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    Dezembro2008 Dezembro2008 Document Transcript

    • ? ponto-e-virgula #1 dezembro 2008 CRÍTICA LITERÁRIA perversidade. Precisamos falar sobre o Kevin retrata impressões devastadoras sobre a maternidade EXCLUSIVO loucura. Maior hospital psiquiátrico de Santa Catarina pode estar perto do fim NÃO ENTREVISTA puro gonzo. Erich Voyager, violinista e andarilho, fala de Freud, música e Terra Brasilis EXCLUSIVO insanidade. Ponto-e-vírgula testemunha o julgamento do ex-ditador militar Menéndez na Argentina ABRA SEÇÃO ESPECIAL não-crônicas. Uma seção de textos autorais sem leads ou limitação de caracteres PERFIL eles por ela. Ponto-e-vírgula conhece o escritor Daniel Galera e o músico Cesinha dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • ponto_e_virgula Agonia jornalística [c ar ta ao lei tor] DEZEMBRO DE 2008 EDIÇÃO 1 P REDAÇÃO edimos licença, talvez poética, para lançamos a décima edição, ou a primeira im- Bárbara Dal Fabbro inventar uma expressão que defina o pressa. Reunimos textos produzidos para a Bruna de Paula Bruno Branco que sentimos: agonia jornalística. En- disciplina de Redação V, supervisionada pelo Carolina Faller Moura tre leads, apostos explicativos e dea- professor Mauro César Silveira, em uma re- Carlos Eduardo de Oliveira dlines, nos sentimos agoniados com a técnica vista com gosto de independente. Celso Rondon Filho desde a primeira fase do curso de Jornalismo. A começar pela entrevista gonzo do violi- Cláudia Mussi Cora Ribeiro Queríamos escrever também fora da pirâmide nista Erich Voyager, feita por Matheus Joffre, Débora Salves invertida, mas não existia espaço para inova- em uma mesa de bar. O estilo alternativo de Fernanda Dutra ção. Foi em agonia jornalística que parimos jornalismo nasceu nos Estados Unidos com Iana Lua Juliana Frandalozo o primeiro site da equipe: o Projeto Piloto. O Hunter Thompson, que vivia momentos alco- Juliana Sakae trabalho reunia textos autorais de 16 pessoas, ólicos ao lado do entrevistado e conseguia en- Laura Toledo Daudén escritos com quantos caracteres fossem neces- trevistas únicas. Já Pedro Santos, mais sóbrio, Lucas Sarmanho sários. Surgiram várias crônicas, conseguiu uma experiência única: Luisa Frey Proíbem o ponto- Marina Ferraz contos e ensaios na ânsia de con- testemunhou na Argentina o iní- Marina Veshagem tinuar o gosto pela escrita. cio do julgamento do ex-ditador Matheus Joffre e-vírgula em textos A agonia, porém, só cresceu. militar Menéndez, entre manifes- Pedro Santos Thiago Bora Sentíamo-nos mal resolvidos tações fervorosas da população. jornalísticos, mas com a grade curricular. Deci- Luisa Frey também escreve de ou- ; queremos pontos e dimos, então, por um trabalho tro país, mas em tom cor-de-rosa; mais sério, com prazos, divisão acostumada a ganhar jabás, fala EDIÇÃO mais vírgulas, um Adriana Seguro de trabalho (entre escritores, sobre o gondoleiro que lhe deu Carolina Faller Moura editores, revisores e diagrama- um passeio gratuito pelos canais Fernanda Dutra em cima da outra dores) e data fixa de lançamento: de Veneza. Juliana Sakae Marina Ferraz todo primeiro dia do mês. Cha- Para encantar o leitor e aterrori- mar-se-ia, se nos permitem uma mesóclise, zar os professores quadrados, temos uma se- ; Revista Ponto-e-vírgula. Por que? Não sabemos ção livre de crônicas e perfis em estilo ponto-e- – há teorias controversas sobre a origem do vírgula, com ilustrações que complementam o DIAGRAMAÇÃO Carolina Faller Moura nome – só lembramos que surgiu em um par- significado dos textos. Já as críticas culturais, Juliana Sakae que aquático. Gostamos do ponto-e-vírgula e de Cláudia Mussi e Carlos Eduardo, e o arti- Thiago Bora ponto. Proíbem-nos de usá-lo em textos jorna- go, de Juliana Sakae, pedem licença para brin- ; lísticos, mas queremos pontos e mais vírgulas, car de gente grande. Há também espaço para um em cima da outra. matérias mais sérias, como a reportagem de CAPA Sem consenso até na identidade da revista, Marina Veshagem sobre a Colônia Santana – o Juliana Sakae parimos com prazer nove edições, de maio a maior hospital psiquiátrico de Santa Catarina ; dezembro de 2007. Encerramos o expediente –, de Laura Daudén sobre a ferrovia Teresa por excesso de agonia, simplesmente. A crise Cristina e de Iana Lua sobre a pesca artesanal. ILUSTRAÇÃO existencial nos pegou e decidimos parar de Entre ponto-e-vírgulas e agonia jornalís- Alexandre Tcheto André Pizarro fazer para ter espaço para pensar. Neste ani- tica, divirta-se na nossa primeira e única (ou Clovis Geyer versário da chamada “última-edição-ou-não”, não) edição impressa. Tárik Pinto Tharso Duarte ; [sumário] REVISÃO FINAL Adriana Seguro Fernanda Dutra 03 Para não esquecer Guantánamo 19 Jornalista, você não é Deus Juliana Sakae Luisa Frey Bruno Branco Juliana Sakae Marina Ferraz Marina Veshagem 04 Relatos sobre a perversidade 20 Rua Colônia Santana, sem número ; Carlos Eduardo Marina Veshagem 05 Bom teatro para todos 23 Entrevista: “Eu sou minha vó renascida” COORDENAÇÃO Professor Mauro César Silveira Claudia Mussi Matheus Joffre ; 06 Abrigo dos horrores .........contracapa Disciplina de Redação V 32 O teatro nosso de cada dia Juliana Frandalozo Curso de Jornalismo 08 Mão no peixe UFSC Marina Ferraz ; Florianópolis - SC Iana Lua Dezembro de 2008 .........seções Tiragem: 3.000 exemplares 10 Da velha à nova Teresa 14 Crônicas Laura Daudén 12 SC aposta na produção de software Bruna de Paula, Déborah Salves, Lucas Sarmanho, Celso Rondon, Carolina Moura, Bárbara D Fabbro Cora Ribeiro 26 Perfis 13 No banco dos réus Thiago Bora, Fernanda Dutra, e Luisa Frey www.revistapontoevirgula.com Pedro Santos 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Para não esquecer Guantánamo [ensaio] A cobertura de guerra transformou as práticas militares no front. Mas com a prisão americana em Cuba regredimos 0 anos de civilização O ntem lembrei da existência de uma prisão um fim inimaginável à guerra e contribuiu inexoravel- militar americana em Cuba, na baía de Guan- mente para construir a fronteira dos limites civis e mili- tánamo, onde prisioneiros são torturados e tares entre as baixas. A partir de então, qualquer confli- detidos sem julgamento. O noticiário das 8h to envolvendo democracias deveria se valer de métodos exibia as imagens do primeiro deles a conquistar o di- “cirúrgicos” que, quanto mais exatos se tornaram, mais reito à liberdade por decisão judicial de uma corte nos aumentaram a repercussão de eventuais falhas que le- Estados Unidos. A partir de agora, os detentos de Guan- vassem a mortes civis. Após o Vietnã, seria impensável tánamo podem recorrer a qualquer tribunal civil dos um massacre nos moldes de Leningrado ou de Dresden, EUA, por determinação do Supremo Tribunal. O fato é Guernica ou Hiroshima. O napalm consumira as últi- que fui pego de calças curtas. Essa prisão ainda existe? mas doses de tolerância internacional, uma vez sujeito à Perguntei ao Google. A resposta me levaria, mais tarde, exposição das câmeras. à locadora de vídeos. Essa tendência confirmou-se nos anos seguintes, com As 3.000.070 entradas pareciam indicar que o do- a pacífica queda do muro de Berlim e da própria União cumentário Gitmo – as novas regras da guerra, havia tido Soviética, e principalmente com o conflito armado mais alguma repercussão em 2006, seu ano de lançamento. veiculado pela mídia antes da atual empreitada ameri- Entrevistas com os diretores em grandes jornais e ma- cana: a Guerra do Golfo, em 1991. A concorrência inter- nifestações de políticos importantes a respeito aumen- nacional dos diversos veículos para mostrar o conflito taram minha angústia: o que há de tão novo em uma – que contribuiria definitivamente para a consolidação prisão militar americana? O que há de tão novo em prá- de uma potência mundial, a CNN – foi decisiva no de- ticas de tortura em prisões de guerra? Nada. Talvez por sencadear da própria guerra. De fato, o teórico francês isso, minha memória tenha falhado. Então fui procurar Jean Baudrillard chegou a afirmar polemicamente que o motivos para não esquecer Guantánamo. conflito nem mesmo existiu fora da realidade das ima- O aspecto mais relevante do documentário Gitmo – as gens televisivas, exagerando o fato de que até Saddam novas regras da guerra estava expresso justamente nesse Hussein e George Bush se pautavam na mídia para sa- subtítulo escrito em letras minúsculas, quase ignorado, ber o destino da guerra. na capa. O que os cineastas suecos Erik Gandini e Ta- Com as invasões do Afeganistão e do Iraque, e a “ rik Saleh pretendem contar não é somente a história de presença ainda mais aterradora da imprensa interna- cional, não é surpresa que as primei- O que há de tão novo em uma prisão militar americana? O que ras reportagens do jornalista Seymour Hersh, na revista New Yorker, em 2003, há de tão novo em práticas de tortura em prisões de guerra? Nada. tenham sido taxadas de mentirosas e absurdas. Somente após o vazamento três rapazes paquistaneses e suas passagens pela prisão de centenas de fotografias e vídeos é que a história americana (apelidada Gitmo), mas sim a materialização receberia a merecida atenção e o mundo conheceria a de um momento histórico preciso, em que o tempo re- extensão das práticas de tortura institucionalizadas na troage e nos leva para antes da institucionalização do prisão de Abu Graihb, em Bagdá – antecessora direta estado de direito e das liberdades civis adquiridas, ain- da base cubana. da que em situação de guerra. Guantánamo, vista desta perspectiva, não é uma No entanto, o termo “novas regras” não é necessá- novidade, mas sim a reversão de uma tendência ainda rio, e tampouco é precisa a análise que toma por novas recente na história bélica. Tanto é assim, que a oficial as práticas militares institucionalizadas no presídio de americana Janis Karpinski, maior acusada dos ocorri- Guantánamo. Nova mesmo é a percepção de que agora dos em Abu Graihb, acabou tornando-se a fonte mais importante para o documentário Gitmo. Por tudo isso, se devem categorizar tais práticas como absurdas. Afi- não há dúvidas que Gitmo mereça créditos por seu va- nal, há não mais de 30 anos os recursos utilizados no Vietnã eram, ao me- lor em captar o preciso momento dessa reversão, mas a nos, equivalentes em pretensão de lançar luz sobre uma nova regra na histó- crueldade aos contem- ria é sem dúvida superestimada. Os 30 anos decorridos porâneos. Mas justa- do Vietnã são antes um pequeno desvio na linearidade mente naquela ocasião milenar do decurso histórico que uma regra propria- é que ficou evidente a mente estabelecida. Ainda assim, regredir 30 anos de impossibilidade de se civilização é assustador – está aí o motivo para não es- operar uma guerra nos quecer Guantánamo. moldes dos massacres De volta ao Google, alguns jornais prevêem agora da primeira metade espetáculos à la O. J. Simpson e Michael Jackson para do século XX. os julgamentos que seguirão a recente decisão do Su- A exposição midi- premo Tribunal americano. Mais uma modalidade para ática do conflito, bem a imprensa de guerra, mais uma preocupação para os exércitos no front. E uma ajuda para lembrar. ; como o desgaste de uma grande potência militar perante guer- Bruno Branco rilhas insurgentes, pôs dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Relatos sobre a perversidade [crític a c ultural] Em romance rejeitado por 0 editores, escritora oferece visão polêmica para o fenômeno das chacinas em escolas americanas “De todos os que têm alma e pensamento, “Tenho uma teoria segundo a qual é possível situar a maioria das pessoas num nós, mulheres, somos a criatura mais infeliz. espectro muito rudimentar de preferência e talvez seja com a posição ocupada Primeiro, é preciso, com o máximo de bens, nessa escala que todos os seus outros atributos se relacionem: exatamente comprar um marido, e tomar o déspota de nossos o quanto elas gostam de estar aqui, de estar vivas, apenas. Acho que Kevin corpos. odiava. Acho que ele estava fora dessa escala, ele odiava completamente Esse mal é mais doloroso do que o próprio mal. estar aqui. Talvez tenha até guardado vestígios de uma memória espiritual, (.....) de tempos pré-concepção; Kevin sentia muito mais falta do nada glorioso do Dizem que vivemos uma vida sem perigos, que do meu útero. Parecia se sentir furioso por ninguém tê-lo consultado para em casa, enquanto eles guerreiam com a lança; ver se queria mesmo acabar num berço, com o tempo escoando sem parar e pensam mal, pois preferiria eu três vezes quando nada, absolutamente nada, o interessava ali naquele berço. Kevin foi o lutar com o escudo a parir uma única vez.” garoto mais sem curiosidade que já vi na vida, com raras exceções à regra, mas (Medéia, de Eurípides). estremeço só de me lembrar delas.” D urante as entrevistas que promoviam seu novo livro, por um vazio absoluto: não consegue amar o filho. Fica assom- a escritora e jornalista norte-americana Lionel Shriver brada diante da recusa obstinada do menino pelos seus seios, fez uma declaração que, aos ouvidos mais desatentos, na hora da amamentação. E pressente, desde aquele momento, pôde parecer banal, mas verificado o tema da obra e o que a rejeição mútua marcará suas vidas. cenário, os EUA, se torna contundente. “Nossas crianças vivem A obscuridade e o antagonismo de uma mãe diante de sua vidas secretas”, lançou ela. Numa sociedade cujos assassinatos prole já foram bastante explorados no campo artístico. A mi- em massa praticados por adolescentes adquiriram um caráter tologia grega clássica guarda a história de Medéia, filha do rei endêmico, Shriver consegue ultrapassar os estereótipos refor- da Cólquida que, movida pela traição e abandono do marido, çados pelas explicações e os julgamentos dominantes quanto Jasão, estrangula os próprios filhos como forma de vingança. à conduta dos jovens assassinos, e decide abordar a questão a Essa lenda, escrita pelo dramaturgo grego Eurípides no ano partir de um ângulo delicado – a maternidade. de 431 a.C., revela a irracionalidade de uma mulher. Contudo, Em Precisamos falar sobre o Kevin (Editora Intrínseca, 2007), a obra de Shriver ganha força justamente ao estabelecer uma sétimo romance da autora, ganhador do prêmio Orange, da diferença crucial com a peça grega: para a contemporânea Eva Inglaterra, em 2005, Shriver criou um assassino que foge dos o filho Kevin é um total estranho. Embora ela cumpra com “ modelos atuais – ele não foi rejeitado pela namo- todas as obrigações de mãe – e procure, à base rada; não pertence a minorias e não idolatrava de muito esforço, criar tentativas de aproxima- Impressões movimentos nazistas. Nas mãos da escritora, ção com o filho – a apatia de Kevin reforça um devastadoras sobre Kevin Khatchadourian é um menino bonito, in- quadro de negligência materna. Já a barbaridade trospectivo e inteligente. É admirado pelos pro- cometida por Medéia não é relacionada à ausên- a maternidade são fessores e mimado pelo pai. Mesmo assim, Kevin cia de amor pelos filhos, mas a uma obstinação e planeja e executa com frieza o assassinato de nove frieza alimentadas por paixão e ódio. projetadas no livro pessoas no ginásio de sua escola. É em busca de Shriver recupera a tradição do romance epis- uma explicação que a mãe, Eva Khatchadourian, tolar, mas sua narrativa não é cronológica. As empreende um monólogo solitário sobre a maternidade e, na recordações de Eva passam por momentos e épocas distintas medida em que descreve o filho, em relatos minuciosos e quase – a vida com o marido, a infância de Kevin e, o ponto alto do psicanalíticos, acaba revelando muito de si mesma. livro, suas visitas ao presídio juvenil. Embora a protagonista Através de cartas endereçadas ao marido ausente, Eva re- anseie por uma resposta e claramente seja perturbada pela pos- passa sua vida antes e depois do nascimento de Kevin. Logo sibilidade de que seu desapego pelo filho possa ter contribuí- nos deparamos com uma americana de origens armênias, crí- do para o crime, em nenhum momento esbarramos com teses tica severa dos valores consumistas que a rodeiam e portado- ou razões óbvias. Ao contrário. De forma muito sutil, enten- ra de um constante sentimento de inadequação, como se fosse demos que a posição da autora é a de que os jovens de hoje uma estrangeira em seu próprio país. Não por acaso, encontra matam pelo senso de espetáculo e porque seriam atormenta- nas viagens para todos os cantos do mundo uma garantia de dos por uma condição de absurdo, ou uma falta de propósi- fuga. É também por meio delas que consegue fundar uma bem tos, infligidas por uma sociedade fundada no materialismo. sucedida empresa de guias de turismo. Com a carreira nos ei- Humanizar sua Medéia moderna é outro trunfo conquista- xos e casada com um homem que realmente ama, Eva reflete do por Shriver. Com o nascimento da segunda filha, Celia, Eva sobre o que estaria faltando para completá-la. ama e sente-se amada pela menina. Mostrada como o mais ex- Uma escolha é o resultado dessa inquietação. Ela decide que tremo oposto de Kevin, Celia adquire uma posição central na precisa ter um filho. Mas esse desejo é acompanhado desde o narrativa. Para Kevin, no entanto, a vida da irmã significa tão início por uma ambivalência dolorosa. É neste momento que pouco quanto a de suas vítimas. E desde cedo ele entende que Shriver joga luz em outras camadas da personalidade de Eva. cada arranhão na menina repercutiria de forma letal na mãe. O O que vemos é uma mãe se sentindo invadida pelo que carrega. que o destino reservou à Celia nas mãos do irmão, assim como Impressões devastadoras sobre a maternidade são projetadas a meticulosa descrição da tarde em que Kevin assassinou nove nos trechos onde a personagem fala sobre o período de gesta- pessoas, são trechos de uma qualidade imaginativa singular. ção – e das inevitáveis mudanças em seu corpo. Esse percurso E, ainda que exiba uma carga de violência desnecessária em não assume outros contornos nem muda depois do nascimento alguns momentos, o livro atesta o papel da arte como investi- gadora da realidade. ; de Kevin. É impossível não estremecer diante da lembrança de Eva logo após o parto. Com o bebê nos braços, ela é tomada Carlos Eduardo de Oliveira  ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Bom teatro para todos [crític a c ultural] A Compagnie Phillipe Genty fez sucesso este ano no Brasil Pascal François L a Fin des Terres (O Fim das Terras) é um marco na carreira da com- panhia liderada pelo francês Philippe Genty. Conhecido mundial- mente por inserir no mundo das artes cênicas a manipulação à vista de bonecos, o francês já criou treze espetáculos além de filmes e séries de televisão. La Fin des Terres, que este ano per- correu São Paulo, Rio de Janeiro, Londrina e Florianópolis, foi criado em 2005, seguido ape- No palco, ator interage com uma bolha de ar gigante durante a peça experimental francesa La Fin des Terres nas por Boliloc (2007) e representa as novas idéias de representação de Genty. direta de bonecos fica visível, especialmente, em dois A começar pelo rompimento das fronteiras entre uma momentos do espetáculo. No primeiro deles, dois bo- arte e outra, misturando no palco teatro, dança, música necos de mais de dois metros de altura são manipula- e artes visuais de forma a brincar com os sentidos do dos pelos atores. É encenada uma conquista entre duas espectador em impressionantes criações estéticas. Di- pessoas em um bar. Aos poucos, a boneca feminina vai ferente dos outros espetáculos, La Fin des Terres não se perdendo membros até que o outro boneco esteja bei- concentra apenas na manipulação de formas animadas, jando uma