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  • 1. PROJETO DE VIDA ano 1 – número 1 – março 2005 Como os jovens brasileiros constroem no presente suas perspectivas de futuro
  • 2. sonar A recomendação da ONU para adoção do Programa Mundial de Ação para a Juventude faz dez anos 25% dos jovens brasileiros que buscam trabalho estão desempregados 20% DOS BEBÊS NASCIDOS EM 2002, NO BRASIL, ERAM DE MÃES DE 15 A 19 ANOS Somente 45% dos jovens freqüentam a escola no país NESTE ANO, OS BRASILEIROS ENTRE
  • 3. Tornar 2005 o Ano Nacional da Juventude é um item de política pública pág. 64 Um projeto rural na Bahia ajuda a fixar os jovens no campo pág. 18 INICIATIVAS EM SÃO PAULO, RECIFE E BELÉM REDUZEM CASOS DE GRAVIDEZ PRECOCE PÁG. 46 Milhares de jovens estudam segundo a pedagogia de três educadores juvenis pág. 14 15 E 24 ANOS SERÃO 35,139 MILHÕES 3
  • 4. âncoras “O projeto de vida envolve a definição do lugar do jovem no mundo e na sociedade.” Margarida Serrão e Maria Clarice Baleeiro, autoras do livro Aprendendo a Ser e a Conviver (editora FTD) “Escolhi ter um projeto de vida buscando prazer em estar sempre inquieta, buscando aprimorar o que já se tem ou indo atrás do que está por vir.” Renata Florentino, 21 anos, fundadora da ONG Interagir FELIPE BARRA “O jovem precisa ter uma oportunidade para conseguir elaborar seu projeto de vida e precisa também conhecer a realidade na qual está inserido. Só assim ele vai conseguir ter um norte.” Cleodemar Viana Alves, ANDERSON OLIVEIRA 25 anos, estudante de Manaus, integrante da ONG Agência Uga-Uga de Comunicação “Quero algo mais do que seguir o caminho que a maioria trilha, que é nascer, crescer, casar e ter filhos. Gostaria de testemunhar mudanças sociais e ver os jovens mais participativos.” Carlos Jordaki, 19 anos, estudante paulistano “O projeto de vida atrelado à maternidade é uma busca da aprovação grupal. As meninas tentam criar vínculos e prender o namorado.” Albertina Duarte Takiuti, HENK NIEMAN ginecologista, responsável pelo programa Saúde do Adolescente, do governo do Estado de São Paulo
  • 5. “O projeto de vida é a ação do indivíduo de escolher um dentre os futuros possíveis, transformando os desejos e as fantasias em objetivos a serem perseguidos.” Juarez Dayrell, coordenador do Observatório de Juventude da UFMG “Treino quatro horas por dia. Para realizar meu projeto, não posso ficar parado. ” Luiz Júlio, 23 anos, estudante carioca, quer jogar basquete na Seleção Brasileira de Deficientes Físicos “Engravidei para poder sair de casa, ter minha própria família, virar adulta.” H.S.S. 17 anos, estudante carioca, grávida de um “soldado” do tráfico 5 “Você vê o pessoal chegar no segundo colegial e ainda não saber o que quer ser. A escola tinha de despertar, mexer mais com criatividade, dar mais opções pra pessoa poder procurar dentro dela o que gostaria de ser.” Negra Li, 25 anos, rapper paulistana “Projeto de vida é um caminho a ser percorrido entre o ser e o querer-ser na vida de cada pessoa.” Antônio Carlos Gomes da Costa, pedagogo, consultor especialista em juventude e ação educativa
  • 6. HAROLDO P. NETO editorial Caro leitor, Temos a satisfação de apresentar a revista Onda Jovem, publicação que vem ocupar um HENK NIEMAN espaço editorial focado no segmento juventude, na perspectiva de quem lida com o jovem – educadores, profissionais de diversos setores sociais, especialistas e estudiosos – e do pró- prio jovem que deseja influir no modo como é percebido pela sociedade. Pela coerência dessa proposta em relação à estratégia adotada pelo Instituto Votorantim, 08 a publicação ganha o seu patrocínio a partir do primeiro número. Esse apoio ao projeto desenvolvido pela empresa Olhar Cidadão reflete nossa crença no potencial da juventude brasileira, cuja força demográfica se destacará nas próximas duas décadas, totalizando uma população inédita de quase 36 milhões de jovens em 2025. A cada edição, Onda Jovem abordará um tema específico, colocando o desen volvimento integral do jovem como eixo principal, buscando a diversidade de perspectivas e a multipli- cidade de abordagens. Por meio de reportagens, ensaios e entrevistas com jovens e profissio- nais especializados, a publicação pretende trazer para a agenda pública temas que valem reflexões, contribuindo para enriquecer o debate e avançar nas soluções. MÁRCIA ZOET Esperamos que o conhecimento gerado por esse instrumento estratégico de comunicação seja utilizado por todos os públicos envolvidos direta ou indiretamente nas questões relaciona- das à juventude, de modo a aprimorar sua atuação e a beneficiar nossos jovens. Um objetivo que, por si só, justifica o apoio dado pelo Instituto Votorantim à Onda Jovem que se lança agora. 14 foto: Anderson Oliveira, Cristiane Silva, Carlos Cavalcante, Cláudio Nascimento, Davilym Dourado, MARIA LUIZA D’ALBERGARIA ano 1 – número 1 Edmmar Souza, Felipe Barra, Francisco Valdean, março-junho 2005 Gustavo Lourenção, Henk Nieman, Karlos Rikáryo, Um projeto de comunicação apoiado pelo Instituto Votorantim Projeto editorial e realização Levi Silva, Lorena Cruz, Luiz Prado, Luludi, Marcelo Elias, Márcia Zoet, Márcio Júlio, Marco Fernandes, Maria Luiza D´Albergaria, Paulo Emílio Andrade, Penna Prearo, Risonaldo Cruz, Sadraque Santos 18 Fátima Falcão e Marcelo Nonato ilustração: Cárcamo, Haroldo Paranhos Neto, Olhar Cidadão – Estratégias para o Marcelo Pitel Desenvolvimento Humano www.olharcidadao.com.br revisão: Eugênio Vinci de Moraes Direção editorial Direção de Layout Josiane Lopes Silvina Gattone Liutkevicius D´Lippi Editorial Secretaria editorial Sebastião Aguiar Fotolito D´Lippi Editorial Projeto gráfico RISONALDO CRUZ Artur Lescher e Ricardo van Steen Impressão Tempo Design Colaboradores texto: Aydano André Motta, Antonio Carlos Gomes da Costa, Antonio Moreno, Beatriz Portugal, Bronia Gráfica Sag Como entrar em contato com Onda Jovem: E-mail ondajovem@olharcidadao.com.br Endereço: Rua Dr. Neto de Araújo, 320 - conj. 403, 22 Liebesny, Cuca Fromer, Daniela Rocha, Edna São Paulo, CEP 04111 001. Kahhale, Iara Biderman, Jairo Bouer, James Allen, Tel. 55 11 5083-2250 e 55 11 5579-4464 Juarez Dayrell, Karina Yamamoto, Sérgio A. P. Esteves, Yuri Vasconcelos, Vasconcelos Quadros, www.ondajovem.com.br: vem aí um portal para Vera de Sá quem quer saber da juventude
  • 7. 8 - Navegantes Um grupo de jovens brasileiros comenta seus projetos de vida 14 - Mestres A inspiração de três educadores para a educação juvenil 18 - Banco de Práticas Quatro iniciativas que estimulam a reflexão sobre o futuro 22 - Caminho das Pedras Como a superação de obstáculos ajudou a definir o sucesso da ONG baiana Cipó 26 - Horizonte Global Um projeto muda a vida de jovens bolivianos em Santa Cruz de la Sierra 28 - Sextante O personalismo dos projetos individuais atrasa a construção de um projeto de país 30 - 90 Graus Projeto de vida e família: o contexto familiar é orientador dos planos de futuro 20 é o número de projetos com jovens que você verá nesta edição 34 - 180 Graus Projeto de vida e escola: a instituição escolar desconsidera o Sonar 02 jovem por trás do aluno Pistas do todo e de alguns 38 - 270 Graus aspectos da situação juvenil Projeto de vida e trabalho: o empreendedorismo é uma atitude a ser moldada 42 - 360 Graus Âncoras 04 Projeto de vida e mídia: Os meios de comunicação geram falsos modelos de sucesso Algumas definições 46 - Sem Bússola da expressão “projeto de vida” As estratégias de sobrevivência que geram riscos 52 - O Sujeito da Frase Links 72 A rapper paulistana Negra Li diz que a gente acaba atraindo o que deseja muito Notícias sobre juventude e 56 - Luneta sobre o terceiro setor Religião: a intensa e variada vida religiosa dos jovens brasileiros 60 - Ciência Fato Positivo 74 Cérebro: um lento amadurecimento, que influencia a forma de pensar Mídia juvenil também é 64 - .gov.com monitorada pela Andi Fazer de 2005 o Ano Nacional da Juventude é uma das propostas dos poderes públicos 68 - Chat de Revista Navegando 76 Quatro jovens debatem, por escrito, a relação entre projeto Um projeto de vida traduzido na de vida e felicidade arte de rua de Haroldo P. Neto
  • 8. navegantes No ano em que somam 35,14 milhões e atingem um recorde de participação no conjunto da população, brasileiros entre 15 e 24 anos falam sobre seus projetos de vida por_ Yuri Vasconcelos PROPOSTAS DE FUTURO LEVI SILVA CARLOS JORDAKY, 19 O índio guarani Karaí Tukumbó, de 24 anos, tem No ano em que jovens entre 15 e Inconformado com a pouca um objetivo na vida: tornar-se o cacique de sua tri- 24 anos pela primeira vez somarão participação política da juventude, bo. É um projeto antigo, que surgiu, diz ele, quando 35,139 milhões – atingindo um re- o paulistano quer ser tinha apenas 10 anos. “Na cultura do meu povo, cri- corde e iniciando a grande onda jo- um “mobilizador social” anças dessa idade já começam a pensar no futuro. vem que o Brasil viverá nos próximos e testemunhar Eu sempre pensei em ser líder da tribo”, diz Tukumbó, 20 anos –, torna-se ainda mais signi- transformações sociais que nasceu numa aldeia perto de Criciúma, em San- ficativo compreender como eles pla- ta Catarina. nejam o futuro. Um grupo de brasi- O jovem índio de fala mansa explica que seu desejo leiros de diferentes origens sociais, KARAÍ TUKUMBÓ, 24 cresceu à medida que conhecia outras aldeias e via culturas e regiões geográficas expõe E MARIA GIOVANNA, 22 as dificuldades enfrentadas por seu povo. “Por trás aqui suas percepções do tema. For- Casados, um filho, planejam da minha decisão está a vontade de trabalhar para mam um painel diversificado, mos- viver numa aldeia: ele quer ser melhorar a situação das pessoas da minha comuni- trando que a formulação de um pro- cacique dos guaranis; ela procura dade.” O projeto de vida de Tukumbó, cujo nome quer jeto de vida não é uma questão fecha- uma vida espiritualizada, longe dizer “protetor da casa de reza”, volta-se para a sua da, uma receita pronta, mas algo mui- das cidades coletividade. Ele se considera capaz de ser um agen- to mais complexo e abrangente do que te de melhoria das condições de seu povo. simplesmente pensar “o que vou ser Projetos de vida com esse perfil, porém, não são co- quando crescer”. muns entre a juventude brasileira. Embora os jovens se- jam sempre pródigos em expectativas de mudança, os Entre o sonho e a ação especialistas dizem que, na prática, eles tendem a se con- Planejar o futuro profissional está centrar em projetos voltados para a realização pessoal, no centro da questão, mas outras di- com pouco poder de transformação social. Mas qual é, mensões também são levadas em então, o conceito que os jovens têm de seu projeto de conta quando os jovens estabelecem vida? Como ele se esboça? O que o determina? metas para suas vidas, como o papel >>
  • 9. HENK NIEMAN 9
  • 10. navegantes Família, escola e grupo influenciam os projetos de vida, que exigem escolhas baseadas no conhecimento de si mesmo e da realidade ANDERSON OLIVEIRA LUIZ JÚLIO, 23 a desempenhar na sociedade, as relações afetivas que ponsabilidades e deveres de um caci- pretendem criar e o espaço que darão à espiritualidade, que. Mas nem tudo em sua vida é Um acidente mudou seu rumo, entre outras. Como afirmam as educadoras Margarida reafirmação da tradição. Para compa- mas não eliminou o sonho do Serrão e Maria Clarice Baleeiro, autoras do livro Apren- nheira, ele escolheu a paulistana Ma- garoto de Duque de Caxias, na dendo a Ser e a Conviver (editora FTD), “o projeto de ria Giovanna Guimarães, 22 anos, com Baixada Fluminense, de ser um vida envolve a definição do lugar do jovem no mundo e quem tem um filhinho, Yamandu. grande jogador de basquete na sociedade”. De uma família de classe alta de São É o conhecimento – de si mesmo e da realidade em Paulo, Giovanna por sua vez pretende PAULA JIMENEZ, 24 torno – que orienta as escolhas. Inicialmente, o pro- dedicar-se ao aprimoramento espiri- A bióloga do Ceará está iniciando cesso é dirigido pela família, e depois influenciado pela tual. Para ela, a questão profissional doutorado em farmacologia escola e pelas relações de grupo. Aptidões naturais, não é a mais relevante. “Minha meta marinha e diz que seu projeto percalços, golpes de sorte, o imponderável, enfim, é conseguir viver em harmonia comi- tomou corpo ao longo do tempo, também temperam opções de vida. Mas, esboçadas go mesma, praticando meditação e aproveitando as oportunidades e o as escolhas, é preciso esforço para a tarefa de realizá- tentando adquirir silêncio interior. Para estímulo familiar las. Um estudo sobre projeto de vida realizado por psi- isso, quero morar perto da natureza, cólogos da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de longe da cidade”, diz. Recentemente, São Paulo, com 400 jovens paulistas da 8ª série ao 3º o casal se mudou para Santa Catarina, ano do ensino médio, mostra a dificuldade em con- para se estabelecer numa reserva in- cretizar o projetado, algo que exige perseverança e dígena no Parque Estadual da Serra do superação de desafios. Tabuleiro. “Sei que não é saindo da ci- O índio Tukumbó tem essa clareza: “Não existe uma dade que eu vou ter mais paz”, diz idade certa para ser cacique, mas sei que estou che- Giovanna, chamada pelos guaranis de gando perto. E tenho me preparado para isso”. Há al- Kunha Taguá, que significa “aquela guns anos, ele vem freqüentando encontros de lide- que dita o ritmo”. “Mas estou confian- ranças guaranis a fim de aprender quais são as res- te que esse é o meu caminho.”
  • 11. CARLOS CAVALCANTE SADRAQUE SANTOS Volta por cima NÁGELA SOUSA, 15 11 Confiança é mesmo elemento fun- A garota de Fortaleza faz planos damental para concretizar um projeto para seguir uma carreira de vida. E se ela pode ser abalada, acadêmica, com apoio da família pode também ser reconquistada. Que o diga o estudante Luiz Júlio de Sousa Pereira, 23 anos, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Há SOBRE quatro anos, ele sofreu um acidente PROJETO VÍDEO CULTURA E TRABALHO de trem, que lhe amputou a perna es- REGIÃO DE ATUAÇÃO ÁREA METROPOLITANA DE SÃO PAULO (SP) querda. Depois de um período de aba- INSTITUIÇÃO AÇÃO EDUCATIVA (ONG) PROPOSTA Construir possibilidades de inserção dos jovens como mediadores culturais especializados na timento, Luiz reergueu-se e definiu PARA SABER MAIS técnica do vídeo e na linguagem vídeo-cinematográfica seus novos objetivos: entrar na facul- JOVENS ATENDIDOS 40 APOIO INSTITUTO CREDICARD E FUNDAÇÃO VITAE dade e ingressar na seleção brasileira CONTATO Rua General Jardim 660 – Vila Buarque – 01223-010 – São Paulo (SP) – Fone: 11/3151-2333 - de basquete de deficientes físicos. Ele e-mail: acaoeduca@acaoeducativa.org.br sabe que precisará vencer ainda mais obstáculos do que os que se atraves- SOBRE sam no caminho de qualquer jovem. JORNAL UGA-UGA “Se tiver força e interesse, as coisas REGIÃO DE ATUAÇÃO ESCOLAS DAS ZONAS URBANA E RURAL DE MANAUS (AM) vão acontecer. Treino cerca de quatro INSTITUIÇÃO AGÊNCIA UGA-UGA DE COMUNICAÇÃO (ONG) PROPOSTA Incentivar o protagonismo juvenil e promover a educação pela comunicação. Alunos do ensino horas três vezes por semana e estu- PARA SABER MAIS médio da rede municipal de Manaus participam da produção do jornal, distribuído em mais de 200 escolas do bastante”, afirma Luiz, que está JOVENS ATENDIDOS 15 MIL (que recebem diretamente o jornal) APOIO EM 2004, SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE MANAUS concluindo o 2º ano do ensino médio. CONTATO Rua Diogo Bernardes, 72 – Jardim Espanha 3 Aleixo – 69060-020 –Manaus (AM) – “Para realizar meu projeto, não posso Fone/Fax: 92/642-8013/642-9003 – e-mail: agencia@agenciagauga.org.br ficar parado.” >>
  • 12. navegantes Uma pesquisa com jovens paulistas confirma que a concretização de um projeto CRISTIANE SILVEIRA DA SILVA de vida é árdua, exigindo persistência DIVULGAÇÃO CLÉO ALVES, 25 A bióloga cearense Paula Jimenez, 24 anos, também esboçar seu projeto de vida. Ela pre- Depois de uma adolescência tem suado muito para atingir seu maior objetivo: tor- tende cursar uma faculdade – está em vivida em meio à pobreza e à nar-se pesquisadora na área de farmacologia marinha. dúvida entre Direito, História e Mate- violência, em Manaus, um “Preciso estudar muitos anos para chegar onde que- mática – e depois seguir a carreira aca- projeto social o ajudou a dar uma ro”, diz. Filha de uma família de classe média, ela já con- dêmica. Nágela é filha da funcionária guinada na própria vida cluiu o mestrado e está iniciando o doutorado. Seu pro- doméstica da família da bióloga Paula, jeto foi tomando corpo ao longo de sua vida, à medida com a qual sempre conviveu intima- que as oportunidades foram surgindo. “Mas confesso mente. “Fui influenciada pela minha ÉRIKA DE OLIVEIRA, 21 que recebi forte influência de minha mãe para seguir a família para definir esses objetivos”, Criada no campo, ela quer ajudar carreira de pesquisadora”, diz. A mãe é professora uni- diz. Ecoando uma convicção generali- a melhorar a condição dos versitária, com vários títulos em educação. zada, ela justifica: “O único jeito de lavradores capixabas A mesma influência familiar é um dos fatores conseguir alguma coisa na vida é fa- determinantes para a estudante Nágela Sousa, 15 anos, zendo faculdade. Conseguir emprego já está difícil hoje em dia, imagine sem ter um curso superior”. SOBRE PROJETO ALIANÇA COM O ADOLESCENTE REGIÃO DE ATUAÇÃO MICRORREGIÃO DO MÉDIO JAGUARIBE, COMPOSTA PELOS MUNICÍPIOS DE ACOPIARA, IGUATU, Contra a corrente JUCÁS, ORÓS E QUIXELÔ (CE) Projetos de vida centrados no indi- INSTITUIÇÃO INSTITUTO ELO AMIGO (OSCIP) víduo e construídos a partir das con- PROPOSTA Promover, por meio do protagonismo juvenil, mudanças na percepção e no enfrentamento do dições e demandas da atualidade são PARA SABER MAIS quadro econômico e social do Nordeste, com capacitação técnica empresarial, noções de agroecologia familiar e estímulo do espírito de solidariedade e cidadania os mais comuns entre os jovens bra- JOVENS ATENDIDOS 1.000 APOIO INSTITUTO VOTORANTIM, FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, INSTITUTO ALIANÇA COM O ADOLESCENTE E SEBRAE sileiros. Na pesquisa conduzida pelos CONTATO Rua 21 de abril s/n, Prado – 63500-000 – Iguatu (CE) – Fone: 88/3581-6575 – Fax: 88/3581-0292 psicólogos da PUC, por exemplo, o e-mail: eleudson@eloamigo.org.br ideal do homem bem-sucedido eco- nomicamente predominou entre os
  • 13. O FUTURO É AGORA jovens entrevistados. Ser rica, porém, não é a tônica do projeto da capixaba Érica Fernanda Montemor de Oli- veira. A estudante, de 21 anos, moradora do trevo de Iúna, localidade rural às margens da rodovia BR-262, no Espírito Santo, quer atuar numa associação de as- sistência a trabalhadores rurais. “Quem vive no campo tem uma vida difícil. Meus pais trabalham de sol a sol e não vêem a renda do seu trabalho. Quero ajudar pes- soas como eles”, diz Érica, que recentemente foi bene- ficiada pelo programa Nossa Primeira Terra, do gover- no federal, e recebeu um lote de terra para construir uma casa. É também um projeto transformador que ocupa o amazonense Cleudomar Viana Alves, o Cléo, 25 anos. “Quero poder ajudar pessoas que vivem hoje como eu vivia antigamente.” Ele nasceu num dos bairros mais KARLOS RIKÁRYO pobres de Manaus e passou a infância convivendo com roubos, drogas e todo tipo de violência. “Até entrar na Agência Uga-Uga de Comunicação, uma ONG que aten- de crianças, adolescentes e jovens, eu me encontrava em situação de risco”, diz ele. “Depois que me engajei no projeto, há sete anos, tudo mudou. Consegui esca- “Sei aonde quero chegar e conheço os caminhos que preciso par do sistema que me expunha à violência e comecei trilhar. Mas nem sempre foi assim. Participar dos 13 a planejar minha vida. Hoje, percebo que o jovem preci- programas do Instituto Elo Amigo, em Iguatu, no Ceará, sa ter uma oportunidade para conseguir elaborar seu voltado para incentivar o protagonismo juvenil, mudou projeto. E necessita também conhecer a realidade na minha maneira de ver o mundo e pensar meu futuro. Os qual está inserido. Só assim, ele vai conseguir ter um programas aguçaram meu senso crítico, estimularam norte”. Hoje Cléo é coordenador do jornal Uga-Uga. minha curiosidade e me ajudaram a desenvolver meu lado O paulista Carlos Jordaky Siqueira, 19 anos, tem como empreendedor. Comecei a refletir sobre minha vida. Não objetivo trabalhar em favor da “politização da juventu- fiquei mais tão preso à idéia de cursar uma faculdade, sem de”, promovendo a integração entre jovens de diferen- mesmo saber para quê, e ampliei meu leque de possibilida- tes classes e tribos. “Quero algo mais do que seguir o des. Hoje, meu projeto envolve três atividades: cursar caminho que a maioria trilha, que é nascer, crescer, ca- Administração, consolidar a minha empresa, a Inventtive sar e ter filhos. Gostaria de presenciar mudanças so- Tecnologia, de sites e softwares, e apoiar as ações do Elo, ciais e ver os jovens mais participativos”, diz o membro do qual agora sou também coordenador. Quero que minha do projeto Vídeo, Cultura e Trabalho, da ONG Ação empresa tenha forte atuação social e ajude a desenvolver o Educativa. Para Jordaky, “há 30 anos, os jovens iam para capital humano da região. A execução do projeto depende a rua e reivindicavam. Hoje, não tem isso. Eles pensam do meu nível de comprometimento e de um bom planeja- que todas as coisas já foram feitas. Mas estão engana- mento. Mas de uma coisa estou certo: a vida fica mais fácil dos. É preciso que a juventude seja mais participativa e quando temos clareza para onde queremos ir e como tenha uma postura mais crítica em relação à socieda- fazemos para chegar lá.” de”. Segundo ele próprio, porém, não será fácil concre- tizar seu desejo. “Além de fazer o que gosto, tenho de pensar na questão financeira e na minha sobrevivên- MARCOS ALVES DA SILVA, 20 ANOS, cia”, observa, realista, para de novo levantar vôo rumo empresário de Iguatu, CE aos sonhos: “Eu sinto que tenho vontade, perseveran- ça e entusiasmo para atingir meu objetivo”.
