Agosto2007

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    Agosto2007 - Presentation Transcript

    1. ponto_e_virgula AGOSTO 2007 EDIÇÃO 5 Amor.Sexo.Tabus As transgressões da Música Escoteiros Popular Brasileira NY.for.sale Gastronomia, música e Comemoram turismo sem pagar nada centenário de educação junto Lya.Luft à natureza e ao “A vida é transformação próximo e não decadência”
    2. ponto_e_virgula [ su m ário] AGOSTO 2007 EDIÇÃO 5 ESPAÇOS NESTA EDIÇÃO ESCRITORES 13 04 Adriana Seguro Perfil Alerta há 100 anos Fernanda Dutra Juliana Sakae Lya Luft: a vida é transformação e não Escoteiros comemoram centenário de educação Luisa Frey decadência Lucas Sarmanho 16 07 Casa do Seu Machado Marina Almeida Cinema Marina Veshagem Arte na decoração de casa, com objetos doados e Pedro Santos The Doors em cena: rock e drogas vindos do lixo Rodrigo Tonetti nos anos 60 19 09 Thiago Bora Música Lar do Chico EDIÇÃO As transgressões da Música Popular O manezinho que começou com uma barraca na praia e Carolina Moura Brasileira: Amor, sexo e tabus hoje é dono de um os mais tradicionais restaurantes de Fernanda Dutra 11 Florianópolis Literatura Fernanda Volkerling Luisa Frey Marina Veshagem Amor é brega, mas rende literatura das melhores: Travessuras da Menina Má DIAGRAMAÇÃO 22 Entrevista Carolina Moura Juliana Sakae Ive Luna vai além da sonoridade das Maurício Tussi palavras e brinca com a linguagem Thiago Bora 26 Esporte CAPA e ARTE FINAL Juliana Sakae Estádio de futebol - a primeira vez a gente nunca esquece REVISÃO 29 Lucas Sarmanho Viagem Luisa Frey Nova York for sale - gastronomia, música e Rodrigo Tonetti turismo sem pagar nada 31 Fotografia ; Florianópolis - SC Micromundo: o mais perto possível 33 Criação Um remix de trilha sonoras de filmes brasileiros, hollywoodianos e clássicos 34 Causos&Coisas www.revistapontoevirgula.com
    3. [ca r ta ao lei tor ] R eportamos aquilo que gostamos e nos interessa. E é exatamente a leveza e o prazer tidos ao escrever o que desejamos transmitir a você, leitor ponto-virgulino de quinta viagem. Sim, chegamos à edição de número 5! No catálogo do mês, oferecemos Nova Iorque de graça e os 100 anos de escotismo no Brasil. Tem amor, sexo e tabus na MPB dos anos 70. Tem Cine The Doors (!); entrevista é com Ive Luna – voca- lista do Cravo-da-Terra. Da Ilha da Magia, a tão única Casa do Seu Machado e a tão saborosa Casa do Chico. Românticos, deliciem-se com As tra- vessuras da Menina Má; otimistas, inspi- rem-se com Lya Luft; fanáticos ou simples apreciadores do futebol, relembrem a pri- meira vez no estádio; curiosos, divirtam- se com o Causos&Coisas! E um pout-pourry pra encerrar. ilustração: Tropicália, uma revolução cultural brasileira, de John Connelly Presents disponível em: www.hkw.de
    4. Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya 4 [ p er fil] “Transgredir até o último suspiro” por Luisa Frey foto: Luisa Frey; arte: Thiago Bora Lya Luft: tradutora, escritora, cronista e, acima de tudo, alguém que sabe viver N ão sou uma mulher sofrida, trágica”. Gaúcha de “ Santa Cruz do Sul, Lya Luft é tradutora e escri- tora. Seu último livro Perdas & Ganhos teve seus direitos comprados por 15 editoras internacionais. A autora escreve agora O silêncio dos amantes, romance que deve ser lançado em 2008. Formada em Letras, Lya conta que o fato de ter o alemão e o inglês “de casa” e escrever razoavelmente bem em português facilitou seu ingresso na profissão de tradutora. “Tive o privilégio de trabalhar com algo que adorava”, diz. Já verteu para o português autores como Thomas Mann, Hermann Hesse e Virginia Wolf. Antes, com os filhos pequenos, Lya traduzia para ganhar dinheiro. Agora o faz apenas por prazer, quando se in- teressa por algum trabalho. O último foi a peça Um Dia no Verão, do norueguês Jan Fosse. ya ft Em 1964, aos 26 anos, Lya escreve seu primeiro livro de poesias: Canções de Limiar. Na época, era aluna L de Celso Pedro Luft, que depois se tornaria seu mari- u do. “Casar com um homem vinte anos mais velho foi muito importante na minha vida. Aprendi muito”, re- L flete. Essa paixão foi, em parte, o que lhe inspirou para os versos. Em 1972, publica mais um livro de poesias: Flauta Doce. Os dois livros de poesia tiveram tiragens pequenas e nunca foram reeditados. A verdadeira car- reira literária começa oito anos depois, com o primeiro de nove romances: As Parceiras.
    5. Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya 5 Ao ser perguntada sobre o tom autobiográfico de sua obra, Lya diz ter a impressão “de que nós, seres humanos, esta- faz questão de dizer que não faz uma literatura confessional, mos em uma fase de isolamento” e que o sofrimento nos deixa com exceção de Mar de dentro, em que conta suas memórias amargos, mas faz parte da vida. Hoje existe uma cultura louca de infância, e O lado fatal – livro de poemas escrito quando de que não se pode sofrer. Parece haver uma onda de superfi- ficou viúva pela primeira vez: “fiquei viúva duas vezes e isso é cialidade em tudo, deixando as pessoas infelizes. “Poderíamos bem pessoal. Tão pessoal que depois eu resolvi suspender O ser muito mais felizes do que somos”, afirma. lado fatal. Eu não quero ser sempre vista como a viúva de Hé- “Escrevo quando tem algo que quer ser escrito, sobre o lio Pellegrino. Passou o tempo, passaram os anos”. que não entendo e continuo não entendendo”; para Lya, a li- Lya diz que todo mundo começa influenciado por algum teratura tem um lado lúdico e deve sempre envolver alegria, escritor. No caso dela foram três: Mário Quintana, Cecília prazer e respeito. Um bom exemplo disso são suas crônicas Meirelles e Rainer Maria Rilke - autor tcheco que escrevia em quinzenais na revista Veja. Em resposta às críticas sobre o alemão. Ela explica que “as influências fazem parte da for- tom conservador da coluna, a autora diz ser apenas severa mação do autor, que depois passa o resto da vida tentando com algumas coisas, mas não conservadora. se livrar delas, criar o próprio estilo. Porque se você passa a vida inteira escrevendo à maneira de Rainer Maria Rilke ou de Mário Quintana, então você não é um verdadeiro artista”. O último livro Perdas & Ganhos, de 2003, foi um fenôme- no, como a própria autora o define. Ficou 113 semanas nas lis- tas dos mais vendidos de Veja, Isto É, O Globo e Folha de São Paulo. Lya diz que nunca entendeu direito porque ele repercu- tiu tanto, mas supõe que seja por causa de algo que chama de globalização das emoções humanas: “Perdas não só agrada a várias gerações, como a culturas diversas. Saiu na Iugoslávia, Israel, Finlândia... Percebi que o ser humano não é tão dife- rente em cada lugar”. O livro traz um tema recorrente em sua obra: a passagem do tempo. Fala também do processo de ama- durecimento, da formação de valores, da vida e da morte. Lya ressalta que Perdas & Ganhos não é bonzinho, uma receita de felicidade. É um livro de questionamentos e é burrice classificá-lo como auto-ajuda, pois “auto-ajuda tem a intenção de ajudar, do estilo ‘Como ser feliz em dez lições a preços módi- ar cos’”. A autora classifica a obra como um ensaio moral em tom on esti eitar” de conversa com o leitor. Ela diz que ensaio moral nada tem a ver com moralizante, trata-se de discorrer, ensaiar sobre um u “Q o ac assunto. nã e foto: Luisa Frey
    6. Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya Luft . Lya 6 O livro que escreve agora é sobre a incomunica- bilidade, “fala da palavra que dizemos quando devía- mos ter ficado em silêncio ou que deixamos de dizer Os casamentos quando devíamos”. E, assim como em O silêncio dos amantes, “entender essa coisa estranha que é estar vivo” é o que busca Lya na vida e na obra. O tempo é apenas uma convenção criada para marcar nossas Lya foi aluna de Letras do lingüista e gramático atividades. Cada etapa da vida tem suas coisas boas e Celso Pedro Luft, irmão Marista e vinte anos mais ve- ruins. Na infância, temos que fazer o que nos mandam; lho. No terceiro ano de faculdade, ele pediu dispensa na juventude, a pressão familiar e social é enorme; dos votos e, já na vida “civil”, fez a proposta de ca- não é fácil envelhecer, mas talvez a maturidade seja a samento. Lya e Celso se casaram em 1964, tiveram mais tranqüila das fases. A vida – processo pelo qual três filhos e foram felizes por mais de vinte anos. somos muito responsáveis – é transformação e não Após uma separação amigável, veio o segun- decadência. “O desafio é mudar sempre para melhor. do matrimônio, com o psicanalista e escritor Hélio Questionar e não aceitar. Transgredir até o último Pellegrino, em 1985. Ele faleceu pouco mais de dois suspiro.” ; anos depois. Perdas & Ganhos Em 1992, a união com o Professor Luft foi reto- (Record; 156 páginas; 15,90) mada. Na época, ele já estava doente e em 1995, Lya foto: Luisa Frey; arte: Thiago Bora ficou viúva pela segunda vez. Atualmente, está em seu terceiro casamento, com o engenheiro carioca Vicente Britto Pereira. Há cerca de três anos, os dois residem em Porto Alegre. - O ponto cego (1999) Livros Publicados - Histórias do tempo (2000) - Mar de dentro (2002) - Exílio (1987) - Perdas & Ganhos (2003) - O lado fatal (1988) - As Parceiras (1980) - A sentinela (1994) - A asa esquerda do anjo (1981) - O rio do meio (1996, prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes) - Reunião de família (1982) - Secreta mirada (1997) - Mulher no palco (1984) - O quarto fechado (1984)
    7. 7 [c i nema] Videoclipe de Rebelde psicodélico 140 minutos ou rei do rock? por Pedro Santos S how de rock. Platéia alucinada. No palco, os quatro inte- grantes da banda de sucesso absoluto nos Estados Uni- dos: The Doors. São vistos pela imprensa como resposta norte-americana aos ingleses The Beatles e The Rolling Stones. O vocalista, visivelmente drogado, começa a divagar. Entre ber- ros, simula atos sexuais e exibe a genitália. A polícia não pensa duas vezes: domina o palco e prende o sujeito. Tudo sob as vaias do público. Essa história aconteceu em Miami, em 1969, e, como fato marcante na trajetória da banda, está presente no filme que pretende ser uma biografia do “líder”, Jim Mor- rison. Com roteiro do diretor Oliver Stone, escrito em par- ceria com J. Randal Johnson, The Doors (EUA, 1991) reconstitui alguns acontecimentos no- táveis da trajetória do grupo. O episódio da de- tenção durante o show não podia ficar de fora. A banda, formada por Jim (voz), Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria) teve o nome tirado de um livro de Aldous Huxley. A idéia era que The Doors representasse as portas da percep- ção (“se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem como realmente é, infinito”), alusão que um dos músicos faz às drogas. Drogar-se era uma forma de atingir ou- tra dimensão e visão do mundo. Foi através delas, principalmente do LSD, que Jim largou a timidez – expressa no início da carreira, quando cantava de costas para o público – e passou a desenvolver uma performance cada vez mais explosiva nos shows.
