Cotidianonaeducacaoinfantil 100324184624-phpapp01
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Like this? Share it with your network

Share

Cotidianonaeducacaoinfantil 100324184624-phpapp01

  • 1,530 views
Uploaded on

 

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
1,530
On Slideshare
1,530
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
18
Comments
0
Likes
0

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. O Cotidiano no Centro deEducação InfantilSérie Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Brasília, janeiro de 2005
  • 2. Edições UNESCO Conselho Editorial da UNESCO no Brasil Jorge Werthein Cecilia Braslavsky Juan Carlos Tedesco Adama Ouane Célio da Cunha Comitê para a Área de Educação Alvana Bof Candido Gomes Célio da Cunha Katherine Grigsby Marilza Machado Regattieri Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO, do Banco Mundiale da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, nem comprometem as Organizações. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, regiãoou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.
  • 3. O Cotidiano no Centro de Educação InfantilSérie Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 FUNDAÇAO MAURICIO SIROTKY SOBRINHO Organização: OMEP
  • 4. Organização: Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar – OMEP, Brasil Coordenação: Maria Helena Lopes Elaboração: Elizabeth Amorin, Halei Cruz, Loide Pereira Trois, Maria Helena Lopes Colaboração: Maria da Graça Horn, Vital Didonet Revisão Técnica: UNESCO (Alessandra Schneider), Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (Alceu Terra Nascimento, Jéferson dos Santos, Márcio Mostardeiro) Revisão: Ana Maria Marschall, Marise Campos Capa: Edson Fogaça Projeto Gráfico e Edição de Arte: Estúdio ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS © UNESCO, 2005 O Cotidiano no Centro de Educação Infantil. – Brasília: UNESCO, Banco Mundial, Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, 2005. 94 p. – (Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância: Cadernos Pedagógicos; 4) 1. Educação infantil – Ensino de Ciências 2. Ensino de Ciências 3. Educação Pré-escolar – Ensino de Ciências I. UNESCO II. Série CDD 372 BR/2005/PI/H/5
  • 5. SumárioApresentação ........................................................................................................... 7Introdução ............................................................................................................... 9Educar versus cuidar .............................................................................................. 11 Elizabeth AmorimEntrando em um novo mundo ................................................................................ 17 Elizabeth AmorimAgressividade e limites: possibilidades de intervenção............................................ 23 Loide Pereira TroisSaúde da criança.................................................................................................... 31 Halei CruzOrganização do tempo e do espaço ...................................................................... 51 Elizabeth AmorimA pedagogia de projetos e a mediação do educador .............................................. 61 Elizabeth Amorim e Maria Helena L opesProposta pedagógica e relações centro infantil, família e comunidade .................... 75 Elizabeth Amorim e Maria Helena L opesAcompanhamento e avaliação das crianças no centro infantil ................................ 85 Elizabeth Amorim
  • 6. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi
  • 7. Apresentação O novo ordenamento legal, inaugurado pela Constituição Federal de 1988, assegura à criançabrasileira o atendimento em creche e pré-escola e, a partir da promulgação da Lei de Diretrizes eBases da Educação Nacional, em 1996, a Educação Infantil passa a ser definida como a primeiraetapa da Educação Básica. Essa importante conquista nacional reitera um dos postulados daDeclaração Mundial de Educação para Todos, firmada em Jomtien, no ano de 1990, de que aaprendizagem ocorre desde o nascimento e requer educação e cuidado na primeira infância. Nas últimas décadas, várias pesquisas têm demonstrado que os primeiros seis anos de vidade uma criança se constituem em período de intenso aprendizado e desenvolvimento, em quese assentam as bases do “aprender a conhecer”, “aprender a viver junto”, “aprender a fazer” e“aprender a ser”. O atendimento educacional de qualidade, nessa fase da vida, tem umimpacto extremamente positivo no curto, médio e longo prazo, gerando benefícioseducacionais, sociais e econômicos mais expressivos do que qualquer outro investimento naárea social. Melhor desempenho na escolaridade obrigatória, menores taxas de reprovação eabandono escolar, bem como maior probabilidade de completar o ensino médio foramobservados entre os que tiveram acesso à educação infantil de qualidade, quando comparadosaos que não tiveram essa oportunidade. A freqüência a instituições de educação infantil afetapositivamente o itinerário de vida das crianças, contribuindo significativamente para a suarealização pessoal e profissional. Esse reconhecimento levou as nações a assumirem em Dacar, em 2000, entre os compro-missos pela Educação para Todos, a meta de ampliar a oferta e melhorar a qualidade daeducação e dos cuidados na primeira infância, com especial atenção às crianças em situaçãode vulnerabilidade. Essa é uma das seis metas expressas no Marco de Ação de Dacar, do qual oBrasil é um dos signatários, sendo a UNESCO a instituição das Nações Unidas que tem, entresuas atribuições, a de apoiar os países no cumprimento dessa agenda. Em 2003, a Representação da UNESCO no Brasil, o Banco Mundial e a Fundação MaurícioSirotsky Sobrinho firmaram parceria para a realização do Programa Fundo do Milênio para aPrimeira Infância em alguns estados do País. Esse desafio foi lançado pelo Banco Mundial eprontamente acolhido pela UNESCO e pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, que com-partilham a firme convicção de que garantir uma educação de qualidade desde os primeirosanos de vida é um dos mais importantes investimentos que uma nação pode fazer. O Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância tem como principal objetivo a qualifica-ção do atendimento em creches e pré-escolas, preferencialmente da rede privada sem fins
  • 8. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 lucrativos, isto é, de instituições comunitárias, filantrópicas e confessionais que atendem crianças em situação de vulnerabilidade social. A principal estratégia do programa é a formação em serviço dos profissionais de Educação Infantil, considerando que a qualificação do educador é reconhecidamente um dos fatores mais relevantes para a promoção de padrões de qualidade adequados na educação, qualquer que seja o nível, a etapa ou a modalidade. No caso da Educação Infantil, em que o profissional tem a dupla responsabilidade de cuidar e educar bebês e crianças de até seis anos, sua formação é uma das variáveis que maior impacto causa sobre a qualidade do atendimento. A série Fundo do Milênio para a Primeira Infância – Cadernos Pedagógicos constitui-se em importante recurso à formação continuada dos educadores. Seus quatro volumes, a saber, Olha- res das Ciências sobre as Crianças; A Criança Descobrindo, Interpretando e Agindo sobre o Mundo; Legislação, Políticas e Influências Pedagógicas na Educação Infantil e O Cotidiano no Centro de Educação Infantil, apresentam as principais temáticas relativas à aprendizagem e ao desenvolvimento infantil. Pretende-se, portanto, que o presente volume e os demais dessa série constituam-se em importante ferramenta de trabalho para os profissionais da área de Educação Infantil, proporcionando o acesso a novos e atualizados conhecimentos, a reflexão crítica e a construção de práticas inovadoras àqueles que têm em suas mãos a difícil e apaixonante tarefa de educar nossas crianças. Desejamos, ainda, compartilhar essa realização com a Organização Mundial de Educação Pré-escolar (OMEP – Porto Alegre), reconhecendo sua colaboração inestimável, e com os Empre- endedores Associados ao Programa Fundo do Milênio para a Primeira Infância, que comungam conosco a visão de que os primeiros anos de vida valem para sempre e de que a educação de qualidade, desde a mais tenra infância, é fundamental para a construção de um Brasil mais desenvolvido, mais humano e socialmente mais justo. Jorge Werthein Vinod Thomas Nelson Pacheco Sirotsky Representante da UNESCO no Brasil Diretor do Banco Mundial no Brasil Presidente da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho8
  • 9. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância toda essa curiosidade, dessa avidez pela ntrodução descoberta, pela surpresa e pela alegria, as crianças abrem-se como pequenos Convidamos todos vocês a percorrerem “girassóis”, receptivas a tudo e a todos, conosco um espaço muito importante, que buscando a riqueza da luz. Ao recebê-las, chamamos “Educação Infantil”. São cami- o que precisamos é redescobrir com elas nhos que passam por diversas abordagens o ser poético, a espontaneidade, a capa- dos conteúdos de Educação Infantil, cidade de filosofar sobre as coisas e oferencendo aos educadores várias reconhecer suas diferenças e peculiaridades. possibilidades de despertarem para a sensibilidade e a sabedoria das crianças. Assim, elas nos sensibilizarão ao retorno à natureza, à alegria do jogo, do brincar e É um trajeto interessante, vivo e da poesia. Nós lhes daremos a certeza comprometido com a reflexão inteligente, de que trabalharemos pela defesa com a disposição afetiva e com o desejo de seus direitos. de tentar vencer os obstáculos. Por elas, abriremos o livro da história e Nosso veículo será a leitura de alguns das tradições. Partilharão conosco do textos importantes, que terão como centro mundo, serão também artífices da a Educação Infantil e as ações e vivências manifestação cultural e construtoras de que podemos realizar com nossas crian- sua própria história. ças. Muitos desses assuntos já são conhe- cidos, mas uma releitura sempre traz Com elas, novidades, assim como uma viagem em construiremos um Foto: Sebastião Barbosa boa companhia. Na busca do melhor futuro mais feliz, convívio possível, vamos nos envolver em porque através do reflexões sobre algumas teorias deslumbramento importantes, que nos auxiliarão a repen- de seu olhar sarmos melhor as práticas com as crianças. reencontraremos a pureza de nossa alma e a certeza do profundo e transcendente Para que isso se torne realidade, temos milagre da vida. que aprender a observá-las e a ouvi-las, pois, quando se expressam, querem Contamos com a parceria de todos sempre nos contar coisas e nos questionar. nessa desafiadora aventura pelo espaço muito especial que envolve a criança que Que mundo é este que nos recebe? nos é confiada na maior parte de seu dia. Como são as pessoas? O que é a natureza? Quem sou eu? E muito mais. Diante de 9
  • 10. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Para transitar pelos caminhos da infância, é preciso ter um olhar atento, pisar com suavidade, reconhecer seu espaço e abraçar seu tempo. Tudo isso porque fazemos parte de seu mundo. Somos responsáveis pelas crianças, por sua alegria, e cabe-nos orientá-las para jogar o jogo da vida. Para seguir suas trilhas, temos de conhecer seus anseios, identificar suas carências e apresentar-lhes ricas possibilidades. É preciso projetar alternativas criativas e oferecer-lhes um caminho seguro em direção à felicidade. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi10
  • 11. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância ducar versus Cuidar Mesmo hoje, ainda vemos nomenclatu- ras distintas para atendimento de 0 a 3 Elizabeth Amorim anos e de 4 a 6 anos. Por isso, nos per- Bebê guntamos: por que creche e pré-escola, e Coisinha deficiente, inconsciente, inerme, não somente educação infantil? Por que inválida, trabalhosa, querida. reafirmar essa divisão, se o que Mário Quintana – Na volta da esquina desejamos é exatamente o contrário? Eu educo ou cuido? Cuido e educo? Na realidade, a educação infantil Afinal, qual é o meu papel? atende crianças de 0 a 6 anos, e é isso que interessa. Crianças de origens diferen- Provavelmente você já se questionou ciadas, mas que têm em comum o “ser frente a essa dúvida, principalmente se criança”, que se assemelham em algumas atende crianças até a faixa etária características e que brincam, inventam e dos 3 anos. sonham. Por muito tempo, a ênfase no cuidado Felizmente, os avanços nos estudos dominou o atendimento nos programas referentes à aprendizagem e ao de creches, enquanto os programas pré- desenvolvimento infantil comprovam escolares tinham o enfoque educacional ser a criança uma curiosa exploradora como predominância; portanto, o “divór- do mundo físico e social. Desde bebês, cio” entre educar e cuidar apresenta longa tradição no atendimento infantil.Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF 11
  • 12. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 as crianças são capazes de estabelecer Isso significa, em outras palavras, que relações significativas com os adultos e cuidar inclui também preocupar-se com a os companheiros numa variedade e organização do Centro Infantil, de seus complexidade bem maiores do que o horários, de seus espaços e dos materiais. constatado no passado. Igualmente Isto é, que seja um ambiente acolhedor e percebemos a criança como um ser agradável, seguro e alegre, que possa global, sejam quais forem as oferecer experiências ricas e adequadas circunstâncias e situações, para as crianças que ali convivem diaria- independentemente de classe social, mente. O ambiente e os momentos po- raça ou quaisquer outras diferenças. dem ser planejados de modo que oportunizem autonomia nas rotinas, A relevante integração entre educar como vestir-se e despir-se, proceder à e cuidar lembra-nos que as atividades higiene das mãos e da boca, alimentar-se, rotineiras também auxiliam na constru- etc. Cabe ao educador identificar em ção da identidade de uma criança. O cada uma dessas ações de cuidados as que essa integração – educar e cuidar – inúmeras possibilidades educativas. Por na realidade quer enfatizar é a relevân- exemplo, nessas ações que citamos, as cia e o direito da criança de ser crianças estarão experimentando a consis- educada e cuidada. Não existe uma tência dos materiais de higiene, a leveza forma de atendimento que dicotomize das roupas e a espessura dos panos, as o cuidar do educador na Educação cores e os sabores dos alimentos. Infantil. Deve haver uma perfeita sintonia entre o adulto – educador e Os cuidados com a saúde (higiene, cuidador – e a criança a ser educada e alimentação, crescimento e desenvol- cuidada. Assim, em estado de vimento) são também educativos, harmonia, os momentos vividos serão constituindo-se em funções a serem prazerosos e promoverão múltiplas vivenciadas e executadas por crianças e aprendizagens, motivo pelo qual se faz educadores. necessário proporcionar envolvimento e atividades compartilhadas, em que Todos os momentos vividos pela ora a iniciativa é do adulto, ora é da criança são educativos, na medida em criança. A maneira de pensar e agir que ela está constantemente aprenden- que associa cuidado e educação preci- do, através da sua interação com o meio sa permear todo o projeto pedagógico que a rodeia. Dessa forma, as dimensões dos centros infantis. do cuidado relativo à alimentação, ao sono, à higiene, à saúde, etc., são educativas sim!12
  • 13. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Quando trocar a fralda de um bebê, atendidos em suas necessidades básicas e por exemplo, é importante conversar de afeto. A educação e o cuidado são com ele, pois os olhos se encontram, há uma necessidade e um direito da criança toque, sensação tátil e movimento; este é primeiramente, mas também das famílias um momento de interação, momento de que depositam confiança no trabalho que vínculo e aprendizagem. Por outro lado, os centros realizam. quando você está com um grupo na faixa etária de 4 a 5 anos realizando a higiene A maneira como você recebe, todos os que antecede o lanche, há diálogos dias, cada criança e tudo o que acontece sobre esse momento e sua necessidade, com vocês até a hora da saída são igualmente o contato com a água, vivências que contribuem para o desenvol- quente ou fria, a fricção com a toalha. vimento infantil, são geradoras de Novamente este é um momento conhecimento e, portanto, educativas. educativo! Então, o conjunto de todas essas experiên- cias que se interpenetram são, E o lanche então! Rico encontro social intrinsecamente, educação e cuidado. e de aprendizado em que partilhamos, vemos se há comida para todo mundo, diferenciamos alimentos, comparamos, classificamos e assim por diante. Outro aspecto importante a destacar é a expectativa que as famílias têm ao deixa- rem seus filhos nos Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi Centros Infantis. Almejam uma educação de qualidade, que promova o desen- volvimento cognitivo e social, mas também esperam que seus filhos sejam bem cuidados e 13
  • 14. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Nesse contexto, podemos hoje supe- reciprocidade e da complementaridade rar a cisão maléfica na atuação com a existente entre tudo e todos. criança; na realidade, jamais deveríamos utilizar separadamente esses dois termos Concluindo – ou resumindo – as e, por conseqüência, o sentido deles. idéias aqui expostas, reiteramos enfati- No educar, está “embutido” o cuidar, camente a necessidade de se ter claro pois a instituição infantil possui um i- que, na instituição infantil, todas as nequívoco caráter educacional, mesmo tarefas, brincadeiras e atividades porque a criança tem não somente ne- realizadas têm valor educativo e cessidade, mas também direito de ser envolvem cuidado. cuidada e educada. Referências Bibliográficas Definitivamente, devemos tirar de AMORIM, Elizabeth. A dimensão do cuidado essencial no fazer pedagógico infantil como exigência primeira na construção da nossas mentes a dicotomia educar/cui- cidadania planetária. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo, dar; somente assim não mais a verba- Faculdade de Educação da UNISINOS, 2002. lizaremos e, o que é mais importante, BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 6.ed. Petrópolis Vozes, 2000. estaremos integrando cuidado e edu- CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: cação em nossos fazeres cotidianos. Gente, 2001. DIDONET, Vital. Não há educação sem cuidado. Porto Alegre, Sedimentando o que até agora discuti- Pátio Educação Infantil, n.1, . p. 6-9 abr/jul. 2003. HADDAD, Lenira. A ecologia do atendimento infantil: mos, não podemos deixar de conceituar o construindo um modelo e sistema unificado de cuidado e cuidado na sua dimensão maior, que o educação. Tese de Doutorado. São Paulo, Faculdade de Educação da USP, 1997. designa não como um ato isolado, mas, KULISZ, Beatriz. Prática pedagógica na educação infantil: antes, como uma atitude de zelo, preocupa- indicações para a construção de um referencial pedagógico. ção, responsabilidade e envolvimento afeti- Dissertação de Mestrado. Porto Alegre, Faculdade de Educação da PUCRS, 2001. vo. Ou seja, o cuidado envolve atenção e ROSSETTI-FERREIRA, Maria Clotilde. A necessária associação afeto, pois somente cuidamos daquilo que entre educar e cuidar. Porto Alegre, Pátio Educação Infantil, n.1, p.10-12, abr./jul. 2003. gostamos e desejamos preservar. O cuidado encontra-se na base da constituição do homem, já que sem ele não seríamos humanos. Implica aconche- go, afeto, ternura, sintonia e, sobretudo, implica valorizar e importar-se, com o outro e com o mundo, não focando so- mente o valor utilitário, mas primordial- mente a dimensão do respeito, da14
  • 15. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e “Por sua própria natureza, cuidado inclui Aprofundamento duas significações básicas, intimamente Maria Helena Lopes ligadas entre si. A primeira, atitude de desvelo, de solicitude e de atenção para com “... gostaria de propor uma reflexão o outro. A segunda, de preocupação e de interessante. Na época em que vivemos, em inquietação, porque a pessoa que tem que a maior ou menor oportunidade de cuidado se sente envolvida e afetivamente acesso ao conhecimento define muitas vezes ligada ao outro.” o futuro de uma pessoa, as atividades de Leonardo Boff cuidado assumem cada vez mais uma posição de destaque. As máquinas e os robôs • Quais são as possibilidades educa- puderam substituir o ser humano em várias tivas das crianças ao serem atendidas em tarefas, mas não nas de cuidado! O setor no suas necessidades de alimentação, qual mais crescem as oportunidades de higienização, repouso, lazer e afeto? emprego é o de serviços. E a competência neles exigida envolve também delicadeza e cuidado no trato. Outros setores que apresentam acentuado crescimento dizem respeito diretamente ao cuidado das pessoas Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi e do ambiente ecológico. Cabe, então, a pergunta: será que estaremos preparando um futuro melhor para nossas crianças se deixarmos o cuidado de fora das tarefas educativas em nossas creches e pré-escolas?” Maria Clotilde Rossetti-Ferreira (2003, p. 12) • Debata com seus colegas a citação acima, relacionando-a com as idéias do texto Educar versus Cuidar. A partir das idéias levantadas com o grupo, responda à pergunta que finaliza a citação. 15
