Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: Obama, o bom vizinho - 02/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, quinta-feira, 02 de abril de 2009
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CLÓVIS ROSSI
Obama, o bom vizinho
LONDRES - Antes de mais nada, uma explicação ao leitor:
comecei a ler o noticiário internacional quando da revolta
húngara contra o comunismo, em 1956. Tinha 13 anos.
Portanto, o interesse pelo mundo não é recente.
Desenvolvi uma verdadeira obsessão por conhecer
\"newsmakers\", as pessoas que fazem notícias, e vê-los em
ação. Presidentes dos Estados Unidos são dos mais clássicos
\"newsmakers\" do planeta.
Um presidente como Barack Obama, ainda mais pelos
motivos que todo mundo já sabe.
Por isso, um entusiasmo juvenil me assolou ao receber a
confirmação de que estava na lista dos jornalistas
autorizados a acompanhar a entrevista coletiva que Obama
daria ao lado de Gordon Brown, o premiê britânico.
Visto como \"newsmaker\", não me impressionou. O
noticiário a respeito está páginas adiante, e você pode julgar
por si mesmo.
Visto como pessoa física, é outra história. É o único
presidente norte-americano de todos os que conheci (desde
Richard Nixon) que não exala o odor do império. Mesmo
Bill Clinton, simpático, inteligente, superpreparado, não
escondia o peito estufado ao falar (figuradamente, claro).
Obama, ao contrário, parece o vizinho simpático que entra
sem precisar de permissão na casa da gente. Eu sempre fico
com medo de transmitir impressões pessoais, porque podem
ser falsas.
Só me animei a fazê-lo porque chequei com um membro da
delegação brasileira que esteve com Lula no encontro com
Obama e ficou com a mesmíssima impressão de \"gente como
a gente\", se me perdoa o lugar-comum.
Até no encontro com a rainha, Obama e a mulher, Michelle,
se comportavam com a reverência que os netos de
antigamente tinham com os avôs. Pode até ser um fracasso
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como presidente, mas, como gente, é um bom personagem.
crossi@uol.com.br
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moucos
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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Deus de papel - 29/03/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, domingo, 29 de março de 2009
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GILBERTO DIMENSTEIN
Deus de papel
Com tantas limitações, a
sobrevivência emocional de Gilvã
estava ligada à poesia -era seu
espaço de realização
OS DEDOS atrofiados e a dificuldade de teclar no
computador eram apenas mais um obstáculo para Gilvã
Mendes executar o maior projeto -escrever um livro sobre
como lhe era difícil escrever um livro. Gilvã é uma síntese de
quase todas as marginalidades possíveis. É negro, pobre,
nordestino, mora num bairro contaminado pelo tráfico de
drogas e sofre de paralisia cerebral, o que dificulta os
movimentos do corpo e da fala. Para completar, depende de
uma cadeira de rodas para circular em Salvador, com suas
ladeiras. A deficiência fez com que, por muito tempo, não
tenha sido aceito numa escola. Aos 17 anos de idade, estava
na quinta série -obviamente de uma escola pública.
O que já era difícil ficou ainda mais difícil. Quando a
primeira versão do livro ficou pronta, depois de dois anos de
trabalho e noites insones, os arquivos desapareceram da
memória do computador -um computador que, por várias
vezes, quebrou e demorava para ser consertado. Quase
desistiu. \"Mas eu pensava que, se parasse, confirmaria tudo o
que diziam e pensavam sobre mim: que eu era inútil,
vegetativo, aleijado.\" Depois de quatro anos, o romance
estava, enfim, pronto. Mas ele percebeu que a realidade era
muito mais forte do que a ficção e preferiu reescrever tudo e
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fazer um relato sobre o cotidiano de sua sobrevivência,
mesclando com suas poesias.
Com tantas limitações, a sobrevivência emocional de Gilvã
estava ligada à poesia -era seu único espaço de realização.
Ser poeta é quase que divino, Homem, menino, Ser poeta é
viver, matar. Ser Deus, não como o todo- poderoso Jeová.
Ser Deus de uma folha de papel, com uma caneta. Ser poeta
é ser pateta, ser ridículo, um palhaço, ser um eterno
apaixonado, um desgraçado, um abençoado.
Por não ser aceito na escola, agarrava-se à leitura. \"Enquanto
meus irmãos apanhavam para aprender as lições da escola,
eu olhava os livros feito um cão que deseja um frango de
padaria.\"
Até que conseguiu ser matriculado, quando tinha 17 anos.
\"Senti vontade de raspar a cabeça, era como se tivesse
entrado na faculdade.\" Teve a chance de aprender a lidar
com a internet e aprender comunicação. Aí nasceu a vontade
de ser escritor, mas não tinha ideia dos obstáculos -teria de
enfrentar até as ladeiras de Salvador. Uma coisa é ver o
charme das ladeiras pelos livros de Jorge Amado; outra, pela
visão de um cadeirante.
Quem foi que disse que sou aleijado? Quem foi que disse
que só vivo numa cadeira prostrado? Quem disse que eu não
conheço de Salvador os becos, as vielas, ladeiras e botequins
imundos, sambistas, malandros, putas, poetas e vagabundos.
No ano passado, Gilvã entrou na faculdade para estudar
letras -era um de seus grandes sonhos. Mas seu grande sonho
será visto apenas amanhã, quando sair da gráfica o livro
intitulado \"Queria Brincar de Mudar Meu Destino\".
Por trabalhar com educação, sempre tento descobrir formas
de motivar os alunos a aprenderem com mais profundidade,
especialmente o prazer da leitura e da expressão -o que está
cada vez mais difícil. Tive a possibilidade de acompanhar, ao
longe, a briga de Gilvã. Por isso, quando me chegou às mãos,
na semana passada, a versão final, senti-me diante de um dos
relatos mais tocantes que já li de um estudante sobre a paixão
pela palavra.
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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Deus de papel - 29/03/2009 Page 3 of 3
PS - O título do livro é tirado de uma das poesias de Gilvã.
Coloquei em meu site (http://www.dimenstein.com.br/)
mais poesias dele, além de trechos do livro, que será lançado
na Bienal do Livro de Salvador.
gdimen@uol.com.br
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Folha de S.Paulo - Jorge Wilheim: Crise: o urgente e o básico<br> - 05/03/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, quinta-feira, 05 de março de 2009
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Crise: o urgente e o básico
JORGE WILHEIM
Devemos considerar a crise como \"o
fim de um mundo\" e torná-la
fecunda, com criatividade e ousadia.
A isso devemos nos dedicar
A PRESENTE crise ultrapassa o campo financeiro e é
daquelas que, justificando as raízes etimológicas que
associam esse termo a \"decisão e mudança\", exigem a
reflexão de todos: economistas, antropólogos, sociólogos,
filósofos, intelectuais, artistas, politólogos, urbanistas.
Reflexões e até previsões, aliás, têm sido feitas há alguns
anos: desde as veementes denúncias de favelização mundial
de Mike Davis às restrições de Peter Drucker; das teses de
transformações reflexivas do capitalismo de Back, Giddens e
Lash, segundo as quais o progresso pode tornar-se
autodestruição, às críticas de Baumann sobre a gravidade do
abandono dos trabalhadores; das denúncias de Rifkin de que
a finança estava abandonando a economia às de Roubini
vaticinando a proximidade do estouro da \"bolha\".
Não adiantaram os avisos. Cobiça, lucros imediatos, negação
e fraudes -apoiados em políticas neoliberais e em ausência de
transparência e de regulamentação- levaram a melhor.
Melhor? Por ora só há falências, desemprego e recessão, um
panorama aparentemente catastrófico. Crise dessa amplitude
e profundidade, no entanto, mesmo quando traumática,
também constitui uma oportunidade a não ser desperdiçada.
As civilizações se urbanizaram, as favelas cresceram, o
espaço e o tempo encolheram graças à conectividade global,
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as desigualdades e as injustiças sociais e de direitos
tornaram-se insuportáveis, a \"saúde\" do planeta foi colocada
em perigo em razão de ações predatórias do mercado. Isso
constitui uma pauta nova.
Para atender à emergência, é preciso investir recursos
públicos em defesa do trabalho digno e da diminuição das
desigualdades, na contramão da nefasta ação dos bem
remunerados \"job killers\" da última década. Porém há que
fazê-lo com critério. Automontadoras seriam socorridas
somente se firmassem compromisso de acelerar a fabricação
de veículos que consumam menos combustível, não-
poluidores, provavelmente elétricos com baterias de
hidrogênio.
Crédito bancário ao consumidor final a juros baixos, teto
para os altos salários, transparência e controle acionário
social seriam condições para bancos receberem recursos
públicos. Ajuda financeira pública à habitação deveria
implicar mais regulado e limitado uso do solo urbano,
substituindo a voracidade que consome o espaço das cidades
por uma maior qualidade de vida para todos. E, em todos os
casos, financiamentos públicos devem ser ponderados por
critérios ambientais e pelo número de empregos mantidos ou
gerados e devem ainda depender de entendimento prévio
entre empregados e empregadores.
Além das emergências, há no entanto uma questão básica de
fundo: o que está em jogo nesta década é, a meu ver, quais os
processos e os mecanismos sociais e políticos mais
adequados para hoje operar a economia de mercado. Suas
leis básicas -oferta e demanda, excedente de produção,
acumulação e valor- foram estabelecidas muito antes da
invenção do capitalismo e mesmo antes da criação da moeda.
Se o capitalismo, seus bancos -originários da Itália
renascentista-, seus juros e demais jogos financeiros
desenvolvidos no mercantilismo fizeram do sistema um
operador ágil para o financiamento da Revolução Industrial
do século 19 e sua expansão comercial, isso não quer dizer
que ele continue sendo, no formato atual, o operador ideal da
economia de mercado do século 21 em diante.
Encerrado dramaticamente o triste episódio do
neoliberalismo, cabe ao Estado e à sociedade reverem, em
nova articulação, quais são os limites de ação do mercado.
Essa nova articulação, a resultar em uma economia de
mercado de nova gestão, coerente com o interesse público e
socialmente monitorada -embora mantendo sua criatividade-,
é, no fundo, o desafio da crise que explodiu quando ocorreu
o transtorno causado por uma das pontas do iceberg: a
aventura financeira irresponsável, desnudada pela queda, no
setor imobiliário, da primeira pedra de dominó.
Concluindo: para planejar no século 21, devemos encontrar
as sementes de inovação que se encontram nas dobras das
múltiplas rupturas que ocorreram na última década do século
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20. Até mesmo na atual ruptura entre finanças e economia,
entre lucro e trabalho. Devemos considerar a crise como \"o
fim de um mundo\" e torná-la fecunda, com criatividade e
ousadia. Essa é a tarefa intelectual e política a que devemos,
todos, nos dedicar.
JORGE WILHEIM, 80, é arquiteto e urbanista. Foi secretário
municipal de Planejamento Urbano de São Paulo (governo Marta
Suplicy), secretário-geral da Conferência Habitat 2 da ONU
(Organização das Nações Unidas), secretário estadual de Economia e
Planejamento (governo Paulo Egydio) e secretário estadual do Meio
Ambiente de São Paulo (governo Quércia).
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos
problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
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Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: A mãe de todos os males - 15/03/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, domingo, 15 de março de 2009
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CLÓVIS ROSSI
A mãe de todos os males
LONDRES - A desigualdade é, pelo menos para o meu
gosto, inaceitável do ponto de vista ético e moral. Mas é
também \"a mãe de todos os males\", segundo o jornal
britânico \"The Guardian\", em levantamento com base no
livro \"O Nível do Espírito: por que sociedades mais
igualitárias quase sempre se saem melhor\", de Richard
Wilkinson e Kate Pickett.