atriz que assume a posição da boneca. As mas abre espaço para outras experimentações como os fronteiras entre manipulador e manipulado são poucas desenhos dos corpos dos atores nas sombras proporcio- na obra de Genty. Certas horas, fica difícil reconhecer nadas pelo imenso ciclorama posicionado ao fundo do quem está animando o quê. Em um segundo momento, palco, interações entre atores e gigantescas bolhas de ar uma atriz dança com um inseto gigante que possui o flutuantes e as perfeitas movimentações de entrada e rosto de um homem. O boneco é manipulado por três saída do palco pelo chão, fazendo com que atores apa- atores e a dança se estende até que o boneco bata as asas reçam e desapareçam na frente do espectador. e saia voando pelo palco. Ficam bem aparentes que as composições de dança Entre estas e outras cenas, intercalam-se retratos sur- e de movimentações dos atores vieram de improvisa- realistas da realidade moderna, traduzidos em perfeita ções livres em ensaios. Esta liberdade que Genty dá a harmonia entre luz, música e interpretação. Tudo se in- seus atores também é novidade, pois costumeiramente clina para compor o palco como o lugar do inconsciente. cria seus espetáculos passando sua visão integralmente Desafiando as técnicas clássicas de interpretação, não há para os atores, que são apenas o meio de levar a idéia psicologismos ou justificativas para as ações das perso- do diretor para a cena. Os atores, que em La Fin des Ter- nagens. A precisão dos atores ajuda na composição de res também são criadores, dão maior naturalidade às uma sucessão de enigmas que inquietam o espectador. cenas e são donos de sua própria movimentação, que Viajar nas imagens criadas magicamente em sua fren- diz muito mais respeito ao corpo do intérprete do que te é o que faz do teatro da Compagnie Phillipe Genty a coreografias a ele impostas. No total, seis atores-baila- tão instigante. É claro que a falta de uma linha narrativa rinos-intérpretes-criadores-cantores-manipuladores – e pode incomodar os mais aristotélicos, mas mesmo estes todos fazem tudo muito bem – dão vida a um universo vêem o espetáculo se configurar em uma experiência plasticamente perfeito, que faz jus ao surrealismo que tangível do que a arte contemporânea pode oferecer de serviu de inspiração a Genty neste espetáculo. As refe- encantador. La Fin des Terres é uma obra sem restrição. rências da obra de René Magritte, principalmente, são Pode e deve ser desfrutada por todos os públicos. Afi- apresentadas em vários momentos com atores trajados nal, são poucos os momentos em que é possível deixar com sobretudos e chapéus-coco. de lado a razão e mergulhar no mundo das sensações; o Nesta brincadeira com linguagens cênicas, a técnica espetáculo é, definitivamente, um deles. ; que tornou Philippe Genty conhecido em todo o mundo não é esquecida. A maestria na técnica de manipulação Claudia Mussi dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Abrigo dos horrores [repor tag em] Programa de controle de animais em Imbituba fracassa e responsáveis escondem o problema da população Juliana Frandalozo O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mes- ção do abrigo geralmente ultrapassa esse valor, segun- mo depois de ter sido limpo. As condições do o veterinário. De fato, recolher animais não é barato insalubres do abrigo de animais de Imbituba, e não resolve o problema. Por esse motivo, a Organiza- litoral sul de Santa Catarina, se agravaram ção Mundial de Saúde (OMS) recomenda a esteriliza- nos últimos dois anos. Dos 110 abrigos, poucos estão em ção como a única forma de controlar a superpopulação condições consideradas saudáveis. Não que falte comi- de animais. Botafogo tenta alertar: “recolher e recolher da ou assistência veterinária – é que pela quantidade de seria uma coisa sem fim, desperdiçando o dinheiro pú- animais nas ruas, só os que estão em más condições são blico com um processo sem resultados práticos que só recolhidos. A mudança evidencia o fracasso do projeto produz sofrimento.” “ que, ao invés de diminuir, aumentou o nú- É um lugar frio e triste, com cães amontoados deitados mero de cães nas ruas pelo abandono. De tão no cimento frio, desesperados e apáticos precário, o veterinário responsável pela Clí- nica Veterinária Clinvet, que executa o pro- grama de controle de cães e gatos, Édio Souza de Oliveira, proíbe imagens do abrigo. “Ele não está do Apesar disso, Oliveira não concorda em oferecer es- jeito que eu gostaria”, justifica. terilização a baixo custo. Ele acha que seria antiético Paulo Botafogo, presidente da ONG Fundo Vira-lata com a clínica dele e do outro veterinário da cidade co- de Garopaba, visitou o lugar. “O abrigo é tudo menos brar mais barato pela cirurgia. Na ética financeira, tal- um abrigo. É um lugar frio e triste, com cães amontoa- vez. Pois quem trabalha pela causa animal geralmente dos deitados no cimento frio, desesperados e apáticos.” não ganha um tostão, pelo contrário, muitos se enchem Cães confinados em celas minúsculas, sem sol nem de dívidas para cuidar deles. Há protetores em Imbi- espaço. Resultado de uma política que tenta esconder o tuba que, quando precisam de castração, enchem um problema da superpopulação. “Pensei que fosse limpar carro e vão a Garopaba. Lá, a ONG Fundo Vira-Lata as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, au- faz esterilização a baixo custo e campanhas de educa- mentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas ção. Em seis anos, a ONG tirou mais animais das ruas soltam mais”, admite Oliveira. do que qualquer canil tiraria. O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo da manuten-  ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Desde o início do projeto, Oliveira promete que dido a noção de que é um cachorro, num lugar vai construir um novo abrigo. O município não onde só vê paredes, acabou se confundindo com tem planos de bancar a construção. Se o abrigo uma. Outro que está na solitária é um vira-lata for construído por Oliveira, no terreno dele e com preto enorme. Ele olha desconfiado pelas frestas o dinheiro dele, será particular. E não se pode ba- da porta e late raivoso como se cobrasse a presen- sear um programa público de controle de animais ça do advogado. em um canil particular, pois o poder público pode No segundo andar fica o gatil. Seis gatos ficam abandonar o projeto assim que acabar o contrato deitados em meio a fezes e urina misturados na ou mudar de gestão. Outro problema de um canil areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito particular é que ele tira da população a responsa- higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha bilidade e a possibilidade de vigiar o que está sen- de areia. Normalmente não deitam na areia que do feito com os animais e com o dinheiro público. usam para fazer cocô. Mas não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. O con- Alguns cães latem e se jogam contra as grades, desesperados tato com as fezes de outros animais pode transmi- Quando o projeto começou, em outubro de tir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses. 2006, os responsáveis tentaram recolher todo ani- O gatil é um retrato da precariedade do abrigo. mal que vagasse pelas ruas, achando que dessa Culpar a população tornou-se um hábito forma acabariam com o problema. Para o abrigo, foi cedido um prédio abandonado no porto, que, Oliveira atribui os problemas do programa à toscamente adaptado, começou a receber animais. população. Sabe que deveria haver educação, mas Os canis são todos na parte in- admite que esse trabalho não existe. A 300 metros Juliana Frandalozo terna, sem acesso ao ar livre. No do abrigo de animais, está a Secretaria de Edu- pavilhão central, são dez baias, de cação de Imbituba. Dessa distância é impossível 2x3 metros, onde fica a maior par- não ouvir os latidos desesperados. Se nem como te dos cães. Sem luz solar direta, o cidadã, a secretária de educação, Leda Pamato de piso está sempre molhado. São até Souza, se interessou pelo abrigo, difícil esperar oito cães em cada baia, que tem algo além da indiferença. Ela afirma não poder um estrado de madeira onde eles fazer nada, pois não foi solicitada. se amontoam para dormir. Os tra- A coordenadora da Vigilância Sanitária, San- tadores colocam coleiras e corren- dra Mara Leal, reclama também dos municípios tes nos cães e os levam em grupos vizinhos. “Sabemos que eles enchem carros, kom- para tomar sol, acorrentados do bis, até barcos e vêm despejar tudo aqui em locais lado de fora do prédio. já conhecidos de abandono de animais”, revela. Qualquer coisa diferente gera Nesse jogo de empurra é muito fácil responsa- algazarra entre os moradores do bilizar a população, que realmente tem sua parce- pavilhão central. Quando algum la de culpa. Mas não se pode esperar que as cam- deles foge, os latidos dos que ficam panhas de educação se façam sozinhas. presos é ensurdecedor. De vez em Os responsáveis pelo projeto sabem que a popu- quando dá briga e o tratador vai lação deve participar, que o problema é de todos, separar. O último, que saiu, sepa- mas continuam tentando esconder os animais no rava os animais a pauladas. abrigo, mascarando com os números de adoção, No pavilhão central, alguns cães afastando a população da realidade ao mesmo latem e se jogam contra as grades, tempo em que a culpa de abandonar. Oliveira não desesperados, mendigando aten- queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, ção. Outros permanecem deitados, pois iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia com ar depressivo, acompanhando abandonar o projeto, que não estava tendo lucro de longe os visitantes. e só se incomodava. Para que o canil não se torne Na última sala do pavilhão cen- apenas um depósito de animais, o programa deve tral fica a solitária, onde estão os ser focado na castração e na educação, com incen- cães agressivos. Presos em peque- tivo ao voluntariado, ao invés de se buscar o lucro nas celas de 1 x 1,5 metro, eles ra- em cima de um problema público. ramente saem para tomar sol. Quem espera não somos nós, mas os pobres O mais veterano dos cães na animais confinados naquelas pequenas celas frias. ; solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. De- pressivo, não esboça reação, nem Juliana Frandalozo quando chamado. Parece ter per- dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Mão no peixe [repor tagem] Pescadores da praia do Campeche empunham os remos e saem em busca da tainha à moda antiga Iana Lua É uma manhã de ou- tono. O vento sul, característico da ilha, já sopra mais forte, batendo portas e jane- las. Vinte e quatro músicos de uniforme estão em for- mação carregando seus ins- trumentos dourados. Os da frente levam as partituras coladas nas costas, em caso de esquecimentos. O sinal do maestro dá início ao som e todos se põem a andar. A passos lentos, a procissão segue em direção à praia. Pescadores, moradores, reli- giosos e curiosos se apertam em meia pista de estrada de terra e arriscam a cantar. 1° de maio, dia dos tra- balhadores. Feriado na- cional desde 1925, esse é para a maioria das pessoas um momento de descan- É hora do almoço, e a temporada de pesca da tainha está so do batente. Mas não para os pescadores de tainha declarada aberta. da praia do Campeche na Ilha de Santa Catarina. Há Dia de pescador começa antes de o sol nascer. A tai- quatro anos acontece nessa data a missa que decla- nha não avisa quando vai chegar, é preciso estar sempre ra aberta a temporada de pesca. Nada melhor do que preparado. Às seis da manhã de um sábado, no final de celebrar o dia do trabalho pedindo por mais trabalho. maio, ainda estava escuro. Os postes de luz iluminavam O mar está cinza como o céu. As ondas carregam os a praia do Campeche, refletindo a espuma branca das “ surfistas que se aventuram na água fria e espumo- Dia dos trabalhadores é, para a maioria das pessoas, sa. Ao chegar à areia, a andança fica ainda mais lenta. Logo à frente há um riozinho que corre ao um momento de descanso do batente. Mas não para encontro do mar. Pouco a pouco, os presentes o atravessam sobre uma passarela de madeira que os pescadores de tainha da praia do Campeche não impede de molhar os sapatos. Em meio à res- tinga há uma clareira, o destino final da procissão. A vegetação do local foi retirada para a construção ondas. Fazia 12°C e o vento sul, soprando gelado por de um rancho, lugar onde os pescadores esperam pela debaixo das roupas, parecia imperceptível aos pescado- chegada do peixe. Entre a casinha de madeira e a canoa res que, de chinelos e bermudas, se aprontavam para de pesca, aglomeram-se cerca de 200 pessoas. De cima a pesca. Garotos com garrafas de cerveja sentaram na de um palco, montado para a ocasião, o padre celebra areia para ver o nascer do sol – o fim do dia para uns, o a missa. Na platéia distribuem folhas com os cantos, e começo para outros. timidamente, algumas senhoras começam a cantar. O barco está pronto. Retiram ele do rancho e o posi- Perto do palco, as vozes soam fortes acompanhadas cionam na areia apontando para o mar. Quinze homens pelos violões – Hosana nas alturas! Aleluia! Aleluia! estão em volta, conversando animadamente. Resolvem – dentro do rancho as mesas estão servidas com bolos, que ali não é um lugar muito bom. Com força começam pães e café. Alguns pescadores se empolgam na conver- a empurrar o barco e o levam pela areia até uma pon- sa, logo cortada por pedidos de silêncio. ta na praia onde a visão é mais ampla e ali o apontam Palmas indicam que a missa chegou o fim. Jornalistas novamente em direção ao mar. O dia começa a clarear. cercam as autoridades presentes em busca de fotos e ci- Uma massa homogênea de nuvens fofas e cinzas cobre o tações para suas matérias. Entre bolos e apertos de mão, céu. A praia fica perto do aeroporto – de dez em dez mi- a clareira começa a esvaziar. Na praia, surfistas passam nutos, o barulho de um avião quebra o constante ruído correndo com suas pranchas e roupas de borracha. das ondas. É o início de mais um dia de espera. 8 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • A pesca da tainha no Campeche é artesanal. Os um nadador, que traz até a areia uma ponta da rede. barcos não têm motor. O grande responsável por Tem ainda os camaradas, que são os pescadores que manter essa tradição é Getúlio Manoel Inácio, ou Seu puxam a rede, arrastando junto os peixes. Getúlio. O homem de 57 nos, pele escura, cabelos No fim da pesca, após contadas, as tainhas são grisalhos, de camisa de lã e chinelo de dedo, conta distribuídas ainda na areia entre aqueles que ajuda- que seu pai era pescador profissional e que, por isso, ram. Bem diferente do que acontece na maioria o contato com a pesca já veio do útero da mãe. Com das praias, onde o que sai da rede vai direto para as mãos cruzadas no colo, Getúlio fala mansamen- o caminhão frigorífico. Dependendo da função que “ executou, cada um recebe uma quantidade À tarde, o vento sul soprou mais forte. De longe se escutam de peixe. Até mesmo aqueles que não são pescadores e ajudaram, levam algum pra gritos: “Eeeeeeê” - é tainha na área. Tudo acontece muito rápido. casa. E assim é a rotina: chegar ao rancho com o raiar do sol e ir embora quando ele for Mal o barco entrou no mar e a rede já está toda estendida na areia também, sempre preparado para assumir seu posto e entrar em ação. te, como se tivesse o dia inteiro para finalizar um À tarde, o vento sul soprou mais forte. De longe pensamento: “Na semana santa meu filho preparou se escutam gritos: “Eeeeeeê!” – é tainha na área. uma tainha como se fosse um bacalhau. E sabe que Tudo acontece muito rápido. Mal o barco entrou no a tainha não perdeu em nada pro bacalhau?”. Além mar e a rede já está toda estendida na areia. As bar- de pescador, Getúlio é formado em Pedagogia, apo- rigas prateadas dos peixes refletem a luz do sol. Os sentado da base aérea, maestro da banda... e estu- pescadores comemoram, gritam e dão risada. Pre- dioso de Saint-Exupéry. Ele escreveu um livro sobre sas, as tainhas se debatem tentando inutilmente se as passagens do autor de O pequeno príncipe por Flo- livrar da fina rede. Transeuntes param para olhar, rianópolis e conta a história de como o francês e seu alguns espantados com o sofrimento dos peixes, pai se tornaram bons amigos. Homem mais novo de outros com cara de quem nunca viu e outros que- 15 irmãos, Getúlio herdou um dos ranchos quando rendo uma para o jantar. Duas crianças se engajam o pai faleceu em 1993 e, desde então, luta para que a em uma missão de resgate. Molham suas camisetas pesca artesanal não se acabe. no mar e torcem em cima das tainhas. “Eu vou te Passa um pescador correndo, olhando para trás salvar!”, grita o menino menor. e gritando: “Ô, ô, ô!”. Esse chamado é o bastante Mais de 30 pescadores ajudam a tirar os peixes para que logo em seguida vários outros se ponham da rede. Pegam três em cada mão e jogam em um a correr também. Surgem homens de todos os lados, monte que vai se formando na areia. A agitação pas- tiram chinelos e casacos, tomam os lugares e se pre- sou, agora o momento é de concentração. Os sorri- param para entrar em ação. Para deslizar o barco até sos são substituídos por caras compenetradas e os o mar são distribuídas toras de madeira pela areia gritos de alegria por gritos de ordens. Já sem forças, formando uma passarela. Conforme o barco vai pas- as tainhas cansam de tentar, agora apenas abrem e sando por cima das toras, os pescadores tiram as fecham a boca. “A pesca foi boa! Pra quem tava há que ficaram para trás e as posicionam mais à frente. 