Semana Revista (Set2008)

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    Semana Revista (Set2008) - Presentation Transcript

    1. P arecia absurdo, diante do trabalho carta ao leitor previsto para organizar a VII Sema- Reportagem expediente na do Jornalismo, fazer uma revista. Camila Brandalise As outras seis organizações devem ter pen- Cauê Oliveira sado o mesmo quando deixaram de lado Gabriel Rosa Joana Neitsch a idéia. Mas também era absurdo trazer Juliana Frandalozo cerca de quatro convidados por dia para o Juliana Gomes evento e, ainda assim, fomos em frente. Juliana Passos Se queríamos mais conteúdo na Semana, Juliana Sakae era inevitável ter algo que nos preparasse Leonardo Gorges para bancar perguntas e comentários em Pedro Dellagnelo palestras e mesas-redondas. A revista veio, Pedro Santos então, para localizar questões, apresentar convidados e trazer à tona alguns temas Colaboração que passam despercebidos nas aulas. Lívia Andrade O desafio não é tão desafiador quando Mayra Gomes Rodrigues se conta o número de pessoas que ajuda- Tarsia Paula Piovesan Farias Upiara Boschi ram a concretizar o projeto. Estou há três anos no curso de Jornalismo da UFSC, e Edição esta é a primeira publicação que conheço em que puderam e participaram alunos de Adriana Seguro Carolina Faller Moura todas as fases, sem reservas. Concepções de Fernanda Dutra curso, histórias, gostos, estilos diferentes, Jéssica Lipinski assim como os convidados da Semana. Luisa Frey Se há textos mais sisudos, como os ar- Marina Ferraz tigos acadêmicos elaborados para a dis- Marina Veshagem ciplina de Legislação e Ética por Tarsia Matheus Joffre Piovesan e Lívia Andrade, há também Wesley Klimpel outros mais soltos como o perfil de Fred Melo Paiva, por Juliana Gomes e a maté- Editoração ria sobre crônicas de Luisa Frey. Dicas de Carolina Faller Moura livros também não faltam: os clássicos de Flávia Schiochet Ruy Castro e do jornalismo investigativo, Jessé Torres Juliana Sakae referências bibliográficas dos artigos e a Marcelo Andreguetti resenha do livro de Arthur Dapieve, Mor- Paulo Rocha Azevedo reu na contramão, feita por Gabriel Rosa. Thiago Bora Só quando passar o dia 19 de setem- Wesley Klimpel bro é que saberemos se os desafios foram vencidos ou não. Independente dos erros Ilustrações e acertos, este é mais um capítulo de uma Alexandre Tcheto história de sete anos do curso de Jorna- Felipe Parucci lismo da UFSC. História dentro de outra Guilherme Costa ainda mais bonita – antes de nós, tantos João Paulo Bernardes nomes, lutas, discussões e vitórias. A nos- Marina Kinas sa VII Semana é mais uma contribuição, singela. E que, depois desta, a Semana do Coordenação Editorial Jornalismo se torne ainda maior, desafia- Fernanda Dutra dora e inteligente. Fernanda Dutra Coordenação Gráfica coordenação editorial Flávia Schiochet
    2. sumário 8 Uma voz diferente no esporte, José Geraldo Couto Por Leonardo Gorges 10 A falta de ética na distorção do áudio de jogos de futebol Por Tarsia Paula Piovesan Farias 14 Os sofrimentos do jovem Vinícius, na revista Por Fernanda Dutra 17 “Morreu na contramão”, o suicídio nos jornais Por Gabriel Rosa 20 Entrevista com Fausto Macedo – sem ilusões na profissão Por Pedro Santos 22 Sensacionalismo quer adestrar o público Por Mayra Gomes Rodrigues 24 Lembranças da época de foca Por Upiara Boschi 26 Quem investiga acha, o uruguaio Roger Rodríguez é a prova Por Adriana Seguro 28 Contabilizando, e lutando contra, a liberdade de imprensa Por Marina Veshagem 30 Uma lista não definitiva de reportagens investigativas Por Wesley Klimpel Por Juliana Sakae e Juliana Passos 32 ConselhoaFederal dos Jornalistas, do Jornalismo, de quem? Entenda sigla CFJ 34 Como se regulamenta a profissão no exterior Por Marina Ferraz 37 O caso Nardoni: quando a mídia julga antes da Justiça Por Lívia Andrade 42 Um café fictício com Fred Melo Paiva Por Juliana Gomes 45 Ruy Castro, entre poucas linhas e muitas páginas Por Luisa Frey e Camila Brandalise 50 Currículos, ou por que você estuda o que estuda Por Joana Neitsch e Juliana Passos 54 Repórteres sem vergonha, CQC Por Carolina Faller Moura e Marina Veshagem VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    3. vii semana do jornalismo Programação SEGUNDA Fred Melo Paiva 9h-12h // Minicursos escreve atualmente no caderno Aliás, do 13h-14h30 // Exibição de documentário jornal Estadão 14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão de curso 15/09 16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Jornalismo Esportivo: informação ou entretenimento? 19h // FRED MELO PAIVA // Palestra de abertura TERÇA 9h-12h // Minicursos Ruy Castro é o autor das biografias de 13h-14h30 // Exibição de documentário Nelson Rodrigues e Carmen Miranda 14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão de curso 16/09 16h30-18h30 // Mesa de Discussão: O suicídio como notícia 19h // RUY CASTRO // Palestra sobre biografia e crônica QUARTA 9h-12h // Minicursos Em ano de eleições , o repórter de política do Estadão, Fausto Macedo, 13h-14h30 // Exibição de documentário conta os bastidores da cobertura. 14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão de curso 17/09 16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Cobertura jornalística eleitoral 19h // CREMILDA MEDINA // Palestra sobre graduação em jornalismo *Grade de programação sujeita a alterações
    4. Programação vii semana do jornalismo *Grade de programação sujeita a alterações QUINTA 9h-12h // Minicursos Figura presente na história do curso, 13h-14h30 // Exibição de documentário Dalton Barreto promove churrasco de 14h30-16h // Apresentação de trabalhos de integração conclusão de curso 18/09 16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Jornalismo Investigativo - quais os limites da investigação? 19h // CHURRASCO DO DALTON // Happy Hour SEXTA 9h-12h // Minicursos Marcelo Tas, apresentador do 13h-14h30 // Exibição de documentário polêmico programa CQC da Band, 14h30-16h // Apresentação de trabalhos de discute a união entre jornalismo e humor conclusão de curso 19/09 16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Criação do Conselho Federal de Jornalistas 19h // DIEGO BARREDO E MARCELO TAS // Palestra sobre o programa de televisão CQC / Band 22h // FESTA DE ENCERRAMENTO // Balada louca no Hi-Fi com a banda Superpose e com os DJs Isaac e Andrew Getty A dupla de electropop Superpose agita o Hi-Fi na festa de encerramento da Semana. Ingressos antecipados a R$10 poderão ser adquiridos com os organizadores do evento.
    5. Esporte: &jornalismo entretenimento E m agosto, as madrugadas foram olímpicas nas emissoras de TV. Mesmo assim, durante o dia, programas e sites não abandonavam o assunto. “Rússia invade Geórgia, se- leção brasileira vence no vôlei mascu- lino. Direto para Pequim!” O esporte vira espetáculo e as fronteiras do que é noticiário e o que é entretenimento se dissolvem. Mais difícil, assim, é manter os pés na ética. Nas próximas páginas, José Geraldo Couto comenta as mudanças que o jornalismo espor- tivo sofreu nos últimos anos e Tarsia Piovesan analisa a manipulação de áudio nos jogos de futebol, especial- mente o caso Corinthians x Sport.
    6. Análise de um outsider entrevista por Leonardo Gorges, colaboração de Pedro Dellagnelo H Acervo pessoal á 20 anos na profissão, José Geraldo Couto deixou São Paulo há sete para curtir a tranqüilidade de Florianópolis. Daqui, ele escreve sobre esporte para Folha sem a euforia de quem acompanha jogos de futebol no estádio nem as amarras de comentários pontuais. Semana Revista: Você se considera um “outsider” ao escrever sobre fute- bol, alguém que enxerga as coisas sem tro da academia, isso também fez com estar diretamente envolvido. Como que mais estudantes se interessassem você vê o choque entre a geração que pela área do jornalismo esportivo, sem está chegando ao mercado agora, que qualquer tipo de condenação. A integra- se baseia mais em estudos de jornalis- ção com as outras editorias hoje é muito mo esportivo sem ter de fato chegado a maior. competir, e a atual, que comenta mais SR: Quais os maiores problemas baseada pela experiência pessoal? José Geraldo Couto: As duas coisas atualmente na cobertura de esportes no contam. Porém eu acho muito importan- Brasil atualmente? te o fato de essa nova geração estar estu- JGC: A cobertura cotidiana de es- dando o jornalismo esportivo, trazendo portes, em especial do futebol, ainda essa visão “de fora”, diferente. Houve é bastante tímida. Gira-se sempre em uma grande evolução no jornalismo es- torno sempre das mesmas questões, portivo desde que cheguei ao mercado, como transferências de jogadores, há mais de vinte anos. Naquela época, a contusões e etc. Acredito que falte editoria de esportes era bastante menos- um pouco mais de investigação, re- prezada. Éramos considerados profis- portagem mesmo. Gestão do esporte, sionais menos preparados. Isso mudou problemas administrativos e políticos muito nos últimos anos; os jornalistas são assuntos com pouco destaque. A esportivos passaram a ser mais valo- cobertura atual é muito superficial em rizados. O esporte em si deixou de ser sua grande maioria. marginalizado. Outra grande mudança SR: Estamos vendo hoje brigas en- positiva foi que pessoas de outras áreas tre os grandes grupos midiáticos para começaram a escrever sobre esportes, a aquisição dos direitos de transmis- como o Nando Reis (Estadão) e o José sões dos eventos esportivos, há muito Roberto Torero (Folha de S.Paulo). Den- dinheiro em jogo. Ao mesmo tempo, 08 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    7. pouco se investe no esporte de base. geral, se tornaram produtos da indús- Há solução para esse dilema? tria cultural. A espetacularização dos JGC: A organização do esporte no eventos e a mitificação do atleta podem Brasil hoje é muito influenciada pela afastar o leigo do esporte do dia-a-dia? mídia, em especial a rede Globo. Isso é JGC: Acho que acontece o contrário. um abuso, uma distorção. A interferên- Acaba-se atraindo pessoas que não têm cia da televisão não deveria chegar a qualquer tipo de proximidade com o esse ponto, de mudar calendários e ho- esporte com essa espetacularização e rários de partidas. Quanto à questão do a mitificação dos atletas. Um exemplo investimento, acredito que um bom lu- grotesco disso seria o público feminino gar para se formar atletas, que gerariam em geral, que não acompanhava muito, resultados no futuro, sejam as escolas. mas hoje acompanha notícias que não Mas nem o seu papel mais necessariamente envolvam o esporte, básico – ensinar – elas têm mas sim as celebridades que deles fa- “ feito, então fica complica- zem parte. E acredito do. Há a questão, também, que isso possa, de al- de que surgem ícones para gum jeito, fazer com que A falta de o desenvolvimento dos o esporte se dissemine. investimentos é um Talvez não da maneira esportes, como o Guga no sério entrave para tênis, mas são casos efê- mais correta. o desenvolvimento meros, que não têm uma SR: A “falação es- continuidade. A falta de do esporte no Brasil, portiva”, conceito cria- sem dúvidas investimento de base é do por Umberto Eco, ” um sério entrave para o defende que o esporte desenvolvimento do esporte no Brasil, passa a ser um longo sem dúvidas. discurso da imprensa SR: Assim como cresce o número esportiva sobre ela mesma, entregan- de atletas brasileiros participando das do um produto pronto a um receptor Olimpíadas, a cobertura dos Jogos passivo. O aumento de programas tem cada vez mais estrutura e espaço. esportivos, em especial no modelo O COI, Comitê Olímpico Brasileiro, é talk-show, cria um espectador mais contra essa “gigantização” olímpica. ou menos crítico? JGC: Essa definição do Umberto Eco Há como ir contra essa tendência? JGC: É muito difícil. Cada vez os não deve ser interpretada como algo países mandarão mais atletas, os patro- absoluto. Na contramão dessas mesas- cínios também crescem. É um ciclo que redondas que giram em torno de si, tam- dificilmente será quebrado. Acho que bém há tentativas de furar esse modelo. esse discurso do COI é puramente retó- O Rock Gol de domingo, da MTV, é um rico. Não vejo onde e como eles podem exemplo. Esse tipo de programa talvez coibir essa tendência, já que o esporte é, torne o espectador mais crítico, já que é a cada vez mais, uma grande fonte de ren- anti-mesa-redonda. Mas é aí que surgem da e entretenimento. vocês, estudantes de jornalismo, para pro- SR: Há autores que afirmam que por mudanças a este modelo. A imprensa o futebol brasileiro, e os esportes em deve estar em constante evolução. SEMANA 21 semana revista da REVISTA 09 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    8. Deslize ético: o caso Corinthians x Sport artigo por Tarsia Farias A final da Copa do Brasil de O áudio foi captado e divido em três Futebol aconteceu dia 11 de canais – o do narrador, o da torcida junho no Estádio Adelmar do Corinthians e o geral do estádio. da Costa Carvalho em Recife (PE). Bastou o diretor técnico aumentar o Disputavam o título o Corinthians, de volume do canal da torcida do Corin- São Paulo, e o Sport Clube Recife, de thians e diminuir o volume geral do Pernambuco. O Corinthians caiu para estádio. O resultado é que parecia que a série B no ano passado, e neste ano a torcida toda do Corinthians estava está lutando para voltar à primeira presente, o que aumenta a audiência divisão. Já o Leão, como é conheci- do jogo em São Paulo. Mas também do o Sport, ocupava em junho uma é possível aumentar a audiência nor- posição melhor: estava em 15º lugar destina, como foi feito no primeiro na classificação dos times da série A. jogo da final da Copa do Brasil, em 4 Uma pesquisa CNT/Sensus realizada de junho. Os leitores do site Blue Bus, em outubro de 2007 revela que o Co- especializado em jornalismo esporti- rinthians tem a segunda maior torci- vo, disseram ter ouvido a torcida do da brasileira, 10,5% da população, e Sport, minoria no estádio, gritar mais perde só para o Flamengo. Já a alto que a do Corinthians. Na torcida do Sport correspon- ocasião, o Morumbi de a 1%. tinha 65 mil corin- A final foi trans- thianos e 1 mil tor- mitida pela rede cedores do Sport. Globo, e narrada Em nota oficial pelo jornalista e enviada ao Blue locutor esportivo Bus sobre o jogo Cléber Machado. em Pernam- A transmissão buco, a rede dos campeona- Globo nega tos de futebol ter falsificado é uma opera- o áudio e alega que ção jornalística, “no início do jogo, a torci- realizada pelo De- da do Sport estava mesmo mais partamento de Jorna- apreensiva e, portanto, mais calada, lismo Esportivo da Globo. O estádio fato inclusive destacado por Cléber recifense tem capacidade para 36 mil Machado durante a transmissão. Esta pessoas, das quais 35 mil eram torce- situação imediatamente se reverteu, dores do Sport. Mesmo assim, o que com a reação dos torcedores do Sport se ouvia pela televisão em São Paulo ao perceber que seu time havia adqui- era o grito da torcida organizada do rido confiança para buscar o título – o Corinthians. A operação foi feita gra- que também pôde ser visto durante a ças à tecnologia e engenharia de som. transmissão do jogo”. A versão des- 10 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    9. considera o fato de que havia muito esportivos é efetuada pelo enquadra- mais torcedores do Sport que do Co- mento das câmeras televisivas, edição rinthians no estádio do Leão. das imagens com sons e efeitos grá- Pela capacidade de atrair telespec- fico-computacionais acrescentados a tadores de todas as idades, níveis de elas”. A briga pela audiência conquis- instrução e condição social, o esporte ta o telespectador de forma emocional passou a ser um bem-sucedido inves- pela conexão de imagens e sons. As timento financeiro para anunciantes. motivações para a espetacularização Uma pesquisa do CNT/Sensus, reali- podem ser a necessidade comercial zada em 2007 com duas mil pessoas ou a intenção de socialização e de das cinco regiões do país, revelou entretenimento. que a maioria das pessoas acom- O caso Corinthians x panha os jogos pela Sport atropela três TV: 64,3%. A TV é artigos do Códi- o meio de comu- go de Ética dos nicação com maior Jornalistas Brasi- inserção física nos leiros, divulgado lares brasileiros e pela Federação o veículo domi- Nacional dos nante no mer- Jornalistas (Fe- cado publici- naj) em 2007. tário. O poder O artigo 2º, in- simbólico que ciso II, diz que esta mídia agrega “a produção e a tem um peso considerável nos aspec- divulgação da informação devem se tos culturais de uma população, prin- pautar pela veracidade dos fatos e ter cipalmente no caso brasileiro, já que por finalidade o interesse público”, foi a TV que, em certo sentido, unifi- o que não se cumpriu nesse caso. O cou o Brasil. Ela domina o espaço pú- artigo 4º diz praticamente a mesma blico e fornece o código pelo qual os coisa: “o compromisso fundamental brasileiros se reconhecem como tais. do jornalista é com a verdade no rela- Segundo Bucci (1997, p. 09), sem a re- to dos fatos, razão pela qual ele deve presentação imposta pela TV, torna- pautar seu trabalho pela precisa apu- se “quase impraticável a comunicação ração e pela sua correta divulgação”. – e quase impossível o entendimento O terceiro artigo a ser violado (12º, in- nacional”. ciso V) é o que mais se aplica ao caso: O esporte é visto hoje como uma “o jornalista deve rejeitar alterações mercadoria a ser consumida no dia- nas imagens captadas que deturpem a-dia, principalmente na forma de es- a realidade, sempre informando ao petáculo. A maneira como a televisão público o eventual uso de recursos constrói os discursos sobre o esporte de fotomontagem, edição de imagem, é chamada por Betti (1998, apud Me- reconstituição de áudio ou quaisquer zzaroba, 2007, p. 28) de esporte teles- outras manipulações”. petáculo: “a mediação dos eventos Além de passar por desvios pesso- SEMANA REVISTA 11 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    10. artigo ais como os previstos no Código de Segundo Abramo (2003, p. 42), Ética dos Jornalistas, a ética na im- uma das razões porque os empresá- prensa passa por questões institucio- rios manipulam e distorcem a reali- nais e a discussão deve englobar não dade se situa no campo econômico: só os jornalistas, mas a direção da em- “o empresário de comunicação dis- presa também. Em busca de audiên- torce e manipula para agradar seus cia, lucro e poder, as empresas muitas consumidores, e assim, vender mais vezes sacrificam a independência do material de comunicação e aumentar departamento editorial de um veícu- seus lucros”. O autor também classi- lo. Apesar das dificuldades, buscar fica padrões de manipulação – o tipo os valores éticos evita que se caia no em que o caso Corinthians x Sport “caminho do vale-tudo”. Bucci (2000, se enquadra é o padrão de inversão: p. 33) faz um alerta: “É verdade que a inversão da forma pelo conteúdo, a atividade jornalística se converteu quando o ficcional espetaculoso troca num mercado, mas, atenção, esse de lugar com a realidade. mercado é conseqüência, e não o fun- A lógica de consumo dos dias de damento da razão de ser da impren- hoje abarca todas as instituições e é sa”. E continua: “A ética na imprensa uma tendência dominante na mídia. é sim, a demarcação de limites para o O que vemos hoje é mais um perfil pragmatismo, que, por si só, não co- de jornalista cooptado pela lógica de nhece limites”. mercado do que um jornalista a servi- A ética deve ser discutida com a ço do patrão. Mas isso não pode ser- sociedade, pois o cidadão é a razão da vir para justificar uma manipulação prática jornalística, e é a ele que o jorna- no áudio de uma partida de futebol lismo deve prestar contas, não ao anun- transmitida por uma equipe jornalís- ciante ou às medições de audiência. As tica. A alteração de um fato da reali- distorções deliberadas são mentiras dade (como os gritos de uma torcida) conscientes, e têm uma origem estrutu- não justifica a fome do lucro e da au- ral no Brasil: o regime de propriedade diência. dos meios de comunicação de massa, especialmente dos meios eletrônicos. Bibliografia Embora a legislação brasileira proíba que se formem monopólios ou oligo- ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação pólios com os meios de comunicação, na grande imprensa. São Paulo: Fundação Per- seu Abramo, 2003. o que se vê na prática é o contrário. Só BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. um grupo domina a maior emissora de São Paulo: Companhia das Letras, 2000. TV, o maior jornal diário, a maior emis- FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALIS- sora de rádio, etc. Deste modo, explica TAS. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros de 2007. Disponível no site da Fenaj: www.fenaj. Bucci (2000, p. 138), “o grupo que exer- org.br ce o monopólio fala sozinho no espaço MEZZAROBA, Cristiano. UNIVERSIDADE público, sem sofrer contestações e sem FEDERAL DE SANTA CATARINA Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Os jo- conhecer competidores econômicos, o gos pan-americanos Rio/2007 e o agendamento que gera um ambiente propício para as midiático-esportivo: um estudo de recepção com escolares. Florianópolis, 2008. distorções deliberadas de informação”. 12 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    11. Suicídio notícia como P ouco se fala sobre suicídio na imprensa, e o mesmo ocorre no cotidiano, comenta Arthur Da- pieve ao comentar seu estudo sobre o assunto, o livro Morreu na contramão. A questão é delicada, e, com isso em mente, os repórteres Marcelo Ferla, Eliane Brum e Marina Bessa decidiram contar a história de Vinícius Gageiro Marques, o Yoñlu. Descrever ou não como o garoto escolheu pôr fim à vida, elogiar seu talento, revelar detalhes, to- mar posição contra? Os bastidores das reportagens feitas para Rolling Stone, Época e Capricho, respectivamente, es- tão nas próximas páginas.
    12. Um garoto incomum na mídia reportagem Por Fernanda Dutra Rolling Stone, Época e Capricho retrataram a vida e o suicídio de Vinícius, Yoñlu na música. V inícius Gageiro Marques tinha rativa do suicídio de Vinícius, mas não uma história que o jornalista escolhi contá-la. Fiz o perfil de um ga- Marcelo Ferla não queria con- roto músico, e o que o levou a compor tar. Aos 16 anos, o menino se suicidou, aquelas canções. Claro que isso passa em julho de 2006, deixando uma cente- pela depressão e o suicídio, mas não é o na de músicas sob foco”, explica Ferla. o pseudônimo O mundo onde Yoñlu. A pauta Yoñlu era reco- era sugestão do nhecido, a inter- repórter Alex An- net, foi um campo tunes da revista de pesquisa para Rolling Stone, mas Ferla. “A internet Ferla temia que o era como ele se adolescente fosse comunicava com o estereótipo do o mundo, mas garoto de preto. não quis tomá-lo “A música dele como exemplo de desfez minha adolescentes ví- idéia inicial. Não timas do mundo era morbidez, virtual”, diz. Por sim poesia”, diz. e-mail, conver- O lançamento do CD Yoñlu foi o gancho para Junto com a retornar a história do suicídio de Vinícius, sou com amigos morto em julho de 2006 carta de suicídio, virtuais e parcei- Vinícius deixou ros de trabalho um CD com algumas músicas suas. O da Europa. Seguiu os posts e comen- pai Luiz Marques descobriu muitas tários do garoto nos fóruns de música delas no computador do adolescente e e de suicídio. A reportagem de sete páginas, Can- a vontade de perpetuar a obra do filho o levou a uma gravadora e a uma dis- ções para viver mais, saiu na edição de tribuidora independente. O lançamento março da revista. Contar a vida de Viní- de Yoñlu, em fevereiro deste ano, foi o cius foi emocionalmente doloroso para gancho para o caso retornar à mídia. Ferla. “Quanto à família, nada é pior do A revista Rolling Stone, ligada à mú- que eles já passaram. A privacidade de- sica e ao entretenimento, parecia um ve- les foi devassada pelo próprio suicídio. ículo interessante para divulgar Yoñlu. Mas guardei alguns detalhes irrelevan- Marques mostrou-se disposto desde o tes que poderiam parecer sensaciona- primeiro contato com Ferla. “Há a nar- listas”, revela o jornalista. 14 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    13. A A mãe de Vinícius repórter da revista Época, de 2007, Thia- queria denunciar os Eliane Brum, passava uma go de Arruda, temporada em sua cidade na- estudante de fóruns virtuais de tal, Porto Alegre, no inverno de 2006, Educação Fí- suicídios, onde ele para revisar o que seria seu segundo sica de Ponta encontrara instruções livro, A vida que ninguém vê - coleção Grossa, no e apoio para utilizar o de crônicas-reportagens sobre pessoas Paraná, se sui- método CO2 anônimas já publicadas no jornal Zero cidou. Ele foi Hora. Um anônimo, então, se destaca- orientado por va por encerrar sua vida tragicamente. um internauta anônimo a usar o mes- Talvez por ser mãe, Eliane se identifi- mo método que Vinícius, após sofrer cou com a dor dos pais. difamações pelo Orkut. A jornalista Algum tempo depois, recebeu uma viu sua pauta crescer em importância ligação da mãe de Vinícius, Ana Maria e interesse público. Tentou Ana Maria Gageiro. As duas não se conheciam, de novo, mas recebeu uma negativa. mas tinham contatos em comum. Ana Em Porto Alegre, no começo des- Maria queria denunciar os fóruns vir- te ano, Eliane leu no jornal Zero Hora tuais de suicídios, onde o filho encon- que o CD Yoñlu seria lançado. “Liguei trara instruções e apoio para utilizar o para Ana Maria, expliquei que com método CO2 – em que são usadas gre- um lançamento nacional eu não po- lhas de churrasco deria mais esperar”, para causar intoxi- Eliane apurou a partir do conta. Combinaram cação por monóxi- inquérito policial. Junto com uma entrevista, mas ela, duas repórteres bus- do de carbono. antes de a repórter Eliane voltaria a caram sites de suicídio do embarcar, a con- Porto Alegre para mundo inteiro e pessoas que versa foi cancelada. conversar com Ana conheciam Vinícius Desta vez, o motivo Maria e Luiz Mar- era o compromisso com a revista Rolling ques. Mas pouco antes recebeu uma ligação do pai cance- Stone. Ainda que, em momento algum, lando a entrevista, pois o jornal Zero Hora o jornalista Marcelo Ferla tenha pedi- publicaria a história do filho, o que aba- do exclusividade. lou a família. Eliane postergou a matéria. Eliane apurou a partir do inquérito A pedido dos pais, o nome de Viní- policial. Junto com ela, as repórteres cius foi omitido no jornal do dia 10 de Solange Azevedo e Renata Leal busca- agosto de 2006. O texto alertava para ram sites de suicídio do mundo intei- os perigos da internet e transcrevia tre- ro e pessoas que conheciam Vinícius. chos da conversa do adolescente nos A principal entrevista de sua matéria fóruns de suicídio onde, no dia de sua é com o psicanalista do adolescente, morte, ele pede ajuda para suportar o Mário Corso. “Obviamente eu gos- calor das grelhas. A Época não repercu- taria de ter conversado com os pais e tiu por respeito aos pais de Vinícius. conhecido o mundo do Vinícius mais Eliane ocasionalmente perguntava de perto. Esperava há um ano e meio, se Ana Maria já queria falar. Em março e tive de fazer tudo em uma semana e SEMANA REVISTA 15 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    14. meia, já que o CD estava pronto para uma versão sem explicar como Viní- o lançamento. Foi um processo pesso- cius se suicidou. “Explicar não é um al muito difícil para mim”, diz Eliane. estímulo [para outros suicídios], dá Na edição de 11 de fevereiro da Época, uma sensação ruim – importante para saiu a reportagem de onze páginas, a matéria fazer sentido”, afirma. Suicidio.com, um alerta aos pais sobre A reportagem de quatro páginas, Cartas a Vinícius, publicada na primei- os perigos da internet. Na redação da revista adolescente Ca- ra quinzena de março, trouxe o lança- pricho, era inevitável que o caso ganhasse mento de um blog de apoio à depres- são no site da revista, o Papo de Amiga. repercussão. A então editora de compor- tamento Marina Bessa conversou com lei- A repercussão entre as leitoras foi in- tensa. Mas, com o tempo, a Capricho toras sobre depressão e muitas disseram já ter pensado sobre suicídio. “A idéia era percebeu que a tristeza das adolescen- passar palavras de conforto às meninas tes era muito diferente da que Vinícius deprimidas”, conta Marina. sentia. Quilos a mais, briga com ami- A repórter pediu a dez blogueiras gas ou término de namoro dificilmen- cartas que lembrassem Vinícius por te levariam ao suicídio, a não ser que que era bom viver. Três foram publi- existisse um quadro complexo de de- cadas. Um texto introdutório descre- pressão. O mais recente post do blog via a morte do garoto. Marina hesitou até o fechamento desta edição tinha o em contar detalhes e chegou a escrever título “Não sei se transo com ele”. Trechos das reportagens sobre a morte de Vinícius No mundo virtual não há nenhuma per- versão nova, apenas as velhas modalidades que já assombravam as ruas da realidade. A diferença é que, na internet, qualquer um Antes de começar a morrer, pode exercer seu sadismo protegido pelo Vinícius, um gaúcho de 16 anos, anonimato, na certeza da impunidade. Basi- deixou ao lado de seu computa- camente, a idéia é: “Se ninguém sabe quem dor um CD com algumas de suas eu sou, não só posso ser qualquer um, como músicas. Compor letras e melo- posso fazer qualquer coisa”. dias era o seu jeito de aliviar a Suicidio.com dor imensa que sentia. Tão gran- de, tão forte que, algumas vezes, tirava a sua vontade de viver. Era isso que ele dizia nas conversas que tinha na internet, sempre “Apesar de ter sido uma efetiva interlo- com o nick de Yoñlu. Foi também cutora musical, Ana [mãe de Vinícius] con- no mundo virtual que, no auge fessou, antes mesmo de eu ligar o gravador, do desespero, Yoñlu buscou to- que não consegue ouvir o disco de Yoñlu das as informações de que preci- – mais no final da entrevista admitiu que sava. Entre elas, a melhor forma “aquilo ali pra mim é um inferno, né?”, refe- de morrer. rindo-se ao quarto do garoto, que o marido Cartas a Vinícius preferiu manter arrumado, como nos velhos tempos de convivência a três” Canções para viver mais 16 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    15. Morreu na contramão resenha Por Gabriel Rosa Dapieve analisa o histórico do suicídio na imprensa e discorda da teoria do contágio de Durkheim, que entende que a divulgação das mortes resultaria em outras. A pós publicar o livro Os sofri- mentos do jovem Werther, em 1774, o alemão Wolfang Goethe teve uma triste surpresa: uma onda de suicídios atingiu a Alemanha, e vários Adaptado da tese de mestra- jovens se mataram como o protagonista do do jornalista, do livro, atirando com uma pistola na “Morreu na própria cabeça. Em muitos dos casos, contramão” foi um exemplar da obra de Goethe era en- editado pela Ed. Jorge Zahar, tem contrado ao lado do corpo. A imitação 196 páginas e foi apelidada, posteriormente, de efeito custa R$ 42 Werther. Esse é um dos exemplos mais utiliza- o autor mostra que, dos para explicar o chamado contágio apesar de ser uma pauta evitada pelo que o suicídio pode causar – tema explo- jornalismo, o suicídio sempre foi visto rado por Arthur Dapieve, colunista do com curiosidade por aquelas duas áreas. jornal O Globo e professor da PUC-Rio, O suicídio (1897), de Durkheim, é con- no livro Morreu na contramão: o suicídio siderado um estudo pioneiro da então como notícia. “Cópias de tais notícias desprezada área da sociologia, a suici- [sobre suicídios] são, frequentemente, dologia. Até a publicação da obra, gran- encontradas ao lado de corpos de outros de parte das abordagens sobre a morte suicidas”, explica o autor, “do mesmo voluntária era baseada em preconceitos modo como, no século XVIII, acontecia medievais ou relatos feitos por médicos. com os exemplares de Werther”. Escrito O suicídio de um casal em 1732, em como tese de mestrado do jornalista, foi Londres, foi amplamente explorado adaptado e lançado pela editora Jorge pela imprensa inglesa. Após matar o Zahar, em 2007. Apesar de ser um texto filho de dois anos, marido e mulher se acadêmico, o livro é acessível, mesmo enforcaram lado a lado – não sem an- para pessoas que não têm intimidade tes deixar dinheiro reservado para os com o jornalismo. As questões são ela- cuidados com um cão e um gato, como boradas a partir de acontecimentos, tra- explicitado num bilhete. A frieza do ato tando com realismo um tema delicado é considerada por muitos estudiosos como o suicídio. do assunto, e também por Dapieve, um Dapieve procura relacionar a filo- marco na relação entre a imprensa e o sofia e a sociologia. A partir de Émile tema: deve-se tratar os suicidas como Durkheim, Karl Marx e Albert Camus, pessoas racionais? A humanização dos SEMANA REVISTA 17 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    16. que optaram a morte voluntária, afinal, criadores da realidade em que se inse- resenha pode incentivar novos suicídios? rem, eles têm as mesmas dificuldades de A solução implícita encontrada pelas tratar do tema”, conclui Dapieve. redações foi, então, tratar os suicidas da Na política editorial da rede de comu- mesma maneira que na Idade Média: nicação RBS, por exemplo, aconselha-se como loucos, fanáticos religiosos ou pes- o seguinte: “As notícias sobre suicídios soas com problemas amorosos, financei- – a não ser em casos excepcionais – não ros e familiares. Dapieve mostra, através devem ser divulgadas ou destacadas. de uma minuciosa análise em notícias (É fato comprovado que a divulgação do jornal O Globo, como o estereótipo de suicídios estimula a morte de suici- do suicida enlouquecido foi construído das potenciais)”. Casos excepcionais através da história da imprensa: o terro- incluem mortes em situações inusitadas rista islâmico que explode dez pessoas ou de pessoas famosas, como o ex-presi- não é incluído na contagem de mortos; o dente Getúlio Vargas. pai que mata os dois filhos e depois atira Dapieve mostra como o estereótipo do suicida em si mesmo é cha- enlouquecido foi construído pela imprensa. mado pela impren- Ao isolar o suicida, bloqueia-se a idéia de que sa de “colecionador alguém faria o mesmo. de armas”; o famoso estilista carioca que supostamente se enforca na sacada do É impossível delimitar as ações apartamento pode ter sido assassinado, do jornalista que precisa lidar com o ao invés de ter se matado. Ao separar suicídio, já que cada veículo cria suas os suicidas do resto da sociedade, blo- próprias regras para a cobertura dos queia-se a idéia de que qualquer pessoa fatos. Mas Dapieve, na conclusão do poderia fazer o mesmo. livro, recomenda, embasado em um Dapieve discorda da idéia de contá- artigo da radialista norte-americana gio: “Ninguém que já não pensasse em Cindi Deutschman-Ruiz: não tratar se matar vai se matar ao ler ou ouvir o suicida como louco (já que, desde sobre algum suicídio. Um caso público Durkheim, têm-se provas concretas de apenas pode servir como gatilho para que a morte voluntária e a loucura não desencadear processos já latentes”. Mas, estão necessariamente conectadas); apesar disso, a maioria dos veículos não detalhar os procedimentos utili- acredita que uma descrição detalhada zados pelo suicida; prezar pela saúde dos procedimentos usados pelo suici- dos leitores, pois como afirma Deuts- da possa influenciar outras mortes. As chman-Ruiz, “a cobertura de suicídios empresas jornalísticas, então, evitam o é uma oportunidade de fornecer ao tema e abrem mão de divulgar a infor- público informações e recursos que mação completa, esquivando-se assim podem salvar vidas”; e não dar infor- de processos judiciais e questões morais mações desnecessárias sobre o morto, complexas. “Há gente que sequer gosta como sua preferência sexual ou sua de conversar sobre o assunto. Como os vida familiar, se não forem diretamen- jornais são muito mais reflexos do que te ligados ao fato. 18 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    17. Cobertura jornalística eleitoral O jornalismo de declarações está disseminado na im- prensa brasileira. A culpa, segundo Fausto Macedo - repórter de política do Estadão e convidado para esta mesa-redonda - é a indústria das indenizações. O repórter é reprimi- do com a ameaça de que a matéria o leve à Justiça e haja perda financeira. Começar nesse universo de intrigas e discursos carregados de segundas intenções é difícil. Que o diga o ex- aluno do curso Upiara Boschi: tinha menos de um ano de formado quando teve que entrevistar os candidatos ao governo de Santa Catarina.