Ele é pesquisador do Centro para Ciências da População da
Universidade de Nottingham. Ela, do Departamento de
Ciências da Saúde da Universidade York.
Dois exemplos: sociedades com alto nível de desigualdade
registram três vezes mais doenças mentais do que países com
bom nível de coesão social; nascem dez vezes mais bebês de
mães adolescentes em sociedades desiguais do que nas mais
iguais.
No mundo desenvolvido, os Estados Unidos são os
campeões da desigualdade: os 20% mais ricos têm renda 8,5
vezes superior a dos 20% mais pobres. O Japão é o mais
igualitário: os ricos têm 3,4 vezes mais que os pobres.
Detalhe sobre o Reino Unido: foi no governo Margaret
Thatcher, a mãe mundial do ultraliberalismo, que a
desigualdade disparou. Começou, em 1979, com 101 (a base
de comparação é 1974, com 100), e chegou a 130 em 1989,
quando ela deixou o posto para John Major.
Hoje, depois de dez anos de trabalhismo, está em 140.
Os dados sobre desigualdade no Brasil são sabidamente
obscenos.
Mas igualmente obscena é a lenda da queda da desigualdade
que alguns acadêmicos vêm espalhando, mesmo sabendo
que a única desigualdade que caiu foi entre assalariados. Não
caiu, até aumentou, a desigualdade relevante que é entre o
rendimento do capital e o rendimento do trabalho.
Espalhar essa lenda significa anestesiar, no governo e na
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1503200903.htm 1/5/2009
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sociedade, a necessidade de combater a \"mãe de todos os
males\".
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Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: A pedagogia da rua - 29/03/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, domingo, 29 de março de 2009
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CLÓVIS ROSSI
A pedagogia da rua
LONDRES - Por imposição industrial, escrevo antes de que
termine a manifestação de ontem no Hyde Park, a primeira
do que pretende ser uma série de protestos contra a cúpula
do G20 e contra a crise. O lema geral de ontem (na semana
que vem, é outro o grito) era \"Put People First\" ou, em livre
tradução, \"As pessoas em primeiro lugar\".
Pena que as pessoas -ao menos as que se engajam no rico
caleidoscópio de entidades da sociedade civil que anima
esses movimentos- estejam sendo colocadas não em primeiro
lugar nem em segundo nem mesmo em último. Foram
simplesmente expulsas do mundo político \"mainstream\". E
também da mídia \"mainstream\".
A superestrutura política virou um dueto monocórdico, com
perdão da contradição em termos. É democratas x
republicanos nos Estados Unidos, conservadores x
trabalhistas no Reino Unido, social-democratas x democrata-
cristãos na Alemanha, PT x PSDB no Brasil -todos brancos e
de olhos azuis, para usar a metáfora de Lula, embora muito
petista se ache preto ou índio. Pura demagogia.
Criou-se um déficit democrático em que outras vozes não
entram talvez porque digam verdades incômodas. Ou entram
apenas para terem suas verdades apropriadas pela corrente
principal, como já aconteceu com a mudança climática e
repete-se com a crise. Esse pessoalzinho, em geral simpático,
mas às vezes agressivo demais, dizia faz tempo que o
modelo era intolerável. Agora, Paul Krugman, Nobel de
Economia e como tal perfeito \"mainstream\", decreta \"o
fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro
que cresceu demais e causou mais dano que bem\".
É óbvio que nem sempre esses movimentos têm razão. Mas,
hoje por hoje, é possível aprender mais na rua, mesmo sob a
chuva fina e o friozinho bem londrinos, do que nos
gabinetes.
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azuis\", o surto chavista
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 1 of 7
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Verde Aguado
ANTHONY GIDDENS FALA DE \"A POLÍTICA DE
MUDANÇA CLIMÁTICA\", RECÉM-LANÇADO NO
REINO UNIDO, E DIZ QUE A REUNIÃO DO G20, NA
PRÓXIMA QUINTA, IRÁ RESULTAR EM UM
ACORDO \"DE FACHADA\"
Alexandra Winkler-5.jan.03/Reuters
Homem caminha em várzea alagada devido à chuva em Kallmünz, na
Alemanha; aquecimento global é tema do novo livro do sociólogo inglês,
que é ex-reitor da London School of Economics
Vejo o Brasil como o negociador
entre Europa, EUA e China
PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES
Um dos sociólogos mais influentes da atualidade, Anthony
Giddens, 71, afirma que a crise financeira global vai redefinir
radicalmente a sociedade em que vivemos, mas \"muito ainda
depende de um fenômeno em cujas mãos ainda estamos -o
mercado\".
Para ilustrar sua opinião, reforça: \"Toda vez que uma decisão
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 2 of 7
é tomada, as pessoas querem saber como os mercados vão
reagir\". A reunião do G20 na próxima quinta, em Londres,
produzirá um acordo -ainda que \"de fachada\"-, porque os
mercados e as pessoas precisam ser \"tranquilizados\", diz ele.
Giddens avalia que \"estamos no estágio inicial de descobrir o
que seria um novo modelo de capitalismo responsável e
global\" e prevê uma convergência no debate sobre a grande
recessão e os desafios da mudança climática.
\"Em ambos os casos, estamos falando de um papel forte para
o Estado e de mais regulação, de um planejamento de mais
longo prazo que não tivemos no passado, de controlar
mecanismos de mercado mais efetivamente do que nos
últimos 30 anos pelo menos, de mais inovações
tecnológicas.\"
Principal ideólogo da Terceira Via, a busca de um caminho
alternativo entre o liberalismo radical e as tendências
estatizantes tradicionais da social-democracia, Giddens agora
volta sua atenção para o tema do aquecimento global, em
livro lançado na semana passada: \"The Politics of Climate
Change\" (A Política de Mudança Climática, Polity Press, 256
págs., 12,99, R$ 43).
Ex-reitor da London School of Economics, lorde Giddens
defende que os países ricos têm de arcar com 95% dos custos
da luta contra o aquecimento global pelos próximos anos,
pois \"não é moralmente correto nem seria factível na prática
impedir os países em desenvolvimento de se desenvolverem\".
Por outro lado, o sociólogo cobra o fim da \"atitude passiva\"
dos países em desenvolvimento em relação ao tema e enxerga
o Brasil exercendo um papel de liderança, como mediador
entre EUA, China e União Europeia.
Giddens deu a entrevista à Folha no pub da Câmara dos
Lordes, depois de uma pequena volta explicativa pelo local (a
palavra \"lobby\" vem do sistema britânico, em que os
parlamentares favoráveis e contrários são separados em
antessalas distintas antes de votar, os lobbies). No final, foi
para casa de metrô. A seguir, os principais trechos da
entrevista.
FOLHA - Em seu livro, o sr. lança o \"paradoxo de
Giddens\": uma vez que os perigos do aquecimento global
não são visíveis no dia a dia, apesar de parecerem terríveis,
as pessoas não irão agir; contudo, esperar até que se
tornem visíveis e sérios para então tomar uma atitude será
tarde demais. Como lidar com isso?
ANTHONY GIDDENS - Eu aplico o paradoxo de Giddens
especialmente aos países desenvolvidos, porque são eles que
têm que tomar a liderança. Por exemplo, para alguém que
caminha pelas ruas de Londres, as enchentes de Bangladesh
não são algo que afete o dia a dia das pessoas. Para lidar com
isso, é preciso romper com as estratégias do passado. As
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 3 of 7
coisas que têm saído pré-Copenhague [em dezembro haverá
uma conferência na capital dinamarquesa para definir o
mundo pós-protocolo de Kyoto], com os cientistas dizendo
que \"é muito pior do que pensávamos\", passam longe da
realidade das pessoas nas ruas. Muitas questões que parecem
apocalípticas, que saem nos jornais e na mídia, são iguais a
filmes que as pessoas não conseguem distinguir da realidade.
É bem difícil esperar que as pessoas comecem a agir com
base nisso. Por isso proponho uma reorganização
fundamental do pensamento, para focar muito mais nos
investimentos, para ver os lados positivos do aquecimento
global. Podemos criar uma genuína economia verde, quebrar
a dependência do Oriente Médio, garantir segurança
energética e levar a uma vida melhor por meio dessas
transformações. Dizer para os empresários que eles podem se
tornar mais competitivos. Não sou contra regulação ou metas
para reduzir a emissão de carbono. Na verdade, sou a favor
dessas coisas, mas não acho que elas possam mobilizar as
pessoas. Olhe para o tipo de abordagem que o presidente [dos
EUA, Barack] Obama produziu, é muito diferente de todos, é
muito mais afirmativa. Não sabemos se vai ter sucesso, claro,
porque estamos falando aqui em mudar o \"estilo de vida
americano\". No entanto ele fala disso como um projeto
inspirador, que tem muito mais ressonância.
FOLHA - O sr. fala que o movimento verde sequestrou o
debate sobre mudança climática e que é preciso sair dessa
armadilha. Como assim?
GIDDENS - O movimento verde começou da metade para o
final do século 19, fortemente influenciado pela ideia
romântica de uma crítica do industrialismo, a nostalgia de
uma terra que não havia sido modificada pelas indústrias. Sua
força motriz era a conservação, a proteção da natureza e do
ambiente. Realmente deveríamos ter deixado a natureza em
paz, só que agora é tarde demais, e maior intervenção na
natureza será absolutamente necessária. A mudança climática
é muito diferente das preocupações tradicionais dos verdes e,
para lidar com ela, temos de nos livrar de alguns dos
preconceitos que os verdes -não todos, mas alguns- têm, de
não interferir muito na natureza, de um princípio da
precaução. O caminho para lidar com a mudança climática
deve ser de ousadia, inovação, o máximo uso da tecnologia.
Não quero descartar completamente o movimento verde, pois
tem um importante papel de trazer esses assuntos para a
agenda, e isso tem valor. No entanto, se você olhar para o
manifesto dos verdes globais, muito pouca coisa tem a ver
com mudança climática. E um dos problemas é que alguns
grupos se veem como operando fora da política,
extremamente críticos das atividades das grandes
corporações. Mas o vital agora para a mudança climática é
trazer para o centro do debate algo que 60%, 70% da
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 4 of 7
população possa compreender.
FOLHA - Num artigo recente, o sr. mencionou que a crise
financeira global, seus desdobramentos e o desafio de como
lidar com a mudança climática levaram ao fim do fim da
história. Por quê?
GIDDENS - [Francis] Fukuyama inventou a versão moderna
da frase do fim da história, e o que ele quis dizer foi que
chegamos a uma fase da história em que não podemos ver
nada diferente do mundo em que vivemos: de um lado, a
democracia parlamentarista e, de outro, o sistema capitalista,
com competição e mercados abertos. Acho que não se pode
mais tomar essa posição como aceitável, pois uma sociedade
de baixo carbono provavelmente mudará bastante o
comportamento das pessoas, o modo como veem o mundo.
Pode envolver uma crítica forte de viver num tipo de
sociedade baseada no consumo, sem outros valores. O que
quis dizer foi que temos de nos preparar para pensar
novamente de modo muito radical lá na frente. É claro que,
agora, temos de lidar com o mundo como o vemos. Mas sou a
favor de um retorno parcial a certo utopismo. O mundo que
criamos é insustentável, sabemos que não podemos continuar
como estamos.
