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  • 1. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio PEDRO ANDRADE O MELHOR GUIA DE NOVA YORK
  • 2. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio I N T R O D U Ç Ã O Cartas de amor não são fáceis de escrever. Talvez venha daí a minha assumida dificuldade em pensar em uma introdução digna do meu afeto por Nova York. Depois de morar pouco mais de um terço da vida em Manhattan, afirmo com segurança que a cidade já vivia em mim, muito antes de eu viver nela. Cresci encantado com filmes como Taxi Driver, De olhos bem fechados e Psicopata americano; ouvindo “Englishman in NY”, do Sting, “New York, New York”, de Sinatra, e, é claro, o clássico de Billy Joel, “NY state of mind”. Já era fissurado pela arquitetura do Empire State, do Chrysler Building e da ponte do Brooklyn. Além disso, desde moleque tinha interesse por tudo que dizia respeito à cidade em livros, revistas e noticiários. Acredito que eu não tenha sido o único, afinal de contas, não há canto no mundo que esteja imune ao fascínio que Nova York desperta. Vinte e sete de dezembro de 1995 foi o dia em que coloquei os pés pela primeira vez em Manhattan. Cheguei de trem, vindo de Lynchburg, Virgínia – onde fazia um curso de intercâmbio –, a convite dos meus avós. Por incrível que pareça, mal havia saído da Penn Station (a estação ferroviária) e já tinha me identificado com o ritmo do local: lojas icônicas, camelôs insistentes, táxis amarelos, cartões de metrô espalhados pelo chão, arranha-céus, o cheiro das barracas de comida de rua; de um lado, uma performance de break-dance; do outro, policiais colocando ordem na bagunça, a fumaça que sempre sai dos bueiros, ambulâncias histéricas e a nítida sensação de que todo mundo está permanentemente com pressa. A energia que pulsa nas veias dessa cidade não é algo explicável; é um fenômeno para ser sentido, não analisado. Pare em qualquer esquina e observe a diversidade singular de raças, religiões, estilos, crenças, línguas, cores e comportamentos. Note como tudo e todos coabitam harmoniosamente: negro com branco, gay com hétero, bonito com feio, muçulmano com cristão, brega com chique, pobre com rico, e os paradoxos continuam. De algum jeito, em NY as contradições não afastam as pessoas, pelo contrário, fazem com que elas se complementem. A singularidade não é escondida, mas celebrada. Discriminação por essas bandas é inaceitável e preconceito é mico. Apesar da fama de que a grosseria e a individualidade reinam na rotina da Big Apple, posso garantir que, de modo geral, o atendimento aqui é mais correto, a primavera é mais florida, a buzina é mais barulhenta, o Martini é mais gelado, o jazz é mais malandro, o outono é mais laranja, 10
  • 3. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio a variedade é mais eclética, a competição é mais acirrada, a expectativa é mais alta, e as chances de um New Yorker querer abandonar todos esses defeitos e qualidades são cada vez menores. Quando finalmente fiz as malas e me mudei para um cubículo de 30 metros quadrados no West Village, me deparei com uma série de desafios que não estavam nos planos. Trabalhei como bartender, carregador de gelo, promoter de boate, garçom de restaurante, até que consegui uma oportunidade apresentando um pequeno programa em um website sobre a noite da “cidade que nunca dorme”. Desde então, foram mais de seis anos explorando NY para a NBC, quatro cavucando cada esquina para o Manhattan Connection e aos poucos posso dizer que examinei essa metrópole de cabo a rabo, de cima a baixo, e hoje me sinto à vontade para dividir um pouco do que me fez amá-la tanto. Digo um pouco porque lugar nenhum no mundo se recicla com tamanha rapidez. O que hoje é bacana, amanhã já ficou cafona; o bar exclusivo pode ter virado um escritório de advocacia; a igreja da 6th Avenue deu lugar