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  • 1. teoria da justiça Profa. Thamy Pogrebinschi 2ª edição ROTEIRO DE CURSO 2009.1
  • 2. Sumário Teoria da Justiça I. InTRODUçãO ..............................................................................................................................................................................7 1.1. Visão Geral ............................................................................................................................ 7 1.2. Objetivos Gerais ................................................................................................................... 10 1.3. Metodologia ......................................................................................................................... 11 1.4. Desafios e Dificuldades ......................................................................................................... 12 1.5. Métodos de Avaliação ........................................................................................................... 14 1.6. Programa ............................................................................................................................. 14 II. PlanO DE aUlaS .....................................................................................................................................................................19 1. Bloco I: Justiça: Conceitos e Teorias .................................................................................. 19 Introdução .................................................................................................................................. 19 Objetivos .................................................................................................................................... 19 1.1. Aula 1: Teoria da Justiça: entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política ............................. 20 1.1.1. Introdução ......................................................................................................................... 20 1.1.2. Objetivos ........................................................................................................................... 20 1.1.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 20 1.1.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 20 1.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 21 1.1.6. Conclusão ......................................................................................................................... 21 1.2. Aula 2: O que é Justiça? ........................................................................................................ 22 1.2.1. Introdução ......................................................................................................................... 22 1.2.2. Objetivos ........................................................................................................................... 22 1.2.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 22 1.2.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 22 1.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 22 1.2.6. Conclusão ......................................................................................................................... 23 1.3. Aula 3: Conceitos e Teorias da Justiça.................................................................................... 24 1.3.1. Introdução ......................................................................................................................... 24 1.3.2. Objetivos ........................................................................................................................... 24 1.3.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 24 1.3.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 24 1.3.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 24 1.3.6. Conclusão ......................................................................................................................... 25 1.4. Aula 4: A Justiça entre o Direito e a Sociedade ..................................................................... 26 Textos base ................................................................................................................................... 26 1.4.1. Introdução ......................................................................................................................... 26 1.4.2. Objetivos ........................................................................................................................... 26 1.4.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 26 1.4.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 26 1.4.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 27 1.4.6. Conclusão ......................................................................................................................... 27 2. Bloco II: Justiça como Equidade ....................................................................................... 28 Introdução ................................................................................................................................... 28 Objetivos ..................................................................................................................................... 28 2.1. A Perspectiva Liberal ............................................................................................................. 30 2.1.1. Aula 5: A Justiça como Equidade ....................................................................................... 31 2.1.1.1. Introdução ...................................................................................................................... 31
  • 3. 2.1.1.2. Objetivos ........................................................................................................................ 33 2.1.1.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 33 2.1.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 33 2.1.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 33 2.1.1.6. Conclusão ....................................................................................................................... 34 2.1.2. Aula 6: Os Princípios de Justiça e a Prioridade das Liberdades Básicas ................................ 35 2.1.2.1. Introdução ..................................................................................................................... 35 2.1.2.2. Objetivos ........................................................................................................................ 37 2.1.2.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 38 2.1.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................ 38 2.1.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 38 2.1.2.6. Conclusão ...................................................................................................................... 38 2.1.3. Aula 7: Justiça, Pluralismo e Democracia ......................................................................... 40 2.1.3.1. Introdução ...................................................................................................................... 40 2.1.3.2. Objetivos ........................................................................................................................ 43 2.1.3.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 44 2.1.3.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 44 2.1.3.5. Atividade de Aprofundamento da Leitura ....................................................................... 44 2.1.3.6. Conclusão ...................................................................................................................... 44 2.2. A Perspectiva Libertária ......................................................................................................... 45 2.2.1. Aula 8: Justiça, Liberdade e Mérito ............................................................................. 46 2.2.1.1. Introdução ...................................................................................................................... 46 2.2.1.2. Objetivos ........................................................................................................................ 46 2.2.1.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 47 2.2.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 47 2.2.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 47 2.2.1.6. Conclusão ...................................................................................................................... 48 2.2.2. Aula 9: Uma Teoria da Justiça para um Estado Mínimo ..................................................... 49 2.2.2.1. Introdução ...................................................................................................................... 49 2.2.2.2. Objetivos ........................................................................................................................ 49 2.2.2.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 49 2.2.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 50 2.2.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 50 2.2.2.6. Conclusão ...................................................................................................................... 50 2.3. A Perspectiva Utilitarista ....................................................................................................... 51 2.3.1. Aula 10: Justiça Utilitarista................................................................................................. 52 2.3.1.1. Introdução ...................................................................................................................... 52 2.3.1.2. Objetivos ........................................................................................................................ 52 2.3.1.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 52 2.3.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 52 2.3.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 53 2.3.1.6. Conclusão ...................................................................................................................... 53 2.4. A Perspectiva Comunitarista ................................................................................................ 54 2.4.1. Aula 11: A Prioridade do Bem ........................................................................................... 55 2.4.1.1. Introdução ...................................................................................................................... 55 2.4.1.2. Objetivos ........................................................................................................................ 55
  • 4. 2.4.1.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 56 2.4.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 56 2.4.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 56 2.4.1.6. Conclusão ...................................................................................................................... 56 2.4.2. Aula 12: Igualdade Complexa ............................................................................................ 57 2.4.2.1. Introdução ...................................................................................................................... 57 2.4.2.2. Objetivos ........................................................................................................................ 59 2.4.2.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................. 60 2.4.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 60 2.4.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 60 2.4.2.6. Conclusão ...................................................................................................................... 60 2.5. Aula 13: Primeira avaliação: Princípios de Justiça para a Sociedade Brasileira ........................ 62 2.5.1. Introdução ......................................................................................................................... 62 2.5.2. Objetivos ........................................................................................................................... 62 2.5.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 62 2.5.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 62 2.5.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 62 2.5.6. Metodologia ...................................................................................................................... 63 2.5.7. Conclusão ......................................................................................................................... 64 3. Bloco III: Justiça como Bem-Estar .................................................................................... 65 Introdução ................................................................................................................................... 65 Objetivos ..................................................................................................................................... 65 3.1. A Perspectiva Igualitária ........................................................................................................ 66 3.1.1. Aula 14: Igualdade de Bem-Estar ....................................................................................... 66 3.1.1.1. Introdução ..................................................................................................................... 66 3.1.1.2. Objetivos ....................................................................................................................... 67 3.1.1.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 67 3.1.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 67 3.1.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 67 3.1.1.6. Conclusão ....................................................................................................................... 68 3.1.2. Aula 15: Igualdade de Recursos .......................................................................................... 69 3.1.2.1. Introdução ..................................................................................................................... 69 3.1.2.2. Objetivos ....................................................................................................................... 70 3.1.2.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 70 3.1.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 70 3.1.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 70 3.1.2.6. Conclusão ....................................................................................................................... 70 3.2. A Perspectiva Capacitária ..................................................................................................... 72 3.2.1. Aula 16: Capacidade e Bem-Estar ...................................................................................... 73 3.2.1.1. Introdução ..................................................................................................................... 73 3.2.1.2. Objetivos ....................................................................................................................... 75 3.2.1.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 76 3.2.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 76 3.2.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 76 3.2.1.6. Conclusão ....................................................................................................................... 76
  • 5. 3.2.2. Aula 17: Bem-Estar e Desenvolvimento ............................................................................ 77 3.2.2.1. Introdução ..................................................................................................................... 77 3.2.2.2. Objetivos ....................................................................................................................... 78 3.2.2.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 78 3.2.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 78 3.2.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 79 3.2.2.6. Conclusão ....................................................................................................................... 79 3.3. A Perspectiva Econômica ..................................................................................................... 80 3.3.1. Aula 18: Justiça e Eficiência .............................................................................................. 81 3.3.1.1. Introdução ..................................................................................................................... 81 3.3.1.2. Objetivos ....................................................................................................................... 82 3.3.1.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 82 3.3.1.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 82 3.3.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 82 3.3.1.6. Conclusão ....................................................................................................................... 82 3.3.2. Aula 19: Justiça e Bem-Estar Econômico ........................................................................... 84 3.3.2.1. Introdução ..................................................................................................................... 84 3.3.2.2. Objetivos ....................................................................................................................... 84 3.3.2.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................. 84 3.3.2.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 85 3.3.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ......................................................................... 85 3.3.2.6. Conclusão ....................................................................................................................... 85 4. Bloco IV: Justiça como Reconhecimento ........................................................................... 87 Introdução ................................................................................................................................... 87 Objetivos ..................................................................................................................................... 87 4.1. Aulas 20 e 21: Redistribuição ou Reconhecimento?............................................................... 88 4.1.1. Introdução ........................................................................................................................ 88 4.1.2. Objetivos .......................................................................................................................... 88 4.1.3. Bibliografia Obrigatória ..................................................................................................... 89 4.1.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 89 4.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 89 4.1.6. Conclusão .......................................................................................................................... 89 4.2. Aula 22: Justiça e Multiculturalismo ..................................................................................... 90 4.2.1. Introdução ........................................................................................................................ 90 4.2.2. Objetivos .......................................................................................................................... 90 4.2.3. Bibliografia Obrigatória ..................................................................................................... 90 4.2.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 91 4.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 91 4.2.6. Conclusão .......................................................................................................................... 91 4.3. Aula 23: Justiça e Feminismo ................................................................................................ 92 4.3.1. Introdução ........................................................................................................................ 92 4.3.2. Objetivos .......................................................................................................................... 92 4.3.3. Bibliografia Obrigatória .................................................................................................... 93 4.3.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................... 93 4.3.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 93 4.3.6. Conclusão .......................................................................................................................... 93
  • 6. 5. Bloco V: Brasil: Aplicações da Teoria da Justiça ................................................................. 95 Introdução ................................................................................................................................... 95 Objetivos ..................................................................................................................................... 95 5.1. Aula 24: A Questão Racial .................................................................................................. 96 5.1.1. Introdução ........................................................................................................................ 96 5.1.2. Objetivos .......................................................................................................................... 96 5.1.3. Bibliografia Obrigatória ..................................................................................................... 96 5.1.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 96 5.1.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 97 5.1.6. Conclusão .......................................................................................................................... 97 5.2. Aula 25: Política de Cotas e Ação Afirmativa ......................................................................... 98 5.2.1. Introdução ........................................................................................................................ 98 5.2.2. Objetivos .......................................................................................................................... 98 5.2.3. Bibliografia Obrigatória ..................................................................................................... 98 5.2.4. Bibliografia Complementar ................................................................................................ 98 5.2.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura ............................................................................ 99 5.2.6. Conclusão .......................................................................................................................... 99 5.3. Aula 26: Desigualdade e Pobreza ......................................................................................... 100 5.3.1. Introdução ...................................................................................................................... 100 5.3.2. Objetivos ........................................................................................................................ 100 5.3.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................... 100 5.3.4. Bibliografia Complementar .............................................................................................. 100 5.3.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura .......................................................................... 101 5.3.6. Conclusão ........................................................................................................................ 101 5.4. Aula 27: Cidadania e Exclusão Social ................................................................................. 102 5.4.1. Introdução ...................................................................................................................... 102 5.4.2. Objetivos ........................................................................................................................ 102 5.4.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................... 102 5.4.4. Bibliografia Complementar ............................................................................................. 102 5.4.5. Atividade de Aproveitamento da Leitura .......................................................................... 103 5.4.6. Conclusão ........................................................................................................................ 103 5.5. Aulas 28 e 29: A Teoria da Justiça nos Tribunais .................................................................. 104 5.5.1. Introdução ....................................................................................................................... 104 5.5.2. Objetivos ......................................................................................................................... 104 5.5.3. Bibliografia Obrigatória ................................................................................................... 104 5.5.4. Bibliografia Complementar .............................................................................................. 104 5.5.5. Conclusão ........................................................................................................................ 104 5.6. Aula 30 – Segunda Avaliação............................................................................................... 106 III. BIBlIOgRafIa ....................................................................................................................................................................... 108
  • 7. TEORIa Da jusTIça i. introdução A Teoria da Justiça constitui certamente a disciplina de maior interface entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política. Enquanto objeto comum destes dois campos do saber, a Teoria da Justiça é largamente responsável por tê-los reavivado nas últimas décadas, constituindo-se em um dos principais temas da agenda teórica contemporânea. Acompanhando a natureza da própria disciplina, este curso de Teoria da Jus- tiça busca fazer uma interface entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política e concentra-se – embora não de forma exclusiva – nos debates contemporâneos que norteiam e orientam a sua consolidação temática. Este material didático destina-se a introduzir os alunos do curso de Teoria da Jus- tiça nesta tão instigante disciplina, possibilitando que eles estabeleçam as conexões necessárias entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política a partir das discussões teóricas contemporâneas que lhes são comuns. 1.1. Visão Geral O curso de Teoria da Justiça divide-se em cinco partes, quais sejam: 1) Justiça: Conceitos e Teorias; 2) Justiça como Equidade; 3) Justiça como Bem-Estar; 4) Jus- tiça como Reconhecimento; e 5) Brasil: Aplicações da Teoria da Justiça. A segunda e a terceira parte do curso apresentam subdivisões temáticas que serão explicitadas a seguir. A primeira parte do curso, intitulada ‘Justiça: conceitos e teorias’, pretende in- troduzir a disciplina, apresentando os principais conceitos e teorias associadas à idéia de justiça. Justiça é um conceito complexo, passível de um grande número de definições, assim como são muitas as teorias que tentam dar conta dele, associando- o a perspectivas e abordagens bastante diversas entre si. Ao apresentar a amplitude semântica do conceito de justiça, o curso busca apon- tar para a necessária interdisciplinaridade que o seu estudo impõe. Com efeito, além de constituir-se especificamente como o principal ponto de conexão entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política, a Teoria da Justiça vem revelando-se, con- temporaneamente, de um modo geral, como um forte ponto de interseção entre o Direito, a Filosofia, as Ciências Sociais e a Economia. Ao preocupar-se em mostrar precipuamente como a justiça pode sobretudo constituir-se seja em critério para avaliar normas seja em critério para ordenar socie- dades, inicia-se o curso com um resgate do conceito de justiça desde a sua origem na antiguidade clássica a fim de apresentar e discutir alguns dos diversos significados que o mesmo veio a assumir ao longo do tempo. Embora o foco do curso seja a contemporaneidade, a sua primeira parte busca, por conseguinte, cumprir a imposição necessária de expor as principais concepções de justiça que prevalecem, desde as obras de Platão e Aristóteles, como referências FGV DIREITO RIO 7
