Março2009

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    Março2009 - Presentation Transcript

    1. ponto-e-virgula Abril de 2009 / edição 11 edição comemorativa 2 anos da primeir a edição
    2. Indice CARTA AO LEITOR 20 e 22 de março, os quatro barbudos dos Los Hermanos se A Veneza de Monet...........................................3 reuniram para um show. É, um show: não era aniversário de Imagens......................................................4 nada, era só uma reunião – quase insignificante perto da apre- Senhor & Companhia..........................................................5 sentação do Radiohead. Perdidos na trilha.............................6 Desde novembro passado, nós, cabeçudos, não nos reunía- Rocío................................................7 mos com nossos textinhos e crises existenciais. A edição 10 da ponto-e-vírgula foi a única impressa até agora – e também a As dores de Grazia Deledda............8 única com a supervisão de um professor, o querido artilheiro e Spanish Phrasebook...............................................9 gremista Mauro Silveira. Semana passada, alguém lançou no grupo de e-mail a idéia: vamos celebrar os dois anos de ponto-e-vírgula. Comemora- tivos, ansiosos e saudosos que somos, aceitamos. Quatro de nós estão do outro lado do Atlântico, um está em semana de Expediente provas e gritou, do Pantanal, um ‘mi’ sonoro. Como nem tudo é extraordinário, alguns estão em Florianópolis entre praia, mangue, xeroxes e haitianos. Edição Saiu, taí. E voltando quase muito tarde ao lead: apesar da Adriana Seguro efeméride, lançamos nossos textos apressados sem o peso de inovar, recriar, questionar ou fazer o melhor jornalismo do dia. Luisa Frey Quer dizer, posso jurar que tem uma inovação ali e um ques- Marina Almeida tionamento aqui. Mas a coisa boa – e brega – de tudo isso é Pedro Santos que a gente gosta de trabalhar um com o outro e ler um ao outro. Revendo edições passadas, lembramos da felicidade Textos da Adri e da Lu sambando jornalisticamente (Outubro), da Má Carolina Moura Bento indo ao fim do mundo para entrevistar um louco por Fernanda Dutra sapos (Junho), da Mázinha enlouquecendo no papo com o Má- Juliana Sakae rio Prata (Julho), da lendária entrevista do Macaco com o Jairo Luisa Frey Bauer (Abril), da Ju inventando palavras (Outubro), da Carol, do Marina Almeida Tonetti e da Fê dormindo na rua para entrevistar os migus do Marina Veshagem Exupéry no Campeche (Junho). Foi divertido. Levou-nos a São Paulo duas vezes, fez espaço Matheus Joffre nos currículos. E, quero acreditar, a ponto-e-vírgula nos deu Pedro Santos alguma segurança diante da eterna angústia jornalística. Por que se sobrevivemos até agora... conseguiremos chegar até o Diagramação fim (?). Juliana Sakae
    3. A Veneza de Monet pintava, nos degraus do Palazzo Bárbaro, o Palazzo da Mula. No fim do dia, Monet proporcionava à esposa e a si mesmo um passeio de gôndola sob o pôr-do-sol. Às 17h, estavam de volta. Peggy Guggenheim, Michelangelo, El Greco, Vivaldi, Lord Byron, Cole Porter. O que fazem estes indivíduos conhecidos, de Cheio de entusiasmo e graças ao bom tempo, o pintor come- diferentes áreas e épocas, em uma mesma frase? Todos mo- çava novas telas todos os dias. A amiga Mary Hunter teve de raram em Veneza. E a lista de ilustres que habitaram a Sere- partir e o casal se acomodou no Grand Hotel Britannia. Monet níssima fica ainda mais completa com o nome Claude Monet. se dividia, então, entre pintar à beira do canal ou do quarto do Em apenas dez semanas, o impressionista deixou registradas hotel. “A vista de nossa janela é maravilhosa. Você não pode- 37 impressões que impressionam ainda mais nossos olhos tão ria sonhar com nada mais bonito, e facilmente impressionáveis pela beleza desta cidade, impres- é tudo para Monet”, escreveu Alice sionante por