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O problema da ideologia na suposta morter do marxismo
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    O problema da ideologia na suposta morter do marxismo O problema da ideologia na suposta morter do marxismo Document Transcript

    • ARTIGO O problema da ideologia na suposta morte do marxismoMaria Teresa Buonomo de Pinho produzir excedente. Esta capacidade, - que constitui o valor de uso específico da força de trabalho humana - Nosso objetivo é examinar o problema da ideologia , leva ao desenvolvimento da apropriação/expropriaçãona tão falada crise atual do marxismo e na sua divulgada desse produto e, portanto, constitui o fundamento materialmorte. A nosso ver, Marx tem sido mantido no velório de todas as formas de sociedade de classes.à força, pela força dar armas materiais e espirituais da No limiar da história humana, não havia aindaclasse dominante, isto é, pelo poder material da classe se explicitado a categoria produto excedente. Pordominante e pela força da sua ideologia, que vem conseguinte, não havia ainda classes sociais. Nessa fase, adistorcendo e ocultando o pensamento de Marx há mais metamorfose da natureza se resumia à tomada de objetosde 160 anos. Marx, mesmo vivo, tem sido mandado ao naturais enquanto valores de uso. Quando se explicitacrematório. Esperamos seu renascimento das cinzas. historicamente a categoria produto excedente, surgem as sociedades de classes. Uma tribo é subjugada por . O problema da ideologia na vida social e na outra. A vencedora toma a vencida como parte das suassociedade do capital condições objetivas de produção. Nasce assim a alienação Para devassar este problema, cabe remontar a e o estranhamento entre o produtor direto e o produtoconcepção marxiana de ser social. Este é, antes de tudo, do seu trabalho, mas apenas em estágio embrionário,ser natural e objetivo, isto é, tem objetos naturais fora porque o produtor direto sendo então considerado umade si. É também ser vivo, ou seja, tem potencialidades e parte das condições de produção permanece com acessonecessidades naturais. Demais, é ser natural humano, isto garantido aos seus meios de subsistência. Então já seé, trabalha sob forma especificamente humana, atividade explicitam objetividades mistas, pertencentes à naturezaatravés da qual enforma nos objetos naturais projetos e à sociedade, tais como os animais domésticos. Aoconscientes. Desta enformação resulta a transformação da mesmo tempo, ao lado dessas objetividades mistas, já senatureza externa e, por conseguinte, da própria natureza inicia, - através do desenvolvimento da troca mercantilhumana. Natureza esta que é sempre social, isto é, que se -, a explicitação de determinações puramente sociais,desenvolve através da ação conjugada de seres humanos tais como o valor de troca e o dinheiro, que pressupõeme que se desenvolve ao nível da consciência. objetividades da natureza transformadas pelo homem, À medida que o homem trabalha e vê seus produtos, isto é, valores de uso. Assim, podemos afirmar que ovai se afastando da natureza, porém sem jamais romper devir mercadoria do produto do trabalho representacom ela. Criam-se novas necessidades e potencialidades maior socialização do homem. Este devir é processohumanas. À medida que o homem se afasta infinitamente que só se completa no capitalismo que emerge no séculodos seus limites naturais, a vida social vai se explicitando XVIII. Isto significa que o modo de produção capitalistaem termos mundiais, de início, apenas objetivamente constitui um afastamento maior do homem em relação à(mercado mundial ou regulação inconsciente da produção natureza.social pelo dinheiro). Coloca-se a possibilidade histórica A partir do aparecimento do produto excedenteda sua explicitação subjetiva, ou seja, da sociedade também surge a vida política e o Estado, força destacadacomunista mundial, quer dizer, da regulação consciente da sociedade e armada através da qual a classe dominanteda produção social de acordo com as necessidades garante a apropriação do excedente. Sociedade dehumanas. classes e vida política são irmãos siameses. Portanto, O fundamento do recuo humano das barreiras não se pode superar a sociedade de classes através denaturais reside na capacidade do trabalho humano mudanças meramente políticas, como, por exemplo, através da democratização do poder político. A cidade e o1 Professora Assistente do Departamento de Economia da Estado se explicitam, - em direção à sua forma acabada,UFS. forma própria da sociedade burguesa -, à medida que se