FOLHA - O sr. fala que as nações em desenvolvimento
deveriam ser autorizadas a emitir mais carbono no curto
prazo, mas isso não funciona. Os EUA e a União Europeia,
com medo de perderem competitividade, já disseram que
isso é inaceitável. Como resolver essa equação?
GIDDENS - Não podemos impedir os países em
desenvolvimento de se desenvolverem. Não seria moralmente
correto nem seria factível, na prática. Parte desse
desenvolvimento tende a depender pesadamente de
combustíveis fósseis e, logo, de emissões de carbono. É por
isso que os países já industrializados têm de arcar com 95%
do fardo pelos próximos 10, 15, 20 anos até, para reduzir as
emissões. Por outro lado, é preciso que o mundo em
desenvolvimento assuma um papel importante, não mais a
posição passiva, de que isso \"não tem nada a ver com a
gente\". Mas, no caminho, precisamos de avanços
tecnológicos e de grandes áreas daquilo que chamo de
\"convergência econômica e convergência política\", para que
os países em desenvolvimento sigam um caminho diferente
do que o que estão seguindo agora. Em primeiro lugar,
estamos atrás de avanços tecnológicos que sejam capazes de
levar os países em desenvolvimento a pular algumas etapas
de desenvolvimento. Em segundo lugar, estamos procurando
vários acordos bilaterais, não apenas a conferência de
Copenhague, especialmente entre EUA e China, que
produzem quase 50% das emissões. Idealmente, é necessário
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 5 of 7
algum acordo entre os dois, como os EUA permitirem acesso
a inovações tecnológicas, com a suspensão de patentes, em
troca de algum tipo de concessão da China para os EUA. Mas
isso é determinado politicamente. Se não há como repetir o
modelo de desenvolvimento, temos de encontrar avanços. Até
agora, não conseguimos. A China ainda está fazendo usinas
de carvão. Os políticos se sentem muito confortáveis,
prometendo cortar as emissões em 80% até 2050, mas não
ficam nem um pouco felizes quando você diz que precisam
começar agora. Existe muita retórica vazia nesse debate e
temos de ver como superar isso para que os acordos sejam
atingidos. Temos de olhar para o que pode ser feito, de modo
a produzir uma combinação de competitividade e mudança
tecnológica. Estou convencido de que países que seguirem o
caminho tradicional de desenvolvimento industrial não serão
competitivos no médio prazo.
FOLHA - Como o sr. vê o papel do Brasil nesse debate
sobre o clima? O que o país deveria fazer?
GIDDENS - Vejo o Brasil como um negociador ou uma
terceira parte nas negociações entre os EUA, a União
Europeia e a China. Vejo o Brasil capaz de ter uma liderança
entre os países de industrialização recente para levar os
outros países a uma posição decente. O país pode ter um
papel bastante importante, e seria desejável se de fato o
exercesse. Mas isso também depende de uma liderança
política forte.
FOLHA - Estamos vivendo a pior crise econômica desde a
Grande Depressão. Quais serão seus efeitos?
GIDDENS - Depende de em que nível você está falando. Nos
próximos dois anos e no momento, ninguém sabe realmente o
que acontecerá, independentemente de suas credenciais
acadêmicas. Se haverá declínio contínuo com desemprego
crescente ou se, nesse período, haverá algum tipo de
recuperação, pelo menos em algumas áreas. Ambos são
possíveis. Muito depende de um fenômeno do qual ainda
estamos nas mãos: o mercado. Toda vez que uma decisão é
tomada, as pessoas querem saber como os mercados irão
reagir. Ainda estamos nas mãos do mercado global, para o
bem e para o mal. No médio prazo, pessoas como eu
deveriam estar pensando em um modelo de capitalismo
responsável. Pois existe uma convergência entre o debate
sobre mudanças climáticas e a recessão, por razões óbvias.
Nos dois casos, estamos falando de um papel forte do Estado
e de mais regulação, de um planejamento de longo prazo que
não houve antes, de controlar mecanismos de mercado de
modo mais efetivo do que foi feito nos últimos 30 anos, de
inovações tecnológicas. Mas ainda estamos no estágio inicial
de descobrir o que seria um novo modelo de capitalismo
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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009 Page 6 of 7
responsável e global. A crise é mundial, não importa o que a
Europa ou os EUA façam. Essa é uma questão em aberto,
pois os países não têm sido bons em chegar a acordos, mesmo
quando é de seu interesse. A Rodada Doha e a Organização
Mundial do Comércio são exemplos perfeitos.
FOLHA - Muitos teóricos têm falado em \"desglobalização\",
como no caso do aumento do protecionismo.
GIDDENS - A globalização é um termo que abarca muitas
mudanças, e é preciso quebrá-lo em várias partes. Há alguns
aspectos muito improváveis de serem revertidos, como a
revolução das comunicações, uma das maiores forças da
globalização. Goste-se ou não, isso ainda será o futuro: o
mundo estará integrado imediatamente pela tecnologia e
quase certamente isso continuará a ter avanços. Nesse
sentido, a globalização está aqui para ficar. Mas, quando se
fala em livre mercado, é diferente. Alguns aspectos podem
ser revertidos, isso já aconteceu antes, e, em uma situação de
recessão, as pessoas tendem a se voltar para seus países. Mas,
se sabemos alguma coisa de teoria econômica, é que
protecionismo, no final, prejudica sua própria economia.
Nenhuma economia que se isolou do mercado global
conseguiu realmente prosperar. Pessoalmente, não acho que o
protecionismo voltará, como nos anos 1930.
FOLHA - Quais são suas expectativas para o encontro do
G20?
GIDDENS - Acho que tem mais chances de chegar a um
acordo do que a imprensa diz, pois esta é a primeira vez em
que houve tal grau de reconhecimento da natureza global da
crise. Poderá haver acordos para aumentar a transparência ou
para expandir o papel do FMI. Mas será preciso verificar em
que extensão serão implementadas no mundo real. O que
certamente ocorrerá será um acordo de fachada. Haverá a
apresentação de um acordo -ele de fato ocorrendo ou não-,
pois todo mundo reconhece que precisamos tranquilizar o
público e o mercado -ele de novo!
FOLHA - Em uma palestra, o sr. afirmou que o clima do
mundo vai mudar irremediavelmente, mas não vê isso como
uma ameaça iminente.
GIDDENS - O que disse é que o debate quanto à mudança
climática é sobre riscos e sobre como analisar esse riscos. No
momento existem várias formas de medição de risco feitas
pelos cientistas, e o consenso parece ser que a mudança
climática é mais iminente e mais perigosa do que
pensávamos, mas não está claro completamente o que querem
dizer com isso. É sensato dizer que as emissões na atmosfera
já estão produzindo efeitos, mas, se se está falando de 2050,
quem sabe dizer o que poderemos fazer para responder a
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isso? Existem muitas divergências na comunidade científica
sobre quão iminentes essas coisas são, e posso dizer isso
porque passei os últimos dois anos estudando o tema. É muito
importante para países como o Brasil, com algumas
condições climáticas violentas, pensar em se adaptar a esse
novo contexto, fazer estudos de vulnerabilidade, encontrar
meios de convergência para procedimentos que ajudarão em
caso de mudanças significativas no clima. Por exemplo,
proteção contra enchentes, ao mesmo tempo melhorando
práticas de agricultura. Existe uma boa área de desconhecido
nos próximos 20, 30 anos. Quem sabe o mundo possa ter um
mecanismo de adaptação sozinho, talvez a própria natureza
produza uma solução. Mas o que sabemos até agora é que,
uma vez que as emissões forem lançadas na atmosfera, não
sabemos como tirá-las, e os principais gases do efeito estufa
podem permanecer lá por 400 anos. Há cientistas que já
conseguem [retirar os gases da atmosfera] em pequena escala,
mas não sabemos se será possível em grande escala. As
pessoas estão muito confusas, apesar da grande educação
formal.
ONDE ENCOMENDAR - Livros em inglês podem ser encomendados
pelo site
http://www.amazon.co.uk/
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risco de descrédito
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Folha de S.Paulo - Ensaio: Administrando a empresa em tempos bicudos - 06/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, segunda-feira, 06 de abril de 2009
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Ensaio
Kelley Holland
Administrando a empresa em tempos
bicudos
Pense nisso: milhões de postos de trabalho foram perdidos
desde que a recessão global começou, o que significa que
inúmeros administradores tiveram de demitir funcionários,
viram colegas perderem seus empregos ou foram eles
próprios cortados.
Além disso, a tecnologia muda freneticamente, e os gestores
que se formaram na época dos memorandos em papel estão
repentinamente preocupados com o Twitter, com blogs e
com as escapadas virtuais dos seus empregados.
Em momentos como este, é fácil que os gestores embarquem
numa mentalidade de bunker. De fato, quem quer conversar
com os funcionários quando a única coisa a comunicar são
demissões, férias coletivas, cortes draconianos de gastos ou
tudo isso junto?
Mesmo para gestores que não se inibem pode ser difícil dar
alguma orientação útil aos empregados. Mas é essencial que
eles deixem suas próprias preocupações de lado e ajudem
sua equipe a lidar com este ambiente novo e assustador. Em
tempos de incerteza, os funcionários precisam de liderança.
Assim, é hora de espanar o pó de alguns preceitos
consagrados da gestão que podem ajudar nestes tempos
difíceis.
Primeiro, lembre-se de que liderar significa tratar os
empregados como adultos responsáveis, não como crianças
voluntariosas que podem ser mandadas ou amaciadas com
meias verdades. Repetidos estudos mostram que as
organizações funcionam melhor quando seus integrantes
estão informados e com poderes e quando são convidados a
contribuir e demonstrar iniciativa.
É preciso também que os gestores sejam diretos quando se
trata de dar más notícias. Se os empregados ouvem rumores
de demissões, por exemplo, possivelmente passarão seus
dias numa nuvem de preocupação sobre a tragédia iminente,
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Folha de S.Paulo - Ensaio: Administrando a empresa em tempos bicudos - 06/04/2009 Page 2 of 2
justo quando seria crucial que estivessem no seu momento
mais produtivo.
Por essa e muitas outras razões, os gestores precisam ir além
do seu círculo íntimo —ou emergir dos seus bunkers
metafóricos— para descobrir o que está realmente
acontecendo no resto da empresa e do setor.
Um pouco de inteligência emocional também faz maravilhas.
As pessoas trabalham melhor quando acreditam que seus
gestores e colegas as entendem e respeitam, quando podem
concluir suas frases nas reuniões e quando sentem que suas
ideias e opiniões são ouvidas.
A justiça é outro preceito básico da administração que
frequentemente acaba perdido em meio à confusão. Tratar as
pessoas com justiça não significa necessariamente tratá-las
como iguais. Mas estudos demonstram que empregados que
entendem a base das decisões administrativas e as percebem
como sendo justas se sentem mais confiantes de que suas
próprias contribuições serão reconhecidas e, portanto, ficam
mais motivados e engajados. Gestores inteligentes também
permitem que os empregados tragam mais de si mesmos para
o trabalho —e às vezes isso inclui coisas profundamente
pessoais, como religião ou orientação sexual.
Talvez o mais importante seja que os bons gestores
encontrem prazer no trabalho e deixem que todos saibam
disso. Quando as chefias se entusiasmam com a criação de
um novo anúncio ou com a obtenção de uma nova conta
importante, o local de trabalho fica com um clima
completamente diferente, mais energizado.
