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Um olhar sobre a temática da sexualidade e suas implicações na comunhão anglicana
 

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    Um olhar sobre a temática da sexualidade e suas implicações na comunhão anglicana Um olhar sobre a temática da sexualidade e suas implicações na comunhão anglicana Document Transcript

    • REGIS AUGUSTO DOMINGUESUM OLHAR SOBRE A TEMÁTICA DA SEXUALIDADE E SUAS IMPLICAÇÕES NA COMUNHÃO ANGLICANA Trabalho de aproveitamento do 1º semestre do curso de formação do IAET. São Paulo - 2008
    • “Era o melhor dos tempos, e era também, o pior dos tempos” Charles Dickens “O intervalo entre a decadência do antigo e a formação e estabelecimento donovo constitui um período de transição, que sempre deve ser necessariamentemarcado pela incerteza, pela confusão, pelo erro e pelo fanatismo selvagem e implacável” John Calhoun “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” Apóstolo São Paulo, Ef. 5:15-17 2
    • SUMÀRIOIntrodução..................................................................................................................... 04História e Transformação da Sexualidade................................................................... 07Bíblia e Sexualidade..................................................................................................... 16Sexualidade na Comunhão Anglicana......................................................................... 20Conclusão..................................................................................................................... 30Bibliografia.................................................................................................................... 33 Introdução 3
    • Tratar da temática da sexualidade, apesar dos inúmeros avançosacadêmicos no esclarecimento da questão e da abertura ocasionada pelarevolução sexual das décadas de 60 e 70 do século passado, causa, aindahoje, certos desconfortos em alguns grupos sociais. Esse estado acentua-seainda mais, e principalmente, quando é invocado no meio eclesiástico. Parece-me que a Igreja Cristã, nas suas diversas manifestaçõesdenominacionais e eclesiológicas, remontando sua história, do período dapatrística até os mais recentes movimentos pós ou neo-pentecostais e ascomunidades carismáticas, sempre ofereceu resistência a um diálogo abertosobre o tema da sexualidade e suas nuances, oferecendo apenas, na maioriadas vezes, regulamentações e fortes cargas doutrinárias para a observânciadisciplinar na conduta sexual dos fiéis, acompanhada de pesada condenação eculpa. O que deveria ser uma celebração prazerosa e responsável do serinteiro, corpo e alma, emoções e afetos, em sua plena liberdade, tornaram-sepor séculos instrumento de dominação e aviltamento. A Igreja Anglicana e posteriormente a Comunhão Anglicana tem sedestacado ao longo da história pela abertura e pelo diálogo em torno dediversos assuntos graças ao jeito anglicano de pensar e fazer história propostopor Richard Hooker1: Partindo das Sagradas Escrituras, voltando-se paraséculos de práticas da Igreja (tradição) e servindo-se dos instrumentais dopensamento e das ciências (razão); e por seu constante apoio e envolvimentocom os direitos humanos. Isso, sem dúvida, proporciona ocasionalmenteconvergência de idéias e práticas, ou, pelo menos, facilita o diálogo e aconvivência. Mas, pela própria diversidade da Comunhão Anglicana, isso nemsempre ocorre, principalmente em assuntos polêmicos relacionados a gênero esexualidade, como foi (ou ainda é) no caso das ordenações femininas, e hoje,especialmente, no caso das relações homoafetivas2, que têm provocado maisdesencontros do que encontros.1 Mesmo não sendo uma visão construída originariamente por Hooker, visto que nas obras de ThomasCranmer (1550) e nas do Bispo Jewel de Salisbury (1560) a tríade Escrituras, Tradição e Razão já estápresente, é de Richard Hooker o mérito de “sistematizar o método” que se apresenta com maior clarezano desenvolvimento de sua vultosa obra de oito volumes “As Leis da Política Eclesiástica”, sendo osprimeiros volumes publicados a partir de 1593. 4
    • Apoiado por essa tríade de Hooker, Escrituras, Tradição (experiênciacomunitária) e Razão, elementos do “espírito anglicano”, estarei delineandoneste trabalho uma exposição breve da história e transformação dasexualidade, como o tema é tratado a partir das Escrituras e a influência dessecontexto, bíblico, histórico e sócio-cultural, na caminhada da ComunhãoAnglicana. Nesse meio abordaremos inevitavelmente a controvérsia nasquestões de orientação sexual, concluindo com a tentativa de delinear umaação pastoral para o tema. Alguns poderiam imaginar que tratar desse assunto seria como entrarnum jardim de espinhos, teria que tomar o maior cuidado para não sair ferido.Mas prefiro outra imagem, da qual a idéia central, mesmo utilizada em outrocontexto, tomo emprestada de Charles Swindoll3: Tratar desse assunto, assimcomo de qualquer outro assunto que envolva os remidos, é como entrar naseção de cristais e porcelanas importadas de uma elegante loja de decorações.Temos que tomar o maior cuidado para não esbarrar abruptamente emnenhuma das delicadas peças, andando calma e tranquilamente entre asprateleiras, como que prendendo a respiração enquanto se deslizacuidadosamente entre elas. Tendo em mente o precioso valor que cada peçatem e o alto preço que terá que ser pago em caso de negligência ou de um atodesajeitado. Assim é constituída a Igreja, de cristais e porcelanas preciosas, depessoas que precisam ser tratadas com todo o amor, cuidado e respeito,observando, compreendendo e convivendo na e com a diversidade. Pois Deuscultiva, em Cristo, um imensurável e incondicional amor por cada uma delas. Esse trabalho, portanto, não tem a pretensão de contribuirsignificativamente com a discussão do tema, tomando partido ouentrincheirando-se a favor de algum lado, mas de apenas lançar um olhar2 Como o termo Homossexualismo foi usado até 1985 pela CID (Classificação Internacional da Saúde –publicação da Organização Mundial da Saúde) e classificado como doença mental, esse termo caiu emdesuso e vêm sendo abandonado no meio acadêmico, por traz forte carga cultural pejorativa. Anomenclatura homossexualidade tem sido usada com maior freqüência por caracterizar-se menosdiscriminatória. Mas as formulações éticas mais atuais entre juristas, pesquisadores e teóricos adotam esugerem a utilização do termo relações homoeróticas ou homoafetivas. Nesse trabalho adoto emgrande medida o termo homoafetivo por considerá-lo mais adequado, ao trazer implícito ao vocábulonão somente as relações eróticas, mas também toda a carga afetiva, emocional e amorosa.3 Charles SWINDOLL, A noiva de Cristo, p. 39 5
    • panorâmico sobre a temática da sexualidade, especialmente na ComunhãoAnglicana, suscitando sobre tudo o “espírito anglicano”, inclusivo, do diálogo eda compreensão. Adotando o paradigma da “via média”, conforme citação emartigo do Revdo. Dr. Pedro Triana:A “via média” é um movimento para a unidade, porém, não são um compromisso paraconciliar duas partes em discrepâncias, senão que é um método para compreender adiversidade dentro de nós mesmos, com respeito e ética; é ser mais amplos, flexíveis,respeitosos e éticos para com as outras pessoas e suas idéias.4 História e Transformação da Sexualidade1. Sexualidade na sociedade pré-moderna4 Pedro TRIANA, Não Julgue... somente compreenda: A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana, p.11. 6