  • 14. FOTO_ MÁRCIA ZOET mestres
  • 15. INQUIETOS E CONFIANTES, TRÊS EDUCADORES INSPIRAM UMA NOVA EDUCAÇÃO JUVENIL A DIDÁTICA DO SONHO por_ Cuca Fromer “O professor ensina; o educador Tião reuniu amigos que, como ele, também buscavam ética, vale tudo para dar às pessoas a aprende”, diz Tião Rocha, para expli- novos caminhos. Assim, em volta da roda, surgiu o pro- possibilidade de construir um projeto car por que deixou a sala da Universi- jeto Sementinha, com atividades que visavam desen- de vida. “O importante é investir nos dade Federal de Ouro Preto para volver nas crianças a auto-estima e a identidade pes- pontos luminosos e não ficar denun- “aprender” com jovens e crianças soal, incluindo cuidados de higiene e saúde, além de ciando as mazelas”, aprendeu Tião. debaixo de um pé de manga em estimular o respeito mútuo. Da “pedagogia da roda” Curvelo, sertão de Minas Gerais. O conclui-se que até é possível uma educação sem esco- Contra as expectativas fundamental é a “crença no poten- la – debaixo de um pé de manga –, mas que educação Quando nasceu o seu quarto filho, cial humano”, afirma Abdalaziz de boa é feita por bons educadores. Abdalaziz de Moura viu-se diante de um Moura, sobre seu envolvimento com Foi também no espaço da roda que surgiu a pergun- diagnóstico terrível. O garoto, deficien- a educação juvenil no sertão pernam- ta fundamental: “É possível uma escola prazerosa?”. A te, não andaria nem falaria, segundo os bucano. A “aflição de não saber como resposta veio com o Bornal de Jogos, uma coleção de médicos. Mas, como diz o pai, o funda- o jovem aprende” foi o que moveu mais de 180 jogos educativos, confeccionados por jo- mental é a “crença no potencial huma- Carmem Capitão a criar um grupo vens e crianças. Mas foi Denílson que, aos 11 anos, “per- no”. Hoje, com 18 anos, no curso mé- com professores da Zona Leste de sistentemente na 1ª série”, permitiu o feliz encontro dio e especializado em informática, o 15 São Paulo para buscar respostas. O da escola com o Bornal. O garoto jogava damas divina- rapaz é autônomo, dono de seu desti- que Tião, Carmem e Moura têm em mente, mas não aprendia uma só conta na escola. no. Foi assim que Moura começou em comum? A capacidade de perceber Inconformado, Tião resolveu transformar o jogo de da- Gravatá, na microrregião da Bacia do que um sonho vira um projeto de vida mas em operações aritméticas. Em uma semana, Goitá, interior de Pernambuco, um tra- no momento em que o sonhador Denílson era “outro aluno”. Sua professora quis conhe- balho com famílias de portadores de acredita nele e age. Cada um a seu cer o projeto. Assim o Bornal de Jogos chegou à escola deficiência. modo e em seu tempo, eles acredi- de Curvelo e hoje se espalha pelo Brasil e por países A experiência o levou a outros pro- taram que a educação é a arma mais como Guiné-Bissau e Moçambique. jetos. É um dos fundadores da Serta poderosa para a realização dos so- Um dia, uma professora, dona Margarida, procurou Tião (Serviço de Tecnologia Alternativa), nhos. Acreditaram e agiram. e disse: “Desde que os garotos se animaram a lavar-se, que, desde 1989, propõe que a juven- Foi da necessidade de aprender de temos gastado muito sabão e a escola não tem dinheiro tude possa se ver e ser vista como Tião que surgiu o CPDC (Centro Po- para isso. É tão fácil fazer sabão. Vamos fazer?”. Nascia parte integrante e importante da co- pular de Cultura e Desenvolvimento), ali a “pedagogia do sabão”. Em volta do caldeirão, mu- munidade. “É preciso despertar a con- em 1984. Sentados em uma roda, lheres, jovens e crianças preparam o sabão. E cozinhan- fiança, fazer com que o jovem se veja do o sabão, conversam, trocam experiências. Na roda do na sua potencialidade”, diz Moura. sabão, outras técnicas de produção de baixo custo fo- Mas, para isso, era necessário que os ram sendo desenvolvidas, ocupando as crianças que iam professores das escolas rurais imple- crescendo. Os jovens começaram a recuperar o artesa- mentassem “uma visão integral das Carmem Capitão, professora do nato típico da região em fabriquetas de doces cristaliza- coisas, que ensinassem a geração de grupo Enigmas Juvenis, de São dos, licores, papéis, escultura de metal. renda integrada ao meio ambiente e Paulo: “Como a juventude aprende?” As propostas do CPDC já se espalham por dezenas de ao desenvolvimento sustentado das cidades. Em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, MG, a ins- comunidades”. tituição ocupa a Secretaria de Educação. “A cidade está A escola passou, então, a trabalhar numa UTI pedagógica”, diz o educador. Segundo ele, com com as referências básicas: primeiro,>>
  • 16. Tião Rocha, com rapazes que a casa – nome completo dos pais, dos irmãos, quanti- los um pouco mais, decidiu-se fazer trabalham em uma das fabriquetas do dade de galinhas, de pés de couve. Com esse material, uma pesquisa sobre os grupos juve- Centro Popular de Cultura e o aluno forma a sua identidade e aprende a ler, a es- nis e as escolas. O objetivo era saber Desenvolvimento que ele fundou em crever, e aritmética. Depois, o estudo se estende ao mais sobre os estudantes e também Minas Gerais ambiente, ao município, à cultura local. “Ele conseguirá colher subsídios para incluir o tema pensar o seu entorno”, diz Moura, para quem o conhe- da juventude no planejamento esco- cimento provoca a ação, cria novos valores, promove lar de 2004. Abdalaziz Moura, um dos fundadores novas relações. “O professor passa a líder, e a juventu- Alguns dos resultados da pesquisa: da Serta: esforço para mudar a de passa a ter um papel relevante para si e para a co- 82% dos alunos fazem parte de gru- educação rural no interior munidade. O jovem já não precisa partir”, alegra-se pos, principalmente esportivos, religio- de Pernambuco Moura, um desses raros homens capazes de dizer: “Sin- sos e artístico-culturais. Embora a es- to-me profundamente feliz e realizado”. cola seja um espaço de encontro des- ses grupos, 41% dos jovens acham que Decifrando enigmas a instituição desconhece sua existên- Há dois anos, a aflição com questões que enfrentava cia. Segundo os estudantes, os temas dentro da sala de aula – como o jovem aprende e o que mais discutidos por eles – esportes, é significativo no processo educacional? – levou religião, produção artística, sexualida- Carmem Cristina Beluzo Capitão, professora de Histó- de e preconceito, nesta ordem – são ria na Escola Estadual Caetano Miele, na Zona Leste de praticamente ignorados em sala. Mas São Paulo, a se unir com colegas igualmente inquietos. 65% gostariam de desenvolver as ati- A busca por respostas gerou o Enigmas Juvenis, um vidades de seu grupo na escola. grupo de 11 professores de dez escolas da região. Os professores propuseram, então, A primeira constatação: quase não há informação so- novas formas de atuação pedagógi- bre a educação juvenil. “Pouco se sabe sobre os inte- ca, abrindo espaço para as manifes- resses desses alunos”, observa Carmem. Para conhecê- tações dos grupos e a discussão dos
  • 17. assuntos de seu interesse. Algumas SOBRE escolas estimularam a leitura compa- 17 rada das revistas preferidas dos jo- SERTA - SERVIÇO DE TECNOLOGIA ALTERNATIVA (OSCIP) REGIÃO DE ATUAÇÃO BACIA DO RIO GOITÁ - PE vens; outras realizaram festivais de NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 600 PARA SABER MAIS música. Houve dois encontros inte- APOIO DIVERSOS PATROCINADORES CONTATO Campo da Sementeira, Rod. PE. 50 – Km 14 – Zona Rural – 55620-000 – Glória do Goitá (PE) Fone: 81/ rescolares. No primeiro, os grêmios 3658-1265 – e-mail: serta@serta.org.br estudantis foram convidados a co- nhecer as propostas do Enigmas Ju- venis, para facilitar o trânsito de in- SOBRE formações. Depois, foi a vez dos grupos artísticos. “Teve hip hop, axé, CPDC - CENTRO POPULAR DE CULTURA E DESENVOLVIMENTO (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO MINAS GERAIS; BAHIA, ESPÍRITO SANTO, SÃO PAULO, MARANHÃO, PARÁ. AMAPÁ, GUINÉ BISSAU, sapateado. Uma turma encenou uma MOÇAMBIQUE peça sobre o preconceito que existe, PROPOSTA Criar um espaço para educação conectado com a realidade local, com o objetivo de promover PARA SABER MAIS educação popular e o desenvolvimento comunitário a partir da cultura dentro da própria Zona Leste, em re- APOIO DIVERSOS PATROCINADORES lação à origem dos estudantes”, con- CONTATO SEDE Rua Paraisópolis, 80 – Santa Tereza – 31010-330 – Belo Horizonte (MG) Fone: 31/3463-6357 – Fax: 31/3463-0012 – e-mail: cpcd@cpcd.org.br ta Carmen. “Foi emocionante ver a alegria dos alunos. Agora eles se achegam mais”, diz. É claro que na compreensão des- SOBRE ses “enigmas” ainda há tudo por des- ENIGMAS JUVENIS - GRUPO DE PROFESSORES DA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO REGIÃO DE ATUAÇÃO ZONA LESTE DA CAPITAL cobrir, mas a caminhada já começou. PROPOSTA Reconhecer as culturas juvenis, estudar o processo de aprendizagem do jovem e propor atividades O que Carmem quer é que seja “a que o motivem e o aproximem da escola PARA SABER MAIS busca de um caminho novo, que dê NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS AS ESCOLAS SOMAM 3 MIL ALUNOS APOIO ONG AÇÃO EDUCATIVA E DELEGACIA REGIONAL DE ENSINO um respiro aos jovens”. E isso é tudo CONTATO Local dos encontros: Fone: 11/6682-6705 – Fax: 11/6682-7677 – que um educador precisa querer. e-mail: nrteleste1@bol.com.br
  • 18. banco de práticas QUATRO DIFERENTES PROJETOS COLOCAM EM QUESTÃO O QUE FAZER DA LORENA CRUZ PRÓPRIA VIDA ESCOLHAS E AÇÃO por_ Iara Biderman Ser o autor e o ator no teatro da vida pressupõe es- colhas — e leva à ação. Não por acaso, dois reconheci- dos programas de formação juvenil têm essas palavras em seus nomes. Um deles é o Jovens Escolhas em Rede com o Futuro, do Instituto Credicard (braço social das empresas Credicard Administradora de Cartões de Cré- LUIZ PRADO/AGÊNCIA LUZ dito S.A e Orbital Serviços de Processamento de Infor- mações Ltda.), que estimula o empreendedorismo ju- venil, não apenas no sentido econômico, mas nas di- versas dimensões da vida – cultural, social e pessoal. O outro programa é o Jovens em Ação, iniciativa da Aracati – Agência de Mobilização Jovem e da Ashoka Empre- endedores Sociais, que apóia os participantes na ela- boração e implementação de um projeto social em sua comunidade, com ênfase no protagonismo juvenil. Ambos servem como âncoras para variados projetos de ONGs espalhados pelo Brasil. Os dois programas têm como princípio resguardar a autonomia dos projetos participantes. Educadores, facilitadores e instituições coordenadoras fornecem o conjunto de conhecimentos e ferramentas necessári- os para que os jovens desenvolvam um plano de ação, de modo a transformar seus anseios em realidade. Os An a Luis a D´Alber g aria grupos discutem e planejam o que e como fazer, não só para eles, mas também para os que estão fora da organização. “No exercício da participação social, a juventude se apropria do que a cerca, adquire uma postura pró-ativa em relação a tudo”, diz Carla Duarte, uma das funda- doras da Aracati. “Isso promove a autonomia, a auto- estima, o autoconhecimento, a reflexão sobre valores que vão ajudar na elaboração de um projeto de vida”, completa Paulo Gonçalves de Freitas, coordenador do Jovens em Ação. “Em áreas de interesse diversas, como PAULO EMILIO CASTRO ANDRADE arte, comunicação, cultura, meio ambiente, desenvol- vimento local e economia solidária, o pano de fundo é sempre elaborar e realizar um projeto de interesse pú- blico e coletivo”, diz Silvia Esteves, coordenadora do Jo- vens Escolhas. “A metáfora em questão é a construção do próprio projeto de vida”, conclui. Veja a seguir qua- tro dos projetos apoiados pelos referidos programas.
  • 19. Quando concluiu o ensino médio, Daniela Mercês Queiroz, hoje com 19 anos, achava que sua única op- ção era sair da região sisaleira da Bahia, onde nasceu e Região sisaleira da Bahia cresceu, e cursar uma faculdade. A participação em um projeto do MOC – Movimento de Organização Comuni- Projeto Ater Jovens, tária – levou-a a encontrar outras perspectivas. O MOC do MOC - Movimento atua na região do semi-árido baiano há 37 anos, com vários grupos etários. Um de seus projetos é voltado de Organização para a faixa de 16 a 20 anos: o Ater Jovens, cujo objeti- Comunitária vo é formar empreendedores rurais na linha de assis- >> Imagine o antigo Programa Livre que o apresentador e jornalista Serginho Groisman comandou na TV aberta até o fim dos anos 90. Agora coloque a tônica do pro- grama – jovens se expressando, trocando informações, debatendo – num dos bairros mais periféricos de Diadema, São Paulo. O que você vai ver e ouvir são os Diadema, SP Gritos Urbanos. Esse é o nome do projeto realizado pela Projeto Gritos Fundação Criança em Risco – CARF (Children At Risk Foundation) Brasil, do programa Jovens em Ação, pro- Urbanos, no Espaço movido pelas ONGs Aracati – Agência de Mobilização Cultural Beija-Flor Jovem e Ashoka Empreendedores Sociais. No Espaço>> Eles ainda são poucos e não têm muitos recursos. 19 Mas o grupo Incentivadores de Consciência Jovem, li- gado à ONG Curumim, de Atibaia (SP), não deixa a pe- teca cair. Querem criar um Centro de Juventude em Atibaia, SP uma região da periferia da cidade, onde a juventude não tem espaço nem acesso às atividades de cultura, Projeto lazer e informação. Cerca de dez jovens, muitos deles Incentivadores de já atendidos desde criança na Curumim, sentiram ne- cessidade de um projeto mais específico para a ju- Consciência Jovens, ventude e se mobilizaram para isso. Em 2003, passa- na ONG Curumim ram a participar do programa Jovens em Ação, da >> Na tradição angolana, Humbiumbi é um pássaro que voa alto e chama os outros pássaros para voarem jun- tos, tão alto quanto ele. Em Belo Horizonte, Humbiumbi – Arte, Cultura e Educação é uma ONG que dá a um Belo Horizonte, MG grupo de jovens a possibilidade de alçar vôo. No Centro Projeto O Ato, a Cultural Maria Lívia de Castro, onde a Humbiumbi de- senvolve suas ações, 40 jovens se reúnem no projeto Rua, a Lua, na O Ato, a Rua, a Lua, participante do programa Jovens ONG Humbiumbi Escolhas em Rede com o Futuro, do Instituto Credicard. >>
  • 20. BOAS PRÁTICAS >> tência técnica e convivência com o semi-árido, integrante do programa Jovens Escolhas em Rede com o Fu- turo, do Instituto Credicard. Com uma programação de oficinas, viagens de intercâmbio, pesquisas etc., os 47 participantes aprendem sobre agri- cultura familiar, segurança alimentar, agroecologia e cooperativismo, entre outros temas. A capacitação não é só >> Cultural Beija-Flor (ECBF), inaugurado em 2001 pela CARF Brasil no bairro Eldorado, de Diadema, no ABC, 20 jo- vens empreendedores comunitários, trabalhando com 18 jovens bolsista- multiplicadores, além dos voluntários, promovem alternativas de comunica- ção social com o uso de diversas lin- guagens artísticas – música, vídeo etc. – e muita interação e debate com o público. A idéia é realizar o programa >> Aracati – Agência de Mobilização Jo- vem. O pequeno grupo e suas pro- postas ganharam contornos mais de- finidos. A meta de criar o Centro de Juventude não ficou no papel, elabo- raram os passos para atingir esse objetivo, da captação de recursos ao tipo de atividade que pretendem pro- mover com a comunidade. Fizeram, por exemplo, uma parceria com uma pizzaria da região: o grupo fornece >> A proposta é desenvolver o potencial juvenil por meio da educação pela co- municação e promover o empreende- dorismo social desses jovens. A pro- dução de programas de rádio (veicu- lados por rádios comunitárias) e de fanzines (revistas temáticas), além de oficinas de leitura e interpretação crí- tica da mídia estão entre suas ativi-
  • 21. técnica. “Inclui compreender o univer- mundo, repercute nos projetos de fu- so do desenvolvimento sustentável, turo dos participantes. A promoção da SOBRE ATER JOVENS REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO SISALEIRA DA BAHIA das políticas públicas, das relações cultura e de oportunidades de traba- INSTITUIÇÃO MOC - MOVIMENTO DE ORGANIZAÇÃO sociais e de gênero, da dimensão da lho mudam a idéia de que, para reali- COMUNITÁRIA (ONG) PROPOSTA Formação de jovens em assistência técnica juventude rural”, diz o antropólogo zar-se, o jovem tem de sair de sua PARA SABER MAIS rural e convivência com a região do semi-árido baiano Márcio Mascarenhas, coordenador do terra. Eles percebem, como aconte- JOVENS ATENDIDOS 47 Ater. A valorização da atividade rural ceu com Daniela, que é possível viver APOIO INSTITUTO CREDICARD (R$ 300.000) E ONG EVERYCHILD (R$ 30.000) unida ao princípio de empreende- na roça e transformá-la; estar perto CONTATO www.moc.org.br dorismo juvenil com valores de cida- de seus pares e alcançar seus objeti- Fones: 75/221-1393 e 75/626-6502 dania, solidariedade e visão crítica do vos sem deixar o campo. a cada dois meses e trazer a juven- explica Djalma dos Santos, monitor de SOBRE tude para participar ativamente. A es- percussão do ECBF e participante do GRITOS URBANOS/INSTITUTO CULTURAL BEIJA-FLOR LOCAL DIADEMA (SP) colha do tema para o primeiro pro- projeto. É, também, uma forma de INSTITUIÇÃO FUNDAÇÃO CRIANÇA EM RISCO - CARF grama realizado já diz muito sobre o “abrir caminhos diferentes para aque- BRASIL (ONG) PROPOSTA Criar uma programação que dê meios PARA SABER MAIS “pensar no futuro” dos envolvidos: Vi- les que não têm acesso, além de pro- para a comunidade se expressar das – faces e forças de um povo. É porcionar atividades socializadoras, de- JOVENS ATENDIDOS 38 APOIO CARF NORUEGA uma tentativa de refletir sobre “como senvolvendo iniciativa, respeito, criativi- CONTATO www.carfweb.net é a vida de um brasileiro que luta para dade, tolerância, espírito de equipe e Fone: 11/4047-2231 ser bem-sucedido, que consegue de liderança”, diz Gregory John Smith, isso, ou não consegue, e por quê”, fundador da CARF Brasil. cardápios de papel reciclado e a como palestras, oficinas de teatro, 21 pizzaria dá metade da renda obtida hip hop, capoeira e dança, estão nos SOBRE INCENTIVADORES DE CONSCIÊNCIA JOVEM REGIÃO DE ATUAÇÃO ATIBAIA (SP) em uma noite por mês. Uma tentati- planos. “São eles mesmos que defi- INSTITUIÇÃO CURUMIM, ONG va de obter espaço em uma antiga nem as ações, o educador só facili- PROPOSTA Criar o Centro de Juventude, um espaço estação de trem onde funcionava de lazer e cultura de jovens e para jovens ta. Querem um centro para jovens PARA SABER MAIS JOVENS ATENDIDOS 8 uma escola municipal fracassou. Mas feito pelos próprios jovens. Acredi- APOIO PARCERIA COM eles tocam seus eventos onde é pos- tam que podem fazer algo de bom e O ARMAZÉM DA PIZZA, EM ATIBAIA CONTATO contato@curumim.org.br. sível – como uma tarde de hip hop com isso mudar a visão, em geral ne- Fone: 11/4411-5988 em uma escola estadual que abre gativa, que se tem da juventude da nos fins de semana para o programa periferia”, diz a pedagoga Ana Luisa Escola da Família. Outras atividades, Dalbergaria, educadora do projeto. SOBRE dades. As práticas são formas de para ser concretizado na comunida- O ATO, A RUA, A LUA. REGIÃO DE ATUAÇÃO BELO HORIZONTE (MG) capacitação profissional, mas não é de (“a rua”). Em 2004, os jovens ela- INSTITUIÇÃO HUMBIUMBI - ARTE, CULTURA E isso o fundamental, segundo o coor- boraram planos de ação nas áreas de EDUCAÇÃO (ONG) PROPOSTA Criar oportunidades em comunicação e denador, Paulo Emílio Castro Andrade. cultura, educação, saúde e esporte PARA SABER MAIS educação para o desenvolvimento “O mais importante é o processo de e lazer. Agora, as metas são implan- JOVENS PARTICIPANTES 40 participação, discussão, construção. tar os planos de ação e triplicar o nú- APOIO INSTITUTO CREDICARD CONTATO ccmlc@uai.com.br No fazer (“o ato”) eles vão entenden- mero de participantes – para que Fone: 31/3378-8470 – Fax: 31/3377-2864 do o que é a criação de um projeto muitos mais possam voar, cada vez de vida.” Eles têm um sonho (“a lua”) mais alto.