28 dias sem pegar nada!”, comemora com poucas Enquanto trabalham, todos falam alto e ao mesmo palavras, como a maioria dos pescadores, Fábio Eu- tempo, dando a impressão de que ninguém está re- sébio Daniel, patrão da canoa há cinco anos. De cha- almente se entendendo. Quando chegam à beira do péu e bigode brancos e calça de moletom molhada mar, pára tudo, um silêncio: a tainha mergulhou, até os joelhos, Eusébio anda de um lado pra o outro sumiu de vista. Sem perder o humor, os pescadores dando ordens. Tira as tainhas da rede e as coloca em posicionam outra vez o barco, pronto para a próxi- um canto: alguém passará para levá-las ao monte. ma, e recolocam seus chinelos e casacos. Fim da garimpagem: 523 tainhas, um número ra- As gargalhadas, as implicâncias, os jogos de zoável para essa temporada que não deu mais do que dominó, as pausas para o cafezinho, as andanças 2 mil em um lance só. No ano passado, chegaram a pela areia dão um clima de bagunça. Porém, é uma pescar mais de 4 mil de uma só vez. Já mais descon- bagunça organizada. A pesca na praia do Campeche traídos, os pescadores começam a recolher a rede. é dividida em três ranchos, lugar onde ficam guar- Entre risadas, conversas e brincadeiras, executam dados os equipamentos de pesca e onde esperam com naturalidade um trabalho que parece impos- pela chegada do peixe. O dono do rancho é tam- sível – fazer caber uma rede de 600 metros em um bém o dono do barco e da rede. Cada rancho tem barco de 11. Deixado de lado, o monte de tainhas, uma parelha, ou equipe de pesca. Dentro de uma sujas de areia, não brilha mais. O sol está se pondo. parelha, as funções são dividas: no rancho ficam o De longe ainda escutam-se as vozes dos pescadores. cozinheiro e o rancheiro, encarregado de cuidar do Depois de finalizar o trabalho, vão para casa torcer rancho; na areia ficam os olheiros que de cima das para que, no dia seguinte, a tainha resolva de novo dunas avistam o peixe; no barco vai o patrão, que aparecer. fica na popa dando as ordens e a direção, quatro re- Iana Lua meiros e o chumbereiro, que solta a rede. Devido às águas agitadas do Campeche, vai também no barco dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Da velha à nova Teresa [repor tag em] A privatização trouxe melhorias à ferrovia do carvão, mas nem a tecnologia pôde reaproximá-la da população do sul de Santa Catarina Laura Daudén À primeira vista, nada no centro da cidade de mineral, seu principal produto, chegasse aos portos e à Tubarão indica que por lá passavam os trens termoelétrica Jorge Lacerda (hoje controlada pela em- da antiga ferrovia do carvão. Os trilhos per- presa Tractebel). manecem bem guardados por casas e ruas Desestatizada em 1996, num momento em que o país estreitas e a antiga estação, entre tábuas e barracas de cedia 28,5 km de linhas férreas para a iniciativa privada, camelôs, é apenas um ponto de ônibus para quem des- a Teresa Cristina continua desempenhando um papel conhece sua história. É preciso olhar Tubarão por essas economicamente estratégico. Ela ainda é a única liga- frestas: por uma delas é possível ver a “ Os trens não passam mais pela avenida principal, ninguém cidade que, há 124 anos, ouviu o apito dos trens anunciando a modernidade e espera na plataforma para dar boas vindas, o carvão não se o progresso. Pessoas que durante toda a vida moraram em frente à linha fér- acumula em montes até a hora de carregar os vagões rea, como Maria Conceição Correa da Conceição, de 63 anos, ainda não viram a promessa cumprida. Para ela, uma das únicas mu- ção entre as carboníferas e a termoelétrica. Apesar de danças é que hoje, movido a diesel, o trem não deixa não estar em um período de decadência, como aconte- mais fuligem nas roupas do varal. ceu nas décadas de 1970 e 1980, já não há muitos laços Mesmo não pertencendo mais à rotina da cidade que liguem a nova ferrovia à população de Tubarão. Os – que, como o país, se rendeu ao automóvel - a ferrovia trens não passam mais pela avenida principal, ninguém Teresa Cristina deu forma às cidades do sul de Santa espera na plataforma para dar boas vindas ao time de Catarina. O crescimento da área urbana de Tubarão, futebol da cidade vizinha, o carvão já não se acumula como explica o arquiteto Rodrigo Althoff Medeiros, em montes até a hora de carregar os vagões. O que exis- sempre ocorreu em função do acréscimo ou decrésci- te, sim, é uma lembrança, um pouco idealizada quem mo da atividade ferroviária. Apesar da atuação estri- sabe, e que a cada apito leva Maria Conceição para o tamente regional, ela permitiu a integração dos mu- tempo em que ia de Barbacena a Laguna no banco de nicípios da região e abriu caminho para que o carvão tábua da segunda classe. 0 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • A história e a lembrança represente seu suporte econômico, o transporte de pas- O trem que levava Maria da Conceição foi batizado sageiros, cargas e encomendas lhe dava vida e a tornava em homenagem à imperatriz Thereza Christina Maria importante no contexto regional”, afirma. de Bourbon, esposa de Dom Pedro II. A ferrovia que le- Apesar da expansão – puxada em grande parte pelo vou seu nome, de Araranguá a Imbituba e de Treviso a surgimento da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) Tubarão, foi inaugurada em 1884. O grandioso empreen- em 1941 e pela instauração da lei que obrigava as empre- dimento liderado pelo Visconde de Barbacena foi finan- sas do país a utilizarem um mínimo de 20% de carvão ciado pelo capital inglês que, nessa época, desfrutava da nacional – a maioria dos contratos firmados no fim do abertura do mercado brasileiro e dos tratados firmados século XIX começou a vencer entre as décadas de 30 e 50, com a corte portuguesa (e, posteriormente, com a brasi- o que postergou os serviços de manutenção e acelerou a leira). Seu principal objetivo era escoar a produção do deterioração das vias e dos trens. O descaso foi acentuado carvão mineral que, descobriu-se, era de boa qualidade. pela entrada da indústria automobilística e pelo investi- O historiador e geógrafo Dorval do Nascimento con- mento pesado na construção de rodovias. A estratégia foi Fotos: Laura Daudén ta em seu livro As ampliada pelo governo militar: era preciso ocupar o ter- curvas do trem, de ritório brasileiro em menos tempo e com menos gastos. 2004, que o rebu- Assim como outras 17 ferrovias brasileiras, em 1957 liço criado com a Teresa Cristina passou a fazer parte da Rede Ferroviá- a construção da ria Federal S.A. (RFFSA). Silvio dos Santos, professor de Estrada de Fer- Engenharia Mecânica e gerente de infra-estrutura aqua- ro Dona Teresa viária da Secretaria de Intra-Estrutura de Santa Catarina Cristina (EFDTC) (SIE), afirma que, além de ser mau operador, o governo trazia a promes- colocava entraves burocráticos para que os problemas sa de desenvol- de cada setor fossem resolvidos e para que a manuten- vimento e su- ção fosse feita devidamente. Isso teria levado as ferro- plantava a época vias brasileiras a um processo de sucateamento. Em antiga com a “su- 1996, dentro do plano de privatizações do presidente premacia técnica Fernando Henrique Cardoso, esse foi um dos argumen- do homem e a tos levantados para que as estradas de ferro passassem superioridade do para empresas privadas. industrialismo”. No poema A via Uma nova ferrovia férrea, de 1880, o Hoje, a velha ferrovia tubaronense é administrada português João pela Ferrovia Teresa Cristina S.A., que está sob controle de Lemos traduz de seis acionistas. Através de algumas ações pontuais, o sentimento: como a distribuição de brinquedos nas comunidades “Que vem além, carentes que se formaram ao longo dos trilhos, a empre- no horizonte? / sa busca uma reaproximação com a população. Ainda Que rebentou assim, a distância quase asséptica da nova gestão em re- nesse monte / lação à vizinhança afasta a FTC de pessoas como Maria Em carreira tão da Conceição, que só soube da privatização por meio veloz, / Parece de boatos. Mesmo morando em um terreno cedido pela enorme serpen- antiga empresa ao seu pai, funcionário da ferrovia por te / Sibilante, 32 anos, ela nunca recebeu visita dos atuais administra- monstro ingente dores. O neto brinca entre os trilhos abandonados que, / Raivoso, dire- em algum ponto, desembocam no museu ferroviário da to a nós / Oh? cidade, enquanto seu filho Luciano reclama do mau es- Pavor estranho tado de conservação da área. / Oh? Fantástica Em contraponto aos indícios de abandono e indife- visão / Da cabe- rença em relação à estrada férrea de que falam mãe e ça sai-lhe fumo / filho, em maio deste ano o governo federal abriu a licita- Da boca aceso carvão”. ção para que seja feito o projeto da ferrovia litorânea. Se As linhas foram expandidas até os anos 1940, seguin- concretizada, a obra de 236 km vai ligar os quatro portos do os momentos de pico na produção de carvão. Tam- de Santa Catarina à malha ferroviária nacional, inves- bém nessa época teve início o transporte de passageiros, timento do Programa de Aceleração do Crescimento que durou até 1971. Por muito tempo, a ferrovia foi o (PAC). Depois de anos de desencontros na política de principal meio de transporte da população e ainda, fator transportes brasileira, a velha idéia da ferrovia como determinante para o assentamento dos imigrantes que motor do crescimento ressurgiu. Mesmo que saia do constituíam comunidades no sul do estado. Dorval do papel, Maria não tem com que se preocupar: suas rou- Nascimento, que conviveu durante muitos anos com os pas não ficarão sujas com a passagem do trem e nenhum trilhos, acredita que quando o transporte de passagei- apito vai atrapalhar o sossego de sua varanda com vista para os trilhos. ; ros foi extinto, a estrada de ferro se desligou das pes- soas e de suas necessidades. “Tornou-se uma ferrovia que só transporta carvão. De fato, ainda que ele sempre Laura Daudén dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • SC aposta na produção de software [repor tagem] Empresas de TIC do estado unem forças para aumentar sua representatividade nos mercados nacional e internacional F alar sobre tecnologia da informação e comuni- universi- cação, conhecida pela sigla TIC, é como querer dades, com abraçar o mundo com as pernas. Esse promissor o objetivo setor industrial desenvolve desde pequenos sen- de gerar in- sores que detectam a umidade do ar e alertam o agri- formações cultor sobre possíveis alterações do tempo, a centros de inteligentes processamento de dados que possuem uma capacidade para subsi- incalculável de armazenamento de arquivos, contando diar a for- com segurança de última geração. No entanto, o setor mulação, de TIC possui o software como produto de base mais implantação comum. Segundo pesquisas internacionais, esse seg- e avaliação mento industrial será responsável pelos maiores índices das políti- de crescimento na economia global nos próximos anos. cas indus- Esta tendência pode ser observada também no Brasil, triais, as onde o setor de informática cresceu 40% entre 2000 e ações institucionais e as iniciativas empresariais em 2007 e tem no estado de Santa Catarina um dos prin- nível local, regional e, posteriormente, nacional. Com cipais celeiros brasileiros de empresas de desenvolvi- o intuito de unir o útil ao agradável, o IEL/SC optou mento de software. pelo setor de TIC para ser o projeto piloto do estado. O segmento de tecnologia da informação e da comu- “O PLATIC realizou um mapeamento do setor no início nicação em Santa Catarina existe há 20 anos e é caracte- de 2002, através de pesquisas e relatórios de um labo- rizado por pequenas e médias empresas concentradas ratório especializado da UFSC. Com isso, as indústrias em três principais pólos tecnológicos: Florianópolis, de TIC já estavam um passo a frente dos demais seto- Joinville e Blumenau. A maioria dessas empresas inicia res do estado para a conformação da metodologia dos sua vida produtiva em incubadoras, que são instituições ODIs. E como a Plataforma previa como meta a estru- “ responsáveis pelas companhias até que elas O PLATIC ganhou o Prêmio Dorgival Brandão Júnior do adquiram capacidade financeira para andar com as próprias pernas. A fim de ampliar a programa do Ministério da Ciência e Tecnologia competitividade das representantes catari- nenses do setor e para se transformarem em negócios de classe mundial, desde 2006, 49 empresas de turação de observatórios tecnológicos, optamos pelo TIC de Santa Catarina estão se organizando numa plata- setor de TIC para o desenvolvimento do projeto” ex- forma denominada PLATIC. Coordenado pelo Instituto plica o superintendente do IEL/SC, Natalino Uggioni. Euvaldo Lodi (IEL/SC), o projeto é apoiado em 12 metas. Com o financiamento do instituto, organizou-se uma Mais de 300 colaboradores das companhias integrantes equipe formada por três alunos da UFSC e três mem- da Plataforma tiveram acesso a treinamentos em diversas bros do IEL/SC. O grupo realizou oficinas de pros- áreas como desenvolvimento de software, processos de te- pectiva estratégica, a fim de estipular dados sobre o lecomunicações, precificação, propriedade intelectual e ges- setor no estado. Com isso, os empresário catarinenses, tão do negócio. Essas metas de capacitação ficaram sob res- representantes do segmento, puderam perceber a exis- ponsabilidade de instituições de ensino como universidades tência de outros pólos desenvolvedores pelo estado, e centros de qualificação profissional, como por exemplo a como em Chapecó, por exemplo. Além disso, puderam Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o SENAI. identificar problemas como a falta de mão de obra qua- Em junho deste ano, o PLATIC foi premiado em pri- lificada e a alta mortalidade de empresas. As maiores meiro lugar no Prêmio Dorgival Brandão Júnior, concedi- empresas do estado – Dígitro, Intelbrás e Datasul – não do pelo Programa Brasileiro da Qualidade e Produtivida- aderiram à Plataforma. Por isso, a equipe dos ODIs ba- de em Software, da Secretaria de Política de Informática do seia-se em cálculos matemáticos para estipular alguns Ministério da Ciência e Tecnologia. dados importantes, como foi o caso do faturamento bruto anual do setor, estimado em R$ 3,52 bilhões. Unindo o útil ao agradável O PLATIC permite que as empresas se organizem No início deste ano, foi instituído pelo IEL nacional enquanto setor, que em 2007 conquistou um arranjo e pela Confederação Nacional da Indústria a progra- produtivo local, o que o torna segmento preferencial mação de observatórios de desenvolvimento indus- em financiamentos do governo. Além disso, políticas trial, conhecidos por ODIs. Cinco estados, Bahia, Mi- industriais estão dando tratamentos diferenciais ao se- nas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tor de TIC, já que seu produto possui um alto valor deviam, então, escolher setores produtivos que funcio- agregado e acarreta uma mão-de-obra extremamente especializada. ; nassem como projetos piloto desses observatórios. A atuação dos ODIs envolve a participação efetiva de atores estratégicos como federações, associações, Cora Ribeiro 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • No banco dos réus [repor tagem] Repórter da Ponto-e-vírgula testemunha o início do julgamento do ex-ditador argentino Luciano Benjamín Menéndez e seus subordinados A ntes de o julgamento começar, enquanto as 160 trado. “Eu tenho memória, muita memória”, desabafa pessoas entram no tribunal e vão ocupando as ela depois de passar pela barreira da polícia e ir em di- cadeiras reservadas, um grito forte de mulher reção ao tribunal. “Meu filho tinha 21 anos quando pe- ecoa na sala: “Chegou a hora!”. Alguns minu- garam ele e minha vida é dividida em antes e depois de tos depois, às 10h34 de uma terça-feira fria de maio, na seu desaparecimento. Se eu pudesse olhar nos olhos do cidade de Córdoba, Argentina, tem início a sessão que assassino eu ia perguntar onde ele colocou meu filho. vai julgar oito ex-militares. Eu quero saber onde ele está, eu tenho o direito mater- Entre os réus, um senhor de 80 anos se destaca. Im- nal de saber”, emociona-se. Ela não consegue terminar passível e sem cruzar as pernas como fazem seus com- de conversar com os jornalistas e entra chorando no sa- panheiros, seu blazer cinza repousa no colo enquanto guão principal. os olhos fixam a bancada dos juízes. Os jornalistas que Ao ver a multidão de repórteres, microfones, gra- o observam são tentados a descrever os olhos daquele vadores, câmeras e luzes, muitas luzes em sua dire- senhor com o clichê “olhos de águia”, mas essa descri- ção, Valeria Chávez parece confusa e atordoada. Sem ção não vai aparecer no jornal do outro dia, assim como saber muito bem para que lado olhar, ela responde a também não estará o xingamento de um radialista ao todas as questões calmamente, sem vergonha dos observar Luciano Benjamín Menéndez: “Olha como está olhos marejados e da voz embargada, nem quando al- velho, o filho da puta!” guém pergunta o que ela diria a Menéndez. “Não sei Fora do prédio do Tribunal Federal de Córdoba, a se lhe diria algo”, respondeu. “Eu não quero me en- polícia fecha o quarteirão para evitar a proximidade de contrar com ele. Nada me vai devolver o que eu per- mil manifestantes, a maioria composta por estudantes e di, mas acho que a justiça vai sanar um pouco minha militantes de partidos de esquerda. De dentro do edifí- dor e a dor de muitos que estão na mesma situação.” cio é possível escutar as músicas de protesto: Humberto Brandalisis e Hilda Palacios, a mãe de Va- “Olé, olé... Olé, olá. Vení, Menéndez, vení, mirá. Los leria, foram fuzilados junto a Carlos Enrique Lajas e ao subversivos cada día somos más!” pintor Raúl Cardoso, todos militantes do Partido Revo- Luciano Benjamín Menéndez está sendo julgado ao lucionário dos Trabalhadores (PTR). lado de sete ex-militares, “dignos subordinados”, nas pa- No segundo dia do julgamento, sete acusados se lavras do próprio Menéndez, que atenderam a suas ordens reservam ao direito de permanecerem calados. Mas de 1975 a 79 no Terceiro Corpo do Exército, organização Menéndez opta por falar. Pega o microfone, desdobra “ responsável por dez das 23 províncias argentinas durante um papel, tira os óculos e começa a leitura, primeiro dizendo que o tribunal era incompeten- Os réus estão protegidos por uma peça de vidro blindada, que te para julgá-lo. “A lei vigente quando a subversão em nada impede o insulto gritado pela irmã de um desaparecido marxista iniciou o assalto a nossa pátria durante a ditadura: ‘Covardes, assassinos, torturadores’ afirma que eu teria que ser julgado por um tribunal militar”, argumenta, con- centrando toda a atenção dos presentes a última Ditadura Militar argentina (1976-83). Ele, porém, na sala, sem referir que seu reclamo foi rechaçado por parece alheio às manifestações, ou já se acostumou a elas. juízes de primeira instância e tribunais de alçada. Com Agora ele está sentado no último banco à direita da sua voz levemente rouca, ele continua: “Sou o único res- primeira fila. Os réus estão protegidos por uma peça de ponsável da atuação da minha tropa. Por isso, a meus vidro blindada, que em nada impede o insulto gritado dignos subordinados daquela época, não se pode acusá- pela irmã de um desaparecido durante a Ditadura. “Co- los de nada e muito menos privá-los da liberdade”. vardes, assassinos, torturadores. Senhores juízes, por Luciano Benjamín Menéndez se convenceu de que favor, façam justiça”, clamou enquanto o presidente do fazia parte de “forças legais responsáveis por enfrentar tribunal, o juiz Jaime Díaz Gavier, a repreendia, expul- e vencer o terrorismo marxista”. Ele, junto com os sete sando-a da sala. “Eu não vou permitir manifestações de acusados, pensa que os antigos militares, “soldados vi- nenhuma natureza. Estamos em um julgamento”, res- toriosos”, como disse, não deveriam sentar-se no banco pondeu o magistrado. indigno dos réus, afinal de contas “venceram os terro- Organizações como H.I.J.O.S., Avós da Praça de Maio ristas subversivos que assaltaram o país porque não ou Familiares de Desaparecidos e Detidos por Razões Po- acreditavam nas instituições republicanas”. líticas (FDDRP) lutam há muito tempo para levar os ex-di- O julgamento começou no dia 27 de maio de 2008. tadores ao banco dos réus. Emilia Dambre é uma senhora Três meses depois, Benjamín Menendez foi condenado da mesma idade de Benjamín Menéndez. Teve dois filhos à prisão perpétua em cárcere comum. A pena dos ou- desaparecidos e, a partir daí, começou a militar no FDDRP. tros sete “soldados” varia entre a prisão perpétua e 18 “Quando comecei a buscar meus filhos é que passei a ver o anos de reclusão. Em 5 de novembro de 2008, outro mi- que eles defendiam e vi que tudo pelo que eles lutavam era litar argentino, o ex-coronel Alberto Barda, de 80 anos, para chegar a um mundo melhor”, conta Emilia. foi condenado à prisão perpétua por crimes cometidos no centro clandestino de detenção La Cueva, em Mar del Plata, Buenos Aires. ; “Nada vai me devolver o que eu perdi” Assim como Emilia, Mercedes Toloso de Bustos não vai esquecer nunca do dia em que teve seu filho seqües- Pedro Santos, de Córdoba, Argentina dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Os cachecóis [crônic as] N ão, não se tratam dos acessórios promoções das Americanas, com aquelas típicos de inverno. Mas digamos capinhas baratas). E, por favor, se você tem que sem eles a indumentária des- o cachecolismo como uma meta não ouse co- tes personagens não teria a mesma mentar novelas, é uma premissa fundamen- graça. A aparência, apesar da espiritualidade tal do Código. Mesmo que tenha assistido, cachecolenha, é o traço identificador do gru- finja que não sabe quem é a Donatella e passe