    18. Sujar os sapatos, sem ilusões entrevista por Pedro Santos C Valéria Gonçalvez/AE om 34 anos dedicados ao jornalismo, Fausto Ma- cedo não se ilude quando o assunto é política editorial, e acredita que a liberdade de imprensa não é absoluta. Mesmo assim, há margem de manobra. Semana Revista: Vivemos hoje um jornalismo político mais basea- do em declarações oficiais do que em pesquisa, imersão, aprofundamento. O senhor mesmo disse, em outras volta das cinco da tarde, pegava os entrevistas, que são raros os repór- textos e cortava o que achava que ti- teres que têm coragem em assumir nha que cortar. Era a censura do regi- uma denúncia. Como chegamos a me que a gente atravessava naquela esse ponto? Fausto Macedo: Um dos motivos época. Hoje é o regime empresarial, é a indústria da indenização. Os pro- uma censura mal-disfarçada. Não há cessos são realizados não exatamente campo para romantismos, sabe? Para contra o repórter, mas contra o jornal dizer que a imprensa é absolutamente para o qual ele trabalha. E isso provo- livre. Não é! ca um recuo das redações, intimida. É SR: Existe alguma margem de ma- um dos motivos desse jornalismo de- nobra do repórter para driblar esse in- claratório. De dez anos para cá essa in- teresse político superior, do patrão? dústria da indenização se fortaleceu. FM: Tem gente que está tentando driblar isso aí. Nossa profissão é essen- SR: Por sua experiência, como o cialmente social, preocupada em in- repórter deve lidar quando se depa- formar. Quando a gente corre atrás de ra com interesses políticos que nem uma informação, é um serviço para o sempre estão explícitos? FM: A maior parte dos grupos de público, e não um motivo espúrio. Até comunicação são empresas, têm inte- houve o episódio de uma colega nossa, da Folha, que fez nada mais nada me- resses políticos. Nós, repórteres, traba- lhamos de acordo com a linha editorial nos que dar um furo de reportagem. defendida pelo jornal. É o interesse Ela publicou, no dia 28 de abril, que empresarial, diferente da censura que existia uma investigação contra Daniel exercia a Polícia Federal nos anos 70. Dantas. Para a Polícia Federal, a repor- Ali, você sabia exatamente que era o tagem foi criminosa. Até nisso a gente censor que chegava à redação ali por corre o risco de ser enquadrado, por 20 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    19. um delegado que achou que, ao publi- tipo de neutralidade ou é mais respei- car a reportagem, havia interesse em to à fonte? avisar a tal da organização criminosa. FM: Neutralidade. Quando digo No dia-a-dia, a gente vai tentando dri- que o repórter não deve se apaixonar blar essa pressão interna, dos veículos; pela fonte é que ele não deve ir com e externa, que vem das ações. Isso pro- muita sede ao pote. Porque a fonte voca intimidação nas redações. Mas, também tem interesses. por outro lado, é bom para que o re- SR: Certa vez o senhor disse que pórter tome cada vez mais cautela. seus piores momentos profissionais SR: O senhor acredita que de modo eram quando suas matérias eram en- geral as pessoas vêem o jornalismo gavetadas inexplicavelmente. Como a político fora do cotidiano delas e pre- empresa jornalística, como o Estadão, ferem ler outros cader- influencia na produção das pautas nos, como o de cultura e para a editoria de Política? “ FM: É nessa apura- o esportivo? FM: Não posso dizer ção do dia-a-dia que que o jornalismo polí- você esbarra às vezes Quando a gente tico seja rejeitado, mas em algum tema que ou corre atrás de uma não tem o apego que não é de interesse do informação, é um devia ter do leitor. Eles jornal ou porque atinge serviço para o preferem mesmo outros alguém das relações da público, e não um cadernos, o de Cultura, empresa. Em qualquer motivo espúrio de Esportes, o noticiário veículo de comunica- ” policial, que tem apelo. ção é assim. Pelo descrédito que vive a política, o SR: Nesses casos, leitor não se interessa pelo que deveria quando você chega se interessar. com a matéria pronta e ela é engave- SR: E como fazer para mostrar para tada: os motivos não são realmente as pessoas que a política vai além dos inexplicáveis, não é? FM: Há casos em que logo no come- anos de eleição, da festa partidária, ço da apuração você já recebe a orien- dos presentinhos dos políticos? FM: É, não pode realmente ficar na- tação do que não interessa para o jor- quele jornalismo declaratório idiota, nal. O repórter tem que entender que é de ir ao Congresso pegar a mera de- funcionário da empresa. Nós não temos claração de político. Tem que buscar essa liberdade que as pessoas de fora do formas de captar o leitor. E tem de pu- nosso meio imaginam que existe. Ain- blicar com precauções. Mesmo porque da assim, não podemos ignorar que há nós não somos juízes, somos repórte- jornais, tevês, rádios e sites que fazem res. Não temos o direito de julgar nin- um bom trabalho, apesar das amarras, guém, nem de nos apaixonar por uma das limitações por interesses políticos fonte ou de odiar um investigado. Não dos patrões. Salvo aí as exceções das nos cabe fazer juízo de valor. Nos cabe pequenas municipalidades, onde os ve- apenas informar. ículos locais não têm a autonomia que SR: O senhor está defendendo um os maiores têm nas capitais. SEMANA REVISTA 21 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    20. A Força Disciplinar no Sensacionalismo artigo Por Profª. Drª. Mayra Rodrigues Gomes Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP V amos considerar as matérias se sobrepõe a natureza disciplinar, pois que são rotuladas como sensa- as escolhas são norteadas pelos aconte- cionalistas sob o viés de alguns cimentos que chamam a atenção, justa- vetores que constituem a natureza do mente por infringirem ditames sociais. jornalismo. A confirmação do laço so- O princípio da escolha é de ordem nor- cial, que faz povo e nação, ao lado da vi- mativa o que a torna instrumento dis- gilância, que resguarda as democracias, ciplinar. têm norteado a produção jornalística e Desde a expansão do jornalismo alimentado o ideário dos que a tomam no século XIX vemos a priorização de como responsabilidade social. temas hoje rubricados como sensacio- Ora, tal orientação determina que a nalistas. Por esta época, face ao nasci- tarefa narrativa do jornalismo se desdo- mento da população (as grandes con- bre em apontamentos sobre os modos centrações urbanas) e face à instalação corretos de ser, sobre as atitudes desejá- das Nações (enquanto Estados), há uma veis em nome do equilíbrio social. política de contenção para que um Lembrando o pensamento de Mi- e outro se submetam à or- chel Foucault, pensamos essa con- dição enquanto função disciplinar. O número de matérias que cobram atitudes justas confirma a dis- posição discipli- nar. Nesse caso, quando falamos sobre a pauta jornalística em termos dem, para que a primeira se veja refleti- de acaso, de sedução ou de interesses da na segunda e, assim, conforme-se à do mercado escamoteamos sua outra administração imposta. Nascem as so- razão de ser. ciedades disciplinares, movimento que Na pauta estamos comprometidos, o jornalismo acompanha. como já nos alertou Pierre Bourdieu, com duas lógicas que comandam o jor- “Evidentemente por uma moral rigorosa: nalismo. Por um lado, a lógica do furo, daí esta formidável ofensiva de moralização que gera a procura da notícia mais que incidiu sobre a população do século XIX quente, por outro, a do julgamento dos (...) foi absolutamente necessário constituir pares, uma vez que os próprios jorna- o povo como um sujeito moral, portanto listas se tornam avaliadores das figuras separando-o da delinqüência, portanto se- proeminentes em seu meio. parando-o nitidamente do grupo dos de- Assim posta, a pauta é dimensiona- linqüentes, mostrando-os como perigosos da por mecanismos internos ao campo não apenas para os ricos, mas também para do jornalismo. Mas a estes mecanismos os pobres, mostrando-os carregados de to- 22 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    21. espectadores de jornais televisivos, se dos os vícios e responsáveis pelos maiores constrói como resposta à afronta dire- perigos. Donde o nascimento da literatura cionada a um dos principais focos, afi- policial e da importância nos jornais, das nal, de disciplinaridade. páginas policiais, das horríveis narrativas de crimes” (FOUCAULT, 2001, p. 133) “De modelo, a família vai tornar-se ins- trumento, e instrumento privilegiado, para Ora, somos despistados da natureza o governo da população e não modelo qui- dessas “horríveis narrativas de mérico para o bom governo” crimes”, no que diz respeito (FOUCAULT, 2001, p. 289) a sua função social, quando as reduzi- mos ao Além disso, ao pensarmos a exposi- vetor do furo, ção da criminalidade, devemos lembrar ou a um sub- que a própria construção narrativa é produto da repleta de indicações, organizadas em sociedade de torno das figuras do vilão e do herói, espetáculo. que pontificam sobre o bem e o mal. Como pon- Não faltaram, na história de Isabella, os to de reflexão, ditames sobre tomamos o os modos de recente caso agir dos pais, do assassinato da polícia, os da menina Isa- modos da cole- bella Nardo- ta de testemu- ni. Todos os veículos se concentraram nhos e provas na tragédia, explorando os detalhes etc. Em todos da família e suas conexões. A opinião estes casos, pública, dizem que por influência das todo o tempo, mídias, logo se colocou contra o pai e a norma foi a madrasta. apontada e in- A televisão foi exímia em mostrar a vocada. população reunida em ato de protesto, Sob a ótica que expusemos, essas acusando-os de assassinos e clamando notícias, um tanto espalhafatosas, por justiça. Esse é o quadro do espetácu- têm uma função de adestramento. lo, incentivado e explorado pelas mídias. Elas prescrevem sobre certo e errado, Contudo, é também o quadro em sobre falta e punição, configurando os que materializam os dispositivos disci- modos de ser, veia mestra dos dispo- plinares. O povo sai às ruas porque esse sitivos disciplinares. é um crime que mexe com um dos eixos sagrados da estrutura social, a saber, a Bibliografia família. A família, enquanto idéia fon- BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. A influência te, é depositária de anseios, esperanças, do jornalismo. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1997. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de idealizações. Janeiro, Edições Graal, 2001. A reação do povo, tanto quanto dos SEMANA REVISTA 23 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    22. Lembranças de um repórter semi-experiente crônica Upiara Boschi, ex-aluno do curso de jornalismo da UFSC, há dois anos era foca, hoje é quem está há mais tempo na editoria de política do jornal A Notícia À minha frente, os oito candidatos a el Dias – justo um dos que ele não tinha governador de Santa Catarina. Ao lado, preparado nada. Lembro vagamente da os 16 vereadores e o prefeito de Floria- pergunta que fiz, só de que gaguejei mui- nópolis, além de outros três jornalistas to e saí vivo. A missão estava cumprida e convidados. Apertado em uma camisa a matéria sobre a briga de Amin e Berger que não usava há meses, nervoso e sem impressa no jornal do dia seguinte. ter certeza sobre o que perguntar, eu Naqueles primeiros dias, qualquer praticamente fazia a minha estréia na posse de secretario em São José me tirava cobertura de política do jornal. o sono. Se tivesse que falar com deputado Não fazia um mês que o editor me cha- ou prefeito, ficava nervoso. Aí, olhava para mou para conversar sobre a vaga que esta- a colega mais experiente e pedia o telefone va aberta, na editoria de política. “Se você do assessor. Ela respondia com a frase que não se adaptar, a gente pode tentar rema- eu passaria a dizer tempos depois para nejar mais para frente”, disse. Eu tinha uma quem fazia pedidos semelhantes. “Liga pequena passagem pela editoria de geral e direto pra ele, o telefone é tal”. Ligar direto uns cinco meses de esporte no meu currí- pro deputado? Calma, eu sou novo aqui, culo de jornalista iniciante e via a política dava vontade de dizer. como um lugar em que chegaria quando Pouco tempo depois eu acabei pro- tivesse mais experiência. Foi desnecessário. movido para a cobertura estadual - Poucas vezes me senti tão foca quanto tchau, São José! - e recebia na redação o naquela noite em que a Câmara de Vere- governador reeleito Luiz Henrique da adores promoveu o debate com os candi- Silveira, em entrevista exclusiva após a datos ao governo estadual. Acabei sendo vitória. A outra repórter estava de férias escolhido para representar o jornal naquele e a “missão” caiu no meu colo. Assim, evento – que foi transmitido pelo canal de 2006 foi o ano em que comecei desem- TV da instituição. pregado e sem experiência profissional e Quem assistiu, certamente lembra que o acabei entrevistando o governador. debate foi morno até que um jornalista (não Dois anos depois, a diferença é que eu) perguntasse algo que resultou em troca agora sou o repórter mais antigo da de farpas entre o ex-governador e o prefeito editoria. Não vejo vantagem ou mérito Dário Berger, que assistia ao debate ao lado nisso, sinto muita falta daquela colega de seu então líder de governo, vereador Ju- a quem eu perguntava muito mais do arez Silveira. As farpas se transformaram que o telefone do assessor – e ela sem- em bate-boca, que acabou com os dois re- pre sabia o que responder. Infelizmen- gistrando boletins de ocorrência. te, é a tendência: redações cheias de Ninguém vai lembrar do repórter gente jovem ligando diariamente para de nome estranho, sorteado para fazer os mais experientes, os assessores. Isso uma pergunta para o candidato Mano- explica muita coisa. 24 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    23. Limites do jornalismo investigativo A partir da experiência profis- sional e do conhecimento de casos históricos, os convida- dos discutirão algumas questões acer- ca dos limites do jornalismo investiga- tivo. Qual a fronteira entre o papel do jornalista investigativo e do Estado? Até que ponto a ética profissional limi- ta o investigador? A que meios pode o jornalista recorrer para perseguir os objetivos da pauta? A mesa abordará também temas como a coerção social e jurídica a que são submetidos alguns profissionais, as técnicas e instrumen- tos do jornalista investigativo, a rela- ção com as fontes, o off, a segurança do repórter durante a apuração, os acordos e parcerias, etc.