  • 22. caminho das pedras RISONALDO CRUZ
  • 23. COMO A SUPERAÇÃO DE DIFICULDADES PAVIMENTOU O SUCESSO DA CIPÓ, ONG BAIANA QUE TRABALHA COM COMUNICAÇÃO EDUCATIVA VEJO, OUÇO “Era uma vez, três macaquinhos...” A história da Cipó - Comunicação Interativa E FALO! vem de valores éticos e humanitários para que ele possa pode até começar como um singelo conto infantil, mas logo abandona a fantasia se posicionar como cidadão, sem desprezar o treinamento para mergulhar fundo na mais complexa realidade social brasileira. Já madura às de habilidades visando ao mercado de trabalho. vésperas dos seis anos de vida, a ONG baiana tem demonstrado com fatos, nú- meros e prêmios a sua competência em utilizar tecnologias da comunicação para Nascimento e glória 23 promover ações de educação e de mobilização social de jovens. Juntamente com Isabele Câmara e Bárbara Pérsia, Por trás dos objetivos e dos bons resultados conseguidos até agora, po- Anna Penido fundou a Cipó em 8 de março de 1999. Foi rém, existe uma história de dificuldades. A Cipó percorreu um árduo caminho um começo de muitas idéias e pouquíssimos recursos. para consolidar sua tecnologia educativa e se tornar a referência nacional No primeiro dia, nada funcionou. O fornecimento de luz que é hoje entre as organizações do terceiro setor voltadas para o público e água estava suspenso, os poucos equipamentos en- juvenil. “Foram anos de aprendizado, obstáculos e muitos desafios”, diz a comendados não tinham chegado, e o mobiliário não pas- jornalista e diretora-executiva da Cipó, Anna Penido. sava de peças de segunda mão precisando de conserto. Os macaquinhos que compõem a logomarca da instituição subvertem a tradi- Mas logo conseguiria o apoio de instituições como a Andi cional imagem dos bichinhos incapazes de ver, ouvir e falar: têm olhos bem aber- (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), Instituto tos, ouvidos apurados e palavras afiadas, e estão ativos na defesa dos direitos Ayrton Senna e Unicef. sociais de seu público. Na prática, isso se traduz em programas que partem da O ano de 2000 marcou o florescimento da organiza- Educação pela Comunicação e envolvem sete áreas: melhoria da escola, inserção ção. Atuante, começou a ocupar espaços com projetos no trabalho, acesso às tecnologias, garantia de direitos, participação política, acesso inovadores de ação social, atraindo diversos patrocínios. à cultura e desenvolvimento pessoal e social. O objetivo geral é impregnar o jo- Passou a contar com 31 profissionais e 17 estagiários. Surgiram novas idéias. Mais jovens foram mobilizados. As duas salas comerciais foram trocadas por uma casa. “Ficou clara a nossa função social”, diz Anna, que re- sume assim a atuação da Cipó: “Queremos o desenvol- vimento integral do jovem. Usamos as tecnologias da comunicação para melhorar leitura e expressão. Investi- mos na comunicação digital. E garantimos o que chamo de ‘kit básico de cultura’, que é acesso ao teatro, ao mu- por_ Antonio Moreno seu, a uma atividade cultural. Dos que entram em con- fotos_ Risonaldo Cruz e Edmmar Souza tato conosco, 90% nunca foram ao cinema”.
  • 24. A PERDA DO PRINCIPAL meio desconfiado. Depois, tudo deu certo, pois estamos promovendo uma causa que interessa a todos”, diz Anna. Entre as iniciativas da Cipó há o Estúdio Mix, que faci- PARCEIRO LEVOU A UMA lita o acesso à cultura a jovens de 13 a 24 anos, por meio de oficinas, visitas e encontros com artistas, e a CRISE FINANCEIRA QUE Kabum!, uma escola de artes e computação gráficas, vídeo e fotografia, desenvolvida pelo Instituto Telemar. OBRIGOU A CIPÓ A SE Os autores das fotos que ilustram esta reportagem são monitores dela. Já a Escola Interativa busca a melhoria REESTRUTURAR da qualidade das escolas públicas pela capacitação de professores e alunos multiplicadores. INTEIRAMENTE Outro projeto de sucesso é o Sou de Atitude, que monitora, via internet, a aplicação das políticas no se- tor. A tarefa cabe a 15 rapazes e moças, de 17 a 21 Pedras no caminho anos, como Andreza, de 17, e Gilson, de 20. Eles rece- Mas logo a Cipó enfrentaria alguns percalços. O mais drástico deles: em bem informações, cadastram e-mails, enviam relatos, 2001, perdeu inesperadamente o seu principal parceiro, o portal IG, contami- muitos deles frutos de um trabalho feito pessoalmente nado pela crise que atingiu a internet. “Criou-se um clima de grande instabi- nas ruas. Gilson, por exemplo, resolveu verificar a situa- lidade. Tivemos de fazer ajustes operacionais e ao mesmo tempo buscar novos ção das escolas no bairro do Uruguai, em Salvador. “Des- parceiros. Foi preciso criar estratégias de captação e geração de recursos”, cobri que a mais bem cuidada é uma creche criada pe- lembra Anna. Os problemas puseram os ideais à prova. “A equipe se uniu los moradores. As escolas públicas estão em péssimo mais ainda e se dispôs a doar 10% de sua remuneração para ajudar na manu- estado”, relatou a outros internautas. tenção”, conta a diretora. Na área de negócios, a Cipó Produções funciona como Dando a volta por cima, a instituição seguiu enfrentando os problemas de uma agência de comunicação, profissional, voltada para sempre: a indiferença de alguns órgãos públicos, a resistência de outros às o terceiro setor. Produz sites e faz programação visual, idéias novas, um certo descompasso entre quem decide e quem executa as como a do Programa Geração, do Instituto Votorantim, políticas na área da educação: “Às vezes, você consegue a adesão dos profes- para o qual criou a logomarca e o slogan. sores e alunos, mas não sensibiliza a Secretaria do Estado, por exemplo. Outras vezes, é o contrário”, observa Anna, para quem “o segredo é não desanimar e Lições da crise estar sempre tentando criar alternativa para as coisas darem certo”. Até 2003, a Cipó contabilizava 7 mil jovens formados, E começaram a dar já no fim de 2001: a Cipó venceu o Prêmio Empreende- mais de 50 mil mobilizados e 1.000 professores capaci- dor Social Ashoka-Mckinsey. Em 2002, o apoio da Fundação Avina permitiu a tados. Mas os bons resultados não tranqüilizam inteira- mudança para a atual casa no bairro da Pituba e novos projetos foram inicia- mente a direção. “Ainda enfrentamos muitos problemas dos, com melhor infra-estrutura. estruturais. Sonhamos, por exemplo, com uma sede pró- pria e estamos trabalhando para isso. E lutamos sem- Seguindo em frente pre para sensibilizar novos parceiros, ampliando assim No fim de 2003, a Cipó já contava com 86 integrantes, entre profissionais o alcance do nosso trabalho”, diz Anna. e estagiários, e consolidou sua política de sistematização de conhecimentos Entre as muitas lições aprendidas nessa trajetória, a e descentralização de decisões. Novos prêmios coroaram esse processo. Ao diretora da Cipó extrai pelo menos duas que considera mesmo tempo, o projeto Estúdio Aprendiz, que coloca estagiários entre 14 e muito importantes: “A primeira é que nunca devemos de- 17 anos no mercado, engrenou uma parceria com a Delegacia Regional do pender de um só parceiro, o que limita nossas possibili- Trabalho. Um total de 114 aprendizes está agora em atividade, acompanha- dades quando ele resolve sair. A segunda é que é funda- dos por educadores. mental termos uma equipe formada por pessoas que não Outro avanço diz respeito à Central Cipó de Notícias, que observa a cobertura trabalhem só pelo salário, mas sobretudo pela causa”. da mídia sobre infância e adolescência. No início, havia certa resistência das redações às sugestões de pautas e análises de matérias. “O pessoal ficava Alunos da Cipó no laboratório de computadores: capacitação profissional SOBRE CIPÓ - COMUNICAÇÃO INTERATIVA (ONG) Grupo trabalha em mural: REGIÃO DE ATUAÇÃO SALVADOR (BA) desenvolvimento de capacidades e de PROPOSTA Criar condições para o pleno desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, por meio do uso educativo da comunicação formas de expressão Garota usa o computador: acesso PARA SABER MAIS JOVENS ATENDIDOS 947 APOIO 64% DE PARCEIROS NACIONAIS, COMO INSTITUTO TELEMAR E INSTITUTO UNIBANCO; 36% DE à tecnologia PARCEIROS INTERNACIONAIS, COMO UNICEF E SAVE THE CHILDREN. CONTATO Rua Amazonas, 782 – Pituba – 41.830-380 – Salvador (BA) – cipo@cipo.org.br – Uma filmagem no estúdio: o Fone: 71/240-4477 conhecimento técnico habilita para o mercado e para a participação
  • 25. RISONALDO CRUZ EDMMAR SOUZA RISONALDO CRUZ EDMMAR SOUZA 25
  • 26. horizonte global VOZES DA BOLÍVIA No Distrito Municipal 8, zona mais pobre de Santa área que foi ocupada por 3 mil desabri- Cruz de la Sierra, a cidade mais populosa da Bolívia, um gados da enchente do rio Piray, em grupo de 670 moradores entre 14 e 29 anos está pro- 1982, e hoje concentra 150 mil pes- jetando um futuro diferente para suas vidas e sua co- soas. A maioria é de migrantes, que munidade. Há dois anos, eles integram a Promoção da vivem em condições precárias. Nesse Participação Cidadã de Jovens para o Desenvolvimen- cenário, a implementação do projeto to Comunitário, projeto coordenado pelo sociólogo era um grande desafio, mas em Miguel Ángel Vespa Jiménez, 28 anos. “As vozes dos sintonia com a proposta da COIJ, de jovens são pouco ouvidas pelas autoridades da Bolívia, promover o desenvolvimento integral ainda mais se eles forem de populações pobres”, diz do jovem, criaram-se espaços de par- Vespa Jiménez, membro da COIJ (Coordinadora de ticipação democrática e aprendizagem Organizaciones e Instituciones Juveniles de Santa Cruz), para a mudança social. organização dirigida por jovens e para os jovens boli- “O objetivo é também fortalecer a vianos, em atividade desde 1995. juventude, num processo participa- Os participantes do programa são todos residentes tivo de formação de lideranças nos nas chamadas “zonas vermelhas”, bairros que se desta- bairros e comunidades. Para isso, é cam por seus altos índices de pobreza e violência, numa necessário desenvolver o capital so-
  • 27. Um projeto põe a participação social no horizonte da juventude de Santa Cruz de la Sierra desportivas, artísticas e culturais. “Eles identificaram suas prioridades e uma delas vem sendo executada com êxito: a implementação dos Centros Juvenis de Internet”, diz Jiménez. Muitas atividades vêm sen- do realizadas para a geração de ren- por_ Daniela Rocha cial dos jovens, não apenas no exercício de direitos e da local, incluindo o funcionamento ilustração_ Cárcamo deveres, mas garantindo acesso às tecnologias de in- do cinema comunitário. formação e comunicação e melhoria da educação. Ci- O projeto tem ainda um enfoque de dadãos com visão crítica e propositiva da realidade po- gênero: mais de 60% dos beneficiários dem exigir tudo isso do governo”, diz Jiménez. são garotas líderes, com idades entre 14 e 18 anos. Segundo Jiménez, nes- Articulando iniciativas sa faixa etária as mulheres dos bairros Os participantes foram selecionados têm um importante papel público, que num universo de 35 organizações ju- é fundamental nas articulações. “A pró- venis e oito colégios de ensino secun- pria Rede Social Juvenil é presidida por dário. “A finalidade era articular esfor- uma jovem, Silvana Hutado.” ços para que os jovens trabalhassem Para Vespa Jiménez, nas sociedades com as associações locais, na tomada latino-americanas, é essencial promo- de decisões políticas – por exemplo, ali- ver um processo sistemático de for- anças com o Sindicato das Organiza- mação de líderes do futuro. “É preciso ções de Moradores do Distrito Munici- preparar os jovens para o exercício de 27 pal 8, para o gerenciamento conjunto seus direitos e deveres de cidadãos, e do orçamento da cidade. Essa isso somente é possível com informa- integração deu tão certo que, hoje, 70 ção. Temos de formá-los sobre os va- jovens são dirigentes de associações lores democráticos profundos, recupe- de moradores”, diz o sociólogo. rar a ética, a transparência, o princípio A metodologia do projeto está baseada no pro- do serviço à comunidade como um cesso de formação cidadã, com atividades como exercício cotidiano.” É esse espírito que oficinas, seminários, encontros. A possibilidade de anima os jovens do Distrito Municipal se informar e de debater com seus pares reorienta 8 a integrarem-se à juventude bolivia- as perspectivas desses jovens. Eles passam a fa- na e engajar-se no processo de trans- zer articulações entre si, ampliando suas capaci- formação de seu próprio futuro e da dades não apenas administrativas, mas também realidade do seu país. PROMOÇÃO DA PARTICIPAÇÃO CIDADÃ DE JOVENS PARA O DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO SOBRE INSTITUIÇÃO OPERADORA COORDINADORA DE ORGANIZACIONES E INSTITUCIONES JUVENILES DE SANTA CRUZ - COIJ REGIÃO DE ATUAÇÃO CIUDAD DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA, DISTRITO MUNICIPAL N 8 (ZONA DEL PLAN 3.000), BOLIVIA. TIPO DE INSTITUIÇÃO ASSOCIAÇÃO DE JOVENS, SEM FINS LUCRATIVOS PROPOSTA Incrementar a participação cidadã dos jovens, desenvolvendo capacidades de liderança e de gestão, PARA SABER MAIS fortalecendo as organizações juvenis, e promovendo uma efetiva participação de mulheres jovens JOVENS ATENDIDOS 670 APOIO FUNDAÇÃO AVINA, COIJ, SERVIÇO HOLANDÊS DE COOPERAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO, IGREJA CATÓLICA E PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA CONTATO Coordinadora de Organizaciones e Instituciones Juveniles de Santa Cruz – COIJ. Calle Bautista Saavedra N 2.200 – Santa Cruz de la Sierra – Bolivia – Fone: 591/3-346-5069. e-mail: coij@hotmail.com
  • 28. SEXTANTE por_ Sérgio A. P. Esteves Diretor-presidente da consultoria AMCE Negócios Sustentáveis e um dos coordenadores dos Fóruns Empresariais promovidos em parceria pela AMCE/FGV e CES -Centro de Estudos de QUE PROJETO É ESTE? Sustentabilidade recursos finitos e não suportaria um comportamento predador indefinida- mente. As regras do jogo atual não A SUPREMACIA DA PERSPECTIVA PESSOAL podem ser estendidas a todos e, nes- se sentido, não se sustentam. Con- SOBRE A COLETIVA AJUDA A EXPLICAR A tudo, a construção de modelos eco- nômicos que valorizem a eqüidade FALTA DE UM PROJETO DE PAÍS não será possível enquanto estiver- mos empenhados em garantir nosso emprego em uma sociedade com cada vez menos empregos formais. E o jogo social atual valoriza iniciati- vas únicas, projetos pessoais, tanto para grandes corporações como para Tanto tempo lidando com a questão cado de trabalho e posso ser substituído por alguém mais indivíduos: a vida se tornou uma es- da sustentabilidade e da responsabili- eficaz”. Alcançar nossos objetivos “a qualquer preço”, para pécie de projeto personalista. Em dade no plano das empresas tem me usar o clichê, significa que não consideramos o outro nem qualquer posição da pirâmide social, permitido compreender a necessidade o bem comum na nossa realidade imediata. Não há espa- vivemos um modelo caracterizado de desconstruir, de desaprender e de ço para isso. pelo “pensar em mim”. ter acesso a outras referências que não No meu trabalho, enfrento sempre a questão: “Como Nas empresas, é comum que as pes- apenas as de mercado para que seja estimular a inclusão do outro e do bem comum no hori- soas sigam ordens, concordem ou não possível pensar – e construir – uma so- zonte imediato das organizações?”. Somos preparados – com elas. As justificativas são várias, e ciedade mais justa e mais equânime. e nos preparamos – para dar certo dentro dos padrões de até legítimas. Mas seguir ordens não é Não há novas perspectivas se insistir- sucesso vigentes. Somos como que projetos pessoais que suficiente como código de conduta. mos nos mesmos caminhos, nas mes- devem funcionar. A finalidade do processo de educação é Precisamos, em vez disso, construir e mas soluções, no mesmo modelo men- nos tornar o mais competitivo possível para o mercado. fortalecer uma interioridade, um tal e de desenvolvimento que nos trou- “Ninguém é insubstituível”, dizem, e isso transforma to- posicionamento pessoal a partir de va- xeram até aqui. dos em peças. Substituíveis. A educação cria em nós um lores que expressem a nossa identida- Adotar a sustentabilidade e a respon- sentimento difuso de que precisamos (e podemos!) ser de. E essa construção precisa ser sufi- sabilidade como premissas do desen- insubstituíveis. ciente para dizermos, quando neces- volvimento, em qualquer plano, mesmo Essa educação voltada somente para o mercado tira sário: “Não vou nessa, não é a minha, o de uma nação, implica, sobretudo, va- de foco questões essenciais, como a sustentabilidade, que não quero ser cooptado nem cooptar”. lorizar o bem comum. Requer uma ati- é um conceito de natureza relacional. Ela é fruto de cons- Isso é importante porque o traba- tude de respeito a uma outra identida- truções coletivas em torno de dados bem objetivos do lho é o veículo de desenvolvimento de, de inclusão, com impactos nos pla- mundo físico mas, principalmente, em torno de valores humano por excelência. É por meio nos macroeconômico, microeconômico que interessam a todos. Pressupõe inclusão, e também dele que expressamos a nossa e, sobretudo, pessoal. complexidade. Penso que um projeto de país não pode espiritualidade, que diminuímos nos- Pensar a sustentabilidade reclama prescindir dessa perspectiva. Sem ela, nem ao menos po- sa área de sombra e aumentamos a uma reconexão com o universo, pois demos conceber um legado para as futuras gerações. nossa área de luz, que nos assegu- leva para o horizonte afetivo tudo que No plano macroeconômico, são inúmeras as críticas ramos de estar a serviço de algo que envolve nossa ação no mundo. Isso é ao modelo de desenvolvimento global, principalmente vale o esforço. Por isso é tão relevan- difícil porque o pensamento dominan- em tópicos como eqüidade social e sustentabilidade te que as pessoas possam fazer do te é este: “Eu tenho objetivos e devo ambiental. A desigualdade entre os povos está assen- seu trabalho uma contribuição ao de- fazer o necessário para alcançá-los, tada em valores que não interessam ao conjunto de senvolvimento do país. É uma espé- porque há uma enorme oferta no mer- uma sociedade em permanente vir-a-ser; o planeta tem cie de contrapartida.
  • 29. O fato de o jovem não dispor de ambi- entes adequados para refletir sobre a relevância de sua contribuição é preocupante. De fato, ele se vê pressio- nado pelo mote contemporâneo do imediatismo e por ameaças, por vezes fantasiosas, de que se ficar pensando em “trivialidades” vai ficar para trás. Isso aba- la a formação de sua interioridade e des- trói muitas de suas potencialidades, da sociedade e do país. Construir e fortalecer uma interiori- dade significa, portanto, construir e fortalecer a afirmação da individuali- dade no coletivo, no desenvolvimen- to do espaço comum. Significa supe- rar o padrão escolar formal, a mergu- lhar em outras possibilidades, expandir horizontes, reinventar nossa percepção de mundo. Interagir, estabelecendo co- nexões sólidas com o bem comum. A 29 partir dessa conexão, penso que será mais factível um projeto de país. Acho que já não basta a máxima segundo a qual tudo dará certo se cada um fizer a sua parte. Só há parte quando se tem algum acordo em relação ao todo. Não temos esse acordo, e o todo está ape- nas esboçado na Constituição. É neces- sário assentá-lo como realidade. Não temos um projeto de país, mas podemos nos mobilizar para tê-lo. Se há várias possibilidades de futuro, pre- cisamos examiná-las e escolher as me- lhores alternativas para a sociedade. So- bretudo, devemos fortalecer a demo- cracia, e isso se faz por meio de nossa ação no mundo. O que acontece conos- co, e às vezes nos desanima a seguir lutando por algo, não são problemas ED VIGIANNI/SAMBAPHOTO seus ou meus, mas de todos. Precisa- mos, pois, investir na mudança da reali- dade que experimentamos a partir da nossa própria mudança. Esse é um belo, e viável, desafio.