  • 16. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi16
  • 17. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância mesma, de acordo, é claro, com o seu ntrando em um Novo desenvolvimento. Sendo assim, será vá- Mundo lido denominarmos como adaptação o Elisabeth Amorim tempo referente aos primeiros dias do ingresso da criança na instituição Conceitos1 infantil? Adaptar: amoldar, apropriar, O que realmente desejamos desse conformar. momento de transição: que a criança se Adaptado: acomodado, amoldado, molde ao meio, ou que se integre, ajustado. sentindo-se parte dele? Integrar: tornar-se inteiro; com- pletar, integrar, integralizar; juntar-se É tempo de parar, parar e refletir sobre tornando-se parte integrante, reunir-se, em que ideário estamos alicerçados... incorporar-se. Integrado: diz-se de cada uma das “Com freqüência ‘deixar a casa’ é uma partes de um todo que se completam experiência mais forte do que ‘entrar na escola’.[...] Existe muito pouco crescimento se ou se complementam. não há algum tipo de sofrimento ou ansiedade. Não poderíamos, neste momento, Quando damos um passo à frente, para um deixar de refletir sobre os termos novo estágio ou desafio, deixamos, mencionados, já que trataremos sobre a necessariamente, algo para trás. Sem esses altos e baixos a vida seria plana e as pessoas adaptação da criança à instituição não se desenvolveriam. Quanto mais jovem for infantil. o indivíduo, mais ajuda ele precisará ter para Muitas vezes, e esta é uma delas, seguir em frente sem maiores sofrimentos.” utilizamos palavras sem realmente nos Nancy Balaban aprofundar sobre os seus significados e, A separação é uma experiência que conseqüentemente, se ela é adequada à ocorre em todas as fases da vida huma- situação. na. Ela começa quando o bebê deixa o O termo adaptação é o mais indicado conhecido e aconchegante útero mater- ao período a que nos referimos? É sabido no e entra em um mundo de sons, luzes que a educação infantil tem a autonomia e contatos. Daí em diante, ela se encon- como um de seus pilares, pois oferece tra no aprender a andar, no dormir na situações para que a criança aja por si casa dos avós, na entrada na escola, na briga com o(a) namorado(a), no casa- 1 Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s.d. 17
  • 18. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 mento e em inúmeras outras situações. É ponto pacífico a forte e profunda vinculação mãe/filho; por isso, Gilda Em todas esses acontecimentos, há o Rizzo (2000) afirma que o período de abandono de um território familiar e o integração “envolve muitos fatores e o ingresso no desconhecido, no novo sentimento de, pelo menos, duas pes- ainda não experimentado. Também não é soas: mãe e filho”, acrescentando ainda assim o que acontece conosco cada vez que “o nível de segurança afetiva de uma que uma turminha nos “deixa” e entra criança é muito dependente do nível de outra, ainda por nós desconhecida? segurança afetiva básica da mãe”. Como será cada criança, como reagirá ao ambiente e a mim? Como EU reagi- A integração de um bebê até em rei? Terei a sensibilidade necessária? É o torno de 7 ou 8 meses é, normalmente, que nos perguntamos. tranqüila, pois ainda não entrou na cha- mada época do “estranhamento” a am- Por isso, os dias iniciais na instituição bientes e pessoas. Então, é a mãe que infantil exigem sempre um esforço de “se integra”, passando alguns períodos integração conjunta da instituição, da observando como as crianças são atendi- família e da criança. Até esse momento, das nos diferentes momentos pela equipe habitualmente a criança conviveu basi- do berçário. camente com sua família e no cotidiano somente com as pessoas de sua casa. No A partir dessa idade, é comum as crian- lar, além da segurança da forte ças reagirem a novos ambientes; as carac- vinculação afetiva, há também a segu- terísticas individuais nortearão as rança do lugar conhecido, que pode ser diferentes reações que devem ser respeita- explorado a todo momento, tanto os das, bem como a busca de alternativas cômodos quanto os objetos. facilitadoras deve estar presente, porque precisamos lembrar que, até esse momen- Já na instituição infantil tudo é novo e, to, o parâmetro da criança era a família, por conseqüência, desconhecido: mudam seus hábitos e comportamentos. Dessa o espaço, a rotina, as pessoas... A criança forma, ela espera que você aja e tenha as passa a conviver com mais adultos e crian- mesmas reações dos adultos que ela co- ças em um ambiente estranho. O novo nhece, principalmente dos pais. Leva mundo afeta também sua família, que sofre tempo para as crianças perceberem que com esse processo de encaixar horários, adultos diferentes se comportam de mudança de rotina e questionamentos maneira diferente, e também demora um sobre como a criança será atendida. pouco para elas diferenciarem o que18
  • 19. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância acontece em casa daquilo que acontece O vínculo com a educadora, nesses no centro infantil. primeiros dias, é o objetivo primordial, visto ser através dele que a criança se Para a criança, as regras e os compor- sentirá segura para interagir nesse novo tamentos familiares são universais; então, mundo. É você quem vai auxiliar cada causa estranheza, por exemplo, poder criança a familiarizar-se com o novo sujar as mãos se em casa não pode ou, ambiente, seus hábitos e rotinas, é ainda, você agir de forma diferente de você que, através de demonstrações de sua mãe. Por isso, é necessário “avaliar” segurança e tranqüilidade, mostrará todo o ambiente que a cerca – humano e que ela é aceita, respeitada e entendida físico – e essa “avaliação” é realizada de nesse meio que, apesar de novo, é acordo com a maneira como cada organizado e preparado para ela. criança reage a situações novas. É por tudo isso que, no livro O início Esse novo mundo – o centro infantil – da vida escolar, Nancy Balaban diz que traz curiosidade, expectativa, inseguran- as crianças sentem-se estranhas num ça e, às vezes, muito medo! Será que vão saber cuidar de mim? E se eu ficar doente? Se eu cair? Se a mamãe não vier me buscar? Se eu fizer xixi nas calças? Se eu não quiser comer? Quem Foto: Unicef sabe que eu não gosto de beter- raba ou de abó- grupo novo que é diferente do seu grupo bora? Na verdade, são muitos “se”, são familiar e no qual elas não têm um status várias e diferentes dúvidas que, consci- especial. Nesse local, talvez só você, ente ou inconscientemente, causam educadora, saiba seus nomes, e ninguém grande apreensão! realmente gosta ou não delas de alguma 19
  • 20. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 maneira especial. Elas “não têm o seu fase muitas vezes é confuso, pois, lugar natural nesse grupo, mas vão ter mesmo percebendo que essa transição é que conquistá-lo através de seu compor- necessária e boa para a criança, sentem- tamento. Embora elas ainda não saibam se culpados, com sensação de perda e disto, é provável que o sintam”. apreensivos por entregarem o que eles têm de mais precioso a pessoas que, até Como vimos, as crianças reagem aquele momento, ainda são estranhas. diferentemente umas das outras: algumas Por isso, os pais precisam ser igualmente mostram-se desconfiadas, ou choram, ou atendidos nessa fase de transição, devem não aceitam contato; outras ingressam perceber que o centro infantil – e princi- querendo explorar todo o ambiente, ou palmente você – entende que vários tentando deter-se em tudo ao mesmo tipos de emoção estão aí envolvidos e tempo. que é impossível compreender os senti- Essa transição e o estabelecimento de mentos da criança sem avaliar simultane- confiança é gradativo, motivo pelo qual, amente os sentimentos deles, uma vez durante os primeiros dias, é aconselhável que este é um acontecimento significati- que a criança permaneça por um perío- vo para ambos. do menor do que o normal na institui- A reação da criança está muito ligada ção. Esse tempo vai sendo prolongado ao estilo de vida de sua família, bem gradativamente, à medida que você como ao tipo de relações dos adultos percebe que a criança tranqüiliza-se e que a rodeiam e, principalmente, à sua age com maior naturalidade. relação com a mãe. Também a maneira Dentro do possível, é importante a como a mãe encara essa separação presença familiar – principalmente a influencia de forma direta o comporta- materna – no ambiente da instituição mento da criança: se ela tem pena, medo durante esse processo, o que permite não de dividir, ou fantasias em relação a somente maior segurança para a criança, como seu filho será tratado, com certeza como também à família conhecer melhor dificultará o processo. o local e a educadora. O comportamento Quando há um bom nível de segu- familiar nesse momento é fundamental, rança emocional, isto é, se a criança pois, com já dissemos, ele será um dos estabeleceu uma relação de confiança parâmetros percebidos pela criança. com a mãe, ela consegue, gradativa- Os sentimentos dos pais durante essa mente, ficar afastada dela sem ter medo de perdê-la. Tranqüilidade e20
  • 21. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância segurança, sem sentimento de culpa, é a “Vai aqui este pedido aos professores, pedido conduta indicada, e a instituição deve de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das encontrar-se permanentemente à disposi- crianças: lembrem-se de que vocês são ção para esclarecer dúvidas e anseios. Por pastores da alegria e de que sua responsa- isso, o período de integração deve ser bilidade primeira é definida por um rosto cuidadosamente planejado para que que lhes faz um pedido ‘Por favor, me ajude sejam construídos a confiança e o conhe- a ser feliz...’” cimento mútuos. É desse modo que Rubem Alves acontece o estabelecimento de vínculos Referências Bibliogáficas afetivos entre as crianças, as famílias e os educadores. BALABAN, Nancy. O início da vida escolar: da separação à independência. Porto Alegre: Artmed, 1998. Assim, é permitido à família CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Gente, 2001. conscientizar-se de que a instituição está OLIVEIRA, Zilma de Moraes (Org.) Educação infantil: muitos habituada com esse momento e as educa- olhares. São Paulo: Cortez, 1994. OLIVEIRA, Zilma de Moraes et al. Creches, faz-de-conta e cia. doras, aptas a controlar as situações que 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1992. surgirem. Essa parceria torna o processo de RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 2000. transição não somente mais tranqüilo, mas, RIZZO, Gilda. Creche: organização, montagem e funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. sobretudo, representa o início de uma desejada, agradável e gratificante caminhada. Foto: Sebastião Barbosa 21
  • 22. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e Aprofundamento Elisabeth Amorim “O vivido só se torna recordação da lei da narração(...). E aí se torna outra vez vivo, aberto, produtivo. A memória que lê e que conta é a memória em que o ‘era uma vez’ converte-se em um ‘começa’!” Jorge Larrosa • Você se lembra do seu primeiro dia na escola? Quais eram os sentimentos: ansiedade, medo, expectativa, excitação? A lancheira foi aberta? Como era a edu- cadora? O que marcou em você? Se você não se lembra desses detalhes, pergunte a seus pais como foi. • Recorde, através da narração, algum fato ou situação em que sua vida Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi sofreu mudança e, portanto, o novo e o desconhecido foram enfrentados. Quais foram os sentimentos e as reações? • Cite alguns procedimentos indicados para o período de integração da criança ao Centro Infantil.22
  • 23. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância de toda pulsão, de todo impulso, gressividade e Limites: constituindo nossos instintos de possibilidades de autopreservação, instintos sexuais, de intervenção destruição e de todo desejo. São as pulsões de vida e de morte que constitu- Loide Pereira Trois em a natureza humana. Todos os indiví- duos possuem instintos agressivos que se “É necessário que o adulto entenda, aceite e desenvolvem à medida que crescemos e valorize que a criança, ao brincar, necessita derrubar a torre de blocos de montar para interagimos com o nosso meio ambiente. que assim possa valorizar a sua própria Esses impulsos podem ser observados em capacidade de construir e errar.” nossos comportamentos e atitudes, mas Donald Winicott sua origem não é consciente, ou seja, fazem parte de nosso psiquismo, do Para que possamos entender as dife- nosso inconsciente. rentes manifestações da agressividade, é importante considerar que o erro faz É importante destacar que os impulsos parte de toda aprendizagem. Assim, para agressivos são constituintes de nosso montar uma torre de blocos, teremos desenvolvimento humano e que, por isso, que aprender a derrubá-la e ir refazendo não podem ser analisados como patológi- esse gesto até a descoberta da cos. Cabe aqui diferenciarmos as manifes- construção desse novo conhecimento. tações da agressividade e o ato agressivo. Partimos, então, da noção de que, ao longo do desenvolvimento humano, existem momentos de acerto e de erro na construção de nossos valores e con- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi ceitos. O elemento fundamental nesse processo é a crença em nossa própria capacidade de superar conflitos e crescer com os desafios que nos são colocados. Conforme Sigmund Freud, grande pensador que estudou e desvendou a psique humana e nos deixou como legado a descoberta da noção de inconsciente, a agressividade faz parte 23
  • 24. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 O ato agressivo dificulta a nossa ser atendido em suas necessidades vitais. capacidade de pensar, indicando riscos Posteriormente, a criança passa a explorar para nossa aprendizagem. Por trás de um mais ativamente o meio em que está ato agressivo não existe uma intenciona- inserida e, assim, puxa, empurra, bate, joga lidade hostil consciente da criança; ao objetos que estão ao seu alcance para contrário, ela está nos mostrando que conhecer e aprender sobre os mesmos. algo não vai bem, que ela não está con- seguindo lidar com seus impulsos agres- Numa etapa seguinte, surgem as sivos de maneira sadia, ou seja, é um mordidas, um período maturacional da pedido de ajuda para que o outro lhe criança que é percebido pelo apareci- mostre um modo de veicular sua energia mento dos dentes e sua conseqüente uti- de forma construtiva. É uma energia pul- lização: ela morde pela necessidade de sional que necessita ser canalizada para saciar sua ansiedade. Por volta dos 2 anos, fins socialmente aceitos e produtivos a criança inicia seu processo de controle para que ocorra um crescimento pessoal esfincteriano, que vai se consolidar por e aprendizagem. volta dos 3 anos, período em que os im- pulsos agressivos são manifestados através Se afirmamos que uma criança é agres- da produção dos excrementos (fezes e u- siva, estamos considerando que esta é uma rina), e a criança tenta controlar o meio característica e um traço da identidade que a cerca. dela e impedindo a percepção de que a criança está em formação e que, portanto, A partir dos 4 ou 5 anos, vemos que os trata-se de características que podem ser impulsos agressivos são direcionados à transitórias em seu desenvolvimento. figura dos adultos como desafio a autori- Desse modo, a criança está agressiva por dade, ou seja, é uma fase de “ teste”, na alguma causa e pode cometer atos qual a criança passa a questionar os limi- agressivos que posteriormente poderão ser tes de suas ações. Os impulsos agressivos reparados em seu comportamento. são manifestados através de várias atitu- des que interpelam a capacidade de to- Vejamos como se manifestam os impul- lerância, paciência e firmeza da figura de sos agressivos ao longo de nosso desenvol- autoridade evocada. Como resultado des- vimento humano. Inicialmente, os nossos sa fase, temos a formação do sentimento impulsos agressivos são manifestados de respeito e a noção de limite interna- através de nosso instinto de sobrevivência. lizada pela criança. Podemos perceber O choro do bebê apresenta seu estado de que os impulsos agressivos estão presen- desconforto, desprazer (dor, frio) ou neces- tes e vão evoluindo ao longo de nosso sidade nutricional (fome): ele chora para desenvolvimento. Uma vez que esses24
  • 25. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância impulsos sejam canalizados e desviados Se como educadores não somos para outros fins, intensificando sua ma- capazes de elaborar perguntas, formular nifestação, passam a ser considerados e hipóteses e usar a nossa criatividade transformados em agressão ou ato frente à agressão da criança, frente à agressivo. situação que deu origem a esse ato, é o próprio educador que está se agredindo Como educadores, conhecemos bem o por estar se considerando incapaz e que se sente diante de um ato agressivo. impedindo seu próprio crescimento Vivencia-se sentimentos de angústia, de diante desse desafio. dor, de não saber. O fundamental, nesse momento, é tomar distância do ocorrido e É importante que possamos estabele- tentar escutar o que a criança está cer laços afetivos seguros e verdadeiros querendo dizer em cada chute, em cada com as crianças, compreendendo-as até empurrão, em cada palavra ou gesto. mesmo em suas reações agressivas. Nessa compreensão, não se trata de É preciso se descentrar e incluir o “deixar assim mesmo”, “esperar passar” pensamento como um terceiro termo ou sentir pena da criança, mas entre o educador e a criança. Desse justamente confiar na sua capacidade de modo, estaremos possibilitando um espaço de indagação e questionamento sobre o ato formulando perguntas, co- mo: a quem essa criança agride quando Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi me agride? Quando um aluno enfrenta agressiva- mente o educador, e este pensa que a a- gressão é para ele, está colocando-se num nível imaginário a partir do qual só vai aumentar a atuação agressiva da criança, impedindo a formação de um espaço de diálogo e reflexão. É preciso ter em mente que a criança está agredindo através de mim outras situações presentes e passadas na sua história. É necessário, para compreender essa ação, descobrir a que ações, a que atitudes essa agressão se dirige. 25
  • 26. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 resolver o conflito, de superar esse pro- As saídas para as situações de agres- blema no amparo seguro da relação são são complexas; no entanto, a resolu- afetiva com o educador. ção da agressão através de outra agressão favorece a manutenção do comporta- A noção de limites se coloca através mento agressivo. As punições e coações da formação do sentimento de respeito à abusivas do adulto diminuem o comporta- figura de autoridade e da aposta na mento agressivo temporariamente, capacidade de reparação do erro. reaparecendo-o em contextos diferentes e, O importante é fazer com que a criança muitas vezes, com mais intensidade. retire dessa situação elementos significati- Somos adultos, mas a criança de vos para sua aprendizagem, repare o erro, nossa infância habita dentro de nós e, procure tomar mais cuidado e atenção da por vezes, precisamos revisar nossas próxima vez para que não volte a repetir o próprias convicções morais, éticas, e ato agressivo. Assim, estamos conduzindo pensar sobre a forma como fomos a criança a pensar sobre seus atos e modifi- educados, como vivemos nossa car suas atitudes pela reflexão e pelo infância, buscando qualificar a nossa entendimento do que ela mesmo faz e formação pessoal e transformar a nossa provoca. ação educativa. As atitudes de repressão, castigo O educador é modelo, é uma refe- ou humilhações apenas provocam um rência estruturante para a criança. As sentimento de desvalia e obediência crianças aprendem não apenas com o cega, sem a conscientização do ato que é dito, mas sobretudo com o que errado por parte da criança. Um outro vêem, com a coerência entre as ações sentimento freqüente diante de situa- e o discurso dos educadores; assim, ções de conflitos e brigas entre as quando apresentamos modelos pau- crianças, e para o qual devemos ter tados no diálogo, na cooperação, na bastante atenção, é quando uma crian- solidariedade, esses serão repetidos e ça agride outra pessoa. Por vezes, po- valorizados pela criança. Quando a demos nos identificar com o agredido criança aprende a resolver verbalmen- e tomar partido frente à agressão. te seus conflitos, explicando o que Aliando-nos com a pessoa agredida e aconteceu e entendendo os motivos e culpabilizando ao extremo a criança as conseqüências de seus atos, as envolvida, não estamos tomando dis- situações de agressão e os atos agres- tância e refletindo sobre o ato sivos diminuem. Nesse caso, é funda- agressivo, mas sim fechando uma mental que haja a valorização dessa interpretação.26
