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Trotski, Rosa Luxemburgo e o mito da “teoria leninista da organização”
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Trotski, Rosa Luxemburgo e o mito da “teoria leninista da organização”

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  • 1. Artigo Trotski, Rosa Luxemburgo e o mito da “teoria leninista da organização”Murilo Leal Pereira Neto11 pensei em erigir as formulações do Que Fazer? em algo “programático”, em princípios especiais (LÊNIN apud Tentaremos argumentar neste artigo que Leon CARLO, 1976, p. 89)4.4Trotski, embora tenha aderido ao Partido Bolchevique em Na célebre polêmica com Rosa Luxemburgo,agosto de 1917 e, a partir de então, defendido a concepção Lênin nega que defendesse um sistema de organizaçãoleninista da organização partidária, empreendeu, antes contra qualquer outro:disso, uma trajetória política e defendeu uma concepção (...) Devo assinalar que o que o artigo de Rosa Luxemburgo, publicado no Neue Zeit, dá a conhecerde partido mais próxima das tradições da II Internacional ao leitor não é meu livro, mas outra coisa, distinta (...)– que, por sua vez, mantinha proximidade com a A camarada Luxemburgo diz, por exemplo, que em meuexperiência de organização da I Internacional. Mesmo livro manifesta-se clara e nitidamente a tendência de umdepois de sua conversão ao bolchevismo-leninismo, centralismo extremo. A camarada Luxemburgo supõe,Trotsky defendeu uma concepção de centralismo assim, que defendo um sistema de organização contrademocrático mais flexível do que muitos de seus qualquer outro. Mas, na realidade, não existe tal coisa. O que defendo ao longo de todo o livro, desde a primeira atédiscípulos, que lideraram a IV Internacional ou algumas a última página, são os princípios elementares de qualquerde suas facções depois de 1940. organização de partido que se possa imaginar (LENINE, Na impossibilidade de dialogar com as múltiplas 1985, p. 44 e 48).correntes do trotskismo no espaço deste artigo, Feitas essas ressalvas, vejamos como Mandelselecionamos dois textos de destacados representantes de interpreta o que seria a teoria do partido de Lênin.sua corrente majoritária: Ernest Mandel e Daniel Bensaïd. Consideramos que é possível extrair do texto as seguintesO objetivo é sugerir que, sendo a organização política proposições básicas:revolucionária da classe trabalhadora necessariamente 1) O conceito leninista de organizaçãouma empresa difícil e complexa, pois se trata de dar forma fundamenta-se em uma espécie de tipologia daspolítica a um conteúdo social em permanente processo diferentes fases do processo evolutivo de formaçãode mudança, a rigidez da concepção de organização da consciência da classe operária. Haveria a massa departidária não pode contribuir para o sucesso da tarefa. operários, a vanguarda em um sentido amplo (operários Comecemos por La teoria leninista de la que alcançaram o primeiro grau de organização) e aorganización, de Mandel. O primeiro aspecto a assinalar organização revolucionária;é que, segundo o autor, Lênin teria, como o próprio título 2) A revolução pode ser descrita comodo trabalho indica, elaborado uma teoria do partido um processo no qual, em um primeiro momento, o núcleo– ausente, até então, no arsenal de idéias do marxismo. de revolucionários consegue integrar a consciência dosCabe assinalar, entretanto, que é o próprio Lênin quem, operários avançados à sua própria e, em um segundoem diferentes ocasiões, nega a pretensão de elaborar momento, a ação dos operários avançados consegueuma “teoria do partido”. Vejamos: integrar a ação das grandes massas; O erro principal dos que hoje polemizam com o Que 3) Esse processo, porém, não pode se Fazer? consiste em desligar por completo esta obra de uma situação histórica determinada, de um período dar sem que a vanguarda operária tenha sido previamente concreto do desenvolvimento de nosso partido que passou treinada e, por sua vez, tenha treinado o proletariado na há muito tempo (...) Que Fazer? é o compêndio da tática idéia e na aplicação do programa revolucionário para a e da política iskrista22 em matéria de organização durante luta. Este aspecto reveste-se de particular importância, os anos de 1901 e 1902. Um compêndio, nem mais nem uma vez que a estratégia de Lênin se basearia também menos (...) Ora, nem mesmo no II Congresso33 em um balanço das lutas precedentes do movimento1 Doutor em História Social pela USP. Coordenador do Curso de socialista europeu, que derrubaram a ilusão de queHistória da Faccamp (Faculdade Campo Limpo Paulista). “existia uma linha reta entre as vitórias parciais nas lutas2 Iskra (Centelha) é o nome do jornal criado por Lênin em seu exílio eleitorais, as greves de conscientização revolucionária ena Suíça, veiculando as posições da corrente por ele liderada. um incremento da combatividade revolucionária do3 Refere-se ao II Congresso do Partido Operário Social DemocrataRusso, realizado em 1903, no qual deu-se a divisão entre bolcheviquese mencheviques. 4 Todas as traduções do castelhano são de Murilo Leal.