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Para exportar, Hollywood refaz filmes
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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Potência e compromisso - 06/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, segunda-feira, 06 de abril de 2009
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MARINA SILVA
Potência e compromisso
EM LUZIÂNIA, município goiano perto de Brasília,
acontece até quarta-feira uma conferência nacional na qual o
país deveria estar de olho. Ali se consolida um movimento
capaz de causar grande impacto social, embora pouco o
percebamos hoje.
É a 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio
Ambiente, promovida pelos ministérios do Meio Ambiente e
da Educação, com o tema \"Mudanças Ambientais Globais\".
A primeira, em 2003, envolveu cerca de cinco milhões de
pessoas de 4.000 municípios, em conferências estaduais que
convergiram para a nacional.
No sábado, participei, juntamente com o professor José Eli
da Veiga, de diálogo com os 669 delegados de 11 a 14 anos.
Voltei entusiasmada e tocada pela qualidade das
intervenções. Confirmei meu prognóstico de seis anos atrás,
de que essas conferências seriam paradoxalmente âncora e
alavanca para transformar o paradigma de educação e
também o de cidadania, incorporando-lhes questões
essenciais para o advento da sociedade que esse momento de
profunda crise global parece anunciar.
Falamos sempre do que podemos fazer pelas gerações
futuras. Em Luziânia, vi o que elas podem fazer por nós,
agora. Um dos efeitos de seu engajamento nas propostas de
um mundo mais sustentável e justo é a pressão exercida
junto a pais e adultos em geral para assumirem novas
atitudes em casa, nos espaços coletivos e profissionais, na
política.
Já ouvi depoimentos de empresários que mudaram o perfil de
seus negócios após cobranças de filhos e netos. Podem
parecer casos isolados, mas a verdade é que a infância e a
juventude estão tendo papel inovador vital em suas casas,
nas suas escolas e em outras instituições.
A medir pelos cerca de 12 milhões de jovens que
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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Potência e compromisso - 06/04/2009 Page 2 of 2
participaram das três conferências, novos valores e práticas
se firmam no horizonte: respeito ao meio ambiente,
processos mais democráticos, horizontais, multiculturais,
diversificados. Um exemplo são os documentos que
encerram as conferências. Em lugar de lista de
reivindicações, entregam ao presidente da República, a
ministros e a outras autoridades a \"Carta de Compromissos\",
que diz o que os próprios jovens pretendem fazer. Desde
medidas práticas, como limpar rios, até ações de
conscientização e organização.
Eles não têm poder, mas têm a potência dos sonhos e
compromisso com causas. Ensinam a quem, mesmo tendo
poder e ferramentas, faz muito pouco. Na terça-feira, estarão
em Brasília para a Caminhada Vamos Cuidar do Brasil.
Espera-se que os adultos tenham sensibilidade e humildade
para ouvir e aprender.
contatomarinasilva@uol.com.br
MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.
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Woodstock
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Folha de S.Paulo - Música vira receita médica contra doenças - 06/04/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, segunda-feira, 06 de abril de 2009
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Música vira receita médica contra
doenças
Por MATTHEW GUREWITSCH
O fato de que a música nos toca no próprio cerne de nosso
ser é uma descoberta tão antiga quanto a consciência
humana. Mas será que a música pode ser considerada
medicamento?
Uma especialista que aposta nisso é Vera Brandes, diretora
do programa de pesquisas com música e medicina da
Universidade Médica Privada Paracelsus, em Salzburgo,
Áustria.
“Sou a primeira farmacologista musical”, disse Brandes no
ano passado em Viena. Como tal, ela vem desenvolvendo
medicamentos na forma de música, prescritos como receita
médica. Para promover a linha de produtos, ela ajudou a
fundar a Sanoson (http://www.sanoson.at/), empresa que
também cria sistemas de música sob medida para hospitais e
clínicas.
“Estamos preparando o lançamento de nossas terapias na
Alemanha e na Áustria no final de 2009 e prevemos o
lançamento nos EUA em 2010”, disse.
O tratamento funciona assim: uma vez dado o diagnóstico
médico, o paciente é enviado para casa com um protocolo
musical para ouvir e músicas carregadas num tocador
semelhante ao iPod. O timing é essencial. “Se você ouvir
música para acalmar quando estiver num ponto ascendente
de seu ciclo circadiano, isso não o acalmará”, explicou
Brandes. “Pode até deixá-lo irritado.”
Brandes e seus colaboradores analisam músicas de todo tipo
para retirar seus “ingredientes ativos”, que então são
misturados e balanceados para formar compostos medicinais.
Embora eles não procurem tratar patologias graves ou
doenças infecciosas, afirmam que seus métodos têm
aplicações amplas em desordens psicossomáticas,
administração de dor e o que Brandes descreve como
“doenças da civilização”: ansiedade, depressão, insônia e
determinados tipos de arritmia. A farmacopeia contém até
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Folha de S.Paulo - Música vira receita médica contra doenças - 06/04/2009 Page 2 of 3
agora cerca de 55 faixas de música medicinal, e novas faixas
estão sendo planejadas.
Num estudo piloto, que em 2008 foi citado na reunião
científica anual da Sociedade Psicossomática Americana,
Brandes e seus colaboradores estudaram os efeitos da música
sobre pacientes com hipertensão sem causas orgânicas. “O
tratamento convencional para pacientes hipertensos é com
betabloqueadores, que suprimem seus sintomas”, disse
Brandes. “A música pode tratar as causas psicossomáticas
originais.”
Segundo seu estudo, depois de ouvir um programa musical
criado especialmente para o paciente, por 30 minutos por
dia, cinco dias por semana, durante quatro semanas, os
pacientes apresentaram melhoras significativas na variação
do ritmo cardíaco, um indicador importante da função
nervosa autônoma.
Brandes, 52, já foi produtora de eventos e gravações
musicais e tem um vasto currículo na área. Mas um acidente
de carro quase fatal em 1995 a levou a pensar numa
mudança de carreira.
“Quebrei as vértebras 11 e 12, passando a um milímetro da
medula espinhal”, ela contou. “O médico disse: ‘Não vou
poder fazer nada por você durante algum tempo, mas você
pode cantar, se quiser’.” A equipe médica previa que
Brandes teria que ficar imobilizada entre 10 e 14 semanas.
Ela estava dividindo o quarto do hospital com uma budista,
cujos amigos vinham diariamente entoar cânticos para ela.
Após apenas 15 dias no hospital, uma ressonância magnética
mostrou que sua espinha estava curada. “Todo o mundo
disse que era um milagre”, contou Brandes. “Os médicos me
mandaram para casa. Aquilo me fez refletir.”
Brandes, que não tem diploma de estudos avançados em
medicina ou ciência, sabia que suas teorias jamais ganhariam
aceitação se não passassem por testes clínicos. “Desde o
início, eu estava determinada a satisfazer os mais exigentes
critérios científicos ocidentais”, disse.
Além dos esforços de Brandes, a Sourcetone Interactive
Radio, que se descreve como “o maior serviço mundial de
saúde com música”, emprega pesquisas feitas conjuntamente
pelo Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, e a
Escola de Medicina Harvard, onde o neurologista Gottfried
Schlaug estuda os efeitos da atividade musical sobre a
função e a plasticidade cerebrais. “Acho que é importante
participar, fazendo música, não apenas ouvir”, disse Schlaug.
Stefan Koelsch, pesquisador-sênior sobre o
neurorreconhecimento da música e da linguagem na
Universidade de Sussex, em Brighton, Reino Unido,
concorda e está trabalhando com tratamentos musicais
participativos para a depressão. No longo prazo, ele enxerga
possibilidades mais amplas.
“Fisiologicamente falando, é perfeitamente plausível que a
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Folha de S.Paulo - Música vira receita médica contra doenças - 06/04/2009 Page 3 of 3
música afete não apenas as condições psiquiátricas, mas
também as desordens endócrinas, autoimunes e do sistema
autônomo”, disse ele.
Vera Brandes também está pensando no futuro. “Digamos
que um paciente chegue sofrendo de depressão”, disse ela.
“O primeiro passo sempre é procurar um médico. Mas, a
partir disso, haverá opções de tratamento: com psicólogo,
antidepressivo ou música.”
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Para exportar, Hollywood refaz filmes
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provoca debate
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Folha de S.Paulo - MG muda currículo do ensino médio e provoca polêmica - 08/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, quarta-feira, 08 de abril de 2009
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MG muda currículo do ensino médio
e provoca polêmica
Alunos do 2º ano têm de escolher se focam esforço em
humanas, exatas ou biológicas
Desde o início do ano, quem escolher por humanas, por
exemplo, não tem mais aulas de biologia, química e física
até o fim do 3º ano
BRENO COSTA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE
Alunos do 2º ano do ensino médio de Minas têm agora de
optar por uma área específica (humanas, exatas ou
biológicas) para seguir até o fim do antigo colegial. A
medida do governo Aécio Neves (PSDB) está em vigor
desde o início do ano. Há 200 mil matriculados nessa série
em toda a rede estadual.
O número de aulas continua o mesmo. O que muda é que, se
o aluno escolhe humanas, passa a não ter mais aulas de
biologia, química e física nos dois últimos anos do ensino
médio.
Já o que opta por exatas e biológicas deixa de ter aulas de
história, geografia e língua estrangeira. A maioria dos
vestibulares exige todo o conteúdo.
A escolha vale para quem obtiver rendimento de 70% em
todas as disciplinas obrigatórias do 1º ano do ensino médio.
A direção da escola definirá a área para quem entrar no 2º
ano após passar por recuperação em alguma disciplina.
As normas constam de uma resolução da Secretaria da
Educação, publicada em dezembro.
\"Em vez de aprender um pouco de muito conteúdo, o aluno
vai aprender mais aprofundadamente com menos disciplinas.
Com muita disciplina, perde-se o foco. Achamos que isso é
mais útil para o aluno\", afirma o secretário-adjunto da
Educação, João Filocre.
O Ministério da Educação diz que o Estado tem autonomia
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Folha de S.Paulo - MG muda currículo do ensino médio e provoca polêmica - 08/04/2009 Page 2 of 2
para criar sua norma desde que não se choque com a Lei de
Diretrizes e Bases, que dita as regras gerais da educação no
país.
A lei federal diz que são disciplinas obrigatórias língua
portuguesa, matemática, educação física, filosofia e
sociologia.
Alunos ouvidos pela Folha afirmam que a ausência de
disciplinas básicas poderá atrapalhá-los na hora do
vestibular.
Os alunos de Minas têm a chance cursar as disciplinas que
não constam da grade obrigatória da sua área de ênfase.
Para isso, precisam estudá-las em turno extra. O aluno
matriculado na manhã pode cursar a aula que não faz parte
do currículo à tarde ou à noite, desde que haja ao menos 20
alunos interessados. A direção da escola, então, comunica o
desejo das aulas extras à secretaria, que abre a turma.
Uma outra possibilidade, que também depende da decisão de
cada uma das 1.800 escolas estaduais de ensino médio de
Minas, é que oito aulas de 50 minutos sejam distribuídas
livremente, desde que respeitado o teto de dez disciplinas no
2º ano e de nove no 3º ano.
Isso foi feito na escola Governador Milton Campos, em Belo
Horizonte, que tem mais de 3.700 alunos no ensino médio.
Segundo a diretora, Maria José Duarte, como há seis
disciplinas obrigatórias para cada área de ênfase, além de
sociologia e filosofia, exigidas por lei federal, restaram só
duas para serem incluídas no 2º ano.
Uma votação com os alunos foi feita. Na área de humanas,
física ficou em terceiro lugar e, portanto, fora do currículo.