    8. 8 São nessas viagens lisérgicas, no entanto, que o filme se Doors não seriam nada nem venderiam discos. Nas capas dos perde. As imagens assumem aspecto psicodélico com o som álbuns, ele é o rosto do grupo. Ego e vaidade não explorados de poemas ao fundo, declamados pelo narrador. A película de pelo filme. “Somos nós quem criamos o mito, Jim”, alguém fala 140 minutos seria mais bem aproveitada se momentos longos no meio da projeção. como esses ficassem restritos à sala de edição. O grande pro- Entre uma tragada de whisky e outra, Jim Morrison sur- blema do filme, porém, é a visão superficial que faz dos per- ge como o sujeito que fala, grita, berra a uma sociedade de sonagens. O mundo de Jim carece de profundidade. A relação conformados: “Vocês são escravos!”. A mudança de persona- dele com os pais – ele mentia dizendo que estavam mortos – é lidade dele do início ao fim da carreira é meramente pincela- levemente sugerida. O roteiro, inconsistente, não nos ajuda a da. No entanto, a falta de conteúdo é preenchida por música. compreender a perso-nalidade mutável e violenta do cantor. Praticamente todas as seqüências são ilustradas por canções. Morrison exalta a morte, desejando-a. Mas por quê? O que o As falhas, porém, não desmerecem a atuação central. Val levou a ser assim? Kilmer dá vida a Morrison. É dos mais bem sucedidos exemplos A resposta pode surgir depois, quando o espectador curio- de atores interpretando uma personalidade. Aparências físicas so vai buscar informações extras. A questão é que o roteiro e atitudes extravagantes, olhar vago e o jeito de cantar e se mo- trata os personagens de forma caricatural sem retomar con- vimentar no palco; a coleção de gestos. As escolhas de Kilmer ceitos que o próprio script propõe, como a questão dos mitos. não poderiam ser melhores. Jim está vivo, ainda que o roteiro e ; Jim é constantemente levado a acreditar – por fãs, empresá- a direção deixem a desejar. “Come on, baby, and light my fire!”... rios e pelas circunstâncias – que ele é a banda, que sem ele os
    9. 9 [ m ús ica] D Rita Lee e Roberto de Carvalho écada da ebulição, do experimen- talismo, das drogas e da repressão. “As pessoas eram mais ousadas, di- ziam o que realmente pensavam”, explica Rodrigo Faour, jornalista, crítico, produ- tor musical e autor do livro História Se- xual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira. A década de 70 representou a consolidação da revolução sexual no Brasil e foi, ao mesmo tempo, o período de maior repressão da Ditadura (1964-1984) no país. Falar de sexo nas músicas foi con- seqüência do processo de mudança no comportamento sexual já delineado no mundo pós anos 60 - com o surgimen- to da pílula anticoncepcional -, mas era também uma maneira de protestar con- tra a censura militar no Brasil. “De mea- dos da década de 70, até início dos anos 80 – que coincidiu com um arrefecimento na ditadura -, nós tínhamos uma MPB sensual. As músicas eram políticas, mas também eróticas”, comenta Rodrigo Fa- our. “O politicamente correto surgiu ape- nas na década de 80.” Assim, era papel da censura proibir nas músicas qualquer referência, pala- vra ou conteúdo considerado “pornográfi- co” ou mesmo “indecente”. Vários termos eram tabus para a época, como “sexo”, “amante”, “macho” e tantos outros. A pa- “Não existe Amor, sexo,Músicae lavra “tesão” apareceu pela primeira vez tabus em gravação discográfica no ano de 1980, censura na em “Bye, Bye Brasil” (“eu tenho tesão é pecado do lado Popular Brasileira a no mar”), de Chico Buarque e Roberto Me- nescal. partir dos anos 70 Várias músicas foram censuradas, de baixo do como Bárbara (1972-1973), de Chico Bu- arque, que tratou do amor lésbico pela primeira vez: “O meu destino é caminhar assim equador”por Marina Veshagen Desesperada e nua Sabendo que no fim da noite serei tua” foto: álbum Rita Lee & Roberto de Carvalho (Som Livre) arte: Maurício Tussi
    10. fonte: mpbnet.com.br fonte: cifrantiga3.blogspot.com 10 Gilberto Gil Ney Matogrosso A cantora Joyce, no livro História Se- No entanto, diversas outras canções Diversos outros artistas transgredi- xual da MPB, comenta essa faceta mas- escaparam dos olhos atentos dos censo- ram os padrões da época. Ney Matogros- res. “A censura era muito burra”, diz Fa- culina. “Todas as letras escritas por mu- so, por exemplo, em 1978, apareceu nu our. Na música “Cavalgada” de Roberto lheres são de um planeta completamente no encarte do LP “Feitiço”. O cantor ho- Carlos, por exemplo, “cavalgar” não sim- diferente das dos homens. Mesmo quando mossexual explorou toda a sensualidade boliza nada mais do que o ato sexual, mas eles escrevem como mulher, com a possí- masculina. “Ele tinha o corpo todo pelu- a metáfora passou despercebida: vel e talvez única exceção do Chico [Buar- do, não sorria, se pintava todo e serviu de “Vou cavalgar por toda a noite que], que tem um encosto de pomba-gira incentivo para vários gays se assumirem Por uma estrada colorida que lhe baixa de vez em quando”. Chico como tais”, destaca o Faour. Usar meus beijos como açoite Buarque é um grande referencial tanto O escritor afirma que muitos tabus E a minha mão mais atrevida” para as músicas políticas, quanto feminis- permaneceram. “Demorou muito para se Faour acredita que o maior tabu tas e femininas. Retratou desde a mulher falar de fantasias sexuais e de coisas mais quebrado na década de 70 foi o da mu- “decidida a se modernizar” (“Essa Moça tá vulgares.” Ele afirma que somente o funk lher submissa, culpada pelo fracasso dos Diferente” - 1969), até a que faz questão carioca de hoje conseguiu romper vários relacionamentos, que não sentia pra- de dizer que “passa bem demais” sem seu preconceitos. “Foi uma mudança para o zer no ato sexual e era moralmente con- amante (“Olhos nos Olhos” - 1976). bem e para o mal. Muitas letras são ma- denada ao se separar. Vários cantores Surgiram também muitas mulhe- chistas, assim como outras são feministas, - como Chico Buarque, Caetano Veloso, res que gritaram sua libertação sexual e pois mostram uma mulher que não mais Gilberto Gil, Milton Nascimento, Gonza- comportamental, como Joyce, Rita Lee e releva uma baixa sexual do homem ou que guinha e João Bosco - retrataram uma Vanusa, que, em 1986, criou a partir de não se preocupa com a fidelidade.” nova mulher em suas músicas: sensual um de seus poemas a canção “Mudan- A MPB contemporânea é “uma careti- e que sabia o que queria. A canção de Gon- ças”: ce sem fim” na visão de Faour. Ele afirma “Tranqüila e pacificadora zaguinha “Ser, Fazer e Acontecer” (1982) que permanece no cancioneiro nacional o Mas ao mesmo tempo irreverente e expressa bem as mudanças do momento: “amor idealizado” que se tornou oficial na “Uma perna de calça revolucionária década de 40. Nos anos 70, ocorreram im- Não dá mais direito a ninguém Feliz e infeliz, realista e sonhadora, portantes transformações na sociedade e De transar o que seja viver Submissa por condição, mas na música brasileiras, que ainda hoje se E por isso eu prossigo e quero independente por opinião processam. “Mas os letristas não estão E grito no ouvido dessa tal de dona moral Porque sou mulher com todas as acompanhando”, desabafa. “Até que ponto Que uma mulher pode nunca é deixar incoerências que fazem de nós somos mais caretas que nossos pais?” ; De ser e fazer e acontecer” O forte sexo frágil”