  • 2. proletariado” (MANDEL, 1984, p. 62). Ao contrário, corrente majoritária do trotskismo. Trata-se de Danielapenas se os operários acumulam uma experiência de luta Bensaïd que, juntamente com Alain Nair, elaborou oque não se limita a reivindicações parciais nos limites do texto A propósito do problema da organização: Lênincapitalismo, podem formar uma consciência de classe e Rosa.revolucionária. Essas demandas mais avançadas podem Os autores também aderem à idéia de que Lêninser trazidas apenas “através dos esforços de uma massa elaborou uma teoria da organização em conformidadeampla de operários avançados que estão estreitamente com uma teoria da dinâmica das relações sociaisvinculados às massas e que são os que disseminam e contemporâneas. Segundo essa teoria, o proletariadopublicam essas demandas (que, em geral, não surgem seria o sujeito teórico-histórico da revolução,espontaneamente da experiência diária da classe)(...)” condicionado pelo modo de produção capitalista.(MANDEL, 1984, p 63) Seria o proletariado em-si. A vanguarda, que surge 4) A concepção leninista do partido da formação social, seria o sujeito político-prático dapressupõe “uma teoria da essência da teoria marxista e revolução, representando o proletariado para-si5.1 Emde sua relação específica com a ciência por uma parte e conseqüência, os autores endossam a idéia de que “aa luta de classes proletária por outra” (MANDEL, 1984, consciência social-democrata só pode provir de fora dosp. 7). Isto implica que o programa socialista pode ser operários, dos intelectuais revolucionários portadores doelaborado pela teoria marxista e posteriormente difundido conhecimento e da compreensão global do processo deàs massas. “A construção do partido revolucionário de produção” (BENSAÏD; NAIR, 1980, p. 14).classe é o processo pelo qual o programa da revolução Além da apreensão da tradição bolchevique (umsocialista é fundido com a experiência que adquiriu na patrimônio vivo de experiências) como uma teoria eluta a maioria dos trabalhadores avançados” (MANDEL, mesmo um sistema de organização, outra peculiaridade1984, p. 40). do texto chama a atenção. Os autores valorizam o 5) A centralização defendida por partido leninista como uma formação orientada paraLênin refere-se a um conteúdo político, mais do que a intervenção no campo político propriamente dito,a um processo formal, organizativo. O plano seria o entendido como a luta de partidos pelo poder doda centralização de todas as revoltas e movimentos Estado. O texto dá a entender que foi um dos méritos dede resistência elementares, espontâneos, dispersos ou Lênin ter compreendido a representação de classe comolocais. representação propriamente política. Vejamos: O texto de Mandel apresenta, também, uma O partido é o instrumento pelo qual a fração consciente da classe operária ingressa na luta política e prepara opolêmica com Rosa Luxemburgo, criticando-a pelo enfrentamento com o Estado burguês centralizado, chaveque seriam seus erros a respeito da questão do partido. mestra da formação social capitalista (...) (BENSAÏD; NAIR,Afirma o autor: 1980, p. 20). O conceito de Luxemburgo de que ‘o exército proletário Dito de outra maneira, a política, que é a ordem a que pertence é recrutado e chega a estar consciente de seus objetivos o partido, é irredutível ao social: a classe como conceito no curso da própria luta’ foi definitivamente refutado permanece como sujeito teórico e não prático da história; a pela história. Mesmo nas lutas operárias mais amplas, mediação do partido, pelo qual ela acede ao político, continua abrangentes e vigorosas, as massas trabalhadoras não sendo indispensável (...) (Bensaïd; Nair, 1980, p. 31) adquiriram uma compreensão clara das tarefas da luta Na realidade, o terreno político não existe a priori; só se ou o fizeram apenas de modo insuficiente (MANDEL, constitui com a estruturação das próprias forças políticas. É por 1984, p. 25). isso que “a expressão mais vigorosa, mais completa e melhor definida da luta de classes política é a luta de partidos”[citação Como veremos adiante, a delimitação das de Lênin]. Por esta luta, cujo objetivo é o Estado, se instauradiferenças políticas com Rosa Luxemburgo em torno a especificidade do político que é o lugar de irrupção da criseda questão da organização partidária estabelecida pelo revolucionária (BENSAÏD; NAIR, 1980, p. 37).próprio Trotski é bem diferente. Tentaremos sugerir, É óbvio que a teoria de que a classe é apenasainda, que o agrupamento da vanguarda de classe em o sujeito teórico-histórico da revolução, enquanto atorno de uma política correta (uma tática-plano, como vanguarda é o sujeito político-prático e, ainda, quese dizia na esquerda européia da época) e a possibilidade a política é a luta de partidos pelo poder de Estado,dessa vanguarda dirigir a massa dos trabalhadores é reconhece como sujeito da história e da política aum processo que depende muito menos do regime vanguarda agrupada no partido e não a classe em suapartidário e muito mais das condições sociais/históricas. ampla configuração e em suas múltiplas formas deO regime partidário do centralismo-democrático pode organização e práticas políticas. A vanguarda aparecetanto contribuir para a formação de uma vanguarda quase como um substituto e não uma direção da classe.revolucionária efetiva, como de um aparelho partidário 5 Os autores esclarecem que o “modo de produção capitalista” éauto-suficiente, ou de uma seita política. um conceito abstrato-formal, não tendo existência real. Nenhuma Recorreremos a outro teórico, a fim de que formação social específica coincide com ele. Citando Poulantzas, os autores afirmam que a formação social é “uma superoposiçãopossamos perceber outras facetas da apreensão da teoria específica de muitos modos de produção puros” (BENSAÏD; NAIR,leninista do partido pelos trotskistas, ou pelo menos pela 1980, p. 14).