Uma aula de biologia e uma de química foram incluídas. Na
área de exatas e biológicas, língua estrangeira foi sacrificada.
Em um colégio menor, em São João del Rei, no interior de
Minas, a diretora decidiu colocar todos numa só área: exatas.
Texto Anterior: Edmundo Alves da Costa (1948-2009): O
triatleta não conseguiu dar o sprint final
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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Pena alternativa - 18/03/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, quarta-feira, 18 de março de 2009
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GILBERTO DIMENSTEIN
Pena alternativa
A rua de sua casa já tinha ensinado
a Alexandre que, na periferia,
muitas vezes a realidade supera a
ficção
HAVIA CINCO PONTOS de droga na rua em que
Alexandre De Maio morava na periferia de São Paulo, onde
frequentemente ocorriam tiroteios. Numa das brigas entre
quadrilhas, um bala perdida atingiu uma menina. A cena do
sangue escorrendo pelo chão teve um impacto estético em
Alexandre, que, até então, só fazia histórias em quadrinhos
inspiradas nos super-heróis americanos. \"Logo depois que o
corpo foi retirado, me tranquei no carro para desenhar aquela
história.\"
Desenhava-se, naquele dia, um encontro que faria com que a
mistura de periferia e arte moldasse a vida de Alexandre -os
quadrinhos chamaram a atenção de Mano Brown, líder do
Racionais MC's, que estimulou a sua publicação.
Desde que era menino, a habilidade artística tinha salvado
Alexandre do tiroteio escolar. Diante da dificuldade em
matérias como matemática, ele argumentava com os
professores que seu futuro estava em desenho, e não seria
justo repeti-lo por causa dos números. Em contrapartida,
fazia uma série de projetos de artes gráficas para a escola,
como uma espécie de pena alternativa. Numa prova de
matemática, a professora viu que ele estava apenas
desenhando um casal se beijando. Ela pediu o desenho de
presente para presentear o namorado -mais uma pena
alternativa.
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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Pena alternativa - 18/03/2009 Page 2 of 2
Seus colegas gostavam daquelas histórias em quadrinhos,
afinal eram retratados como super-heróis, com
extraordinários poderes; as meninas ficavam deslumbrantes
nas sensuais roupas do tipo Mulher Maravilha.
Até que veio a imagem da menina morta com a bala perdida
em sua rua. \"Vi como era bobo eu ficar me inspirando com
os super-heróis.\"
A fonte de inspiração estava bem à frente, a começar da
briga de gangues de sua rua. Nasciam assim seus quadrinhos
e a descoberta do rap, dos Racionais. Decidiu, então, ilustrar
as letras do grupo. Mano Brown mostrou as tiras para o
escritor Ferréz, que, em parceria com Alexandre, escreveu
\"Os inimigos não mandam flores\".
Em meio a seus quadrinhos, Alexandre começou a fazer
publicações para relatar o movimento cultural da periferia,
quase nunca coberto pelos meios de comunicação. Foi um
dos primeiros a falar da onda de saraus poéticos que
surgiram num bar (Zé do Batidão) da zona sul.
Seu projeto mais ambicioso é fazer uma revista periódica
apenas com quadrinhos sobre a periferia -a primeira história
já está pronta, feita em parceria com Ferréz. A rua de sua
casa da adolescência já tinha ensinado a Alexandre que, na
periferia, muitas vezes a realidade supera a ficção.
PS - Coloquei em meu site
(http://www.dimenstein.com.br/) uma coleção dos
desenhos do Alexandre -entende-se como ele conseguiu
passar em matemática.
gdimen@uol.com.br
Texto Anterior: Outro lado: Prefeitura nega priorizar
propaganda e diz que obras antienchentes são mais lentas
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Folha de S.Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATES<br>Gesner Oliveira: Água: escassez e uso... Page 1 of 3
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São Paulo, terça-feira, 31 de março de 2009
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Água: escassez e uso sustentável na
crise
GESNER OLIVEIRA
Impõe-se, sobretudo aos grandes
setores usuários da água, uma
reflexão sobre o modo como tem
sido utilizado esse recurso finito
A CRISE econômica mundial, além de trazer os já
conhecidos efeitos na esfera produtiva -redução de
investimentos, desemprego, perda de ativos, entre outros-,
repercute sobre a questão da água.
Recentemente, em Washington, durante a Water Week 2009
-evento organizado anualmente pelo Banco Mundial que
reúne representantes de governos, empresas de saneamento e
ONGs-, evidenciou-se que a atual crise veio se somar às
preocupações habituais em relação à conservação da água e
ao acesso ao saneamento.
Além dos desafios associados à degradação ambiental, ao
desperdício, às mudanças climáticas, aos usos não
sustentáveis em processos produtivos, ao crescimento
populacional e à miséria, teme-se que a crise traga impactos
negativos devido à tendência de redução dos investimentos
em serviços de infraestrutura, como energia, saneamento,
transporte e irrigação. Tais impactos são danosos porque
investimentos em infraestrutura são propulsores do
crescimento econômico e da redução da pobreza.
A crise constitui, assim, ameaça à continuidade das ações
necessárias para atingir as metas estabelecidas para o
desenvolvimento do milênio.
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Folha de S.Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATES<br>Gesner Oliveira: Água: escassez e uso... Page 2 of 3
Garantir a sustentabilidade ambiental é uma das metas
aprovadas em 2000 no âmbito da ONU e que compreendem
oito macro-objetivos a serem alcançados até 2015. No campo
dos recursos hídricos, o cumprimento das metas requer
implantação de instrumentos que visem à gestão integrada,
bem como o desenvolvimento de mecanismos para sua
conservação e seu uso sustentável.
A preocupação com a universalização do acesso à água, sua
conservação para fins múltiplos e a resolução de conflitos de
uso tornam o tema prioritário na agenda internacional.
Impõe-se, especialmente aos grandes setores usuários da
água, uma revisão de procedimentos e reflexão sobre o modo
como tem sido utilizado esse recurso finito e vulnerável.
Embora o Brasil possua expressivo potencial hídrico -12%
da disponibilidade mundial-, há bacias hidrográficas
localizadas em áreas que apresentam combinação de baixa
disponibilidade e grande utilização, como é o caso da bacia
hidrográfica do Alto Tietê, onde está a região metropolitana
de São Paulo.
Nesse contexto, é mais urgente acelerar investimentos em
programas de coleta e tratamento de esgoto e em ações de
redução de perdas de água. É o que a Sabesp tem feito nos
365 municípios onde opera, seguindo orientação do governo
José Serra.
O percentual de tratamento de esgoto subiu de 63% em 2006
para 72% em 2008, permitindo incorporar 1,3 milhão de
pessoas, equivalente à população de Guarulhos. A perda de
água caiu de 32% do faturamento em 2006 para 28% no ano
passado, contra média nacional de 40%. Tal declínio
propiciou economia suficiente para abastecer uma cidade de
600 mil habitantes, como São José dos Campos. A meta é
atingir 13% em 2019, que corresponde ao padrão de
eficiência dos países desenvolvidos.
Tão importante quanto o investimento em saneamento é
mobilizar a sociedade para usar a água sem desperdício e
despejar corretamente o esgoto doméstico nas redes
coletoras.
É inócuo investir em coleta e tratamento de esgotos se a
população não faz a ligação correta do imóvel às redes. E as
prefeituras devem ficar atentas e fiscalizar.
O compromisso com o meio ambiente é hoje pré-requisito
para a obtenção de financiamentos e de parcerias no Brasil e
no exterior, sem as quais não será possível viabilizar projetos
essenciais na área.
Em contraste com a maioria das empresas na atual
conjuntura, a Sabesp manteve de forma segura seu plano de
investimentos, que somarão R$ 6 bilhões entre 2007 e 2010.
A política de austeridade da Sabesp tem sido crucial para
manter o acesso a linhas de financiamento de longo prazo
com taxas de juros mais baixas e prazos adequados. Assim,
tem sido possível o apoio do Banco Mundial, do BID, da Jica
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Folha de S.Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATES<br>Gesner Oliveira: Água: escassez e uso... Page 3 of 3
(Japan International Cooperation Agency), entre outras
instituições.
Nos momentos de expansão, é preciso atenção para garantir a
conservação e o uso sustentável da água. Nos momentos de
crise, tal preocupação deve ser redobrada para não
descontinuar a formação da infraestrutura básica. A
manutenção dos programas de investimento no saneamento
torna-se particularmente importante.
Daí a determinação da Sabesp de manter seu plano de
investimento e perseguir a universalização dos serviços de
saneamento.
GESNER OLIVEIRA , 52, doutor em economia pela Universidade da
Califórnia (Berkeley), professor da FGV-EAESP, é presidente da Sabesp
(Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Foi
presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e
colunista da Folha .
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos
problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
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perfeito
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Folha de S.Paulo - Emílio Odebrecht: O compromisso de cada um - 26/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, domingo, 26 de abril de 2009
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EMÍLIO ODEBRECHT
O compromisso de cada um
NO PASSADO, era normal que trabalhadores e executivos
deixassem às empresas o planejamento e a gestão de suas
carreiras. Trabalhavam muito, atualizavam-se pouco e quase
não pensavam em mudanças. Alguns ficavam décadas na
mesma função.
Raros eram os que adquiriam novas competências, ainda
mais por conta própria. No máximo, reciclavam as antigas.
A realidade mudou. Autodesenvolvimento passou a ser a
chave do êxito para os profissionais no mundo de hoje,
porque o propósito do aprimoramento constante deve ser
uma responsabilidade do indivíduo para consigo, não da
empresa para com ele.
O mundo do trabalho agora exige de quem nele se insere que
tome as rédeas de seu próprio destino.
Quem investe em si mesmo demonstra estar comprometido
com sua realização profissional -pela busca do domínio
pleno naquilo em que se especializou-, com sua realização
econômica -pelo compartilhamento dos resultados que ajuda
a empresa a gerar- e com sua realização emocional, como
um corolário do que almeja conquistar na vida.
Mas, para isso, é indispensável que principalmente o
trabalhador jovem se imponha o desafio de aprender a
aprender, o que significa ter a capacidade de interpretar a
realidade a partir das referências a seu alcance, formular
novos conceitos e levá-los à prática.
Uma condição para o aprimoramento das pessoas é esta
aptidão, que chamo de pensar conceitualmente. Outra
condição é a capacidade de autoavaliar-se e identificar com
espírito crítico carências e motivações.
Ocorre que, se a prática da autoeducação é o fermento que
promove a ascensão do indivíduo, nem sempre isso é uma
tarefa fácil.
Em algumas circunstâncias, os resultados somente serão
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Folha de S.Paulo - Emílio Odebrecht: O compromisso de cada um - 26/04/2009 Page 2 of 2
alcançados se a predisposição de quem deseja aprender
encontrar respaldo em um líder-educador que, ao perceber o
potencial e o desejo de crescimento do liderado, tem a
coragem de lhe atribuir responsabilidades que se mostram
acima das qualificações que demonstra no momento. O
efeito imediato desse gesto é a busca do conhecimento e das
competências exigidas para a superação dos novos desafio.
Meu pai, Norberto Odebrecht, até hoje lembra com gratidão
de um pastor luterano, de nome Arnold, que lhe ensinou a ler
e, sobretudo, a entender o mundo. Era um preceptor.
No âmbito das organizações empresariais, o líder-educador
exerce esse papel. A partir de sua autoeducação, pratica a
pedagogia da presença, oferecendo tempo, presença,
experiência e exemplos àqueles que têm no
autodesenvolvimento um compromisso com o próprio
futuro.