    • A primeira vista, ao analisarmos o desenvolvimento histórico dasexualidade, entenderíamos que suportamos por muito tempo um regimevitoriano sobre a conduta sexual, que ainda hoje nos impõem uma condutacomedida, muda e hipócrita5. As sociedades pré-modernas lidavam com aexpressão corporal de maneira mais livre e descomedida. Segundo Foucault,ainda no início do século XVII vigorava certa franqueza nas condutas emrelação ao corpo, não havia segredos nem disfarces, tolerava-se o ilícito.Gestos, discursos e transgressões eram abertos, desmedidos e diretos, oscorpos “pavoneavam” 6. Nesse período histórico pré-moderno, caracterizado pela vida árdua e aescassez de recursos, a organização social acontecia em torno da necessidadede sobrevivência e as associações e casamentos aconteciam por conta dointeresse econômico e da organização do trabalho agrário. A atração sexual, oamor, o romance não predominavam nem interferiam nesse cenário, nãodespontavam como formas de união ou compromisso mútuo. As relaçõesextraconjugais eram comuns, principalmente para os homens, mas tambémpara certas mulheres das camadas aristocráticas. Havia até mesmo umalicenciosidade sexual nos grupos aristocráticos. Demonstrando, desta maneira,que “a liberdade sexual acompanha o poder e é uma expressão do poder ” 7. Asexualidade, termo criado no século XIX, ou o amor romântico, termo cunhadono final do século XVIII, em nada influenciavam a forma de vida das pessoasnas sociedades pré-modernas. Apesar das condenações da igreja medieval em relação ao sexo,estabelecendo o celibato como única opção de pureza e salvação, as pessoasnão se sentiam presas a um modo de conduta sexual. Mesmo tendo ocristianismo legado, desde o início, o sexo como núcleo do entendimento daverdade em relação ao sujeito humano8, ainda não havia uma ordem dediscurso9 propriamente afirmada sobre o assunto. Até então, apenas o5 Michel FOUCAULT, História da sexualidade, a vontade de saber, p. 09.6 Ibid.7 Anthony GIDDENS, A Transformação da intimidade, p. 49.8 Michel FOUCAULT, Microfísica do Poder, p. 229.9 FOUCAULT explica: “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou sistemas dedominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”, in Michel 7
    • confessionário era local desse discurso, ordenado apenas em relação aocorpo. Por exemplo, a sodomia (sic) era imputada na legislação pré-modernacom um ato proibido, mas não era considerada como uma qualidade ou padrãode comportamento de um indivíduo10.2. Cristianismo e Sexualidade O cristianismo sempre contribuiu para o estabelecimento de uma visãoobscura do sexo e na diferenciação e desigualdade de gêneros. SegundoCalvani, “somos herdeiros de uma longa tradição de desconfiança para com asexualidade e tudo que ela envolve ”11. James I. Packer completa: “Crisóstomonegara que Adão e Eva tivessem tido relações sexuais antes da queda nopecado; Agostinho admitia que a procriação fosse legítima, mas insistia que aspaixões que acompanham o contato sexual são sempre pecaminosas. Oríginesinclinara-se à teoria de que, se o pecado não tivesse entrado no mundo, a raçahumana ter-se-ia propagado não através da união sexual, e, sim, de umamaneira angelical, sem importar qual fosse essa maneira. E Gregório de Nissaestava certo de que Adão e Eva foram criados sem desejo sexual e que, nãofora a queda no pecado, a humanidade ter-se-ia reproduzido por meio daquiloque Leland Ryken chamou de alguma inofensiva modalidade vegetativa ”12.Packer continua afirmando que “um registro tão distorcido precisava sercorrigido com urgência, e isso os reformadores fizeram, seguidos de pertopelos puritanos ”13, que passaram a celebrar o casamento como dádiva deDeus e ordenança da criação, fundamentados no companheirismo, na ajudamútua e na formação da família. É nesse período que nasce a formação de umdiscurso, através do grande sermão público, que tira o sexo da obscuridade ouda licenciosidade e o lança no campo do controle normativo e disciplinar.Contribuindo, juntamente com outros fatores, na formação da sociedadeFoucault, A ordem do discurso, p. 10.10 Anthony GIDDENS, A Transformação da Intimidade, p. 29.11 Carlos Eduardo B. Calvani, Gemidos da criação e arrepios da Teologia – sussurros éticos nos ouvidos daIgreja, Revista Inclusividade.12 James I. PACKER, Entre os Gigantes de Deus, Uma visão puritana da vida cristã, p. 281.13 Ibid. 8
    • moderna, pautada na ética protestante, que inaugura o capitalismo eproporciona a ascensão da burguesia. O próprio confessionário católico moderno tornou o sexo o seu pontoprincipal. Como parte da Contra-Reforma, a Igreja intensificou o processo daconfissão. Agora, “não apenas os atos, mas também os pensamentos, asfantasias e todos os detalhes relacionados ao sexo deveriam ser trazidos àtona e examinados ”14. Agora, não apenas o corpo, mas o desejo desse passaa ser examinado e controlado.3. Sexo e Poder: invenção da sexualidade. A princípio, num olhar rápido, a chamada idade da repressão, ou seja, arepressão sexual na era moderna, surge no século XVII com a ordem burguesae o desenvolvimento do capitalismo. Essa hipótese encontra forte sustentação,pois, “se o sexo é reprimido com tanto rigor, é por ser incompatível com umacolocação no trabalho, geral e intenso; na época em que se explorasistematicamente a força de trabalho, poder-se-ia tolerar que ela fosse dissipar-se nos prazeres, salvo naqueles [...] que lhe permitam reproduzir-se? ” 15. Noentanto, Foucault defende que essa idéia é acompanhada pela “ênfase de umdiscurso destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economiano real, a subverter a lei que o rege, a mudar o futuro “ 16. Dessa forma,abandona as idéias de conseqüências unicamente econômicas para “buscar asinstâncias de produção discursiva (que, evidentemente, também organizamsilêncios), de produção de poder (que, algumas vezes têm a função deinterditar), das produções de saber (as quais, freqüentemente, fazem circularerros ou desconhecimentos sistemáticos) ”17, esclarecendo que, “a colocaçãodo sexo em discurso, em vez de sofrer um processo de restrição, foi, aocontrário, submetida a um mecanismo de crescente incitação ” 18, que culminou14 Anthony GIDDENS, A Transformação da Intimidade, p. 29.15 Michel FOUCAULT, História da sexualidade, a vontade de saber, p. 11.16 Ibid., p. 13.17 Michel FOUCAULT, História da sexualidade, a vontade de saber, p. 17.18 Ibid. 9
    • na criação, imperfeita e errônea, de uma ciência da sexualidade19. Ciência essaque foi fonte de normatização e controle: os pensamentos, os desejos, ossonhos passaram a ser investigados, discutidos, catalogados. É o modo deprodução de verdades que qualifica os saberes como verdadeiros,característico da nossa sociedade disciplinar ou panóptica20. Instituem-sepadrões de conduta que são considerados a “normalidade”. Para Foucault, “a preocupação com a sexualidade, incluindo a invençãoda própria sexualidade, é resultado do sucesso da vigilância como meio degerar poder, [...] compunha o principal ponto de ligação entre duas influênciassobre o desenvolvimento corporal: era um meio de acesso tanto à vida docorpo quanto à vida das espécies. Por isso a sexualidade era buscada nosmenores detalhes das existências individuais; foi captada no comportamento,perseguida nos sonhos; suspeitou-se que ela fosse a base das menoresloucuras “21. O termo sexualidade, próximo do sentido que lhe atribuímos hoje,aparece pela primeira vez no século XIX, em um livro “preocupado com oporquê das mulheres estarem predispostas a várias enfermidades que nãoafetam os homens – algo atribuído à sexualidade das mulheres ”22. Asexualidade surge com a necessidade de definir determinadoscomportamentos como práticas anormais, instituindo, pelo modo de produção19 Anthony Giddens numa análise crítica do pensamento de Foucault propõe, em complemento, ointeressante argumento de que o amor romântico também exerceu papel importante na construção dosmodos de poder e na formação das instituições modernas, tendo conexão direta com a sexualidade. Noentanto, desenvolver esse paralelo demandaria tempo e espaço, o que não dispomos nesse momento.Por isso, deliberadamente deixo de lado as idéias originais de Giddens, aproveitando-me apenas dodiálogo crítico que esse estabelece com o pensamento de Foucault sobre a História da sexualidade.20 O termo é utilizado por Foucault em referência ao projeto arquitetônico elaborado pelo jurista JeremyBentham em meados do século XVIII denominado Panopticon. Consistia numa construção em forma deanel, edificada em torno de um pátio, tendo ao centro uma torre com janelas, onde ficaria instalado umvigia. Ao longo da construção circular ficariam pequenas celas que se abrem para o pátio interno. Nascelas haveria duas janelas, uma dando para o exterior, permitindo a entrada de luz e a outra para ointerior do pátio, permitindo, pela contra luz, que o vigia obtivesse visão clara e completa do interior dacela. Impedindo, ao mesmo tempo, que da cela se observe a torre. Retrato da sociedade que controla,vigia, examina, registra e por fim disciplina.21 Anthony GIDDENS, A Transformação da intimidade, p. 188-189.22 Anthony GIDDENS, A Transformação da intimidade, p. 32. 10