    • Contra a Corrente desenvolve o vir a ser mercadoria do produto do trabalho e Estado definham. A perspectiva do trabalho de Marx ée, portanto, a lei do valor. a teoria deste duplo ato revolucionário. Esta perspectiva A lei do valor, - que regula o intercâmbio de é imortal: existirá enquanto existir o homem.mercadorias pelo tempo de trabalho socialmente necessário A afirmação de que o marxismo está morto, - e denelas contido -, é a lei mais geral de todas no interior do que chegamos ao fim da história no capitalismo -, baseia-ser social. De início, - quando ainda não se desenvolveu se num desconhecimento brutal da obra de Marx, que, poro intercâmbio de mercadorias e o homem realiza apenas sua vez, se baseia na ideologia dominante. Cabe explicartrabalho útil, ou quando apenas de modo marginal a as razões deste desconhecimento e deste domínio.produção é destinada à troca, tal como na Antigüidade A ideologia é um campo da superestrutura ideale na Idade Média -, a lei do valor já atua de modo - uma parcela dos produtos espirituais dos homens queimplícito. Através de várias etapas e processos históricos, se distingue por assumir a função social de instrumentoa humanidade chega ao modo de produção capitalista. de conscientização e de operacionalização dos conflitosNesse, que emerge a partir de meados do século XVIII, sociais, cuja base última reside no fundamento materialo valor e o valor excedente, - a categoria mais valia de da sociedade. Tais produtos espirituais podem serMarx e suas formas fenomênicas (lucro industrial, ganho falsos ou verdadeiros, revolucionários ou reacionários.mercantil, renda da terra e juro) -, se explicitam, quer Tais produtos espirituais tornam-se ideologia quandodizer, superam a sua existência embrionária e tornam-se assumem a função social de instrumento ideal da práxisreguladores autônomos da produção social e, portanto, a social. Isto significa que o ser humano antecipa na mentebase de todo o sistema que vem se desenvolvendo desde os resultados que imprime, através da sua atividade, naentão. A produção capitalista de mercadorias se torna a realidade humano-social. Toda atividade humana, quandoforma universal e necessária de toda produção de valores não tem um caráter biológico totalmente necessário, sãode uso. O valor de uso é subordinado ao valor de troca. atividades teleológicas, tal como o trabalho. Para que este Através da categoria trabalho, que torna o ser social se realize e evolua, torna-se necessário o aparecimento eum ser qualitativamente diverso do ser da natureza, o desenvolvimento ulterior de atividades de caráter extra-e através das categorias valor e valor excedente, que laborativo. Estas atividades extra-laborativas, tal comoexpressam a socialização crescente do ser social e o o próprio trabalho, são precedidas por uma antecipaçãodesenvolvimento das suas faculdades e necessidades, mental e também por uma decisão subjetiva entreMarx coloca as bases de uma teoria do desenvolvimento alternativas postas pela realidade objetiva. As posiçõesdo ser humano. A emergência do mercado mundial teleológicas extra-laborativas têm como momentoque resulta desse desenvolvimento ontológico cria a ideal as formas ideológicas da vida social, que visam apossibilidade da superação da mudez do gênero humano. organização da práxis social global.A própria existência do mercado mundial já significa que Nas sociedades de classes, a luta de classes é ao processo de produção e reprodução da vida humana já principal forma de conflito social. Portanto, nestasse desenvolve ao nível da espécie humana. A existência sociedades, as contradições e conflitos entre classesdo intercâmbio mundial, e do desenvolvimento das forças antagônicas constituem o fundamento das formasprodutivas do trabalho social que o acompanha, coloca ideológicas. Estes conflitos entre grupos são dirimidosa possibilidade histórica da emergência da sociedade quando um grupo persuade a si e aos outros de quepara além do capital e da política, ou seja, da sociedade representa o interesse universal da sociedade. Istocomunista, da regulação consciente da produção social significa que o grupo dominante, numa determinadade acordo com as necessidades autênticas do gênero sociedade, assegura sua dominação na vida materialhumano. Cabe ressaltar que o desenvolvimento das forças através da ideologia, mais precisamente, das diferentesprodutivas promovido pelo capital significa tão somente formas de ideologia que empregam na luta de classes,a criação da possibilidade histórica, e não da necessidade através das quais dissimulam que perseguem apenas seushistórica, da emancipação humana real. Isto porque não interesses particulares e não os interesses universais daexiste teleologia na história. sociedade. A emancipação humana deve se processar através A ideologia da classe dominante garante ade um duplo ato. Primeiro, um ato político através do apropriação/expropriação do produto excedente porquequal se destrua a sociedade regida pelo capital e seu constitui a ideologia dominante da sociedade determinadaEstado político. Um segundo ato de natureza social, onde da qual nasce, vale dizer, as justificações da exploraçãose supere o capital, ou seja, onde se supere a divisão do homem pelo homem, tal como se desenvolvem numado trabalho que torna o homem meio de produção da determinada sociedade, são as idéias dominantes nessariqueza. Assim pode se abrir o caminho para a verdadeira mesma sociedade, ainda que não constituam idéiashumanização do homem, do gênero e do indivíduo, tanto absolutas, sendo seu domínio apenas relativo. A classeno que se refere às suas capacidades quanto no que se refere dominante possui não apenas os meios de produçãoàs suas necessidades. Nesta humanização, classes sociais material, mas também os meios de produção intelectual.
