chamados tipos sociais.A segunda metade do século XIX é atingida por inúmeras transformaçõesem nível social, no que diz respeito à mentalidade da burguesia, classe que temneste período o seu tempo. Assim, adquirem-se novos hábitos que mostram bemesse desenvolvimento das classes médias, hábitos estes que Eça de Queirósprocura ilustrar em sua obra. É o caso das idas à praia, designadas como "idas aosbanhos", que começam a ser chiques na época, tendo sido até entãomenosprezadas e consideradas como próprias das classes mais baixas.Encontramos referência a este fenômeno no romance A capital, onde sãomencionadas as idas à Ericeira e também no O crime do Padre Amaro, onde osimportantes de Leiria se encontram periodicamente na praia da Vieira para passara estação. Não é uma novidade introduzida nos hábitos da sociedade na segundametade do século, mas reveste-se, na época, de uma importância considerável. Équase um rito e, como tal, não foi esquecido pelo romancista, que coloca inúmerasvezes os personagens neste cenário.Em outras palavras, Eça procura localizar personagens e acontecimentosdentro de um espaço geográfico marcado por circunstâncias que não deixam9Ibidem. P. 199.
  • 10. 17margem para a objetividade de seus relatos. Por isso, a alusão aos serões comoreuniões periódicas, normalmente semanais, em casa de pessoas ilustres sãomencionadas em grande parte de sua obra. São ocasiões para se travarconhecimentos desejados e para se exibir dotes musicais ou literários. Os serõespodem, então, passar-se à volta do piano, onde alguém mostra o seu talento, comoacontece em Alves & Cª., em A tragédia da Rua das Flores, no O primo Basílio(onde encontramos muitas vezes Luiza a protagonizar estes serões), em O crimedo Padre Amaro e também em Os Maias.Além disso, são feitas referências às caminhadas ao Passeio Público, localque atualmente corresponde a uma parte dos Restauradores, o que constitui outraatividade social típica do século XIX. É lá que ocorrem determinados privilégiossociais, sendo local privilegiado de encontro da burguesia. O domingo, noentanto, é o dia em que todos têm acesso ao Passeio, local de ostentação, comocomprova a criada Juliana em O primo Basílio: “A sua alegria era ir ao Domingopara o Passeio Público, (…) a mostrar, a expor o pé”10. E Eça acrescenta, em jeitoirônico, numa descrição que pode nos remeter ao que realmente se passava naaltura, “toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio”11.Apesar da muita afluência, o escritor nota um clima geral de “abatimento epasmaceira”12. O Passeio Público, portanto, parece ser o local aonde se vai, naLisboa do século XIX, para se ser visto: “(…) para tapar as bocas do mundo,foram os três para o Passeio Público”.13O final de Os Maias, por exemplo, situa-se, estrategicamente, no que deixou de ser o "Passeio Público" para ser avenidados Restauradores, com a inauguração do obelisco.Além dos serões e das caminhadas no Passeio Público, outra referênciacultural é o teatro. A burguesia liberal atribui grande importância social ao teatro,empreendendo, por isso, esforços no sentido de dotar o país com as infra-estruturas necessárias para seu desenvolvimento e manutenção. O teatro é, então,considerado como um dos “elementos mais poderosos da civilização atual”14,segundo Eça. O mais importante palco nacional é o Teatro de S. Carlos, bastantemencionado por Eça de Queirós. Os historiadores afirmam, no entanto, que o seu10QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 221.11Ibidem. P. 226.12Ibidem. P. 226.13Ibidem. P. 321.14Ibidem. P. 328.
  • 11. 18público permanecia mais ou menos fixo, constituído pela elite das elites dostitulares, altos funcionários, burgueses, todos os que dispunham de lugar nafidalguia, na política, no dinheiro, nas artes e letras. É esta a realidade que vemosespelhada na obra eciana. Não se vai ao teatro por causa do espetáculo, mas porcausa do convívio social, está-se atento a tudo menos ao que se passa no palco.Desta forma, Eça diz que o teatro “perdeu a sua idéia, a sua significação; perdeuaté o seu fim. Vai-se ao teatro passar um bocado da noite, ver uma mulher que nosinteressa, combinar um juro com o agiota, acompanhar uma senhora (…)”15.O teatro em Portugal vai acabando e as causas apontadas desta decadênciasão o fato de a literatura teatral se reduzir ao Frei Luís de Sousa, o própriopúblico (pelos motivos já referidos) e os atores que “não pertencem a uma arte,pertencem a um ofício” e à pobreza geral gerada pela falta de subsídios. Isso ficamuito bem esclarecido quando Ernestinho, o autor da peça Honra e Paixão noromance O primo Basílio, vê-se obrigado a mudar o grand final de sua peça emfunção das pressões dos seus patrocinadores. Encontramos referências, nosromances, a representações que se realizaram de fato, como O Profeta, OTrapeiro de Paris, no D. Maria, entre outras, descritas no romance Os Maias.Do mesmo modo que o teatro, a música atravessa as obras ecianas, oumelhor, as músicas que recuperam os ecos do gosto popular ou nacional, ousucessos que passam em Portugal, vindos de França ou de Itália. A músicaassume-se como uma instituição social, afirmando a sua onipresença no Portugaldo século XIX. Este é também um tema realista que não escapa à visão crítica deEça de Queirós, que utiliza as peças musicas como narrativas paralelas, ilustrandoe dando relevo aos fatos representados em seus romances. Em Portugal, cantava-se o fado. As alusões à canção nacional são constantes. Parece poder traçar-se aequação realista, segundo a qual, o fado seria igual à preguiça, à lentidão e aodesmazelo. O fado marca também o tempo da espera amorosa e a alegria,culturalmente identificado com o vulgar, com o banal. Mas também se dança avalsa, onde alguns exemplos concretos são o "Souvenir dAndalousie”, as obras deStrauss ou a "valsa do beijo”.A música é um código social, uma linguagem, um meio de comunicação.A sociedade burguesa, representada nas obras de Eça, pretende mostrar-se15QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I,Cap.I. P.278.
  • 12. 19instruída musicalmente, freqüenta as representações das obras de Meyerbeer, masrevela-se profundamente ignorante, quando, por exemplo, troca o nome da SonataPatética, interpretada por Cruges no sarau do Trindade, n’Os Maias, por “SonataPateta”.O vestuário da época é também evidenciado nas páginas ecianas, sempreinvestido de um caráter de significado sociológico. Deste modo, os grupos sociaissão caracterizados também com base na sua indumentária, o que ajuda àvisualização e inserção no contexto oitocentista, bem como espelha um “tom derealidade” para o leitor. Nesse processo Eça utiliza não só a descrição das roupas,incluindo a matéria prima empregada nas peças, mas também toda a gama deacessórios que contribuem para a caracterização social dos personagens. Assim, ochapéu alto, o fraque, as luvas, os leques e o monóculo (imprescindível aoaristocrata, cuja personificação é Gonçalo Mendes Ramires ou Afonso da Maia)são sinônimos de prestígio social, sinais exteriores de riqueza.O modo de vestir da burguesia é o mais ilustrado no romance - as senhorasusam sedas (cujo “ruge-ruge” se ouve ao longo de toda a obra de Eça), veludos,rendas e vidrilhos, enquanto os homens se distinguem pelas sobrecasacas dealpaca e jaquetões. Salienta-se o cuidado na descrição do vestuário de algunsgrupos como os arrivistas, que ostentam a sua posição através de jóias, decotes,sombrinhas e folhos, sendo freqüentadores de casa de alta costura, ou modistas emvoga, como Laferrière ou Madame Levaillant. Os políticos também se distinguempelo seu aspecto pomposo, “encerado”, pleno de coquetterie (exemplificado noConselheiro Acácio e nos Gouvarinhos).Embora, suas principais preocupações estejam relacionadas ao estado dainstrução em Portugal, em nível institucional, e ao tipo de formação individualministrada em casa, desde o berço: “A valia de uma geração depende daeducação que recebeu das mães”16, para Eça de Queirós, que se assume como umpedagogo genuíno, conhecer os costumes da sociedade de seu tempo é umaquestão que merece destaque.A preocupação com o insuficiente número de escolas é exprimida atravésde personagens como Sebastião, de O primo Basílio. A criação do Ministério daInstrução Pública, em 1870, suscita alguns comentários pouco abonatórios por16QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 848.
  • 13. 20parte de Eça de Queirós. Naquele século existiam somente 2300 escolas emPortugal, o que significava que quase metade das crianças estava fora da escola.Além disso, nas escolas que existiam, as condições de ensino não eram asmelhores. O escritor define o estado da instrução pública em Portugal de formataxativa: “A instrução em Portugal é uma canalhice pública”17. Um símbolo destadegradação na instrução pública que começa nos altos dignitários é Sousa Neto,um oficial superior em Os Maias, que quis saber se em Inglaterra havia literatura.Um dos pontos que pode ser destacado diz respeito aos valores quenorteiam a sociedade. Eça não pretendia uma modernização no projeto urbanísticode Lisboa a exemplo do que ocorreu em Paris. O cerne que pretendia atingir diziarespeito aos frágeis valores que conduziam a sociedade portuguesa da época,principalmente aqueles relativos à educaçãoA valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. O homem é"profundamente filho da mulher", disse Michelet. Sobretudo pela educação. Nacriança, como num mármore branco, a mãe grava; - mais tarde os livros, oscostumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podemapagar-se, não se alteram as palavras gravadas. A educação dos primeiros anos, amais dominante e a que mais penetra, é feita pela mãe: os grandes princípios,religião, amor do trabalho, amor do dever, obediência, honestidade, bondade, éela que lhos deposita na alma. [...]A criança está assim entre as mãos da mãecomo uma matéria transformável de que se pode fazer - um herói ou um pulha.sentir puro.18A educação é tema recorrente na obra literária de Eça de Queirós, o quedemonstra a sua preocupação com este eixo da formação da sociedade moderna. Énotória a forma como os personagens dos seus romances são marcadas pelaeducação que recebem na infância. Normalmente, a uma educação mal orientada,17Ibidem. P. 84818QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea P. 232.Uma Campanha Alegre é um conjunto de crônicas mensais de autoria de Eça de Queirós eRamalho Ortigão, publicadas mensalmente na revista As Farpas. As Farpas são, assim, umaadmirável caricatura da sociedade da época, que foi compilada por Eça numa coletânia queintitulou de Uma campanha alegre. Contudo, a opinião de Eça acerca deste seu trabalho não émuito positiva: "São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estãoimpressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, emtorno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, maisaltas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". E escreverá ainda"todo este livro é um riso que peleja".*In carta a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890.
  • 14. 21corresponde uma personagem com uma personalidade débil, como é o caso deEusebiozinho, em Os Maias, e, sobretudo Pedro, cuja fraqueza de espírito parecejustificada pela educação que recebeu quando criança, marcada “pelos braços damãe que o amoleciam, aquela cartilha mortal do padre Vasques”19– crítica aoromantismo e à educação a cargo dos representantes da Igreja. Em suma, aeducação, conjuntamente com a influência do meio social, marcam decisivamenteas características individuais dos personagens que representam os diferentessegmentos da sociedade Lisboeta da época.A crítica mais ácida de Eça, no que se refere à educação, diz respeito àimportância excessiva que é dada a fatores como a moda ou a religião: as pessoassão “educadas no receio do Céu e nas preocupações da Moda”20. Com efeito,várias são as personagens cuja educação vaga em torno da religiosidade ou dosupérfluo.Outro aspecto importante no que toca à educação é a oposição que Eçaenfatiza entre aqueles que são educados na cidade e os que são educados nocampo. Esta questão é abordada em Uma Campanha Alegre, nas cartas de Eça deQueirós a seus filhos e também nos romances do Autor. (basta lembrar apreparação de Carlos da Maia em contraposição com a de Eusebiozinho).Não só no século XIX, mas desde a época das navegações que a emigraçãoé uma constante na história de Portugal. O escritor não se furta a essa realidade,afirmando que “a emigração, entre nós, é decerto um mal.”, provocada pela“miséria, que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa.”21. Apartir de 1855 verifica-se um aumento do fluxo emigratório, nomeadamente parao Brasil. O escritor não é alheio a este fato e caracteriza finamente aquele que vaia busca de fortuna e volta efetivamente rico, mas que é mal recebido em Portugal,transformando-se no “grande fornecedor do nosso riso”22. Basílio é um dos que,vendo-se falido em Portugal, partiu para o Brasil, de onde volta um autênticojanota. Outros personagens emigram nos romances ecianos - Gonçalo MendesRamires, que parte no início da ação de A Capital para Macheque, na Zambézia, eum emigrante desconhecido.19QUEIRÓS, Eça. Os Maias. Editora Nova Alexandria. São Paulo, 2000. P. 21820QUEIRÓS, Eça. O crime do padre Amaro. Neolivros. Lisboa, 2006. P.98.21QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. I , Cap.LI: O governo e a emigração. Lisboa, 1890. P. 154.22QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. II, Cap.XXI: O brasileiro. Lisboa, 1872. P. 274.
  • 15. 22Outro tipo de viagem muito comum no século XIX são as viagens deexploração, numa época em que o exotismo representava um valor fundamentaldevido ao mal du siècle, o spleen, o tédio. Encontramos várias personagens (alémdo próprio Eça, que relata a sua jornada ao Oriente em O Egito e em muitas notassoltas), nessa situação: Teodorico, em A Relíquia, que empreende uma viagempela Terra Santa, Basílio, de O primo Basílio, que conta à sua prima como esteveem Constantinopla, na Terra Santa, e em Roma, e também André Cavaleiro, ocacique em A Ilustre Casa de Ramires, que parte para “Constantinopla, à ÁsiaMenor”. Encontramos também muitas referências acerca de viagens a Paris, o quefaz supor um desenvolvimento considerável nos transportes e certo bem-estarsocial de algumas camadas da população. “Vai-se a Paris, beber do fausto, doluxo”, destino privilegiado de viagens lúdicas de muitas personagens ecianas.A literatura é um tema presente em grande parte dos romances de Eça deQueirós. Por um lado, o autor nos oferece uma imagem, muito matizada pela suaideologia, daquilo que se vai escrevendo em Portugal, e acaba por revelar umdebate aceso na sociedade portuguesa do seu tempo acerca da oposição entreromantismo e realismo. Por outro lado, inserindo as suas personagens no seuambiente sócio-cultural, dá-nos conta do que se lê no Portugal oitocentista e dasrelações das leituras com as mentalidades das classes sociais.Eça de Queirós afirma peremptoriamente que “a literatura em Portugal estáa agonizar: morre burguesmente e insipidamente(…)”23. Desde logo se nota umacrítica cáustica a um certo gênero literário, mais conotado com uma sub-literatura.A sua descrição do tipo de escritor responsável por este gênero literário é bastanteexplícita: “poeta delambido, acordas as musas e adormeces a humanidade comrimas chochas e idéias estafadas, e moral do baixo império”24. Além disso, nãopoupa sua crítica à literatura que era feita em Portugal: “a literatura - poesia eromance - sem idéia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsa, nãoexprime nada. (…) nenhum movimento real se reflete, nenhuma ação original seespelha”25.23QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Globo Editora, Rio de Janeiro, 2006. P. 78. O personagem ArturCorvelo, no romance A Capital, representa o poeta, classificado como portador de uma “anemiaintelectual” e de um “lirismo galopante”24Ibidem. P. 84.25QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. In: Volume I,Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 306.