a uma boate de hip-hop e sua antiga loja predileta se transformou em um estúdio de dança do ventre. O combustível é a evolução constante. Os moradores dessa ilha são movidos a surpresas, a novidades, ao inesperado. A princípio, pode parecer um tanto ou quanto ­ assustador, afinal faz parte da natureza humana fugir do desconhecido, mas aqui esse é um exercício inevitável. São mais de 8 milhões de pessoas, 852 museus e galerias, quase 20 mil restaurantes e entretenimento por toda parte. Por isso algumas dicas que dou aqui têm, sim, data de validade. No entanto isso deve servir como motivação para que você venha inúmeras vezes à capital do mundo, um lugar que nunca vai ficar velho ou tedioso, onde você sempre vai encontrar algo nunca antes visto ou admirado. Tudo bem, não são só flores. Há meses frios demais, ruas abarrotadas, apartamentos minúsculos, aluguéis caríssimos, trânsito estressante, consumismo exacerbado, comida caseira é uma raridade e o Central Park nunca vai substituir Ipanema, mas o fato é que, assim como nas grandes histórias de amor, uma vez que Nova York te conquista, fica difícil seguir em frente sem olhar para trás. Venha, aproveite, explore, coma bem, dance até tarde, ande na chuva, descubra novos sabores, paquere no metrô, caminhe sem destino, aprecie arte de primeira, usufrua da segurança que hoje a cidade oferece, apaixone-se – uma, duas, três vezes – e tenha a convicção de que, de certa forma, ser um New Yorker não tem absolutamente nada a ver com o lugar onde você nasceu, mas sim onde se sente em casa. 11
  • 4. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio MUNDO
  • 5. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio Uma das vantagens de ir a NY é o fato de você encontrar uma verdadeira salada de culturas em um só lugar. Volta e meia, batendo perna no ponto mais turístico ou residencial da cidade, você parece ter sido teletransportado para outro país: de repente os Starbucks dão lugar aos noodle shops, os McDonald’s viram casas de dosas, utapans e falafels e o Pizza Hut que você procurava transformou-se numa churrascaria coreana. O fato é que, como NY sempre acolheu as mais diversas etnias, hoje todas as raças coabitam na maior paz. Em Nova York, acredite ou não, fala-se mais de 800 línguas – do Mamuju da Indonésia à Garifna da América Central. Esse assunto por si só já daria um livro inteiro. A cidade é receptiva a todos, sem exceção. Além disso, é um ímã para gente interessada, curiosa e disposta a celebrar as diferenças. Geralmente quem vem para cá está disposto a experimentar, não no estilo careta da volta ao mundo do Epcot Center, onde tudo tem cheiro de chiclete, mas sim de um jeito autêntico, e, convenhamos, infinitamente mais encantador. c h i n a t o w n Quantitativamente falando, a área mais populosa de todas é, sem sombra de dúvidas, Chinatown. Muita gente se engana achando que Chinatown resume-se a Canal Street, que aliás anda cada vez menos próspera devido às novas leis de policiamento contra a pirataria. Passando as muambas, um pouco mais ao sul da ilha, você se vê num outro universo onde o alfabeto e os modos são irreconhecíveis para nós, ocidentais. Sem querer generalizar, mas já generalizando, ali eles não são nada convidativos. Mas, sabendo escolher o destino, a visita vale a pena. A Confucius Plaza e a Chatam Square são duas praças simpáticas onde você encontra gente fazendo tai chi chuan na calçada, jogando damas debaixo de uma árvore, dormindo no gramado e meditando na sombra (ou estariam cochilando?!). Volta e meia vou ao Chinatown Ice Cream Factory, onde há sorvetes deliciosos de sabores exóticos, como feijão, chá-verde, lichia, gengibre e gergelim. Os mercados também são um charme. Dentre eles, recomendo a mercearia Kam Man, onde se pode encontrar um testículo de moreia ou uma samambaia desidratada, que supostamente dá uma sopa afrodisíaca incrível. ESCUTA ESSA Uma vez um apresentador famoso com quem trabalhei decidiu preparar um jantar romântico em casa para comemorar cinco 13