    • de verdades, uma ordem de discurso da “normalidade”. O exemplo disso é abusca do prazer sexual feminino que foi condenado como anomalia, sendo oprazer sexual natural ao homem. Isso foi fundamental para a instituição dafamília burguesa, com a mãe deserotisada, pura, cuidadora do lar e do homemno papel de domínio e provisão, mantendo o poder sobre o prazer e o desejo.Nesse período, portanto, “a sexualidade feminina foi reconhecida eimediatamente reprimida – tratada como a origem patológica da histeria “23. Otermo foi providencialmente recuperado do conceito de Hipócrates, o primeiro atentar explicar de forma natural tais manifestações ainda na Grécia Antiga,onde as mulheres eram seres de segunda categoria, excluídas totalmente doexercício do poder e da vida pública. O termo vincula-se a certo deslocamentodo útero – histeron em grego24. Veja-se aí, mais uma vez, o corpo como meiode exercício do poder. Na era vitoriana, o erótico passa a ser investigado e estudado,resultando na produção de textos e manuais, que inventam a sexualidade epassam a distinguir, nos seus domínios, o que é normal e o que é patológico.Esse mecanismo é fundamental na constituição das instituições modernas,uma vez que gera um eficiente controle corporal, ajustando e otimizando asaptidões do corpo – o chamado biopoder. Até então, o desvio numa relação erótica era apenas um ato isolado,com peso jurídico. Agora, o ato é transferido para a totalidade do sujeito, quepassa a traduzir esse comportamento – sua sexualidade. O indivíduo, portanto,passa a ser portador de uma auto-identidade. A sodomia (sic), por exemplo,era, na visão dos direitos civis e canônicos antigos, apenas um ato irregular. Noséculo XIX o homossexual torna-se um sujeito, uma personagem com passado,história, caráter, infância25. A homossexualidade tornou-se uma forma de vida,o homossexual uma espécie. E esse novo personagem é lançado nas cadeiasda patologia e da perversão, por quanto, a normalidade constituía-se narelação homem e mulher para a formação das famílias heteroparentais. No final do século XIX os meios de poder disciplinar funcionavam comeficácia e o Salpêtriére, um imenso hospício parisiense, comportava de 5 a 623 Ibid., p. 31.24 Alberto TALLAFERRO, Curso básico de Psicanálise, p. 14.25 Michel FOUCAULT, História da sexualidade, a vontade de saber, p. 43. 11
    • mil mulheres tidas como loucas e histéricas. Essas serviam de experiência àciência médica da época, para um extraordinário e requintado trabalho declassificação das tipologias e sintomatologias. Aparece nesse cenário a figurade Jean Martin Charcot, reconhecido neurologista francês do período,contestando as teorias vigentes sobre a histeria. Valendo-se da hipnose,Charcot mantinha suas pacientes em transe e fazia cessar temporariamente ossintomas da histeria. Dessa forma, apresentava causas funcionais daenfermidade e não causas ligadas ao útero. Charcot afastou todas as idéiastradicionais de que a histeria estaria ligada a sexualidade e a causas genitais,afirmando, ainda, ser uma enfermidade que afligia tanto homens quantomulheres26. Portanto, a sexualidade, enquanto fonte e produto de uma verdadeproduzida e discursada como “normalidade”, é instituída como modo de poderracionalizado. É um poder que investiga, questiona, vigia, apalpa, revela,interdita, interfere e puni.4. Declínio da Perversão e Revelação da Sexualidade Influenciado pelas idéias de Charcot, Freud revê seus postuladosteóricos e anos depois cria a Psicanálise, que abala substancialmente ospreceitos da sexualidade vitoriana. Em 1905 Freud publica o livro “TrêsEnsaios sobre a Teoria da Sexualidade”, demonstrando que traços sexuaisassociados à perversão, diferente do que comumente era aceito, não é partede um pequeno grupo de pessoas anormais, mas são traços comuns àsexualidade de todos. E assevera que é inadequada a utilização da palavraperversão como termo acusatório. Esse foi o início para que em épocasposteriores, grupos e movimentos interessados contestassem a terminologia dedesvio para a homossexualidade e reivindicassem sua aceitação social elegal27. Somando-se a isso “o declínio da perversão pode ser compreendidocomo uma batalha parcialmente bem sucedida sobre os direitos da auto-expressão no contexto do Estado democrático liberal ” 28, uma vez que, “a26 Peter GAY, Freud uma vida para o nosso tempo, p. 61.27 Anthony GIDDENS, A transformação da intimidade, p. 4128 Ibid., p. 44. 12
    • substituição incipiente da perversão pelo pluralismo seja parte de um conjuntode mudanças29 de bases amplas, essencial à expansão da modernidade “30. Segundo Giddens “hoje em dia a sexualidade tem sido descoberta,revelada e propícia ao desenvolvimento de estilos de vida bastante variados. Éalgo que cada um de nós tem, ou cultiva, não mais uma condição natural queum indivíduo aceita como um estado de coisas preestabelecido. De algummodo, que tem de ser investigado, a sexualidade funciona como um aspectomaleável do eu, um ponto de conexão primário entre o corpo, a auto-identidadee as normas sociais ”31. Há uma emancipação sexual em pleno curso, antigossímbolos de uma sexualidade deficiente e pervertida, como a masturbação e ahomossexualidade, hoje são abertamente aceitas. Isso se dá porque estamosnuma transição da sociedade disciplinar para um novo formato na produção daverdade, sendo essa agora difusa e de ampla visibilidade. São os contornos dachamada sociedade de controle. Enquanto na sociedade disciplinar o poder épadronizador e isolante, na sociedade de controle o poder é acesso. O poder éexercido na medida em que se tem acesso à informação. As mudanças quanto à sexualidade têm sido amplas e contínuas. Em1990 com a publicação do livro Problemas de gênero, a filósofa norte-americana Judith Butler, provoca um aprofundamento na discussão sobre asexualidade, reformulando os conhecidos conceitos sobre gênero. Tomandocomo paradigma os seres socialmente considerados abjetos, os transexuais,hermafroditas e transgêneros em geral, ela reflete sobre o que é masculino e oque feminino, e questiona a patologização dos casos de transexuais e detransgêneros32. Para Butler, o gênero deve ser considerado como um atoperformativo33, construído a partir da socialização do indivíduo. Uma década depois a bióloga da Universidade de Stanford JoanRoughgarden, publica o livro Evolução do gênero e da sexualidade, a partir do29 Essas mudanças envolvem os processos naturais que passam a ser socialmente organizados, como areprodução, a formação familiar, o parentesco, o trabalho, não há uma imposição natural das coisas,mas uma construção sócio-cultural.30 Anthony GIDDENS, A transformação da intimidade, p. 44-45.31 Ibid., p.25.32 Patrícia PORCHAT, A dança dos gêneros, revista mente & cérebro, nº 185, p. 46-4733 Ibid., p.48 13
    • qual questiona, por suas observações como pesquisadora, que as teorias deseleção sexual de Charles Darwin (1809-1882) eram falsas e irreparáveis34, epropõem a homossexualidade como traço adaptativo na evolução da espéciehumana. Roughgarden considera, através de extensa pesquisa, que aassociação homoerótica é uma forma de preservação35. Em meados de junho de 2008, a BBC, rede de televisão britânica,noticiou a conclusão de estudos realizados por pesquisadores suecos daUniversidade Karolinska, coordenados pelo Dr. Ivanka Savic. Os estudosdemonstram que fatores biológicos influenciam na orientação sexual. Por meiode exames por ressonância magnética em 90 pessoas entre homo eheterossexuais, foram realizados comparativos dos dois hemisférios docérebro. Analisando os resultados os pesquisadores observaram que homenshomossexuais e mulheres heterossexuais têm os hemisférios cerebraissimétricos, enquanto os de lésbicas e homens heterossexuais sãoassimétricos. Outro aspecto do estudo foi a comparação realizada na amígdala,parte do cérebro ligada as emoções. Os pesquisadores constataram quehomens heterossexuais e lésbicas têm maior atividade de impulsos elétricos nolado direto da amígdala, enquanto mulheres heterossexuais e gays têmmaiores impulsos no lado esquerdo. Com isso, os estudos demonstram que asdiferenças cerebrais são delineadas nos primeiros estágios dedesenvolvimento fetal. Portanto, a pessoa nasce com propensão à determinadaorientação sexual. As mudanças em relação à sexualidade estão acontecendo36, não demaneira revolucionária e convulsiva, mas de modo gradativo. Conforme apsicanalista Patrícia Porchat, “existem basicamente duas maneiras de encararessas mudanças: de um lado, as leis37 e, de outro, as explicações, a34 Joan Roughgarden, Homossexualidade como traço adaptativo, revista mente & cérebro, nº 185, p. 52.35 Como não é possível apresentar aqui todo o raciocínio da autora, minha sugestão é a leitura do artigoda mesma na revista mente & cérebro de junho de 2008, nº 185, páginas 50-55.36 Mudanças também estão ocorrendo nas formações da família, diante do divórcio e de novas uniões asfamílias estão se reorganizando, fora isso, as famílias estão deixando de ser agrupadas apenas por laçosheteroparentais e são agora agrupadas também por laços homoparentais.37 Vários países têm legislado em favor do reconhecimento de direitos civis das pessoas de orientaçãohomoafetivas. A Dinamarca foi o primeiro país a reconhecer a união civil de casais homossexuais em1989, acompanhada da Noruega (1993), da Suécia (1994), da Hungria (1995), da França (1999). Em 2000 14
