Semana Revista (Set2008) - Presentation Transcript
P
arecia absurdo, diante do trabalho
carta ao leitor
previsto para organizar a VII Sema-
Reportagem
expediente na do Jornalismo, fazer uma revista.
Camila Brandalise
As outras seis organizações devem ter pen-
Cauê Oliveira
sado o mesmo quando deixaram de lado
Gabriel Rosa
Joana Neitsch a idéia. Mas também era absurdo trazer
Juliana Frandalozo cerca de quatro convidados por dia para o
Juliana Gomes evento e, ainda assim, fomos em frente.
Juliana Passos
Se queríamos mais conteúdo na Semana,
Juliana Sakae
era inevitável ter algo que nos preparasse
Leonardo Gorges
para bancar perguntas e comentários em
Pedro Dellagnelo
palestras e mesas-redondas. A revista veio,
Pedro Santos
então, para localizar questões, apresentar
convidados e trazer à tona alguns temas
Colaboração
que passam despercebidos nas aulas.
Lívia Andrade
O desafio não é tão desafiador quando
Mayra Gomes Rodrigues
se conta o número de pessoas que ajuda-
Tarsia Paula Piovesan Farias
Upiara Boschi ram a concretizar o projeto. Estou há três
anos no curso de Jornalismo da UFSC, e
Edição esta é a primeira publicação que conheço
em que puderam e participaram alunos de
Adriana Seguro
Carolina Faller Moura todas as fases, sem reservas. Concepções de
Fernanda Dutra curso, histórias, gostos, estilos diferentes,
Jéssica Lipinski assim como os convidados da Semana.
Luisa Frey
Se há textos mais sisudos, como os ar-
Marina Ferraz
tigos acadêmicos elaborados para a dis-
Marina Veshagem
ciplina de Legislação e Ética por Tarsia
Matheus Joffre
Piovesan e Lívia Andrade, há também
Wesley Klimpel
outros mais soltos como o perfil de Fred
Melo Paiva, por Juliana Gomes e a maté-
Editoração
ria sobre crônicas de Luisa Frey. Dicas de
Carolina Faller Moura
livros também não faltam: os clássicos de
Flávia Schiochet
Ruy Castro e do jornalismo investigativo,
Jessé Torres
Juliana Sakae referências bibliográficas dos artigos e a
Marcelo Andreguetti resenha do livro de Arthur Dapieve, Mor-
Paulo Rocha Azevedo reu na contramão, feita por Gabriel Rosa.
Thiago Bora
Só quando passar o dia 19 de setem-
Wesley Klimpel
bro é que saberemos se os desafios foram
vencidos ou não. Independente dos erros
Ilustrações
e acertos, este é mais um capítulo de uma
Alexandre Tcheto
história de sete anos do curso de Jorna-
Felipe Parucci
lismo da UFSC. História dentro de outra
Guilherme Costa
ainda mais bonita – antes de nós, tantos
João Paulo Bernardes
nomes, lutas, discussões e vitórias. A nos-
Marina Kinas
sa VII Semana é mais uma contribuição,
singela. E que, depois desta, a Semana do
Coordenação Editorial
Jornalismo se torne ainda maior, desafia-
Fernanda Dutra
dora e inteligente.
Fernanda Dutra
Coordenação Gráfica
coordenação editorial
Flávia Schiochet
sumário
8 Uma voz diferente no esporte, José Geraldo Couto
Por Leonardo Gorges
10 A falta de ética na distorção do áudio de jogos de futebol
Por Tarsia Paula Piovesan Farias
14 Os sofrimentos do jovem Vinícius, na revista
Por Fernanda Dutra
17 “Morreu na contramão”, o suicídio nos jornais
Por Gabriel Rosa
20 Entrevista com Fausto Macedo – sem ilusões na profissão
Por Pedro Santos
22 Sensacionalismo quer adestrar o público
Por Mayra Gomes Rodrigues
24 Lembranças da época de foca
Por Upiara Boschi
26 Quem investiga acha, o uruguaio Roger Rodríguez é a prova
Por Adriana Seguro
28 Contabilizando, e lutando contra, a liberdade de imprensa
Por Marina Veshagem
30 Uma lista não definitiva de reportagens investigativas
Por Wesley Klimpel
Por Juliana Sakae e Juliana Passos
32 ConselhoaFederal dos Jornalistas, do Jornalismo, de quem?
Entenda sigla CFJ
34 Como se regulamenta a profissão no exterior
Por Marina Ferraz
37 O caso Nardoni: quando a mídia julga antes da Justiça
Por Lívia Andrade
42 Um café fictício com Fred Melo Paiva
Por Juliana Gomes
45 Ruy Castro, entre poucas linhas e muitas páginas
Por Luisa Frey e Camila Brandalise
50 Currículos, ou por que você estuda o que estuda
Por Joana Neitsch e Juliana Passos
54 Repórteres sem vergonha, CQC
Por Carolina Faller Moura e Marina Veshagem
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
vii semana do jornalismo
Programação
SEGUNDA
Fred Melo Paiva
9h-12h // Minicursos escreve atualmente
no caderno Aliás, do
13h-14h30 // Exibição de documentário jornal Estadão
14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão
de curso
15/09
16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Jornalismo
Esportivo: informação ou entretenimento?
19h // FRED MELO PAIVA // Palestra de abertura
TERÇA
9h-12h // Minicursos Ruy Castro é o autor
das biografias de
13h-14h30 // Exibição de documentário Nelson Rodrigues e
Carmen Miranda
14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão
de curso
16/09
16h30-18h30 // Mesa de Discussão: O suicídio
como notícia
19h // RUY CASTRO // Palestra sobre biografia e
crônica
QUARTA
9h-12h // Minicursos Em ano de eleições , o
repórter de política do
Estadão, Fausto Macedo,
13h-14h30 // Exibição de documentário
conta os bastidores da
cobertura.
14h30-16h // Apresentação de trabalhos de conclusão
de curso
17/09
16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Cobertura
jornalística eleitoral
19h // CREMILDA MEDINA // Palestra sobre
graduação em jornalismo
*Grade de programação sujeita a alterações
Programação
vii semana do jornalismo
*Grade de programação sujeita a alterações
QUINTA
9h-12h // Minicursos Figura presente na
história do curso,
13h-14h30 // Exibição de documentário Dalton Barreto
promove churrasco de
14h30-16h // Apresentação de trabalhos de integração
conclusão de curso
18/09
16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Jornalismo
Investigativo - quais os limites da investigação?
19h // CHURRASCO DO DALTON // Happy Hour
SEXTA
9h-12h // Minicursos Marcelo Tas,
apresentador do
13h-14h30 // Exibição de documentário polêmico programa
CQC da Band,
14h30-16h // Apresentação de trabalhos de discute a união entre
jornalismo e humor
conclusão de curso
19/09
16h30-18h30 // Mesa de Discussão: Criação do
Conselho Federal de Jornalistas
19h // DIEGO BARREDO E MARCELO TAS //
Palestra sobre o programa de televisão CQC / Band
22h // FESTA DE ENCERRAMENTO // Balada
louca no Hi-Fi com a banda Superpose e com os DJs
Isaac e Andrew Getty
A dupla de electropop
Superpose agita o Hi-Fi na festa
de encerramento da Semana.
Ingressos antecipados a R$10
poderão ser adquiridos com os
organizadores do evento.
Esporte:
&jornalismo
entretenimento
E
m agosto, as madrugadas foram
olímpicas nas emissoras de TV.
Mesmo assim, durante o dia,
programas e sites não abandonavam
o assunto. “Rússia invade Geórgia, se-
leção brasileira vence no vôlei mascu-
lino. Direto para Pequim!” O esporte
vira espetáculo e as fronteiras do que
é noticiário e o que é entretenimento
se dissolvem. Mais difícil, assim, é
manter os pés na ética. Nas próximas
páginas, José Geraldo Couto comenta
as mudanças que o jornalismo espor-
tivo sofreu nos últimos anos e Tarsia
Piovesan analisa a manipulação de
áudio nos jogos de futebol, especial-
mente o caso Corinthians x Sport.
Análise de um outsider
entrevista
por Leonardo Gorges, colaboração de Pedro Dellagnelo
H
Acervo pessoal
á 20 anos na profissão,
José Geraldo Couto
deixou São Paulo há sete
para curtir a tranqüilidade de
Florianópolis. Daqui, ele escreve
sobre esporte para Folha sem
a euforia de quem acompanha
jogos de futebol no estádio nem
as amarras de comentários
pontuais.
Semana Revista: Você se considera
um “outsider” ao escrever sobre fute-
bol, alguém que enxerga as coisas sem
tro da academia, isso também fez com
estar diretamente envolvido. Como
que mais estudantes se interessassem
você vê o choque entre a geração que
pela área do jornalismo esportivo, sem
está chegando ao mercado agora, que
qualquer tipo de condenação. A integra-
se baseia mais em estudos de jornalis-
ção com as outras editorias hoje é muito
mo esportivo sem ter de fato chegado a
maior.
competir, e a atual, que comenta mais
SR: Quais os maiores problemas
baseada pela experiência pessoal?
José Geraldo Couto: As duas coisas atualmente na cobertura de esportes no
contam. Porém eu acho muito importan- Brasil atualmente?
te o fato de essa nova geração estar estu- JGC: A cobertura cotidiana de es-
dando o jornalismo esportivo, trazendo portes, em especial do futebol, ainda
essa visão “de fora”, diferente. Houve é bastante tímida. Gira-se sempre em
uma grande evolução no jornalismo es- torno sempre das mesmas questões,
portivo desde que cheguei ao mercado, como transferências de jogadores,
há mais de vinte anos. Naquela época, a contusões e etc. Acredito que falte
editoria de esportes era bastante menos- um pouco mais de investigação, re-
prezada. Éramos considerados profis- portagem mesmo. Gestão do esporte,
sionais menos preparados. Isso mudou problemas administrativos e políticos
muito nos últimos anos; os jornalistas são assuntos com pouco destaque. A
esportivos passaram a ser mais valo- cobertura atual é muito superficial em
rizados. O esporte em si deixou de ser sua grande maioria.
marginalizado. Outra grande mudança SR: Estamos vendo hoje brigas en-
positiva foi que pessoas de outras áreas tre os grandes grupos midiáticos para
começaram a escrever sobre esportes, a aquisição dos direitos de transmis-
como o Nando Reis (Estadão) e o José sões dos eventos esportivos, há muito
Roberto Torero (Folha de S.Paulo). Den- dinheiro em jogo. Ao mesmo tempo,
08 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
pouco se investe no esporte de base. geral, se tornaram produtos da indús-
Há solução para esse dilema? tria cultural. A espetacularização dos
JGC: A organização do esporte no eventos e a mitificação do atleta podem
Brasil hoje é muito influenciada pela afastar o leigo do esporte do dia-a-dia?
mídia, em especial a rede Globo. Isso é JGC: Acho que acontece o contrário.
um abuso, uma distorção. A interferên- Acaba-se atraindo pessoas que não têm
cia da televisão não deveria chegar a qualquer tipo de proximidade com o
esse ponto, de mudar calendários e ho- esporte com essa espetacularização e
rários de partidas. Quanto à questão do a mitificação dos atletas. Um exemplo
investimento, acredito que um bom lu- grotesco disso seria o público feminino
gar para se formar atletas, que gerariam em geral, que não acompanhava muito,
resultados no futuro, sejam as escolas. mas hoje acompanha notícias que não
Mas nem o seu papel mais necessariamente envolvam o esporte,
básico – ensinar – elas têm mas sim as celebridades que deles fa-
“
feito, então fica complica- zem parte. E acredito
do. Há a questão, também, que isso possa, de al-
de que surgem ícones para gum jeito, fazer com que
A falta de
o desenvolvimento dos o esporte se dissemine.
investimentos é um Talvez não da maneira
esportes, como o Guga no
sério entrave para
tênis, mas são casos efê- mais correta.
o desenvolvimento
meros, que não têm uma SR: A “falação es-
continuidade. A falta de do esporte no Brasil, portiva”, conceito cria-
sem dúvidas
investimento de base é do por Umberto Eco,
”
um sério entrave para o defende que o esporte
desenvolvimento do esporte no Brasil, passa a ser um longo
sem dúvidas. discurso da imprensa
SR: Assim como cresce o número esportiva sobre ela mesma, entregan-
de atletas brasileiros participando das do um produto pronto a um receptor
Olimpíadas, a cobertura dos Jogos passivo. O aumento de programas
tem cada vez mais estrutura e espaço. esportivos, em especial no modelo
O COI, Comitê Olímpico Brasileiro, é talk-show, cria um espectador mais
contra essa “gigantização” olímpica. ou menos crítico?
JGC: Essa definição do Umberto Eco
Há como ir contra essa tendência?
JGC: É muito difícil. Cada vez os não deve ser interpretada como algo
países mandarão mais atletas, os patro- absoluto. Na contramão dessas mesas-
cínios também crescem. É um ciclo que redondas que giram em torno de si, tam-
dificilmente será quebrado. Acho que bém há tentativas de furar esse modelo.
esse discurso do COI é puramente retó- O Rock Gol de domingo, da MTV, é um
rico. Não vejo onde e como eles podem exemplo. Esse tipo de programa talvez
coibir essa tendência, já que o esporte é, torne o espectador mais crítico, já que é a
cada vez mais, uma grande fonte de ren- anti-mesa-redonda. Mas é aí que surgem
da e entretenimento. vocês, estudantes de jornalismo, para pro-
SR: Há autores que afirmam que por mudanças a este modelo. A imprensa
o futebol brasileiro, e os esportes em deve estar em constante evolução.
SEMANA
21 semana
revista da
REVISTA 09
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Deslize ético: o caso Corinthians x Sport
artigo por Tarsia Farias
A
final da Copa do Brasil de O áudio foi captado e divido em três
Futebol aconteceu dia 11 de canais – o do narrador, o da torcida
junho no Estádio Adelmar do Corinthians e o geral do estádio.
da Costa Carvalho em Recife (PE). Bastou o diretor técnico aumentar o
Disputavam o título o Corinthians, de volume do canal da torcida do Corin-
São Paulo, e o Sport Clube Recife, de thians e diminuir o volume geral do
Pernambuco. O Corinthians caiu para estádio. O resultado é que parecia que
a série B no ano passado, e neste ano a torcida toda do Corinthians estava
está lutando para voltar à primeira presente, o que aumenta a audiência
divisão. Já o Leão, como é conheci- do jogo em São Paulo. Mas também
do o Sport, ocupava em junho uma é possível aumentar a audiência nor-
posição melhor: estava em 15º lugar destina, como foi feito no primeiro
na classificação dos times da série A. jogo da final da Copa do Brasil, em 4
Uma pesquisa CNT/Sensus realizada de junho. Os leitores do site Blue Bus,
em outubro de 2007 revela que o Co- especializado em jornalismo esporti-
rinthians tem a segunda maior torci- vo, disseram ter ouvido a torcida do
da brasileira, 10,5% da população, e Sport, minoria no estádio, gritar mais
perde só para o Flamengo. Já a alto que a do Corinthians. Na
torcida do Sport correspon- ocasião, o Morumbi
de a 1%. tinha 65 mil corin-
A final foi trans- thianos e 1 mil tor-
mitida pela rede cedores do Sport.
Globo, e narrada Em nota oficial
pelo jornalista e enviada ao Blue
locutor esportivo Bus sobre o jogo
Cléber Machado. em Pernam-
A transmissão buco, a rede
dos campeona- Globo nega
tos de futebol ter falsificado
é uma opera- o áudio e alega que
ção jornalística, “no início do jogo, a torci-
realizada pelo De- da do Sport estava mesmo mais
partamento de Jorna- apreensiva e, portanto, mais calada,
lismo Esportivo da Globo. O estádio fato inclusive destacado por Cléber
recifense tem capacidade para 36 mil Machado durante a transmissão. Esta
pessoas, das quais 35 mil eram torce- situação imediatamente se reverteu,
dores do Sport. Mesmo assim, o que com a reação dos torcedores do Sport
se ouvia pela televisão em São Paulo ao perceber que seu time havia adqui-
era o grito da torcida organizada do rido confiança para buscar o título – o
Corinthians. A operação foi feita gra- que também pôde ser visto durante a
ças à tecnologia e engenharia de som. transmissão do jogo”. A versão des-
10 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
considera o fato de que havia muito esportivos é efetuada pelo enquadra-
mais torcedores do Sport que do Co- mento das câmeras televisivas, edição
rinthians no estádio do Leão. das imagens com sons e efeitos grá-
Pela capacidade de atrair telespec- fico-computacionais acrescentados a
tadores de todas as idades, níveis de elas”. A briga pela audiência conquis-
instrução e condição social, o esporte ta o telespectador de forma emocional
passou a ser um bem-sucedido inves- pela conexão de imagens e sons. As
timento financeiro para anunciantes. motivações para a espetacularização
Uma pesquisa do CNT/Sensus, reali- podem ser a necessidade comercial
zada em 2007 com duas mil pessoas ou a intenção de socialização e de
das cinco regiões do país, revelou entretenimento.
que a maioria das pessoas acom- O caso Corinthians x
panha os jogos pela Sport atropela três
TV: 64,3%. A TV é artigos do Códi-
o meio de comu- go de Ética dos
nicação com maior Jornalistas Brasi-
inserção física nos leiros, divulgado
lares brasileiros e pela Federação
o veículo domi- Nacional dos
nante no mer- Jornalistas (Fe-
cado publici- naj) em 2007.
tário. O poder O artigo 2º, in-
simbólico que ciso II, diz que
esta mídia agrega “a produção e a
tem um peso considerável nos aspec- divulgação da informação devem se
tos culturais de uma população, prin- pautar pela veracidade dos fatos e ter
cipalmente no caso brasileiro, já que por finalidade o interesse público”,
foi a TV que, em certo sentido, unifi- o que não se cumpriu nesse caso. O
cou o Brasil. Ela domina o espaço pú- artigo 4º diz praticamente a mesma
blico e fornece o código pelo qual os coisa: “o compromisso fundamental
brasileiros se reconhecem como tais. do jornalista é com a verdade no rela-
Segundo Bucci (1997, p. 09), sem a re- to dos fatos, razão pela qual ele deve
presentação imposta pela TV, torna- pautar seu trabalho pela precisa apu-
se “quase impraticável a comunicação ração e pela sua correta divulgação”.
