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                                   ponto-e-virgula #1                   dezembro 2008




CRÍTICA LITERÁRIA

perversidad...
ponto_e_virgula
                                             Agonia jornalística
                                         ...
Para não esquecer Guantánamo                                                                                              ...
Relatos sobre a perversidade                                                                                              ...
Bom teatro para todos                                                                                                     ...
Abrigo dos horrores                                                                                             [repor tag...
Desde o início do projeto, Oliveira promete que            dido a noção de que é um cachorro, num lugar
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Mão no peixe                                                                                                    [repor tag...
A pesca da tainha no Campeche é artesanal. Os         um nadador, que traz até a areia uma ponta da rede.
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Da velha à nova Teresa                                                                                                   [...
A história e a lembrança                                     represente seu suporte econômico, o transporte de pas-
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SC aposta na produção de software                                                                                  [repor ...
No banco dos réus                                                                                                       [r...
Os cachecóis                                                                                                 [crônic as]

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Dezembro2008

  1. 1. ? ponto-e-virgula #1 dezembro 2008 CRÍTICA LITERÁRIA perversidade. Precisamos falar sobre o Kevin retrata impressões devastadoras sobre a maternidade EXCLUSIVO loucura. Maior hospital psiquiátrico de Santa Catarina pode estar perto do fim NÃO ENTREVISTA puro gonzo. Erich Voyager, violinista e andarilho, fala de Freud, música e Terra Brasilis EXCLUSIVO insanidade. Ponto-e-vírgula testemunha o julgamento do ex-ditador militar Menéndez na Argentina ABRA SEÇÃO ESPECIAL não-crônicas. Uma seção de textos autorais sem leads ou limitação de caracteres PERFIL eles por ela. Ponto-e-vírgula conhece o escritor Daniel Galera e o músico Cesinha dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  2. 2. ponto_e_virgula Agonia jornalística [c ar ta ao lei tor] DEZEMBRO DE 2008 EDIÇÃO 1 P REDAÇÃO edimos licença, talvez poética, para lançamos a décima edição, ou a primeira im- Bárbara Dal Fabbro inventar uma expressão que defina o pressa. Reunimos textos produzidos para a Bruna de Paula Bruno Branco que sentimos: agonia jornalística. En- disciplina de Redação V, supervisionada pelo Carolina Faller Moura tre leads, apostos explicativos e dea- professor Mauro César Silveira, em uma re- Carlos Eduardo de Oliveira dlines, nos sentimos agoniados com a técnica vista com gosto de independente. Celso Rondon Filho desde a primeira fase do curso de Jornalismo. A começar pela entrevista gonzo do violi- Cláudia Mussi Cora Ribeiro Queríamos escrever também fora da pirâmide nista Erich Voyager, feita por Matheus Joffre, Débora Salves invertida, mas não existia espaço para inova- em uma mesa de bar. O estilo alternativo de Fernanda Dutra ção. Foi em agonia jornalística que parimos jornalismo nasceu nos Estados Unidos com Iana Lua Juliana Frandalozo o primeiro site da equipe: o Projeto Piloto. O Hunter Thompson, que vivia momentos alco- Juliana Sakae trabalho reunia textos autorais de 16 pessoas, ólicos ao lado do entrevistado e conseguia en- Laura Toledo Daudén escritos com quantos caracteres fossem neces- trevistas únicas. Já Pedro Santos, mais sóbrio, Lucas Sarmanho sários. Surgiram várias crônicas, conseguiu uma experiência única: Luisa Frey Proíbem o ponto- Marina Ferraz contos e ensaios na ânsia de con- testemunhou na Argentina o iní- Marina Veshagem tinuar o gosto pela escrita. cio do julgamento do ex-ditador Matheus Joffre e-vírgula em textos A agonia, porém, só cresceu. militar Menéndez, entre manifes- Pedro Santos Thiago Bora Sentíamo-nos mal resolvidos tações fervorosas da população. jornalísticos, mas com a grade curricular. Deci- Luisa Frey também escreve de ou- ; queremos pontos e dimos, então, por um trabalho tro país, mas em tom cor-de-rosa; mais sério, com prazos, divisão acostumada a ganhar jabás, fala EDIÇÃO mais vírgulas, um Adriana Seguro de trabalho (entre escritores, sobre o gondoleiro que lhe deu Carolina Faller Moura editores, revisores e diagrama- um passeio gratuito pelos canais Fernanda Dutra em cima da outra dores) e data fixa de lançamento: de Veneza. Juliana Sakae Marina Ferraz todo primeiro dia do mês. Cha- Para encantar o leitor e aterrori- mar-se-ia, se nos permitem uma mesóclise, zar os professores quadrados, temos uma se- ; Revista Ponto-e-vírgula. Por que? Não sabemos ção livre de crônicas e perfis em estilo ponto-e- – há teorias controversas sobre a origem do vírgula, com ilustrações que complementam o DIAGRAMAÇÃO Carolina Faller Moura nome – só lembramos que surgiu em um par- significado dos textos. Já as críticas culturais, Juliana Sakae que aquático. Gostamos do ponto-e-vírgula e de Cláudia Mussi e Carlos Eduardo, e o arti- Thiago Bora ponto. Proíbem-nos de usá-lo em textos jorna- go, de Juliana Sakae, pedem licença para brin- ; lísticos, mas queremos pontos e mais vírgulas, car de gente grande. Há também espaço para um em cima da outra. matérias mais sérias, como a reportagem de CAPA Sem consenso até na identidade da revista, Marina Veshagem sobre a Colônia Santana – o Juliana Sakae parimos com prazer nove edições, de maio a maior hospital psiquiátrico de Santa Catarina ; dezembro de 2007. Encerramos o expediente –, de Laura Daudén sobre a ferrovia Teresa por excesso de agonia, simplesmente. A crise Cristina e de Iana Lua sobre a pesca artesanal. ILUSTRAÇÃO existencial nos pegou e decidimos parar de Entre ponto-e-vírgulas e agonia jornalís- Alexandre Tcheto André Pizarro fazer para ter espaço para pensar. Neste ani- tica, divirta-se na nossa primeira e única (ou Clovis Geyer versário da chamada “última-edição-ou-não”, não) edição impressa. Tárik Pinto Tharso Duarte ; [sumário] REVISÃO FINAL Adriana Seguro Fernanda Dutra 03 Para não esquecer Guantánamo 19 Jornalista, você não é Deus Juliana Sakae Luisa Frey Bruno Branco Juliana Sakae Marina Ferraz Marina Veshagem 04 Relatos sobre a perversidade 20 Rua Colônia Santana, sem número ; Carlos Eduardo Marina Veshagem 05 Bom teatro para todos 23 Entrevista: “Eu sou minha vó renascida” COORDENAÇÃO Professor Mauro César Silveira Claudia Mussi Matheus Joffre ; 06 Abrigo dos horrores .........contracapa Disciplina de Redação V 32 O teatro nosso de cada dia Juliana Frandalozo Curso de Jornalismo 08 Mão no peixe UFSC Marina Ferraz ; Florianópolis - SC Iana Lua Dezembro de 2008 .........seções Tiragem: 3.000 exemplares 10 Da velha à nova Teresa 14 Crônicas Laura Daudén 12 SC aposta na produção de software Bruna de Paula, Déborah Salves, Lucas Sarmanho, Celso Rondon, Carolina Moura, Bárbara D Fabbro Cora Ribeiro 26 Perfis 13 No banco dos réus Thiago Bora, Fernanda Dutra, e Luisa Frey www.revistapontoevirgula.com Pedro Santos 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  3. 