  • 16. 23A propósito do romance romântico escrito no país, Eça diz que se trata da“apoteose do adultério”26, um autêntico “drama de lupanar”, sobre o qual “asmulheres estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade”27. O leitor doromance O primo Basílio pode deliciar-se com uma paródia do que se escreve emPortugal, com a obra de autoria de Ernestinho Ledesma, que se ocupa de umapeça em cinco atos intitulada Honra e Paixão.O referido debate entre romantismo e realismo está presente na própriaobra de Eça de Queirós. Sendo um autor que denuncia o romantismo decadente,sobretudo com o debate provocado pela Geração de 70, ele sente-se, entretanto,seduzido pelo romantismo humanitário de Antero de Quental. Este debate estáinteiramente anotado no célebre episódio do jantar no Hotel Central (em OsMaias) em que se confrontam o personagem Ega, partidário intransigente dorealismo naturalista, e Tomás de Alencar, personificação do romantismosentimentalista (que acaba por ser o que mais dura, o mais coerente, fiel a sipróprio e aos seus princípios). Nesse debate intervêm também Carlos da Maia eCraft, defensores do idealismo, da "arte pela arte", como manifestação artísticasuprema.O registro das obras lidas em Portugal na época é bastante elucidativo. Noscírculos considerados intelectuais de vanguarda, como é o caso do ClubeRepublicano, lê-se Proudhon, Juvenal, Comte, Byron, Vigny, Darwin, econsidera-se Feliciano de Castilho como um autor menor por ter se destacado noestilo romântico. Contra ele se rebelou Antero de Quental (entre outros jovensestudantes coimbrões) na célebre polêmica do Bom-Senso e Bom-Gosto,vulgarmente chamada de Questão Coimbrã, que opôs os jovens representantes dorealismo e do naturalismo aos vetustos defensores do ultra-romantismo. Esteregistro denota uma mentalidade que faz apologia a idéias como o positivismo,evolucionismo, ideais laicos e republicanos, com tendências socializantes.Castilho, juntamente com Figuier e Bastiat, são, no entanto, autores lidos por umaclasse média instalada, representada por personagens como Jorge em O primoBasílio. A mulher burguesa também tem um tipo de leitura típica, e que por vezesconduz a comportamentos tidos como “ilícitos”. Luísa, personagem de O primo26QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I,Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 234.27Ibidem. P. 243.
  • 17. 24Basílio, suspirou na juventude com as aventuras escocesas de Walter Scott evibra, como mulher adulta, com as venturas e desventuras de A Dama dasCamélias, de Alexandre Dumas Filho, autor muitas vezes atacado por Eça emseus artigos publicados n’As Farpas.2.1A representação da mulher portuguesa na obra de EçaAcerca da condição da mulher, o autor português, Lopes Praça escreveuuma obra que percorre os diversos domínios da condição da mulher em Portugal -"A Mulher e a Vida ou A Mulher considerada debaixo dos seus principaesaspétos".28Em função disto, buscaremos apoiar nossas observações acerca damulher portuguesa na sociedade oitocentista na análise minuciosa efetuada peloautor, sem deixar de apoiar nossas considerações nos apontamentos de Eça deQueirós, uma vez que, será a partir da visão desse autor que a figura feminina irá“ganhar vida” nos romances que magistralmente escreveu.Autores como Alexandre Herculano ou Oliveira Marreca29deram-nos damulher uma visão muito parcial e carregada de preconceitos, sem grande inovaçãono seu discurso, tendo em conta a sociedade que visavam criticar. Eça, porém,deu-nos a oportunidade de ver a mulher de uma forma diversa, muito maispróxima da realidade em que vivia – um ser de terceira classe, cujos direitos nãoeram respeitados.No decorrer da história, a figura feminina cultivou o silêncio e asubmissão ao sistema tradicional vigente, sob o comando masculino. Asjustificativas para tal comportamento são variadas, e as análises partem dasdiversas influências presentes nessa relação tão complexa entre homem e mulher,construída com base em aspectos culturais, comportamentais, econômicos ou,28PRAÇA, José Joaquim Lopes. A mulher e a vida ou a mulher considerada debaixo dos seusprincipaes aspetos. Livraria Portugueza e Estrangeira do Editor Manuel de Almeida Cabral,Coimbra, 1872.29António de Oliveira Marreca foi emigrado liberal, economista de renome, escritor, professor epolítico português. Fez parte do primeiro diretório republicano português.
  • 18. 25ainda ideológicos.Em Portugal, durante o século XIX, a mulher ainda se mantinhasubordinada à tutela de um sistema patriarcal dominante, situação dominante nopaís ao longo de todo o século. Segundo a socióloga Suzana Stein, a família,formada por um núcleo central (patriarca, mulher e filhos) e outro periférico(composto por agregados e empregados), tinha como autoridade maior o homem,que dirigia não só os familiares, mas também as pessoas que exerciam atividadesprodutivas subordinadas a ele. Este dado é apontado no romance O primo Basílioinúmeras vezes, principalmente quando Luisa se queixa dos maus serviçosprestados por Juliana e de seu desejo de dispensar os seus serviços. Jorge,desmerecendo a opinião da esposa, dá a última palavra e mantém a serviçal emfunção dos “bons serviços” que prestara a sua tia.A organização familiar vigente nessa época contribuiu muito para aformação social do país, pois “desempenhou valioso papel regularizador edisciplinador”30. No entanto, esse modo de viver influenciou fortemente odesempenho dos papéis sociais dos agentes masculino e feminino, marcando aposição da mulher como ser inferior ao homem.Nesse ínterim, alguns fatores foram decisivos para que a mulher ocupasse,ao longo dos tempos, uma posição social subalterna, entre eles destacam-se ocontexto educacional, as leis vigentes, as regras religiosas, a moral sexual e aprópria necessidade de auto-afirmação. Além disso, aliado à influência docatolicismo, um fator primordial permeava as ações de um modo geral,determinando esta visão sobre a mulher e contribuindo para a manutenção dopatriarcalismo: a influência de pensadores cujas obras alcançaram notoriedade nodecorrer do século XIX, como Auguste Comte e Jules Michelet. De acordo comMaria Lucia Rocha-Coutinho,os comportamentos de subordinação femininos ficam, então, emaranhados nocotidiano destas mulheres como forma natural de organização de suas vidasdiárias, sem que muitas delas tomem consciência deste fato31.Nesse contexto, uma forte corrente ideológica foi defendida pelo30STEIN, Suzana Albornoz. Por uma Educação Libertadora. Editora Vozes,Petrópolis. 1985. P.22.31ROCHA COUTINHO, Maria Lucia. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira Nasrelações familiares. Editora Rocco, Rio de Janeiro. 1994. P.94
  • 19. 26Positivismo, no século XIX, na figura de Auguste Comte que, sintonizado com opensamento da época, enfatiza normas de comportamento para a mulheroitocentista, preceitos que logo se difundem em vários países. Originalmente,“enquanto doutrina sobre o conhecimento (...), o Positivismo incorporou-se aoutras correntes análogas, que procuraram valorizar as ciências naturais e suasaplicações práticas”.32Desse modo, partindo do princípio de que seu destinoconsistia em disciplinar as forças humanas, baseado na relação contínua entre osentimento e a razão como reguladora das atividades, a situação da mulhertambém foi abordada pela teoria positivista. Comte, mesmo valorizando o papeldesempenhado pela “digna” mulher na sociedade e ressaltando o seu valor, nãodeixou de definir qual seria o comportamento ideal para essa mulher, assinalandoalguns aspectos primordiais para sua conduta:[...] o culto positivo erige o sexo afetivo como providência moral de nossaespécie. Cada digna mulher ministra habitualmente a esse culto a melhorrepresentação do verdadeiro Grande Ser. Sistematizando a família, como basenormal da sociedade, o regime correspondente faz dignamente prevalecer naquelaa influência feminina, transformada, enfim, em supremo árbitro privado daeducação universal. Por todos estes títulos, a verdadeira religião será plenamenteapreciada pelas mulheres, logo que elas reconhecerem suficientemente osprincipais caracteres que a distinguem. Aquelas mesmo que a princípiodeplorarem a perda de esperanças quiméricas não tardarão em sentir asuperioridade moral de nossa imortalidade subjetiva, cuja natureza éprofundamente altruísta, sobre a antiga imortalidade objetiva, que não podiadeixar de ser radicalmente egoísta.33Dessa maneira, Comte foi enfático ao tratar de algumas questõesrelevantes sobre o comportamento feminino frente à sociedade da época. Deacordo com os preceitos positivistas, é fundamental preservar-se e manter-se amulher submissa ao homem, subordinando os instintos pessoais ao seu destinosocial, dedicando-se integralmente à família.Por fim, a pouca instrução, a função restrita ao ambiente doméstico-familiar e a constante dedicação ao marido e aos filhos, ditada pela TeoriaPositivista, mantêm a mulher excluída da sociedade, levando-a a pensar que todaa base comportamental indicada por Comte se constituiria “em motivos honrosos32COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva (trad. de José Arthur Giannotti e MiguelLemos). São Paulo, Editora Nova Cultural. 1993. P. 184.33Ibidem. P.130.
  • 20. 27para as mulheres”34, como forma de adaptação “ao serviço real da Humanidade, àqual pertencemos inteiramente”35.Nessa direção, o romance O primo Basílio retoma parte dessa teoria daposição subalterna feminina, com enfoque na sociedade lisboeta do século XIX.Às mulheres era reservado o espaço doméstico fechado e a administração do lar, oque, segundo Eça, as dotava de um ar doentio,[...] as raparigas não têm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, semcarne, sem força vital - umas padecem de nervos, outras de estômago,outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privados do sol. Emprimeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de umsofá, com as janelas fechadas; - ou percorrendo num passinho derreado aBaixa e a sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são, restaurador. O ar daBaixa corrompe o sangue; e o ar das salas, resguardadas por cortinas oualumiadas a gás, não tem oxigénio e portanto não alimenta. Depois, nãofazem exercício. Uma inglesa tem por dever moral, como a oração, opasseio - o largo passeio, bem marchado durante duas horas.36Essa “fragilidade doentia” também é evidenciada em O primo Basílio, nafala de Jorge ao se referir à Luisa: “Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona.É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: - Alto lá, isso não pode ser!”.37Portanto, a função social da mulher restringia-se à família e à casa, a fimde que o poder representado pela figura masculina permanecesse em suahegemonia histórica, embora, esse posicionamento não encontrassecorrespondência nos estudos realizados, no século XIX, por filósofos de renome,como Marx e Engels.Estes pensadores foram os que mais contribuíram para o desvendamentodas verdadeiras origens da opressão da mulher e, com isso, criaram as condiçõespara que fossem construídos os caminhos que conduziriam à sua libertação. Umdos marcos deste processo foi a publicação, em 1884, do livro A Origem daFamília da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels.Em meados do século XIX a “ciência da família” estava dando os seusprimeiros passos quando os dois pensadores socialistas alemães se interessaram34Ibidem. P. 184.35Ibidem, P.269.36QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. . Lisboa,1890. P. 257.37QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo. Rio de Janeiro, 1997. P. 50.
  • 21. 28por ela. A obra pioneira neste campo havia sido O direito Materno de Bachofen,publicada em 1861. Nela o autor expõe, pela primeira vez e para escândalo geral,a tese de que nas sociedades primitivas, em certo período, teria predominado omatriarcado – ou seja, havia predominado a ascendência social e política dasmulheres sobre os homens.O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foia constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinhaconhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas.Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, comodiziam as religiões e os movimentos racistas e sexistas da época.A monogamia teria sido “fundada sob a dominação do homem com o fimexpresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, e essa paternidade éexigida porque essas crianças devem, na qualidade de herdeiros diretos, entrar umdia na posse da fortuna paterna”38. Nesse contexto, segundo Engels, “somente ohomem pode romper esse laço (matrimonial)”, “o direito da infidelidade conjugalfica-lhe (...) garantido pelo menos pelos costumes”. Ainda segundo esse mesmoautor, a mulher que, no século XIX conquistar sua liberdade sexual será “punidamais severamente do que em qualquer outra época precedente”39. Nesta forma decasamento e de família, “aquilo que para a mulher é um crime de gravesconseqüências legais e sociais, para o homem é algo considerado honroso, ou,quando muito, uma leve mancha moral que se carrega com satisfação”40.Desnecessário seria apresentar qualquer coisa que se assemelhe a umresumo da obra de Engels aqui tomada como pré-texto, esclarecendo quetomamos “pré-texto” no sentido do texto que precede, aquilo que vem antes eserve de “mote”, de “deixa” para que uma outra narrativa possa tomar corpo eganhar vida. O cerne da questão focalizada por Eça está na educação das jovensportuguesas da baixa burguesia, no que diz respeito, principalmente, à escolha doslivros românticos para a leitura. Além deste tópicos, o autor recupera outrasquestões culturais da sociedade da época como determinantes da educaçãofeminina. Servindo-se desse pré-texto, Eça de Queirós constrói a sua leitura sobre38ENGELS, Friedrich. A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, EditorialPresença, Lisboa, 1974. P. 81.39Ibidem. P. 8140Ibidem. P. 81
  • 22. 29um dos principais fatores do atraso da sociedade portuguesa. Ao analisar O PrimoBasílio, que por sua vez serve-nos de pré-texto para a elaboração destadissertação, tentamos ler a questão do adultério evidenciando as suas ligações comtexto eciano na defesa de sua tese.Na segunda metade do século XIX, temos oportunidade de assistir a umdos mais interessantes fenômenos literários, com o desenvolvimento, por todaEuropa, de um surto de romances sobre o adultério, tornado-se alguns delesverdadeiras obras-primas da literatura mundial, o que se explica, pelo fato de oromance de adultério no século XIX se tornar um tipo privilegiado de romance deépoca e de crítica social. Madame Bovary e O primo Basílio são apenas algunsexemplos do êxito que este tipo de romance obteve junto ao público leitor nasegunda metade de oitocentos.Com efeito, no século XIX e especialmente na segunda metade, a temática doadultério feminino é uma obsessão na literatura européia. Tony Tanner explicaesta ocorrência pelo fato de que nessa época se desestruturam os sistemaspolíticos tradicionais, desacreditam-se os valores burgueses e levantam-sedúvidas sobre a santidade do matrimônio e sobre a impermeabilidade das classessociais. Diferentemente do enfoque predominantemente psicanalista, de acordocom as teorias de Freud, Lacan e Derrida, que Tony Tanner dá à sua análise doadultério, Biruté Ciplijauskaité utiliza uma abordagem sociológica no seu estudosobre o adultério, seguindo o princípio de Lucien Goldmann e de Lukács dotempo da escrita. Assim, a autora aponta, na segunda metade do século XIX, acoincidência da narrativa de adultério com os movimentos feministas que entãose desenvolviam na Europa e na América, assinalando algumas influências queestes tiveram na situação legal das mulheres, na sua educação, nas idéiasfilosóficas e na prática literária.41No entanto, este enfoque do adultério feminino pelo romance naturalista-realista pode ser compreendido se integrado numa problematização mais vasta: ada situação da mulher numa época de profundas transformações sociais, nosníveis político, econômico, e cultural, onde a imagem da mulher se altera, ecomeça a assumir novos papéis que vão pôr em causa as normas que definiam eregulamentavam a sua função apenas como esposa e como mãe. Com efeito, ainserção social da mulher foi um importante ponto de interesse do Realismo e doNaturalismo. Opondo-se à idealização romântica e a narrativa realista-naturalistaveio revelar aspectos da intimidade da mulher que até então não tinham lugar na41JESUS, Maria Saraiva de. A representação da mulher na narrativa realista-naturalista, Editorada Fundação João Jacinto de Magalhães. Aveiro, 1997. P.p.141-142.