    24. Olho de repórter e coração de mãe perfil Por Adriana Seguro A ditadura não acabou para Roger Rodríguez. Sua considera- ção pelas famílias que sofreram, o desejo de encontrar a ver- dade e o faro para a sujeira o levam a vasculhar uma época que muitos preferem esquecer. Como bom investigador, ele quer por quais irracionalidades as vítimas fo- preencher todas as lacunas de infor- ram escolhidas. Isso me permite chegar a mação. Quando interrogado, fornece importantes conclusões que derrubam as respostas completas, talvez como ele histórias oficiais, criadas pela própria di- gostaria que suas fontes lhe dessem. Na tadura e pelos governos permissivos que entrevista por e-mail, perguntado sobre a sucederam.” sua idade, responde: “Tenho 48 anos, No último dia 13 de agosto, Rodrí- estou casado há 30 com minha compa- guez compareceu a um Tribunal de nheira Sara, tenho três filhos (Natalia, Apelação, para responder em segunda de 27, Sebastian, de 26 e Virginia, de 15) instância a um processo de difamação e e um neto de um ano e meio chamado injúria, no qual o juiz lhe havia sido favo- Renzo.” Juan Roger Rodríguez Chana- rável em março. A história começou em dari é jornalista há 30 anos e repórter do 30 de novembro de 2007, no julgamento jornal La República desde 2001. do general Gregório “Goyo” Alvarez. O Rodríguez tem um histórico de resis- repressor Iván Paulós era testemunha e tência e se sente honrado por ser o últi- aparecia pela primeira vez ante a justiça. mo processado e o primeiro anistiado Paulós veio acompanhado de dois guar- pela justiça militar da ditadura uruguaia da-costas. Um era o coronel Eduardo (1973-1985). Ele ficou preso durante três Ferro, que seqüestrou a ativista uruguaia semanas em 1984 por denunciar, no se- Lilian Celiberti e o estudante Universin- manal La Voz, maus tratos às presas do Rodríguez em Porto Alegre, em 1978. políticas do país. O outro poderia se passar por um desco- Como sanções às “Hoje, como na- nhecido, se não fosse a observação aguça- descobertas que quela época, in- da de Rodríguez. publicou, além de ser vestigo as viola- O anônimo levava uma arma embai- preso, Rodríguez foi ções aos direitos xo do casaco, flagrada por um fotógrafo ameaçado diversas humanos, por do La República. “Comecei a investigar vezes, sem contar os que entendo que quem era e pude confirmar que tinha um não é passado, e passado obscuro”, afirma o jornalista. O processos. sim presente. Os major aposentado Enrique Mangini ha- desaparecidos seguem desaparecidos a via sido, quando estudante, integrante cada dia. O delito continua sendo cometi- de um grupo de ultradireita, o Juventud do e não pode haver futuro se não se sabe Uruguaya de Pie (JUP). Tinha participado a verdade do que ocorreu e ocorre.” Há da invasão a uma escola em 11 de agosto 25 anos, o jornalista pesquisa como foi o de 1972, que terminou no assassinato do processo repressivo uruguaio. “Analiso estudante Santiago Rodríguez Muela. A 26 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    25. denúncia foi publicada no diário e Man- de vida. Somente em 2002, como resul- gini indiciou Rodríguez. O jornalista saiu tado paralelo da investigação de mais de novamente ileso da última apelação. um ano que Rodríguez fazia para a revis- Como sanções às descobertas que ta Posdata, aconteceu o reencontro. Pelo publicou, além da prisão, Rodríguez foi trabalho, recebeu o XIX Prêmio Direitos ameaçado diversas vezes, sem contar os Humanos de Jornalismo, do Movimento processos. “Não as considero de Justiça e Direitos Humanos, organiza- penalidades, e sim condecora- ção não governamental de Porto Alegre. “ ções. Meu único sofrimento é Entre outras coisas, o jornalista também o fato de não se saber toda a denunciou o “segun- Hoje, como naquela verdade. Minha pena é que do vôo”, um traslado época (da ditadura haja mães que morram sem clandestino de opo- uruguaia), investigo saber onde estavam seus sitores seqüestrados as violações aos filhos e filhos sem saber o na Argentina para o que aconteceu com seus Uruguai, onde eram direitos humanos, pais. Estou convencido de executados. A desco- porque entendo que que encontrar a verdade é não é passado, e sim berta do vôo secreto parte da cura dessas penas. permitiu ainda revelar presente. ” E isso, trato de ajudar a fa- a existência de uma zer.” prisão clandestina na Rodríguez conta que a situação mais província de Córdoba, difícil que já enfrentou em trabalho foi na Argentina, conhecida manter, durante seis meses, uma relação como Valparaíso. profissional com um repressor argenti- Outro furo do repórter, que envolve no, que aceitou ser seu informante. “Por o Brasil, foi sobre o assassinato do ex- muito tempo, ele jogou comigo um jogo presidente João Goulart (1961-1964). Em cruel pelo qual só respondia às pergun- 2002, ele publicou no La Republica uma tas ‘corretas’, mas não me ajudava com as entrevista com o ex-agente secreto do dúvidas. Foi desgastante. Até que um dia Uruguai Mario Barreiro Neira, realiza- eu lhe disse: ‘O que eu quero, você tira da num presídio de segurança máxima de mim só com cinco minutos de cho- perto de Porto Alegre, que levantaram que elétrico, mas faz oito horas que eu suspeitas sobre a morte de João Goulart. estou falando para que você diga o que Segundo Neira, medicamentos de Jango eu quero.’ Acho que esse dia ele deixou foram envenenados, quando suspeitou- de me ver como um inimigo e começou se que ele planejava voltar de surpresa a colaborar.” O jornalista foi persistente e para o Brasil. Jango morreu dia 6 de colheu bons frutos. Através dos detalhes dezembro de 1976, na Argentina, oficial- fornecidos pela fonte, Rodríguez teve mente de ataque cardíaco. No início de papel fundamental na localização de Si- 2008, a declaração sobre o assassinato foi món Riquelo, filho da presa política Sara feita em público e reacendeu o interesse Méndez. da imprensa e da família sobre o caso. Simón Riquelo estava desaparecido Uma comissão especial procedeu inves- há 26 anos. O rapaz havia sido tomado tigações que apontaram fortes indícios das mãos da mãe em 1976, com 22 dias para o assassinato. SEMANA revista da REVISTA 27 semana VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    26. ONG luta pelo direito de informar reportagem Por Marina Veshagem Conhecida por manifestações e declarações polêmicas, a ONG Re- pórteres Sem Fronteiras também oferece auxílio a jornalistas que sofrem repressão O site da ONG Repórteres Sem Para a RSF, enquanto o mundo Fronteiras assim resume o estivesse atento aos Jogos, centenas motivo de sua criação: “em de jornalistas e blogueiros estariam alguns países um jornalista pode presos. Em dezembro de 2007, cerca passar vários anos na prisão, por dos 30 mil jornalistas credenciados uma palavra ou uma foto. Porque para a cobertura dos jogos foram fi- aprisionar um jornalista é eliminar chados para identificação dos “falsos uma testemunha essencial e amea- jornalistas”. çar o direito de todos à informação. A Repórteres Sem Fronteiras move Repórteres sem Fronteiras, fundada campanhas no mundo todo pela defe- em 1985, trabalha diariamente pela sa de jornalistas, escritores, usuários liberdade de imprensa.” de internet e outros que possam ser O relatório anual da ONG Anistia vítimas de perseguição pelo exercício Internacional fez, em 2008, um balan- do direito à expressão. Também se ço entre o que foi prometido pela De- propõe a lutar para a diminuição da claração Universal dos Direitos Hu- censura e combater as leis destinadas manos de 1948 e o que foi cumprido a restringir a liberdade de imprensa, até agora. Uma das conclusões a que assistir jornalistas ou meios de comu- chegou a organização é que, 60 anos nicação em dificuldades (gastos com depois de a Declaração ter sido adota- advogados, médicos, etc) e as famílias da pelas Nações Unidas, pessoas não dos repórteres presos, além de traba- têm direito de se ma- nifestar livremente em 60 anos após a Declaração Universal dos Direitos Humanos ter sido adotada, as pes- pelo menos 77 países. soas ainda não têm direito de se manifestar Em outubro de 2007, livremente em pelo menos 77 países. a instituição Repórteres Sem Fronteiras (RSF) iniciou uma campanha pela liberdade lhar pela melhoria da segurança dos de imprensa na China inspirada nos jornalistas, principalmente nas zonas jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. de conflito. A página inicial do site da organização Há seções nacionais da RSF em (www.rsf.org) contém referência dire- nove países, o que permite que ela se ta à reivindicação, que incluiu também estenda pelo mundo. São elas: Ale- uma petição. A China mantinha pre- manha, Áustria, Bélgica, Canadá, Es- sos, em outubro, aproximadamente panha, França, Itália, Suécia e Suíça. 100 jornalistas e ativistas pela liberda- A organização é composta por uma de de imprensa. rede de mais de cento e vinte corres- 28 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    27. pondentes e trabalha em colaboração no mundo por expressarem-se na in- com associações locais ou regionais ternet. de defesa da liberdade de imprensa. O Brasil está na 84ª posição na A RSF registra os atentados à li- classificação, o que o inclui nos pa- berdade de imprensa no mundo e, íses com problemas na liberdade de então, organiza cartas de protestos, imprensa. A colocação se deve ao re- que são enviadas aos governos, e gistro do assassinato de dois jorna- comunicados aos meios de comuni- listas brasileiros em 2007: Luiz Car- cação, como forma de mobilização e los Barbon Filho e Robson Barbosa informação do pú- Bezerra, sendo O Brasil é o 84° país na classi- blico. No site há que o último não sempre um “barô- ficação dos países com melhor foi tratado como liberdade de imprensa, o que assassinato liga- metro” atualizado preocupa a ONG. A organiza- do à profissão. sobre os atentados ção afirma ainda que o país a jornalistas (ver A organização ainda não conseguiu acabar quadro). afirma ainda que A organização o país ainda não com agressões nem com as faz ainda um ba- tentativas de atentado contra a conseguiu acabar lanço anual da com as agressões imprensa. liberdade de im- nem com as ten- prensa no mundo. Diversas pessoas tativas de atentado contra a impren- e grupos - como organizações colabo- sa, representadas por medidas de radoras, correspondentes, jornalistas, censura prévia e garantidas pela Lei investigadores, juristas ou militantes de Imprensa outorgada em 1967. dos direitos humanos - respondem A Repórteres sem Fronteiras se um questionário de cinqüenta per- financia pela venda de álbuns de guntas. São levantados dados de 169 fotografias, calendários, leilões, do- nações, as demais não dispõem de ações, colaborações com empresas informações suficientes. privadas, dentre outros. É registra- Os 14 primeiros países da classifi- da na França como organização sem cação de 2007 – com melhores índices fins lucrativos e, em 2005, recebeu de liberdade de imprensa – são euro- do Parlamento Europeu o Prêmio peus. Já dentre os últimos 20, apenas Sakharov para a Liberdade de Pen- um é americano, Cuba, e sete são asi- samento. áticos. Dentre eles está a China, com 50 - dos 64 - casos de pessoas detidas *Veja o site www.rsf.org para saber mais. O barômetro de liberdade de imprensa (2008) 18 0 132 7 67 colaboradores cyberdissidentes jornalistas jornalistas colaboradores presos presos presos mortos mortos SEMANA REVISTA 29 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    28. Os cinco mais do momento drops Por Wesley Klimpel E sta não é uma lista definitiva dos melhores livros – não acre- ditamos nisso. Elaborada a partir das dicas de professores e profissionais, apresenta livros de jornalismo investigativo que devem ser lidos. Confira. Instinto de Repórter, Elvi- Narcoditadura, Percival ra Lobato de Souza - Vencedor O livro, de 2005, do Prêmio Wladimir mostra os passos da Herzog produção de 11 grandes Conta a história do as- reportagens. sassinato de Tim Lopes, “É importante por do desenvolvimento do refletir sobre os limites éticos no traba- crime organizado e da evolução do lho.” Mauro Silveira. Também indica- jornalismo investigativo no país. do por Carlos Lins As garras do Condor, Nil- Cabeça de turco, Günter son Cesar Mariano Wallraff Revela os bastidores Jornalista se passa da operação que abalou por turco para mostrar o Cone Sul durante as a discriminação sofri- décadas de 70 e 80. da pelos imigrantes na “A obra mostra um tra- Alemanha da década balho investigativo significativo na luta de 80. contra a violação dos direitos humanos “O recurso de se disfarçar foi etica- na América Latina.” Mauro Silveira mente justificável.” Dauro Veras Leia também: Jornalismo Investigativo, Jornalismo Investigativo, Leandro Fortes Dirceu Fernandes Lo- Jornalismo Investigativo, O fato por trás da pes e José Luiz Proen- notícia, Cleofe M. de Sequeira ça (org) Todos os Homens do Presidente, Robert Mestrandos e dou- Woodward e Carl Bernstein torandos entrevistam Rota 66, Caco Barcellos vários jornalistas do Os donos do Congresso, Elvis Bonassa/ país, para saber os bastidores e técni- Fernando Rodrigues/Gustavo Krieger cas de grandes reportagens investiga- tivas. Participaram na elaboração dessa lista os jorna- “Traz boas visões, algumas anta- listas Carlos Lins, Dauro Veras, Diane Duque, gônicas, sobre o tema.” Luis Eblak Luis Eblak, Mauro Silveira e Percival de Souza. 30 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    29. A pro ssão espelho no D esde que foi proposta, em 2004, a criação do Conselho Federal de Jornalismo divide opiniões. O Conselho teria como fun- ção “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão e das ativida- des de jornalismo - inclusive com pos- sibilidade de cassação dos registros profissionais. Em 2006, o projeto de lei que criava o CFJ foi vetado e abriu-se espaço para debates. Outra forma de regulamentar a pro- fissão é a exigência ou não do diplo- ma de graduação, assunto também polêmico. A decisão final do Supremo Tribunal deve sair em breve, mas a julgar pelo histórico de discussões, o tema continuará sendo pauta.