3. Para não esquecer Guantánamo [ensaio] A cobertura de guerra transformou as práticas militares no front. Mas com a prisão americana em Cuba regredimos 0 anos de civilização O ntem lembrei da existência de uma prisão um fim inimaginável à guerra e contribuiu inexoravel- militar americana em Cuba, na baía de Guan- mente para construir a fronteira dos limites civis e mili- tánamo, onde prisioneiros são torturados e tares entre as baixas. A partir de então, qualquer confli- detidos sem julgamento. O noticiário das 8h to envolvendo democracias deveria se valer de métodos exibia as imagens do primeiro deles a conquistar o di- “cirúrgicos” que, quanto mais exatos se tornaram, mais reito à liberdade por decisão judicial de uma corte nos aumentaram a repercussão de eventuais falhas que le- Estados Unidos. A partir de agora, os detentos de Guan- vassem a mortes civis. Após o Vietnã, seria impensável tánamo podem recorrer a qualquer tribunal civil dos um massacre nos moldes de Leningrado ou de Dresden, EUA, por determinação do Supremo Tribunal. O fato é Guernica ou Hiroshima. O napalm consumira as últi- que fui pego de calças curtas. Essa prisão ainda existe? mas doses de tolerância internacional, uma vez sujeito à Perguntei ao Google. A resposta me levaria, mais tarde, exposição das câmeras. à locadora de vídeos. Essa tendência confirmou-se nos anos seguintes, com As 3.000.070 entradas pareciam indicar que o do- a pacífica queda do muro de Berlim e da própria União cumentário Gitmo – as novas regras da guerra, havia tido Soviética, e principalmente com o conflito armado mais alguma repercussão em 2006, seu ano de lançamento. veiculado pela mídia antes da atual empreitada ameri- Entrevistas com os diretores em grandes jornais e ma- cana: a Guerra do Golfo, em 1991. A concorrência inter- nifestações de políticos importantes a respeito aumen- nacional dos diversos veículos para mostrar o conflito taram minha angústia: o que há de tão novo em uma – que contribuiria definitivamente para a consolidação prisão militar americana? O que há de tão novo em prá- de uma potência mundial, a CNN – foi decisiva no de- ticas de tortura em prisões de guerra? Nada. Talvez por sencadear da própria guerra. De fato, o teórico francês isso, minha memória tenha falhado. Então fui procurar Jean Baudrillard chegou a afirmar polemicamente que o motivos para não esquecer Guantánamo. conflito nem mesmo existiu fora da realidade das ima- O aspecto mais relevante do documentário Gitmo – as gens televisivas, exagerando o fato de que até Saddam novas regras da guerra estava expresso justamente nesse Hussein e George Bush se pautavam na mídia para sa- subtítulo escrito em letras minúsculas, quase ignorado, ber o destino da guerra. na capa. O que os cineastas suecos Erik Gandini e Ta- Com as invasões do Afeganistão e do Iraque, e a “ rik Saleh pretendem contar não é somente a história de presença ainda mais aterradora da imprensa interna- cional, não é surpresa que as primei- O que há de tão novo em uma prisão militar americana? O que ras reportagens do jornalista Seymour Hersh, na revista New Yorker, em 2003, há de tão novo em práticas de tortura em prisões de guerra? Nada. tenham sido taxadas de mentirosas e absurdas. Somente após o vazamento três rapazes paquistaneses e suas passagens pela prisão de centenas de fotografias e vídeos é que a história americana (apelidada Gitmo), mas sim a materialização receberia a merecida atenção e o mundo conheceria a de um momento histórico preciso, em que o tempo re- extensão das práticas de tortura institucionalizadas na troage e nos leva para antes da institucionalização do prisão de Abu Graihb, em Bagdá – antecessora direta estado de direito e das liberdades civis adquiridas, ain- da base cubana. da que em situação de guerra. Guantánamo, vista desta perspectiva, não é uma No entanto, o termo “novas regras” não é necessá- novidade, mas sim a reversão de uma tendência ainda rio, e tampouco é precisa a análise que toma por novas recente na história bélica. Tanto é assim, que a oficial as práticas militares institucionalizadas no presídio de americana Janis Karpinski, maior acusada dos ocorri- Guantánamo. Nova mesmo é a percepção de que agora dos em Abu Graihb, acabou tornando-se a fonte mais importante para o documentário Gitmo. Por tudo isso, se devem categorizar tais práticas como absurdas. Afi- não há dúvidas que Gitmo mereça créditos por seu va- nal, há não mais de 30 anos os recursos utilizados no Vietnã eram, ao me- lor em captar o preciso momento dessa reversão, mas a nos, equivalentes em pretensão de lançar luz sobre uma nova regra na histó- crueldade aos contem- ria é sem dúvida superestimada. Os 30 anos decorridos porâneos. Mas justa- do Vietnã são antes um pequeno desvio na linearidade mente naquela ocasião milenar do decurso histórico que uma regra propria- é que ficou evidente a mente estabelecida. Ainda assim, regredir 30 anos de impossibilidade de se civilização é assustador – está aí o motivo para não es- operar uma guerra nos quecer Guantánamo. moldes dos massacres De volta ao Google, alguns jornais prevêem agora da primeira metade espetáculos à la O. J. Simpson e Michael Jackson para do século XX. os julgamentos que seguirão a recente decisão do Su- A exposição midi- premo Tribunal americano. Mais uma modalidade para ática do conflito, bem a imprensa de guerra, mais uma preocupação para os exércitos no front. E uma ajuda para lembrar. ; como o desgaste de uma grande potência militar perante guer- Bruno Branco rilhas insurgentes, pôs dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  4. 4. Relatos sobre a perversidade [crític a c ultural] Em romance rejeitado por 0 editores, escritora oferece visão polêmica para o fenômeno das chacinas em escolas americanas “De todos os que têm alma e pensamento, “Tenho uma teoria segundo a qual é possível situar a maioria das pessoas num nós, mulheres, somos a criatura mais infeliz. espectro muito rudimentar de preferência e talvez seja com a posição ocupada Primeiro, é preciso, com o máximo de bens, nessa escala que todos os seus outros atributos se relacionem: exatamente comprar um marido, e tomar o déspota de nossos o quanto elas gostam de estar aqui, de estar vivas, apenas. Acho que Kevin corpos. odiava. Acho que ele estava fora dessa escala, ele odiava completamente Esse mal é mais doloroso do que o próprio mal. estar aqui. Talvez tenha até guardado vestígios de uma memória espiritual, (.....) de tempos pré-concepção; Kevin sentia muito mais falta do nada glorioso do Dizem que vivemos uma vida sem perigos, que do meu útero. Parecia se sentir furioso por ninguém tê-lo consultado para em casa, enquanto eles guerreiam com a lança; ver se queria mesmo acabar num berço, com o tempo escoando sem parar e pensam mal, pois preferiria eu três vezes quando nada, absolutamente nada, o interessava ali naquele berço. Kevin foi o lutar com o escudo a parir uma única vez.” garoto mais sem curiosidade que já vi na vida, com raras exceções à regra, mas (Medéia, de Eurípides). estremeço só de me lembrar delas.” D urante as entrevistas que promoviam seu novo livro, por um vazio absoluto: não consegue amar o filho. Fica assom- a escritora e jornalista norte-americana Lionel Shriver brada diante da recusa obstinada do menino pelos seus seios, fez uma declaração que, aos ouvidos mais desatentos, na hora da amamentação. E pressente, desde aquele momento, pôde parecer banal, mas verificado o tema da obra e o que a rejeição mútua marcará suas vidas. cenário, os EUA, se torna contundente. “Nossas crianças vivem A obscuridade e o antagonismo de uma mãe diante de sua vidas secretas”, lançou ela. Numa sociedade cujos assassinatos prole já foram bastante explorados no campo artístico. A mi- em massa praticados por adolescentes adquiriram um caráter tologia grega clássica guarda a história de Medéia, filha do rei endêmico, Shriver consegue ultrapassar os estereótipos refor- da Cólquida que, movida pela traição e abandono do marido, çados pelas explicações e os julgamentos dominantes quanto Jasão, estrangula os próprios filhos como forma de vingança. à conduta dos jovens assassinos, e decide abordar a questão a Essa lenda, escrita pelo dramaturgo grego Eurípides no ano partir de um ângulo delicado – a maternidade. de 431 a.C., revela a irracionalidade de uma mulher. Contudo, Em Precisamos falar sobre o Kevin (Editora Intrínseca, 2007), a obra de Shriver ganha força justamente ao estabelecer uma sétimo romance da autora, ganhador do prêmio Orange, da diferença crucial com a peça grega: para a contemporânea Eva Inglaterra, em 2005, Shriver criou um assassino que foge dos o filho Kevin é um total estranho. Embora ela cumpra com “ modelos atuais – ele não foi rejeitado pela namo- todas as obrigações de mãe – e