natureza. à filha. Na mesma época em que começaram a surgir os problemas de Somente os dias de chuva e frio visão, aos 68 anos, Monet descobriu Veneza – cujas paisagens alteravam o humor do artista, in- serviriam de estímulo para o bom funcionamento de seus olhos terrompendo seu trabalho. Mas o por mais alguns anos. Segundo a jornalista Ariane Cauderlier sol voltava e Monet seguia com as – especialista em Monet e na comuna francesa de Giverny –, pinceladas. Alice estava “conten- quando deixou essa cidade, o artista não sabia se teria von- te por ver Monet tão apaixonado, tade de pintar cenas venezianas, retratadas tantas vezes e tão pintando coisas tão bonitas e di- bem por mestres como Canaletto e J. M. W. Turner. Mas a ferentes das ninféias de sempre”. ilha – definida pelo escritor inglês Charles Dickens como “um estranho sonho sobre a água” –, também fascinaria o pintor. Em 3 de dezembro, Monet fez seu último rascunho, retratando uma A viagem havia sido um convite da amiga inglesa Mary Hunter. A gôndola de Veneza, 1908, por gôndola. No dia 7, o casal deixou Claude Monet. Musée des Beaux- A idéia encantou a esposa Alice, cansada de Giverny. Alice Veneza. O pintor esperaria um bom Arts de Nantes, France registrou a estadia do casal em Veneza, escrevendo diariamen- tempo para terminar suas telas. te para a filha Germaine Salerou, cujo neto publicou as cartas Retomou as pinceladas quase dois anos depois, em novembro com o título Monet et Venise (Editora Herscher, 1986). de 1910. Mas ele nunca retocou o último dos quadros, Gôndola, o qual presenteou ao amigo Georges Clemenceau. A obra pode Monet e Alice chegaram à ilha de trem, em 1º de outubro de ser vista hoje no Museu de Finas Artes de Nantes, França. 1908. O artista foi imediatamente hipnotizado e sentiu neces- sidade de pintar. O amante da água e de monumentos – como Monet e sua esposa nunca voltaram à Veneza. A saúde de o lago das ninféias no quintal em Giverny e a Catedral de Rou- Alice começou a falhar logo depois de deixarem a Serenísima en – encontrou um lugar que unia os dois elementos. Oito dias e, em 1911, ela faleceu. Pelo menos, teve a oportunidade de depois de pisar na cidade, Monet mergulhou no trabalho. ver muito mais que as ninféias e a ponte japonesa do jardim de Giverny. Sua rotina era regida pelo movimento do sol: às 8h, na ilha de San Giorgio Maggiore, de frente para a Praça San Marco; às Texto: Luisa Frey / Edição: Adriana Seguro 10h, em San Marco, de frente para San Giorgio. Após o almoço,
    4. Imagens por imagens. É o desajeitado com uma coroa na cabeça, subindo pelas paredes, a menina com penteado à Hitler, o robozinho que (ou: partindo do pressuposto de que muito já foi lido e dito sobre ensina a receita da vida que cabe nos padrões – e é mais feliz. Radiohead no último mês) Não? Em 2000 (i.e. Kid A), acordar chupando um limão significava que As ondas se arrastavam até tudo estava no lugar certo. Em 2001 (i.e.. Amnesiac), as luzes es- a margem, preguiçosas, num tavam apagadas, ninguém estava em casa – portanto, as crianças carinho matinal incomum. eram serradas ao meio. Em 2003 (i.e. Hail to the Thief), tropeçar O naufrágio recente deixara em galhos quebrados fazia com que todos nós fôssemos aciden- lascas, ripas de madeira. O tes, em espera, para acontecer. sol iluminava fracamente, re- cuperando-se das densas nu- Chegamos ao ponto. Enquanto as frases do Morrissey inflam – e vens da chuva que passara. portanto podem ser estouradas a qualquer momento – as do De longe, o marrom desbota- Thom Yorke carregam para o alto, construindo um ambiente em do da madeira confundia-se que os poderosos dizeres são inquestionáveis (porque pertencem com outras cores: vermelho, a um momento e a um lugar). laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta – sete. Espremida por 29.999 pessoas, dificilmente me mantenho