  • 6. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio anos de namoro. O objetivo era impressionar a futura esposa de ascen­ dência oriental (mas que nunca havia pisado na Ásia) com uma refeição autêntica. Como ele queria companhia, lá fui eu dar uma força. Depois de nos perdermos algumas vezes – quem tem boca vai a Ro­ ma, mas nem sempre consegue chegar a uma birosca chinesa –, ­ emos de d cara com a tal lojinha típica nos cafundós de Chinatown. Chegando lá, ele comprou um livro de culinária (que mais tarde traduziu com ajuda da internet) e pediu as sugestões do vendedor, que até hoje estou convencido ser o Senhor Miyagi do Karate Kid. Meu ami­ go garimpou ingredientes dificílimos de encontrar em terras ocidentais, e ainda desencavou um licor digestivo de flores do Camboja, que no Rio Grande do Norte seria conhecido como “levanta-defunto”. Como se tudo isso não bastasse, também levou do estabelecimento uma intoxicação tão forte que até hoje ele e a namorada não podem sentir o cheiro de um yaki­ soba. Ou seja, não recomendo grandes aventuras. Há ótimas opções para quem curte pato laqueado e dim sum (pouco conhecido no Brasil, trata-se de um prato típico da culinária chinesa, uma espécie de bolinho embrulhado numa massa, como um pequeno pastel em versão frita ou cozida no vapor), sendo que a melhor é o Dim Sum Go Go, da francesa Colette Rossant. Depois de procurar o melhor dim sum da China, a restauratrice foi pessoalmente a Hong Kong, de onde importou o chef Guy Lieu. Não pense que o lugar é sofisticado, mas que a comida é boa, isso é. Prova disso é que eles produzem todos os dim sums servidos no très chic Mandarin Oriental – um dos hotéis mais nobres de Manhattan. A única diferença, naturalmente, é o preço. Quando me deparo com essas vendas chinesas, confesso que questiono a origem dos recheios dos dumplings (pastéis orientais). Boa parte de quem trabalha nessa área não sabe nem falar “Big Mac” e, quando o sabor da trouxinha é questionado, responde com um barulho foneticamente incompreensível e vira a cara. Ou seja, você enfia o dumpling na boca sem saber se está comendo salmão defumado ou carne de pombo. DÁ UMA OLHADA As lojinhas típicas de bugigangas também são simpá­ ticas. Lá você acha tudo, menos bom atendimento. A minha predileta é a 14
  • 7. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio Pearl River, que apesar de estar localizada no SoHo oferece o que há de melhor nesse estilo de compras. l i t t l e k o r e a Permanecendo na Ásia, a Little Korea é interessante para quem sofre de insônia. Ela fica na 30th Street com Broadway e é famosa pelos estabelecimentos abertos a madrugada inteira. De academias de ginástica a caraoquês lotados, aqui o lance é não dormir – e beber bastante. Com o grupo certo, pode ser divertidíssimo, só não me chame, pois sou caraoquefóbico. Nado com tubarões e pulo de paraquedas por amor à profissão, mas tenho um bloqueio singular com essa prática tão adorada pelos asiáticos. Caso deseje explorar a gastronomia coreana, sugiro três locais: Hangawi (para os vegetarianos), Kristalbelli (para os aficionados por churrasco) ou Gaonnuri (um espetáculo de restaurante com uma vista de cair o queixo). l i t t l e i n d i a Se você curte um belo curry, a Little India é parada obrigatória. Tanto na 28th quanto na 5th Street, é possível encontrar fileiras de restaurantes tipicamente india- nos. Dos uniformes à decoração, tudo te remete a Mumbai. No entanto, um dos meus favoritos não fica ali: é o Balducci’s. DÁ UMA OLHADA O Balducci’s oferece um desconto gordo durante o almo­ o. Sugiro o Saag Panier e o Chicken Masala. E um Antac de aperi­ ç tivo, claro. O Tamarind e o Junoon também são deliciosos, mas não dão a sensação de estar em Nova Déli, e sim num restaurante grã-fino no coração de Manhattan. Não sei quanto a você, mas eu prefiro meu cordeiro kabab com garfo e faca, sentado numa cadeira confortável. O Hampton Chutney, no SoHo, também é simpático – não para um jantar, mas sim para um lanche ou almoço informal. Eles servem ótimas dosas – um crepe criado no sul da Índia e muito popular no Sri Lanka e na Malásia. Os chás gelados, com sabores estranhíssimos, também são interessantes. O meu predileto é o de cardamomo. Eu avisei que era estranho! 15