  • 23. 30literatura. Os temas que despertaram o interesse dos autores realistas-naturalistasmantêm estreita relação com a mulher: o amor, o casamento, o adultério, amaternidade, a educação, a vida familiar e a vida sexual. Estes temas, contudo,não interessam apenas aos escritores, eles são motivo de reflexão de outrosintelectuais e são debatidos nos diversos círculos: médico, jurídico, eclesiástico epolítico, para mencionar apenas alguns, resultando em longos tratados sobre afisiologia da mulher, a contracepção, a gravidez, a psicologia e o caráterfemininos, os direitos da mulher; tratados esses que hoje nos fariam rir se nãofossem, na sua maior parte, tão chocantes.A questão feminina será um motivo central na obra de Eça de Queirós, nãosó na sua obra romanesca, como nos seus textos de caráter não ficcional, seja nosfolhetins da Gazeta de Portugal ou nas crônicas do Distrito de Évora, seja em AsFarpas, onde teoriza sobre a educação da mulher, debruçando-se sobre temascomo a educação das raparigas, a sua preparação para o casamento e para a vida,ou mesmo sobre o adultério42. Entretanto, o próprio autor, reconhece não sermuito benévolo: “Que elas nos perdoem, essas gentis meninas, se a nossa penanem sempre for glorificadora como soneto de Petrarca: mas a tinta moderna sai dopoço da Verdade”.43É precisamente em As Farpas que Eça elabora a descrição típica da mulherde 1872, como “um ser magrito, pálido, metido dentro de um vestido de grandepuff, com um penteado laborioso e espesso e movendo os passos numa tal fadigaque mal se compreende como poderá jamais chegar ao alto do Chiado e davida”.44E continua:42MACEDO, Jorge Borges. “As mulheres em Eça de Queirós”. In: Dicionário de Eça de Queirós,A. Campos Matos (org), 2ª ed, Lisboa, Caminho, 1988. p. 626: “[...] como se entende este debateacerca da mulher, ao longo de toda a obra queirosiana? Em primeiro lugar, à consciência daimportância do desenvolvimento do papel da mulher na civilização moderna que, melhor do queninguém, no seu tempo, em Portugal, E. Q. conheceu. A crescente responsabilidade da mulher nasociedade sua contemporânea e da necessidade de lhe encontrar um termo de equilíbrio surgeclaramente nos seus textos não literários, nos seus comentários ensaísticos. [...] A sua ficçãoreflecte, de algum modo, a insuficiência das soluções propostas pela sociedade em si mesma. Emsegundo lugar, podemos ver aí, também, a influência do seu nascimento e da sua infância sobre apessoa e sensibilidade de E. Q., de algum modo, soturna e muito mal conhecida. Oreconhecimento ou legitimação da sua filiação maternal só foi levado a efeito em 1885, quandotinha quarenta anos, a três meses do seu próprio casamento e ao cabo de muitas tensões eturbulências: durante muitos anos conheceu sua mãe sem ser legitimado.”43QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 323.44Ibdem, p. 323.
  • 24. 31“a palidez, as olheiras, o peito deprimido, o ar murcho – revelam um serdevastado por apetites e sensibilidades mórbidas. Ora entre nós as raparigas nãotêm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem carne, sem força vital – umaspadecem de nervos, outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privadosdo sol”45.Para Eça, portanto, as raparigas não cumprem o dever, para elefundamental, parafraseando Taine, que é o de ter saúde, já que[...] em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de umsofá, com as janelas fechadas – ou percorrendo num passinho derreado a Baixa ea sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são restaurador [...].Depois, não fazem exercícios [...]. Aqui as que andam a pé, depois de ir a umaloja na Rua do Ouro a uma igreja no Loreto, arquejam e recolhem à pressa noônibus. Algumas mesmo não sabem andar: escorregam, saltitam, oscilam.Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se racionalmente de peixe,carne e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. A gulodice doaçúcar, dos bolos, das natas, é uma perpétua desnutrição.46Há ainda um agravante, que é a moda que, segundo Eça de Queirós,“destrói a beleza e destrói o espírito”47, uma vez que[...] não é ela que é feita para o corpo – mas o corpo que tem de ser modificadopara se ajeitar nela. [...]. De modo que para sustentar o chapéu deforma-se acabeça; para obedecer ao puff torce-se a espinha; para satisfazer às botinas LuizXV desconjunta-se o pé: para seguir o chique das cintas baixas destrói-se obusto.48Eça encontra ainda nas meninas de Lisboa oitocentista outros males paraalém da fraqueza do corpo: “ Depois da anemia do corpo, o que nas nossasraparigas mais impressiona – é a fraqueza moral que revelam os modos e oshábitos”49, o que se verifica no “andar de uma menina portuguesa, arrastado,incerto, hesitante, mórbido: sente-se aí logo a indecisão, a timidez, aincoerência.”50. Em suma são preguiçosas, medrosas, sem decisão, sem iniciativa,sem nenhuma ação, o que faz delas péssimas companheiras para o homemmoderno que, não sendo “um trovador ou um contemplativo, nem um sultão para45Ibdem. P. 324.46Ibdem. p. 324-325.47Ibdem. P.327.48Ibdem. P. 326.49Ibdem. P.326.50Ibdem. P.328.
  • 25. 32ter aninhadas, em fofas almofadas, huris51perfumadas; mas um trabalhador queprecisa ganhar o pão, arcar com todas as durezas da vida”52, necessita de umamulher forte, ativa e decidida. Mas Eça não atribui a culpa às pobres raparigas,antes à educação, aos hábitos e costumes, à forma como se lhes dão a conhecer areligião e os deveres morais e humanos, o que o leva a condenar, a família, asociedade e até a vida nos meios urbanos, defendendo a educação no mundo rural,onde, desde a mais tenra idade, a criança, em contato com a natureza e com osfatos da vida “habitua-se a estar sobre si, perder o medo, sabe defender-se, temacção, decide-se”.53Esta “farpa” sobre a educação feminina, datada de Março de 1872, vem naseqüência de uma outra datada de Junho de 1871 sobre o poder político, na qualEça havia já inserido algumas considerações muito contundentes sobre asmulheres. Criticando a decadência do Estado e das instituições, dos costumes e acorrupção dos princípios, atribui a falta de caráter feminino a essa decadência emque se encontra a nação portuguesa em todas as suas vertentes: “As mulheresvivem nas conseqüências desta decadência”.54. No entanto, o autor portuguêsreconhece que[...] no fim de tudo, as mulheres virtuosas, as mulheres dignas formam ainda nasociedade portuguesa, uma maioria inviolável! Se alguma coisa podemos dizerprofundamente verdadeira é – que elas valem muito mais do que nós.55.Esse airoso remate não lhe impede, cerca de, um ano mais tarde, tecerferozes críticas à condição feminina dessa geração, nem de nos apresentar na suaobra ficcional uma galeria de personagens femininas tão pouco dignificante para aimagem da mulher contemporânea, pois, exceto Joaninha, de A cidade e as serras,todas elas manifestam uma grande inclinação para infringir as normas sociais,diluindo a solidez do lar e da família e a conseqüente estabilidade social. Apesarde ser nossa convicção de que a mulher e o seu papel na família e na sociedadeconstituem uma temática cara a Eça de Queirós, na opinião de Beatriz Berrini,51“Cada uma das virgens extremamente belas que, segundo o Alcorão, hão de desposar, noParaíso, os fiéis mulçumanos”. In: Dicionário Eletrônico Aurélio Século XXI.52QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa. Livros do Brasil, s/d. Volume II, CapítuloXXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P.329.53Ibdem. P. 336.54Ibidem. Volume I, Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em1871. P.28.55Ibidem. P.28.
  • 26. 33[...] salvo n’O Primo Basílio, não tem as mulheres a mesma importância que oshomens na ficção de E.Q. Eça pôs em cena poucas personagens femininas, quasesempre as apresentou a partir de uma visão negativa exterior, e delas fez, acimade tudo, índices ilustrativos de aspectos da sociedade da sua época56.Desejávamos poder contestar com firmeza esta posição da estudiosaeciana, contudo, verificamos na obra de Eça não só uma predominância minuciosarepresentação de personagens masculinas, o que pode ser explicado pela própriaestrutura social da época. Porém, não há como negar a existência de um trabalhomais cuidado no que diz respeito à sua caracterização física e psicológica, o quenão significa, para nós, que não sejam estas personagens masculinas tambémíndices ilustrativos da sociedade da sua época ou que Eça não os apresentetambém negativamente.Todavia, sendo geralmente aceite que Eça de Queirós, sarcástico comtodos os tipos sociais que representam na sua visão crítica sobre a sociedadeportuguesa da época, é inegável que foi especialmente crítico quando fez arepresentação das mulheres, a avaliar pelo universo feminino de sua obra.A produção literária e ensaística de Eça constituem, essencialmente, aexemplificação das doutrinas dominantes no século XIX. Aquilo que a muitos seafigura uma imoralidade – aceitando mesmo que a arte pura pode, algumas vezes,ser imoral – pode não ser mais do que uma surpreendente lição em prol dos “bonscostumes”. O crime do padre Amaro, interpretado como um ataque à Igreja é, nofundo, a exaltação do sacerdócio puro. O primo Basílio, tema de nosso estudo,considerado por muitos como um ataque à família é, em boa verdade, acondenação do adultério ou, melhor dizendo, a condenação da influência dosideais românticos no alicerce da família portuguesa. O romance Os Maias,reputado como a representação de um caso patológico pode ser, em última análise,uma sátira profunda contra certos meios postiçamente aristocráticos. O que emprimeiro momento pode afigurar-se uma deprimente exibição de situaçõesculposas, destinadas a excitar a doentia curiosidade dos seus leitores, podeconstituir, por antítese, a apologia do Amor ou da Paixão no seu caráter mais puroe verdadeiro. Eça converte suas “heroínas” em inquietantes símbolos amorosos,não lhes dando justamente, um destino venturoso. Todas elas sofrem, com maiorou menor violência, as penas do seu amor fatal. Amélia e Luísa morrem. Maria56BERRINI, Beatriz. “Personagens Femininas”. In: Dicionário de Eça de Queiroz, op. cit., p. 704-708.
  • 27. 34Eduarda parte triste, coberta de negro, para uma vida longínqua e desconhecida.Outras envelhecem de desilusão, em pleno outono sentimental. Nenhuma delasconhece a suprema ventura do verdadeiro amor. Talvez Joaninha, de As cidade eas serras – se esse laço cor de rosa que a uniu a Jacinto foi alguma coisa mais doque uma longa estima delicada e respeitosa. “L’estime, la bonté, lês sentiments detheatre qui s’eclipsent d´s que lê desir, heros superbe e meprisant, fai son entrée”– escreveu Etienne Rey57. Eça de Queirós pode ter se aproximado dessepensamento ao representar suas personagens.2.2Educação e literaturaO século do romance, como ficou conhecido o século XIX, não foi muitobenevolente com as mulheres, pelo menos entre alguns dos seus principaisrepresentantes. Seja Honoré de Balzac (1779-1850), Gustave Flaubert (1821-1880), Émile Zola (1840-1902), Leon Tolstoi (1828-1910), Machado de Assis(1839-1908) ou Eça de Queirós (1845-1900), todas as mulheres foram penalizadaspor tentar romper com uma concepção ideologicamente marcada do seu lugar nasociedade, em contradição com a ascensão dos valores do mundo masculino eburguês. Quando se conquistava um aspecto da vida social, outro se impunhacomo uma emergência sufocante.Cada grande autor tratou de fazer a representação daquilo que lheinteressava, dentro dos seus planos estéticos ou ideológicos, mas nas obras dosautores citados, fica patente certa dose de um realismo sombrio ao focalizar ouniverso feminino. Nesse universo de valores conservadores, a morte se torna asolução para os crimes contra a honra. A mulher, neste sentido, carrega o peso deser um dos tesouros mais facilmente representável ao olhar analítico de umcriador de ficção que, avidamente, quer debruçar-se sobre o único objeto que eleacredita conhecer ou que julga ser o centro da atenção feminina – a paixão. Não é57Dramaturgo e crítico literário francês, nasceu em 1879. Trecho do texto escrito por Etienne noprefácio do livro de Stendhal, publicado em 1853, intitulado De l’amour, noqual relata sua decepção amorosa.
  • 28. 35obra do acaso o grande número de romances românticos produzidos naqueleperíodo e o número cada vez mais crescente de leitoras ávidas por esse gêneroliterário.Roger Chartier58lembra que a representação da mulher leitora, na pinturaantiga, estava ligada à força da mensagem sagrada. Diversas são as imagens deSanta Ana ensinando a Virgem a ler. Assim, outro tipo de leitura, que não fosse areligiosa era mal vista. Apesar disso, as mulheres encontraram formas de burlar avigilância a que eram submetidas e desobedeciam aos preceitos doutrinários a elasdirecionados, lendo o que não lhes era permitido, de forma clandestina59.Em O primo Basílio, Eça de Queirós introduz também a questão da mulherno labiríntico mundo da sexualidade. Nesse universo, ela deixa de ser uma peçadecorativa para adquirir sua forma mais humana e, por isso mesmo, muito maispróxima dos erros decorrentes de suas decisões e em contraste com a inérciasocial sugerida pelos romances românticos publicados até então. Assim, com achegada do realismo a mulher sai da redoma em que a mantiveram os autoresromânticos e vive a paixão, no sentido de via sacra, cheia de dor.Em Os usos sociais da leitura, Mauger faz uma análise sobre as práticas deleitura na França apoiando-se numa enquete feita com 24 entrevistados, entre eles12 mulheres. Apesar da pesquisa se situar no século XX, ela ratifica que aindaexiste uma pedagogia do romanesco ligada à descoberta do corpo pela leitura,“mais precisamente, a enquete mostra também que a sexualidade foi,seguidamente, descoberta pela leitura de textos (explicitamente, ou não,erótica)”.·60A representação da leitora no século XIX se baseia numa pedagogia deleitura para o público feminino que submete a leitora ao crivo da moral religiosa.Não é concedida à leitora, na maioria das vezes, uma autonomia, uma liberdade deescolha das suas leituras. A mulher-leitora era constantemente tutelada peloelemento masculino, voz autorizada, único capaz de discernir entre a boa e a máleitura. Quando isso não acontecia, e a mulher conseguia burlar o código do veto,ou quando era educada de forma “inadequada” pelos pais, inevitavelmente58CHQARTIER, Roger. A Aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora daUNESP, 1999, p. 85-86.59LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitora no banco dos réus. São Paulo: Ática, 2003.P. 123.60MAUGER POLIAK, Claude. Os usos sociais da leitura. Editora Nathan, Paris, 1999. P.67.