    • compreensão e a aceitação daquilo que é novo”, acrescentando que a últimasentença pertenceria ao campo da psicologia38, mas, penso eu, que quanto acompreensão e a aceitação, essas pertenceriam também, ou maisespecialmente, ao campo da Igreja, da teologia e da pastoral. Há um processo visível de mudanças em andamento, as pessoas jáexercem maior controle e poder sobre suas vidas individuais e a sexualidade évivida de maneira mais aberta, encontrando resistências apenas em gruposisolados. Como, enquanto Igreja, nós enfrentaremos essas questões?Permaneceremos como um desses grupos isolados? Circulando pelasociedade, de vendas nos olhos, enquanto construímos e distribuímosdiscursos que parecem mais velhas lições tiradas de baús encerrados nosséculos passados? Ou, passaremos para uma atitude mais próxima do amorincondicional de Deus, voltada ao diálogo e a convivência, a compreensão e aaceitação, como nosso Senhor Jesus Cristo que nunca perguntou a alguém:quem era, de onde vinha, qual a profissão ou orientação sexual, mas apenasdizia: Segue-me!39. Bíblia e Sexualidade No decorrer da história, o texto bíblico tem sido tomado como referênciana formulação de códigos de conduta e na produção de verdades temporais,legitimando com selo divino as ações bem humanas. Por muito tempo o textobíblico foi utilizado para embasar formulações muito mais ideológicas do quepropriamente teológicas. Por sua característica de texto sagrado, a Bíbliaacaba sendo bastante proveitosa para a criação de verdades tidas comonormais ou naturais, favorecendo todo o processo de poder exercido pordeterminada classe dominante. Calvani explica, “para a ética teológica, essea Holanda além de legalizar o casamento de uniões de pessoas do mesmo sexo, permitiu a adoção decrianças por esses casais. Outros países alteraram sua legislação permitindo a união civil dehomossexuais, entre eles: Alemanha (2002), Reino Unido, Bélgica e Canadá em 2003 e países comoMéxico e Espanha caminham nesse sentido. No Brasil a união ainda não é legalizada, mas em casos deunião estável entre casais homossexuais por tempo superior a cinco anos, há garantia de direitos civis eem alguns casos a jurisprudência já tem permitido a adoção de crianças por esses casais.38 Patrícia Porchat, A dança dos gêneros, revista mente & cérebro, nº 185, p. 44.39 Evangelho de S. Lucas 5:27 15
    • significado (“natural”, “normal”) é bastante perigoso, porque geralmente o quese considera “natural” inclui valores culturais e normas sociais prevalecentes eimpostas por classes dominantes e refletem as mudanças nesses valores enormas” [...] “Natural” [...] “é um conceito social que inclui a autoridade deregular e definir normas, internalizar tabus”40. A Igreja Romana estabeleceu o papado como representação direta deJesus Cristo. Os editos do Santo Padre, quando anunciados de cátedra, sãotomados como verdades indiscutíveis protegidos pelo princípio da infalibilidade.Com o protestantismo e a reforma o eixo do princípio da infalibilidade foideslocado da pessoa do Papa (e do magistério que o auxilia) para o camposubjetivo do texto bíblico. O protestantismo desloca a infalibilidade papal para ainfalibilidade bíblica, tornando difusa a possibilidade de legitimação e produçãode verdades, uma vez que o texto em si é desprovido de significação esignificado, necessitando da interpretação de quem o lê, dentro de seu própriocontexto, mentalidade e cultura. E quem o lê nem sempre utiliza osinstrumentais da lingüística, das ciências humanas e sociais e nem sempre temsua razão conduzida pelo Espírito Santo, e nem sempre pretende ser honestoem sua interpretação. Então entramos no campo hermenêutico, que podeproduzir uma variada quantidade de interpretações, dependendo dospressupostos, interesses, mentalidades, culturas e formação psíquicaenvolvidas nessa dinâmica. A interpretação difusa das escrituras favoreceu aclasse burguesa em ascensão no período da reforma, legitimando seu espaçosocial, seu modo de vida e a produção de suas verdades, como já vimos nahistória e transformação da sexualidade. A interpretação individualizada dasEscrituras prejudicou em alto grau a interpretação e testemunho comunitários. É pertinente esclarecer que não estou discutindo a autoridade ecentralidade das Sagradas Escrituras na vida cristã e na dinâmica da Igreja.Isso é claro em todas as tradições cristã, especialmente na tradiçãoAnglicana41, que compreende uma comunhão de igrejas que tem uma40 Carlos Eduardo B. Calvani, Gemidos da criação e arrepios da Teologia – sussurros éticos nos ouvidos daIgreja, Revista Inclusividade.41 Um melhor desenvolvimento do tema pode ser encontrado in Sagradas Escrituras: Centralidade eAutoridade numa perspectiva anglicana, série Reflexões, 05, CEA, IEAB. 16
    • característica “fundamentalmente litúrgica e não confessional ”42, o texto bíblicotem centralidade na liturgia. O que quero discutir é a tomada da infalibilidadebíblica como modo de leitura que se apodera da letra do texto e numaabordagem literalista, torna sua interpretação fundamentalista e legalista, ounuma abordagem tendenciosa, faz uma interpretação descontextualizada epautada em interesses. Tornando, mesmo assim, esses intérpretes arautospretensamente infalíveis e dotados de autoridade. Desconsiderando oudesvirtuando toda a manifestação do Espírito. Por essa característica, o texto bíblico foi muitas vezes manipulado paralegitimar o poder e a dominação. Questões como a submissão feminina que éjustificada pela interpretação de Gêneses 1:27,28, considerando-se que amulher é formada a partir da costela do homem, essa é submissa a ele naordem da criação; e a ordem escravocrata e a discriminação racial justificadasem épocas passadas a partir de textos bíblicos, onde “teólogos protestantesligados a países que praticavam o tráfico de escravos justificaram asuperioridade da raça branca sobre a negra a partir da marca de Caim ouGêneses 9 – a maldição lançada por Noé a seu filho Cam “43, hoje podem serconsideradas “absurdo e desumano, mas não esqueçamos que essesargumentos foram por muito tempo considerados válidos ” 44, verdadeiros edotados de autoridade por serem interpretações extraídas, não importa como,do texto bíblico. No contexto da sexualidade poderemos encontrar a mesma tendênciainterpretativa literalista ou tendenciosa. A masturbação que foi por muito tempocondenada e justificada como pecado a partir de textos como o episódio deOnã (Gêneses 38:8-10) e a impureza da carne (Gálatas 5:19) e o sexo nomatrimônio que precisaria ser praticado de maneira comedida e previsível,buscando apenas a reprodução, para preservar o “leito sem mácula” (Hebreus13:4). Da mesma maneira, as Sagradas Escrituras têm sido usadas paracondenar, marginalizar e excluir pessoas de orientação sexual homoafetivas.42 Pedro TRIANA (2008) Vivendo segundo o espíritohttp://www.dasp.org.br/codigos/artigos/vivendo_segundo_espirito.htm43 Carlos Eduardo B. CALVANI, Gemidos da criação e arrepios da Teologia – sussurros éticos nos ouvidosda Igreja, Revista Inclusividade.44 Ibid. 17