procure, à base rada; não pertence a minorias e não idolatrava de muito esforço, criar tentativas de aproxima- Impressões movimentos nazistas. Nas mãos da escritora, ção com o filho – a apatia de Kevin reforça um devastadoras sobre Kevin Khatchadourian é um menino bonito, in- quadro de negligência materna. Já a barbaridade trospectivo e inteligente. É admirado pelos pro- cometida por Medéia não é relacionada à ausên- a maternidade são fessores e mimado pelo pai. Mesmo assim, Kevin cia de amor pelos filhos, mas a uma obstinação e planeja e executa com frieza o assassinato de nove frieza alimentadas por paixão e ódio. projetadas no livro pessoas no ginásio de sua escola. É em busca de Shriver recupera a tradição do romance epis- uma explicação que a mãe, Eva Khatchadourian, tolar, mas sua narrativa não é cronológica. As empreende um monólogo solitário sobre a maternidade e, na recordações de Eva passam por momentos e épocas distintas medida em que descreve o filho, em relatos minuciosos e quase – a vida com o marido, a infância de Kevin e, o ponto alto do psicanalíticos, acaba revelando muito de si mesma. livro, suas visitas ao presídio juvenil. Embora a protagonista Através de cartas endereçadas ao marido ausente, Eva re- anseie por uma resposta e claramente seja perturbada pela pos- passa sua vida antes e depois do nascimento de Kevin. Logo sibilidade de que seu desapego pelo filho possa ter contribuí- nos deparamos com uma americana de origens armênias, crí- do para o crime, em nenhum momento esbarramos com teses tica severa dos valores consumistas que a rodeiam e portado- ou razões óbvias. Ao contrário. De forma muito sutil, enten- ra de um constante sentimento de inadequação, como se fosse demos que a posição da autora é a de que os jovens de hoje uma estrangeira em seu próprio país. Não por acaso, encontra matam pelo senso de espetáculo e porque seriam atormenta- nas viagens para todos os cantos do mundo uma garantia de dos por uma condição de absurdo, ou uma falta de propósi- fuga. É também por meio delas que consegue fundar uma bem tos, infligidas por uma sociedade fundada no materialismo. sucedida empresa de guias de turismo. Com a carreira nos ei- Humanizar sua Medéia moderna é outro trunfo conquista- xos e casada com um homem que realmente ama, Eva reflete do por Shriver. Com o nascimento da segunda filha, Celia, Eva sobre o que estaria faltando para completá-la. ama e sente-se amada pela menina. Mostrada como o mais ex- Uma escolha é o resultado dessa inquietação. Ela decide que tremo oposto de Kevin, Celia adquire uma posição central na precisa ter um filho. Mas esse desejo é acompanhado desde o narrativa. Para Kevin, no entanto, a vida da irmã significa tão início por uma ambivalência dolorosa. É neste momento que pouco quanto a de suas vítimas. E desde cedo ele entende que Shriver joga luz em outras camadas da personalidade de Eva. cada arranhão na menina repercutiria de forma letal na mãe. O O que vemos é uma mãe se sentindo invadida pelo que carrega. que o destino reservou à Celia nas mãos do irmão, assim como Impressões devastadoras sobre a maternidade são projetadas a meticulosa descrição da tarde em que Kevin assassinou nove nos trechos onde a personagem fala sobre o período de gesta- pessoas, são trechos de uma qualidade imaginativa singular. ção – e das inevitáveis mudanças em seu corpo. Esse percurso E, ainda que exiba uma carga de violência desnecessária em não assume outros contornos nem muda depois do nascimento alguns momentos, o livro atesta o papel da arte como investi- gadora da realidade. ; de Kevin. É impossível não estremecer diante da lembrança de Eva logo após o parto. Com o bebê nos braços, ela é tomada Carlos Eduardo de Oliveira ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  5. 5. Bom teatro para todos [crític a c ultural] A Compagnie Phillipe Genty fez sucesso este ano no Brasil Pascal François L a Fin des Terres (O Fim das Terras) é um marco na carreira da com- panhia liderada pelo francês Philippe Genty. Conhecido mundial- mente por inserir no mundo das artes cênicas a manipulação à vista de bonecos, o francês já criou treze espetáculos além de filmes e séries de televisão. La Fin des Terres, que este ano per- correu São Paulo, Rio de Janeiro, Londrina e Florianópolis, foi criado em 2005, seguido ape- No palco, ator interage com uma bolha de ar gigante durante a peça experimental francesa La Fin des Terres nas por Boliloc (2007) e representa as novas idéias de representação de Genty. direta de bonecos fica visível, especialmente, em dois A começar pelo rompimento das fronteiras entre uma momentos do espetáculo. No primeiro deles, dois bo- arte e outra, misturando no palco teatro, dança, música necos de mais de dois metros de altura são manipula- e artes visuais de forma a brincar com os sentidos do dos pelos atores. É encenada uma conquista entre duas espectador em impressionantes criações estéticas. Di- pessoas em um bar. Aos poucos, a boneca feminina vai ferente dos outros espetáculos, La Fin des Terres não se perdendo membros até que o outro boneco esteja bei- concentra apenas na manipulação de formas animadas, jando uma atriz que assume a posição da boneca. As mas abre espaço para outras experimentações como os fronteiras entre manipulador e manipulado são poucas desenhos dos corpos dos atores nas sombras proporcio- na obra de Genty. Certas horas, fica difícil reconhecer nadas pelo imenso ciclorama posicionado ao fundo do quem está animando o quê. Em um segundo momento, palco, interações entre atores e gigantescas bolhas de ar uma atriz dança com um inseto gigante que possui o flutuantes e as perfeitas movimentações de entrada e rosto de um homem. O boneco é manipulado por três saída do palco pelo chão, fazendo com que atores apa- atores e a dança se estende até que o boneco bata as asas reçam e desapareçam na frente do espectador. e saia voando pelo palco. Ficam bem aparentes que as composições de dança Entre estas e outras cenas, intercalam-se retratos sur- e de movimentações dos atores vieram de improvisa- realistas da realidade moderna, traduzidos em perfeita ções livres em ensaios. Esta liberdade que Genty dá a harmonia entre luz, música e interpretação. Tudo se in- seus atores também é novidade, pois costumeiramente clina para compor o palco como o lugar do inconsciente. cria seus espetáculos passando sua visão integralmente Desafiando as técnicas clássicas de interpretação, não há para os atores, que são apenas o meio de levar a idéia psicologismos ou justificativas para as ações das perso- do diretor para a cena. Os atores, que em La Fin des Ter- nagens. A precisão dos atores ajuda na composição de res também são criadores, dão maior naturalidade às uma sucessão de enigmas que inquietam o espectador. cenas e são donos de sua própria movimentação, que Viajar nas imagens criadas magicamente em sua fren- diz muito mais respeito ao corpo do intérprete do que te é o que faz do teatro da Compagnie Phillipe Genty a coreografias a ele impostas. No total, seis atores-baila- tão instigante. É claro que a falta de uma linha narrativa rinos-intérpretes-criadores-cantores-manipuladores – e pode incomodar os mais aristotélicos, mas mesmo estes todos fazem tudo muito bem – dão vida a um universo vêem o espetáculo se configurar em uma experiência plasticamente perfeito, que faz jus ao surrealismo que tangível do que a arte contemporânea pode oferecer de serviu de inspiração a Genty neste espetáculo. As refe- encantador. La Fin des Terres é uma obra sem restrição. rências da obra de René Magritte, principalmente, são Pode e deve ser desfrutada por todos os públicos. Afi- apresentadas em vários momentos com atores trajados nal, são poucos os momentos em que é possível deixar com sobretudos e chapéus-coco. de lado a razão e mergulhar no mundo das sensações; o Nesta brincadeira com linguagens cênicas, a técnica espetáculo é, definitivamente, um deles. ; que tornou Philippe Genty conhecido em todo o mundo não é esquecida. A maestria na técnica de manipulação Claudia Mussi dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  6. 