  • 27. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância conquista, reforçando-se a aprendiza- gem da criança. Como educadores, temos a possibi- lidade de criar espaços de aprendiza- gem nos quais a agressividade possa se manifestar de forma sadia e equili- brada e nos quais os atos agressivos não sejam mais necessários. Acreditar em nossa capacidade de superar essas situações, tomando-as como desafios constantes em nosso fazer cotidiano, é acreditar em nossa capacidade de transformar e de educar. Referências Bibliográficas BIAGGIO, A. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Vozes, 1985. DELL’AGLIO, D. Controle esfincteriano. UFRGS, 1993 (mimeo). FERNANDEZ, A. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporeidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1993. FERNANDEZ, A. Agressividade: qual teu papel na aprendizagem? Revista Paixão de Aprender. MACHADO, M. C.; NOGUEIRA, N. Como lidar com a criança agressiva. Revista Nova Escola, n.4, 1986. REDL, F.; WINEMAM, D. A criança agressiva. São Paulo: Martins Fontes, 1985. Ilustração de criança do abrigo Maria Goretti / Colombia 27
  • 28. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e Aprofundamento logo para a briga, empurra, joga objetos, Loide Pereira Trois bate ou chuta os colegas. Leia com atenção o caso relatado A intervenção da educadora, nessas abaixo. situações, é utilizar o diálogo e buscar, com ele, as explicações para seus atos Pedro é aluno de um Centro Infantil errados. Embora ele a escute e preste há três anos, sua adaptação foi bastante atenção em sua conversa, não consegue, tumultuada, não queria ficar no Centro posteriormente, cumprir exatamente o de Educação Infantil e nem separar-se de que foi combinado com ela e, algumas sua mãe, fato que a deixava muito ansio- vezes, explica à educadora: “eu não sa e insegura. Aos poucos, com a ajuda e consigo me segurar” . intervenção da educadora e dos demais integrantes da instituição, foi adaptando- se ao grupo e participando da rotina diária. Desse modo, foi aceitando melhor a separação de sua mãe e promovendo uma maior segurança e bem-estar a ela. A mãe do menino começou a ficar mais confiante em seu filho, aspecto que lhe era muito difícil, pois na maioria das vezes considerava-o frágil, com “muita dificuldade” e necessitando sempre de ajuda para fazer qualquer coisa. Após esse período de adaptação, o menino passa a participar ativamente das Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi atividades, entende a rotina diária, é interessado, discute suas idéias e brinca com todos os colegas; no entanto, quan- do é contrariado, fica irritado, muito furioso e não aceita nenhuma forma de negociação ou cumprimento das regras de convivência. Nesses momentos, cos- tuma reagir de forma impulsiva e parte28
  • 29. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Responda e Registre • O que você pensa sobre as atitudes do menino? • Como podemos caracterizar o comportamento desse menino com relação à agressividade e aos limites? • Qual seria sua forma de atuação se fosses educador nesse caso? Leia com atenção a cena abaixo: Marcos e Pedro são colegas da escola e ambos tem 5 anos. Marcos é uma criança bastante ativa, interessada em conhecer o ambiente e aceita com muita facilidade desafios. Pedro não tem irmãos, mora com seus avós e adora brincar de jogar bola, subir em árvores, correr e superar limites. Numa tarde, na hora do pátio, quan- do estavam brincando de futebol, dispu- taram a bola para fazer o gol e acabaram se empurrando. Pedro ficou muito bravo e começou a gritar e a chutar Marcos. Marcos chorou muito e foi socorrido pela educadora que estava no pátio. Diante dessa cena do cotidiano e com base na leitura do texto, responda: • Qual seria a intervenção do educa- dor buscando promover a consciência do ato agressivo? 29
  • 30. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Sebastião Barbosa30
  • 31. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância dessas populações, através da educação e do cuidado das crianças. aúde da Criança Halei Cruz Nessas ações estão incluídos alguns fatores que devem fazer parte da prática “São direitos fundamentais da criança dos responsáveis pela saúde infantil a proteção à vida e à saúde, mediante a dentro e fora de creches e centros de efetivação das políticas sociais públicas que Educação Infantil. permitam o nascimento e o desenvolvimento harmonioso, em condições dignas de Procuramos abordar, neste artigo, os existência.” conhecimentos fundamentais que dizem Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA respeito às medidas preventivas de risco à saúde das crianças, ao seu crescimento, Em primeiro lugar, pensar em saúde à alimentação e aos cuidados. infantil, principalmente na faixa de 0 a 6 anos, é caracterizar o cumprimento dos Precisamos conhecer e operar dentro direitos da primeira infância a uma vida do trinômio educação + saúde + assis- digna, feliz e saudável. tência social, com vistas a colaborar no desenvolvimento da criança com a maior É certo que já existem leis que qualidade possível . regulamentam os direitos das crianças e políticas intersetoriais que operam Nessa concepção, não há áreas estan- em seu favor. No entanto, há que se ques. Devemos considerar a saúde de considerar as grandes dificuldades a forma simultânea, como o conjunto de serem vencidas para que tais políticas ações nas quais estejam envolvidos os atendam, se não à totalidade, pelo programas de serviços sociais básicos de menos a maioria de nossas crianças. educação, assistência social, lazer e cultura. Muitas ações sociais ainda precisam ser desenvolvidas para que se dê plena O crescimento da criança garantia de saúde a um número significa- O crescimento, assim como o desen- tivo de crianças, principalmente àquelas volvimento, é o resultado de modifi- pertencentes às camadas mais carentes e cações estruturais e funcionais que que, em nosso país, representam um ocorrem no indivíduo desde a concep- número considerável. ção até a idade adulta. As instituições de Educação Infantil Muitas vezes, há confusão entre o assumem sua parcela de responsabilida- significado dos termos crescimento e de na tarefa de minimizar as carências desenvolvimento, mas cada fenômeno 31
  • 32. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 tem suas características próprias. En- indivíduo poderá crescer. quanto o crescimento se refere ao • Emocionais – o afeto, a atenção e a aumento das dimensões do corpo, o sensação de segurança favorecem o desenvolvimento significa aquisição de crescimento. habilidades como andar ou falar. O • Socioeconômicos – crianças que crescimento se deve ao aumento de vivem em ambiente de baixo nível socio- volume e do número de células do econômico tendem a apresentar atraso organismo, e o desenvolvimento decorre no crescimento. da maturação, da diferenciação e da • Nutricionais – a alimentação ade- capacidade de ação integrada dos quada fornece matéria-prima para o sistemas orgânicos. crescimento e a multiplicação das células. Todos os animais crescem e se • Neuroendócrinos – os sistemas ner- desenvolvem, mas no homem esses voso e endócrino (produtor de hormônios) processos ocorrem de forma mais lenta e são responsáveis pela regulação do funcio- complexa. Os fatores que interferem no namento do organismo. Desequilíbrios crescimento são: nesses sistemas produzem alterações no • Genéticos – determinam o poten- crescimento. cial de crescimento, isto é, o quanto o O crescimento se inicia a partir da fecundação, isto é, da união do espermato- zóide com o óvulo. O perío- do de cresci- mento da criança dentro do útero mater- no é chamado de período pré- natal e, após o nascimento, período pós- Foto: UNICEF natal.32
  • 33. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância O período pré-natal compreende duas materna deficiente leva à maior probabi- fases: a embrionária e a fetal. lidade de nascimento de uma criança com baixo peso. Considera-se recém- Na fase embrionária, correspondente nascido de baixo peso a criança que ao primeiro trimestre da gravidez, o ser apresenta peso inferior a 2.500 gramas em crescimento é denominado de em- no momento do nascimento. Essas crian- brião. Nessa etapa, o crescimento é ças têm maiores chances de adoecer e lento, ocorrendo a diferenciação das até mesmo de morrer do que as crianças células para formar órgãos e sistemas. A que nascem com peso adequado. exposição do embrião a agentes externos, como radiação, infecções, uso O crescimento pós-natal se dá em de álcool, medicamentos e outras drogas quatro fases: pela mãe, pode levar à ocorrência de • Primeira Infância – do nascimento malformações que são alterações na aos 3 anos. É uma fase de crescimento estrutura e no funcionamento de órgãos. rápido, apesar de mais lento que na fase fetal. Nessa etapa, as carências Na fase fetal, correspondente aos nutricionais e as infecções constituem os segundo e terceiro trimestres da gesta- maiores riscos para a saúde e a vida das ção, há uma aceleração do processo de crianças. Se compararmos o crescimento crescimento. A criança em formação é do indivíduo em toda a sua vida, após o chamada, então, de feto. É a fase da vida nascimento, essa etapa é aquela em que em que o crescimento se faz com maior ele acontece com maior velocidade, velocidade e sofre grande influência do principalmente no primeiro ano de vida. estado nutricional da mãe. A alimentação Ao completar um ano, a criança triplicouIlustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF 33
  • 34. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 o seu peso de nascimento e aumentou As crianças com atraso no crescimen- em 50% a sua estatura. to, ocasionado por fatores como desnu- trição ou infecções, tendem a apresentar • Segunda Infância – corresponde ao velocidade de crescimento maior que a período entre os 3 e os 10 anos. A esperada para a idade após a correção velocidade de crescimento se mantém daqueles fatores. Esse fenômeno é cha- constante e mais lenta que na fase anterior. mado crescimento compensatório e • Adolescência – correspondente ao ocorre até que a criança alcance o nível período entre os 10 e os 18 a 20 anos. que teria se não houvesse o atraso. É Há um período inicial de aceleração da observado, principalmente, nas crianças velocidade de crescimento (estirão abaixo de 2 anos. pubertário) cujo máximo se dá em torno O acompanhamento do crescimento dos 12 anos, para as meninas, e 14 anos, e do desenvolvimento da criança, nos para os meninos. A partir daí, a velocida- serviços de saúde, permite detectar de de crescimento diminui. precocemente, e assim tratar eficazmen- • Parada do Crescimento – ocorre te, problemas que podem comprometer, entre os 18 e os 21 anos, quando o muitas vezes de forma grave, a sua saúde indivíduo alcança o seu ponto máximo e o seu futuro. de crescimento. Alguns tecidos, como a Para o acompanhamento do pele, continuam seu processo de multi- crescimento, utilizam-se gráficos com plicação celular. curvas de referência. Os gráficos mais A necessidade de maior demanda usados, para crianças, são os que nutricional no período de crescimento permitem analisar a evolução do seu determina maior risco à saúde. Quanto peso no decorrer do tempo, tomado em maior a velocidade de crescimento, meses, chamados de gráficos de peso maior será o efeito nocivo da deficiência para a idade. Outros tipos de gráficos nutricional no indivíduo. Portanto, os podem ser utilizados, de acordo com o períodos de maior risco são o pré-natal, objetivo da avaliação do crescimento, a primeira infância e a adolescência. Ao como o de estatura para a idade ou o longo deles é que se deve atuar com de peso para estatura. mais atenção aos cuidados de saúde, Considera-se que o crescimento é como alimentação adequada e preven- adequado quando a criança apresenta ção de infecções. sempre ganho de peso a cada avaliação,34
  • 35. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância principalmente se a sua curva de mentos, o que é chamado de desmame. crescimento acompanha as curvas do gráfico de referência. Devido ao seu valor nutritivo e às vantagens do seu uso, para a criança e Todas as crianças devem ter seu para a mãe, o leite materno deve ser crescimento acompanhado, em avalia- oferecido à criança até os 2 anos, segun- ções periódicas, nas consultas aos servi- do a orientação da Organização Mundial ços de saúde. de Saúde (OMS). A vida e a saúde da criança são direi- O leite de outros animais eventual- tos universais e garantidos pelo Estatuto mente pode ser oferecido ao bebê, mas da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/ com grandes desvantagens em relação ao 90), que regulamenta o artigo 227 da leite humano. Isso porque cada animal Constituição da República Federativa do produz leite de composição específica Brasil. O acompanhamento do cresci- para as necessidades nutritivas e o ritmo mento é a ação de saúde que mais repre- de crescimento dos indivíduos da sua senta a garantia dos direitos da criança. espécie (Tabela 1). Alimentação da criança A alimentação é um dos mais impor- tantes fatores responsáveis pelo cresci- mento do indivíduo. É fundamental que todos os que trabalham com crianças contribuam para que elas tenham acesso à alimentação em quantidade adequada, de boa qualidade, tanto no valor nutritivo como no aspecto de higiene. No início de sua vida, o alimento mais importante para a criança é o leite de sua mãe. Até completar 6 meses, Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi/Kit Família Brasileira Fortalecida/UNICEF o bebê não necessita de outro alimento ou líquido que não seja o leite materno. A partir daí, deve continuar sendo amamentado ao peito, mas com acréscimo gradativo de outros ali- 35
  • 36. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Tabela 1 – Tempo para duplicação do possam causar reações alérgicas no seu peso de alguns animais organismo. Animal / Duplicação de peso Tabela 2 – Diferenças constitucionais Homem / 180 dias Cavalo / 60 dias entre leites Vaca / 47 dias Cabra / 22 dias Humano Vaca Cabra Carneiro / 15 dias Porco / 14 dias Energia (Kcal) 68 68 72 Gato / 09 dias Cão / 09 dias Proteínas (g/100ml) 1.2 3.6 4.0 Cobaia / 06 dias Gorduras (g/100ml) 3.8 3.6 4.0 Fonte: Crespin, 1992. Lactose (g/100ml) 7.0 4.5 4.0 Minerais (g/100ml) 0.2 0.7 0.8 As vantagens do leite materno para Fontes: King, 2001; Wehba, 1991; Pernetta, 1979. o ser humano, em relação a outros tipos de leite, são numerosas e, entre • Equilíbrio emocional – a amamen- elas, temos: tação possibilita o reforço do laço afetivo entre a mãe e a criança, proporcionando • Valor nutritivo – o leite materno sensação de bem-estar para ambas. possui nutrientes na quantidade e na • Desenvolvimento – crianças ama- proporção ideais para o crescimento e o mentadas exclusivamente ao peito, nos desenvolvimento adequado da criança primeiros seis meses de vida, tendem a (Tabela 2). ser pessoas mais extrovertidas, confiantes • Digestão – devido à constituição e inteligentes. Segundo alguns autores, adequada ao organismo do bebê, o leite crianças alimentadas com leite materno materno é facilmente digerido, não raramente apresentam, na idade adulta, provocando distúrbios digestivos como distúrbios sexuais, tendência ao uso de diarréia ou “prisão de ventre”. álcool, de outras drogas ou ao suicídio. • Imunidade – o leite humano possui • Economia – o leite materno não substâncias e células que protegem o precisa ser comprado, o que gera grande organismo do bebê das principais doen- economia para a família. ças infecciosas que podem levar a graves • Praticidade – o leite materno já está conseqüências. Por isso, a criança que pronto e na temperatura ideal para o mama no peito raramente adoece. consumo da criança, dispensando gasto • Alergias – por ser produzido natural- de tempo para o preparo. mente para a criança, o leite materno não apresenta elementos estranhos que36
  • 37. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância • Anticoncepção – mulheres que ama- Na impossibilidade do uso de leite mentam seus bebês, exclusivamente e materno, recomenda-se algum tipo de leite durante os seis primeiros meses, têm pouca de vaca (em pó) modificado, a chamada probabilidade de engravidar nesse período. fórmula infantil. Está demonstrado que alimentação de crianças menores de um • Prevenção de câncer – a ano com leite integral (em pó ou ao natural) amamentação confere à mãe proteção não-humano pode provocar anemias, contra o câncer de mama (antes da distúrbios nos intestinos e nos rins, além de menopausa) e de ovário. Essa proteção é alergias, devido à composição estranha ao tanto maior quanto mais longo é o período de amamentação. • Retorno à forma física – o início da amamentação precoce, isto é, logo após o nasci- mento do bebê, reduz o sangramento uterino pós- parto e facilita a perda de peso da mãe, acelerando o processo de retorno do corpo à forma física anterior à gravidez. A amamentação não apresenta desvantagens e suas contra-indicações são raras, limitando-se ao uso de alguns medica- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / PRODEI / Gian Calvi mentos pela mãe e para a mãe portadora do vírus da imunodeficiência humana adquirida (HIV). 37
  • 38. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 seu organismo. As modificações produzidas ingredientes devem ser cozidos e industrialmente nesses leites visam à redu- amassados. Evita-se o uso de liquidificador ção da ocorrência desses distúrbios. para que o estímulo à mastigação não seja prejudicado. A papa deve conter, pelo A partir dos seis meses de vida, a crian- menos, um alimento de cada grupo ça, mesmo amamentada no peito, deve (Tabela 3). começar a receber outros alimentos, pois a partir daí o leite, isoladamente, não conse- Tabela 3 – Grupos de alimentos constitu- gue suprir suas necessidades energéticas. intes da papa de hortaliças Não é recomendada a introdução de Grupo / Nutriente Básico / Fonte alimentos que não o leite materno antes do sétimo mês de vida, porque só a partir dessa Cereais e Tubérculos(alimentos de base) / idade o organismo estará preparado para Carboidratos / Arroz, batata inglesa, aipim, recebê-los e digeri-los sem sofrer danos. maisena, farinha de trigo, farinha de mandioca, fubá, macarrão, etc. Inicia-se com a introdução de uma refeição de frutas sob a forma de sucos Carnes, vísceras, ovos, leguminosas / (em copo) ou papas, oferecidas com Proteínas, minerais (fósforo, ferro, zinco, colher, em quantidades crescentes, de etc.) e vitaminas do complexo B / Proteína acordo com a aceitação da criança, animal: carne de vaca,frango, peixe, ovos. preferencialmente pela manhã. Deve-se Proteína vegetal: feijão, ervilha, lentilha, soja. preferir frutas maduras, da região e da Vegetal (verduras, legumes) / Vitaminas e estação, por se apresentarem em melho- Fonte: Ministério da Saúde, 1998. minerais / Cenoura, vagem, beterraba, res condições de qualidade e preço. A abóbora, chuchu, tomate, folhas verdes, etc. criança nessa idade já não acorda à noite para comer e solicita refeições em ritmo Gorduras / Lipídios / Óleo vegetal (milho, de quatro em quatro horas. girassol, soja, arroz, algodão), margarina, manteiga, etc. Para os que não são amamentados ao peito, a fórmula infantil deve ser substitu- ída por uma adaptada ao segundo se- A proporção da mistura deve ser de mestre de vida. três partes do alimento base (carboidrato) Após a aceitação das frutas, inicia-se a para uma do alimento protéico e uma dos introdução da papa de hortaliças, oferecida outros grupos (3:1:1). Os cereais devem ser com colher, em quantidades crescentes. Os oferecidos, de preferência, na forma inte- gral.38