no lugar obscuro do qual Thom Yorke fala por 2h21. Mas não é como se Como os restos de um navio, isso fizesse tanta diferença. Eu estou lá, dia sim dia não, há mais nós nos separamos numa de dez anos. praia pálida. Pálida praia, surge o arco-íris. A música dos dedos de árvore, “Treefingers” (Kid A), me levava até Thom York, 2003 aquela caverna de gelo de Clube da Luta. Ali eu via pingüins, via Por criar imagens como esta – que interpretam o caos –, o Ra- Marla e saía do quarto cuiabano gelado artificialmente. Ali Thom diohead me faz chorar. Esse foi o maior nariz de cera que eu já Yorke calava. Eu também. escrevi, mas é preciso que seja dito. Se os caracteres vão se mul- tiplicando ao falar de um show que reuniu 30 mil pessoas no dia Acontece que algumas pessoas conseguem sentir de um jeito bo- 22 de março de 2009 na Chácara do Jóquei em São Paulo, existe nito a dissolução dos laços e dos valores. Há quem veja o arco-íris um motivo. É preciso que se explique. nas ripas do naufrágio – e aponte os podres a partir de um pincel. Não que eu vá explicar, mas preciso desse exercício. Essas pessoas sobem num palco iluminado, criam outros laços – ainda que insistamos em destruí-los – e nos sentimos menos Em 1997 (i.e. Ok Computer), Thom Yorke tinha alucinações com solitários. Choramos em “The National Anthem”. Trememos e gri- cacarejos. E dizia àqueles que o irritavam: quando eu mandar, tamos e fazemos amigos. você será o primeiro de costas na parede. Era salvo pela chu- va, derrotado pelo pânico, pelo vômito. As frases de efeito – no E depois voltamos ao dia-a-dia do ônibus lotado e da comida sentido: aquelas que cantamos a plenos pulmões e dizem tudo, congelada. Porque é assim. Não existe epifania cotidiana. em 5 palavras, o que tivemos engasgado por anos –, aprendidas com um inglês chamado Steven Patrick Morrissey, são apoiadas Texto: Fernanda Dutra / Edição: Pedro Santos
    5. Senhor & Companhia berdade total de publicação. A Sr. trouxe tex- tos de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Paulo A revista da década de 60 para senhores (e senhoras) Francis, Rubem Braga, Alex Viany e muitas tra- duções inéditas no Brasil, como Truman Capote, Qu’est que ce Todo começo de mês, o senhor Jean-Paul Sartre, Dorothy Parker e Aldous Huxley. fait-divers? sentava à mesa pela manhã para “Um Sr. 100%” o ritual. Com a mão esquerda O estudante de segurava a xícara cheia de café Jornalismo Chi- Não é à toa que o nome da Sr. é Senhor. Era feita e com a direita folheava a revista co Spagnolo, no pela elite intelectual e para a elite econômica. que viera verde naquele outubro blog do curso Para Lucy Niemeyer, doutora em Comunicação e de 1960. Lia a novela de Aldous sofia da de filo Semiótica e autora do artigo “Uma revista para o Huxley publicada em quinze pá- Cásper Líbero Senhor”, o periódico era voltado para o público ginas, com intervalos para as - Bocejos de Fe- específico da Editora Delta, que já consumia co- informações: “Homens de bom ade - define leções e enciclopédias. “Pouco tempo depois de licid gôsto combinam comodidade e ejo em um boc lançada, a Revista Sr. passou a ser um símbolo elegância no trajar diário com o que significa de status social no âmbito em que circulava, em Ban-tan”, “Não é trocadilho, não: fait-divers: particular na alta burguesia do Rio de Janeiro”, Ford é forte no duro”, “Com o re- í- “São not escreveu Niemeyer. quinte do bom-gôsto parisiense: cias que, sem Dauphine, o carro que você terá O gasto para se fazer a revista era elevado, assim mistificações, Fac-símile da edição de outubro de orgulho de dirigir”. como seu preço de venda – CR$100. As folhas transmitem a 1960, Revista Senhor, CR$100 eram grossas e grandes, com oitenta páginas da dimensão O senhor se divertia e a senhora aguardava o cansaço marido – às vezes mais. Os anúncios eram previamen- tragicomé- para