  • 8. TEORIa Da jusTIça inevitáveis de qualquer teorização sobre o assunto. Assim, os alunos tomarão conta- to com os significados das concepções comutativa, retributiva, distributiva, proce- dimental, formal e material de justiça a fim de tornarem-se capazes de identificá-las e operacionalizá-las ao longo do curso. Por fim, a primeira parte do curso anunciará algumas das diversas teorias que se formam a respeito da justiça a partir daquelas diferentes concepções, revelando seu intento primordial de mostrar como a justiça serve sobretudo de parâmetro avalia- tivo para a construção e reconstrução permanente do direito e da sociedade, bem como das instituições que os compõem. A segunda parte do curso, intitulada “Justiça como Equidade”, busca apresentar algumas das mais importantes perspectivas da Teoria da Justiça que vêm sendo afir- madas nas últimas três décadas. São elas: a perspectiva liberal, a perspectiva libertá- ria, a perspectiva utilitarista e a perspectiva comunitarista. A primeira destas é a perspectiva liberal, que tem em John Rawls o seu principal expoente. Com efeito, Rawls é certamente o principal nome associado à teoria da justiça, tendo sido o seu livro homônimo publicado em 1971 o principal ponto de partida para retomada das filosofias política, jurídica e moral após um longo perío- do de predomínio da filosofia analítica no cenário acadêmico. Com a obra de Rawls, aquilo que se chama hoje de teoria da justiça entra defi- nitivamente em cena, passando a ganhar corpo com as diversas respostas e críticas que seu trabalho passou a receber. A perspectiva libertária é justamente uma destas respostas, apesar de o seu principal expoente, Robert Nozick – formulador de uma teoria de justiça distributiva que busca fazer frente à teoria da justiça como equidade rawlsiana –, ter sido precedido, no que tange ao libertarianismo de sua concepção de justiça, por Friedrich Hayek, ainda alguns anos antes da obra bali- zadora de Rawls. Ao formular sua teoria da justiça, Rawls buscava na verdade oferecer uma al- ternativa teórica ao utilitarismo. Os famosos princípios de justiça que formula destinavam-se inicialmente a serem escolhidos em detrimento de uma concepção utilitarista de justiça como a melhor forma de ordenação da sociedade. Evidente- mente, os utilitaristas não deixam por menos e revigoram a sua abordagem a fim de fazer face a Rawls. Nesta segunda parte do curso será abordado o novo utilitarismo que surge a partir da década de setenta como uma nova formulação de uma antiga maneira de conceber-se a justiça. O comunitarismo constitui a quarta perspectiva a ser analisada nesta segunda parte do curso. Certamente uma das tendências mais fortes do pensamento con- temporâneo – seja pelo número de autores que a professam, seja pelo número de adeptos que conquista –, o comunitarismo opõe-se ao universalismo rawlsiano, in- vertendo a relação de prioridade entre o bem e o direito por meio de uma concep- ção de justiça relativista e centrada na idéia de comunidade e no compartilhamento por ela propiciado. Avolumam-se nas últimas três décadas as abordagens comunita- ristas, porém este curso foca em duas das mais importantes delas representadas por autores como Michael Sandel e Michael Walzer. FGV DIREITO RIO 8
  • 9. TEORIa Da jusTIça A terceira parte do curso intitula-se “Justiça como Bem-Estar” e busca apresentar a noção de bem-estar (welfare) como uma alternativa às perspectivas que encaram a justiça como equidade (fairness). São três as principais perspectivas que permitirão fazer essa passagem, nomeadamente a perspectiva igualitária, a perspectiva capacitá- ria e a perspectiva econômica. A perspectiva igualitária será ilustrada com base nos estudos de Ronald Dworkin sobre a igualdade. A concepção de igualdade de bem-estar, de um lado, e a concep- ção de igualdade de recursos, de outro, propiciam que Dworkin erija uma teoria da justiça que busca competir com as principais perspectivas contemporâneas que professam, de uma maneira ou de outra, a justiça como equidade. Sob o nome de perspectiva capacitária, a importante contribuição de Amartya Sen ao debate sobre a teoria da justiça será em seguida estudada. A concepção de justiça de Sen será abordada em um duplo aspecto, seja relacionando a sua inovado- ra idéia de capacidade ao bem-estar ou relacionando estes dois aos problemas mais amplos do desenvolvimento e da liberdade. Por fim, a terceira abordagem a ser discutida nesta terceira parte do curso é a perspectiva propriamente econômica das concepções de justiça como bem-estar. Em um primeiro momento, a justiça será relacionada com a idéia de eficiência, e, para tanto, a análise econômica do direito (law and economics), que muito se popu- larizou através da obra de Richard Posner, servirá de ponto de apoio para o debate. Em um segundo momento, o curso adentrará uma perspectiva propriamente eco- nômica da justiça como bem-estar por meio da obra conjunta de Louis Kaplow e Steven Shavell, que busca justamente favorecer esta concepção em detrimento das diversas concepções de justiça como equidade. Uma vez estudado aquilo que constitui o cânone da Teoria da Justiça, o curso passará para a sua quarta parte trazendo a lume algumas concepções de justiça que não se encaixam nas teorias da justiça como equidade, nem nas teorias da justiça como bem-estar. Com este intuito, o curso abre espaço para uma das discussões mais fortes do cenário contemporâneo, o reconhecimento. O conhecido debate en- tre Nancy Fraser e Axel Honneth será abordado a fim de relacionar a justiça à pro- blemática do reconhecimento. Seja como distribuição, seja como reconhecimento, a justiça revela-se neste debate apontando para a importante questão da justiça social em um contexto pós-liberal e multicultural, no qual o papel dos movimentos sociais ganha cada vez mais força. Ainda no intuito de mapear as principais tendências críticas suscitadas pela Te- oria da Justiça nos últimos anos, serão abordados nesta parte do curso os crescen- tes debates suscitados pelo multiculturalismo e pelo feminismo. Duas importantes expoentes destas frentes que se opõem às tradicionais concepções da justiça como equidade, Iris Marion Young e Martha Minow, serão estudadas a fim de relacionar a justiça com os problemas que vêm sendo colocados recentemente pelo cosmopo- litismo cultural e pelas políticas de gênero. A última parte do curso destina-se a aplicar a teoria da justiça ao caso bra- sileiro, valendo-se de estudos de sociólogos, cientistas políticos e economistas nacionais, além da análise de jurisprudência dos tribunais superiores. Com uma FGV DIREITO RIO 9
  • 10. TEORIa Da jusTIça abordagem mais empírica do que aquela adotada anteriormente, esta parte do curso busca refletir sobre a questão racial, a política de cotas e a ação afirmativa, além dos problemas da desigualdade, da pobreza e da exclusão social. As últi- mas duas aulas antes da avaliação final serão dedicadas à análise e discussão da jurisprudência brasileira que trate dos temas e concepções de justiça discutidas ao longo do curso, aplicando o instrumental teórico e conceitual aprendido ao caso concreto. 1.2. objetiVos Gerais O curso de Teoria da Justiça destina-se a prover aos alunos uma introdução crítica e comparativa das principais tendências do debate contemporâneo em tor- no do conceito de justiça, propiciando, assim, que os mesmos familiarizem-se com uma parte importante da atual agenda da Filosofia do Direito e da Filosofia Política. O conteúdo programático do curso será apresentado de tal modo que os alunos possam analisar, comparar, contrastar e criticar diversas concepções alternativas de justiça. O objetivo precípuo disso é tornar o aluno apto a encarar a idéia de justiça simultaneamente como: a) um parâmetro para a tomada de decisões; b) um crité- rio para a produção de normas; c) um critério para a aferição da legitimidade e da validade de normas e decisões; d) um princípio norteador da organização e da or- denação da sociedade; e e) um parâmetro para a definição, elaboração e consecução de políticas públicas. Espera-se que os alunos, ao final do curso, tenham acumulado um instrumental teórico que lhes permita pensar e resolver problemas práticos concernentes à justiça em uma perspectiva interdisciplinar. Eles serão instigados a perceber que o conceito de justiça, mesmo quando formulado sob uma perspectiva filosófica, demanda uma aplicação prática que não pode prescindir de uma abordagem simultaneamente ju- rídica, social, política e econômica. Deste modo, ao longo do curso, os alunos serão incentivados a desenvolver um raciocínio prático com base nos temas mobilizados a partir dos textos selecionados para suscitar a discussão em sala de aula. Cada estudante deve perceber como as di- versas teorias da justiça estudadas permitem o aprofundamento de uma perspectiva analítica e crítica em relação ao direito e à sociedade. Ao desenvolver a capacidade analítica dos alunos, o curso os auxiliará a formar uma abordagem descritiva que possibilite a formulação de um diagnóstico sobre algumas instituições jurídicas e sociais, antecipando potenciais para a sua transformação e aperfeiçoamento. Ao mesmo tempo, ao fomentar a capacidade crítica dos alunos, o curso propiciará que os mesmos reflitam prospectiva e normativamente a respeito de alternativas possí- veis às instituições existentes, instigando o seu imaginário e direcionando-o rumo a um futuro a ser compartilhado e construído por eles. FGV DIREITO RIO 10
  • 11. TEORIa Da jusTIça 1.3. MetodoloGia A fim de prover um panorama geral do debate contemporâneo sobre a teoria da justiça e tratá-la interdisciplinarmente no contexto da interseção entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política, o curso abordará um conjunto extenso de perspectivas alternativas sobre o conceito de justiça. Para dar conta desta diversidade de aborda- gens, a literatura que acompanhará o curso deve ser necessariamente diversificada, o que implica em um rol grande de autores e textos a serem lidos como referência. As aulas não consistirão em estudos dirigidos de textos. Contudo, dado o grau de complexidade e sofisticação de algumas argumentações, em alguns casos a aula assumirá um tom mais analítico e centrado nos textos. Mas estes casos pretendem configurar a exceção. Como regra, as aulas partirão de temas e problemas a serem discutidos participativamente em sala, e os textos servirão para que estes temas e problemas possam ser identificados e associados às diferentes perspectivas teóricas que representam. Portanto, ao abordar os textos, é preciso que os alunos tenham em mente que o curso não consiste em um estudo de autores. Ao prepararem-se ao longo do curso, eles não devem, por exemplo, preocupar-se em saber identificar as perspectivas de Rawls, Dworkin ou Posner, pois não é isso que se espera deles. Para este curso, im- porta menos o que pensam os autores estudados e mais o que o próprio aluno pen- sa. Portanto, os alunos não devem se preocupar em meramente identificar as prin- cipais idéias de cada texto (ou autor), mas sim em utilizá-los instrumentalmente de forma a associar estas idéias e, a partir disso, construir as suas próprias. Os textos – que naturalmente foram escritos por autores – servem, por conseguinte, apenas de referência, indicando para os alunos possibilidades alternativas de se pensar sobre questões semelhantes e abordar problemas similares. A forma pela qual o curso foi montado implica necessariamente a construção progressiva de uma reflexão crítica a respeito dos temas abordados. O caráter multi- facetário do curso (que se estrutura a partir de diferentes modos de conceber a jus- tiça e de aplicá-la como critério para a produção, legitimação e validade de normas, decisões e políticas públicas) propicia que a cada aula as perspectivas estudadas nas aulas anteriores sejam permanentemente questionadas e revisadas. Esta empreitada é largamente facultada pela existência de um diálogo real travado entre diversos dos autores cujas abordagens serão estudadas no curso. Há um verdadeiro debate acadêmico sendo travado nos últimos trinta anos em torno da teoria da justiça, e a segunda e a terceira partes do curso seguem, em alguma medida, a construção deste debate. Isso propiciará que os alunos sejam expostos a abordagens muito diferentes que buscam corrigir umas às outras, aperfeiçoando e sofisticando o tema de que tratam em comum. É absolutamente imprescindível que os alunos preparem-se para a aula lendo os textos obrigatórios indicados no programa e referidos na bibliografia. Os estudan- tes serão constantemente chamados a participar da aula e isso será feito de modo sistemático, sem que se faça necessário um aviso prévio. Ao início de cada aula, os alunos serão indagados a respeito de suas impressões acerca do texto lido. A partir FGV DIREITO RIO 11
  • 12. TEORIa Da jusTIça disso, a professora indicará uma questão, um tema ou um problema a ser discutido com referência ao texto lido. Por mais que as aulas não tendam a assumir a forma de leituras dirigidas, os textos sempre formarão o seu material básico e todas elas terão, dentre seus objetivos, a identificação e discussão dos principais argumentos contidos nos textos, bem como dos principais conceitos neles enunciados. A participação dos alunos nesse processo é essencial. Eles serão chamados a par- ticipar da reconstrução dos argumentos contidos nos textos e serão instigados a compará-los com argumentos aprendidos nas aulas anteriores. Além disso, serão constantemente interpelados ao longo das aulas a fim de enunciarem suas próprias visões, opiniões e pensamentos a respeito do tema tratado. Uma vez que o curso tem como eixo central a apresentação de perspectivas díspares a respeito da justiça, os alunos serão permanentemente chamados a posicionarem-se a respeito destas. Neste contexto, a professora assumirá um papel provocador, incitando os alunos a um ceticismo a respeito de suas próprias crenças e valores (os quais são inafastáveis quando o que está em jogo são modos de conceber-se e aplicar-se a justiça) e a res- peito das próprias convicções que forem formando ao longo do curso. Por mais que este seja um curso de teoria da justiça, o caráter prático de seu estudo é muito evidente. As teorias da justiça são elaboradas para serem efetiva- mente aplicadas, e não apenas para explicar, descrever ou revisar um conjunto de conceitos. Alguns textos a serem utilizados no curso descrevem casos reais ou nar- ram situações hipotéteticas (esta costuma ser a regra), as quais serão utilizadas em sala, solicitando-se que os alunos posicionem-se a respeito. Portanto, a preparação prévia para a aula é de fundamental importância. Os alunos devem necessariamen- te ler com antecedência os textos indicados e esforçar-se, na medida do possível, para realizar as atividades de aprofundamento da leitura sugeridas neste material didático. 1.4. desafios e dificuldades Teoria da Justiça é um curso novo, que será ministrado pela segunda vez na grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, e que usualmente não encontra espaço nos currículos de graduação das faculdades de Direito brasileiras. A opção de não oferecer um curso de Filosofia do Direito tradicional, mas sim um que enfoque em um de seus principais eixos temáticos a teoria da justiça, reflete a proposta da Escola de estar sempre um passo a frente no ensino jurídico, de forma inovadora e criativa. Este curso foi concebido de maneira a reforçar este espírito e garantir a sua continuidade. O principal desafio deste curso, portanto, reside em seu caráter experimental. Disciplinas de teoria da justiça vêm sendo usualmente dadas apenas no âmbito dos cursos de pós-graduação, de modo que o acesso aos autores e textos concernentes costuma ser restrito a alunos que se encontram em estágios mais avançados da for- mação acadêmico-universitária. Em casos menos freqüentes, o conteúdo temático da teoria da justiça é também objeto de núcleos ou grupos institucionais de pesquisa FGV DIREITO RIO 12
  • 13. TEORIa Da jusTIça que eventualmente envolvem alunos de graduação. Ao inserir a disciplina de Teoria da Justiça entre seus cursos obrigatórios, a DIREITO-RIO, mais uma vez, rompe o padrão do ensino jurídico tradicional e inova, lançando seus alunos em um patamar à frente do conhecimento e do ensino. Estas vantagens naturalmente poderão assumir a forma de desvantagens, sobre- tudo para as primeiras turmas que forem expostas ao curso e ao material didático que o acompanha. Como todo objeto novo, é necessário um tempo até que se en- contre o ponto justo, o tom adequado, a medida certa. O equilíbrio a ser buscado envolverá um esforço e um engajamento conjunto dos alunos e da professora, de modo que se possa encontrar, coletivamente, senão um modelo ideal de curso, ao menos seu ponto ótimo. Este ponto ótimo, evidentemente, dependerá de circunstâncias contingentes. Cada turma sempre reagirá de forma diferente ao curso e ao material, e apenas a sua aplicação no médio prazo permitirá que se encontre o formato mais adequado e, assim, que o curso seja consolidado. Mas isso não deve, contudo, jamais dirimir seu caráter experimental. O experimentalismo é um desafio do curso, na medida em que ele é recente; mas o experimentalismo é também um de seus objetivos, ma medida em que pretende ser permanente. Os ônus e os bônus deste desafio serão naturalmente compartilhados entre os alunos e a professora. Deseja-se que este compartilhamento seja efetivamente de- mocrático e que os alunos possam ativamente engajar-se na construção permanente do curso. Deste modo, é muito importante que os alunos apresentem abertamente as suas dúvidas e dificuldades, opiniões e sugestões, as quais serão sinceramente con- sideradas pela professora na revisão contínua do conteúdo programático do curso e de seu material didático. A aprendizagem é definitivamente um processo coletivo, e ele não exclui o professor. A principal dificuldade do curso reside em que uma relevante parte de sua bi- bliografia não se encontra ainda traduzida para o português. A maioria dos textos utilizados refere-se a um debate em curso, e, no contexto acadêmico brasileiro, a sua natureza recente e o seu público restrito ainda não propiciaram a consolidação de uma bibliografia nacional abrangente. Além disso, o debate sobre a teoria da justiça envolve a elaboração de diversos conceitos e categorias novas, de modo que a tradução destas não constitui objeto pacífico e encontra-se em permanente disputa. Isso faz com que muitas traduções não sejam dignas de credibilidade, uma vez que podem dificultar ainda mais a com- preensão do aluno e induzi-los a uma leitura equivocada. Por essas razões, nem todos os textos que compõem a bibliografia do curso serão disponibilizados no vernáculo. Certamente este problema será mitigado nos pró- ximos anos, tendo em vista que recentemente um número crescente de obras que compõem a bibliografia do curso vem sendo traduzido para o português. Enquanto isso não acontece, pede-se aos alunos que empreguem algum esforço e paciência na leitura dos textos em inglês. FGV DIREITO RIO 13
  • 14. TEORIa Da jusTIça 1.5. Métodos de aValiação Os alunos serão permanentemente avaliados por sua participação em sala de aula e por seu engajamento no curso. Por mais que esta participação não seja avaliada na forma objetiva de pontos a serem somados ou subtraídos, ela se fará refletir nas duas notas que compõem a média final do curso. Além desta avaliação permanente da participação, alguns métodos avaliativos serão empregados ao longo do semestre, a fim de compor as duas notas que levarão à média final. Passo a descrevê-los. A primeira nota será composta por duas partes. A primeira parte, que com- putará 30% da nota, refere-se à elaboração de um ensaio sobre o tema ‘O que é justiça?’e que deve ser entregue até a data da aula 7. A segunda parte, que equivale- rá à 70% da nota, refere-se a um debate que será realizado em sala na data da aula 13. O tema do debate é ‘Princípios de Justiça para a Sociedade Brasileira’. Os alu- nos deverão produzir previamente um pequeno texto sobre o assunto, mobilizando toda a literatura estudada no curso até a aula anterior. Desnecessário dizer, como no caso do ensaio anterior, que os alunos não devem fazer resumos de cada um dos textos ou autores estudados. Este não é o objetivo da avaliação. Seu objetivo é que os alunos possam instrumentalizar os textos e autores estudados, recorrendo aos conceitos e argumentos deles na medida em que isso os facultar a desenvolver um arrazoado próprio e original sobre o tema em questão. Os alunos serão avaliados pelo texto escrito e por sua participação no debate. Mais detalhes sobre a elabora- ção do trabalho e a organização do debate encontram-se neste material didático, na descrição da aula 13. A segunda nota também será composta por duas partes. A primeira delas, que equivalerá a 20% do total, consistirá em uma apresentação oral, a ser feita em gru- po, sobre pesquisa de jurisprudência relativa ao tema do curso.. Detalhes sobre a elaboração da pesquisa e da apresentação encontram-se neste material didático, na descrição das aulas 28 e 29. A segunda parte, que computará 80% da nota final, consistirá em uma prova escrita a ser realizada no último dia de aula do curso. A prova englobará todo o conteúdo ensinado da primeira avaliação (aula 13) em diante. 1.6. ProGraMa Parte i: justiça: conceitos e teorias aula 01 – teoria da justiça: entre a filosofia do direito e a filosofia política Texto base: RAPHAEL, D. D. Problems of Political Philosophy. Humanities Press, Atlantic Highlands, 1990, pp. 113 a 119. FGV DIREITO RIO 14
  • 15. TEORIa Da jusTIça aula 02 – o que é justiça? Texto base: PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 3 a 33. aula 03 – conceitos e teorias da justiça Texto base: ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Editora UNB, Brasília, 1985, livro V. PLATÃO. A República. Editora Perspectiva, São Paulo, 2006, livro I. aula 04 – a justiça entre o direito e a sociedade Textos base: 1) MILLER, David. Principles of Social Justice. Harvard University Press. Cambridge, 2001, pp. 1 a 20. 2) PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 68 a 84. Parte ii – justiça como equidade 2.1. a perspectiva liberal aula 05 – a justiça como equidade Texto base: RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, parte1 (1 a 11) e parte 3 (23 a 25). aula 06 – os princípios de justiça e a prioridade das liberdades básicas Texto base: RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, parte 2 (12-18) e parte 3 (30 e 33). aula 07 – justiça, pluralismo e democracia Texto base: RAWLS, John. Liberalismo Político. Editora Ática, São Paulo, 2000, caps. IV (1-7) e VI (1-6). 2.2. a perspectiva libertária aula 08 – justiça, liberdade e mérito Texto base: HAYEK, Friedrich A. The Constitution of Liberty. University of Chi- cago Press, Chicago, 1960, cap. 6. FGV DIREITO RIO 15
  • 16. TEORIa Da jusTIça aula 09 – uma teoria da justiça para um estado mínimo Texto base: NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia, Editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro, pp. 149 a 182. 2.3. a perspectiva utilitarista aula 10 – justiça utilitarista Texto base: KYMLICKA, Will. Contemporary Political Philosophy. Oxford Uni- versity Press, Oxford, 1990, cap. 2. 2.4. a perspectiva comunitarista aula 11 – a prioridade do bem Texto base: SANDEL, Michael. “Justice and the Good” In: SANDEL, Micha- el (ed.). Liberalism and its Critics. New York University Press, New York, 1984. aula 12 – igualdade complexa Texto base: WALZER, Michael. Esferas da Justiça. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, cap. 1. aula 13 – primeira avaliação – princípios de justiça para a sociedade bra- sileira Parte iii – justiça como bem-estar 3.1. a perspectiva igualitária aula 14 – igualdade de bem-estar Texto base: DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2005, cap.1. aula 15 – igualdade de recursos Texto base: DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2005, cap.2. FGV DIREITO RIO 16
  • 17. TEORIa Da jusTIça 3.2. a perspectiva capacitária aula 16 – capacidade e bem-estar Texto base: SEN, Amartya. Desigualdade Reexaminada. Editora Record, Rio de Janeiro, 2001, caps. 3 e 4. aula 17 – bem-estar e desenvolvimento Texto base: SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Companhia das Le- tras, São Paulo, 1999, cap. 3. 3.3. a perspectiva econômica aula 18 – justiça e eficiência Texto base: POSNER, Richard. The Economics of Justice. Harvard University Press, Cambridge, 1981, cap. 4. aula 19 – justiça e bem-estar econômico Texto base: KAPLOW, Louis e SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare. Har- vard University Press, Cambridge, pp. 15 a 38 e 52 a 62. Parte iV: justiça como reconhecimento aulas 20 e 21 – redistribuição ou reconhecimento? Textos base: FRASER, Nancy. “Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da Justiça na era pós-socialista”. In: SOUZA, J. (org.). Democracia hoje: no- vos desafios para a teoria democrática contemporânea. Editora UNB, Brasília, 2001. HONNETH, Axel. “Redistribution as Recognition” In: FRASER, Nancy e HONNETH, Axel (eds.). Redistribution or Recognition?. Verso, London, 2003, pp. 160 a 189. aula 22 – justiça e multiculturalismo Texto base: YOUNG, Iris Marion. “Polity and Group Difference: A Critique of the Ideal of Universal Citizenship” In: GOODIN, Robert e PETTIT, Phi- lip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Blackwell Publishing, Oxford, 2006, pp. 248 a 263. FGV DIREITO RIO 17
  • 18. TEORIa Da jusTIça Parte V: brasil: aplicações da teoria da justiça aula 24 – a questão racial Texto base: COSTA, Sergio e WERLE, Denílson. “Reconhecer as Diferenças. Liberais, Comunitaristas e as Relações Raciais no Brasil”. In: Teoria Social e Modernidade no Brasil. AVRITZER, Leonardo e DOMINGUES, José Mau- rício (orgs.). Editora UFMG, Belo Horizonte, 2000. aula 25 – política de cotas e ação afirmativa Texto base: Waltenberg, Fabio D. “Cotas nas Universidades Brasileiras. A Con- tribuição das Teorias de Justiça Distributiva ao Debate”. In: Revista Sinais Sociais, SESC, v. 2, n° 4, 2007. aula 26 – desigualdade e pobreza Texto base: PAES DE BARROS, Ricardo. “Desigualdade e Pobreza no Brasil. Retrato de uma Estabilidade Inaceitável”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 15, nº 42, 2000. aula 27 – cidadania e exclusão social Texto base: REIS, Elisa e SHWARTZMAN, Simon. “Pobreza e Exclusão Social: Aspectos Sócio-Políticos” In: As Causas da Pobreza. Editora da FGV, Rio de Janeiro, 2004, cap. 3. aula 28 – a teoria da justiça nos tribunais Texto base: Acórdãos selecionados aula 29 – a teoria da justiça nos tribunais Texto base: Acórdãos selecionados aula 30 – segunda avaliação FGV DIREITO RIO 18