    11. a 11 A vida toda. Eu faria você tão feliz que nunca maisti iria g [ l i teratura] re net me largar.Parou de brincar e me olhou, muito séria To e um b go dri o rR tanto depreciativa: - Que ingênuo, que bobo você é – disse, é r po oO separando as sílabas e me desafian- m amor é um dos temas mais recorrentes a do com os olhos. – Você não me con- da literatura. Apesar disso, o escritor peruano Mario Vargas Llosa nunca havia se dedicado a ele, até o romance hece. Eu só ficaria para sempre com O Travessuras da menina má. Llosa não chega a ser original ao tratar a questão, mas um homem que fosse muito rico, não seu livro apresenta bom ritmo narrativo e Travessuras da consegue ser divertido ao explorar o lado menina má brega do amor. Afinal, há coisa mais piegas mas muito rico e poderoso. visãovocê E nova sobre traz nenhuma que um homem apaixonado? A história é escrita em primeira pessoa, a o relacionamento nunca será, infelizmente. mas partir do relato de Ricardo Somocurcio. Ainda amoroso, jovem, ele se apaixona “feito um bezerro” – forma mais romântica de se apaixonar, de garante horas – E se o dinheiro não trouxerprazerosas de felici- acordo com a juventude miraflorense – por Lily, uma “chilenita” que de chilena não leitura dade, menina má? tinha nada e que arrebatou não só o coração de Ricardito, mas de todos os meninos de Miraflores – bairro de Lima, capital do Peru – – Felicidade, eu não sei nem me in- durante o verão de 1950. Era o primeiro dos muitos disfarces que a menina má assumiria teressa saber o que é, Ricardito. Mas em sua vida. Morar em Paris sempre foi o maior sonho da vida de Ricardo, e é na cidade luz que ele tenho certeza que não é essa coisa reencontra Lily, agora “camarada” Arlete, dez anos depois do verão em que foi tomado pela romântica e brega que você imag- paixão arrebatadora. Depois do reencontro, Arlete vai parar em Cuba; tinha conseguido ina. O dinheiro dá segurança, pro-
    12. 12 302 páginas uma bolsa do governo cubano para receber Autor: Mario Vargas Llosa treinamento guerrilheiro e Paris era apenas Tradução: Ari Roitman e uma escala na viagem – foi o jeito que a Paulina Wacht menina má encontrou para deixar o Peru. Editora: Alfaguara A partir de então a história se repete, Preço: R$ 39,90 são vários encontros e desencontros durante o livro, sempre numa cidade diferente. Assim, em segundo plano, Vargas Llosa traça um breve panorama da segunda metade do século 20: descreve a Paris revolucionária da década de 1960, o clima de psicodelismo e liberdade sexual da Londres hippie dos anos 1970, a Tóquio dos grandes mafiosos dos anos 1980 e Madri “ Trecho do livro (página 63): na transição política dos anos 1990. Em cada reencontro, a menina má se apresenta com nome .......– Se daquela vez, em vez de e marido diferentes, e Ricardito sempre encarna me despachar para Cuba, você o papel de bom menino, que não aprende com me tivesse deixado ficar ao seu as travessuras da menina má: cada vez que ela lado, aqui em Paris, quanto tem- passa pela vida do peruano, causa muito estrago po duraríamos juntos, Ricardito? ao seu coração; mas ele não desiste do seu amor, – A vida toda. Eu faria você tão feliz que nunca não consegue. mais iria me largar. Segundo o escritor, Travessuras da me- Parou de brincar e me olhou, muito séria e um tan- nina má apresenta uma visão contemporânea to depreciativa: do amor, mais real do que geralmente aparece – Que ingênuo, que bobo você é – disse, separan- na literatura. Talvez. Há momentos em que do as sílabas e me desafiando com os olhos. – Você realmente a história se mostra menos ideali- não me conhece. Eu só ficaria para sempre com um zada do que convencionalmente se costuma homem que fosse muito rico, mas muito rico e pode- escrever, mas ainda há as tramas próprias roso. E você nunca será, infelizmente. da ficção que são difíceis (não impossíveis) – E se o dinheiro não trouxer felicidade, menina má? de associar com a realidade. E o final, apesar – Felicidade, eu não sei nem me interessa saber o de um pouco previsível, convence: termina- que é, Ricardito. Mas tenho certeza que não é essa se o livro acreditando no amor e com vontade coisa romântica e brega que você imagina. O dinhei- de dizer umas breguices para alguém. ; ro dá segurança, proteção, pemite aproveitar a vida sem se preocupar com o amanhã. É a única felicida- de que se pode apalpar.
    13. 13 ´ 100 anos Alerta ha por Adriana Seguro Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para: cumprir meus deveres para com Deus e a minha Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à Lei Escoteira foto: Adriana Seguro; arte: Juliana Sakae
    14. 14 O “Priii... Priii... Priii!” No dia 1º de agosto de 2007, o movimento escoteiro chefe “Fred” apita três vezes na sede do Grupo Escoteiro comemora o seu centenário. Ao alvorecer do dia, jovens de todo (GE) do Ar Jayme Janeiro Rodrigues, no bairro o mundo se reúnem em suas cidades para renovar a Promessa Coloninha, em Florianópolis. É tarde de domingo. Escoteira, no chamado “Amanhecer do Escotismo” – um evento Lobinhos, escoteiros e sêniores se organizam. Fazem fila com organizado pela Organização Mundial do Movimento Escoteiro seus colegas de patrulha, com um braço de distância de cada (OMME). um. Em seguida, levam os três dedos do meio da mão direita Mais de 28 milhões de pessoas hoje estão ligadas à Orga- à testa. Fila após fila, correm em círculo até formarem uma nização Mundial do Movimento Escoteiro (OMME) e mais de 41 grande roda. Hastear a bandeira do Brasil, fazer uma oração, mil brasileiros à União dos Escoteiros do Brasil (UEB). O esco- cantar uma ou outra música, dar os gritos de tropas e patrulhas, tismo surgiu em 1907 e chegou ao Brasil em 1910. A pedido do tudo isso forma o ritual de abertura de uma atividade escoteira. seu fundador Baden-Powell, foi criada a UEB, em 1924. É um “Sempre alerta” – o lema escoteiro - é o grito em coro. órgão consolidado no país, responsável por estabelecer regras, “Fazer um tripé de bambu que suporte o meu peso”: é em sugerir e organizar a prática escoteira brasileira. Porém, em tom de brincadeira que Frederico – o chefe escoteiro “Fred” - passa março de 2007, surgiu uma instituição dissidente. A Associação a primeira tarefa do dia para os representantes da Tropa Sênior Escoteira Baden Powell (AEBP) – representante da Federação presentes. Os sêniores são provocados com desafios, os escoteiros Mundial de Escoteiros Independentes (WFIS, na sigla em inglês) fazem exercícios agitados para se desenvolverem, e as atividades no Brasil – que pretende dar maior autonomia às associações dos lobinhos são mais leves e repletas de mística. Os mais velhos, locais, competindo com a Lei Escoteira os pioneiros - ausentes na atividade do dia - estão mais UEB na filiação de grupos próximos da comunidade, realizando ações sociais. escoteiros. I. O Escoteiro tem uma só palavra; e´ quem Quem no sua honra vale mais do que a própria vida. Grupo Escoteiro? II. O Escoteiro é leal. III. O Escoteiro está sempre alerta Os jovens são agrupados para ajudar o próximo e pratica em ramos, de acordo diariamente uma boa ação. com as faixas de de- IV. O Escoteiro é amigo de todos e senvolvimento do ser irmão dos demais Escoteiros. humano: V. O Escoteiro é cortês. Alcatéia: lobinhos (7 VI. O Escoteiro é bom para os animais a 10 anos) e as plantas. Tropa Escoteira: escoteiros foto: A VII. O Escoteiro é obediente e driana (11 a 14 anos) Segur disciplinado. o o Segur Tropa Sênior: sêniores (15 a 17 anos) driana VIII. O Escoteiro é alegre e sorri nas foto: A Clã Pioneiro: pioneiros (18 a 21 anos) dificuldades. Cada ramo é divido em grupos. Os lobi- IX. O Escoteiro é econômico e respeita nhos se separam em matilhas e os outros ra- o bem alheio. mos em patrulhas, cada uma com um nome X. O Escoteiro é limpo de corpo e e um grito. Essas divisões auxiliam o trabalho alma. em equipe e a competição entre patrulhas.