    30. A confusão que deixou marcas reportagem por Juliana Passos e Juliana Sakae A entrada do projeto de em sindicatos, audiências públicas, lei que cria o Conselho universidades e câmaras municipais Federal dos Jornalistas, e, em 2002, enviado formalmente ao em 2004, foi repercutida com Governo Federal. Após dois anos de espera o projeto revolta na mídia. Até hoje, a chegou à Câmara dos Deputados e questão é mal compreendida os principais veículos de comunica- ção do país posicionaram-se contra As exigências do diploma e de uma a aprovação do projeto. A edição da atuação profissional e ética no Jorna- revista Veja da semana seguinte trazia lismo são os pilares da discussão mais na capa: “A tentação autoritária: as in- antiga da área. De um lado, entidades vestidas do governo do PT para vigiar e profissionais defendem a criação de e controlar a imprensa, a televisão e a um órgão fiscaliza- cultura”. Nas pági- dor – o Conselho nas internas, decla- Federal dos Jor- rava: “Lula se deixa nalistas (CFJ) – do enganar por uma outro, jornalistas e associação de asses- empresários desa- sores de imprensa provam a proposta de empresas esta- em nome da liber- tais que se fazem dade de expressão. passar por jornalis- “Qualquer órgão tas e manda para que represente o Congresso um ameaça à liberda- projeto de lei que de de informação, representa o mais precisa ser rejeita- sério ataque à liber- do enfaticamente dade de expressão pela sociedade e no Brasil desde o A edição de 14/08/2004 trouxe a posição por seus represen- contrária da revista à criação do CFJ regime militar”. tantes democráticos”, disse William A Federação Nacional dos Jorna- Bonner em 2004, em uma entrevista listas (FENAJ), entidade que repre- para à revista Veja. senta todos os Sindicatos dos Jor- O projeto de lei para a criação do nalistas do país e responsável pelo CFJ, baseado na lei que cria a Ordem projeto de lei, respondeu publica- dos Advogados do Brasil (OAB), foi mente os ataques recebidos: “Muitos colocado em pauta pela primeira jornalistas e parlamentares não se de- vez em Florianópolis, no Congres- ram ao trabalho de ler o projeto de lei so Nacional de Jornalistas, em 1990. enviado ao Legislativo. Lá não consta O texto foi discutido durante anos nenhum artigo que limite a liberdade 32 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    31. de imprensa ou institua a censura. Ao sentação do diploma e a obrigatorie- contrário, propugna-se a garantia da dade do registro das empresas não liberdade de imprensa e de expres- consta mais no projeto, mas já está são” (Tendências/Debates: Folha de S. prevista por lei para todas as ativida- Paulo, 18 de agosto de 2004). des regulamentadas por conselhos de O debate da criação do CFJ passa fiscalização profissional. também pela discussão de como se Depois das acaloradas discussões dará este processo. O jornalista Mau- em torno da criação do CFJ em 2004, rício Tuffani, ex-editor e redator-che- o debate continua. No dia 27 de julho “ fe da revista Galileu, cri- deste ano o Ministério do tica a redação do projeto Trabalho criou um grupo Ser contra o CFJ de lei: “Ser contra o CFJ de estudos para discutir a não significa necessaria- profissão e viabilizar sua não significa mente ser defensor dos necessariamente ser regulamentação. Os nove barões da mídia nem ser defensor dos barões membros serão represen- . contra qualquer tipo de da mídia nem ser tantes de três categorias, regulamentação, assim patrões, trabalhadores e contra qualquer tipo funcionários do Ministé- como ser a favor dessa proposta não implica ser de regulamentação rio do Trabalho e Empre- ” teleguiado dos minis- go, e deverão entregar um tros José Dirceu ou Luiz relatório até outubro. Gushiken”. Além da criação do Conselho, será No mesmo ano que entrou na Câ- julgado neste ano no Supremo Tri- mara o projeto sofreu alterações, rea- bunal Federal a obrigatoriedade do lizadas não só pela FENAJ como pelos diploma (leia mais na página 35) e a relatores do projeto. A idéia inicial da reformulação ou anulação da Lei de Federação de vincular a emissão do Imprensa. registro profissional – que deixaria de ser função do Ministério do Trabalho Leia mais: e ficaria a cargo do Conselho – a apre- www.semanadojornalismo.ufsc.br Qual o papel de um conselho? da de revistas, refrigerantes e balas e obrigando a permanência de um Considerada uma autarquia fede- farmacêutico em todo período de ral, os conselhos tëm como função funcionamento. defender os direitos não apenas da > Conselho de Engenharia, Arquite- categoria, mas principalmente da tura e Agronomia: fiscaliza as cons- sociedade em relação aos profissio- truções e interdita os locais quando nais. Conheça o papel dos conselhos existe risco à população. de outras áreas: > Conselho de Medicina: caça o re- gistro do médico que não age de > Conselho de Farmácia: defende acordo com o Código de Ética da que a farmácia não seja um esta- profissão, como acontece quando belecimento comercial, mas que dê profissionais do SUS cobram por prioridade à saúde, proibindo a ven- atendimento. SEMANA REVISTA 33 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    32. Diploma, esse desconhecido reportagem por Marina Ferraz A guerra da obrigatoriedade dação Cásper Líbero, em São Paulo, em 1947 – os profissionais se forma- ou não da graduação em vam dentro das redações. Em 1969, foi Jornalismo parece não ter criada a primeira lei de regulamenta- fim. E os profissionais das reda- ção da profissão. Dez anos depois, em ções não cansam de lutar. março de 1979, o decreto foi revisto e O diploma para o exercício da pro- aprimorado. fissão de jornalista deixou de ser obri- A nova versão, o decreto nº 83.284, gatório no Brasil entre outubro de 2001 propõe que “o exercício da profissão e 2005. Com isso, a discussão sobre a de jornalista requer prévio registro no necessidade de formação superior órgão regional do Ministério do Traba- para trabalhar na área tornou-se as- lho”, para o qual o diploma é exigido. sunto polêmico. Em grande parte dos Além da obrigatoriedade de formação países europeus não é obrigatório um superior, é também através desse texto diploma em jornalismo para exercer que as funções exercidas pelo jornalis- o ofício. Porém em todos existe uma ta foram definidas – redator, noticiaris- regulamentação e alguma maneira de ta, repórter, rádio repórter, repórter de selecionar quem poderá gerar conteú- setor, arquivista-pesquisador, revisor, do para os veículos de comunicação. ilustrador, repórter fotográfico, repór- As primeiras publicações surgiram ter cinematográfico e diagramador. no Brasil com a vinda Em 2001, a juíza Carla Rister expe- da corte portuguesa diu uma liminar, na qual extinguiu a para o país, em 1808. obrigatoriedade de formação superior O jornal que surgiu para o exercício da profissão. Em 2005, era considerado ofi- a decisão foi revogada e o diploma cioso, ou seja, tratava voltou a ser obrigatório. A votação de- de assuntos de inte- finitiva deve acontecer ainda este ano. resse da família real. Com a República, o jornalismo deixou de ser artesanal e se profissionali- zou. O número de publicações aumentou e se segmentou. Até a cria- ção da primeira faculdade de Jornalismo do Brasil – a Fun- SEMANA 34 REVISTA
    33. O diploma pelo mundo // Assim como o Brasil, muitos países regulamentaram o ofício apenas no sécu- lo XX. O Conselho Europeu de Deontologia do Jornalismo estipulou em 1993 que os pro ssionais da área devem ter uma formação adequada - Essa ção varia de país para país, podendo ser horas de trabalho ou cursos. Itália: não há Bélgica: o diploma obrigatoriedade de formação superior mas é não é obrigatório necessário o registro na mas existem ordem dos jornalistas. vantagens salariais para os diplomados. Espanha: as regras no país Dinamarca: o são ter nacionalidade espanhola, inscrição no registro de acesso ao ofício jornalistas, diploma em ciências é condicionado à da informação ou experiência licença emitida pelo profissional entre dois e cinco sindicato nacional anos. dos jornalistas. Alemanha: regulamentada França: não há por meio do reconhecimento obrigatoriedade de das empresas jornalísticas e qualquer formação das organizações profissionais, superior. por um período de aprendizado prático de 18 a 24 meses. Argentina: para trabalhar como jornalista não é necessário Grã-Bretanha: é diploma universitário em necessário um estágio nenhuma área, basta provar que em empresa jornalística se atua na profissão. ou curso preparatório do Conselho Nacional de Chile: não é necessário Treinamento de Jornalistas. estar ligado a nenhum órgão de imprensa para Grécia: no país, exercer o Jornalismo nem ter existem duas opções diploma universitário para diploma em Jornalismo desempenhar a função. ou experiência de três anos na área. SEMANA REVISTA 35 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    34. O não-sensacionalismo de Veja artigo Por Lívia Andrade A rência e, na verdade, vende-se aquilo que a revista Veja é a publicação informação interna não irá desenvolver me- semanal de maior circulação lhor do que a manchete. (...) O jornalismo no país e possui um caráter sensacionalista extrai do fato, da notícia, a de legitimidade e veracidade. Em seu sua carga emotiva e apelativa e a enaltece. discurso, porém, encontram-se fato- Fabrica uma nova notícia que a partir daí res considerados de jornalismo sen- passa a se vender por si mesma” sacionalista. No entanto, Veja não se (Marcondes Filho apud Angrimani, assume como tal e, para isso, constrói 1995, p. 15) suas reportagens sob as prescrições jornalísticas. O artigo pretende revelar Um dos pontos altos do discurso pontos sensacionalistas encontrados sensacionalista é a sua narrativa. O no discurso de Veja e como a mesma relato transporta o leitor, é como “se se posiciona no jornalismo brasileiro ele estivesse lá, junto ao estuprador, ao as- como publicação séria, verdadeira e sassino, ao macumbeiro, ao seqüestrador, confiável, analisando uma reportagem sentindo as mesmas emoções” (Pedroso sobre o caso Isabella Nardoni. apud Angrimani, 1995). É preciso nar- O conceito de sensacionalismo pode rar a notícia em tom dramático, dar ser definido como: detalhes, voz à testemunha e princi- palmente à vítima ou parente desta. A linguagem utilizada não admite neu- “Modo de produção discursivo da in- tralidade ou distanciamento. É uma formação da atualidade, processado por linguagem mais coloquial, clichê, que critérios de intensificação e exagero gráfico, faz com que o leitor se entregue às temático, lingüístico e semântico, contendo emoções. em si valores e elementos desproporcionais, destacados, acrescentados ou subtraídos no contexto de representação ou reprodução “A linguagem editorial precisa ser cho- de real social” cante e causar impacto. O sensacionalismo (Pedroso apud Angrimani, 1995, p. não admite moderação” 14) (Angrimani, 1995, p. 40) O termo vem de “provocar sensa- A violência é um tema recorrente ção”, através da abordagem do tema, tanto em jornais considerados sérios seja pelo texto, foto, ilustrações. Logo, quanto aos sensacionalistas. A repor- a mesma notícia pode ser sensaciona- tagem estudada traz morte e violência, lista ou não, dependendo do modo assuntos comuns em veículos sensa- de produção e veículo que a publica. cionalistas. Esses temas atraem leitores Marcondes Filho descreve a prática independentemente do nível cultural sensacionalista como: ou econômico (Angrimani, 1995). O que difere os jornais sensacionalistas é a valorização do assunto, já que o veí- “o grau mais radical da mercantilização culo sensacionalista coloca uma “lente da informação: tudo o que se vende é apa- 36 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    35. de aumento” sobre o fato (Angrimani, rados sensacionalistas podem ter algu- 1995). mas vezes na sua produção momentos A cobertura da violên- de sensacionalismo. cia na mídia Os veículos tentam se afas- nacional tar dessa apresenta denomi- problemas de nação informação, pelo fato ao tratar sus- de que os peitos como leitores condenados e associam apresentar bo- o termo letins de ocor- a fato- rências como res como sentenças judi- erro de ciais (Agência de apuração, Notícias dos Di- distorção, reitos da Infância, deturpação, 2001). O atual jor- O caso Isabella ganhou capa da Veja duas editorial nalismo não con- vezes: em 9/04 e duas semanas depois, agressivo, en- não com destaque em 23/04 textualiza, tre outros, que, explica; limita-se para Angrimani, a entrevistar testemunhas e narrar os são acontecimentos isolados que po- atos de violência (ANDI, 2001). dem ocorrer também dentro de jornais Luís Nassif escreveu sobre o pro- informativos comuns. Por causa dessa blema do timing ao entrar e sair de as- associação, a publicação considerada suntos polêmicos: sensacionalista é coloca à margem, afastada da mídia “séria” (Angrimani, “O primeiro a avançar um pouco mais, 1995). Em 23 de abril de 2008, Veja publi- mesmo que não haja elementos consis- cou uma reportagem especial de capa tentes para comprovar a acusação, faz o sobre a morte de Isabella Nardoni, alarde para firmar a posição de pioneiris- ocorrida três semanas antes. Naquela mo, caso as acusações tenham fundamento. Depois, quando as acusações começam a se semana, o pai e da madrasta da meni- na haviam sido indiciados. Na capa, dissolver, há uma resistência em se render foi publicada uma foto do casal, na aos fatos” (Nassif apud Benette, 2002, p. 71) qual apenas parte dos rostos aparece em meio ao escuro, foto comum tirada Angrimani (1995) descreve que o de criminosos dentro do carro de polí- sensacionalismo pode ser visto como cia. Para completar o ar de bandidos, uma forma diferente de passar infor- a manchete é dada em fonte chamati- mação, como uma opção de estratégia va: “Foram eles”. A revista coloca uma usada pelos meios de comunicação. linha fina em cima da manchete, em Assim, mesmo veículos não conside- letras amarelas, em uma fonte muito SEMANA REVISTA 37 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    36. artigo menor: “Para a polícia, não há mais ta, assume a publicação como aquela dúvidas sobre a morte de Isabella”. que dá a verdade última sobre tudo. Hernandes afirma que Veja transfor- A reportagem especial em oito pá- ginas recebe como título dois adjetivos ma o problema de ser a última mídia a nada imparciais: “Frios e Dissimula- noticiar a seu favor, já que assim pode dos”. Dessa vez a conclusão é a opinião dar a última verdade, julgando o que é clara da revista. O texto traz informa- verdade e o que é mentira. ções sobre acontecimentos na família E de onde vem essa legitimidade atribuída a Veja? Uma das estratégias horas antes do crime. É seguido de um relato da vida do pai e da madrasta, é o uso de fontes oficiais para justificar bem com sua relação, fazendo juízo de as suas teses. A impressão que o leitor valor dos dois personagens através da fica é que a revista ouviu tantas pesso- voz de amigos e parentes não identifi- as, e dessas, tantos especialistas, que o cados no texto. A reportagem aborda que ela diz só pode ser verdade. Mui- ainda a avó materna e a mãe da meni- tos leitores não percebem que, muitas na, através de relatos de amigos tam- vezes, as fontes defendem o mesmo bém não identificados, narrados com ponto de vista, por mais numerosas forte teor sentimental, além de fotos que sejam. Na reportagem analisada, a e uma ilustração dos fatos descritos tese é que o pai e a madrasta mataram naquela noite. Apenas no último pará- Isabella, mesmo antes de isso ser jul- grafo a reportagem explica que agora a gado pela Justiça. Para isso, a repórter polícia pode pedir a prisão preventiva coloca na boca de policiais os fatos afir- e que o casal deverá ser julgado. mados como verdades finais. “A polí- Ao contrário de veículos vistos cia está convencida de que Alexandre como sensacionalistas, a revista apre Nardoni e Anna Carolina Jatobá com- senta alguns pontos em sua linha edi- binaram jogar Isabella pela janela...”