– e quase impossível o entendimento O terceiro artigo a ser violado (12º, in-
nacional”. ciso V) é o que mais se aplica ao caso:
O esporte é visto hoje como uma “o jornalista deve rejeitar alterações
mercadoria a ser consumida no dia- nas imagens captadas que deturpem
a-dia, principalmente na forma de es- a realidade, sempre informando ao
petáculo. A maneira como a televisão público o eventual uso de recursos
constrói os discursos sobre o esporte de fotomontagem, edição de imagem,
é chamada por Betti (1998, apud Me- reconstituição de áudio ou quaisquer
zzaroba, 2007, p. 28) de esporte teles- outras manipulações”.
petáculo: “a mediação dos eventos Além de passar por desvios pesso-
SEMANA
REVISTA 11
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
artigo
ais como os previstos no Código de Segundo Abramo (2003, p. 42),
Ética dos Jornalistas, a ética na im- uma das razões porque os empresá-
prensa passa por questões institucio- rios manipulam e distorcem a reali-
nais e a discussão deve englobar não dade se situa no campo econômico:
só os jornalistas, mas a direção da em- “o empresário de comunicação dis-
presa também. Em busca de audiên- torce e manipula para agradar seus
cia, lucro e poder, as empresas muitas consumidores, e assim, vender mais
vezes sacrificam a independência do material de comunicação e aumentar
departamento editorial de um veícu- seus lucros”. O autor também classi-
lo. Apesar das dificuldades, buscar fica padrões de manipulação – o tipo
os valores éticos evita que se caia no em que o caso Corinthians x Sport
“caminho do vale-tudo”. Bucci (2000, se enquadra é o padrão de inversão:
p. 33) faz um alerta: “É verdade que a inversão da forma pelo conteúdo,
a atividade jornalística se converteu quando o ficcional espetaculoso troca
num mercado, mas, atenção, esse de lugar com a realidade.
mercado é conseqüência, e não o fun- A lógica de consumo dos dias de
damento da razão de ser da impren- hoje abarca todas as instituições e é
sa”. E continua: “A ética na imprensa uma tendência dominante na mídia.
é sim, a demarcação de limites para o O que vemos hoje é mais um perfil
pragmatismo, que, por si só, não co- de jornalista cooptado pela lógica de
nhece limites”. mercado do que um jornalista a servi-
A ética deve ser discutida com a ço do patrão. Mas isso não pode ser-
sociedade, pois o cidadão é a razão da vir para justificar uma manipulação
prática jornalística, e é a ele que o jorna- no áudio de uma partida de futebol
lismo deve prestar contas, não ao anun- transmitida por uma equipe jornalís-
ciante ou às medições de audiência. As tica. A alteração de um fato da reali-
distorções deliberadas são mentiras dade (como os gritos de uma torcida)
conscientes, e têm uma origem estrutu- não justifica a fome do lucro e da au-
ral no Brasil: o regime de propriedade diência.
dos meios de comunicação de massa,
especialmente dos meios eletrônicos. Bibliografia
Embora a legislação brasileira proíba
que se formem monopólios ou oligo- ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação
pólios com os meios de comunicação, na grande imprensa. São Paulo: Fundação Per-
seu Abramo, 2003.
o que se vê na prática é o contrário. Só
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa.
um grupo domina a maior emissora de São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
TV, o maior jornal diário, a maior emis- FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALIS-
sora de rádio, etc. Deste modo, explica TAS. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros
de 2007. Disponível no site da Fenaj: www.fenaj.
Bucci (2000, p. 138), “o grupo que exer- org.br
ce o monopólio fala sozinho no espaço MEZZAROBA, Cristiano. UNIVERSIDADE
público, sem sofrer contestações e sem FEDERAL DE SANTA CATARINA Programa
de Pós-Graduação em Educação Física. Os jo-
conhecer competidores econômicos, o gos pan-americanos Rio/2007 e o agendamento
que gera um ambiente propício para as midiático-esportivo: um estudo de recepção com
escolares. Florianópolis, 2008.
distorções deliberadas de informação”.
12 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Suicídio
notícia
como
P
ouco se fala sobre suicídio na
imprensa, e o mesmo ocorre no
cotidiano, comenta Arthur Da-
pieve ao comentar seu estudo sobre o
assunto, o livro Morreu na contramão.
A questão é delicada, e, com isso em
mente, os repórteres Marcelo Ferla,
Eliane Brum e Marina Bessa decidiram
contar a história de Vinícius Gageiro
Marques, o Yoñlu. Descrever ou não
como o garoto escolheu pôr fim à vida,
elogiar seu talento, revelar detalhes, to-
mar posição contra? Os bastidores das
reportagens feitas para Rolling Stone,
Época e Capricho, respectivamente, es-
tão nas próximas páginas.
Um garoto incomum na mídia
reportagem
Por Fernanda Dutra
Rolling Stone, Época e Capricho
retrataram a vida e o suicídio de
Vinícius, Yoñlu na música.
V
inícius Gageiro Marques tinha rativa do suicídio de Vinícius, mas não
uma história que o jornalista escolhi contá-la. Fiz o perfil de um ga-
Marcelo Ferla não queria con- roto músico, e o que o levou a compor
tar. Aos 16 anos, o menino se suicidou, aquelas canções. Claro que isso passa
em julho de 2006, deixando uma cente- pela depressão e o suicídio, mas não é o
na de músicas sob foco”, explica Ferla.
o pseudônimo O mundo onde
Yoñlu. A pauta Yoñlu era reco-
era sugestão do nhecido, a inter-
repórter Alex An- net, foi um campo
tunes da revista de pesquisa para
Rolling Stone, mas Ferla. “A internet
Ferla temia que o era como ele se
adolescente fosse comunicava com
o estereótipo do o mundo, mas
garoto de preto. não quis tomá-lo
“A música dele como exemplo de
desfez minha adolescentes ví-
idéia inicial. Não timas do mundo
era morbidez, virtual”, diz. Por
sim poesia”, diz. e-mail, conver-
O lançamento do CD Yoñlu foi o gancho para
Junto com a retornar a história do suicídio de Vinícius, sou com amigos
morto em julho de 2006
carta de suicídio, virtuais e parcei-
Vinícius deixou ros de trabalho
um CD com algumas músicas suas. O da Europa. Seguiu os posts e comen-
pai Luiz Marques descobriu muitas tários do garoto nos fóruns de música
delas no computador do adolescente e e de suicídio.
A reportagem de sete páginas, Can-
a vontade de perpetuar a obra do filho
o levou a uma gravadora e a uma dis- ções para viver mais, saiu na edição de
tribuidora independente. O lançamento março da revista. Contar a vida de Viní-
de Yoñlu, em fevereiro deste ano, foi o cius foi emocionalmente doloroso para
gancho para o caso retornar à mídia. Ferla. “Quanto à família, nada é pior do
A revista Rolling Stone, ligada à mú- que eles já passaram. A privacidade de-
sica e ao entretenimento, parecia um ve- les foi devassada pelo próprio suicídio.
ículo interessante para divulgar Yoñlu. Mas guardei alguns detalhes irrelevan-
Marques mostrou-se disposto desde o tes que poderiam parecer sensaciona-
primeiro contato com Ferla. “Há a nar- listas”, revela o jornalista.
14 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
A
A mãe de Vinícius
repórter da revista Época, de 2007, Thia-
queria denunciar os
Eliane Brum, passava uma go de Arruda,
temporada em sua cidade na- estudante de fóruns virtuais de
tal, Porto Alegre, no inverno de 2006, Educação Fí- suicídios, onde ele
para revisar o que seria seu segundo sica de Ponta encontrara instruções
livro, A vida que ninguém vê - coleção Grossa, no
e apoio para utilizar o
de crônicas-reportagens sobre pessoas Paraná, se sui-
método CO2
anônimas já publicadas no jornal Zero cidou. Ele foi
Hora. Um anônimo, então, se destaca- orientado por
va por encerrar sua vida tragicamente. um internauta anônimo a usar o mes-
Talvez por ser mãe, Eliane se identifi- mo método que Vinícius, após sofrer
cou com a dor dos pais. difamações pelo Orkut. A jornalista
Algum tempo depois, recebeu uma viu sua pauta crescer em importância
ligação da mãe de Vinícius, Ana Maria e interesse público. Tentou Ana Maria
Gageiro. As duas não se conheciam, de novo, mas recebeu uma negativa.
mas tinham contatos em comum. Ana Em Porto Alegre, no começo des-
Maria queria denunciar os fóruns vir- te ano, Eliane leu no jornal Zero Hora
tuais de suicídios, onde o filho encon- que o CD Yoñlu seria lançado. “Liguei
trara instruções e apoio para utilizar o para Ana Maria, expliquei que com
método CO2 – em que são usadas gre- um lançamento nacional eu não po-
lhas de churrasco deria mais esperar”,
para causar intoxi- Eliane apurou a partir do conta. Combinaram
cação por monóxi- inquérito policial. Junto com uma entrevista, mas
ela, duas repórteres bus-
do de carbono. antes de a repórter
Eliane voltaria a caram sites de suicídio do embarcar, a con-
Porto Alegre para mundo inteiro e pessoas que versa foi cancelada.
conversar com Ana conheciam Vinícius Desta vez, o motivo
Maria e Luiz Mar- era o compromisso
com a revista Rolling
ques. Mas pouco
antes recebeu uma ligação do pai cance- Stone. Ainda que, em momento algum,
lando a entrevista, pois o jornal Zero Hora o jornalista Marcelo Ferla tenha pedi-
publicaria a história do filho, o que aba- do exclusividade.
lou a família. Eliane postergou a matéria. Eliane apurou a partir do inquérito
A pedido dos pais, o nome de Viní- policial. Junto com ela, as repórteres
cius foi omitido no jornal do dia 10 de Solange Azevedo e Renata Leal busca-
agosto de 2006. O texto alertava para ram sites de suicídio do mundo intei-
os perigos da internet e transcrevia tre- ro e pessoas que conheciam Vinícius.
chos da conversa do adolescente nos A principal entrevista de sua matéria
fóruns de suicídio onde, no dia de sua é com o psicanalista do adolescente,
morte, ele pede ajuda para suportar o Mário Corso. “Obviamente eu gos-
calor das grelhas. A Época não repercu- taria de ter conversado com os pais e
tiu por respeito aos pais de Vinícius. conhecido o mundo do Vinícius mais
Eliane ocasionalmente perguntava de perto. Esperava há um ano e meio,
se Ana Maria já queria falar. Em março e tive de fazer tudo em uma semana e
SEMANA
REVISTA 15
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
meia, já que o CD estava pronto para uma versão sem explicar como Viní-
o lançamento. Foi um processo pesso- cius se suicidou. “Explicar não é um
al muito difícil para mim”, diz Eliane. estímulo [para outros suicídios], dá
Na edição de 11 de fevereiro da Época, uma sensação ruim – importante para
saiu a reportagem de onze páginas, a matéria fazer sentido”, afirma.
Suicidio.com, um alerta aos pais sobre A reportagem de quatro páginas,
Cartas a Vinícius, publicada na primei-
os perigos da internet.
Na redação da revista adolescente Ca- ra quinzena de março, trouxe o lança-
pricho, era inevitável que o caso ganhasse mento de um blog de apoio à depres-
são no site da revista, o Papo de Amiga.
repercussão. A então editora de compor-
tamento Marina Bessa conversou com lei- A repercussão entre as leitoras foi in-
tensa. Mas, com o tempo, a Capricho
toras sobre depressão e muitas disseram
já ter pensado sobre suicídio. “A idéia era percebeu que a tristeza das adolescen-
passar palavras de conforto às meninas tes era muito diferente da que Vinícius
deprimidas”, conta Marina. sentia. Quilos a mais, briga com ami-
A repórter pediu a dez blogueiras gas ou término de namoro dificilmen-
cartas que lembrassem Vinícius por te levariam ao suicídio, a não ser que
que era bom viver. Três foram publi- existisse um quadro complexo de de-
cadas. Um texto introdutório descre- pressão. O mais recente post do blog
via a morte do garoto. Marina hesitou até o fechamento desta edição tinha o
em contar detalhes e chegou a escrever título “Não sei se transo com ele”.
Trechos das reportagens sobre a morte de Vinícius
No mundo virtual não há nenhuma per-
versão nova, apenas as velhas modalidades
que já assombravam as ruas da realidade.
A diferença é que, na internet, qualquer um
Antes de começar a morrer, pode exercer seu sadismo protegido pelo
Vinícius, um gaúcho de 16 anos, anonimato, na certeza da impunidade. Basi-
deixou ao lado de seu computa- camente, a idéia é: “Se ninguém sabe quem
dor um CD com algumas de suas eu sou, não só posso ser qualquer um, como
músicas. Compor letras e melo- posso fazer qualquer coisa”.
dias era o seu jeito de aliviar a Suicidio.com
dor imensa que sentia. Tão gran-
de, tão forte que, algumas vezes,
tirava a sua vontade de viver. Era
isso que ele dizia nas conversas
que tinha na internet, sempre “Apesar de ter sido uma efetiva interlo-
com o nick de Yoñlu. Foi também cutora musical, Ana [mãe de Vinícius] con-
no mundo virtual que, no auge fessou, antes mesmo de eu ligar o gravador,
do desespero, Yoñlu buscou to- que não consegue ouvir o disco de Yoñlu
das as informações de que preci- – mais no final da entrevista admitiu que
sava. Entre elas, a melhor forma “aquilo ali pra mim é um inferno, né?”, refe-
de morrer. rindo-se ao quarto do garoto, que o marido
Cartas a Vinícius preferiu manter arrumado, como nos velhos
tempos de convivência a três”
Canções para viver mais
16 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Morreu na contramão
resenha
Por Gabriel Rosa
Dapieve analisa o histórico do suicídio na imprensa e discorda da
teoria do contágio de Durkheim, que entende que a divulgação das
mortes resultaria em outras.
A
pós publicar o livro Os sofri-
mentos do jovem Werther, em
1774, o alemão Wolfang Goethe
teve uma triste surpresa: uma onda de
suicídios atingiu a Alemanha, e vários Adaptado da
tese de mestra-
jovens se mataram como o protagonista
do do jornalista,
do livro, atirando com uma pistola na “Morreu na
própria cabeça. Em muitos dos casos, contramão” foi
um exemplar da obra de Goethe era en- editado pela Ed.
Jorge Zahar, tem
contrado ao lado do corpo. A imitação
196 páginas e
foi apelidada, posteriormente, de efeito custa R$ 42
Werther.