    15. 15 O Projeto Educativo da UEB prevê que o jovem assuma como ferramenta para a aprendizagem, e não como finalidade.” o desenvolvimento de seu caráter e de suas potencialidades Calça jeans, camisa de tecido, lenço, chapéu e diversos físicas, intelectuais, sociais, afetivas e espirituais. Os chefes emblemas costurados nas camisas. Os escoteiros exibem em escoteiros afirmam que por trás de um simples jogo de bolinhas seus trajes os distintivos das especialidades acumuladas em ou de lições sobre acampamentos, há sempre um objetivo cada ramo (como cozinheiro, primeiros socorros, informática), maior – como trabalhar a responsabilidade, a consciência dos encontros e atividades especiais das quais participou. Nos social, a coordenação motora, a imaginação, a desinibição. “É acampamentos, os escoteiros são responsáveis por montar as o aprender fazendo. Os ensinamentos sobre sobrevivência na barracas, tripés e tudo o que for preciso para a permanência selva, por exemplo, ajudam cada um a conhecer seus limites no local, como cozinhar. A modalidade básica do escotismo - para então partir para a atividade com o próximo e saber de uniforme caqui - incentiva os esportes terrestres e o contato conviver em equipe”, diz Maireli Dittrich, chefe do ramo sênior com a natureza. Existem grupos que trabalham com áreas do Grupo Escoteiro Desterro, em Florianópolis. adicionais: os escoteiros do ar – de uniforme azul - trabalham O movimento escoteiro é uma ONG que fala de Deus, técnicas e a história da aeronáutica; o escotismo do mar – que mas não é religioso, e sim espiritualista. “Há um incentivo ao usa branco – ensina noções marinheiras. desenvolvimento da espiritualidade de cada um, mas não temos Por ter sido criado por um general, o escotismo apresenta uma religião comum”, explica Frederico Pinto Junior, chefe semelhanças com o militarismo, à primeira vista. Ao soar de escoteiro e presidente do GE do Ar Jayme Janeiro Rodrigues, três apitos, os jovens formam-se em filas; e só um pede silêncio de Florianópolis. e atenção de todos: “alerta aqui!”. “É apenas uma maneira Os grupos escoteiros costumam se reunir uma vez por de manter a ordem de forma fácil e diferente, sair da rotina semana – aos sábados ou domingos - em suas sedes, além de das escolas”, explica Maireli. “Nós tentamos nos desvincular realizarem acampamentos, encontros e atividades sociais. Os completamente do paramilitarismo”, completa jovens participantes pagam uma mensalidade em torno de 15 Frederico. O clima entre reais. Os jogos – sugeridos por livros ou criados pelos próprios adultos e jovens é de descontração e respeito. ; chefes escoteiros - trabalham com a competição. Para Frederico, ela é muito importante na fase juvenil. “A competição é trabalhada O verdadeiro amanhecer do escotismo Impulsionado pelo sucesso do livro, Baden-Powell promoveu um acampamento experimental na Ilha de O militar inglês Robert Stephenson Smyth Baden- Brownsea, na Inglaterra. Com 21 crianças de 11 a 12 Powell foi o fundador do escotismo. Robert nasceu a anos e seu sobrinho de nove, deu início à experiência 22 de fevereiro de 1857, em Londres. Ele e seus seis no dia 1º de agosto de 1907. Esse é considerado o irmãos tiveram uma infância ao ar livre, em excursões marco inaugural do escotismo no mundo. Após os oito e acampamentos pela Inglaterra. Seguro foto: Adriana dias de acampamento, o militar seguiu passos para a Baden-Powell entrou para a carreira militar aos 19 criação e o desenvolvimento do movimento no mun- anos. Em 1901, o então general ficou conhecido na do. Os princípios de seu livro Escotismo para rapazes, Inglaterra pela sua coragem em expedições na África. publicado em 1908 em seis fascículos, é utilizado até O seu livro escrito para militares - Ajudas ao Escoteiro hoje como manual pelos grupos escoteiros. - ficou famoso também entre a população civil.
    16. 16 “Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” A Casa do Seu Machado: futebol, carnaval e religião por Marina Almeida foto: Adriana Seguro
    17. 17 R uas estreitas, de pedra. Pessoas dor, cadeira, etc. A parte externa da casa é grande urso de pelúcia, que está logo ao caminhando lentamente, conver- decorada com mais objetos, algumas fotos, lado da entrada da casa, e foi doado por sando no portão. Pequenas mer- vinis, canecas e CDs colados nas paredes. uma menina que visitou a casa. Para o cearias, padarias; a associação de mo- “Quando o sol bate, os CDs refletem e dá dono, “a casa nunca está pronta, sempre radores, o barracão de escola de samba pra ver lá de longe”, diz seu Machado. O falta alguma coisa”. - lembranças de uma vida pacata de uma telhado é todo coberto com lâmpadas, que A re-significação dos objetos é o cidade de interior. Encontra-se o mesmo fazem o papel dos CDs e do sol durante a ponto forte da Casa do Flamengo. Cada cenário no bairro Caieira do Saco dos noite. objeto tem história, valor e utilidade. En- Limões, em Florianópolis. E no centro Como tudo começou? “Quando eu fui tretanto, ao serem expostos juntos, como dele, a construção mais peculiar do bair- pra Curitiba e vi um muro cheio de pedras decoração, passam a ter um novo valor e ro: a Casa do Flamengo, ou simplesmente de cachoeira”. Seu Machado achou boni- utilidade. Esse conceito fica claro ao nos a casa de Seu Machado. to, mas como não encontrou as pedras em depararmos com uma chaleira e uma ca- A casa é um reflexo do dono. Alcides Florianópolis, resolveu construir somente deira penduradas, ao lado de canecas em Machado tem 68 anos e sempre viveu em para decorar o muro do seu jeito. Antes só galhos de árvores. Florianópolis. O policial aposentado tem havia uma cerca separando a casa da rua. Na excessiva decoração, chama a três paixões: o Flamengo, time de futebol; Ao longo dos 20 anos que se seguiram, a atenção uma pequena capela, dedicada a a Consulado, escola de samba da capital casa se transformou de forma significa- Nossa Senhora Aparecida. Isolada em um catarinense; e o catolicismo. tiva. canto da varanda, com bancos em frente, Essas paixões estão representadas Todas as manhãs, Seu Machado foi construída por Seu Machado com a na casa. Objetos vermelhos e pretos (cores caminha pelo bairro à procura de novas ajuda de um pedreiro. Todos os anos, no do Flamengo) se misturam com santos, peças de decoração, são objetos considera- dia 12 de outubro (dia dedicado a Nossa anjos e restos de fantasias carnavalescas. dos lixo pelas outras pessoas. Ele compra Senhora Aparecida), membros da comu- Ao avistar a casa de longe, não se recon- algumas peças pensando na decoração da nidade vão à capela de Seu Machado para hece nada além das cores. Ao chegar mais casa. Mas não é só através das caminha- rezar. Também nesta parte da casa que perto, percebe-se a miscelânea de elemen- das do dono que a lugar se transforma. está a bandeira do Brasil, um dos poucos tos: troféus do time, imagens religiosas, Muitos vizinhos e visitantes doam obje- elementos que não é preto e vermelho. bolas de isopor, telefone, parte de ventila- tos que dizem combinar. É o caso de um A religião é importante para o dono fotos: Adriana Seguro Tour Casa do Flamengo Telefone no portão Camisetas do Flamengo Caixa do correio com anjo em cima Ele afirma que até tem outras Todos os dias uma vizinha camisetas, mas sempre é visto “O anjo é pra chegar só vem trazer o almoço de Seu com camisetas do time. Diz que boas notícias pelo correio” Machado, “o telefone é pra tem cerca de cinco do Flamengo, comida chegar mais rápido”. mas só comprou duas.
    18. 18 foto: Iana Lua da Casa do Flamengo. Além de ir à mis- Dentro da casa, está um objeto que sa, todo domingo distribui doces para as cumpre exatamente a função para a qual crianças da comunidade nos natais. Du- foi feita: a TV. É nela que Seu Machado as- rante o ano, Seu Machado recolhe lati- siste a todos os jogos do rubro-negro. Na nhas de metal vazias, juntando-as em um sala, única da casa, também está a ban- carrinho de supermercado que fica na va- deira do Flamengo, hasteada todo dia. A randa. Em dezembro, vende todas e, com cozinha é um dos poucos lugares em que o dinheiro, compra os doces. Na noite de não há muitos objetos remetendo ao time, Natal, veste-se de Papai Noel e sai pelo porém é só ligar o aparelho de som que o bairro. “Os mais velhos já sabem que sou hino do Flamengo começa a tocar. eu, mas eu nunca confirmo”, se diverte. Mesmo sem sistemas de segurança, Ele se orgulha: uma foto vestido de Papai Seu Machado garante que ninguém que- Noel ao lado das crianças ocupa lugar de bra nem rouba nada. “Só uma vez que destaque na parede externa da casa. duas vizinhas mexeram. Mas conversei Outro objeto que se destaca, pela di- com os pais delas, eles pediram desculpa ferença de cor, é uma cabeça de leão que e isso nunca mais se repetiu”. está pregada na parede de fora da casa. É E assim os objetos de Seu Macha- parte de uma fantasia da Consulado. Todo do seguem intactos. Pra quem pensa que o ano Seu Machado desfila pela escola do ele só quer aparecer, ele confirma: “não bairro. Ele garante que dá sorte, a Consu- adianta eu ver, os outros têm que ver tam- bém”. ; lado ganhou os carnavais de 2005, 2006 e 2007. fotos: Adriana Seguro Barquinho Mastro e chapéu da Consulado Tatuagens Localizado na parte de trás da casa, o barco Todos os dias, por volta das 17h, Seu Machado A paixão de Seu Machado pelo é um dos objetos preferidos. Foi trazido hasteia a bandeira do Flamengo, em um mastro Flamengo é tanta que ele não se do Rio de Janeiro há 15 anos, quando localizado perto do muro da casa. Em cima contenta em demonstrá-la apenas Seu Machado foi assistir o Flamengo no desse mastro existe um chapéu, parte de uma com a casa ou com as camisetas Maracanã. Até esse dia, Seu Machado tinha fantasia carnavalesca. Pode parecer estranho que veste regularmente: fez duas um cabelo estilo black power, mas, para para quem olha, mas Seu Machado explica: “foi tatuagens no peito, com o brasão do ganhar as passagens pro Rio de um amigo, o chapéu que desfilei ano passado. Quando a time. Pra quê? “Pra quando eu for na cortou. Consulado foi campeã do carnaval e o Flamengo praia as pessoas saberem que sou ganhou a Copa do Brasil”. flamenguista.”