. torial que a caracterizam como fonte Outro fator que dá credibilidade ao fiel à verdade, mesmo que a revista discurso da revista é o caráter explica- assuma sua linha opinativa. Para isso, tivo que o veículo possui em seus tex- a revista de maior circulação nacional tos, como se esses não fossem abertos se mostra como “uma instituição que está à discussão ou interpretação. O texto analisado traz a linguagem autorizada a falar, porque é detentora de um poder legitimado pelo seu status” (Au- como a de um jornal sensacionalista. gusti, 2005, p. 80). Nilton Hernandes As frases e termos são recheados de afirma que Veja tem adjetivos, figuras de linguagem e ou- uma ideologia e tros elementos que “mostram, a todo “vai construir o o momento, a opinião do jornalista” real em função (Augusti, 2005). A narrativa procu- dessa ideolo- ra envolver o leitor, levá-lo ao crime gia, e não o num tom dramático e assume um tom contrário”. sentimental ao tratar da mãe e avó da O dono da vítima. O título da matéria traz apenas revista, Ro- dois adjetivos: “Frios e Dissimulados”. berto Civi- A linha-fina confirma a tese a ser de- 38 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    37. fendida: “Pai e madrasta mataram e ataques críticos. Encaixada den- Isabella, numa seqüência de agressões tro dos conceitos jornalísticos, ela que começou ainda no carro, conclui a se mostra verdadeira ao leitor “for- polícia”. Ao longo do texto são cons- mador de opinião” do país. Foi aqui tatados termos como “tranqüilos, fi- mostrado que para repercutir do lhinho de papai, esquentada, relação jeito que o faz, a publicação faz uso tumultuada, família harmoniosa, pro- de diversos elementos presentes no vavelmente aterrorizadas”, “espetácu- jornalismo sensacionalista. lo de frieza e dissimulação”, etc. O erro do sensacionalismo é o exa- A publicação utiliza-se de formas gero e a condução do leitor à conclusão opinativas, mas apresenta-se sob as de algo que não é real. Na reportagem prescrições jornalísticas (Nascimen- analisada, recursos sensacionalistas to, 2002). Para isso, usa a impessoali- fazem o leitor concluir a tese defen- dida por Veja: o pai e a madrasta da dade da terceira pessoa (“Não se sabe ainda o que motivou o crime...”); menina são culpados, mesmo antes fontes oficiais (“Pai e madrasta ma- de um julgamento. taram Isabella, numa seqüência de agressões que começou ainda no carro, conclui a polícia”); e coloca as Bibliografia acusações na boca das fontes na nar- AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DOS DIREITOS DA INFÂNCIA. Balas perdidas: um olhar sobre o com- rativa (“Em determinado momento, portamento da imprensa brasileira quando a criança como disseram à polícia testemunhas e o adolescente estão na pauta da violência. Brasília: ANDI, 2001. presentes à festa, a menina fez algo ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: que enfureceu o pai”). um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Apenas no último parágrafo da re- Paulo: Summus, 1995. portagem, Veja esclarece que os sus- AUGUSTI, Alexandre. Jornalismo e comporta- mento: os valores presentes no discurso da revista peitos ainda não foram condenados: Veja. Dissertação – UFRGS – Programa de Pós-Gra- “A polícia tenciona pedir a prisão pre- duação em Comunicação e Informação. Porto Ale- gre, 2005. ventiva de Nardoni e Anna Carolina. BENETTE, Djalma Luiz. Em branco não sai: um Se condenados ao final do processo...” olhar semiótico sobre o jornal impresso diário. São Faz parte da tradição das revistas Paulo: Códex, 2002 nacionais terminar suas reportagens BUENO, Marina. Leituras de Veja. Observatório de Imprensa, Seção Aspas. Disponível em http:// com a opinião do jornalista (Augusti, www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/ 2005). Logo, o texto transcorre entre asp080520026.htm. Acesso em 07/07/2008. informações concretas e teses defendi- CASTILHO, Carlos. Quem tem medo da lei- tura crítica? Observatório de Imprensa, seção das pela revista. “Nessa transposição Código Aberto. Disponível em: http://observa- de linguagem é que pode ocorrer o torio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_ blog=2&id={04164B36-5C80-4F4C-A1F5-612EC37BA sensacionalismo” (Angrimani, 1995, p. B95}&data=200701. Acesso em 07/07/2008. 41) O leitor precisa ter espírito crítico LINHARES, Juliana. Frios e Dissimulados. Veja, para saber quando se passa da lingua- São Paulo: Abril, ano 41, n. 2057, p. 84-91, 23 de abril, 2008. gem objetiva para a sensacionalista, NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em devendo estar atento às intenções dis- revistas no Brasil: um estudo das construções discur- cursivas presentes na notícia. sivas em Veja e Manchete. São Paulo: Annablume, 2002. Veja é fonte de diversas pesquisas SEMANA REVISTA 39 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    38. CFJ em pauta no curso da UFSC opinião Felipe Seffrin Mauro Cesar Silveira recém-formado em professor-doutor em História Jornalismo na UFSC Desde que seja assegurada sua indepen- O CFJ pode fortalecer e dência, sobretudo em relação ao poder po- qualificar os jornalistas lítico do país, a criação do CFJ é mais do e, ao mesmo tempo, va- que necessária. Como em relação a outras lorizar o jornalismo pe- profissões, a sociedade precisa contar com rante a sociedade, já que mecanismos efetivos para a responsabi- as suas principais pro- lização dos maus profissionais, indepen- postas são ter a respon- dentemente da possibilidade de recurso à sabilidade de expedição Justiça. O Código de Ética dos jornalistas de registros profissionais brasileiros apresenta um texto que con- (hoje em dia tarefa do templa as questões mais relevantes do Ministério do Trabalho) e exercício profissional, mas se depara com a elaboração e aplicação um obstáculo grande - sua inaplicabilidade de um Código de Ética. para muitos casos. O fato de atingir apenas Porém, acredito que a os jornalistas filiados aos sindicatos, com criação só será válida se a penalidade máxima de exclusão da en- realmente houver uma tidade para os transgressores condenados, ampla discussão sobre o deixa de fora muito jornalista antiético, que tema nas universidades nem tem interesse em se filiar no órgão de e empresas jornalísticas, representação da categoria. se ele tiver total isenção financeira e se for uma entidade independente e Maria José Baldessar apartidária. professora-doutora em Ciências da Co- municação Francisco Karam Nós, jornalistas, não podemos fiscalizar o professor-doutor em Comunicação exercício profissional – e não só o exercício ir- e Semiótica regular mas o bom exercício, o exercício ético. , Ainda hoje o registro profissional dos Legislar acerca da profissão não resulta em jornalistas é concedido pelo governo, censura, resulta numa jornalismo melhor . minha opinião é a de que os jornalis- tas, por meio de um Conselho, devem fornecer o registro. As discussões e Eduardo Meditsch possíveis abusos no exercício profis- professor-doutor em Comunicação sional passariam para comissões de A legitimação de uma profissão só ocorre ética vinculadas ao Conselho. quando ela própria tem o controle sobre o seu mercado de trabalho, determinan- do quem pode ou não pode ingressar neste mercado, e quem deve ser excluído dele porque não tem ética ou comportamento profissional: ou seja, é quem diz como e por quem a profissão deve ser exercida. É o que ocorre na Medicina, no Direito, nas Engenharias e até nas Relações Pú- blicas, algumas das muitas profissões que já tem os seus Conselhos. No Jornalismo, as empresas pressionam contra o Conselho Federal porque elas querem continuar sozinhas com este controle, que deveria ser dos profissionais. Felizmente, para os brasileiros, os donos de hospitais, de planos de saúde e de construtoras não têm o poder que têm os conglo- merados de mídia. Os conselhos profissionais são um instrumento que a civilização desenvolveu para limitar o arbítrio do poder econômico. 40 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008 REVISTA
    39. Lugar em comum S air do estilo convencional é abandonar os pilares éticos? Fred Melo Paiva, editor do ca- derno Aliás, do Estadão, e a equipe do programa CQC, da Band, procuram outros caminhos para fazer jornalis- mo – com humor e adjetivos –, têm respeito dos leitores e da audiência e dizem sempre se preocupar com a ética. Ao biografar alguém, o que se deve deixar de fora em respeito à pessoa? Ruy Castro biografou Carmen Miran- da, Nelson Rodrigues, Garrincha e é reconhecido como um dos melhores do gênero no Brasil. Extra, a Semana Revista traz a opinião do autor sobre outro gênero popular nos jornais: a crônica. Diante de tantos desafios éticos, o quê é primordial na formação jorna- lística? Cremilda Medina, professora- doutora de Comunicação da Universi- dade de São Paulo, virá à VII Semana do Jornalismo dar a sua opinião. Por aqui, você lê o quanto essa discussão já rendeu entre profissionais e profes- sores brasileiros.
    40. Eu não sou Cruzeirense, não perfil Por Juliana Gomes Um papo com o jornalista atleticano que favorece o tipo de texto não encontrado em outras partes do Estadão S onhei que tomava um expresso vadorismo do jornal que o publica. descafeinado com Fred Melo Aproveitei o encontro inusitado nes- Paiva em uma daquelas tardes ta tarde para me oferecer a uma vaga paulistanas sem cor e sem graça. Era qualquer, nos tempos de vaca magra domingo, dia de publicação do anexo dos jornais impressos, seja no Esta- mais adverbial do jornalismo tupi- dão, seja em qualquer veículo que ti- guarani, o Aliás, publicado no Esta- vesse um amigo. dão. Embora haja controvérsias, Fred Sentado em uma mesa de canto, Melo Paiva não segue regras comuns o jornalista vestia uma camisa bran- a que estamos acostumados no jorna- ca com listras verticais cinzas, de lismo. Em seus textos, as fontes não gola meio aberta e um jeans afirmam, rosnam. O gerúndio básico. Olhava pra um não predomina, mas é livro de capa escura que usado sem restrições. tinha em mãos quando me Expressões piegas que aproximei. Reconheci-o ra- aprendemos a ter ojeriza, pidamente dos tempos em Fred utiliza com charme e que estudava na UFSC e este ironia: “foi a gota d’água” foi convidado para uma ou “errar é humano”. Em palestra na Semana do contrapartida, cada de- Jornalismo. Fred Melo talhe de seus extensos Paiva abriu o evento parágrafos é pensado com uma conversa in- minuciosamente, como formal sobre as pas- ele próprio confessa. sagens por Playboy, Os adjetivos são a bola Veja, IstoÉ, Trip, da vez: respectivamente, e - Acho o precon- pelo jornal paulis- ceito com o adjetivo tano onde agora apenas um precon- trabalha. ceito - e, como todos, Naquela épo- idiotas. Não acho ca, já era sua fã. que os utilizo exa- Fã, não, porque cerbadamente. Eu estudante de jornalismo não admite os utilizo quando cabe e se necessá- tietagem. Então, já admirava seu tra- rios, mas realmente sem preconceito balho no caderno Aliás, considerado com ele, coitado. muito ousado em vista do conser- Suas contracapas já humanizaram 42 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008 REVISTA
    41. Boris, um labrador americano e vir- “ gem que está no Brasil a trabalho; e a Acho o preconceito com o uma cadela que também “jamais deu adjetivo apenas um preconceito uma trepadinha” funcionária do Cor- - e, como todos, idiotas. Não po de Bombeiros de São Paulo. Cláu- dio Lembo, ex-governador paulistano, acho que os utilizo exacerba- confessou ao jornalista que só anda damente. Eu os utilizo quando com seu Ford Ka preto, mesmo tendo cabe e se necessários, mas direito a um carro oficial. realmente sem preconceito com ” Dos textos mais comentados na se- ele, coitado. gunda-feira, aquele sobre os quaren- ta moradores da favela Funchal que trabalharam na construção do prédio neste compromisso com a semana, da Daslu, junto à Margem do Rio Pi- mas não apenas com isso. Sua pauta nheiros. Fred passou uma semana na deve ser menos noticiosa e mais dada favela e foi o primeiro a colocar um à reflexão, à crítica, à opinião. Da dedo de hipocrisia na repercussão que mesma forma, no caso da reportagem a mídia vinha dando à inauguração da publicada na contracapa, procuramos loja. Foi comparado a Gabriel Garcia marcar diferença com relação às re- Márquez em artigos do site Obser- portagens diárias. O assunto desta úl- vatório da Impren- tima página é muitas sa por resgatar uma vezes tema que já foi * imagem disponível em https://pandabooks.website- seguro.com/autores.php?id=139 qualidade perdida noticiado nos últi- do jornalismo, a ca- mos dias, mas que o pacidade de contar corre-corre do jornal histórias pela pala- não permite maior vra dos seus prota- aprofundamento. gonistas, e não pelo Em outras oportuni- viés do jornalista. dades, a contracapa é O caderno de do- dedicada a perfis de mingo em que traba- personagens da se- lha, o Aliás, é o que a mana, celebridades imprensa internacio- ou não. nal chama de Week A apuração das Review. As reuniões reportagens de Fred de pauta são feitas na Melo Paiva também segunda e terça-feira não campeia o pa- de cada semana, mas como ainda não drão. Se a pauta é sobre uma família aconteceu muita coisa nesses dias, as cuja casa é inundada constantemente discussões acabam sendo uma tenta- pelas enchentes, Fred não pergunta tiva de intuir o que prevalecerá como apenas a que altura a água alcançou. tema principal e o que desaparecerá Uma das peculiaridades de apuração do noticiário até o fim de semana: está no que ele mesmo confessa cha- - A seleção das pautas se baseia mar de “perguntas absurdas”, mesmo SEMANA REVISTA 43 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    42. se o personagem for um estuprador ses que não gosta de governo. Já foi ou um poeta: petista, não é mais, e continua não - Para que time torce? Você gosta gostando de governo. Não escapou de Bossa Nova? Assiste novela? Que do batismo na igreja, até teve uma disco tem na sua vitrola? Gosta de car- avó que foi freira, e é da cidade gran- ro antigo? de, a sexta mais populosa Depois de gravar as do país, Belo Horizonte. respostas, Fred ouve Não perguntei cada detalhe para en- como chegou tender até como cada a São Pau- pessoa pronuncia lo, já que a uma palavra. Nada maioria dos daquela pressa e jornalistas das cinco mil pau- – Fred traba- tas que o jornalista lha há 12 anos de hardnews está – almejam pelo acostumado. Fred menos um free- adora parágrafos e la e uma vaga no escreve muito devagar. trânsito paulista. Pensa meticulosamente cada É flexível, gosta de jazz legenda de foto, cada intertítulo. e samba, de Jimi Hendrix. No es- Por fim: porte, não tem negócio. Perguntei se - Gasto muitas horas tentando achar torcia pro Cruzeiro, ele rosnou: o título ideal. Jamais utilizei nome de - Eu não sou cruzeirense não. Sou filme ou de música. Eu me proíbo mui- Galo e ponto. Filho meu que quiser ser tas coisas e estas são duas delas. Cruzeiro terá de sair de casa. E corta- Fred foi punk. Depois, virou ateu e rei a mesada! E o retirarei de meu rico comunista, mas continua sendo des- testamento. “ A seleção das pautas se ba- seia neste compromisso com a semana, mas não apenas com isso. Sua pauta deve ser menos noticiosa e mais dada à reflexão, à crítica, à opinião. ” ilustrações: Alexandre Tcheto 44 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    43. Trechos de Fred Melo Paiva: Abre as portas a nova Daslu “ A gente é pobre mas é limpinho. O problema é que aqui não tem rede de esgoto e são mais de 200 barracos, espa- lhados pelo beco, e mais oito vielas. Já viu a merda que isso dá, né? A senhora deve estar estranhando a quantidade de fio que sai daquele poste e se divide em vários outros, in- terligando tudo. É gato, menina. Tudo gato. E tem cachorro também. A senhora consegue ver aquele pit bull branco? É o Dólar. E o rottweiller? É o Fidel. Agora veja só que confusão: gato com cachorro, pit bull com criança, o esgoto passan- do no meio, música alta, vizinho fazendo churrasco na viela, todo mundo na rua em pleno dia de semana. Pois é. Isso aqui tem nome. Chama favela. E a gente gostaria de apresentar ela à senhora como uma forma de lhe dar as boas-vindas: ” Eliana Tranchesi, favela. Favela, Eliana Tranchesi. O herói resgatador “ Quinze pessoas estavam tomando o café da manhã quan- do ouviram o barulho do motor se desacelerando - na ensur- decedora sinfonia de um Boeing 707, era apenas mais um barulho no meio dos outros barulhos. De modo que ninguém se importou com ele, à exceção de uma senhora. Ela tinha escutado o barulho e visto lá fora um clarão. “Aconteceu al- guma coisa?”, perguntou ela a um dos comissários de bordo. Na cabine da aeronave, o mecânico de vôo acabava de de- tectar um problema: o motor havia pegado fogo e ele pôde observar “nitidamente o efeito de pós-combustão por 3 ou 4 segundos”. A peça tinha de ser isolada do resto do equipa- mento, sob pena de provocar um incêndio. O avião precisava ” descer. SEMANA REVISTA 45 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    44. Cronicando reportagem Por Luisa Frey “O que eu tenho, doutor? Você está com uma doença crônica, sinto muito”. N ão. O assunto não é esse tipo o que é bom, porque tendo a ser meio de “cronicidade”. A crônica desligado da vida real”, diz Ruy. Ele em questão é aquele texto conta também que quando começa leve e curto, sobre um fato cotidiano, uma crônica só tem uma idéia vaga do que se lê no jornal. Ou então em um assunto, que vai tomando forma à me- livro que traz uma *foto: editora objetiva dida que escreve. coletânea desses O cronista leva textos. É o caso de cerca de duas ho- Ungáua!, o recém ras para escrever lançado volume aqueles 1777 ca- que reúne 101 crô- racteres permiti- nicas de Ruy Cas- dos pela Folha, tro, publicadas na incluindo todas Folha de S. Paulo as mudanças fei- entre fevereiro de tas no texto. 