  • 19. TEORIa Da jusTIça ii. Plano de aulas 1. Bloco i: justiça: conceitos e teorias introdução Com intuito de mostrar como a justiça pode revelar-se tanto em critério para avaliar normas como em critério para ordenar sociedades, o curso inicia-se com um resgate do conceito de justiça desde a sua origem na antiguidade clássica, a fim de apresentar e discutir alguns dos diversos significados que o mesmo veio a assumir ao longo do tempo. Embora o foco do curso como um todo seja a contemporaneidade, esta primeira parte busca cumprir a imposição necessária de expor as principais concepções de justiça que prevalecem, desde as obras de Platão e Aristóteles, como referências ine- vitáveis de qualquer teorização sobre o assunto. Assim, os alunos tomarão contato com os significados das concepções comutativa, retributiva, distributiva, procedi- mental, formal e material de justiça a fim de tornarem-se capazes de identificá-las e operacionalizá-las ao longo do curso. Por fim, a primeira parte do curso anunciará algumas das diversas teorias que se formam a respeito da justiça a partir daquelas diferentes concepções, revelando seu intento primordial de mostrar como a justiça serve de parâmetro avaliativo para a construção e reconstrução permanente do direito e da sociedade, bem como das instituições que os compõem. objetiVos Constituem objetivos deste bloco: • Definir o objeto da teoria da justiça; • Apontar como a teoria da justiça propicia uma interface entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política; • Definir, em caráter provisório, o que é a justiça; • Indicar a multiplicidade de conceitos e teorizações que a idéia de justiça admite; • Investigar alguns dos principais significados atribuídos ao conceito de justiça desde a antiguidade clássica; • Anunciar as principais concepções de justiça e as teorias que delas emanam; • Apresentar a teoria da justiça como uma disciplina interdisciplinar, apontan- do seu uso e relevância em diferentes disciplinas; • Mostrar como a teoria da justiça é relevante para desenvolver critérios para embasar a produção, legitimação e validade do direito; • Mostrar como a teoria da justiça é relevante enquanto critério para o esta- belecimento de princípios organizativos e ordenadores da sociedade, bem como para a definição e implementação de políticas públicas. FGV DIREITO RIO 19
  • 20. TEORIa Da jusTIça 1.1. aula 1: teoria da justiça: entre a FilosoFia do direito e a FilosoFia Política Texto base: RAPHAEL, D. D. Problems of Political Philosophy. Humanities Press, Atlantic Highlands, 1990, pp. 113 a 119. 1.1.1. introdução A Teoria da Justiça constitui certamente a disciplina de maior interface entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política. Enquanto objeto comum destes dois campos do saber, a Teoria da Justiça é largamente responsável por tê-los reavivado nas últimas décadas, constituindo-se em um dos principais temas da agenda teórica contemporânea. É tendo isso em mente que esta primeira aula introduzirá os alunos à Teoria da Justiça. 1.1.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Apresentar o curso, seu programa, metodologia e métodos de avaliação; • Definir com os alunos o cronograma do curso e o calendário das aulas e ava- liações; • Definir o objeto da teoria da justiça; • Apresentar a teoria da justiça como uma disciplina interdisciplinar, apontan- do seu uso e relevância em diferentes disciplinas; • Apontar como a teoria da justiça propicia uma interface entre a Filosofia do Direito e a Filosofia Política; 1.1.3. biblioGrafia obriGatória RAPHAEL, D. D. Problems of Political Philosophy. Humanities Press, Atlantic Highlands, 1990, pp. 113 a 119. 1.1.4. biblioGrafia coMPleMentar RAPHAEL, D. D. Concepts of Justice. Oxford University Press, Oxford, 2001, pp. 1 a 7. FGV DIREITO RIO 20
  • 21. TEORIa Da jusTIça 1.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Tendo em vista que esta é a primeira aula do curso e que o seu objetivo principal é apresentá-lo, a leitura da bibliografia não será exigida dos alunos, assim como não há atividade prévia que vise a aprofundá-la. 1.1.6. conclusão Espera-se que com esta aula os alunos sintam-se à vontade com o curso e in- teiramente informados a respeito de sua estrutura, funcionamento, metodologia e organização. Espera-se ainda que os alunos compreendam a importância da dis- ciplina no contexto acadêmico contemporâneo e que percebam a relevância que a mesma possui em sua formação profissional e pessoal, tanto no plano da aquisição e acúmulo de informações teóricas como no plano da aquisição e instrumentalização de conhecimentos práticos. FGV DIREITO RIO 21
  • 22. TEORIa Da jusTIça 1.2. aula 2: o que é justiça? Texto base: PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 3 a 33. 1.2.1. introdução Na aula de hoje serão apresentados e discutidos alguns dos diversos significados que o conceito de justiça veio a assumir ao longo do tempo. A importante diferença entre justiça formal e justiça material será explicitada, e diversos sentidos correntes do conceito de justiça serão discutidos. 1.2.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Definir, em caráter provisório, o que é a justiça; • Indicar a multiplicidade de conceitos e teorizações que a idéia de justiça ad- mite; 1.2.3. biblioGrafia obriGatória PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 3 a 33. 1.2.4. biblioGrafia coMPleMentar OPPENHEIM, Felix. “Justiça” In: BOBBIO, Norberto et alli. Dicionário de Po- lítica. Editora UNB, Brasília, pp. 660 a 666. 1.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após realizar a leitura do texto, o aluno deve tentar responder as seguintes ques- tões: 1. Qual é a dificuldade de se definir o conceito de justiça? 2. Quais são os seis exemplos de sentidos mais correntes do conceito de justiça? 3. Por que esses seis sentidos apresentam um caráter inconciliável? FGV DIREITO RIO 22
  • 23. TEORIa Da jusTIça 4. O que é a justiça formal? Como é possível defini-la de forma unívoca? 5. O que é a “justiça concreta” (material)? 6. Qual é a relação entre justiça formal e “concreta” (material)? 7. Pode a justiça opor-se ao direito? 8. Há um direito injusto? 1.2.6. conclusão Espera-se que ao final desta aula os alunos possam diferenciar as concepções for- mal e material de justiça. Além disso, espera-se que os alunos possam manejar com tranqüilidade alguns dos principais significados atribuídos à idéia de justiça desde a sua primeira formulação na antiguidade clássica. Entre esses significados encon- tram-se aqueles que definem a justiça a partir dos seguintes princípios: 1) a cada qual a mesma coisa; 2) a cada qual segundo seus méritos; 3) a cada qual segundo suas obras; 4) a cada qual segundo suas necessidades; 5) a cada qual segundo sua posição; 6) a cada qual segundo o que a lei lhe atribui. FGV DIREITO RIO 23
  • 24. TEORIa Da jusTIça 1.3. aula 3: conceitos e teorias da justiça Texto base: ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Editora UNB, Brasília, 1985, livro V. PLATÃO. A República. Editora Perspectiva, São Paulo, 2006, livro I. 1.3.1. introdução Esta aula apresentará as concepções comutativa, retributiva, distributiva e proce- dimental de justiça, bem como algumas teorias que se desenvolveram com base nelas. Neste contexto, será discutida a importância dessas concepções na atividade dos juízes e dos advogados. Ao se resgatar as concepções aristotélicas de justiça, buscar-se-á ana- lisar sua influência na formulação das concepções de justiça que conhecemos hoje. 1.3.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Investigar alguns dos principais significados atribuídos ao conceito de justiça desde a antiguidade clássica; • Anunciar algumas das principais concepções de justiça e as teorias que delas emanam; 1.3.3. biblioGrafia obriGatória ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Editora UNB, Brasília, 1985, livro V. PLATÃO. A República. Editora Perspectiva, São Paulo, 2006, livro I. 1.3.4. biblioGrafia coMPleMentar POSNER, Richard. Problemas de Filosofia do Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, cap. 11. 1.3.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após a leitura do texto indicado, os alunos devem esforçar-se para responder às seguintes questões: 1. O que é a justiça comutativa? Qual é a sua importância na atividade dos juízes e advogados? FGV DIREITO RIO 24
  • 25. TEORIa Da jusTIça 2. Qual é a contribuição de Aristóteles na formulação das concepções de justiça que conhecemos hoje? 3. Como o conceito aristotélico de justiça corretiva explica o sistema jurídico tal como o conhecemos? 4. Qual a relação entre a justiça comutativa e o Estado de Direito? 5. O que é justiça retributiva? 6. Em que medida a idéia de direito constitui um limite para a justiça retribu- tiva? 7. O que é justiça distributiva? 8. De acordo com o texto, qual a relação entre a concepção aristotélica de jus- tiça distributiva e as teorias distributivistas contemporâneas. 9. O que é justiça procedimental? 1.3.6. conclusão Espera-se que os alunos, ao final desta aula, possam identificar e manejar os significados das concepções comutativa, retributiva, distributiva e procedimental de justiça. Espera-se ainda que eles possam identificar algumas das diversas teorias que se formam a respeito da justiça a partir daquelas diferentes concepções. Em particular, espera-se que os alunos já possam reconhecer os fundamentos de algu- mas perspectivas contemporâneas que serão vistas ao longo do curso, especialmente aquelas que tomam a idéia de justiça distributiva como base. FGV DIREITO RIO 25
  • 26. TEORIa Da jusTIça 1.4. aula 4: a justiça entre o direito e a sociedade textos base: MILLER, David. Principles of Social Justice. Harvard University Press. Cambrid- ge, 2001, pp. 1 a 20. PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 68 a 84. 1.4.1. introdução Esta aula destina-se a mostrar como a justiça deve servir de parâmetro avaliativo para a construção e reconstrução permanente do direito e da sociedade, bem como das instituições que os compõem. 1.4.2. objetiVos Constituem objetivos desta aula: • Apontar como a teoria da justiça é relevante para desenvolver critérios para embasar a produção, legitimação e validade do direito; • Mostrar como a teoria da justiça é relevante enquanto critério para o esta- belecimento de princípios organizativos e ordenadores da sociedade, bem como para a definição e implementação de políticas públicas. 1.4.3. biblioGrafia obriGatória MILLER, David. Principles of Social Justice. Harvard University Press. Cambrid- ge, 2001, pp. 1 a 20. PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 68 a 84. 1.4.4. biblioGrafia coMPleMentar HART, Herbert L. A. O Conceito de Direito. Editora Fundação Calouste Gul- benkian. Lisboa, 1994, cap. 8. FGV DIREITO RIO 26
  • 27. TEORIa Da jusTIça 1.4.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após realizar a leitura dos textos selecionados, os alunos deverão tentar respon- der às seguintes perguntas: 1. Quais são os três aspectos da justiça, de acordo com Perelman? 2. Qual é o escopo da justiça social? De que se trata, quando se fala em justiça social? 3. Qual a relação entre justiça distributiva e justiça social? 4. Como a idéia de justiça social afeta a estrutura institucional das sociedades? 5. Qual é a relação entre a justiça social e a liberdade individual, de acordo com Miller? 6. Quais são os três aspectos da comunidade política que tornam a aplicação dos princípios de justiça viáveis e frutíferos? Explique-os. 1.4.6. conclusão Espera-se que com esta aula os alunos possam compreender a importância da jus- tiça para se pensar tanto o direito como a sociedade. Os alunos devem perceber que a justiça não é um conceito que importa apenas aos operadores do direito. A idéia de justiça pode ter um fundamento jurídico, mas ela tem um enorme impacto so- cial. Por isso, sua aplicação prática transcende em muito os limites do direito. Com esta aula, espera-se que os alunos possam desde já perceber o papel fundamental da teoria da justiça na reestruturação institucional das sociedades contemporâneas. ConClusão do BloCo: Espera-se que, ao final deste primeiro bloco do curso, os alunos já possam ope- rar com as principais definições, concepções e teorias da justiça. Neste momento, os alunos já devem ter alguma familiaridade com o objeto da disciplina e com as preocupações que a cercam. Eles devem também já se revelar capazes de distinguir as principais concepções de justiça e desenvolver uma curiosidade acerca das teorias contemporâneas que buscam dar conta delas. As relações entre justiça e direito, de um lado, e justiça e sociedade, de outro – e em particular entre justiça comutativa e justiça distributiva –, também devem estar bem definidas na cabeça de cada aluno, de modo que eles possam adentrar a segunda parte do curso cientes dos pressupos- tos compartilhados no debate contemporâneo acerca da teoria da justiça. FGV DIREITO RIO 27
  • 28. TEORIa Da jusTIça 2. Bloco ii: justiça como equidade noTAs Ao Aluno introdução A publicação de Uma Teoria da Justiça, por John Rawls, em 1971, levou ao renascimento da filosofia do direito, da filosofia política e da filosofia moral norte- americanas. Há muito adormecido nas malhas da filosofia analítica, o meio aca- dêmico daquele país tornou-se palco de um longo debate que ainda não se calou. Para além do Atlântico, inúmeras instituições universitárias e publicações científi- cas, além dos maiores teóricos em atividade, viram-se envolvidos nas indagações suscitadas por Rawls. Tão relevante quanto a enorme produção intelectual desen- cadeada pelo fluxo de respostas e de críticas é o ressurgimento e a reformulação de antigas formas e modelos de pensamento a partir da proposta de Rawls. Assim é que se pode perceber, por exemplo, a partir da década de setenta, um movimento no sentido de um neocontratualismo e de um novo utilitarismo. Além dos limites do pensamento liberal por excelência, as proposições rawlsianas indubitavelmente também contribuíram para o resgate e aprofundamento de outros temas, tais como o reconhecimento, o multiculturalismo e o feminismo. Tomando esse marco teórico como referência, esta segunda parte do curso, in- titulada “Justiça como Equidade”, busca apresentar algumas das mais importantes perspectivas do debate acerca da Teoria da Justiça que vêm sendo afirmadas ao lon- go das três últimas décadas. São elas: a perspectiva liberal, a perspectiva libertária, a perspectiva utilitarista e a perspectiva comunitarista. objetiVos Constituem objetivos deste bloco: • Apresentar o marco teórico a partir do qual a Teoria da Justiça começa a ga- nhar corpo; • Indicar o movimento de idéias por meio do qual a Teoria da Justiça conso- lida-se como um dos principais eixos temáticos da Filosofia do Direito e da Filosofia Política contemporâneas; • Estabelecer a relação entre as diversas perspectivas que definem a justiça como equidade, quais sejam as perspectivas liberal, libertária, utilitarista e comunitarista; • Apontar a continuidade existente entre essas diversas perspectivas; • Revelar o diálogo interno travado entre os expoentes de cada uma dessas maneiras de conceber-se a justiça; FGV DIREITO RIO 28
  • 29. TEORIa Da jusTIça • Esclarecer o fundamento crítico que move e permeia o debate sobre a Te- oria da Justiça desde a publicação do livro homônimo por John Rawls, em 1971; • Contrastar as diferentes maneiras de se abordar um mesmo objeto, a justiça, dentro de uma mesma abordagem teórica, o liberalismo; • Evidenciar como cada uma das perspectivas analisadas confere um papel dis- tinto para o direito e para o Estado; • Explicitar como cada uma das perspectivas analisadas atribui um lugar dife- rente para a liberdade e a igualdade; • Incentivar os alunos a adotarem uma postura crítica em face de cada uma das perspectivas estudadas e posicionarem-se a respeito delas. FGV DIREITO RIO 29
  • 30. TEORIa Da jusTIça 2.1. A PersPeCTivA liBerAl A perspectiva liberal tem o próprio John Rawls como seu principal expoente. Rawls é definitivamente o principal nome associado à teoria da justiça, tendo sido o seu livro homônimo publicado em 1971, o principal ponto de partida para reto- mada das filosofias jurídica, política e moral após um longo período de predomínio da filosofia analítica no cenário acadêmico norte-americano. FGV DIREITO RIO 30
  • 31. TEORIa Da jusTIça 2.1.1. aula 5: a justiça como equidade Texto base: RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, parte1 (1 a 11) e parte 3 (23 a 25). 2.1.1.1. introdução Ao publicar Uma Teoria da Justiça, Rawls esclarece no prefácio que o seu objetivo é “generalizar e elevar a uma ordem mais alta de abstração a teoria tradicional do contrato social representada por Locke, Rousseau e Kant” (Uma Teoria da Justiça, p. xxii). O objetivo desta retomada do modelo contratualista é propor um sistema de justiça, ou seja, oferecer uma determinada concepção de justiça como a melhor dentre as alternativas conhecidas pela sociedade. Segundo Rawls, “não se deve pensar no contrato original [a posição original] como um contrato que introduz uma sociedade particular ou que estabelece uma Rawls apresenta as partes na forma particular de governo. Pelo contrário, a idéia norteadora é que os princípios 1 posição original essencialmente de justiça para a estrutura básica da sociedade são o objeto do consenso original” como seres racionais. são pes- soas que sabem que têm um (Uma Teoria da Justiça, p.12). Rawls acredita que o procedimento característico das plano racional de vida, mas que desconhecem a sua concepção teorias contratualistas fornece um método analítico geral para o estudo comparativo de bem, assim como os interes- de diferentes concepções de justiça. São vários os autores que virão posteriormente ses e os objetivos particulares que objetivam promover. Rawls a concordar com isso e valer-se do método contratualista para elaborar e defender supõe que apesar destas restri- ções, estas pessoas estão aptas suas concepções de justiça. a decidir qual concepção de O procedimento contratualista que Rawls elabora para demonstrar como a sua justiça lhe trará mais benefícios, uma vez que elas presumem concepção de justiça (a “justiça como equidade”) é a melhor alternativa existente que geralmente preferem ter uma quantidade maior de bens para organizar a sociedade baseia-se na idéia de posição original. A posição original sociais primários, ao invés de (ou situação inicial) representa o próprio momento contratual. Trata-se de uma uma menor. assim, embora não tenham nenhuma informação a situação puramente hipotética. Vale dizer, não se requer que sua descrição ocorra respeito de seus objetivos parti- culares, as partes têm conheci- concretamente, basta que a simulemos. Como afirma Rawls, “não se pretende que mento suficiente para classificar a concepção da posição original explique a conduta humana, exceto na medida as alternativas existentes. Esta racionalidade das partes, Rawls em que ela tenta dar conta de nossos juízos morais e nos ajuda a explicar o fato de denomina de “racionalidade mutuamente desinteressada”. termos um senso de justiça” (Uma Teoria da Justiça, p.130). Rawls se vale de uma as partes não são pessoas ego- demonstração que se pretende dedutiva para mostrar que o reconhecimento dos ístas e presume-se que elas têm um senso de justiça, e que dois princípios de justiça que formam a concepção de justiça como equidade é a esse fato é compartilhado en- tre elas. Esse senso de justiça única escolha consistente com a descrição completa da posição original. significa que as partes podem Como se verifica este processo de escolha? Em primeiro lugar, as partes na posição confiar umas nas outras e que todas entendem e agem con- original não se confrontam com todas as concepções de justiça possíveis e existentes, forme os princípios acordados, quaisquer que sejam eles. Vale além de não serem capazes de, por si só, gerarem essas alternativas através de suas dizer, uma vez reconhecidos os deliberações.1 Rawls admite estes fatos e acredita que essas limitações fragilizam e princípios, as partes podem ter uma confiança mútua quanto à tornam incompleto o procedimento de escolha, porém afirma que isso é inevitável. sua obediência. assim, as partes são racionais no sentido de não Para lidar com esse problema, recorre então a uma lista das concepções tradicionais fazerem acordos que sabem de justiça. Esta pequena lista será apresentada às partes, que deverão, unanimemente, que não poderiam manter, ou que só poderiam manter com escolher, como a melhor, uma única concepção dentre as enumeradas. Rawls supõe grande dificuldade. FGV DIREITO RIO 31
  • 32. TEORIa Da jusTIça que essa decisão é alcançada após uma série de comparações feitas em pares. O ob- 2 Com o intuito de assegurar um ponto de partida de igualdade jetivo é demonstrar que os dois princípios da justiça como equidade são preferíveis, e garantir a neutralidade e a imparcialidade de sua teoria da uma vez que todos na posição original concordam que eles devem ser escolhidos em justiça, Rawls cobre as partes na detrimento de todas as demais alternativas. posição original com um véu que “busca anular os efeitos das Qual é o raciocínio que as partes empregam para chegar aos dois princípios de contingências específicas que colocam os homens em posi- justiça? Rawls descreve este raciocínio a partir da suposição do comportamento de ções de disputa, tentando-os a uma pessoa qualquer na posição original. Submetida às restrições formais do concei- explorar as circunstâncias natu- rais e sociais em seu próprio be- to de justo, além daquelas impostas pelo véu da ignorância, Rawls acredita que não nefício” (Uma Teoria da Justiça, p.147). assim, as partes devem é razoável que essa pessoa espere mais do que uma parte igual na divisão dos bens avaliar os princípios de justiça sociais primários, além de não ser racional que concorde em obter menos.2 Logo, apenas com base em conside- rações gerais, desconhecendo essa pessoa deveria escolher de antemão um princípio que preveja uma distribuição como cada concepção de justi- ça alternativa apresentada na igual, vale dizer, um princípio que garanta liberdades básicas iguais para todos, bem posição original pode afetar o como outro que assegure uma igualdade equitativa de oportunidades. seu caso particular. as restrições impostas pelo véu da ignorân- Porém, é preciso também lidar com a suposta existência de desigualdades econô- cia podem ser consideradas a partir de dois ângulos. as partes micas e institucionais. As partes na posição original são mutuamente desinteressa- desconhecem as circunstâncias das, não são seres altruístas ou egoístas, mas estão cobertas pelo véu da ignorância. particulares de sua própria pessoa, bem como as de sua Devem, assim, lidar com o fato da desigualdade, prevendo um princípio que a sociedade. Quanto a si próprias, as partes na posição original permita contanto que ela venha a melhorar a situação de todos, inclusive daqueles não conhecem: seu lugar na que podem vir a ser, uma vez levantado o véu da ignorância, os menos favorecidos. sociedade, sua posição e status social, seus dotes naturais e Chegam então, as partes, ao princípio da diferença. habilidades, sua inteligência e força, sua concepção de bem, Rawls acredita que através deste raciocínio as partes não apenas concluem pelos e nem mesmo características dois princípios, como também pela sua ordem serial. “Na posição original as partes psicológicas pessoais como o humor. Quanto à sociedade em não sabem que formas particulares seus interesses assumirão; mas elas supõem que que vivem, as partes ignoram sua situação econômica e polí- têm esses interesses e também que as liberdades básicas exigidas para protegê-los são tica, seu grau de cultura e civi- garantidas pelo primeiro princípio. Como precisam assegurar esses interesses, clas- lização, além de não possuírem nenhuma informação sobre sificam o primeiro princípio como prioritário em relação ao segundo” (Uma Teoria a qual geração pertencem. O véu da ignorância, portanto, da Justiça, p.163). exclui o conhecimento de todo Demonstrar esse processo de raciocínio pode parecer simples; difícil é provar re- e qualquer fato particular, com exceção do fato que “a sua almente que as partes chegariam a essa escolha, principalmente considerando todas sociedade está sujeita às cir- cunstâncias da justiça e a qual- as restrições a que estão impostas. Rawls sabe disso e, para reforçar seu argumento quer conseqüência que possa em favor dos dois princípios, afasta justificações de cunho probabilístico e submete decorrer disso” (Uma Teoria da Justiça, p.147-148). No entanto, o raciocínio das partes à regra maximin.3 Rawls parte então para uma descrição as partes não estão excluídas do conhecimento de dados gerais paradigmática da posição original, reforçando a situação de incerteza em que se sobre a natureza humana e a encontram as partes, a fim de mostrar que os dois princípios de justiça seriam efe- sociedade. Nesse sentido, elas entendem as relações políticas tivamente escolhidos, pois representam um mínimo que as partes não colocariam e os princípios da teoria eco- nômica, a base da organização em risco em nome de maiores vantagens econômicas e sociais. Conforme acredita social, bem como as leis que o autor: “há uma relação entre os dois princípios e a regra maximin para a escolha regem a psicologia humana. a idéia do véu da ignorância con- em situações de incerteza. Isso fica evidente à luz do fato de que os dois princípios siste, portanto, em assegurar a justiça dos princípios esco- de justiça são aqueles que uma pessoa escolheria para a concepção de uma socie- lhidos. afinal, se na escuridão dade em que o seu lugar lhe fosse atribuído por seu inimigo” (Uma Teoria da Justi- e incerteza do véu podemos identificar os princípios de justi- ça, p.165). É assim, finalmente, que Rawls demonstra que os princípios da justiça ça que nos são mais desejáveis, ou seja, preferir determinados como equidade consistem na melhor entre as piores alternativas existentes para arranjos em detrimento de ou- ordenar-se a sociedade. tros, então nossa escolha tem um bom motivo para ser tida como a escolha justa. FGV DIREITO RIO 32
  • 33. TEORIa Da jusTIça 2.1.1.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Discutir a concepção de “justiça como equidade” tal como formulada por John Rawls; • Explicar o procedimento contratualista que se encontra na base da idéia de justiça como equidade; • Esclarecer o papel e a função do conceito de “posição original”; • Observar que a concepção de justiça como equidade representa um caso de justiça procedimental pura; • Revelar o caráter universalista e a-histórico da idéia de justiça como equidade; • Ressaltar a garantia da igualdade de ponto de partida na formulação da jus- tiça como equidade; • Questionar a desconsideração da pluralidade das pessoas na formulação da justiça como equidade; • Incentivar os alunos a refletirem sobre uma eventual aplicabilidade do modelo contratualista de Rawls para redesenhar as instituições da sociedade brasileira. 2.1.1.3. biblioGrafia obriGatória RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fon- tes, São Paulo, 2003, parte1 (capítulos 1 a 8) e parte 3 (capítulos 23 a 25). 2.1.1.4. biblioGrafia coMPleMentar DE VITA, Álvaro. Justiça Liberal, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1993. OLIVEIRA, Nythamar de. Rawls. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003. RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1989. ROUANET, Luis Paulo. Rawls e o Enigma da Justiça. Editora Unimarco, São Paulo, 2003. 3 “Maximin” é abreviação de maximum minimorum; trata-se 2.1.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura da idéia de que em situações de escolha na incerteza deve- se optar pela alternativa cujo Os conceitos desenvolvidos por Rawls são referências centrais em todo o debate pior resultado possível é me- lhor que os piores resultados sobre a teoria da justiça, desde o início da década de setenta até os dias de hoje. O possíveis das demais alternati- vas. É preciso ter cuidado para método contratualista desenvolvido por Rawls e os conceitos criados para explicá-lo não confundir o princípio (ou são discutidos por quase todos os autores que serão estudados ao longo deste curso. regra) maximin de decisão em condições de incerteza com o Tendo em vista, portanto, a importância capital do conteúdo desta e das próximas princípio maximin de justiça social, que é também uma de- duas aulas, recomenda-se aos alunos que realizem, como atividade de aproveita- nominação muito usada para o mento da leitura, um fichamento da bibliografia obrigatória desta aula. princípio da diferença. FGV DIREITO RIO 33