6. Abrigo dos horrores [repor tag em] Programa de controle de animais em Imbituba fracassa e responsáveis escondem o problema da população Juliana Frandalozo O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mes- ção do abrigo geralmente ultrapassa esse valor, segun- mo depois de ter sido limpo. As condições do o veterinário. De fato, recolher animais não é barato insalubres do abrigo de animais de Imbituba, e não resolve o problema. Por esse motivo, a Organiza- litoral sul de Santa Catarina, se agravaram ção Mundial de Saúde (OMS) recomenda a esteriliza- nos últimos dois anos. Dos 110 abrigos, poucos estão em ção como a única forma de controlar a superpopulação condições consideradas saudáveis. Não que falte comi- de animais. Botafogo tenta alertar: “recolher e recolher da ou assistência veterinária – é que pela quantidade de seria uma coisa sem fim, desperdiçando o dinheiro pú- animais nas ruas, só os que estão em más condições são blico com um processo sem resultados práticos que só recolhidos. A mudança evidencia o fracasso do projeto produz sofrimento.” “ que, ao invés de diminuir, aumentou o nú- É um lugar frio e triste, com cães amontoados deitados mero de cães nas ruas pelo abandono. De tão no cimento frio, desesperados e apáticos precário, o veterinário responsável pela Clí- nica Veterinária Clinvet, que executa o pro- grama de controle de cães e gatos, Édio Souza de Oliveira, proíbe imagens do abrigo. “Ele não está do Apesar disso, Oliveira não concorda em oferecer es- jeito que eu gostaria”, justifica. terilização a baixo custo. Ele acha que seria antiético Paulo Botafogo, presidente da ONG Fundo Vira-lata com a clínica dele e do outro veterinário da cidade co- de Garopaba, visitou o lugar. “O abrigo é tudo menos brar mais barato pela cirurgia. Na ética financeira, tal- um abrigo. É um lugar frio e triste, com cães amontoa- vez. Pois quem trabalha pela causa animal geralmente dos deitados no cimento frio, desesperados e apáticos.” não ganha um tostão, pelo contrário, muitos se enchem Cães confinados em celas minúsculas, sem sol nem de dívidas para cuidar deles. Há protetores em Imbi- espaço. Resultado de uma política que tenta esconder o tuba que, quando precisam de castração, enchem um problema da superpopulação. “Pensei que fosse limpar carro e vão a Garopaba. Lá, a ONG Fundo Vira-Lata as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, au- faz esterilização a baixo custo e campanhas de educa- mentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas ção. Em seis anos, a ONG tirou mais animais das ruas soltam mais”, admite Oliveira. do que qualquer canil tiraria. O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo da manuten- ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  7. 7. Desde o início do projeto, Oliveira promete que dido a noção de que é um cachorro, num lugar vai construir um novo abrigo. O município não onde só vê paredes, acabou se confundindo com tem planos de bancar a construção. Se o abrigo uma. Outro que está na solitária é um vira-lata for construído por Oliveira, no terreno dele e com preto enorme. Ele olha desconfiado pelas frestas o dinheiro dele, será particular. E não se pode ba- da porta e late raivoso como se cobrasse a presen- sear um programa público de controle de animais ça do advogado. em um canil particular, pois o poder público pode No segundo andar fica o gatil. Seis gatos ficam abandonar o projeto assim que acabar o contrato deitados em meio a fezes e urina misturados na ou mudar de gestão. Outro problema de um canil areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito particular é que ele tira da população a responsa- higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha bilidade e a possibilidade de vigiar o que está sen- de areia. Normalmente não deitam na areia que do feito com os animais e com o dinheiro público. usam para fazer cocô. Mas não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. O con- Alguns cães latem e se jogam contra as grades, desesperados tato com as fezes de outros animais pode transmi- Quando o projeto começou, em outubro de tir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses. 2006, os responsáveis tentaram recolher todo ani- O gatil é um retrato da precariedade do abrigo. mal que vagasse pelas ruas, achando que dessa Culpar a população tornou-se um hábito forma acabariam com o problema. Para o abrigo, foi cedido um prédio abandonado no porto, que, Oliveira atribui os problemas do programa à toscamente adaptado, começou a receber animais. população. Sabe que deveria haver educação, mas Os canis são todos na parte in- admite que esse trabalho não existe. A 300 metros Juliana Frandalozo terna, sem acesso ao ar livre. No do abrigo de animais, está a Secretaria de Edu- pavilhão central, são dez baias, de cação de Imbituba. Dessa distância é impossível 2x3 metros, onde fica a maior par- não ouvir os latidos desesperados. Se nem como te dos cães. Sem luz solar direta, o cidadã, a secretária de educação, Leda Pamato de piso está sempre molhado. São até Souza, se interessou pelo abrigo, difícil esperar oito cães em cada baia, que tem algo além da indiferença. Ela afirma não poder um estrado de madeira onde eles fazer nada, pois não foi solicitada. se amontoam para dormir. Os tra- A coordenadora da Vigilância Sanitária, San- tadores colocam coleiras e corren- dra Mara Leal, reclama também dos municípios tes nos cães e os levam em grupos vizinhos. “Sabemos que eles enchem carros, kom- para tomar sol, acorrentados do bis, até barcos e vêm despejar tudo aqui em locais lado de fora do prédio. já conhecidos de abandono de animais”, revela. Qualquer coisa diferente gera Nesse jogo de empurra é muito fácil responsa- algazarra entre os moradores do bilizar a população, que realmente tem sua parce- pavilhão central. Quando algum la de culpa. Mas não se pode esperar que as cam- deles foge, os latidos dos que ficam panhas de educação se façam sozinhas. presos é ensurdecedor. De vez em Os responsáveis pelo projeto sabem que a popu- quando dá briga e o tratador vai lação deve participar, que o problema é de todos, separar. O último, que saiu, sepa- mas continuam tentando esconder os animais no rava os animais a pauladas. abrigo, mascarando com os números de adoção, No pavilhão central, alguns cães afastando a população da realidade ao mesmo latem e se jogam contra as grades, tempo em que a culpa de abandonar. Oliveira não desesperados, mendigando aten- queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, ção. Outros permanecem deitados, pois iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia com ar depressivo, acompanhando abandonar o projeto, que não estava tendo lucro de longe os visitantes. e só se incomodava. Para que o canil não se torne Na última sala do pavilhão cen- apenas um depósito de animais, o programa deve tral fica a solitária, onde estão os ser focado na castração e na educação, com incen- cães agressivos. Presos em peque- tivo ao voluntariado, ao invés de se buscar o lucro nas celas de 1 x 1,5 metro, eles ra- em cima de um problema público. ramente saem para tomar sol. Quem espera não somos nós, mas os pobres O mais veterano dos cães na animais confinados naquelas pequenas celas frias. ; solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. De- pressivo, não esboça reação, nem Juliana Frandalozo quando chamado. Parece ter per- dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  8. 8. Mão no peixe [repor tagem] Pescadores da praia do Campeche empunham os remos e saem em busca da tainha à moda antiga Iana Lua É uma manhã de ou- tono. O vento sul, característico da ilha, já sopra mais forte, batendo portas e jane- las. Vinte e quatro músicos de uniforme estão em for- mação carregando seus ins- trumentos dourados. Os da frente levam as partituras coladas nas costas, em caso de esquecimentos. O sinal do maestro dá início ao som e todos se põem a andar. A passos lentos, a procissão segue em direção à praia. Pescadores, moradores, reli- giosos e curiosos se apertam em meia pista de estrada de terra e arriscam a cantar. 