  • 29. 36sofreria conseqüências maléficas à sua saúde, provocaria desajustes sociais e,finalmente, seria punida. Dentro de um ponto de vista de que seria preciso limitaro universo de leitura da mulher para que ela pudesse corresponder às expectativasexigidas pelo projeto nacional, as possibilidades de leituras apresentadas para aspersonagens eram aquelas que estavam inscritas na ordem moral e socialestabelecidas. Esses escritores-pedagogo sustentam seus argumentos nafragilidade das personagens e na preservação de sua inocência. Na verdade,temiam o crescimento intelectual feminino, pois, a leitura poderia conduzi-las àtão desejada libertação intelectual, cultural e política.A leitura nunca foi uma prática encorajada, pelo menos de formageneralizada, entre as classes e, muito menos, entre os gêneros. Os efeitosconsiderados “perniciosos” provocados pela leitura foram, durante o século XIX,os grandes responsáveis pela falta de popularização dessa prática e em grandeparte, objeto de crítica, por parte dos autores, como indutores de conceitosfantasiosos e, ao mesmo tempo, responsáveis por ações reprováveis no âmbitosocial e moral por serem fragmentadores do núcleo familiar.Contudo, não há como negar que os romances femininos eram um sucessode vendas no século XIX. Os folhetins publicados nos jornais da época eramconsumidos como poucos “produtos”. Isto se devia, em parte, à identificação dasleitoras com o conteúdo desses romances. No que se refere à leitura feminina, deacordo com Marisa Lajolo e Regina Zilberman, no livro A leitora no banco dosréus, a ordem do dia era desconfiança, proibição e controles de pais e maridos quetentavam separar o joio do trigo, liberando as leituras boas, úteis, saudáveis eproibindo as más, frívolas e suscetíveis de desviar a leitora do bom caminho e dasalvação espiritual. Ainda segundo as autoras, será nesse mesmo século,entretanto, que as mulheres começam a representar na Europa uma parcelasubstancial e crescente do público leitor de romances. No livro A leitora no bancodos réus, a prevalência da imaginação sobre a razão era o problema e o grandeperigo para a família burguesa. Pais e maridos se apavoravam com a possibilidadelatente de verem suas filhas e mulheres excitadas por conta de leitura de livros queprovocavam paixões romanescas. Pensamentos eróticos ameaçavam a castidade ea ordem burguesa. O tema do adultério feminino torna-se, nessa época, oarquétipo da transgressão social na literatura. Emma Bovary e Luisa, personagensde Flaubert e Eça, respectivamente, são os principais estereótipos dessa temática.
  • 30. 37Se palidez, olheiras, insônia e palpitações são suspeitíssimos efeitos deleitura para a castidade de uma donzela, leituras e sintomas se multiplicam e seagravam em O primo Basílio, que já se inicia em meio a uma cena de leitura:Jorge lê Luís Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias. O narradorcuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier61, Bastiat62aMusset63e Dumas Filho64, definindo-se, assim, o marido de Luísa, pela adesão aum cânone não romântico e bastante verossímil na estante de um engenheiro. Naausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras pelo acervo rejeitado pelo marido: lêA dama das camélias, descrito como livro um pouco enxovalhado, que ela apanhapor detrás de uma compoteira. À medida que o romance se desenrola, o enxovalhodo volume respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa tambémempunhassem a impoluta Ilustração Francesa e a elegante Revista dos DoisMundos.Esta apresentação bastante detalhada dos livros, por entre os quais semovem as personagens ecianas, faz com que a leitura desempenhe papelimportante na organização do romance, além de ser peça fundamental nacaracterização das personagens. A força da leitura na composição da personagemé tal que somos informados, logo no começo da história, que Luisa lia muitosromances e mantinha uma assinatura mensal na Baixa. E mais: o narrador indicia,através de mudança nas preferências literárias de Luisa, as alterações em seusvalores e comportamentos.Confirmando o papel central que a leitura desempenha na caracterizaçãode Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto livre, paracaracterizar diferentes estados de espírito da protagonista: numa Luisa casada,adúltera e já nas malhas da chantagem de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W.Scott, que tem saudades da leitora romântica já que:[...] diferente sua vida teria sido - desta agora tão alvoroçada de cólera e tãocarregada de pecado! (...) Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entrearvoredos escuros, num vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país61Luís Figuier ( 1819-1894) foi cientista e escritor francês.62Frédéric Bastiat (1801-1850) foi economista e jornalista francês.63Alfred de Musset (1810-1857) foi poeta, novelista e dramaturgo francês.64Alexandre Dumas Filho (1824-1895) poeta e escritor francês tornou-se célebre com o romanceA Dama das Camélias (1848).
  • 31. 38que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verdesterras de Lamermoor ou de Glencoe65.2.3A questão da sexualidade e a função do intelectual no séculoXIXA função do intelectual na segunda metade do século XIX é, entre outras,a de intervenção crítica, analisando os conceitos e preconceitos da sociedade. Apartir dessa concepção, procuraremos investigar o papel de Eça de Queirós,escritor português que integrou a Geração de 70, no projeto de modernização dePortugal e identificar os procedimentos de escrita que caracterizam sua propostade transformação da situação de atraso social, cultural e pedagógico apontados porele em diversos escritos. Juntamente com a análise da crítica de Eça à sociedadeportuguesa, apresentaremos um breve panorama do cenário social e culturaleuropeu oitocentista, com o objetivo de discutir a “defasagem” de Portugal frenteàs grandes capitais da Europa.O ponto de partida desta investigação continua tendo como base oromance, O primo Basílio, publicado em 1878. Na obra, a crítica irônica de Eçade Queirós se destina à pequena burguesia lisboeta que era definidaprimordialmente pela hipocrisia e pelo desejo de ascensão social. O presenteestudo parte de um recorte da sociedade representada no romance, associado aoutras obras de Eça, especialmente seus artigos e cartas, e também os textos erelatos de alguns escritores, que fornecerão suporte histórico, teórico e crítico àconfecção desta dissertação.Ao falarmos da atuação intelectual de Eça de Queirós não podemosesquecer sua identificação com a proposta conceitual do Realismo, definido porele da tribuna na Conferência do Casino da seguinte forma:65QUEIRÓS. Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 237
  • 32. 39uma base filosófica para todas as concepções de espírito - uma lei, uma carta deguia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e dojusto, (...) é a crítica do Homem, (...) para condenar o que houver de mau na nossasociedade. (...) É não simplesmente o expor (o real) minudente, trivial,fotográfico, (...), mas sim partir dele para a análise do Homem e sociedade.66Inscrever o tema da sexualidade em Portugal na esfera da vida privadaafigura-se uma empreitada sobremodo difícil se nos ativermos ao prefácio deGeorges Duby67ao primeiro volume da História da Vida Privada. Diz-se ali que oterritório específico da vida privada é o da familiaridade, doméstica, íntima, e queno privado encontra-se o que possuímos de mais precioso, que pertence somente anós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado,exposto.68Impossível aplicar ao pé da letra semelhante definição de vida privada aouniverso social do século XIX. Construída a partir do modelo burguês de família,a noção de vida privada veiculada por Duby guarda estreitas relações com amodernidade do século XIX, com o aflorar do individualismo, da urbanização, dacasa enquanto refúgio do indivíduo em contraposição ao mundo público.Diversos pesquisadores, que participam desta obra organizada por Duby,entre os quais destacamos Paul Veyne, responsável pela elaboração do volume I;Philippe Contamine, elaborador do volume III e Danielle Régnier-Bohler, que elaborou ovolume II, demonstraram, com efeito, que não foi desprezível a importânciaquantitativa de domicílios conjugais e até de domicílios chefiados por mulheres,quer em áreas periféricas, quer em regiões diretamente vinculadas à economiaexportadora. Demonstrou-se, também, que no seio da população o poder exercidopelo clero tornou viável a constituição de famílias à moda cristã.Faz-se necessário, portanto, divorciar a noção de privacidade da noção dedomesticidade. As casas, fossem grandes ou pequenas, estavam abertas aosolhares e ouvidos alheios, e os assuntos particulares eram ou podiam ser, comfrequência, assuntos de conhecimento geral. Não resta dúvida de que o territórioda sexualidade era bem menos privado do que se poderia supor, distanciando-selargamente dos padrões supostamente vigentes nos dias de hoje.66SALGADO JUNIOR, António, História das Conferências do Casino. Lisboa: Tipografia daCooperativa Militar, 1930, p. 76.67Georges Duby é historiador francês que tem dedicado seu trabalho a pesquisa da condição damulher na história da humanidade. Organiza a obra História da vida privada em 5 volumes.68DUBY, Georges. História da vida privada Vol. 2. Companhia das Letras, 10ª edição, 1990.
  • 33. 40Não por acaso, vale frisar, as principais fontes que permitem conhecer,com alguma sistemática, o universo das intimidades sexuais naquele período dahistória de um Portugal ainda rural são as fontes produzidas pelo poder,especialmente pela justiça eclesiástica ou inquisitorial, sem falar nacorrespondência jesuítica, tratados de religiosos e sermões. Refiro-me, aqui, àsvisitas diocesanas e aos processos do Santo Ofício, tribunal que além de cuidardos “erros de fé” propriamente ditos, imiscuiu-se também no campo sexual,assimilando o que considerava “fora da norma” às heresias.As fontes da Igreja e da Inquisição mostram-se riquíssimas para aproximaro historiador das intimidades vividas no passado. Possuem, é certo, algumas forteslimitações, a exemplo da linguagem escolástica que lhes dá forma, dos filtros ecifras antepostos pelos juízes inquiridores, e da própria situação constrangedoraque envolvia os depoimentos, seja os dos que delatavam por exigência dasautoridades, seja os dos que confessavam seus desvios por temerem os castigos doCéu e da Terra.Se já não é fácil dimensionar a vida privada numa remota fase ruralportuguesa, mais difícil é decifrar os aspectos específicos da sexualidade na esferaestrita da privacidade, da intimidade dos casais e amantes. A contrariar ou mesmodistorcer essa atitude quase voyeurista do pesquisador, se assim podemos chamá-la, coloca-se a distância temporal e, consequentemente, as enormes diferençasexistentes entre a cultura material e os estilos sexuais vigentes nos séculos XVI,XVII ou XIX e aqueles dos tempos atuais. Pois se é certo que o encontro sexualde corpos pode guardar algumas constantes que chegam a ser a-históricas, muitasatitudes do passado, atualmente consideradas extravagantes ou mesmo aberrantes,podiam ser corriqueiras naquele tempo, ao passo que outras, pueris ou simplóriasaos olhos de hoje, podiam conter boa dose de erotismo e de erro fatal, como nocaso do adultério de Luisa, ou no embate entre Honra e Paixão.Dir-se-ia hoje que o sexo é algo que diz respeito ao indivíduo, a seussentimentos e inclinações, assunto de foro íntimo e absolutamente privado. Équase pueril dizer que, neste sentido - e exceto pelas posições das Igrejas e seitasreligiosas -, a vida sexual não depende de Deus, símbolo da honra, ou do Diabo,símbolo da paixão, nem precisam os amantes comunicar-se com o Além apropósito de suas relações sexuais. Nos séculos que vão até o XIX, o assunto eravivenciado de forma muito distinta. A Igreja considerava a sexualidade matéria de
  • 34. 41sua alçada, elevando à categoria do sagrado o sexo conjugal voltado paraprocriação e lançando tudo o mais ligado ao desejo e à paixão no domíniodiabólico ou mesmo herético.Usemos como exemplo o caso de um homem italiano, que matara suamulher por adultério. Fora denunciado não pelo assassinato da esposa, coisa queos Tribunais autorizavam (aos maridos traídos), e disso não cuidava o SantoOfício, apesar de dar seu “santo aval” à punição imposta à esposa infiel,indiferente aos Mandamentos da Igreja Católica – Não matarás69. A essepropósito, o intelectual Eça de Queirós escreve um artigo, em 1872, publicado emUma campanha alegre, no qual comenta a condenação de um homem acusado deter assassinado a mulher em função do adultério.De acordo com o artigo, um jornalista francês, chamado Mr. dIdeville,pede a opinião de Alexandre Dumas Filho a respeito do texto que escreveu parapublicação. Sobre este episódio, Eça escreve:Provocar a pena indiscreta e aparada em bisturi do Sr. Dumas, é acordar oescândalo que dorme. Sobretudo em questões femininas: porque aí o Sr. Dumassupõe-se uma espécie de Santo Padre do amor, julga possuir a plenacompreensão da mulher, saber desde as leis até às pantoufles toda a fisiologia docasamento, e ser no tempo presente um S. Tomás de alcova. De sorte que sempreque se trata de um caso sentimental, o Sr. Dumas filho entorna sobre o boulevard,como um barril de lixo, o seu depósito de observações: porque o Sr. Dumas éobservador como outros são trapeiros. E de noite, com uma lanterna e umgancho, cosido com os muros conjugais, apanhando e fisgando em segredo tudoo que cai da alcova, cravos, panos revolvidos, cuias velhas, farrapos reveladores -que ele vai coligindo a sua ciência. Sabe pelo que esgaravata no lixo. E doutor -em roupa suja. (...)E o amor, o casamento, a virgindade, a maternidade, o pudor,o adultério, a mulher, saias e consciências, tudo foi sacudido, revolvido,remexido, voltado ao sol, e exposto à vil publicidade como um guarda-roupa natristeza de um leilão. Ora a conclusão da questão era estranha: tratava-se dedecidir, a sangue-frio, com argumentos e boa gramática - se os maridos deviammatar suas mulheres. O Sr. Dumas tinha dito com o charuto na boca, folheando aBíblia - mata-a! Outros, fechando a navalha no bolso, diziam generosamente: nãoa mates. Alguns vaudevillistas ensinavam entre um bock e uma pilhéria -vai-amatando sempre! E outros acrescentavam, expondo que era necessário estudarmais a questão e consultar dicionários: por ora não a mates! E no entanto, de facana mão, os maridos esperam. 70.69Os Dez Mandamentos ou o Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia,teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. Asexta lei dita: Não matarás.70QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Cap.XXXIII: O problema do adultério, Outubro de 1872. P.361.