  • 3. Para concluir este breve comentário ao texto de rígida. O máximo que se pode dizer é que na avaliação histórico-filosófica do movimento operário, a seleçãoBensaïd e Nair, é necessário registrar os momentos de reparatória da vanguarda era deficiente em Rosa, empolêmica com Rosa Luxemburgo. A crítica substantiva comparação com as ações de massa que se poderiamformulada pelos autores reprova o prognóstico de esperar; Lênin, sem consolar-se com os milagres dasRosa de uma marcha inevitável do capitalismo para a futuras ações, tomava os operários avançados e constantecatástrofe e a suposição de que o agravamento incessante e incansavelmente os soldava em núcleos firmes, legais oudas contradições sociais engendraria, por um lado, um ilegais, nas organizações de massa ou na clandestinidade, mediante um programa claramente definido. (TROTSKI,proletariado espontaneamente revolucionário, e por 1979a, p. 39-41)outro, um partido que deveria ser apenas um “ponto Este artigo é concluído de forma instigante,de união organizativa de todas as camadas postas em jogando por terra toda a interpretação estreita que semovimento contra a burguesia por esta revolução”. A observou tanto entre marxistas-leninistas quanto entreconclusão: “Assim, esta visão simplesmente trágica do trotskistas, da polêmica e das divergências entre Lênincapitalismo conduz Rosa a superestimar o movimento e Rosa:de massas e a subestimar a necessidade e o papel do Os tresnoitados confusionistas do espontaneísmo têmpartido no sistema capitalista” (BENSAÏD; NAIR, 1980, tanto direito de referir-se a Rosa como os miseráveisp. 18 e 19) burocratas do Comintern a Lênin. Deixemos de lado as Além dessa crítica mais séria, aliás já formulada questões secundárias, superadas pelos acontecimentos epor Lukács em 1921, os autores afirmam, de forma com plena justeza podemos colocar nosso trabalho pela Quarta Internacional sob o signo dos “três L”, não apenassurpreendentemente pouco respeitosa, que a concepção sob o signo de Lênin, mas também de Luxemburgo eorganizativa de Rosa era “muito mais trivial, às vezes Liebknecht (TROTSKI, 1979a, p. 44)6.2emocional e com freqüência infra-teórica”, acusam-na de Defendemos a tese de que a experiência doum “vitalismo ingênuo, um naturalismo organizativo”, de Partido bolchevique não foi originalmente concebida“simplismo entusiasta” e ainda afirmam que Rosa teria como modelo por seus dirigentes. Monty Johnstoneempunhado “a bandeira de ‘liberdade’ e da ‘democracia’ lembra que a idéia de partido de Lênin não se reduziacontra as posições ‘extremas’ de Lênin” (BENSAÏD; a um único modelo organizativo. Houve o modelo doNAIR, 1980, p. 17). partido de quadros ou de massas, com estruturas internas Cabe observar que, mesmo um Trotski já que iam do cupulismo conspirativo à mais amplaplenamente bolchevique-leninista, em 1935, delimita democracia. “Comum a todos estes modelos era a idéiasuas diferenças com Rosa Luxemburgo no campo das de uma vanguarda centralizada que se emprenhasseconcepções de organização de maneira muito diferente em fundir a teoria e a consciência socialistas com odos autores citados até aqui. Vejamos como Trotski movimento espontâneo dos operários” (JOHNSTONE,recupera as posições de Rosa a respeito do problema da 1988, p. 16).relação entre espontaneidade e organização: A experiência de organização partidária dos É inegável que Rosa Luxemburgo contrapôs apaixonadamente a espontaneidade das ações de massas bolcheviques esteve, portanto, indissoluvelmente à política conservadora “coroada pela vitória” da social- imbricada com as tarefas e processos próprios da esquerda democracia alemã, sobretudo depois da revolução de na Rússia. Assim sendo, cabe indagar: como e por que foi 1905. Esta contraposição tinha um caráter absolutamente erigida em modelo e adotada como paradigma nos quatro revolucionário e progressivo. Muito antes que Lênin, cantos do mundo? A primeira resposta, e a mais óbvia, é Rosa Luxemburgo compreendeu o caráter retardatário dos apontada por Monty Johnston: “Os bolcheviques haviam aparatos partidário e sindical e começou a lutar contra eles. conquistado a primeira vitória da revolução socialista e Na medida em que contou com a agudização inevitável dos conflitos de classe, sempre prognosticou com certeza era inevitável que isso incrementasse o poder de atração a aparição elementar independente das massas contra a do único tipo de partido que podia se vangloriar de uma vontade e a linha de conduta do oficialismo. Neste amplo vitória tão formidável” (JOHNSTONE, 1988, p. 14). sentido histórico está comprovado que Rosa tinha razão. No momento em que o caminho bolchevique vai Porque a revolução de 1918 foi “espontânea”, isto é, se consolidando como modelo, após a Primeira Guerra, as massas a levaram a cabo contra todas as previsões e precauções do oficialismo partidário. Mas, por outro lado, toda a história posterior da Alemanha demonstrou amplamente que a espontaneidade por si só está longe 6 Creio que fica claro aqui que a intenção de Trotski era apoiar- de ser suficiente para conseguir a vitória; o regime de se em uma ampla e aberta tradição marxista para construir o novo Hitler é um argumento de peso contra a panacéia da partido mundial e não em um único modelo artificialmente abstraído espontaneidade. da experiência histórica. Ainda que, talvez, o próprio Trotski A própria Rosa nunca se encerrou na mera teoria da possa ser criticado por não ter sido absolutamente coerente com a espontaneidade (...) Rosa Luxemburgo se esforçou por proposição formulada nesse texto. É interessante observar que, educar de antemão a ala revolucionária do proletariado e segundo Hobsbawm, Karl Liebknecht, embora fosse filho de um dos fundadores do Partido Social-Democrata Alemão e amigo de por reuni-lo organizativamente tanto quanto possível. Na Marx e Engels, Wilhem Liebknecht, nem sequer se dizia marxista. Polônia constituiu uma organização independente muito (HOBSBAWM, 1995, p. 378.)