terminar de ler o artigo sobre os prováveis sucessores de te selecionados – só entravam os que tinham dia que é a Eisenhower na Presidência dos Estados Unidos. Enquanto isso, o relação com a linha editorial. Algumas edições hu- condição mundo esperava o resultado da eleição entre John F. Kennedy e vinham com contos impressos em papel de ou- mana”. Leia na Richard Nixon. A senhora gostava de política e cinema, o senhor tra textura e outro tamanho, colados no meio da última página de literatura e música. Divertiam-se à mesa discutindo quem revista, do jeito que sonha o escritor. ista um da rev eram os melhores músicos brasileiros de jazz, pois nas primeiras ão trecho da seç páginas havia uma pequena brincadeira: o 1º Grande Concurso Os intervalos entre uma edição e outra chega- “Sr. & Cia”, que Senhores do Jazz em que o leitor votava e enviava por correio ram a meses no fim da vida. Do desenvolvimen- por páginas suas escolhas. Assim era a Sr., entre assuntos sérios e notas de tismo de JK ao Golpe Militar, a Sr. saiu de circu- trazia pequenas fait-diver (ler box). lação em janeiro de 1964 sem fôlego. A revista notas diversas, é encontrada hoje em sebos de São Paulo por A revista, desconhecida da geração anos oitenta/noventa, mar- divertidas e R$72, também cara ao bolso. Porém, embora não-assinadas. cou a história dos periódicos brasileiros e revolucionou as ar- amarela e quase-senhora com seus 45 anos, tes gráficas da área. Criada para ser autoral, a Sr. nasceu mantém-se perene, sem embalar peixes. sob a direção de Nahum Sirotsky em março de 1959. Muitos escritores começaram ali; outros, veteranos, viram nela a li- Texto: Juliana Sakae / Edição: Luisa Frey
    6. Perdidos na trilha outros cinco, com apenas 30 reais juntando a grana de todos e um espírito aventureiro, decidiram encarar o desafio. Embalados por cantigas de carnaval entramos no caminho certo. O primeiro carregava um facão nas mãos; eu, uma pe- dra. Tentávamos andar o mais rápido possível para aproveitar a pouca luz do dia que ainda restava, mas não demorou muito e não agüentamos o pique. Descansamos alguns segundos e continuamos conforme nosso físico permitia. A mata era densa e o percurso, apesar de menor que o da ida, era mais tortuoso. As músicas e o tom de brincadeira cederam espaço para o silêncio. Sabíamos que as cobras costumam sair das tocas quando escurece. Aproveitávamos a rara claridade nos momentos em que a trilha se abria para acelerar a passada. Aos poucos, a luz ia se esvaindo, até que qualquer vestígio de luz na- tural sumisse completamente. O perigo de encontrar uma cobra ou qualquer outro bicho pela frente era cada vez mais iminen- te. Tentávamos iluminar o caminho com três celulares. Em vão. Tropeços, escorregões e capotes eram corriqueiros. Por três vezes nos deparamos com bifurcações. Seguíamos o instinto. Avistamos a iluminação da cidade. Lá embaixo, a muitos me- Reprodução de La vague (A onda), 1879, de Pierre Auguste Renoir tros de altura. Esgotados, nossas expectativas eram suprimidas à medida que subíamos cada vez mais ao invés de descer. O receio de ter pegado o caminho errado já nos fazia pensar na Eram quase seis da tarde. Andamos por uns cinco minutos e hipótese de ter que passar a noite na mata. Nossas esperanças a trilha ia desaparecendo cada vez mais na mata fechada. Até voltaram quando vimos uma cerca rente ao percurso: um sinal que sumiu de vez. Voltamos à praia e, de fato, estávamos na de civilização. direção errada. Um surfista nos indicou a entrada correta da trilha que ia da Lagoinha do Leste até o Pântano do Sul e nos Até que quebramos a regra de ouro: não se separar. Paramos alertou: “Se vocês não têm lanterna é melhor irem rápido. Já para ajudar um amigo que se machucara mais feio com um corte está começando a escurecer.” no pé e os outros dois, sem se darem conta, seguiram