1° de maio, dia dos tra- balhadores. Feriado na- cional desde 1925, esse é para a maioria das pessoas um momento de descan- É hora do almoço, e a temporada de pesca da tainha está so do batente. Mas não para os pescadores de tainha declarada aberta. da praia do Campeche na Ilha de Santa Catarina. Há Dia de pescador começa antes de o sol nascer. A tai- quatro anos acontece nessa data a missa que decla- nha não avisa quando vai chegar, é preciso estar sempre ra aberta a temporada de pesca. Nada melhor do que preparado. Às seis da manhã de um sábado, no final de celebrar o dia do trabalho pedindo por mais trabalho. maio, ainda estava escuro. Os postes de luz iluminavam O mar está cinza como o céu. As ondas carregam os a praia do Campeche, refletindo a espuma branca das “ surfistas que se aventuram na água fria e espumo- Dia dos trabalhadores é, para a maioria das pessoas, sa. Ao chegar à areia, a andança fica ainda mais lenta. Logo à frente há um riozinho que corre ao um momento de descanso do batente. Mas não para encontro do mar. Pouco a pouco, os presentes o atravessam sobre uma passarela de madeira que os pescadores de tainha da praia do Campeche não impede de molhar os sapatos. Em meio à res- tinga há uma clareira, o destino final da procissão. A vegetação do local foi retirada para a construção ondas. Fazia 12°C e o vento sul, soprando gelado por de um rancho, lugar onde os pescadores esperam pela debaixo das roupas, parecia imperceptível aos pescado- chegada do peixe. Entre a casinha de madeira e a canoa res que, de chinelos e bermudas, se aprontavam para de pesca, aglomeram-se cerca de 200 pessoas. De cima a pesca. Garotos com garrafas de cerveja sentaram na de um palco, montado para a ocasião, o padre celebra areia para ver o nascer do sol – o fim do dia para uns, o a missa. Na platéia distribuem folhas com os cantos, e começo para outros. timidamente, algumas senhoras começam a cantar. O barco está pronto. Retiram ele do rancho e o posi- Perto do palco, as vozes soam fortes acompanhadas cionam na areia apontando para o mar. Quinze homens pelos violões – Hosana nas alturas! Aleluia! Aleluia! estão em volta, conversando animadamente. Resolvem – dentro do rancho as mesas estão servidas com bolos, que ali não é um lugar muito bom. Com força começam pães e café. Alguns pescadores se empolgam na conver- a empurrar o barco e o levam pela areia até uma pon- sa, logo cortada por pedidos de silêncio. ta na praia onde a visão é mais ampla e ali o apontam Palmas indicam que a missa chegou o fim. Jornalistas novamente em direção ao mar. O dia começa a clarear. cercam as autoridades presentes em busca de fotos e ci- Uma massa homogênea de nuvens fofas e cinzas cobre o tações para suas matérias. Entre bolos e apertos de mão, céu. A praia fica perto do aeroporto – de dez em dez mi- a clareira começa a esvaziar. Na praia, surfistas passam nutos, o barulho de um avião quebra o constante ruído correndo com suas pranchas e roupas de borracha. das ondas. É o início de mais um dia de espera. 8 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  9. 9. A pesca da tainha no Campeche é artesanal. Os um nadador, que traz até a areia uma ponta da rede. barcos não têm motor. O grande responsável por Tem ainda os camaradas, que são os pescadores que manter essa tradição é Getúlio Manoel Inácio, ou Seu puxam a rede, arrastando junto os peixes. Getúlio. O homem de 57 nos, pele escura, cabelos No fim da pesca, após contadas, as tainhas são grisalhos, de camisa de lã e chinelo de dedo, conta distribuídas ainda na areia entre aqueles que ajuda- que seu pai era pescador profissional e que, por isso, ram. Bem diferente do que acontece na maioria o contato com a pesca já veio do útero da mãe. Com das praias, onde o que sai da rede vai direto para as mãos cruzadas no colo, Getúlio fala mansamen- o caminhão frigorífico. Dependendo da função que “ executou, cada um recebe uma quantidade À tarde, o vento sul soprou mais forte. De longe se escutam de peixe. Até mesmo aqueles que não são pescadores e ajudaram, levam algum pra gritos: “Eeeeeeê” - é tainha na área. Tudo acontece muito rápido. casa. E assim é a rotina: chegar ao rancho com o raiar do sol e ir embora quando ele for Mal o barco entrou no mar e a rede já está toda estendida na areia também, sempre preparado para assumir seu posto e entrar em ação. te, como se tivesse o dia inteiro para finalizar um À tarde, o vento sul soprou mais forte. De longe pensamento: “Na semana santa meu filho preparou se escutam gritos: “Eeeeeeê!” – é tainha na área. uma tainha como se fosse um bacalhau. E sabe que Tudo acontece muito rápido. Mal o barco entrou no a tainha não perdeu em nada pro bacalhau?”. Além mar e a rede já está toda estendida na areia. As bar- de pescador, Getúlio é formado em Pedagogia, apo- rigas prateadas dos peixes refletem a luz do sol. Os sentado da base aérea, maestro da banda... e estu- pescadores comemoram, gritam e dão risada. Pre- dioso de Saint-Exupéry. Ele escreveu um livro sobre sas, as tainhas se debatem tentando inutilmente se as passagens do autor de O pequeno príncipe por Flo- livrar da fina rede. Transeuntes param para olhar, rianópolis e conta a história de como o francês e seu alguns espantados com o sofrimento dos peixes, pai se tornaram bons amigos. Homem mais novo de outros com cara de quem nunca viu e outros que- 15 irmãos, Getúlio herdou um dos ranchos quando rendo uma para o jantar. Duas crianças se engajam o pai faleceu em 1993 e, desde então, luta para que a em uma missão de resgate. Molham suas camisetas pesca artesanal não se acabe. no mar e torcem em cima das tainhas. “Eu vou te Passa um pescador correndo, olhando para trás salvar!”, grita o menino menor. e gritando: “Ô, ô, ô!”. Esse chamado é o bastante Mais de 30 pescadores ajudam a tirar os peixes para que logo em seguida vários outros se ponham da rede. Pegam três em cada mão e jogam em um a correr também. Surgem homens de todos os lados, monte que vai se formando na areia. A agitação pas- tiram chinelos e casacos, tomam os lugares e se pre- sou, agora o momento é de concentração. Os sorri- param para entrar em ação. Para deslizar o barco até sos são substituídos por caras compenetradas e os o mar são distribuídas toras de madeira pela areia gritos de alegria por gritos de ordens. Já sem forças, formando uma passarela. Conforme o barco vai pas- as tainhas cansam de tentar, agora apenas abrem e sando por cima das toras, os pescadores tiram as fecham a boca. “A pesca foi boa! Pra quem tava há que ficaram para trás e as posicionam mais à frente. 28 dias sem pegar nada!”, comemora com poucas Enquanto trabalham, todos falam alto e ao mesmo palavras, como a maioria dos pescadores, Fábio Eu- tempo, dando a impressão de que ninguém está re- sébio Daniel, patrão da canoa há cinco anos. De cha- almente se entendendo. Quando chegam à beira do péu e bigode brancos e calça de moletom molhada mar, pára tudo, um silêncio: a tainha mergulhou, até os joelhos, Eusébio anda de um lado pra o outro sumiu de vista. Sem perder o humor, os pescadores dando ordens. Tira as tainhas da rede e as coloca em posicionam outra vez o barco, pronto para a próxi- um canto: alguém passará para levá-las ao monte. ma, e recolocam seus chinelos e casacos. Fim da garimpagem: 523 tainhas, um número ra- As gargalhadas, as implicâncias, os jogos de zoável para essa temporada que não deu mais do que dominó, as pausas para o cafezinho, as andanças 2 mil em um lance só. No ano passado, chegaram a pela areia dão um clima de bagunça. Porém, é uma pescar mais de 4 mil de uma só vez. Já mais descon- bagunça organizada. A pesca na praia do Campeche traídos, os pescadores começam a recolher a rede. é dividida em três ranchos, lugar onde ficam guar- Entre risadas, conversas e brincadeiras, executam dados os equipamentos de pesca e onde esperam com naturalidade um trabalho que parece impos- pela chegada do peixe. O dono do rancho é tam- sível – fazer caber uma rede de 600 metros em um bém o dono do barco e da rede. Cada rancho tem barco de 11. Deixado de lado, o monte de tainhas, uma parelha, ou equipe de pesca. Dentro de uma sujas de areia, não brilha mais. O sol está se pondo. parelha, as funções são dividas: no rancho ficam o De longe ainda escutam-se as vozes dos pescadores. cozinheiro e o rancheiro, encarregado de cuidar do Depois de finalizar o trabalho, vão para casa torcer rancho; na areia ficam os olheiros que de cima das para que, no dia seguinte, a tainha resolva de novo dunas avistam o peixe; no barco vai o patrão, que aparecer. fica na popa dando as ordens e a direção, quatro re- Iana Lua meiros e o chumbereiro, que solta a rede. Devido às águas agitadas do Campeche, vai também no barco dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  10. 