po. Podemos somar a este charme europeu longe de programas de auditório. Outro pre- transportado aos trópicos – o cachecol de ceito fundador são as aversões às listas dos fato – uma boina, um paletó anos 70 (sem “dez mais vendidos”; estas gôndolas devem esquecer que pelo menos uma destas peças ser repudiadas quando se entra na sua me- tem de ser estampada em xadrez) e o tênis, gastore favorita para comprar alguns títulos obviamente, da marca All Star. Para se ter “fundamentais em qualquer biblioteca”, para uma idéia da expressividade do grupo, al- enfeitar a prateleira. Prefira edições da Cosac guns deles chegam até mesmo ao Ministério, Naify, nem que para isso tenha que empe- mas nem por isso se sentem intimidados na nhar seu iPod repleto de músicas de bandas escolha das estampas de seus coletes. inglesas que só você conhece. No cinema, são Aqui me permito um parêntese etimo- terminantemente proibidos filmes america- lógico, o que me faz quase entrar para o nos. Como vocês sabem, eles emburrecem. “ clube. Talvez depois disso eu só tenha que pesquisar mais sobre filmes eslovacos dos Não menos indispensável do que a indumentária é falar anos 40, e serei um deles. Lá vai: palavra de fora de contexto e citar autores dos quais se leu apenas o origem francesa (!), cachecol vem de “ca- cher”, que significa esconder e “col” que prefácio, ou se tem um profundo conhecimento wikipediano quer dizer colo ou pescoço. Posteriormen- te, claro, ganhou outras conotações, como a que agora trataremos. Retomando: não menos indispensável Salve da lista David Lynch e Woody Allen do que a indumentária, é falar fora de con- em suas fases não comerciais. texto e citar autores dos quais se leu apenas Um cachecol que se preza deve transitar o prefácio, ou se tem um profundo conheci- pelas mais variadas manifestações de arte. mento wikipediano – aqui se dão bem aspas de É claro que cada um tem as suas especifici- Nietzsche, divagações sobre Kafka, e se quiser dades, mas se não entender muito de teatro, se parecer com um mortal, vale citar Nelson digitar “distanciamento brechtiano” no Goo- Rodrigues. Mas, enfim, o êxtase da vida de gle resolve muitos problemas. Nas artes plás- um cachecol só pode se completar através da ticas, basta colecionar os fascículos de Caras, sociabilidade, que se dá apenas entre os seus tendo sempre o cuidado, claro, de queimar pares. O convívio social é tão vital ao cachecol as revistas depois. É indispensável gostar de por ser o momento de mostrar na terça-feira pop art, especialmente de Andy Warhol. Para o que aprendeu na segunda, sempre fingin- mostrar ao mundo sua cultura, o cachecol se do a naturalidade de já dominar o assunto há utiliza do amigo serigrafista, que estampa ca- tempos. Bebendo Heineken – ou Glacial, em misas com ícones pops ou frases em inglês. caso extremo, quando se encontram em situ- Se o atrevimento for muito grande, as frases ação financeira desfavorável (o que adoram podem ser em alemão ou francês. Em litera- alardear, apesar de serem sustentados pelo tura, os russos são sempre uma saída para pai funcionário público) – sobram Godards e maiores embaraços, mas, se mesmo assim ilustração: a.pizarro Truffauts, que na maioria das vezes não che- nada resolver, vale dizer que tudo vem dos garam a ser vistos por aqueles olhos reves- gregos. Se não leu o livro em questão, finge tidos pelos indispensáveis óculos de acetato. que leu, pede pra ir ao banheiro e corre com- À cerveja soma-se o cigarro. Aos charutos prar o exemplar. Passa o olho pelo prefácio e, partem somente depois dos 40, em caso de no dia seguinte, retoma o assunto, com toda cachecolismo crônico. a propriedade. Logo, cafés, botecos imundos, universi- O mundo cachecol, apesar de parecer um dades públicas, cinemas falidos ou qualquer universo paralelo, penetra diversas esferas de lugar a meia-luz empestado de fumaça são nossa vidinha cotidiana. Se você anda com um pocket do Leminski cuidadosamente visí- autênticas cachecolândias. Além das lições diárias que se pode tomar rapidamente vel, costuma cheirar o vinho antes de beber googleando, muitos dos assuntos das rodas e dizer que ele é encorpado, ou freqüentar de cachecóis recaem sobre o que é proibido büfetts de sopas, talvez seja um deles. Não é segundo o código do bom comportamento de todo ruim. Mas tenha a decência de parar antes da boina e do paletó. ; cachecol. A televisão, por exemplo, seria um aparato completamente dispensável, não fosse o dvd – as remasterizações da Versá- Bruna de Paula til então, são imperdíveis (não se admitem  ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Vida a dois [c rô n i c a s ] V iver a dois é algo complicado e inevitável. Despediu-se da carreira em Roland Garros, em Porque não vivemos a dois apenas no que maio. O torneio, o mais importante disputado so- diz respeito a um companheiro ou com- bre saibro no mundo, deu a taça a Guga por três panheira. Há várias vidas a dois. A dois, vezes, em 1997, 2000 e 2001. O menino, que aos 20 entre nós e nós mesmos. A dois com o corpo. A anos levantou o troféu francês pela primeira vez, dois com a profissão. A dois com o chefe ou o co- ganhou a admiração de brasileiros e fãs do tênis lega de trabalho. A dois com o pai e a dois com em todo o mundo, virou homem. E como sempre a mãe. A dois com o lugar onde moramos, onde acontece na vida adulta, precisa agora se despedir. nascemos ou nos criamos. E em todas essas vidas a Guga diz que ainda não sabe o que vai fazer dois, há sempre rupturas. Há sempre um dos dois depois que parar de competir. Mas sabe que não que precisa partir, que precisa ficar, que precisa vai deixar o tênis pra lá. Quer se dedicar ao Insti- seguir ou que precisa parar. É uma morte, ainda tuto Guga Kuerten, que atua com inclusão social que não seja física. É uma morte, ainda que ela dê de deficientes, aliando esporte e educação. O pro- origem a outra vida. jeto mais recente da instituição, lançado em 16 de Aos 31 anos, Gustavo Kuerten, o Guga, enfrenta maio, com patrocínio do Banco do Brasil, vai bene- agora uma série de rupturas em suas vidas a dois. O ficiar mais de 500 jovens em Santa Catarina, esta- ex-primeiro lugar do ranking mundial rompe sua do natal do tenista. E ele quer is mais longe, quer vida a dois com a carreira de tenista profissional. atingir outros estados. Mesmo fora das quadras, o Com o tênis, o relacionamento continua. Não vai brasileiro certamente continuará a levar sorrisos a ser treinador, ele já disse, mas quer levar “a alegria seus compatriotas. do tênis para as pessoas”. Alegria da qual ele pode Pelo treinador Larri Passos, que acompanha ilustração: a.pizarro falar muito bem, pois conhece desde os 6 anos. Guga desde os 14 anos, gratidão é uma palavra que Com jeito de menino, muitas vezes tímido, não dá conta. Respeito e admiração talvez ajudem a o cabelo cacheado às vezes mais comprido e às entender. Se a relação se rompe entre tenista profis- vezes curto, Guga conquistou o mundo. Nascido sional e treinador, certamente não acabará fora das em Florianópolis, conhecida como Ilha da Ma- quadras. Algumas vezes as relações a dois são múl- gia, e onde mora até hoje, o tenista espalhou seu tiplas e, nessa multiplicidade, se uma dessas facetas encanto com o jeito simples que parecia dizer a se desfaz, as outras ainda permanecem. Como mu- quem quisesse ouvir: seja simples, seja sincero, dê dam as pessoas, mudam suas relações. Gratidão, seu melhor e você será feliz. respeito e admiração, no entanto, são imutáveis. “ Mas o carismático Guga deixou de ser feliz a E é imutável também a essência desse menino que mostrou o tênis para a maioria dos brasilei- Há sempre um dos dois que precisa partir, precisa ficar, ros. Em seu site, Guga resume: “Sonho em estar muito feliz, com muita saúde para todos, e estar que precisa seguir ou precisa parar. É uma morte, ainda que sempre curtindo as coisas que faço”. Às vezes, não seja física; ainda que dê origem a outra vida uma relação a dois se vai, mas sempre outras se aproximam. Guga se despede da carreira de tenis- ta profissional, mas não se despede de si mesmo e dois com seu corpo. As primeiras brigas com o do que acredita. Que você seja mesmo muito feliz nas suas novas vidas a dois, garoto. ; quadril direito começaram em 2001, e culminaram com uma cirurgia em 2002. O relacionamento do tenista estava comprometido e, embora em 2004 Déborah Salves ele tenha tentado mais uma vez salvar a relação, as coisas nunca mais foram as mesmas. O trem da morte C hacoalha, chacoalha, chacoalha... Que dia de Chacoalha, chacoalha, chacoalha... sorte esse! Cá estou eu, no Trem da Morte, Pelo menos o trem não é perigoso, nem seus pas- adentrando os confins da Bolívia e desven- sageiros. Os viajantes, em sua maioria, apenas es- dando sua realidade. Passa do meio-dia de peram o tempo passar. Não fosse pelos incontáveis uma abafada terça-feira de janeiro, quando o trem dá vendedores que sobem no trem entre uma e outra início a sua viagem de Puerto Quijarro, na fronteira de suas também incontáveis paradas, não se ouviria com o Brasil, até Santa Cruz de la Sierra. muito barulho fora o “chacoalha, chacoalha” inter- - Empanadas! ¡Água fria, limonada! ¡Empanadas! minável da viagem. Isso na teoria. Na prática, os tur- Quantos berros! São as cholas, algumas em seus istas brasileiros, em grandíssimo número, fazem uma trajes típicos, carregando cestas enormes nas costas bagunça digna de uma excursão de escola primária. e que, entre uma estação e outra, tiram seu sustento Isso sem contar aqueles que representam muito bem o da venda de alimentos, refrescos e chás aos viajantes. país ao entrar sem pagar ou furar a fila nas estações. Normal, se não fosse tão grande o número de crianças Chacoalha, chacoalha, chacoalha... vendendo também. O Trem da Morte escancara seus vários anos de dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • viagens na sua simplicidade e lentidão. uma mulher descalça embala um bebê [crônic as] As pessoas humildes e de aparência so- sentada no espaço entre os dois vagões. frida e principalmente, a paisagem erma Outra criança dorme ao seu lado no chão. e isolada, proporcionam um ar bucólico e Chacoalha, chacoalha, chacoalha... prazeroso ao trajeto. O trem da morte segue. Quero dormir, Chacoalha, chacoalha, chacoalha... mas não dá. Quando o sono tenta engre- A situação muda à medida que o pôr- nar, o trem parece chacoalhar mais. Faz do-sol esconde a pacata paisagem e seu de propósito. Os mosquitos me sugam povo. Toda a beleza da viagem dá lugar o sangue. Cadê o repelente? Já não é a outro sentimento não tão prazeroso: apenas para os insetos atrevidos, mas são seis horas da tarde e a viagem só também um ótimo refresco para a pele acaba às nove horas da manhã seguinte. nesse calor infernal. É o Trem da Mor- Pela janela, agora vejo apenas escuridão. te. Não acredito em inferno, mas se A penumbra dos vagões revela sua fei- por um acaso ele existe, é para lá úra e maus cuidados. Essa viagem vai que o trem vai. - ¡Café brasileño, té, manzanilla! demorar demais. - ¡Manzanilla, té, manzanilla! - ¡Empana- Amanhece. Agora as vende- das! ¡Empanadas! doras oferecem café aos turistas. No silêncio noturno, aquelas vozes Uma mãe com duas crianças ao voltam a se digladiar com as mesmas pa- meu lado ainda tenta dormir no lavras. Será mesmo que havíamos anda- corredor, e reclama de quem “ do alguma coisa? Não pensava em beber passa. Não acredito, mas vejo nem comer nada. Além do medo da pro- o sol. E com ele Quero dormir, mas não dá. Quando o sono tenta cedência dos alimentos, não queria usar o a paisagem, as banheiro do trem. Nada pessoal. É apenas plantas, as casi- engrenar, o trem parece chacoalhar mais. Faz de pelo fato de que não há vaso, somente um nhas esporádi- propósito. Os mosquitos me sugam o sangue buraco no chão que dá para os trilhos e cas, tudo volta e uma torneira suspeita com uma mensa- dá vida de novo gem escrita em vermelho: “Água não-po- à viagem. Espe- tável”. rança! - ¡Água fria, limonada! ¡Empanadas! ¡Em- Chacoalha, chacoalha, chacoalha... E pára. panadas! Chegamos! Após vinte e uma horas de Uma das mulheres passa oferecendo viagem, as coisas já não parecem tão ruins, limonada. Nada demais até aí, se não fos- e os maus momentos viram lembranças se pelo fato da limonada estar num balde apenas. Seria ótimo encarar tudo aquilo de limpeza. Agora, sim, que eu não bebo como tradição ou folclore de um povo vi- mais nada! zinho. Não consigo pensar assim. O Trem da Morte merece o nome que tem. ; Chacoalha, chacoalha, chacoalha... Era um caminho ao inferno. Algumas pessoas dormem no chão, outras tentam, Lucas Sarmanho outras esperam. Ao lado do banheiro, Isto não é uma crônica É parodiando Foucault, para não dizer “quase duas horas em frente ao espelho pensando no que plagiando”, que começo este texto. Sejamos fazer. Nem eu me agüento por tanto tempo. Mas na francos: isto não é uma crônica. Depois de ficar crônica a gente pode inventar, exagerar, criar detalhes duas horas em frente ao espelho tentando me para realçar o conteúdo. Aliás, esse negócio de ficar se “ convencer de que eu estava trabalhando em um jornal, olhando no espelho é meio narcisista. Muita frescura pro meu gosto. Então, a partir de agora, nem passei na Só escrevi a crônica porque achei que seria mais fácil que frente do espelho. Quem estava lá era só o meu refle- uma grande reportagem. Terrível engano, dada minha quase xo. Outra coisa: só escrevi a crônica porque achei que seria mais fácil do que fazer uma grande reportagem. nula desenvoltura do lado direito do cérebro. Ou seria o esquerdo? Terrível engano, dada a minha quase nula desenvol- tura do lado direito do cérebro. Ou seria o esquerdo? Sou canhoto, será que a minha “metade criativa” é a e que tinha um público a quem destinar meus caracte- esquerda também? res, foi que me dei conta disso. A mais pura verdade é Aliás, já que estamos falando de trabalhos acadêmi- que meu público-alvo é o professor e que isto é um tra- cos, e não de crônicas, tenho uma observação a fazer: balho acadêmico. E a pior parte é que eu não trabalho não sei por que existe uma seção no trabalho só para em jornal algum. Mas, então, o que eu deveria escrever falar dos objetivos pretendidos. Poderiam os alunos para conseguir nota máxima? Contar uma piada? Uma preencher que o objetivo é tirar dez? Com exceção situação engraçada pela qual passei? Creio que isso de pesquisas que têm propósitos realmente nobres e não provaria que eu entendi o que é uma crônica. interesse sincero dos pesquisadores, grande parte Posso começar contando que eu não fiquei de fato dos trabalhos é entregue exclusivamente para cum-  ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • [c rô n i c a s ] prir obrigações. Ou alguém acredita que se o trabalho acadêmico não fosse compulsório, todos o fariam? Eu seria o primeiro a não fazer. Eu amo a vadiagem. O Domenico de Masi ama a vadiagem. E ele ganha rios de dinheiro escrevendo sobre isso. Minha intenção aqui não é desconstruir nenhum conceito. Essas reflexões pós-modernistas são muito do professor, que certamente reconhecerá meu árduo intelectuais para mim. Se me perguntarem o que é esforço e dedicação para com a sua disciplina. Ou eu posso começar a pensar o tema da próxima crônica. ; crônica, eu respondo que é a minha situação no final de cada semestre, e pronto. Já posso dizer que algu- ma coisa eu aprendi na faculdade! Mas caso tudo dê Celso Rondon Filho errado e meu texto não mereça aprovação, só me resta contar com a compreensão e o grande senso de justiça Sobre voar: Entre a decolagem e o pouso, e vice-versa T entei recortar a silhueta da ilha no horizonte api- . nhado de prédios da capital paulista. As nuvens Assim como me apaixonei por São Paulo em quatro logo atravessaram o caminho antes de eu con- dias, num dezembro passado, apaixonei-me por aero- seguir contar com precisão quantas construções portos e aviões em dez viagens, com direito a narração das atividades dos flaps e do recolhimento dos trens de daquelas caberiam na área total de Florianópolis. . pouso, na voz de meu pai. Amo decolar. Adoro estar so- Em meio a pessoas correndo e avisos de embarque zinha em um aeroporto. Só não tenho coragem de pagar imediato, saí um metro além da porta do aeroporto para dez reais por um café com pão-de-queijo; guardo os bis- coitinhos da companhia aérea para esses momentos. ; respirar o ar da cidade. Me pareceu romântico: a idéia veio com meu sentimento caro à metrópole. Ali estavam reunidos os fumantes, mas não foi essa fumaça que ins- Carolina Faller Moura “ pirei. Ao voltar para o ambiente fechado senti a tolice em querer encher os pulmões de tal atmosfera cinzenta. . Alguém acredita que já pilotei de Rio do Sul ao Marquei em meu bloquinho enquanto comia o san- litoral? Claro, sem pouso nem decolagem. Só de duíche do serviço de bordo: ao longo de 17 anos (desde os meus dois), foram quatorze vôos internacionais e vin- olho no nível e no altímetro, brincando de acenar te domésticos, salvo engano. Deixei de fora escalas na Cidade do Panamá e passeios de teco-teco; incluí o vôo no qual então me encontrava. . “Manche e pedal, manche e pedal” – ouvindo essas palavras balancei as asas do Luscombe, o avião do meu pai, como que acenando para alguém perdido nos cam- pos abaixo. Alguém acredita que já pilotei de Rio do Sul ao litoral? Claro, sem pouso nem decolagem. Só de olho no nível e no altímetro, brincando de acenar. . Na final para o pouso, pensei sobre a possibilidade de explodir em algum galpão do aeroporto. Nos vôos internacionais, geralmente me imagino caindo no oce- ano. Mas não tenho medo. Desde criança brigo pelo lu- gar à janela, e o consegui no meu caminho ao aeroporto de Confins. Olhei para o horizonte de certa forma belo, porém o mesmo horizonte anuviado da viagem toda. ilustração: Alexandre Tcheto Não vi prédio algum; a pista realmente fica nos confins. dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Ficam informações e vão-se reflexões [crônic as] Com o aumento da velocidade em que as informações são produzidas, o jornalismo sofre com fontes mal-intencionadas e dados não apurados B arulhos de tiros, bombas. Muitos podem mo é uma constante durante todo o dia, se almoça pensar que estes são os sons que os jorna- e se janta notícia, não há descanso, não há como se listas mais temem. Ledo engano. Repórter desligar da informação. Não se está jornalista, se é de guerra é um dos postos mais cobiçados jornalista. Sem pausas, sem intervalos, sem férias pelos profissionais da notícia (chique, né!). O som (Mamma mia!). que arrepia qualquer jornalista, que o faz angus- E o tempo. Não ajuda nem um pouco! Talvez seria tiar-se, estressar-se é... Ainda não descobriram? preciso multiplicá-lo para que se pudesse cumprir Tic tac tic tac tic tac… Sim. É o tique-taque do todas as leituras, reflexões e pesquisas que um jor- relógio que tira o nalista deveria e gostaria sono de nossos de fazer. Parece que não bravos heróis (esta há saída. Quanto mais r eye eu aprendi com horas um dia tivesse, is G lov o Bial). O tempo mais horas um jornalis- :C ção tra para o jornalismo ta trabalharia. (Muitas ilus é o vilão mais per- vezes sem remunera- verso. Nem a cen- ção extra, fazer o que!). sura provocou tan- E a falta de tempo para to estrago quanto apurar e redigir produz a falta de tempo mais um agravante, o para apurar, redi- de confiar demais nas gir e editar uma declarações e dicas das matéria, seja ela de fontes, publicando, sem TV, rádio, internet tempo para checar infor- ou impresso. mações, matérias falsas, Com a globali- as famigeradas barrigas zação, a internet e jornalísticas (Aí fu!). o acesso facilitado Quem não se lembra do