  • 34. TEORIa Da jusTIça Os alunos que realizarem o fichamento podem, se quiserem, entregá-lo à profes- sora que o corrigirá de bom grado. 2.1.1.6. conclusão Espera-se que ao final desta aula os alunos já consigam identificar as principais características da concepção de justiça como equidade. Em particular, espera-se que eles tenham apreendido o significado da “sociedade como um sistema justo de co- operação”, da idéia de “sociedade bem-ordenada”, da idéia de “estrutura básica”, do conceito de “posição original” e do conceito de “véu da ignorância”. FGV DIREITO RIO 34
  • 35. TEORIa Da jusTIça 2.1.2. aula 6: os PrincíPios de justiça e a Prioridade das liBerdades Básicas Texto base: RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, parte 2 (12-18) e parte 3 (30 e 33). 2.1.2.1. introdução O primeiro objeto dos princípios da justiça como equidade é a estrutura básica da sociedade, isto é, a ordenação das principais instituições sociais em um esquema de cooperação. Os princípios de justiça têm, portanto, a função de orientar a atri- buição de direitos e deveres nessas instituições e determinar a distribuição adequada dos benefícios e encargos da vida social. É importante frisar que Rawls refere-se a duas espécies de princípios: os princípios de justiça para instituições e os princípios que se aplicam aos indivíduos. Os princípios de justiça para instituições constituem os dois famosos princípios escolhidos pelas partes na posição original. Em Uma Teoria da Justiça, Rawls cons- trói e elabora a definição desses princípios paulatinamente até chegar à sua formu- lação final: Primeiro Princípio: “Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais abrangente sistema total de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema seme- lhante de liberdades para todos”. Segundo Princípio: “As desigualdades econômicas e sociais devem ser ordenadas de tal modo que, ao mesmo tempo: (a) tragam o maior benefício possível para os menos favorecidos, obedecendo às restrições do princípio da poupança justa, e (b) sejam vinculadas a cargos e posições abertos a todos em condições de igualda- de equitativa de oportunidades”. Esses princípios não podem ser aplicados indiscriminadamente, mas devem obe- decer a uma ordenação serial (ou “ordenação léxica”), ou seja, o primeiro antecede o segundo. Essa ordem de aplicação explica-se pelo fato de que as violações das liberdades básicas iguais protegidas pelo primeiro princípio não podem ser justifi- cadas nem compensadas por maiores vantagens econômicas e sociais. Essa situação dá origem então ao que Rawls classifica como a primeira regra de prioridade: a prioridade da liberdade. Primeira Regra de Prioridade – Os princípios de justiça devem ser classificados em ordem lexical e, portanto, as liberdades básicas só podem ser restringidas em nome da liberdade. FGV DIREITO RIO 35
  • 36. TEORIa Da jusTIça Há também uma segunda regra de prioridade, qual seja a da prioridade da justiça sobre a eficiência e sobre o bem-estar: Segunda Regra de Prioridade – O segundo princípio de justiça é lexicamente ante- rior ao princípio da eficiência e ao princípio da maximização da soma de vantagens; e a igualdade equitativa de oportunidades é anterior ao princípio da diferença. Os princípios rawlsianos não estão apenas condicionados por estas relações de 4 É possível identificar dois mo- mentos distintos em que Rawls prioridade em sua aplicação, mas também às chamadas restrições formais do conceito submete sua obra à revisão, in- de justo. Estas limitam o conhecimento das partes e as alternativas a elas oferecidas corporando críticas, reformulan- do idéias e recriando conceitos. na posição original através de algumas condições impostas aos princípios de justiça. O primeiro desses momentos dá-se em 1975, quando Rawls São elas: revisa Uma Teoria da Justiça para publicação na língua ale- mã. Neste momento, são feitas • Generalidade: Os princípios devem ser gerais, ou seja, sua formulação deve apenas algumas correções com o objetivo de corrigir duas ser possível sem o uso do que reconheceríamos intuitivamente como o nome fragilidades que acredita ter de uma pessoa ou descrições definidas disfarçadas; encontrado em sua formulação original. a primeira delas diz • Universalidade: Os princípios devem ser universais em sua aplicação. Devem respeito à concepção de liber- dade. Rawls passa a afirmar que aplicar-se a todos, porque todos são pessoas éticas. Devem ser escolhidos em os direitos e liberdades básicas vista das conseqüências decorrentes de sua aceitação por todos; e sua prioridade são tidos como uma garantia, igualmente para • Publicidade: Trata-se de condição decorrente do uso da abordagem contratu- todos os cidadãos, de condi- ções sociais essenciais para o alista. As partes acreditam que estão escolhendo princípios de uma concep- adequado desenvolvimento e o ção comum de justiça que serão conhecidos por todos; exercício pleno e informado de suas duas capacidades morais • Ordenação: Os princípios de justiça devem ajustar reivindicações conflitan- – isto é, a capacidade de ter um senso de justiça e de pos- tes, impondo às mesmas uma ordenação; suir uma concepção de bem. • Caráter Terminativo: O sistema de princípios deve ser visto pelas partes como as liberdades políticas iguais também ganham um “valor a última instância de apelação do raciocínio prático. Vale dizer, o raciocínio justo”. a segunda fragilidade de Uma Teoria da Justiça refere-se feito a partir dos princípios de justiça é conclusivo. à concepção de bens primários. Isso leva Rawls a reformular seu conceito de pessoa, que passa a Estes são, por conseguinte, os cinco grupos de condições formais do conceito de jus- possuir aquelas duas capacida- des morais e ter uma ordem de to, que pode ser sintetizado nas seguintes palavras de Rawls: “Uma concepção do justo interesses no desenvolvimento é um conjunto de princípios gerais em sua forma e universais em sua aplicação, que e exercício dessas capacidades. Os bens primários passam a deve ser publicamente reconhecido como última instância de apelação para a ordenação ser caracterizados como aquilo que as pessoas precisam em das reivindicações conflitantes de pessoas éticas” (Uma Teoria da Justiça, p.145). sua condição de cidadãos li- A formulação original dos dois princípios de justiça foi revista por Rawls em suas vres e iguais e como membros plenamente cooperativos de famosas Tanner Lectures (“As Liberdades Básicas e sua Prioridade”), publicadas em uma determinada sociedade ao longo de suas vidas. O segundo 1982 e posteriormente incorporadas em O Liberalismo Político.4 Neste livro, Rawls momento de revisão ocorre destaca a importância de os princípios de justiça servirem como diretrizes para a for- em 1993, com a publicação de O Liberalismo Político. Neste ma pela qual as instituições básicas devem realizar os valores de liberdade e igualdade. momento, realmente pode-se dizer que as mudanças foram A nova redação dos princípios de justiça em O Liberalismo Político passa a ser: substantivas. Mais do que corri- gir eventuais imprecisões, nesse momento de sua obra política “Primeiro Princípio: Todas as pessoas têm igual direito a um projeto inteiramente Rawls reconhece deficiências em sua teoria que abalam a satisfatório de direitos e liberdades básicas iguais para todos, projeto este compatível própria estabilidade de seu com todos os demais; e, nesse projeto, as liberdades políticas, e somente estas, deve- modelo. as alterações feitas chegam a recriar e criar novos rão ter seu valor eqüitativo garantido.” conceitos. FGV DIREITO RIO 36
  • 37. TEORIa Da jusTIça “Segundo Princípio: As desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer dois requisitos: primeiro, devem estar vinculadas a posições e cargos abertos a todos, em condições de igualdade equitativa de oportunidades; e segundo, devem representar o maior benefício possível aos membros menos privilegiados da sociedade.” Tendo em vista estas modificações teóricas incorporadas em O Liberalismo Polí- tico, Rawls passa a afirmar os princípios de justiça como manifestações do conteúdo de uma concepção política liberal de justiça. São três as características principais desta concepção que passa a substituir a concepção de justiça como equidade: • A especificação de certos direitos, liberdades e oportunidades básicas; • A atribuição de uma prioridade especial a esses direitos, liberdades e oportu- nidades, principalmente no que diz respeito às exigências do bem geral e de valores perfeccionistas; • O estabelecimento de medidas que assegurem a todos os cidadãos os meios polivalentes adequados para que suas liberdades e oportunidades sejam efeti- vamente postas em prática. Outros três elementos passam também a determinar que os dois princípios de justiça expressem uma forma igualitária de liberalismo: • A garantia do valor equitativo das liberdades políticas, de modo que as mesmas não sejam puramente formais; • A igualdade equitativa de oportunidades; • O princípio da diferença.5 Outra informação importante à compreensão sistemática do significado dos princípios de justiça na obra de Rawls é acrescentada em O Liberalismo Político. Tra- ta-se da pressuposição de outro princípio, lexicamente anterior ao primeiro, “que prescreva a satisfação das necessidades básicas dos cidadãos, ao menos à medida que a satisfação dessas necessidades seja necessária para que os cidadãos entendam e tenham condições de exercer de forma fecunda esses direitos e liberdades” (O Li- beralismo Político, p. 49). Rawls vai ainda mais longe. O que ele quer, na verdade, é afirmar que seus princípios de justiça estão implícitos no que ele chama de um fundo comum da cultura pública das sociedades democráticas. 2.1.2.2. objetiVos 5 Trata-se de denominação pela São objetivos desta aula: qual ficou conhecida a segunda parte do segundo princípio, de acordo com a qual as desigual- dades sociais e econômicas • Discutir os dois princípios de justiça como equidade; devem ser ajustadas de modo • Explicar o significado da prioridade da liberdade; a representar o maior benefício possível para os membros me- • Explicitar o significado da prioridade da justiça sobre a eficiência e o bem-estar; nos privilegiados da sociedade. FGV DIREITO RIO 37
  • 38. TEORIa Da jusTIça • Debater as restrições formais do conceito de justo; • Anunciar as revisões feitas por Rawls em sua teoria da justiça e o seu impacto na formulação dos dois princípios de justiça; • Indicar como a concepção de justiça como equidade converte-se numa “con- cepção política liberal de justiça”; • Questionar as características da concepção política de justiça e da forma igualitária de liberalismo que ela representa; • Debater o significado do princípio da diferença, estimulando os alunos para que se posicionem em relação a ele; • Problematizar o conteúdo da aula diante da recente experiência brasileira no campo das ações afirmativas. Em particular, discutir a aplicabilidade do princípio da diferença na atual política de cotas adotada pelas universidades brasileiras. 2.1.2.3. biblioGrafia obriGatória RAWLS, John. Justiça como Equidade: Uma Reformulação. Editora Martins Fon- tes, São Paulo, 2003, parte 2 (12-18) e parte 3 (30 e 33). 2.1.2.4. biblioGrafia coMPleMentar CITTADINO,Gisele. Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva, Editora Renovar, Rio de Janeiro, 1999. DANIELS, Norman. Reading Rawls, Stanford University Press, Stanford, 1989. 2.1.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Propõe-se para a aula de hoje uma atividade bastante divertida: os alunos devem exercitar a sua imaginação e, de forma breve e simplificada, colocar no papel quais os princípios de justiça que gostariam de ver aplicados na reconstrução das institui- ções da sociedade brasileira. Aqueles que se aventurarem a realizar esta tão prazerosa tarefa podem, se quise- rem, entregar o resultado para a professora, que o lerá com muita satisfação. 2.1.2.6. conclusão Espera-se que ao final desta aula os alunos tenham compreendido os dois famosos princípios da justiça como equidade. Além disso, espera-se que eles atentem para as revisões que Rawls fez em sua teoria e que o levaram a reformular os dois princípios transformando a concepção de justiça como equidade em uma concepção política FGV DIREITO RIO 38
  • 39. TEORIa Da jusTIça liberal de justiça. Os alunos devem ainda compreender o significado da prioridade das liberdades básicas e da justiça sobre a eficiência e o bem-estar. Finalmente, espera- se que os alunos desenvolvam uma postura crítica diante do princípio da diferença e revelem-se capazes de articulá-lo à realidade brasileira atual, em especial no que toca às políticas de ação afirmativa e os programas de cotas nas universidades nacionais. FGV DIREITO RIO 39
  • 40. TEORIa Da jusTIça 2.1.3. aula 7: justiça, Pluralismo e democracia Texto base: RAWLS, John. Liberalismo Político. Editora Ática, São Paulo, 2000, caps. IV (1-7) e VI (1-6). 2.1.3.1. introdução A transição no pensamento de John Rawls que irá conduzi-lo à publicação de O Liberalismo Político, em 1993, parece se iniciar cerca de dez anos antes em confe- rências dadas por ele na Universidade de Columbia, em Nova York. Publicados em toda a sua longa extensão sob o título “Kantian Constructivism in Moral Theory”, esses seminários levaram Rawls a repensar seu modelo e perceber algumas incon- sistências internas implícitas em seu argumento original da justiça como equidade. Ao se perguntar como pessoas razoáveis, possuindo diferentes doutrinas abrangen- tes razoáveis, podem aceitar a mesma concepção de justiça liberal como uma base compartilhada de justificação, razão pública e unidade social, Rawls conclui que sua concepção de justiça apresenta problemas de estabilidade e legitimidade política. A partir dessa constatação, publicará vários artigos seminais nos quais: • Afirma o caráter político de sua concepção de justiça e introduz a idéia do fato do pluralismo razoável, substituindo o conceito de pluralismo simples; • Elabora o conceito de consenso sobreposto, não mais se referindo a um consen- so simples; • Introduz o conceito de razão pública. São estes os conceitos que vieram a dar auto-sustentação, estabilidade e unidade à teoria rawlsiana. Os artigos nos quais eles foram elaborados formam o material básico de O Liberalismo Político, após ganharem novas revisões e ampliações. Acom- panhando o movimento de transformação da justiça como equidade em uma con- cepção política de justiça, esta aula será dedicada ao estudo desses três conceitos. 1) o fato do Pluralismo razoável Já na introdução de O Liberalismo Político, Rawls afirma que a descrição da es- tabilidade por ele empreendida em Uma Teoria da Justiça não é coerente com a totalidade de sua visão. E é justamente a eliminação desta incoerência, assevera, que responde pelas diferenças entre Uma Teoria da Justiça e O Liberalismo Político. E qual seria esta incoerência? A descrição do conceito de “sociedade bem ordenada”, que em Uma Teoria da Justiça encontra-se assentada na idéia de que todos os seus cidadãos endossam a justiça como equidade como uma doutrina filosófica abran- gente. Trata-se do fato do pluralismo ou pluralismo simples. Ou seja, em Uma Teo- ria da Justiça, as pessoas endossam a justiça como equidade através de sua aderência FGV DIREITO RIO 40
  • 41. TEORIa Da jusTIça a uma mesma doutrina filosófica abrangente. Já em O Liberalismo Político, Rawls quer justamente reforçar o contraste entre doutrinas filosóficas e morais abrangentes e uma concepção de justiça limitada ao domínio do político. Rawls admite que a cultura política de uma sociedade democrática necessaria- mente caracteriza-se pela pluralidade e diversidade de doutrinas religiosas, filosófi- cas e morais. E não se trata apenas de constatar esta diversidade: trata-se de reconhe- cê-la como uma pluralidade de doutrinas conflitantes e irreconciliáveis. Em outras palavras, trata-se de reconhecer o pluralismo razoável. Falar em pluralismo razoável não significa falar apenas de uma pluralidade de doutrinas abrangentes e razoáveis, mas de assumir a sua incompatibilidade e mesmo a possibilidade de existência de doutrinas pouco razoáveis, irracionais ou absurdas. O Liberalismo Político, portanto, tem a tarefa de demonstrar como uma concepção de justiça fundada em instituições democráticas livres deve necessariamente levar em conta o fato do pluralismo razoável. O pluralismo razoável é o primeiro dos cinco “fatos gerais” que caracterizam a cultura política de uma sociedade democrática. A diversidade de doutrinas abran- gentes não é uma simples condição histórica que pode desaparecer, mas um traço permanente da cultura pública da democracia. Mais ainda, o pluralismo razoável é o resultado natural da razão humana sob instituições livres. Rawls reconhece que sua idéia de sociedade bem-ordenada de justiça como equidade não é nada realista ao perceber que não há como ignorar o fato de que em uma sociedade democrática moderna: • Não há apenas uma pluralidade de doutrinas abrangentes, mas uma plurali- dade de doutrinas abrangentes e razoáveis, e, ainda assim, incompatíveis; • É inócuo acreditar que todos os cidadãos professem uma mesma doutrina razoável ou que um dia possam vir a fazê-lo; • A concepção de justiça compartilhada pelos cidadãos não pode derivar exclu- sivamente de uma doutrina abrangente; vale dizer, uma doutrina abrangente e razoável não pode garantir a base da unidade social; • Uma doutrina abrangente e razoável não pode, por si só, oferecer o conteúdo da razão pública sobre questões políticas fundamentais. Rawls depara-se então não apenas com um problema de estabilidade em sua teoria, mas também com um problema de legitimidade. As bases do acordo não podem mais ser as mesmas, isto é, não podem mais ser constituídas por uma doutrina geral e abrangente. Torna-se então necessária uma concepção política de justiça, ou seja, uma concepção neutra, à qual as doutrinas abrangentes e razoáveis dos cidadãos possam aderir. Mais do que isso, torna-se necessária uma nova base de justificação. Para verificar a legitimidade da concepção política de justiça e testar a estabilidade e a unidade da sociedade bem-ordenada que ela representa, torna-se necessário, assim, introduzir um novo conceito: o consenso sobreposto. FGV DIREITO RIO 41
  • 42. TEORIa Da jusTIça 2) o consenso sobreposto O conceito de consenso sobreposto foi introduzido por Rawls em 1985 com a pu- blicação do artigo “Justice as Fairness: Political not Metaphysical”, no qual foi oferecida também sua primeira exposição sistemática. Ao demonstrar a justiça como equidade como uma concepção política de justiça, Rawls relaciona o pluralismo razoável com o consenso sobreposto. Este viria a reforçar a concepção política de justiça ao incluir todas as doutrinas religiosas e filosóficas opostas entre si e suscetíveis de se manterem e ganharem adeptos em uma democracia constitucional. Prevendo possíveis críti- cas, tece, naquele momento, dois argumentos para afastar a compreensão de que o consenso sobreposto seria uma idéia essencialmente hobbesiana. Em primeiro lugar, afirma que justiça como equidade é uma concepção moral, de modo que o consenso que propõe não consiste em um mero modus vivendi. Em segundo lugar, assevera que cada uma das doutrinas abrangentes que compõem o consenso sobreposto aceitam a justiça como equidade a seu modo, a partir de seu próprio ponto de vista. Pouco antes de lançar O Liberalismo Político, Rawls publicou um importante artigo intitulado “The Domain of the Political and Overlapping Consensus”, o qual explica que a visão geral de cada cidadão tem duas partes: uma coincide com uma concepção política de justiça e a outra é (total ou parcialmente) uma doutrina abrangente à qual a concepção política se relaciona de alguma forma. Explica-se assim como que, dado o fato do pluralismo razoável, instituições livres conquistam a aquiescência e a obediência necessárias para durar ao longo dos tempos. Finalmente, em O Liberalismo Político, Rawls tenta definitivamente consolidar sua concepção de justiça resolvendo os problemas de estabilidade e de unidade de sua teoria. Neste sentido, explica que “a unidade social baseia-se num consenso sobre a concepção política, e a estabilidade é possível quando as doutrinas que cons- tituem o consenso são aceitas pelos cidadãos e as exigências da justiça não conflitam gravemente com seus interesses essenciais” (O Liberalismo Político, 179). Vale ainda mencionar que Rawls formula também uma idéia de consenso consti- tucional em contraposição à idéia de consenso sobreposto. O consenso constitucio- nal seria anterior ao consenso sobreposto e teria como objeto certos princípios de liberdades e direitos políticos fundamentais e procedimentos democráticos. Partin- do da idéia de cooperação, Rawls demonstra as forças que levarão sua concepção liberal de justiça enquanto simples modus vivendi a transformar-se em um consenso constitucional e posteriormente em um consenso sobreposto. 3) a razão Pública Em O Liberalismo Político encontra-se uma boa definição da idéia de razão pú- blica: “a razão pública é característica de um povo democrático: é a razão de seus cidadãos, daqueles que compartilham o status de cidadania igual. O objeto dessa razão é o bem do público: aquilo que a concepção política de justiça requer da es- trutura básica das instituições da sociedade e dos objetivos e fins a que devem servir” (O Liberalismo Político, pp. 261-262). FGV DIREITO RIO 42
  • 43. TEORIa Da jusTIça É importante ressaltar que nem todas as razões são públicas. Há muitas razões não-públicas, como é o caso das igrejas, universidades e demais associações da so- ciedade civil. A razão pública, no entanto, é única, pois é a razão de cidadãos iguais que exercem um poder político final e coercitivo uns sobre os outros ao promulgar leis e emendar sua Constituição. Rawls afirma que a razão pública não se aplica a todas as questões políticas, mas apenas àquelas que envolvem os chamados “elementos constitucionais essenciais” e também questões de justiça básica. Rawls acredita que somente os valores políticos devem resolver questões fundamentais, isto é, questões que constituem o objeto da razão pública. A razão pública aplica-se não apenas aos cidadãos, mas também aos Poderes do Estado. Em outras palavras, os representantes do Legislativo quando se pronun- ciam e deliberam oficialmente, os detentores de cargos executivos em seus atos e pronunciamentos públicos, e os juízes – sobretudo os magistrados constitucionais – ao exercerem o controle de constitucionalidade e motivarem suas decisões, fazem uso da razão pública. A razão pública defendida por Rawls implica também uma concepção ideal de cidadania para um regime democrático constitucional. Este ideal de cidadania de- mocrática impõe um “dever de civilidade” (que é também um dever moral) que atribui a cada cidadão a responsabilidade de explicar aos demais como os princípios e políticas que defende e vota podem ser sustentados pelos valores políticos da razão pública. Este dever de civilidade, somado aos valores do político, produz o ideal de cidadãos governando a si mesmos, de um modo que cada qual acredita que seria razoável esperar que os outros aceitem. Sendo esse ideal sustentado pelas doutrinas abrangentes, “os cidadãos defendem o ideal de razão pública não em conseqüência de uma barganha política, como num modus vivendi, mas em virtude de suas pró- prias doutrinas razoáveis” (O Liberalismo Político, p. 267). 2.1.3.2. objetiVos Constituem objetivos desta aula: • Discutir a relação entre justiça, pluralismo e democracia; • Questionar os problemas que o pluralismo coloca para a justiça e a demo- cracia; • Analisar o significado do “fato do pluralismo razoável”; • Indagar se no Brasil existe um pluralismo razoável e como ele se compatibi- liza com a justiça; • Explicitar a idéia de consenso sobreposto; • Incentivar uma postura cética mediante a idéia de consenso sobreposto, ten- do em vista a sua configuração como um simples modus vivendi; • Questionar se o consenso sobreposto é um conceito que pode traduzir a rea- lidade, sobretudo a realidade brasileira; FGV DIREITO RIO 43
  • 44. TEORIa Da jusTIça • Examinar criticamente a idéia rawlsiana de razão pública; • Debater o eventual uso de uma razão pública pelos três poderes do Estado brasileiro. 2.1.3.3. biblioGrafia obriGatória RAWLS, John. Liberalismo Político. Editora Ática, São Paulo, 2000, caps. IV (1-7) e VI (1-6). 2.1.3.4. biblioGrafia coMPleMentar DE VITA, Álvaro. A justiça igualitária e seus críticos, Editora Unesp, São Paulo, 2000. PETTIT, Philip e KUKATHAS, Chandran. Rawls: A Theory of Justice and its Critics, Polity Press, Cambridge, 1990. POOGE, Thomas W. Realizing Rawls, Cornell University Press, Londres, 1989. 2.1.3.5. atiVidade de aProfundaMento da leitura Valendo-se de suas próprias palavras, os alunos devem tentar resumir, em um parágrafo cada, os conceitos de pluralismo razoável, consenso sobreposto e razão pública. Em um quarto e último parágrafo, devem tentar relacionar estes conceitos à realidade brasileira. 2.1.3.6. conclusão Espera-se que ao final desta aula os alunos já tenham percebido como a teoria da justiça afeta, na prática, as sociedades democráticas contemporâneas. Neste mo- mento do curso, os alunos devem já estar aptos a identificar na realidade do mundo e do Brasil várias das questões problematizadas pela perspectiva liberal de justiça. Espera-se que eles percebam como o pluralismo é um fato que não pode ser des- considerado ao se defender uma concepção de justiça, bem como atentem para as implicações que isso traz para uma abordagem liberal da justiça. FGV DIREITO RIO 44
  • 45. TEORIa Da jusTIça 2.2. A PersPeCTivA liBerTáriA Com a obra de Rawls, aquilo que se chama hoje teoria da justiça entra definiti- vamente em cena, passando a ganhar corpo justamente com as diversas respostas e críticas que a concepção de justiça rawlsiana passou a receber. A perspectiva liber- tária é justamente uma destas respostas, apesar de o seu principal expoente, Robert Nozick – formulador de uma teoria de justiça distributiva que busca fazer frente à teoria da justiça como equidade rawlsiana –, ter sido precedido, no que tange ao libertarianismo de sua concepção de justiça, por Friedrich Hayek, ainda alguns anos antes da obra balizadora de Rawls. São estes os dois autores que orientarão nosso estudo sobre a concepção libertária de justiça. FGV DIREITO RIO 45