Esse é um dos exemplos mais utiliza- o autor mostra que,
dos para explicar o chamado contágio apesar de ser uma pauta evitada pelo
que o suicídio pode causar – tema explo- jornalismo, o suicídio sempre foi visto
rado por Arthur Dapieve, colunista do com curiosidade por aquelas duas áreas.
jornal O Globo e professor da PUC-Rio, O suicídio (1897), de Durkheim, é con-
no livro Morreu na contramão: o suicídio siderado um estudo pioneiro da então
como notícia. “Cópias de tais notícias desprezada área da sociologia, a suici-
[sobre suicídios] são, frequentemente, dologia. Até a publicação da obra, gran-
encontradas ao lado de corpos de outros de parte das abordagens sobre a morte
suicidas”, explica o autor, “do mesmo voluntária era baseada em preconceitos
modo como, no século XVIII, acontecia medievais ou relatos feitos por médicos.
com os exemplares de Werther”. Escrito O suicídio de um casal em 1732, em
como tese de mestrado do jornalista, foi Londres, foi amplamente explorado
adaptado e lançado pela editora Jorge pela imprensa inglesa. Após matar o
Zahar, em 2007. Apesar de ser um texto filho de dois anos, marido e mulher se
acadêmico, o livro é acessível, mesmo enforcaram lado a lado – não sem an-
para pessoas que não têm intimidade tes deixar dinheiro reservado para os
com o jornalismo. As questões são ela- cuidados com um cão e um gato, como
boradas a partir de acontecimentos, tra- explicitado num bilhete. A frieza do ato
tando com realismo um tema delicado é considerada por muitos estudiosos
como o suicídio. do assunto, e também por Dapieve, um
Dapieve procura relacionar a filo- marco na relação entre a imprensa e o
sofia e a sociologia. A partir de Émile tema: deve-se tratar os suicidas como
Durkheim, Karl Marx e Albert Camus, pessoas racionais? A humanização dos
SEMANA
REVISTA 17
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
que optaram a morte voluntária, afinal, criadores da realidade em que se inse-
resenha
pode incentivar novos suicídios? rem, eles têm as mesmas dificuldades de
A solução implícita encontrada pelas tratar do tema”, conclui Dapieve.
redações foi, então, tratar os suicidas da Na política editorial da rede de comu-
mesma maneira que na Idade Média: nicação RBS, por exemplo, aconselha-se
como loucos, fanáticos religiosos ou pes- o seguinte: “As notícias sobre suicídios
soas com problemas amorosos, financei- – a não ser em casos excepcionais – não
ros e familiares. Dapieve mostra, através devem ser divulgadas ou destacadas.
de uma minuciosa análise em notícias (É fato comprovado que a divulgação
do jornal O Globo, como o estereótipo de suicídios estimula a morte de suici-
do suicida enlouquecido foi construído das potenciais)”. Casos excepcionais
através da história da imprensa: o terro- incluem mortes em situações inusitadas
rista islâmico que explode dez pessoas ou de pessoas famosas, como o ex-presi-
não é incluído na contagem de mortos; o dente Getúlio Vargas.
pai que mata os dois
filhos e depois atira
Dapieve mostra como o estereótipo do suicida
em si mesmo é cha-
enlouquecido foi construído pela imprensa.
mado pela impren-
Ao isolar o suicida, bloqueia-se a idéia de que
sa de “colecionador
alguém faria o mesmo.
de armas”; o famoso
estilista carioca que
supostamente se enforca na sacada do É impossível delimitar as ações
apartamento pode ter sido assassinado, do jornalista que precisa lidar com o
ao invés de ter se matado. Ao separar suicídio, já que cada veículo cria suas
os suicidas do resto da sociedade, blo- próprias regras para a cobertura dos
queia-se a idéia de que qualquer pessoa fatos. Mas Dapieve, na conclusão do
poderia fazer o mesmo. livro, recomenda, embasado em um
Dapieve discorda da idéia de contá- artigo da radialista norte-americana
gio: “Ninguém que já não pensasse em Cindi Deutschman-Ruiz: não tratar
se matar vai se matar ao ler ou ouvir o suicida como louco (já que, desde
sobre algum suicídio. Um caso público Durkheim, têm-se provas concretas de
apenas pode servir como gatilho para que a morte voluntária e a loucura não
desencadear processos já latentes”. Mas, estão necessariamente conectadas);
apesar disso, a maioria dos veículos não detalhar os procedimentos utili-
acredita que uma descrição detalhada zados pelo suicida; prezar pela saúde
dos procedimentos usados pelo suici- dos leitores, pois como afirma Deuts-
da possa influenciar outras mortes. As chman-Ruiz, “a cobertura de suicídios
empresas jornalísticas, então, evitam o é uma oportunidade de fornecer ao
tema e abrem mão de divulgar a infor- público informações e recursos que
mação completa, esquivando-se assim podem salvar vidas”; e não dar infor-
de processos judiciais e questões morais mações desnecessárias sobre o morto,
complexas. “Há gente que sequer gosta como sua preferência sexual ou sua
de conversar sobre o assunto. Como os vida familiar, se não forem diretamen-
jornais são muito mais reflexos do que te ligados ao fato.
18 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Cobertura
jornalística
eleitoral
O
jornalismo de declarações
está disseminado na im-
prensa brasileira. A culpa,
segundo Fausto Macedo - repórter de
política do Estadão e convidado para
esta mesa-redonda - é a indústria das
indenizações. O repórter é reprimi-
do com a ameaça de que a matéria o
leve à Justiça e haja perda financeira.
Começar nesse universo de intrigas
e discursos carregados de segundas
intenções é difícil. Que o diga o ex-
aluno do curso Upiara Boschi: tinha
menos de um ano de formado quando
teve que entrevistar os candidatos ao
governo de Santa Catarina.
Sujar os sapatos, sem ilusões
entrevista
por Pedro Santos
C
Valéria Gonçalvez/AE
om 34 anos dedicados
ao jornalismo, Fausto Ma-
cedo não se ilude quando
o assunto é política editorial,
e acredita que a liberdade
de imprensa não é absoluta.
Mesmo assim, há margem de
manobra.
Semana Revista: Vivemos hoje
um jornalismo político mais basea-
do em declarações oficiais do que em
pesquisa, imersão, aprofundamento.
O senhor mesmo disse, em outras
volta das cinco da tarde, pegava os
entrevistas, que são raros os repór-
textos e cortava o que achava que ti-
teres que têm coragem em assumir
nha que cortar. Era a censura do regi-
uma denúncia. Como chegamos a
me que a gente atravessava naquela
esse ponto?
Fausto Macedo: Um dos motivos época. Hoje é o regime empresarial,
é a indústria da indenização. Os pro- uma censura mal-disfarçada. Não há
cessos são realizados não exatamente campo para romantismos, sabe? Para
contra o repórter, mas contra o jornal dizer que a imprensa é absolutamente
para o qual ele trabalha. E isso provo- livre. Não é!
ca um recuo das redações, intimida. É SR: Existe alguma margem de ma-
um dos motivos desse jornalismo de- nobra do repórter para driblar esse in-
claratório. De dez anos para cá essa in- teresse político superior, do patrão?
dústria da indenização se fortaleceu. FM: Tem gente que está tentando
driblar isso aí. Nossa profissão é essen-
SR: Por sua experiência, como o
cialmente social, preocupada em in-
repórter deve lidar quando se depa-
formar. Quando a gente corre atrás de
ra com interesses políticos que nem
uma informação, é um serviço para o
sempre estão explícitos?
FM: A maior parte dos grupos de público, e não um motivo espúrio. Até
comunicação são empresas, têm inte- houve o episódio de uma colega nossa,
da Folha, que fez nada mais nada me-
resses políticos. Nós, repórteres, traba-
lhamos de acordo com a linha editorial nos que dar um furo de reportagem.
defendida pelo jornal. É o interesse Ela publicou, no dia 28 de abril, que
empresarial, diferente da censura que existia uma investigação contra Daniel
exercia a Polícia Federal nos anos 70. Dantas. Para a Polícia Federal, a repor-
Ali, você sabia exatamente que era o tagem foi criminosa. Até nisso a gente
censor que chegava à redação ali por corre o risco de ser enquadrado, por
20 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
um delegado que achou que, ao publi- tipo de neutralidade ou é mais respei-
car a reportagem, havia interesse em to à fonte?
avisar a tal da organização criminosa. FM: Neutralidade. Quando digo
No dia-a-dia, a gente vai tentando dri- que o repórter não deve se apaixonar
blar essa pressão interna, dos veículos; pela fonte é que ele não deve ir com
e externa, que vem das ações. Isso pro- muita sede ao pote. Porque a fonte
voca intimidação nas redações. Mas, também tem interesses.
por outro lado, é bom para que o re- SR: Certa vez o senhor disse que
pórter tome cada vez mais cautela. seus piores momentos profissionais
SR: O senhor acredita que de modo eram quando suas matérias eram en-
geral as pessoas vêem o jornalismo gavetadas inexplicavelmente. Como a
político fora do cotidiano delas e pre- empresa jornalística, como o Estadão,
ferem ler outros cader- influencia na produção das pautas
nos, como o de cultura e para a editoria de Política?
“
FM: É nessa apura-
o esportivo?
FM: Não posso dizer ção do dia-a-dia que
que o jornalismo polí- você esbarra às vezes
Quando a gente
tico seja rejeitado, mas em algum tema que ou
corre atrás de uma
não tem o apego que não é de interesse do
informação, é um
devia ter do leitor. Eles jornal ou porque atinge
serviço para o
preferem mesmo outros alguém das relações da
público, e não um
cadernos, o de Cultura, empresa. Em qualquer
motivo espúrio
de Esportes, o noticiário veículo de comunica-
”
policial, que tem apelo. ção é assim.
Pelo descrédito que vive a política, o SR: Nesses casos,
leitor não se interessa pelo que deveria quando você chega
se interessar. com a matéria pronta e ela é engave-
SR: E como fazer para mostrar para tada: os motivos não são realmente
as pessoas que a política vai além dos inexplicáveis, não é?
FM: Há casos em que logo no come-
anos de eleição, da festa partidária,
ço da apuração você já recebe a orien-
dos presentinhos dos políticos?
FM: É, não pode realmente ficar na- tação do que não interessa para o jor-
quele jornalismo declaratório idiota, nal. O repórter tem que entender que é
de ir ao Congresso pegar a mera de- funcionário da empresa. Nós não temos
claração de político. Tem que buscar essa liberdade que as pessoas de fora do
formas de captar o leitor. E tem de pu- nosso meio imaginam que existe. Ain-
blicar com precauções. Mesmo porque da assim, não podemos ignorar que há
nós não somos juízes, somos repórte- jornais, tevês, rádios e sites que fazem
res. Não temos o direito de julgar nin- um bom trabalho, apesar das amarras,
guém, nem de nos apaixonar por uma das limitações por interesses políticos
fonte ou de odiar um investigado. Não dos patrões. Salvo aí as exceções das
nos cabe fazer juízo de valor. Nos cabe pequenas municipalidades, onde os ve-
apenas informar. ículos locais não têm a autonomia que
SR: O senhor está defendendo um os maiores têm nas capitais.
SEMANA
REVISTA 21
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
A Força Disciplinar no Sensacionalismo
artigo Por Profª. Drª. Mayra Rodrigues Gomes
Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP
V
amos considerar as matérias se sobrepõe a natureza disciplinar, pois
que são rotuladas como sensa- as escolhas são norteadas pelos aconte-
cionalistas sob o viés de alguns cimentos que chamam a atenção, justa-
vetores que constituem a natureza do mente por infringirem ditames sociais.
jornalismo. A confirmação do laço so- O princípio da escolha é de ordem nor-
cial, que faz povo e nação, ao lado da vi- mativa o que a torna instrumento dis-
gilância, que resguarda as democracias, ciplinar.
têm norteado a produção jornalística e Desde a expansão do jornalismo
alimentado o ideário dos que a tomam no século XIX vemos a priorização de
como responsabilidade social. temas hoje rubricados como sensacio-
Ora, tal orientação determina que a nalistas. Por esta época, face ao nasci-
tarefa narrativa do jornalismo se desdo- mento da população (as grandes con-
bre em apontamentos sobre os modos centrações urbanas) e face à instalação
corretos de ser, sobre as atitudes desejá- das Nações (enquanto Estados), há uma
veis em nome do equilíbrio social. política de contenção para que um
Lembrando o pensamento de Mi- e outro se submetam à or-
chel Foucault, pensamos essa con-
dição enquanto função disciplinar.
O número de matérias que cobram
atitudes justas
confirma a dis-
posição discipli-
nar. Nesse caso,
quando falamos
sobre a pauta jornalística em termos dem, para que a primeira se veja refleti-
de acaso, de sedução ou de interesses da na segunda e, assim, conforme-se à
do mercado escamoteamos sua outra administração imposta. Nascem as so-
razão de ser. ciedades disciplinares, movimento que
Na pauta estamos comprometidos, o jornalismo acompanha.
como já nos alertou Pierre Bourdieu,
com duas lógicas que comandam o jor- “Evidentemente por uma moral rigorosa:
nalismo. Por um lado, a lógica do furo, daí esta formidável ofensiva de moralização
que gera a procura da notícia mais que incidiu sobre a população do século XIX
quente, por outro, a do julgamento dos (...) foi absolutamente necessário constituir
pares, uma vez que os próprios jorna- o povo como um sujeito moral, portanto
listas se tornam avaliadores das figuras separando-o da delinqüência, portanto se-
proeminentes em seu meio. parando-o nitidamente do grupo dos de-
Assim posta, a pauta é dimensiona- linqüentes, mostrando-os como perigosos
da por mecanismos internos ao campo não apenas para os ricos, mas também para
do jornalismo. Mas a estes mecanismos os pobres, mostrando-os carregados de to-
22 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
espectadores de jornais televisivos, se
dos os vícios e responsáveis pelos maiores
constrói como resposta à afronta dire-
perigos. Donde o nascimento da literatura
cionada a um dos principais focos, afi-
policial e da importância nos jornais, das
nal, de disciplinaridade.
páginas policiais, das horríveis narrativas de
crimes”
(FOUCAULT, 2001, p. 133) “De modelo, a família vai tornar-se ins-
trumento, e instrumento privilegiado, para
Ora, somos despistados da natureza o governo da população e não modelo qui-
dessas “horríveis narrativas de mérico para o bom governo”
crimes”, no que diz respeito (FOUCAULT, 2001, p. 289)
a sua função social,
quando as reduzi- mos ao Além disso, ao pensarmos a exposi-
vetor do furo, ção da criminalidade, devemos lembrar
ou a um sub- que a própria construção narrativa é
produto da repleta de indicações, organizadas em
sociedade de torno das figuras do vilão e do herói,
espetáculo. que pontificam sobre o bem e o mal.
Como pon- Não faltaram, na história de Isabella, os
to de reflexão, ditames sobre
tomamos o os modos de
recente caso agir dos pais,
do assassinato da polícia, os
da menina Isa- modos da cole-
bella Nardo- ta de testemu-
ni. Todos os veículos se concentraram nhos e provas
na tragédia, explorando os detalhes etc. Em todos
da família e suas conexões. A opinião estes casos,
pública, dizem que por influência das todo o tempo,
mídias, logo se colocou contra o pai e a norma foi
a madrasta. apontada e in-
A televisão foi exímia em mostrar a vocada.
população reunida em ato de protesto, Sob a ótica que expusemos, essas
acusando-os de assassinos e clamando notícias, um tanto espalhafatosas,
por justiça. Esse é o quadro do espetácu- têm uma função de adestramento.
lo, incentivado e explorado pelas mídias. Elas prescrevem sobre certo e errado,
Contudo, é também o quadro em sobre falta e punição, configurando os
que materializam os dispositivos disci- modos de ser, veia mestra dos dispo-
plinares. O povo sai às ruas porque esse sitivos disciplinares.
é um crime que mexe com um dos eixos
sagrados da estrutura social, a saber, a Bibliografia
família. A família, enquanto idéia fon-
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. A influência
te, é depositária de anseios, esperanças, do jornalismo. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1997.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de
idealizações. Janeiro, Edições Graal, 2001.