aos produtos dos boi-mate? Ou do bebê meios de comu- do demo? nicação, o tempo O que concluímos parece ter acele- com isso? Que todo jor- “ rado. O jornalista nalista é maluco. Talvez. Que não recebe o quan- O tempo para o jornalismo é o vilão mais perverso. Nem a to deveria, e normalmente não tem tem- po para sua vida pessoal. Mas que, mes- censura provocou tanto estrago quanto a falta de tempo para apurar, mo assim, mesmo a revelia do tempo, redigir e editar uma matéria, seja de TV, rádio, internet ou impresso das condições políticas ou financeiras do veículo para o qual trabalha, segue a cumprir seu papel social de informar, acumulou funções. Além de ter que trabalhar com a relatar e reportar o que a realidade apresenta como foice do dead line (linha de morte ou hora da morte, novidade. como preferem os mais pessimistas) à espreita, pres- Vamos lá pessoal, não é para desanimar também. tes a “cortar cabeças”, pés de textos e até matérias Se fossem apenas “trevas” não existiriam tantos jor- inteiras, o jornalista deve estar atento às diversas nalistas por aí. Garanto que há uma compensação. mídias para se considerar minimamente informado. Vivenciar um momento histórico para o seu país, Ler todos os jornais diários, as revistas semanais de ajudar a se fazer justiça com uma investigação jorna- maior tiragem, assistir aos telejornais dos principais lística bem feita ou mesmo levar o desconhecido ao canais (não só nacionais), ouvir as rádios noticiosas grande público faz com que o valha a pena. O tempo e ler os sites de notícias. Ufa! continua a não ajudar, mas, como diria Darwin (pro- Devido a isso, angústia, estresse e tensão são la- fundo!) o homem tem a qualidade de se adaptar, o jornalista então, nem se fala. ; tentes na vida de qualquer jornalista. Muitos che- gam a dizer que não se trata de uma profissão e sim de uma devoção, um sacerdócio. Amém. O jornalis- Bárbara Dal Fabbro 8 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Não, jornalista, você não é Deus [ar tigo] O profissional que lida com fatos e informação está sujeito a tropeços e não há punição eficaz para seus erros. Mas liberdade tem limite Hugh MacLeod A pergunta que circula na O artigo 11º, por exemplo, proíbe a internet brinca com a pro- divulgação de informações de ca- fissão daquele mediador ráter mórbido, sensacionalista ou de informação e formador contrário aos valores humanos, de opinião pública. Um internau- mas não há como assegurar seu ta ironiza: “Caro amigo, sua per- cumprimento. gunta é instigante. Minha resposta, Lei de Imprensa também aplicável aos médicos, é a seguinte: quando entram na fa- Os crimes contra honra – de culdade acham que são deuses. difamação, injúria e calúnia – tem Quando saem têm certeza”. Outros penas previstas no Código Penal diriam que o profissional acredi- de um, três ou seis meses de deten- ta que é “Deus no céu e o jornalista na Terra”. ção. Quando a ofensa é veiculada a milhares de pessoas, Em crise com a própria existência, o jornalista não a vítima se sente mais lesada, o que deveria aumentar a encontra na universidade a resposta para “qual o papel pena do autor do crime. Neste argumento foi embasada do jornalista?”. A pensadora portuguesa Cristina Ponte, a Lei da Imprensa (nº 5.250/67). no seu livro Leituras das Notícias (Editora Livros Hori- Criada durante a Ditadura Militar, em 1967, a lei pos- zonte, 2004), critica aquelas respostas pré-fabricadas. “É sui aspectos negativos, muitos vistos neste ano na bata- o historiador do presente”, “É o vigilante do espaço pú- lha judicial entre a Igreja Universal Reino de Deus e a jornalista da Folha, Elvira Lobato. A reportagem “Igreja blico”, “É o provedor dos mais fracos”, “É o mediador entre fonte de informação e público”. Fazer jornalismo Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, deve ser algo além, diria Ponte. Sabemos ser difícil, para em 15 de dezembro de 2007, teria ofendido os religiosos. não dizer impossível, ser apenas mediador – buscar uma O ministro do STF, Carlos Britto, suspendeu a vigência informação e entregar na mão do receptor sem juízo de de diversos artigos da Lei de Imprensa que motivaram valor. O ser humano é um ser cultural, diria o jamaicano os fiéis da Igreja a mover 89 ações contra o jornal. Hoje, Stuart Hall, escritor do livro A identidade cultural na pós- 35 delas já foram sentenciadas favoráveis à Folha. modernidade (Editora DP&A, 2005). O lugar onde cres- O jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça ceu, a relação com sua família, o que estudou (ou não), no governo FHC, lembra que “não se deve estranhar a “ todos os pontos influenciam a maneira pessoal de ver o proposta de uma lei especial, pois onde não há lei pró- pria, há capítulos e disposições específicas aos Vocês, editores, dão-nos o direito de relatar as notícias crimes praticados por meio da imprensa”, como acontece na Itália, em Portugal e na França. “De de uma forma independente e deixam-nos em paz, e em troca 191 países da ONU, a grande maioria tem algum não vos causaremos demasiados incômodos nas notícias tipo de lei sobre a imprensa”, diz o advogado José Paulo Cavalcanti. No Brasil, fatos como a Escola Base, ocorrida mundo, e do jornalista, conseqüentemente, de enxergar há 14 anos, ainda correm na justiça. A matéria publicada no jornal Folha da Tarde, do Grupo Folha, com o título a informação de um ponto de vista próprio. O americano Jay Rosen, escritor do artigo Para além da “Perua escolar carregava as crianças para a orgia”, acu- objetividade, diz que o jornalista vive em paz negociada. sou os donos da escola de abusarem sexualmente das “Vocês, editores, dão-nos o direito de relatar as notícias crianças. Condenados pela opinião pública, Icushiro e de uma forma independente e deixam-nos em paz, e em Maria Aparecida Shimada, Maurício e Paula Milhim troca não vos causaremos demasiados incômodos por Alvarenga foram presos e depois tiveram sua inocên- introduzir a nossa política nas notícias”. Rosen defende cia comprovada. O filho de um dos casais, hoje com 18 a busca pela verdade através da separação entre o fato e anos, conseguiu indenização no valor de 200 mil reais. A Globo foi condenada a pagar R$ 1,35 milhão, a Folha e os valores, a informação e a opinião, e a notícia e o ponto Estadão R$ 750 mil e a revista IstoÉ R$ 360 mil. de vista. Hoje, esta idéia está desgastada. Os jornalis- tas insistem que não existe objetividade, “mas tentamos Como afirma o norte-americano Philip Meyer, escri- tor do livro A Ética no Jornalismo, “colecionar histórias de agir com eqüidade”, como se o discurso jornalístico fos- se matematicamente balanceável. horror sobre os delitos jornalísticos é fácil, mas avançar A relatividade do discurso não deve ser a justificati- na direção de uma cura racional para os problemas da va para deixar de lado uma possível busca pela verda- profissão é muito mais difícil”. A criação do órgão fiscali- de, mesmo que esta seja também relativa. O jornalista é zador – o Conselho Federal de Jornalistas – encontra bar- uma das únicas profissões no Brasil sem um órgão fisca- reiras no ego do profissional que acredita que sua liber- lizador, capaz de caçar um registro profissional por uso dade é máxima, esquecendo que toda liberdade encontra limite no direito do outro. Jornalista, você não é Deus. ; indevido da mídia. A Federação Nacional dos Jornalis- tas (Fenaj) possui um código de ética, mas a maioria dos artigos não possui dispositivo capaz de estabelecer pena. Juliana Sakae dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • Rua Colônia Santana, sem número [repor tagem] O endereço do Hospital Psiquiátrico que caminha consciente da possibilidade de seu fim Á rea rural de São José (SC), há 22 km de Florianó- tria deixou de prescrever. Nessa época, a Colônia foi as- polis. Velocidade máxima de 40 km/h para um sumida pela Fundação Catarinense Hospitalar - órgão trânsito de carroças, bicicletas e alguns carros. da Secretaria da Saúde de Santa Catarina que até hoje Dois ônibus passam a cada meia hora. Muitas mantém o hospital - e começou a ter enfermeiros com casas simples, poucas lojas pequenas. Morros e vegeta- formação ou, pelo menos, experiência na área de doença ção exacerbada. E, de um dos lados da rua, o maior hos- mental. Aparelhos de eletrochoque, afirmou a enfermei- pital psiquiátrico de Santa Catarina. É de um azul forte ra Stahiln, hoje, só no museu do Ipq. por trás de um pátio com várias árvores e de uma fonte O Instituto de Psiquiatria desenvolve diversas ativi- que não jorra água; ao lado, uma ponte, agora quebra- dades com os pacientes, muitas de terapia ocupacional da, mas que antes dava acesso a uma das unidades de e outras ligadas ao lazer e educação. Uma das terapias moradia do hospital. Na recepção, duas pessoas e um realizadas no Ipq é a dos “paninhos”. Os pacientes pre- cartaz, “Visitas: quinta e domingo das 14 às 16 horas”. param retalhos para serem usados na limpeza de carros, O ambiente de entrada do hospital corresponde ao se- oficina mecânica e posto de gasolina. Também são fei- tor administrativo: direção, recursos humanos e residên- tos tapetes, trabalhos com tear e cerâmica. Os produtos cia médica. Mais adiante, a sala da educação física, com são vendidos e uma parte da renda fica com o mora- equipamentos de musculação e aeróbica, é aberta tanto dor e a outra serve para cobrir os custos da produção. para os pacientes quanto para os profissionais. Uma por- As atividades de lazer são o bingo, realizado toda ta ao fim do corredor dá para o restante do hospital, que quinta-feira e a tarde dançante, nas sextas. Há também a se distribui numa área aberta com construções indepen- bioenergética – prática que trabalha a energia para a inte- dentes - do lado direito, a moradia, do lado esquerdo, a gração entre corpo, mente e espírito -, a cozinha terapêu- internação, e, no meio a pessoa responsável pela segu- tica – em que o paciente ajuda com o cardápio e prepara- rança: uma mulher relaxando recostada numa cadeira. ção dos alimentos de sua unidade -, além de exibições de A rua onde se localiza a instituição não mudou de filmes em espaço adequado dentro da sala de atividades. nome – “Colônia Santana” -, mas o hospital, sim. Em O setor de pedagogia disponibiliza aulas para aqueles “ 1994, passou a se chamar Instituto de Psiquia- A medicação era liberada indiscriminadamente, como o tria do Estado de Santa Catarina (Ipq). Nes- se mesmo ano, foi dividido entre moradia e Haldol, o ‘sossega-leão’, que dificulta a deglutição e pode internação, por exigência do Ministério da Saúde. “O serviço de internação psiquiátri- levar à morte por asfixia ca tem a função de tirar o paciente da crise e devolvê-lo para a sociedade, é de curta per- manência, as atividades são mais rotineiras e as visi- pacientes com condições de aprender a ler e a escrever. tas restritas. Já na moradia, as pessoas devem residir O momento de escola é o único em que os pacientes no local, assim as atividades servem para estimular usam uniformes. No cotidiano, as roupas são as padroni- a melhora e as trocas com a comunidade, e as visitas zadas pela Secretaria da Saúde. Nos trajes dos morado- são liberadas”, explica Luiz Gonzaga Cardoso, psicó- res - moletons, pijamas camisolas, etc. -, é colocada uma logo e coordenador da sala de atividades do hospital. etiqueta com o nome de cada um do lado de dentro. Essa Na unidade de moradia são ao todo 290 leitos, divi- mudança aconteceu devido ao estigma dos doentes que didos em sete unidades – quatro masculinas e três femi- antes tinham o emblema do Ipq estampado nas roupas. ninas – localizadas no Centro de Convivência Santana Os pacientes da unidade de internação não têm seus (CCS). Conta com cerca de 15 auxiliares de enfermagem nomes nas etiquetas das roupas, mas sim o nome do que ajudam o enfermeiro responsável no dia-a-dia. A hospital, pois permanecem pouco tempo lá. Eles podem “Moradia das Rosas”, feminina, tem quartos separados, participar somente de algumas das atividades realiza- com duas camas cada. Os cômodos têm decoração, há das no Ipq, como o bingo, e têm uma rotina diferente. guarda-roupas e as camas são cobertas com edredons Hoje, a internação possui 160 leitos, pois um número floridos. As moradoras da unidade têm bastante auto- maior configuraria um macro-hospital especializado, o nomia, algumas se trocam e comem sozinhas. De acor- que é proibido no Brasil. Há grande rotatividade dessas do com a enfermeira Roseli Stahiln, os medicamentos camas – média de permanência de 30 dias por paciente que os pacientes com transtorno mental tomam são os – para que não haja aumento excessivo do número de neurolépticos, os estabilizadores do humor, os antide- leitos-chão. Na internação, há uma equipe multidiscipli- pressivos e os anticonvulsionantes, que são necessaria- nar para atendimento dos doentes: além dos auxiliares mente combinados com as terapias, já que por lei a me- técnicos e enfermeiros, há psicólogos, psiquiatras, um dicação não pode ser o único tratamento nesses casos. terapeuta ocupacional e a residência médica. A unidade de internação é fechada, há necessidade de N ão foi sempre assim. Até meados dos anos 70, os tocar a campainha para entrar. Os quartos também são tratamentos dispensados aos pacientes da Colô- individualizados, mas não há tanta estabilidade nessa nia Santana incluíam o eletrochoque e a insulina, para unidade quanto na de moradores; os pacientes entram aqueles que corriam risco de suicídio ou para depressão em surto com mais freqüência. Em 30 de maio, a divisó- severa. Esse parou de ser o padrão quando a enferma- ria de um dos quartos estava quebrada, um paciente em gem se recusou a fazê-lo, e, por conseqüência, a psiquia- crise havia derrubado durante a noite. Pela manhã, um 20 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • rapaz advertia sobre seu aniversário à equipe multidis- do paciente ao longo dos dias. “Um paciente foi en- ciplinar. O enfermeiro, sorrindo, perguntou: “Agora contrado em surto e agitado e as enfermeiras registra- você faz aniversário todo dia?”. ram o acontecido no prontuário. O psiquiatra, ao ler o registro, aumentou a dose da medicação. Nos dias H á apenas uma unidade de internação feminina. As seguintes, as enfermeiras descobriram que, na verda- pacientes não são separadas de acordo com a pato- de, o paciente estava jogando fora a medicação, então logia; há mulheres com dependência química, esquizo- passaram a dar outra dose no café da manhã, sem co- frenia ou depressão pós-parto, por exemplo. “Não sei municar o psiquiatra. Assim, o paciente estava toman- se as mulheres escondem mais... tem muita mulher que do uma dose dupla do medicamento e acabou ainda bebe em casa”, comentou Stahiln. pior”, relata Strapazzon. O procedimento para internação segue o seguinte C caminho: o doente é encaminhado ao pronto-aten- elso* é filho de uma moradora e um funcionário do dimento do hospital, na maioria das vezes por um Ipq. Seu pai estuprou sua mãe. Nasceu ali e ainda médico de posto de saúde ou de ambulatório, algu- quando era criança foi adotado por uma família. Ao co- mas vezes pela família, outras pela empresa e até meter seus primeiros deslizes e, por sofrer o estigma de mesmo pela polícia. O doente é dirigido à triagem, ter nascido no hospital e ser filho de uma paciente, foi que corresponde a uma avaliação feita pelo psi- tachado como louco e devolvido à instituição. Hoje ele quiatra de plantão, enquanto o serviço social entre- vive no centro de convivência 3 masculina e tem apro- vista a família, se ela estiver presente. Praticamen- ximadamente 45 anos. Não sofre de problema mental te todos os pacientes que chegam são medicados. algum, mas se comporta de maneira muito parecida Na internação, eles são acompanhados diariamen- com todos os moradores com os quais convive. te pela residência. Na moradia, o atendimento médi- Um dos maiores problemas de uma instituição de co é mais escasso. O psiquiatra visita uma unidade caráter de isolamento, como o Ipq, é a fragmentação por uma ou duas horas por semana para dar conta de da identidade sofrida pelos moradores que perma- todos os moradores, o que resulta numa consulta de necem muito tempo no hospital, conhecida como dois ou três minutos. Os psiquiatras atendem a parte processo de cronificação. Os fatores que garantem do transtorno psíquico, ajustando o medicamento, e, a identidade são padronizados nesse ambiente; não quando necessário, o clínico geral trata de outras pos- há bens pessoais, não se escolhe a hora de dormir, de síveis patologias. comer, de levantar, ou o que vai vestir. É necessário André Luiz Strapazzon estagiou no Ipq de abril permissão para tudo, como fumar, ir ao banheiro ou de 2003 a abril do ano seguinte e conta que naquele gastar dinheiro e não se pode responder a nada com período viu a medicação ser liberada indiscrimina- agressividade, pois esse será um motivo para castigo. damente. Ele é formado em psicologia pela Univer- Assim, alguns indivíduos “não conseguem verbalizar sidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e relembra seu próprio nome, conhecer um colega de unidade a experiência na 7ª unidade de moradia e na sala de que convive a anos com ele, ou mesmo precisar sua atividades. “O mais comum era o Haldol, conheci- idade, data de nascimento, ou outro dado de seu pas- do como ‘sossega leão’, que minimiza os reflexos do sado”, é o que afirmam o psicólogo Luiz Cardoso e corpo, dificultando a deglutição. Muitas pessoas não a psicóloga Angelita Macedo, em trabalho, de 2002, têm dente e, quando elas vão comer um pão, por sobre o Centro de Convivência Santana. exemplo, podem engasgar-se e se não conseguem A exclusão social, o isolamento e suas conseqüên- ajuda, morrem por asfixia.” Na primeira semana no cias são alguns dos questionamentos do Movimento hospital, Strapazzon viu uma pessoa morrer assim, da Reforma Psiquiátrica. O MRP surgiu em 2001 para e, num ano de trabalho, soube de pelo menos dois contrapor-se ao modelo psiquiátrico vigente até então, outros casos parecidos que ocorreram na internação. centralizado em manicômios. Não questiona só espaço O curto período de presença do psiquiatra acarreta físico, como também a concepção do sofrimento psí- uma má comunicação entre os profissionais do Ins- quico como uma entidade fundamentada em um dis- tituto; entre aqueles que prescrevem a medicação e túrbio de ordem biológica, passível de diagnóstico. Na aqueles que a aplicam e observam o comportamento teoria, há vários tipos de doenças mentais, como esqui- zofrenia, depressão ou bipolaridade, mas quando observados na prática, os pacientes e até seus sin- tomas acabam muito parecidos devido ao processo de cronificação. Em 2006, o Ministério da Saúde propôs uma política de diminuição dos leitos psiquiátricos. O objetivo maior é acabar com os manicômios, como foi feito na Itália em 1978. A partir de 2010 não vai mais ser paga a AIH de internação (Autorização de Internação Hospitalar) – uma verba fornecida pelo Ministério proporcional a cada guia de paciente re- gistrada. Mas o fim dos manicômios ainda gera po- lêmica. “A psiquiatria representa a manutenção do status quo, pela qual o hospital segue até hoje uma lógica manicomial. Eles estão mudando isso agora porque são obrigados por lei”, explica Strapazzon. dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: 2 www.revistapontoevirgula.com