    • A abordagem literalista das Escrituras tem sido “dominante na análisedos únicos cinco textos45 que expressam opiniões sobre o sexo entre homens,com o propósito de tentar provar que a homossexualidade é oposta ásEscrituras “46. No entanto, as ciências bíblicas atuais têm comprovado que otexto bíblico não se posiciona clara e diretamente sobre a moralidade dos atoshomossexuais como os entendemos hoje e nem mesmo Jesus vez qualquermenção condenatória sobre a homossexualidade quando se encontrou comuma pessoa que, segundo os costumes da época, possivelmente mantivesserelações afetivas homossexuais com seu escravo (Mateus 8: 5-13; Lc 7:1-10) 47,Jesus ainda admira a fé desse personagem e atende seu pedido. Outroaspecto interessante sobre a homossexualidade é que o texto bíblico nãomenciona qualquer referência ao ato sexual entre mulheres. Observando o relato dos evangelhos em nenhum momento Jesus Cristoé descrito como moralizador ou instituidor de regras sobre a prática sexual e asexualidade. Escapa ao discurso dos evangelhos a temática sexualnormatizada por essa não compor o assunto central ou primordialmenterelevante à salvação e a vida cristã48. Por outro lado, a relevância de tema dosevangelhos está em apresentar a mensagem de salvação e constituição doReino de Deus na pessoa de Jesus Cristo, e no cuidado deste para com ospobres, doentes e oprimidos. Há nos evangelhos um transbordamento deamor, de compaixão e misericórdia de Cristo por todas as pessoas, semdistinção, sem pré-requisitos, sem regras, sem modelos de cunho moral49.45 Lv 18:22, 20:13; Rm 1:27; I Co 6:9; I Tm1:10, e algumas vezes Gn 19, o evento de Sodoma e Gomorra,de onde advém a palavra sodomia, criada a partir do discurso teológico medieval – no entanto, trata-sede uma interpretação, mesmo que literal, errônea e grosseira, visto que o episódio ocorre com anjos ouenviados de Deus e que o contexto, expresso como metáfora ou mito, refere-se a falta de hospitalidade,a rejeição ao outro e a recusa em aceitar a visitação divina e sua mensagem de juízo e salvação.46 Pedro TRIANA, Não Julgue... somente compreenda: A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana,p. 4.47 Ibid.48 Episódios relatados nos evangelhos e que estão ligados ao tema da sexualidade como a questão doadultério, que envolve a quebra de compromisso mútuo e a falta de amor ao próximo, e da prostituição,que envolve a exploração sexual para fins econômicos, são relatados com o objetivo de apresentar operdão de Deus. Os evangelhos não se preocupam em normatizar o tema. 18
    • É claro que não devemos apenas seguir a tendência da sociedade,desvinculando o tema da sexualidade dos campos da teologia e da ética cristã.As Sagradas Escrituras devem ter centralidade e primazia na abordagem ediscussão do tema e na construção de uma ética sexual cristã50, que apresenterespostas não somente à Igreja, mas também, a toda sociedade, evitando oestabelecimento de tabus e a formação de meios disciplinares e de dominação.Antes, fomentando o diálogo, proporcionando orientações e exercendo aescuta pastoral. Portanto, é necessário que façamos uma leituracontextualizada e honesta das Escrituras, apoiadas na experiência comunitária(Tradição) e nas descobertas e expressões das ciências (Razão), sob a égidedo Espírito Santo que nos guiará a toda a verdade51. Sexualidade na Comunhão Anglicana: A Controvérsia Homossexual A partir da Conferência de Lambeth de 1888, com temas pertinentes econtextualizados como a poligamia (dentro da realidade africana), o controle danatalidade e o divórcio, a Comunhão Anglicana têm debatido a temática dasexualidade, muitas vezes em discussões divergentes, outras em discussõesconvergentes. Mas, como escreve Triana, “nunca antes as discussões sobre asexualidade humana no anglicanismo haviam tropeçado com uma questão tãopolarizadora como no caso do debate sobre a orientação sexual “ 52. Nenhumoutro tema causou tanta controvérsia, ao ponto de surgirem rupturas naComunhão53.49 Os únicos momentos em que os evangelhos testemunham ações de ira e reprovação de Jesus são nosmomentos em que Ele se levanta contra a usurpação econômica da fé (Mc 11:15-19) e contra aintolerância, a opressão e a hipocrisia religiosa (Mt 12:1-8; Mt23:13-36).50 Construir uma ética sexual cristã sem moralismos e sem legalismos, sem dogmas ou condutas rígidasque impliquem na condenação do próximo. Mas uma ética norteada pelos princípios evangélicos doAmor, da Graça, da Misericórdia e da Justiça, que se expresse na vida comum e diária.51 Evangelho de João 16:1352 Pedro TRIANA, Não Julgue... somente compreenda: A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana,p. 07.53 O jornal inglês “The Telegraph” publicou em 19 de junho de 2008, que líderes da Igreja Anglicana numdocumento de 89 páginas intitulado “The Way, The Truth and The Life” (O Caminho, A Verdade e AVida), emitido por ocasião da chamada Conferência sobre o futuro da Igreja Anglicana, em Jerusalém, 19
    • O tema da homossexualidade é tratado pela primeira vez na Conferênciade Lambeth 1978. Essa conferência é caracterizada pelo respeito à diversidadee ao direto dos homossexuais, propondo uma abordagem sem preconceitos ecom compaixão sobre a questão, reconhecendo a complexidade do tema e anecessidade de estudos mais profundos e desapaixonados, que leve emconsideração as Sagradas Escrituras e as pesquisa da ciência nesse campo.Incentivando, ainda, o diálogo e o cuidado pastoral pelas pessoas dessaorientação, ressaltando a importância e responsabilidade de cada igreja localem tornar-se uma comunidade afetuosa e acolhedora, centradas na pessoa deCristo e na Eucaristia, para que toda a diferença encontre unidade e comunhãodentro da família total de Cristo, onde todos podem encontrar a graça e operdão de Cristo54. A Conferência posterior de 1988 essencialmente endossa asdeclarações sobre sexualidade de Lambeth 78, reconhecendo ainda adificuldade e confusão em relação ao tema e as diferenças socioculturais quepodem influenciar respostas diferentes ao tema. Mais uma vez nessaconferência há uma preocupação pastoral no cuidado às pessoas deorientação homossexual. Ambas as Conferências de Lambeth (1978 e 1988) trataram a temáticada sexualidade de maneira cautelosa, respeitando a diversidade e incentivandoo cuidado pastoral e o diálogo. Segundo Triana, “uma comparação entreLambeth 1978 e 1988 nos levaria a reconhecer que ambas as conferênciastrataram o assunto com realismo e cautela e sentido pastoral, e, certamente,dentro do espírito anglicano de compreensibilidade, tolerância e respeito peladiversidade. Nem Lambeth 1978, nem 1988 arriscam juízos precipitados ouabsolutos. Situam o tratamento da orientação sexual dentro do espíritoanglicano de aproximação às questões em discussão utilizando dialeticamente,ou seja, em inter-relação, as Escrituras, a Razão e a Tradição “55.declararam o fim da comunhão universal de valores entre seus membros, afirmando que não mais seassociarão aos liberais que tolerem o homossexualismo na religião.54 Conferências de Lambeth 78/88, série Reflexões, 03, CEA, IEAB.55 Pedro TRIANA, Não Julgue... somente compreenda: A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana,p. 07. 20
    • No intervalo que antecedeu a Conferência de Lambeth 1998, muitasdiscussões surgiram sobre o tema da orientação sexual, da ordenação dehomossexuais e da benção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Umdebate acirrado e caloroso entre as alas “liberais” e “conservadoras” tomougrandes proporções na Comunhão Anglicana. Em meio a toda discussão dois documentos apresentam-se com peso epapeis preponderantes na condução dos debates. Em 1994 o Bispo JonhSpong, da Diocese de Newark (TEC), afirmando sua convicção e apoio ainclusão dos homossexuais na igreja, emitiu um documento que apresentou acâmara dos bispos da província norte-americana: a declaração de Koinonia.Essa declaração de fé serviu de base para os debates naquela província56. Adeclaração de Koinonia inicia apresentando o sexo como dom de Deus eafirmando que alguns foram criados heterossexuais e outros homossexuais.Considera que qualquer uma dessas orientações sexuais são moralmenteneutras, podendo refletir tanto a beleza e santidade como aspectos destrutivos.O documento incentiva a Igreja a se opor a vivência destrutiva da sexualidade,condenando toda forma de sexo promíscuo e predatório. Reconhece aimportância do matrimônio e seu status de alto grau de compromisso. Aponta ocelibato como vocação honrosa exercida por algumas pessoas dotadas dedons. E reconhece, também, que gays e lésbicas podem viver relacionamentosfiéis, monogâmicos, compromissados e santos, conclamando a Igreja a prestartodo o auxílio pastoral a esses irmãos, que, afirma ainda o documento, têmDeus presente em suas vidas. Portanto, o documento ressalta “a beleza esantidade das relações sexuais praticadas no contexto do amor... [condenando]a promiscuidade, ou qualquer tipo de exploração sexual ”57. A declaração de Koinonia foi fundamental para os avanços do debate naprovíncia norte-americana da Comunhão Anglicana e na abertura que essaprovíncia proporcionou às pessoas de orientação homossexual.56 Mário RIBAS, O debate sobre a homossexualidade na Comunhão Anglicana e a “Nova Moralidade” deJonh Robinson, Revista inclusividade.57 RIBAS, Mário, O debate sobre a homossexualidade na Comunhão Anglicana e a “Nova Moralidade” deJonh Robinson, Revista inclusividade. 21