  • 30. PROJETO DE VIDA E FAMÍLIA 90º O AFETO QUE FORMA por_ Edna Peters Kahhale e Bronia Liebesny fotos_ Penna Prearo A FAMÍLIA PODE SER A Sem dúvida, juventude é o termo consagrado para denominar o período entre a infância e a idade adulta. Isso se deve sobretudo à antropologia, sociologia e psi- CATALISADORA DE PROJETOS DE cologia, que durante anos esmiuçaram as peculiarida- des desse período. VIDA MAIS AUTÔNOMOS OU UM Da pré-adolescência à idade da autonomia, estendi- das dos 10 aos 25 anos, temos o espectro mais amplo ELEMENTO DE PRESSÃO PARA A da juventude. Essa nomenclatura também ajuda a desmistificar a adolescência como um período em que REPRODUÇÃO DO SISTEMA “todos são iguais”, com características próprias da ida- de, universais no tempo e no espaço, cultural e social- mente, como querem a própria medicina e a psicologia mais tradicionais. Vários estudiosos afirmam que a ado- lescência é uma criação histórica, portanto, não é uma fase natural do desenvolvimento humano. É uma construção que responde às necessidades so- ciais e econômicas do desenvolvimento do capitalismo. Ou seja, criou-se uma etapa como passagem do mun- do infantil para o mundo “adulto”, inexistente em so- ciedades com outra organização de produção. Tem-se
  • 31. 31
  • 32. 90º ESTUDOS MOSTRAM QUE O “Fui criada na roça, em Goiás, e não fui à escola. Cedo, comecei a JOVEM SE IMAGINA trabalhar em casas de família e me casei. Meu marido arrumou NO FUTURO emprego e viemos para São Paulo, com um filho pequeno; o caçula PERPETUANDO O nasceu aqui. Para poder educar MODO DE VIDA GUSTAVO LOURENÇÃO meus filhos, eu me ofereci para trabalhar numa creche, em troca de vagas, mas acabei contratada. ADULTO COM O Quando os meninos faziam o primário, eu não podia ajudar, mas valorizava, ensinava a ROSA ANA CASTRO SILVA, 54 QUAL TEM CONTATO respeitar a professora. Eu já vi mãe mandando filho bater em profes- Babá em São Paulo, é mãe de Oxir, 29, e Euler, 27 SISTEMÁTICO sor. Quando entraram no ginásio, achei que precisava acompanhar. estendido essa passagem de um Trabalhava numa copa de hospital simples “ritual de iniciação” para e fiz o supletivo do primário e um processo mais complexo. Esse depois do ginásio. Comecei o curso fato é decorrente de dois fatores: de auxiliar de enfermagem, mas o maior conhecimento do homem não agüentei a prática; voltei ao e as cada vez mais intrincadas rela- trabalho doméstico e sou babá. ções dos homens entre si e a natu- Meus filhos concluíram o segundo reza, que geram processos simbóli- grau e estão bem empregados. cos e socioeconômicos nada simples. Tenho muito orgulho deles. O mais Por exemplo, a necessidade de me- velho é funcionário público, lhor qualificação para inserção pro- concursado, tem casa própria e fissional em algumas áreas de traba- começou a faculdade de Adminis- lho. Isso se dá pelo sistema formal e tração. O caçula é metalúrgico, faz não entre “mestre e aprendiz”, o que, cursos, já foi promovido. Acho que portanto, exige um período maior de os pais têm obrigação de educar, escolarização. ensinar a viver: aconselhar, dar A juventude abrange, então, um carinho, mas dar bronca também, extenso período da vida na socieda- vigiar as companhias. E dar de ocidental, sem características estudo. A ignorância humilha e imanentes que a caracterizem, mas desencaminha.” resultantes da forma como cada so-
  • 33. ciedade está organizada e (im)pos- A família pode contribuir para que o sibilita sua inserção nela. Nessa eta- jovem se assuma como construtor de pa, a sociedade espera que o jovem seu futuro. Um exemp[lo de atividade construa projetos para seu futuro: catalisadora é a construção coletiva quem será e o que fará? Ele deve da história familiar, permitindo a produzir sua vida cotidiana e futura cada um perceber de onde veio e para e o faz a partir de uma rede de rela- onde vai, o que gostaria de superar ou ções sociais e afetivas, na qual ele criar para o futuro se perceba ao mesmo tempo como único e pertencente ao grupo. É nes- se processo de relações diversifica- das e variadas que o jovem interioriza 33 valores e constrói formas próprias de truir a história da própria família através das novas ge- Se a família puder propiciar um es- perceber e estar no mundo: é assim rações. Pode reforçar valores de competitividade; de paço para as ações propostas, ela es- que se constitui como sujeito. Para individualidade, em detrimento do grupo; de não reco- tará contribuindo para que o jovem as- que possa construir seu projeto, é im- nhecimento do Outro, como sujeito digno de respeito. suma um papel ativo como sujeito de portante que ele consiga apropriar- Enfim, reforçando o individualismo. seu processo de escolhas e de cons- se das multideterminações que o im- Os estudos mostram que os jovens se imaginam no trução de um projeto de futuro. Para pelem para um projeto específico. futuro perpetuando o modo de vida adulta atual, com o concluir, um exemplo de atividade que A família – como espaço de cuida- qual têm contato sistemático e sem crítica. Isso signifi- pode ser útil na criação do início des- dos e de afetos – é crucial nessa eta- ca que o jovem não se vê como sujeito da sua própria se processo: a família construir cole- pa “multideterminada” por escolhas ação. Aos familiares e aos profissionais responsáveis tivamente sua história, de sorte que e projetos. Mas, a família dessa mes- pela constituição de espaços de percepção de mundo todos percebam de onde vieram e ma sociedade ocidental, sobre a qual e crítica pelos jovens, cabe pensar ações sobre as quais para onde vão, o que gostariam de su- falamos, tem reproduzido variados eles possam refletir e ressignificar esses valores, de perar ou criar para o futuro. Muitos en- modelos e ideais sociais do que é ser modo a se responsabilizarem pela construção de uma contros agradáveis acontecem por criança, jovem e adulto. Assim, ela opção no conjunto social, com projetos próprios. causa dessa atividade, a qual facilita pode ser catalisadora de projetos Para isso é necessário criar oportunidades para que divisar a construção de alternativas cri- mais autônomos quando questiona as pessoas se relacionem de modo a se perceberem – a ativas, permitindo a todos os mem- e abre espaços para reflexão e críti- elas e ao Outro – como indivíduos autônomos, com di- bros se constituírem como sujeitos. ca dos valores da ideologia dominan- reitos e deveres. Que possam refletir sobre suas esco- te. Por outro lado, ela poderá ser um lhas inseridas num contexto mais amplo do que seu co- Edna Peters Kahhale e Bronia elemento de pressão e de reprodu- tidiano, ampliando suas análises, ponderando sobre as Liebesny são professoras do curso de ção dessa ideologia ao determinar o alternativas de trabalho e de inserção social. Além disso, Psicologia Social da PUC-SP, com que o jovem deve escolher para sua o jovem deve ter acesso a informações que lhe permi- estudos sobre família, juventude e vida, muitas vezes almejando recons- tam levar adiante suas propostas. projeto de vida
  • 34. PROJETO DE VIDA E ESCOLA 180º POR UMA PEDAGOGIA DA JUVENTUDE A ESCOLA PRECISA RECONHECER O JOVEM POR TRÁS DO ALUNO E ADAPTAR A ELE SEUS PROCESSOS EDUCATIVOS por_ Juarez Dayrell Uma reflexão sobre a questão do projeto de vida no participa da sociedade, recebendo e âmbito da juventude e o papel da escola nesse proces- exercendo influências, e é este o mo- so exige que se esclareça, antes de mais nada, o que mento em que sua inserção social se compreende a respeito da categoria juventude, qua- acontece. Período que pode ser se sempre considerada um dado da natureza. Acredito crucial para o seu desenvolvimento que ela deva ser entendida, ao mesmo tempo, como pleno como adulto e cidadão, sendo uma condição social e uma representação. De um lado, necessários tempos, espaços e rela- há um caráter universal dado pelas transformações do ções de qualidade que possibilitem a indivíduo em determinada faixa etária, na qual com- cada um experimentar e desenvolver pleta o seu desenvolvimento físico e enfrenta mudan- suas potencialidades. ças psicológicas. Mas a forma como cada sociedade e, É nesse processo, permeado de no seu interior, cada grupo social vai lidar e represen- descobertas, emoções, ambivalências tar esse momento é muito variada. Não existe uma ju- e conflitos, que o jovem se defronta ventude, mas sim juventudes, no plural, enfatizando, com perguntas como: “quem sou assim, a diversidade de modos de ser jovem na nossa eu?”, “para onde vou?”, “qual rumo sociedade. Nesse sentido, se queremos compreender devo dar à minha vida?”. Questões esses meninos e meninas com que atuamos, é neces- que remetem à identidade e ao pro- sário antes de tudo conhecê-los em sua realidade, des- jeto de vida, duas dimensões que apa- cobrindo como eles constroem, cada um à sua manei- recem interligadas e são decisivas du- ra, a sua experiência. rante seu amadurecimento. A vivência da juventude, desde a adolescência, ten- O projeto de vida pode ser entendi- de a ser caracterizada por experimentações em todas do como a ação do indivíduo de esco- as dimensões da vida subjetiva e social. O jovem torna- lher um dentre os futuros possíveis, se capaz de refletir e de se ver como um indivíduo que capaz de transformar os desejos e as
  • 35. 35 fantasias que lhe dão substância em objetivos passí- veis de serem perseguidos, representando, assim, uma orientação, um rumo de vida. Os projetos podem ser individuais ou coletivos; podem ser mais amplos ou res- tritos, com elaborações a curto ou médio prazo, segun- do o campo de possibilidades. Quer dizer, dependem dos contextos socioeconômico e cultural concretos em que cada jovem se encontra inserido, e que circunscre- vem suas experiências. O projeto possui uma dinâmica própria, transformando-se na medida do amadurecimen- to dos próprios jovens ou das mudanças no campo de possibilidades. Um projeto de vida se realiza na junção de duas va- riáveis. A primeira diz respeito à identidade, ou seja, quanto mais o jovem se conhece, experimenta as suas potencialidades individuais, descobre suas preferências, aquilo que sente prazer em fazer, maior será a sua ca- pacidade de elaborar o seu projeto. Falar de identidade, não significa trazer à baila um “eu” interior natural, como se uma capa fosse coloca- da pela sociedade sobre o núcleo interno com o qual nascemos. Ao contrário, trata-se de uma construção HENK NIEMAN que cada um vai fazendo por meio das relações com o mundo e com os outros. A construção da identidade é
  • 36. 180º A ELABORAÇÃO DE UM PROJETO DE VIDA É FRUTO DE UM PROCESSO DE APRENDIZAGEM E O MAIOR DESAFIO É APRENDER A ESCOLHER antes de tudo um processo relacional, ou seja, um indivíduo só toma cons- ciência de si na relação com o outro. É uma interação social, o que aponta para a importância do pertencimento “Eu tinha 17 anos, estava no 2º grupal e das suas relações solidárias colegial da Escola Eulália Malta, em para o reforço e garantia da identida- Embu das Artes, na Grande São de individual. Fica evidente o valor do Paulo, e meus projetos profissionais grupo de amigos, das esferas cultu- iam da computação à oceanografia. rais, das atividades de lazer, da esco- Durante um projeto desenvolvido na la, entre outros, como espaços que MARCOS FERNANDES/AGÊNCIA LUZ nossa escola em 2002 e 2003, com contribuem na construção de identi- diversas oficinas, um grupo de 25 dades positivas. alunos, de várias idades, do Outra variável que interfere na ela- “Eulália” e de outras escolas da boração do projeto de vida é o conhe- região, teve a idéia de criar a Oficina cimento da realidade. Quanto mais o de Quadrinhos. Depois que termina- jovem conhece a realidade em que se ram as oficinas, eu e três amigos insere, compreende o funcionamen- (Marcelo de Lima Felix, 19; Julien to da estrutura social com seus me- Crouzillard, 19; e Renato Rodrigues canismos de inclusão e exclusão e HENRIQUE CESAR GALLO, 20 tem consciência dos limites e das da Silva, 22) montamos em minha Quadrinista e web-designer, de Embu casa um espaço onde produzíamos possibilidades abertas pelo sistema das Artes (SP). Seu trabalho pode ser na área em que queira atuar, maiores páginas para a web e trabalhos visto em www.cite10.com.br gráficos. Hoje, já alugamos uma serão as suas possibilidades de ela- casa e criamos um portal – o Icult borar e de implementar o seu proje- (Instituto Cultural) –, com um guia to. As duas variáveis demandam es- cultural da região de Embu e paços e tempos de experimentação Taboão da Serra. O portal exibe e uma ação educativa que a possa nossos quadrinhos e animações e orientar. divulga outros artistas. As oficinas A elaboração de um projeto de vida de quadrinhos feitas na escola é fruto de um processo de aprendi- deram um rumo novo à minha vida. zagem, durante o qual o maior desa- Minhas prioridades, agora, são fio é aprender a escolher. Na socie- fazer a faculdade de Engenharia dade contemporânea, somos chama- Eletrônica, criar um estúdio de dos a eleger, a decidir continuamen- desenhos animados e produzir te, fazendo desta ação uma condição revistas em quadrinhos.” para a sobrevivência social. A escolha também é objeto de aprendizagem: aprendemos a praticá-la e a nos res- ponsabilizar pelo que escolhemos. Um e outro se aprendem fazendo,
  • 37. errando. Essas são condições para a do protagonismo juvenil, tomá-lo como parceiro na de- formação de sujeitos autônomos. finição de ações que possam potencializar o que já traz Cabe perguntar: onde nossos jovens de experiência de vida. estão exercitando isso, aprendendo Levar em conta o jovem como sujeito é adequar a a escolher? Quais os espaços que escola a uma “pedagogia da juventude”, em que se con- vêm estimulando a formação de jo- sideram os processos educativos necessários para li- vens autônomos? dar com um corpo em transformação, com os afetos e É tarefa do mundo adulto e de suas sentimentos próprios dessa fase da vida e com as suas instituições garantir aos jovens mo- demandas de sociabilidade. Implica também adequar mentos e situações em que se colo- o ritmo dos processos educativos, dinamizando-os com quem como interlocutores, promo- metas e produtos que respondam à ansiedade juvenil vendo uma relação intergeracional. por resultados imediatos. É fazer da escola um espaço As pesquisas vêm mostrando, po- de produção de ações, de saberes e relações. É acredi- rém, que a instituição escolar, prin- tar na capacidade do jovem, na sua criatividade e apos- cipalmente a escola pública, não vem tar no que ele sabe e quer saber. cumprindo esse papel. A escola pou- Desse modo, a escola se torna um centro juvenil, um co conhece o jovem que a freqüen- espaço de encontro, de estímulo à sociabilidade, onde 37 ta, a sua visão de mundo, os seus de- os jovens têm a chance de descobrirem-se diferentes sejos, o que faz fora da escola. Ao dos outros e, principalmente, de aprenderem a respeitar mesmo tempo, predomina uma re- essas diferenças. Um espaço de aprendizagem das re- presentação negativa e preconcei- gras e vivências coletivas e do exercício da participação. tuosa em relação à juventude. O jo- Todos esses são aspectos centrais na construção de vem é visto na perspectiva da falta, identidades positivas e na elaboração de projetos de vida. da incompletude, da desconfiança, o E aqui vale ressaltar a centralidade da relação dos que torna ainda mais difícil para a jovens com seus professores. Estes são a expressão escola perceber quem ele é de fato. de uma geração adulta, portadora de um mundo de va- Mas já existem muitas experiências lores, regras, projetos e utopias a ser proposto aos alu- que apontam para uma nova postu- nos. Cabe a eles se colocarem como interlocutores des- ra da escola na relação com os jo- tes, diante de suas crises, dúvidas e perplexidades. As- vens, com algumas características sim, a escola se efetiva como um espaço de diálogo que devem ser ressaltadas. entre os jovens e o mundo adulto, contribuindo na cons- Um primeiro aspecto é reconhecer trução de referências positivas. e lidar com ele como sujeito. Implica No trabalho com os jovens, a força propulsora tem de percebê-lo como realmente é, além ser o desejo. Professores e alunos com vontade de des- da sua condição de aluno. É um indi- cobrirem novos caminhos, novas relações, novos conhe- víduo que ama, sofre, se diverte, pen- cimentos. O envolvimento dos professores é o primeiro sa a respeito das suas experiências, passo para qualquer proposta que pretenda estabelecer interpreta o mundo, tem desejos e um entendimento maior com os alunos, fazendo da es- Juarez Dayrell é sociólogo, professor projetos de vida. Torna-se necessá- cola um espaço onde eles “possam ser mais”, como di- da Faculdade de Educação da UFMG rio escutá-lo, considerá-lo como zia Paulo Freire. Será reencontrada, assim, a vocação da e coordenador do Observatório da interlocutor válido e, na perspectiva escola como um espaço de formação humana. Juventude da UFMG
  • 38. PROJETO DE VIDA E TRABALHO 270º
  • 39. por_Antonio Carlos Gomes da Costa foto_Henk Nieman APRENDENDO A EMPREENDER A INICIATIVA PROFISSIONAL, EM QUALQUER CAMPO, EXIGE COMPETÊNCIAS QUE PRECISAM SER DESENVOLVIDAS 39 O homem – segundo a socióloga argentina Cláudia Jacinto – nasce duas vezes: a primeira, quando sai de dentro da mãe. Nesse momento se nasce para a famí- lia e para a população. O segundo nascimento ocorre na adolescência: a pessoa em desenvolvimento nasce para si mesma e para a sociedade. Nesse segundo nas- cimento, três instituições emergem como fundamen- E o trabalho para os jovens integra- tais: a família, a escola e o trabalho. dos é projeto: orientação vocacional, Para os jovens integrados econômica e socialmente, escolha do vestibular a ser prestado, a família funciona como uma rede de proteção. Ser que da carreira a seguir. Para o jovem em se procura e se experimenta nos vários domínios da desvantagem, não: o trabalho torna- existência em sua caminhada para o mundo adulto, este se o eixo ou o elemento central de sua jovem encontra na família um anteparo efetivo e pode- vida. Se perguntarmos a um office- roso. Já com os que estão excluídos social e economi- boy o que ele é, certamente sua pri- camente passa-se o contrário. É o núcleo familiar que meira resposta, mesmo que ele estu- passa a contar com sua ajuda como parte de sua es- de à noite, não será estudante. tratégia de sobrevivência. A adolescência, porém, é uma fase Com a escola passa-se algo semelhante. Para os que determinante. Nela o jovem avança, estão mais integrados, ela é o centro, o eixo estru- aos poucos, sob duas construções turador de suas vidas. Para os jovens em desvantagem socioexistenciais da maior importân- socioeconômica, a escola é uma presença secundária, cia: a da identidade e a de um proje- pois, como já vimos, o compromisso principal desses to de vida. Na formação da identida- jovens já não é mais com a atenção e, sim, com a luta de, ele deve aceitar a si mesmo e se pela sobrevivência. compreender, condições vitais para
  • 40. 270º a aquisição de auto-estima, autocon- ceito, autoconfiança e visão dese- jante em face do futuro. Essas con- quistas criam as condições básicas para a efetivação de um projeto de vida, ou seja, do caminho a ser per- corrido entre o ser e o querer-ser na vida de cada pessoa. A melhor definição do jovem bem- “O meu envolvimento com sucedido nisso (identidade e projeto) programas como o Escola da que encontrei está na letra do sam- Família, da Secretaria de ba “Aquele Abraço”, do atual minis- Educação do Estado de São Paulo tro da Cultura, Gilberto Gil: “Meu ca- – que, ao lado de parceiros está minho pelo mundo eu mesmo traço, desenvolvendo atividades com a a Bahia já me deu, graças a Deus, ré- comunidade de Carapicuíba, em gua e compasso”. escolas da região –, é fruto de “Meu caminho pelo mundo” é, jus- LULUDI/AGÊNCIA LUZ experiências anteriores, que me tamente, o projeto de vida traçado trouxeram até aqui. Sou formada pelo próprio jovem. A “Bahia” é a em Dança pela Unicamp e, entre educação que recebeu, as influên- 1997 e 2003, criei e implementei cias construtivas que sobre ele fo- um projeto, chamado Acolhendo a ram exercidas pela família, a escola, Dança, para profissionalização ANDRÉA CUONO, 32 ANOS a comunidade e os meios de comu- de filhos de cortadores de cana-de- Coordenadora de Área do Programa nicação. A “régua” é o instrumento açúcar em Cardoso, Paulo de Escola da Família em 16 escolas da que ajuda a unir dois pontos: o ca- Faria e Orindiúva, municípios no cidade de Carapicuíba (SP) minho entre o ser e o querer-ser na noroeste do estado. Foram vida de cada um. E, finalmente, o beneficiadas perto de 500 “compasso”, que desenha a figura crianças, que aprenderam a de 3600, serve como símbolo de uma redimensionar seus sonhos e a visão do todo. Vê-se, portanto, que reorientar o seu destino, o de o jovem que queremos ver é aquele futuros cortadores de cana como capaz de fazer escolhas fundamen- seus avós e seus pais. O aprendi- tadas, analisar situações e tomar de- zado da disciplina, a busca do cisões diante delas saber e a valorização da ética nos A expressão “graças a Deus” funci- ensinam a ser criativos com base ona como uma abertura à dimensão nos recursos disponíveis.” transcendente da vida: crenças, prin- cípios, valores, convicções profundas, que servem de bússola ao ser huma- no nos momentos difíceis da vida. Esse é o perfil de um jovem empre- endedor. Ser empreendedor – mais do
  • 41. MAIS DO QUE TER UM NEGÓCIO PRÓPRIO, SER EMPREENDEDOR É TER SONHOS E SER CAPAZ DE CONCRETIZÁ-LOS competências em termos de habilidades básicas e de > assumir as conseqüências de suas gestão, como: ações positivas e negativas; > analisar uma situação em seus diversos ângulos; > desenvolver a tolerância para com > propor soluções e avaliar soluções propostas por ou- as falhar e limitações humanas; tras pessoas; > aprender a lidar com êxitos e fra- > comunicar-se com pessoas e instituições fora de seu cassos; mundo cotidiano; > decidir em grupo e de forma de- 41 > tomar decisões fundamentadas sobre qual curso de mocrática; ação seguir em face de uma determinada situação > desenvolver espírito solidário e real; ação cooperativa. > planejar e aprender a lidar com pessoas, tempos, que apenas abrir um negócio próprio Finalmente, a essas habilidades materiais e recursos financeiros; (dimensão muito importante do deverão ser acrescentadas aquelas empreendedorismo, sem dúvida algu- > administrar o próprio tempo, aprendendo a dividir-se específicas requeridas para o exer- ma) – é ter sonhos e ser capaz de tra- entre atividades de natureza distinta; cício de uma ocupação, serviço ou balhar e lutar para transformá-lo em > dar e receber instruções, ordens e orientações; profissão no mundo do trabalho. Na realidade, quer abrindo um negócio, > liderar e deixar-se liderar; medida em que formos capazes de construindo uma carreira vitoriosa > criticar e ser criticado; atuar nesta linha para e com os jo- numa empresa, numa organização vens, estaremos contribuindo para a > coordenar atividades em grupo; formação das pessoas, dos cidadãos pública ou numa organização social sem fins de lucro. O importante é que > aceitar diferentes pontos de vista e interesses; e dos profissionais de que o Brasil ne- o jovem transforme seu potencial em > improvisar diante de situações imprevistas, agindo de cessita para dar certo. habilidades, competências e capacida- acordo com os princípios, valores e interesses de seu de e as coloque a serviço de sua visão grupo; de si mesmo e do mundo, empenhan- > discernir os valores implicados e vividos em uma de- do-se em concretizar seus sonhos. terminada situação; Na formação de um jovem empre- Antônio Carlos Gomes da Costa é > buscar coerência entre teoria e prática; endedor vale muito mais o que ele é pedagogo, consultor especialista em do que o que ele sabe. Por isso, é im- > exercitar a transparência no uso dos recursos grupais; juventude, desenvolvimento social e portantíssimo construir itinerários > prestar conta de seus atos ao grupo, aos destinatá- ação educativa, autor de vários formativos capazes de desenvolver rios de suas ações e a seus educadores; livros sobre esses temas
  • 42. PROJETO DE VIDA E MÍDIA 360º SONHOS DE UMA NOIT OS MODELOS DE SUCESSO VEICULADOS PELA MÍDIA SÃO DISTORCIDOS E NÃO INFORMAM PARA A TOMADA DE DECISÕES NA VIDA REAL Quando se pensa na construção de um projeto de vida, vários fatores apre- sentam um peso expressivo na forma- ção da identidade, dos valores, dos so- nhos e das ambições. O ponto de par- tida é a educação recebida em casa. Depois, os diversos aprendizados na escola, a companhia dos amigos, as influências da sociedade e, não pode- mos esquecer, a interferência que a mídia exerce em todo esse conjunto. O Brasil é hoje um dos países em que crianças e jovens passam mais tempo na frente da televisão. Segun- do o Ibope, em setembro de 2004, entre os telespectadores de 4 a 17 anos, o tempo gasto com TV foi, em média, de 4 horas e 25 minutos por dia. De acordo com a pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, feita pelo Ins- tituto da Cidadania com jovens de 15 a 24 anos, 91% dos entrevistados as- sistem a TV de segunda a sexta-feira (a taxa é de 87% nos fins de sema- na). Em comparação, 49% desses jo- vens dizem que lêem jornais (51% não têm esse costume) e 67% lêem alguma revista (31% dizem que não têm esse hábito).