  • 35. 42Em 1878, não por acaso, Eça publica O primo Basílio, que traz à discussãojustamente a questão de o marido traído ter o direito de lavar a própria honra como sangue da esposa adúltera. Para tanto, cria um intertexto com a peça teatralHonra e Paixão, que logo no início do romance levanta a questão do direito domarido traído matar a esposa.Em princípio, um leitor desavisado pode ser levado a acreditar que Eçadefendia a idéia de que a honra devesse ser lavada com sangue. Mas, aoobservarmos o recorte do artigo publicado seis anos antes, veremos que a realintenção de Eça era outra. Ou seja, a de discutir principalmente o que levava umamulher a cometer o adultério e, com isso, implementar mudanças para que casoscomo o ocorrido em Paris, que gerou a morte brutal de uma mulher, fossemtratados mais seriamente, com punições à altura do crime cometido e não comuma pena de apenas cinco anos de prisão, como foi o caso.Paralelamente, empolgados pela experiência da Comuna de Paris, osmembros do Cenáculo português concebem as Conferências Democráticas doCasino Lisbonense, com o intuito de despertar a elite portuguesa do queentendiam ser a sua total letargia em relação ao que se passava no restante daEuropa. As conferências só duraram os meses de maio e junho de 1871, proibidas, então, pelosórgãos oficiais. Nelas, Eça apresenta “A nova literatura: o realismo como nova expressão da arte”, cujo textooriginal desapareceu, tendo sido posteriormente reconstituído a partir dos comentários saídos na imprensa. Éa primeira vez que Eça pronuncia-se de forma explícita em favor do que ficou conhecido como estéticarealista, ou naturalista, oriunda do meio literário francês.Após a publicação da primeira versão em livro de O crime do padreAmaro (1876), Eça, inspirado em empreitadas de grande envergadura, como a“Comédia Humana”, de Honoré de Balzac, ou “Rougon-Macquart”, de ÉmileZola, concebeu suas “Cenas da vida portuguesa”, que visavam retratar asociedade portuguesa proveniente da Monarquia Constitucional, estabelecida após1834, quando toma o poder D. Pedro IV de Portugal, ou D. Pedro I do Brasil.Para tanto, concebeu o plano de realização das seguintes obras: A Capital,O milagre do vale de Reriz, A linda Augusta, O rabecaz, O bom Salomão, A casan.16, O gorjão, Primeira dama, A ilustre família Estarreja, A assembléia da Foz,O conspirador Matias, A história de um grande homem, Os Maias. Umapassagem de olhos por sua obra, no entanto, é suficiente para constatar que ostextos que Eça escreveu não correspondem, em sua maioria, àqueles inicialmenteprogramados. O primeiro romance que publicou, como já observado, foi O crime
  • 36. 43do padre Amaro, publicado em 1875, na Revista Ocidental, depois em forma delivro em 1876 e finalmente em 1880, com a revisão definitiva. Em meio àcomplicada gênese desse texto, escreveu e publicou O primo Basílio (1878). Aeste se seguiram O mandarim (1880), A relíquia (1887), Os Maias (1888), Acorrespondência de Fradique Mendes (1890), A ilustre casa de Ramires (1901) eA cidade e as serras (1901), sendo que estes dois últimos não chegaram a ser publicados integralmenteem vida.Como se constata, as “Cenas da vida portuguesa” não saíram como tinham sido planejadas.Importa, entretanto, que o essencial do projeto de fato se concretizou. Se tomarmos apenas os romancespublicados por Eça, veremos ali um retrato do liberalismo político e econômico que caracterizou a monarquiaconstitucional estabelecida em Portugal.A versão definitiva do romance O crime do padre Amaro, de 1880, traz como subtítulo“Cenas da vida devota” e faz o retrato crítico do forte poder que a Igreja ainda tinha em Portugal,demonstrando a distância que existia entre o discurso liberal e anticlerical, propalado pela imprensa de Leiria,e o efetivo apoio que esta, no decorrer da trama, acaba dando à corrupta dominação do clero.Em O primo Basílio, que tem por subtítulo “Episódio doméstico”, vemosretratada a pequena burguesia lisboeta, com todas as suas veleidades, oradeslumbrada pelo glamour das grandes metrópoles européias, como Paris ouLondres, ao modo de Luíza, ora embebida de um nacionalismo estreito e tacanho,ao modo do Conselheiro Acácio. É uma classe que não tem valores bemdefinidos, sendo a condição feminina um lugar privilegiado para se constatar sua falta de referências. Daío fim a um só tempo trágico e melancólico da protagonista Luísa, pois o discurso liberal em torno dacondição feminina não tem nem entendimento claro, nem lastro na realidade.Já Os Maias, subtitulado “Episódios da vida romântica”, retrata a vida de uma família aristocráticade Portugal que, apesar da mais velha e da mais nova gerações serem bem formadas nos valores liberais, nãochegam a concretizar os seus projetos, gerando um descompasso entre o que se pensa e o que se faz. Afatalidade presente no incesto entre os irmãos Carlos e Maria Eduarda transforma o que era tragédia, nomundo clássico, em acaso e comportamento cultural, no tempo histórico do romance, demonstrando que oliberalismo serviu, junto às elites portuguesas, para derrubar tabus sem colocar nada no lugar.Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo realismo foi a de resolver arelação conflituosa e ao mesmo tempo ambígua entre a verossimilhança dos fatose a verdade dos personagens que os vivenciam.O romance O primo Basílio é exemplo do realismo de escola em línguaportuguesa. Um realismo programático (fechado em moldes rígidos), no qual odrama do adultério cometido por Luisa e sofrido por Jorge é encenado comocentro da estrutura narrativa.Nesse romance, a crítica de Eça é de cunho social e moral, e até certoponto do modelo educacional sofrido pelas jovens da pequena burguesia, como já
  • 37. 44havia feito nos artigos publicados nas Farpas e compilados mais tarde em UmaCampanha Alegre. Como podemos observar, a tarefa dos intelectuais portuguesese, em particular, a de Eça de Queirós, foi a de transformar um país, sob os maisdiversos pontos, atrasado, tendo como base o modelo francês de modernidade. Foinesse sentido que Eça empunhou sua pena, ora como um intelectual militante eliberal, ora como um autor que usava a arte para defender suas teses.Mas, sua produção irá sofrer influências conservadoras Proudhon, que deforma radical aborda a temática de gênero. Em 1858, ao falar sobre o "sexomacho", o autor francês afirma solenemente que "o sexo masculino é o produtofinal da elaboração embrionária para uma destinação superior"71, restando àmulher uma posição secundária e opaca.No desenho de sociedade libertária proposta pelo autor francês, que ficoufamoso ao escrever um ensaio intitulado O que é a propriedade, em 1840, no qualafirma de forma categórica que “a propriedade é um roubo”, não se pode ofuscarem nome do citado "contexto da época" – figuras como Michelet e Zola, cujodesprezo pelas mulheres ocupava um espaço privilegiado em suas produções,minando muitas vezes a criação genial ou a vontade de generosidade de autoresseus contemporâneos – a posição reacionária de Proudhon no que se refere a umaposição inferior das mulheres, comparando-a a uma propriedade do homem.Uma grande contradição existe entre a sociedade libertária proposta peloautor e o discurso apologético da organização hierarquizada da família. Nosistema associativo proudhoniano, o indivíduo encontra a mestria do processo detrabalho, renunciando ao projeto culpabilizador de dominar seu próximo. Mas oreconhecimento da ilegitimidade encontra seus limites logo que se trata deorganizar a família. A família proudhoniana é monogâmica e o marido, como umpai, tem o mesmo poder do "pater familias", à maneira antiga. Assim, explicandoos casos nos quais o marido poderá matar sua esposa, segundo o rigor da leipaternal. O autor aponta seis situações justificáveis: " o adultério; a impudicícia; atraição; a bebedeira e leviandade; a dilapidação e roubo, e a insubmissãoobstinada, imperiosa, com desprezo"72.71PROUDHON, Joseph. La pornocratie ou les femmes dans les temps modernes. Paris, Lacroix.1976. P. 163.72MAUGUE, Annelise. L’identité masculine en crise. Paris, Rivages/Histoire. 1987. P. 131.
  • 38. 453O adultério em O primo Basílio e em Honra e PaixãoApesar da polêmica à ortodoxia naturalista de O primo Basílio, o romance,publicado em Fevereiro de 1878, entre a segunda e a terceira versões de O crimedo padre Amaro, apresenta algumas características da narrativa de tese naturalista,sobretudo no que foi considerado a sua primeira intriga73.Machado de Assis, criticando a inanidade do caráter de Luisa e o aspectofortuito da descoberta e da chantagem feita por Juliana, observou:Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação ou demonstra com elealguma tese, força é confessar que não conseguiu, a menos de supor que a tese ouensinamento seja isto: - a boa escolha dos fâmulos (serviçais) é uma condição depaz no adultério74.73Carlos Reis divide a ação em duas intrigas: a do adultério (até à partida de Basílio) e a dachantagem que Juliana exerce sobre Luísa, analisando, na primeira, os fatores causalidade quenascem de uma visão naturalista-determinista e explicando que a segunda intriga já não dependedesse ponto de vista pela “necessidade de morigeração pela morte de uma personagem (Luísa)que o adultério só por si não destruíra” (A temática do adultério n’O primo Basílio, Coimbra,INIC, Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982, pp. 125-126). Nestasduas intrigas temos, no adultério e nos sonhos românticos de Luísa, a representação da paixão, e,no calvário a que foi submetida e que culminou com sua morte, temos a representação da honra,lavada não propriamente com o sangue da adúltera, mas com o seu brutal arrependimento, com avitimização de seu corpo doente que acaba por não resistir aos ataques a que foi submetido. Alémdisso a honra também foi lavada, nesse romance ,com a tortura de Juliana e a queima das cartas.74MACHADO DE ASSIS, José Maria, “Eça de Queirós: O primo Basílio”. In: Construção daLeitura, apud Alberto Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado?: Um estudo sobre Eça deQueirós, 2ª. Edição revista, Lisboa, Editora Presença Martins Fontes, 1979, p 160-161.
  • 39. 46No entanto, Ramalho Ortigão tinha razão quando mostrou que a moral dolivro não estava no que hoje se considera a sua segunda intriga, mas na primeira:O ser Luísa [...] castigada por meio de uma morte aflitiva é um fato acessório,que não conteria senão esta moral negativa, se dele quisesse extrair uma moral:que para evitar a morte por desgosto se deve atender no adultério a que sequeimem as cartas.A moral deste livro não está em que a prima de Basílio morre depois da queda:está em que ela – não podia deixar de cair75.Para Ramalho, o romance é “um fenômeno artístico revestindo um casopatológico” que documenta a “dissolução dos costumes burgueses”, de que o maiscaracterístico sintoma é a “falsa educação”. Uma educação, segundo Ramalho,voltada para o culto das aparências, orientada com a leitura de jornais noticiosos,revistas de modas e romances românticos, sem noções úteis à vida doméstica, semverdadeiros fundamentos religiosos ou morais que, segundo o autor, fazem comque a mulher casada, sem conseguir “realizar os seus sonhos de leitora deromances e de freqüentadora dos dramas do Teatro D. Maria, seja uma vítimafatal do dandy moderno”.Em grande parte das obras naturalistas, a educação deficiente é apontadacomo a principal causa de uma “fraca formação moral” e pela criação deexpectativas romanescas, provocadas por leituras ultra-românticas que, segundoEça de Queirós, levam as heroínas a tentar representar na vida as situações deamores ilegítimos e exacerbadamente idealistas que vêem romanticamentedescritas nos romances lidos.Nos artigos: “As meninas da geração nova em Lisboa e a educaçãocontemporânea” e “O problema do adultério”, publicados em As Farpas, queapresentam estreitas semelhanças com a educação recebida por Luisa, Eçaenfatiza :Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. Não pela ginástica - isso agoraapenas começa vagamente, como uma imitação inglesa -mas pela toilette: ensina-se-lhe a vestir, estar, andar, sentar-se, encostar-se com todas as graças parasensibilizar, dominar as atenções, ser espectáculo, vencer o noivo. Ensina-se-lhea arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros; o bordado é a maisperniciosa excitação da fantasia: sentada, imóvel, curvada, picandodelicadamente a talagarça, o voo inquieto das imaginações e dos desejos palpita-lhe em roda, como um enxame de abelhas: e é isto o que perde as rosas, como diz75ORTIGÃO, Ramalho e Queirós, Eça, As Farpas, ed. Cit., 3 série, tomo II. Fevereiro a Maio de1878. P.63.
  • 40. 47um velho poeta ascético: é porque a rosa não pode fugir, andar, sacudir o enxame,que é ela sempre ferida no cálice.76No tocante ao romance O primo Basílio, Eça deixa claro, na resposta àcrítica de Teófilo Braga, que não pretendera atacar a instituição da família lisboetatal como ela se organizava e vivia:[...] eu não ataco a família – ataco a família lisboeta produto do namoro, reuniãodesagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centrode bambochata. O primo Basílio apresenta, sobretudo, um pequeno quadrodoméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: asenhora sentimental, mal-educada, nem espiritual (porque, Cristianismo, já o nãotem; sanção moral da justiça, não sabe o que isso é) arrasada de romance, lírica,sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamentopeninsular, que é ordinariamente a luxuria nervosa pela falta de exercício edisciplina moral, etc. – enfim, a burguesinha da Baixa77.Estes vetores são veiculados logo no primeiro capítulo da obra, que faz aapresentação do quadro doméstico que se vai desestabilizar por efeito doadultério, juntamente com as principais causas da queda de Luisa. Na estruturaçãoda ação, a analepse sobre o passado da protagonista é um importante veículo paraidentificar as causas que determinarão o adultério, sobretudo com referência àsleituras românticas e às expectativas por elas criadas.Era “A Dama das Camélias”. Lia muitos romances [...]. Em solteira, aos dezoitoanos, entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver numdaqueles castelos escoceses [...] ; e amara Ervandalo, Morton e Ivanhoé [...]. Masagora era o moderno que a cativava: Paris, as suas mobilias, as suassentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. De Camors e oshomens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas umbreiras das salas de baile,com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes.Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infelizdava-lhe uma melancolia enevoada: via-a alta e magra, [...] os olhos negroscheios da avidez da paixão e dos ardores da tísica; nos nomes mesmo do livro [...]achava o sabor poético de uma vida intensamente amorosa e todo aquele destinose agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes, aflições dedinheiro, e dias de melancolia no fundo de um coupé [p.18].78Esta citação representa bem a imaginação sentimental de Luísa. O fato dese apaixonar pelas personagens dos romances que lê e de transpor para a realidadeas figuras e situações romanescas é uma das marcas desse tipo de imaginação.76QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. P. 377.77Carta a Teófilo Braga datada de 12 de março de 1878, in Eça de Queirós, Correspondência, ed.Cit., vol.I. P. 134.78QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.18.