  • 4. com o triunfo da Revolução de Outubro e a formação da defender e adotar a concepção leninista da organização,III Internacional, o movimento socialista mundial vive sua experiência impedia que as concepções e tradiçõesuma polarização: de um lado, a vitória bolchevique; de bolcheviques se tornassem um modelo rígido e formal.outro, a tradição da social-democracia alemã e européia, Ainda em maio de 1917, Trotski recusou umalinhada patrioticamente ao lado de suas burguesias convite para somar-se às fileiras do partido de Lênin,na guerra imperialista, ou a derrota das outras opções pois tinha planos de formar uma nova organizaçãosocialistas: esmagamento da Revolução Alemã, (ABOSCH, 1974, p. 47). Desde 1904, mantivera-seassassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. numa posição acima das frações, pretendendo unificarEm momentos de crise, a força de atração de um modelo bolcheviques e mencheviques (AUTHIER, 1976, p. 43).salvador é ainda maior. Seria superficial atribuir a distância entre Lênin e Trotski O poder de atração do modelo leninista talvez se em questões de organização a simples imaturidadeorigine, ainda, de estratos mais profundos das práticas deste último. Por que Trotski e seu grupo de camaradassociais. Como lembra Henri Lefebvre: (ex-bolcheviques e ex-mencheviques que mantinham O fetichismo nasce e renasce incessantemente das publicações e certa influência em distritos operários de profundezas da prática e da vida social (...) Então, tendo Petrogrado, integrado, entre outros, por Lunatcharsky, desaparecido o processo real do qual emergia, a obra Riazanov, Manuilski, Yoffe) (DEUTSCHER, 1984, p. parece incompreensível, maravilhosa. O seu prestígio fica a ganhar, o conhecimento torna-se ainda menos 277) só adereriam ao Partido Bolchevique às vésperas claro. O homem eminente, o homem eficaz, o indivíduo da Revolução Russa? criador fetichizam-se num afastamento que os torna Em primeiro lugar, havia divergências misteriosos e temíveis, sagrados e amaldiçoados. quanto à concepção estratégica da Revolução Russa, (LEFEBVRE, 1977, p. 62) suficientemente explicitadas por Trotski em vários Sim, mesmo a organização revolucionária, momentos, especialmente no artigo Três concepções daobra criada para destruir a sociedade da qual emerge Revolução Russa (TROTSKI, 1977, p. 75). Entretanto,o fetichismo das mercadorias, foi absorvida e passou a também estavam presentes graves divergências político-circular nas relações sociais como fetiche – mitificada, organizativas. Como se sabe, Trotski, Rosa Luxemburgoesvaziada de sua história, do contexto de seu nascimento e toda a social-democracia européia se opuseram àse vida. posições de Lênin no II Congresso do Partido Operário Certamente, esse não foi um processo espontâneo. Social-Democrata Russo, em 1903 (CARLO, 1976, p.O leninismo, o marxismo e até o socialismo foram 84). As posições de Rosa Luxemburgo no episódio,apropriados e transformados em ideologia por uma casta sintetizadas no texto Problemas de organização daburocrática estatal parasitária e mesquinha. Tornou-se social-democracia russa, foram amplamente divulgadasfator de coesão e justificação ideológica de interesses e e são bem conhecidas. Entretanto, os dois textos nosprivilégios sociais de casta7.1 Para este fim, nada mais quais Trotski formula suas divergências, quais sejam:útil do que um modelo rígido, esvaziado de qualquer As nossas tarefas políticas e Relatório da delegaçãoconteúdo histórico verificável e discutível. siberiana, não tiveram a mesma fortuna. Trotski e seus Como é sabido, uma das armas empregadas pela seguidores se opuseram à republicação dos textos, queburocracia stalinista contra Trotski foi a acusação de sua hoje são pouco conhecidos (AUTHIER, 1976, p. 7). Ora,tardia adesão ao Partido Bolchevique. Este se defendeu este mesmo fato é revelador dos processos históricoslembrando que, após a entrada no partido, tornara-se um que fizeram parte da afirmação do sistema leninista debolchevique disciplinado, merecendo plena confiança partido como modelo – algumas das idéias alternativasde Lênin; ao mesmo tempo, admitiu que sua trajetória foram apagadas por seus próprios autores!anterior em assuntos de organização partidária revelara Não obstante, em busca de respostas paraimaturidade. Tentaremos aqui reconstituir alguns problemas colocados por sua prática, o movimentomomentos desse percurso anterior a 1917, não como erro, socialista vem abrindo e divulgando o conteúdo dosmas como parte integrante das experiências necessárias arquivos que conservam registros de sua história.da esquerda russa e européia naquele período. O objetivo Assim, o Relatório da delegação siberiana voltou a seré demonstrar que, por mais que Trotski tenha passado a publicado na década de 1970.7 Talvez seja interessante mencionar a descrição do sistema político O Relatório é um informe dirigido aos comitêssoviético feita por Hobsbawm, pois ajuda a compreender o quanto a do Partido Operário Social Democrata Russa (POSDR),adoção de um caricatural “modelo leninista” de partido é funcionalcomo legitimação do satus quo mantido pela burocracia stalinista escrito por Trotski na condição de membro da delegaçãodentro da URSS e do exercício da dominação dessa burocracia sobre da União Siberiana ao II Congresso do Partido, prestandoos partidos comunistas do mundo. “Baseavam-se num partido único contas e analisando o encontro político8.2 O Relatório foifortemente hierárquico e autoritário que monopolizava o poder do escrito nos dois dias que sucederam o Congresso e a partirEstado – na verdade às vezes praticamente substituía o Estado -,operando uma economia centralmente planejada e (pelo menos em 8 O outro membro da “delegação siberiana” era Dimitri Ulianov,teoria) impondo uma única ideologia marxista-leninista compulsória irmão mais novo de Lênin, que defendeu as posições do irmão noaos habitantes do país” (HOBSBAWM, 1995, p. 365.) Congresso (TROTSKI s/d/, p 170).
  • 5. de então teve ampla divulgação: “Fizeram-se cópias do meios materiais e lhe fornece uma colaboração pessoalque eu tinha escrito e cópias dessas cópias, abundantes regular sob a direção de uma das suas organizações”. Na(...) Este processo natural encontra-se em tal estado de fórmula de Lênin, em vez de colaboração regular osdesenvolvimento que a intervenção de Gutemberg é estatutos definiam que o membro do Partido “participaquase inevitável” (TROTSKI 1976, p. 89). da atividade de uma das organizações do Partido”. O texto é uma polêmica com as concepções de Trotski investe contra esta fórmula afirmando que éorganização partidária e estratégia política de Lênin, impossível que a direção partidária controle todos osvitoriosas no II Congresso. Basicamente, Trotski membros da organização. Segundo a fórmula de Lênin,opõe ao que seria uma concepção formal, mecânica e “o Comitê Central, onipresente, penetrando em tudomesmo metafísica, uma concepção mais complexa, e tudo tomando em conta, poderá apanhar todos osdialética (TROTSKI 1976, p. 70). Afirma que o membros do Partido no local do crime. Na realidade,centralismo defendido por Lênin no Congresso era “uma trata-se de um sonho burocrático bastante ingênuo(...)”construção formal ao contrário”, uma “antítese lógica do (TROTSKI, 1976, p. 95).diletantismo”. A disciplina proposta nesse centralismo Trotski argumenta, ainda, com o exemplo dasnão adviria de um sentimento desenvolvido de disciplina Organizações Operárias, existentes em várias cidadesde Partido, mas importantes, que vinham funcionando mais ou menos (...) do sentimento de se achar perdido, sentimento sob o comando do Partido, tendo sido, entretanto, resultante do “crack” do diletantismo anárquico. criadas de acordo com princípios diferentes dos da “Venham reinar e governem-nos” eis como podemos organização partidária. A fórmula de Lênin deixaria formular o estado de espírito da maioria. Um praticismo estreito, que se mostrou impraticável, foi substituído por à ação partidária apenas duas opções: ou a exigência uma desconfiança total para com os militantes de base de que as Organizações Operárias se dissolvessem e e por uma fé cega na onipotência da Redação no exílio ingressassem no Partido ou a expulsão dos membros das (TROTSKI 1976, p. 123). mesmas do seio do Partido. A fórmula dos mencheviques, Por outro lado, na avaliação de Trotski, o argumenta Trotski, permitiria uma tática mais flexível:combate encabeçado por Lênin contra o economicismo Se quereis permanecer no Partido – dirá este aose o tradeunionismo nos anos anteriores – leit-motiv de representantes da Organização Operária – deveis colocar-Que fazer? – não trouxera resultados muitos animadores. vos sob a direção do Partido, o Comitê local. Isto bastará para que a Organização Operária aceite no seu seio umTrotski reproduz uma carta de um militante social- representante do Comitê, que tentará fazer passar à açãodemocrata à redação do jornal partidário, Iskra: “A – apenas pela força de sua influência, bem entendido, aagitação política tomou, durante o último período, um “linha” conforme à opinião geral do Partido (TROTSKIcaráter demasiado abstrato, está muito pouco ligada à 1976, p. 96-97).vida concreta e às exigências diárias das massas operárias. As concepções de Trotski sobre o problemaNossa agitação política transforma-se por vezes numa da organização não eram muito diferentes daquelasdeclamação política completamente oca” (TROTSKI, hegemônicas na social-democracia européia, às quais,1976, p. 89). Aprovando a crítica do militante, Trotski aliás, o próprio Lênin aderiu formalmente até 19149.3acrescenta: “No arsenal do agitador social-democrata Também Trotski defendia a necessidade da organizaçãonão encontramos neste momento nada mais do que de um partido baseado no centralismo democrático.fórmulas políticas sentimentais, apelos estereotipados Apenas considerava que sua construção era um processopara derrubar a autocracia, fórmulas e apelos que, pela que envolvia a relação com o movimento de uma classesua abstração, se tornaram vazios de todo conteúdo social num