  • 39. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância À medida que a criança cresce e O sal e o açúcar devem ser evitados adquire dentes, os alimentos devem na dieta infantil ou, se adicionados, em ser preparados e cortados em quantidades mínimas. pedaços pequenos. Os ingredientes da dieta devem ser A partir de sete a oito bastante variados para evitar monotonia meses, a criança deve comer no sabor e fazer com que ela seja mais a papa de hortaliças em duas nutritiva. Cada refeição deve apresentar refeições diárias (almoço e alimentos de cores variadas. jantar). Ao completar um ano, a criança já Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi Os grãos de leguminosas, tem condições de comer o alimento bem amassados, podem ser habitual da família. incluídos aos oito ou nove meses. Antes dessa idade, No segundo ano de vida, ocorre redu- utiliza-se o caldo das ção natural do apetite. Isso se deve à leguminosas pela dificuldade diminuição da velocidade de crescimento. de digestão da casca dos seus A criança amamentada ao peito deve grãos. continuar com leite materno. Caso Ovo, pescados e tomate contrário, já pode utilizar leite integral. são introduzidos na dieta a Evita-se oferecer doces, guloseimas, partir dos nove meses, por refrigerantes, alimentos em conserva, serem alimentos que provo- enlatados e coloridos artificialmente, cam alergias em algumas por conterem substâncias nocivas ao crianças predispostas. organismo. O regime ideal segue a pirâmide dos alimentos. Aos nove meses, a criança Pirâmide dos alimentos já é capaz de Na sua base, temos as fontes de pegar os alimentos (pão, carne, biscoito, carboidratos complexos, que devem ser etc.) e leva-los à boca. consumidos em maior proporção, e fibras. Esses alimentos são os cereais Quanto ao tempero da papa de horta- (principalmente integrais) e os tubérculos. liças, podem ser usadas ervas aromáticas No centro, as fontes de proteínas, (salsa, cebolinha, etc.), cebola e alho. vitaminas, minerais e fibras (vegetais), 39
  • 40. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 que devem ser consumidos em menores As vitaminas e os minerais são indis- proporções que as de carboidratos. Aí pensáveis para as reações químicas que temos as carnes, o leite, as frutas, as ocorrem no organismo e permitem seu hortaliças e os legumes. No ápice, bom funcionamento. São, então, chama- temos as fontes de carboidratos simples dos de alimentos reguladores. e gorduras, que devem ser consumidos em pequenas quantidades. As fibras são substâncias não absorvi- das pelo organismo, mas importantes Os carboidratos ou hidratos de car- para o funcionamento do sistema digesti- bono (açúcares) e as gorduras são fontes vo. Impedem a absorção de gorduras e de energia para o corpo, sendo chama- açúcares em excesso e regulam o funcio- dos, por isso, de alimentos energéticos. namento dos intestinos, facilitando a eliminação de substâncias desnecessárias As proteínas, por constituírem e nocivas. matéria-prima para a estrutura das células, são chamadas de alimentos A água constitui cerca de 70% do plásticos ou construtores. corpo da criança e é um elemento fundamental para a vida. Ela deve ser oferecida, freqüentemente, sob a forma natural, de sucos de frutas ou outros líquidos. A exceção se faz para o bebê menor de seis meses, que mama exclusivamente no peito e em livre demanda (sempre que solicita), pois, nesse caso, a água contida no leite materno já supre perfeitamente suas necessidades. Durante a infância, os cuida- dos com a alimentação, procu- Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi rando-se oferecer alimentos de boa qualidade, visam a propiciar o crescimento e o desenvolvimento da40
  • 41. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância criança e a criar hábitos saudáveis, pre- escola deve ser amplo e com poucos venindo doenças como o diabetes, a móveis, de modo que a criança tenha obesidade, a hipertensão, as doenças do espaço para explorar e estimular seu coração e alguns tipos de câncer. desenvolvimento, ser forrado e assoalhado, bem ventilado e construído Medidas preventivas de riscos à em terreno seco. Não se pode ter preo- saúde da criança cupação, em demasia, com a “arruma- Os cuidados de prevenção à saúde se ção” dos objetos, pois a criança, na sua relacionam às condições ambientais e exploração do meio, tende a pegá-los e individuais. São os chamados cuidados examiná-los, deixando “fora do lugar”. de higiene. Portanto, objetos que possam ser que- Os cuidados ambientais se referem ao brados ou ferir a criança devem ser local onde a criança vive, que pode ser deixados longe do seu alcance. propício ou adverso ao seu crescimento É importante que a luz do sol penetre e ao seu desenvolvimento. Cabe à famí- no interior da casa ou da escola por um lia, à escola e à sociedade garantir um grande período do dia, principalmente ambiente favorável ao crescimento e ao no quarto e nos locais mais freqüentados desenvolvimento saudável da criança. pela criança. As crianças acima de 2 Os cuidados individuais se referem anos necessitam de um espaço fora da ao trato direto com a criança, à satisfa- casa (quintal ou jardim) onde possam ção de suas necessidades e à garantia brincar, com segurança, parte da manhã da sua saúde. e da tarde. As crianças abaixo dessa idade podem brincar ao ar livre, mas sob O ambiente da criança a observação de uma pessoa ou em um O ambiente onde a criança se insere cercado espaçoso e livre de riscos. deve estar livre de qualquer tipo de polui- ção. A poluição pode ser: do ar (poeira, A casa ou a escola devem ter rede de fumaça, odores desagradáveis, etc.); do esgotos e de água tratada. O lixo deve som (ruídos altos ou desagradáveis); da ser guardado em local apropriado, prote- água (impurezas, microrganismos, subs- gido do acesso de insetos ou outros tâncias tóxicas, dejetos, etc.); da visão animais e do contato das crianças, para o (cores muito intensas, excesso de figuras destino adequado, preferencialmente a no ambiente). coleta por serviço de limpeza pública. Mantém-se o ambiente limpo, tendo-se o O ambiente interno da casa ou da cuidado de eliminar poeira, insetos e odores desagradáveis. A limpeza deve 41
  • 42. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 ser feita com a criança fora do ambiente. dos e aqueles que são ingeridos crus devem ser lavados com água e sabão ou O ambiente deve ser pintado com imersos, por trinta minutos, em água cores suaves e tinta lavável. A decoração com hipoclorito de sódio. A água cuja deve ser simples, evitando-se carpetes, procedência for duvidosa também deve tapetes, poltronas ou quaisquer objetos ser tratada com hipoclorito de sódio, ou que acumulem poeira. Havendo cortinas fervida e filtrada, antes de ser utilizada. e mosquiteiros, recomenda-se que sejam lavados freqüentemente. Os recipientes usados na alimentação devem ter superfícies lisas, que são de Higiene na alimentação fácil limpeza. Cuidados de higiene também devem ser tomados no trato direto com a crian- Na medida do possível, evita-se o uso ça e com sua alimentação. Recomenda- de bicos (chupetas) e mamadeiras. Além se, para a pessoa que cuida da criança, a de outras desvantagens, os bicos são lavagem das mãos sempre que for prepa- facilmente contaminados e de limpeza rar o alimento, como também antes e difícil. As mamadeiras são substituídas depois da troca de fraldas. por copos ou xícaras, mesmo para os bebês. Os alimentos precisam ser bem cozi- Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF42
  • 43. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância A higiene bucal Os passeios Inicia-se, desde cedo, antes do apare- A partir da segunda quinzena de vida, cimento dos dentes. Tem o objetivo de a criança já pode sair de casa, para um prevenir doenças infecciosas (principal- passeio rápido, e tomar “banho de sol”, mente a cárie), a mastigação deficiente, sempre em ambiente livre de poluição. os distúrbios da fala e a respiração bucal. Com o tempo, os passeios se tornam É feita a limpeza da boca da criança, mais longos, permitindo que a criança se inclusive da língua, com gaze molhada, sinta livre e feliz. após todas as refeições. Nas crianças que já possuem dentes, pode-se usar uma Banhos de sol escova pequena com cerdas macias e Os “banhos de sol” têm a finalidade pouca quantidade de creme dental infan- de expor a pele aos raios ultra-violeta, til. Outros cuidados importantes se refe- que facilitam a formação e o aproveita- rem à higiene bucal das pessoas que mento da vitamina D no organismo, convivem com a criança; evitar oferecer prevenindo, assim, a doença chamada de à criança alimentos adoçados com raquitismo. A exposição ao sol deve ser sacarose (açúcar) e limitar ao máximo o iniciada com cinco minutos, aumentan- uso de bicos e mamadeiras. do-se, gradativamente, até trinta minutos por dia. Os horários recomendados são até as nove horas, no verão, e até as onze horas, no inverno. Quando a criança não puder ser retirada de casa, recomenda-se o banho do sol que entra pela janela, desde que os raios não atravessem o vidro. A exposição deve ser de corpo inteiro, exceto a cabeça, poisIlustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF a claridade irrita os olhos da criança. Caso não seja possível, expõe-se pelo menos as pernas. 43
  • 44. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividade física pelo estado emocional da mãe ou pessoa Tem importância tanto no mais próxima. crescimento como no desenvolvimento da criança. O bebê pode ser estimulado Não é recomendado que a criança a se exercitar, massageando-se seu corpo durma na mesma cama dos pais. Para os e movimentando-se seus membros, em bebês, há o risco de serem asfixiados por todos os sentidos, sempre delicadamen- aqueles, inconscientemente, durante o te. À medida que cresce e se desenvolve, sono. Para a criança maior, há o risco de o estímulo é feito com brinquedos, jogos ter prejudicado o seu desenvolvimento e brincadeiras ao ar livre. psicológico e também há o inconvenien- te de retirar a privacidade no relaciona- O sono mento afetivo do casal. O sono, em todos os indivíduos, tem a função de reparar a energia física e A posição ideal para dormir é aquela psíquica, gasta no período de vigília. preferida pela criança, mas, nos bebês Cada um tem seu ritmo de sono, mas em que ainda não sustentam a cabeça, a geral, quanto mais jovem a criança, posição “de bruços” leva ao risco de maior a sua necessidade de sono. Um sufocação. Prefere-se, então, a posição bebê com menos de três meses de vida de lado direito, principalmente após chega a dormir 20 horas por dia. Esse mamar, para evitar a aspiração do ali- tempo vai se reduzindo até que, com 5 mento, caso regurgite. Também se pode anos, ele necessita apenas de 10 horas recomendar a elevação suave da cabe- de sono. ceira do berço. Para um sono tranqüilo, as condições As vacinas favoráveis se resumem à diminuição dos A vacinação é o mais importante estímulos sensoriais. O ambiente calmo, instrumento na prevenção de doenças escuro, a temperatura agradável, a sua que podem debilitar, deixar seqüelas ou posição, as condições da cama e o até levar à morte. Muitas doenças fre- cansaço favorecem o sono. A criança qüentes e temidas até há algum tempo já dorme melhor se o ambiente lhe é famili- estão erradicadas ou ocorrem raramente ar. Assim, o contato com um objeto de graças à vacinação rotineira das crianças. seu uso, na hora de dormir, acalma a É dever dos responsáveis pela criança criança e facilita o sono. manter atualizado o esquema básico de vacinação, oferecido pelos serviços de As crianças, principalmente menores saúde. A escola deve exigir que a vacina- de um ano, têm seu sono influenciado ção da criança não esteja atrasada.44
  • 45. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância As doenças passíveis de prevenção fator importante para o desenvolvimento com as vacinas disponíveis nos postos de de ações preventivas. saúde são: tuberculose, hepatite B, polio- mielite (paralisia infantil), coqueluche A criança menor de seis meses corre (tosse comprida), tétano, difteria (crupe), maior risco na fase de aquisição de habili- meningite por Haemophylus (Hib), sa- dades motoras, como se virar ou pegar rampo, rubéola, caxumba e, em algumas objetos. Nessa fase, há o risco de queima- regiões, febre amarela. duras, quedas e asfixia. As queimaduras são causadas por líquidos excessivamente Prevenção de acidentes quentes em contato com a pele ou ingeri- Os acidentes são causas freqüentes de dos. As quedas acontecem de locais onde atendimento de crianças nos serviços de a criança se encontra deitada, como saúde, podendo, em alguns casos, levar à camas, bancos ou trocadores de fraldas. A hospitalização ou à morte. asfixia é causada por estrangulamento ou engasgamento causados por objetos diversos. Alguns cuidados podem ser tomados para prevenir esses acidentes: – Sempre verificar a temperatura da água do banho do bebê, antes de imergi-lo. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi – Não manusear recipientes com líquidos quentes tendo a criança ao colo ou nas proximidades. – Só oferecer líquidos ou alimentos à criança após certificar-se de que estão na temperatura adequada. Na faixa etária entre 1 e 5 anos, os acidentes já ocupam lugar importante – Quando colocado na cama ou no entre as causas de atendimento nos berço, o bebê deve estar protegido por serviços de saúde. um cercado de grades, com pequeno espaço entre as barras. Os cercados de O conhecimento das principais cau- malha são os mais seguros. sas de acidentes com crianças, por parte dos pais ou professores, pode ser um – Nunca deixar a criança sozinha sobre um trocador de fraldas, mesmo que por um curto espaço de tempo. 45
  • 46. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 – Transportar a criança, em veículo, balões de borracha, travesseiros macios, sempre no colo de um adulto e, no ca- fios, cordões de pescoço, etc.). so de automóveis, no banco traseiro. – Oferecer à criança brinquedos gran- Há assentos apropriados para o trans- des, arredondados, de madeira lisa ou porte de bebês que devem ser utiliza- plástico maleável, que não podem ser dos de acordo com as orientações do engolidos, quebrados e não apresentam fabricante. pontas que possam ferir. – Não oferecer ou deixar ao alcance Dos sete aos doze meses, as crianças da criança objetos pequenos (botões, começam a engatinhar, ficar de pé e, contas, grãos, etc.), perfurantes ou em alguns casos, a andar. Reconhecem cortantes (agulhas, alfinetes, tesouras, objetos pelo contato com a boca e já facas, etc.) e afixiantes (sacos plásticos, começam a explorar o ambiente. Então, há os riscos de afogamento, quedas da própria altura, queimaduras, choque elétrico, intoxicação, ferimentos e asfixia. Os cuidados nessa faixa etária são: – Nunca deixar a criança na ba- nheira sem a vigilância de um adulto. – Não permitir o acesso da criança à cozinha, utilizando grades de prote- ção na porta. – Sempre utilizar as “bocas” posterio- Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF res do fogão para cozinhar. Os cabos das panelas devem estar sempre volta- dos para a parte posterior do fogão. – Deixar líquidos ou alimentos quen- tes, torradeiras, ferro de passara roupa, fios elétricos, etc., fora do alcance das crianças.46
  • 47. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância – Isolar as tomadas elétricas das pare- – Manter sempre travadas as portas des com protetores especiais. dos automóveis. – Evitar o uso de toalha de mesa que – Viajar sempre com a criança no possa ser alcançada e puxada. banco traseiro e protegida com o cinto de segurança. – Colocar portas ou portões nos acessos à escadas e mantê-los sempre fechados. – Segurar sempre a mão da criança ao caminhar próximo a vias de tráfego de – Manter medicamentos, material de veículos e ao atravessá-las. limpeza e outros produtos tóxicos em armários fechados à chave e em local – Iniciar a orientação à criança de como elevado, longe do alcance da criança. se comportar com segurança nas ruas. – Não cultivar plantas tóxicas em casa – Inspecionar previamente equipa- ou no jardim. mentos de parques infantis a serem utilizados pelas crianças. Verificar a As crianças de 1 a 5 anos, na busca do presença de objetos que sejam conhecimento do ambiente em que cortantes ou que possam ser engolidos vivem, estão mais expostas aos perigos. pela criança. Nessa fase, estão propensas a quedas da própria altura e de alturas superiores a – Manter objetos que possam ferir a sua, queimaduras, afogamento, asfixia, criança, como copos ou garrafas de ferimentos, intoxicação e atropelamentos. vidro, tesouras, facas, fósforos, isqueiros, Nessa fase, é importante: etc., longe do seu alcance. – Manter fechados portas ou portões – Nunca guardar armas de fogo em de acesso a vias de tráfego de veículos e casa e, se ocorrer, deixar longe do alcan- não permitir que as crianças brinquem na ce físico e visual da criança e sempre suas imediações. descarregada (sem munição). – Usar sempre tapetes não-derrapantes – Os responsáveis e os professores nos banheiros. devem estar atentos a outros riscos que dependerão do ambiente em que a – Instalar grades ou telas de proteção criança está inserida. nas janelas, principalmente nas que se abrem para lugares altos. – Deve partir do adulto o exemplo de como se comportar com segurança. 47
  • 48. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Referências Bibliográficas ALMEIDA, Isabel Cristina Santos. Importância dos primeiros três NÓBREGA, F. J. Clínica pediátrica. Rio de Janeiro: anos de vida na saúde bucal da criança. Pediatria dia a dia, ano Guanabara,1987. 4, nº 22. Associação dos Pediatras do Hospital Florianópolis: PALMA, Domingos. Alimentação no primeiro ano de vida: Florianópolis, 2002. inadequação do leite de vaca integral. O Berço, nº 14. Areueil, ASSIS, Simone Gonçalvez de. Crescer sem violência, um desafio França: Help Medical, 2003. para educadores. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994. PERNETTA, César. Alimentação da criança. São Paulo: Byk. 1979. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Acompanhamento do PERNETTA, César. Amor e liberdade na educação da criança. São crescimento e do desenvolvimento – ações básicas na Paulo: Byk, 1982. assistência integral à saúde da criança. Brasília: Ministério da RAMOS, Byron de Oliveira; LOCH, Jussara de Azambuja. Manual Saúde, 1984. de saúde do escolar II. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde da criança: Pediatria, 1994. acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Passaporte para a infantil. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. seguraça – cartilha. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Atendimento integrado à UNICEF. O aleitamento materno e o município. Brasília: saúde e desenvolvimento da criança – Módulo I. Brasília: Ministério da Saúde, 1996. Ministério da Saúde, 1994. WEHBA, Jamal. Nutrição da criança. São Paulo: Byk, 1999. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guias alimentares para crianças menores de dois anos no Centro-Oeste do Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 1998. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Violência contra a criança e o adolescente. Brasília: Ministério da Saúde, 1993. CRESPIN, Jacques. Puericultura: ciência, arte e amor. São Paulo: Byk, 1992. CUSMINSKY, M.; LEJARRAGA, H.; MERCER, R.; MARTELL, M.; FESCINA, R. Manual de crecimiento y desarrollo del niño. Washington: Organización Panamericana de La Salud, 1986. DESLANDES, Suely Ferreira. Prevenir a violência, um desafio para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994. KING, F. Savage. Como ajudar as mães a amamentar. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. MARCONDES, Eduardo; ALCÂNTARA, Pedro de. Pediatria básica. São Paulo: Sarvier, 1974. MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO. Redução das vulnerabilidades aos desastres e acidentes na infância. Brasília: Dedec, 1996. MURAHOVSCHI, Jaime. Alimentação no primeiro ano de vida. Pediatria Dia a Dia, ano 5, nº 25. Florianópolis, SC: Associação dos Pediatras do Hospital Florianópolis. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi48
  • 49. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo • Peça a enfermeiros, médicos e e Aprofundamento dentistas para fazerem palestras e de- Maria Helena Lopes monstrações para crianças e familiares abordando aspectos da educação para a O autocontrole em saúde depende saúde. Registre a experiência colhen- consideravelmente do desenvolvimento do um parecer dos pais sobre o de hábitos e atitudes que se forjam nas conteúdo das palestras. infâncias e da oportunidade de exercitar habilidades para desenvolvê-las. • Os profissionais da saúde também podem colaborar na organização de programas de acompanhamento do cres- cimento das crianças ou de prevenção de acidentes. Tente uma das alternativas e registre como julgar mais adequado.Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF 49