  • 43. Com tanta televisão ligada, é inegável que esse meio tam a resposta do telespectador e, por_Jairo Bouer de comunicação mexa com o imaginário dos jovens, sendo aceitas, mantêm suas pautas. foto_Penna Prearo interferindo em padrões de comportamento, noções de No caso de resposta negativa, as pau- sucesso e conceitos de felicidade. De fato, a TV parece tas e os programas são substituídos. ter um peso importante nas construções emocionais e A TV não pode ser entendida sem afetivas que vão influenciar na elaboração do projeto se levar em conta o meio sociocultural de vida dos jovens. em que ela está inserida. De alguma Mas também não podemos responsabilizar a mídia, forma, a TV que a gente vê reflete a isoladamente, por tudo que é veiculado. O objetivo dos sociedade em que a gente vive. Se meios de comunicação é atender aos anseios expres- pode influenciar na formação de va- TE DE TV sos pela sociedade, respondendo às expectativas de lores e conceitos, ela também, em al- seu público e, com isso, aumentando sua audiência. Ou guma extensão, funciona como um seja, existe uma relação de mão-dupla: os meios ofe- espelho dos sonhos e ambições de recem programas, personagens, temas e debates, tes- uma população. É o momento de se 43
  • 44. pensar: de fato, qual a televisão que a gente quer? montar projetos de vidas. Valores e ati- Para isso, é fundamental que adultos e educadores tudes tidos como desejáveis e louvá- estimulem a leitura e a audiência crítica do jovem em veis são exibidos como um caminho a relação à mídia. Nem tudo o que se vê e o que se lê é a ser seguido para que se consiga ser melhor tradução do que acontece. bem-sucedido. E há incontáveis distor- ções nesse processo. Capa da revista A começar pelos padrões estéticos. São inúmeros os exemplos de comportamento que a Personagens (em sua função ficcional mídia expõe como “modelos” para seu público, atribuin- ou não) desejáveis são os que têm do valores positivos a eles, como uma receita para a bus- corpos magros, sem flacidez e bron- ca da felicidade. Os padrões de sucesso veiculados não zeados. Pele lisa, cabelos sedosos, só nas ficções mas também nas publicações de compor- mantendo asséptica distância da tamento voltadas para jovens são peças que ajudam a oleosidade e das espinhas típicas da juventude. Claro, tudo seguindo o ve- lho padrão europeu de traços finos – se tiver cabelos e olhos claros, me- lhor. Gordinhos raramente são dese- jáveis. Funcionam para situações cô- micas, mas não para cenas tórridas de amor. Não se levam em conta as- pectos relacionados à saúde, mas ao “Por estar já há dez anos no Projeto julgamento “feio” ou “bonito”. À es- Cala-Boca Já Morreu – no qual, tética, tudo. À saúde, quase nada. além de criticar a mídia, também A vida afetiva também é “contem- produzimos informação e comunica- plada” pelos extremos: os relaciona- ção, fazendo rádio, jornal, TV, vídeo mentos podem ser “contos-de-fa- e internet –, eu não consigo me das” ou “o inferno na Terra”. Na pri- esquecer da forma como as influên- meira categoria, casais que enfren- cias se estabelecem pelos meios de tam a tradicional jornada do herói: comunicação. Quando você entende vencem preconceitos, inimigos e bar- que os valores são definidos por reiras sociais e emocionais e conse- poucos, tudo, então, se torna relativo guem viver felizes para sempre. Na e passa a ser visto como mais um segunda classe, casais que não se su- ponto de vista. Quando muda o HENK NIEMAN portam, que vivem em meio a trai- ponto, muda-se a vista. Essa ções, falsidade, ciúmes e sofrimen- consciência faz toda a diferença: to. Obviamente, o modelo a ser bus- abre outro panorama para o cado pelos jovens é o do conto-de- problema da influência da mídia em ÍSIS LIMA SOARES, 18 fadas. Cria-se então uma idealização nossa vida e cria a possibilidade de Estudante, é líder do Conselho Gestor do dos envolvimentos emocionais: tudo escolhermos com tranqüilidade o que Projeto Cala-Boca Já Morreu tem de sair certinho; brigas e desen- queremos fazer. É claro que (www.portalgens.com.br/cala-boca), no tendimentos são sinais de fracasso. ninguém está totalmente livre da bairro do Jaguaré, em São Paulo (SP) Ninguém explica que casais precisam influência, em especial da TV e do discutir (sem haver nisso um julga- rádio, que atingem praticamente mento negativo) para resolver suas toda a população. Mas, no projeto, diferenças, e que é necessária uma temos um jeito diferente de fazer as dose extra de tolerância e paciência coisas. Os programas de TV, por para respeitar os limites do outro. exemplo, são produzidos por e para Do campo afetivo para o sexual é crianças e adolescentes. Nesses dez um pulo. Casais apaixonados devem anos se criou uma “metodologia fazer sexo perfeito, com orgasmos in- Cala-Boca Já Morreu”, na qual termináveis em lindas noites de luar, temos como princípio que todas as imunes a fantasmas como doenças, pessoas decidem tudo o que vai para gravidez indesejada, falta de sincronia o ar. Naturalmente, nos grupos há e, acima de tudo, falta de experiên- os que gostam de falar e intimidam cia. Rapazes ideais não sofrem de os que falam menos, mas nós damos ejaculação precoce nem de falta de um jeito de todos se manifestarem.” ereção. A mocinha não fica nervosa,
  • 45. O BRASIL É UM DOS PAÍSES EM QUE SE PASSA MAIS TEMPO DIANTE DA TV E É INEGÁVEL QUE ELA MEXE COM O NOSSO IMAGINÁRIO com falta de lubrificação e nunca sen- Um exemplo positivo de iniciativa te dor no momento sublime. Depois que une diversão e informação são os de tórridas e perfeitas cenas de sexo projetos da ONG sul-africana Soul City bombardeadas em novelas, séries e (www.soulcity.org.za). A instituição filmes, como justificar que a chance capta recursos, recruta experts e pro- de uma primeira vez perfeita é muito duz ficções com base educativa para 45 menor do que a de uma certa confu- esquecer a fórmula da felicidade? Domésticas, mecâ- exibição em meios de massa. A ONG são que vai se acertando com o tem- nicos, padeiros, atendentes do comércio, operários e compra espaços no rádio e na TV, o po? Superada a falta de experiência, manicures só serão felizes se ganharem na loteria ou que lhe garante independência na quem há de convencer os jovens que se forem selecionados para um reality-show? produção. As séries são feitas com ri- as complicações continuam, sim, de- gorosos estudos junto ao público, tes- pois do casamento? Caminhos diversos tando a eficiência (educacional e co- Outro exemplo da idealização que Apesar de ainda tímidas, já há iniciativas muito inte- mercial) das tramas. Por aqui, vale a compõe o repertório de modelos de ressantes que tentam romper com esse modelo idea- penar prestar atenção em trabalhos sucesso é o financeiro. Herói que se lizado de projeto de vida veiculado pela mídia. Canais desenvolvidos pelas TVs Educativas preze não passa apertos com dinhei- educativos e publicações alternativas expõem informa- (Cultura, TVE), canais universitários e ro. Pode até enfrentar algumas difi- ções da “vida real” para armar o jovem na hora de to- no Canal Futura. culdades, mas nada desesperador. mar suas decisões. Alguns programas questionam o Para terminar, vale perguntar nova- De preferência, terá uma profissão de modelo de sucesso veiculado na grande mídia e per- mente: até que ponto não somos “doutor” – médicos, dentistas, enge- guntam qual é o jovem que a TV precisa retratar. A idéia também responsáveis pelas idealiza- nheiros, advogados e executivos têm de que programas educativos são sempre chatos está ções e construções equivocadas vei- meio caminho andado para o suces- desaparecendo: a tendência é cada vez mais unir en- culadas pela grande mídia e que pa- so. Cantores e atores, então, têm tretenimento e informação. pel podemos ter na busca de uma uma estrela estampada na testa e Além disso, a sociedade gradativamente passa a co- nova fórmula? muita grana no bolso. Só resta pen- brar a representação das diversidades. O movimento sar o que farão os jovens (na verda- negro tem feito progressos nesse sentido, ao pressio- de, a maioria dos brasileiros) que não nar para que protagonistas de novela sejam vividos por Jairo Bouer é psiquiatra, colunista do tiveram acesso ao ensino superior, atores afro-descendentes. Pouco a pouco, personagens caderno Folhateen da Folha de que não puderam virar “doutores”. homossexuais também entram na tela como “pessoas S. Paulo e apresentador de programa Operadoras de telemarketing podem comuns”, e não como alvos de chacotas. Ao Ponto no Canal Futura
  • 46. sem bússola DAVILYM DOURADO ESTRATÉGIAS DE A ASSOCIAÇÃO COM O CRIME E A OPÇÃO PELA GRAVIDEZ PRECOCE SÃO PROJETOS DE RISCO OU A PORTA QUE SE ABRE PARA QUEM NÃO VÊ OUTRA SAÍDA? Eles cresceram às carreiras, dri- da inexperiência juvenil, é uma situação emblemática, Muro furado à bala no bairro de blando nas vielas de terra os perigos permeada de sinais de alerta. Sapopemba, em São Paulo: a variados da comunidade popular do Os dois estão com 17 anos. O menino, W. O., fre- violência vitimiza principalmente Rio de Janeiro onde nasceram, um qüenta a 8a série de uma escola municipal; a menina, os rapazes, seduzidos pela morro famoso mundo afora pela sua H. S. S., cursa com boas notas o 1o ano do ensino mé- atração do crime, que oferece escola de samba – a Mangueira. Ape- dio num colégio estadual e trabalha em um consultó- remuneração alta e confere poder sar da proximidade, não gostam do rio na Zona Sul carioca. W. também tem seu emprego perante a comunidade ritmo, como descobriram, entre ou- – é soldado na tropa teen que controla o comércio de tros pontos em comum, ao se conhe- drogas na Mangueira. Vivem, ambos, uma história que cerem na adolescência: ele prefere o ilustra como o meio social faz muitos jovens traçarem funk; ela, evangélica, raramente sai à projetos de vida que terminam por inviabilizar um fu- noite. Hoje, ela está grávida de um fi- turo melhor. Às vezes, qualquer futuro. lho dele. O que, a olho nu, parece ape- Engravidar na adolescência, para as meninas, e en- nas um acidente de percurso, fruto volver-se com o crime, entre os meninos, tornaram-se
  • 47. por_Aydano André Motta SOBREVIVÊNCIA 47 formas de obtenção de status, num país de poucas riscos enfrentados pelo pai de seu fi- perspectivas sociais. Por todo o Brasil, a história se re- lho. “Lá é tranqüilo, e ele sabe se cui- pete, com as características de cada região. Das garo- dar”, afirma, ignorando as alarmantes tas que desde o fim da infância se prostituem por al- estatísticas da mortalidade de rapazes guns trocados no Norte aos meninos que passam o dia tombados pela violência urbana. ensaiando malabarismos circenses nas esquinas ca- W. fala pouco, nem sequer sorri riocas; das meninas que engravidam para segurar os quando é parabenizado pelo filho que namorados nas favelas do Nordeste aos jovens assal- vai nascer. Ano passado, ele ficou dois tantes de rua das capitais do Centro-Sul, todos, com meses numa unidade para menores menos ou mais consciência, adotaram alternativas de infratores na Zona Norte do Rio, mas risco como estratégia de sobrevivência. voltou ao “emprego”, sem medo nem culpa. “Sei que isso aqui não dura Falsa liberdade muito, e se der mole posso dançar. Só Na Mangueira, quando soube do namoro da filha, a mãe de H. pareceu antever a tempestade, mas adotou a tática errada – passou a espancar a garota, tentando reprimir o namoro. Em vão. “Engravidei para poder sair de casa, ter minha própria família, virar adulta”, conta a menina, baixando a voz num reflexo. “Ele está trabalhan- do e prometeu ficar comigo”, diz ela, que despreza os
  • 48. DAVILYM DOURADO Garota paulistana, grávida do construir uma auto-imagem – justamente quando o lidade que vai muito além da nossa segundo filho aos 18 anos: dos partos corpo passa por profundas modificações –, pois neces- imaginação. Propus a pintura como feitos no Brasil, 24% são de mães sitam da aprovação de seu grupo”, diz ela. ferramenta, para eles denunciarem adolescentes. Nem sempre fruto da O mesmo vale para a vida sexual. Albertina explica sua realidade. Abria-se um horizonte desinformação, a gravidez também é que os adolescentes fazem sexo não por desejo, mas para as crianças, que elas nem sequer vista como chance de criar laços e pelo medo de não agradar – temor, aliás, presente em imaginavam existir, e assim restau- mudar de posição todas as faixas sociais. “Temos jovens que nos procu- ravam a auto-estima e a dignidade. ram angustiadas porque não conseguem engravidar”, Tenho certeza: estética é remédio”, diz a médica, que vê o projeto de vida atrelado à ma- escreveu Veronese, que interrompeu ternidade como uma busca da aprovação grupal. “As- o projeto por causa de uma mudan- sim, elas criam vínculos e tentam prender o namora- ça para Paris, onde vive atualmente. do.” De todos os partos feitos no Brasil, 24% são de Também freqüentadora do Centro mães adolescentes. “E a gravidez se repete em quase João Luís Alves, a psicóloga Márcia metade das jovens”, contabiliza Albertina. Fayad cruzou, incontáveis vezes, com quero juntar um dinheiro, até para fi- jovens tentando encontrar no crime car com ela direito. Agora, tô sempre Estética libertadora um projeto de vida. Ela aponta a con- ligado”, afirma, admitindo a mudan- O artista plástico Antonio Veronese dedicou 16 anos jugação da educação com um empre- ça de sua imagem perante a comu- de sua vida à dura batalha pela recuperação de meno- go digno como a fórmula para evitar nidade. “Sou respeitado como ho- res infratores como W., usando a arte como arma con- essa triste escolha. Márcia coordena mem, deixei de ser criança”, consta- tra o buraco sem fundo do crime que espreita os jo- o programa Justiça pelos Jovens, de- ta, a pistola às costas, enfiada na vens das favelas. Ele criou o Libertarte, para ensinar senvolvido pelo Tribunal de Justiça do bermuda, que vai até o joelho. pintura a detidos no Centro João Luís Alves, na Ilha do Rio de Janeiro e pelo Centro de Estu- Ser “respeitado” como adulto é a Governador, Zona Norte do Rio. “Quando um menino vê do e Atendimento São Domingos chave do problema desses jovens, que é capaz de fazer algo que seja objeto de admira- Sávio, que tem 60 participantes en- ensina a ginecologista Albertina ção dos outros, ele se reavalia”, diz o pintor. tre 16 e 24 anos. Muitos oriundos do Duarte Takiuti, responsável pelo pro- Ele encontrou, em atividades que incluíam também tráfico de drogas, eles trabalham no grama Saúde do Adolescente, da Se- idas a teatros, museus, óperas e exposições, uma for- Arquivo Geral de Justiça e na Vara de cretaria de Saúde do Estado de São ma de levar alguma sensatez à insana rotina dos jo- Execuções Penais – e são, geralmen- Paulo. “Eles são inseguros. Tentam vens delinqüentes. “Descobri, nesse contato, uma rea- te, ótimos funcionários.