10. Da velha à nova Teresa [repor tag em] A privatização trouxe melhorias à ferrovia do carvão, mas nem a tecnologia pôde reaproximá-la da população do sul de Santa Catarina Laura Daudén À primeira vista, nada no centro da cidade de mineral, seu principal produto, chegasse aos portos e à Tubarão indica que por lá passavam os trens termoelétrica Jorge Lacerda (hoje controlada pela em- da antiga ferrovia do carvão. Os trilhos per- presa Tractebel). manecem bem guardados por casas e ruas Desestatizada em 1996, num momento em que o país estreitas e a antiga estação, entre tábuas e barracas de cedia 28,5 km de linhas férreas para a iniciativa privada, camelôs, é apenas um ponto de ônibus para quem des- a Teresa Cristina continua desempenhando um papel conhece sua história. É preciso olhar Tubarão por essas economicamente estratégico. Ela ainda é a única liga- frestas: por uma delas é possível ver a “ Os trens não passam mais pela avenida principal, ninguém cidade que, há 124 anos, ouviu o apito dos trens anunciando a modernidade e espera na plataforma para dar boas vindas, o carvão não se o progresso. Pessoas que durante toda a vida moraram em frente à linha fér- acumula em montes até a hora de carregar os vagões rea, como Maria Conceição Correa da Conceição, de 63 anos, ainda não viram a promessa cumprida. Para ela, uma das únicas mu- ção entre as carboníferas e a termoelétrica. Apesar de danças é que hoje, movido a diesel, o trem não deixa não estar em um período de decadência, como aconte- mais fuligem nas roupas do varal. ceu nas décadas de 1970 e 1980, já não há muitos laços Mesmo não pertencendo mais à rotina da cidade que liguem a nova ferrovia à população de Tubarão. Os – que, como o país, se rendeu ao automóvel - a ferrovia trens não passam mais pela avenida principal, ninguém Teresa Cristina deu forma às cidades do sul de Santa espera na plataforma para dar boas vindas ao time de Catarina. O crescimento da área urbana de Tubarão, futebol da cidade vizinha, o carvão já não se acumula como explica o arquiteto Rodrigo Althoff Medeiros, em montes até a hora de carregar os vagões. O que exis- sempre ocorreu em função do acréscimo ou decrésci- te, sim, é uma lembrança, um pouco idealizada quem mo da atividade ferroviária. Apesar da atuação estri- sabe, e que a cada apito leva Maria Conceição para o tamente regional, ela permitiu a integração dos mu- tempo em que ia de Barbacena a Laguna no banco de nicípios da região e abriu caminho para que o carvão tábua da segunda classe. 0 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  11. 11. A história e a lembrança represente seu suporte econômico, o transporte de pas- O trem que levava Maria da Conceição foi batizado sageiros, cargas e encomendas lhe dava vida e a tornava em homenagem à imperatriz Thereza Christina Maria importante no contexto regional”, afirma. de Bourbon, esposa de Dom Pedro II. A ferrovia que le- Apesar da expansão – puxada em grande parte pelo vou seu nome, de Araranguá a Imbituba e de Treviso a surgimento da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) Tubarão, foi inaugurada em 1884. O grandioso empreen- em 1941 e pela instauração da lei que obrigava as empre- dimento liderado pelo Visconde de Barbacena foi finan- sas do país a utilizarem um mínimo de 20% de carvão ciado pelo capital inglês que, nessa época, desfrutava da nacional – a maioria dos contratos firmados no fim do abertura do mercado brasileiro e dos tratados firmados século XIX começou a vencer entre as décadas de 30 e 50, com a corte portuguesa (e, posteriormente, com a brasi- o que postergou os serviços de manutenção e acelerou a leira). Seu principal objetivo era escoar a produção do deterioração das vias e dos trens. O descaso foi acentuado carvão mineral que, descobriu-se, era de boa qualidade. pela entrada da indústria automobilística e pelo investi- O historiador e geógrafo Dorval do Nascimento con- mento pesado na construção de rodovias. A estratégia foi Fotos: Laura Daudén ta em seu livro As ampliada pelo governo militar: era preciso ocupar o ter- curvas do trem, de ritório brasileiro em menos tempo e com menos gastos. 2004, que o rebu- Assim como outras 17 ferrovias brasileiras, em 1957 liço criado com a Teresa Cristina passou a fazer parte da Rede Ferroviá- a construção da ria Federal S.A. (RFFSA). Silvio dos Santos, professor de Estrada de Fer- Engenharia Mecânica e gerente de infra-estrutura aqua- ro Dona Teresa viária da Secretaria de Intra-Estrutura de Santa Catarina Cristina (EFDTC) (SIE), afirma que, além de ser mau operador, o governo trazia a promes- colocava entraves burocráticos para que os problemas sa de desenvol- de cada setor fossem resolvidos e para que a manuten- vimento e su- ção fosse feita devidamente. Isso teria levado as ferro- plantava a época vias brasileiras a um processo de sucateamento. Em antiga com a “su- 1996, dentro do plano de privatizações do presidente premacia técnica Fernando Henrique Cardoso, esse foi um dos argumen- do homem e a tos levantados para que as estradas de ferro passassem superioridade do para empresas privadas. industrialismo”. No poema A via Uma nova ferrovia férrea, de 1880, o Hoje, a velha ferrovia tubaronense é administrada português João pela Ferrovia Teresa Cristina S.A., que está sob controle de Lemos traduz de seis acionistas. Através de algumas ações pontuais, o sentimento: como a distribuição de brinquedos nas comunidades “Que vem além, carentes que se formaram ao longo dos trilhos, a empre- no horizonte? / sa busca uma reaproximação com a população. Ainda Que rebentou assim, a distância quase asséptica da nova gestão em re- nesse monte / lação à vizinhança afasta a FTC de pessoas como Maria Em carreira tão da Conceição, que só soube da privatização por meio veloz, / Parece de boatos. Mesmo morando em um terreno cedido pela enorme serpen- antiga empresa ao seu pai, funcionário da ferrovia por te / Sibilante, 32 anos, ela nunca recebeu visita dos atuais administra- monstro ingente dores. O neto brinca entre os trilhos abandonados que, / Raivoso, dire- em algum ponto, desembocam no museu ferroviário da to a nós / Oh? cidade, enquanto seu filho Luciano reclama do mau es- Pavor estranho tado de conservação da área. / Oh? Fantástica Em contraponto aos indícios de abandono e indife- visão / Da cabe- rença em relação à estrada férrea de que falam mãe e ça sai-lhe fumo / filho, em maio deste ano o governo federal abriu a licita- Da boca aceso carvão”. ção para que seja feito o projeto da ferrovia litorânea. Se As linhas foram expandidas até os anos 1940, seguin- concretizada, a obra de 236 km vai ligar os quatro portos do os momentos de pico na produção de carvão. Tam- de Santa Catarina à malha ferroviária nacional, inves- bém nessa época teve início o transporte de passageiros, timento do Programa de Aceleração do Crescimento que durou até 1971. Por muito tempo, a ferrovia foi o (PAC). Depois de anos de desencontros na política de principal meio de transporte da população e ainda, fator transportes brasileira, a velha idéia da ferrovia como determinante para o assentamento dos imigrantes que motor do crescimento ressurgiu. Mesmo que saia do constituíam comunidades no sul do estado. Dorval do papel, Maria não tem com que se preocupar: suas rou- Nascimento, que conviveu durante muitos anos com os pas não ficarão sujas com a passagem do trem e nenhum trilhos, acredita que quando o transporte de passagei- apito vai atrapalhar o sossego de sua varanda com vista para os trilhos. ; ros foi extinto, a estrada de ferro se desligou das pes- soas e de suas necessidades. “Tornou-se uma ferrovia que só transporta carvão. De fato, ainda que ele sempre Laura Daudén dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  12. 