EMÍLIO ODEBRECHT escreve aos domingos nesta coluna.
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toga em questão
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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Com o nosso chapéu - 27/04/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, segunda-feira, 27 de abril de 2009
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MARINA SILVA
Com o nosso chapéu
NA SEMANA que passou, a Folha trouxe excelente
reportagem (22/4, Dinheiro) de Marta Salomon mostrando,
com base em estudo da organização não governamental
Amigos da Terra (\"A Hora da Conta: Pecuária, Amazônia e
Conjuntura\"), o avanço da pecuária na Amazônia e,
especialmente, a migração para lá de grandes frigoríficos,
com recursos do BNDES.
Nada contra a pujança do setor. Tudo contra a maneira
anárquica e predatória como se instala na Amazônia,
alavancada por dinheiro público e sem condicionantes
sociais e ambientais. Até com certa afronta, o presidente da
associação que representa os grandes frigoríficos fecha
questão: \"Não dá para ter condicionantes. Acabar com o
abate de gado de origem ilegal é desejável, mas
impraticável\".
E como fica o governo e suas normas de proteção ambiental
(decreto presidencial do final de 2007) que determinam a
criminalização de toda a cadeia produtiva originada de
práticas ilegais?
Para conceder Bolsa Família, acertadamente são exigidas
várias contrapartidas dos beneficiários.
Por que não se faz o mesmo com outros setores, aos quais
nada se pede em troca?
O uso de ferramentas econômicas para redirecionar ou criar
novos processos em benefício de toda a sociedade é dever do
Estado, e sem isso ficaríamos sempre presos à teia dos
interesses imediatistas e de seu pragmatismo. Mas falta ao
Estado brasileiro inteligência estratégica para extrair dos
empreendimentos um plus na forma de nova qualidade na
produção, de compromissos para além da realização dos
objetivos de negócio. O BNDES, no fundo, usa recursos da
sociedade contra ela mesma. Se abre o cofre sem qualificar
social e ambientalmente o resultado que espera do
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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Com o nosso chapéu - 27/04/2009 Page 2 of 2
investimento, em lugar de contribuir para o cumprimento das
leis, financia o desprezo por elas até o ponto de os
beneficiários declararem em alto e bom som que não vão
cumpri-las. E ponto final.
Nunca houve discussão séria sobre as dimensões que cercam
o apoio ao setor agropecuário. A agenda tradicional fala só
de anistia, perdão de dívida, créditos subsidiados. Com a
conivência dos governos, que não as exigem, não se fala de
contrapartidas na forma de colaboração para proteger rios e
florestas, potencializar o uso correto da biodiversidade e
outros itens de interesse coletivo.
O irônico é que os cuidados ambientais revertem em
benefício da própria produção, no longo prazo. Que parte do
agronegócio se recuse a pensar nesses termos é lastimável,
mas compreensível. O que não dá para entender -nem
aceitar- é que as instituições públicas operem na mesma
lógica.
contatomarinasilva@uol.com.br
MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.
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Folha de S.Paulo - Ponto de Fuga: Inteligência e afeto - 26/04/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, domingo, 26 de abril de 2009
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Ponto de Fuga
Inteligência e afeto
Tzvetan Todorov é um pensador e
teórico de primeira importância;
interroga-se, em seu livro alarmado,
sobre o que teria posto a literatura
em perigo pela teoria
JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA
Tomemos como exemplo os alunos dos cursos de letras das
universidades brasileiras: boa parte, com idades que variam
em torno dos 20 anos, pouco ou quase nada leu de nossos
romancistas ou poetas. Quase nenhum deles ouviu falar de
Baudelaire, Edgar Allan Poe, Goethe, Fernando Pessoa, e
raríssimos os leram. (...) O fato é que, até este momento, com
raras exceções, a literatura -pelo menos de maneira direta,
isto é, mediante a leitura de romances, contos, poemas etc.-
não participou de sua formação intelectual e afetiva\"...
Quem escreve isso é Caio Meira, na introdução para \"A
Literatura em Perigo\", livro de Tzvetan Todorov, que ele
traduziu com elegância para a Difel (2009).
Caio Meira atua não num departamento \"de letras\", como diz
seu texto, mas num dos departamentos \"de teoria literária\"
que se multiplicaram pelo Brasil afora. Há algumas décadas,
envergonhados de não parecerem suficientemente rigorosos
ou científicos, eles abandonaram as belas denominações
humanistas (de letras, de estudos literários ou de literatura)
para proclamar a indiscutível tirania teórica.
Nas universidades, com, felizmente, boas exceções, muitos
alunos não são levados a ampliar e assentar uma cultura
nascida pelo afeto. Leem, de maneira instrumental, sob
encomenda, o romance ou o poema ao qual se refere o
grande nome das teorias que estudam no momento. Chegam
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Folha de S.Paulo - Ponto de Fuga: Inteligência e afeto - 26/04/2009 Page 2 of 3
a Proust, a Dickens ou a Leopardi não pelo interesse ou pela
paixão que esses autores deveriam despertar, impondo a
urgência da leitura, mas por desencarnada necessidade
técnica ou profissional.
Mapa
Todorov é um pensador e teórico de primeira importância.
Interroga-se, em seu livro alarmado, quase manifesto, sobre
o que teria posto a literatura em perigo pela teoria e levado
\"o ponteiro da balança a não se deter num ponto de
equilíbrio\".
Esmiúça várias causas. Afirma, porém, graças ao tom
pessoal e biográfico com que o livro começa, a necessidade
de um percurso íntimo com a ficção e a poesia.
Qualquer teoria pode servir como atalho, economizando a
frequentação de romances e poemas. Mas apenas essa
frequentação conduz ao saber mais profundo, em grande
parte intuitivo e silencioso.
É fácil identificar a esterilidade: está ali onde o prazer da
leitura foi substituído pela engenhosidade analítica. Quando
o pensamento astucioso eliminou os procedimentos
sedimentares que só a assimilação das obras lidas pode
provocar.
Trono
\"Estaria eu sugerindo que o ensino da disciplina [teórica]
deve se apagar inteiramente em prol do ensino das obras?\",
escreve Todorov.
As diversas teorias literárias são fecundas. Para tanto, porém,
devem limitar-se ao papel de um instrumento, possível e
parcial, como servas humildes, e não tiranas triunfantes.
Antes delas vem a leitura vivida e humanista.
\"Em nenhum caso o estudo desses meios de acesso pode
substituir o sentido da obra, que é o seu fim\", diz Todorov.
Caso contrário, desaparece a cultura individual, e tais meios
tornam-se a melhor alavanca para a ignorância.
Identidades
Entre os livros de Todorov está, fascinante, \"A Conquista da
América - A Questão do Outro\" (Martins Fontes, 1983). Ao
ler as narrativas deixadas no século 16 sobre a América
espanhola, mostra, junto ao tremendo genocídio cometido
pelos europeus, modos, tantas vezes assustadores e sempre
complexos, de delinear o perfil de si mesmo e do outro.
jorgecoli@uol.com.br
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Folha de S.Paulo - Ponto de Fuga: Inteligência e afeto - 26/04/2009 Page 3 of 3
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Folha de S.Paulo - Jorge da Cunha Lima: A substituição dos desejos<br> - 12/02/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
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TENDÊNCIAS/DEBATES
A substituição dos desejos
JORGE DA CUNHA LIMA
Não é a economia que precisa
mudar. O que precisa mudar é o
comportamento da sociedade, dos
políticos e da mídia
FELIZMENTE não sou economista, sou apenas poeta,
jornalista, bacharel em direito com uma pós-graduação,
ministrada na FGV há muitos anos por um administrador que
lecionava em Israel.
Nessa condição posso afirmar, impunemente, que a
economia de mercado foi tão malconduzida nos últimos 30
anos quanto a tentativa de salvá-la neste infeliz alvorecer de
2009. Responsáveis diretos por esta nação e só indiretamente
pelo mundo, devemos avaliar e criar as saídas para a crise
brasileira, ainda que no contexto do mundo. Para isso, temos
que qualificar os dizeres da bandeira: civilização em vez de
progresso, organização democrática em vez de ordem unida.
Os desejos induzidos pela economia de mercado depois da
queda cruenta do nazismo tornaram-se avassaladores depois
da queda fria do comunismo. Os ingênuos que desejavam um
Mustang, nos anos 50, e as mulheres que pretendiam vestir-
se como a Jacqueline Kennedy, nos 60, hoje, mesmo se
simples pescadores das margens poluídas do São Francisco,
se encantam com uma Ferrari, e as mulheres desejam o anel
de R$ 30 mil que Patrícia Pillar usava na novela.
A economia capitalista tornou-se modelo único e
indiscutível, exatamente porque o desejo de consumo,
consumindo as mentes, aperfeiçoava e estimulava a oferta,
até os esgares.
mhtml:file://C:\\Documents and Settings\\Administrador\\desktop\\PENDENTES\\Folha de S_... 1/5/2009
Folha de S.Paulo - Jorge da Cunha Lima: A substituição dos desejos<br> - 12/02/2009 Page 2 of 3
O segredo era simples: crédito farto a serviço do desejo.
Desejo do supérfluo, que o pessoal do Iseb já chamava nos
anos 60 de consumo conspícuo, definição difícil de entender.
Assim, a sociedade produtiva produzia o necessário e o
supérfluo, enquanto o Estado, empobrecido, não produzia
nem oferecia o essencial.
Como a gula fosse maior que a fatia, o crédito revestiu-se de
artifícios embutidos e juros explícitos, quase imorais.
Quando se começou a oferecer carros para pagamento em 90
meses, todos sabíamos que, na metade do prazo, o carro já
não valeria nada, e o proprietário continuaria pagando (?)
com o salário do emprego presumido. Nos Estados Unidos o
mesmo empréstimo, sem muita garantia de ressarcimento,
financiava casa, carro, barco e tudo o que o sonho desejasse.
Deu no que deu. Mas o mercado não é bom nem mau. É
mercado.
A regulação do desejo é um problema da sociedade. E
sociedade não é mercado. Sociedade é uma montagem
política da cidadania. A sociedade deve definir e qualificar
os desejos para que o mandato político dos legisladores, do
presidente da República e do Banco Central não seja
exercido em nome dos \"fundamentals\" da globalização, mas
dos fundamentos da vida.
Assim, a superação da crise deve levar em conta os desejos
fundamentais dos homens, e não a estrutura de um sistema
que não deu certo, pois, se recuperado, irá produzir os
mesmos efeitos destruidores.
Esses desejos são simples. Uma família precisa de casa para
morar, comida no armário e na geladeira, saúde desde o
recém-nascido até o vovô aposentado, matricular os filhos
numa escola boa e ter dinheiro para pagar o material escolar;
precisa um pouco de lazer, dentro e fora de casa, transporte
que garanta a mobilidade, a possibilidade de vez ou outra ir à
praia, tomar um banho de mar e, ainda, precisa muito da
convivência humana no espaço privado e público, em
segurança, A sociedade quer mais festa no espaço público. A
estética do pobre está, sobretudo, na beleza das cidades. A
satisfação econômica desses desejos produzirá os patamares
desejados de desenvolvimento.
Não é a economia que precisa mudar, porque a economia é
uma ciência, não é um dogma, nem é o mercado, esse animal
com energia própria. O que precisa mudar é o
comportamento da sociedade. O comportamento dos
políticos e também da mídia, a propor novos desejos,
compatíveis com a natureza humana, e não com os humores
destrutivos da moda.