  • 41. 48Retirada dos romances, a sua imagem do homem ideal encontrará correspondênciano magnético olhar de Basílio e nas palavras sublimes com que também ele seconfessará “devorado de paixão”. Nos seus braços procurará “uma vidaintensamente amorosa” e com amores ilegítimos, como aqueles vividos porMargarida Gautier.A precariedade da vida79, com a desestabilização da sua própria existência,parecer-lhe-á poética, tal como “as noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias demelancolia” da Dama das Camélias. A sua própria vida também será determinadaMais tarde, quando Basílio arranja o “ninho”, “aquele ‘Paraíso’ secreto,como num romance, lhe dava a esperança de felicidade excepcionais”80.Deslocando-se para o primeiro encontro no local secreto, a imaginação romanescade Luísa fará com que ela imagine um espaço de luxo e bom gosto que contrastacom o “Paraíso” que de fato é oferecido a ela:Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com umaestremecimentozinho de prazer, lá, enfim, ter ela própria aquela aventura que leratantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que iaexperimentar sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, osegredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparatoimpressionava-a mais que o sentimento e a casa em si interessava-a, atraia-amais que Basílio! Como seria? (...) lembrava-lhe um romance de Paulo Féval emque o herói, poeta e duque, forra de cetins e tapeçaria o interior de uma choça (...)! Conhecia o gosto de Basílio – e o “paraíso” decerto era como no romance dePaul Féval.81Desde os tempos medievais, casos de adultério podiam assumir proporçõesperturbadoras, particularmente nas camadas menos privilegiadas. Se, por um lado,esses casos eram marcados pela ética cavalheiresca, por outro, eram determinadospela mão de ferro da religião, em cujo sistema de alianças matrimoniais a mulhere sua fidelidade possuíam um valor de primeira ordem. E em alguns momentos, a79No artigo “As meninas da geração nova de Lisboa e a educação contemporânea”, Eça diz: “Hámuita gente ingênua que supõe que uma grande consideração para a mulher” – é o terror dacatástrofe. Pueril ingenuidade. Nada tem um encanto tão profundamente atraente como acatástrofe. Ela satisfaz o desejo mais violento da alma – palpitar fortemente” – Uma CampanhaAlegre, ed. Cit., p.341.80QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 190.81Ibidem. P. 195.OBS.: No artigo “O problema do adultério”, Eça enumera os elementos do “aparato” que, para ageneralidade das mulheres, significa “ter um amante”, em que se inclui um pormenor que agrada aLuísa em A Dama das Camélias: “a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupê”. Emconclusão, afirma Eça: “O homem, amam-no pela quantidade de mistério, de interesse, deocupação romanesca que ele dá à sua existência. De resto, amam o amor. (Uma Campanha Alegre,ed. Cit, pp 393-394).
  • 42. 49literatura cortês e a poesia trovadoresca chegaram a estetizar uma determinadaforma de amor que, por vezes, combinava a paixão abstrata ao amor adúltero deum trovador por sua Dama, que era casada e inatingível. Essa situação misturavatanto a honra da família, quanto a paixão-amor de uma mulher versus paixão-moral do homem traído. Colocar em cheque a honra de uma mulher casada e,sobretudo, do seu marido, era perturbar gravemente a ordem cavalheiresca, sejano seu aspecto moral, seja no seu aspecto prático.O cavalheiro medieval vivia em um mundo onde a sua imagem deveria sercultivada zelosamente, particularmente nos aspectos que envolviam questões dehonra, e deste zelo pela imagem cavalheiresca dependia não apenas o equilíbriodas relações horizontais do cavalheiro com outros nobres e cavalheiros, mastambém as relações verticais relativas aos seus subordinados e dependentes. Emvista disto, a literatura medieval também está repleta de exemplos que impõemaos seus leitores a valorização da fidelidade e a brutal depreciação das práticasadulterinas. Dos romances de cavalaria às crônicas e às fontes literárias a partir deentão, é farto o material narrativo que tematiza o adultério como um fatorperturbador da ordem social.É sabido que a temática de uma obra só pode ser compreendidaplenamente quando tomada em seu contexto. Ao se proceder a uma análisetemática, é preciso, antes de tudo, perceber a forma de abordagem e o que podeser observado nos subtemas, isto é, nos detalhes que compõem a visão geral dotema sobre o qual a obra se baseia. São, pois, essas minúcias que, aos poucos, vãojustificando a idéia e o argumento principal do texto de Eça de Queirós em Oprimo Basílio.Assim, nesse romance, o tema do adultério feminino é explorado: Luisa,mulher jovem e bela, na ausência do marido que viaja para o interior de Portugal atrabalho, envolve-se com Basílio, seu primo e ex-noivo que partira para o Brasillogo após a falência de sua família, rompendo seu compromisso por carta. Defato, a obra estampa uma realidade em que a independência feminina não éreconhecida; basta observar como a personagem Leopoldina era vista, ou como assaídas de Luisa recebiam comentários maldosos dos vizinhos. A mulher, nessecontexto, devia ser um exemplo de virtude, verificável em sua fidelidade esubmissão ao homem, dedicação à família, cuidados com a casa e recato, como seobserva na seguinte passagem:
  • 43. 50Mas Luisa, a Luisinha, saiu muito boa dona da casa: tinha cuidados muitosimpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como umpassarinho amigo do ninho e das carícias do macho; e aquele serzinho louro emeigo veio dar a sua casa um encanto sério.- É um anjinho cheio de dignidade! – dizia então Sebastião, o bom Sebastião,com a sua voz profunda de basso.82Este retrato da mulher de família, em oposição às atitudes tomadas porLuisa a partir de seu reencontro com Basílio, é qualificado pelo autor como um“acto fatal da moral moderna”83decorrente de uma série de fatores entre os quaisse destaca a educação recebida, como podemos ver no capítulo dedicado aeducação da mulher no século XIX. A justificativa apontada, pelo intelectual eautor, é o fato de a mulher ser “educada exclusivamente para o amor”84.Para mostrar o papel da mulher nas relações familiares no contexto daobra, Eça lança mão do adultério como tema, para mostrar o ponto de vista(frustração e insatisfação) de uma criatura que não precisa ser real, mas estáambientada num contexto verdadeiro e tendo reações verossímeis e coerentes como contexto. Os motivos se engendram compondo não apenas um tema, mas o temaque irá gerenciar uma determinada linha de pensamento, já desenvolvida pelointelectual Eça de Queirós em artigos publicados anteriormente em As Farpas.O mundo de O primo Basílio corresponde às idéias acima elencadas. Háuma convergência de situações que se articulam até o momento do adultériofeminino. A casa e o mundo de Luisa em Lisboa ficam isolados do mundo,mantendo, literalmente, um microcosmo onde tudo começa a girar a partir deregras próprias e rotineiras, no qual os personagens nos são apresentados comodesinteressantes como a própria vida de Luisa. Interessante era a vida turbulentade Leopoldina aos olhos de Luisa, e a novidade da chegada de Basílio constróiuma espécie de força centrífuga que faz abalar as estruturas sólidas da casaconstruída pelos pais de Jorge. O lar e a família pequeno-burguesa necessitavamdessa solidez para tentar se perpetuar. Se fizermos um paralelo entre essa estruturafísica com a estrutura moral imposta pelo casamento veremos que a proposta deliberdade, sugerida pela possibilidade da quebra desta rotina enfadonha, irá abalar82QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 14.83QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,Capítulo XXXIII : O problema do adultério. P.344.84Ibidem. P.346.
  • 44. 51a frágil estrutura da personalidade de nossa heroína romântica e, muito mais, iráabalar a frágil estrutura da moral pequeno-burguesa da época.Nas páginas do livro O primo Basílio, o adultério, elemento básico, do queEça critica como “literatura romântica”, das anedotas divertidas e de óperasfamosas, é tratado de forma singular, ou seja, como uma espécie de desajuste aque as mulheres da baixa burguesia estariam sujeitas em função de uma educaçãodesajustada e incorreta. Tratava-se, pois, de criar um romance onde se pretendia,primordialmente, denunciar a educação portuguesa como fator determinante docomportamento das mulheres.As referências ao primeiro, embora breves, não deixam que a questão daeducação de Luisa permaneça no escuro, uma vez que dão ao leitor as indicaçõesnecessárias ao relacionamento com a formação escolar deficitária e trivial que eracostumeiramente e facultada às mulheres da sua época e condição, e que Eça eRamalho haviam criticado em As Farpas. Denunciava-se nas crônicas,igualmente, o âmbito de exaltação sentimental que se vivia nos colégios, tanto emconseqüência da formação de orientação predominantemente artística e de pendorultra-romântico como pela cuidadosa segregação sexista que fomentava naseducadas um interesse obsessivo por questões amorosas. 85Neste romance, que nos conta a história do clássico triangulo amoroso, umingrediente cruel é adicionado, o engano. Não só o engano como elemento dopróprio adultério, mas o engano vinculado a uma falsa idéia de amor, apreendidanos folhetins dos chamados romances femininos, de meados do século XIX.Eça, porém, de forma genial, acrescenta mais um atributo ao engano, o depunição, que é desenvolvido quando Luiza desperta para a realidade do não-amor,que de fato sentia por Basílio, o D.Juan desfrutador,86e se vê fadada aoarrependimento e à culpa, que a levam à morte, bem como a uma série depunições impostas por Juliana.Ainda que se pretenda ter uma neutralidade absoluta, como numdicionário, livre de qualquer escolha ou ideologia, os termos que definem oadultério esclarecem seu campo semântico e desenham seu território deproblematização. Em Aurélio Buarque de Holanda, por exemplo, é a partir da85OLIVEIRA, Maria Teresa Martins de. A mulher e o adultério nos romances O primo Basílio deEça de Queirós e Effi Briest de Theodor Fontane. Livraria Minerva. Coimbra, 2000. P.137.86SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa. Publicações Europa América.Lisboa. 1949. P.67.
  • 45. 52idéia de adulteração, de falsificação ou deformação, que poderíamos ler aexperiência da infidelidade.87Se situarmos a relação amorosa no campo do contrato, e assim colocando-a de maneira concreta no domínio das regras sociais, verificaremos que a quebradesse “contrato” irá acarretar sanções, sejam elas extremas, como a sugerida porJorge, quando indagado sobre o adultério de Honra e Paixão – a morte; sejam elaspenalidades psicológicas, como as impostas por Jorge à Luisa, quando, através deuma “não-atitude” punitiva, faz com que ela adoeça e morra. Luísa foi construídapara ser vitima de um duplo remorso, causado pelo engano em relação ao marido,a quem de fato amava, e pela assimilação de seus sonhos românticos, o que a levaa julgar amar Basílio.O personagem Ernestinho Ledesma se esgueira por todo o romance namedida em que o adultério e seus desdobramentos avançam, concretizando suapeça Honra e Paixão, finalmente encenada, na qual o último ato, inicialmentetrágico, é alterado. Numa clara alusão ao que, naquele momento, estava ocorrendoentre Jorge e Luísa, Ernestinho, que é construído como um personagemromântico, leva o seu personagem a perdoar a esposa traidora.Silviano Santiago, num texto de 1970, bastante elogioso a essa obra de Eçade Queirós, parte da criação desse personagem e, portanto, da existência de umanarrativa paralela dentro da central para fazer suas considerações:O círculo que se estabelece em torno dos personagens de ‘O primo Basílio’ e dapeça ‘Honra e paixão’ vai se estreitando cada vez mais, organizando quase quepor completo a vida imaginária de Luísa. Daquela espécie de desdobramento peloreflexo, passamos a uma forma de simbiose, onde os personagens do romanceperdem a sua identidade e se perdem nas máscaras dos personagens da peça deErnestinho, atores que são (...)88Como sabemos, O primo Basílio se inicia com uma cena de leituradoméstica, como que oferecendo uma pista de que haveria, ao longo do texto, umaquantidade significativa de referências à leitura e à literatura. A Luísa de Eça foi,inclusive, muitas vezes comparada a Emma de Flaubert, colocadas, ambas, comovítimas de um tipo de leitura excessivamente sentimental e capaz de gerar umpermanente e incurável sentimento de frustração diante da realidade tão menos87BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionário Eletrônico do século XXI.88SANTIAGO, Silviano. “Eça, autor de Madame Bovary”. In: Uma Literatura nos Trópicos. SãoPaulo: Editora Perspectiva, 1978. P. 61.
  • 46. 53arriscada que a ficção. Com certeza há indícios para essa comparação, embora asreferências à leitura não se restrinjam a essa personagem. Um deles se revela já notítulo do texto de Silviano Santiago, pois, ao chamá-lo de “Eça autor de MadameBovary”, o professor aponta para o rumo de suas reflexões: a apropriação de umaobra já existente para, a partir dela, rediscutir noções como a de originalidade e deliberdade de criação. Para isso, o ponto de partida é o conto de Jorge Luis Borges,Pierre Menard, autor do Quixote. Nessa obra, Borges, ao colocar seu personagemescrevendo um texto rigorosamente igual ao de Cervantes, cuja única diferençaseria externa a ele, ou seja, apenas o nome do autor estabeleceria a existência deum novo significado, aproxima sua construção de um ensaio teórico.Em outras palavras, Borges atualiza, primeiramente, a mais antiga dasdiscussões no âmbito dos estudos literários: o que é literatura? A partir dessa,outras questões vão sendo colocadas de forma muito sutil, na esteira das quaisSilviano Santiago chega a O primo Basílio para concluir que a obra de Eça[...] deixa clara, não sua dívida para com Flaubert, mas o enriquecimentosuplementar que ele trouxe para o romance de Emma Bovary; se não oenriquecimento, pelo menos como ‘Madame Bovary’ se apresenta mais pobrediante da variedade de ‘O primo Basílio.’ 89Para o crítico, interessado nas relações entre culturas dominantes edominadas, Eça se utiliza do modelo para subvertê-lo de um modo muito criativo,e este é um argumento mais do que suficiente para afirmar a sua independência.Eça constrói seu texto tendo como pano de fundo não apenas a obra deFlaubert, mas estrategicamente integra ao próprio texto um processo utilizado naconfecção de escudos: a reprodução, em miniatura, do conjunto do escudo em umponto central. Velásquez usou essa estratégia na pintura, assim como Shakespeare,em Hamlet. Ou seja, O primo Basílio comprova o argumento central de SilvianoSantiago de que as chamadas culturas dependentes conseguem estabelecer umdiálogo produtivo e subversivo com aquelas que tentam dominá-las90.89Ibidem. P. 52.90Gustave Flaubert escreveu em 1837, quando tinha, portanto, dezesseis anos, uma novelaintitulada Passion et vertu (Paixão e Virtude), considerada uma espécie de germe de MadameBovary. No texto do jovem Flaubert, igualmente temos uma senhora casada seduzida por umaespécie de D. Juan que lhe empresta romances, leva-a ao teatro, enfim, mostra uma vida diferente,com atividades até então desconhecidas daquelas tediosas a que ela estivera acostumada, o que otorna também uma pessoa muito diversa daquelas com as quais ela já se acostumara. Como se vê,há muitas semelhanças, mais uma vez, entre também essa obra de Flaubert e a de Eça e refiro-meagora não apenas a O primo Basílio, mas também ao drama de Ernestinho. Além da semelhança do
  • 47. 54Esse aspecto não é nosso foco neste estudo, assim como não estamosdiretamente interessados no mapeamento das cenas em que o exercício da leitura,com todas as suas implicações, é mostrado no romance. Até porque esselevantamento já foi apontado por outros e rigorosamente feito pela professoraMaria do Rosário Cunha, de modo que não há como negar o quanto Eça esteveinteressado em figurar, através dos hábitos de seus personagens, as mudanças nomodo de produzir e de consumir literatura.Estamos mais interessados no fato de que se a criação do personagemErnestinho sustenta a grande transgressão de Eça em relação ao modelo francês,como apontou Silviano Santiago, há um outro aspecto que envolve essepersonagem não diretamente analisado no texto “Eça, autor de Madame Bovary”,para o qual dirigimos nossa atenção. Para o crítico brasileiro, Eça optou porrevelar os impactos da experiência com o adultério na exterioridade da peça, asreações dos personagens em Honra e paixão substituem, em boa parte, aexploração do mundo interior dos envolvidos. Para além disso, e aponto para ocentro de meus interesses, há um grande investimento de Eça em figurar, atravésde Ernestinho, os bastidores da escrita. Os limites impostos aos desejos criativosdesse escritor são representados por meio da vontade do produtor da peça, mastambém das reações daqueles para quem o texto é lido em primeira mão.Relembremos Viagens na minha terra, de Almeida Garrett e o Vinte horasde liteira, de Camilo Castelo Branco. Em especial o capítulo cinco da primeiraobra e, mais genericamente, as conversas de Antonio Joaquim com seu amigoescritor, no segundo romance: temos aí explanações didáticas e também divertidassobre a escrita e seus mistérios. Esses autores não apenas narram acontecimentos,experiências vividas por seus personagens, mas também exercitam a auto-reflexãode que nos fala Compagnon91, inserem os tais manuais de instrução em seus textostítulo, o protagonista de Passion et vertu chama-se Ernesto. O fato é que é impossível saber se Eçaleu esse texto de Flaubert, embora essa informação não seja de modo algum preponderante numaabordagem como a que realizamos aqui. Acrescentamos esse dado apenas para ressaltar que, nonosso entender, embora o estudo das fontes seja importante e necessário, há o risco de não sechegar a lugar nenhum ou, ao contrário, de se chegar a tantos e diferentes lugares que já nãosaberemos mais onde nos encontramos. Só para apimentar a questão, é preciso lembrar que oenredo de O primo Basílio de certa forma anuncia o que estará presente no conto No moinho,publicado em 1880, dois anos depois, portanto, de a narrativa de Luísa, Basílio e Jorge ter sidorevelada. Há informações mais detalhadas sobre a relação entre Eça e Flaubert no Suplemento aoDicionário de Eça de Queiroz, nas páginas 175-179.91COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG,1990.