A reação do povo, tanto quanto dos
SEMANA
REVISTA 23
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Lembranças de um repórter semi-experiente
crônica
Upiara Boschi, ex-aluno do curso de jornalismo da UFSC, há dois anos
era foca, hoje é quem está há mais tempo na editoria de política do
jornal A Notícia
À minha frente, os oito candidatos a el Dias – justo um dos que ele não tinha
governador de Santa Catarina. Ao lado, preparado nada. Lembro vagamente da
os 16 vereadores e o prefeito de Floria- pergunta que fiz, só de que gaguejei mui-
nópolis, além de outros três jornalistas to e saí vivo. A missão estava cumprida e
convidados. Apertado em uma camisa a matéria sobre a briga de Amin e Berger
que não usava há meses, nervoso e sem impressa no jornal do dia seguinte.
ter certeza sobre o que perguntar, eu Naqueles primeiros dias, qualquer
praticamente fazia a minha estréia na posse de secretario em São José me tirava
cobertura de política do jornal. o sono. Se tivesse que falar com deputado
Não fazia um mês que o editor me cha- ou prefeito, ficava nervoso. Aí, olhava para
mou para conversar sobre a vaga que esta- a colega mais experiente e pedia o telefone
va aberta, na editoria de política. “Se você do assessor. Ela respondia com a frase que
não se adaptar, a gente pode tentar rema- eu passaria a dizer tempos depois para
nejar mais para frente”, disse. Eu tinha uma quem fazia pedidos semelhantes. “Liga
pequena passagem pela editoria de geral e direto pra ele, o telefone é tal”. Ligar direto
uns cinco meses de esporte no meu currí- pro deputado? Calma, eu sou novo aqui,
culo de jornalista iniciante e via a política dava vontade de dizer.
como um lugar em que chegaria quando Pouco tempo depois eu acabei pro-
tivesse mais experiência. Foi desnecessário. movido para a cobertura estadual -
Poucas vezes me senti tão foca quanto tchau, São José! - e recebia na redação o
naquela noite em que a Câmara de Vere- governador reeleito Luiz Henrique da
adores promoveu o debate com os candi- Silveira, em entrevista exclusiva após a
datos ao governo estadual. Acabei sendo vitória. A outra repórter estava de férias
escolhido para representar o jornal naquele e a “missão” caiu no meu colo. Assim,
evento – que foi transmitido pelo canal de 2006 foi o ano em que comecei desem-
TV da instituição. pregado e sem experiência profissional e
Quem assistiu, certamente lembra que o acabei entrevistando o governador.
debate foi morno até que um jornalista (não Dois anos depois, a diferença é que
eu) perguntasse algo que resultou em troca agora sou o repórter mais antigo da
de farpas entre o ex-governador e o prefeito editoria. Não vejo vantagem ou mérito
Dário Berger, que assistia ao debate ao lado nisso, sinto muita falta daquela colega
de seu então líder de governo, vereador Ju- a quem eu perguntava muito mais do
arez Silveira. As farpas se transformaram que o telefone do assessor – e ela sem-
em bate-boca, que acabou com os dois re- pre sabia o que responder. Infelizmen-
gistrando boletins de ocorrência. te, é a tendência: redações cheias de
Ninguém vai lembrar do repórter gente jovem ligando diariamente para
de nome estranho, sorteado para fazer os mais experientes, os assessores. Isso
uma pergunta para o candidato Mano- explica muita coisa.
24 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Limites do
jornalismo
investigativo
A
partir da experiência profis-
sional e do conhecimento de
casos históricos, os convida-
dos discutirão algumas questões acer-
ca dos limites do jornalismo investiga-
tivo. Qual a fronteira entre o papel do
jornalista investigativo e do Estado?
Até que ponto a ética profissional limi-
ta o investigador? A que meios pode o
jornalista recorrer para perseguir os
objetivos da pauta? A mesa abordará
também temas como a coerção social e
jurídica a que são submetidos alguns
profissionais, as técnicas e instrumen-
tos do jornalista investigativo, a rela-
ção com as fontes, o off, a segurança
do repórter durante a apuração, os
acordos e parcerias, etc.
Olho de repórter e coração de mãe
perfil Por Adriana Seguro
A
ditadura não acabou para Roger Rodríguez. Sua considera-
ção pelas famílias que sofreram, o desejo de encontrar a ver-
dade e o faro para a sujeira o levam a vasculhar uma época
que muitos preferem esquecer.
Como bom investigador, ele quer por quais irracionalidades as vítimas fo-
preencher todas as lacunas de infor- ram escolhidas. Isso me permite chegar a
mação. Quando interrogado, fornece importantes conclusões que derrubam as
respostas completas, talvez como ele histórias oficiais, criadas pela própria di-
gostaria que suas fontes lhe dessem. Na tadura e pelos governos permissivos que
entrevista por e-mail, perguntado sobre a sucederam.”
sua idade, responde: “Tenho 48 anos, No último dia 13 de agosto, Rodrí-
estou casado há 30 com minha compa- guez compareceu a um Tribunal de
nheira Sara, tenho três filhos (Natalia, Apelação, para responder em segunda
de 27, Sebastian, de 26 e Virginia, de 15) instância a um processo de difamação e
e um neto de um ano e meio chamado injúria, no qual o juiz lhe havia sido favo-
Renzo.” Juan Roger Rodríguez Chana- rável em março. A história começou em
dari é jornalista há 30 anos e repórter do 30 de novembro de 2007, no julgamento
jornal La República desde 2001. do general Gregório “Goyo” Alvarez. O
Rodríguez tem um histórico de resis- repressor Iván Paulós era testemunha e
tência e se sente honrado por ser o últi- aparecia pela primeira vez ante a justiça.
mo processado e o primeiro anistiado Paulós veio acompanhado de dois guar-
pela justiça militar da ditadura uruguaia da-costas. Um era o coronel Eduardo
(1973-1985). Ele ficou preso durante três Ferro, que seqüestrou a ativista uruguaia
semanas em 1984 por denunciar, no se- Lilian Celiberti e o estudante Universin-
manal La Voz, maus tratos às presas do Rodríguez em Porto Alegre, em 1978.
políticas do país. O outro poderia se passar por um desco-
Como sanções às
“Hoje, como na- nhecido, se não fosse a observação aguça-
descobertas que quela época, in- da de Rodríguez.
publicou, além de ser vestigo as viola- O anônimo levava uma arma embai-
preso, Rodríguez foi ções aos direitos xo do casaco, flagrada por um fotógrafo
ameaçado diversas humanos, por do La República. “Comecei a investigar
vezes, sem contar os que entendo que quem era e pude confirmar que tinha um
não é passado, e passado obscuro”, afirma o jornalista. O
processos.
sim presente. Os major aposentado Enrique Mangini ha-
desaparecidos seguem desaparecidos a via sido, quando estudante, integrante
cada dia. O delito continua sendo cometi- de um grupo de ultradireita, o Juventud
do e não pode haver futuro se não se sabe Uruguaya de Pie (JUP). Tinha participado
a verdade do que ocorreu e ocorre.” Há da invasão a uma escola em 11 de agosto
25 anos, o jornalista pesquisa como foi o de 1972, que terminou no assassinato do
processo repressivo uruguaio. “Analiso estudante Santiago Rodríguez Muela. A
26 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
denúncia foi publicada no diário e Man- de vida. Somente em 2002, como resul-
gini indiciou Rodríguez. O jornalista saiu tado paralelo da investigação de mais de
novamente ileso da última apelação. um ano que Rodríguez fazia para a revis-
Como sanções às descobertas que ta Posdata, aconteceu o reencontro. Pelo
publicou, além da prisão, Rodríguez foi trabalho, recebeu o XIX Prêmio Direitos
ameaçado diversas vezes, sem contar os Humanos de Jornalismo, do Movimento
processos. “Não as considero de Justiça e Direitos Humanos, organiza-
penalidades, e sim condecora- ção não governamental de Porto Alegre.
“
ções. Meu único sofrimento é Entre outras coisas, o jornalista também
o fato de não se saber toda a denunciou o “segun-
Hoje, como naquela
verdade. Minha pena é que do vôo”, um traslado
época (da ditadura
haja mães que morram sem clandestino de opo-
uruguaia), investigo
saber onde estavam seus sitores seqüestrados
as violações aos
filhos e filhos sem saber o na Argentina para o
que aconteceu com seus Uruguai, onde eram
direitos humanos,
pais. Estou convencido de executados. A desco-
porque entendo que
que encontrar a verdade é
não é passado, e sim berta do vôo secreto
parte da cura dessas penas. permitiu ainda revelar
presente.
”
E isso, trato de ajudar a fa- a existência de uma
zer.” prisão clandestina na
Rodríguez conta que a situação mais província de Córdoba,
difícil que já enfrentou em trabalho foi na Argentina, conhecida
manter, durante seis meses, uma relação como Valparaíso.
profissional com um repressor argenti- Outro furo do repórter, que envolve
no, que aceitou ser seu informante. “Por o Brasil, foi sobre o assassinato do ex-
muito tempo, ele jogou comigo um jogo presidente João Goulart (1961-1964). Em
cruel pelo qual só respondia às pergun- 2002, ele publicou no La Republica uma
tas ‘corretas’, mas não me ajudava com as entrevista com o ex-agente secreto do
dúvidas. Foi desgastante. Até que um dia Uruguai Mario Barreiro Neira, realiza-
eu lhe disse: ‘O que eu quero, você tira da num presídio de segurança máxima
de mim só com cinco minutos de cho- perto de Porto Alegre, que levantaram
que elétrico, mas faz oito horas que eu suspeitas sobre a morte de João Goulart.
estou falando para que você diga o que Segundo Neira, medicamentos de Jango
eu quero.’ Acho que esse dia ele deixou foram envenenados, quando suspeitou-
de me ver como um inimigo e começou se que ele planejava voltar de surpresa
a colaborar.” O jornalista foi persistente e para o Brasil. Jango morreu dia 6 de
colheu bons frutos. Através dos detalhes dezembro de 1976, na Argentina, oficial-
fornecidos pela fonte, Rodríguez teve mente de ataque cardíaco. No início de
papel fundamental na localização de Si- 2008, a declaração sobre o assassinato foi
món Riquelo, filho da presa política Sara feita em público e reacendeu o interesse
Méndez. da imprensa e da família sobre o caso.
Simón Riquelo estava desaparecido Uma comissão especial procedeu inves-
há 26 anos. O rapaz havia sido tomado tigações que apontaram fortes indícios
das mãos da mãe em 1976, com 22 dias para o assassinato.
SEMANA
revista da
REVISTA 27
semana
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
ONG luta pelo direito de informar
reportagem
Por Marina Veshagem
Conhecida por manifestações e declarações polêmicas, a ONG Re-
pórteres Sem Fronteiras também oferece auxílio a jornalistas que
sofrem repressão
O
site da ONG Repórteres Sem Para a RSF, enquanto o mundo
Fronteiras assim resume o estivesse atento aos Jogos, centenas
motivo de sua criação: “em de jornalistas e blogueiros estariam
alguns países um jornalista pode presos. Em dezembro de 2007, cerca
passar vários anos na prisão, por dos 30 mil jornalistas credenciados
uma palavra ou uma foto. Porque para a cobertura dos jogos foram fi-
aprisionar um jornalista é eliminar chados para identificação dos “falsos
uma testemunha essencial e amea- jornalistas”.
çar o direito de todos à informação. A Repórteres Sem Fronteiras move
Repórteres sem Fronteiras, fundada campanhas no mundo todo pela defe-
em 1985, trabalha diariamente pela sa de jornalistas, escritores, usuários
liberdade de imprensa.” de internet e outros que possam ser
O relatório anual da ONG Anistia vítimas de perseguição pelo exercício
Internacional fez, em 2008, um balan- do direito à expressão. Também se
ço entre o que foi prometido pela De- propõe a lutar para a diminuição da
claração Universal dos Direitos Hu- censura e combater as leis destinadas
manos de 1948 e o que foi cumprido a restringir a liberdade de imprensa,
até agora. Uma das conclusões a que assistir jornalistas ou meios de comu-
chegou a organização é que, 60 anos nicação em dificuldades (gastos com
depois de a Declaração ter sido adota- advogados, médicos, etc) e as famílias
da pelas Nações Unidas, pessoas não dos repórteres presos, além de traba-
têm direito de se ma-
nifestar livremente em 60 anos após a Declaração Universal dos
Direitos Humanos ter sido adotada, as pes-
pelo menos 77 países.
soas ainda não têm direito de se manifestar
Em outubro de 2007,
livremente em pelo menos 77 países.
a instituição Repórteres
Sem Fronteiras (RSF)
iniciou uma campanha pela liberdade lhar pela melhoria da segurança dos
de imprensa na China inspirada nos jornalistas, principalmente nas zonas
jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. de conflito.
A página inicial do site da organização Há seções nacionais da RSF em
(www.rsf.org) contém referência dire- nove países, o que permite que ela se
ta à reivindicação, que incluiu também estenda pelo mundo. São elas: Ale-
uma petição. A China mantinha pre- manha, Áustria, Bélgica, Canadá, Es-
sos, em outubro, aproximadamente panha, França, Itália, Suécia e Suíça.
100 jornalistas e ativistas pela liberda- A organização é composta por uma
de de imprensa. rede de mais de cento e vinte corres-
28 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
pondentes e trabalha em colaboração no mundo por expressarem-se na in-
com associações locais ou regionais ternet.
de defesa da liberdade de imprensa. O Brasil está na 84ª posição na
A RSF registra os atentados à li- classificação, o que o inclui nos pa-
berdade de imprensa no mundo e, íses com problemas na liberdade de
então, organiza cartas de protestos, imprensa. A colocação se deve ao re-
que são enviadas aos governos, e gistro do assassinato de dois jorna-
comunicados aos meios de comuni- listas brasileiros em 2007: Luiz Car-
cação, como forma de mobilização e los Barbon Filho e Robson Barbosa
informação do pú- Bezerra, sendo
O Brasil é o 84° país na classi-
blico. No site há que o último não
sempre um “barô- ficação dos países com melhor foi tratado como
liberdade de imprensa, o que assassinato liga-
metro” atualizado
preocupa a ONG. A organiza- do à profissão.
sobre os atentados
ção afirma ainda que o país
a jornalistas (ver A organização
ainda não conseguiu acabar
quadro). afirma ainda que
A organização o país ainda não
com agressões nem com as
faz ainda um ba- tentativas de atentado contra a conseguiu acabar
lanço anual da com as agressões
imprensa.
liberdade de im- nem com as ten-
prensa no mundo. Diversas pessoas tativas de atentado contra a impren-
e grupos - como organizações colabo- sa, representadas por medidas de
radoras, correspondentes, jornalistas, censura prévia e garantidas pela Lei
investigadores, juristas ou militantes de Imprensa outorgada em 1967.
dos direitos humanos - respondem A Repórteres sem Fronteiras se
um questionário de cinqüenta per- financia pela venda de álbuns de
guntas. São levantados dados de 169 fotografias, calendários, leilões, do-
nações, as demais não dispõem de ações, colaborações com empresas
informações suficientes. privadas, dentre outros. É registra-
Os 14 primeiros países da classifi- da na França como organização sem
cação de 2007 – com melhores índices fins lucrativos e, em 2005, recebeu
de liberdade de imprensa – são euro- do Parlamento Europeu o Prêmio
peus. Já dentre os últimos 20, apenas Sakharov para a Liberdade de Pen-
um é americano, Cuba, e sete são asi- samento.
áticos. Dentre eles está a China, com
50 - dos 64 - casos de pessoas detidas *Veja o site www.rsf.org para saber mais.
O barômetro de liberdade de imprensa (2008)
18 0 132 7 67
colaboradores cyberdissidentes
jornalistas
jornalistas colaboradores
presos presos
presos
mortos mortos
SEMANA
REVISTA 29
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Os cinco mais do momento
drops
Por Wesley Klimpel
E
sta não é uma lista definitiva dos melhores livros – não acre-
ditamos nisso. Elaborada a partir das dicas de professores e
profissionais, apresenta livros de jornalismo investigativo que
devem ser lidos. Confira.
Instinto de Repórter, Elvi- Narcoditadura, Percival
ra Lobato de Souza - Vencedor
O livro, de 2005, do Prêmio Wladimir
mostra os passos da Herzog
produção de 11 grandes Conta a história do as-
reportagens. sassinato de Tim Lopes,
“É importante por do desenvolvimento do
refletir sobre os limites éticos no traba- crime organizado e da evolução do
lho.” Mauro Silveira. Também indica- jornalismo investigativo no país.
do por Carlos Lins
As garras do Condor, Nil-
Cabeça de turco, Günter son Cesar Mariano
Wallraff Revela os bastidores
Jornalista se passa da operação que abalou
por turco para mostrar o Cone Sul durante as
a discriminação sofri- décadas de 70 e 80.
da pelos imigrantes na “A obra mostra um tra-
Alemanha da década balho investigativo significativo na luta
de 80. contra a violação dos direitos humanos
“O recurso de se disfarçar foi etica- na América Latina.” Mauro Silveira
mente justificável.” Dauro Veras
Leia também:
Jornalismo Investigativo, Jornalismo Investigativo, Leandro Fortes
Dirceu Fernandes Lo- Jornalismo Investigativo, O fato por trás da
pes e José Luiz Proen- notícia, Cleofe M. de Sequeira
ça (org) Todos os Homens do Presidente, Robert
Mestrandos e dou- Woodward e Carl Bernstein
torandos entrevistam Rota 66, Caco Barcellos
vários jornalistas do Os donos do Congresso, Elvis Bonassa/
país, para saber os bastidores e técni- Fernando Rodrigues/Gustavo Krieger
cas de grandes reportagens investiga-
tivas. Participaram na elaboração dessa lista os jorna-
“Traz boas visões, algumas anta- listas Carlos Lins, Dauro Veras, Diane Duque,
gônicas, sobre o tema.” Luis Eblak Luis Eblak, Mauro Silveira e Percival de Souza.
30 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
A pro ssão
espelho
no
D
esde que foi proposta, em
2004, a criação do Conselho
Federal de Jornalismo divide
opiniões. O Conselho teria como fun-
ção “orientar, disciplinar e fiscalizar”
o exercício da profissão e das ativida-
des de jornalismo - inclusive com pos-
sibilidade de cassação dos registros
profissionais. Em 2006, o projeto de lei
que criava o CFJ foi vetado e abriu-se
espaço para debates.