  • 46. TEORIa Da jusTIça 2.2.1. aula 8: justiça, liBerdade e mérito Texto base: HAYEK, Friedrich A. The Constitution of Liberty. University of Chi- cago Press, Chicago, 1960, cap. 6. 2.2.1.1. introdução O economista austríaco Friedrich A. Hayek é a única referência deste curso que antecede cronologicamente o debate sobre a teoria da justiça suscitado por Rawls no início da década de setenta. No entanto, a sua inserção no programa é funda- mental, tendo em vista que ele não apenas pavimentou a estrada do libertarianismo que depois veio a ser seguida por Nozick e outros argutos defensores da liberdade individual, como também antecipou o tipo de percepção sobre a justiça que tal perspectiva viria a endossar. Hayek opõe-se a todas as tentativas de impor à sociedade um padrão de distri- buição previamente concebido, seja ele da ordem da igualdade ou da desigualdade. Ele acredita que aqueles que defendem uma extensão da igualdade na realidade não a querem em si; o que querem é uma distribuição conforme as concepções huma- nas de mérito individual. Hayek afirma também que os desejos dos defensores da igualdade são tão irreconciliáveis com a liberdade quanto são as demandas mais estritamente igualitárias. Para Hayek, a intervenção do Estado na sociedade a fim de promover a igual- dade é caracterizada como uma coerção. Por isso, ele acredita que uma sociedade realmente livre não pode aceitar a coerção do Estado nem mesmo sob a justificativa de tornar as pessoas mais iguais. O postulado básico de uma sociedade livre é, de acordo com Hayek, a limitação de toda e qualquer coerção estatal por meio de um direito igual. Este entendimento revela a complexa relação que os conceitos de li- berdade e igualdade assumem no pensamento de Hayek, e que será prioritariamente explorada na aula de hoje. 2.2.1.2. objetiVos Constituem objetivos desta aula: • Esclarecer o que significa, para os libertários, uma sociedade livre; • Definir a relação entre liberdade e igualdade no pensamento libertário; • Desvendar o sentido da igualdade formal em relação à igualdade material; • Debater em que medida a igualdade formal, exigida pela liberdade, pode implicar em desigualdade material; • Discutir o conflito entre mérito e valor; • Debater o papel do Estado na perspectiva libertária; FGV DIREITO RIO 46
  • 47. TEORIa Da jusTIça • Contrastar o libertarianismo de Hayek com o liberalismo de Rawls; • Incentivar os alunos para que se posicionem em relação ao libertarianismo e ao liberalismo; • Refletir em que medida o argumento hayekiano da liberdade seria desejável para a sociedade brasileira. 2.2.1.3. biblioGrafia obriGatória HAYEK, Friedrich A. The Constitution of Liberty. University of Chicago Press, Chicago, 1960, cap. 6. 2.2.1.4. biblioGrafia coMPleMentar HAYEK, Friedrich A. The Constitution of Liberty. University of Chicago Press, Chicago, 1960, cap. 1. HAYEK, F. A., Law, Legislation and Liberty, Volume I, Rules and Order. Routled- ge, London, 1973. ___________. Law, Legislation and Liberty, Volume II, The Mirage of Social Justice. Routledge, London, 1976. MACK, Eric. “Hayeck on justice and the order of actions” In: The Cambridge Companion to Hayeck. Cambridge University Press, Cambridge, 2006. 2.2.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após a leitura do texto recomendado, os alunos devem esforçar-se para respon- der às seguintes questões: 1. Qual a relação entre liberdade e igualdade perante a lei? 2. Qual é a única forma de igualdade que pode conduzir à liberdade e ser garan- tida sem destruí-la? Por quê? 3. Como a liberdade pode produzir desigualdades? 4. Quais demandas o argumento da liberdade impõe ao Estado? 5. Quais são as duas proposições principais nas quais se assenta o argumento de Hayek exposto no texto lido? Explique-as. 6. Em que medida a família, a hereditariedade e a educação constituem fatores que devem ser levados em consideração no cálculo da desigualdade? 7. Como se estabelece o conflito entre mérito e valor? 8. O que significa, para Hayek, uma sociedade livre? 9. Como a igualdade de condições implica em desigualdade de resultados? 10. Qual é a opinião de Hayek a respeito da justiça distributiva? FGV DIREITO RIO 47
  • 48. TEORIa Da jusTIça 2.2.1.6. conclusão Espera-se que ao final desta aula os alunos compreendam os principais argu- mentos que movem uma perspectiva libertária da justiça, sobretudo aqueles que estabelecem uma relação entre a liberdade e a igualdade. Em particular, deve ficar bastante claro aos alunos, entre outras coisas, o significado libertário de uma socie- dade justa, o papel do Estado e do direito na promoção da justiça e a relação entre valor e mérito no cálculo da desigualdade. FGV DIREITO RIO 48
  • 49. TEORIa Da jusTIça 2.2.2. aula 9: uma teoria da justiça Para um estado mínimo Texto base: NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia, Editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1991, capítulo 7, seção 1. 2.2.2.1. introdução O libertarianismo contemporâneo representado por Robert Nozick apresenta, dentre as suas principais características, a defesa irrestrita das liberdades de mercado e da limitação do papel do Estado na área social. O libertarianismo difere-se do li- beralismo, por exemplo, ao condenar políticas redistributivas, em especial políticas tributárias redistributivas. A reação libertariana de Nozick ao liberalismo de Rawls, com a publicação de seu importante livro Anarquia, Estado e Utopia, em 1974, adquiriu um espaço impor- tante por produzir uma linhagem teórica ainda mais radical do próprio liberalismo. Apropriando-se também do argumento contratualista e partindo da prioridade dos direitos de liberdade e de propriedade sobre os demais direitos, Nozick propõe um modelo de Estado mínimo que se opõe deliberadamente ao esquema redistributivo de Rawls. 2.2.2.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Esclarecer o significado da idéia de Estado mínimo; • Debater a relação entre o tamanho do Estado e a garantia dos direitos; • Identificar o papel do Estado em relação à justiça distributiva; • Analisar o significado da “teoria da titularidade” (entitlement theory); • Examinar a relação entre liberdade e propriedade; • Discutir o papel do direito de propriedade na teoria da justiça; • Questionar o “proviso lockeano”; • Debater se um modelo de Estado mínimo seria desejável ao Brasil. 2.2.2.3. biblioGrafia obriGatória NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia, Editora Jorge Zahar, Rio de Janei- ro, 1991, cap.7, seção 1. FGV DIREITO RIO 49
  • 50. TEORIa Da jusTIça 2.2.2.4. biblioGrafia coMPleMentar DE VITA, Álvaro. A Justiça Igualitária e seus Críticos. Editora Unesp, São Paulo, 2002. NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia. Editora Jorge Zahar, Rio de Janei- ro, 1991, prefácio e capítulo1. 2.2.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após a leitura do texto indicado, os alunos devem responder às seguintes per- guntas: 1. Quais são os três principais aspectos da teoria da justiça de Nozick? Que princípios ele deriva destes aspectos? Explicite-os. 2. Qual a relevância do princípio das transferências? 3. Em que medida a teoria da justiça como titularidade de Nozick é histórica? 4. Estabeleça a relação entre a teoria da justiça de Nozick e a concepção de jus- tiça defendida por Hayek que foi estudada na aula anterior. 5. Explique o caso Wilt Chamberlain. Posicione-se em relação a ele. 6. Qual é a relação entre redistribuição e direitos de propriedade? 7. Explique o papel da teoria da aquisição de Locke na teoria da justiça de Nozick. 8. Em que consiste o “proviso lockeano”? 2.2.2.6. conclusão A perspectiva libertariana da justiça deve restar consolidada ao final deste blo- co. Os alunos devem, neste momento, mostrarem-se já capazes de distinguir entre uma abordagem liberal e uma abordagem libertária da justiça. Sobretudo, deve ficar claro para eles como o papel do Estado e do direito apresenta-se de modo diverso numa perspectiva liberal e numa perspectiva libertária. O contraste entre distri- buição e resdistribuição deve ter sido apreendido, e os alunos devem estar aptos a identificar como se posicionam o liberalismo e o libertarianismo em relação à justiça distributiva. É extremamente desejável que após esta aula os alunos tenham uma boa compre- ensão do significado do Estado mínimo, da relação entre liberdade e igualdade, dos impactos do tamanho do Estado sobre os direitos, da relação entre propriedade e liberdade e do papel da propriedade na teoria da justiça. Espera-se que eles possam problematizar todos esses conceitos em face da realidade brasileira, perguntando-se, em especial, se um modelo de Estado mínimo seria desejável ao Brasil e como o di- reito de propriedade deveria ser levado em conta na formulação de uma concepção de justiça adequada para o Brasil. FGV DIREITO RIO 50
  • 51. TEORIa Da jusTIça 2.3. A PersPeCTivA uTiliTArisTA Ao formular sua teoria da justiça, Rawls buscava, na verdade, oferecer uma al- ternativa teórica ao utilitarismo. Os famosos princípios de justiça que formula des- tinavam-se, inicialmente, justamente a serem escolhidos em detrimento de uma concepção utilitarista de justiça como a melhor forma de ordenação da sociedade. Os utilitaristas não deixam por menos e revigoram a sua abordagem a fim de fazer face à ameaça representada por Rawls. Este é o tema da próxima aula. FGV DIREITO RIO 51
  • 52. TEORIa Da jusTIça 2.3.1. aula 10: justiça utilitarista Texto base: KYMLICKA, Will. Contemporary Political Philosophy. Oxford Uni- versity Press, Oxford, 1990, cap. 2. 2.3.1.1. introdução Nosso estudo sobre a perspectiva utilitarista focará no novo utilitarismo que surge a partir da década de setenta. Representativo de uma nova formulação de uma antiga maneira de se conceber a justiça, o novo utilitarismo pode ser considerado seja uma teoria da moral pessoal, seja, uma teoria da escolha pública. seja um cri- tério aplicável para a definição e implementação de políticas públicas. Todos estes aspectos da perspectiva utilitarista são relevantes para a teoria da justiça. 2.3.1.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Estabelecer uma relação entre a idéia de utilidade e a idéia de justiça; • Analisar como o utilitarismo pode servir de orientação para a formulação e escolha de uma determinada concepção de justiça; • Identificar os papéis do utilitarismo enquanto teoria da racionalidade indivi- dual e enquanto teoria da escolha pública; • Questionar a conexão entre utilidade, racionalidade e pluralismo; • Examinar o aspecto conseqüencialista do utilitarismo; • Investigar a relação entre preferências individuais e utilidade social; • Estabelecer conexões entre as concepções de justiça professadas pelo liberalis- mo, pelo libertarianismo e pelo utilitarismo; • Debater a desirabilidade de um modelo utilitarista de justiça para a socieda- de brasileira; 2.3.1.3. biblioGrafia obriGatória KYMLICKA, Will. Contemporary Political Philosophy. Oxford University Press, Oxford, 1990, cap. 2. 2.3.1.4. biblioGrafia coMPleMentar DE VITA, Álvaro. A Justiça Igualitária e seus Críticos. Editora Unesp, São Paulo, 2002, capítulos 3 e 4. FGV DIREITO RIO 52
  • 53. TEORIa Da jusTIça HARSANYI, John. “Morality and the theory of rational behavior”. In: SEN and WILLIAMS (eds.). Utilitarism and Beyond. Cambridge University Press, Cambridge, 1999. HARSANYI, John. Essays on Ethics, Social Behaviour and Scientific Explanation, Reidel, Dordrecht, 1976. SEN, Amartya e WILLIAMS, Bernard. “Utilitarism and Beyond” In: SEN and WILLIAMS (eds.). Utilitarism and Beyond. Cambridge University Press, Cambridge, 1999. 2.3.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Ao completar a leitura do texto indicado, os alunos devem elaborar um pequeno fichamento indicando seus principais pontos. 2.3.1.6. conclusão Com esta aula, espera-se que os alunos tenham compreendido que a teoria uti- litarista aqui estudada define a utilidade social em termos de utilidades individuais, ou seja, define a função de utilidade de cada pessoa em termos de suas preferências individuais. Em outras palavras, este novo utilitarismo preocupa-se em definir a utilidade social em termos das preferências individuais das pessoas. Uma vez compreendido isso, espera-se que os alunos reflitam sobre a inexora- bilidade da incerteza que envolve as decisões – particularmente aquelas que devem orientar a escolha de uma determinada concepção de justiça ou ao estabelecimento de políticas públicas que visem realizar a justiça social em uma determinada sociedade. Além de propiciar que os alunos relacionem a idéia de utilidade e a idéia de justiça, esta aula deve servir para mostrá-los como a idéia de utilidade (individual e social) pode servir de insumo para a formulação de uma concepção de justiça. Além disso, os alunos devem perceber como o utilitarismo fornece um critério para testar concepções de justiça alternativas. Finalmente, espera-se que fiquem claras com esta aula as semelhanças e diferenças entre liberalismo, libertarianismo e utilitarismo no que toca ao tema da justiça. FGV DIREITO RIO 53
  • 54. TEORIa Da jusTIça 2.4. A PersPeCTivA ComuniTArisTA O comunitarismo constitui a quarta perspectiva a ser analisada nesta segunda parte do curso. Certamente uma das tendências mais fortes do pensamento con- temporâneo – seja pelo número de autores que a professam, seja pelo número de adeptos que conquista –, o comunitarismo opõe-se ao universalismo rawlsiano in- vertendo a relação de prioridade entre o bem e o direito por meio de uma concepção de justiça relativista e centrada na idéia de comunidade e no compartilhamento por ela propiciado. Avolumam-se nas ultimas três décadas as abordagens comunitaris- tas, porém este curso foca em apenas duas das mais importantes delas representadas por autores como Michael Sandel e Michael Walzer. FGV DIREITO RIO 54
  • 55. TEORIa Da jusTIça 2.4.1. aula 11: a Prioridade do Bem Texto base: SANDEL, Michael. “Justice and the Good” In: SANDEL, Micha- el (ed.). Liberalism and its Critics. New York University Press, New York, 1984. 2.4.1.1. introdução O debate acadêmico norte-americano do início da década de 1980 é marcado pela oposição dos autores comunitaristas à teoria da justiça rawlsiana. O liberalismo rawlsiano, compreendido pelos comunitaristas como uma “ética baseada no justo”, passa a ser confrontado com uma visão que concede mais expressão a conceitos tais como cidadania e comunidade. A prioridade do justo e do direito sobre o bem, a concepção de pessoa, a neutra- lidade do sistema de direitos e a idéia de pluralismo proposta pela teoria da justiça de Rawls constituem o foco de um profícuo debate do qual Michael Sandel é um dos principais expoentes. Com efeito, é Sandel o comunitarista que mais personifica a crítica à concep- ção de justiça como equidade ao publicar, em 1982, Liberalism and the Limits of Justice – um livro inteiramente voltado ao exame do liberalismo rawlsiano, o qual acredita consistir em um liberalismo deontológico e herdeiro da doutrina kantiana. O principal ponto desse livro de Sandel que interessa a este curso de teoria da justiça consiste na rejeição da prioridade do direito e do justo sobre o bem. Na aula de hoje, veremos como este argumento se sustenta no arrazoado de Sandel. 2.4.1.2. objetiVos Entre os objetivos desta aula constam os seguintes: • Examinar as principais características do pensamento comunitarista; • Avaliar as principais críticas que o comunitarismo faz ao liberalismo; • Identificar a teoria da justiça comunitarista; • Relacionar o conceito de justiça com a idéia de comunidade; • Contrastar abordagens universalistas e relativistas da idéia de justiça; • Debater a relação de prioridade entre justiça, direito e bem; • Contrastar a teoria da justiça do comunitarismo com aquelas defendidas pelo liberalismo, pelo libertarianismo e pelo utilitarismo. FGV DIREITO RIO 55
  • 56. TEORIa Da jusTIça 2.4.1.3. biblioGrafia obriGatória SANDEL, Michael. “Justice and the Good” In: SANDEL, Michael (ed.). Libera- lism and its Critics. New York University Press, New York, 1984. 2.4.1.4. biblioGrafia coMPleMentar MULHALL, Stephen e SWIFT, Adam. (1996). Liberals & Communitarians, Bla- ckwell, Oxford, second edition. SANDEL, Michael. Liberalism and the Limits of Justice. Cambridge University Press, Cambridge, 1982. 2.4.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Recomenda-se como atividade de aproveitamento de leitura desta aula que os alunos elaborem um fichamento do texto recomendado. Este fichamento pode ser feito em apenas duas páginas, nas quais se busque: 1) sumarizar os principais argu- mentos de Michael Sandel; 2) identificar os principais pontos de contraste entre o comunitarismo e o liberalismo; 3) definir as principais características da concepção comunitarista de justiça. 2.4.1.6. conclusão Espera-se com esta aula que os seguintes pontos tenham ficado nítidos: 1) a relação entre justiça e comunidade; 2) o significado de uma concepção relativista de justiça; 3) a relação de prioridade entre o justo, o direito e o bem na perspectiva comunitarista. Espera-se ainda que os alunos sejam capazes de se posicionar em face de uma visão comunitarista da justiça em contraste com as demais estudadas anteriormente. FGV DIREITO RIO 56
  • 57. TEORIa Da jusTIça 2.4.2. aula 12: igualdade comPlexa Texto base: WALZER, Michael. Esferas da Justiça. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, cap. 1. 2.4.2.1. introdução Uma das questões centrais que parecem orientar o pensamento de Michael Wal- zer talvez seja a medida da igualdade. Walzer busca uma resposta para a seguinte pergunta: ‘em que aspecto somos iguais uns aos outros?’. Se somos iguais em alguns aspectos em virtude de uma característica comum, esta é a capacidade que temos de reconhecer o outro, ou seja, de nos reconhecermos mutuamente como seres humanos. Investigando os significados primitivos da igualdade, Walzer demonstra que as demandas igualitárias surgiram em nossa história não apenas em função das dife- renças, mas também da subordinação que estas proporcionam. O objetivo do igua- litarismo político seria uma sociedade livre de dominação. Não se trata de eliminar diferenças, trata-se de abolir a dominação. Uma sociedade igualitária não poderia dispor de bens sociais que servissem de meios de dominação. O problema da domi- nação só pode ser resolvido se os bens sociais forem distribuídos por razões distintas e internas, isto é, por razões particulares e locais, e não universais. Valendo-se de uma metodologia radicalmente particularista, Walzer afirma o caráter local e particular dos direitos, encarando-os como resultado de uma con- cepção compartilhada dos bens sociais e não como decorrentes de qualquer ca- racterística humana que se pretenda universal. Tomando a justiça como a “arte da diferenciação” e a igualdade como o seu resultado, Walzer preocupa-se em analisar os diversos bens sociais no ensejo de que seu compartilhamento possa se dar livre de dominação. O pluralismo, para Walzer, explica-se pelo fato de cada sociedade, em cada época e em cada lugar, possuir seu próprio conceito de bens sociais, além de uma forma especifica de distribuição dos mesmos. Segundo Walzer, jamais teria havido em nossa história um critério decisivo único a partir do qual tais distribuições pudes- sem ser controladas. Afinal, a justiça é uma construção humana, e como qualquer obra humana, ela é sempre singular. Conforme Walzer esclarece: “Os princípios de justiça são em si mesmos plurais em sua forma; bens sociais distintos deveriam ser distribuídos por razões distintas, por procedimentos diferentes e agentes distintos; e todas estas diferenças derivam da compreensão dos bens sociais, os quais são produ- tos inevitáveis do particularismo histórico e cultural” (Esferas da Justiça, p. 19). Segundo Walzer, uma teoria dos bens é requisito necessário para que se possa explicar e limitar o pluralismo das possibilidades distributivas. Tendo isso em vista, ele classifica seis proposições que acredita serem passíveis de resumir uma teoria dos bens. São elas: FGV DIREITO RIO 57
  • 58. TEORIa Da jusTIça 1. Todos os bens que a justiça distributiva considera são bens sociais. Não são e nem hão de ser valorados por suas peculiaridades exclusivas. Vale dizer, os bens possuem significados compartilhados porque sua concepção e criação são processos sociais. Pela mesma razão, os bens têm diferentes significados nas diferentes sociedades; 2. Os indivíduos assumem identidades concretas em função da maneira com que concebem e criam – e, logo, possuem e empregam – os bens sociais; 3. Não existe um único conjunto de bens básicos ou primários concebível para todos os mundos morais e materiais – um conjunto assim teria que ser con- cebido em termos extremamente abstratos, o que seria de pouca utilidade para a reflexão sobre as formas particulares de distribuição; 4. É o significado dos bens o que determina o seu movimento. Os critérios e procedimentos distributivos são intrínsecos não em relação ao bem em si mesmo, mas em relação ao bem social; 5. Os significados sociais possuem caráter histórico, assim como as distribui- ções. Estas, sejam justas ou injustas, mudam através do tempo; 6. Quando os significados são distintos, as distribuições devem ser autônomas. Todo bem social ou conjunto de bens sociais constitui uma esfera distributi- va dentro da qual somente alguns critérios e disposições são apropriados. A distinção entre os conceitos de igualdade simples e igualdade complexa, talvez constitua uma das contribuições principais de Walzer. Em um regime de igualdade simples, o monopólio de um bem social particular está em jogo uma vez que se determinado bem é dominante e amplamente compartilhado nenhum outro bem poderia ser monopolizado. Neste caso, afirma Walzer, a igualdade seria multiplica- da pelo processo de conversão até se estender por toda a gama de bens sociais. Um regime como este não poderia sobreviver por muito tempo: estaria sempre vitimado pela desigualdade, posto que após a conversão tal bem seria livremente negociado no mercado. Apenas o que poderia manter a estabilidade de tal regime seria uma lei que assegurasse o regresso periódico à situação original. De outro modo, o mo- nopólio reapareceria e o predomínio desapareceria. A igualdade simples, portanto, requereria uma contínua intervenção estatal para destruir ou restringir eventuais monopólios e predomínios. Por isso Walzer acredita que a questão central da justiça distributiva não deve ser o monopólio, mas sim o predomínio. Definindo o que chama de “critica do predomínio”, Walzer descreve uma forma distinta de igualdade que seria adequada à complexidade das distribuições. Trata-se da igualdade complexa. Uma sociedade complexamente igualitária se caracterizaria pelo fato de os bens sociais serem possuídos de maneira monopolista e, por outro lado, não poderem ser convertidos de modo geral. Haveria aqui uma infinidade de pequenas desigualdades, mas elas não seriam multiplicadas pelo processo de conver- são. A autonomia da distribuição levaria à produção de inúmeros monopólios locais sustentados por diferentes grupos de pessoas. Walzer não afirma que a igualdade complexa é mais estável do que a igualdade simples, porém ele ressalta que aquela abre um caminho para formas mais amplas e FGV DIREITO RIO 58
  • 59. TEORIa Da jusTIça particularizadas de conflito social. Isso porque “a igualdade é uma relação complexa de pessoas regulada pelos bens que fazemos, compartilhamos e trocamos entre nós mesmos; não é uma identidade de possessões. Ela requer, então, uma diversidade de critérios distributivos que reflitam a diversidade dos bens sociais” (Esferas da Justiça, p. 31). Segundo Walzer, a crítica do predomínio e da dominação tem por base um prin- cípio distributivo aberto que obedeceria a seguinte fórmula: ‘nenhum bem social X há de ser distribuído entre pessoas que possuam algum outro bem Y simplesmente porque possuem Y sem levar em conta o significado de X.’. Três seriam os critérios que parecem cumprir os requisitos deste denominado “princípio aberto”: 1. A livre troca: teoricamente, esta cria um mercado em que todos os bens são convertíveis em todos os outros bens através do meio neutro que é o dinhei- ro. Não há bens predominantes e nem monopólios; 2. O merecimento: o processo distributivo seria centralizado e seus resultados imprevisíveis e diversos. Não haveria bem dominante; 3. A necessidade: esta gera uma esfera distributiva particular dentro da qual ela mesma é um principio distributivo apropriado. Satisfaz os requisitos da regra geral, os bens não se dominam mutuamente. O efeito da regra é, portanto, o seguinte: “bens diversos a grupos diversos de pessoas, de acordo com razões diversas”. A complexidade leva à busca da igualdade pela demarcação das esferas distributivas e pela distinção dos significados. Walzer está certo de que o melhor tratamento a ser dispensado à justiça distributiva é o tratamento de suas partes, quais sejam os bens sociais e as esferas de distribuição. A justiça, para ele, é sempre relativa em face dos significados sociais. Os bens devem ser distribuídos apenas por razões internas. Assim, uma sociedade seria justa se seus membros vivessem de acordo com as noções por eles mesmos compartilhadas. Portanto, se há uma característica comum que nos faz iguais uns aos outros, esta é a nossa capacidade de produzir cultura. A igualdade complexa resulta na máxima diferenciação – contrapondo-se ao totalitarismo que, segundo Walzer, consiste em uma radical coordenação. A igualdade complexa implica na harmonia, e não na autonomia das esferas. A justiça vem a cumprir o papel de distinguir as partes da vida social e de estabelecer uma sociedade igualitária na qual as pessoas aprendam a conviver com a autonomia das distribuições e a reconhecer resultados diferentes para indivíduos diferentes, em esferas diferentes. 2.4.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula incluem-se os seguintes: • Conceitualizar a igualdade complexa; • Esclarecer a diferença entre igualdade simples e igualdade complexa; FGV DIREITO RIO 59
  • 60. TEORIa Da jusTIça • Discutir o caráter particularista que algumas teorias da justiça podem assu- mir; • Relacionar justiça e cultura; • Investigar as implicações da compreensão da justiça como compartilhamen- to de significados sociais; • Identificar os critérios de distribuição endossados pelo comunitarismo, espe- cialmente pelo comunitarismo particularista de Walzer; • Debater a definição e o significado das diferentes ‘esferas’ da justiça; • Discutir se seria apropriada para a sociedade brasileira uma concepção de justiça que partisse da divisão de diversas esferas. 2.4.2.3. biblioGrafia obriGatória WALZER, Michael. Esferas da Justiça. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003, cap. 1 2.4.2.4. biblioGrafia coMPleMentar CITTADINO, Gisele. Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva, Editora Renovar, Rio de Janeiro, 1999. WALZER, Michael. “Welfare, Membership and Need”. In: SANDEL, Micha- el (ed.). Liberalism and its Critics. New York University Press, New York, 1984. WALZER, Michael. “Complex Equality”. In: GOODIN, Robert and PET- TIT Philip (eds). Contemporary Political Philosophy. Blackwell Publishing, Oxford, 2006. 2.4.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Comente, criticamente, a seguinte frase de Michael Walzer: “os princípios de justiça são em si mesmos plurais em sua forma; bens sociais distintos deveriam ser distribuídos por razões distintas, por procedimentos diferentes e agentes distintos; e todas estas diferenças derivam da compreensão dos bens sociais, os quais são produ- tos inevitáveis do particularismo histórico e cultural” (Esferas da Justiça, p. 19). 2.4.2.6. conclusão Espera-se que com esta aula os alunos percebam como é possível defender uma concepção de justiça a partir do caráter local e particular dos direitos. Para deter- minadas versões do comunitarismo, a justiça deve ser encarada como resultado de FGV DIREITO RIO 60
  • 61. TEORIa Da jusTIça uma concepção compartilhada de bens sociais, e não como decorrente de uma ca- racterística humana universal. Alguns argumentos devem ser retidos pelos alunos, como, por exemplo, aquele que defende a justiça como a “arte da diferenciação” e apresenta a igualdade como o seu principal resultado. A compreensão da concepção de justiça baseada em diferentes “esferas” deve possibilitar que os alunos comparem a perspectiva comunitarista com as outras teorias da justiça analisadas nas aulas anteriores do curso. FGV DIREITO RIO 61