  • 49. Mais do que a polícia ou a perspec- tiva da morte, porém, a solidão era a grande adversária do seu modo de vida – e a ela juntou-se a fé. “Um dia EM PLENA TRANSFORMAÇÃO, O JOVEM recebi uma Bíblia e ouvi um obreiro dizer: ‘Jesus te ama’”, conta sobre QUER SER APROVADO PELO GRUPO E VISTO sua epifania. Hoje, fiel de uma igreja evangélica, está noivo, cursa a 7ª sé- COMO ADULTO. ACREDITA QUE O CRIME DÁ rie e, sentado num banco do corre- dor do Fórum carioca, se enxerga “cu- STATUS E QUE A GRAVIDEZ CRIA VÍNCULOS rado”. “Voltei a morar com minha mãe, tenho carteira assinada e vou me casar. O que mais posso querer?” Horizontes perdidos Finais felizes como o de F. são ra- ros. Em Belém, é grande o número de Solidão e fé meninas que, ainda crianças, come- F. S. N., 22 anos, é um desses tra- çam a se prostituir. O sexo é a solitá- balhadores. Aos 13, ele entrou para a ria alternativa de sobrevivência – mui- quadrilha que vendia drogas e assal- tas vezes, incentivada por mães igual- tava nas cercanias de Bangu, Zona mente órfãs de horizontes. “Mães e Oeste do Rio. A agressividade mal avós por vezes aliciam as próprias fi- dirigida e o sonho de consumir pro- lhas e netas”, relata Graça Trapasso, dutos de grifes juntaram-se numa coordenadora do Movimento Repúbli- fórmula explosiva. “No dia que me ca de Emaús, de atendimento a me- entregaram um 38, eu me senti se- ninas em situação de risco. “A escola guro”, diz sobre o primeiro revólver. é muito precária, os índices de anal- F., então, largou o colégio e alistou- fabetismo e de evasão são enormes”, se. “Virei soldado.” Viciado, foi detido observa Graça, alertando que o pro- duas vezes, aos 15 e aos 17 anos. blema começa a atingir também os “Pensava assim: se eu morrer, não meninos. A ONG tem conseguido re- tenho nada a perder”, conta o rapaz, sultados na assistência às adolescen- 49 que chegou a empunhar o troféu dos tes, na busca de emprego e quase criminosos – o fuzil AR-15 – e sentiu sempre evitando a segunda gravidez. o “coração se encher”. Mas o caminho é longo. >> SOBRE PROJETO JUSTIÇA PELOS JOVENS OPERADORES TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E ONG SÃO VICENTE DE PAULA. REGIÃO DE ATUAÇÃO RIO DE JANEIRO PROPOSTA Oferecer a jovens encaminhados pela Segunda Vara da Infância e Juventude sua primeira PARA SABER MAIS experiência profissionalizante, com bolsa-auxílio de R$ 267,00, vale-transporte e tiquete-refeição JOVENS ATENDIDOS 60 APOIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CONTATO Av. Rodrigues Alves, 731A – Santo Cristo – Rio de Janeiro (RJ) – Fone: 21/3213-4763/3213-4719 SOBRE CASA DO ADOLESCENTE OPERADOR SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE DO SÃO PAULO REGIÃO DE ATUAÇÃO ESTADO DE SÃO PAULO TIPO DE INSTITUIÇÃO PROGRAMA DE POLÍTICA PÚBLICA PARA SABER MAIS PROPOSTA Orientar adolescentes para evitar a gravidez precoce e sobre o risco de doenças sexualmente transmissíveis. Presta assistência a mães e pais adolescentes JOVENS ATENDIDOS 17 MIL EM 10 ANOS APOIO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. CONTATO Rua Ferreira de Araújo, 789 – Pinheiros – São Paulo (SP) – Fone: 11/3819-2022
  • 50. A ARTE É FERRAMENTA PARA QUE O JOVEM EM SITUAÇÃO DE RISCO DENUNCIE SUA REALIDADE E RESTAURE A AUTO-ESTIMA. ESTÉTICA É REMÉDIO Foi assim com Chirlene Oliveira de Melo, que aos 13 anos saiu de casa em Benguí, periferia de Belém, apai- VIDA DE REPÓRTER xonada por um menino e oprimida pela violenta oposição da mãe. “Fui “São conversas delicadas, por vezes morar com ele, mas a família dele não tensas, com freqüentes olhares para o aprovou e acabei na rua.” Seu ende- lado, numa vigilância obsessiva do reço na adolescência: o terminal ro- mundo em volta. Seja no Fórum do doviário de São Brás. “Roubava e saía Rio ou no pé de uma favela na Zona com velhos de 40, 50 anos. Transava Norte da cidade, encontrar jovens em por R$ 10.” Viciou-se. “Aos 17 anos, situação de risco é uma experiência conheci outro menino na rua. A gen- invariavelmente marcante. Com o te se apaixonou e eu engravidei”, casal – H., grávida de W., soldado do conta ela, que em menos de um ano tráfico –, a conversa foi na entrada do perdeu o companheiro, assassinado. morro. Da mesma idade, ela parece O crime a fez deixar a rua, mas an- muito mais madura do que ele. W. tes ela experimentou o respeito pela começou a conversa arrogante, quase sua nova condição. “Quando os taxistas hostil, mas rapidamente baixou a sabiam que eu estava grávida, não que- guarda. Não dá sinais de ter riam ir comigo e até me ajudavam, me entendido que será pai, mas saboreia davam comida”, ela conta. Chirlene o status dado pela arma que carrega. teve mais dois filhos, de pais diferen- Mesmo que não haja futuro. tes, também meninos de rua e hoje, Deveria aprender com as lições de F., aos 20 anos, trabalha na República de o rapaz salvo pela fé, que trabalha no Emaús. “Tenho emprego decente, um Fórum carioca. Comecei a entrevista AYDANO ANDRÉ MOTTA, 40 ANOS, marido e uma casa. Sou feliz porque em tom baixo, na intenção de poupá- nascido em Niterói, confiam em mim, mas meus filhos não lo de constrangimentos com as há 19 anos é jornalista no Rio de Janeiro conheceram os pais”, diz. lembranças. Sem dizer nada, ele não concordou e deu seu próprio tom. Informação e opção Alegre, afável, descreveu sua O grupo e a figura parental – seja trajetória com voz firme e decidida, do traficante, do namorado, do pa- exibindo o orgulho dos que foram ao trão ou do professor – são os fato- inferno – e voltaram. Por telefone, res mais importantes nas escolhas Chirlene, a ex-prostituta de Belém, juvenis, ensina a ginecologista também se impôs. Quando sugeri Albertina Takiuti. Em relação à gravi- uma forma de protegê-la da exposi- dez, por exemplo, em São Paulo nem ção, não permitiu o uso das iniciais. sequer existe a desinformação que Exigiu o registro de seu nome ainda grassa no Norte do Brasil. “As completo, como que para informar ao meninas, mesmo as do meio rural, mundo que é uma cidadã.” conhecem até a pílula do dia seguin- te”, diz ela. “Mas querer que elas se- jam apenas resistentes às condições
  • 51. adversas de seu meio é difícil.” É pre- ciso tratar tudo, da prevenção ao ato, como atitudes de carinho e respon- sabilidade. “Também alertamos para a barra pesada que é ser mãe”, diz. “Amo meu filho, mas passo cada sufoco”, reconhece J. L. M., 18 anos, mãe de um menino de três anos. Moradora do Jardim Ângela, perife- ria de São Paulo, ela foi abandonada pelo pai da criança no início do ano – ameaçado de morte por traficantes da região – e cria o filho com a ajuda da mãe. Ainda não arrumou empre- O poder do crime nas comunidades go, mas ganhou o respeito da comu- populares se concretiza na exibição nidade. “Os meninos da boca não das armas, que se tornam objeto de mexem mais comigo”, diz: “Mas não desejo para os jovens em busca do SAMBAPHOTO posso mais ir às baladas”. respeito de seus pares Os esforços necessários para se 51 criar um filho são uma desagradá- vel surpresa também para as grávi- das adolescentes de Recife, atendi- das pela ONG Casa de Passagem. “É um problema social, provocado in- SOBRE clusive pela busca de status”, diz a PASSAGEM PARA A VIDA, COMUNIDADE E CIDADANIA E INICIAÇÃO AO TRABALHO psicóloga Thelma Torres, gerente- OPERADOR CASA DE PASSAGEM (ONG) executiva da entidade. “As meninas REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO METROPOLITANA DE RECIFE (PE) PROPOSTA Processo socioeducativo orientado inserir crianças, adolescentes e jovens na família, escola, querem um provedor que, elas ima- PARA SABER MAIS comunidade e no mundo do trabalho. Articula seu trabalho de promoção social com protagonismo político ginam, vai dar também sustentação JOVENS ATENDIDOS 350 POR DIA, NA SEDE DA INSTITUIÇÃO APOIO OXFAN, NOVIB, MISEREOR, CHRISTIAN AID, CHRISTIAN WORLD SERVICE, ITINERANT VOLENS, OAK FOUNDATION, social. É o mito da Cinderela.” POMMAR/USAID PARTNERS, DEUTSCHER CARITASVERBAND/GTZ, BNDES, PROGRAMA CAPACITAÇÃO SOLIDÁRIA E TIM. A Casa de Passagem procura apon- CONTATO Rua Treze de Maio, 55 – Recife (PE) – Fone: 81/3423-3839/3223-3314. tar um outro futuro, no caminho da conscientização, porque o problema, observa Thelma, gera uma desorga- nização social que atinge a todos. “No SOBRE MOVIMENTO REPÚBLICA DE EMAÚS início, o jovem pai fica, mas pula fora OPERADOR REPÚBLICA DE EMAÚS (ONG) REGIÃO DE ATUAÇÃO REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM (PA) assim que vê a dificuldade de susten- PROPOSTA Socorrer crianças em situação vulnerável ou vítimas de violência e combater a prostituição tar uma família”, diz a psicóloga. A ONG infanto-juvenil. Lutar contra o trabalho infantil e a violência sexual PARA SABER MAIS JOVENS ATENDIDOS 1.553 busca ensinar uma profissão às jo- APOIO SAN FERMO, ISCOS, UNICEF, PARROCCHIA D S MARIA, PICCINI SIMONETTA, WCF TXAI, KINDEREN, TERRA DOS vens, mas Thelma lembra a importân- HOMENS, CORDAID, SKN, OIT, THE PARTHEENON, STC, EMBAIXADA DA ITÁLIA, CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, cia do envolvimento de todos na so- PETROBRAS, INFRAERO, SECRETÁRIA EXECUTIVA DO TRABALHO E PROMOÇÃO SOCIAL DO ESTADO DO PARÁ, SECRETARIA DE SAÚDE DE BELÉM E FUNDAÇÃO PAPA JOÃO XXIII. lução dos problemas sociais. Eles, afi- CONTATO Travessa Apinagés, 743 – Condor – Belém (PA) – Fone: 91/272-2449/272-9154 nal, têm o tamanho do Brasil.
  • 52. o sujeito da frase “A GENTE É QUE NEM ÍMÃ!” A rapper Negra Li acredita que quando se quer muito uma coisa, ela vem, mesmo em meio à guerra contra o preconceito por_Vera de Sá fotos_Henk Nieman
  • 53. Ela foi a primeira mulher do rap brasileiro a assinar contrato com uma grande gravadora, divulgou seu CD de estréia com o parceiro Helião em pro- gramas de grande audiência na Glo- bo “Guerreiro & Guerreira”, a faixa- título, foi incluída na trilha da novela Começar de Novo) e está no elenco de Antonia, filme que Tata Amaral começa a rodar em fevereiro. Aos 25 anos, quase dez fazendo rap, Negra Li, que ainda divide o mesmo quarto com a irmã na casa da mãe, em Vila Brasilândia, periferia de São Paulo, se diz “uma sobrevivente”. Preconceito, machismo, armadilhas usuais no ca- minho de uma mulher negra e pobre, no entanto, não são questão de en- dereço: “Se existe um lugar, a peri- feria é o melhor. A gente tem orgu- lho do lugar onde mora”. Voz quase sempre grave, que pou- cas vezes se eleva, Negra Li fala sem pressa. Nascida Liliane de Carvalho, ela 53 é a caçula de um time de duas irmãs que ouviu o cochicho da examinadora ao sair de uma Negra Li, na Oficina Cultural Oswald e três irmãos (“O mais velho está pre- entrevista de emprego: “Mas tem de ser bonita”, tra- de Andrade, em São Paulo, onde so porque foi pego com droga”). Her- duzindo a pouca chance que tinha de conseguir a vaga participou de um workshop para o dou a religiosidade da família evangé- por ser negra. “Feia é o que eu não sou”, a réplica de novo filme da diretora Tata Amaral, lica e fez o ensino básico numa esco- Negra Li, já não é dublagem: “Eu nunca fui feia”, diz sobre hip hop: “Eu sabia que o la particular como bolsista. Acredita essa admiradora de Nelson Mandela. cinema ia chegar na minha vida. que “a gente é que nem um ímã” ca- Mas as coisas acontecem comigo paz de atrair o que se deseja muito. Onda: Música e cinema eram seu projeto de vida? porque eu nunca me deslumbrei. Negra Li teve uma aproximação Negra Li: Desde criança ficava em frente ao espelho, Gosto de morar onde eu moro”, diz, mais formal com a música ao entrar punha xale na cabeça, fingia que o desodorante era referindo-se à Vila Brasilândia, na para o coral da Universidade de São microfone, ficava imitando apresentadora. Cinema é periferia de São Paulo Paulo, em 2000, mesmo ano em que uma coisa que eu sabia que uma hora ou outra ia che- gravou o hit pop “Não É Sério”, com gar na minha vida. Porque a gente é que nem um ímã: o grupo Charlie Brown Jr., entoando quando a gente quer muito uma coisa, acho que ela o refrão: “Na tevê, o que eles falam vem. As coisas também acontecem comigo porque eu sobre o jovem não é sério”. Contral- nunca me deslumbrei com nada, sempre tive a maior to, há um ano e meio começou a fre- calma. Não tem aquela coisa de querer ser rica: eu gos- qüentar uma escola de música, com to de morar onde eu moro, de ser pobre, sabe? Tem a mensalidade paga por um amigo. uma certa alegria que o rico quer muito, mas o pobre é Acha que “a música pode mudar o que tem, aquela alegria de viver assim no bairro, todo mundo” e que “tem uma responsa- mundo se conhece, todo mundo se fala, se cumprimen- bilidade”. Por conta talvez deste últi- ta. Há uma certa liberdade que só sendo da periferia mo credo, já divulgou como sua a his- pra saber. E a periferia quer aquilo que o rico tem, que tória exemplar vivida pela irmã Lilian, é o dinheiro, a vida boa.
  • 54. Você incorporou a história da sua irmã para ilustrar o pre- um grafite, numa dança: o jeito que conceito racial. Foi algo que te afetou especialmente? os breaks dançam é uma atitude de Realmente, acontece muito com a gente, o precon- se impor. ceito com o negro, não vêem a beleza dele. E eu sofri isso muito na escola. Naquelas brincadeiras de beijo-abra- Como foi sua vivência do lado mais ço-aperto de mão, os caras não se interessavam em me difícil da periferia? beijar. E eu nunca fui feia! Mas acho que eles não enxer- Quando eu era criança, muitas ve- gavam, sei lá. Como eles eram meninos, a gente não pode zes fui pra debaixo da cama por cau- julgar. Mas na televisão sempre passou a figura loira, os sa de tiroteio. Durante anos eu con- olhos claros, e a criança vê uma coisa assim pra se ape- vivi com o universo masculino, o gar. Até hoje, andando com amigas minhas, elas bran- machismo, demais, no meio dos cas e mais feias do que eu, vejo os caras mexerem mais rappers. Acho que a mulher, quando com elas do que comigo, entendeu? > E a cultura hip hop, o que ela representa? entra num lugar dominado por ho- É que nem um Quilombo dos Palmares, é um refúgio mem, tem de provar duas vezes mais. pra um certo tipo de pessoas que são do mesmo esti- É por isso que eu não aderia à roupa lo, que vivem o mesmo tipo de vida, que é o da perife- curta, me vestia como eles, calça lar- ria. São pobres, não só negros, mas todos aqueles que ga... pra ser respeitada. Era uma for- se sentem injustiçados, que se incomodam e querem ma de me defender. ter um grito de guerra, querem falar. Acho que é um movimento muito importante pra nós porque resgata, A chance de a mulher ficar no meio tira os jovens das drogas, as meninas da prostituição. do caminho é maior? Os jovens, em vez de ficarem pensando um monte de É. Mulher não tem aquela liberda- besteiras, se ocupam, fazem seu grupinho de dança, de que o homem tem. Se ela ficar de break, compram seu disco, vão ser DJs. É uma cul- grávida, é ela que carrega na barri- tura que abrange quatro elementos: o MC, que é o ga, é ela que tem de cuidar da crian- mestre de cerimônias, o cara que agita a festa, o DJ, o ça. Muitas mulheres deixaram seus break e o grafiteiro. Essa é uma maneira da gente não sonhos pra trás porque tiveram um ficar só se lamentando e de fazer acontecer alguma filho ou porque são dominadas por coisa que a gente queira, nem que seja na pintura de um namorado ou um marido. Então,
  • 55. “O hip hop é como um Quilombo dos Palmares, refúgio para os pobres da periferia, para os que se incomodam e querem ter um grito de guerra. O jeito do break dançar é uma atitude de se impor” eu me sinto uma guerreira por não Depois do sucesso gravado com ter tido esse tipo de problema, por Charlie Brown Jr., em que cantava “o não ter me perdido. Não vendi meu jovem não é levado a sério”, Negra Li corpo, e por mais que em casa te- lançou seu próprio CD, com o parceiro nha passado vontade das coisas, Helião, e chegou às novelas da Globo, nunca quis traficar. Eu sou uma sem medo de ser absorvida por um guerreira por ter resistido a essas grande esquema. Sobrevivente da tentações. E uma sobrevivente. violência, do machismo e do preconceito, ela sabe o que quer: Hoje, o que mais te perturba na situa- “Não faço música por fazer. Tenho ção da periferia? uma responsabilidade no meu canto” Meu sobrinho foi pro hospital com febre, mal, e o médico disse que era intoxicação porque comeu ovo duran- te uma semana. Isso que é o mais duro: ver uma criança que não pode ter uma alimentação à pampa. E isso já vai influenciar em como ele se sai na escola. Se não se alimentar direi- to, não vai conseguir estudar direito 55 e como vai ser o futuro dele? A maio- ria dos negros é pobre, já está com- provado, e se não têm uma boa ali- mentação, não têm nem prazer de estudar. Eu mesma não me vejo numa faculdade. Meu poder de con- centração não é daqueles. Admiro muito quem lê livros e livros... Eu não O quanto a escola atual está distan- consigo e acho que muitos negros e te da realidade do jovem? pobres também não. uma coisa vulgar. Acho que hoje as crianças já estão O jovem devia ter opções na vida, O rap tem um sentido de protesto, aprendendo coisas que não era hora delas aprenderem. uma escola devia ser completa, devia de denúncia. Você, contratada por Eu acho que a música é capaz de mudar o mundo. Nas ensinar também o que o jovem quer uma grande gravadora, se apresen- escolas devia ter a matéria “Música”. Eu sempre afirmo aprender. Mas está distante, parece tando na Globo, não tem medo de ser que a gente tem de estudar a música pra ser respeita- que eles não querem deixar a gente absorvida? do por todos os gêneros musicais, pro rap ser levado a inteligente o suficiente pra não eleger Eu não tenho medo porque den- sério. A música mexe muito dentro da gente. alguém que vai nos enganar mais tar- tro de mim eu sei o que eu quero. de. Acho que devia ter aula de música, Eu não faço música por fazer, eu te- Como você imagina que poderia ser uma política ho- esporte... e ensinar a ser um profissio- nho um sentimento no meu canto, nesta para o jovem da periferia? nal. Você vê o pessoal chegar ao se- tenho toda uma responsabilidade e Eu acho que uma pessoa que é muito boa, que quer gundo colegial e ainda não saber o que tenho de agradecer a Deus pelo dom o bem pra todo mundo, não entra na política. Então, quer ser. Acho que tinha de despertar, que ele me deu. E tenho de compen- vai ser difícil a gente ter uma política honesta, perfei- mexer mais com criatividade, dar mais sar isso de alguma forma. Não gos- ta. Todo mundo pensa no seu dinheiro; dinheiro é todo opções pra pessoa poder procurar den- to de música vulgar, jamais cantaria o problema. tro dela o que ela gostaria de ser.
  • 56. luneta A JUVENTUDE MANTÉM UMA RELAÇÃO por_Beatriz Portugal INTENSA E VARIADA fotos_Gustavo Lourenção COM A RELIGIÃO AMIGOS DA FÉ
  • 57. A religião é a parcela do ideal num projeto de vida, acreditava, já no século Jovens católicos lêem a Bíblia em 19, o historiador francês J. Ernest Renan. Se a definição pode permanecer reunião de estudos no Centro de válida ainda hoje, sem dúvida a relação entre as pessoas e a religiosidade Juventude Anchietano, em São Paulo mudou muito ao longo do século 20. Por isso é natural que se indague qual é (na página oposta e abaixo); o real envolvimento da juventude contemporânea com a religião. Segundo os rapaz evangélico assiste a show gospel especialistas, trata-se de um relacionamento intenso e movimentado: a reli- (abaixo, à direita) gião está, sim, presente no dia-a-dia da maioria dos jovens brasileiros, mas é comum que eles mudem de uma denominação para outra, freqüentem mais de uma igreja e às vezes acabem adotando uma maneira muito própria de combinar diferentes crenças. Segundo a antropóloga Regina Novaes, pesquisadora do Instituto Superior de Estudos Religiosos (Iser), esse panorama ficou claro na pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, que ela coordenou para o Instituto da Cidadania. “A re- ligião ocupou um lugar surpreendente entre os assuntos que os jovens gos- se vê é que muitas vezes essa cisão gera conflitos”, diz tariam de discutir, não só com os pais, mas também com os amigos e com a Ronaldo de Almeida, professor de Antropologia da Uni- sociedade”, diz. E essa posição de destaque apareceu várias vezes. Quando versidade de Campinas e pesquisador do Centro Brasi- se perguntou, por exemplo, o que os jovens mais gostam de fazer no fim de leiro de Análise e Planejamento (Cebrap). semana, entre várias opções, uma das preferidas foi ir à igreja, seja à missa “Antes, as pessoas aderiam a sistemas religiosos fe- ou ao culto. chados. Hoje, essa questão está mais embaralhada e, Entre os entrevistados, 65% se declararam católicos e 20%, evangélicos, ao mesmo tempo, associada a demandas da vida coti- sendo 15% pentecostais e 5% não pentecostais. Os jovens sem religião so- diana”, diz Almeida. Para ele, as religiões mais tradicio- maram 10%, dos quais 9% afirmaram, no entanto, acreditar em Deus. So- nais estariam direcionadas para projetos de vida de lon- mente 1% identificou-se como ateu e agnóstico. Mas Regina Novaes chama go prazo, ou seja, preocupadas com a formação de um atenção para uma outra informação: “Depois dos evangélicos, os brasileiros homem e uma mulher maduros, com a família, com os sem religião são os que mais crescem no conjunto da população e, sobretu- valores morais. Em contrapartida, as religiões contem- do, entre os jovens”. porâneas estão concentradas em questões mais imedi- atas: a possibilidade de abrir um negócio, comprar uma Liberdade e imediatismo casa, viabilizar os estudos. “Há um uso da religião que, E como os jovens fazem suas opções? “É preciso considerar que, além se não é instrumental, é cada vez mais imediato.” da família, hoje há outros agentes influenciando as definições religiosas. Numa pesquisa que desenvolvi no Rio de Janeiro, em 2002, constatamos Espaços juvenis que a família inspirava mais de 50% dos entrevistados. Para os demais, a Que as igrejas se transformaram é fato. Hoje elas sur- decisão tinha outras justificativas: ‘motivos pessoais’; ‘influência de ami- gem com forças e formas de atuar diferentes daquelas 57 gos’ e de ‘agentes religiosos’. Ou seja, os jovens desta geração estão sendo do passado. Nas décadas mais recentes, o rápido cres- chamados a fazer suas escolhas em um campo religioso mais plural e com- cimento das igrejas evangélicas, associado ao amplo uso petitivo”, diz Regina. dos meios de comunicação, foi sucedido por uma rea- Essa realidade não significa que os pais, automaticamente, se tornaram ção da Igreja Católica, em parte graças à expansão do liberais em relação às escolhas dos filhos. “Não há dúvida de que as coisas chamado movimento carimástico. Nos dois casos, a par- mudaram. Cada vez existem mais famílias divididas entre diferentes reli- ticipação juvenil é expressiva. giões. Mas não sei se é possível dizer que as diferenças são aceitas. O que Para Ronaldo Almeida, a criação de espaços de lazer e
  • 58. entretenimento é uma das principais estratégias das igrejas para atrair a juventude: “Nessas situações, em que há música, shows etc., o importante é a sociabilidade: criam-se redes de amizade, as pessoas namoram, se casam. Hoje, gospel é mais que um estilo de música, é o que identifica o comportamento do jovem religioso; e existe o gospel católico também”. Por tudo isso, é comum encontrar dirigentes jovens nos segmentos reli- giosos dirigidos à juventude. Segundo Cristiane Henrique da Silva, aproxi- mar-se da religião foi decisivo para a definição do seu projeto de vida. Aos 15 anos, ela começou a freqüentar um grupo de jovens da renovação carismática, da Igreja Católica. Aos 24, tornou-se missionária. Hoje, aos 28, é diretora do programa PHN, da TV Canção Nova. O programa é apresenta- do pelo cantor Dunga, que explica: “PHN significa Por Hoje Não (vou pecar) e é assistido em todo o Brasil por 12 milhões de jovens. O objetivo é evangelizar usando todos os meios de comunicação”. RELIGIÃO É UM DOS TEMAS QUE OS JOVENS MAIS GOSTAM DE DISCUTIR
  • 59. Carioca, nascida em uma das favelas do Complexo do Alemão, Cristiane Jovens da igreja Renascer, em São Paulo, durante conta que tinha poucas perspectivas. “Mas a religião nos leva a ter conceitos apresentação de cantores de gospel (na página bons, a definir o essencial: a opção pelo bem.” Antes de ter essa percepção, oposta); detalhe das pulseiras no braço de uma aos 15 anos, “tinha aquela idéia de que os religiosos eram bitolados, papa- garota evangélica e jovens católicos estudando a hóstias e achava que ia ser induzida, quando não aceitava que ninguém me Bíblia: igreja é também espaço de sociabilização induzisse a nada”. Sobre sua descoberta religiosa, a motivação inicial não foi a fé, mas a alegria: “Fiquei impressionada ao ver jovens sorrindo, se abraçan- 59 do e cantando”. Sobre seu trabalho: “Nossa intenção é formar os jovens para pensar assim: é preciso fazer a minha parte, fazer o bem”. Prioridades e credo próprio “A qualidade espiritual é uma referência importante na definição do pro- jeto de vida, juntamente com o comprometimento social. A espiritualidade é o valor maior das pessoas e deve permear todas as áreas de nossas vidas”, diz Jesus Marcelo Galheno, 28 anos, presidente do Conselho da Mocidade Evangélica do Distrito Federal, que promove a evangelização ju- venil nas cidades-satélites, como Ceilândia. Galheno explica que os jovens são convidados a participar de cultos nas Do grupo dos sem religião, Ana Rosa Inoue Sardenberg, igrejas e nos núcleos de comunhão. “Ali, lançamos o desafio aos que que- paulista, 23 anos, acredita que numa perspectiva de vida rem se somar a nós na busca de métodos que produzam o crescimento mais ampla a religião não tem a força que se pretende espiritual e social e na formulação de projetos que combatam a ociosida- atribuir a ela. A estudante de Economia, que trabalha com de.” Além dos cultos, ele diz, rapazes e moças participam de visitas a casas produção de filmes e vídeos, foi batizada na Igreja Católi- de recuperação de viciados e lar de idosos; de apresentações com canto- ca e aprendeu com a mãe a doutrina budista, mas não é res evangélicos; de simpósios e seminários. Editam ainda a revista Gospel, praticante. “Vejo os jovens se aproximarem da religião mais com tiragem de 10 mil exemplares e artigos sobre questões religiosas, por uma necessidade social de pertencer a um grupo”, lazer e saúde. diz, sem descartar a possibilidade de mais tarde optar por Nas atividades mais festivas, muitos jovens estão procurando simples- uma prática religiosa. Por enquanto, Ana Rosa acha sufi- mente diversão, admite Galheno. Mas ele acha que não se devem confun- ciente cultivar princípios: pensa que a crença em valores dir prioridades. “Religião é sentimento, é espiritualidade. Ela pode nos alie- profundos, baseada na razão e não na fé, às vezes atua nar ou nos libertar. Alienar, se deturpada, inclusive por conduzir muitos ao tão fortemente como guia de conduta que acaba por ter fanatismo e ao preconceito.” a força de uma religião.