    • Em 1997 bispos da ala conservadora reuniram-se em Kuala Lumpur,Malásia, com objetivo de emitir um documento que combatesse o liberalismona Igreja e a abertura que esse concedia a pensamentos e práticas poucoortodoxas dentro do cristianismo, principalmente relacionados à sexualidade.Ao contrário da Declaração de Koinonia, o documento de Kuala Lumpurcondena veementemente a orientação homossexual, categorizando essa comopromiscuidade e, portanto, pecado. Os bispos em Kuala Lumpur caracterizam ahomossexualidade como conduta desviante e convidam a Igreja a exercer ocuidado pastoral, de maneira que estas pessoas sejam restauradas a umasexualidade normal e natural, segundo os desígnios das Sagradas Escrituras.Afirmando que a sexualidade deve ser vivenciada apenas entre homem emulher numa relação duradoura em sagrado matrimônio. O documento aindacondena a posição das províncias do Norte por suas aberturas em questões demoral, especialmente sobre a ordenação de homossexuais praticantes e abenção das uniões de pessoas do mesmo sexo. Segundo Ribas, “começatambém a haver certa resistência às mudanças que aconteceram nassociedades ocidentais. De forma que tudo que é considerado ocidental não o éde certa forma bem aceito pelas Igrejas da África e Ásia, principalmente. Ohomossexualismo (sic) passa então a ser considerado uma doença causadapela libertinagem dos países do ocidente “58. As comunidades da África e daÁsia se recusam a discutir a questão da homossexualidade, seguindo inclusivea tendência política de suas regiões que negam a existência da orientaçãohomossexual nas culturas africanas e asiáticas, antes da influência dos paísesocidentais do norte. Para eles a homossexualidade é um produto importado deoutra cultura e costumes. Dessa maneira podemos começar a delinearquestões atreladas a polarização de poder, não somente dentro da igreja, massobre tudo, na configuração geopolítica e de influências regionais. Muitos líderes políticos africanos, especialmente na Nigéria, Uganda eCongo, têm declarado publicamente o repúdio à homossexualidade, tratando aquestão com prisão e com violência contra as pessoas dessa orientação emseus países. Os discursos desses líderes têm sido inflamados, acusando ainfluência cultural dos países desenvolvidos do ocidente como a grande58 Mário RIBAS, O debate sobre a homossexualidade na Comunhão Anglicana e a “Nova Moralidade” deJonh Robinson, Revista inclusividade. 22
    • responsável em disseminar esse “comportamento doentio e degradante” entreas culturas africanas. Segundo eles esse modo de vida não era conhecido porseu povo59. Esse discurso tem causado grande comoção e perseguição e estáatrelado num discurso macro anticolonialista e antiimperialista, que envolveminteresses políticos regionais e disputas de poder60. A Igreja Africanacoadunando-se com esse discurso abandonaram seu papel profético econciliador. Seguindo no interesse de formar um bloco separado ao sul, comnova configuração de poder. O documento de Kuala Lumpur exerceu grande influência naConferência de Lambeth 1998, sendo recomendado nas resoluções sobre aSexualidade Humana. Num movimento distinto das duas conferênciasanteriores a Conferência de 1998 fecha o diálogo sobre a questão daorientação sexual e abandona o “espírito anglicano” ao apresentar umaresolução de contornos doutrinários e dogmáticos. Depois de acirrados etensos debates entre as alas liberais e conservadoras, a plenária aprova aseguinte resolução sobre a Sexualidade Humana:“Esta Conferência: a) recomenda à igreja o relatório da subseção sobre sexualidade humana;b) em vista dos ensinamentos das Escrituras, defende a fidelidade no casamento entre umhomem e uma mulher numa união indissolúvel, e acredita que a abstinência é adequada paraaqueles que não são chamados para o casamento; c) reconhece que há, entre nós, pessoasque receberam orientação homossexual. Muitas delas são membros da igreja e buscamatendimento pastoral, orientação moral da igreja e o poder transformador de Deus para viversuas vidas e ordenar seus relacionamentos. Nós nos comprometemos a ouvir as experiênciasdos homossexuais, e desejamos assegurar-lhes que são amados por Deus, e que todos osbatizados, pessoas fiéis e crentes, discriminados com relação a sua orientação sexual, sãomembros plenos do Corpo de Cristo; d) ao mesmo tempo em que rejeita a prática homossexualcomo incompatível com as Escrituras, solicita a todas as pessoas que auxiliem, de maneirasensível e pastoral, todas as pessoas, independente de sua orientação sexual, condenem omedo irracional de homossexuais, a violência no casamento e toda banalização ecomercialização do sexo; e) não pode recomendar a legitimidade ou a benção de uniões domesmo sexo, nem ordenar aqueles que estão envolvidos em uniões do mesmo gênero; f)solicita aos Bispos Primazes e ao Conselho Consultivo Anglicano que estabeleçam meios paramonitorar o trabalho realizado sobre a sexualidade humana na Comunhão Anglicana e59 Segundo o historiador britânico Philip Jenkins esse discurso não é preciso uma vez que existemregistros de pessoas que mantinham uma atividade homossexual ativa.60 Philip JENKINS, A próxima cristandade: a chegada do cristianismo global, p. 272. 23
    • compartilhar informes e recursos entre nós; g) considera a importância da Declaração de KualaLumpur sobre Sexualidade Humana e as preocupações contidas nas resoluções IV.26, V.1,V.10, V.23, e V.35 sobre a autoridade das Escrituras em matéria de casamento e sexualidade,e solicita aos Bispos Primazes e ao Conselho Consultivo Anglicano que os incluam no seuprocesso de monitoramento.”61 A resolução sobre a Sexualidade Humana da Conferência de Lambeth1998 segue a mesma tendência do documento de Kuala Lumpur, ao rejeitar “aprática homossexual como incompatível com as Escrituras” e ao reafirmar aunião indissolúvel entre homem e mulher como o único modelo bíblico para aexpressão da sexualidade, uma vez que recomenda a abstinências às pessoasque não se inserem nesse modelo e não reconhece validade na benção deuniões do mesmo sexo. Mesmo assim, a resolução, numa posição ambígua,reconhece “que pessoas receberam orientação sexual homossexual” e que“são membros plenos do Corpo de Cristo”, além de solicitar um cuidado“sensível e pastoral”. Desta maneira poderemos concluir que a resolução aomesmo tempo em que considera as relações homossexuais uma união desegunda classe, por não reconhecê-las, e sugerir a abstinência às pessoasdessa orientação sexual, uma vez que a expressão da sexualidade ébiblicamente correta apenas entre homem e mulher num casamentoindissolúvel, nos possibilita a confortável posição de considerar oshomossexuais membros em plena comunhão e, portanto, bons dizimistas! Masnão aptos a receber a benção matrimonial sobre suas uniões e inadequados aoexercício do ministério. Mesmo sendo considerados membros plenos, aresolução estabelece que pessoas de orientação homoafetiva devam enterrarsuas vocações ministeriais, considerando-se que as Sagradas Ordens lheestão sendo negadas. Dessa forma pessoas de orientação homoafetiva nãopoderiam participar das formulações litúrgicas e teológicas da Igreja. Tendotudo isso em perspectiva como definiríamos “membros plenos do Corpo deCristo”? E o que significa cuidado “sensível e pastoral” diante de uma condutade exclusão? A Igreja é incentivada a excluir os homossexuais de vivênciasimportantes na comunidade cristã, como o casamento e as Sagradas Ordens.Assim verificamos que a resolução apresenta fortes contradições eambigüidade, caracterizando falta de aprofundamento nos estudos do tema.61 Resoluções da Conferência de Lambeth 1998, série reflexões, 08, CEA, IEAB. 24