    • Ideologia e morte do marxismo Portanto, domina a produção de idéias. ao domínio da ideologia da classe dominante sobre a Os pensamentos reinantes na sociedade, - que ideologia da classe dominada -, desde a época de Marx.constituem a ideologia da classe dominante -, são cada Esta deformação é o problema vital a ser enfrentado,vez mais universais, à medida que se desenvolve o ser como veremos a seguir.social, pois é preciso apresentar o interesse particular daclasse dominante como o interesse da sociedade inteira. 2. A tese da morte do marxismo e a decadênciaÉ bastante nítida a aparência de maior universalidade ideológica da burguesiada ideologia da burguesia, em comparação com as A tese da morte do marxismo é parte da misériaideologias das classes dominantes em modos de produção espiritual contemporânea, que se alastra por todoanteriores. No escravismo clássico, a ideologia dominante planeta e que constitui a expressão intelectual da misériadizia simplesmente que os produtores diretos eram material deste mundo, escondida por detrás da aparência“instrumentos de produção”, sendo sua subordinação de opulência material em alguns recantos do globo e demantida principalmente através da violência extra- certas estatísticas usadas pelos economistas.econômica. No feudalismo, a classe dominante era a Antes de nos determos nesta miséria material earistocracia, e as idéias dominantes eram os conceitos de espiritual contemporânea, cabe fazer jus às realizaçõeshonra, de fidelidade, etc. Em comparação com o mundo econômicas e intelectuais da burguesia, que o domínioantigo, o domínio através desses conceitos é muito mais desta classe proporcionou durante a sua fase revolucionária,sutil, já que os servos da gleba se sentiam protegidos isto é, entre o fim do século XVIII e os anos 1840. Opelas classes dominantes. Na sociedade burguesa, reinam capitalismo e seu mecanismo de mercado, que funcionaos conceitos de liberdade, igualdade, etc. Estes afirmam através da concorrência entre os capitais individuaisque todos os homens são iguais e livres, não havendo que buscam lucros extraordinários, criou mais forçassubordinados e subordinadores, pois não existem mais produtivas do que todas as sociedades passadas. Estasrelações de subordinação direta entre os homens e todos forças são condição incontornável para a instauração dosão concebidos de igual modo perante o mercado mundial comunismo, visto que permitem a libertação do homeme o Estado. do fardo do trabalho extenuante e a satisfação de um No pré-capitalismo, a exploração é explícita, quer leque ampliado e crescente de necessidades humanas. Adizer, baseada em desigualdades explícitas entre as burguesia também desempenhou papel revolucionárioclasses sociais. Ademais, é mister ainda lembrar que, no plano científico-filosófico e ideológico, bastandono pré-capitalismo, as classes dominantes se apropriam citar as realizações da economia clássica, do iluminismodiretamente do produto excedente em forma de valores e do pensamento hegeliano. Todos estes representantesde uso. Havia também desigualdade jurídica e política. ideológicos da jovem sociedade burguesa a concebemNo modo de produção especificamente capitalista, a enquanto regida por leis naturais. Até a explicitação daexploração econômica e a subordinação política não são luta entre capital e trabalho, na década de 1840, estaexplícitas. Isto porque, no que se refere à exploração era uma postura revolucionária, pois representa umeconômica, o produto excedente social assume as avanço histórico em relação às concepções e ideologiasformas fenomênicas de lucro, juro, renda da terra, etc., pré-capitalistas, que são concebidas enquanto anti-que escondem a sua essência, isto é, a mais valia (valor naturais. Enfim, o liberalismo econômico e políticoexcedente), e esta, por sua vez, esconde a apropriação do nasce enquanto ideologia revolucionária, a ideologia daproduto excedente pela classe capitalista através da forma classe revolucionária que até então era a burguesia quesalário, que oculta a repartição da jornada de trabalho em arrastava consigo a classe trabalhadora contra a nobrezatrabalho necessário e trabalho excedente. Esta origem do e o clero decadentes. No seu período revolucionário, asobre-produto tem, portanto, que ser desvendada pela burguesia identificou tanto