12. SC aposta na produção de software [repor tagem] Empresas de TIC do estado unem forças para aumentar sua representatividade nos mercados nacional e internacional F alar sobre tecnologia da informação e comuni- universi- cação, conhecida pela sigla TIC, é como querer dades, com abraçar o mundo com as pernas. Esse promissor o objetivo setor industrial desenvolve desde pequenos sen- de gerar in- sores que detectam a umidade do ar e alertam o agri- formações cultor sobre possíveis alterações do tempo, a centros de inteligentes processamento de dados que possuem uma capacidade para subsi- incalculável de armazenamento de arquivos, contando diar a for- com segurança de última geração. No entanto, o setor mulação, de TIC possui o software como produto de base mais implantação comum. Segundo pesquisas internacionais, esse seg- e avaliação mento industrial será responsável pelos maiores índices das políti- de crescimento na economia global nos próximos anos. cas indus- Esta tendência pode ser observada também no Brasil, triais, as onde o setor de informática cresceu 40% entre 2000 e ações institucionais e as iniciativas empresariais em 2007 e tem no estado de Santa Catarina um dos prin- nível local, regional e, posteriormente, nacional. Com cipais celeiros brasileiros de empresas de desenvolvi- o intuito de unir o útil ao agradável, o IEL/SC optou mento de software. pelo setor de TIC para ser o projeto piloto do estado. O segmento de tecnologia da informação e da comu- “O PLATIC realizou um mapeamento do setor no início nicação em Santa Catarina existe há 20 anos e é caracte- de 2002, através de pesquisas e relatórios de um labo- rizado por pequenas e médias empresas concentradas ratório especializado da UFSC. Com isso, as indústrias em três principais pólos tecnológicos: Florianópolis, de TIC já estavam um passo a frente dos demais seto- Joinville e Blumenau. A maioria dessas empresas inicia res do estado para a conformação da metodologia dos sua vida produtiva em incubadoras, que são instituições ODIs. E como a Plataforma previa como meta a estru- “ responsáveis pelas companhias até que elas O PLATIC ganhou o Prêmio Dorgival Brandão Júnior do adquiram capacidade financeira para andar com as próprias pernas. A fim de ampliar a programa do Ministério da Ciência e Tecnologia competitividade das representantes catari- nenses do setor e para se transformarem em negócios de classe mundial, desde 2006, 49 empresas de turação de observatórios tecnológicos, optamos pelo TIC de Santa Catarina estão se organizando numa plata- setor de TIC para o desenvolvimento do projeto” ex- forma denominada PLATIC. Coordenado pelo Instituto plica o superintendente do IEL/SC, Natalino Uggioni. Euvaldo Lodi (IEL/SC), o projeto é apoiado em 12 metas. Com o financiamento do instituto, organizou-se uma Mais de 300 colaboradores das companhias integrantes equipe formada por três alunos da UFSC e três mem- da Plataforma tiveram acesso a treinamentos em diversas bros do IEL/SC. O grupo realizou oficinas de pros- áreas como desenvolvimento de software, processos de te- pectiva estratégica, a fim de estipular dados sobre o lecomunicações, precificação, propriedade intelectual e ges- setor no estado. Com isso, os empresário catarinenses, tão do negócio. Essas metas de capacitação ficaram sob res- representantes do segmento, puderam perceber a exis- ponsabilidade de instituições de ensino como universidades tência de outros pólos desenvolvedores pelo estado, e centros de qualificação profissional, como por exemplo a como em Chapecó, por exemplo. Além disso, puderam Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o SENAI. identificar problemas como a falta de mão de obra qua- Em junho deste ano, o PLATIC foi premiado em pri- lificada e a alta mortalidade de empresas. As maiores meiro lugar no Prêmio Dorgival Brandão Júnior, concedi- empresas do estado – Dígitro, Intelbrás e Datasul – não do pelo Programa Brasileiro da Qualidade e Produtivida- aderiram à Plataforma. Por isso, a equipe dos ODIs ba- de em Software, da Secretaria de Política de Informática do seia-se em cálculos matemáticos para estipular alguns Ministério da Ciência e Tecnologia. dados importantes, como foi o caso do faturamento bruto anual do setor, estimado em R$ 3,52 bilhões. Unindo o útil ao agradável O PLATIC permite que as empresas se organizem No início deste ano, foi instituído pelo IEL nacional enquanto setor, que em 2007 conquistou um arranjo e pela Confederação Nacional da Indústria a progra- produtivo local, o que o torna segmento preferencial mação de observatórios de desenvolvimento indus- em financiamentos do governo. Além disso, políticas trial, conhecidos por ODIs. Cinco estados, Bahia, Mi- industriais estão dando tratamentos diferenciais ao se- nas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tor de TIC, já que seu produto possui um alto valor deviam, então, escolher setores produtivos que funcio- agregado e acarreta uma mão-de-obra extremamente especializada. ; nassem como projetos piloto desses observatórios. A atuação dos ODIs envolve a participação efetiva de atores estratégicos como federações, associações, Cora Ribeiro 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
  13. 13. No banco dos réus [repor tagem] Repórter da Ponto-e-vírgula testemunha o início do julgamento do ex-ditador argentino Luciano Benjamín Menéndez e seus subordinados A ntes de o julgamento começar, enquanto as 160 trado. “Eu tenho memória, muita memória”, desabafa pessoas entram no tribunal e vão ocupando as ela depois de passar pela barreira da polícia e ir em di- cadeiras reservadas, um grito forte de mulher reção ao tribunal. “Meu filho tinha 21 anos quando pe- ecoa na sala: “Chegou a hora!”. Alguns minu- garam ele e minha vida é dividida em antes e depois de tos depois, às 10h34 de uma terça-feira fria de maio, na seu desaparecimento. Se eu pudesse olhar nos olhos do cidade de Córdoba, Argentina, tem início a sessão que assassino eu ia perguntar onde ele colocou meu filho. vai julgar oito ex-militares. Eu quero saber onde ele está, eu tenho o direito mater- Entre os réus, um senhor de 80 anos se destaca. Im- nal de saber”, emociona-se. Ela não consegue terminar passível e sem cruzar as pernas como fazem seus com- de conversar com os jornalistas e entra chorando no sa- panheiros, seu blazer cinza repousa no colo enquanto guão principal. os olhos fixam a bancada dos juízes. Os jornalistas que Ao ver a multidão de repórteres, microfones, gra- o observam são tentados a descrever os olhos daquele vadores, câmeras e luzes, muitas luzes em sua dire- senhor com o clichê “olhos de águia”, mas essa descri- ção, Valeria Chávez parece confusa e atordoada. Sem ção não vai aparecer no jornal do outro dia, assim como saber muito bem para que lado olhar, ela responde a também não estará o xingamento de um radialista ao todas as questões calmamente, sem vergonha dos observar Luciano Benjamín Menéndez: “Olha como está olhos marejados e da voz embargada, nem quando al- velho, o filho da puta!” guém pergunta o que ela diria a Menéndez. “Não sei Fora do prédio do Tribunal Federal de Córdoba, a se lhe diria algo”, respondeu. “Eu não quero me en- polícia fecha o quarteirão para evitar a proximidade de contrar com ele. Nada me vai devolver o que eu per- mil manifestantes, a maioria composta por estudantes e di, mas acho que a justiça vai sanar um pouco minha militantes de partidos de esquerda. De dentro do edifí- dor e a dor de muitos que estão na mesma situação.” cio é possível escutar as músicas de protesto: Humberto Brandalisis e Hilda Palacios, a mãe de Va- “Olé, olé... Olé, olá. Vení, Menéndez, vení, mirá. Los leria, foram fuzilados junto a Carlos Enrique Lajas e ao subversivos cada día somos más!” pintor Raúl Cardoso, todos militantes do Partido Revo- Luciano Benjamín Menéndez está sendo julgado ao lucionário dos Trabalhadores (PTR). lado de sete ex-militares, “dignos subordinados”, nas pa- No segundo dia do julgamento, sete acusados se lavras do próprio Menéndez, que atenderam a suas ordens reservam ao direito de permanecerem calados. Mas de 1975 a 79 no Terceiro Corpo do Exército, organização Menéndez opta por falar. Pega o microfone, desdobra “ responsável por dez das 23 províncias argentinas durante um papel, tira os óculos e