  • 8. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio l i t t l e b r a z i l A Little Brazil teve seu momento, mas hoje, além do consu- lado, pouca coisa funciona por lá. Você encontra muitos brasileiros trabalhando nos restaurantes, lojas e agências de turismo. Já frequentadores, nem tanto. A área está mais para o que chamamos tourist trap, ou seja, uma cilada turística. Além disso, com o passar dos anos, várias lojas de joias – e trambiques – se instalaram na “nossa” 46th Street, de modo que, hoje em dia, ali só vale comprar arroz, feijão ou biquíni. FURADA Nada de acreditar numa palavra do que os fulanos vendendo “diamantes” oferecem. Se uma oferta parece ser boa demais para ser ver­ dade, ela provavelmente é boa demais para ser verdade. Há grandes comunidades brasileiras em Astoria e em Nova Jersey. Nesses dois lugares, sim, você acha pão de queijo, chocolate Bis, requeijão Itambé e suco de caju Maguari. Em Manhattan, a cafeteria mais brasileira pertence a um argentino – ironias da vida – e chama-se O Café. DÁ UMA OLHADA Além do autêntico cafezinho forte (como encontramos em qualquer boteco carioca ou padaria paulista), O Café também oferece brigadeiro, pão de mel e o melhor açaí da América do Norte! Fe­ che os olhos e sinta-se no Maranhão, onde o açaí já era popular muito antes de virar moda no restante do país. Minha avó, dona Maria Thereza, que é maranhense, já dizia: “Se o céu existe, com certeza os anjos vez ou outra aparecem com uma bandeja de açaí.” Amém! No West Village tem o Casa, cujas donas são duas irmãs paulistas adoráveis, e o Berimbau, onde o cozinheiro, Carlinhos, arrebenta no estrogonofe de frango. Já no Brooklyn, o Miss Favela, que fica embaixo da ponte, anima a vizinhança aos domingos, oferecendo carne-seca com macaxeira, caldinho de feijão, além de pagode e forró ao vivo. Em Astoria, o melhor é, sem sombra de dúvida, o Malagueta. O Brasilina, no Hell’s Kitchen, traz uma proposta diferente e bem executada. Silvanei Silveira encarregou sua filha, Mariana Bull, de tomar conta do cardápio, e seu filho, Daniel Bull, de 16
  • 9. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio supervisionar as bebidas, elaboradíssimas por sinal. Mariana estudou culinária holística e francesa, mas desde pequena foi fascinada pelos pratos que a avó, cujo nome é Brasilina, preparava. Dessa mistura nasceu o restaurante, que serve as melhores coxinhas dos Estados Unidos – e onde a moquequinha também não decepciona. Para dançar os nossos ritmos, recomendo o SOB’s (Sounds of Brazil) aos sábados ou o Nu Blu às quartas. Ambos oferecem música ao vivo e o segundo conta com os talentosíssimos membros da banda Forró in The Dark, que hoje tocam com gente do calibre de David Byrne, Sting e Bret Dennen. Como o estabelecimento é pequeno e a festa, lotada, chegue cedo e deixe seu amigo claustrofóbico em casa, onde eu também vou estar. l i t t l e i t a ly A Little Italy sempre foi um charme. Localizada no SoHo, mais exatamente na Mulberry Street, hoje vem sendo engolida por Chinatown; aliás, se a gente parar para pensar, o que não vem sendo engolido pelos chineses? Por lá você acha o Italian American Mu- seum, um museu pequeno com a história do Festival de San Genaro (que rola de 15 a 19 de setembro e celebra o padroeiro de Nápoles – falo disso no capítulo “Estações”), e