  • 50. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Foto: Sebastião Barbosa50
  • 51. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância E, como a criança está sem espaço e rganização do Tempo sem tempo – pois se não há espaço o e do Espaço tempo tem que ser preenchido –, a Elizabeth Amorim agenda fica cheia de compromissos: judô, balé, natação, inglês, futebol... Ufa! “Qualquer situação planejada como contexto para o desenvolvimento da criança envolve Já nas classes menos afortunadas, uma proposta de atividades e o planejamento algumas crianças saem muito cedo, junta- do tempo e do espaço para a realização das mente com os pais, quando não sozinhas, mesmas.” para a escola ou para o comércio informal Zilma de Moraes Oliveira a fim de ganhar a vida. Gostaríamos de iniciar este artigo E brincar de criança quando? No refletindo um pouco sobre a pressa que Centro de Educação Infantil! Por isso, a vem atingindo de maneira esmagadora a instituição infantil deve ter como grande sociedade de nosso tempo e, por conse- preocupação a de ser o lugar que qüência, a criança: parece que há pressa permita a criança ser criança, necessita para que a infância acabe logo! ser o espaço privilegiado para que a criança sinta e desfrute a vida com ale- Não há pressa, já aconselhava gria e prazer. Frente a esse importante Rousseau. Sem ela, há tempo de viver as papel, ela deve estar organizada de tal experiências próprias da infância, do forma que propicie à criança extrair o jogar, do brincar, do divertir-se na água e máximo das experiência nela vividas. acompanhar a bolinha de sabão até que ela estoure ou suma nas alturas. Organizando o tempo Sabemos que o dia-a-dia é constituído Em tempos de grades nas janelas e de atividades rotineiras. No entanto, não portões, de apartamentos, de calçadas e fica restrito a elas; ao contrário, é muito ruas perigosas em todos os sentidos, de mais do que o repetitivo, quase automático espaços lúdicos delimitados em praças e do “todo dia ela faz tudo sempre igual”, shoppings, não há mais lugar para ser como canta Chico Buarque. criança sem hora marcada. Isso quando os pais têm tempo de marcar hora! Assim, a organização do tempo na instituição infantil não deve ser rígida e Assim, vemos pais dizendo, orgulho- tampouco obedecer ao pré-estabelecimento sos, que sua criança tem tantas aulas de momentos. Se as atividades obedecem – especializadas, tornando-a efetivamente como esquema – a uma ordem, hierar- um adulto em miniatura. quia e tempo pré-determinados, 51
  • 52. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 transformam-se em uma “rotina da rentes atividades do dia rotina estejam infância, que pode tornar-se uma adequadas à faixa etária do grupo, a fim alternativa de dominação por não de que sejam respeitados tempo de considerar o ritmo, a participação, a concentração e interesses das crianças. relação com o mundo, a realização, a Dessa forma, os fazeres da rotina dos fruição, a liberdade, a consciência, a berçários será diferente das crianças de 3 imaginação e as diversas formas de socia- anos, que por sua vez não será igual ao bilidade das crianças nela envolvidas”. grupo de 5 anos. Ao mesmo tempo, devemos intercalar atividades individu- A criança não tem hora para viver, e ais/grupais/coletivas, movimentadas/ as teorias de desenvolvimento compro- semimovimentadas/calmas, alternando vam que a criança pequena aprende também as propostas que exigem maior mediante ação e experimentação, daí a atenção e concentração. necessidade de vivências que sejam realmente significativas. Não negamos Para você auxiliar as crianças na aqui a organização do tempo: há que se orientação espaço-temporal, uma vez ter um plano de ação sim! A nossa preo- que necessitam de referências para cupação é como acontece o planejamen- situarem-se (é comum perguntarem se é to e a organização. antes ou depois do almoço, do pátio, etc.), é aconselhável iniciar o dia com o O que não concordamos é com uma planejamento da rotina e das atividades. seqüência de momentos que precisam É na rodinha da conversa que, entre ser cumpridas, como obrigação. Igual- outros assuntos, planejamos os nossos mente as atividades não devem “surgir momentos; inicialmente é realizado por do nada”, sem sentido nem significado nós e apresentado ao grupo, mas para as crianças, pois assim fica a gradativamente vai sendo feito junto com atividade pela atividade, sem significado. as crianças. Mesmo o grupo de 2 anos já Atividade mecânica, simplesmente dese- é capaz de opinar escolhendo momentos nhar, por exemplo, porque é hora do e fazeres. A maneira de pensar as desenho; jogar porque é hora do jogo e atividades, possibilitando o entrosamento não por estarem fazendo parte de um das crianças em sua elaboração, terá contexto maior que dê sentido ao fazer e dimensões diferentes se tomarmos como para que as crianças entendam o que referência a idade delas. Com crianças estão realizando e percebam o porquê e bem pequenas, são os gestos, os olhares o para quê. e o choro as manifestações que devemos Igualmente importante é que as dife- observar, enquanto nas maiores as52
  • 53. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância combinações já são compartilhadas pelo – Cuidado Pessoal: momentos de diálogo, mesmo que a expressão oral alimentação, higiene e descanso. ainda não esteja totalmente estabelecida. O que importa é a participação da É claro que no berçário essas ativida- criança! des ocupam boa parte do tempo, visto as crianças necessitarem de maior atenção Lembrete: Como todos os fazeres são educativos, ali- mentação, higiene e sono fazem parte do planeja- mento diário. As atividades podem ser organi- zadas em quatro grupos que devem, como já sabemos, estar adequados ao desenvolvimento das crianças e aos nossos objetivos. – Planejamento Coletivo: envolve o todo, seja na sala – como ar- rumação da mes- ma –, seja na instituição, como Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi passeios, teatros e comemorações. 53
  • 54. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 nos cuidados físicos. No entanto, os Quando as crianças chegam diaria- fazeres devem ser parâmetros, e não mente ao centro infantil, gostam de “severos fiscais” que impedem a espon- sentir-se esperadas, aguardadas, pois esta taneidade e o prazer que os diferentes é também uma das formas de demons- momentos provocam. trarmos que temos vínculos com elas. Não aguardamos com satisfação a che- – Orientadas: atividades coordena- gada em nossa casa de uma pessoa da das por nós, educadores, envolvendo qual gostamos muito? todo o grupo. Assim, recebemos nossas crianças Nesses momentos, percebemos como com afeto e alegria, abraçando e conver- as crianças atendem propostas coletivas sando com cada uma que chega. Da e exigem, muitas vezes, atenção e con- mesma maneira, devemos preparar o centração. O planejamento coletivo é ambiente com propostas e brinquedos uma dessas atividades, como também as que permitam a cada uma – individual- que envolvem os projetos em desenvolvi- mente ou em grupos – manter-se mento; os relatos de situações vividas; envolvida até que o grande grupo esteja pesquisas em diferentes fontes; rodas completo. cantadas; atividades corporais orientadas e baseadas em técnicas de artes plásti- Ao finalizar essas reflexões sobre os cas, entre outras. momentos no Centro de Educação Infan- til, não poderíamos deixar de fazer refe- – Livres: momentos de escolha livre por rência ao estabelecimento de regras, pois parte das crianças. Tanto em espaço inter- sem elas não há organização, e nada é no na sala do grupo e salas coletivas produzido se não organizado, nem que quanto em espaço externo, como pátio e seja de forma mínima. pracinha. Aqui temos inúmeras oportunidades de interagir com as crianças Inicialmente, algumas regras necessi- e incentivar a interação entre elas. É tam ser impostas por você, até por segu- também o momento em que podemos rança das crianças, como, por exemplo, conversar individualmente com cada uma não sair da sala sem avisar, não atirar das crianças para conhecê-las melhor. brinquedos, etc. As regras devem ser claras e explícitas para evitar interpreta- Atenção: momentos livres não ções diferentes, bem como explicadas significam crianças soltas e educadoras para que a criança entenda o porquê e conversando! não saia obedecendo cegamente, só por porque a orientação partiu de um adulto.54
  • 55. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Então, você vai auxiliando, no desenvolvimento das crianças, a orga- gradativamente, o grupo a discutir e nização do espaço é tão importante quan- elaborar as próprias regras a partir de to a organização das atividades, pois é nele situações surgidas. Um exemplo que elas acontecem, é nele que as crianças típico é o das canetinhas hidrocor permanecem, interagindo com ele e com com a ponta para dentro. A regra os outros, sendo protagonistas de suas “não bater com as canetinhas” só terá ações. A organização espaço/ambiente sentido e poderá ser construída pelo oportuniza a construção da autonomia, grupo depois de ter vivido a situação porque oferece distintas opções “de fazer”, de que a caneta não funciona com a sem a interferência do educador, brincan- ponta para dentro. do com liberdade e independência. A educadora deve, de forma tranqüila e natural, fazer uso de sua autoridade sendo firme e coerente, pois as crianças precisam de refe- rência e segurança. Isso não quer dizer chantagear, castigar ou ameaçar, mas conter a criança se assim for necessá- rio, não permitindo que utilize inadequadamente algum brinquedo ou material, ou mesmo agrida algum compa- nheiro. As sanções devem ser imediatas e por reciprocidade: rasgou o livro, vamos colá-lo. Jamais tirar o recreio – por exemplo – que não tem relação nenhuma com a rea- ção indesejada. Organizando o espaço Foto: Sebastião Barbosa Partindo da premissa de que o meio e o espaço influenciam 55
  • 56. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 É claro que, ao organizar o espaço, Esses arranjos espaciais possibilitam você deve considerar o tamanho da sala, às crianças buscarem os pequenos gru- o mobiliário disponível, a faixa etária e o pos de acordo com os interesses, sem número de crianças que ali permanecerão, necessidade da constante atenção e evitando – no desejo de oferecer várias interferência do adulto. A interação entre situações e cantinhos – transformar a sala as crianças – tão importante quanto a num verdadeiro “brique”. Se o seu espaço interação adulto/criança – também é é pequeno, faça rodízio (semanal ou favorecida nesses espaços definidos, que mensal) do material. A possibilidade de podem ser organizado em “cantinhos” modificar o ambiente é atraente às crian- com temas assim estruturados: ças, sempre curiosas por novidades, porém às vezes causa transtornos e exige – Casa de Bonecas: composta de obje- dedicação dos educadores. tos e utensílios de uma casa, que poderão inclusive ser confeccionados com sucata. Dividir o espaço por áreas de ativida- des em arranjo espacial semi-aber to, – Canto da Fantasia: como o nome onde são utilizados móveis baixos cuja sugere, tem fantasias, roupas de adultos característica principal é o seu fecha- chapéus, maquiagem, espelho, panos mento em pelo menos três lados, promo- diversos, gravatas, echarpes, etc. ve relacionamentos agradáveis entre – Canto da Biblioteca: além de adultos e crianças. A criação de ambien- livros, jornais e revistas, pode ser ambi- tes atraentes, além de propiciar desco- entado com almofadas e/ou tapete. bertas e aprendizes, contribuem para o bem-estar, a harmonia e a segurança das – Canto dos Jogos e Brinquedos: crianças. incluindo quebra-cabeças, jogos de montar, de encaixe e de armar, brin- Dessa forma, a delimitação do espaço quedos diversificados. Procure ter mais é feita através de estantes, aparadouros, que um brinquedo de cada tipo, evi- um fogãozinho (no canto da casinha), ou tando, assim, disputas desnecessárias. mesmo almofadas e tapetes. Quando forem móveis, o importante é que sejam – Cantos Alternativos: variam de baixos para que as crianças possam ver a acordo com o interesse do grupo ou os educadora, principalmente se o seu projetos em desenvolvimento, po- grupo é de faixa etária até 3 anos. Até dendo focalizar Música, Supermerca- essa idade, para a criança sentir-se segura, do, Museu, Cabelereiro, Oficina e é fundamental a proximidade física e tudo o mais que você e seu grupo de visual de quem cuida dela. crianças idealizarem.56
  • 57. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância O espaço na instituição infantil, Logicamente, nos berçários os arran- então, deve ser visto como parte inte- jos espaciais são diferentes, porque os grante da ação pedagógica, pois exerce interesses e as necessidades dos bebês influência em quem nele convive. são outras. Mas as divisórias em dife- Igualmente, mostra-se como “vitrine” dos rentes tamanhos estão presentes, uma pressupostos teóricos que orientam a vez que oferecem desafios para aqueles prática daquele educador e do tipo de que já engatinham, assim como os pe- relações que são estabelecidas. Estantes quenos túneis e barraquinhas abertas, e prateleiras altas não permitem a plena que podem ser confeccionadas com comunicação entre as crianças. Nesse caixas de papelão em diferentes tama- ambiente, o grupo não tem acesso aos nhos, decorados com pinturas ou for- materiais sem a interferência do adulto, radas com tecidos ou papéis. demonstrando ser ele (adulto) o centro do processo, não havendo, portanto, estímulo O espaço do berçário deve dar opor- à construção intelectual e social, já que as tunidade de movimento, exploração e crianças dependem da educadora até para interação com objetos e entre os bebês. alcançar-lhes o que desejam. Assim, espelhos, bolas, objetos sonoros, mordedores de diferentes formatos,Foto: Sebastião Barbosa 57
  • 58. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 carrinhos, bonecas, garrafas plásticas outros podem ter uma idéia para a amplia- vazias e/ou contendo objetos, são ção dos estudos. Então, penduramos alguns exemplos do que é interessante móbiles, expomos fotos deles e das famílias para os bebês. e podemos pôr algumas figuras de bebês e bichinhos também. Porém, tudo de Como educadora, você deve estar forma aconchegante, em tons claros, atenta aos progressos e interesses das para que o espaço não fique poluído de crianças para que possa ir mudando os imagens e cores. estímulos e apresentando novos e interessantes desafios. Elas precisam Devemos lembrar sempre que a crian- empurrar e puxar objetos, encaixar, ça precisa da diversidade de espaço, empilhar, imitar, esconder, engatinhar, materiais e brinquedos. Então, livros de agarrar e agarrar-se, virar-se, balançar, história, material de desenho, cordas, rasgar, experimentar macio/áspero, cordões, tacos de madeira, jogos varia- mole/duro, enfim, elas precisam dos, sucatas, caixas e muitos outros contatar com o mundo! Então, entram devem estar à disposição e ao alcance de colchonetes, balanços, almofadas em cada um. O material não precisa ser tamanhos e texturas diferentes, caro, tampouco sofisticado, basta que escorregadores, objetos sonoros e de desafie a curiosidade da criança. diferentes texturas e tamanhos. Com certeza, você possui criatividade Quanto à decoração, salientamos a suficiente para enriquecer, juntamente importância da estética e do capricho. com as crianças, o espaço de vocês e, Nas paredes, devem estar a produção sem dúvida, o tempo será preenchido artística ou os escritos das crianças, seus com atividades enriquecedoras porque desenhos e “bilhetinhos”, cartazes feitos variadas, significativas e prazerosas. por elas para ilustrar projetos, enfim, Referências Bibliográficas elementos que tenham sentido e HORN, Maria da Graça. Sabores, cores, sons, aromas: a organização significado para o grupo. dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2003. OLIVEIRA, Zilma Morais de. (Org.). Educação infantil: muitos olhares. São Paulo: Cortez,1994. Os bebês ainda não desenham, recor- ______. et al. Creches: crianças, faz-de-conta & cia. Petrópolis: tam ou colam, portanto o material Vozes, 1992. exposto deve “comunicar” a crianças e REDIN, Euclides. O espaço e o tempo da criança: se der tempo a gente brinca. Porto Alegre: Mediação,1998. adultos o que se está fazendo no Centro RIZZO, Gilda. Creches: organização, currículo, montagem e de Educação Infantil. Observando os funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. trabalhos expostos, pais e visitantes ROSSETI-FERREIRA, Mª Clotilde. et al. Os fazeres na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2001. podem trazer outros materiais, enquanto58
  • 59. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e Aprofundamento Maria Helena Lopes • Após a leitura do texto, faça uma análise comparativa das fotografias abaixo, refletindo sobre a organização do espaço. • Observe uma sala de berçário ou maternal avaliando suas instalações quanto à estética e às possibilidades de exploração dos objetos. Registre sua observação. • Confeccione uma maquete ideali- zando a sala onde você gostaria de estar diariamente com suas crianças. Utilize sucatas e muita imaginação.Foto: Sebastião Barbosa 59
  • 60. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Pontos de Reflexão e Ação pleno é o tempo presente: passado e Euclides Redin, em seu livro O Espa- futuro só contam se forem presentes com ço e o tempo da criança: se der tempo a seu peso, seu fogo, sua esperança, sua gente brinca, diz que: garra(...).” “A vida não existe em função de • O que você pensa sobre estas pala- nenhuma etapa ou período: a vida deve vras? Converse com os colegas e juntos ser plena em todo o tempo. O tempo façam uma poesia. Foto: Sebastião Barbosa60
  • 61. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Pedagogia de Projetos e as formas peculiares e originais de as crianças se expressarem. O conhecimen- a Mediação do Educador to sobre a faixa etária na qual atuamos é Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes a ferramenta que nos permite melhor interpretar a criança em suas ações e Relato de uma professora: diferentes linguagens, bem como perce- Quando as crianças dão-se conta bermos suas necessidades e potenci- de que são capazes de realizar alidades. Aprendendo como é a criança, descobertas através da pesquisa, você poderá observá-la melhor, estando tornam-se cada vez mais curiosas atenta a seus movimentos, brincadeiras, e ávidas por iniciar novas jornadas jogos e todos os desafios que ela nos de estudo. impõe, porque ela tem a sua maneira Mal “terminam” um projeto e já peculiar de pensar e é capaz de viver o estão pensando sobre o próximo. mundo através do brinquedo, do sonho e – Profe, quando a gente terminar da fantasia. Há coisas de criança que só de estudar os morcegos, o que nós se aprende com criança. vamos fazer? Realmente o mundo infantil nos desafia, talvez porque tenhamos esquecido (ou Não podemos falar em ação pedagó- gica sem nos referirmos a um pré-requisito fundamental para que ela aconteça de forma adequada: a observação. Sim, é a observação constante das crianças e de seus fazeres, tanto in- dividuais quanto grupais, que nos permite realizar Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi a leitura adequada da su- as necessidades e interes- ses. Por isso, é preciso estar de olhos bem aber- tos e ouvidos atentos para que possamos interpretar 61