  • 60. ciência A IDADE DA RAZÃO O MODO DE PENSAR JUVENIL É CONDICIONADO PELO AMADURECIMENTO DO CÉREBRO, QUE É MAIS LENTO DO QUE SE PENSAVA. MAS HÁ OUTROS FATORES EM JOGO por_Karina Yamamoto Fazer escolhas entre o que é certo e errado, plane- ilustração_Marcelo Pitel jar o futuro e se colocar no lugar do outro são, sim, atitudes mais difíceis aos 15 anos do que aos 25, e não se trata apenas de ter maior ou menor experiên- cia de vida. Por quê? Essa é uma questão que tam- bém a neurociência tenta responder. Segundo pesqui- sas recentes, falar ou fazer algo de forma impulsiva, um comportamento típico da juventude, pode ter ou- tro ingrediente além da vontade pura e simples do jo- vem. Biologicamente, ele ainda está amadurecendo também o seu aparato cognitivo, orientador da toma- da de decisões.
  • 61. O debate agora é sobre o quanto a Ciência e sociedade Isso quer dizer que não há como exi- maturidade social tem relação com o Informações sobre o cérebro podem embasar deci- gir responsabilidade de quem ainda amadurecimento biológico – ou mais sões de políticas públicas ou mesmo punições legais. não chegou aos 20 anos? Não é disso especificamente com uma determi- Organizações norte-americanas de defesa dos direitos que se trata, até porque estão envolvi- nada região do cérebro, o chamado dos jovens, por exemplo, tentam livrá-los da pena de dos outros fatores – individuais e so- córtex frontal. Um estudo concluído morte utilizando esse argumento. “Os lobos frontais, ciais. “Não dá para justificar as atitu- em 2004 pelo National Institute of regiões envolvidas na regulação das emoções, no pla- des juvenis unicamente pela base fisi- Mental Health, NIMH (Instituto Nacio- nejamento e no controle dos impulsos ainda estão ama- ológica”, diz o neurologista Paulo Ber- nal de Saúde Mental), órgão de saú- durecendo durante a adolescência”, diz, em entrevista tolucci, professor da Universidade Fe- de americano, indicou que essa área por e-mail, o psicólogo Laurence Steinberg, professor deral de São Paulo. Bertolucci concor- se desenvolve durante toda a segun- da Universidade de Temple, na Filadélfia, Estados Uni- da que, antes dos 15 anos, nem todos da década de vida. A pesquisa usou dos. Para o americano, que é autor do livro The Ten Basic têm condições plenas de fazer esco- imagens do cérebro feitas nos últi- Principles of Good Parenting (Os Dez Princípios para Ser lhas éticas e de colocar-se no lugar do mos 15 anos, acompanhando o cres- um Bom Pai, ainda sem tradução para o português), é outro. Mas, a partir dessa idade, já exis- cimento de 13 crianças, dos 4 aos 21 preciso levar em conta a maturidade biológica. “Não acho tem condições para isso. “Esse indiví- anos. Os dados sugerem que o córtex que os jovens devam ser punidos da mesma maneira duo já tem maturidade mínima para frontal está próximo do amadureci- que os adultos”, defende. conviver em sociedade”, diz. mento completo somente aos 20 anos. E essa é a região do cérebro li- gada ao que os cientistas chamam de funções cognitivas superiores, tais como relacionar informações entre si, fazer escolhas éticas, prever a rea- ção do interlocutor. É o que, no fim, nos torna capazes de defender valo- res ou evitar uma gafe. 61
  • 62. AS CÉLULAS CEREBRAIS PASSAM POR IMPORTANTES TRANSFORMAÇÕES QUÍMICAS E FÍSICAS A PARTIR DA ADOLESCÊNCIA Maturidade biológica O funcionamento do cérebro ainda é um campo a ser desbravado, mas hoje já se sabe muito sobre esse órgão. É consenso que, durante a adolescência, os neurônios (as células cerebrais) passam por uma mielinização. Trata-se do aumento de uma substân- cia (a mielina) ao redor de uma região da célula ner- vosa (axônio) responsável pela transmissão do impul- Mas, nem mesmo a médica ameri- so elétrico e, conseqüentemente, por tudo que se pas- cana Judith Rapoport, que participou sa no cérebro. “A mielinização acontece entre os 10 e do estudo do NIMH, se arrisca a rela- os 20 anos”, diz o neurologista Gilberto Xavier, da Uni- cionar diretamente maturidade psi- versidade de São Paulo. “Antes do processo, a veloci- cológica e desenvolvimento do córtex dade do impulso elétrico fica entre 2 e 5 m/s e, de- frontal. “Nossos dados são muito li- pois dele, pode chegar a 100 m/s.” Isso nos dá mais mitados para afirmar isso”, afirmou agilidade mental. Rapoport a Onda Jovem. “Nosso cé- Outro acontecimento importante nessa fase é a per- rebro está mudando durante toda a da, por falta de uso, de uma série de conexões entre os nossa existência.” neurônios, as sinapses. Nos primeiros anos de vida, há A verdade é que é impossível criar tudo por aprender e estamos formando sinapses o tem- regras ou rótulos quando se trata do po todo. Durante a puberdade, é como se houvesse uma complexo desenvolvimento humano. faxina, em que o organismo descarta aquelas que não A estudante de psicologia Liliana Pra- nos servem mais. “O processo de perda de sinapses é do Lima, de 22 anos, é um exemplo. influenciado pelas experiências”, explica Laurence Aos 13 anos, uma de suas melhores Steinberg. Como as conexões que permanecem são as amigas começou a usar drogas. Além mais utilizadas, novos estímulos intelectuais são muito de não embarcar na mesma viagem, bem-vindos. “Devemos tentar melhorar a nossa capaci- seus conselhos levaram a garota a dade de resolver problemas buscando novos desafios, admitir o vício e a procurar ajuda. “De- inclusive de natureza emocional”, diz o neurorradiologista pois, ela me agradeceu o apoio”, con- Edson Amaro Júnior, do Hospital Albert Einstein, em São ta. Como dizer que ela não soube jul- Paulo. Aí vale todo tipo de atividade, de planejar com- gar a situação? pras de supermercado a praticar esportes.
  • 63. 63 Mais experiência, menos regras Mas os aspectos neurológicos não são tudo. Para a psicóloga Henriette Tognetti Penha Morato, da Univer- sidade de São Paulo, é preciso levar em conta a singu- laridade da situação dos jovens. “Eles estão numa fase em que querem ir além, estão se exercitando como res- ponsáveis, mas querem aprender pela experiência e não pela norma”, diz ela. O conflito surge quando o adulto tenta impor suas regras e valores, uma vez que o ado- lescente se apresenta para ele como “possibilidade de ser o que ele não foi ou não quis ser”, nas palavras de Henriette. A negociação é o melhor caminho. O fato é que não há respostas prontas – da biologia ou da psicologia – para ultrapassar essa etapa da vida. Não há como evitar o embate entre a busca do que se pretende ser e as exigências da realidade. Mas há um ponto em que todos os especialistas concordam: ao entender melhor como a juventude pensa, os adultos podem explorar mais os aspectos positivos da relação. Para Steinberg, “cabe aos pais e educadores proporci- onar um ambiente favorável e seguro para que o jo- vem possa fazer escolhas cada vez mais complexas, exercitando sua responsabilidade”.
  • 64. .gov/.com GOVERNO CRIA SECRETARIA E CONSELHO DA JUVENTUDE. E O LEGISLATIVO TAMBÉM PROPÕE POLÍTICAS PARA O SEGMENTO NAÇÃO JOVEM por_Vasconcelos Quadros O ano de 2005 pode ser dos mais importantes para os jovens brasileiros na ocupação de um espaço pró- prio na agenda de políticas públicas. Além da sua transformação em Ano Nacional da Juventude, segun- do uma das propostas feitas pela Comissão Especial de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputa- dos, o governo federal determinou a criação, no início de fevereiro, de dois órgãos especiais para cuidar do tema: a Secretaria Nacional da Juventude e o Conse- lho Nacional de Juventude, instituídos por Medida Pro- visória que deve entrar na pauta do Congresso neste início de ano legislativo. Na mesma oportunidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o Progra- ma Nacional de Inclusão de Jovens (Pró-Jovem), com orçamento, para 2005, de R$ 300 milhões, destina- dos a atender 200 mil jovens que moram nas periferi- as das metrópoles. As iniciativas do Legislativo e do Executivo tentam responder a um diagnóstico de especialistas e edu-
  • 65. cadores, segundo o qual os problemas enfrentados putado Reginaldo Lopes (PT-MG), pela juventude são uma demanda social específica, que presidiu a comissão. Além da que exige um conjunto de políticas públicas capaz de transformação de 2005 no Ano Na- gerar perspectivas melhores para um contingente cional da Juventude, as propostas calculado em 35 milhões de pessoas, na faixa de 15 a no âmbito do Legislativo incluem a 24 anos – o equivalente a 20% da população do país. criação de um plano nacional de “Não há mais espaço para fragmentações. A juven- ação, com duração mínima de dez tude precisa de uma política própria”, diz Iradj Eghrari, anos; a elaboração do Estatuto da diretor-executivo da Ágere, ONG de Brasília que atua Juventude; uma Proposta de Emen- com jovens. Atualmente, 49 programas federais, de 16 da Constitucional para incluir o jo- ministérios, atendem à faixa juvenil de forma parcial vem no capítulo dos direitos funda- ou exclusiva, mas não há articulação entre eles. Eghrari mentais da Constituição, e a insti- lembra que uma resolução da ONU, de 2003, já reco- tuição de uma comissão permanen- mendava a adoção de uma política exclusiva, que dife- te para o tema na Câmara. rencie a juventude de outros segmentos. “Há vários Ao governo federal, os deputados estudos e trabalhos importantes sobre o assunto em recomendam a realização de con- mãos das autoridades”, diz ele. Entre esses documen- ferências nacionais e já pediam a tos, um dos mais amplos é o Projeto Juventude, coor- instituição do conselho e da secre- denado pela ONG Instituto da Cidadania, e que inclui a taria anunciados pelo Executivo, maior pesquisa já feita com jovens no Brasil. ambos vinculados à Secretaria Ge- ral da Presidência da República e Cesta de propostas com poderes para articular as Instalada em maio de 2004, a Comissão Especial de ações governamentais. O objetivo, Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados segundo Lopes, é tratar o jovem encerrou os trabalhos em novembro apresentando um como alvo de uma política global relatório que, além de incluir um esboço sobre o seg- que supere o atual estágio, em que mento, propõe projetos de lei e faz sugestões ao go- ele é visto como coadjuvante de verno. “O momento histórico, a agenda que está sen- outros grupos e, por essa razão, al- do criada e a mobilização social em curso colocam a cançado apenas parcialmente pe- juventude como o centro das preocupações”, diz o de- los programas públicos. O programa Pró-Jovem, lançado 65 pelo governo, pretende atingir, em 2005, 200 mil participantes, moradores das periferias das grandes cidades, ao custo de R$ 300 milhões
  • 66. O PROJETO JUVENTUDE, DOCUMENTO COM PROPOSTAS E INDICAÇÕES DE POLÍTICAS PÚBLICAS COORDENADO PELO INSTITUTO DA CIDADANIA, INCLUI UMA PESQUISA SOBRE OS JOVENS BRASILEIROS QUE PODE SER ACESSADA NO SITE WWW.PROJETOJUVENTUDE.ORG.BR Projeto Juventude Embora o projeto já tenha sido Em seus trabalhos, a comissão da Câmara promo- concluído, Helena Abramo diz que veu conferências com instituições ligadas aos jovens eventuais lacunas ainda podem ser e reuniu sugestões da sociedade, entre as quais o preenchidas no debate aberto com Projeto Juventude, do Instituto da Cidadania. Basea- a sociedade. Demandas e propostas do em uma pesquisa inédita sobre o universo juvenil não contempladas pela versão ori- e discutido com diferentes públicos ao longo de um ginal ainda podem ser incluídas nas ano, o projeto é um conjunto de indicações e propos- discussões que serão travadas ago- tas que define a juventude como um novo segmento ra no âmbito do Legislativo. Lançada social, gerador de uma demanda especial de políticas em meados do ano passado, a ver- públicas. O contingente situado na faixa dos 15 a 24 são provisória do projeto foi sendo anos representa mais que o dobro da população ido- alterada pela dinâmica do debate. sa e, em 2005, a mais populosa geração de jovens Abramo cita, como exemplo, a con- que se tem notícia na história do país – algo como tribuição dada por um grupo de jovens uma Argentina inteira. que trabalha com saúde mental. Realizada entre junho de 2003 e junho de 2004, a pesquisa que embasa o projeto ouviu 3,5 mil jovens e abordou as principais questões que os afetam, como trabalho, segurança, educação, saúde, cultura, sexu- alidade, lazer e direitos. O levantamento mostra que 84% dos jovens vivem em áreas urbanas e que sua maior preocupação é a violência. O documento, com base no diagnóstico extraído da pesquisa, propõe uma diretriz às ações públicas. “O carro-chefe é um elen- co de políticas públicas com quatro eixos: trabalho, educação, cultura e participação”, diz a socióloga He- lena Abramo, consultora especial do projeto. Segundo Abramo, o diferencial em relação a outros estudos é que este propõe um formato de inserção em que o trabalho – outra grande preocupação deste público – esteja vinculado à formação escolar e ao tipo de atividade que o jovem já vem procurando rea- lizar. Essas ações devem despertar um estilo de par- ticipação com sentido social. Para tanto, o documen- to sugere que não haja apenas um modelo de inser- ção, mas diferentes módulos, permitindo a opção pelo que mais se adapte a cada realidade. Entre junho e setembro de 2004, uma versão preli- minar do documento foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, às mesas da Câmara e do Sena- do, a governadores, prefeitos e entidades de diver- sos perfis que trabalham com a juventude. No total, já foram distribuídos 4 mil exemplares do estudo.
  • 67. Transformar 2005 em Ano Nacional da Juventude é uma das propostas incluídas no relatório da Comissão Especial de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados, que sugere ainda a elaboração de um estatuto da juventude O grupo demonstrou que, ao contrá- sugestões foram incorporadas pelo rio do que sugeria um dos parágra- governo no Pró-Jovem. Embora a 67 fos do texto, o enfoque de um pro- meta do programa para 2005 – defi- grama de lazer e esporte não pode- nida pelo ministro como realista – seja ria ser justificado exclusivamente em atingir 200 mil participantes, o con- função do combate à disseminação tingente alvo são cerca de 1,5 milhão das drogas, mas pela necessidade de jovens, habitantes das periferias geral da juventude. Uma outra pro- das grandes cidades. posta levou à inclusão de um capí- Os objetivos são que os integran- tulo sobre jovens com deficiência fí- tes acelerem os estudos para concluir sica. “Eram sugestões pertinentes, o ensino fundamental, recebam qua- que produziam avanço no conteú- lificação profissional de 1.200 horas/ do”, diz Helena Abramo. aula sobre cursos adequados ao mer- cado da região onde vivem e partici- Pró-Jovem pem também do programa de inclu- No governo federal, o estudo en- são digital. Para tanto, receberão uma controu pronta acolhida. Foi criado bolsa mensal de R$ 100,00 e, como um grupo interministerial e o minis- contrapartida, prestarão serviços co- tro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da munitários. A proposta será executa- Presidência, foi designado para coor- da em parceria com prefeituras. denar a estruturação da política na- A expectativa agora é sobre os cional que tem no Projeto Juventude desdobramentos práticos que terão sua espinha dorsal. Segundo Dulci, o essas iniciativas e as demais propos- estudo “é uma análise bem funda- tas e temas de interesse dos jovens, mentada e criteriosa do universo ju- para que este se transforme de fato venil, extremamente útil”. Muitas das no ano da juventude brasileira.
  • 68. chat de revista GENTE QUER SER FELIZ! FELIPE BARRA QUATRO CONVIDADOS CONVERSAM SOBRE A RELAÇÃO ENTRE PROJETO DE VIDA E FELICIDADE filha, Fernanda, de 3 anos. E Renata Florentino, 19, estudante de Ciências Sociais na Universidade de Brasília, é uma das fundadoras da ONG Interagir – Protagonismo Juvenil, da qual coordena o boletim on-line Falando de Po- lítica. Durante um mês, em diferentes etapas, eles refletiram e se questio- A palavra inglesa “chat” quer dizer conversa, bate-papo, naram sobre a relação entre projeto de vida e felicidade. Onda Jovem pro- e deu nome a uma forma de conversação típica da pôs as perguntas iniciais e depois os participantes conversaram entre si. internet, em que as pessoas se comunicam por escrito, Leia, a seguir, os principais trechos deste “chat de revista”: em tempo real. Onda Jovem também tem sua sala de bate-papo, mas no tempo próprio das revistas, com mais Onda: Qual é o seu conceito de felicidade? espaço para a reflexão. BERNARDO: É estar de bem com a vida, um bem-estar físico, psíquico, A seção estréia com quatro convidados. A carioca social, espiritual. Isso inclui o lado afetivo. Acho ainda que algumas conquis- Suélen Cristina Brito, 19 anos, estuda Pintura na Univer- tas intelectuais são necessárias para a inteira felicidade, porque é com o sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à noite trabalha conhecimento e a parceria das pessoas que realizamos o que queremos, no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, onde incluindo mudar a realidade social do país, o que eu acho que é de extrema cursou o pré-vestibular. Bernardo Ferreira da Luz, 21, cur- necessidade para a felicidade de todos. sa o 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná e coordena o centro acadêmico da faculdade; SUÉLEN: Na minha visão, a felicidade está presente em todos os momen- Marcos Antônio da Silva, 21, paulistano, é auxiliar de es- tos. É saber que estou viva e capacitada para desbravar este mundo, mes- critório na PricewaterhouseCoopers, onde se empregou mo com todas as dificuldades e problemas. Está ligada a situações princi- depois de uma passagem de oito meses pela Febem; palmente do meu cotidiano (vida pessoal, trabalho, faculdade etc.), mas cursa o 3º ano do ensino médio, é casado e tem uma também a situações do meio em que estou inserida, do mundo.