    19. 19 Lar do Chico TT Lar do Chico udo começou no ano ano 1974, nana praia udo começou no de de 1974, praia da Joaquina, Florianópolis. “Não, na ver- da Joaquina, Florianópolis. “Não, na dade verdade começadocomeçado antes”, já havia já havia antes”, corrige- se Cantídio dosCantídio dos Santos. O manezin- corrige-se Santos. O manezinho, mais ho, mais conhecido como Chico, trabalhava conhecido como Chico, trabalhava no bar da A história, a rotina e os personagens de um dos faculdade deda faculdade da Bioquímica daFe- no bar Bioquímica de Universidade Uni- A história, a rotina e os personagens de um dos mais tradicionais restaurantes de Florianópolis deral. versidade Federal. Os trêsverão eram férias Os três meses de férias de meses de um problema. Só curtir era uma opção,Só curtir era de verão eram um problema. mas como mais tradicionais restaurantes de Florianópolis precisava do dinheiro, ocomo precisava do din- uma opção, mas conselho empreende- dor do irmãoocaçula veioempreendedor do irmão heiro, conselho a calhar. por Luisa Frey caçula veio a calhar. Chico Chico decidiu deixar de ser empre- decidiu deixar de ser empregado e, com alvará com alvará temporário da prefeit- gado e, temporário da prefeitura, abriu uma barraca nauma barraca na praia. O origi- ura, abriu praia. O irmão, dono irmão, nal do apelido “Chico” apelido “Chico” (e o nome dono original do (e o nome dele não era Francisco, não era Francisco, mas Jaci!), era seu dele mas Jaci!), era seu sócio. A barraca não tinha nome, mas escutava-se nome, mas es- sócio. A barraca não tinha o tempo todo “Chico pra lá, Chico pratodo “Chico pra lá, Chico cutava-se o tempo cá”. Quando este dei- pra cá”. Quando este deixou a sociedade, xou a sociedade, Cantídio acabou incorporando Cantídio acabou incorporando o apelido. o apelido. “Naquela época, a praia praia da Joaquina “Naquela época, a da Joaquina só só tinha os surfistas e suas ‘cocotinhas’”, tinha os surfistas e suas ‘cocotinhas’”, lembra Chico.lembraesse público essealiado a fiel aliado Com Chico. Com fiel público uma fi- a uma filosofia de nunca se acomodar, o losofia de nunca se acomodar, o jovem praia no jovem transformou a barraca de trans- formou a barraca de o Rei da Caipirinha”. A Flo- “Bar do Chico, praia no “Bar do Chico, o Rei darianópolis dos anos 70 era carente de bares Caipirinha”. A Florianópolis dos anos 70 era carente de estabelecimentoestabelecimento e o novo bares e o novo “chegou para ar- “chegou para arrebentar”. pessoaamais humilde, rebentar”. Desde a Desde pessoa mais humilde, até celebridades como o governador, até celebridades como o governador, todo todo mundo freqüentava o bar. “O que acontecia mundo freqüentava o bar. aconte- cia nono verão, acontecia no Chico.” verão, acontecia no Chico.” O sucesso foi ainda maior com com o lan- O sucesso foi ainda maior o lança- mentoçamento do famoso torpedo tempos de do famoso torpedo de siri. Os de siri. Os tempos de serviço à Marinha o inspiraram serviço à Marinha o inspiraram a criar - em conjunto com aem conjunto com a- esposa Nor- a criar - esposa Normeci o bolinho meci - o bolinho em formato da máquina em formato da máquina de guerra submarina. de guerra submarina. Normeci ficou com Normeci ficou com medo de que o nome viras- medo de que o nome virasse gozação em se gozação de surfistas. surfistas. Pelo contrá- terra em terra de Pelo contrário, logo pe- rio, logo pegou e era comum se escutar brin- gou e era comum se escutar brincadeiras cadeiras do tipo “cuidado, um torpedo de siri do tipo “cuidado, um torpedo de siri vai vai te te atingir!”. O aperitivo virou tradição e é atingir!”. O aperitivo virou tradição e é servido hoje em muitos restaurantes da servido hoje em muitos restaurantes da ilha. fonte: www.casadochico.com
    20. 20 fotos: Luisa Frey Chico Valdeci Adenildo Getulio Bigode, um pouco O gerente da Casa - óculos, cabelos Manezinho, com cara de menino, Adenildo Funcionário há 14 anos, careca, camisa esporti- grisalhos, jeito sério - é a con- Florindo é cozinheiro do restaurante há 11 um dos dois garçons mais va. Aos 30, Cantídio dos tradição em pessoa. Diz não gostar anos. Começou em um barco pesqueiro, antigos, Getúlio Pinheiro é Santos descobriu ser um de trabalhar nem de lidar com o onde aprendeu a fazer comida caseira. Ade- gaúcho, mas já se conside- ano mais velho. Culpa público. Considera o ser humano, nildo conta que o que mais lhe encanta no ra “cataúcho”. Com 38 anos do pai, que o registrou ignorante e grosso, a pior espécie trabalho é quando alguém pergunta quem de profissão, fez curso no atrasado. Hoje, Chico dá da face da terra. Mesmo assim, é fez o prato e o elogia. Para ele, a pior coisa é Senac e chegou a trabalhar a idade da certidão: 63 dedicado, simpático e querido pelos receber crítica. Na ausência do chef, Adenil- no refinado Terraço Itália, anos. funcionários. do é o encarregado pela cozinha. em São Paulo. Em 1986, o ex-marinheiro vendeu - cozinheiro da Casa há 11 anos - descasca a saída dos pratos e outra para a entrada o Bar do Chico e abriu o Chico’s Bar na mandioca. Ao todo, são quatro ajudantes e de louça suja. A máquina de lavar louça, Avenida Beira-Mar Norte. Mais um bom dois cozinheiros. assim como a de copos, esteriliza tudo com negócio. Em 1988, o proprietário recebeu No centro, um enorme fogão indus- água a 100°C. Quem lida com os copos e uma oferta irrecusável e vendeu o ponto na trial com cerca de dez panelões a cozinhar. prepara as bebidas são os dois copeiros. Beira-Mar. Mas Cantídio não tem do que Duas grandes geladeiras, também indus- Está tudo pronto. Às 11h30, as portas reclamar. A Casa do Chico, hoje de frente triais, armazenam o que já está semipronto se abrem e agora é aguardar os fregueses. para a Lagoa da Conceição, é tradição na tanto para o dia, quanto para a noite. Ade- Meio-dia chegam os primeiros, dois casais. ilha e visita obrigatória para os turistas. Ao nildo agora esquenta a chapa, que deve ter Escolhem uma mesa na janela, onde têm o lado do restaurante, fica o Chico’s Music dois metros por um, e limpa-a com óleo e privilégio de contemplar o magnífico espe- Bar, uma mistura de bar e danceteria. sal, raspando com uma espátula. lho d’água, ainda mais bonito em um dia O garçom Getúlio prepara as mesas, de sol como este. Em seguida, uma grande A Rotina arrumando pratos, talheres, galheteiros. mesa se enche com uma família numerosa, Sábado, 9h30 da manhã. Valdeci, um Durante a semana, a Casa conta com qua- provavelmente freqüentadora assídua do dos 29 irmãos de Chico e gerente da Casa, re- tro garçons por turno. Sábado são cinco; restaurante. Antes das 13h, já são seis as cebe as mercadorias nos fundos. Tudo chega domingo, seis. Getúlio diz que o prato mais mesas ocupadas. in natura e é preparado no próprio restaurante. pedido é a seqüência de camarão e, quando É mesmo impossível o restauran- O turno do dia começa cedo, às 8h, é época, a tainha também faz sucesso. te ficar vazio. Ambiente agradável, gente e vai até ás 18h. Na cozinha, o chef Nes- - E a caipirinha? simples e de boa vontade, sempre com um tor Larossa Moreno - negro, de meia-idade - Não é mais tão pedida quanto na sorriso no rosto. A Casa do Chico lembra e “encorpado” - circula pra lá e pra cá. Uma época do Rei, mas ainda sai bem. mais um lar, aconchegante e acolhedor. das ajudantes lava dezenas de pés de alfa- Da cozinha, despontam duas bo- ce, outro pica legumes, enquanto Adenildo quetas (uma espécie de janela): uma para