em frente. Logo, os avistamos próximos a uma casa nos esperando. Vozes A ida tinha sido bem mais tranqüila. Apesar das duas horas de e risadas indicavam: era o fim da trilha. Saímos os cinco juntos. caminhada, o trajeto que ia do Matadeiro para a Lagoinha era Ainda com o receio de sair no quintal de alguém, mas o barulho mais aberto e sem muitos desníveis. E, principalmente: era dia. vinha da casa da frente – casais se preparando pra uma noita- Depois de duas horas levando onda na cabeça e maravilhados da. Uma hora e dez minutos depois, sobrevivemos. com a paisagem da praia, resolvemos voltar pelo outro lado. Texto: Matheus Joffre / Edição: Pedro Santos Metade do grupo pagou 10 reais e voltou de barquinho. Os
    7. Rocio louca para conhecer. Ela pega uma camisinha e entrega a ele, que não aceita o A aventura (não-sexual) de três pessoas dentro dum táxi na cidade Ainda mais agora – E piscando: “presente”. de Córdoba, Argentina “Você já teve alguma relação homossexual?” - Ai, vai! Veste aí – pede ela. Pica grande? Que história - Não. Ele não faz nada a não ser dar é essa? Quando a mulher uma risada nervosa. se vira para ele, seu sangue - Ai, mas você é virgem? parece esvair-se do corpo. - Ah, deixa disso! Se liga – diz o Percebe que não é uma - Ai, para! Você vai envergonhar taxista, salvando-o do sufoco. mulher. É um travesti, com o menino – diz o taxista. Em maquiagem bem delineada. seguida, pergunta à ela – Você é Finalmente chegam ao Museu Mas ele não a encara dire- virgem da parte de trás, não é? da Indústria. O taxímetro marca tamente, porque os olhos pouco mais de seis pesos. Ele - Ai... dela estão voltados para as dá o dinheiro, ansioso para sair calças dele. do carro. Abre a porta e ouve: Ele, do banco de trás, não en- tende o que ela responde. Está - É verdade isso que ele falou? - Ei, peraí! Chega à avenida e faz sinal para surpreso com o caminho deserto o primeiro táxi que vê. O carro - Ih, eu não sei! – responde, ten- que atravessam, umas ruas que O travesti loiro chega mais per- amarelo pára e ele entra sem dar tando aparentar naturalidade. nunca vira. Mil pensamentos to e lhe entrega um papel: muita importância à mulher loira, passam por sua cabeça. “O que de cabelos bem lisos, sentada ao O travesti vira novamente para - Para qualquer coisa que você será que esses dois vão fazer? lado do taxista. frente e diz: “ai, assim eu fico precisar. Eles podem parar em um mato loucaaaa!”. e tentar me estuprar. E o que - Pode me levar ao Museu da Há um número de telefone e eu faço agora? Merda! Anoto a Indústria? O taxista começa a contar de um nome, escrito de caneta azul placa do veículo. Sem dúvida. uma balada brasileira que fica piscina: - Sim, claro. Da onde você é? Que droga pegar táxi com gente justamente no Museu da Indús- – pergunta o taxista acompanhada. Juro que não 156360322, Rocio tria. “Você vai gostar de lá”, diz faço mais isso”. à acompanhante, dando um tapa - Do Brasil. - Tá, tá! Pode deixar. forte no peito dela, que nem liga. O susto vem de novo e o sangue Volta atrás e continua mirando- “Ah, olha só”, ele diz, virando- gela pela segunda vez em menos E sai do táxi amarelo sem olhar o. Ele, sem saber o que fazer, e se à mulher ao lado. “Você sabe de dez minutos. O travesti, per- para trás. Só se vira quando tentando não encontrar o olhar que os brasileiros têm pica gran- guntando se no Brasil existiam ouve o carro arrancar pela rua e dela, busca mudar de assunto: de, né?”. Ao que a mulher res- muitos travestis, mexe no porta- pode, então, respirar aliviado. ponde: “O quêêê? É verdade?”. luvas. O que seria? Uma arma? - Vocês conhecem o Brasil? Texto: Pedro Santos / Edição: Seria agora que o obrigariam a Ele crê estar louco. Só pode. Luisa Frey tirar a roupa? “Filhos da puta”, - Não, não conheço. Mas ficaria Não deve ter entendido direito. pensa. “Que porra é essa”?