  • 62. TEORIa Da jusTIça 2.5. aula 13: deBate: PrincíPios de justiça Para a sociedade Brasileira 2.5.1. introdução Esta aula consiste na segunda parte da primeira avaliação semestral do curso. Trata- se de um debate a ser realizado em sala de aula com base no tema: “Princípios de Justi- ça para a Sociedade Brasileira”. Os alunos deverão produzir previamente um pequeno texto sobre o assunto, mobilizando toda a literatura estudada no curso até a aula anterior a esta. Este texto deverá ser entregue após o debate, já que durante o mesmo ele servirá de guia para a exposição oral que cada aluno será convidado a fazer. 2.5.2. objetiVos São objetivos desta aula: • Substituir o modelo de aulas teóricas por uma aula de cunho prático; • Fazer com que os alunos apliquem os conhecimentos adquiridos nas aulas anteriores do curso; • Avaliar o esforço e o desempenho dos alunos, bem como o seu treinamento no conteúdo da disciplina; • Suscitar o debate e o confronto de opiniões e idéias entre os alunos do curso; • Incentivar que os alunos construam seus próprios raciocínios e visões de mundo; • Preparar os alunos para exposições orais e públicas; • Fortalecer a capacidade de argumentação dos alunos. 2.5.3. biblioGrafia obriGatória Toda a bibliografia obrigatória das aulas anteriores pode ser consultada. 2.5.4. biblioGrafia coMPleMentar Toda a bibliografia complementar das aulas anteriores pode ser consultada. 2.5.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Recomenda-se que todas as atividades de aproveitamento de leitura das aulas an- teriores, se não tiverem ainda sido realizadas, que o sejam a fim de preparar o aluno FGV DIREITO RIO 62
  • 63. TEORIa Da jusTIça para a atividade final. Aqueles que realizaram as atividades recomendadas nas aulas prévias devem consultá-las, pois isso certamente lhes ajudará a embasar a argumen- tação escrita e oral que lhe será exigida na aula de hoje. 2.5.6. MetodoloGia Os alunos serão avaliados pelo texto escrito e pela sua participação no debate. Eles devem lembrar que não devem fazer resumos de cada um dos textos ou autores estudados, pois este não é o objetivo da avaliação. Os alunos devem tentar instru- mentalizar os textos e os autores estudados, recorrendo aos conceitos e argumentos deles na medida em que isso os facultar a desenvolver um arrazoado próprio e ori- ginal sobre o tema do debate. Os alunos podem usar sua imaginação e criatividade, deixando-as correrem sol- tas. Isso não significa, no entanto, que o rigor acadêmico deve ser minimizado. Ao contrário, um equilíbrio harmônico entre a seriedade intelectual, a criatividade, a ousadia argumentativa e a interdisciplinaridade é extremamente desejável. Os alunos não devem perder o foco temático do debate. Nosso objeto é “prin- cípios de justiça para a sociedade brasileira”. Ou seja, não é apenas “princípios de justiça”, tampouco princípios de justiça para qualquer outra sociedade que não seja a brasileira. É desejável que os alunos alinhem-se a uma ou mais das quatro perspectivas (liberal, libertária, utilitarista e comunitarista) sobre a teoria da justiça estudadas nas aulas anteriores. Isso não significa que os argumentos feitos pelos autores que estudamos sobre cada perspectiva devem ser reproduzidos, nem que devem ser en- dossados de forma a-crítica. Os alunos devem, ao contrário, tentar construir seus próprios raciocínios a partir daquelas perspectivas. Neste caso, a pergunta que cada aluno deve se fazer é: “se eu me alinhasse com uma concepção de justiça liberal/li- bertária/utilitarista/liberal, quais seriam os princípios de justiça que eu proporia para a sociedade brasileira?”. O trabalho escrito deve ter, no mínimo, cinco laudas. É evidente, portanto, que os alunos não devem apenas anunciar seus princípios de justiça a partir de defini- ções ou fórmulas. Eles devem explicá-los, fundamentá-los, argumentá-los, protege- rem-lhes de críticas, enfim, defendê-los. Não se deve esquecer de justificar por que os princípios escolhidos são mais justos do que outros que poderiam servir-lhes de alternativa em uma situação de escolha e decisão. No dia do debate a turma será organizada e o tempo será dividido de modo que todos, sem exceção, possam expor os seus princípios de justiça e sintetizar os prin- cipais argumentos contidos em seu trabalho escrito. Boa sorte para todos! FGV DIREITO RIO 63
  • 64. TEORIa Da jusTIça 2.5.7. conclusão Espera-se que o debate seja muito proveitoso para todos os alunos, e que com a sua realização cumpram-se todos os objetivos definidos acima. Como não poderia deixar de ser, espera-se também que os alunos estudem muito, preparem-se inten- samente, e tenham um desempenho exemplar no debate! Espera-se ainda que seus trabalhos escritos reflitam isso e que todos façam jus a excelentes notas! ConClusão do BloCo: Com este segundo bloco do curso de Teoria da Justiça, espera-se que tenham fi- cado consolidadas as nuances entre as concepções de justiça professadas pelas teorias liberais, libertárias, utilitaristas e comunitaristas. Espera-se também que os alunos tenham desenvolvido posturas críticas em face de cada uma dessas abordagens e que sejam capazes – com base em seu próprio raciocínio e tendo em vista os seus próprios valores, crenças e interesses – de posicionar-se favoravelmente ou contra- riamente a elas. FGV DIREITO RIO 64
  • 65. TEORIa Da jusTIça 3. Bloco iii: justiça como Bem-estar introdução Esta terceira parte do curso busca apresentar a noção de bem-estar (welfare) como uma alternativa às perspectivas que encaram a justiça como eqüidade (fairness). São três as principais perspectivas que permitirão fazer essa passagem, nomeadamente a perspectiva igualitária, a perspectiva capacitária e a perspectiva econômica. objetiVos Constituem objetivos deste bloco: • apresentar a idéia de justiça como bem-estar; • analisar as diferenças entre a compreensão da justiça como eqüidade e como bem-estar; • elucidar a relevância do conceito de bem-estar para o Direito; • relacionar as perspectivas igualitária, capacitária e econômica da justiça como bem-estar; • evidenciar como cada uma das perspectivas analisadas confere um papel dis- tinto para o Direito e para o Estado; • explicitar como cada uma das perspectivas analisadas atribui um lugar dife- rente para a liberdade e para a igualdade; e • incentivar os alunos a adotarem uma postura crítica em face de cada uma das perspectivas estudadas e posicionarem-se a respeito delas. 3.1. a PersPectiVa iGualitária A perspectiva igualitária será ilustrada com base nos estudos de Ronald Dworkin sobre a igualdade. A concepção de igualdade de bem-estar, de um lado, e a concep- ção de igualdade de recursos, de outro, propiciam que Dworkin erija uma teoria da justiça que busca competir com as principais perspectivas contemporâneas que professam, de uma maneira ou de outra, a justiça como eqüidade. FGV DIREITO RIO 66
  • 66. TEORIa Da jusTIça 3.1.1. aula 14: igualdade de Bem-estar Texto base: DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. São Paulo: Editora Mar- tins Fontes, 2005, cap.1. 3.1.1.1. introdução O igualitarismo político (ou igualitarismo liberal) é uma das principais vertentes contemporâneas da Filosofia do Direito e da Filosofia Política norte-americanas. O jusfilósofo Ronald Dworkin é certamente um dos principais nomes associados a essa perspectiva. Neste curso de Teoria da Justiça, abordaremos uma parte da obra de Dworkin, distinta daquela que os alunos provavelmente conheceram até o momento e que, de fato, caracteriza a maior parte de sua empreitada intelectual. Em outras palavras, recorreremos a Dworkin nesta e na próxima aula, não com o fito de compreender como juizes devem decidir casos, mas, sim, com o objetivo de conhecer que tipo de igualdade os governos devem assegurar aos indivíduos. A igualdade de consideração que o Estado deve garantir aos cidadãos seria, assim, a sua virtude soberana: “Nenhum governo é legitimo que não demonstre igualdade de consideração pelo destino de todos os cidadãos sobre os quais pleiteia domínio e dos quais demanda fidelidade. A igualdade de consideração é a virtude soberana das comunidades polí- ticas — sem ela o governo não passa de tirania”. (A Virtude Soberana, p. IX) Mas, de que igualdade se trata? E igualdade de quê? Estas são as questões que Dworkin se colocava ainda no começo da década de 1980, quando se engajou no profícuo debate suscitado pela publicação de Uma Teoria da Justiça, de John Rawls. Naquele momento, Dworkin deu o seu aporte para a consolidação acadêmica e intelectual em torno da teoria da justiça por meio de dois artigos que foram re- centemente republicados como os dois primeiros capítulos de seu livro A Virtude Soberana, os quais serão objetos do nosso estudo. No primeiro destes textos, do qual trataremos nesta aula, Dworkin discute a igualdade de bem-estar; já no segundo, objeto de nossa próxima aula, é a igualdade de recursos que entra em debate. Já sabemos, portanto, que à pergunta “igualdade de quê?” são oferecidas pelo menos duas respostas: igualdade de bem-estar e igualdade de recursos. Com efeito, o chamado igualitarismo divide-se entre essas duas perspectivas, oscilando entre uma ou outra com poucas variações que combinam aspectos de ambas. Afinal, fica a pergunta: seriam elas compatíveis? Dworkin analisa extensamente a igualdade de bem-estar até concluir que a mes- ma não é um ideal tão coerente ou atraente como se poderia pensar que ela fosse. Ele convence-se, por exemplo, de que o governo não deve garantir que toda pessoa seja igualmente bem sucedida em realizar suas preferências sobre sua própria vida FGV DIREITO RIO 67
  • 67. TEORIa Da jusTIça e circunstâncias. Do mesmo modo, argumenta que o governo também não deve garantir que toda pessoa sinta-se igualmente bem-sucedida em perseguir uma vida valiosa. São essas e outras críticas à idéia de igualdade de bem-estar que estudaremos nesta aula. 3.1.1.2. objetiVos Entre os objetivos desta aula, encontram-se: • introduzir o conceito de bem-estar a partir de uma perspectiva crítica que o rejeita enquanto fundamento para uma concepção igualitária de justiça; • identificar as limitações do conceito de bem-estar; • apresentar o igualitarismo político e o seu papel no debate contemporâneo sobre a teoria da justiça; • relacionar a justiça distributiva com a liberdade e a igualdade; e • discutir a indeterminação inerente ao conceito de bem-estar. 3.1.1.3. biblioGrafia obriGatória DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2005, cap.1. 3.1.1.4. biblioGrafia coMPleMentar APPIAH, Kwame Anthony. “Equality of What?” In: The New York Review of Book, volume 48, number 7, April 2001. FALLON JR, Richard. Should We All Be Welfare Economists? In: Michigan Law Review, Vol. 101, No. 4 (Feb., 2003), pp. 979-1025. SCHEFFLER, Samuel. What is Egalitarianism?. In: Philosophy & Public Affairs, 31 (1), pp. 5-39, 2003. 3.1.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Uma vez que o conceito de bem-estar será a idéia central a ser estudada nesta parte do curso, recomenda-se que seja feito um fichamento da leitura indicada para esta aula. Ao realizar seu fichamento, tente identificar os aspectos que considera po- sitivos e aqueles que considera negativos na concepção de justiça baseada na igual- dade de bem-estar. FGV DIREITO RIO 68
  • 68. TEORIa Da jusTIça 3.1.1.6. conclusão Com esta aula, espera-se que os alunos tenham desenvolvido um olhar simul- taneamente analítico e crítico a respeito da idéia de bem-estar e da concepção de justiça fundada na igualdade de bem-estar. FGV DIREITO RIO 69
  • 69. TEORIa Da jusTIça 3.1.2. aula 15: igualdade de recursos Texto base: DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. São Paulo: Editora Mar- tins Fontes, 2005, cap.2. 3.1.2.1. introdução Como vimos na aula passada, Dworkin conclui que a igualdade de bem-estar não é a concepção de justiça ideal a ser adotada pelos governos que querem satisfa- zer plenamente a sua virtude soberana. Se não se trata de igualdade de bem-estar, de que igualdade se trata então? Trata-se da igualdade de recursos, que será objeto da aula de hoje. Ao defender uma concepção de igualdade de recursos, Dworkin aproxima-se mais do caráter liberal que seu igualitarismo político vem reforçando nos últimos anos. Isso se deve basicamente à adoção de duas idéias que desempenham um papel crucial na teoria da justiça desenvolvida por Dworkin: a idéia de escolha e a idéia de responsabilidade. O princípio da escolha significa que a distribuição das riquezas sociais deve refle- tir as escolhas das pessoas. De acordo com esse princípio, uma distribuição idêntica das riquezas não se traduziria em uma distribuição justa. Já a idéia de responsabili- dade implica que não seriam justificadas as desigualdades materiais que não pudes- sem ser atribuídas às escolhas das pessoas, assim como não se justificariam aquelas que decorressem de circunstâncias que se encontram fora do controle das pessoas. A teoria da igualdade de recursos defendida por Dworkin, portanto, parte do pressuposto de que as pessoas são responsáveis pelas escolhas que fazem em suas vidas, mas essa premissa não é suficiente para prover a sua concepção fundamentos sólidos. Por isso, Dworkin pressupõe também que os atributos naturais de inteli- gência e talento são moralmente arbitrários e, por isso, não devem surtir efeitos sobre a distribuição dos recursos na sociedade. Uma vez que a igualdade se traduz nos recursos de que as pessoas dispõem para realizar suas escolhas, e não no bem-estar que elas possivelmente poderiam alcançar com esses recursos, os governos devem prover uma igualdade material para todos, tendo a obrigação política de tratar a vida de cada pessoa como tendo uma impor- tância igual. Para provar o seu ponto, Dworkin vale-se de um recurso semelhante àquele usado por vários de seus contemporâneos, como Rawls, que recorrem a ar- gumentos contrafáticos e mecanismos contratualistas a fim de convencer os leitores quanto à superioridade da concepção de justiça que advogam. A situação hipotética de Dworkin é uma ilha deserta cujos habitantes desejam realizar uma divisão justa dos recursos. O modo que encontram de fazer isso é um leilão, cujos detalhes ire- mos conhecer na aula de hoje. FGV DIREITO RIO 70
  • 70. TEORIa Da jusTIça 3.1.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula, destacam-se os seguintes: • examinar a concepção de igualdade de recursos; • contrapor a concepção de igualdade de recursos à concepção de igualdade de bem-estar; • analisar o papel do mercado, do Estado e do direito na concepção de igual- dade de recursos; • investigar os princípios da escolha e da responsabilidade; e • debater o caso do leilão na ilha deserta a partir do posicionamento dos alunos sobre o mesmo. 3.1.2.3. biblioGrafia obriGatória DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2005, cap.2. 3.1.2.4. biblioGrafia coMPleMentar ABBOTT, Philip. Sovereign Virtue: The Theory and Practice of Equality (re- view). In: Rhetoric & Public Affairs, Volume 4, Number 3, Fall 2001, pp. 576-578. FERRAZ, Octávio Luiz Motta. Justiça Distributiva para Formigas e Cigarras. In: Revista Novos Estudos Cebrap, n. 77, São Paulo, março de 2007. 3.1.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Analise o caso do leilão hipotético elaborado por Dworkin para defender a con- cepção de igualdade de recursos. Você acha que a situação contrafática por ele des- crita de fato levaria à escolha de uma concepção de justiça baseada na igualdade de recursos em detrimento de uma concepção da justiça baseada na igualdade de bem-estar? Ao desenvolver sua resposta, compare o mecanismo do leilão hipotético realizado na ilha deserta com o mercado tal como conhecemos a partir de seu fun- cionamento no mundo contemporâneo. 3.1.2.6. conclusão Com esta aula, espera-se que os alunos compreendam a concepção de justiça baseada na igualdade de recursos e que possam contrapô-la à concepção de igual- FGV DIREITO RIO 71
  • 71. TEORIa Da jusTIça dade baseada no bem-estar, estudada na aula anterior. Idealmente, os alunos devem analisar criticamente as duas perspectivas, mostrando-se aptos a identificar suas vantagens e desvantagens. Em particular, espera-se que os alunos compreendam os princípios da escolha e da responsabilidade e que avaliem criticamente o papel que desempenham nas concepções distributivistas de justiça. FGV DIREITO RIO 72
  • 72. TEORIa Da jusTIça 3.2. a PersPectiVa caPacitária Esta parte do curso destina-se a estudar a contribuição da economia do bem- estar de Amartya Sen para a teoria da justiça. O vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 1998 apresenta inovadoras contribuições ao debate contemporâneo em torno da questão da desigualdade e da pobreza que não podem ser descartadas no contexto de um curso como este. Livre do idioma e dos axiomas restritos aos economistas, a obra de Sen revela-se essencial à compreensão do conjunto de explicações e justificações usualmente ar- ticuladas pelos agentes e instituições responsáveis, seja pela formatação teórica, seja pelo desempenho prático da economia do bem-estar e seus desdobramentos especí- ficos em relação aos temas da desigualdade, da pobreza e do desenvolvimento. Sen é um liberal, sem dúvida, mas é um liberal que sabe reconhecer o valor da liberdade sem confundi-lo com a igualdade. Assim como se mostra um economista disposto a dialogar com a política e com o direito, Sen revela-se um membro da comunidade intelectual liberal mais sensível às interpelações humanistas, éticas e filosóficas – o que resulta em um positivo diferencial de seu trabalho em relação ao cânone da economia liberal. FGV DIREITO RIO 73
  • 73. TEORIa Da jusTIça 3.2.1. aula 16: caPacidade e Bem-estar Texto base: SEN, Amartya. Desigualdade Reexaminada. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, caps. 3 e 4. 3.2.1.1. introdução No que toca ao tema da relação entre justiça e desigualdade, a principal questão enfrentada por Sen consiste em saber de que igualdade se trata, isto é, que tipo de igualdade está em jogo. Em outras palavras, a questão é menos a de saber qual con- cepção ou forma de igualdade postula-se do que saber exatamente qual o conteúdo substantivo da igualdade postulada por uma determinada concepção igualitária. Tampouco busca Sen justificar a igualdade (ou a desigualdade) ou encontrar uma resposta que auxilie na fundamentação de seu valor. Por isso, ele insiste que a prin- cipal questão a ser colocada (e respondida) pelos analistas do tema não deve ser “por que a igualdade?”, mas, sim, “igualdade de quê?”. O ponto de partida e um dos principais sustentáculos do argumento de Sen consiste naquilo que ele concebe como o fato da diversidade humana, isto é, o fato de que as pessoas são diferentes em função do ambiente natural e social que as cer- cam – o que resulta também em uma constante diversidade de suas “características externas” e de suas “características pessoais”. Esse pressuposto faz com que o ponto de partida do modelo teórico de Sen seja justamente a desigualdade – e mais, uma desigualdade natural, ou naturalizada. Sen distingue-se, assim, de boa parte da fi- losofia política contemporânea com a qual dialoga (os artífices dos “modelos éticos de ordenamento social”) e de seus principais interlocutores, como, por exemplo, o mais importante deles: John Rawls. Conforme já aprendemos, Rawls adota como pressuposto de seu modelo teórico uma construção contrafática que lhe permite justamente partir de uma situação de igualdade. A função do véu da ignorância rawlsiano que cobre os sujeitos na posição original é justamente a de garantir uma concepção de justiça igualitária. Mas o que importa nisso, para fazer a distinção em relação a Sen, é que o véu da ignorância garante uma situação de igualdade (e não apenas de imparcialidade) já na própria posição original, que representa o ponto de partida do argumento rawlsiano. Ou seja, enquanto Rawls parte da igualdade a fim de chegar à própria igualdade, Sen parte da desigualdade para nela permanecer, pois seu modelo apenas provê instru- mental teórico para a análise da desigualdade, omitindo-se de apresentar possíveis soluções para os problemas práticos e teóricos que ela acarreta (ou que ela em si representa). Com efeito, o papel deste pressuposto acerca da “diversidade humana” é deveras importante na construção do argumento de Sen. Um de seus principais efeitos con- siste, por exemplo, na constatação de que a igualdade em um espaço (leia-se “espaço de avaliação”, ou seja, a seleção das variáveis focais relevantes em uma determinada FGV DIREITO RIO 74
  • 74. TEORIa Da jusTIça análise da desigualdade) sempre corresponderá à desigualdade em outro. Assim, a resposta à questão fundamental acerca de qual igualdade se trata (“igualdade de quê?”) não apenas deverá ser referida à igualdade no espaço escolhido para a análise, mas também deverá possuir reflexos extensos e relevantes em outros espaços não priorizados (ou priorizados secundariamente) em tal análise. É desta forma que a constatação (ou busca) da igualdade em um determinado espaço implicará de forma lógica e necessária a percepção da existência da desigualdade em algum outro espaço (o qual por sua vez pode constituir o espaço escolhido de análise – e, portanto, o espaço principal – de uma outra pesquisa que se oriente por outras variáveis). Sen sabe, contudo, que a relação entre a igualdade e seu oposto (isto é, a relação entre igualdade e desigualdade), consubstanciada na afirmação de que a uma igualda- de sempre corresponderá uma desigualdade, não pode ser estendida analogicamente à relação entre igualdade e liberdade. Isso porque Sen sabe muito bem, ao contrário de muitos de seus colegas economistas e liberais, que a liberdade não é o oposto da igualdade. Vale dizer, ele sabe que ambas não são excludentes e que tampouco a rea- lização de uma implica a não-realização de outra. Diante disso, Sen é taxativo em sua defesa de que tal modo tradicional de conceber a relação entre liberdade e igualdade é falho. Este seria, segundo o próprio Sen, um dos principais erros de muitos autores contemporâneos classificados como libertários. Assim, não seria nem correto e nem útil conceber a relação entre aqueles dois valores como uma relação de oposição (isto é, liberdade x igualdade), pois, afinal, eles não são alternativos. A liberdade sempre estaria entre os possíveis “campos de aplicação” da igualdade, assim como esta, por sua vez, sempre se encontraria entre os possíveis “padrões de distribuição” da liberdade. Um dos principais argumentos de Sen parte da crítica à predominância da va- riável ‘rendas’ nas análises sobre a desigualdade. De acordo com ele, a extensão da desigualdade real de oportunidades não pode ser deduzida única e diretamente da desigualdade de rendas, pois “o que podemos ou não fazer, podemos ou não realizar, não depende somente das nossas rendas, mas também da variedade de caracterís- ticas físicas e sociais que afetam nossas vidas e fazem de nós o que somos”. Ignorar esse fato consistiria em um dos principais problemas da literatura econômica sobre a medição de desigualdade. É a percepção deste problema e a tentativa de resolvê-lo que levará Sen a for- mular uma possível alternativa para dar conta adequadamente das análises sobre a desigualdade. A idéia central dessa visão alternativa consiste no conceito de capaci- dade. “Capacidade”, no esquema argumentativo de Sen, não é apenas um conceito, mas uma nova perspectiva de análise. A abordagem da capacidade se distinguiria decisivamente das abordagens tradicionais de avaliação individual e social, as quais comumente se baseiam em variáveis tais quais “bens primários” (como no caso de Rawls), “recursos” (como no caso de Dworkin) ou “renda real” (como no caso da grande maioria das análises de cunho econômico). De acordo com Sen, todas essas variáveis tradicionais consistem apenas em instrumentos para a realização do bem- estar e meios para a liberdade. Já a capacidade, ao contrário, implica a liberdade para buscar funcionamentos (parte dos elementos constitutivos do bem-estar e do estado de uma pessoa), além de desempenhar um papel direto no próprio bem-estar. FGV DIREITO RIO 75
  • 75. TEORIa Da jusTIça A perspectiva da capacidade possibilita um reconhecimento mais completo “da variedade de maneiras sob as quais as vidas podem ser enriquecidas e empobreci- das”. Além disso, a capacidade concentra-se diretamente sobre a liberdade, e não sobre os meios para realizá-la: ela é, assim, um “reflexo da liberdade substantiva”. Nesse sentido, a capacidade de uma determinada pessoa representa a sua liberdade de realizar bem-estar. Correlato ao conceito de capacidade está o conceito de funcionamento. De acor- do com Sen, a capacidade é definida em termos das mesmas variáveis que os fun- cionamentos, de modo que não há diferença, no contexto de uma análise específica, entre focalizar um ou outro. Isso explica em parte porque “uma combinação de funcionamentos é um ponto em tal espaço (o espaço de avaliação no qual a análise se desenvolve, é evidente), enquanto a capacidade é um conjunto de tais pontos”. Uma vez que a capacidade é um reflexo da liberdade substantiva, sua definição possui um papel bastante importante no conjunto do argumento de Sen. Em pri- meiro lugar, ele insiste que ela deve ser distinguida da realização, dos recursos e meios para a liberdade. Em outras palavras, é preciso distinguir entre, de um lado, a liber- dade em si, isto é, a própria liberdade, e, de outro, os recursos e meios que auxiliam a atingi-la, bem como a sua própria realização. Uma coisa é, portanto, a liberdade, a liberdade para realizar, outra coisa é a realização (ou realizações) propiciada por tal liberdade. Outra distinção conceitual que Sen estabelece em sua discussão sobre a liberdade consiste em diferenciar o que seria a “liberdade da condição de agente” (liberdade para fazer acontecer as realizações que se valoriza e se tenta produzir) e a “liberdade de bem-estar” (liberdade para realizar as coisas que são constitutivas do seu bem-es- tar). Esta última forma de liberdade, a liberdade de bem-estar, reflete, segundo Sen, o conjunto capacitário de uma pessoa, isto é, a reunião total de suas capacidades. A liberdade de bem-estar (assim como a própria realização do bem-estar) pode mover-se em direção oposta à liberdade de condição de agente – ou seja, enquanto um cresce o outro decresce e vice-versa. Em conseqüência, liberdade e realização de bem-estar são também suscetíveis a esse movimento antagônico, em direções opos- tas. Esse tipo de conflito pode ocorrer a despeito da interpretação da liberdade que se encontra em jogo. Em outras palavras, liberdade e bem-estar podem mover-se em direções opostas (um causando o acréscimo ou decréscimo do outro) a despeito do fato de interpretarmos a liberdade como “liberdade de condição de agente” ou “liberdade de bem-estar”. 3.2.1.2. objetiVos Encontram-se entre os objetivos desta aula os seguintes: • examinar o conceito de capacidade; • investigar o conceito de “funcionamentos”; • analisar a relação entre liberdade e igualdade na perspectiva capacitária; FGV DIREITO RIO 76
  • 76. TEORIa Da jusTIça • avaliar a relação entre liberdade, igualdade e bem-estar; • contrastar a concepção de justiça como capacidade de Sen com a concepção de justiça como eqüidade de Rawls; e • comparar a concepção de bem-estar de Sen com a de Dworkin aprendida nas aulas anteriores. 3.2.1.3. biblioGrafia obriGatória SEN, Amartya. Desigualdade Reexaminada. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, caps. 3 e 4. 3.2.1.4. biblioGrafia coMPleMentar DANIELS, Norman. Equality of What: Welfare, Resources, or Capabilities? In: Phi- losophy and Phenomenological Research, Vol. 50, Supplement (Autumn, 1990), pp. 273-296. SEN, Amartya. Justice: Means versus Freedoms. In: Philosophy and Public Affairs, Vol. 19, No. 2 (Spring, 1990), pp. 111-121. 3.2.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após a leitura do texto indicado, os alunos devem responder as seguintes ques- tões: 1. Relacione, de um lado, capacidade e bem-estar e, de outro, capacidade e liberdade para buscar bem-estar. 2. O que são os conjuntos capacitários? 3. Estabeleça a relação entre capacidade e funcionamentos. 4. Diferencie capacidade e utilidade. 5. Qual conflito se estabelece entre liberdade e bem-estar? 6. Qual a relevância do bem-estar para uma teoria da justiça? 3.2.1.6. conclusão Espera-se que com esta aula os alunos sejam introduzidos na economia do bem- estar e identifiquem a sua importância para a teoria da justiça. Em particular, es- pera-se que os alunos compreendam a contribuição de Sen ao debate sobre a desi- gualdade e tornem-se aptos a articular os conceitos de capacidade, funcionamento e bem-estar. Além disso, espera-se que os alunos possam adquirir um novo ângulo analítico a respeito da relação entre liberdade e igualdade. FGV DIREITO RIO 77