  • 62. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 abafado?) o nosso lado criança, o mesma forma, possuem hipóteses sobre encantamento e o lúdico. Você já experi- o mundo, assim como avidez de des- mentou estar, efetivamente, junto com as coberta e experimentação. Por isso são suas crianças, sendo parte integrante do seres ativos, barulhentos, capazes e grupo? Isso significa mergulhar nos exploradores do meio que os rodeia. A fazeres cotidianos, realizando junto ênfase na observação das crianças é algumas propostas e participando das desencadeadora de contextos ou situa- brincadeiras e construções. ções que se tornarão temas de estudos, ou melhor, de projetos pedagógicos. Há quanto tempo você não “suja” as mãos com barro, areia ou tinta junto com o Na organização da ação educativa grupo? E o prazer de “amassar” a argila? através de projetos, a chamada pedago- Qual foi o seu personagem quando as gia de projetos, as atividades se relacio- crianças se fantasiaram naquele dia? Quan- nam, organizadas segundo temas do entrou nas brincadeiras de faz-de-conta? pertinentes à vida das crianças. Os Se não lembra, que pena, você perdeu bons projetos assim desenvolvidos, respeitan- e proveitosos momentos! Primeiro, porque do o contexto sociocultural das crian- deixou de se deliciar; segundo, porque ças, bem como seus interesses, perdeu (de novo!) grandiosas oportunidades necessidades e questionamentos, devem de entender (ou lembrar?) um pouco mais o possibilitar que elas questionem, criem, universo infantil; terceiro, porque deixou de estabeleçam relações sociais e compre- observar e perceber mais detalhadamente endam o significado e o funcionamento interesses e necessidades dos seus das coisas e do mundo. pequenos amigos. Não há fórmula nem esquema para a É possível constatar, então, a impor- construção de projetos, pois sua estrutura tância e a necessidade da observação no depende do assunto a ser tratado, das ca- nosso cotidiano pedagógico, pois é através racterísticas do grupo, do tipo de relações dela que obtemos as pistas para propor que estabelecem, das experiências prévias atividades significativas e contextualizadas e do tipo de problema exposto. Além dis- porque originadas no e do grupo. so, o tempo é variável, na medida em que está ligado a essas condições citadas, Vale lembrar que lidamos com seres por isso, pode durar um dia, uma semana, que têm uma história familiar e social um mês... (mesmo um bebê de três meses já tem uma história de três meses!) e, portanto, Apresentamos de forma sucinta, experiências socioculturais variadas. Da porém bastante esclarecedora, os possí-62
  • 63. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância veis passos de um projeto de trabalho na Em outras situações, os projetos po- instituição infantil. dem surgir a partir da observação das brincadeiras e dos jogos realizados pelas Escolha do tema crianças. Assim foi no grupo de 3 anos Pode organizar-se em projetos no qual as freqüentes e cotidianas care- anteriores, em situações vividas pelas tas frente ao espelho originaram o “Meu crianças, em proposições da educadora e rosto se mexe”, que teve continuidade no da escola, em atividades como passeios projeto “Todo o meu corpo se mexe?”. e visitas, em anseios dos pais. Em outra situação, uma determinada Às vezes, um acontecimento “bom- escola julgou necessário trazer para bástico” pode originar um projeto, como estudo e reflexão a temática dos senti- aconteceu em um grupo de crianças mentos e valores, devido às manifesta- entre 4 e 5 anos. Certo dia, uma das ções excessivamente agressivas das crianças chega mais tarde, causando um crianças. O grupo de educadores deci- grande rebuliço no grupo: estava com o diu abordar a temática da paz, ficando a pé engessado (inclusive o gesso ainda critério de cada um, com seus alunos, a não estava bem seco) e, mais, trazia jun- maneira de abordagem ou o caminho a to a radiografia que mostrava claramente ser percorrido. Encaminhadas as o osso partido! A admiração foi geral, reflexões sobre o tema, cada grupo surgiram inúmeros questionamentos e organizou uma atividade que expressou hipóteses que resultaram no projeto seus sentimentos sobre a importância “Todos nós temos esqueleto”, que durou das relações interpessoais harmoniosas. o tempo do “engessamento” , como as Foram elas: teatro, criação de letras e crianças diziam. músicas, entre outros.Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi 63
  • 64. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Relato de Experiência relação direta com a nossa realidade. As Professora Janice Oliveira crianças começaram a perceber que, na maioria das vezes, quem age correta- A turma do Jardim A1 já vinha discu- mente acaba lucrando, pois torna-se uma tindo algumas questões de convivência pessoa benquista por todos à sua volta. entre o grupo, quando a escola propôs Elas perceberam que quem bate no que realizássemos uma grande campanha colega, arranca brinquedos das mãos dos para o trabalho com a PAZ. outros ou não consegue respeitar as Começamos a investigar com as pessoas que convivem ao seu lado acaba crianças a maneira como todas as pesso- ficando sozinho, sem amigos. as gostam de ser tratadas. Podemos bater Para a finalização do projeto, planeja- nas pessoas que estão à nossa volta? mos a execução de um jogo que conti- Podemos mexer nos objetos dos outros vesse toda essa tomada de consciência. sem permissão? Quando queremos algo, Num jogo de trilha, em que as equipes como é que pedimos? O que fazer jogam um dado para ver quantas casas quando alguém bate na gente? E quando devem andar, aparecem situações “boas” batemos nos outros? O que acontece e “ruins” do nosso cotidiano. Através de com pessoas que não cumprem as cartas que significavam “sorte” ou “azar” , “regras básicas” de convivência? Estas e as crianças ilustraram tais situações. outras questões serviram de introdução a Cada criança escolheu uma situação esse trabalho que apresentou um para ilustrar de duas formas: uma positi- excelente resultado para o grupo. va e outra negativa. Por exemplo: quem Trouxemos para as crianças uma cole- escolheu ilustrar crianças emprestando ção de livros da editora Moderna chamada seu brinquedo deveria ilustrar a negativa “Valores” dos autores Brian Moses e Mike , dessa situação, ou seja, as crianças Gordon. São quatro livros com os seguin- brigando pela disputa de um brinquedo. tes títulos: “Com licença?” Aprendendo Colamos os desenhos de boas ações em sobre convivência; “Deixa que eu faço” cartas vermelhas e os de más ações em Aprendendo sobre responsabilidade; “Não cartas amarelas. Quando uma equipe fui eu!” Aprendendo sobre honestidade; “E caísse numa casa da trilha que contivesse eu com isso?” Aprendendo sobre respeito. uma estrela amarela, deveria comprar uma carta amarela, que traria consigo A partir da leitura das histórias, que um “castigo”, do tipo “fique uma rodada mostram situações bastante comuns no sem jogar” ou “volte duas casas” junta- , cotidiano das crianças, fazíamos uma mente com a descrição da ação ilustrada,64
  • 65. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância e o contrário acontecia com quem com- sentido para outro grupo de crianças que prasse uma carta vermelha, tendo maiores não tivesse vivenciado o processo com chances de chegar ao final do jogo. Por os mesmos passos que nós. Passamos a fim, a equipe que concluísse primeiro, perceber uma grande diferença no ganhava como “prêmio” a mensagem: tratamento entre as crianças depois desse trabalho. Atualmente, percebemos com “PARABÉNS! VOCÊ CHEGOU AO freqüência situações em que os colegas FINAL DO JOGO E SABE O QUE se ajudam, se respeitam em suas diferen- CONQUISTOU? UMA PORÇÃO DE ças e, o mais importante de tudo, são AMIGOS”, reforçando a idéia de que, felizes com os amigos que têm. quanto mais nos empenharmos em tornar as pessoas ao nosso redor felizes, Esboço do Jogo mais felizes seremos também. Cartas amarelas (16), com situações A idéia inicial era a de que empr estás- ilustradas e descritas como o exemplo semos o jogo para as outras turmas joga- abaixo: rem. No entanto, chegamos à conclusão de que talvez esse jogo não fizesse muito Você debochou de um colega e eleIlustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi 65
  • 66. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 começou a chorar. Você vai ter que dar que já têm do assunto, o que desejam um jeito nisso. Volte uma casa. saber e aprender e, ainda, como vão Cartas vermelhas (16), com situações fazer para que isso aconteça. ilustradas e descritas como o exemplo: Normalmente, fazemos uma listagem por Você elogiou o cabelo de uma amiga escrito dos itens citados pelo grupo para e ela ficou muito feliz. Jogue outra vez. ordenarmos as idéias; também seleciona- 5 PEÕES COLORIDOS (tampinhas de mos os recursos que serão utilizados. amaciante) 5 PEQUENOS CRACHÁS DA COR DE A listagem sobre “o que já sabemos”, CADA PEÃO (para identificar as equipes) “o que queremos saber” e “como vamos 1 DADO GRANDE COM NÚMEROS fazer” além de servir de base para o , DE 1 A 6 planejamento das atividades (individuais, 1 TRILHA (contendo cenas dos livros em pequenos e grande grupo) e da distri- utilizados, para ilustração) buição do tempo, é também o momento da avaliação inicial. Esse momento servirá, Já com bebês, os temas são posteriormente, como parâmetro da avalia- resultado basicamente da observação ção final do projeto. Não esquecendo que que você realiza no seu grupo e de cabe a nós “enlaçarmos” os temas aos cada criança individualmente. Por isso, objetivos gerais previstos para o semestre você deve estar muito atenta às mani- ou o ano e igualmente prever possíveis festações e reações para melhor assuntos que poderão ser desenvolvidos. interpretá-las, lembrando sempre o quanto é importante a organização de Aprendizagem do educador um ambiente estruturado de modo a e das crianças desafiar a exploração do espaço e dos Ensinando também se aprende (em materiais. Um exemplo poderia ser todos os sentidos). Então, ao elegermos sobre a alimentação dos bebês. Ofere- um tema, devemos nos atualizar em cer papinhas geladas e quentes, relação a ele e, inúmeras vezes, aprende- alimentos doces e salgados, registrando mos mesmo! Principalmente entre crian- através de fotografias as expressões ças a partir de 4 anos, é comum surgirem faciais das crianças. conteúdos que exigem de nossa parte um aprofundamento maior em relação a ele, Organização das atividades mesmo porque cabe a nós ampliar os É quando, após a escolha do tema, conhecimentos do grupo e fazer-lhe você organiza situações em que as novas propostas de trabalho. Um exem- crianças manifestam o conhecimento plo que ilustra esse aspecto foi o interes-66
  • 67. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância se de um grupo de crianças sobre o dia que as crianças realizam, por isso em que aconteceu um eclipse solar. O devemos manter os pais informados sobre interesse foi tamanho, que obrigou a os projetos em andamento, seja através de educadora a estudar muito sobre os bilhetes, cartazes, avisos na porta ou astros do sistema solar e seus fenômenos. reuniões. Coleta de informações Materiais É realizada por todos, isto é, você, as Lembremo-nos de que os materiais crianças e os pais. Como o título sugere, precisam estar acessíveis às crianças e o é o momento de ir em busca das infor- espaço organizado para elas e por nós. mações que ampliarão os conhecimen- Devemos estar disponíveis como apoio tos sobre o assunto em foco. As fontes nesse ambiente de pesquisa. Registrar diversas não somente enriquecem, co- por escrito as situações é necessário, mo também, através de suas diferentes porque os registros orientam o que linguagens, possibilitam atingir os esti- devemos selecionar e eleger como mais los de aprender de cada criança. Então, significativo para realizar. livros variados, jornais, revistas, passei- No berçário, podemos dizer que os os orientados, observações, entrevistas, materiais e o ambiente são os “informan- exploração de materiais e experiências tes”, pois são fonte de socialização e concretas são algumas fontes que bus- camos. É interessante, dentro do possível, en- volver os pais, que por sinal muito nos auxiliam no desenvolvimento dos proje- tos. Além de ser muito bom para a crian- ça envolver-se junto com a família, os pais são ótimos informantes, e as infor- mações chegam variadas, tanto em lin- guagem como na maneira de exposição. Essa alternativa igualmente proporciona Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi uma aproximação maior da família com a instituição, com a educadora, com as demais crianças e respectivas famílias do grupo de seu filho. Sabemos sobre a im- portância das famílias acompanharem o 67
  • 68. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 estimulação dos bebês. O ambiente deve E o pinto foi substituído, posteriormente, ser visto como “educador auxiliar”, pois, pela Tuca (uma caturrita) e pelo Teteco (um se bem estruturado, pode ser um provo- canário) que acompanharam as peripécias cador de aprendizagens com suas almo- daquele grupo até o fim do ano! fadas, cestas de brinquedos, bolas, jogos de manipulação, brinquedos de constru- Sistematização das informações ção e tantos outros materiais já apresen- É realizada na apresentação do mate- tados, bem como a organização do rial coletado e no momento em que são tempo e do espaço. O registro escrito aqui feitas as relações e comparações entre as também existe como auxílio na reflexão informações. É quando realmente as sobre os fazeres. “O Prazer do Banho”, coisas acontecem com todos tendo “Rolando com Garrafas”, “Na Caixa de participação ativa em esforço coope- Areia” são alguns dos exemplos de rativo. Há diálogo e interações, com projetos alegres que podemos vivenciar. fazeres individuais e coletivos. A partir dos 3 anos, muitas vezes as Você deve preocupar-se em utilizar crianças querem “estudar” o que já conhe- diferentes linguagens (desenho, modela- cem, cabendo à educadora auxiliá-las, gem, pintura) e organizar as informações criando possibilidades de conhecerem mais de tal forma que apresentem variedade de sobre o assunto e organizando um ambiente enfoque. Assim, são construídos jogos, que estimule novos conhecimentos. Assim, textos coletivos, teatros e dramatizações, quando Vitória (3a3m) levou para a sala o maquetes, livros, esculturas e demais pintinho que havia ganho da madrinha, foi sugestões combinadas com e no grupo. É uma festa. O bichinho passou a tarde com o o momento de entrarem em cena também grupo (a primeira de muitas!). As crianças vocabulário específico, experiências cientí- sabiam algumas “coisas de pinto: que ele é ficas, formas geométricas, classificações e filho da galinha, não tem mão, tem penas, a seriações, números, etc. boca é um bico e ele fica grande, do tamanho da galinha e do galo”. A história “O Rei Bigodeira e a Sua Banheira” suscitou grande curiosidade em A visita do pintinho resultou, a partir uma turma de crianças entre 5 e 6 anos, das hipóteses e perguntas surgidas desde que ficou muito intrigada com “aquele então (aliadas à observação da educadora tempo dos castelos em que não existia e suas interferências), no projeto “Tem torneira, as pessoas usavam roupas goza- pena, bico e bota ovo: que bicho é esse?”.68
  • 69. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância das” e, ainda por cima, “dormiam todas tizações. Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi juntas numa camona”! Culminância do projeto Então, no decorrer do projeto “No É o momento em que as crianças, tempo dos castelos”, foram construídos utilizando as diferentes linguagens, dominós e jogos de memória, com armas e expõem o que foi construído no decorrer utensílios da época, uma linha de tempo no projeto. No exemplo anterior, o teatro com gráficos e atividades comparativas realizado pelas crianças foi a atividade em com o nosso tempo. Durante o processo, o que, utilizando a linguagem dramática, o grupo foi construindo um castelo medie- grupo recontou e narrou a aprendizagem val, utilizando caixas de papelão em significativa. É muito importante para as diferentes tamanhos e sucatas as mais crianças que elas expressem e divulguem o diversas (imagine os conceitos e relações que estão fazendo e aprendendo. envolvidos nessa atividade!), que foi na É também chegada a hora da avaliação culminância do projeto, o cenário do do trabalho, realizada a partir da situação teatro encenado pelas crianças. As rou- inicial de “o que sabemos...?” É quando pas de época utilizadas pelos “artistas” comparamos a proposta e os resultados foram confeccionadas por eles utilizando obtidos, as combinações realizadas – ou jornal, papéis e caixas. Um projeto e tanto! não – e o porquê. Daí podem surgir novas O educador deve auxiliar acompa- perguntas ou questões que darão nhando todas as atividades realizadas, origem a novos projetos. ajudando o grupo de crianças a registrar suas tarefas e conquistas, e, quando necessário, Foto: Fantoches do Programa ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS fazer interme- diações, novas pes- quisas e sistema- 69
  • 70. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Como vimos até aqui, alguns critérios Mediação do educador na são importantes nesse processo. Assim, aprendizagem da criança todo projeto deve: O educador, no seu papel de instigador e organizador de um ambien- • ser do interesse das crianças te onde a fruição é presença constante, e da educadora; deve promover situações nas quais as • partir do que o grupo já sabe; crianças sintam-se desafiadas pelo novo • respeitar as diferenças individuais; e deliciem-se no descobrir, no conhecer. • apresentar experiências diversificadas; • estimular a participação, a Promover – nesse contexto – signifi- cooperação e a criatividade; ca: facilitar, acompanhar, possibilitar, • ser rico em atividades, tanto livres compartilhar, problematizar, envolver, quanto dirigidas; reconhecer, comunicar, expressar, entu- • estabelecer relações compreensíveis siasmar. É o que você, como mediadora, para as crianças; realiza cotidianamente junto às suas • contemplar e ampliar conhecimentos, crianças e que, de forma explícita ou experiências, atitudes e habilidades. implícita, está demonstrado em vários textos deste estudo. Por isso, você deve ser como um guia, companheira experiente, atenta e disponível. Sabendo escutar e estimulan- Devemos abrir caminhos: do a expressão, propiciando igualmente Novos e flexíveis, um clima democrático, onde todos Através dos quais talvez só participam e são valorizados, porque transitemos uma única vez; vistos como competentes e capazes. Novos e sensíveis, Que precedam sempre as Como organizadora da ação pedagó- cartilhas pré-estabelecidas; gica, você deve estar atenta em “entrela- Novos e vivenciais, çar” os assuntos discutidos a outros Abertos ao holístico e à temas e à realidade. Devem ser também realidade da vida considerados o papel das diferenças Francisco Gutierrez – Ecopedagogia e cidadania planetária culturais, bem como os hábitos e costu- Sem cartilhas padronizadas, sem ativida- mes dos diferentes grupos humanos. des demasiadamente orientadas, sem trei- nos que compartimentalizam: assim norteia-se o fazer pedagógico na instituição infantil. Aí reina o pensamento e a ação, um70
  • 71. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância lugar alegre para a criança viver, pensar, criar situações de mediação entre as crian- aprender e agir. Dessa maneira, desenvolve- ças, as suas emoções e o seu ambiente. se o hábito do pensamento criativo e inde- pendente, passaporte do fazer autônomo e A criança deve ser estimulada a participar ativamente de atividades não-reprodutoras, da capacidade de enfrentar situações desafi- mas que lhe são significativas porque partem adoras ou conflitantes. do seu interesse e têm a sua efetiva contribui- Saber fazer alguma coisa é, antes de ção, necessitando de sua iniciativa e de es- mais nada, um processo gradativo de tratégias por ela elaboradas. evolução do pensamento, e não simples- A sociedade exige, a cada dia, não mais mente aprender a memorizar uma informa- somente a técnica, mas também habilida- ção, dar a resposta certa ou fazer como o des e alternativas. Assim, é necessário opor- modelo. Por isso, você deve ter um com- tunizar a expressão e o fazer infantil nas portamento interrogativo e, habitualmente, suas diferentes linguagens, para que, então, questionar à criança: “porque você fez a criança conviva com a diferença, com o assim?”, “Tem outro jeito?”, “Como você antagônico e confronte-se consigo mesma. pensou para resolver isso?”. É importante Dando ênfase à atividade, à ação mais do que à cópia de mode- los, a educação infantil conduz a criança para ide- alizar e con- cretizar seus objetivos, testar suas hipóteses, elaborar seu Ilustração: Nela Marín e Gian Calvi / Kit Família Brasileira Fortalecida / UNICEF brincar, opinar, aceitar ou rejei- tar, confron- tando-se com seus iguais. En- fim, propicia-lhe 71