2007 e março de Mas não só 2008. E não é só o redigir essa cria- nome dado à obra turinha é difícil. que intriga em Defini-la tam- Ruy. Sua visão jor- bém o é: afinal, o nalística e sobre o gênero crônica tam- que é uma crônica? bém é bastante particular. A professora de português, mestre Comecemos pelo curioso nome em Teoria da Literatura e cronista Re- “Ungáua”. É o que o Tarzan, inter- gina Carvalho diz que a característica pretado por Johnny Weissmuller no principal do gênero é justamente não cinema, dizia ao macaco, ao elefante e ter característica nenhuma: tudo pode aos outros bichos quando queria lhes ser crônica. “A única definição possível dar alguma ordem. “Falava apenas é a de que ela é um texto literário para ‘Ungáua!’ e o bicho entendia imedia- jornal. E assim, como texto literário, tem tamente o que tinha de fazer”, expli- toda a liberdade de linguagem, estilo, ca Ruy. Talvez essa seja uma analogia temática. As limitações lhe vêm impos- com a espontaneidade e a fácil com- tas pela publicação”, afirma Regina. preensão da crônica. Mas escrevê-la é Ruy, por sua vez, define a crônica como bem mais complexo do que parece. um comentário bem escrito, que leva A crônica exige um grande exercício em conta os mandamentos imutáveis de observação e síntese. “Me obriga a do jornal: o quê, como, quem, quando, ficar atento ao que está se passando, onde. O cronista brinca que sua inspi- 46 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008 REVISTA
    45. ração para escrever vem do horário de Ruy Castro, um romancista tende a ser fechamento do jornal e que o cenário bem mais valorizado que um cronista carioca é quase sempre um bom ponto por o romance ser coisa mais séria, que de partida, mas não é o único. Ele expli- dá muito mais trabalho. Ele mesmo foi ca que em Ungáua! há poucas crônicas consagrado por seus livros de reconsti- que se passam no Rio, mas a maneira de tuição histórica e biografias. Era no tem- ver o mundo, esta sim, é sempre cario- po do rei - Um romance da chegada da ca. “Todos aqueles cronistas capixabas Corte, por exemplo, tomou dez meses (Rubem Braga, Carlinhos Oliveira), mi- do autor para ser escrito após um ano de neiros (Fernando Sabino, Paulo Men- estudos sobre o cenário do século XIX. des Campos), pernambucanos (Nelson Regina cita o romancista Cristóvão Te- Rodrigues) e até paulistas (Elsie Lessa) zza, e sua idéia de que todos amam um só se tornaram cronistas no Rio. Só uma cronista, mas ninguém conhece um ro- metrópole em que se possa andar a pé mancista. “E olhem que o Tezza tem re- fornece material para crônica”. nome nacional! Mas o que se pode espe- Aqui entra em questão também a rar num universo em que se lê pouco?”, brasilidade da crônica. Para o cronista diz a professora. Ela afirma não saber se carioca, não há dúvidas de que esse é um as pessoas lêem o jornal, mas ter certeza gênero tipicamente brasileiro. E muitos de que as crônicas elas lêem. também o dizem. A professora Regina Regina acredita que a crônica deve lembra, entretanto, que há crônicas em falar do cotidiano com leveza e humor. outros países, mas com características E também bronquear quando preciso, diferenciadas. Cita como exemplo o porque há coisas que revoltam até o cro- Uruguai e seu popular escritor Eduardo nista mais bem-humorado do mundo. A Galeano. Ele ficou famoso não só por professora acrescenta que a crônica tem sua obra As veias abertas da América como função trazer um pouco de beleza Latina, mas também por seus livros de e reflexão para a vida das pessoas, de crônicas, como Bocas do Tempo, publi- uma forma que elas possam assimilar e cado em português. Segundo ela, o que ter prazer com isso. houve no Brasil é que a crônica atingiu Sem rodeios, Ruy Castro diz que uma popularidade muito grande. uma boa crônica deve ser simplesmente E por falar em popularidade, para interessante de ler. Ungáua! O livro recém-lançado reúne 101 crônicas publicadas por Ruy Castro na página 2 da Folha de São Paulo, entre fevereiro de 2007 e março de 2008. O autor aborda com leveza e ironia temas cotidianos como futebol, música, cinema e também aqueles menos prazerosos como política, drogas e vio- lência. Tudo isso com seu jeitinho carioca de ver o mundo. Um exemplo do estilo genial é Ungáua!, crônica que dá título ao livro. A palavra era dita por Tarzan no cinema diante de qualquer situação uma espécie de “Vamos lá, macacada!”. Segundo o cronista, é exatamente essa a estratégia do presidente Lula. SEMANA REVISTA 47 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    46. Onde não sobram nem resenha faltam caracteres Por Camila Brandalise com colaboração de Cauê Oliveira e Gabriel Rosa Apuração minuciosa, texto irretocável e personalidades marcantes tornaram clássi- cas essas obras de Ruy Castro O anjo pornográfico Companhia das Letras, 1992 464 p. O Anjo Pornográfico A o caminhar no Rio de Janeiro A sensibilidade em analisar a rea- dos anos 50, o jornalista e dra- lidade cotidiana de Nelson Rodrigues maturgo Nelson Rodrigues se trouxe o reconhecimento público e literário. Em O Anjo pornográfico, Ruy deparou com um marido dando uma sova na mulher por, diziam as vizi- Castro conta com minúcia a vida de nhas, ser tratado como cachorro por Nelson, do jornalismo policial aos ela. As mulheres o animavam: “bate palcos do Teatro Municipal do Rio de mais! Bate mais!”. Depois da surra, a Janeiro. Mais do que qualquer conto esposa se jogou aos pés do marido e ou peça ou noticia escrita por ele, es- suplicou perdão. Dali, Nelson criou petacular mesmo foi sua própria his- uma de suas mais famosas máximas: toria. “mulher gosta de apanhar”. Chega de Saudade Companhia das Letras, 1990 464 p. Chega de Saudade S e João Gilberto deu o nome, Ruy estórias. O cenário, a boemia carioca, é Castro contou a história. A Bos- o palco das tragédias, dramas e comé- sa Nova, para quem a musicava, dias vividas no tempo da Bossa. com certeza daria um belo romance, O livro já é um sucesso só pelos tão instigante são os seus bastidores, protagonistas: Tom Jobim, Vinicius de recheados de amores, paixões e trai- Moraes, Nara Leão, Carlos Lyra, Ro- ções. No livro Chega de Saudade, a com- naldo Bôscoli, Maysa, Johnny Alf, Elis posição do autor foi juntar os persona- Regina. É pra quem gosta de música, gens famosos, os amigos e os inimigos, de história e de Brasil. e colocar o período na linguagem das 48 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    47. Carmen – uma biografia Companhia das Letras, 2005 Carmen - Uma Biografia 632 p. A o ler Carmen, não se mergulha te, como enfatiza o autor-, até a morte somente na vida da “peque- em 1955, nos Estados Unidos. na notável”, mas também no A elegante baiana estilizada, que ambiente do Rio de Janeiro das pri- se tornou ícone tropicalista, não pelas meiras décadas do século XX e em suas músicas mas sim pela figura, este- Hollywood. reotipa do Brasil e pelos seus trejeitos, Exímio na pesquisa, Castro pas- é revivida no livro em seu mundo des- sou cinco anos vasculhando a vida de pudorado, como se ainda continuasse Carmen Miranda e a descreve desde o cantando: “Sou brasileira, vivo feliz, nascimento em Portugal – por aciden- gosto das coisas de meu país”. Estrela Solitária Companhia das Letras, 1995 536 p. Estrela Solitária N ão é com freqüência que ou- dem bela obra. É importante sabermos vimos o nome de Manuel hoje, tanto quanto nossos pais que o dos Santos. Mas Garrincha viram atuando, quem foi o grande todos conhecem. Mesmo pra quem herói do bicampeonato no Chile. E não acompanhou os jogos de futebol, mais do que isso, a história confronta o mito permanece. O “demônio das a força dessa imagem heróica com as pernas tortas” é o personagem prin- engrenagens da vida do Manuel dos cipal da biografia Estrela Solitária. Santos, o homem simples do interior As várias glórias e tragédias que per que ganhou o país com suas pernas. mearam a vida do famoso Mané ren- Tempestade de Ritmos Companhia das Letras, 2007 440 p. Tempestade de Ritmos D epois da Bossa Nova e do sobre Louis Armstrong ou Ray Char- samba, Ruy Castro levou o les, e informações sobre o surgimen- jazz às prateleiras das livra- to dos filmes falados, entre outras curiosidades, Tempestade de Ritmos rias. A coletânea de artigos lançados na Istoé, Folha, Veja e no Estadão e es- merece respeito de qualquer jazzista critos entre 1978 e 2006 é um reflexo de plantão. Ah, vá lá, e não só dos do gosto musical de Ruy, ainda que jazzistas. Afinal, mesmo dando al- essa não seja a proposta inicial do li- guns discretos puxões de orelha nos vro. roqueiros, Ruy Castro fala de música Com histórias no mínimo curiosas como poucos brasileiros. SEMANA REVISTA 49 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    48. Entre a técnica e a teoria reportagem por Joana Neitsch e Juliana Passos Currículos de jornalismo no Brasil tentam conciliar idéias e práticas. o perfil de profissional que se pretende formar. A formação essencialmente teórica, ainda presente em diversos cursos do Brasil, muitas vezes não prepara para as demandas do mer- cado. Os cursos en- caram a questão de se reformular para que seus alunos te- nham condições de N a cabeça entrar no mercado uma toca de trabalho e, ao de banho mesmo tempo, têm para ser identificada a responsabilidade como caloura – brin- de formar jornalistas cadeira dos vete- com conhecimento. ranos na primeira “Nós não vemos o semana de aula mercado como um –, olhos brilhantes inimigo”, afirma a e bem focados na entrevistadora, Caro- professora Márcia Marques sobre a pos- lina Azevedo gesticula ansiosamente ao tura adotada na Universidade de Brasília falar o que espera aprender no curso de (UnB). jornalismo da UFSC. Confessa que ainda A professora diz que o propósito tra- não sabe exatamente o que deve apren- çado pelo curso brasiliense é “mais do der entre teoria e prática da profissão. que preparar pessoas para escrever em Carolina leu a grade de horários, sabe jornalismo, é formar cidadãos capazes de as funções básicas de um jornalista, mas pensar, elaborar, avaliar, propor mudan- admite: “Não dá para colocar na cabeça ças nos meios de comunicação”. Foram de um calouro o que é o curso. Eu só vou dois anos de encontros em que os pro- saber o que preciso e o que faltou quando fessores discutiram autores como Paulo estiver lá na frente, trabalhando e souber Freire e Edgard Morin e fizeram debates realmente o que é a profissão”. e pesquisas com os alunos até chegarem Aqueles que já passaram pela univer- ao modelo do novo currículo, implan- sidade, pelo mercado de trabalho e hoje tado em 2005. Na nova grade, a divisão estão na academia entendem que para de dois anos práticos e dois teóricos não criar o currículo é preciso, antes, definir existe mais. Nas aulas práticas, os profes- 50 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    49. sores se revezam durante o semestre ao sil foi tamanha que o segundo currículo ministrarem disciplinas em diferentes la- mínimo de jornalismo foi elaborado du- boratórios, abordando os mesmos temas rante o regime militar por Celso Kelly, de pauta. A medida está em fase de expe- técnico treinado no Ciespal. Esse novo rimentação, na tentativa de interagir com currículo, apresentado em 1969, enfatiza diferentes mídias e aprofundar a reflexão a tecnificação do ensino e cria a figura do teórica durante as experiências práticas. comunicador polivalente ou comunica- A primeira proposta de um curso de dor social, capaz de dominar técnicas de jornalismo no Brasil foi feita em 1918, no jornalismo, relações públicas, publicida- Congresso Brasileiro de e propaganda, de de Jornalismo, de acor- acordo com as neces- do com a dissertação sidades do mercado. O primeiro curso de de Eduardo Medistch. O diploma passou jornalismo fundado no A idéia era um curso ser obrigatório para o voltado à prática, ba- país pela Fundação Cásper exercício da profissão. seado em um jornal-la- Recomendava-se aos Líbero ia de encontro à boratório – influências cursos de jornalismo proposta de focar mais do modelo que ganha- nos países sul-ameri- na prática do Congresso va força nos Estados canos que passassem Brasileiro de Jornalismo e Unidos. a se ser chamados de abordava questões éticas, comunicação social. Mas o primeiro jurídicas e literária curso de jornalismo, Discussões e des- fundado em 1947, se- contentamentos com guiu um caminho inverso. O currículo as mudanças de 1969 deram origem à elaborado pela Fundação Cásper Líbero criação de um novo currículo em 1979. A era predominantemente humanístico, nova proposta pretendia voltar-se para a com ênfase em estudos éticos, jurídicos e reflexão crítica, mas o que acabou ocor- literários. O governo passou a influenciar rendo foi uma burocratização e a respon- na concepção dos currículos com a cria- sabilidade do ensino técnico-profissional ção do Conselho Federal de Educação. foi transferida para os estágios nas em- Em 1962, o Conselho elabora o primeiro presas. currículo mínimo, com uma grade de A partir da década de 80 a tecnificação disciplinas obrigatórias para todos os imposta pelo governo militar é reforçada cursos de jornalismo do país. pelas exigências do mercado. Empresá- Fatos como a Revolução Cubana ge- rios reclamavam que a formação do jor- raram uma preocupação sobre a postura nalista era incompatível com as funções de resistência que o jornalismo vinha to- que exerceriam depois de terminada a mando no terceiro mundo diante da po- faculdade e usavam isso como argumen- lítica dos Estados Unidos. Essa situação to para não haver obrigatoriedade de di- levou a Unesco a criar em 1959 o Centro ploma. Internacional de Estudos Superiores de Em 1984 foi formulado o currículo Jornalismo para a América Latina (Cies- mínimo que estabelecia um tronco co- pal), com sede em Quito, Equador. mum de disciplinas para a formação do A influência da organização no Bra- comunicador social e seis habilitações es- SEMANA REVISTA 51 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    50. pecíficas, sendo uma delas o jornalismo. Curriculares Nacionais. De acordo com reportagem A parte técnica da profissão deveria ser as novas diretrizes, o curso ainda é clas- ensinada em laboratórios, mas em mui- sificado como uma habilitação da área tas universidades ficou comprometida de Comunicação Social, e o ensino deve devido à falta de estrutura. ser focado na produção e