  • 77. TEORIa Da jusTIça 3.2.2. aula 17: Bem-estar e desenvolvimento Texto base: SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Compa- nhia das Letras, 1999, cap. 3. 3.2.2.1. introdução Além de suas contribuições no contexto das discussões acerca da desigualdade, Sen oferece ainda um grande aporte ao debate sobre a pobreza e o desenvolvimento. Uma de suas importantes constatações no campo de estudos sobre a pobreza diz respeito à necessidade de atentar também à distribuição de renda entre os pobres. Diante disso, ele cria um novo parâmetro estatístico (o qual denomina simplesmente como “D”, a fim de fazer a distinção em relação às demais medidas de desigualdade referentes à distribuição da pobreza) que permita conceber e avaliar a medida da desigualdade entre os pobres. Aplicando sua abordagem analítica da capacidade ao tema da pobreza, Sen expli- ca que esta pode ser melhor compreendida como sendo uma “deficiência de capaci- dade” do que como uma falha na satisfação das necessidades básicas de mercadorias. Uma vez entendida a pobreza como deficiência de capacidade, o papel das mercado- rias, enquanto variável analítica componente do espaço de avaliação de uma análise de medição da pobreza, deve também, por sua vez, ser substituído pelo conceito de funcionamentos (ou seja, o que deve passar a ser considerado nas análises é o “espa- ço de funcionamentos”, e não o “espaço de mercadorias”). Aceitando-se a pobreza como uma questão de deficiência de capacidade, segue-se que a pobreza passa a ser diagnosticada não pelo “baixo nível de renda” das pessoas analisadas, mas, sim, pela sua “inadequação para gerar capacidades” minimamente aceitáveis. Assim, saindo de cena as variáveis renda e mercadoria, entende-se que o que está em jogo na análise da pobreza é a capacidade de realizar funcionamentos. Mesmo a adequação de determinados níveis particulares de renda deve ser julgada de acordo com a capacidade, explica Sen. Assim, não haveria mais de se falar em “renda baixa” para diagnosticar-se a incidência da pobreza, mas, sim, em “renda inadequada”, pois se trata afinal de saber se uma determinada renda pode ou não ser convertida em capacidade (e a extensão com que isso pode ser feito), não obstante seu tamanho (da renda). Essa distinção entre os conceitos de capacidade e renda e os respectivos papéis por eles operados seria crucial para a compreensão da persistência da pobreza e da fome em países ricos. O tamanho das rendas por si só não consegue dar conta de uma explicação consistente para esse fato real de muitas sociedades (ricas) contem- porâneas. De acordo com Sen, o baixo nível de renda é apenas um dentre outros fatores que influenciam a pobreza em países ricos, tais como, por exemplo, os Es- tados Unidos. Quando o foco é jogado na perspectiva da capacidade, percebe-se, novamente, que o tamanho da renda não interfere diretamente na possibilidade de sua conversão FGV DIREITO RIO 78
  • 78. TEORIa Da jusTIça em capacidade (reitere-se, renda não basta; o que é necessário é poder convertê-la em capacidade). Nos países ricos, por mais que a renda média da população seja alta, o custo de vida comumente também é alto, de modo que a renda pode não significar diretamente capacidade, pois o processo de conversão de uma em outra pode ser complicado, uma vez que independe em absoluto apenas do tamanho da renda. Em síntese, o que parece ser importante frisar é que, de acordo com Sen, a pobreza não se traduz em (e não deve ser entendida como) rendas baixas, mas em capacidades básicas insuficientes. Conectando este ponto à discussão da aula anterior sobre a desigualdade, em especial com a caracterização da liberdade estabelecida em função do conceito de capacidade, pode-se entender que, tratando-se a pobreza de uma deficiência de capacidade, ela não seria meramente um problema de falta de igualdade, mas também de falta de liberdade. 3.2.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula, destacam-se: • relacionar as perspectivas igualitária, utilitarista e capacitária da justiça; • comparar pobreza, felicidade e bem-estar como fundamentos alternativos para as teorias de justiça; • examinar a importância da base informacional nos julgamentos; • apresentar as contribuições de Sen para o estudo da pobreza e da desigualdade; • relacionar liberdade, bem-estar e desenvolvimento; • relacionar bem-estar, recursos e capacidade; e • debater a parábola de Annapurna a partir do posicionamento dos alunos em relação ao mesmo. 3.2.2.3. biblioGrafia obriGatória SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Le- tras, 1999, cap. 3. 3.2.2.4. biblioGrafia coMPleMentar DOMINGUES, José Maurício. Do Ocidente à Modernidade. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 2003, capítulo 7. KERSTENETZKY, Célia Lessa. Desigualdade e Pobreza: Lições de Sen. In: Re- vista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 15, n. 42, São Paulo, fevereiro de 2000. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Le- tras, 1999, caps. 1 e 2. FGV DIREITO RIO 79
  • 79. TEORIa Da jusTIça 3.2.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após a leitura do texto indicado, os alunos devem tentar responder às seguintes questões: 1. Se você fosse Annapurna, para quem daria o emprego? Justifique sua respos- ta. 2. Quais são as principais críticas de Sen ao libertarianismo, ao utilitarismo e à justiça rawlsiana? 3. Explique quais são as cinco fontes de variação entre a renda real e as vanta- gens (liberdade e bem-estar) que ela proporciona. 4. Relacione renda, recursos e liberdade. 5. Explique as abordagens práticas alternativas da perspectiva capacitária. 3.2.2.6. conclusão Com esta aula, espera-se que os alunos tenham compreendido a abordagem ca- pacitária do bem-estar e estejam aptos a articulá-la como uma concepção alternativa de justiça. Espera-se ainda que os alunos identifiquem esta abordagem como um contraponto crítico às teorias da justiça como eqüidade estudadas no segundo bloco do curso e à perspectiva igualitária de Dworkin sobre o bem-estar. FGV DIREITO RIO 80
  • 80. TEORIa Da jusTIça 3.3. a PersPectiVa econôMica A terceira abordagem a ser discutida nesta terceira parte do curso é a perspec- tiva propriamente econômica das concepções de justiça como bem-estar. Em um primeiro momento, a justiça será relacionada com a idéia de eficiência, e, para tan- to, a análise econômica do direito (law and economics), que muito se popularizou através da obra de Richard Posner, servirá de ponto de apoio para o debate. Em um segundo momento, o curso adentrará uma perspectiva propriamente econômica da justiça como bem-estar por meio da obra conjunta de Louis Kaplow e Steven Shavell, que busca justamente favorecer esta concepção em detrimento das diversas concepções de justiça como eqüidade. FGV DIREITO RIO 81
  • 81. TEORIa Da jusTIça 3.3.1. aula 18: justiça e eFiciência Texto base: POSNER, Richard. The Economics of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 1981, cap. 4. 3.3.1.1. introdução O conceito de maximização da riqueza é o principal argumento utilizado por Posner na defesa de um fundamento adequado para a avaliação das instituições jurídicas. De acordo com ele, a maximização da riqueza proporciona uma base nor- mativa mais segura para o conceito de justiça. A riqueza seria maximizada quando os bens materiais e outras fontes de satis- fação são distribuídas de modo tal que o seu valor agregado é maximizado. Nesse sentido, Posner afasta-se do utilitarismo, na medida em que este defende que a utilidade total da sociedade deve ser maximizada. Três seriam as categorias de direitos fundamentais tomadas por Posner como essenciais para facilitar a maximização da riqueza: segurança pessoal, liberdade pes- soal e propriedade privada. Estas três categorias de direito estão na base da visão de Posner do Direito como um esforço direcionado à promoção da eficiência. O papel do Estado nesta perspectiva seria semelhante ao das perspectivas re- distributivistas que buscam promover a eficiência através do provimento de “bens públicos” – isto é, bens que provém benefícios não limitados àqueles que pagam por eles e, por isso, são produzidos em quantidades sub-ótimas pelos mercados priva- dos. O sistema jurídico seria um desses bens públicos na medida em que corrigiria algumas falhas do mercado, como é o caso das externalidades. Posner, contudo, reconhece as limitações de tal compreensão do papel do Estado na promoção da eficiência e na visão do direito como um dos bens públicos a ser provido por ele. Esta perspectiva falharia, por exemplo, ao não considerar a relação entre a maximização de utilidade individual e as políticas do Estado. Por isso, Pos- ner desenvolve a sua análise, a fim de conferir-lhe mais robustez teórica. Para tanto, busca aplicar a regra da eficiência em várias áreas do Direito, usualmente reguladas pelos métodos tradicionais do direito, de modo a produzir um aumento na riqueza da sociedade. Na verdade, a análise econômica da justiça de Posner conjuga uma teoria da eficiência do direito com uma teoria redistributiva do Estado. Seu objetivo com isso é o de desenvolver uma teoria moral que vá alem do utilitarismo clássico. A concep- ção de justiça que decorre desta abordagem consiste em tomar a maximização da riqueza da sociedade como critério para avaliar a justiça de atos e instituições. Este critério permitiria conciliar utilidade, liberdade e eqüidade. De acordo com Posner, o direito (e o Estado) não deve meramente distribuir a riqueza, mas criá-la. FGV DIREITO RIO 82
  • 82. TEORIa Da jusTIça 3.3.1.2. objetiVos Entre os objetivos desta aula, encontram-se os seguintes: • analisar a relação entre justiça e eficiência; • avaliar a pertinência do conceito de maximização da riqueza como critério para a teoria da justiça; • examinar o papel do Direito e do Estado na promoção da eficiência; • contrastar o critério da maximização da riqueza com as perspectivas redistri- butivistas estudadas nas aulas anteriores; e • debater a desirabilidade da implementação de uma concepção de justiça fun- dada na eficiência econômica (ou particularmente alicerçada na maximiza- ção da riqueza da sociedade) no Brasil. 3.3.1.3. biblioGrafia obriGatória POSNER, Richard. The Economics of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 1981, cap. 4. 3.3.1.4. biblioGrafia coMPleMentar “Review: The Economics of Justice by Richard A. Posner” In: Michigan Law Re- view, Vol. 80, No. 4, 1982, pp. 942-946. LE GRAND, Julian. Equity Versus Efficiency: The Elusive Trade-Off. In: Ethics, Vol. 100, No. 3 (Apr., 1990), pp. 554-568. 3.3.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Ao finalizar a leitura da bibliografia indicada, os alunos devem tentar responder às questões abaixo: 1. Explique o que é a base consensual da eficiência. 2. Qual é a relação entre o princípio do consenso e a maximização da riqueza? 3. Qual seria a diferença entre um sistema jurídico que promova a utilidade e um sistema jurídico que promova a eficiência? 3.3.1.6. conclusão Com esta aula, os alunos devem compreender como a eficiência econômica pode servir de base a uma teoria da justiça. Em particular, os alunos devem ser capazes FGV DIREITO RIO 83
  • 83. TEORIa Da jusTIça de avaliar criticamente a idéia de maximização da riqueza enquanto critério estru- turante de uma concepção de justiça que busca promover o bem-estar. Além disso, espera-se que o papel do Estado e do Direito na promoção da eficiência defendido por essa perspectiva possa ser contrastado com as perspectivas estudadas em aulas anteriores, em particular com o utilitarismo e o igualitarismo. FGV DIREITO RIO 84
  • 84. TEORIa Da jusTIça 3.3.2. aula 19: justiça e Bem-estar econômico Texto base: KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare. Cam- bridge: Harvard University Press, pp. 15-38 e 52-62. 3.3.2.1. introdução A perspectiva a ser estudada nesta aula foca-se especificamente nos princípios que devem orientar a sociedade na avaliação de políticas voltadas ao direito. Com este objetivo, duas abordagens fundamentais são consideradas: uma baseada na eqüida- de e outra no bem-estar. As concepções de justiça fundadas na eqüidade, que são descartadas por esta perspectiva vinculam-se àquelas que foram estudadas na segun- da parte do curso. A concepção de justiça fundada nos efeitos das regras jurídicas sobre o bem-estar dos indivíduos, que é adotada por esta perspectiva, aproxima-se daquelas estudadas nas aulas anteriores desta terceira parte do curso, porém não se identifica com elas. Assim, como na perspectiva de Posner sobre a eficiência do direito, a teoria da justiça de Kaplow e Shavell foca-se especificamente na avaliação dos atos e instituições jurídicas ao defender uma abordagem normativa baseada no bem-estar como critério para a avaliação das regras jurídicas. 3.3.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula, destacam-se: • analisar o papel da economia do bem-estar na teoria da justiça; • contrapor a idéia de bem-estar econômico às concepções de justiça como eqüidade estudadas na segunda parte do curso; • prover uma nova abordagem econômica do direito que se foca especifica- mente na avaliação das regras jurídicas; • estabelecer uma distinção entre a avaliação de regras sociais e regras jurídicas; e • verificar se a noção de bem-estar econômico serve à avaliação das regras do ordenamento jurídico tanto quanto à avaliação das regras de organização geral da sociedade. 3.3.2.3. biblioGrafia obriGatória KAPLOW, Louis e SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare. Cambridge: Har- vard University Press, pp. 15-38 e 52-62. FGV DIREITO RIO 85
  • 85. TEORIa Da jusTIça 3.3.2.4. biblioGrafia coMPleMentar GRIFFIN, James. Some Problems of Fairness. In: Ethics, Vol. 96, No. 1 (Oct., 1985), pp. 100-118. KAPLOW, Louis e SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare: Notes on the Pareto Principle, Preferences and Distributive Justice. In: Journal Of Legal Studies, 32, January 2003, pp. 331-362. 3.3.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Uma vez realizada a leitura indicada, os alunos devem tentar responder às per- guntas abaixo: 1. Como os autores definem o bem-estar individual? 2. Em que medida a economia do bem-estar apresentada pelos autores aproxi- ma-se ou distancia-se daquela elaborada por Amartya Sen? 3. Qual conflito estabelece-se entre bem-estar social e bem-estar individual? 4. Qual é a opinião dos autores sobre a distribuição de renda e a maximização da riqueza como critérios de justiça? 5. Que críticas podem ser feitas à perspectiva de Posner a partir da abordagem de Kaplow e Shavell? 6. Quais são as principais críticas feitas pelos autores às concepções de justiça como eqüidade? 3.3.2.6. conclusão Com esta aula, os alunos devem perceber as nuances existentes nas diferentes abordagens da economia do bem-estar à teoria da justiça. Ao estabelecer um para- lelo com Sen e Posner, os alunos devem questionar as diversas maneiras de com- preender o uso econômico da noção de bem-estar e as diversas aplicações que tal noção pode receber na elaboração de uma teoria da justiça. Por fim, almeja-se que os alunos reflitam se a noção de bem-estar econômico serve à avaliação das regras do ordenamento jurídico tanto quanto à avaliação das regras de organização geral da sociedade. FGV DIREITO RIO 86
  • 86. TEORIa Da jusTIça conclusão do bloco Este bloco centrou-se na análise das abordagens que colocam o bem-estar no lugar de fundamento da teoria da justiça e de critério para a avaliação de regras apli- cáveis à organização da sociedade, em geral, e do direito, em particular. Espera-se que os alunos, neste ponto do curso, estejam aptos a analisar criticamente as pers- pectivas igualitária, capacitária e econômica da justiça, bem como possam compará- las com as demais abordagens estudadas na segunda parte do curso que se valem de um conteúdo substantivo específico da idéia de eqüidade (fundada na prioridade dos direitos ou dos bens) sem se preocupar primordialmente com o bem-estar da sociedade e dos indivíduos que nela vivem. FGV DIREITO RIO 87
  • 87. TEORIa Da jusTIça 4. Bloco iv: justiça como reconhecimento introdução Uma vez estudado aquilo que constitui o cânone da Teoria da Justiça, o curso passará à sua quarta parte, trazendo a lume algumas concepções de justiça que não se encaixam nas teorias da justiça como eqüidade, nem nas teorias da justiça como bem-estar. Assim, o curso abre espaço para uma das discussões mais fortes do cená- rio contemporâneo, o reconhecimento. O conhecido debate entre Nancy Fraser e Axel Honneth será abordado a fim de relacionar a justiça aos problemas do reconhe- cimento. Seja como distribuição, seja como reconhecimento, a justiça já se revela neste debate apontando para a importante questão da justiça social em um contexto pós-liberal e multicultural. No intuito de mapear as principais tendências críticas suscitadas pela Teoria da Justiça nos últimos anos, serão abordados nesta parte do curso os crescentes debates suscitados pelo multiculturalismo e pelo feminismo. Duas importantes expoentes destas frentes que se opõem às tradicionais concepções da justiça como eqüidade, Iris Marion Young e Martha Minow, serão estudadas a fim de relacionar a justiça com os problemas que vêm sendo colocados recentemente pelo cosmopolitismo cultural e pelas políticas de gênero. objetiVos Dentre os objetivos deste bloco, destacam-se os seguintes: • ampliar o espectro de perspectivas que se relacionam com a problemática da justiça, mesmo que de forma indireta; • apresentar algumas das teorias centrais do debate contemporâneo da Filoso- fia do Direito e da Filosofia Política; • permitir que os alunos possam avaliar criticamente as perspectivas estudadas nos blocos anteriores do curso a partir das novas abordagens que lhes serão apresentadas neste bloco; e • possibilitar que os alunos percebam que, por mais que a teoria da justiça seja o principal tema de convergência da Filosofia do Direito Contemporânea, ela não é o único. FGV DIREITO RIO 88
  • 88. TEORIa Da jusTIça 4.1. aulas 20 e 21: redistriBuição ou reconhecimento? Textos base: FRASER, Nancy. “Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da Justiça na era pós-socialista”. In: SOUZA, J. (org.). Democracia hoje: novos desa- fios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora UNB, 2001. HONNETH, Axel. “Redistribution as Recognition” In: FRASER, Nancy e HONNETH, Axel (eds.). Redistribution or Recognition?. London: Verso, 2003, pp. 160-189. 4.1.1. introdução O tema do reconhecimento vem assumindo um espaço cada vez maior na agen- da contemporânea da Filosofia do Direito e da Filosofia Política. O debate travado sobre esse assunto entre Nancy Fraser e Axel Honneth, dois dos principais expoentes da teoria crítica contemporânea, vem ganhando dimensões cada vez maiores, sendo progressivamente incorporado em outras discussões, tais como aquelas relativas à identidade, à diferença e à ação afirmativa. Tanto Fraser como Honneth partem da premissa de que um entendimento ade- quado da justiça deve incluir pelo menos duas questões: as lutas pela distribuição e as lutas pelo reconhecimento. Ambos rejeitam que a relação entre reconhecimento e redistribuição é inadequadamente tratada pela visão econômica que reduz o reco- nhecimento a um mero epifenômeno da distribuição. O debate instaura-se quando as divergências entre os dois autores entram em campo. Honneth concebe o reconhecimento como uma categoria moral funda- mental, da qual a distribuição seria uma derivação. Fraser não aceita que a distribui- ção possa ser subsumida sob o reconhecimento. Por isso, ela propõe uma perspecti- va dualista que toma as duas categorias como co-fundamentais e as concebe como dimensões mutuamente irredutíveis da justiça. 4.1.2. objetiVos Encontram-se entre os objetivos desta aula os seguintes: • apresentar o debate contemporâneo em torno da noção de reconhecimen- to e as implicações que ele traz para a Filosofia do Direito; • debater a relação entre redistribuição e reconhecimento; • identificar a concepção de justiça bi-dimensional proposta por Fraser; e • examinar a distribuição e o reconhecimento como dimensões mutuamen- te irredutíveis da justiça. FGV DIREITO RIO 89
  • 89. TEORIa Da jusTIça 4.1.3. biblioGrafia obriGatória FRASER, Nancy. “Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da Justiça na era pós-socialista”. In: SOUZA, J. (org.). Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora UNB, 2001. HONNETH, Axel. “Redistribution as Recognition” In: FRASER, Nancy e HONNETH, Axel (eds.). Redistribution or Recognition?. London: Verso, 2003, pp. 160-189. 4.1.4. biblioGrafia coMPleMentar FRASER, Nancy e HONNETH, Axel (eds.). Redistribution or Recognition?. London: Verso, 2003. 4.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Faça uma resenha crítica do texto de Nancy Fraser. Ao redigir sua resenha: 1. Não deixe de avaliar a concepção bi-dimensional de justiça proposta pela autora. 2. Emita a sua opinião acerca da compatibilidade entre distribuição e reconhe- cimento. 3. Indique como a problemática sobre o reconhecimento relaciona-se com as teorias da justiça analisadas nas partes anteriores do curso. 4.1.6. conclusão Espera-se que o importante debate entre Fraser e Honneth ajude os alunos a rela- cionarem a justiça aos problemas da redistribuição e do reconhecimento, ou melhor, que os ajude a conectar o problema do reconhecimento às diversas concepções sobre justiça distributiva abordadas nas aulas anteriores desse curso. É desejável que os alunos posicionem-se a respeito da perspectiva de Fraser, indicando até que ponto o atual grau de desenvolvimento da sociedade capitalista e os desafios impostos pela globalização (com as conseqüentes questões de identidade, diferença e multicultu- ralismo que ela impõe) tornam inexorável a inserção do reconhecimento em toda teorização sobre a justiça que se pretenda adequada à realidade contemporânea. FGV DIREITO RIO 90
  • 90. TEORIa Da jusTIça 4.2. aula 22: justiça e multiculturalismo Texto base: YOUNG, Iris Marion. “Polity and Group Difference: A Critique of the Ideal of Universal Citizenship” In: GOODIN, Robert e PETTIT, Philip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, pp. 248-263. 4.2.1. introdução O multiculturalismo é uma das principais tendências do pensamento contem- porâneo. As mudanças que vêm ocorrendo no mundo em virtude da globalização e das novas tecnologias que surgem com ela tornam inexorável o redimensionamento da dimensão cultural. Questões relativas à identidade e à diferença tornam-se cada vez mais prementes e o debate entre o universalismo e o relativismo torna-se cada vez mais acirrado. Iris Youg entrou no cada vez mais movimentado debate sobre multiculturalismo e cosmopolitismo trazendo ao mesmo um aporte crítico importante. Seu mais im- portante livro, Justice and the Politics of Difference, publicado em 1990, realiza uma extensa análise crítica dos conceitos básicos que orientam a maioria das teorias da justiça, além de defender uma nova concepção de justiça que clama pela afirmação das diferenças existentes entre os grupos sociais. É esta abordagem que conhecere- mos nesta aula, quando a discutiremos no contexto dos problemas colocados pela demanda em torno de uma cidadania universal defendida por diversas teorias mul- ticulturalistas contemporâneas. 4.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula, destacam-se os seguintes: • apresentar o tema do multiculturalismo e expor seu papel na Filosofia do Direito e na Filosofia Política contemporâneas; • discutir a idéia de cidadania universal e de uma justiça global; • examinar os desafios que o multiculturalismo impõe à teoria da justiça; e • debater a validade de uma concepção de justiça universal. 4.2.3. biblioGrafia obriGatória YOUNG, Iris Marion. Polity and Group Difference: A Critique of the Ideal of Uni- versal Citizenship. In: GOODIN, Robert e PETTIT, Philip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, pp. 248 a 263. FGV DIREITO RIO 91
  • 91. TEORIa Da jusTIça 4.2.4. biblioGrafia coMPleMentar CHANDLER, David. “International Justice”. In: ARCHIBUGI, Daniele. Deba- ting Cosmopoltics. London: Verso, 2003. HELD, David. “Violence, Law and Justice in a Global Age”. In: ARCHIBUGI, Daniele. Debating Cosmopolitics. London: Verso, 2003. 4.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Redija um pequeno ensaio a partir de uma das duas questões abaixo: 1. A cidadania universal pode se sobrepor às particularidades e às diferenças existentes entre os indivíduos e os grupos? 2. Devem existir leis iguais para todas as pessoas e que se apliquem a elas in- distintamente, a despeito das diferenças que existem entre os indivíduos e os grupos? 4.2.6. conclusão Justiça internacional, justiça global, justiça cosmopolita e justiça universal: todas estas são demandas colocadas pelo multiculturalismo que, por sua vez, é suscitado pela nova organização política e econômica que assume o mundo atual. A aula de hoje busca inserir o aluno no contexto desse debate, possibilitando que ele articule a relação entre justiça e multiculturalismo em uma perspectiva que escapa às fron- teiras do Estado-nação. FGV DIREITO RIO 92
  • 92. TEORIa Da jusTIça 4.3. aula 23: justiça e Feminismo Texto base: MINOW, Martha. “Justice Engendered”. In: GOODIN, Robert e PETTIT, Philip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Pu- blishing, 2006, pp. 501-521. 4.3.1. introdução O feminismo vem permeando as diversas teorias e abordagens acadêmicas de- senvolvidas nas últimas décadas. No campo específico da Filosofia Política, são di- versas as orientações feministas existentes, cada qual com a sua própria demanda e perspectiva. A teoria da justiça, evidentemente, não fica de fora do campo crítico do femi- nismo. São várias as reivindicações e contribuições feitas pelas autoras feministas ao debate travado nos últimos anos em torno da idéia de justiça. Há orientações feministas que argumentam que a concepção de justiça compartilhada por liberais e igualitários é tendenciosa, no sentido de priorizar os homens. Há também orienta- ções feministas que argumentam que a própria ênfase na idéia de justiça reflete um viés masculino. As feministas que compartilham essa visão sustentam que a ênfase na justiça deveria ser substituída por uma ênfase no cuidado (care). Usaremos a perspectiva feminista como ponto de partida para abordar a chama- da “política da diferença”. O debate contemporâneo sobre a diferença vincula-se ao debate sobre a justiça, reivindicando que as minorias – como é o caso das mulheres – sejam mais amplamente consideradas e incorporadas às teorias da justiça. Nesta aula, trataremos do caso do gênero juntamente a outros que a ele se associam no debate sobre as diferenças, como, por exemplo, a raça, a etnia, a religião e a defici- ência física. 4.3.2. objetiVos Entre os objetivos desta aula, encontram-se os seguintes: • apresentar a perspectiva feminista da Filosofia Política contemporânea; • desenvolver um ângulo feminista no debate sobre a justiça; • analisar as críticas feministas à teoria da justiça; • debater como as concepções de justiça estudadas no curso poderiam contem- plar melhor as questões de gênero; • examinar o conceito de diferença e a idéia de uma política da diferença; e • estender o debate do gênero à questão da raça, da etnia, da religião e de ou- tras minorias eventualmente desconsideradas pelas teorias da justiça. FGV DIREITO RIO 93