Outra forma de regulamentar a pro-
fissão é a exigência ou não do diplo-
ma de graduação, assunto também
polêmico. A decisão final do Supremo
Tribunal deve sair em breve, mas a
julgar pelo histórico de discussões, o
tema continuará sendo pauta.
A confusão que deixou marcas
reportagem
por Juliana Passos e Juliana Sakae
A
entrada do projeto de em sindicatos, audiências públicas,
lei que cria o Conselho universidades e câmaras municipais
Federal dos Jornalistas, e, em 2002, enviado formalmente ao
em 2004, foi repercutida com Governo Federal.
Após dois anos de espera o projeto
revolta na mídia. Até hoje, a
chegou à Câmara dos Deputados e
questão é mal compreendida
os principais veículos de comunica-
ção do país posicionaram-se contra
As exigências do diploma e de uma a aprovação do projeto. A edição da
atuação profissional e ética no Jorna- revista Veja da semana seguinte trazia
lismo são os pilares da discussão mais na capa: “A tentação autoritária: as in-
antiga da área. De um lado, entidades vestidas do governo do PT para vigiar
e profissionais defendem a criação de e controlar a imprensa, a televisão e a
um órgão fiscaliza- cultura”. Nas pági-
dor – o Conselho nas internas, decla-
Federal dos Jor- rava: “Lula se deixa
nalistas (CFJ) – do enganar por uma
outro, jornalistas e associação de asses-
empresários desa- sores de imprensa
provam a proposta de empresas esta-
em nome da liber- tais que se fazem
dade de expressão. passar por jornalis-
“Qualquer órgão tas e manda para
que represente o Congresso um
ameaça à liberda- projeto de lei que
de de informação, representa o mais
precisa ser rejeita- sério ataque à liber-
do enfaticamente dade de expressão
pela sociedade e no Brasil desde o
A edição de 14/08/2004 trouxe a posição
por seus represen- contrária da revista à criação do CFJ regime militar”.
tantes democráticos”, disse William A Federação Nacional dos Jorna-
Bonner em 2004, em uma entrevista listas (FENAJ), entidade que repre-
para à revista Veja. senta todos os Sindicatos dos Jor-
O projeto de lei para a criação do nalistas do país e responsável pelo
CFJ, baseado na lei que cria a Ordem projeto de lei, respondeu publica-
dos Advogados do Brasil (OAB), foi mente os ataques recebidos: “Muitos
colocado em pauta pela primeira jornalistas e parlamentares não se de-
vez em Florianópolis, no Congres- ram ao trabalho de ler o projeto de lei
so Nacional de Jornalistas, em 1990. enviado ao Legislativo. Lá não consta
O texto foi discutido durante anos nenhum artigo que limite a liberdade
32 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
de imprensa ou institua a censura. Ao sentação do diploma e a obrigatorie-
contrário, propugna-se a garantia da dade do registro das empresas não
liberdade de imprensa e de expres- consta mais no projeto, mas já está
são” (Tendências/Debates: Folha de S. prevista por lei para todas as ativida-
Paulo, 18 de agosto de 2004). des regulamentadas por conselhos de
O debate da criação do CFJ passa fiscalização profissional.
também pela discussão de como se Depois das acaloradas discussões
dará este processo. O jornalista Mau- em torno da criação do CFJ em 2004,
rício Tuffani, ex-editor e redator-che- o debate continua. No dia 27 de julho
“
fe da revista Galileu, cri- deste ano o Ministério do
tica a redação do projeto Trabalho criou um grupo
Ser contra o CFJ
de lei: “Ser contra o CFJ de estudos para discutir a
não significa necessaria- profissão e viabilizar sua
não significa
mente ser defensor dos necessariamente ser regulamentação. Os nove
barões da mídia nem ser defensor dos barões membros serão represen-
.
contra qualquer tipo de
da mídia nem ser tantes de três categorias,
regulamentação, assim patrões, trabalhadores e
contra qualquer tipo funcionários do Ministé-
como ser a favor dessa
proposta não implica ser de regulamentação rio do Trabalho e Empre-
”
teleguiado dos minis- go, e deverão entregar um
tros José Dirceu ou Luiz relatório até outubro.
Gushiken”. Além da criação do Conselho, será
No mesmo ano que entrou na Câ- julgado neste ano no Supremo Tri-
mara o projeto sofreu alterações, rea- bunal Federal a obrigatoriedade do
lizadas não só pela FENAJ como pelos diploma (leia mais na página 35) e a
relatores do projeto. A idéia inicial da reformulação ou anulação da Lei de
Federação de vincular a emissão do Imprensa.
registro profissional – que deixaria de
ser função do Ministério do Trabalho Leia mais:
e ficaria a cargo do Conselho – a apre- www.semanadojornalismo.ufsc.br
Qual o papel de um conselho? da de revistas, refrigerantes e balas
e obrigando a permanência de um
Considerada uma autarquia fede- farmacêutico em todo período de
ral, os conselhos tëm como função funcionamento.
defender os direitos não apenas da > Conselho de Engenharia, Arquite-
categoria, mas principalmente da tura e Agronomia: fiscaliza as cons-
sociedade em relação aos profissio- truções e interdita os locais quando
nais. Conheça o papel dos conselhos existe risco à população.
de outras áreas: > Conselho de Medicina: caça o re-
gistro do médico que não age de
> Conselho de Farmácia: defende acordo com o Código de Ética da
que a farmácia não seja um esta- profissão, como acontece quando
belecimento comercial, mas que dê profissionais do SUS cobram por
prioridade à saúde, proibindo a ven- atendimento.
SEMANA
REVISTA 33
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Diploma, esse desconhecido
reportagem
por Marina Ferraz
A
guerra da obrigatoriedade dação Cásper Líbero, em São Paulo,
em 1947 – os profissionais se forma-
ou não da graduação em
vam dentro das redações. Em 1969, foi
Jornalismo parece não ter
criada a primeira lei de regulamenta-
fim. E os profissionais das reda-
ção da profissão. Dez anos depois, em
ções não cansam de lutar.
março de 1979, o decreto foi revisto e
O diploma para o exercício da pro- aprimorado.
fissão de jornalista deixou de ser obri- A nova versão, o decreto nº 83.284,
gatório no Brasil entre outubro de 2001 propõe que “o exercício da profissão
e 2005. Com isso, a discussão sobre a de jornalista requer prévio registro no
necessidade de formação superior órgão regional do Ministério do Traba-
para trabalhar na área tornou-se as- lho”, para o qual o diploma é exigido.
sunto polêmico. Em grande parte dos Além da obrigatoriedade de formação
países europeus não é obrigatório um superior, é também através desse texto
diploma em jornalismo para exercer que as funções exercidas pelo jornalis-
o ofício. Porém em todos existe uma ta foram definidas – redator, noticiaris-
regulamentação e alguma maneira de ta, repórter, rádio repórter, repórter de
selecionar quem poderá gerar conteú- setor, arquivista-pesquisador, revisor,
do para os veículos de comunicação. ilustrador, repórter fotográfico, repór-
As primeiras publicações surgiram ter cinematográfico e diagramador.
no Brasil com a vinda Em 2001, a juíza Carla Rister expe-
da corte portuguesa diu uma liminar, na qual extinguiu a
para o país, em 1808. obrigatoriedade de formação superior
O jornal que surgiu para o exercício da profissão. Em 2005,
era considerado ofi- a decisão foi revogada e o diploma
cioso, ou seja, tratava voltou a ser obrigatório. A votação de-
de assuntos de inte- finitiva deve acontecer ainda este ano.
resse da família real.
Com a República, o
jornalismo deixou
de ser artesanal e
se profissionali-
zou. O número
de publicações
aumentou e se
segmentou.
Até a cria-
ção da primeira
faculdade de
Jornalismo do
Brasil – a Fun-
SEMANA
34 REVISTA
O diploma pelo mundo
//
Assim como o Brasil, muitos países regulamentaram o ofício apenas no sécu-
lo XX. O Conselho Europeu de Deontologia do Jornalismo estipulou em 1993
que os pro ssionais da área devem ter uma formação adequada - Essa
ção varia de país para país, podendo ser horas de trabalho ou cursos.
Itália: não há
Bélgica: o diploma
obrigatoriedade de
formação superior mas é não é obrigatório
necessário o registro na mas existem
ordem dos jornalistas. vantagens salariais
para os diplomados.
Espanha: as regras no país
Dinamarca: o
são ter nacionalidade espanhola,
inscrição no registro de acesso ao ofício
jornalistas, diploma em ciências é condicionado à
da informação ou experiência licença emitida pelo
profissional entre dois e cinco sindicato nacional
anos. dos jornalistas.
Alemanha: regulamentada França: não há
por meio do reconhecimento obrigatoriedade de
das empresas jornalísticas e qualquer formação
das organizações profissionais, superior.
por um período de aprendizado
prático de 18 a 24 meses.
Argentina: para trabalhar
como jornalista não é necessário
Grã-Bretanha: é diploma universitário em
necessário um estágio nenhuma área, basta provar que
em empresa jornalística se atua na profissão.
ou curso preparatório
do Conselho Nacional de
Chile: não é necessário
Treinamento de Jornalistas.
estar ligado a nenhum
órgão de imprensa para
Grécia: no país, exercer o Jornalismo nem ter
existem duas opções diploma universitário para
diploma em Jornalismo desempenhar a função.
ou experiência de três
anos na área.
SEMANA
REVISTA 35
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
O não-sensacionalismo de Veja
artigo Por Lívia Andrade
A
rência e, na verdade, vende-se aquilo que a
revista Veja é a publicação informação interna não irá desenvolver me-
semanal de maior circulação lhor do que a manchete. (...) O jornalismo
no país e possui um caráter sensacionalista extrai do fato, da notícia, a
de legitimidade e veracidade. Em seu sua carga emotiva e apelativa e a enaltece.
discurso, porém, encontram-se fato- Fabrica uma nova notícia que a partir daí
res considerados de jornalismo sen- passa a se vender por si mesma”
sacionalista. No entanto, Veja não se (Marcondes Filho apud Angrimani,
assume como tal e, para isso, constrói 1995, p. 15)
suas reportagens sob as prescrições
jornalísticas. O artigo pretende revelar Um dos pontos altos do discurso
pontos sensacionalistas encontrados sensacionalista é a sua narrativa. O
no discurso de Veja e como a mesma relato transporta o leitor, é como “se
se posiciona no jornalismo brasileiro ele estivesse lá, junto ao estuprador, ao as-
como publicação séria, verdadeira e sassino, ao macumbeiro, ao seqüestrador,
confiável, analisando uma reportagem sentindo as mesmas emoções” (Pedroso
sobre o caso Isabella Nardoni. apud Angrimani, 1995). É preciso nar-
O conceito de sensacionalismo pode rar a notícia em tom dramático, dar
ser definido como: detalhes, voz à testemunha e princi-
palmente à vítima ou parente desta. A
linguagem utilizada não admite neu-
“Modo de produção discursivo da in-
tralidade ou distanciamento. É uma
formação da atualidade, processado por
linguagem mais coloquial, clichê, que
critérios de intensificação e exagero gráfico,
faz com que o leitor se entregue às
temático, lingüístico e semântico, contendo
emoções.
em si valores e elementos desproporcionais,
destacados, acrescentados ou subtraídos no
contexto de representação ou reprodução “A linguagem editorial precisa ser cho-
de real social” cante e causar impacto. O sensacionalismo
(Pedroso apud Angrimani, 1995, p. não admite moderação”
14) (Angrimani, 1995, p. 40)
O termo vem de “provocar sensa- A violência é um tema recorrente
ção”, através da abordagem do tema, tanto em jornais considerados sérios
seja pelo texto, foto, ilustrações. Logo, quanto aos sensacionalistas. A repor-
a mesma notícia pode ser sensaciona- tagem estudada traz morte e violência,
lista ou não, dependendo do modo assuntos comuns em veículos sensa-
de produção e veículo que a publica. cionalistas. Esses temas atraem leitores
Marcondes Filho descreve a prática independentemente do nível cultural
sensacionalista como: ou econômico (Angrimani, 1995). O
que difere os jornais sensacionalistas é
a valorização do assunto, já que o veí-
“o grau mais radical da mercantilização
culo sensacionalista coloca uma “lente
da informação: tudo o que se vende é apa-
36 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
de aumento” sobre o fato (Angrimani, rados sensacionalistas podem ter algu-
1995). mas vezes na sua produção momentos
A cobertura da violên- de sensacionalismo.
cia na mídia Os veículos tentam se afas-
nacional tar dessa
apresenta denomi-
problemas de nação
informação, pelo fato
ao tratar sus- de que os
peitos como leitores
condenados e associam
apresentar bo- o termo
letins de ocor- a fato-
rências como res como
sentenças judi- erro de
ciais (Agência de apuração,
Notícias dos Di- distorção,
reitos da Infância, deturpação,
2001). O atual jor- O caso Isabella ganhou capa da Veja duas editorial
nalismo não con- vezes: em 9/04 e duas semanas depois, agressivo, en-
não com destaque em 23/04
textualiza, tre outros, que,
explica; limita-se para Angrimani,
a entrevistar testemunhas e narrar os são acontecimentos isolados que po-
atos de violência (ANDI, 2001). dem ocorrer também dentro de jornais
Luís Nassif escreveu sobre o pro- informativos comuns. Por causa dessa
blema do timing ao entrar e sair de as- associação, a publicação considerada
suntos polêmicos: sensacionalista é coloca à margem,
afastada da mídia “séria” (Angrimani,
“O primeiro a avançar um pouco mais, 1995).
Em 23 de abril de 2008, Veja publi-
mesmo que não haja elementos consis-
cou uma reportagem especial de capa
tentes para comprovar a acusação, faz o
sobre a morte de Isabella Nardoni,
alarde para firmar a posição de pioneiris-
ocorrida três semanas antes. Naquela
mo, caso as acusações tenham fundamento.
Depois, quando as acusações começam a se semana, o pai e da madrasta da meni-
na haviam sido indiciados. Na capa,
dissolver, há uma resistência em se render
foi publicada uma foto do casal, na
aos fatos”
(Nassif apud Benette, 2002, p. 71) qual apenas parte dos rostos aparece
em meio ao escuro, foto comum tirada
Angrimani (1995) descreve que o de criminosos dentro do carro de polí-
sensacionalismo pode ser visto como cia. Para completar o ar de bandidos,
uma forma diferente de passar infor- a manchete é dada em fonte chamati-
mação, como uma opção de estratégia va: “Foram eles”. A revista coloca uma
usada pelos meios de comunicação. linha fina em cima da manchete, em
Assim, mesmo veículos não conside- letras amarelas, em uma fonte muito
SEMANA
REVISTA 37
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
artigo
menor: “Para a polícia, não há mais ta, assume a publicação como aquela
dúvidas sobre a morte de Isabella”. que dá a verdade última sobre tudo.
Hernandes afirma que Veja transfor-
A reportagem especial em oito pá-
ginas recebe como título dois adjetivos ma o problema de ser a última mídia a
nada imparciais: “Frios e Dissimula- noticiar a seu favor, já que assim pode
dos”. Dessa vez a conclusão é a opinião dar a última verdade, julgando o que é
clara da revista. O texto traz informa- verdade e o que é mentira.
ções sobre acontecimentos na família E de onde vem essa legitimidade
atribuída a Veja? Uma das estratégias
horas antes do crime. É seguido de um
relato da vida do pai e da madrasta, é o uso de fontes oficiais para justificar
bem com sua relação, fazendo juízo de as suas teses. A impressão que o leitor
valor dos dois personagens através da fica é que a revista ouviu tantas pesso-
voz de amigos e parentes não identifi- as, e dessas, tantos especialistas, que o
cados no texto. A reportagem aborda que ela diz só pode ser verdade. Mui-
ainda a avó materna e a mãe da meni- tos leitores não percebem que, muitas
na, através de relatos de amigos tam- vezes, as fontes defendem o mesmo
bém não identificados, narrados com ponto de vista, por mais numerosas
forte teor sentimental, além de fotos que sejam. Na reportagem analisada, a
e uma ilustração dos fatos descritos tese é que o pai e a madrasta mataram
naquela noite. Apenas no último pará- Isabella, mesmo antes de isso ser jul-
grafo a reportagem explica que agora a gado pela Justiça. Para isso, a repórter
polícia pode pedir a prisão preventiva coloca na boca de policiais os fatos afir-
e que o casal deverá ser julgado. mados como verdades finais. “A polí-
Ao contrário de veículos vistos cia está convencida de que Alexandre
como sensacionalistas, a revista apre Nardoni e Anna Carolina Jatobá com-
senta alguns pontos em sua linha edi- binaram jogar Isabella pela janela...”.
torial que a caracterizam como fonte Outro fator que dá credibilidade ao
fiel à verdade, mesmo que a revista discurso da revista é o caráter explica-
assuma sua linha opinativa. Para isso, tivo que o veículo possui em seus tex-
a revista de maior circulação nacional tos, como se esses não fossem abertos
se mostra como “uma instituição que está à discussão ou interpretação.