os avanços proporcionadosteoria do valor-trabalho. Além disso, a forma livre do pelo capitalismo, quanto algumas de suas limitações.trabalho assalariado também obscurece seu caráter de Estas realizações se deviam ao fato de que a burguesiatrabalho explorado, pois todos os indivíduos da sociedade tinha até então seus olhos abertos para a luta de classes.são vistos como iguais possuidores de mercadorias. Com a explicitação da luta entre capital e trabalho,Vigora também a igualdade política e jurídica entre os nos anos 1840, o reconhecimento científico-filosóficohomens, sua igualdade formal, igualdade perante a lei desta luta transforma-se em ideologia do proletariado,e o Estado, que esconde a diferença de conteúdo entre que tem o pensamento de Marx como principalpossuidores de força de trabalho e possuidores de meios representante.de produção. Marx parte da crença hegeliana no aperfeiçoamento O pensamento de Marx e o marxismo autêntico da política em direção ao Estado racional, que éconstituem a ideologia da classe dominada – a prévia- identificado ao Estado moderno. Esta é a concepção doideação da superação da sociedade do capital e da Marx pré-marxiano. Este Marx, conforme ele própriopolítica. Esta ideologia vem sendo deformada, - devido relata no Prefácio de 1859, se vê em apuros quando tem
    • Contra a Corrente que dar opiniões sobre a vida material. Decide então que traz várias vantagens ao capital: o barateamento dascriticar a filosofia hegeliana. Submete esta filosofia a matérias-primas, a super-exploração do trabalho, etc.uma crítica da natureza ontológica em meados de 1843, Marx trata também do capital monetário e da repartição- comparando a realidade das contradições sociais reais do valor excedente em diferentes categorias: lucro, juro,que se desenvolvem na vida material com a teoria de etc.Hegel que afirma que o Estado moderno pode superar Em vários escritos da maturidade, Marx fala, - apósestas contradições -, e chega à concepção de que o Estado a análise da sociedade civil na sua economia -, da questãoé sempre uma forma da dominação de classes e, por da Revolução Comunista. Esta revolução deve passarconseguinte, é impotente diante das contradições da vida por um duplo ato. Um primeiro ato político através doreal, por maior que seja a sua boa vontade. Compreende qual o proletariado, conquistando o poder, promova atambém, invertendo a filosofia hegeliana, que a sociedade destruição da sociedade civil e do Estado político. Apóscivil é o fundamento do Estado. Decide então procurar este ato, deve se efetivar, necessariamente, um segundoa anatomia da sociedade através do estudo da economia e prolongado ato através do qual deve ocorrer umapolítica. transformação radical da forma de sociabilidade, que Estes estudos se iniciam em 1844. Marx elabora deve implicar a superação das categorias econômicas dauma teoria da revolução comunista, que deve implicar sociedade civil e o definhamento do Estado.a superação das classes sociais e da política. Com as Marx jamais deixou de acentuar o caráterrevoluções de 1848/1849, Marx utiliza sua teoria para revolucionário do capital - no que se refere aoinfluir nos acontecimentos históricos, o que mostra a desenvolvimento das forças produtivas. Ao mesmo tempo,questão da relação entre teoria e prática na sua trajetória. Marx compreendeu toda a degradação humana em todosA teoria deve servir não apenas para interpretar o mundo, os sentidos, tanto no que se refere às capacidades quantomas, sobretudo, para transformá-lo. Todavia, cabe às necessidades satisfeitas pelo homem da sociedadeacentuar que para Marx a elaboração teórica verdadeira burguesa. Demais, ele previu uma tendência do capitalé essencial para uma intervenção na realidade da que se tornou concreta a partir do século XX, qual seja: operspectiva do trabalho. É por este motivo que, diante caráter destrutivo do capital e a natureza auto-destrutivado fracasso da perspectiva do trabalho naquele momento da humanidade que se rege pelo desenvolvimento dohistórico, ele decide se refugiar no gabinete de estudos, capital e da política.estudando intensamente economia política nos anos Enquanto o marxismo se desenvolve, a burguesia1850, procurando a anatomia da sociedade civil em varre para debaixo do tapete o problema da luta debusca de uma teoria correta da