  • 93. TEORIa Da jusTIça 4.3.3. biblioGrafia obriGatória MINOW, Martha. “Justice Engendered”. In: GOODIN, Robert e PETTIT, Phi- lip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, pp. 501-521. 4.3.4. biblioGrafia coMPleMentar NUSSBAUM, Martha C. Frontiers of Justice. Belknap Press, New York, 2006. ____________________. Sex and Social Justice. Oxford: Oxford University Press, 2000. 4.3.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Após fazer a leitura do texto indicado, responda às seguintes questões: 1. O que é o dilema da diferença? Explique as suas três versões. 2. Qual tem sido o papel da Suprema Corte norte-americana diante do dilema da diferença? 3. Quais são as cinco suposições não declaradas sobre a natureza das diferenças e o dilema que elas envolvem? Explique cada um delas. 4.3.6. conclusão Espera-se que os alunos compreendam a partir desta aula o papel que o conceito de diferença e as políticas da diferença devem ocupar nas teorias da justiça. Analo- gamente, espera-se que os alunos possam identificar as demandas das minorias que desejam ser mais amplamente consideradas pelo Estado e pelo Direito, incorporan- do-se nas diversas concepções de justiça que vem sendo desenvolvidas nas últimas três décadas e meia. Por fim, espera-se que os alunos percebam que questões como gênero, raça, etnia e religião, entre outras, devem ser contempladas pela teoria da justiça. FGV DIREITO RIO 94
  • 94. TEORIa Da jusTIça conclusão do bloco: Espera-se que, com este bloco sobre as novas perspectivas críticas da teoria da justiça, os alunos tenham tido a oportunidade de fugir do cânone tradicional e conhecer algumas das discussões mais importantes que vêm assumindo a cena da Filosofia do Direito e da Filosofia Política contemporâneas. Assim, espera-se que os alunos sintam-se, nesta etapa do curso, minimamente familiarizados com os deba- tes sobre o reconhecimento, o feminismo e a política de gênero, o multiculturalis- mo e o cosmopolitismo e as novas perspectivas que, a partir deles, se abrem sobre a justiça social. FGV DIREITO RIO 95
  • 95. TEORIa Da jusTIça 5. Bloco v: Brasil: aPlicações da teoria da justiça introdução A última parte do curso destina-se a aplicar a teoria da justiça ao caso brasileiro, valendo-se de estudos de sociólogos, cientistas políticos e economistas nacionais, além da análise de jurisprudência dos tribunais superiores. Com uma abordagem mais empírica do que aquela adotada anteriormente, esta parte do curso busca refle- tir sobre a questão racial, a política de cotas e a ação afirmativa, além dos problemas da desigualdade, da pobreza e da exclusão social. As últimas duas aulas antes da avaliação final serão dedicadas à análise e discussão da jurisprudência brasileira que trate dos temas e concepções de justiça discutidas ao longo do curso, aplicando o instrumental teórico e conceitual aprendido ao caso concreto. objetiVos Constituem objetivos deste bloco: • prover uma abordagem prática dos conceitos e teorias estudados ao longo do curso; • possibilitar o contato dos alunos com um material de cunho mais empírico; • suscitar a reflexão sobre o Brasil e os problemas brasileiros; e • debater a aplicabilidade dos conceitos e teorias estudados ao longo do curso ao caso brasileiro. FGV DIREITO RIO 96
  • 96. TEORIa Da jusTIça 5.1. aula 24: a questão racial Texto base: COSTA, Sergio e WERLE, Denílson. “Reconhecer as Diferenças. Liberais, Comunitaristas e as Relações Raciais no Brasil”. In: Teoria Social e Moder- nidade no Brasil. AVRITZER, Leonardo e DOMINGUES, José Maurício (orgs.). Editora UFMG, Belo Horizonte, 2000. 5.1.1. introdução Nesta primeira de seis aulas em que teremos o Brasil como foco de nosso estudo sobre a teoria da justiça, nos debruçaremos sobre o tema das relações raciais a partir de uma conexão com a questão do multiculturalismo e da política do reconheci- mento discutida nas aulas anteriores. 5.1.2. objetiVos Entre os objetivos desta aula, encontram-se: • discutir o tema das relações sociais no Brasil como ponto de partida para pensar a temática do multiculturalismo no Brasil; • refletir sobre os conceitos de diferença, minorias, grupos sociais e identidade no Brasil; • examinar a pertinência de conceber-se a justiça como reconhecimento no Brasil, dada a diversidade que marca nosso país. • retomar os conceitos liberal e comunitarista de justiça como parâmetro de análise da questão racial no Brasil, relacionando esses conceitos com o mul- ticulturalismo presente no país. 5.1.3. biblioGrafia obriGatória COSTA, Sergio e WERLE, Denílson. “Reconhecer as Diferenças. Liberais, Co- munitaristas e as Relações Raciais no Brasil”. In: Teoria Social e Modernidade no Brasil. AVRITZER, Leonardo e DOMINGUES, José Maurício (orgs.). Editora UFMG, Belo Horizonte, 2000. 5.1.4. biblioGrafia coMPleMentar HASENBALG, Carlos A. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FGV DIREITO RIO 97
  • 97. TEORIa Da jusTIça FERES JÚNIOR, J. . Aspectos semânticos da discriminação racial no Brasil: para além da teoria da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 57, 2006. 5.1.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Você concorda com os argumentos levantados pelos autores do texto lido? Na sua opinião, qual concepção de justiça serve melhor para lidar com os dilemas mul- ticulturais do Brasil, a liberal ou a comunitarista?. Responda a essas indagações e expresse seus pensamentos sobre o assunto em uma lauda. 5.1.6. conclusão Espera-se que, com esta aula, os alunos possam aplicar as idéias e conceitos apren- didos nas aulas anteriores, quando se abordou a perspectiva da justiça como reconhe- cimento. Assim, espera-se que os alunos possam, a partir da discussão sobre a questão racial no Brasil, refletir sobre o multiculturalismo em nosso país e como os conceitos de diferença, identidade, grupo social e reconhecimento aplicam-se a isso. FGV DIREITO RIO 98
  • 98. TEORIa Da jusTIça 5.2. aula 25: Política de cotas e ação aFirmativa Texto base: WALTENBERG, Fabio D. “Cotas nas Universidades Brasileiras. A Contribuição das Teorias de Justiça Distributiva ao Debate”. In: Revista Sinais So- ciais, SESC, v. 2, n° 4, 2007. 5.2.1. introdução Na aula de hoje, aplicaremos as teorias de justiça distributivas estudadas ao longo do curso ao debate sobre a política de cotas e a ação afirmativa no Brasil. O ponto de partida para a discussão a ser feita em aula é o uso da política de cotas nas uni- versidades brasileiras. 5.2.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula encontram-se: • Debater os temas da ação afirmativa e da política de cotas; • Discutir a viabilidade e a desejabilidade de aplicar a política de cotas no Bra- sil enquanto instrumento de justiça distributiva; • Examinar a contribuição das diversas teorias de justiça distributiva estudadas no curso à política de cotas e sua adoção nas universidades brasileras. 5.2.3. biblioGrafia obriGatória WALTENBERG, Fabio D. “Cotas nas Universidades Brasileiras. A Contribui- ção das Teorias de Justiça Distributiva ao Debate”. In: Revista Sinais Sociais, SESC, v. 2, n° 4, 2007. 5.2.4. biblioGrafia coMPleMentar FERES JÚNIOR, J. (Org.) ; ZONINSEIN, Jonas (Org.). Ação afirmativa e uni- versidade: projetos nacionais em perspectiva comparada. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2006. FERES JÚNIOR, J. . Aspectos normativos e legais das políticas de ação afir- mativa. In: João Feres Júnior; Jonas Zoninsein. (Org.). Ação afirmativa e universidade: projetos nacionais em perspectiva comparada. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2006 FGV DIREITO RIO 99
  • 99. TEORIa Da jusTIça 5.2.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Você acha que a política de cotas é um instrumento adequado para promover a justiça distributiva? Responda esta pergunta e justifique seus argumentos em uma lauda. 5.2.6. conclusão Espera-se que com esta aula os alunos possam situar-se no crescente debate sobre a adoção da política de cotas e outros tipos de ação afirmativa no Brasil, aplicando, para tanto, as concepções de justiça distributiva estudadas ao longo do curso. FGV DIREITO RIO 100
  • 100. TEORIa Da jusTIça 5.3. aula 26: desigualdade e PoBreza Texto base: PAES DE BARROS, Ricardo et alli. Desigualdade e Pobreza no Bra- sil. Retrato de uma Estabilidade Inaceitável. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 15, nº 42, 2000. 5.3.1. introdução A injustiça social brasileira caracteriza-se não apenas por uma grave desigualdade na distribuição de renda, mas também por elevados índices de pobreza. Um enorme contingente populacional encontra-se desprovido das mais básicas formas de acesso à cidadania, aos serviços públicos, aos direitos, além de não partilharem mesmo de condições mínimas necessárias a uma sobrevivência digna. Esta aula focará no problema da pobreza e na viabilidade da aplicação de políticas redistributivas para o seu combate. 5.3.2. objetiVos Dentre os objetivos desta aula, destacam-se os seguintes: • examinar o problema da pobreza no Brasil; • relacionar a desigualdade da distribuição de renda com a pobreza; e • debater a viabilidade da implementação de políticas redistributivas que te- nham por objetivo a redução da pobreza. 5.3.3. biblioGrafia obriGatória PAES DE BARROS, Ricardo et alli. Desigualdade e Pobreza no Brasil. Retrato de uma Estabilidade Inaceitável. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 15, nº 42, 2000. 5.3.4. biblioGrafia coMPleMentar HENRIQUES, Ricardo. Desigualdade e Pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Ipea, 2000. SCHWARTZMAN, Simon. As Causas da Pobreza. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. FGV DIREITO RIO 101
  • 101. TEORIa Da jusTIça 5.3.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Analise, com as suas próprias palavras, as tabelas e os gráficos presentes no texto indicado como leitura obrigatória para esta aula. 5.3.6. conclusão Espera-se que, com esta aula, os alunos reflitam a respeito da relação entre os elevados níveis de pobreza do Brasil e a desigualdade presente na distribuição de renda na nossa sociedade. FGV DIREITO RIO 102
  • 102. TEORIa Da jusTIça 5.4. aula 27: cidadania e exclusão social Texto base: REIS, Elisa e SHWARTZMAN, Simon. “Pobreza e Exclusão Social: Aspectos Sócio-Políticos” In: As Causas da Pobreza Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004, cap. 3. 5.4.1. introdução Esta aula tratará de um dos mais graves problemas brasileiros: a exclusão social. Analisaremos a desigualdade das oportunidades de inclusão econômica e social, bem como a situação de exclusão de benefícios, serviços e direitos em que se encon- tra uma imensa parcela da população do País. 5.4.2. objetiVos Encontram-se entre os objetivos desta aula os seguintes: • analisar o problema da exclusão social no Brasil a partir de uma perspectiva social, econômica e política; • examinar o papel do Estado e do Direito diante da exclusão social; • discutir a aplicabilidade dos conceitos e teorias da justiça tendo em vista a minoração do problema da exclusão social; e • debater se a exclusão social é um problema que remete às políticas de reco- nhecimento ou às políticas de redistribuição (ou a ambas). 5.4.3. biblioGrafia obriGatória REIS, Elisa; SHWARTZMAN, Simon. “Pobreza e Exclusão Social: Aspectos Sócio-Políticos” In: As Causas da Pobreza. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004, cap. 3. 5.4.4. biblioGrafia coMPleMentar POCHMANN, Marcio; AMORIM, Ricardo (orgs). Atlas da Exclusão Social no Brasil. Volume 1. Rio de Janeiro: Editora Cortez, 2003. SCHWARTZMAN, Simon; REIS, Elisa. “A agenda social brasileira”. In: REIS, Elisa e ZILBERMAN, Regina (orgs.). Retratos do Brasil. Porto Alegre: Edito- ria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2004. FGV DIREITO RIO 103
  • 103. TEORIa Da jusTIça 5.4.5. atiVidade de aProVeitaMento da leitura Faça um resumo do texto indicado como leitura obrigatória tendo como eixo principal de sua análise os seguintes pontos: 1. relação entre os direitos civis e a exclusão social; 2. relação entre os direitos sociais e a exclusão social; e 3. relação entre a participação política e a exclusão social. 5.4.6. conclusão O problema da exclusão social deve ser abordado através de uma perspectiva in- terdisciplinar. Espera-se que os alunos reflitam também de maneira interdisciplinar a respeito das eventuais formas de aplicação dos conceitos e teorias estudadas ao longo do curso na minimização da exclusão social brasileira. FGV DIREITO RIO 104
  • 104. TEORIa Da jusTIça 5.5. aulas 28 e 29: a teoria da justiça nos triBunais Texto base: Jurisprudência selecionada do Supremo Tribunal Federal. 5.5.1. introdução Estas duas aulas serão dedicadas à análise e discussão da jurisprudência brasileira que trata das concepções de justiça discutidas ao longo do curso, aplicando o ins- trumental teórico e conceitual aprendido ao caso concreto. Estas duas aulas serão compostas por apresentações dos alunos, os quais terão sido previamente divididos em grupos a fim de realizar a pesquisa que embasará a exposição a ser feita coletivamente em sala de aula. As apresentações dos grupos, assim como os respectivos trabalhos que as fundamentem, serão avaliadas de modo a computar até 20% da nota da segunda avaliação semestral. 5.5.2. objetiVos Entre os objetivos destas aulas, encontram-se os seguintes: • Aplicar os conceitos, idéias e teorias aprendidos ao longo do curso ao caso concreto; • Verificar como as diferentes teorias da justiça são mobilizadas (ou não) pelos tribunais brasileiros; • Fortalecer a capacidade de pesquisa dos alunos, bem como sua comunicação oral. 5.5.3. biblioGrafia obriGatória Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. 5.5.4. biblioGrafia coMPleMentar Jurisprudência de outros tribunais além do Supremo Tribunal Federal. 5.5.5. conclusão Com estas duas aulas, espera-se que os alunos possam aplicar o instrumental te- órico e conceitual aprendido no curso ao caso concreto. Especificamente, espera-se FGV DIREITO RIO 105
  • 105. TEORIa Da jusTIça que os alunos mostrem-se aptos a realizar pesquisas de jurisprudência e saibam reco- nhecer os temas discutidos ao longo do curso nas decisões judiciais selecionadas. FGV DIREITO RIO 106
  • 106. TEORIa Da jusTIça 5.6. aula 30 – segunda avaliação Na ocasião da última aula do curso será realizada uma prova escrita, que contará 80% da nota da segunda avaliação semestral. Esta prova englobará todo o conteúdo estudado a partir da aula subseqüente à primeira avaliação realizada no semestre. FGV DIREITO RIO 107
  • 107. TEORIa Da jusTIça conclusão do bloco: A teoria da justiça pode e deve ser aplicada ao caso brasileiro. Os estudos dos soci- ólogos, cientistas políticos e economistas pátrios estudados nesta parte do curso reve- lam não apenas a viabilidade como também a necessidade de que as idéias de justiça distributiva e bem-estar social e econômico sejam pensadas no plano nacional. As soluções dos problemas que afligem nosso País – como a desigualdade, a pobreza e a exclusão social – devem passar pela reflexão das categorias e teorias es- tudadas nesse curso. È esta a nossa esperança final: que as lições deste curso sejam sempre lembradas por seus alunos, os futuros operadores do Direito no Brasil, na tarefa comum de construir uma sociedade mais justa. FGV DIREITO RIO 108
  • 108. TEORIa Da jusTIça iii. BiBliograFia ABBOTT, Philip. Sovereign Virtue: The Theory and Practice of Equality (re- view) In: Rhetoric & Public Affairs, Volume 4, Number 3, Fall 2001, pp. 576-578. APPIAH, Kwame Anthony. Equality of What? In: The New York Review of Book, volume 48, number 7, April 2001. ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora UNB, livro V, 1985. BARRY, Brian. Why Social Justice Matters? Cambridge: Polity Press, 2005. CHANDLER, David. International Justice. In: ARCHIBUGI, Daniele. Deba- ting Cosmopoltics. London: Verso, 2003. CITTADINO,Gisele. Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva, Rio de Janeiro: Editora Renovar, 1999. DANIELS, Norman. Reading Rawls: Critical Studies on Rawls’ A Theory of Justice. Stanford, California: Stanford University Press, 1989. DANIELS, Norman. Equality of What: Welfare, Resources, or Capabilities? In: Philosophy and Phenomenological Research, Vol. 50, Supplement (Autumn, 1990), pp. 273-296 DE VITA, Álvaro. Justiça Liberal, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1993. DOMINGUES, José Maurício. Do Ocidente à Modernidade. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 2003, capítulo 7. DWORKIN, Ronald. A Virtude Soberana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2005. FALLON JR, Richard. Should We All Be Welfare Economists? In: Michigan Law Review, Vol. 101, No. 4 (Feb., 2003), pp. 979-1025 FERRAZ, Octávio Luiz Motta. Justiça Distributiva para Formigas e Cigarras. In: Revista Novos Estudos Cebrap, n. 77, São Paulo, março de 2007. FRASER, Nancy. Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da Justiça na era pós-socialista. In: SOUZA, J. (org.). Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea Brasília: Editora UNB, 2001. FREEMAN, Samuel. The Cambridge Companion to Rawls. Cambridge: Cam- bridge: University Press, 2002. GOODIN, Robert e PETTIT, Philip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006. GONÇALVES, Guilherme Figueiredo Leite. Certeza e Incerteza: Pressupostos Operativos do Direito Contingente. Tese de Doutorado. Università degli Studi di Lecce, 2005. GRIFFIN, James. Some Problems of Fairness In: Ethics, Vol. 96, No. 1 (Oct., 1985), pp. 100-118. HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia. Entre Faticidade e Validade. Rio de Janeiro: Editora Tempo Brasileiro, 1998, cap. 3. HABERMAS, Jürgen. Soberania Popular como Procedimento. In: Revista Novos Estudos Cebrap, São Paulo, 1990. FGV DIREITO RIO 109
  • 109. TEORIa Da jusTIça HARSANYI, John. Essays on Ethics, Social Behaviour and Scientific Explanation, Reidel, Dordrecht, 1976. HARSANYI, John. “Morality and the theory of rational behavior”. In: SEN and WILLIAMS (eds.). Utilitarism and Beyond. Cambridge: Cambridge Univer- sity Press, 1999. HART, Herbert L. A. O Conceito de Direito. Lisboa: Editora Fundação Calouste Gulbenkian., 1994. HASENBALG, Carlos A. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979. HAYEK, Friedrich A. The Constitution of Liberty. Chicago: University of Chicago Press, 1960. HAYEK, F. A., Law, Legislation and Liberty, Volume I, Rules and Order. London: Routledge, 1973. ___________. Law, Legislation and Liberty, Volume II, The Mirage of Social Jus- tice. London: Routledge, 1976. HELD, David. Violence, Law and Justice in a Global Age. In: ARCHIBUGI, Daniele. Debating Cosmopolitics. London: Verso, 2003. HONNETH, Axel. Redistribution as Recognition In: FRASER, Nancy e HON- NETH, Axel (eds.). Redistribution or Recognition?. London: Verso, 2003. HENRIQUES, Ricardo. Desigualdade e Pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Ipea, 2000. Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. “Desenvolvimento com Justiça Social. Esboço de uma Agenda Integrada para o Brasil”. IETS, Policy Paper n.1, 2001 KAPLOW, Louis e SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare. Cambridge: Har- vard University Press, 2002. KAPLOW, Louis e SHAVELL, Steven. Fairness versus Welfare: Notes on the Pareto Principle, Preferences and Distributive Justice In: Journal Of Legal Studies, 32, January 2003, pp. 331-362. KERSTENETZKY, Célia Lessa. Desigualdade e Pobreza: Lições de Sen In: Revis- ta Brasileira de Ciências Sociais, vol. 15, n. 42, São Paulo, fevereiro de 2000. KUKATHAS, Chandran & PETIT, Philip . Rawls - A Theory of Justice and its Critics. Cambridge: Polity Press, 1990. LE GRAND, Julian. Equity Versus Efficiency: The Elusive Trade-Off. In: Ethics, Vol. 100, No. 3 (Apr., 1990), pp. 554-568 LUHMANN, Niklas. A Nova Teoria dos Sistemas. (orgs. NEVES, C. Baeta; RA- MOS, M. Barbosa). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1997. LUHMANN, Niklas. El Derecho de la Sociedad. (texto eletrônico). MACINTYRE, Alasdair. Justiça de Quem? Qual Racionalidade? São Paulo: Loyo- la, 1991. __________________. Depois da Virtude. Florianópolis: EDUSC, 2001. MACK, Eric. Hayeck on justice and the order of actions In: The Cambridge Com- panion to Hayeck. Cambridge University Press, Cambridge, 2006. MILLER, David. Principles of Social Justice. Cambridge: Harvard University Press,, 2001. FGV DIREITO RIO 110
  • 110. TEORIa Da jusTIça MINOW, Martha. Justice Engendered. In: GOODIN, Robert; PETTIT, Phi- lip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, pp. 501-521. MULHALL, Stephen e SWIFT, Adam. (1996). Liberals & Communitarians, Bla- ckwell, Oxford, second edition. NEVES, Marcelo. Entre Têmis e Leviatã: uma relação difícil. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006. NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia, Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1991. NUSSBAUM, Martha C. Frontiers of Justice. New York: Belknap Press, 2006. ____________________. Sex and Social Justice. Oxford: Oxford University Press, 2000. OLIVEIRA, Nythamar de. Rawls. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. PAES DE BARROS, Ricardo. Desigualdade e Pobreza no Brasil. Retrato de uma Estabilidade Inaceitável. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 15, nº 42, 2000. PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1996. PLATÃO. A República. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006, livro I. POCHMANN, Marcio e AMORIM, Ricardo (orgs). Atlas da Exclusão Social no Brasil. Volume 1. Rio de Janeiro: Editora Cortez, 2003. POGGE, Thomas W. Realizing Rawls. Ithaca: Cornell University Press, 1989. POGREBINSCHI, Thamy. Direito, Sistema e Autopoiesis: breves considerações sobre a nova teoria dos sistemas de Niklas Luhmann In: Direito e Política. Porto Alegre: Editora Síntese, 2004. POSNER, Richard. The Economics of Justice. Harvard University Press, Cambrid- ge, 1981. ______________. Problemas de Filosofia do Direito. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007. RAPHAEL, D. D. Problems of Political Philosophy. Atlantic Highlands: Huma- nities Press, 1990. RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Tradução Almiro Pisetta e Lenita M.R. Esteves. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2000 (4ª ed.). ___________. Justiça e Democracia. Seleção, apresentação e glossário Catherine Audard ; tradução Irene A. Paternot. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2000. ___________. O Liberalismo político. Tradução Dinah de Abreu Azevedo (revi- são da tradução Álvaro de Vita). São Paulo: Ática, 2000. ___________. Justiça como Eqüidade. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001. ___________. O direito dos povos. Seguido de “A idéia de razão publica revista”. tradução de Luís Carlos Borges. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001 REIS, Elisa; SHWARTZMAN, Simon. Pobreza e Exclusão Social: Aspectos Sócio- Políticos. In: As Causas da Pobreza. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004. ROUANET, L. P. Rawls e o enigma da justiça. São Paulo: Unimarco Editora, 2002. FGV DIREITO RIO 111
  • 111. TEORIa Da jusTIça SANDEL, Michael. “Justice and the Good” In: SANDEL, Michael (ed.). Libera- lism and its Critics. New York: New York University Press, 1984. SANDEL, Michael (ed.). Liberalism and its Critics. New York: New York Univer- sity Press, 1984. SANDEL, Michael. Liberalism and the Limits of Justice. Cambridge: Cambridge University Press, 1982. SCALON, Maria Celi (org.). Imagens da Desigualdade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. SCHEFFLER, Samuel. What is Egalitarianism?. In: Philosophy & Public Affairs, 31 (1), pp. 5-39, 2003 SCHWARTZMAN, Simon. As Causas da Pobreza. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. SCHWARTZMAN, Simon e REIS, Elisa. A agenda social brasileira. In: REIS, Elisa e ZILBERMAN, Regina (orgs.). Retratos do Brasil. Porto Alegre: Edito- ria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2004. SCHUARTZ, Luis Fernando. Norma, Contingência e Racionalidade. Estudos Pre- paratórios para uma Teoria da Decisão Jurídica. Rio de Janeiro: Editora Re- novar, 2005. SEN, Amartya. Desigualdade Reexaminada. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Le- tras, 1999. SEN, Amartya. Justice: Means versus Freedoms. In: Philosophy and Public Affairs, Vol. 19, No. 2 (Spring, 1990), pp. 111-121. SEN, Amartya and WILLIAMS, Bernard (eds.). Utilitarism and Beyond. Cam- bridge: Cambridge University Press, 1999. SOUZA, Jessé. Invisibilidade da Desigualdade Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. TAYLOR, Charles. As Fontes do Self. A Construção da Identidade Moderna. São Paulo: Loyola, 1997. URANI, André. “Desenvolvimento e Distribuição de Renda”. In: Ana Célia Cas- tro. (Org.). Desenvolvimento em debate - Painéis do Desenvolvimento Brasilei- ro. Rio de Janeiro: BNDES, 2002, v. 3, p. 155-192. _____________. A encrenca metropolitana e a nova agenda de desenvolvimento bra- sileira. A reinvenção do futuro das grandes metrópoles e a nova agenda de desen- volvimento econômico e social da América Latina. IETS, Rio de Janeiro, 2007. _____________. et alli. Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Ja- neiro. Uma análise das condições socioeconômicas da região metropolitana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IETS, 2006. URANI, André. “Desenvolvimento como Justiça Social” (manuscrito, 2007). VITA, Alvaro de. A Justiça Igualitária e seus Críticos. São Paulo: Ed. Unesp, 2000. WALZER, Michael. Esferas da Justiça. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2003. WALZER, Michael. Welfare, Membership and Need. In: SANDEL, Michael (ed.). Liberalism and its Critics. New York: New York University Press, 1984. FGV DIREITO RIO 112
  • 112. TEORIa Da jusTIça WALZER, Michael. Complex Equality. In: GOODIN, Robert; PETTIT Phi- lip (eds). Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006. YOUNG, Iris Marion. Polity and Group Difference: A Critique of the Ide- al of Universal Citizenship. In: GOODIN, Robert; PETTIT, Philip (eds.).Contemporary Political Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, pp. 248 a 263. FGV DIREITO RIO 113
  • 113. TEORIa Da jusTIça thamy PogreBinschi Doutora em Ciência Política pelo IuPERj, Mestre em Ciência Política pelo IuPERj, Mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PuC-Rio e Bacharel em Direito pela PuC-Rio. suas experiências profissionais, como professora e pesquisadora, incluem PuC-Rio, uERj e FGV. suas publicações incluem os livros Pragmatismo. Teoria social e Política. Relume Dumará, Rio de janeiro, 2005; O Problema da Obediência em Thomas Hobbes, EDusC, são Paulo, 2003; Onde Está a Democracia? Editora uFMG, Belo Horizonte, 2002, além de diversos artigos em periódicos científicos tanto da área do Direito como das Ciências sociais. FGV DIREITO RIO 114
  • 114. TEORIa Da jusTIça FICHA TÉCNICA fundação getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen leal PRESIDEnTE fgV DIREITO RIO Joaquim falcão DIRETOR fernando Penteado VICE-DIRETOR aDMINIsTRaTIVO luís fernando Schuartz VICE-DIRETOR aCaDÊMICO Sérgio guerra VICE-DIRETOR DE PÓs-GRaDuaçÃO luiz Roberto ayoub PROFEssOR COORDENaDOR DO PROGRaMa DE CaPaCITaçÃO EM PODER juDICIÁRIO Ronaldo lemos COORDENaDOR DO CENTRO DE TECNOlOGIa E sOCIEDaDE Evandro Menezes de Carvalho COORDENaDOR aCaDÊMICO Da GRaDuaçÃO Rogério Barcelos COORDENaDOR DE ENsINO Da GRaDuaçÃO Tânia Rangel COORDENaDORa DE MaTERIal DIDÁTICO lígia fabris e Thiago Bottino do amaral COORDENaDOREs DO NÚClEO DE PRÁTICas juRÍDICas Wania Torres COORDENaDORa DE sECRETaRIa DE GRaDuaçÃO Diogo Pinheiro COORDENaDOR DE FINaNças Milena Brant COORDENaDORa DE MaRKETING EsTRaTÉGICO E PlaNEjaMENTO FGV DIREITO RIO 115