    21. 21 Receita fonte: www.brasilsabor.com.br Simples e refinado ao mesmo tempo, criado pelo próprio Chico, o prato representa o restaurante na edição 2007 do festival gastronômico Brasil Sabor. O linguado é um peixe leve, se desfaz na boca e a camada crocante de corn flakes que o envolve lhe dá um toque a mais. É interessante também a inusitada combinação entre peixe e bacon. Além das cenouras, o arroz com passas, cerejas e licor Cointreau dão um sabor adocicado à receita. Não podia faltar o tradicional molho tártaro que acompanha os pratos da casa e - estando em Florianópolis - o camarão, é claro. Ingredientes •2 filés de linguado (150-200 g) •8 tiras de bacon (pré-frito) •50 g de flocos de milho (corn flakes) •4 camarões médios •150 g de arroz •2 colheres de sopa de uvas passas •4 cerejas em conserva (3 para o arroz e 1 para decorar) Linguado crocante •50 ml de licor Cointreau •4 ramos de brócolis `a a mod do Chef •50 g de cenoura baby •50 g de batata baby modo de preparo Tempere os filés com sal, limão e pimenta branca e deixe absorver os temperos por 10 minutos. Enrole cada filé com 4 tiras de bacon e prenda-os com palitos. Em seguida polvi- lhe com trigo, passe no ovo e empane com corn flakes bem moído, de maneira uniforme. Repita o processo para empa- nar os camarões. Frite-os no óleo em uma temperatura mé- dia de 150°C, por aproximadamente 10 minutos para o filé de peixe e 5 minutos para os camarões. Deixe as passas e 3 cerejas picadas de molho no licor por cerca de 5 minutos, enquanto os legumes cozinham. Em uma frigideira, coloque Casa do Chico o arroz já cozido, adicione as passas e as cerejas e mistu- Av. das Rendeiras, 1620 re bem em fogo brando por 2 minutos. Decore o arroz com Lagoa da Conceição, Florianópolis a cereja inteira, hortelã e salsinha a gosto. Acomode os filés Fone: (48) 3232-5132 no centro da travessa e os camarões e legumes em volta. ; Terça a domingo das 11h30 às 0h30
    22. 22 [e ntrevist a ] Ive Luna A cantora vai além da sonoridade das palavras, e brinca com a linguagem. Uma música que encanta. por Thiago Bora Cheiro de chuva I ve Luna cresceu ouvindo na vitrola o disco de vinil teimoso e velho. Ainda novinha, decidiu estudar piano. Depois, fez aulas de violão, canto, teatro. Graduou-se em música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), participou do Grupo Cupuaçu de Pesquisa e Danças Populares (entre 1991 e 1992) e do grupo Teatro Jabuti (de 1992 a 2003), com atuação na direção musical, pesquisa e composição de trilhas sonoras. Hoje, é vocalista da banda Cravo- da-Terra. Solta no braço da poltrona rosa – pessoa literalmente em prosa -, Ive fala à ponto-e- vírgula sobre sua vida, trabalho, estudos e, claro, música. fonte: www.soldaterra.com.br
    23. 23 Ponto-e-vírgula - Quando começou seu interesse pela ; - O teatro ajuda na interpretação das músicas na hora música? de cantar no palco? Ive Luna - Minha família sempre foi muito festiva. Tenho Ive - Ter estudado teatro ajuda principalmente na minha lembranças muito musicais de minha infância, tanto na concentração e no meu equilíbrio. Ajuda também a encontrar casa de meus pais quanto na de meus avós. Em casa, meu espaço no palco e a viver a relação que construí com meu pai tocava violão, bandolim e cantava. Minha mãe esse espaço durante a minha trajetória. O palco hoje é, tocava piano, triângulo e cantava também. Tocavam baião, para mim, o lugar onde revivo as festas de minha infância, valsa, músicas latinas, seresta. Na casa de meus avós, no onde posso compartilhar com meus colegas de trabalho e subúrbio do Rio de Janeiro, meu bisavô tocava violão e com o público aquilo que é mais verdadeiro em mim e o que todos cantavam. A música pra mim sempre simbolizou a escolhi fazer de minha vida. É para interpretar as músicas festa onde se partilha do pão. Comecei a estudar piano aos que hoje subimos no palco. E se estivermos inteiros, elas nove anos, violão aos 13 e canto aos 18. Desde muito cedo a vêm puras e aparecem como são. É claro que, para tanto, música me alimentava, me acalmava, me ninava e me punha muitas horas de estudo foram despendidas. de pé. No entanto, nunca pensei que fosse possível viver de ; - E quantas horas por dia você dedica à música, além música. A decisão de tê-la como profissão veio bem tarde. dos ensaios com a banda? Aos 14 anos comecei a estudar teatro, pensando em ser Ive - Isso depende muito. Quando estou menos atarefada, professora ou coisa assim. Porém, na maioria das vezes que eu era chamada para algum espetáculo, me encarregavam consigo estudar umas duas horas, ou compor, ou terminar de tocar e cantar. Decidi, então, estudar música para tocar um arranjo. Como trabalho com outros músicos, tenho e compor para o teatro. Aos 24 anos comecei a estudar ensaios quase todos os dias. É fundamental, portanto, ter flauta para tocar no Teatro Jabuti. Hoje não trabalho mais pelo menos essas duas horas por dia para dar uma olhada com teatro, embora continue pesquisando e fazendo trilhas, em tudo, mas nem sempre consigo. o que me deixa mais tranqüila. fonte: www.soldaterra.com.br “O palco ; - Ter participado do grupo Teatro Jabuti, na direção hoje é, musical, pesquisa e composição de trilhas sonoras, para mim, ajuda na hora de compor para o Cravo-da-Terra? Ive - Ajuda muito. Para compor uma trilha é preciso certo o lugar compromisso com a linguagem desenvolvida no espetá- onde revivo culo. É preciso atentar para a unidade e para o tempo de cada cena. Embora eu não tenha o mesmo compromisso as festas quando componho simplesmente, a experiência de com- por trilhas me tornou consciente dos elementos que uso. de minha Componho com liberdade, mas sempre dou uma olhadi- infância” nha no que fiz.
    24. 24 “Trago flauta transversa e flauta de bambu, por exemplo. Quais os cuidados que você tem com a voz e o corpo? em mim Ive - Eu tento sempre me poupar. Durmo bem, me alimento o cheiro com consciência e pratico exercícios. Evito ingerir bebidas geladas. Mas gosto de uma cervejinha, quando não vou da chuva cantar naquela semana. e do sal, ; - De todos os instrumentos que você toca, qual acha o nos dias mais complicado? Por quê? de matar Ive - Acho complicado tocar flauta transversa, porque preciso tocá-la no palco e não sou instrumentista. Com os aulas” outros que toco não tenho nenhum compromisso. Divirto- me à vontade. fonte: www.soldaterra.com.br ; - Você disse, em um show que fizeram na Universidade ; - Como você divide seu tempo, entre ensaios e estudos? Federal de Santa Catarina (UFSC), que o maior público Ive - É muito maluco esse negócio de tempo. Todos de vocês são as pessoas daqui de Florianópolis. Como é a sua relação com esses fãs? devemos estudar em casa para aproveitar melhor o ensaio. Ive - Florianópolis é o lugar onde eu cresci, engordei, fiquei No entanto, temos outros trabalhos. Vivemos correndo atrás das rédeas do tempo, mas não a alcançamos ainda. bem forte. Andei muito descalça por essa ilha, quando nela Sou dona de casa. Preciso fazer almoço. Meus ensaios são ainda havia muita terra. Trago em mim o cheiro da chuva e sempre à tarde. Portanto, tenho de estudar pela manhã, entre do sal, nos dias de matar aulas. Lembro as cenas dos filmes cafés e almoços. À noite prefiro compor e escrever projetos. proibidos no cinema da UFSC, das caminhadas noturnas, dos banhos de lagoa para despertar. O público daqui, pra ; - Nas horas livres você gosta de fazer o quê? mim, tem esse mesmo cheiro e humor jovial. É um público Ive - Eu gosto de dormir. Acho que dormiria muito mais, colorido e desencanado. É por esse público que tenho mais se pudesse. Gosto de ler um bom livro. Adoro umas respeito. caminhadas longas na praia, umas corridas no asfalto e umas braçadas na piscina. Cinema é sempre uma ótima ; - Você já se apresentou em vários lugares, qual foi o pedida. Uma mesa com boa comida e muitos amigos. mais inusitado? Jogar conversa fora com minha filha adolescente é incrível Ive - Aconteceu um fato muito engraçado com o Cravo- e pega-pega com a filha menor é também muito divertido. da-Terra: era férias de verão e nós estávamos fazendo uma Namorar é bom também! pequena turnê pelo litoral de Santa Catarina. Em São Francisco do Sul havia uma tenda em uma pequena praça, ; - Você canta e toca vários instrumentos de sopro – onde se realizavam as missas diárias. No dia de nossa...