revolução da perspectiva classes. Este desaparece de sua teoria. A ideologiado trabalho. Nos anos 1850, escreve os rascunhos de O burguesa se torna a partir de então reacionária. EstaCapital. ideologia reacionária, desde então, afeta não apenas Na obra O Capital, parte da crítica do mercado os representantes declarados do capital, mas tambémenquanto regulador da produção social. Depois introduz pseudo-representantes da classe trabalhadora. Já naa relação entre capital e trabalho e a determina como uma época de Marx e da I Internacional vigora a tendência darelação de exploração do homem pelo homem, onde o ideologia da classe dominante a deformar o pensamentocapitalista compra continuamente a mercadoria força de de Marx.trabalho com uma parte do produto do próprio trabalhador. No período que se estende entre o último terço doMarx trata então da transformação do processo material de século XIX e a Segunda Guerra Mundial, se acentuaprodução num processo de valorização do capital, onde o o caráter parasita da burguesia e a decadência da suavalor de uso se torna completamente subsumido no valor ideologia. No plano da vida material, o período começade troca. Tal subsunção conduz a um desenvolvimento com a Grande Depressão de 1873-1894, que conduziuacelerado da produtividade do trabalho. Este aumento de o capitalismo a uma Segunda Revolução Industrial e àprodutividade leva à formação e à constante reconstituição ascensão do movimento imperialista, quando as potênciasde um exército de desempregados, que mantêm baixo os capitalistas dividiram o mundo em zonas de influêncianíveis de salário da classe trabalhadora, de acordo com econômica e política, com o fito de desfrutar da super-as necessidades do capital. Marx afirma que as crises exploração do trabalho nos países dominados.econômicas são inerentes ao funcionamento da economia No campo do desenvolvimento da ideologiacapitalista. São crises de superprodução de capital, onde da classe dominante cabe referir o desenvolvimentoa quantidade de valor excedente produzido se torna do caráter reacionário do positivismo nas ciênciasinsuficiente para valorizar todo capital já acumulado pela humanas. Demais, é ainda mais importante explicitarsociedade, causando queda da taxa de lucro na crise e uma o aprofundamento da deformação do marxismo na IItendência secular à queda desta taxa, que é refreada por Internacional. Os ideólogos da II Internacional passaramvárias contra-tendências, tais como a atuação do capital a excluir a concepção marxiana da necessidade de umano mercado mundial, além das suas fronteiras nacionais, revolução social para o trânsito do capitalismo para
    • Ideologia e morte do marxismo o comunismo. Bernstein e outros passaram a acreditar destruir grande parte de forças produtivas e de capital,nas reformas sociais, no aperfeiçoamento do Estado em para desacelerar o desenvolvimento da lei da tendênciadireção à democracia. à queda da taxa de lucro, já que diminui o denominador Todo esse movimento, - na vida material e no campo desta taxa.da ideologia -, levou a humanidade a uma primeira guerra Ao lado do Estado bélico, a intervenção do Estadoimperialista mundial, a Primeira Grande Guerra, quando na economia capitalista ao longo do Pós-Guerra assumiuos trabalhadores das nações hegemônicas se subordinaram a forma do chamado Estado do bem-estar social. Esteà ideologia da perspectiva do capital, lutando entre si, ao Estado do bem-estar social, - que através de leis, direitos,invés de se aliarem contra a burguesia, tal como era o etc, contribuiu, em parte, para o aumento da satisfaçãoprojeto de Rosa Luxemburgo e seus seguidores autênticos. de necessidades pela classe trabalhadora, além de terRosa enfatizou na sua obra teórica e prática que a social- reduzido a jornada de trabalho, concedido descansodemocracia, defendendo as reformas sociais ao invés remunerado, etc. -, consistiu num grande embusteda revolução contra o capital, nega a luta de classes e ideológico para a classe trabalhadora. Primeiro, porquedefende a ordem regida pelo capital. Isto significa uma permitiu ao capital desviar a atenção dos trabalhadoresdeformação completa do movimento dos trabalhadores, para a questão vital de superação do capital. Segundo,ou seja, o fato de que grande parte deste movimento se nunca devemos esquecer que