A exuberância do progresso moderno se baseou na
proposição de desejos inatingíveis. Para saciar o desejo de
um tênis Nike, o menor aponta um revólver para a cabeça de
outro menor com tênis. Para comprar uma bolsa Vuitton,
muitas belas jovens já se prostituíram. Para consumir crack,
mhtml:file://C:\\Documents and Settings\\Administrador\\desktop\\PENDENTES\\Folha de S_... 1/5/2009
Folha de S.Paulo - Jorge da Cunha Lima: A substituição dos desejos<br> - 12/02/2009 Page 3 of 3
se mata, se rapta, se dança um tango argentino. Para comprar
um carro, 90 meses de um salário suado são empenhados no
colóquio sedutor de um gerente. Enfim, vende-se no varejo a
alma ao diabo.
Mesmo sendo poeta, acho que sair da crise é promover uma
organização racional dos desejos em busca da civilização.
Não podemos nos contentar com desejos alucinatórios de um
mercado robotizado. Essa cocaína financeira de Wall Street
acabou, na prática e no modelo.
JORGE DA CUNHA LIMA , 77, jornalista e escritor, é presidente do
Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e vice-presidente do Itaú
Cultural.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos
problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
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Vale mais que um trocado Page 1 of 4
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Edição 221 | 04/2009
Vale mais que um trocado
Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos
motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi
Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br)
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Vale mais que um trocado Page 2 of 4
CAMINHO LIVRE A cada livro oferecido em
vez
de esmola, um leitor descoberto.
Foto: Rogério Albuquerque. Clique para
ampliar
\"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?\" Repeti essa oferta a pedintes, artistas
circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São
Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de
dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil
divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona
de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.
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Roger Chartier: o especialista em história da leitura
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Aprendendo a ler textos jornalísticos
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Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação
escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua
e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é
exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No
primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que
comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais
grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - \"Esse do castelo, que deve ser de mistério\" - para presentear a mulher
que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do
contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de
São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da
avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás
Cubas, de Machado de Assis.
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Vale mais que um trocado Page 3 of 4
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São
Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9
anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma
menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à
corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.
Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a
reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após
esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam
páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de
raquetes que dão choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e
cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois
quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu
semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.
* os nomes foram trocados para preservar os personagens.
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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 1 of 3
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São Paulo, sexta-feira, 03 de abril de 2009
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TENDÊNCIAS/DEBATES
O debate sobre as mudanças
climáticas
MYANNA LAHSEN
É fácil criar confusão sobre a
ciência do clima. E as
consequências dessa confusão
podem ser enormes e catastróficas
É FÁCIL criar confusão sobre a ciência do clima. E as
consequências dessa confusão podem ser enormes e
catastróficas. O exemplo são os EUA, onde, desde os anos
90, uma dezena de cientistas contrários (em inglês,
\"contrarians\") têm dado uma força fundamental a um
movimento conservador e antirregulatório, contestando a
ciência e as preocupações relativas às mudanças climáticas
provocadas pelos seres humanos. Financiado e organizado
por uma elite financeira sem paralelo do outro lado, o
movimento tem tido impacto importante na opinião pública
americana. Consequentemente, esta é muito mais cética no
assunto e menos inclinada a apoiar políticas públicas na área
se comparada, por exemplo, com populações da Europa.
No Brasil, não temos visto -até agora- um movimento
organizado questionando a ciência do clima, pois não há
fortes interesses materiais nisso. Mas essa situação pode
mudar com o aumento das pressões para que o Brasil cumpra
metas obrigatórias de redução das suas emissões, sobretudo
as ligadas ao desmatamento.
Por todas essas razões, é importante responder quando
jornais brasileiros de alta influência publicam artigos
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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 2 of 3
questionando as conclusões do IPCC (Painel
Intergovernamental sobre Mudança Climática, na siga em
inglês), das Nações Unidas, e mais ainda quando invocam a
autoridade dos cientistas contrários americanos, como fez
José Carlos de Azevedo nos textos publicados por esta Folha
em 13/10/08 e 25/2/09.
Azevedo se apoia num relatório do NIPCC -organização
criada para contestar as conclusões do IPCC- e o apresenta,
ao lado dos cientistas contrários Fred Singer e Frederick
Seitz, como fonte mais confiável de conhecimento científico
do que o IPCC. Algum debate deve existir e é saudável, pois
as mudanças climáticas globais são uma ameaça complexa e
há incertezas. O que é perigoso e errado é sugerir que os
cientistas céticos e o relatório do NIPCC são fontes mais
confiáveis para o conhecimento científico do que o IPCC.
Por cima, Azevedo baseia seus argumentos contra o IPCC e
as evidências científicas das mudanças climáticas num
entendimento errado do que é o IPCC -que não é uma
instituição de pesquisa, ao contrário do que ele diz. O IPCC
não faz previsões de tempo nem do clima. Ele avalia ciência
já produzida. Há tantos erros nos artigos que o espaço não
permite a correção de todos. O importante é que os leitores
brasileiros saibam identificar as fraquezas dos argumentos de
Azevedo e os perigos que esse tipo de discurso representa, à
medida que consegue colocar em dúvida a necessidade de
agir para diminuir o risco e os impactos das mudanças
ambientais globais.
Azevedo escreve que o relatório do NIPCC, contrariando o
IPCC, foi produzido por \"muitos\" cientistas \"renomados\".
Esse número, 23 cientistas, é muito pequeno se comparado
aos milhares de cientistas que participaram da produção dos
relatórios do IPCC, os quais sempre são submetidos a um
processo de revisão científica (\"peer review\") rigorosa e
extensa.
Além disso, cientistas do NIPCC, tais como Singer e Seitz
(que Azevedo cita como autoridades científicas), não são
cientistas ativos e reconhecidos na área do clima. Singer tem
publicado poucos artigos em revistas científicas na área do
clima, mas nada de impacto. Seitz nunca fez nem publicou
ciência sobre o clima e faleceu em março de 2008, aos 96
anos, décadas após sua aposentadoria.
Ambos se dedicaram à política muito tempo atrás, com
grupos conservadores ligados a elites financeiras e indústrias
interessadas. Seus discursos e associações demonstram
valores políticos e culturais fortemente antirregulatórios e
antipolíticas ambientais, colocando em dúvida as
autoidentificações com a objetividade. O mais problemático
é que eles têm participado integralmente de práticas
enganosas para simular autoridade científica não merecida,
amparados por interesses financeiros privados, como eu e
outros analistas temos estabelecido em revistas científicas
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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 3 of 3
internacionais.
Os argumentos de Azevedo são igualmente enganosos e
mistificadores. Como Seitz e Singer, Azevedo está
aposentado há muito tempo e não é, e nunca foi, pesquisador
ou \"expert\" na área de mudanças climáticas e mostra, como
eles, uma inclinação forte e ideológica contra o
ambientalismo. Claro que tem o direito de se expressar. É
preciso haver espaço para todos os pontos de vista.
Porém, para assegurar processos democráticos e desenvolver
políticas públicas cautelosas diante das ameaças ambientais,
é essencial que a sociedade em geral fortaleça sua
capacidade de identificar fontes científicas robustas,
fundadas não em ignorância ou em interesses financeiros
escondidos e de curto prazo, mas em processos rigorosos e
transparentes de controle e avaliação independente, como é o
caso do IPCC. Tais fontes também podem errar, mas são -de
longe- a melhor aposta.
MYANNA HVID LAHSEN, antropóloga, doutora pela Rice University
(EUA), é pesquisadora do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais) e do Centro para Pesquisa de Políticas de Ciência e
Tecnologia da Universidade do Colorado (EUA).
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos
problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
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Folha de S.Paulo - Benjamin Steinbruch: Por que não? - 10/02/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
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BENJAMIN STEINBRUCH
Por que não?
A mobilização para a guerra contra
a pobreza é tão possível quanto a de
1940 para a guerra contra o Eixo
MUITOS ANALISTAS têm recorrido às lições das décadas
de 30 e 40 do século passado, especialmente ao período de
mais de 12 anos em que Franklin Delano Roosevelt foi
presidente dos EUA, em busca de receitas para combater a
atual crise econômica.
Uma das obras indispensáveis para entender aquela época é o
livro \"Tempos Muito Estranhos\", de Doris Kearns Goodwin
(editora Nova Fronteira), que narra com riqueza de detalhes
o que se passou nos bastidores da Casa Branca durante a 2ª
Guerra Mundial.
Está claro que, mais do que o New Deal, foi a mobilização
coletiva para vencer a guerra contra o Eixo que levou os
EUA e o mundo a superarem a Grande Depressão
econômica. Entre 1940 e 1945, a indústria americana, sob a
forte demanda da guerra, revigorou-se e atingiu níveis de
produção impressionantes até para os dias de hoje.
Nesse período de seis anos, mediante injeções bilionárias de
recursos públicos, foram fabricados 340 mil aviões de
combate, 87 mil navios de guerra, 2 milhões de caminhões,
107 mil tanques, 20 milhões de fuzis e 44 bilhões de
projéteis de todos os tipos. O PIB americano saltou de US$
100 bilhões para US$ 215 bilhões.
Não é difícil imaginar o impacto dessa produção no nível de
emprego da época -17 milhões de vagas foram criadas. Pela
primeira vez, as mulheres foram chamadas ao mercado de
trabalho, uma tendência sem volta e de grande importância
na formação da sociedade familiar moderna, com as
mulheres em pé de igualdade com os homens. Ainda que
tenham ocorrido demissões em massa com o fim da guerra,
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Folha de S.Paulo - Benjamin Steinbruch: Por que não? - 10/02/2009 Page 2 of 3
principalmente de mulheres, milhões delas permaneceram
em seus postos e as admissões voltaram a crescer a partir de
1946, em razão da reconstrução do pós-guerra.
Hoje, apesar dos conflitos em várias partes do mundo,
felizmente não há demandas de equipamentos bélicos para
justificar investimentos como nos anos 40. Mas temos uma
demanda muito maior não atendida, de bilhões de pessoas
desprovidas, que justificaria uma mobilização de guerra
contra a pobreza mundial.
É irônico que a economia global caminhe para a recessão por
falta de demanda quando essa demanda existe, não só em
países subdesenvolvidos mas nas camadas muito pobres de
emergentes e até de nações ricas. Essas populações, que
certamente serão as mais prejudicadas pela atual crise,
precisam de tudo para viver com dignidade: comida, roupas,
moradias, medicamentos, estradas, transporte e toda a sorte
de bens de consumo essenciais.
Sem dúvida, parece utópica a ideia de eliminar a pobreza
mundial. Seguramente, porém, não se enquadra nessa
categoria a proposta de uma mobilização solidária de guerra
contra a pobreza. No momento em que os governos de países
ricos e emergentes injetam trilhões de dólares para reanimar
a economia, uma parte desses recursos poderia ser utilizada,
a fundo perdido, para produzir e financiar bens que possam
atender à demanda de 2,7 bilhões de pessoas que dispõem de
menos de US$ 2 por dia para satisfazer suas necessidades.
Com apenas mais US$ 1 por dia, seria criada uma demanda
anual de quase US$ 1 trilhão.
A mobilização para a guerra contra a pobreza é tão possível
quanto a de 1940 para a guerra contra o Eixo. Com uma
diferença fundamental: essa seria para salvar 20 milhões de
pessoas que morrem anualmente por razões relacionadas à
pobreza. Serviria também para incorporar bilhões de novos
consumidores ao mercado. O mundo poderia sair desta crise
menos desigual. Por que não?