    • A meu ver a resposta sobre a questão da Sexualidade Humana emitidapela Conferência de 1998 é insatisfatória e representa um retrocesso emrelação às Conferências anteriores. Essa Conferência abandona a cautela e odiálogo, a compreensão e o caráter pastoral, fechando as questões, semmaiores estudos, sem um debate que buscasse o modelo de convivênciatolerante62 e sem permitir o amadurecimento do tema dentro das diversasdioceses e províncias da Comunhão. Pouco foi estudado, pouco foi tratado epouco foi dialogado. É impressionante notar a importância que o documento deKuala Lumpur adquiriu na Conferência, beneficiando um posicionamentounilateral. Outros documentos como a Declaração de Koinonia e até mesmo“Uma Catequese sobre a Homossexualidade ”63, elaborados pelo Bispo Spongdos Estados Unidos e pelo Bispo Peter Lee da África do Sul, a pedido doArcebispo de Cantuária, não foram citados, se é que foram, de alguma forma,considerados. A Conferência de Lamberth de 1998 afasta o princípio anglicano pautadona tríade Escrituras, Tradição e Razão, uma vez que desconsidera nasresoluções sobre a Sexualidade Humana os estudos das ciências naturais ehumanas e os fatores sócio-culturais envolvidos na temática. Há uma posturaextremada e uma abordagem descontextualizada das Escrituras, e entendotambém, que há uma forte influência de tensões regionais e de poder. Há umdescaso quanto à diversidade e à pluralidade culturais, que são elementosinerentes a própria composição da Comunhão Anglicana. Se considerarmoscom seriedade o Relatório de Virgínia constataremos que a Tradição e a Razãoforam preteridas nessa Conferência. E essa postura, em si mesma, podeconverter-se num fator desagregador dentro da Comunhão Anglicana, visto quefica prejudicada a única ponte possível de diálogo, respeito mútuo e62 “Há uma mérito na abordagem Anglicana de ouvir os outros, em manter uns aos outros no mais altograu de comunhão possível, com tolerância para intensamente manter diferenças de convicção eprática”, in Relatório de Virgínia, Comissão Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina, p. 10-11, sérieReflexões, 09, CEA, IEAB.63 J. SPONG, P. LEE, Uma Catequese sobre a Homossexualidade,http://www.psj.org.br/codigos/pt/paginas/artigos/catequese_homosexualidade.htm 25
    • compreensibilidade em meio à diversidade e pluralidade multicultural existenteem nosso meio. O Relatório de Virgínia observa que:“Os anglicanos se mantém juntos pela maneira característica na qual eles usam as Escrituras,tradição e razão para um atualizado discernimento do desígnio de Cristo para a Igreja em cadageração. [...] Os anglicanos afirmam a soberana autoridade das Santas Escrituras comoinstrumento através do qual Deus pelo Espírito comunica sua palavra na Igreja. [...] Entretanto,as Escrituras devem ser traduzidas, lidas e compreendidas, e seu significado deve serentendido através de um processo contínuo de interpretação. [...] os Anglicanos sustentam queas Escrituras devem ser compreendidas e lidas à luz proporcionada pelos contextos de tradiçãoe razão. [...] Tradição não deve ser compreendida como um acúmulo de fórmulas e textos, massim como a compreensão viva, o centro vital da Igreja. O apelo Anglicano à tradição é o apelo aesta Compreensão da Igreja influenciada pela adoração, ensinamento e vida no Espírito. [...] arazão [...] refere-se ao que pode ser chamado de a compreensão de uma cultura particular,com suas maneiras características de ver as coisas, perguntar sobre elas, e explicá-las. Setradição é a compreensão que os Cristãos compartilham como fiéis e membros da Igreja, razãoé a compreensão que eles compartilham como participantes em uma determinada cultura. OAnglicanismo vê a razão no sentido da compreensão da cultura na qual a Igreja vive e oEvangelho é proclamado, como um instrumento legítimo e necessário para a interpretação damensagem de Deus nas Escrituras. Algumas vezes as Escrituras afirmam novosdiscernimentos de uma determinada cultura ou era; algumas vezes elas desafiam oucontradizem estes discernimentos. [...] O característico jeito Anglicano de viver com umaconstante e dinâmica interação das Escrituras, tradição e razão significa que o desígnio deDeus tem de ser constantemente atualizado, não somente cada época, como também em cadacontexto. [...] Nenhuma cultura, nenhum período da história tem o monopólio de discernimentona verdade do Evangelho. ”64 Abandonando essa dinâmica e inter-relação entre Escrituras, Tradição eRazão, Lambeth 98 afasta a colegialidade no discernimento dos desígnios deCristo para o nosso tempo e abre uma possibilidade perigosa, apoiada, demaneira legítima, na própria estrutura de autoridade difusa e provínciasautônomas da Comunhão Anglicana. Províncias insatisfeitas com o resultadoda Conferência adotaram um posicionamento autônomo. É o que ocorre comas províncias dos Estados Unidos e Canadá. A primeira elegendo e sagrandobispo um clérigo publicamente assumido como homossexual65, vivendo emuma relação estável, e a segunda aprovando a união de pessoas do mesmo64 Relatório de Virgínia, Comissão Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina, p. 18-19, série Reflexões, 09,CEA, IEAB. 26
    • sexo. O que ocasionou grande instabilidade na Comunhão Anglicana. Aestrutura e os símbolos de coesão foram questionados, a unidade ficouameaçada. Uma ala conservadora da Comunhão Anglicana fechou-se ao diálogo,pautando seu posicionamento na resolução apresentada na Conferência de1998 e questionando os símbolos de unidade da Comunhão, colocando emdúvida a própria autoridade do Arcebispo de Cantuária, um desses principaissímbolos66. Mesmo não tendo peso legislativo a resolução sobre aSexualidade Humana de Lambeth 98 foi expressa como tal pela alaconservadora da Igreja, que cobrou providências ao Arcebispo de Cantuária,mesmo considerando que este não possua na Comunhão Anglicana poder deintervenção sobre as províncias, visto que a Igreja não estrutura-se noepiscopado monárquico, mas no colegiado de bispos, sendo o Arcebispoapenas “o primeiro entre iguais ”67. Dentro de um discurso fora de contexto a ala conservadora criou umacrise sem precedentes na Comunhão Anglicana, criando tensão e pressão, quea meu ver, representaram uma forma de estabelecer novos pólos de poder ecriar novos modelos na estrutura da Comunhão. Por outro lado, as provínciasdos Estados Unidos e do Canadá, de forte tendência liberal, não souberamconduzir os diálogos que se faziam necessários ao adotarem posicionamentosautônomos, desconsiderando a diversidade da própria Comunhão (quetambém comporta conservadores). Essas províncias decidiram por ummovimento político arriscado ao afirmarem sua supremacia, adotandoposicionamentos a revelia do restante da Comunhão68. Esses atos apenas65 Vicky Imogene “Gene” Robinson é clérigo anglicano abertamente gay, foi eleito bispo em 2003 esagrado em 7 de março de 2004, sendo o nono bispo da Diocese Anglicana de New Hampshire (TEC).Sua eleição e sagração foi o estopim da crescente tensão vivida na Comunhão Anglicana.66 Desde de 1867 o papel do Arcebispo de Cantuária ficou afirmado como símbolo de unidade e a Sé deCantuária o foco da unidade da Comunhão Anglicana, in Relatório de Virgínia, Comissão Inter Anglicanade Teologia e Doutrina, p. 22-23, série Reflexões, 09, CEA, IEAB.67 Relatório de Virgínia, Comissão Inter Anglicana de Teologia e Doutrina, p. 22-23, série Reflexões, 09,CEA, IEAB.68 O Relatório de Virgínia reconheceu como positivas e como sinal de fortalecimento as decisõesrealizadas em nível provincial ou diocesano, pois, “Desse modo, as Províncias tomam para si asresponsabilidades do que fazem de maneira clara e convicta” (seção 4.12). Mas o relatório recomenda: 27
    • acirraram os debates infrutíferos e facilitaram a legitimação de manobrasrelacionadas ao poder. A província Norte-americana, seguindo as orientações de Cantuária e deoutros setores da Igreja, tem o mérito de em setembro de 2007 ter emitido umadeclaração onde afirmavam que seriam comedidos e não aprovariam novasordenações ao episcopado de pessoas em relacionamentos do mesmo sexo ede bênçãos de uniões homossexuais69. No entanto, a declaração já não surtiuefeito e os conservadores, já bem articulados nessa época, entenderam adeclaração como provocação. Isso deixa suspeitas de que a questão daSexualidade Humana na Igreja serviu em grande medida como cortina defumaça ao objetivo de reorganizar o poder dentro da Igreja. Por que a temática da sexualidade é lançada ao centro do cenáriomundial da Comunhão Anglicana, ameaçando até mesmo essa comunhão,sendo que há questões também importantes, se não mais relevantes, porserem tratadas? O que há de tão poderoso no discurso da SexualidadeHumana que promove tamanha comoção e disputa? Ao contrário do queocorre, não deveríamos estar envolvidos em questões referentes à missão, avalorização da vida e ao cuidado para com a criação, promovendo, portanto, ajustiça social e ecológica? Uma coisa é certa, nem a bandeira conservadora deum moral arcaica e nem a agenda gay deveriam estar no centro daspreocupações da Igreja. Essas são questões sem dúvida importantes, masperiféricas quando comparadas a missão, a preservação da vida e do planeta.O que vale para uma pessoa a discussão sobre sua sexualidade quando suavida está a parte da redenção em Jesus Cristo? O que vale para uma pessoa adiscussão sobre sua sexualidade se sua vida é diariamente ameaçada pelafome e pela opressão econômica? O que vale para uma pessoa a discussão“quando as decisões são tomadas pelas Províncias em questões que mexem com a vida de toda aComunhão sem consulta, elas podem causar tensões a medida que outras Províncias ou outras tradiçõesCristãs rejeitam o que foi decidido em outro lugar. A comissão Eames enfatizou a necessidade de haveruma consulta anterior à ação, e de caridade e paciência em tal situação, insistindo que o discernimentoe a recepção é um processo contínuo na vida da Igreja, que não deve ser apressado” (seção 4.13), inRelatório de Virgínia, Comissão Inter Anglicana de Teologia e Doutrina, p. 29-30, série Reflexões, 09,CEA, IEAB.69 Nota da Igreja Episcopal sobre gays desagrada conservadores, HTTP://www.estadao.com.br/vidar/not_vid57088,0.html 28