este Estado existiu,encontra subsumido sob a ideologia da burguesia. sobretudo, nas potências imperialistas, na Europa e Além de Rosa Luxemburgo, Lênin é outro grande nos Estados Unidos, cuja riqueza se baseia na super-representante do marxismo autêntico e da resistência exploração da força humana que trabalha do Terceirocontra a deformação do marxismo pela ideologia da Mundo. Os direitos concedidos por este Estado eram nãoclasse dominante na época em questão. Basta citar sua generalizáveis para o mundo subdesenvolvido, pois oparticipação no movimento revolucionário internacional capitalismo se caracteriza pelo desenvolvimento desigualenquanto líder da Revolução Russa de 1917. A tragédia e combinado das diferentes regiões e países do planeta.desta Revolução, - ou seja, o fato de que ela não tenha Demais, as regalias obtidas pelas classes trabalhadorasconduzido o mundo da regência da vida pelo capital dos países imperialistas contribuíram para enfraquecerpara o comunismo -, se deveu, em grande parte, ao fato o movimento internacional do trabalho, visto que osde não ter sido acompanhada por revoluções nos países trabalhadores dos países privilegiados se viram comcapitalistas adiantados. A tragédia da Revolução Russa vínculos de interesse em relação às suas burguesias e emtambém se deveu a elementos ideológicos, isto é, ao contraposição à população super-explorada do Terceiroadvento do stalisnimo. Mundo. O capitalismo, a partir da época da Segunda Grande Além do embuste ideológico representado peloGuerra, “inventou” uma nova maneira de escapar da Estado do bem-estar-social, devemos fazer referênciasuperprodução de capital – através da economia de a outros desenvolvimentos ideológicos do período emguerra e da produção destrutiva. A Segunda Guerra (e questão. No campo da ideologia da classe dominante,não o New Deal) tirou a economia americana da Grande podemos citar o desenvolvimento das concepçõesDepressão dos anos 1930 e, na seqüência, esta economia que eliminam de seu quadro categorial a problemáticacontinuou a “prosperar” através da economia de guerra da exploração, contrapondo o capitalismo enquantopermanente. “sociedade moderna” baseada em cidadania, etc. às A sociedade do capital caracteriza-se pela subsunção chamadas sociedades tradicionais. Demais, na ciênciado processo de trabalho no processo de valorização do econômica se difundiu a influência keynesiana e acapital. Esta subsunção, no início do capitalismo, teve identificação desta ideologia, - que, para nós, consisteuma função revolucionária: desenvolver aceleradamente numa tentativa desesperada de salvar o capitalismo -, comas forças produtivas. Porém, a partir de determinado preocupações sociais, pois os economistas keynesianosmomento histórico o capitalismo se torna produtor de se vêem e são vistos como pessoas com preocupaçõesforças destrutivas. Daí a crescente produção de coisas sociais.inúteis, o desperdício generalizado e, sobretudo, a O período também foi marcado pela continuidadeprodução armamentista e a economia de guerra que vem da deformação do marxismo. Basta citar a ascensão e osendo o pólo dinâmico da economia norte-americana fortalecimento do stalinismo através da influência da entãoe, portanto, da economia mundial desde a Segunda União Soviética e da III Internacional. A teoria stalinianaGuerra. Os gastos com armamentos e com guerras se ergueu como mecanismo de defesa apologética dascontribuem para aumentar a demanda agregada e manter práticas incorretas então existentes no leste europeu eo nível de atividade econômica, pois consumo humano em outras regiões. Nestes países, ocorreu superação dogenuíno e destruição desumana de forças produtivas são capitalismo, através da revolução meramente políticaequivalentes do ponto de vista perverso da realização que eliminou a propriedade privada dos capitalistas edo capital. Demais, os gastos bélicos contribuem, ao garantiu emprego aos trabalhadores. Porém, esta mudança