  • 72. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 ser agente ativa do seu ato de aprender e mento de reciprocidade. É o momento de fazer. dos jogos em equipe, das atividades grupais em todas as áreas: artes, teatro, Como já foi visto no estudo do tema elaboração de textos coletivos, diálogos, sobre o desenvolvimento da criança, por desafios matemáticos... Enfim, o cotidi- ser o egocentrismo – inicialmente mar- ano infantil deve permitir e promover cante e com gradativo decréscimo – constantemente situações em que a cola- característica que envolve o pensamento boração criança/criança se faz necessária e a ação da criança, o aprender a viver e a presença do outro, significativa. em grupo é desafio constante na educação infantil. Para que esse ambiente se estabeleça na sua plenitude, o planejamento também Quando bem pequena, até por volta deve ser participativo e, como a própria de 3 a 4 anos, a incapacidade de se co- nomenclatura sugere, é um planejar de locar no lugar do outro dificulta à crian- todos, realizado em conjunto. Nesse ça realizar a integração com os iguais. momento, você e as crianças projetam Como explica Jean Piaget, o indivíduo, coletivamente o quê, o como e o quando no seu espírito egocêntrico, assimila para dos fazeres. Também com a participação si e sob seu ponto de vista. Assim, as de todos, são estabelecidas as regras e as ações e os pensamentos são centrados combinações a serem seguidas no transcor- no eu para suprir necessidades próprias. rer das brincadeiras e atividades. Nesse contexto, você cria situações de Dessa maneira, a educação infantil jogos, brincadeiras e atividades em con- está não só estimulando, mas principal- junto. Mesmo sabedora de que o inter- mente propiciando o desenvolvimento câmbio social não se estabelece de objetivos comuns. Somente assim as efetivamente, procure constantemente crianças vivenciam efetivamente a im- oferecer situações grupais. portância da cooperação, em que não a rivalidade, mas sim o objetivo comum Em torno dos 5 anos, nota-se sensivel- seja priorizado. Cabe esclarecer que, ao mente o declínio egocêntrico e, nesse priorizar o grupo, não estamos estimu- momento, o relacionamento da criança lando a uniformidade. com companheiros é fundamental. A cooperação inicia-se, bem como o senti- O verdadeiro sentido da educação infantil deve ser o de contribuir para o desenvolvimento da criança, a fim de que72
  • 73. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância realize todas as capacidades humanas instrumentalizada a facilitar e encorajar características do período em que está a criança a descobrir-se, a pensar e agir vivendo. Na verdade, o ser humano é uma com autonomia nos mais diversos tipos totalidade, não sendo possível separar o de situações. aspecto sócio-emocional do físico e do cognitivo. Do contrário, ao privilegiarmos Tendo a autonomia como finalidade, a um, comprometeríamos os demais. educação infantil deve promover a unidade dessa criança. Percebendo-se parte de uma A mediação da educadora deve criar e coletividade, com direitos e deveres, num promover as condições mais adequadas processo de cooperação, socializando-se e para o desenvolvimento global das crianças. descentrando o mundo ao redor de si, a É o espaço de ser criança, de brincar, de criança está desenvolvendo-se como um ser descobrir e conhecer o mundo através do livre, independente, com determinação lúdico, de se relacionar com o ambiente, individual, intelectual e social. com as pessoas e com os iguais. Referências Bibliográficas A criança precisa ser encorajada a BEE, Helen; SANDRA, L.; MITCHELL, K. A pessoa em desenvol- verbalizar suas idéias, a estabelecer vimento. São Paulo: Editora Harper & Row do Brasil Ltda, 1984. todos os tipos de relações, a descobrir- BRASIL. Ministério da Educação. Professor da pré-escola. Rio de Janeiro: 1991, v. 1, v. 2. se como ser único. Deve ser vista indivi- BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial dualmente, tendo sua liberdade curricular para a educação Infantil. Secretaria de Educação Fundamental. Volumes I, II e III. Brasília: SEF, 1998. garantida na livre escolha de atividades, CUNHA, Suzana Rangel Vieira da. Cor, som e movimento: a bem como nos seus posicionamentos. expressão plástica, musical e dramática no cotidiano das crianças. Porto Alegre: Mediação, 1999. A redução do poder da educadora, FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. nessas circunstâncias, não significa GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a passividade; ao contrário, o comprome- escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed, 1994. timento com as crianças enfatiza o seu GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Secretaria de Educação. Rio Grande do Sul. Educação para crescer. Projeto papel mediador. Como organizadora de Melhoria da qualidade no ensino. Educação pré-escolar. Da um ambiente adequado às necessidades reflexão à construção. 1993. OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e e exigências infantis e intercedendo métodos. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez, com experiências que contemplem um 2002. desenvolvimento integrado, você estará PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Porto Alegre. Cadernos pedagógicos n. 15. Proposta pedagógica da educação infantil. Porto Alegre, 1999. ROSSETI-FERREIRA, Maria Clotilde et al. Os fazeres na educação infantil. São Paulo: Cortez Editora, 1998. 73
  • 74. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo significativo. Registre palavras, gestos, sentimentos, conceitos, frases, etc. A cada dia, escolha momentos diferen- e Aprofu ndament ciados da rotina para observar e regis- o trar. Após duas semanas (no mínimo) Maria Helena Lopes de observação e registro sistemático, releia seus escritos. Comente quais O fundamento principal da foram as idéias que surgiram, a partir experiência baseada na prática, da reflexão que o registro possibilita. na teoria e na pesquisa é a imagem de uma criança rica, • Registre suas observações mais forte, poderosa ... significativas, escrevendo em seu É uma afirmação que se caderno. Converse com os colegas contrapõe à tendência de sobre elas. realçar as necessidades, as fraquezas, os temores • O planejamento coletivo favorece das crianças e a calar, o desenvolvimento da autonomia. A lamentavelmente, suas meditação da educadora é fundamen- potencialidades e direitos. tal nesse processo, quando ajuda as Giordana Rabitt – À Procura da Dimensão Perdida: crianças no estabelecimento de regras uma escola de infância de Reggio Emília e no encaminhamento de combinações O registro das observações das atividades. Como tem sido com sua possibilita um excelente começo para turma o exercício de combinar juntos o a realização de projetos de estudos que irão fazer? Faça um relato escrito Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi com as crianças. Através dela, você de uma atividade realizada. perceberá os interesses das crianças. • Assista com seus colegas Mantenha um caderno aos seguintes vídeos: e um lápis sempre com você. – E Assim Nasce um Projeto. Escreva tudo o que lhe pareça – Vamos Viajar na Vassoura da Bruxa?74
  • 75. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância roposta Pedagógica e no qual refletimos, entre outros temas, sobre a saúde da criança, a integração da Relações Centro Infantil, instituição infantil, o modo como Família e Comunidade organizamos tempo, espaço e fazeres, sobre os indissociáveis educar/cuidar. Elizabeth Amorim e Maria Helena Lopes Pois bem, todos esses conteúdos e Escrever o que se vive reflexões decorrentes nos levam a con- é coisa de pouca ou cepções sobre a criança e sobre o educar, nenhuma graça. enfim, nos trazem uma visão de mundo, O desafio está em viver o de homem, de educação e de sociedade. que se escreve. E são esses preceitos que norteiam a Eduardo Galeano – A escola do mundo às avessas proposta pedagógica de uma instituição Discutimos ao longo deste estudo, infantil, que se configura como um instru- através da interação na Mesa Educadora, mento de apoio à organização da ação as leituras dos quatro cadernos de institucional e, principalmente, à atuação estudos e as reflexões nas atividades de dos educadores. Portanto, é igualmente aprofundamento. Sem dúvida, aprende- possibilidade de crescimento do Centro mos, nos inquietamos, inúmeras pergun- Infantil, bem como de todos que dele tas surgiram e algumas ficaram sem respostas. É assim o cami- nho de quem quer seguir sempre adiante, vivendo e escrevendo a própria história. Discutimos as concepções de infância, o desenvolvimento físico e emocional da criança, como aprende, como experiencia o meio, os objetos Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi e as situações. Falamos tam- bém sobre o perfil do educa- dor, sobre a legislação da educação infantil e as políticas sociais relativas à infância. O cotidiano nos centros infantis é o foco deste caderno, 75
  • 76. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 participam. Apresenta ainda a política cia de as propostas pedagógicas promo- pública vigente no âmbito municipal, verem em suas práticas educativas e de estadual e federal. cuidados o atendimento aos aspectos do desenvolvimento físico, emocional, Em abril de 1999, o Conselho Nacio- afetivo, cognitivo e social das crianças. nal de Educação fixou as Diretrizes Curriculares em Nível Nacional para a Constitui-se também em diretrizes a Educação Infantil. As DCN, como são interação entre as diversas áreas do chamadas, são oficias e têm força de lei. conhecimento, através de atividades Elas definem diretrizes para a elaboração espontâneas ou dirigidas, devendo ex- das propostas pedagógicas das creches e pressar objetivos e garantindo, assim, a pré-escolas. intencionalidade das ações na Educação Infantil e a constituição de conhecimentos. A primeira delas diz respeito aos fundamentos da Educação Infantil, O processo de avaliação tem desta- desdobrando-se em: que nas DCN, afirmando a importância do registro nas etapas, “sem o objetivo – Princípios éticos da autonomia, do de promoção, mesmo para o ensino respeito, da solidariedade e do respeito fundamental”, conforme a Lei nº 9.394/ ao bem comum. 96, seção II, artigo 31. – Princípios políticos dos direitos e O Referencial Curricular Nacional deveres da cidadania, da criticidade e do para a Educação Infantil (RCNEI) foi respeito à ordem democrática. publicado pelo Ministério de Educação, – Princípios estéticos da sensibilidade, em 1988, é consentâneo com as DCN e da criatividade, da ludicidade e da diver- tem como finalidade apresentar subsídios sidade de manifestações artísticas e para a organização de propostas culturais. pedagógicas. É leitura necessária a todos os educadores, porém não deve ser As instituições de Educação Infantil encarado como uma orientação única a devem conviver com as diversas identi- ser seguida, mas como subsídio para a dades das crianças e de suas famílias, construção de propostas pedagógicas. acatando as diversidades étnicas, religiosas, econômicas, de gênero ou Quem planeja, programa e projeta necessidades especiais. pedagogicamente está elaborando um roteiro de interações com múltiplas Outra diretriz aponta para a importân- experiências significativas para as crian-76
  • 77. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância ças. Falamos aqui em proposta metodologia utilizada. Sabemos que (pedagógica) não no sentido de nenhuma prática é neutra, pois, determinação, “tipo fôrma de gelo onde explicitamente ou não, está atrelada a os cubinhos saem todos iguais”; ao princípios que norteiam os objetivos. contrário, tratamos proposta como algo Algumas formas de organização da flexível, que permite adequa- ções, reformulações, avanços e retrocessos, pois pressupõe um olhar atento sobre a realidade. Sintetizando, afirmamos que uma proposta pedagógica: • é um caminho construído Foto: Sebastião Barbosa cotidianamente; • contempla a história da instituição e sua função; • não é modelo pronto a ser copiado na íntegra; proposta pedagógica são as seguintes: • respeita fatores sociais e culturais, promovendo a autonomia da conquista e Áreas de Desenvolvimento da cooperação; Contemplam os aspectos social- • envolve toda a comunidade escolar afetivo, psicomotor e cognitivo. A crian- na sua construção; ça é caracterizada, então, na perspectiva • é parte de uma política pública, da psicologia do desenvolvimento e a contendo um projeto político de sociedade;preocupação volta-se para as característi- • deve facilitar aos educadores o cas relativas à faixa etária de 0 a 6 anos. acesso ao conhecimento na área da Os objetivos são organizados conside- educação e da cultura em geral. rando e respeitando cada área do desen- volvimento infantil. Por tratar-se do Assim, observamos várias maneiras de desenvolvimento da criança, a orienta- organizar uma proposta pedagógica que, ção, o parâmetro do enfoque é um de- repetimos, contém os pressupostos (idéias senvolvimento ideal, para uma criança e conceitos) que embasam a ação pe- igualmente ideal! dagógica, bem como especifica a 77
  • 78. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Temas Geradores ções, pois partem de uma leitura atenta São o ponto de partida e os do grupo. Para tanto, é urgente que os articuladores das atividades. O tema é educadores eduquem os ouvidos e visto como um fio condutor dos fazeres reaprendam a olhar a criança, o grupo e educativos em que há preocupação com suas manifestações. o interesse da criança. No entanto, a escolha do tema não pode ser um Vêm crescendo consideravelmente as pretexto para a listagem de atividades propostas pedagógicas que contemplam repetidas mecanicamente, em que não os projetos como eixo condutor da sua são priorizados efetivamente os conheci- organização. Pela sua abrangência, mentos envolvidos, as hipóteses das podemos trabalhar com projetos em crianças, a exploração e a pesquisa. qualquer grupo de crianças de 0 a 6 Como, por exemplo, no tema “O índio”, anos, é claro, considerando a faixa em que as crianças recortam índios, mo- etária, os interesses e as características delam instrumentos indígenas, ouvem de cada grupo. histórias sobre índios, desenham índios, Esse encaminhamento está focado e etc., sem uma articulação maior, sem melhor discutido neste caderno sob o desafios, sem que efetivamente novos título Pedagogia de Projetos; no entanto, conhecimentos sejam construídos. julgamos pertinente mais uma considera- Áreas de Conhecimento ção final. Parece-nos que os projetos Língua Portuguesa, Matemática, atendem melhor às necessidades do Ciências Sociais e Ciências Naturais, nosso tempo, já que consideram a reali- cujo principal objetivo é o contato da dade sociocultural das crianças, bem criança com os conhecimentos acumula- como o desenvolvimento e as caracterís- dos pela humanidade, o que proporciona ticas próprias do momento em que estão desenvolvimento, pois a criança está vivendo, disponibilizando os conheci- adquirindo e também produzindo novos mentos do mundo físico e social. conhecimentos. No entanto, esse Seja qual for o enfoque de uma enfoque pode transformar-se em proposta pedagógica, ela deve trazer a “conteudista”, excluindo, assim, as idéia de que o conhecimento não é especificidades do atendimento infantil. “transmitido” à criança, tampouco Projetos de Estudo rigidamente sistematizado. A educação Trazem uma idéia de horizonte, de infantil não possui (felizmente) linhas gerais que podem, no processo, “conteúdos” nem programas a cumprir; receber novos contornos, maiores defini- por isso, tem o privilégio da autonomia78
  • 79. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância para – ao mesmo tempo em que focaliza pando de relações sociais num processo alguns temas, aprofundando-os de acor- psicológico, social, cultural e histórico. do com o nível e interesse do grupo – Assim, o lugar dos pequenos deve ser “oferecer o mundo” para as crianças, um estimulante da imaginação infantil, rico “mundo” que deve ser vivido por elas de em desafios, que priorizem não a res- maneira a propiciar-lhes ricas e diversifi- posta, mas sim os caminhos percorridos cadas experiências. na busca de soluções. Por que me impões o que sabes No cotidiano farto em experiências se eu quero aprender diversificadas – que incluem, muitas o desconhecido vezes em uma mesma proposta, exigên- e ser forte cias de várias áreas –, a criança vivencia o em minha própria descoberta? prazer do desafio do aprender, o que Humberto Maturana certamente lhe causará marcas indeléveis. A criança desenvolve-se no seu Nesse contexto, o erro não é sinônimo aspecto social, emocional e intelectual de falha, porém interpretado como uma pela interação com o mundo, partici- etapa do processo, uma vez que “asFoto: Sebastião Barbosa 79
  • 80. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 idéias erradas das crianças não são erros Se desejamos uma proposta pedagógica que que podemos corrigir, mas relações que realmente contemple tal relação, devemos elas coordenarão cognitivamente e de articular meios para que isso aconteça. forma gradativa ao longo de seu desenvolvimento”. A família representa um papel muito importante para qualquer indivíduo, pois é Sem o medo do erro, com um ambiente através dessas relações de troca que as pessoas rico em situações de descobertas, a criança, vão descobrindo o mundo ao seu redor. curiosa por natureza, sente-se livre para ousar na busca de melhor compreender o Esse mundo é representado pela mundo que a rodeia. E, o que é principal, vizinhança, pela igreja, pelos locais de aprendendo a aprender com prazer e diversão que a pessoa freqüenta, enfim, sentindo-se, acima de tudo, capaz. pela comunidade onde vive. Centro infantil, família e comunidade É importante que saibamos mais sobre A relação entre a comunidade e o “nossas” crianças e suas famílias – isso vai centro infantil deve ser alicerçada em além da entrevista com os pais e das confiança mútua. conversas ocasionais. Encontramos crianças das mais diferentes origens Os educadores têm importante papel familiares e, conseqüentemente, com os a esse respeito. De fato, devem ter a mais variados valores, crenças, costumes e responsabilidade de planejar sistemática hábitos. Quando se entendem essas e deliberadamente para que isso ocorra, diversidades, aprende-se a respeitar mais o propiciando uma atmosfera agradável e modo de vida das crianças, sabendo que é amigável no Centro Infantil, de modo na família que se inicia a sua socialização. que o saber dos pais e de outros Esse processo terá continuidade na representantes da comunidade seja Educação Infantil. Então, deve ser feito valorizado. um estudo exploratório para efetivamente sabermos os tipos e as O centro infantil não é um espaço condições de moradia e o número de hermeticamente fechado para o mundo, pessoas que ali habitam. O nível de nem – como se ilha fosse – isolado. Ora, escolaridade dos pais, a profissão e a se vemos a criança inserida em um contexto, renda familiar permitem contatar as se consideramos sua história e suas diferentes classes sociais que conosco interações com o meio que a rodeia, como convivem; é interessante sabermos não vamos nós estabelecer esse contato e também se há outras atividades (remu- essa integração? neradas ou não) entre os adultos.80
  • 81. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Fundamental é o conhecimento da inseridas diferentes origens, religiões, raças, constituição familiar, com quem vive a tipos de trabalho, etc., motivo pelo qual é criança (pais, avós, só pai ou só mãe, necessário investigar igualmente com as primeiro casamento, etc.), bem como o crianças, através de conversas, sobre seus relacionamento adultos/crianças, como hábitos e costumes, seus amigos, etc. agem nos conflitos, sanções e castigos, Também é importante realizar com elas manifestações afetivas, cuidados relati- passeios nos espaços sociais, como lojas, vos à saúde e higiene, “ajudas” das praças, igrejas, áreas de lazer e visitas crianças nas tarefas domésticas e mes- onde a produção é local em relação a mo fora de casa. Assim estaremos mais artesanato, produtos alimentícios e tudo o perto de quem são nossas crianças e de mais que a sua comunidade produzir. qual é seu contexto de vida. As portas do Centro Infantil devem As características gerais de uma comuni- estar permanentemente abertas para dade são parecidas; no entanto, ali estão todas as famílias, pois assim elas ficamFoto: Sebastião Barbosa 81