O texto analisado traz a linguagem
autorizada a falar, porque é detentora de
um poder legitimado pelo seu status” (Au- como a de um jornal sensacionalista.
gusti, 2005, p. 80). Nilton Hernandes As frases e termos são recheados de
afirma que Veja tem adjetivos, figuras de linguagem e ou-
uma ideologia e tros elementos que “mostram, a todo
“vai construir o o momento, a opinião do jornalista”
real em função (Augusti, 2005). A narrativa procu-
dessa ideolo- ra envolver o leitor, levá-lo ao crime
gia, e não o num tom dramático e assume um tom
contrário”. sentimental ao tratar da mãe e avó da
O dono da vítima. O título da matéria traz apenas
revista, Ro- dois adjetivos: “Frios e Dissimulados”.
berto Civi- A linha-fina confirma a tese a ser de-
38 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
fendida: “Pai e madrasta mataram e ataques críticos. Encaixada den-
Isabella, numa seqüência de agressões tro dos conceitos jornalísticos, ela
que começou ainda no carro, conclui a se mostra verdadeira ao leitor “for-
polícia”. Ao longo do texto são cons- mador de opinião” do país. Foi aqui
tatados termos como “tranqüilos, fi- mostrado que para repercutir do
lhinho de papai, esquentada, relação jeito que o faz, a publicação faz uso
tumultuada, família harmoniosa, pro- de diversos elementos presentes no
vavelmente aterrorizadas”, “espetácu- jornalismo sensacionalista.
lo de frieza e dissimulação”, etc. O erro do sensacionalismo é o exa-
A publicação utiliza-se de formas gero e a condução do leitor à conclusão
opinativas, mas apresenta-se sob as de algo que não é real. Na reportagem
prescrições jornalísticas (Nascimen- analisada, recursos sensacionalistas
to, 2002). Para isso, usa a impessoali- fazem o leitor concluir a tese defen-
dida por Veja: o pai e a madrasta da
dade da terceira pessoa (“Não se sabe
ainda o que motivou o crime...”); menina são culpados, mesmo antes
fontes oficiais (“Pai e madrasta ma- de um julgamento.
taram Isabella, numa seqüência de
agressões que começou ainda no
carro, conclui a polícia”); e coloca as Bibliografia
acusações na boca das fontes na nar- AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DOS DIREITOS DA
INFÂNCIA. Balas perdidas: um olhar sobre o com-
rativa (“Em determinado momento, portamento da imprensa brasileira quando a criança
como disseram à polícia testemunhas e o adolescente estão na pauta da violência. Brasília:
ANDI, 2001.
presentes à festa, a menina fez algo
ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue:
que enfureceu o pai”). um estudo do sensacionalismo na imprensa. São
Apenas no último parágrafo da re- Paulo: Summus, 1995.
portagem, Veja esclarece que os sus- AUGUSTI, Alexandre. Jornalismo e comporta-
mento: os valores presentes no discurso da revista
peitos ainda não foram condenados: Veja. Dissertação – UFRGS – Programa de Pós-Gra-
“A polícia tenciona pedir a prisão pre- duação em Comunicação e Informação. Porto Ale-
gre, 2005.
ventiva de Nardoni e Anna Carolina.
BENETTE, Djalma Luiz. Em branco não sai: um
Se condenados ao final do processo...” olhar semiótico sobre o jornal impresso diário. São
Faz parte da tradição das revistas Paulo: Códex, 2002
nacionais terminar suas reportagens BUENO, Marina. Leituras de Veja. Observatório
de Imprensa, Seção Aspas. Disponível em http://
com a opinião do jornalista (Augusti, www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/
2005). Logo, o texto transcorre entre asp080520026.htm. Acesso em 07/07/2008.
informações concretas e teses defendi- CASTILHO, Carlos. Quem tem medo da lei-
tura crítica? Observatório de Imprensa, seção
das pela revista. “Nessa transposição Código Aberto. Disponível em: http://observa-
de linguagem é que pode ocorrer o torio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_
blog=2&id={04164B36-5C80-4F4C-A1F5-612EC37BA
sensacionalismo” (Angrimani, 1995, p. B95}&data=200701. Acesso em 07/07/2008.
41) O leitor precisa ter espírito crítico LINHARES, Juliana. Frios e Dissimulados. Veja,
para saber quando se passa da lingua- São Paulo: Abril, ano 41, n. 2057, p. 84-91, 23 de abril,
2008.
gem objetiva para a sensacionalista,
NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em
devendo estar atento às intenções dis- revistas no Brasil: um estudo das construções discur-
cursivas presentes na notícia. sivas em Veja e Manchete. São Paulo: Annablume,
2002.
Veja é fonte de diversas pesquisas
SEMANA
REVISTA 39
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
CFJ em pauta no curso da UFSC
opinião Felipe Seffrin
Mauro Cesar Silveira
recém-formado em
professor-doutor em História Jornalismo na UFSC
Desde que seja assegurada sua indepen- O CFJ pode fortalecer e
dência, sobretudo em relação ao poder po- qualificar os jornalistas
lítico do país, a criação do CFJ é mais do e, ao mesmo tempo, va-
que necessária. Como em relação a outras lorizar o jornalismo pe-
profissões, a sociedade precisa contar com rante a sociedade, já que
mecanismos efetivos para a responsabi- as suas principais pro-
lização dos maus profissionais, indepen- postas são ter a respon-
dentemente da possibilidade de recurso à sabilidade de expedição
Justiça. O Código de Ética dos jornalistas de registros profissionais
brasileiros apresenta um texto que con- (hoje em dia tarefa do
templa as questões mais relevantes do Ministério do Trabalho) e
exercício profissional, mas se depara com a elaboração e aplicação
um obstáculo grande - sua inaplicabilidade de um Código de Ética.
para muitos casos. O fato de atingir apenas Porém, acredito que a
os jornalistas filiados aos sindicatos, com criação só será válida se
a penalidade máxima de exclusão da en- realmente houver uma
tidade para os transgressores condenados, ampla discussão sobre o
deixa de fora muito jornalista antiético, que tema nas universidades
nem tem interesse em se filiar no órgão de e empresas jornalísticas,
representação da categoria. se ele tiver total isenção
financeira e se for uma
entidade independente e
Maria José Baldessar apartidária.
professora-doutora em Ciências da Co-
municação
Francisco Karam
Nós, jornalistas, não podemos fiscalizar o
professor-doutor em Comunicação
exercício profissional – e não só o exercício ir-
e Semiótica
regular mas o bom exercício, o exercício ético.
,
Ainda hoje o registro profissional dos
Legislar acerca da profissão não resulta em
jornalistas é concedido pelo governo,
censura, resulta numa jornalismo melhor .
minha opinião é a de que os jornalis-
tas, por meio de um Conselho, devem
fornecer o registro. As discussões e
Eduardo Meditsch
possíveis abusos no exercício profis-
professor-doutor em Comunicação sional passariam para comissões de
A legitimação de uma profissão só ocorre ética vinculadas ao Conselho.
quando ela própria tem o controle sobre
o seu mercado de trabalho, determinan-
do quem pode ou não pode ingressar neste mercado, e quem deve ser
excluído dele porque não tem ética ou comportamento profissional: ou
seja, é quem diz como e por quem a profissão deve ser exercida. É o que
ocorre na Medicina, no Direito, nas Engenharias e até nas Relações Pú-
blicas, algumas das muitas profissões que já tem os seus Conselhos. No
Jornalismo, as empresas pressionam contra o Conselho Federal porque
elas querem continuar sozinhas com este controle, que deveria ser dos
profissionais. Felizmente, para os brasileiros, os donos de hospitais, de
planos de saúde e de construtoras não têm o poder que têm os conglo-
merados de mídia. Os conselhos profissionais são um instrumento que a
civilização desenvolveu para limitar o arbítrio do poder econômico.
40 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
REVISTA
Lugar
em
comum
S
air do estilo convencional é
abandonar os pilares éticos?
Fred Melo Paiva, editor do ca-
derno Aliás, do Estadão, e a equipe do
programa CQC, da Band, procuram
outros caminhos para fazer jornalis-
mo – com humor e adjetivos –, têm
respeito dos leitores e da audiência
e dizem sempre se preocupar com a
ética.
Ao biografar alguém, o que se deve
deixar de fora em respeito à pessoa?
Ruy Castro biografou Carmen Miran-
da, Nelson Rodrigues, Garrincha e é
reconhecido como um dos melhores
do gênero no Brasil. Extra, a Semana
Revista traz a opinião do autor sobre
outro gênero popular nos jornais: a
crônica.
Diante de tantos desafios éticos, o
quê é primordial na formação jorna-
lística? Cremilda Medina, professora-
doutora de Comunicação da Universi-
dade de São Paulo, virá à VII Semana
do Jornalismo dar a sua opinião. Por
aqui, você lê o quanto essa discussão
já rendeu entre profissionais e profes-
sores brasileiros.
Eu não sou Cruzeirense, não
perfil
Por Juliana Gomes
Um papo com o jornalista atleticano que
favorece o tipo de texto não encontrado em
outras partes do Estadão
S
onhei que tomava um expresso vadorismo do jornal que o publica.
descafeinado com Fred Melo Aproveitei o encontro inusitado nes-
Paiva em uma daquelas tardes ta tarde para me oferecer a uma vaga
paulistanas sem cor e sem graça. Era qualquer, nos tempos de vaca magra
domingo, dia de publicação do anexo dos jornais impressos, seja no Esta-
mais adverbial do jornalismo tupi- dão, seja em qualquer veículo que ti-
guarani, o Aliás, publicado no Esta- vesse um amigo.
dão. Embora haja controvérsias, Fred
Sentado em uma mesa de canto, Melo Paiva não segue regras comuns
o jornalista vestia uma camisa bran- a que estamos acostumados no jorna-
ca com listras verticais cinzas, de lismo. Em seus textos, as fontes não
gola meio aberta e um jeans afirmam, rosnam. O gerúndio
básico. Olhava pra um não predomina, mas é
livro de capa escura que usado sem restrições.
tinha em mãos quando me Expressões piegas que
aproximei. Reconheci-o ra- aprendemos a ter ojeriza,
pidamente dos tempos em Fred utiliza com charme e
que estudava na UFSC e este ironia: “foi a gota d’água”
foi convidado para uma ou “errar é humano”. Em
palestra na Semana do contrapartida, cada de-
Jornalismo. Fred Melo talhe de seus extensos
Paiva abriu o evento parágrafos é pensado
com uma conversa in- minuciosamente, como
formal sobre as pas- ele próprio confessa.
sagens por Playboy, Os adjetivos são a bola
Veja, IstoÉ, Trip, da vez:
respectivamente, e - Acho o precon-
pelo jornal paulis- ceito com o adjetivo
tano onde agora apenas um precon-
trabalha. ceito - e, como todos,
Naquela épo- idiotas. Não acho
ca, já era sua fã. que os utilizo exa-
Fã, não, porque cerbadamente. Eu
estudante de jornalismo não admite os utilizo quando cabe e se necessá-
tietagem. Então, já admirava seu tra- rios, mas realmente sem preconceito
balho no caderno Aliás, considerado com ele, coitado.
muito ousado em vista do conser- Suas contracapas já humanizaram
42 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
REVISTA
Boris, um labrador americano e vir-
“
gem que está no Brasil a trabalho; e a
Acho o preconceito com o
uma cadela que também “jamais deu
adjetivo apenas um preconceito
uma trepadinha” funcionária do Cor-
- e, como todos, idiotas. Não
po de Bombeiros de São Paulo. Cláu-
dio Lembo, ex-governador paulistano, acho que os utilizo exacerba-
confessou ao jornalista que só anda damente. Eu os utilizo quando
com seu Ford Ka preto, mesmo tendo cabe e se necessários, mas
direito a um carro oficial.
realmente sem preconceito com
”
Dos textos mais comentados na se-
ele, coitado.
gunda-feira, aquele sobre os quaren-
ta moradores da favela Funchal que
trabalharam na construção do prédio neste compromisso com a semana,
da Daslu, junto à Margem do Rio Pi- mas não apenas com isso. Sua pauta
nheiros. Fred passou uma semana na deve ser menos noticiosa e mais dada
favela e foi o primeiro a colocar um à reflexão, à crítica, à opinião. Da
dedo de hipocrisia na repercussão que mesma forma, no caso da reportagem
a mídia vinha dando à inauguração da publicada na contracapa, procuramos
loja. Foi comparado a Gabriel Garcia marcar diferença com relação às re-
Márquez em artigos do site Obser- portagens diárias. O assunto desta úl-
vatório da Impren- tima página é muitas
sa por resgatar uma vezes tema que já foi
* imagem disponível em https://pandabooks.website-
seguro.com/autores.php?id=139
qualidade perdida noticiado nos últi-
do jornalismo, a ca- mos dias, mas que o
pacidade de contar corre-corre do jornal
histórias pela pala- não permite maior
vra dos seus prota- aprofundamento.
gonistas, e não pelo Em outras oportuni-
viés do jornalista. dades, a contracapa é
O caderno de do- dedicada a perfis de
mingo em que traba- personagens da se-
lha, o Aliás, é o que a mana, celebridades
imprensa internacio- ou não.
nal chama de Week A apuração das
Review. As reuniões reportagens de Fred
de pauta são feitas na Melo Paiva também
segunda e terça-feira não campeia o pa-
de cada semana, mas como ainda não drão. Se a pauta é sobre uma família
aconteceu muita coisa nesses dias, as cuja casa é inundada constantemente
discussões acabam sendo uma tenta- pelas enchentes, Fred não pergunta
tiva de intuir o que prevalecerá como apenas a que altura a água alcançou.
tema principal e o que desaparecerá Uma das peculiaridades de apuração
do noticiário até o fim de semana: está no que ele mesmo confessa cha-
- A seleção das pautas se baseia mar de “perguntas absurdas”, mesmo
SEMANA
REVISTA 43
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
se o personagem for um estuprador ses que não gosta de governo. Já foi
ou um poeta: petista, não é mais, e continua não
- Para que time torce? Você gosta gostando de governo. Não escapou
de Bossa Nova? Assiste novela? Que do batismo na igreja, até teve uma
disco tem na sua vitrola? Gosta de car- avó que foi freira, e é da cidade gran-
ro antigo? de, a sexta mais populosa
Depois de gravar as do país, Belo Horizonte.
respostas, Fred ouve Não perguntei
cada detalhe para en- como chegou
tender até como cada a São Pau-
pessoa pronuncia lo, já que a
uma palavra. Nada maioria dos
daquela pressa e jornalistas
das cinco mil pau- – Fred traba-
tas que o jornalista lha há 12 anos
de hardnews está – almejam pelo
acostumado. Fred menos um free-
adora parágrafos e la e uma vaga no
escreve muito devagar. trânsito paulista.
Pensa meticulosamente cada É flexível, gosta de jazz
legenda de foto, cada intertítulo. e samba, de Jimi Hendrix. No es-
Por fim: porte, não tem negócio. Perguntei se
- Gasto muitas horas tentando achar torcia pro Cruzeiro, ele rosnou:
o título ideal. Jamais utilizei nome de - Eu não sou cruzeirense não. Sou
filme ou de música. Eu me proíbo mui- Galo e ponto. Filho meu que quiser ser
tas coisas e estas são duas delas. Cruzeiro terá de sair de casa. E corta-
Fred foi punk. Depois, virou ateu e rei a mesada! E o retirarei de meu rico
comunista, mas continua sendo des- testamento.
“ A seleção das pautas se ba-
seia neste compromisso com
a semana, mas não apenas
com isso. Sua pauta deve ser
menos noticiosa e mais dada
à reflexão, à crítica, à opinião.
”
ilustrações: Alexandre Tcheto
44 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Trechos de Fred Melo Paiva:
Abre as portas a nova Daslu
“ A gente é pobre mas é limpinho. O problema é que aqui
não tem rede de esgoto e são mais de 200 barracos, espa-
lhados pelo beco, e mais oito vielas. Já viu a merda que isso
dá, né? A senhora deve estar estranhando a quantidade de
fio que sai daquele poste e se divide em vários outros, in-
terligando tudo. É gato, menina. Tudo gato. E tem cachorro
também. A senhora consegue ver aquele pit bull branco? É o
Dólar. E o rottweiller? É o Fidel. Agora veja só que confusão:
gato com cachorro, pit bull com criança, o esgoto passan-
do no meio, música alta, vizinho fazendo churrasco na viela,
todo mundo na rua em pleno dia de semana. Pois é. Isso aqui
tem nome. Chama favela. E a gente gostaria de apresentar
ela à senhora como uma forma de lhe dar as boas-vindas:
”
Eliana Tranchesi, favela. Favela, Eliana Tranchesi.