    8. Grazia Deledda As dores de vista L’ultima moda. O conto, intitulado Sangue Sardo, não foi bem recebido na família, pois tratava de um triângulo amoroso, As tragédias da vida descritas por uma das principais escritoras e apenas quem já tivesse passado pela experiência poderia italianas do século XX narrá-la. Ela passa a escrever Amor, dor, morte, angústia e a culpa do pecado. Esses são escondido para a re- temas recorrentes na narrativa de Grazia Deledda. Nascida e vista. Dois anos depois, criada na Sardenha – ilha do Mar Mediterrâneo –, a autora usa publica o primeiro ro- histórias, comportamentos e paisagens que observou para es- mance: Stella d’oriente crever os romances que a fizeram ser a primeira mulher italiana (Estrela do Oriente, em a ganhar um prêmio Nobel, em 1926. português). Para enten- der a vida da escritora Deledda nasceu na cidade de Nu- – e consequentemente oro, em uma família de seis filhos. suas personagens –, é Freqüentou a escola até o ano necessário ler primei- que corresponde à quinta série ro o último livro: Cosima. É uma autobiografia, escrita de forma do ensino fundamental no Brasil. narrativa, em terceira pessoa e quase sem nenhuma correção. Depois, teve aulas particulares. Foi publicado em 1937, um ano após a sua morte. Nele, Deledda Para ela, porém, muito mais pro- conta complexos, paixões e desilusões. Conta como se sentiu veitoso era sair e conversar com com a morte do pai e da irmã, que a fizeram amadurecer rápido; as pessoas da cidade. Dotada de como o irmão que se tornou bêbado na busca pelo amor. grande sensibilidade para perce- ber o que a rodeava, a autora usa Um dos aspectos mais interessantes na obra deleddiana é a em seus romances tudo o que viu relação bem x mal. Não existe a culpa do pecado. Mas sim o e ouviu no período da infância e pecado como uma oportunidade de fazer o bem. É como se adolescência. Tanto que todos o mal viesse da angústia, como se o pecador não consentisse Vencedora do prêmio Nobel, a italiana os livros passam-se na Sardenha. o mal, mas buscasse fazer o bem através do pecado. É o que Em uma entrevista, disse: “Preten- acontece em L’edera (A Hera, em português), onde Annesa Grazia Deledda escreve sua biografia Cosima, publicado postumamente do recordar a Sardenha da minha mata um velho para salvar a família de seus patrões e, em vez infância, mas, sobretudo, a sa- de sentir remorso, acredita que deve se penitenciar e ajudar bedoria profunda e autêntica, o modo de pensar e viver quase pessoas pobres e à beira da morte, renunciando ao seu amor e religioso de certos velhos, pastores e camponeses sardos”. Ela à sua felicidade. conseguiu. Suas narrativas são cheias de descrições de am- Deledda descrevia a essência da vida em suas tragédias. É bientes e, principalmente, dos pensamentos das personagens. como se seus personagens principais não fossem Cosima, Sua formação autodidata foi irregular, lendo romances e poe- Annesa ou Marianna, mas sim amor, dor, morte, angústia e a sias que um de seus irmãos trazia para casa. Foi influenciada culpa do pecado. por Balzac, Leone Tolstoi, Chateaubriand, entre outros. Quando Texto: Marina Almeida / Edição: Adriana Seguro tinha 16 anos, Deledda teve a primeira obra publicada na re-
    9. ; Spanish Phrasebook Duas brasileiras a caminho de Barcelona. Uma fala francês; a Sr&Cia: Dognapping outra, inglês. O máximo que sai é um portuñol improvisado. Solução? Anotar todas as frases em espanhol que conhecem Em título de primeira página, o Times de (com a grafia que imaginam). As seguintes são as que Nova Iorque anunciou ao mundo pareceram úteis para as mais variadas situações: e aconselhou aos raptores: “No - La cucaracha ja no puede caminar. more kidnappings. Dognapping is so much better!”. E explicou: - Yo no quiero covardes que me hagan sufrir. só nos oito primeiros meses de 1959 foram raptados 96 cães de - Es duro ser uma chica em cualquier lugar. estimação de milionários, per- sonalidades do cinema, teatro e - Es esa niebla gris que envuelva la ciudad. televisão, mulheres de políticos influentes ou dirigentes sin- - Mira como la prieta la bemba. dicais. Sendo que os raptores conseguiram, para devolver 77 - Estoy aqui quierendote cães, um total de mais de 100 - No soy la clase de idiota que se deja convencer. milhões de cruzeiros. Por outro lado, os que foram presos (sem - Apuesto que no es así, no lo puedo creer. a ajuda do FBI que, no entanto, trabalha sempre que o caso - Me encantaria robar tu corazón. envolve uma criança) pegaram, no máximo, um ano de cadeia, - Si mi cambias por esa bruja, pedaso de cuero, no vuelvas sendo primários. A maior pena nunca más. Yo no estaré aqui! foi de 4 anos. O raptor em- pregou violência e já era velho - Pero yo te seguiré quierendo... conhecido da Justiça, com duas condenações de roubo. - Estoy aqui, boracho y loco. (Senhor, outubro de 1960) - El hiero siempre al calor es blando. - Me muero, pero de la risa. - Por que bailas como un angel? - Yo no soy marinero. Soy capitan. E a mais usada: Yo no puedo vivir así! Carolina Moura e Marina Veshagem / Edição: Marina Almeida
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