  • 69. RENATA FLORENTINO, 19 Estudante de Ciências Sociais na Universidade de Brasília, é uma das fundadoras da ONG Interagir – Protagonismo Juvenil BERNARDO FERREIRA DA LUZ, 21 Cursa o 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná e é o coordenador geral do Diretório Acadêmico Nilo Cairo SUÉLEN CRISTINA BRITO, 19 Estuda Pintura na Universidade Federal do Rio de Janeiro e trabalha no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, no complexo da Maré, onde mora MARCOS ANTÔNIO DA SILVA, 21 Paulistano, é auxiliar de escritório na PricewaterhouseCoopers. Cursa o 3º ano do ensino médio, é casado e tem uma filha de 3 anos MARCELO ELIAS DAVILYM DOURADO 69 FRANCISCO VALDEAN
  • 70. “A plenitude é algo muito complexo” SUÉLEN BRITO MARCOS: Felicidade é estar perto da minha filha, pois não sei o que seria de mim sem ela! É poder ter um emprego que me possibilite dar à minha fa- Como vocês acham que seu projeto de vida se reflete na “felicidade geral mília uma vida digna, diferente da nação”? da que eu tive. É ter aprendido que ir pra escola é superim- MARCOS: Sou um exemplo vivo para meu irmão, meus colegas e, principal- portante para o meu desenvol- mente, para minha filha. Exemplo de que podemos acertar o rumo de nossas SUÉLEN vimento intelectual. Felicidade vidas, corrigir nossos erros e viver de forma digna. Não tenho vergonha de é poder olhar pra trás e ter or- dizer que estive na Febem, porque hoje me sinto um modelo de recuperação. gulho de mim, saber que cometi erros e que hoje sou Aprendi com meus erros a andar no caminho certo. um cidadão honesto e trabalhador. BERNARDO: Acho que um projeto de construção da sociedade se reflete RENATA: Uma visão comum de felicidade é estar “sa- em melhoria para toda a população; isso não é pensar apenas no meu pró- tisfeito”. Saciado e conformado com o que se tem. É prio umbigo, como a maioria pensa. algo quase que inatingível, que virá no momento em que RENATA: Um caminho está sempre numa superfície. E nela, muitos ca- todos os problemas estiverem solucionados. Ah, esse minhos se cruzam. Às vezes, por acaso, às vezes, por escolha. Na busca dia que nunca chega. Escolhi ter um projeto de vida um por interrogações, podem-se encontrar tanto elaboradas crises existen- pouco diferente, buscando prazer em estar sempre in- ciais como as mais simples perguntas, feitas por quem se dispõe ou é quieta, buscando aprimorar o que já tenho, ou correndo obrigado a explorar o mundo um pouco mais. Essas é que são minhas atrás do que está por vir. dúvidas, que se abrem para outros caminhos. E está dando certo? RENATA: A construção do meu conceito de felicidade veio da constatação de que outro não daria certo comi- go. Assim, consigo manter a motivação e a persistência “A felicidade não é para sempre enxergar o passo a mais que pode ser dado. É claro que muitas dúvidas atravessam esse caminho, mas a cada dia vejo que é o mais coerente com meus separado do projeto desejos e realizações. MARCOS: Estou atingindo meu projeto de felicidade, SUÉLEN: Esse reflexo depende da minha atuação e comunicação. Como sim, graças à oportunidade que tive quando saí da o meu objetivo está sempre ligado ao meu fazer, vejo que interfiro em meu Febem, ao encontrar um emprego. Conheci pessoas le- meio também pela expressividade da arte. E a ma- gais, que acreditaram em mim e na minha recuperação. neira como cada projeto de vida se reflete no país, Meu objetivo agora é fazer uma carreira e por isso tenho está de acordo com o que vocês pretendem? me dedicado aos estudos. BERNARDO: Talvez ele não se reflita como eu BERNARDO: Para se chegar ao que eu quero, o cami- desejaria, mas acho que cada um pode contri- nho é árduo. Como futuro trabalhador da saúde, penso buir para a mudança coletiva, e não desistir no em um serviço público eficiente para 100% da popula- meio do caminho, pensando que não fazemos ção, na saúde, na educação e em todas as necessida- diferença. des básicas. Um Estado atuante ao máximo. RENATA: Creio que meu projeto de vida não se SUÉLEN: Meu projeto não caminha exatamente como BERNARDO reflete, mas busca interferir no país. Talvez, o país eu quero, mas de acordo com a vida, e por isso tem al- se reflita no meu projeto. Por mais que eu acredi- tos e baixos. A plenitude é algo muito complexo e perce- te na potencialidade de ações individuais, é certo que o ambiente que nos bo que a minha felicidade, e meus projetos, nunca che- cerca pode dinamizar ou tolher muitas iniciativas. garam a um estágio pleno, mas sim satisfatório, momen- tâneo. A partir das conquistas realizadas, aparecem mais objetivos, que vão se transformando.
  • 71. MARCOS: Gosto de contar para a moçada na mesma situação que eu que o crime não compensa. Diminuir a criminalidade vai melhorar a vida de todo mundo. Es- tou satisfeito com o que tenho conseguido alcançar, mas quero ir mais longe ainda. Mas o que faz uma pes- soa feliz pode não fazer a outra feliz. Então, por que nos preocupamos em correr atrás de um padrão de fe- SUÉLEN: Ela aparece em diversas etapas, às licidade imposto pela sociedade? vezes de forma mais intensa ou não. Mas, com SUÉLEN: Acho que sou eu certeza, sempre que finalizo um trabalho, to- que dito a minha felicidade, dos os sentimentos se fundem em um só, na mas sei que sofro influências. felicidade. RENATA: Será que não é a MARCOS BERNARDO: Acho que a felicidade não é um gente que se impõe um mo- componente separado, deve correr sempre junto delo de felicidade? Ou, de re- ao projeto de vida. Não penso que ela virá depois de algumas conquistas. A pente, nos impomos ser feli- vida não deve ser feita só de futuro, mas também de presente. Gosto de zes! estar sempre de bem comigo mesmo e com as pessoas ao meu redor. RENATA BERNARDO: É porque so- MARCOS: A felicidade é a base de tudo! Sem ela não consigo correr atrás mos criados nessa cultura ca- do que estou buscando. Se vejo minha filha triste, parece que tudo fica pitalista, vivendo sempre a expectativa de ter mais. Mas mais difícil. Felicidade é tudo! não precisamos nos submeter ao que não nos alegra. Somos livres para pensar diferente e acho que deve- mos construir a felicidade com o coletivo. E como vocês pensam que podem colaborar para melhorar nossa so- SOBRE FALANDO DE POLÍTICA - BOLETIM ON-LINE DO INTERAGIR - PROTAGONISMO JUVENIL (ONG) ciedade? REGIÃO DE ATUAÇÃO NACIONAL PROPOSTA Disseminar informação como elemento fundamental para nortear e embasar atitudes e visões, projetos e ações, incluindo trabalhos de acompanhamento e envolvimento – mais do que um repasse de informações, formação de atitudes PARA SABER MAIS um componente NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS MAIS DE 1.200 ORGANIZAÇÕES E JOVENS RECEBEM O BOLETIM APOIO FUNDAÇÃO FRIEDRICH EBERT 71 CONTATO SCN Quadra 5, Bloco A, Edifício Brasília Shopping,Torre Norte, sala 1.327 – 70713- 000 – Brasília (DF) – www.protagonismojuvenil.org.br de vida” e-mail diretoria@interagir.org.br – Fone: 61/3036-9675 BERNARDO LUZ SOBRE CAPACITAÇÃO DE JOVENS EM SITUAÇÃO DE RISCO, viabilizado pela PricewaterhouseCoopers em SUÉLEN: Argumentando, com minhas idéias e com meus parceria com a Associação de Apoio ao Projeto Quixote do Departamento de Psiquiatria, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) trabalhos, porque eles sempre expressam minhas idéias. REGIÃO DE ATUAÇÃO SÃO PAULO PROPOSTA Capacitação, para o mercado de trabalho, de jovens em situação de risco, que MARCOS: Acho que meu exemplo de vida e recupe- PARA SABER MAIS passam a ter a chance de serem independentes e capazes de dirigir o próprio destino de ração é a minha maior colaboração. Além disso, traba- forma digna. Inclui o acompanhamento psicopedagógico e social dos jovens e suas famílias JOVENS ATENDIDOS 10 POR TURMA lho no Programa de Cidadania da Pricewaterhouse. APOIO PRICEWATERHOUSECOOPERS E ASSOCIAÇÃO CAMINHANDO JUNTOS CONTATO Av. Francisco Matarazzo, 1.400 – Torre Torino – 05001-903 – São Paulo (SP) – RENATA: Como ongueira de coração e vocação, creio Contato: Mila Guimarães (mila.guimaraes@br.pwc.com) – Fone: 11/ 3674-3687 que por meio de ações articuladas posso melhorar ao menos questões específicas, no caso, as ligadas à par- ticipação juvenil. Na minha opinião, a felicidade aparece SOBRE CURSO PRÉ-VESTIBULAR COMUNITÁRIO, DO CEASM - CENTRO DE ESTUDOS E AÇÕES SOLIDÁRIAS numa etapa específica do ciclo de execução do projeto DA MARÉ (ONG) vida. O que vocês acham? REGIÃO DE ATUAÇÃO BAIRRO MARÉ, COMUNIDADES MORRO DO TIMBAU E NOVA HOLANDA, NO RIO DE JANEIRO (RJ) PROPOSTA Propiciar o acesso de moradores ao meio universitário com o objetivo de intervir PARA SABER MAIS na realidade atual do bairro, provocando mudanças, conjugando utopias pessoais e coletivas JOVENS ATENDIDOS APROXIMADAMENTE 400 POR ANO APOIO LIGTH, CARE, MINASGÁS CONTATO Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM Praça dos Caetés, 07 – Morro do Timbau – Maré – 21.042-050 – Rio de Janeiro (RJ) – Fone/Fax.: 21/2561-4604/ 2561-3946 – www.ceasm.org.br – e-mail contato@ceasm.org.br
  • 72. DIVULGAÇÃO Links UM MANUAL PARA MONITORAR POLÍTICAS 1 Nos dias 5 e 6 de outubro deste ano, cumprindo resolução aprovada em 2003, duas reuni- diversas ONGs e movimentos so- ões plenárias da 70ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, serão dedicadas à ciais. Segundo Camila Godinho, res- revisão da situação da juventude no mundo e à avaliação das conquistas obtidas pelos paí- ponsável pelas Relações Internacio- ses-membros na implementação do Programa Mundial de Ação para a Juventude (PMAJ), nais na Interagir, as organizações dez anos depois da sua adoção. Para que uma avaliação de tal porte fosse feita, a ONU criou devem entregar em março seus re- um manual que ajuda a monitorar as ações do governo e da sociedade para a promoção das latórios, que serão consolidados e en- condições de vida dos jovens. O manual, traduzido e distribuído, no Brasil, pela Interagir – caminhados à ONU pelo Itamaraty Protagonismo Juvenil, ONG criada por moças e rapazes de Brasília, contém métodos de avalia- em abril. E todos os países receberão ção das ações e também ferramentas para o desenvolvimento do trabalho das organizações. os relatórios impressos em maio. Em outubro, nas reuniões na ONU, os governos e Camila lembra que em março, organizações nacionais terão seus relatórios avalia- nos dias 25 e 26, em Brasília, have- dos. Nesses documentos, porém, estarão registrados rá mais uma oportunidade de se tanto o que cada um fez quanto o que pensam os jo- discutir a avaliação no Fórum do vens a respeito dessas realizações. No caso brasilei- Protagonismo Juvenil, no qual cer- ro, além dos órgãos de governos, 35 organizações ca de 600 jovens do Brasil inteiro procuraram a Interagir e se dispuseram a fazer as ava- estarão debatendo as políticas pú- liações em suas respectivas áreas de ação. blicas para o segmento e também O Itamaraty está reunindo as contribuições e já ela- apresentando contribuições. A bora o relatório a ser apresentado à ONU, com base Interagir pode ser contatada pelo em reunião realizada em novembro com jovens de site www.interagir.org.br. 2 A VEZ DAS PARCERIAS Um modo vantajoso de atuação para todos os envolvi- preendedores Sociais e a Funda- sejam enviados”, diz Cristina dos, o trabalho em parceria é cada vez mais importante e ção Avina. O site que eles desen- Meirelles, coordenadora da Ali- também estudado pelo terceiro setor. Tanto que, além do volveram já reúne 106 obras de ança Capoava. lançamento do site da Aliança Capoava, somente com in- diversos gêneros sobre parceria. As etapas de implementação formações sobre trabalho conjunto e um inédito São artigos on-line, periódicos, do site prosseguem neste ano, mapeamento das publicações brasileiras sobre parcerias e livros, materiais de congressos segundo Cristina. Em fevereiro alianças entre organizações da sociedade civil e empresas, e seminários, publicações ins- acontecem os “salões de encon- a Iª Conferência Internacional do Instituto Ethos, de 10 a 7 titucionais, relatórios de pesqui- tros”, reunindo representantes de junho, em São Paulo, também se debruçará sobre o tema sa, teses e dissertações. “Espera- de instituições que já trabalham Parcerias para uma Sociedade Sustentável. mos que o site ajude a construir em parceria com novatos inte- A Aliança Capoava, criada em 2002, reúne o Instituto um diálogo permanente sobre a ressados em aprender com eles. Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, o Grupo produção de conhecimento no Informações disponíveis no site de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), a Ashoka Em- tema e que novos trabalhos nos www.aliancacapoava.org.br.
  • 73. 3 LUZES SOBRE O CAMPO Até o ano 2000, a produção acadêmica sobre a juventude rural era rara. De lá para cá, o quadro mudou: dos 51 traba- lhos divulgados entre 1990 e 2004, 86% foram publicados nos últimos cinco anos. Os dados constam do inventário DIVULGAÇÃO feito pelo setor de Estudos e Pesquisas do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvol- vimento Rural (NEAD), sob a coordena- ção do professor Nilson Weisheimer, da Universidade de Santa Cruz do Sul (RS). Os resultados devem ser apresentados em um seminário nacional sobre o assunto, ainda neste semestre, no Rio de Janeiro. Entre os temas estudados, os mais freqüentes são a atuação do jovem no siste- 4 ESPAÇO PARA NOVOS ma de agricultura familiar e sua inserção no trabalho agrícola. Weisheimer está produzindo ainda um ca- TALENTOS tálogo de referências bibliográficas sobre a juventu- de rural, para ser acessado na internet. Contribuições podem ser enviadas ao NEAD (www.nead.org.br). Também recentemente foi criado o Grupo Temático de Juventude Rural do Conselho Nacional de Desen- volvimento Rural Sustentável (Condraf). O grupo, com representantes de diferentes entidades, deve dis- cutir políticas para o segmento. 73 Uma das propostas de Onda Jovem é abrir espaço para a produção de novos fotógrafos e ilustradores. Desta edição participam, entre ou- tros, estudantes como Levi Silva, 14 anos, que fotografou Carlos Jordaki para a reportagem Propostas de Futuro (pág. 8). Ele é um dos alunos do Projeto Olho Mágico (www.fotosite.com.br/olho_magico), do fotógra- fo Davilym Dourado, que tem apoio do Fotosite e da Escola de Fotogra- fia Riguardari. Já o carioca Anderson Oliveira, 22 anos, fotografou Luiz Júlio Pereira, para a mesma matéria, a convite da agência Imagens do Povo, um projeto do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro (imagensdopovo@observatoriodefavelas.org.br), que também promo- ve cursos. A agência mantém um banco de imagens de temática social, aberto aos participantes dos cursos. Estudante de Design Gráfico, o paulistano Marcelo Pitel já vem atuando em sua área. A ilustração para a reportagem A Idade da Razão (pág. 60) é “um estudo da criação em linguagem digital”, diz Pitel, que aponta, entre suas influências, os bra- sileiros J. Carlos (1884-1950) e o contemporâneo Cássio Loredano.
  • 74. O MONITORAMENTO DESENVOLVIDO PELA Fato Positivo ANDI MOSTRA QUE A PRODUÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DIRIGIDA AOS JOVENS ESTÁ AVANÇANDO UMA MÍDIA MAIS JOVEM A imprensa brasileira tem evoluído positivamente no que diz respeito à amplitude e à qualida- de da cobertura produzida para a juventude. A constatação está registrada no boletim Radicais Livres, editado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e recentemente reformulado para aprimorar o monitoramento das publicações juvenis, como suplementos de jornais, revistas e programa de TV, considerados estratégicos para a informação e a formação dos jovens. Esse avanço não é fruto do acaso, mas certamente se relaciona com os 12 anos de atividade da própria agência, que consolidou sua tecnologia de monitoramento e influência so- bre a mídia inicialmente voltada para o público infantil.
  • 75. PÚBLICO NOVO A Coordenação de Mídia Jovem, criada em 1997, também vem ampliando suas atividades. O núcleo coordenado por Carina Paccola edita o boletim Radicais Livres, que acompanha, analisa e divulga dados sobre 20 jornais e cinco revistas dirigidos aos jovens, apre- sentando críticas e sugestões sobre as reportagens. Antes divul- gado semanalmente, o boletim tem agora periodicidade mensal, aprofundando sua abordagem. Na edição de estréia do novo for- mato, em novembro de 2004, Radicais Livres noticiava que os su- plementos juvenis de jornais veiculados no mês de setembro ha- Na prática, além de apontar aos profissionais das redações a viam alcançado um Índice de Relevância Social de 76,3%. O índice importância de abordar temas como trabalho infantil, gravidez indica a quantidade de reportagens que contribuem para a forma- precoce ou acesso à universidade, a Andi conecta repórteres a ção cidadã dos leitores, em relação ao total de matérias. Nas revis- fontes qualificadas de informação e ainda analisa o noticiário, tas, porém, o índice ainda é baixo: 33,7%. identificando os temas cobertos ou esquecidos pelos meios de Para a TV, foi desenvolvido um projeto específico, que vai além comunicação. O monitoramento, iniciado em 1996 e incluindo do noticiário, analisando também a programação de lazer. “A mídia hoje 60 jornais e revistas, permite constatar mudanças. Exem- que fala para o jovem precisa ser fortalecida e não pode ser vista plos: em 1996, os principais veículos da mídia impressa publi- apenas como meio de entretenimento ou de publicidade”, diz o caram 10.700 reportagens sobre crianças e adolescentes; em editor Veet Vivarta. – colaborou James Allen. 2003, o número subiu para 105 mil. No biênio 1996-97, a vio- Avesso lência foi o assunto mais explorado no noticiário sobre jovens; A contratação de meninas com menos de 16 anos como em 1998, a educação dominou as pautas jornalísticas. empregadas domésticas é ilegal e deve ser combatida com a participação da sociedade e a instituição de MUDANÇA CULTURAL políticas públicas para assegurar sua volta à família e à escola. A obrigação de trabalhar em período integral Mas não é tão fácil mostrar em números a importância de numa época da vida que deve ser destinada ao estudo e um trabalho como este. O diretor-editor, Veet Vivarta, atribui ao ao desenvolvimento pessoal fatalmente afeta um projeto trabalho da Andi, por exemplo, a discussão na imprensa sobre de futuro. No Brasil, são quase 5,5 milhões de crianças e o trabalho infantil doméstico. O livro Crianças Invisíveis, sexto adolescentes trabalhadores e praticamente a metade volume da série de estudos Mídia e Mobilização Social, editada (48,6%) nem sequer recebe salário. Mas quando se fala pela agência, é oferecido às universidades e a jornalistas para de trabalho infantil doméstico, as dificuldades de 75 mostrar que quase meio milhão de crianças e adolescentes tra- analisar o problema são maiores, pois há poucos balham como empregados domésticos (leia quadro). “Não pro- estudos sobre o assunto. duzimos notícias, mas procuramos pautar os meios de comu- Especialistas e jornalistas da Andi que produziram a nicação para explorar temas ligados ao Estatuto da Criança e pesquisa e o livro Crianças Invisíveis destacam do Adolescente”, diz Vivarta. “A introdução do assunto no dia- inclusive a falta de clareza legal sobre o assunto. Essa a-dia da imprensa assegura legitimidade às soluções propos- impressão de normalidade com que jovens são contrata- tas e à legislação em vigor”, diz. “Hoje, as redações já reconhe- das para trabalhar como empregadas domésticas é cem a importância do tema.” atribuída ao cenário brasileiro de desigualdade social e Criada em 1992, por iniciativa dos jornalistas Âmbar de Barros pobreza, o que justificaria que uma mãe entregue a e Gilberto Dimenstein, a Andi já estabeleceu uma rede nacional, filha a uma família para não vê-la passar fome. Uma com a participação de ONGs, de dez estados, que atuam na área justificativa que as condena à invisibilidade seja como de comunicação. O modelo foi adotado para a criação de uma garotas ou trabalhadoras. rede internacional que inclui oito países da América Latina. AGÊNCIA NACIONAL DOS DIREITOS DA INFÂNCIA - ANDI SOBRE REGIÃO DE ATUAÇÃO NO BRASIL DISTRITO FEDERAL, MS, AM, BA, PE, RN, SE, MA, MG. NA AMÉRICA LATINA ARGENTINA, BOLÍVIA, COLÔMBIA, COSTA RICA, GUATEMALA, NICARÁGUA, PARAGUAI E VENEZUELA TIPO DE INSTITUIÇÃO ASSOCIAÇÃO CIVIL DE DIREITO PRIVADO, SEM FINS LUCRATIVOS PROPOSTA Contribuir para a construção, nos meios de comunicação, de uma cultura que priorize a promoção e a defesa dos direitos da criança, do adolescente e do jovem PARA SABER MAIS JOVENS ATENDIDOS A ANDI ATUA PARA QUE SEJA APERFEIÇOADA A COBERTURA DA MÍDIA SOBRE OS ASSUNTOS RELACIONADOS A TODOS OS JOVENS APOIO ÓRGÃOS DA ONU, COMO A UNESCO E A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT); GOVERNO FEDERAL E ESTATAIS, COMO A PETROBRAS; ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS, COMO KELLOG’S, AVINA (SUÍÇA) E SAVE THE CHILDREN, E NACIONAIS, COMO INSTITUTO AYRTON SENNA, ETHOS E INSTITUTO VOTORATIM CONTATO SDS Edifício Boulevard Center, Bloco A, Sala 101 – 70391-900 – Brasília (DF) – www.andi.org.br
  • 76. Navegando
  • 77. 77 PROJETO DE VIDA, UM PÔSTER DE RUA Uma das vertentes da arte de rua contemporânea, o pôster ou cartaz, é uma evolução do grafite e por isso chamado pós- grafite. Em vez de pintado diretamente na parede, geralmente é produzido com serigrafia sobre folha de jornal, depois fotolitado e impresso para ser colado onde for possível. O pôster pode obter parte de seu efeito pela multiplicação, e seu obje- tivo é introduzir a expressão artística nas frestas da cidade, disputando lugar nas ruas com as mensagens publicitárias. De- senhista desde menino e “colando” desde 2000, Haroldo Neto, 24 anos, o autor desse pôster, é um dos integrantes do SHN, trio de artistas urbanos paulistas formado ainda por Eduardo Saretta e Daniel Cucatti. Recém-formado em arquitetura, Haroldo trabalha em Americana (SP) e é vocalista da banda de rock Margüebes. Sobre o pôster feito para Onda Jovem, ele diz: “A idéia é enfrentar o mundo, conhecendo como ele é, sem- pre atrás de seus projetos e desejos, com responsabilidade e autoconfiança”. Seu projeto de vida: “Conciliar o trabalho e a arte. Com meu trabalho eu financio a minha arte”.
  • 78. O Instituto Votorantim apóia essa causa. E quer ver muitos jovens fazendo sucesso na capa.