O herói resgatador
“ Quinze pessoas estavam tomando o café da manhã quan-
do ouviram o barulho do motor se desacelerando - na ensur-
decedora sinfonia de um Boeing 707, era apenas mais um
barulho no meio dos outros barulhos. De modo que ninguém
se importou com ele, à exceção de uma senhora. Ela tinha
escutado o barulho e visto lá fora um clarão. “Aconteceu al-
guma coisa?”, perguntou ela a um dos comissários de bordo.
Na cabine da aeronave, o mecânico de vôo acabava de de-
tectar um problema: o motor havia pegado fogo e ele pôde
observar “nitidamente o efeito de pós-combustão por 3 ou 4
segundos”. A peça tinha de ser isolada do resto do equipa-
mento, sob pena de provocar um incêndio. O avião precisava
”
descer.
SEMANA
REVISTA 45
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Cronicando
reportagem
Por Luisa Frey
“O que eu tenho, doutor? Você
está com uma doença crônica,
sinto muito”.
N
ão. O assunto não é esse tipo o que é bom, porque tendo a ser meio
de “cronicidade”. A crônica desligado da vida real”, diz Ruy. Ele
em questão é aquele texto conta também que quando começa
leve e curto, sobre um fato cotidiano, uma crônica só tem uma idéia vaga do
que se lê no jornal. Ou então em um assunto, que vai tomando forma à me-
livro que traz uma *foto: editora objetiva dida que escreve.
coletânea desses O cronista leva
textos. É o caso de cerca de duas ho-
Ungáua!, o recém ras para escrever
lançado volume aqueles 1777 ca-
que reúne 101 crô- racteres permiti-
nicas de Ruy Cas- dos pela Folha,
tro, publicadas na incluindo todas
Folha de S. Paulo as mudanças fei-
entre fevereiro de tas no texto.
2007 e março de Mas não só
2008. E não é só o redigir essa cria-
nome dado à obra turinha é difícil.
que intriga em Defini-la tam-
Ruy. Sua visão jor- bém o é: afinal, o
nalística e sobre o gênero crônica tam- que é uma crônica?
bém é bastante particular. A professora de português, mestre
Comecemos pelo curioso nome em Teoria da Literatura e cronista Re-
“Ungáua”. É o que o Tarzan, inter- gina Carvalho diz que a característica
pretado por Johnny Weissmuller no principal do gênero é justamente não
cinema, dizia ao macaco, ao elefante e ter característica nenhuma: tudo pode
aos outros bichos quando queria lhes ser crônica. “A única definição possível
dar alguma ordem. “Falava apenas é a de que ela é um texto literário para
‘Ungáua!’ e o bicho entendia imedia- jornal. E assim, como texto literário, tem
tamente o que tinha de fazer”, expli- toda a liberdade de linguagem, estilo,
ca Ruy. Talvez essa seja uma analogia temática. As limitações lhe vêm impos-
com a espontaneidade e a fácil com- tas pela publicação”, afirma Regina.
preensão da crônica. Mas escrevê-la é Ruy, por sua vez, define a crônica como
bem mais complexo do que parece. um comentário bem escrito, que leva
A crônica exige um grande exercício em conta os mandamentos imutáveis
de observação e síntese. “Me obriga a do jornal: o quê, como, quem, quando,
ficar atento ao que está se passando, onde. O cronista brinca que sua inspi-
46 SEMANA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
REVISTA
ração para escrever vem do horário de Ruy Castro, um romancista tende a ser
fechamento do jornal e que o cenário bem mais valorizado que um cronista
carioca é quase sempre um bom ponto por o romance ser coisa mais séria, que
de partida, mas não é o único. Ele expli- dá muito mais trabalho. Ele mesmo foi
ca que em Ungáua! há poucas crônicas consagrado por seus livros de reconsti-
que se passam no Rio, mas a maneira de tuição histórica e biografias. Era no tem-
ver o mundo, esta sim, é sempre cario- po do rei - Um romance da chegada da
ca. “Todos aqueles cronistas capixabas Corte, por exemplo, tomou dez meses
(Rubem Braga, Carlinhos Oliveira), mi- do autor para ser escrito após um ano de
neiros (Fernando Sabino, Paulo Men- estudos sobre o cenário do século XIX.
des Campos), pernambucanos (Nelson Regina cita o romancista Cristóvão Te-
Rodrigues) e até paulistas (Elsie Lessa) zza, e sua idéia de que todos amam um
só se tornaram cronistas no Rio. Só uma cronista, mas ninguém conhece um ro-
metrópole em que se possa andar a pé mancista. “E olhem que o Tezza tem re-
fornece material para crônica”. nome nacional! Mas o que se pode espe-
Aqui entra em questão também a rar num universo em que se lê pouco?”,
brasilidade da crônica. Para o cronista diz a professora. Ela afirma não saber se
carioca, não há dúvidas de que esse é um as pessoas lêem o jornal, mas ter certeza
gênero tipicamente brasileiro. E muitos de que as crônicas elas lêem.
também o dizem. A professora Regina Regina acredita que a crônica deve
lembra, entretanto, que há crônicas em falar do cotidiano com leveza e humor.
outros países, mas com características E também bronquear quando preciso,
diferenciadas. Cita como exemplo o porque há coisas que revoltam até o cro-
Uruguai e seu popular escritor Eduardo nista mais bem-humorado do mundo. A
Galeano. Ele ficou famoso não só por professora acrescenta que a crônica tem
sua obra As veias abertas da América como função trazer um pouco de beleza
Latina, mas também por seus livros de e reflexão para a vida das pessoas, de
crônicas, como Bocas do Tempo, publi- uma forma que elas possam assimilar e
cado em português. Segundo ela, o que ter prazer com isso.
houve no Brasil é que a crônica atingiu Sem rodeios, Ruy Castro diz que
uma popularidade muito grande. uma boa crônica deve ser simplesmente
E por falar em popularidade, para interessante de ler.
Ungáua!
O livro recém-lançado reúne 101 crônicas publicadas por Ruy Castro na
página 2 da Folha de São Paulo, entre fevereiro de 2007 e março de 2008. O
autor aborda com leveza e ironia temas cotidianos como futebol, música,
cinema e também aqueles menos prazerosos como política, drogas e vio-
lência. Tudo isso com seu jeitinho carioca de ver o mundo. Um exemplo do
estilo genial é Ungáua!, crônica que dá título ao livro.
A palavra era dita por Tarzan no cinema diante de qualquer situação
uma espécie de “Vamos lá, macacada!”. Segundo o cronista, é exatamente
essa a estratégia do presidente Lula.
SEMANA
REVISTA 47
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Onde não sobram nem
resenha
faltam caracteres
Por Camila Brandalise com colaboração de Cauê Oliveira e Gabriel Rosa
Apuração minuciosa, texto irretocável e
personalidades marcantes tornaram clássi-
cas essas obras de Ruy Castro
O anjo pornográfico
Companhia das Letras,
1992
464 p.
O Anjo Pornográfico
A
o caminhar no Rio de Janeiro A sensibilidade em analisar a rea-
dos anos 50, o jornalista e dra- lidade cotidiana de Nelson Rodrigues
maturgo Nelson Rodrigues se trouxe o reconhecimento público e
literário. Em O Anjo pornográfico, Ruy
deparou com um marido dando uma
sova na mulher por, diziam as vizi- Castro conta com minúcia a vida de
nhas, ser tratado como cachorro por Nelson, do jornalismo policial aos
ela. As mulheres o animavam: “bate palcos do Teatro Municipal do Rio de
mais! Bate mais!”. Depois da surra, a Janeiro. Mais do que qualquer conto
esposa se jogou aos pés do marido e ou peça ou noticia escrita por ele, es-
suplicou perdão. Dali, Nelson criou petacular mesmo foi sua própria his-
uma de suas mais famosas máximas: toria.
“mulher gosta de apanhar”.
Chega de Saudade
Companhia das Letras,
1990
464 p.
Chega de Saudade
S
e João Gilberto deu o nome, Ruy estórias. O cenário, a boemia carioca, é
Castro contou a história. A Bos- o palco das tragédias, dramas e comé-
sa Nova, para quem a musicava, dias vividas no tempo da Bossa.
com certeza daria um belo romance, O livro já é um sucesso só pelos
tão instigante são os seus bastidores, protagonistas: Tom Jobim, Vinicius de
recheados de amores, paixões e trai- Moraes, Nara Leão, Carlos Lyra, Ro-
ções. No livro Chega de Saudade, a com- naldo Bôscoli, Maysa, Johnny Alf, Elis
posição do autor foi juntar os persona- Regina. É pra quem gosta de música,
gens famosos, os amigos e os inimigos, de história e de Brasil.
e colocar o período na linguagem das
48 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Carmen – uma biografia
Companhia das Letras,
2005
Carmen - Uma Biografia 632 p.
A
o ler Carmen, não se mergulha te, como enfatiza o autor-, até a morte
somente na vida da “peque- em 1955, nos Estados Unidos.
na notável”, mas também no A elegante baiana estilizada, que
ambiente do Rio de Janeiro das pri- se tornou ícone tropicalista, não pelas
meiras décadas do século XX e em suas músicas mas sim pela figura, este-
Hollywood. reotipa do Brasil e pelos seus trejeitos,
Exímio na pesquisa, Castro pas- é revivida no livro em seu mundo des-
sou cinco anos vasculhando a vida de pudorado, como se ainda continuasse
Carmen Miranda e a descreve desde o cantando: “Sou brasileira, vivo feliz,
nascimento em Portugal – por aciden- gosto das coisas de meu país”.
Estrela Solitária
Companhia das Letras, 1995
536 p.
Estrela Solitária
N
ão é com freqüência que ou- dem bela obra. É importante sabermos
vimos o nome de Manuel hoje, tanto quanto nossos pais que o
dos Santos. Mas Garrincha viram atuando, quem foi o grande
todos conhecem. Mesmo pra quem herói do bicampeonato no Chile. E
não acompanhou os jogos de futebol, mais do que isso, a história confronta
o mito permanece. O “demônio das a força dessa imagem heróica com as
pernas tortas” é o personagem prin- engrenagens da vida do Manuel dos
cipal da biografia Estrela Solitária. Santos, o homem simples do interior
As várias glórias e tragédias que per que ganhou o país com suas pernas.
mearam a vida do famoso Mané ren-
Tempestade de Ritmos
Companhia das Letras,
2007
440 p.
Tempestade de Ritmos
D
epois da Bossa Nova e do sobre Louis Armstrong ou Ray Char-
samba, Ruy Castro levou o les, e informações sobre o surgimen-
jazz às prateleiras das livra- to dos filmes falados, entre outras
curiosidades, Tempestade de Ritmos
rias. A coletânea de artigos lançados
na Istoé, Folha, Veja e no Estadão e es- merece respeito de qualquer jazzista
critos entre 1978 e 2006 é um reflexo de plantão. Ah, vá lá, e não só dos
do gosto musical de Ruy, ainda que jazzistas. Afinal, mesmo dando al-
essa não seja a proposta inicial do li- guns discretos puxões de orelha nos
vro. roqueiros, Ruy Castro fala de música
Com histórias no mínimo curiosas como poucos brasileiros.
SEMANA
REVISTA 49
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Entre a técnica e a teoria
reportagem
por Joana Neitsch e Juliana Passos
Currículos de jornalismo no Brasil
tentam conciliar idéias e práticas.
o perfil de profissional que se pretende
formar.
A formação essencialmente teórica,
ainda presente em diversos cursos do
Brasil, muitas vezes não prepara para as
demandas do mer-
cado. Os cursos en-
caram a questão de
se reformular para
que seus alunos te-
nham condições de
N
a cabeça entrar no mercado
uma toca de trabalho e, ao
de banho mesmo tempo, têm
para ser identificada a responsabilidade
como caloura – brin- de formar jornalistas
cadeira dos vete- com conhecimento.
ranos na primeira “Nós não vemos o
semana de aula mercado como um
–, olhos brilhantes inimigo”, afirma a
e bem focados na entrevistadora, Caro- professora Márcia Marques sobre a pos-
lina Azevedo gesticula ansiosamente ao tura adotada na Universidade de Brasília
falar o que espera aprender no curso de (UnB).
jornalismo da UFSC. Confessa que ainda A professora diz que o propósito tra-
não sabe exatamente o que deve apren- çado pelo curso brasiliense é “mais do
der entre teoria e prática da profissão. que preparar pessoas para escrever em
Carolina leu a grade de horários, sabe jornalismo, é formar cidadãos capazes de
as funções básicas de um jornalista, mas pensar, elaborar, avaliar, propor mudan-
admite: “Não dá para colocar na cabeça ças nos meios de comunicação”. Foram
de um calouro o que é o curso. Eu só vou dois anos de encontros em que os pro-
saber o que preciso e o que faltou quando fessores discutiram autores como Paulo
estiver lá na frente, trabalhando e souber Freire e Edgard Morin e fizeram debates
realmente o que é a profissão”. e pesquisas com os alunos até chegarem
Aqueles que já passaram pela univer- ao modelo do novo currículo, implan-
sidade, pelo mercado de trabalho e hoje tado em 2005. Na nova grade, a divisão
estão na academia entendem que para de dois anos práticos e dois teóricos não
criar o currículo é preciso, antes, definir existe mais. Nas aulas práticas, os profes-
50 SEMANA
REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
sores se revezam durante o semestre ao sil foi tamanha que o segundo currículo
ministrarem disciplinas em diferentes la- mínimo de jornalismo foi elaborado du-
boratórios, abordando os mesmos temas rante o regime militar por Celso Kelly,
de pauta. A medida está em fase de expe- técnico treinado no Ciespal. Esse novo
rimentação, na tentativa de interagir com currículo, apresentado em 1969, enfatiza
diferentes mídias e aprofundar a reflexão a tecnificação do ensino e cria a figura do
teórica durante as experiências práticas. comunicador polivalente ou comunica-
A primeira proposta de um curso de dor social, capaz de dominar técnicas de
jornalismo no Brasil foi feita em 1918, no jornalismo, relações públicas, publicida-
Congresso Brasileiro de e propaganda, de
de Jornalismo, de acor- acordo com as neces-
do com a dissertação sidades do mercado.
O primeiro curso de
de Eduardo Medistch. O diploma passou
jornalismo fundado no
A idéia era um curso ser obrigatório para o
voltado à prática, ba- país pela Fundação Cásper exercício da profissão.
seado em um jornal-la- Recomendava-se aos
Líbero ia de encontro à
boratório – influências cursos de jornalismo
proposta de focar mais
do modelo que ganha- nos países sul-ameri-
na prática do Congresso
va força nos Estados canos que passassem
Brasileiro de Jornalismo e
Unidos. a se ser chamados de
abordava questões éticas, comunicação social.
Mas o primeiro
jurídicas e literária
curso de jornalismo, Discussões e des-
fundado em 1947, se- contentamentos com
guiu um caminho inverso. O currículo as mudanças de 1969 deram origem à
elaborado pela Fundação Cásper Líbero criação de um novo currículo em 1979. A
era predominantemente humanístico, nova proposta pretendia voltar-se para a
com ênfase em estudos éticos, jurídicos e reflexão crítica, mas o que acabou ocor-
literários. O governo passou a influenciar rendo foi uma burocratização e a respon-
na concepção dos currículos com a cria- sabilidade do ensino técnico-profissional
ção do Conselho Federal de Educação. foi transferida para os estágios nas em-
Em 1962, o Conselho elabora o primeiro presas.
currículo mínimo, com uma grade de A partir da década de 80 a tecnificação
disciplinas obrigatórias para todos os imposta pelo governo militar é reforçada
cursos de jornalismo do país. pelas exigências do mercado. Empresá-
Fatos como a Revolução Cubana ge- rios reclamavam que a formação do jor-
raram uma preocupação sobre a postura nalista era incompatível com as funções
de resistência que o jornalismo vinha to- que exerceriam depois de terminada a
mando no terceiro mundo diante da po- faculdade e usavam isso como argumen-
lítica dos Estados Unidos. Essa situação to para não haver obrigatoriedade de di-
levou a Unesco a criar em 1959 o Centro ploma.