    • Contra a Corrente político-jurídica não foi seguida por uma revolução socialgenuína, imprescindível para a superação da sociedade Trotski: Shakespeare, a tragédia gregado capital. Esta sociedade continuou a existir nestes e a literatura modernapaíses numa nova modalidade não prevista por Marx. As “Nas tragédias de Shakespeare, que não podiamsociedades do leste europeu permaneceram regidas pelo ser concebidas sem a Reforma, as paixõescapital, pois, nelas, o processo de produção continuou humanas individuais, tais como amor, inveja,dominando o homem e este continuou a satisfazer um sede de vingança, avidez e conflito deleque restrito de necessidades humanas. Houve superação consciência, expulsam a fatalidade dos antigos edo capitalismo, sem superação do capital, o que levou a as paixões da Idade Média. A paixão individual,sua exaustão a partir de determinado período. em um dos dramas de Shakespeare, chega No que se refere ao capitalismo, a resposta à crise dos a tal ponto de tensão que supera o homem,anos 1930 (através do Estado bélico) acaba se convertendo ergue-se sobre ele e se converte numa espécienuma crise mais profunda a partir de meados da década de fatalidade: a inveja de Otelo, a ambiçãode 1970. Isto devido ao caráter parasitário inerente ao de Macbeth, a avareza de Shylock, o amor de Romeu e Julieta, a arrogância de Coriolano, afuncionamento da economia armamentista. Primeiro, perplexidade intelectual de Hamlet. A tragédia dedevemos salientar que a produção de armas e a guerra Shakespeare é individualista, e nesse sentido nãosão parasitárias da economia não militar. Demais, os tem a significação geral de Édipo Rei, que traduzgastos em armas estão associados a déficits orçamentários a consciência de todo um povo. Comparado aastronômicos na economia norte-americana, o que leva a Ésquio, Shakespeare representa enormeuma hipertrofia do capital especulativo, que é também passo adiante, e não um passo atrás.parasitário do capital produtivo. A arte de Shakespeare é mais humana. A ideologia neoliberal, que vem dominando a Não mais aceitaremos, em todo caso, umavida nas últimas décadas, tem sido a resposta do capital tragédia na qual Deus ordena e o homempara aumentar a exploração do trabalho. As concessões obedece. Nem haverá mais quem a escreva. A sociedade burguesa, ao atomizar as relaçõesfeitas aos trabalhadores durante o Pós-Guerra têm sido humanas, propusera-se um grande objetivoretomadas com a finalidade de aumentar a exploração durante seu desenvolvimento: a libertação dae garantir o parasitismo da indústria bélica e do capital personalidade. Dele nasceram os dramas definanceiro. Essa retomada tem sido facilitada pela derrota Shakespeare e o Fausto de Goethe. O homemda perspectiva do trabalho no mundo contemporâneo. O considerava-se o centro do Universo e, porpseudo-socialismo entra em crise e se esfacela – o capital conseguinte, da arte. Esse tema satisfez duranteaí existente enquanto relação de produção fundamental séculos. Toda a literatura moderna resultou decomeça a buscar suas “liberdades” (mercado e democracia sua exploração. O objetivo inicial – a libertaçãoburguesa). Proclama-se a morte de Marx. e a qualificação da personalidade – desvaneceu- A proclamação contemporânea da morte de Marx se, todavia, no domínio de uma nova mitologia sem alma, quando se revelou a insuficiênciaé a manifestação mais esplendente da miséria espiritual da sociedade existente em facecontemporânea, que se alastra por todo o planeta, desde o de suas insuportáveis contradições”.homem comum até as mais altas esferas intelectualizadas, (Literatura e revolução,subordinadas que estão à ideologia da classe dominante. Trotski, p. 121)Vivemos numa época sem arte, sem filosofia e semciência autêntica. Esta miséria espiritual constitui produtoda miséria material contemporânea. Miséria que não seresume à degradação atual da vida humana e da natureza.Mas que engloba toda a chamada opulência materialcontemporânea. Se esta opulência se funda na indústriada guerra e da destruição, por que não podemos chamá-lade miséria? Bibliografia CHASIN, José. A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda.Revista Ensaio, São Paulo, n. 17/18, p. 1-121, 1989. MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital. São Paulo: Lutadoras: histórias de mulheres queBoitempo Editorial / Editora da Unicamp, 2002. fizeram história, Edições SANTANA, Gilson Dantas. Contradições e Papel da Economia Iskra, São Paulo, 2009.Armamentista Norte-Americana na Crise Capitalista: sua relação Organização de Andréa D´Altricom o impasse latino-americano. (Alguns elementos teóricos). Tese e Diana Assunção.de Doutorado. Universidade de Brasília, 2003.