começa a leitura, primeiro dizendo que o tribunal era incompeten- Os réus estão protegidos por uma peça de vidro blindada, que te para julgá-lo. “A lei vigente quando a subversão em nada impede o insulto gritado pela irmã de um desaparecido marxista iniciou o assalto a nossa pátria durante a ditadura: ‘Covardes, assassinos, torturadores’ afirma que eu teria que ser julgado por um tribunal militar”, argumenta, con- centrando toda a atenção dos presentes a última Ditadura Militar argentina (1976-83). Ele, porém, na sala, sem referir que seu reclamo foi rechaçado por parece alheio às manifestações, ou já se acostumou a elas. juízes de primeira instância e tribunais de alçada. Com Agora ele está sentado no último banco à direita da sua voz levemente rouca, ele continua: “Sou o único res- primeira fila. Os réus estão protegidos por uma peça de ponsável da atuação da minha tropa. Por isso, a meus vidro blindada, que em nada impede o insulto gritado dignos subordinados daquela época, não se pode acusá- pela irmã de um desaparecido durante a Ditadura. “Co- los de nada e muito menos privá-los da liberdade”. vardes, assassinos, torturadores. Senhores juízes, por Luciano Benjamín Menéndez se convenceu de que favor, façam justiça”, clamou enquanto o presidente do fazia parte de “forças legais responsáveis por enfrentar tribunal, o juiz Jaime Díaz Gavier, a repreendia, expul- e vencer o terrorismo marxista”. Ele, junto com os sete sando-a da sala. “Eu não vou permitir manifestações de acusados, pensa que os antigos militares, “soldados vi- nenhuma natureza. Estamos em um julgamento”, res- toriosos”, como disse, não deveriam sentar-se no banco pondeu o magistrado. indigno dos réus, afinal de contas “venceram os terro- Organizações como H.I.J.O.S., Avós da Praça de Maio ristas subversivos que assaltaram o país porque não ou Familiares de Desaparecidos e Detidos por Razões Po- acreditavam nas instituições republicanas”. líticas (FDDRP) lutam há muito tempo para levar os ex-di- O julgamento começou no dia 27 de maio de 2008. tadores ao banco dos réus. Emilia Dambre é uma senhora Três meses depois, Benjamín Menendez foi condenado da mesma idade de Benjamín Menéndez. Teve dois filhos à prisão perpétua em cárcere comum. A pena dos ou- desaparecidos e, a partir daí, começou a militar no FDDRP. tros sete “soldados” varia entre a prisão perpétua e 18 “Quando comecei a buscar meus filhos é que passei a ver o anos de reclusão. Em 5 de novembro de 2008, outro mi- que eles defendiam e vi que tudo pelo que eles lutavam era litar argentino, o ex-coronel Alberto Barda, de 80 anos, para chegar a um mundo melhor”, conta Emilia. foi condenado à prisão perpétua por crimes cometidos no centro clandestino de detenção La Cueva, em Mar del Plata, Buenos Aires. ; “Nada vai me devolver o que eu perdi” Assim como Emilia, Mercedes Toloso de Bustos não vai esquecer nunca do dia em que teve seu filho seqües- Pedro Santos, de Córdoba, Argentina dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: www.revistapontoevirgula.com
  14. 14. Os cachecóis [crônic as] N ão, não se tratam dos acessórios promoções das Americanas, com aquelas típicos de inverno. Mas digamos capinhas baratas). E, por favor, se você tem que sem eles a indumentária des- o cachecolismo como uma meta não ouse co- tes personagens não teria a mesma mentar novelas, é uma premissa fundamen- graça. A aparência, apesar da espiritualidade tal do Código. Mesmo que tenha assistido, cachecolenha, é o traço identificador do gru- finja que não sabe quem é a Donatella e passe po. Podemos somar a este charme europeu longe de programas de auditório. Outro pre- transportado aos trópicos – o cachecol de ceito fundador são as aversões às listas dos fato – uma boina, um paletó anos 70 (sem “dez mais vendidos”; estas gôndolas devem esquecer que pelo menos uma destas peças ser repudiadas quando se entra na sua me- tem de ser estampada em xadrez) e o tênis, gastore favorita para comprar alguns títulos obviamente, da marca All Star. Para se ter “fundamentais em qualquer biblioteca”, para uma idéia da expressividade do grupo, al- enfeitar a prateleira. Prefira edições da Cosac guns deles chegam até mesmo ao Ministério, Naify, nem que para isso tenha que empe- mas nem por isso se sentem intimidados na nhar seu iPod repleto de músicas de bandas escolha das estampas de seus coletes. inglesas que só você conhece. No cinema, são Aqui me permito um parêntese etimo- terminantemente proibidos filmes america- lógico, o que me faz quase entrar para o nos. Como vocês sabem, eles emburrecem. “ clube. Talvez depois disso eu só tenha que pesquisar mais sobre filmes eslovacos dos Não menos indispensável do que a indumentária é falar anos 40, e serei um deles. Lá vai: palavra de fora de contexto e citar autores dos quais se leu apenas o origem francesa (!), cachecol vem de “ca- cher”, que significa esconder e “col” que prefácio, ou se tem um profundo conhecimento wikipediano quer dizer colo ou pescoço. Posteriormen- te, claro, ganhou outras conotações, como a que agora trataremos. Retomando: não menos indispensável Salve da lista David Lynch e Woody Allen do que a indumentária, é falar fora de con- em suas fases não comerciais. texto e citar autores dos quais se leu apenas Um cachecol que se preza deve transitar o prefácio, ou se tem um profundo conheci- pelas mais variadas manifestações de arte. mento wikipediano – aqui se dão bem aspas de É claro que cada um tem as suas especifici- Nietzsche, divagações sobre Kafka, e se quiser dades, mas se não entender muito de teatro, se parecer com um mortal, vale citar Nelson digitar “distanciamento brechtiano” no Goo- Rodrigues. Mas, enfim, o êxtase da vida de gle resolve muitos problemas. Nas artes plás- um cachecol só pode se completar através da ticas, basta colecionar os fascículos de Caras, sociabilidade, que se dá apenas entre os seus tendo sempre o cuidado, claro, de queimar pares. O convívio social é tão vital ao cachecol as revistas depois. É indispensável gostar de por ser o momento de mostrar na terça-feira pop art, especialmente de Andy Warhol. Para o que aprendeu na segunda, sempre fingin- mostrar ao mundo sua cultura, o cachecol se do a naturalidade de já dominar o assunto há utiliza do amigo serigrafista, que estampa ca- tempos. Bebendo Heineken – ou Glacial, em misas com ícones pops ou frases em inglês. caso extremo, quando se encontram em situ- Se o atrevimento for muito grande, as frases ação financeira desfavorável (o que adoram podem ser em alemão ou francês. Em litera- alardear, apesar de serem sustentados pelo tura, os russos são sempre uma saída para pai funcionário público) – sobram Godards e maiores embaraços, mas, se mesmo assim ilustração: a.pizarro Truffauts, que na maioria das vezes não che- nada resolver, vale dizer que tudo vem dos garam a ser vistos por aqueles olhos reves- gregos. Se não leu o livro em questão, finge tidos pelos indispensáveis óculos de acetato. que leu, pede pra ir ao banheiro e corre com- À cerveja soma-se o cigarro. Aos charutos prar o exemplar. Passa o olho pelo prefácio e, partem somente depois dos 40, em caso de no dia seguinte, retoma o assunto, com toda cachecolismo crônico. a propriedade. Logo, cafés, botecos imundos, universi- O mundo cachecol, apesar de parecer um dades públicas, cinemas falidos ou qualquer universo paralelo, penetra diversas esferas de lugar a meia-luz empestado de fumaça são nossa vidinha cotidiana. Se você anda com um pocket do Leminski cuidadosamente visí- autênticas cachecolândias. Além das lições diárias que se pode tomar rapidamente vel, costuma cheirar o vinho antes de beber googleando, muitos dos assuntos das rodas e dizer que ele é encorpado, ou freqüentar de cachecóis recaem sobre o que é proibido büfetts de sopas, talvez seja um deles. Não é segundo o código do bom comportamento de todo ruim. Mas tenha a decência de parar antes da boina e do paletó. ; cachecol. A televisão, por exemplo, seria um aparato completamente dispensável, não fosse o dvd – as remasterizações da Versá- Bruna de Paula til então, são imperdíveis (não se admitem ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com

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