BENJAMIN STEINBRUCH , 55, empresário, é diretor-presidente da
Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de
administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo).
bvictoria@psi.com.br
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bi
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dezembro
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Folha de S.Paulo - Contardo Calligaris: \"Milk\", o preço da liberdade - 26/02/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
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CONTARDO CALLIGARIS
\"Milk\", o preço da liberdade
Para continuarmos livres, é preciso
defender a liberdade do vizinho
como se fosse a nossa
ASSISTINDO a \"Milk - A Voz da Igualdade\", de Gus Van
Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk),
lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era
uma circular de http://www.boxturtlebulletin.com/ (um site
sobre os direitos das minorias sexuais), que \"comemorava\"
os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight
Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo
qual seriam despedidos todos os funcionários federais que
fossem culpados de \"perversão sexual\". Essa lei permaneceu
em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos
perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual.
Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi
esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais
pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador
McCarthy, a caça às bruxas \"comunistas\" se confundia com a
caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do
secretário nacional do Partido Republicano (citada na
circular) dizia: \"Talvez tão perigosos quanto os comunistas
propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram
nosso governo nos últimos anos\". Essa não era uma posição
extrema: na época, a revista \"Time\" defendeu o projeto de
despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o
governo federal.
É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se
tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para
um cargo público.
Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente,
levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus
semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos
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Folha de S.Paulo - Contardo Calligaris: \"Milk\", o preço da liberdade - 26/02/2009 Page 2 of 3
preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem
reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história
de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em
1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e
gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids
(ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme \"Anjos
na América\", de Tony Kushner).
Mas, depois de assistir a \"Milk\", estou a fim de festejar o
caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje,
um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu
graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que
não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem
coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível
proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso,
é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se
fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que
James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a
Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela
estava sendo processada por um assassinato que não
cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em
uma condenação \"exemplar\". Baldwin lembrava as
diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e
Davis, para concluir: \"Devemos lutar pela tua vida como se
fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos
corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles
te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma
noite\".
Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles
valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio
que grupos particulares (constituídos por raça, orientação
sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar
coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma
sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por
\"diferente\" que ele seja, é condição da liberdade de todos.
Por quê?
Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da
cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer,
então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até
permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu
direito. \"Milk\" é um filme sobre um momento crucial na
história das liberdades, mas não é um filme \"arqueológico\".
A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a
militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo
assim.
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma
importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho,
de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu
certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se
não de todos. Acho também que suas conquistas só se
mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu
o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia.
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Folha de S.Paulo - Contardo Calligaris: \"Milk\", o preço da liberdade - 26/02/2009 Page 3 of 3
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Folha de S.Paulo - Editoriais: Darwin, 200<br> - 10/02/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
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Editoriais
editoriais@uol.com.br
Darwin, 200
ENTRE OS pensadores mais influentes dos séculos 19 e 20,
só Charles Darwin sobreviveu incólume ao teste do tempo.
Os 200 anos de seu nascimento, comemorados nesta semana,
encontram sua reputação em excelente forma. Com efeito,
nunca foi tão válida a afirmação do grande evolucionista
Theodosius Dobzhansky (1900-1975): \"Nada em biologia
faz sentido a não ser sob a luz da evolução\".
A teoria darwiniana sofreu aperfeiçoamentos, mas seu cerne,
a seleção natural, permanece intacto. O mecanismo foi
exposto em obra clássica, \"Origem das Espécies\", que
também faz aniversário (150 anos): a diversidade observável
nos organismos é fruto da acumulação de incontáveis e
discretas características hereditárias que tenham contribuído
para a sobrevivência e a reprodução de seus portadores.
Outro pilar da teoria darwiniana: os milhões de espécies de
plantas, animais e micro-organismos que vivem e já viveram
sobre a Terra descendem todos de um ancestral comum, que
surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Durante um século e
meio reuniram-se inúmeras comprovações empíricas desses
princípios. A universalidade do DNA, a substância presente
no núcleo das células portadora de hereditariedade, é só uma
delas.
É uma ideia poderosa, em sua simplicidade. Os organismos
não são como são em obediência a um desígnio superior. Ao
contrário, sua diversificação resulta do entrechoque de
eventos inteiramente naturais -sobretudo mutações genéticas
e modificações no ambiente- ao longo de um tempo muito
profundo.
Compreende-se que esse modo de encarar a biosfera torne
problemáticas outras explicações para a miríade de formas
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Folha de S.Paulo - Editoriais: Darwin, 200<br> - 10/02/2009 Page 2 of 2
que povoam o mundo, como as inspiradas na literalidade de
textos religiosos. Apesar disso, é possível conciliar o
mecanismo da seleção natural com a noção de um Deus que
o tenha criado.
O próprio Darwin, ateu ou agnóstico, jamais fez de sua teoria
uma arma antirreligião. Essa é a caricatura que dele se
construiu nos últimos 150 anos. Deixar-se arrastar por ela
não faz jus à grandiosidade de sua visão da vida, que está na
raiz do enorme avanço da biologia nas últimas décadas e que
tanto fez para dissipar ilusões sobre o lugar da espécie
humana no universo.
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Folha de S.Paulo - Filme exibe em Berlim \"capitalismo de desastre\" - 10/02/2009 Page 1 of 2
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São Paulo, terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
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Filme exibe em Berlim \"capitalismo
de desastre\"
Longa de Michael Winterbottom prega resistência e
busca por novo modelo econômico
\"A Doutrina do Choque\", exibido ontem no festival,
traça um painel da implementação de ideias do
economista Milton Friedman
SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL A BERLIM
Imagens da posse do presidente dos EUA, Barack Obama,
no último dia 20, estão no novo filme do diretor britânico
Michael Winterbottom (\"O Caminho para Guantánamo\"),
codirigido por Mat Whitecross.
O documentário \"A Doutrina do Choque\", exibido ontem no
Festival de Berlim, prega resistência (à teoria da
desregulação do mercado personificada pelo economista
Milton Friedman) e ação popular, por outro \"new deal\", que
remodele a economia mundial.
O paralelo entre Obama e Franklin Roosevelt, o presidente
americano que atravessou a Grande Depressão nos anos
1930, é feito pela jornalista Naomi Klein, em cujo livro (\"A
Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de
Desastre\") o filme se baseia.
Winterbottom disse que aceitou o convite de Klein por achar
o livro \"muito potente\" e ver nele \"a oportunidade de falar
desses acontecimentos de uma perspectiva particular\".
Com numerosas imagens de arquivo, \"A Doutrina do
Choque\" se propõe a traçar um painel da implementação das
ideias de Friedman e seu grupo de colaboradores na
universidade, os \"meninos de Chicago\", em distintas partes
do mundo, a começar pela América Latina.
O golpe que depôs e matou Salvador Allende no Chile é
citado como primeiro exemplo de que o \"incontrolável
cassino capitalista\" resultante das teorias de Friedman
requereu regimes totalitários para se estabelecer fora dos
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Folha de S.Paulo - Filme exibe em Berlim \"capitalismo de desastre\" - 10/02/2009 Page 2 of 2
EUA.
\"No mundo anglofônico [EUA e Reino Unido]\", as guerras,
a começar pela das Malvinas (1982), sob o comando de
Margareth Thatcher, foram o elemento impulsionador da
economia de livre mercado, sustenta o filme.
Klein participa do longa entrevistando pessoas e em extratos
de palestras que profere, com a intenção por ela declarada de
impedir que a \"memória coletiva\" se deixe tomar por uma
enviesada versão da história do tempo corrente.
\"A Doutrina do Choque\" compara as vítimas civis da Guerra
do Iraque com os desaparecidos durante a ditadura argentina
(1976-83), igualando-os à condição de \"pessoas que se
opuseram\" ao regime econômico que se tentou impor em
seus respectivos países.
A estranhar no filme é sua trilha sonora pouco inventiva,
considerando que Whitecross prepara agora um
documentário sobre a banda Coldplay. Ecoando o chamado
de Klein pelo engajamento popular, Whitecross disse,
ontem: \"O fato de Obama estar na presidência não significa
que as coisas vão ficar melhores ou piores. Cabe às pessoas
pressionarem a administração dele\".
Texto Anterior: João Pereira Coutinho: Máquinas, não
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do Iraque
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Folha de S.Paulo - Artigo: O meu jornal diário - 29/03/2009 Page 1 of 3
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São Paulo, domingo, 29 de março de 2009
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ARTIGO
O meu jornal diário
Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias
afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas
câmaras políticas hermeticamente fechadas
NICHOLAS D. KRISTOF
DO \"NEW YORK TIMES\"
Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos
jornais, mas são dos jornais. O \"Seattle Post-Intelligencer\" é
o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de
que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez
mais buscando as notícias que consome não nas grandes
redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre
árvores mortas, mas em suas incursões on-line.
Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio
editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o
tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos.
Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de
Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente
\"O Meu Jornal Diário\". E, se isso for uma tendência, que
Deus nos salve de nós mesmos.
Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em
geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e
sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos
acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões,
mas na prática gostamos de nos encerrar no útero
tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico
enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendo-
lhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de
uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse
em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas
ideias preexistentes.
Também houve interesse mediano em receber argumentos
tolos em favor das posições do outro partido (nós nos
sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas
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Folha de S.Paulo - Artigo: O meu jornal diário - 29/03/2009 Page 2 of 3
houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que
pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um.
Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como
observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu
ótimo livro \"True Enough: Learning to Live in a Post-Fact
Society\" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa
sociedade pós-fatos].
Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou
culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O
blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio
frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é
inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras,
frequentemente concordo com ele. É menos provável que
leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio
que é inteligente e bem informado -mas que me parece
menos sensato, em parte porque frequentemente discordo
dele.
Segregação
O efeito do \"Meu Jornal\" seria nos isolar ainda mais em
nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos
livros mais fascinantes de 2008 foi \"The Big Sort: Why the
Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart\" [A
grande classificação: porque a divisão da América em
agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill
Bishop.
Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em
comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas
que pensam como eles.
Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em
condados que votam por maioria avassaladora em candidatos
democratas ou republicanos.
Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente
disputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em
condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas
eleições.
\"O país está ficando mais politicamente segregado -e o
benefício que deveria advir da presença de uma diversidade
de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão
que é próprio dos grupos homogêneos\", escreve Bishop.
Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os
americanos são os que demonstram menos tendência a
discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se
aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que
não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais
diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as
que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao
abrigo de ideias que lhes eram incômodas.
O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass
Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha
para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que,
quando progressistas ou conservadores discutem questões
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Folha de S.Paulo - Artigo: O meu jornal diário - 29/03/2009 Page 3 of 3
como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas
que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam
mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão.
Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que
as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem
prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores
inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas,
depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas
que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais
progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O
declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a
ascensão do \"Meu Jornal\"; vamos nos irritar menos com o
que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas
confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse
\"noticiário\" autosselecionado aja como entorpecente,
mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do
qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os
fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza.
Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas
que assistam a Bill O'Reilly [comentarista do canal
conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith
Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não -
enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento
médico universal, não podemos correr o risco de um
aumento grande no número de infartos.
Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se
esforce por conta própria para fazer uma malhação
intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas
opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de
exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você
não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com
licença. Vou ler a página de editoriais do \"Wall Street
Journal\".
Tradução de CLARA ALLAIN
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Obama
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