Internacional de Estudos Superiores de Em 1984 foi formulado o currículo
Jornalismo para a América Latina (Cies- mínimo que estabelecia um tronco co-
pal), com sede em Quito, Equador. mum de disciplinas para a formação do
A influência da organização no Bra- comunicador social e seis habilitações es-
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REVISTA 51
VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
pecíficas, sendo uma delas o jornalismo. Curriculares Nacionais. De acordo com
reportagem
A parte técnica da profissão deveria ser as novas diretrizes, o curso ainda é clas-
ensinada em laboratórios, mas em mui- sificado como uma habilitação da área
tas universidades ficou comprometida de Comunicação Social, e o ensino deve
devido à falta de estrutura. ser focado na produção e disseminação
Durante a década de 90 os cursos fo- das informações do momento presente.
ram fazendo ajustes de acordo com as A graduação também deve se relacionar
necessidades que detectavam. Na UFSC com outras áreas sociais, culturais e eco-
adotou-se a nomenclatura jornalismo em nômicas. “Os cursos antigos têm agora a
2000. A publicação do comunicado em oportunidade e o compromisso de pro-
5 de julho, pelo então chefe de departa- moverem as adequações necessárias às
mento Hélio Schuch, justifica: “A forma- expectativas e ao dinamismo da socieda-
ção de jornalistas não cabe em apenas de” avaliam os professores Eron Brun e
dois anos, como simples Jorge Ijuim em artigo leva-
Para Meditsch, a
habilitação. Com um mer- do ao Intercom em 2003.
maior deficiência
cado de trabalho cada vez A flexibilidade radi-
do estudante de
mais exigente e dinâmico, cal na grade curricular é
jornalismo é a falta defendida pelo professor
a graduação deve ampliar
e qualificar a capacidade da UFSC, Mauro Silveira.
de conhecimento
dos alunos, com um ensi- Desde que entrou na gra-
sobre a realidade
no de enfoque profissio- duação na Universidade
brasileira e nem
nal, e isso demanda um
mesmo a formulação Federal do Rio Grande do
tempo bem maior”. Sul, nos anos 70, ele acre-
dos currículos a partir
A utilização do tronco dita que a função da uni-
de um tronco comum versidade é potencializar
comum na estrutura do
soluciona esse
currículo não resolve o vocações. Para o professor
problema
que para o professor dou- os estudantes deveriam ter
tor Eduardo Meditsch é uma das maiores uma boa base teórica e a opção de cursar
deficiências dos estudantes de jornalismo: disciplinas técnicas de acordo com suas
a falta de conhecimento sobre a realidade áreas de maior interesse no jornalismo.
brasileira. Meditsch conta que foi procu- “Eu percebi no próprio exercício da pro-
rado por uma grande empresa de comu- fissão que muitas coisas que vi na facul-
nicação para dar um curso sobre o tema dade não me serviram de nada” explica
aos jornalistas. O professor é autor do li- ele, mas reconhece que isso exigiria mais
vro O conhecimento do Jornalismo e chegou recursos e uma melhor estrutura na uni-
a propor para o currículo da UFSC que versidade brasileira.
em cada fase fosse abordado um mesmo Formado no curso de jornalismo
tema sobre a realidade do Brasil em todas da UFSC no final de 2007 e primeiro
as disciplinas, como economia, meio-am- lugar no trainee do jornal Estadão no
biente e política. mesmo ano, Vitor Hugo Brandalise
O Conselho Nacional de Educação de- Júnior percebe em seu pouco tempo
finiu em 2001 novas diretrizes, com mais no mercado que o ensino técnico lhe
flexibilidade, para a formação de um pro- foi muito bem ensinado. Ele também
fissional do jornalismo nos Parâmetros reconhece as deficiências em sua for-
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REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
Leia mais
mação. “Falta conhecimento periféri-
co sobre tudo. Falta estudo. E, since- O professor de jornalismo da UFSC Hélio Schuch fala da
ramente, de dentro do mercado, ao mudança de nomenclatura do curso
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/
menos da grande mídia, não é fácil da05072000.htm
corrigir essas falhas na formação”.
O conhecimento do jornalismo: o elo perdido no ensino da
comunicação, Eduardo Barreto Vianna Meditsch. Editora
da UFSC.
Cronologia
1918
Primeira proposta de um curso de jornalismo no
Brasil, no Congresso Brasileiro de Jornalismo
1947
Criação do primeiro curso de jornalismo do Brasil
na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo
1959
A UNESCO funda o Centro Internacional de
Estudos Superiores de Jornalismo para a América
Latina (Ciespal)
1962
Criação do primeiro currículo mínimo para
cursos de jornalismo no Brasil
1969
Um novo currículo mínimo é elaborado por Celso
Kelly (técnico treinado no Ciespal), com ênfase nos
aspectos técnicos do ensino de jornalismo
1979
É criado um currículo com o objetivo de
incentivar a reflexão-crítica do jornalismo
1984
O curso de comunicação social surge com um
tronco comum às diversas áreas de comunicação e
seis habilitações, sendo uma delas jornalismo
2001
Conselho Nacional de Educação define novas
diretrizes de ensino nos Parâmetros Curriculares
Nacionais, e o jornalismo continua sendo uma
habilitação de comunicação social
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VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
De séria já basta a realidade
reportagem por Carolina Moura, colaboração Juliana Frandalozo
C
QC, o programa jornalístico
mais comentado do mo-
mento, onde os repórteres
usam terno e gravata mas vivem
perdendo a elegância.
No início deste ano, uma seleção
inusitada de personalidades recebeu
uma visita em comum. Gretchen, Pa-
dre Quevedo, Leão Lobo, Raul Gil,
Datena e Marcelinho Carioca tive-
ram de enfrentar um dos problemas
da fama: dar entrevista a um repór-
ter inexperiente. Cada um à sua vez,
inadvertidamente viu o microfone número pode não parecer extraordi-
cair, ouviu os comentários gagueja- nário, porém, não expressa o público
dos e respondeu às perguntas mais total. Mais de oitocentos vídeos, só
inoportunas disfarçadas de ingenui- da versão brasileira, estão dispo-
dade. Mas o disfarce caiu no dia 17 níveis no YouTube. “Isso é muito
de março, quando estreou o Custe o positivo. Não está refletido no IBO-
que Custar, ou simplesmente CQC. PE, mas esse não é nosso principal
O repórter Danilo Gentili demons- objetivo. Temos vontade de falar as
trou que, quando se trata de enganar coisas”, considera o argentino Die-
seus entrevistados, não tem nada de go Barredo, diretor do Custe o
inexperiente. Que Custar. E milhares de
Criado em 1995 na Argentina pessoas estão ouvindo o
pela produtora Cuatro Cabe- que eles têm a falar.
zas, que hoje realiza também a Os apresentadores são
versão transmitida pela Band, o Marcelo Tas, Marco Lu-
CQC (originalmente “Cai- que e Rafael Bastos, sen-
ga Quien Caiga”) faz su- do que o último
cesso em países como também integra
Chile, Espanha, França a equipe de re-
e Itália. E aqui não foi pórteres, junto
diferente: em pouco com Oscar Fi-
mais de dois me- lho, Felipe An-
ses a audiência no dreoli, Rafael
horário (segundas- Cortez e Dani-
feiras às 22h15) do- lo Gentili. De
brou, passando de eventos sociais
3 para 6 pontos. O ao Congresso Na-
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REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
cional, do Museu de Arte Moderna superfície apaziguadora mas ferina,
às Olimpíadas na China: tudo isso é sutil e sarcástica”. A piada não cul-
pauta para o CQC. O que identifica e tua o homem; desmascara-o, mostra-
diferencia o programa são as repor- como ele é.
tagens que divertem e criticam ao Ninguém está protegido da sátira.
mesmo tempo. As figuras de poder, sérias e conser-
A associação entre humor e jorna- vadoras, podem se tornar as mais
lismo não é algo recen- cômicas. E o programa
O que identifica e
te. A charge é um gêne- americano The Daily
ro consagrado no Brasil, diferencia o programa Show prova isso desde
que tem origem nas ca- são as reportagens 1996. São clássicas as
ricaturas do século XIX. críticas ao presidente
que divertem e
A principal caracterís- Bush, tratando até as-
criticam ao mesmo
tica dessas ilustrações suntos como a Guerra
tempo
é a sátira em relação à do Iraque de forma
política e aos costumes da época. A bem-humorada. Adam Chodikoff,
charge brasileira tem grandes nomes responsável por assistir a horas de
como Angeli, que já foi publicado em noticiários para usar de material
vários países. para o programa, afirmou em entre-
Marcio Acselrad, professor do vista ao Washington Post que não se
curso de Comunicação Social – Jor- trata de uma perseguição: “Eu que-
nalismo, na Universidade de Forta- ro fazer o programa o mais sagaz, o
leza, escreveu que o humor é uma mais engraçado possível. Não acor-
estratégia cultural capaz de apro- do toda manhã dizendo ‘eu tenho
ximar o homem da consciência de que pegá-lo, eu tenho que pegá-lo!’”.
sua realidade. No artigo “O humor O produtor-executivo David Javer-
como estratégia de comunicação”*, baum considera os noticiários muito
ele apresenta o riso como “uma for- ruins no que fazem (“My opinion is
ma de lidar com as questões mais they suck at their jobs”). Nesse cená-
graves e profundas a partir de uma rio, o Daily Show faz conexões e dá
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VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
destaque a informações que ficam e não tem importância jornalística,
reportagem
perdidas em meio ao turbilhão de não vai ao ar. Por isso eles foram tão
notícias diárias. Barredo, diretor do convictos na campanha para entrar
CQC, faz uma avaliação parecida, no Congresso, após serem proibi-
ainda que não tão dura, da mídia no dos de gravar no local: “não houve
Brasil e na Argentina. “O jornalis- desrespeito. É tudo verdade, o men-
mo tem uma solenidade salão, o caixa dois. Está
às vezes absurda, que Entre jornalismo provado”.
oculta certas críticas da A maior dificuldade
e humor, onde
realidade e expõe com reside a ética? Do em produzir o CQC, para
naturalidade coisas in- o diretor, é ser sempre
início ao fim
justas”, comenta. É aí original. Esse é um pro-
que o humor entra: para falar sem blema identificado por ele no jorna-
rodeios e desmoralizar com senso lismo tradicional ao seguir mecanis-
crítico. “É uma ferramenta para der- mos que acabam gerando repetições,
rubar barreiras, chegar às pessoas. sempre fazendo as mesmas pergun-
Ele está muito ligado à inteligência, tas. Que pergunta um repórter do
quebra paradigmas.” CQC lhe faria em uma entrevista?
Apesar de a mistura não ser novi- “Provavelmente perguntaria quando
dade, ainda surge a pergunta: entre teria um salário mais alto. Eu man-
jornalismo e humor, onde reside a daria ele trabalhar mais se quisesse
ética? Segundo Barredo, do início ao ganhar o aumento”.
fim. Toda a equipe de produção do
programa é formada por jornalistas, * O humor como estratégia de comu-
inclusive profissionais que vieram nicação, de Marcio Acselrad. Disponível
de importantes veículos impressos no site www.compos.org.br
do país. A ética do jornalismo vale
para o CQC. Ques-
tionado sobre
Humor censurado
o off no
caso da Em abril, o Congresso Nacional proibiu
entre- as gravações do CQC na repartição federal
e trouxe a discussão sobre o humor no jor-
vista nalismo, questão capa da revista Imprensa
em julho. A matéria de Danilo Gentili sobre
com a reforma tributária foi o que desencadeou a
Mãe reação do Congresso, que justificou sua de-
cisão dizendo que o conteúdo do CQC era
Diná, na humorístico, e não jornalístico.
O repórter, que não é formado em jor-
qual ela fala sobre nalismo mas tinha credenciais de imprensa,
o presidente Lula começou uma campanha para que pudesse
voltar a gravar no local. “Não é uma dita-
ao pensar que o mi- dura, mas a censura está aí”, disse Gentili.
A equipe do programa se mobilizou e lan-
crofone está desli- çou uma campanha em TV, rádio e internet,
gado, Barredo diz que onde juntou 260 mil assinaturas de apoio. O
CQC só pôde voltar ao Congresso no dia 30
o limite é o respeito às de junho, quando recuperou a autorização
do Senado.
pessoas. Quando algo
pode prejudicar alguém
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REVISTA VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
O repórter politicamente correto
memória
por Marina Veshagem
E
rnesto Varela fazia pergun- ro bem elaborado, entretanto, com a câmera
tas simples, ingênuas e di- ligada, o improviso era a lei. Foram muitos
os entrevistados, como Pelé, Nelson Piquet,
retas para os personagens
o vice-presidente da República Aureliano
da história de verdade.
Chaves, o deputado federal Fernando Hen-
Anos 80, período de abertura política, rique Cardoso, a Guarda do exército verme-
pós ditadura. Perído conturbado, bombas e lho na União Soviética e Chico Buarque em
censura. É nesse contexto que uma pergun- cima do palanque das Diretas-Já.
ta a Paulo Maluf torna célebre um repórter: O fiel câmera Valdeci era personagem
“Muitas pessoas não gostam do senhor, di- importante no quadro, Varela pensava alto
zem que o senhor é corrupto. É verdade isso, e conversava com o cinegrafista, que foi vi-
deputado?”. Se tratava de Ernesto Varela, vido primeiramente por Fernando Meirel-
personagem interpretado por Marcelo Tas, les. Toniko Melo assumiu o papel durante
que ironizava personalidades políticas da a “Copa do Mundo” e em “Cuba”, e Hen-
época com questionamentos diretos e des- rique Goldman foi o Valdeci em “Varela em
concertantes. Nova York”.
O repórter fictício surgiu em 1983 no O quadro deu tão certo que, em 1984,
programa Olhar Eletrônico, da TV Gazeta, a convite da Abril-vídeo, a equipe criou o
no desespero para preencher as duas horas programa Crig-Rá, com experimentação de
semanais do programa. “Começamos com vários formatos e participação de muitas ou-
uma reportagem que explicava a dívida ex- tras pessoas. Em 1987 Tas foi morar nos Es-
terna brasileira num terreno abandonado na tados Unidos e marcou o fim da temporada
Avenida Paulista. Foi calculado o preço de do Varela, mas ele ainda voltou a aparecer
cada cacho de banana plantado ali no metro na televisão, rádio e teatro. Hoje, Ernesto
quadrado mais caro do Brasil. E assim su- Varela está adormecido, mas Marcelo Tas
gerimos às autoridades a saída para a crise afirma que o repórter politicamente correto
nacional: derrubar todos os prédios dos ban- pode voltar a qualquer momento.
cos da Paulista para a produção daquele tipo
de banana. O governo militar não aceitou a
Melhores momentos:
sugestão e a dívida externa está aí até hoje.
Mas a televisão ganhou um novo persona- Entrevista com Nelson Marchezan – deputado
federal
gem: o repórter Ernesto Varela”, contou Tas Nelson - Eu represento bem o povo que sofre.
Varela - Deputado, o senhor acredita no que o
no livro Made in Brazil – Três Décadas do senhor diz?
Vídeo Brasileiro.
Entrevista com Nabi Abi Chedid – deputado e
Varela falou de economia, política, espor- vice-presidente da CBF
Nabi - Brasileiros como você são responsáveis
tes e entrevistou personalidades de verda- pelo desvirtuamento das coisas, vamos falar de
de. Com seus óculos de armação vermelha futebol, não vamos falar de política, eu não falo de
política aqui.
– adereço improvisado, mas que se tornou Varela - Então uma pergunta futebolística para
terminar a entrevista. Qual é a sua próxima jogada?
marca registrada - saía para fazer as pergun-
tas que todo mundo tinha na cabeça, mas Para Maluf : “Você acha que a beleza física do
senhor prejudicou-o nessa campanha?”
não tinha coragem de fazer. Existia um rotei-
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VII Semana do Jornalismo - 15 a 19 de setembro de 2008
OOOOoooo TOP FIVE!
//
Procure e assista na internet os melhores momentos dos repórteres e
apresentadores, escolhidos em votação exclusiva para a Semana Revista:
1. Luque imitando o Tas
Marco Luque
2. Tas rindo do Luque, sempre
3. O beijomeliga
4. Entrada de motoboy no intervalo
5. Fala que “seu pau é uma vela preta”
1. Fala “xoxota” no top five
Marcelo Tas
2. As várias possessões para chamar “OOooo TOP FIVE!”
3. Com Ronaldo Fenômeno
4. Fala que os travestis querem aumento de pênis
5. Mandando um tiajjjuan
Felipe Andreoli
1. Link da China (e “comendo iguarias chinesas”)
2. Fala que Marta Suplicy é interesseira
3. Com Lula, na China e em Heliópolis
4. Showmissa do padre Marcelo
5. Vernissage do Chico Anysio
1. Repórter inexperiente com padre Marcelo Rossi
Danilo Gentili
2. Lançamento da biografia do Maluf
3. Danilo sendo expulso do Congresso
4. Leitura com Carla Perez
5. Exposição de Duchamp no MAM
Rafinha Bastos
1. Cemitério em Brasília
2. Jogando lixo na prefeitura
3. Rafinha pit-bull, em Brasília
4. “Proteste Já” da Sabesp
5. Com o prefeito de Mairiporã
1. Com Daniel Dantas
Rafael Cortez
2. Cortez na Cumbre
3. CQTeste
4. Inauguração da ponte Otávio Frias de Oliveira
5. Cortez entrega óculos para o Lula
1. No palco com Tihuana
Oscar Filho
2. Oscar apanhando do Babenco
3. Esporro do Zé do Caixão
4. Feira erótica
5. Parada gay
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