    • sobre a sexualidade se a vida de todos está ameaçada pela degradação doplaneta? Lembremos que o centro da missão e ministérios da Igreja é a pessoade Jesus Cristo, e que essa missão e ministérios são cumpridos na medida emque observamos e obedecemos ao comissionamento de Cristo, que consisteem proclamar em unidade, como Corpo de Cristo, as boas novas do amorreconciliador de Deus. O Relatório de Virgínia nos inspira:“O mesmo Espírito do Senhor repousa sobre a Igreja e habita nos corações dos crentes,revestindo de poder a comunidade para seguir como Cristo o fez para proclamar o Reino deDeus. A missão da Igreja é ser o ícone da vida de Deus. Pela oração e louvor, misericórdia epaz, justiça e amor, constantemente acolhendo bem em seu santuário o pecador, o excluído, omarginalizado, a Igreja é revelada como comunhão e mantém-se fiel a sua missão. ComoCorpo de Cristo (I Co 12:27), Templo do Espírito (I Co 1:16), Povo de Deus (I Pe 2:9), a Igrejavive em amor mútuo e é enviada adiante como uma comunidade missionária para congregartoda a criação no amor reconciliador de Deus, restaurá-la e renová-la na vida do Deus Triuno(Rm 8:19-25).”70 (Seção 2.17) Conclusão A temática da Sexualidade Humana e as questões de gênero devem serdebatidas no seio da Teologia Pastoral, numa forte inter-relação entreEscrituras, Tradição e Razão, que ofereça respostas para os diferentescontextos culturais. A temática da sexualidade não pode ser um fatoragregador ou desagregador, um fator de unidade ou cisma, pois é algosecundário na vida da Igreja e que está disperso em meio à diversidadecultural. Permitir que o tema da Sexualidade Humana seja o foco de nossasatenções e as divergências sobre o tema sejam motivos de divisão em nossaComunhão é grave desvio de objetivo. É premente que nos atenhamos amissão delegada a nós pelo próprio Cristo, que pelo Espírito nos capacita. Odocumento final dos Colóquios sobre Sexualidade Humana nos alertou compropriedade: “Reconhecendo nossa Comunhão Anglicana como um dom, não aqueremos ver fragmentada. Permitir que ela fosse dividida pela questão do70 Relatório de Virgínia, Comissão Inter Anglicana de Teologia e Doutrina, p. 15, série Reflexões, 09, CEA,IEAB. 29
    • comportamento homossexual seria a suprema sexualização da Igreja, tornandoa sexualidade mais poderosa ou mais digna de nossa atenção do que Deus”.71 A sexualidade é um tema que, pelo menos no momento, não encontraráconsenso e, portanto, deve ser tratado na perspectiva do amor cristão, dacompreensão e do respeito à diversidade. A escuta e o cuidado pastoral, aoração e o exercício da misericórdia, o acolhimento e a aceitação, acompreensão e a convivência são os melhores meios de tratar a questão. Sempreconceitos e sem padrões rígidos de conduta que estabeleçam umanormalidade, ditando aquilo que “pode” e aquilo que “não pode”. Normatizar aconduta sexual e as diversas formas de expressão da sexualidade,estabelecendo uma lista com comportamentos aceitáveis e outra comcomportamentos reprováveis é a forma de criar uma ordem de discurso queproporcione o poder disciplinar, que controla e domina os corpos, as mentes eas emoções das pessoas. Lembremos que criar um discurso sobre o sexo, inferir uma verdadesobre ele, dominar sua idéia é o maior poder regulador, interventor, quepodemos ter. É o meio mais eficaz de legitimar a rejeição, a separação e aexclusão. É ter o domínio do corpo, dos pensamentos, dos desejos, na vidapública e principalmente na mais profunda intimidade do indivíduo. A ordemdiscursiva da sexualidade possibilita dominar há distância todos os elementosdo indivíduo. É ter o poder de intervir, interditar, dominar e excluir alguém,mesmo só, entre quadro paredes. Fazer isso é recriar o próprio inferno, odiscurso, introjetado, torna-se meu acusador, a minha consciência meu juiz,minha culpa meu verdugo. Nosso papel enquanto cristãos é professar a vida e essa renovada emJesus Cristo, porquanto, busquemos orientar a sexualidade humana a partir deuma perspectiva pascal. Levantando voz profética contra toda prática de morte,de engano, de coerção, de humilhação, de egoísmo e sujeição. Condenemos àconduta sexual predatória, a exploração da prostituição, a violência contra amulher e a família, a pedofilia, o estupro, o adultério e por fim a homofobia. Enos engajemos na orientação da sexualidade para a promoção da vida, do71 Relatório Final dos Colóquios Anglicanos Internacionais sobre Sexualidade Humana, Tradução Mariade Lima Salum e Morais, Revisão Dom Glauco Soares de Lima. (Cópia Avulsa) 30
    • amor, da afeição, do cuidado e compromisso mútuos, independente de gêneroe orientação sexual. O amor, enquanto busca do bem maior pelo e para o outro, é o únicofundamento que podemos adotar na construção de uma ética da sexualidade,gerada a partir de uma prática pastoral compassiva, compreensiva, tolerante,inclusiva e, sobre tudo, reconciliadora. Espero que com esse trabalho eu possa ter suscitado o “espíritoanglicano” e provocado nossas mentes a pensar ou repensar nossas posições,diante de nós mesmos, diante do mundo e diante de Deus.Ut In Omnibus Glorificetur Deus 31
    • BibliografiaCALVANI, Carlos Eduardo B. Gemidos da criação e arrepios da Teologia –sussurros éticos nos ouvidos da Igreja, Revista Inclusividade, Nº 2, Centro deEstudos Anglicanos.FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber, vol.1, 13ªedição. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. GuilhonAlbuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1999.________________ Microfísica do poder, 15ª edição. Trad. e revisão RobertoMachado. Rio de Janeiro: Graal, 2000.________________ A ordem do discurso, 2ª edição. Trad. Laura Fraga deAlmeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. Trad. Denise Bottmann. SãoPaulo: Cia das Letras, 1999.GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor eerotismo nas sociedades modernas. Trad. Magda Lopes. São Paulo: EditoraUNESP, 1993.JENKINS, Philip. A próxima Cristandade: a chegada do Cristianismo Global, 1ªedição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004.PACKER, James I. Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vidacristã. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996.PORCHAT, Patrícia. A dança dos gêneros, revista mente & cérebro, nº 185, p.44-49. São Paulo. Editora Duetto, junho 2008.RIBAS, Mario. O debate sobre a Homossexualidade na Comunhão Anglicana ea “Nova Moralidade” de John Robinson, Revista Inclusividade, nº 2, Centro deEstudos Anglicanos.ROUGHGARDEN, Joan. Homossexualidade como traço adaptativo, revistamente & cérebro, nº 185, p. 50-55. São Paulo: Editora Duetto, junho2008. 32
    • SÉRIE REFLEXÕES nº 08. Resoluções da Conferência de Lambeth 1998.CEA, IEAB.SÉRIE REFLEXÕES nº 09. Relatório de Virgínia, relatório da comissão Inter-Anglicana de teologia e doutrina. CEA, IEAB.SEXUALIDADE HUMANA, Relatório final dos Colóquios AnglicanosInternacionais, Trad. Maria de Lima Salum e Morais, Revisão Dom GlaucoSoares de Lima. (Cópia Avulsa)SPONG, Jack, LEE, Peter J. Uma Catequese Sobre a Homossexualidade.http://www.psj.org.br/codigos/pt/paginas/artigos/catequese_homossexualidade.htm. Acesso: 26/06/2008TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. Trad. Álvaro Cabral. SãoPaulo: Martins Fontes, 2004.TRIANA, Pedro. Não Julgue... Somente compreenda, A Comunhão Anglicanae a Sexualidade Humana.http://www.dasp.org.br/codigos/artigos/nao_julgue_somente_compreenda.htm____________ Vivendo Segundo o Espíritohttp://www.dasp.org.br/codigos/artigos/vivendo_segundo_espirito.htm 33