  • 82. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 sabendo o que acontece nos diversos do lugar: como era, o que havia, histórias e momentos, como funciona a instituição e casos acontecidos; um jovem que toque e as pessoas aí envolvidas. Chamar as cante para/com as crianças. Podemos famílias não somente para reuniões, mas receber a enfermeira, o dentista, o sapatei- também para conversas grupais sobre ro, a florista, o artesão... como as crianças aprendem, a importân- cia do brincar, as características infantis, O Centro Infantil, com o objetivo de mostram as produções das crianças e integrar-se à comunidade, promove ou demais assuntos que você considerar participa de ações e campanhas conjuntas interessante para o seu grupo de famílias. e, mesmo individualmente, pode lançar Além desses momentos, a presença dos algum projeto que venha atender alguma pais dentro da instituição também é impor- necessidade local. Por exemplo: campa- tante para que haja integração com as nhas de seleção e aproveitamento de lixo, crianças na realização de algumas ativida- mobilização junto a órgãos de saúde, etc. des com elas, seja jogando, brincando ou Com certeza, você e a sua instituição “ensinando” algo como jogar pião, construir infantil estão inseridos, participando uma pandorga... porque estão ouvindo e vendo as crian- Lembramos que estes são hábitos e ças, a família e a comunidade e, acima de comportamentos que não se estabelecem tudo, estão cumprindo o papel e a função do dia para a noite; é um processo que se social que lhes cabe. constrói no coletivo gradativamente. Inici- A aproximação dos pais à escola almente, talvez você não obtenha resulta- depende muito de uma atividade aberta e dos magníficos, mas não esmoreça, seja receptiva a eles. Essa aproximação é uma otimista, gratificando-se com aqueles que aprendizagem e um trabalho de conquis- responderam ao chamado, e não lamente- ta; irá acontecendo aos poucos, à medida se dos ausentes. Um dia, eles virão! que os pais forem compreendendo o Uma das formas de promover a aproxi- trabalho, vendo que suas opiniões são mação com a comunidade é trazer para o aceitas e que sua presença é necessária. Centro Infantil pessoas que possam contri- O educador tem a importante tarefa de buir no processo de formação das crianças: integrar seu conhecimento, os valores que é necessário repassar a história do bairro. sustentam o bem-estar da comunidade por O conhecimento pode ser trazido por um intermédio da proposta pedagógica. idoso que conte sobre os “outros tempos”82
  • 83. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância construção de uma proposta pedagógica Há um instante mágico na que contemple os aspectos políticos, vida em que, sociais e humanos. Nem mesmo sabendo por que, Ficamos envolvidos num jogo. As atualizações através de reuniões, Num jogo de ensinar. palestras, visitas, sessões de filme e vídeos Fazemos parcerias. para educadores e a participação em even- Não só com os outros, tos deve propiciar o compartilhamento de Mas também parcerias internas conhecimentos teóricos e práticos. Esse nos propondo desafios. Porém, só ficamos nesse estado processo possibilita o debate de idéias, que de total cumplicidade com o saber deverá culminar na construção de uma se este tem sentido para nós. proposta pedagógica que contemple um Caso contrário, caminho, uma trilha na qual todos formem somos apenas espectadores o coletivo, criando condições para que o do saber do outro. trabalho seja desenvolvido, compreendido e Martins, Picosque & Guerra assumido por todos. Referências Bibliográficas A formação contínua dos educadores BARBOSA, Mª Carmen; DORNELLES, Leni Vieira. As instituições A formação continuada deve ser de educação infantil e a comunidade. In: CRAIDY, Carmen planejada pela gestão institucional, M.(Org.). Convivendo com crianças de 0 a 6 anos. Cadernos de Educação Infantil. V.5. Porto Alegre: Mediação,1998. ocorrendo de forma sistemática. EDUCAÇÃO: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO. Comissão Internacional sobre Educação para o Século A proposta de um trabalho efetivamente XXI. São Paulo: Cortez, MEC, UNESCO, 1999. coletivo não pode prescindir de momentos FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. em que todos, crianças, educadores, GARDNER, Howard. A criança pré-escolar: como pensa e como a familiares e comunidade, possam escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artmed,1994. explicitar suas diferenças e expectativas GUTIERRES, Francisco; PRADO, Cruz. Ecopedagogia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez, 1999. de modo democrático e pluralista. KRAMER, Sonia (org.). Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a educação infantil. 10. ed. São Paulo: Um cronograma destinado à Ática, 1997. formação deve possibilitar o encontro OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e método. Coleção Docência em Formação. São Paulo: Cortez, entre os educadores para a troca de 2002. idéias sobre prática, para estudo sobre os OSTETTO, Luciana E. (Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil. São Paulo: Papirus, 2000. temas da Educação Infantil, para a PIAGET, Jean. O raciocínio da criança. Rio de Janeiro: Record, organização e o planejamento da rotina, 1967. do tempo e das atividades, para a 83
  • 84. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Atividades de Estudo e O processo de construção da proposta Aprofundamento pedagógica implica também a conquista Maria Helena Lopes da autonomia e da cooperação, atendendo aos princípios básicos da cidadania, como: A prática pedagógica não é construída respeito, responsabilidade, formação de a partir de propostas pedagógicas escritas autoconceito. e prontas, mas da reflexão-ação de todos os sujeitos nela envolvidos: crianças, • A partir da leitura do texto Proposta educadores, famílias e comunidade. Pedagógica e das afirmativas acima: Toda proposta pedagógica é expressão – Comente com seus colegas, desta- de um projeto político e cultural e cando as idéias do texto que ilustram as reúne tanto bases teóricas quanto afirmativas. diretrizes práticas. – A capacitação dos educadores é um Toda proposta pedagógica expressa o direito e um dever. Analisando os seus “lugar de onde fala”, ou seja, os valores estudos e vivências na Mesa Educadora, que a constituem e a heterogeneidade reflita sobre os subsídios que os mesmos dos sujeitos envolvidos. lhe oportunizaram para a elaboração da proposta pedagógica no Centro Infantil. Faça um esquema sintetizado e rela- cionando seus es- tudos com a proposta pedagó- gica no seu Centro Infantil. Edward Hopper- O vagão com bancos, 196584
  • 85. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância companhamento e Encontramos diferentes formas de demonstrar o acompanhamento das Avaliação das Crianças aprendizagens das crianças. Essas formas no Centro Infantil também mostram como a instituição considera o ato de ensinar e o ato de Elizabeth Amorim aprender. Portanto, se a avaliação é “O importante e bonito do mundo é isso: instrumento de controle e seleção que que as pessoas não estão sempre iguais, julga e exclui, ou se possui um caráter ainda não foram terminadas, mas que elas global e formativo, que realmente acom- vão sempre mudando. Afirmam panhe as ações das crianças através de desafirmam.” instrumentos variados. Guimarães Rosa Embora convivamos diariamente com A mensagem de Guimarães Rosa vem a avaliação, ela ainda é tema gerador de reforçar o papel da Educação Infantil, controvérsias. Diante disso, como então, através de diferentes e criativas aborda- no momento da avaliação, sentenciar gens, experiências e vivências, pro- cada criança através de fichas que porcionando ao educador e à criança possibilidades de uma ação educativa, voltadas ao respeito às diferenças, aos momentos de interação e à liberdade do ser e do pensar. Afirmamos de diferentes maneiras, nos quatro Cadernos de Estudos, que devemos oferecer condições à criança para educar-se e socializar-se de forma independente e autônoma, criando espaços para que se aproprie do processo de aprendizagem como sujeito de sua história. A educação atual exige uma avalia- ção como processo dinâmico, que leve Foto: Sebastião Barbosa em conta a realidade da criança com suas nuances, a realidade do Centro Infantil e seu contexto sociocultural. 85
  • 86. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 classificam comportamentos, habilidades vez, etc.) ideais que devem ser alcançados. e desempenhos? Não lidamos com crianças ideais, mas reais, de carne e osso, com desejos, Uma das maneiras de avaliação ina- potenciais, habilidades e necessidades. dequada que ainda hoje encontramos Crianças que convivem diariamente em algumas instituições de Educação conosco, que devem ser entendidas para Infantil é a que indica o que foi (ou não) que possamos oferecer adequadas situa- alcançado pela criança, como neste ções de aprendizagem e que respondem exemplo que focaliza a área motora. diferentemente porque diferentes são. Habilidade/Atividades Sim Não Às vezes Encontramos também relatórios Sobe escadas alternando os pés escritos, chamados muitas vezes de pa- Pula com os pés juntos Caminha entre obstáculos receres descritivos, que vêm sendo cada Salta em pequena distância vez mais utilizados por objetivarem, co- Pára a um sinal dado mo o próprio nome sugere, descrever as ações da criança. No entanto, observa- A visão de “que a criança seja capaz mos “descrições”, como o pequeno tre- de”, exemplificada parcialmente acima, cho retirado de uma delas que a seguir nada mais é do que uma listagem de transcrevemos: conteúdos (nomear cores, identificar “José participa das atividades artísticas, animais, etc.) e de comportamentos e mas ainda não consegue pintar respeitando atitudes (repartir brinquedos, esperar sua limites. Utiliza a tesoura, embora nem sempre consiga segurá- la adequada- mente, o que dificulta seus recortes. Perma- nece por bom tempo dese- nhando e relaci- Foto: Sebastião Barbosa ona as cores usadas nas representações com a realidade.86
  • 87. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Conta suas novidades utilizando lingua- dos diferentes momentos de aprendiza- gem clara e lógica, mas ainda encontra gem, que a criança efetivamente mostra dificuldade em transmitir recados”. sua compreensão do mundo e as rela- ções que estabelece. Como sentar na frente Pareceres descritivos como este nada dos bebês com uma lista contendo ativida- mais são do que uma “tradução” em des programadas para determinado perío- palavras das cruzinhas que indicam se a do a fim de verificar o que alcançaram? criança alcançou, não alcançou ou alcançou em parte os objetivos propos- Como processo, a avaliação não “com- tos. É uma clara demonstração de que as bina” com um planejamento rígido, cujas crianças não são vistas como diferentes atividades são pré-estabelecidas porque os entre si porque têm histórias diferentes, temas também o são, nem com a rotina pois espera-se que obtenham idênticos inflexível em que você a tudo comanda. resultados: alcançar um mesmo objetivo Devemos, pois, ter a preocupação de em um mesmo período de tempo! considerar a identidade da criança que está Você já se deu conta das infinitas sendo avaliada e a identidade da educadora vezes em que ontem a criança não que trabalha com ela. Por isso, devem ser realizava e hoje já faz, apresentando, considerados o cotidiano da criança e a assim, superação em termos de desenvol- postura pedagógica do educador. vimento? É, é de pensar.... A avaliação não pode ser vista “como produto final” em que se verifica o que a criança conquistou, mas encarada como processo, e é no seu trans- Foto: Sebastião Barbosa curso, através 87
  • 88. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Como mediadora das atividades, é Além disso, aparecem aí algumas somente compreendendo e observando a interferências e procedimentos efetuados criança que a educadora percebe a sua por você. Veja bem, não é uma descrição prática e realiza as adequações necessá- pura e simples, na qual são apontados rias para que as interações tenham quali- itens e situações esporádicas. Trata-se do dade. É a nossa interação com a criança registro de acompanhamento do que justifica a avaliação em educação processo de construção do conhecimen- infantil, e não certezas e julgamentos do to da criança, como por exemplo: que ela é, ou não, capaz de realizar. Maria mostra-se curiosa em relação Não somos nós os responsáveis por aos assuntos trabalhados. Contribui com oferecer às crianças oportunidades de sugestões e traz experiências vividas fora conhecer a si próprias e a realidade, do centro. Esses aspectos transparecem através de diversificadas atividades e em algumas de suas perguntas. experiências? Então... – Iara (educadora) quando é que a Utiliza-se o termo “avaliação media- gente vai fazer aquela maquete que a dora” exatamente por considerar que a gente combinou? relação educadora/criança parte do – Todos os ossos são brancos? processo, pois você está todos os dias com as crianças, observando, intervindo, Inicialmente, as atividades relaciona- mediando e pensando em como propor das aos movimentos corporais a inibem, ou realizar determinada atividade. pois preferia observar as corridas, os saltos, etc. Sem forçá-la, eu a estimulava E é justamente essa “história”, sua e a participar. Então, conforme foi sentindo- da criança, que irá compor o relatório se mais segura, passou a realizar algumas que você escreverá sobre cada criança, propostas. Hoje, é com entusiasmo que demonstrando o acompanhamento das participa dessas atividades. aprendizagens por ela construídas. Ilus- trará o dinâmico processo do desenvolvi- Relaciona-se de forma tranqüila com mento infantil, envolvendo igualmente o os amigos e, muitas vezes, dá idéias para cotidiano educadora/criança. brincadeiras ou construções, que são suas preferidas. No entanto, nem sempre Assim, os relatórios do processo aceita as dos colegas, sendo necessária a avaliativo permitem acompanhar a histó- minha interferência, explicando-lhe que ria da vida da criança no centro infantil, todos têm direitos a sugestões e que nem relatórios nos quais você escreve sobre sempre as nossas são as escolhidas. preferências, temperamentos e reações.88
  • 89. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira InfânciaFoto: Sebastião Barbosa Algumas mudanças nesta reação já são também como subsídios para novas observadas.[...] propostas. Devemos registrar ainda dados sobre as crianças individualmen- O trecho acima demonstra o acompa- te, suas reações e seus comportamentos nhamento da evolução da criança, suas frente a situações e vivências. Os escri- particularidades, e a presença da educa- tos são grandes aliados, pois, além da dora como observadora e mediadora do reflexão sobre as nossas ações, servem processo. Não há, em nenhum momen- de base e complemento quando elabo- to, a idéia do definitivo e acabado, ramos os relatórios de avaliação de tampouco comparações; ao contrário, cada criança. transparece a idéia de para onde a crian- ça se encaminha, demonstrando que Na prática do processo avaliativo, todo “agora” é resultado de conquistas devemos constantemente nos questionar passadas e anúncio de novas aquisições. sobre quais foram as conquistas da crian- ça, quais os caminhos que percorre ou Escritos diários, com anotações sobre percorreu, como reage frente a conflitos e acontecimentos do dia, oferecem o contrariedades, quais suas perguntas e acompanhamento das ações desenvolvi- comentários, como reage frente a dificulda- das junto com as crianças e servem 89
  • 90. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 des em jogos e atividades que a desafiam, e Sabemos que o processo avaliativo é muitas outras perguntas são parte do nosso difícil porque é complexo, envolve cotidiano. Percebe-se assim que, para a muitas interrogações e impasses, idas e elaboração de um relatório de avaliação, é vindas. É uma construção gradativa, que extremamente necessário o acompanha- exige de nós dedicação e envolvimento. mento, através de anotações diárias sobre o que você considera relevante. Para que os relatórios de avaliação sejam significativos para você e para as Não podemos deixar de refletir aqui crianças, reafirmamos a necessidade de sobre as propostas que “não deram instrumentos variados (registro de obser- certo”. Explicamos: você apresenta cor- vação, diário de aula, anotações de cada das para as crianças com a intenção criança, etc.) e utilizados em diferentes (objetivos) de propor, através de uma situações para que possamos, efetiva- história (sessão historiada), que elas mente, acompanhar e entender a criança andem em cima das cordas esticadas no em suas variadas formas de interação chão, engatinhem por baixo delas, etc. com o meio que a cerca. Então, o que acontece? As crianças quase “Cada etapa da vida da criança é altamente não a ouvem e utilizam as cordas de significativa e precede as novas todas as formas possíveis e imagináveis! conquistas. Assim, ela estará sempre no A atividade “não deu certo” para seu ‘melhor’ momento, enquanto ser quem? Para você, com sua expectativa inacabado, buscando respostas próprias ou adulta sobre as maneiras de ser das alternativas de solução para os conflitos de natureza intelectual ou moral.[...] Daí que a crianças, sobre como brincam, jogam e avaliação não tem sentido ao apontar exploram os diferentes materiais. Para as resultados obtidos, pontos de chegada crianças deu “mais do que certo”, pois as definitivos a cada idade ou etapa...” cordas foram grande fonte de diversifi- Jussara Hoffmann – Avaliação na Pré-Escola cadas e divertidas explorações! Mais uma dica: você apresentou Referências Bibliográficas (primeira vez) cordas para as crianças e HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora. In: Uma prática em não lembrou que todo primeiro contato construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre: Mediação, 1993. da criança com qualquer material deve HOFFMANN, Jussara. Avaliação na pré–escola: um olhar ser livre para que ela possa explorá-lo sensível e reflexivo sobre a criança. In: Educação Infantil. V.3. descobrindo possíveis jeitos de utilizá-lo. Porto Alegre: Mediação, 1996.90
  • 91. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Atividades de Estudo e • Identifique também os momentos Aprofundamento importantes em que a interação com os seus Maria Helena Lopes colegas e as mediações da coordenadora técnica contribuíram para você aprender. • Faça um Relatório de Avaliação do Leia atentamente o texto, seguindo as orien- seu desempenho na Mesa Educadora. tações oferecidas para realizar a sua auto- Recorra à sua memória e às suas avaliação e o seu relatório. anotações, procurando identificar quais foram as suas aprendizagens mais • Como tem sido a avaliação das significativas e a influência que tiveram crianças do seu grupo? Escreva sobre suas na melhoria da qualidade do seu tentativas, anexe seus registros e trabalho e do seu crescimento pessoal. instrumentos.Edvard Munch - De manhã, 1884 91
  • 92. Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 4 Nota sobre os Autores 1º Texto – Educar e Cuidar ELIZABETH AMORIM Mestre em educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 2º Texto – Entrando em um Novo Mundo ELIZABETH AMORIM Mestre em educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 3ºTexto – Agressividade e Limites: Possibilidades de Intervenção LOIDE PEREIRA TROIS Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ UFRGS. Atua no Programa Fundo do Milênio para a Infância, realizado pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, pela Unesco, pelo Banco Mundial e pela OMEP como coordenadora técnica da Mesa Educadora de Porto Alegre. 4º Texto – Saúde da Criança HALEI CRUZ Formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenador da Divisão de Saúde da Mulher, Criança e Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina e Mestrando em Ciências Médicas pela Universidade Federal de Santa Catarina.92
  • 93. Cadernos Pedagógicos – volume 4 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Colega Educador! Você conseguiu chegar ao final de mais uma jornada em sua vida. Muitas outras a sucederão e novamente, com esforço e dedicação, você vencerá, trilhando livre e criativamente os caminhos do seu crescimento e qualiaficação adequados. Parabéns! Os Organizadores 5º Texto – Organização do Tempo OMEP/Brasil. e do Espaço 7º Texto – Proposta Pedagógica e Relações ELIZABETH AMORIM Centro Infantil, Família e Comunidade Mestre em educação pela Universidade do Vale ELIZABETH AMORIM do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Mestra em educação pela Universidade do Vale clínica, diretora e coordenadora pedagógica do do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 6º Texto – A Pedagogia de Projetos e a Mediação do Educador MARIA HELENA LOPES ELIZABETH AMORIM Mestre em Educação na área de Aconselhamento Mestre em educação pela Universidade do Vale Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/ clínica, diretora e coordenadora pedagógica do BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. OMEP/Brasil. MARIA HELENA LOPES 8º Texto – Acompanhamento e Avaliação Mestre em Educação na área de Aconselhamento das Crianças no Centro Infantil Psicopedagógico pela Pontifícia Universidade ELIZABETH AMORIM Católica do Rio Grande do Sul. Preside a OMEP/ Mestre em educação pela Universidade do Vale BR/RS/Porto Alegre e ocupa a vice-presidência da do Rio dos Sinos-UNISINOS. Psicopedagoga clínica, diretora e coordenadora pedagógica do Centro Infantil Recreio da Criança desde 1977. 93