    • A resistência por parte do Ipq vem diminuindo. da psiquiatria para o cidadão comum”, afirma Walter Para Walter Ferreira Oliveira, líder do Grupo de Pes- Oliveira. quisa em Políticas de Saúde/Saúde Mental da UFSC, Sobre a possibilidade de resolução dos problemas a consciência de que não há volta resultou numa maior referentes à doença mental e o fim dos manicômios, o flexibilidade por parte do hospital. Há um grupo de psiquiatra foi direto: “Se quiser, resolve hoje, mas se trabalho da Secretaria da Saúde para pensar a desins- você olhar para a política de Florianópolis com relação titucionalização das instituições psiquiátricas de Santa à saúde não dá pra ser muito otimista. Ano passado Catarina, mas, paralelamente, o próprio Ipq começou quase 1 milhão de reais foram investidos em terminais a fazê-la e convidou Oliveira para ser consultor do de ônibus, e no show de Ano Novo com a Ivete Sanga- processo. “Já existem três casas com pessoas que tem lo a gente pagou um milhão e meio; o dinheiro existe, condições de viver e ganhar seu dinheiro (próximas se quiser investir na saúde tem como”. ao Ipq), mas há pessoas nessas condições e que ainda ; estão dentro do hospital. As residências terapêuticas Marina Veshagem teriam que ser montadas e administradas pelo Estado, que intermediaria o processo até as pessoas poderem se virar sozinhas”, verifica Oliveira. A alternativa à internação psiquiátrica é o atendi- mento nos CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. A primeira diferença é que as pessoas não moram no CAPS, elas permanecem em suas casas, ou em alber- O contexto da fundação do Ipq: gues, e vão ao local durante o dia de acordo com sua vontade. Ali, elas participam de oficinas, e, assim como exclusão, loucura e trabalho no hospital psiquiátrico, têm atendimento da Assistên- cia Social, da Enfermagem, da Psicologia e da Psiquia- O Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina tria também. São três tipos de CAPS, de acordo com o foi criado em 1941, num contexto de uma política nível da população: 1, até 70 mil habitantes; 2, para 70 higienista que seguia o modelo europeu, iniciado a 200 mil; e o 3 para grandes metrópoles, com a caracte- no Brasil principalmente com a vinda da Família rística de funcionar 24 horas por dia e fazer internações Real Portuguesa em 1808. A primeira instituição de pequenos períodos. psiquiátrica do país foi criada em 1852, o hospício Florianópolis possui quase 400 mil habitantes e ape- Pedro II. A preocupação das autoridades públicas nas um CAPS 2. Para Oliveira, “a coisa está muito ar- e sanitárias brasileiras, e também de Santa Cata- caica, devia ter pelo menos uns quatro ou cinco CAPS rina, estava em separar os “alienados” do resto da aqui”. O CAPS 2 não atende durante a madrugada, as- população considerada “sadia”, aquelas economica- sim há necessidade de os hospitais gerais como HU e mente ativas e pertencentes às elites políticas locais. Celso Ramos terem leitos psiquiátricos para atenderem No Brasil todo foram construídas colônias de trata- eventuais surtos de pessoas com transtornos mentais. mento na periferia, fora dos centros urbanos. Não O maior problema enfrentado no processo de reinte- havia intenção de curar, mas sim de excluir do con- gração de pacientes na sociedade é a falta de uma rede vívio aqueles considerados indesejáveis, perigosos, de suporte fora do hospital. Em 2005, no Programa Na- loucos. Antes da fundação da Colônia Santana, havia cional de Avaliação de Serviços de Saúde (PNASS) a duas instituições de assistência aos doentes mentais: nota do Ipq foi 9,4, o que, para o psicólogo Luiz Gon- o Hospício do Dr. Schneider, em Joinville, e a Santa zaga, representa uma contradição. “A internação psi- Casa de Misericórdia de Azambuja, em Brusque. quiátrica é um momento da rede, que se completa pelo A Colônia Santana veio suprir as necessidades do serviço municipal de saúde, pelo apoio das famílias e Estado de possuir um hospital psiquiátrico, já que da comunidade. A pessoa sai da crise, não é assistida e havia uma grande demanda de doentes mentais. entra em crise novamente. Então é uma maravilha que Todos os pacientes de Azambuja e do Hospício do não funciona, uma roda-viva detonando com a vida Dr. Schneider foram transferidos para a Colônia das pessoas.” Santana, que tinha mais estrutura para agregar Os pacientes saem da internação com uma quan- os doentes. Entretanto, no dia da inauguração, o tidade de medicamentos para dez dias e uma receita, Hospital tinha 331 pacientes para 310 leitos. Nessa mas a maior parte das famílias é carente e não têm época, a idéia já era tratar os doentes e devolvê-los condições de comprá-los. Vários dos remédios são dis- à sociedade, de acordo com a nova concepção da ponibilizados pelo SUS, mas não os mais novos. Esses loucura, dentro da lógica capitalista, que pretendia a medicamentos mais recentes não são tão agressivos recuperação para a utilidade social. como o Haldol, mas ele é bem mais barato e resolve o Para as teorias psíquicas da época, o trabalho problema em curto prazo. “A esquizofrenia, por exem- seria o grande regenerador social e psíquico. A plo, corresponde um nível alto de dopamina no corpo melhor forma de disciplina, além dos remédios e o Haldol diminui esse nível. No entanto, um nível e dos eletrochoques como forma de controle dos muito baixo de dopamina já significa o Mal de Parkin- “sintomas da loucura”, era o trabalho. Hoje, o Ipq son; assim, quem toma Haldol por tempo prolongado não segue mais essa lógica. Os pacientes atendi- pode apresentar sintomas de Parkinson, como a treme- dos apresentam diversos distúrbios mentais, que deira”, explica Strapazzon. variam de neurose até franca psicose; dependentes A inexistência da rede de apoio às pessoas que so- químicos e pacientes com epilepsia são também frem de doença mental e os mitos que giram em torno internados. delas - como o da periculosidade e da improdutivi- dade – resultam no fato de que “o grande elo da psi- quiatria ainda é o manicômio, a grande representação *o nome foi alterado a pedido dos médicos para preservação da privacidade do morador. 22 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • “Eu sou minha vó renascida” [entrevista] A Ponto-e-vírgula entrevista Erich Voyager, andarilho e violinista, à mesa de um bar entre filosofias, causos e Terra Brasilis “S Pedro Santos e eu jogasse essa caixa de violino no colo de vocês, vocês es- perariam ouvir o som que saísse dela?” Com essa intrigante pergunta, Erich Voyager, como se auto-intitula em home- nagem à sonda espacial, o músico me abordou no terminal da Lagoa. Depois de uma performance extravagante, revezando o cigarro ora entre as mãos, ora na boca, subi no ônibus de volta para casa. Dali a me- nos de uma semana, numa segunda à noite, eu estaria sentado no bar Cat’s tomando cerveja e ouvindo histórias desse talentoso e excêntrico violinista. Sempre irreverente e de gestos largos, a barba e o cabelo compridos e grisalhos refletem bem sua essência. Gaúcho de Santa Maria, largou a Odon- tologia para se aventurar pelo mundo e ganhar a vida tocando violino. Para ele, sua relação com a música precede a esta vida e acredita ser a reencarna- ção da própria avó, que também era violinista. Seu primeiro contato com o instrumento foi aos nove anos de idade. Morou em uma comunidade naturista no interior de Goiás, fez parte de um grupo de teatro infantil em Brasília, vagou uns tempos pela Argentina e se encantou pelo Canto da Lagoa na Ilha de Florianópolis em 98. Na época da ditadura, integrou o Partido Revolucionário Comunista e, hoje, acredita que a política é uma utopia – prefere dedicar-se exclusivamente à arte. Ele define sua relação com o mundo como “erótica libidinal” e procura viver intensamente todos os momentos. Canceriano, está sempre disposto a se solidarizar com o próximo. Levanta a bandeira da liberdade em todos os sentidos e procura respeitar ao máximo os direitos alheios. Tenta viver sem- pre um dia de cada vez. E assim, consegue enxergar a beleza mais remota nas coisas mais simples. Após cinco horas e vinte e poucas garrafas de cerveja, a entrevista pro- duzida através do método etílico consagrado pelo Pasquim se estendeu ma- drugada afora. O que começou com um brinde à liberdade, terminou com o que parecia uma descontraída conversa entre dois velhos amigos, bêbados. tava no hospital, saía o sangue que tava É, nem sempre. Às vezes eu também sigo Ponto-e-vírgula - O Erich Klein acumulado por um lado, e por outro, en- uns assim de Bakunin. Às vezes, eu chu- nasceu em Santa Maria e de trava sangue e antibiótico com penicilina to o balde. onde surge o Erich Voyager? EV - A minha loucura vem da filosofia. cristalínica em gotas. ; - Chuta em que sentido? Saí pra ver, chega daquelas paredes me É, porque tem que chutar. Porque o co- ; - E onde você levou a facada? apertando. Aí vem o lance astral do ca- Levei aqui (levanta da mesa e ergue a ração tá assim, entendeu. Tem que se en- ráter de cada pessoa. Têm pessoas que camisa mostrando a cicatriz no peito), só tregar. Às vezes também, é claro, fazer a não conseguem, entram por um tempo não pegou o coração porque a costela des- leitura se tua batida naquele dia não tá mas depois não funciona pra ela. Ela vai viou pra cima o ramo ascendente da aorta. legal, daí é melhor ficar em casa. Tem adoecer, tomar coisa pra dormir, é uma que ter esse desconfiômetro que dá a ; - Em que ano que foi isso? mística do Heinfield. Foi em oitenta e... oito. possibilidade de tu saber teu limite e ler o limite alheio (pausa para beber). Não ; - E qual é a mística do Voyager? ; - E como foi que aconteceu isso? A receita completa é assim, ó: dente de Briga de rua, desentendimentos de...mal ser um cara ortodoxo. ‘Ah, porque isso alho, limão, uma colher de sobremesa de entendidos na verdade. Mal entendidos. que é o certo e qualquer coisa fora dis- mel, raspa de gengibre e uma colher de so não concordo’. E você se fechar numa ; - E como você reagiu depois? Pensou sopa de babosa. De manhã em jejum e à ilha, né. Uma época eu até viajava assim, em ir atrás do cara? noite antes de dormir, fazer o tratamen- Não, não. Inclusive tive a capacidade porque eu sou fumante, né. to a cada 45 dias que dure três, quatro de encontrar o cara numa boate e disse ; - Você fuma desde quando? dias de tratamento matou a cobra. Serve ‘Desculpa fui eu mesmo que comecei a Desde os 19 anos. Estou com 45 agora como uma vacina geral pra tudo quan- história’ e o cara ‘Pô’. Anos depois, vi o (faz uma careta). to é mal infeccioso, aí você pode colocar cara mudado, tipo assim: calça integral e Vê uma Terra Brasilis então pra mim, aí umas folhinhas de hortelã, porque é um casado. Isso é banal de longe assim, en- marca essa aqui pra mim, sem gelo (para vermífogo potente (pausa para beber). tendeu. Consegui romper aquela coisa o garçom que trazia outra cerveja). So- do Cristo, né. Deu num lado, dá a outra rinho extra, sorinho bom. Tem sempre ; - E dos remédios convencionais você face (virando o rosto pra direita e depois o... (dá uma talagada na cachaça). Teve não é muito fã, não? Esses dias quando tive uma crise de ciáti- pra esquerda). E nisso tu exercita coisas uma época que eu tava na Eco 92. Inclu- ca, tive que tomar uns relaxantes muscu- do entendimento, o perdão, a compaixão sive a Agenda 21 é lida com um colega lares. Claro, tomo. Se tiver uma (grunhe) que é um princípio búdico. meu tocando. Cid Moreira leu a Carta violenta de infecção vou tomar antibi- 21 no encerramento da Eco 92, que foi ; - E você procura seguir esses princípios ótico. Uma época eu levei uma facada, o grande evento de magnetização em na tua vida? dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: 2 www.revistapontoevirgula.com
    • cima da questão da diversidade biológi- Formado e deformado. O lance da Odon- conceitos, não tive só aquela formaçãozi- ca da natureza, sexual e etc. No segundo tologia era porque meu avô, meu pai e nha de conservatório e partitura. dia de Eco 92, eu tô numa fotografia no meu tio-avô eram dentistas. Quando eu ; - Você saiu de casa com quantos anos? O Globo, tocando. Com uma camiseta era criança eu subia no colo dos pacien- Saí quando me formei em Odontologia, dos Freaky Brothers, de chapéu espanhol tes do meu pai. Já via a odontologia des- em 85. Devia ter me formado no final de (risos) na frente do lance dos homosse- de criança. Eu curto. Parei por esse lance 84. Aí eu saí. Depois voltei. Saí, voltei. xuais. Mas o pessoal bateu aquela foto das paredes e da ambição. A ambição Fora mesmo, fora da casinha inclusive, casualmente. Bom, ‘violinista histérico também é um lance que...A ambição... (risos) ‘quando é que você saiu de casa?’ na frente da barraca da liberdade sexu- foi em 98. Em 98, saí da casinha. (risos). (Um amigo de Erich, que está na mesa, al’. Os Freaky Brothers que é o negócio pergunta em que dia ele nasceu). ; - E como é a relação com a tua família? da liberação da maconha, das drogas. Do 18 de julho de 1963. Distante, mas amorosa, né. Meus pais faça o que queira. moram em Santa Maria. Mas ficou disso- ; - Canceriano. Canceriano, do clube do gato, por isso nante nossa postura perante a vida. Eu tô ; - E qual é a relação que você tem com que eu venho no Cat’s. No signo naquela turminha do Nietzsche que ele todas essas formas de expressão? Desde chinês eu sou gato. fala, “Um dia seremos milhões, né”. Esses de drogas... Erótico libidinal!. No sentido da libido, solitários, ou sei lá, a coisa meio Bakunin. ; - Voltando ao que do Freud , que é a energia imanente de você estava falando ; - Você sempre foi assim? tudo que se faz existir e erótica no sen- Sempre. Sou o caçula, tenho uma dife- de ambição... tido de Eros. Como no mito de Eros, Quando eu vendi rença de sete anos dos meus irmãos. Ter a questão psicológica dela é o estilo de tudo, queria ir pra visto eles que que romperam, né – dei- Alemanha e bá. No vida e Tanatos que é o estilo de morte. xaram o cabelo crescer, usavam aquelas Minha relação com tudo, vida, política, fim, fui pro Rio roupas coloridas. Depois eles mudaram, pensamento, filosofia, manifestação, es- estagiar com uma viraram consevadorzinhos e eu entrei de tar junto de (alguém) é erótico libidinal figura lá, pra me cabeça e segui no caminho que eles abri- (risos). Transito na Assembléia Legislati- preparar pra ir pra ram, entendeu (risos). va, prefeitura, na praça entre os mendi- Alemanha. Acabei ; - Você lembra de como era essa ideolo- gos, entre os professores da UFSC, entre entrando num grupo de teatro, gia na década de 60, 70? crianças na escola que eu fui tocar esses aí eu ‘ah cara, peraí que tem um outro Eu peguei mais aquela coisa contra a di- dias, no ônibus com os motoristas, cobra- meandro aí que eu tenho que vasculhar’. tadura. Aí sim, fui até pichar muro. Na dores e passageiros tocando violino. É... época, fui presidente do centro acadêmi- ; - Que tipo de teatro você fazia? Erótico libidinal. Eu sempre entrava como músico. Em um co de Odontologia. Bem na época que foi teatro de títeres na Argentina, fui a ma- a campanha das diretas. Foi uma época ; - E de onde vem seu envolvimento com rionete do mamolengo, né, o boneco que muito bonita, sabe. Passeatas, bandeiras a música? Acho que surgiu com a morte da minha vinha pra realidade. Tinha uma parte em e pichações. E com risco de ‘Bá, fica um aí vó. Ela era violinista e morreu quando que os personagens saíam do boneco e na esquina pra ver se vem a polícia’. meu pai tinha quatro anos. Então eu sou isso espantava a criançada. Também par- ; - E hoje, qual é a sua visão política? minha vó, sou renascido dela. Eu tenho ticipei do Indiana Banda em Brasília e me Eu acho que o próprio movimento pela esse sentimento. andei bem de ovo frito em muitos grupos. democracia era um mosaico de tendên- cias. Minha visão política hoje seria que ; - Você acredita que é reencarnação dela? ; - E o que te agrada mais tocar? Eu sou minha vó. Minha mãe tocava cí- Eu gosto mesmo é de improvisar. Pegar aquilo caiu para a ponte, né. Que foi o tara e aquilo me puxava desde criança. e juntar com uma galera. Porque é o dia- momento do fênix, do renascimento da Então, era o meio, é aquela coisa: o meio. logar em musiquês. Não tem português, discussão política no Brasil aberto às O homem é a sua circunstância – se a inglês, francês? Então, tem o musiquês. posturas e às lutas, feita por grupos se- circunstância é o belo, o belo te envolve. torizados. Era o sindicalismo, eram gru- ; - E você chegou a ir pra Alemanha? Platão foi assim, falava que como é que Não, o único país estrangeiro que eu fui é a pos sub-fraturados e de esquerda que alguém que não viveu o belo na infân- Argentina. E bota estrangeiro nisso. Já sen- pra existirem tinham que tá ancorando cia, nunca teve uma experiência do belo, te diferença já, tem uma outra psicologia... um grupo maior. Então minha visão hoje querer ou amar o belo? Um grande mes- não é de nenhum grupo, hoje eu transi- ; - E o que você foi fazer, tocar ou... to... Realmente me descolei. (Ele aproveita tre que tive, doutor em violino na Ale- Eu fui com o grupo de teatro infantil de a deixa do garçom, que oferece outra cerveja, manha, propunha que o autor morreu e Brasília, o único brasileiro a ir pra um fes- para ir ao banheiro) Um pipistop! (risos). quem tá executando a obra dele é você. tival internacional de teatro infantil, que Então, você pode botar o teu tempero, fa- acontece todo ano em Necotia. Aí acabei (Na volta) O que tua família pensa so- zer mais lento, mais rápido. Reinterpre- me enganchando em um outro grupo de bre tua opção de vida? tar, recriar a obra se quiser. Porque, veja teatro lá e viajamos a Argentina toda. Eu sei que eu judio deles com minha au- bem, violino é sempre confundido com sência e sei que eles se condolecem um ; - Mas se apresentava também? ‘ah, violino é pra orquestra’. Mas aí surgiu Eu apresentava violino. Ia nos restauran- pouco com a minha atual condição. Enfim, o preceito de que ele tá no jazz e no rock. tes passar o chapéu e o pessoal vinha jun- porque eu pô, eu era dentista e de repente to. Até fazia umas performances, umas eu dei um outro jeito (risos). Mas tô feliz, ; - Qual sua visão de liberdade? Você só busca liberdade quando se sente brincadeiras. Mas foi uma coisa bem la- muito feliz. Isso eu sempre deixo paten- oprimido. Por exemplo: as paredes me boratorial, vivencial, bem isso aí, impro- te pra eles. Eles duvidam porque acham visação, viver tipo clown assim. fechavam no consultório. Fui oprimido que tem que ter microondas e tela plana e e, vup, saltei fora. Eu tinha muita curio- computador, e não tenho. Mas vivo bem ; - E pelo Brasil, por onde você andou? sidade de conhecer outros meandros da Quando era estudante de música, ia em assim, talvez pela minha essência can- relação humana. Foi quando fui morar festivais de música clássica em todo Bra- ceriana de me apegar a outros valores. em uma comunidade alternativa e ficar sil. Todas férias eu ia pra algum festival ; - Qual é a essência do canceriano? pelado no meio do mato em Goiás. e ficava um mês lá. Aí conhecia cabeções A relação humana e a empatia. Me e figuraças da música. Conheci muitos aceite como eu sou, onde eu estiver. Eu ; - E você já era formado? 