    25. 25 apresentação a prefeitura do município não avisou aos fiéis que vivencio. De histórias que me contam. De sensações, que no lugar da missa haveria nosso show na tenda. O padre de frio, de aperreio. Às vezes imagino cenas com cores e estava presente. Nós já havíamos passado o som. Estava movimentos, e aí elas já têm um som, uma música tocando. tudo pronto. Os fieis foram chegando e se acomodando Outras vezes penso numa história toda inteira, com um nas cadeiras de plástico. Quando a tenda estava lotada, o personagem. Mas acho que componho, principalmente, padre anunciou que haveria um show muito cultural com partindo de coisas que gostaria de compreender melhor. a orquestra Cravo-da-Terra. Os fiéis ficaram desconfiados e ; - A vitrola ainda te chama pra dançar? nós também. Demos boa noite a todos e começamos a tocar. Ive - Bastante. E eu sempre vou, é claro! ; O público começou a ir embora. Sobraram umas cinqüenta pessoas curiosas. Foi bem difícil e muito engraçado. Tocamos na missa e não agradamos muito. “Tenho ; - E o quê você procura fazer, então, quando vê que a platéia não está gostando muito? muita crença Ive - Continuo firme e forte. Tenho muita crença na arte na arte que que fazemos com verdade. Sempre busco entender o que pode estar acontecendo para tentar mudar o quadro. Mas, fazemos com na maioria das vezes, infelizmente, não há o que fazer se não tentar mostrar que o que temos pra oferecer é tudo verdade” o que temos, e podemos compartilhar com quem estiver disposto. ; - Sente um nervosismo antes de pisar no palco? Ive - Sempre. E é muito importante, a meu ver. Ficar um pouco nervosa me deixa atenta e me obriga a usar técnica “Demos boa e concentração. São duas coisas importantes para começar noite a todos uma apresentação, até que ela esquente. e começamos ; - Quanto tempo de trabalho para produzir o primeiro CD? Ive - O primeiro CD foi resultado de dois anos de pesquisa a tocar. e composição. Fizemos duas turnês pelo estado com o show O público e só depois gravamos. começou a ir ; - De onde vêm as inspirações para compor? embora” Ive - De quase tudo. De coisas que observo, que sonho,
    26. 26 [e s por te] A primeira vez ninguém esquece Cada detalhe, cada momento, tudo fica em nossa memória. Nas páginas a seguir, Luisa Frey e Lucas Sarmanho compartilham suas experiências com os leitores. A propósito, você já foi ao estádio ver um jogo de futebol? foto: Pedro Santos arte: Maurício Tussi
    27. 27 Morumbi, Santos x São Caetano pacidade para 80 mil, o Morumbi não com o juiz e sabia o nome de todos os encheu (com exceção da parte das tor- jogadores. Fascinante cidas organizadas – a do São Caetano Faltando 15 minutos para o fim, em extrema desvantagem). Assistimos nosso goleiro se desespera e comete um ao jogo confortavelmente sentados. pênalti desnecessário. Dois a zero para decepção por Luisa Nada de muvuca de torcedores. Nem o São Caetano. Mesmo eu pedindo, em P “ola” teve. pensamento, “façam um gol pra mim, é ara a maioria dos torcedores, 29 de O mais divertido do pré-jogo fo- a primeira vez que venho ao estádio!”, o abril de 2007 não passou de mais ram os mascotes. Nunca imaginei ver grito de gol ficou apenas para o coro “gol, um dia de final do campeonato pau- um pássaro azul com roupa de futebol gol, gol”, durante um escanteio. lista. Mas a partida entre Santos e São (São Caetano) e uma baleia (Santos) – Na saída, a multidão santista esva- Caetano ficará marcada como meu pri- apesar de ser um mamífero, as cores ziava o estádio cabisbaixa. A decepção meiro jogo em um estádio de futebol. preto e branca combinam com o “peixe” era geral. Um pai consolava o filho, di- Nunca pensei que ir ao estádio pu- – disputando a bola. zendo que ainda viriam outros 90 minu- desse ser um programa tão tranqüilo e O jogo começa. Na TV, o campo pa- tos (a final tem 180, separados em dois familiar. Isso mesmo, quem me levou rece bem maior e, ao vivo, não há toda jogos). ao jogo foi meu pai, apaixonado santis- aquela aura de espetáculo. Os jogadores Eu não preciso de consolo. É diver- ta, acompanhado de minha mãe e meu parecem mais humanos e o jogo, uma pe- tido torcer, mas o fanatismo não entra irmão. Eram várias as famílias presen- lada qualquer. em minha cabeça. É claro que seria mais tes, principalmente pai e filho. No segundo tempo, o time parece animador ver o Santos vencer. No en- A expectativa era de um Morumbi ter acordado. Por sorte, com os lados tanto, continuo achando que, se o time – oficialmente, Estádio Cícero Pompeu invertidos, o jogo se concentra onde es- ganha ou perde, nada muda em minha de Toledo - lotado e, por isso, chega- tamos. Apesar de demonstrar rapidez vida. Valeu a experiência de ver tudo o mos pouco depois das 14h. De cara, e agilidade, o “peixe” atacava, atacava, que gira em torno desse espetáculo fas- uma surpresa: nosso lugar era cober- mas não conseguia finalizar. Chutes a gol cinante. Talvez eu possa me considerar to, com bancos de madeira e... vazio! E foram quase nulos. Até entrei no clima um pouco mais santista e brasileira nes- não foi só porque era cedo. Mesmo com de gritar, mas nem tanto quanto um tor- te país do futebol. um público de 32 mil pessoas, com ca- cedor fanático, que falava diretamente foto de luisa frey, direto de seu assento de madeira
    28. 28 Beira-rio, Internacional x Coritiba uma torcida organizada do Grêmio – gran- tão perto do time que sempre acompanhei de rival do Internacional – saíam do res- por rádio e TV. Logo estava berrando e Um colorado taurante em quatro ônibus cheios, rumo a cantando músicas de apoio ao time, coisa São Paulo para assistir a um jogo do time, que até então achava exagero. pela 2ª Divisão do Campeonato Brasilei- Mesmo com dificuldades, o Inter jo- que se preza por Lucas ro. Descuidados, entramos no restauran- gava melhor que o Coritiba e, inclusive, C te sem perceber o perigo. Os gremistas, para minha alegria, marcou um belíssimo erta vez, ouvi que todo torcedor de então, vendo nossa ousadia, começaram gol de cabeça no mesmo local onde antes futebol que se preza está sempre a cantar músicas do Grêmio e outras de eu e meu irmão havíamos ensaiado. No fi- perto de seu time do coração. No deboche, arremessaram latas, papéis e nal da partida, vitória colorada por 3 a 2. dia 20 de agosto de 2005, fui obrigado a embalagens de alimentos em nosso gru- Na viagem de volta, encontramos ou- concordar. Após 17 anos de vida, metade po, que se encolheu num canto. Após a tra torcida organizada, agora do Coritiba, deles como torcedor do Sport Club Inter- polícia ser chamada, os torcedores dei- jantando em um restaurante à beira da nacional, realizei o sonho de assistir a um xaram o restaurante e seguiram viagem, estrada. Desta vez, porém, apenas con- jogo do Inter ao vivo, no estádio do clube, assim como nós, aliviados do susto e com versamos pacificamente. Voltamos para o Beira-Rio, em Porto Alegre (RS), contra uma boa história pra contar. casa felicíssimos, eu mais fanático do que o Coritiba, pelo Campeonato Brasileiro. Na manhã do dia seguinte, finalmen- nunca. Saí na noite do dia anterior, em ex- te, chegamos ao Beira-Rio. Com uma visita Depois daquele jogo, o Inter conse- cursão organizada pelo Consulado do agendada por nosso Cônsul, conseguimos guiu sair da má fase e ficou nove meses S.C.Internacional de Jaraguá do Sul (SC), conhecer todo o estádio, seus corredores, sem perder no Beira-Rio. Mas cerca de um minha cidade natal. Fui acompanhado vestiários, salas, camarotes, cabines de im- mês depois, devido a mais um escândalo de meu irmão e de outros 60 torcedores, prensa e o próprio campo, onde ensaiei um de corrupção no país, desta vez envolven- todos homens. Embora muitos fossem gol de cabeça imaginário com meu irmão. do um árbitro de futebol, a partida entre gaúchos, a maioria nunca havia visto um À tarde, 20 mil pessoas aproveita- Inter e Coritiba foi anulada, assim como jogo do Inter no Beira-Rio. vam uma promoção de uma marca de café outras oito do Campeonato Brasileiro da- Durante a viagem, logo na primeira para assistir ao jogo, sem pagar ingres- quele ano. Mesmo assim, em minha me- parada, num restaurante próximo a Flo- so, e torcer para o Internacional. O jogo mória, o jogo se tornou inesquecível. ; rianópolis, uma surpresa: integrantes de começou e eu ainda não acreditava estar lucas sarmanho, confortavelmente sentado... ...assiste ao jogo