  • 48. 55de forma bastante explícita. Assim como em O mistério da estrada de Sintra e nasoutras obras sobre as quais não nos deteremos, Eça, em O primo Basílio, tambémenxerta um manual de instrução.É claro que o faz de modo bem menos explícito que os outros dois autoresaqui citados, o que revela uma opção diferenciada. Apenas o leitor um pouco maisatento que a média daquele que Eça chamou de “uma multidão azafamada e toscaque se chama ‘o Público’” 92compreenderia a importância de Honra e paixão. Emoutras palavras, o terrorismo teórico, espécie de febre da qual não foi possívelescapar, gerou reações um pouco diferentes nos, digamos assim, acometidos dadoença. Nenhuma delas, adversa. Pelo contrário, Eça, por exemplo, apresentareações consistentes e ao mesmo tempo engraçadas. Mas, antes de refletir umpouco mais sobre Ernestinho, é preciso lembrar que há outros escritores em Oprimo Basílio. No capítulo quatro, temos um poeta, de maneira quaseimperceptível, em meio a uma minuciosa descrição dos personagens presentes nolocal em que Luísa propositadamente encontra Basílio, num passeio com D.Felicidade. O modo como é descrita essa galeria de tipos estabelece de imediatoum contraste produtivo entre eles e o poeta:E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças cor de flor dealecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante coma cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabelo riçado, demovimentos gingados que lhes desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazendado vestido atabalhoado; um eclesiástico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca,e lunetas defumadas; uma espanhola com dous metros de saia branca muito rija,fazendo rugeruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão ebengalão de chapéu na nuca, o olho avinhado (...)93.Se, por um lado, a adjetivação destinada ao poeta é exígua, por outro, ele éo único nomeado entre os vários, devidamente acompanhado de um artigodefinido, dados que lhe conferem o que os outros não possuem: individualidade.A cena, se vista isoladamente, poderia até ter sua importância questionada,mas em conjunto com outras, ganha significado e relevância diferenciados. Nocapítulo seguinte, durante uma conversa íntima entre Leopoldina e Luisa, ficamossabendo que o atual amante da primeira é também um poeta:92QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.. Rio deJaneiro: Nova Aguilar, 2000. Vol. III. P.1791.93QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 51.
  • 49. 56Leopoldina esteve um momento calada; mas o ‘champagne’, a meia obscuridadederam-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-semais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar ‘dele’. Era ainda oFernando, o poeta94.Aqui temos uma diferença em relação ao poeta do capítulo anteriormentecitado. Trata-se agora de uma designação particular, feita apenas pelapersonagem, e não de caráter público, efetuada pelo narrador, como a dopersonagem Xavier, de modo que pode ser apenas uma forma de Leopoldinacaracterizar um possível sedutor bem falante e não necessariamente um escritor.Mesmo que assim fosse, já que não podemos ter certeza, permanece aimportância, pois se evidencia o papel social ocupado pelo homem de letras,mesmo que apenas de fachada; fica reforçada a necessidade vivida pelos escritoresda afirmação da literatura como uma nova instituição.Como observou Carlos Reis, “O tempo cultural em que Eça viveu eescreveu romances, em que projectou uma certa imagem do escritor, testemunhouo avanço e a (difícil) imposição deste conceito”95. Assim, Xavier e Fernando sesomam a muitos outros, em muitas outras obras, para quem a escrita cumprefunções muito práticas, como é o caso, ainda em O primo Basílio, de outroescritor citado. Trata-se do conselheiro Acácio, autor de guias como Descriçãopitoresca das principais cidades de Portugal e seus mais famososestabelecimentos, volumes que lhe valem muita fama e prestígio.Todavia, é no segundo capítulo que temos a primeira aparição deErnestinho, que também se intitula escritor e, como já dito, exerce em O primoBasílio uma função muito mais relevante que Xavier, Fernando e o conselheiroAcácio, autores apenas de circunstância, embora realize esse ofício de formabastante distinta dos exemplos já aqui citados, presentes em outras obras.Diferentemente de Artur Corvelo, de Tomás de Alencar e de Fradique Mendes,Ernestinho possui outra profissão: é funcionário da alfândega e, apenas nas horasvagas, escreve. Artur, na verdade, alterna períodos em que trabalha na farmácia deOliveira de Azeméis e outros em que, por conta de pequenas heranças, podededicar-se exclusivamente à escrita. A respeito de Alencar, o romance não ofereceinformações sobre a fonte de seus rendimentos. Já as posses de Fradique, frutos94Ibidem. P. 95.95REIS, Carlos. “A temática do adultério nO Primo Basílio”. In: Construção da leitura. Ensaiosde metodologia e de crítica literária, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica /Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982. P.19.
  • 50. 57também de heranças, permitem-lhe uma existência em que a palavra trabalhopouco significa.Ernestinho é primo de Jorge, o dono da casa em que acontecem muitasreuniões. Num desses encontros Ernestinho nos é apresentado:Ultimamente trazia em ensaios nas ‘Variedades’ uma obra considerável, umdrama em cinco atos, a ‘Honra e paixão’. Era a sua estréia séria. (...) Escreviatodavia por paixão entranhada pela Arte – porque era empregado na alfândega,com bom vencimento(...).Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo: era uma mulher casada. EmSintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. Omarido arruinado devia cem contos de réis ao jogo! Estava desonrado, ia serpreso. A mulher, louca, corre a umas ruínas acasteladas, onde habita o conde,deixa cair o véu, conta-lhe a catástrofe. O conde lança o seu manto aos ombros,parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem. – É uma cenacomovente, dizia, é de noite, ao luar! – O conde desembuça-se, atira uma bolsade ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: saciai-vos, abutres!...(...)Enfim – acrescentou Ernesto, resumindo – aqui há um enredo complicado: oconde de Monte-Redondo e a mulher amam-se; o marido descobre, arremessatodo o seu ouro aos pés do conde, e mata a mulher96.A entrada de Ernestinho na trama falando aos freqüentadores da casa deJorge sobre sua peça serve de texto paralelo aos acontecimentos que o narrador deO primo Basílio teria que desenvolver e, de certa forma, discutir com os demaispersonagens e os leitores.Eça realiza aqui uma espécie de figuração do público a que se referirá maistarde no prefácio à obra do Conde de Arnoso, pois metonimicamente as pessoasque freqüentam a casa de Luísa e de Jorge representam o que o dramaturgo teriade enfrentar lá fora. O fato de serem personagens tão diferentes também confereamplitude à cena, inclusive no que diz respeito à advertência do autor de que“aqui há um enredo complicado”, como se fosse preciso prepará-los para umapossível complexidade, fosse ela em termos de estratégias textuais, fosse ela emtermos morais.Lá está o médico pobre Julião Zuzarte, que se julga muito inteligente,muito acima de todos os outros e justamente por isso ressente-se da vidamiserável que leva, quando em comparação ao conforto dos outros, consideradospor ele medíocres. Entre os que Julião despreza está o Conselheiro Acácio,pródigo em citações e dono de um empolado vocabulário.96QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 24.
  • 51. 58Também freqüentador dos animados serões, embora nos seja apresentadoapenas depois da primeira referência a Ernestinho e a sua peça, temos Sebastião,amigo íntimo de Jorge, incumbido de cuidar de Luísa durante a ausência domarido, período em que se dará praticamente toda a trama. Sebastião é opersonagem com quem o narrador é mais condescendente. Para ele, só há elogios,o oposto do que ocorre com os outros freqüentadores. Representante do públicofeminino, D. Felicidade de Noronha, robusta senhora que fora amiga da mãe deLuísa, há cinco anos freqüentava a casa porque ama o Conselheiro Acácio eespera, pacientemente, que ele perceba seus interesses amorosos e tome algumaatitude.À exceção de Jorge, todos os presentes nessa primeira aparição deErnestinho reagem negativamente à idéia de que o marido deveria assassinar aesposa traidora, concordando com o desejo do produtor da peça que pedira aalteração do final. O conselheiro não apenas concorda como também se justifica:“A falar a verdade – disse o conselheiro – a falar a verdade, senhor Ledesma, onosso público não é geralmente afeto a cenas de sangue”97. A expressão dopersonagem não apenas sintetiza a nova configuração que o discurso literáriovinha gradativamente assumindo, a de obedecer ao gosto do público, comotambém anuncia ao leitor atento o desfecho do romance.Depois de os leitores serem apresentados à peça, ainda em forma derascunho, toda a trama do adultério de Luísa e suas implicações serãodevidamente acompanhadas com presença de Ernestinho e pela mudança que seprocessa no interior de Luísa. O personagem ressurgirá rapidamente no capítulosete, quando encontra Luísa a caminho do Paraíso: “Ia a afastar-se, atarefado,mas voltando-se rapidamente, correu atrás dela. – Ah! Esquecia-me de dizer-lhe,sabe que lhe perdoei? Luísa abriu muito os olhos”98. O espanto da personagemrevela a ambigüidade da cena, reforçada pela repetição do pronome “lhe”.O espanto revelado pelo olhar de Luísa diante da possibilidade ou dodesejo de ser perdoada aumenta de tal forma que, no capítulo nove, atormentadapela chantagem de Juliana, ela tem um sonho em que atua, juntamente comBasílio e Jorge, na peça de Ernestinho, todos representando a si mesmos, inclusivecom seus próprios nomes:97Ibidem. P. 2698Ibidem. P. 121.
  • 52. 59Luísa achava-se nos braços de Basílio que a enlaçavam, a queimavam; todadesfalecida, sentia-se perder, fundir-se num elemento quente como o sol e docecomo o mel; gozava prodigiosamente; mas, por entre os seus soluços, sentia-seenvergonhada porque Basílio repetia no palco, sem pudor, os delírios libertinosdo Paraíso! (...) Subitamente, porém, todo o teatro teve um ah! de espanto.(...) Elavoltou-se também como magnetizada, e viu Jorge (...) que se adiantava, vestidode luto, de luvas pretas, com um punhal na mão.99.Assim como em O mistério da estrada de Sintra, em O primo Basílio, e acena desse sonho é exemplar nesse sentido, Eça discute diante de seus leitores ostênues limites entre a realidade e a ficção. No primeiro caso, a participação dopersonagem Z que ora reclama por ter sido enganado, pois acreditara estar diantede eventos ficcionais e se vira indiretamente envolvido em crime real, ora concluiestar mesmo diante de uma narrativa ficcional. Em O primo Basílio, Eça oferece,nas reações de Luísa, a mesma confusão. A personagem, tão ansiosa por viver asaventuras dos heróis e heroínas que tantas vezes acompanhara em suas leituras, seperdia entre os eventos da sua própria vida e os das criaturas do escritorErnestinho.Mais uma vez, o manual teórico estava inserido no texto, já que o sonho deLuísa pode ser lido como uma metonímia dessa incipiente relação entre o escritore, nas palavras de Eça, “uma multidão azafamada e tosca que se chama ‘oPúblico’”100.Na última vez em que Ernestinho aparece em cena, no capítulo quatorze,através do discurso do personagem Julião, somos informados das reações à estréiade Honra e paixão:E o que me dizem da novidade? – exclamou. – A peça do Ernesto teve umtriunfo!... Assim tinham lido nos jornais. O ‘Diário de Notícias’ dizia mesmo queo ‘autor chamado ao proscênio, no meio do mais vivo entusiasmo, receberauma formosa coroa de louros’. (...)E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-sena sala: ergueram-se com ruído, abraçaram-no(...). Contou então largamente otriunfo (...). Houve uma ceia. E tinham-lhe dado uma coroa (...). – Sabes que lheperdoei, primo Jorge? Perdoei à esposa... (...) O Jorge é que queria que eu dessecabo dela – disse Ernestinho, rindo tolamente. – Não se lembra, naquela noite...– Sim, sim – fez Jorge, rindo também, nervosamente.– O nosso Jorge – disse com solenidade o conselheiro – não podia conservaridéias tão extremas. E de certo a reflexão, a experiência da vida...99Ibidem. P. 166.100QUEIRÓS, Eça de. Obra completa. Organização geral, introdução, fixação dos textosautógrafos e notas introdutórias Beatriz Berrini. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000, v.3/4. P.1791.