disseminação Durante a década de 90 os cursos fo- das informações do momento presente. ram fazendo ajustes de acordo com as A graduação também deve se relacionar necessidades que detectavam. Na UFSC com outras áreas sociais, culturais e eco- adotou-se a nomenclatura jornalismo em nômicas. “Os cursos antigos têm agora a 2000. A publicação do comunicado em oportunidade e o compromisso de pro- 5 de julho, pelo então chefe de departa- moverem as adequações necessárias às mento Hélio Schuch, justifica: “A forma- expectativas e ao dinamismo da socieda- ção de jornalistas não cabe em apenas de” avaliam os professores Eron Brun e dois anos, como simples Jorge Ijuim em artigo leva- Para Meditsch, a habilitação. Com um mer- do ao Intercom em 2003. maior deficiência cado de trabalho cada vez A flexibilidade radi- do estudante de mais exigente e dinâmico, cal na grade curricular é jornalismo é a falta defendida pelo professor a graduação deve ampliar e qualificar a capacidade da UFSC, Mauro Silveira. de conhecimento dos alunos, com um ensi- Desde que entrou na gra- sobre a realidade no de enfoque profissio- duação na Universidade brasileira e nem nal, e isso demanda um mesmo a formulação Federal do Rio Grande do tempo bem maior”. Sul, nos anos 70, ele acre- dos currículos a partir A utilização do tronco dita que a função da uni- de um tronco comum versidade é potencializar comum na estrutura do soluciona esse currículo não resolve o vocações. Para o professor problema que para o professor dou- os estudantes deveriam ter tor Eduardo Meditsch é uma das maiores uma boa base teórica e a opção de cursar deficiências dos estudantes de jornalismo: disciplinas técnicas de acordo com suas a falta de conhecimento sobre a realidade áreas de maior interesse no jornalismo. brasileira. Meditsch conta que foi procu- “Eu percebi no próprio exercício da pro- rado por uma grande empresa de comu- fissão que muitas coisas que vi na facul- nicação para dar um curso sobre o tema dade não me serviram de nada” explica aos jornalistas. O professor é autor do li- ele, mas reconhece que isso exigiria mais vro O conhecimento do Jornalismo e chegou recursos e uma melhor estrutura na uni- a propor para o currículo da UFSC que versidade brasileira. em cada fase fosse abordado um mesmo Formado no curso de jornalismo tema sobre a realidade do Brasil em todas da UFSC no final de 2007 e primeiro as disciplinas, como economia, meio-am- lugar no trainee do jornal Estadão no biente e política. mesmo ano, Vitor Hugo Brandalise O Conselho Nacional de Educação de- Júnior percebe em seu pouco tempo finiu em 2001 novas diretrizes, com mais no mercado que o ensino técnico lhe flexibilidade, para a formação de um pro- foi muito bem ensinado. Ele também fissional do jornalismo nos Parâmetros reconhece as deficiências em sua for- 52 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    51. Leia mais mação. “Falta conhecimento periféri- co sobre tudo. Falta estudo. E, since- O professor de jornalismo da UFSC Hélio Schuch fala da ramente, de dentro do mercado, ao mudança de nomenclatura do curso http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/ menos da grande mídia, não é fácil da05072000.htm corrigir essas falhas na formação”. O conhecimento do jornalismo: o elo perdido no ensino da comunicação, Eduardo Barreto Vianna Meditsch. Editora da UFSC. Cronologia 1918 Primeira proposta de um curso de jornalismo no Brasil, no Congresso Brasileiro de Jornalismo 1947 Criação do primeiro curso de jornalismo do Brasil na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo 1959 A UNESCO funda o Centro Internacional de Estudos Superiores de Jornalismo para a América Latina (Ciespal) 1962 Criação do primeiro currículo mínimo para cursos de jornalismo no Brasil 1969 Um novo currículo mínimo é elaborado por Celso Kelly (técnico treinado no Ciespal), com ênfase nos aspectos técnicos do ensino de jornalismo 1979 É criado um currículo com o objetivo de incentivar a reflexão-crítica do jornalismo 1984 O curso de comunicação social surge com um tronco comum às diversas áreas de comunicação e seis habilitações, sendo uma delas jornalismo 2001 Conselho Nacional de Educação define novas diretrizes de ensino nos Parâmetros Curriculares Nacionais, e o jornalismo continua sendo uma habilitação de comunicação social SEMANA REVISTA 53 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    52. De séria já basta a realidade reportagem por Carolina Moura, colaboração Juliana Frandalozo C QC, o programa jornalístico mais comentado do mo- mento, onde os repórteres usam terno e gravata mas vivem perdendo a elegância. No início deste ano, uma seleção inusitada de personalidades recebeu uma visita em comum. Gretchen, Pa- dre Quevedo, Leão Lobo, Raul Gil, Datena e Marcelinho Carioca tive- ram de enfrentar um dos problemas da fama: dar entrevista a um repór- ter inexperiente. Cada um à sua vez, inadvertidamente viu o microfone número pode não parecer extraordi- cair, ouviu os comentários gagueja- nário, porém, não expressa o público dos e respondeu às perguntas mais total. Mais de oitocentos vídeos, só inoportunas disfarçadas de ingenui- da versão brasileira, estão dispo- dade. Mas o disfarce caiu no dia 17 níveis no YouTube. “Isso é muito de março, quando estreou o Custe o positivo. Não está refletido no IBO- que Custar, ou simplesmente CQC. PE, mas esse não é nosso principal O repórter Danilo Gentili demons- objetivo. Temos vontade de falar as trou que, quando se trata de enganar coisas”, considera o argentino Die- seus entrevistados, não tem nada de go Barredo, diretor do Custe o inexperiente. Que Custar. E milhares de Criado em 1995 na Argentina pessoas estão ouvindo o pela produtora Cuatro Cabe- que eles têm a falar. zas, que hoje realiza também a Os apresentadores são versão transmitida pela Band, o Marcelo Tas, Marco Lu- CQC (originalmente “Cai- que e Rafael Bastos, sen- ga Quien Caiga”) faz su- do que o último cesso em países como também integra Chile, Espanha, França a equipe de re- e Itália. E aqui não foi pórteres, junto diferente: em pouco com Oscar Fi- mais de dois me- lho, Felipe An- ses a audiência no dreoli, Rafael horário (segundas- Cortez e Dani- feiras às 22h15) do- lo Gentili. De brou, passando de eventos sociais 3 para 6 pontos. O ao Congresso Na- 54 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    53. cional, do Museu de Arte Moderna superfície apaziguadora mas ferina, às Olimpíadas na China: tudo isso é sutil e sarcástica”. A piada não cul- pauta para o CQC. O que identifica e tua o homem; desmascara-o, mostra- diferencia o programa são as repor- como ele é. tagens que divertem e criticam ao Ninguém está protegido da sátira. mesmo tempo. As figuras de poder, sérias e conser- A associação entre humor e jorna- vadoras, podem se tornar as mais lismo não é algo recen- cômicas. E o programa O que identifica e te. A charge é um gêne- americano The Daily ro consagrado no Brasil, diferencia o programa Show prova isso desde que tem origem nas ca- são as reportagens 1996. São clássicas as ricaturas do século XIX. críticas ao presidente que divertem e A principal caracterís- Bush, tratando até as- criticam ao mesmo tica dessas ilustrações suntos como a Guerra tempo é a sátira em relação à do Iraque de forma política e aos costumes da época. A bem-humorada. Adam Chodikoff, charge brasileira tem grandes nomes responsável por assistir a horas de como Angeli, que já foi publicado em noticiários para usar de material vários países. para o programa, afirmou em entre- Marcio Acselrad, professor do vista ao Washington Post que não se curso de Comunicação Social – Jor- trata de uma perseguição: “Eu que- nalismo, na Universidade de Forta- ro fazer o programa o mais sagaz, o leza, escreveu que o humor é uma mais engraçado possível. Não acor- estratégia cultural capaz de apro- do toda manhã dizendo ‘eu tenho ximar o homem da consciência de que pegá-lo, eu tenho que pegá-lo!’”. sua realidade. No artigo “O humor O produtor-executivo David Javer- como estratégia de comunicação”*, baum considera os noticiários muito ele apresenta o riso como “uma for- ruins no que fazem (“My opinion is ma de lidar com as questões mais they suck at their jobs”). Nesse cená- graves e profundas a partir de uma rio, o Daily Show faz conexões e dá SEMANA REVISTA 55 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    54. destaque a informações que ficam e não tem importância jornalística, reportagem perdidas em meio ao turbilhão de não vai ao ar. Por isso eles foram tão notícias diárias. Barredo, diretor do convictos na campanha para entrar CQC, faz uma avaliação parecida, no Congresso, após serem proibi- ainda que não tão dura, da mídia no dos de gravar no local: “não houve Brasil e na Argentina. “O jornalis- desrespeito. É tudo verdade, o men- mo tem uma solenidade salão, o caixa dois. Está às vezes absurda, que Entre jornalismo provado”. oculta certas críticas da A maior dificuldade e humor, onde realidade e expõe com reside a ética? Do em produzir o CQC, para naturalidade coisas in- o diretor, é ser sempre início ao fim justas”, comenta. É aí original. Esse é um pro- que o humor entra: para falar sem blema identificado por ele no jorna- rodeios e desmoralizar com senso lismo tradicional ao seguir mecanis- crítico. “É uma ferramenta para der- mos que acabam gerando repetições, rubar barreiras, chegar às pessoas. sempre fazendo as mesmas pergun- Ele está muito ligado à inteligência, tas. Que pergunta um repórter do quebra paradigmas.” CQC lhe faria em uma entrevista? Apesar de a mistura não ser novi- “Provavelmente perguntaria quando dade, ainda surge a pergunta: entre teria um salário mais alto. Eu man- jornalismo e humor, onde reside a daria ele trabalhar mais se quisesse ética? Segundo Barredo, do início ao ganhar o aumento”. fim. Toda a equipe de produção do programa é formada por jornalistas, * O humor como estratégia de comu- inclusive profissionais que vieram nicação, de Marcio Acselrad. Disponível de importantes veículos impressos no site www.compos.org.br do país. A ética do jornalismo vale para o CQC. Ques- tionado sobre Humor censurado o off no caso da Em abril, o Congresso Nacional proibiu entre- as gravações do CQC na repartição federal e trouxe a discussão sobre o humor no jor- vista nalismo, questão capa da revista Imprensa em julho. A matéria de Danilo Gentili sobre com a reforma tributária foi o que desencadeou a Mãe reação do Congresso, que justificou sua de- cisão dizendo que o conteúdo do CQC era Diná, na humorístico, e não jornalístico. O repórter, que não é formado em jor- qual ela fala sobre nalismo mas tinha credenciais de imprensa, o presidente Lula começou uma campanha para que pudesse voltar a gravar no local. “Não é uma dita- ao pensar que o mi- dura, mas a censura está aí”, disse Gentili. A equipe do programa se mobilizou e lan- crofone está desli- çou uma campanha em TV, rádio e internet, gado, Barredo diz que onde juntou 260 mil assinaturas de apoio. O CQC só pôde voltar ao Congresso no dia 30 o limite é o respeito às de junho, quando recuperou a autorização do Senado. pessoas. Quando algo pode prejudicar alguém 56 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    55. O repórter politicamente correto memória por Marina Veshagem E rnesto Varela fazia pergun- ro bem elaborado, entretanto, com a câmera tas simples, ingênuas e di- ligada, o improviso era a lei. Foram muitos os entrevistados, como Pelé, Nelson Piquet, retas para os personagens o vice-presidente da República Aureliano da história de verdade. Chaves, o deputado federal Fernando Hen- Anos 80, período de abertura política, rique Cardoso, a Guarda do exército verme- pós ditadura. Perído conturbado, bombas e lho na União Soviética e Chico Buarque em censura. É nesse contexto que uma pergun- cima do palanque das Diretas-Já. ta a Paulo Maluf torna célebre um repórter: O fiel câmera Valdeci era personagem “Muitas pessoas não gostam do senhor, di- importante no quadro, Varela pensava alto zem que o senhor é corrupto. É verdade isso, e conversava com o cinegrafista, que foi vi- deputado?”. Se tratava de Ernesto Varela, vido primeiramente por Fernando Meirel- personagem interpretado por Marcelo Tas, les. Toniko Melo assumiu o papel durante que ironizava personalidades políticas da a “Copa do Mundo” e em “Cuba”, e Hen- época com questionamentos diretos e des- rique Goldman foi o Valdeci em “Varela em concertantes. Nova York”. O repórter fictício surgiu em 1983 no O quadro deu tão certo que, em 1984, programa Olhar Eletrônico, da TV Gazeta, a convite da Abril-vídeo, a equipe criou o no desespero para preencher as duas horas programa Crig-Rá, com experimentação de semanais do programa. “Começamos com vários formatos e participação de muitas ou- uma reportagem que explicava a dívida ex- tras pessoas. Em 1987 Tas foi morar nos Es- terna brasileira num terreno abandonado na tados Unidos e marcou o fim da temporada Avenida Paulista. Foi calculado o preço de do Varela, mas ele ainda voltou a aparecer cada cacho de banana plantado ali no metro na televisão, rádio e teatro. Hoje, Ernesto quadrado mais caro do Brasil. E assim su- Varela está adormecido, mas Marcelo Tas gerimos às autoridades a saída para a crise afirma que o repórter politicamente correto nacional: derrubar todos os prédios dos ban- pode voltar a qualquer momento. cos da Paulista para a produção daquele tipo de banana. O governo militar não aceitou a Melhores momentos: sugestão e a dívida externa está aí até hoje. Mas a televisão ganhou um novo persona- Entrevista com Nelson Marchezan – deputado federal gem: o repórter Ernesto Varela”, contou Tas Nelson - Eu represento bem o povo que sofre. Varela - Deputado, o senhor acredita no que o no livro Made in Brazil – Três Décadas do senhor diz? Vídeo Brasileiro. Entrevista com Nabi Abi Chedid – deputado e Varela falou de economia, política, espor- vice-presidente da CBF Nabi - Brasileiros como você são responsáveis tes e entrevistou personalidades de verda- pelo desvirtuamento das coisas, vamos falar de de. Com seus óculos de armação vermelha futebol, não vamos falar de política, eu não falo de política aqui. – adereço improvisado, mas que se tornou Varela - Então uma pergunta futebolística para terminar a entrevista. Qual é a sua próxima jogada? marca registrada - saía para fazer as pergun- tas que todo mundo tinha na cabeça, mas Para Maluf : “Você acha que a beleza física do senhor prejudicou-o nessa campanha?” não tinha coragem de fazer. Existia um rotei- SEMANA REVISTA 57 VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
    56. OOOOoooo TOP FIVE! // Procure e assista na internet os melhores momentos dos repórteres e apresentadores, escolhidos em votação exclusiva para a Semana Revista: 1. Luque imitando o Tas Marco Luque 2. Tas rindo do Luque, sempre 3. O beijomeliga 4. Entrada de motoboy no intervalo 5. Fala que “seu pau é uma vela preta” 1. Fala “xoxota” no top five Marcelo Tas 2. As várias possessões para chamar “OOooo TOP FIVE!” 3. Com Ronaldo Fenômeno 4. Fala que os travestis querem aumento de pênis 5. Mandando um tiajjjuan Felipe Andreoli 1. Link da China (e “comendo iguarias chinesas”) 2. Fala que Marta Suplicy é interesseira 3. Com Lula, na China e em Heliópolis 4. Showmissa do padre Marcelo 5. Vernissage do Chico Anysio 1. Repórter inexperiente com padre Marcelo Rossi Danilo Gentili 2. Lançamento da biografia do Maluf 3. Danilo sendo expulso do Congresso 4. Leitura com Carla Perez 5. Exposição de Duchamp no MAM Rafinha Bastos 1. Cemitério em Brasília 2. Jogando lixo na prefeitura 3. Rafinha pit-bull, em Brasília 4. “Proteste Já” da Sabesp 5. Com o prefeito de Mairiporã 1. Com Daniel Dantas Rafael Cortez 2. Cortez na Cumbre 3. CQTeste 4. Inauguração da ponte Otávio Frias de Oliveira 5. Cortez entrega óculos para o Lula 1. No palco com Tihuana Oscar Filho 2. Oscar apanhando do Babenco 3. Esporro do Zé do Caixão 4. Feira erótica 5. Parada gay 58 SEMANA REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008

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