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • sinto dor com quem está sentindo dor, Quando devia ter aí uns onze anos. do fundo do poço, maior que a própria sinto alegria com quem está sentindo Meu amigo Saulo (ri). Mas, aí, depois circunstância que te tragou pra baixo. alegria. Tipo assim, um são Francisco. minha heterossexualidade se consubs- ; - E como você saiu dessa? Na Argentina eu tocava nos trens e via tanciou com a minha prima. Ela veio Eu consegui achar na mente. A mente aquele povo triste, ainda vivendo trau- pra casa morar pra fazer pré-vestibu- mente às vezes, mas também às vezes mas da Guerra das Malvinas, da dita- lar e nós tivemos belas noites de amor de tão mentirosa ela vira verdade. Não, dura e ainda num país que estava inse- e vinho, quando meus pais iam viajar peraí, claro que você sabe que deveria guro se era democracia ou não. Um dia, pro sítio. Ah esse foi outro tempo en- tá sustentando as filhas e etc. Mas daí quando tocava violino, caiu a ficha: te- garrafado maravilhoso viu. Rosângela, a mente vai mentindo pra você e tem nho que tocar músicas alegres, dar uma olha só, anjo rosa. E ela era loirinha e aquela carga mental de informação bomba de alegria pra dentro da cabeça toda cor de rosa, e muito gostosa (ri). que diz assim ‘Cara, o patriarcalismo, a desse sujeito pra ele chegar em casa e Era e continua sendo, né. opressão do pai e etc, quantas situações ‘cara, eu vi uma coisa alegre hoje’. Eu tem aí horríveis, né’. Você se desculpa ; - E continua engarrafando com ela? via os figuras tirarem o fone de ouvi- Não, não. Foi só uma fase pra não tomar no sentido de que eu tô assim contri- do, estavam lendo um livro ou jornal proporções de incesto consusbstanciado, buindo para o matriarcalismo voltar (ri). no metrô de Buenos Aires, pararem e aí ficava complicado e a gente parou. Ela Foi a alternativa psicológica que arranjei ouvirem, sabe. Porque eu, ih, eu dava passou no vestibular e foi embora. pra tirar as culpas. um nó na cabeça dos figuras: ‘Eu venho ; - E a fase de descobertas parou com teu ; - E quando você chegou na Ilha? de vosso futuro e para esse momento Meados de 90 eu vim e conheci a Cos- amigo Saulo também? presente carimbar em vossa mente um Não, aí teve uma outra na época que eu ta da Lagoa. Mas o que era pra ter sido tava fazendo o broken na minha vida, né. momento’, aí inventava. não foi. Olha só quantas desilusões, né, uma: pelo socialismo. Depois aquela coi- ; - Broken? ; - E de onde você tira inspiração pra fa- Broken, a quebra total, a chutação de bal- sa da astrologia de fazer óun, óun, óun. zer essas performances? Tem coisas que falo do intuitivo comple- de, né. Cheguei a andar abraçado com o E não adianta cara, a mulher é no final to que nem eu sei que sabia. Nem sabia cara. Então, eu digo ‘ó, cara não é esse o primeiro preceito pra você saber ‘isto que sabia. E claro, aí, sempre bate, isso aí lado mesmo’. Foi uma experiência de ‘ah, funciona’. Os caras tavam aí todo mundo é meu ‘Nós somos tempo engarrafado’. vamos ver’, mas realmente eu senti que pelado, aí daqui a pouco um fugia com a ; - Porque tempo engarrafado? não era. Porque o macho macho mesmo mulher do outro. Pô, é foda, né, cara. En- Porque nós somos 80% água. Nascemos é o macho comprovado, que tentou, fez tão, a coisa foi da sociedade alternativa e respiramos, dependemos cada minuto experiência...mas o toque não é. pra oportunista, você entendeu? (ri) de uma série de inspirações e expirações. ; - O que você pensa a respeito da músi- ; - E tem mais alguma outra desilusão? É uma essência que vai pra matéria pro- A terceira? Acho que parou em duas. ca brasileira hoje? priamente mineral que tece essa água O mundo inteiro se ajoelha pro Brasil, né. Agora é perfeição, acabou o problema. toda, uma vida, uma consciência. Então Eu tenho um amigo, produtor cultural, Não trabalho com o futuro, trabalho com se um dia você levou uma surra na infân- que leva gente daqui pra Áustria. Outro isso que é. Também porque tô iludido cia, você carrega isso na tua memória. É dia ele me falou ‘cara, os caras pergun- pela realidade atual que mesmo vivendo “ o tempo... Que engarrafou. tam pra mim porque os com todas as condições pendentes eu sou É como o título do As mil e músicos tão rindo no pal- pleno. E essa ilusão me preenche. O que Eu devia ter uns uma noites – não são mil e co’. O pessoal na Europa dá isso é a arte, a possiblidade de trânsito. cinco anos, peguei uma noites corridas. É que não consegue entender, Se eu morrer achando ter acabado uma dentro de mil noites, houve são muito corretos, tocam coisa e ter que começar tudo de novo. (ri) os ratinhos mortos uma que você engarrafou. afinados por partitura. É o Se no dia da minha morte, putz, não é o técnico perfeito, mas não fim é apenas o recomeço, vai ser outra ; - E qual é o teu maior tem- no galpão do sítio e tem a coisa do espírito desilusão. Aí, nesse sentido não sou eu po engarrafado? crucifiquei. Aí levei ‘ó, Puta... 45 anos... Ah, vou brasileiro. que sofro, é minha vó que tá sofrendo e dizer uma coisa graciosa: Terra brasilis, essa daqui ela tá dando gargalhada de mim (ri). mãe tá aqui o Jesus’ eu passeando no meio do é a segunda, né? (para o garçom). (Aproveito o mo- (A fita acaba e escrevo o que ele agora mais do jardim (minha mãe que cui- mento e também vou ao ba- que fala, declama) dava) quando peguei a flor nheiro) boca-de-lobo, brinquei com ela e aí vie- ram borboletas. Isso quando tinha qua- Não há mais tempos, nossa velocidade ; - Você nunca se casou? Teve filhos? tro, cinco anos. Isso é um engarrafado De papel e igreja não, sempre casamen- os saboreiam no eterno aqui e agora. Há legal. Outra coisa legal é minha mãe se tos factuais. Tenho três filhas. E nesse só o nascer do sol e o pôr do sol. Eu sou debruçando e dizendo ‘meu filho, ele foi sentido aí tem uma nuvem – uma nu- um cara fora de época, sou um contra- rebanho enquanto todos – subitamente ele crucificado’. Tinham colocado veneno no vem de relação. Não sou um pai respon- toma o bloco de minhas mãos e finaliza por galpão do sítio. Aí, eu peguei os ratinhos sável, não sustento, as mães sustentam. sua conta – lutam pra ter e usufruir do mortos, crucifiquei e levei ‘ó, mãe tá aqui ; - E você se dá bem com as mães delas? o Jesus’. Aí ela ‘Ah, não meu filho, não Teve, por exemplo, vendavais de guerras prazer, eu me desapego de tudo pra ir faz isso’. Aquele momento de amor dela terríveis, judiciais até, mas tudo se resol- direto ao prazer. Hahahaha! O violino é que não foi um ‘não faça isso’. Não, ela veu – no sentido de amadurecimento es- uma caixa de Pandora e o tigre se lançou disse ‘meu filho aquele foi Jesus, esses piritual. Eu passei pelas minhas depres- sobre o maluco bêbado arrancando-lhe são os ratos, eles não são a mesma coisa’ sões, que foi maravilhoso. Se eu pudesse as páginas das mãos. Só não escrevi de (pausa para beber). salvar alguma coisa com meu suicídio, eu trás pra frente porque não tinha espelho. (E solta uma boa gargalhada). ; me suicidaria – mas eu sei também que ; - Com quantos anos você ficou pra va- não livraria nada. O processo mental que ler com uma menina, sua primeira expe- você passa nesse momento de depressão riência sexual? Ou não foi com menina... Matheus Joffre Ah sim, eu tive uma experiência. por se culpar, sai muito maior quando sai dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: 2 www.revistapontoevirgula.com
    • Poemas para levar no bolso [per fil] O perfil do acreano que tirou a poesia da estante “P uta que pariu, historiador, Cesinha lançou me hospedei três livros de poesia inde- num prostíbu- pendentes e criou o grupo lo”. Era o onze musical Margem Esquerda, de outubro em que Renato de que participa. Russo morreu, e Cesinha saía No Margem, não toca do quartinho alugado olhan- nenhum instrumento nem do ao redor em busca de ex- canta, mas não porque não plicações, inquieto com os ba- saiba nada de música. Como rulhos suspeitos que vinham bom falador, ele fala. Abre e de todos os lados, que o desconcentravam da leitura de fecha decididamente os braços, aponta o dedo em ges- um livro de poesias. Por último, veio a constatação. tos firmes, fecha os olhos, anda no palco e declama poe- Naquele mesmo dia, um pouco antes, ele havia che- mas enquanto a banda toca. “O que a gente faz é unir a gado pela primeira vez a Florianópolis. E não estava de música e a poesia, não é a música servindo de base para visita. Preparado para ficar, trazia todo o aparato ne- a poesia ou a poesia servindo de base para a música”, cessário: os documentos, a calça que vestia, uma única diz. Nesses 12 anos em que está em Floripa, morou num muda de roupas na mochila e 300 reais no bolso. “Ah, assentamento por 60 dias e trabalhou com o Movimento rapaz, eu não queria mais saber do Acre, e nem queria fi- dos Sem Terra (MST). Entrou por transferência (trouxe car aqui vivendo a minha vida de lá, por isso não trouxe correndo a papelada no último dia possível) no curso nada comigo”, lembra, enquanto, ao mesmo tempo, diz de História da UFSC, vindo do último semestre de His- oi e dá um sorriso para um amigo que passava. Cesinha tória na Federal do Acre, mas aqui precisou começar o (menos conhecido como César Félix) deixou Rio Branco, curso do zero. Foi presidente do Diretório Central dos a cidade onde nasceu, para tentar uma vida diferente Estudantes (DCE) da universidade. Largou o curso, de em Floripa. Desembarcou no terminal rodoviário Rita novo no último semestre, mas dessa vez para trabalhar Maria depois de dias de viagem. Soube pela televisão em um projeto comunitário na favela Chico Mendes – fi- da morte de Renato Russo, mas não parou para os de- cou lá dois anos. Depois voltou aos estudos, escreveu o talhes. Então caminhou um pouco até encontrar alguém trabalho de conclusão e se formou. Morou por mais dois que pudesse lhe dar algumas informações. “Você sabe anos em uma aldeia de índios Guarani, escreveu poesias onde eu encontro algum lugar barato para ficar? Assim, e incentivou e participou de projetos culturais. coisa de 10, 15 reais a diária”. Soube desse hotelzinho a Numa tarde de outono, na hora do intervalo do tra- alguns metros da rodoviária. balho, saiu para tomar um café quente, mas era a todo Mas se hospedar num prostíbulo sem querer não é minuto interrompido pelas pessoas que vinham cum- o tipo de coisa que exatamente preocupa Cesinha. A primentá-lo: “Oi, Cesinha, tudo bem?”. A mão esquerda prova é que, ainda um pouco constrangido com toda sempre anda no bolso da calça, e a direita fora, prepara- a situação, desceu ao saguão e resolveu declamar al- da para os apertos. O que impressiona nele talvez seja guns poemas. De pronto, as putas amaram. Ele sabe de toda a falação animada, o cavanhaque e o sorriso largo, cor muitos dos poemas de Vinícius, Manuel Bandeira, o olhar de contador de histórias e o incessante vaivém das mãos pequenas. E o mesmo tênis all star verde des- Drummond, Fernando Pessoa, Alice Ruiz, Maiakovski e ainda outros – incluídos os que ele mesmo escreve, o botado, grande companheiro de todas as horas. Nessa que aumenta consideravelmente o charme da coisa. En- tre poemas, recitais, atuação política e o trabalho como 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • conta também entra, vendo bem, alguma coisa do nejadas de apresentação. Cesinha contou suas histórias, mistério que é ser poeta. e tinham as músicas e os poemas. Falou dos livros e da Do trabalho como historiador, ele gosta. A venda dos paixão que tem por eles. livros e os shows ajudam na renda. “Olha só, tudo isso “Quando eu era criança eu lia livros de poesia e eu foi pesquisa minha. Fiquei um ano inteiro pesquisan- achava aquele papel branco e as letras pretas uma coisa do coisa e agora estou escrevendo o livro”, orgulha-se, morta, muito chata. Aí eu falava: ‘quando eu crescer e mostrando a papelada de documentos que reuniu e o escrever o meu livro, ele não vai ser assim’”. Os dois pri- que escreveu até agora sobre a história da Associação meiros, na verdade, foram. Mais por falta de renda que dos Professores da UFSC (Apufsc). Mas, de um tempo de vontade de colorir. O terceiro demandou investimen- para cá, assumiu-se como poeta e a poesia agora vem to mais alto. Reuniu 18 poemas e uma idéia diferente: em primeiro lugar. Depois de um pequeno show que um livro que não tem nada de livro, à primeira vista. É fez em um barzinho com parte do Margem Esquerda, uma folha de papel dobrada, e o leitor interage bastante para o lançamento de seu novo livro (Se existe poesia abrindo e lendo os poemas, que vêm acompanhados de existe vida), Cesinha sentou-se em uma mesa, um tanto desenhos e são escritos em papel de cor cinza. “Livro de exausto, e de repente se viu cercado de livros querendo poesia não tem que ficar na estante. Tem que ficar no receber dedicatórias. Alcancei o meu: “Olá Thiago, olhe bolso. É uma arma: se alguém quiser brigar, você tira o só: procurei ser livre em vários espaços, porém, só con- livro do bolso e briga declamando um poema”, justifica, segui ser verdadeiramente livre aqui: na poesia”. falando ao microfone, que a essa altura já não funciona Dias depois, no caminho para o auditório do Centro bem. Mas sempre tem aquela demorazinha de final de de Convivência da UFSC onde iria fazer outro show, show. Muita coisa para falar. E também a movimenta- dessa vez com a banda completa, a mão direita continu- ção toda. “Oi, Cesinha, tudo bem?”. ava fora do bolso. Ele apertava os passos por causa do E como em lançamentos alguma coisa deve ser lança- pequeno atraso: “Oi, Cesinha, tudo bem?”. Entrou para da, ele atirou para a platéia um exemplar do livro, que conferir o som, checar os equipamentos. Foi informa- era vendido a cinco reais numa mesa colocada próxima do de que a universidade não emprestaria microfones ao palco. Barato e pequeno: sempre a opção de Cesinha nem pedestais, o segurança estava de saída e não queria quando pensa em fazer seus livros. É para que todo confiar a chave da salinha dos aparelhos à Cesinha. Ele mundo possa carregar poesias no bolso. Um dos gran- não é o tipo de pessoa que se irrita muito, mas numa des sonhos dele. Enquanto trabalha para isso, as pesqui- situação dessas, a poucas horas de um show, dá-se ra- sas para terminar de escrever sobre a história da Apu- zão. Conversou com os outros integrantes, precisavam fsc e os shows do Margem Esquerda continuam. E em mudar o plano de ação. Os equipamentos que ainda te- breve talvez venha mais um livro de poemas “para se riam de conseguir emprestado de um amigo não eram colocar no bolso, declamar no ouvido, pichar em muros tão bons e o show, pensado para durar duas horas, teve brancos”, como diz. Enfim, poesia que fique decidida- de ser reprogramado para durar menos. Mas, no calor mente fora da estante. do momento, a cabeça esfriou e tudo saiu melhor que Thiago Bora ; a encomenda – e ele percebeu impressionado, ao final, que os equipamentos resistiram às duas horas não pla- dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: 2 www.revistapontoevirgula.com
    • Daniel mãos de cavalo [per fil] As linhas trotadas e a trajetória entrecortada do escritor Daniel Galera O livro é uma obra aberta, passível de interpretações diversas, disse Umber- to Eco. Depois de escrito, não pertence mais ao autor – quem sabe nunca tenha pertencido. Au- tor de Cordilheira (2008), Mãos de Cavalo (2006), Até o dia em que o cão morreu (2003) e Dentes Guardados (2001), Daniel Galera não quer ser uma obra aberta. Em entrevista, ressente-se de classificações – matu- bicicleta até cair no chão, sangrando. E em uma das ce- ridade, associada a ele, dá asco, artista multimídia nas mais amargas-e-doces, Hermano adolescente pede ele não é. “Nunca me considerei um deles”, afirma. à menina apaixonada por ele que morda o peito dele até Galera prefere a liberdade de só ser, assim como o faz ver os dentes dela vermelhos. com seus personagens: sem finais, sem nomes, sem cro- “A violência é um componente importante da narra- nologia. No entanto, como ficam eles registrados nos li- tiva do livro, sobretudo na imaginação do protagonista, vros, fica Galera na literatura brasileira contemporânea. que é povoada de cenas violentas – fruto da combinação Apreender alguém pelo contato virtual – o físico se de conflitos pessoais com sua fixação em narrativas vio- resume às obras impressas –, como se tentou fazer na lentas em geral”, reflete Galera. O autor admite que o construção deste texto, é não apreender por completo, o aspecto estético de cenas violentas o atrai e contamina seu estilo. Na época em que escreveu Mãos de Cavalo, lia que deve trazer um sorriso a Galera. Em seu Orkut, ele responde o “quem sou eu” por “Autor dos livros Mãos de livros de Yukio Mishima (Confissões de uma máscara, Co- Cavalo, Até o dia em que o cão morreu e Dentes Guardados”. res Proibidas, entre outros), que explora a violência física Os três livros lançados mostram um escritor de mãos em seus livros. pesadas. A primeira frase do primeiro, Dentes Guardados, À escrita, não precedeu uma brusca descoberta da “Ele tirou a minha virgindade” dá pistas do desenrolar literatura. “Desde criança, lia como um livro por se- “ de histórias em que o amor faz pouco sentido, é volátil mana”, diz. A motivação para colocar contos no papel veio de professores dos colégios aos 15, O aspecto estético de cenas violentas o atrai e contamina seu 16 anos. Aos 17, já levava a sério suas li- estilo, presente, sobretudo, na imaginação de seus personagens nhas. Não o suficiente para lhe nortear a escolha da profissão: começou Desenho Industrial, na ULBRA (na Grande Porto e, de vez em quando, ofensivo. Como no conto “A escra- Alegre), não gostou. Começou Publicidade e Propagan- va branca”, da mesma obra, em que, ao declarar o seu da na UFRGS e, apesar de gostar do ambiente, logo to- amor à mulher que lhe servia de empregada e amante, mou asco do curso. Formou-se, mas nunca exerceu. o protagonista se vê abandonado por ter infringido as Os 28 anos se passaram em São Paulo e Porto Ale- regras do acordo da relação vazia. gre. Nasceu na primeira, mas foi na segunda que viu Entre amores intensos que vão e deixam o vazio seus projetos literários começarem a adquirir força. Participou do e-zine literário Cardosonline – surgiu em e amores vazios que ficam e deixam o tédio, Galera constrói histórias que nem sempre acontecem no plano 1998 e foi um dos primeiros passos da literatura publi- do concreto, envolvendo poucos elementos: um homem, cada na internet. Também editou a revista eletrônica Marcela e um cão, em Até o dia em que o cão morreu. A Proa da palavra de 1997 a 2000, cujo objetivo era publi- inércia é uma escolha. car escritores estreantes. O Cardosonline, em 2001, oferecia um perfil, escrito “Me causava agonia ver alguém se preparando cons- tantemente pra começar a viver. Eu não conseguia fazer pelos amigos, de seus colunistas; um deles Galera. isso. Me parecia bem mais adequado permanecer exata- “Galera é um sujeito que fala pouco, pensa demais mente onde estava, aceitando que minha vida era aquilo e valoriza o ócio. Sonha com uma carreira literária e mesmo. Eu não precisava de muita coisa. Gostava de ir com muitas outras coisas, mas às vezes trata seus so- à janela do meu apartamento e olhar a cidade lá embai- nhos com desleixo. Gosta de beber cerveja Serramalte xo.” (de Até o dia em que o cão morreu) com Steinhaeger, ficar em silêncio, ir a cinemas vazios As mãos do autor aparecem em Mãos de cavalo com em dias chuvosos, abraçar meninas fornidas e pedalar a uma violência física e psicológica. Hermano se bate na favor do vento escutando Pantera no walkman. frente do espelho até ver o sangue no rosto, corre de 28 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • E screve contos, artículos, crônicas, re- judicou a traje- senhas amadoras de bandas e filmes, e tória do escritor. eventualmente conta algumas coisas sobre “Todos querem sua vida. Apesar da tenra idade, está de- estar numa senvolvendo tendinite nos ombros devi- grande editora do às longas horas que passa na frente do e ter os livros computador trabalhando ou escrevendo, lidos por muita enquanto poderia estar formando uma gente, mas estar banda, lendo ou viajando. Atualmente está na Feira Literá- cultivando uma cachopa.” ria Internacional de Parati (FLIP), em grandes revistas, Seguir a carreira literária, para Galera, significava ir ter na orelha dos livros a fala de escritores consagrados, para o meio físico e não se restringir à internet. “Consi- como para autorizar a qualidade do trabalho, faz crer dero o livro o veículo por excelência da literatura. Desde que Galera começou a negociar sua escrita, o que é ina- o início, entendi a internet como um meio adicional de ceitável”, critica Lima. Para o escritor gaúcho, ocorreu o divulgação, além de um espaço aberto e de baixo custo oposto. “Fui convidado a publicar em uma editora gran- para poder experimentar à vontade”, disse em entrevis- de e a participar de coisas como a FLIP justamente por ta para o site Capitu em 2002. causa do que escrevi e publiquei”, contrapõe Galera. Com o amigo escritor Daniel Pellizzari e o artista grá- O primeiro trabalho para a Companhia das Letras foi Mãos de Cavalo. Enquanto escrevia, foi convidado fico Guilherme Pilla, fundou a editora Livros do Mal. A verba foi garantida por um fundo cultural da Prefeitura para exercer a coordenação do livro e da literatura na de Porto Alegre, mas ainda assim os escritores precisa- Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Apesar de não vam bancar a produção dos livros para depois ganhar se imaginar na posição, pensou nas possibilidades de parte dos lucros da venda. Os primeiros lançamentos ação e aceitou. Mais uma vez viu algo entre si mesmo e a foram Dentes guardados, de Galera e Ovelhas que voam se literatura. Sem tempo para escrever, abandonou o cargo perdem no céu, de Pellizzari, em 2001. após quatro meses. Mãos de Cavalo foi lançado em 2006 e rendeu diversas “Queremos dar espaço para a produção e discussão críticas positivas ao autor. A revista Bravo! classificou a do novo na literatura e, posteriormente, nas artes em ge- ral. Catalisar literatura que traga visões novas, que ul- obra como romance de formação, gênero originalmente trapassem o exercício estético vazio, o lugar-comum da burguês fundado pelo escritor alemão J.W. Goethe, em classe média ou deslumbramento com o mundo pop” que se narra o processo de amadurecimento do protago- disseram na apresentação da editora naquele ano. nista. Além da perspectiva burguesa, outra obra consa- “ O nome veio de Georges Bataille, no Convidado para uma coordenação na Secretaria de Cultura de livro A literatura e o mal (leia trecho na página seguinte). Ainda fazem sentido Porto Alegre, viu algo entre si e a literatura e deixou o cargo as palavras do escritor francês. “Hoje entendo muito melhor uma frase de Bataille que usamos em 2001 para apre- sentar o selo editorial Livros do Mal ao grada do gênero é A montanha mágica, de Thomas Mann. mundo: ‘A literatura não é inocente, e, culpada, ela en- fim deveria se confessar como tal.’ Eu confesso. Confes- Se é romance de formação, então que se acrescente o so tudo”, escreveu em seu blog no ano passado. pós-moderno. A narrativa é fragmentada entre trechos A Livros do Mal deu reconhecimento ao autor, que da adolescência e a vida adulta do protagonista, Herma- passou a também traduzir obras, o que chama de “pro- no. “Eu queria que o passado do personagem iluminasse cesso de recriação da linguagem”. O trabalho trouxe do o presente, como é comum, mas queria, sobretudo, que o inglês ao português 13 títulos. Trainspotting (2005, co-tra- presente, a parte adulta da história, iluminasse o adolescen- dução de Daniel Pellizzari, Ed. Rocco) e Pornô (2006, Ed. te - e isso foi um pouco mais difícil de construir”, comenta Rocco) de Irvine Welsh e Reino do Medo (2007, Ed. Compa- Galera. Portanto, não há uma tese conclusiva no livro, mas nhia das Letras) de Hunter Thompson são alguns deles. uma interpretação, a partir da escolha de momentos es- Quando o trabalho de tradução e as atividades na Li- pecíficos, sobre a decisão do protagonista à vida que tem. Cordilheira, o livro mais recente de Galera, tem Anita vros do Mal já se acumulavam a ponto de fazer Galera e Pellizzari escolherem entre editar e escrever, Galera foi como protagonista, uma escritora que quer abandonar convidado a lançar seus livros pela editora Companhia a literatura e é obcecada com a idéia de ser mãe. Ela se das Letras, das maiores no mercado editorial brasileiro. muda para a Argentina e conhece um grupo de pessoas A Livros do Mal minguou a alguns títulos à espera de esquisitas por lá. “É uma história bem diferente de tudo compradores e um fóssil digital em livrosdomal.org. que já escrevi”, disse o escritor em uma entrevista para o site Disruptores. O professor de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Manoel Ricardo Lima, também A primeira história fora dos domínios do Rio Gran- poeta, que conversava com freqüência com Galera, acha de do Sul surgiu dentro do projeto Amores Expressos. que o reconhecimento na mídia e no meio literário pre- A idéia do projeto veio do produtor cultural Rodrigo dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula ::::: 2 www.revistapontoevirgula.com
    • “ A literatura é o essencial ou não é nada. O Mal – uma forma penetrante do Mal – de que ela é a expressão tem para nós, creio eu, o valor soberano. Mas esta concepção não impõe a ausência de moral, exige uma ‘hipermoral’. A literatura é comunicação. A comunicação impõe a lealdade: a moral rigorosa, neste aspecto, é dada a partir de cumplicidades no conhecimento do Mal, que estabelecem a comunicação intensa. A literatura não é inocente, e, culpada, ela enfim deveria se confessar como tal.” (Georges Bataille, em A literatura e o mal) Teixeira e do escritor João Paulo Cuenca: levar autores vermelhas na neve. Tentávamos descobrir como ele ti- de várias partes do Brasil para escrever histórias de nha se machucado, mas era impossível. Entre uma de- amor em outros lugares do mundo, com a condição de monstração espontânea de selvageria canina e outra, ele se escrever um blog durante a jornada. “Como se preci- se aproximava e mendigava carinhos, no que era pron- sasse viajar para escrever”, ironiza o professor Manoel tamente atendido. Se afeiçoou especialmente a mim”, Ricardo Lima. O escritor Marcelo Mirisola (O azul do fi- escreveu no blog. lho morto e O bangalô) também se manifestou contrário A imagem de cachorros está em Até o dia em que o cão morreu, como também no Orkut de Galera. A legenda da ao projeto, ao qual acredita fazerem parte somente “os amigos de Cuenca e uns dois figurões acima de qual- foto é “desculpa”. O cavalo está no mesmo álbum, como em metáforas em Mãos de Cavalo e até em um texto no quer suspeita”. Lima acrescenta que o projeto ainda se Cardosonline. “E aí, Pilla? Nunca tinham me chamado de escuda das críticas quando os idealizadores argumen- tam que os autores que falam contra se ressentem de cavalo, gostei! Fiquei molhadinha”, comenta o apelido não terem sido convidados. que o amigo Guilherme Pilla deu, em dezembro de 1998. Cada escritor embolsou R$ 10 mil como adiantamento Galera também circula pelo meio musical, discote- para as adaptações de filmes baseados nas obras. Além cando com freqüência no Clube Praga, em São Paulo, de romances publicados pela Companhia das Letras, há sugerindo trilhas sonoras ou fazendo a própria, na in- a perspectiva do lançamento de um DVD com cenas das ternet e tocando de quando em quando. A música é tão viagens e os filmes. presente que a própria comunidade do escritor é ilus- O projeto causou polêmica no meio literário por trada por uma foto de Galera tocando guitarra. No en- envolver uma grande editora e, ainda assim, os criadores tanto, a idéia de artista completo, presente em todos os tentarem o patrocínio da Lei Rouanet. No entanto, meios, proposta por Andy Warhol, um dos principais nenhuma verba pública foi utilizada, artistas Pop Art na década 60, des- pois o projeto foi arquivado. gosta Galera. “Eu sou um escritor. A princípio, Galera já tinha uma Ter um blog ou tocar violão são ho- idéia de livro, mas ao ser convidado a bbies que compartilho com metade participar do Amores Expressos para ir da humanidade, nada disso me tor- a Buenos Aires em abril do ano passa- na especial”, afirma. do, aceitou. O mês passou-se sem tanto Escritor: resume-se na comple- estranhamento, pois Galera via muitas xidade que a palavra assume. No semelhanças entre a cidade portenha e álbum do Orkut, há fotos de via- Porto Alegre, onde cresceu. gens, animais, churrasco (legen- Gremista fanático, encontrou até ou- da: “chimarrão e gritaria”). Uma tro time que se considera irmão do Grê- delas se destaca pelo contraste en- mio, o Almagro. Na segunda divisão do tre um bebê e as mãos grandes do campeonato argentino, o Almagro joga- escritor, parecendo consciente da va na periferia de Buenos Aires. Galera fragilidade do ser que segura. A assistiu a uma partida do time-irmão, legenda: “dindo”. que acabou perdendo de 1 a 0. Como nar- Galera rejeita a idéia de maturi- rou no blog da viagem, foi noite adentro dade, principalmente quando rela- tomando Heineken com os hermanos. cionada a si. Mas se ela surge é por- Foi nessa temporada na Argentina que nota-se uma noção de si próprio que Galera viu a neve pela primeira vez. com que poucos podem contar. Gale- Passou poucos dias em Ushuaia, cidade mais austral da ra se quer uma obra fechada porque sua própria inter- América, conhecida como o fim do mundo. Entre pas- pretação dá conta de orientar seus passos. Quer voltar seios turísticos e feira do livro, o momento mais sublime a escrever contos e quem sabe publicar uma coletânea foi o trekking pela montanha Cerro Medio, de 850 m de em dois ou três anos. Mas nunca olha muito para frente. altura. Acompanhado de um guia, um casal e duas ami- “Gosto do passado, parece uma coisa que eu construí, gas, Galera gostou do cachorro que apareceu no percurso. cheia de mensagens ocultas que podem me ajudar a in- terpretar o presente.” ; “Durante todo o trajeto, o cachorro conseguiu se ma- chucar de maneiras diversas. Na verdade, ele foi san- grando durante boa parte do caminho, deixando marcas Fernanda Dutra 0 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com
    • Gondola, gondole [per fil] Davide Scarpa, o solitário e apaixonado veneziano A noitece na bela Veneza primaveril. Sob a que a gôndola faz parte do universo romântico e os mass media alimentam essa aura ao redor da profis- Ponte de le Ostreghe, nos arredores da Pra- ça San Marco, está um homem sentado em são, um pouco “Casanova”, segundo ele. A magia sua imponente gôndola: calças escuras, ca- também está no uniforme, inspirado nos marinheiros. miseta listrada branca e azul marinho e chapéu de “É o mesmo fetichismo que envolve a figura de um palha com o tradicional lenço vermelho ao redor. bombeiro ou um policial.” Outra invenção da mídia Páro para fotografar e escuto: “Gondola, gondole”. é o gondoleiro que canta “Oh, sole mio”. Quem quer Eu dizia a mim mesma que não partiria sem andar contrata um sanfoneiro para acompanhar o passeio. de gôndola, mas como estudante não poderia me Apesar do romantismo, o gondoleiro é visto por dar a esse luxo. Vem, então, a oferta de um passeio muitos como alguém de baixo nível. “Às vezes, me de graça e acabo aceitando. O gondoleiro Davide envergonho em dizer minha profissão. Essa imagem Scarpa realizou-me um sonho e revelou-me os se- é errada, temos que estudar história, arte e outras gredos da mais romântica das profissões. línguas”, lamenta. Davide já conduziu famosos como Woody Allen e Julia Roberts, que filmaram To- Nascido em Veneza, Davide, 40 anos, é gondoleiro dos dizem eu te amo na cidade, em 1996. Mas, para ele, há 22. Para ele, o romantismo que envolve a profissão a torna apaixonante: “Amo esse trabalho. E existe uma a maior satisfação veio quando uma pessoa simples diferença enorme entre ser gondoleiro e ver a ativida- apreciou o que fazia. de apenas como business”. Ele gosta de mostrar Ve- Há três anos, ensinou sua arte em uma pequena neza à gente de toda parte e conhecer novas culturas. Veneza artificial construída em Nagoya, no Japão. “Era bello trabalhar fora e ser considerado importan- O primeiro contato com a gôndola foi em 1982, aos 14 anos: “Veteranos gondoleiros me ensinaram te”, conta. O veneziano orgulha-se também da sur- esse amor pelas gondole (gôndolas)”. A profissão presa ao abrir o livro Zenzero e cannella - Gengibre e passava de geração para geração, havia uma espé- canela - (Editora Sperling & Kupfer, 2008), da neoze- cie de casta. Davide não é filho de gondoleiro e foi landesa Sarah-Kate Lynch. O romance se passa em difícil ser aceito. Hoje, a carreira é mais profissiona- Veneza e, no prefácio, a autora agradece ao gondo- lizada. Qualquer um que queira segui-la faz o curso leiro Davide Scarpa. preparatório em uma escola especializada. Se bem Apesar de maioria, não apenas casais passeiam de sucedido nas provas pratica e teórica, o aspirante gôndola. A baixa criminalidade atrai muitas famílias. recebe uma licença da associação dos gondoleiros e Mas Davide alerta que a cidade está menos tranqüila. trabalha, então, como autônomo. Para ele, são os imigrantes que mudam a cara da Se- O novato deve adquirir sua gôndola, que custa de reníssima. Entristece-se também com o fato de Veneza 30 a 60 mil euros! O valor pode ser parcelado e Davide ser cada vez mais uma “cidade-museu”, para ser vista “ considera-o justo: “A gôndola é uma obra de arte e, se e não habitada. Os venezianos estão indo embora e as bem conservada, dura anos”. A embarca- O veneziano orgulha-se da surpresa ao abrir o livro Zenzero e ção, nomeada pela primeira vez em um documento de 1094, é encomendada em cannella da neozelandesa Sarah-Kate Lynch. No prefácio, a autora uma das três oficinas da cidade, de acordo agradece ao gondoleiro Davide Scarpa com os acessórios desejados. São 280 partes básicas, feitas de metal e oito tipos de ma- deira. A forma assimétrica permite o modo único de conduzir a gôndola, equilibrando-se em uma tradições também. “Gosto de mudanças, mas valores das laterais. Para Davide, a técnica qualquer um pode são valores. Amo Veneza e sua história. Pena que nem aprender, difícil é ficar na posição inclinada por tantas todos os gondoleiros pensem assim.” horas. Quando “se equilibrou” profissionalmente pela Davide conhece cada canto, cada canal da ci- primeira vez, “foi aquela sensação de alcançar algo dade. Tem uma companheira, mas gosta de ficar com o que se sonhou sempre”. Os clientes eram uma sozinho e, no tempo livre, sai para pescar em seu família de americanos, que não gastam mais seu dólar barco. O gondoleiro é também um amante da arte desvalorizado com um passeio de gôndola. contemporânea, coleciona quadros e pinta quan- do está deprimido. Aprecia o belga Renè Magritte, cujo quadro L’Empire des lumières, exposto no museu Conduzindo Miss Roberts O gondoleiro trabalha oito meses por ano, da pri- Guggenheim da cidade, representa uma paisagem mavera ao outono. Na alta estação, a jornada vai das metade noturna, metade diurna. Davide a compara 9 horas à meia-noite e, a cada quatro dias, segue um às cores do pôr-do-sol em Zattere, o seu e o meu lu- gar preferido em Veneza. ; de folga. Pela tarifa oficial, o passeio de 40 minutos custa 80 euros e o de uma hora, 120 (no máximo seis pessoas por gôndola). Há despesas de manutenção e Luisa Frey, de Veneza, Itália estacionamento, mas com uma média de quatro pas- seios diários e cerca de 24 dias de trabalho por mês, dá para viver bem. A imagem do gondoleiro fascina. Davide explica dezembro de 2008 ::::: ponto-e-virgula :::::  www.revistapontoevirgula.com
    • “O teatro nosso de cada dia” Senhoras e senhores, respeitável público, bem-vindos ao Teatro Mágico Eles são uma trupe, fazem shows vestidos de palhaço, cantam, tocam, recitam poesias, fazem acrobacias e encantam o público. Sinta-se à vontade para entrar nesse mundo de fantasia graça. Eles vendem CDs nos shows, por R$5, e quem compra rece- be o aval para emprestar para os amigos copiarem. Mesmo assim, ; Entrada para raros já vendeu 86 mil cópias. Para quem acha que isso é incentivo à pirataria, o TM não pensa assim. Consideram a internet um espaço realmente livre. O lema é “contra burguês, baixa mp3”. Hoje, a trupe recebeu propostas de grandes gravadoras, mas o segundo CD foi lançado da mesma forma que o primeiro, indepen- dente e com músicas disponíveis gratuitamente na internet. “Poeta, ouvidor, desenhista, musico, malabarista, comediante o que for” O show começa com a tradicional recepção do circo: “Senhoras e senhores, respeitável público, bem vindos ao Teatro Mágico”. A trupe surge e Anitelli declama uma poesia, terminada com a frase “tem ho- ras que a gente se pergunta por que não se junta tudo numa coisa só”. É isso que o TM faz durante todo o show. Poetas, músicos e acrobatas dividem o palco em um espetáculo cheio de cores e vo- zes. Assim como no CD, as músicas não têm começo ou fim. São ligadas por poemas ou gravações de voz. U O público se caracteriza, canta, dança e cria encenações. O ao m dia o paulista de Osasco, Fernando Anitelli, decidiu vivo é realmente o forte do TM. Muitos criticaram o segundo CD ser só artista. Nada de artista-garçom como nos Estados – lançado em junho – dizendo que a fórmula esgotou e que o pro- Unidos. Enquanto estava viajando, veio a inspiração para jeto só dá certo no palco. Anitelli rebate dizendo que sempre teve o nome da banda, tirado do livro O lobo da estepe, de Her- certeza que a trupe poderia se sustentar e não se preocupou em mann Hesse. Uma parte o texto mostra o protagonista em frente a criar fórmulas. um luminoso escrito O Teatro Mágico. Antes que o tempo, a clave, sustenidos e bemóis. Antes do in- Daí também veio o nome do primeiro CD – Entrada para raros. teiro, a metade, uma outra parte de nós – Anitelli já tem tudo na Não raros no sentido de incomuns, mas de diferentes. Anitelli cha- cabeça quando vai pro estúdio. Como gosta de dizer, traz a argila mou 30 amigos para gravar o CD. Com ele em mãos, entra em cena e seus camaradas d’água se juntam para moldá-la. O resultado – O a segunda parte do projeto: levá-lo para o palco. E foi assim que, em segundo ato – foi lançado do jeito que a trupe gosta: com o públi- 2003, o palhaço solitário achou sua trupe e o TM ganha ares de circo. co em uma caminhada do metrô Consolação, em São Paulo, até o MASP, dia 17 de junho. “Os opostos se distraem e os dispostos se atraem” Como nada no TM é por acaso, O segundo ato tem um por- O primeiro show levou ao palco 46 pessoas. Era gente demais, quê de ser como é. Faz parte da trilogia iniciada com Entrada para mas o espírito estava ali. Todos entenderam que o TM não era um raros. O primeiro CD traz a idéia do personagem imerso em um espetáculo, mas, como Anitelli define, uma desculpa esfarrapada universo lúdico. No segundo, esse personagem se vê em um mun- para um bando de gente rara se encontrar. do mais preto e branco. É a “amadurecência” – nome da primeira E essa gente rara estava disposta a encarar o projeto com serie- música do novo CD – do trabalho do TM. Daqui a alguns anos a dade e enfrentar as dificuldades de lançar uma banda independen- trilogia estará completa e o caminho trilhado pelo personagem será te, desconhecida e com um jeito não-convencional de fazer músicas desvendado. Se do primeiro para o segundo, a fantasia deu lugar e shows num cenário cultural restrito como o do Brasil. à maturidade, a transformação pela qual esse personagem passará, só Anitelli sabe. Mas o mistério é um dos atrativos do espetáculo do circo. ; “Como arroz e feijão, a perfeita combinação, a soma de duas metades” O caminho encontrado foi a internet. Para o TM, música e inter- net são a perfeita combinação. Todas as músicas estão no site, de Marina Ferraz 2 ::::: ponto-e-virgula ::::: dezembro de 2008 www.revistapontoevirgula.com