  • 53. 60– Mudei, conselheiro, mudei – interrompeu Jorge. 101.O leitor é convidado a associar essa cena ao fato de que fora nesse mesmocapítulo, um pouco antes dessa cena, que Jorge lera a carta de Basílio a Luisa etivera, portanto, a prova de que fora traído. Não restam dúvidas de que o leitor éinformado, através do discurso da peça de Ernestinho, do modo como seriaconstruído o romance que estava sendo lido. A confissão de Jorge, que mudara deopinião, reflete, mais uma vez em forma de metonímia, a posição daquele quedeixara de ser mero apreciador e passara à condição de consumidor.Ao inserir, portanto, a peça Honra e paixão e atribuir-lhe um grande êxitojunto ao público num romance construído em torno do mesmo tema, Eça ofereceduas possibilidades de realização. Embora não tenhamos a peça toda, é possíveldeduzir do resumo que dela Ernestinho nos oferece, assim como do trecho que elelê para os amigos no capítulo dois, que se trata de um daqueles arremedos de arte,sobre os quais Eça tanto falou.102Antes mesmo de publicar O primo Basílio, Eçajá escrevera muito a respeito da relação entre literatura e consumo. Sobre essaqualidade do autor, nos fala Maria do Rosário Cunha:Foi um leitor atento, e nessa qualidade fundamentou as apreciações críticas queconstantemente exerceu e registrou em textos de natureza programática ou emcrônicas como, por exemplo, as que nos seus primeiros anos de Inglaterraenviava para ‘A Actualidade’, constando de cada uma dessas crónicas umasecção particularmente destinada à resenha das ‘novidades literárias’. Destaforma, leu com os olhos do escritor que pondera sobre o fenómeno de que éparte activa, avaliando a beleza ou a eficácia de formas e estratégias, e leu com osolhos do crítico, especialmente atento à relação entre a quantidade e a qualidadedos produtos103.Em 1878, Eça publicou O primo Basílio, romance em que esse olharcrítico, capaz de reconhecer a diferença de qualidade entre os textos, se revelou naprática. Dirigindo-se a um público específico, consumidor de literatura e nãoapenas do texto de caráter jornalístico (embora muitas vezes o veículo fosse o101QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.223.102Alguns bons exemplos dessa preocupação são os textos “O Natal – ‘a literatura de Natal’ paracrianças”, “Acerca de livros”, “O ‘Salon”, “Ainda o anarquismo. O sr. Brunetière e a imprensa”,“Um génio que era um santo”. À exceção do último, todos os outros foram publicados na Gazetade Notícias (jornal brasileiro do qual Eça foi colaborador entre 1880 e 1897).103CUNHA, Maria do Rosário. A inscrição do livro e da leitura na ficção de Eça de Queirós.Coimbra: Almedina, 2004. P. 96-97.
  • 54. 61mesmo), o criador da trama que envolve Luísa, Basílio e Jorge, ao criar tambémErnestinho, colocou diante desse público um dos sintomas do mal-estar.A cena em que o autor de Honra e paixão conta que foi coroado, após aestréia da peça, contrasta vivamente com o silêncio de Fradique que, segundo elemesmo, jamais publicou. Lembremos que Fradique só teria autorizado queviessem a público os poemas das Lapidárias acompanhados de um pseudônimo,cuja escolha ficara a cargo do primo Vidigal. Desejo que não se realizou, pois:“[n]a redação, porém, ao rever as provas, só lhe acudiram pseudônimos decrépitose safados, o ‘Independente’, o ‘Amigo da Verdade’, o ‘Observador’ – nenhumbastante novo para dignamente firmar poesia tão nova”104e Fradique acabouaparecendo como autor de poesia tão nova. Como se vê, a atitude de autorizar apublicação dos poemas não se coaduna com as várias afirmações de que ele nãoteria nada a dizer. E, embora Eça não tenha se dado ao trabalho de reescrevê-lo, onarrador de Memórias nos informa que Fradique escreveu e publicou, porvontade própria, um outro poema. Assim, tantas justificativas para a recusa àescrita parecem merecer nossa desconfiança.Quanto às cartas, reitero que a estratégia de Eça foi criar um narrador que,em primeira pessoa, nos conta a vida de Fradique, na condição de testemunha,com vagas e rápidas participações na biografia do amigo. É este narrador nãonomeado quem se responsabiliza pela seleção e publicação das cartas, fato para oqual encontra várias justificativas. Entre elas:Escolho apenas algumas, soltas, de entre as que mostram traços de caráter erelances da existência ativa; de entre as que deixam entrever algum instrutivoepisódio da sua vida de coração; de entre as que, revolvendo noções gerais sobrea literatura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterizam o feitio do seupensamento; e, ainda, pelo interesse especial que as realça, de entre as que sereferem a coisas de Portugal (...).Mas, assim ligeira e dispersa, ela (a correspondência) mostra, todavia, emexcelente relevo, a imagem deste homem tão superiormente interessante em todasas suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de ação105.Assim, se Fradique parece não procurar deliberadamente a fama e a coroade louros que Ernestinho tanto deseja, também não é possível falar em negaçãoabsoluta da escrita, embora, segundo o narrador, ele afirme “Eu não sei escrever!104QUEIROZ, Eça de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, v.1/2. P. 18-19.105Ibidem. P. 108-109.
  • 55. 62Ninguém sabe escrever!”106. Até porque, essa afirmação se revela ambígua,quando somos informados da opinião de Fradique sobre a moda de se publicar acorrespondência de algumas figuras ilustres:Leio todas as coleções de Correspondências (...). Eis aí uma maneira de perpetuaras idéias de um homem que eu afoitamente aprovo – publicar-lhe aCorrespondência! Há desde logo esta imensa vantagem: que o valor das idéias (eportanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que asconcebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos (...). Temos depois que ascartas de um homem, sendo o produto quente vibrante de sua vida, contêm maisensino que a sua filosofia – que é apenas a criação impessoal do seu espírito. (...);uma vida que se confessa constitui o estudo de uma realidade humana, que, postaao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do homem, únicoobjetivo acessível ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestrasescritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimentosacramental da tal prosa como não há... Mas este ponto precisava ser maisdesembrulhado – e eu sinto parar à porta o cavalo em que vou trepar ao pico deBigorre!107.106QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 101.107QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto Alegre: L&PM Pocket,1997, 2 v. P.p. 105-106.
  • 56. 634ConclusãoChegar a esta página implica em colocar-se diante de uma das perenesambigüidades do desejo humano. Referimo-nos àqueles muitos momentos em quefinalmente se dá por encerrado algo que se quis muito terminar. Por outro lado,em outras ocasiões (que não são exatamente outras porque não se distinguemmuito claramente do que deveria ser a impressão anterior), nós mesmos criamosempecilhos para chegar ao ponto final: é a tentação do inacabável. Tentadora, aidéia de fim é também dolorosa. Se encerrar, revisar, imprimir e entregar é bom, éigualmente bom poder encarar o trabalho como um processo, como uma espéciede - “é quase isso, mas ainda vai melhorar”. Melhor ainda é acreditar que um diaserá possível atender às próprias expectativas. Como não há nenhumapossibilidade de que esse dia chegue, resta um misto de alegria, tolerância efrustração.Tal sensação, acreditamos e especulamos, deve ter sentido o escritor eintelectual Eça de Queirós, que como pudemos ver, participou ativamente doprocesso de desenvolvimento e modernização de Portugal numa área árdua, –como a da educação ou da cultura – lutando contra os preconceitos, a máformação das jovens portuguesas e o atraso generalizado que impedia o país deinserir-se na Europa moderna do século XIX.A luta de Eça, como pudemos observar no decorrer desta dissertação,inicialmente esteve presente nas Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.Lá encontramos dois longos ensaios em que a questão da instrução está presente,ambos datados de março de 1872. No primeiro deles, como esclarece já no início,tecerá as suas reflexões sobre a instrução pública em Portugal partindo de algumascifras. Já no segundo, faz um balanço da educação feminina, buscando traçar umretrato sociológico da jovem portuguesa.
  • 57. 64No primeiro artigo, o autor de O primo Basílio começa lamentando o fatode a instrução em Portugal estar a cargo do governo pelo descaso que o Estadotem com o ensino primário. Lamenta também o fato de a iniciativa privada nãoestar, como ocorre nas mais importantes nações européias, comprometida com ainstrução em seu país.Como exemplo desse descaso do Estado, relembra um decreto da lei de 20de setembro de 1844, que autorizava as câmaras municipais, a suas expensas, acriarem escolas primárias. Ironicamente, revela que se tal medida faria supor umanseio das câmaras na construção de escolas, apenas uma fora fundada nos quasetrinta anos de criação da lei.Como antecipa de início, todo o artigo está pautado na análise de cifrasreferentes ao estado do ensino em Portugal. Comparando as estatísticas sobre onúmero de crianças em idade escolar, número de escolas, porcentagem deaproveitamento do ensino, as conclusões a que chega são alarmantes, a ponto deequiparar a situação portuguesa aos confins africanos ver um paralelo com asituação dos cafres – “de nossos irmãos os cafres”, como tristemente Eça deQueirós lamenta:Existindo no nosso país, segundo as últimas estatísticas, 700.000 crianças, e nãosendo justo que se apertem na estreiteza abafada de uma escola mais de 50 alunos(...), segue-se que deveríamos ter 14.000 escolas...Temos 2.300!(...) Das 700.000 crianças que existem em Portugal o Estado, nessas 2.300escolas - ensina 97.000. Isto é, de 700.000 crianças estão fora da escola mais de600.000!Destas 97.000 crianças que freqüentam as escolas, sabeis, amigos, quantas seapuram prontas, por ano? Segundo as últimas inspeções - em cada 50 alunosapura-se 1 aluno!Portanto Portugal, de 97.000 crianças que traz nas suas escolas - tira por ano,sabendo os rudimentos, 1940!Mordei-vos de ciúmes, oh cafres!108O tom de indignidade está presente em toda a argumentação desenvolvidapor Eça. Mas ele não se restringe a levantar a questão. Apresenta tambémpropostas que, no seu ponto de vista, poderiam contribuir para solucionar oproblema. Ponderando, por exemplo, sobre a evasão escolar na zona rural,acredita que a solução é a criação e o fomento de escolas noturnas.108QUEIRÓS, Eça. Obra Completa. V.3. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. P.844.
  • 58. 65Entre outros aspectos que analisa está a situação do professor: odesestímulo provocado pela baixa remuneração e falta de um plano de carreira; aformação deficiente causada pela ausência de escolas normais que preparem oprofissional para o ofício, fatores esses que contribuem para a má formação doprofessorado. No balanço final que faz, apostrofa:Eis aqui o estado da instrução pública em Portugal, nos fins do século XIX. Ainstrução em Portugal é uma canalhice pública! Que o atual governo volte os seusolhos, um momento, para este grande desastre da civilização!109Já no ensaio sobre a educação feminina, Eça de Queirós parte de umaforismo: “A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães”.Por esse motivo, passa a analisar “estas gentis raparigas de 15 a 20 anos de quemnascerá, para bem ou para mal, a geração portuguesa de 1893”110. Da falta deatividade física, alimentação inadequada, sujeição à moda - perniciosa, a seu ver,por prescrever modos de vestir e pentear prejudiciais à saúde feminina -, passandopelo automatismo da educação religiosa e os equívocos da formação moral, oautor de O primo Basílio não poupa nenhum dos aspectos que considera contribuirpara a deficiente formação da jovem portuguesa, sobretudo a da capital do país.Alguns desses aspectos, aliás, ajudarão a compor algumas das personagensfemininas de sua obra ficcional, como já foi visto.Portugal não ficou indiferente a esta cruzada regeneradora e, nestacampanha, se empenharam, no séc. XIX, médicos, pedagogos e agentes de ensino.Contudo, a tarefa de mudar as mentalidades dos responsáveis pela educação,quanto à necessidade das raparigas fazerem exercício físico, por exemplo, não erafácil. Muito mais árduo, foi comprovar que a leitura de romances românticospudessem prejudicar a formação moral das jovens e, em função disto, retirá-los doprograma. Algumas mudanças foram ocorrendo gradativamente, mas nem todasforam ao encontro da totalidade das idéias defendidas apaixonadamente por Eça,em sua tribuna ou em seus romances.Cabe-nos ainda ressaltar que a estética realista defendida por Eça emoposição à romântica está presente na dualidade do título da peça de Ernestinho –Honra e Paixão. Honra como um fator mais próximo do pensamento realista e109Ibidem. P. 848.110Ibidem. 848-849.
  • 59. 66Paixão ao ideário romântico. Honra como uma força masculina e Paixão comoum sentimento feminino, ligado à dor. Por outro lado, não há porque negar ainfluência, mesmo que indireta, de Gustave Flaubert na produção literária de Oprimo Basílio. Emma e Luisa são personagens muito próximas – mulheres, ambasjovens e recém casadas, inclusas em uma sociedade machista e indiferente aoverdadeiro papel da mulher na sociedade. Papel este que deveria ir muito além dofamoso “anjo do lar” que a ideologia burguesa lhe destinara. Mas as similaridadesparam por aí, como muito bem observou o crítico literário, Silviano Santiago. Eçavai muito além. Ousa alcançar uma outra perspectiva, utilizando-se do mote dainfluência maléfica da literatura romântica, ele tentará influenciar a opiniãopública e as autoridades de seu país no sentido de fomentar mudanças na educaçãoportuguesa. Segundo o autor, a modernidade não está restrita ao olhararquitetônico ou econômico de um país, mas intimamente ligada à educação doseu povo.Para o comum leitor talvez a obra de Eça de Queirós seja apenasimportante, mas não para quem olha a literatura como um imenso oceano. Umoceano onde, por vezes, as águas se tornam ondas agitadas. E o caso do projetoque orientou o romance O primo Basílio: levar Portugal à modernidade, poracreditar que o país permanecia em águas excessivamente paradas. Ao atirar umapedra nessas águas calmas, de imediato se cria uma onda circular a partir dapedra, junto ao ponto de impacto. Então, esta onda começa a espalhar-se,atingindo as margens mais longínquas. É preciso, no entanto, que se atire aprimeira pedra. Pois é certo que, quando ocorre o descobrimento, se consolida onosso legado cultural.Parece-nos, enfim, que isso sucede com o romance O primo Basílio. Eçalança mão do universo feminino para denunciar o atraso de seu país e as causasdesse atraso – a tacanha moral burguesa. O mote do adultério estará ligado àtraição, traição cometida por uma ideologia romântica em detrimento do avançoda cultura de um país.
  • 60. 675BibliografiaABREU, José Luis Pio - Introdução à Psicopatologia Compreensiva. 2ª Edição,FCG (Fundação Calouste Gulbenkian), Lisboa, 1997.ARIÈS, Philippe.DUBY, Georges. História da Vida Privada. Vols.3 e 4. SãoPaulo. Companhia das Letras. 1991.ARISTÓTELES - Ética Nicomáquea (Traducción Y Notas por Julio PallíBonet). Biblioteca Classica Gredos, Editorial Gredos, S. A. , 1ª Edição, Madrid,1998 - Política (Tradução de António Campelo Amaral e Carlos de CarvalhoGomes), Edições Veja, Lisboa, 1998 - Traité de la Génération des Animaux ,Traduit en Français pour la première fois et accompagné de notes Perpétuelles parJ. Barthélemy-Saint Hilaire, Tome I et II, Librairie Hachette Et Cle, Paris, 1887.BARBOSA, João Alexandre. Os intervalos de Eça de Queiroz. In: QUEIROZ,Eça de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. Riode Janeiro: Paz e Terra, 1996.BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. SãoPaulo: Ed. Brasiliense, 2002.BERRINI, Beatriz. Os prefácios ensaísticos de Eça de Queirós. EncontroInternacional de Queirosianos. São Paulo, 1995. 150 anos com Eça de Queirós.Centro de Estudos Portugueses: Área de Estudos Comparados de Literaturas deLíngua Portuguesa / FFLCH / USP, 1997.BLEICHMAR, Emilce Dio - O Feminismo espontâneo da Histeria (Tradução deFrancisco Vidal). 1ª Edição, Porto Alegre, 1988.BRASIL, Luiz Antônio de Assis. As Virtudes da Casa. 4. ed. Porto Alegre:Mercado Aberto, 1997.BROWN, Peter - A Ascensão do Cristianismo no Ocidente (Tradução deEduardo Nogueira, Revisão de Saul Barata). Editorial Presença, 1ª Edição, Lisboa,1999.
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