    29. 29 [c rô n ica d e vi a g e m ] P assagem aérea, acomodação, comida, transporte. Custa caro viajar para o exterior. Se for para Nova York, cidade conhecida por seus preços astronômi- cos, é pior. Engano. É só pesquisar um pouco para descobrir ótimos eventos gratuitos. As opções variam: o turista tanto pode acabar num show para milhares de pessoas ou em uma confeitaria aconchegante, experi- mentando chocolates coloridos. Tive as duas experiên- cias no verão nova-iorquino de 2005. Nova A Fantástica Fábrica de Chocolate, filme de Tim Burton estreava naquele dia. Para divulgar, a confei- taria Dylan’s Candy Bar, em Manhattan, copiou parte do cenário do filme na loja e distribuiu kits para os 50 York primeiros que chegassem. Como típica turista, perdi- me no metrô e não consegui chegar a tempo de ganhar um kit. No entanto, os atrasados e desavisados não ! eram punidos. Vestidos de Oompa-Loompas, persona- ´ gens do filme, os funcionários ofereciam refrigerantes por Fernanda Dutra que explodiam na boca e pirulitos. E ainda podíamos nos servir das fontes de chocolates roxo e marrom, com um palito cheio de marshmellows. Enjoei de tanto co- mer chocolate de graça. Música ao vivo sem pagar couvert O nova-iorquino faz questão de aproveitar o verão para sair de casa e curtir o clima quente e úmido. Os parques ficam lotados. Aproveitando a ocasião, a Or- questra Filarmônica de Nova York se apresentou nos maiores parques de cada borough (ler box) naquele verão. Fui ao concerto no Prospect Park, Brooklyn. Eu era a única turista e, também, a única despreparada. Levei só uma canga com a bandeira do Brasil. Mas quando o sol se pôs, o tempo esfriou e todos tinham moletons, menos eu. Além disso, não pensei em levar uma cesta de piquenique e tive que me contentar com pacotes de pipoca, enquanto via ao meu lado donuts e muffins. À beira-mar, em um bairro de parques de diversão ao estilo cidade do interior, Coney Island, Brooklyn, o Siren Festival me acolheu melhor. O festival de música alternativa traz bandas quase-famosas todos os verões. Os stands dos selos musicais são uma diversão
    30. 30 à parte: sessão de autógrafos com as bandas e cds, revistas, buttons, adesivos e até saches perfumados para carros, tudo de graça. Saí de lá com os ombros doendo, minha bolsa estava pesada. Além de carregar cds pra mim, peguei para os meus amigos e economizei com os pre- sentes. Foto com a Estátua da Liberdade: não tem preço Escolher passeios que não exigem dinheiro é uma forma de economizar com turismo. No entanto, dificilmente os pon- tos turísticos mais visitados entram na programação gratuita. Visitas a museus e monumentos custam caro. Para chegar até a ilha da Estátua da Liberdade, o turista paga U$11,50. Se quiser admirar a vis- ta do alto da coroa da Estátua, tem que desembolsar mais um pouco. Uma opção gratuita é pegar a balsa até Staten Island, Nova York é dividida em 5 que não pára na ilha do monumento, mas grandes áreas, chamadas de boroughs. Cada uma tem uma passa bem perto. Foi o que eu fiz. Evitei população característica. o congestionamento turístico e conheci uma área pouco visitada de NY. Durante o dia, Staten Island parece uma cidade fan- tasma. Estão todos trabalhando em Man- hattan. À noite, é como uma cidade suburbana. O site FreeNYC (www.freenyc.net) traz toda a programação de eventos gratuitos em Nova Staten Island – Famílias brancas pobres, York. O internauta encontra desde shows a pa- em geral. Brooklyn – Bem diversificado. Famílias lestras e oficinas, com informações de horários de classe média, brancos e negros. Ar- e datas. Em guias de programação da cidade, tistas. também se encontra facilmente este tipo de in- Manhattan - A NYC que aparece nos film- formação. es. População branca, rica, cosmopolita. Sempre aquele lema: de graça, até injeção Queens – Abriga imigrantes do mundo na testa. Se for em Nova York, ainda melhor! ; todo, cada um com seu bairro. Bronx – A população negra é predomi- nante. Uma das áreas mais pobres e vio- lentas.
    31. 31 [ f o tografi a ] o mais perto possível micromundo Maurício Tussi Juliana Sakae Juliana Sakae
    32. 32 Bilhete Mário Quintana Se tu me amas, ama-me baixinho Não o grites de cima dos telhados Deixa em paz os passarinhos Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda... Maurício Tussi Juliana Sakae Maurício Tussi
    33. 33 [c r i ação ] po insuficiente para me entreter – estou ainda acompanhada por Caetano. Trinta minutos e catorze Garotas de Ipanema de pout pourri V espera e, enfim, chega o “Beira-Mar Norte ivo à margem da essência que sem- Direto” (à p.q.p., provavelmente). Subo ao pre desejei ser. Ando por entre tri- som de Sepultura, Xuxa e todos os outros lhas sonoras de sucesso decadente discos que, tocados de trás para frente, dos anos 80 (sonhava com um E O Vento gritam “viva demônio”. Sento-me, pare- Levou à la Casablanca). Sonhar, andar, ço serena por fora, uma figura típica de viver; infinitivei milhares de verbos do ge- mulher na TPM: não encosta ou explodo. por Juliana Sakae Quem me olha, acha que sou Um Diário de rúndio à procura de uma explicação; que Princesa, enquanto estou no funeral dos vá à merda o dicionário lotado de palavras. O mar, ao lado, inala o fétido odor quatro casamentos. Desço no terminal, dos bueiros florianopolitanos. Capitão Van os passos pesados, sem trilha sonora. São Trapp sussurra Edelweiss com a tristeza dezenas de pessoas por metro quadrado, da Áustria perdida. Caminho em direção fumando, falando alto, berrando e can- tando. Procuro, no listplay da minha in- à Ponte Hercílio Luz ao ritmo da música suave e melancólica da trilha de A Noviça consciência, uma música que me envolva Rebelde, quando um batalhão de homens o suficiente para me tirar desta multidão surda. Passo por Flashdance e Grease e estremece o chão e as pernas das meninas desesperadas. Van Trapp sorri, salta para me divirto lembrando John Travolta no trás três vezes e muda seus trajes de gala tempo da brilhantina. Concentro-me em Pulp Fiction e vou, sem saber o porquê, da para uma calça colada azul-clara. Trans- forma-se em Kyle, o cocheiro bonitão da versão atual de Black Eyed Peas à Tati- O mar, ao lado, fada-madrinha de Shrek. Com estrelas e Quebra-Barraco. Por entre muambas do inalados bueiros odor o fétido camelô, paro em Dois Filhos de Francisco fogos de artifício, o show dos moços da após uma jam session entre Alexandre Pi- aeronáutica seria completo para as meni- florianopolita- nas que cochicham sem parar. À frente, res, Zeca Pagodinho e Leonardo. nos. Capitão Van no desfile à beira-mar, duas trilhas lutam Trapp sussurraa dentro da minha (in)consciência: Rocky se Edelweiss com exibe com seu pitbull à doce sonhadora Respiro. tristeza da Áustria Moulin Rouge, de bicicleta amarela e sapa- perdida. Caminho tos delicados. em direçãoLuz ao te Hercílio à Pon- Quero Casablanca, Amadeus e Cin- Entro no primeiro ponto-de-ônibus derela. Quero um momento de silêncio, da avenida e aguardo. A espera irritante ritmo damelancóli- e música esteticamente pacífica do ambiente traz à com som de aves e árvores. Quero um suave trilha de A minha cabeça, irritantemente, uma bossa, Deus brasileiro como Antônio Fagundes ca da Rebelde, irritantemente, nova. Aguardo, por entre que estale os dedos, silencie os ruídos e Noviça um batal- trilhas sonoras de elevador, um ônibus me tire deste pout-pourri de sucessos da quandohomens (olha), o mais rápido (que coisa) possível AM/FM do elevador. ; hão de nesta manhã (mais linda, mais cheia de estremece o das e as pernas chão graça) de domingo. Uma imagem do Go- dzilla estraçalhando todos os terminais de meninas desesper- ônibus da cidade passa rapidamente, tem- adas. Van Trapp
    34. 34 [ Causos &Coisas] Aforismos sem-noção Aniversariantes do mês: Ser safado e inteligente faz com que a realidade pareça mais amarela e roxa, pergunte aos alfaiates. 01/08 - Pierre Bourdieu (77 anos) Se as carambolas conjecturarem um plano com os 06/08 - Andy Warhol (79) micuins, é possível que todos morramos mais cedo 07/08 - Caetano Veloso (55) de catapora. 13/08 - Fidel Castro (81) e Alfred Hitchcock (108) 15/08 - Napoleão Bonaparte (238) Comer panquecas de espinafre torna o amor mais 16/08 - Madonna (49) e Tiradentes (261) abundante para as formigas da capadócia. 22/08 - Rodrigo Santoro (32) 27/08 - Confúcio (2558) A fúria de Chávez encontra inspiração nas casas 30/08 - Anita Garibaldi (186) açorianas do século XVII, principalmente as localizadas ao sul do Atlântico Norte. Cair de cachorro na parede pode ser interessante comemorar? Procurando motivos para particularmente aos domingos. Faça-o para os nepalinos. A Ponto-e-Vírgula seleciona as melhores datas de Agosto! Arremessar bananas contra caminhões Mercedes Benz é o mais recomendado para 01/08 - Dia do Selo Postal Brasileiro o tratamento de deslocamento na retina. 03/08 - Dia do Tintureiro 12/08 - Dia da Juventude Se mais um de nós morrer, todos nós podemos 13/08 - Dia do Pensamento quem sabe ser mais humanos, menos humanos, 14/08 - Dia da Unidade Humana mais laranja ou pirata, você quem sabe. 19/08 - Dia da Aviação Agrícola 27/08 - Dia da Limpeza Urbana O realismo e a abordagem objetivante do real são receitas tão possíveis quanto um bolo formigueiro E, para fechar o mês, no dia 31/08, vamos sair de casa com raspas de laranja. para comemorar o maravilhoso Dia do Outdoor. Piche o seu preferido! O banho resume nossas qualidades, características e essência em três gotas que caem na orelha direita.
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