contexto histórico. Naquele momento, Trotskirevolucionário” (TROTSKI, 1976, p. 89). via as soluções de Lênin como artificiais e burocráticas. Trotski conclui sua crítica ao que qualifica Argumentava: “Há só uma saída: uma organizaçãoironicamente como a tendência política, afirmando que, comum a todo o Partido com um Comitê Central àse o economicismo se caracterizava por uma incapacidade cabeça. Um Congresso convocado para este efeito nãode ligar os interesses profissionais particulares com pode resolver a questão. É indispensável criar primeiro oas tarefas gerais da política de classes, a política dos centro antes de o proclamar” (TROTSKI 1976, p. 130).seguidores de Lênin se caracterizava pela incapacidadede “ligar as tarefas da luta política revolucionária (queeles, no fundo, apenas reconhece formalmente) com as 9 A esse respeito, em polêmica com os stalinistas, Trotski afirma no texto Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo, de 1933, que Stalin haviareivindicações imediatas, cotidianas e, em particular, inventado uma Rosa Luxemburgo “centrista” desde 1904 e um Lênincom as necessidades profissionais limitadas” (TROTSKI, “100% bolchevique” desde o começo. Trotski lembra que até 19141976, p. 90). “Lênin considerava Kautsky seu mestre e não perdia a oportunidade Com relação à famigerada polêmica a respeito de afirma-lo”. Até 1914 Lênin afirmava que “o bolchevismo não erado Artigo I dos estatutos, Trotski adere claramente à uma corrente independente, mas a tradução às circunstâncias russas da tendência Bebel-Kautsky (...) Lênin considerava o bolchevismoproposição dos mencheviques: “É membro do Partido como a versão russa do kaustskismo, que, por sua vez, ele identificavaaquele que reconhece o seu programa, o apóia por com o marxismo. (TROTSKI 1979, p. 335-337).
  • 6. Diga-se de passagem que as fórmulas expostas O aparelho do Partido Bolchevique, antes da chegadapor Lênin no Que Fazer? pareceram tão estranhas a de Lênin, em abril, portanto ainda em pleno períodoPlekhanov, que, em um artigo de 1904, ele indagava: revolucionário, comportava-se apenas como oposição leal no âmbito da democracia burguesa e estava de acordo que“onde ele poderia ter ido pescar suas teses”? (AUTHIER, os sovietes entregassem o poder ao Governo Provisório1976, p. 48)101. (TROTSKI 1967, p. 246). Embora a partir de 1917, a mudança de Trotski Enquanto isso, os operários bolcheviques datenha sido coerente e verdadeira, é difícil encontrar em fábrica Viborg se reuniam e exigiam do partido a tomadasua obra alguma passagem que explicite a teoria leninista do poder pelos sovietes11.2do partido, ou faça menção a um sistema organizativo Trotski deixa bastante claro que o oportunismoacabado. do aparelho do partido não era casual, provinha de Comecemos pelo capítulo de Minha Vida dedicado sua própria estratégia e concepções sobre a Revoluçãoao II Congresso do POSDR. Embora seja possível Russa. Colhendo depoimentos de velhos militantesargumentar que se trata de um texto memorialístico, é bolcheviques, Trotski identifica o problema: o partidodifícil acreditar que, se Trotski atribuísse às concepções havia insistido demais na ditadura democrática dode Lênin a qualidade de um achado teórico, isto deixaria campesinato e do proletariado. O consenso, então, erade transparecer no capítulo que trata exatamente da de que a revolução que se anunciava só poderia ser umacisão do partido. Em primeiro lugar, mesmo aprovando revolução burguesa. Um velho dirigente bolcheviquea posteriori as decisões de Lênin, Trotski não deixa de chega a uma formulação paradoxal: “Nós (muitos deapontar os aspectos pessoais envolvidos na disputa. Em nós) orientamo-nos inconscientemente para a revoluçãosegundo lugar, fica claro também que, naquele momento, proletária pensando que nos dirigíamos para a revoluçãohavia muita confusão e ninguém estava demasiadamente democrático-burguesa” (TROTSKI, 1967, p. 277).preocupado em formular teorias. A divisão entre duros Ora, a pretensão de Lênin, afirmada a reafirmadae moles, ou seja, bolcheviques e mencheviques, era no Que Fazer? era de que o partido, armado com aconcebida assim: “Se não havia uma linha divisória, chamada tática-plano (ou seja, uma linha políticaexistia, contudo, uma diferença sensível na maneira claramente definida), fosse capaz de nuclear e educarde abordar as questões, na decisão, da perseverança uma vanguarda que, por sua vez, educasse e conduzisse asem relação aos fins” (TROTSKI s/d, p. 164). Portanto, massas pelo caminho antevisto pelo partido. Ocorre quetratava-se, muito mais, de diferenças de atitude do que na prática, a tática-plano tão cuidadosamente cultivada,de diferenças teóricas. quase pôs tudo a perder: todos os dirigentes ou militantes A única passagem neste capítulo da qual se pode próximos à direção haviam, durante anos, se habituadoextrair algo que diga respeito a um modelo de partido a pensar a Revolução Russa como uma revoluçãoé aquela em que Trotski fala sobre o centralismo democrático-burguesa, que seria dirigida por umaleninista: coalizão chamada ditadura democrática do proletariado Eu estava entre os centralistas. É incontestável, porém, e do campesinato. Ora, o governo de Kerensky era que não podia então ter uma opinião clara a respeito do centralismo severo e imperioso reclamado por um partido perfeitamente compatível com essa definição teórica. Por revolucionário que fora criado para lançar milhões de sua vez, foram, segundo o relato de Trotski, os operários homens ao assalto da velha sociedade (...) Por ocasião do de base, menos doutrinados pela tática-plano e mais Congresso de Londres, em 1903, a revolução tinha para ligados ao chão das lutas sociais, que representaram a mim ainda muito de abstração teórica. O centralismo força fundamental para a reorientação partidária. É certo leninista não podia ainda brotar em meu cérebro de uma que, das páginas da História da Revolução Russa, Lênin concepção revolucionária clara e definida à qual tivesse chegado por minha conta (TROTSKI, s/d, p. 1745-175). sai gigantesco. Contra tudo e contra todos, a partir de O relato histórico da Revolução Russa por abril, ele teria reorientado o partido no rumo da ditaduraTrotski, especialmente os capítulos Os bolcheviques e do proletariado e da revolução socialista. Entretanto, oLênin e O rearmamento do Partido, deixam bastante fez com a base do partido, contra o seu aparelho e nãoabalado um dos postulados centrais da chamada o contrário.teoria leninista da organização, qual seja, o de que a Nada do que foi dito até aqui deve obscurecermedula política da concepção leninista da organização o fato de que, a partir de 1917, as concepções decorresponde a uma compreensão estratégica científica organização partidária às quais Trotski se mantêm fielda natureza e da dinâmica da revolução social. Trotski até o fim de seus dias, e que orientaram a construção daobserva que IV Internacional, são as concepções bolcheviques, da III Internacional. Cremos que se pode afirmar que, no núcleo10 Cabe notar que, quando Que fazer? foi escrito, Lênin e Plekhanoveram aliados, contra as tendências economicistas, o alvo central da 11 É, aliás, bastante conhecido o fato de que os bolcheviques “des-crítica do texto. O artigo de Plekhanov, publicado três anos após cobriram” os sovietes depois que o movimento espontâneo de massasQue Fazer?, e depois do II Congresso, pode ser sintomático de uma os havia criado. Segundo Authier, havia, nos primeiros anos do sécu-tomada de consciência e revisão crítica das teses leninistas sob o lo, uma fratura entre o POSDR e o “movimento de massas organiza-impacto da crise posterior ao II Congresso do POSDR. das” (AUTHIER, 1976, p. 33).
  • 7. desta apreensão da concepção leninista por Trotski, está Sobre a impossibilidade de abordar o problema deuma idéia sobre a dinâmica da relação entre programa, organização de um ponto de vista formal, Trotski afirma:partido, vanguarda e massas. Cabe ao partido formular Tampouco penso que eu possa dar uma fórmula tal sobreum programa correto para a revolução socialista. o centralismo democrático que “de uma vez por todas” elimine mal-entendidos e falsas interpretações. UmCom base num regime flexivelmente construído, de partido é um organismo vivo. Desenvolve-se em lutaacordo com a fórmula do centralismo democrático, contra obstáculos externos e contradições internas (...) Oo partido deve nuclear solidamente uma vanguarda regime de um partido não cai pronto do céu, mas forma-operária que, por sua vez, seja capaz, na dinâmica dos se gradualmente na luta. A linha política predomina sobreacontecimentos, de orientar politicamente as massas o regime; em primeiro lugar é necessário definir problemasnos momentos decisivos da ação política. Depois de estratégicos e métodos táticos corretamente com o objetivo de resolvê-los (...) A fórmula para um centralismo1917, Trotski não mais se afastou dessa concepção democrático deve encontrar inevitavelmente uma expressãocentral, assim formulada por ele: diferente nos partidos de diversos países e em diferentes É mister preparar a revolução mediante a incessante e estados de desenvolvimento de um mesmo partido. implacável luta de classes, no curso da qual a direção A democracia e o centralismo não se encontram em ganha a confiança inabalável do partido, une a vanguarda absoluto numa proporção invariável uma com relação com o conjunto da classe e converte o proletariado em ao outro. Tudo depende das circunstâncias concretas, da direção de todos os explorados da cidade e do campo situação política do país, da força e da experiência do (TROTSKI 1979a, p. 21). Partido, do nível geral de seus membros, da autoridade que Neste sentido, no processo de construção da a direção consiga adquirir (TROTSKI.1979b, p. 133).IV Internacional, Trotski foi sempre peremptoriamente Sobre a questão da democracia:contrário a qualquer unificação híbrida ou amorfa com O regime interno do partido bolchevique se caracterizavaas correntes que então lhe eram próximas, preferindo pelo método do centralismo democrático (...) Liberdadecultivar um núcleo de revolucionários que tivesse clareza de crítica e confronto de idéias eram os poderosos fatorespolítica e programática. Quando lançou, em 1935, a Carta de sustentação da democracia interna. A presente doutrina de que o bolchevismo não tolera facções é um mito daaberta pela criação da IV Internacional, o revolucionário decadência. Na realidade, a história do bolchevismorusso sublinhou: “As tarefas revolucionárias de nossa é uma história de conflitos de facções. E, de fato, comoépoca condenam de antemão ao fracasso toda unificação poderia uma organização genuinamente revolucionária,híbrida e amorfa”. estabelecendo para si própria a tarefa de transformar o Três anos depois, em carta dirigida a um militante mundo e unindo sob sua bandeira os mais audaciososbelga que discordava do lançamento imediato da IV iconoclastas, lutadores e rebeldes, crescer e desenvolver- se sem conflitos intelectuais, sem agrupamentos e facçõesInternacional, Trotski ponderava: temporárias? O comando bolchevique sempre fez o possível Parece que para você o nome IV Internacional impediria para atenuar os conflitos e encurtar a duração do trabalho às organizações simpatizantes ou meio simpatizantes se fracionário, mas não pôde ir além disso. O Comitê Central aproximarem de nós. É completamente errôneo. Nós só apoiava-se neste agitado suporte democrático, de onde podemos atrair a outros com uma política clara e correta. extraiu a audácia de tomar decisões e dar ordens. A precisão Para isto, devemos ter uma organização e não uma mancha óbvia do comando em todos os estágios críticos é o que nebulosa (TROTSKI 1979c, p. 505). investiu da alta autoridade, o capital moral insubstituível Porém, ao mesmo tempo em que aderia à para o centralismo (TROTSKI, 1981, p. 145).concepção segundo a qual o núcleo partidário (ou seria Pode-se concluir, portanto, que toda teoria daaparelho partidário?) deveria educar a vanguarda e esta organização partidária, extraída de Lênin ou Trotski,educar as massas numa política clara e correta, Trotski que pretenda ir muito além da defesa do centralismotambém afirmava que, na dinâmica das revoluções, as democrático e do nucleamento e formação política demassas sempre estavam à esquerda do mais revolucionário uma vanguarda de classe, estará forçando a nota. Mesmodos partidos e a base do partido sempre estava à esquerda estes dois princípios só poderão contribuir para o avançode sua direção. Creio que esta formulação paradoxal político da luta de classes se outras condições - sociais,é mais representativa das concepções de organização históricas e políticas – permitirem a organização departidária de Lênin e Trotski do que as teorias e sistemas classe, o desenvolvimento de experiências políticasque se tentou construir depois. significativas, a manutenção de um agrupamento político Para terminar esta abordagem do conceito de vanguarda dinâmico, vivo, isento dos vícios do cultode organização política revolucionária em Trotski, à personalidade, das lutas fraticidas, de teoricismo, dogostaríamos de recorrer a algumas passagens de seus seguidismo, do sectarismo...a mera importação de umescritos que ressaltam dois aspectos um pouco esquecidos: modelo ou de uma suposta teoria não protege ninguémprimeiro, sua abordagem historicamente concreta, mesmo desses perigos.daquele núcleo mais conceitual do sistema partidário: ocentralismo democrático; e, segundo, a ênfase que eleconfere ao aspecto da democracia, relacionada com ocentralismo, no regime partidário. Vejamos.
  • 8. Referências ABOSCH, Heinz. Crónica de Trotski – Datos sobresu vida y su obra. Barcelona: Anagrama, 1974. AUTHIER, Denis. “Prefacio”. In: TROTSKI, Leon.Relatório da delegação siberiana. Coimbra: Centelha, 1976. BENSAÏD, Daniel; NAIR, Alain. A propósito delproblema de organización: Lenin y Rosa Luxemburg. In:Teoria marxista del partido político/2. México: Pasado yPresente, 1980. CARLO, Antonio. A concepção do partidorevolucionário em Lênin. São Paulo, Estudos CEBRAP, 15,1976. DEUTSCHER, Isaac. Trotski – O profeta desarmado.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos – o breveséculo XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. LUXEMBBURGO, Rosa. Obras escolhidas. TomoII. Bogotá, Pluma, 1979. MANDEL, Ernest. La teoria leninista de laorganización. México: Ediciones Era, 1984. TROTSKI Leon. A revolução permanente na Rússia.Lisboa: Edições Antídoto, 1977. _________. Minha vida. Rio de Janeiro: JoséOlympio, s/d. _________. “Fuera las manos de Rosa Luxemburgo”In: LUXEMBURGO, Rosa. Obras escogidas. Vol II. Bogotá:Pluma, 1979. _________. Escritos. Tomo VII – Vol 1. Bogotá:Pluma, 1979a. _________. Escritos. Tomo IX – Vol 1. Bogotá:Pluma, 1979b. _________. Escritos. Tomo IX – Vol 2. Bogotá:Pluma, 1979c. _________. História da Revolução Russa. Rio deJaneiro: Saga, 1967. _________. A Degeneração do Partido Bolchevista.In: MIRANDA, Orlando. Trotski. São Paulo: Ática, 1981(Coleção Grandes Cientistas Sociais, 22).

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