poucos, e dispensáveis, restaurantes tradicionais. Recomendo bater perna até o Cooper Square para comer a lasanha da Sara Jenkins (uma americana que morou anos na Itália) no Porsena, a polenta frita do Malaparte, no West Village, ou o tagliatelli com ragu de cordeiro no Corsino, na Hudson Street. Dos mais sofisticados, como o Il Mulino e o Scarpetta, a gente fala depois. l i t t l e f r a n c e Que eu saiba, não há uma Little France, mas no entanto há ótimos restaurantes franceses em NY. Impossível não citar três dos maiores chefs do mundo: Eric Ripert, Daniel Bouloud e Jean George Vongerichten. O primeiro, além de ser dono do Le Bernardin, um oásis de frutos do mar, é mentor no programa Top Chef e fã de carteirinha dos dotes culinários do José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Há décadas Daniel Boloud colhe os louros de seus restaurantes: Daniel, Bistro Moderne, Café Boulud e Bar Boulud – alguns dos estabelecimentos gastronômicos mais respeitados da cidade. Ele também se aventurou no DBGB, um lugar mais casual no East Village, cujo nome é uma homenagem à lendária casa de shows CBGB, na Bowery Street, e uma brincadeira com as iniciais de seu nome 17
  • 10. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio (Daniel Boulud Grill & Bar). Nos anos 1970, essa rua era ponto de encontro de bandas, como Ramones, Blondie e Talking Heads. Agora, exatamente o mesmo espaço onde eles se apresentavam virou uma filial transadíssima da loja John Varvatos, e logo ao lado o restaurante foi aberto. De todos os seus restaurantes, o Daniel, segundo o próprio, está no topo da pirâmide, com três estrelas Michelin. Além da comida ser uma maravilha, o espaço conta com quadros de Manolo Valdés e do nosso Vik Muniz. DÁ UMA OLHADA O drink da casa é o White Cosmo, que nada mais é que uma versão estilizada do Cosmopolitan com uma orquídia conge­ lada dentro do copo. Vale a pena pedir, nem que seja só para apreciar o coquetel durante a refeição. Jean George, apesar de ser francês, adora ousar em outras culinárias: tailandesa no Spice Market, mexicana em Porto Rico, americana em Shanghai, e assim por diante. Além de ser responsável por sucessos no mundo inteiro, também influenciou o próprio filho, Cedric Vongerichten, a se dedicar à culinária. Hoje, ele é quem assina o cardápio do restaurante Perry Street, dentro de um dos prédios do Richard Meyers às margens do rio Hudson (onde moram Hugh Jackman, as irmãs Olsen e mais uma série de famosos – e ricos). O atum com crosta de arroz torrado é imperdível. La Grenouille também é bem tradicional. Gravata não é obrigatória, mas blazer sim! ESCUTA ESSA Eu estava comendo as famosas pernas de rã do La Grenouille quando decidi tirar o blazer para dobrar as mangas da camisa. Antes de eu tirar a primeira manga, alguém chamou a minha atenção: – Veuillez ne pas prendre le blazer. (“Você não pode tirar o blazer.”) – Pas de problème. (“Não enche!” Brincadeira, eu disse: “Sem problema.”) Menos pretensioso, e tão gostoso quanto, é o Le Philosophe, em Nolita. Recentemente inaugurado, esse restaurante oferece um cardápio tradicional com direito a coq au vin, escargots, quenelles de brochet e as famosíssimas tripes gratinées (para aqueles que estão na dúvida, é tripa mesmo). 18
  • 11. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio
  • 12. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio O dono, Matthew Aita, trabalhou com os mestres Daniel Boulud e Jean George. Ele garante que, desde que se mudou pra NY, há anos, não conseguiu encontrar um restaurante tradicional bouchon, estilo popular de estabelecimentos do início do século XIX em Lyon, famoso pelo ambiente aconchegante e pela culinária peculiar. Com a nova empreitada, ele promete suprir essa carência. Todo dia 14 de julho, o Dia da Queda da Bastilha é comemorado em torno da 60th Street. O Lincoln Center fica todo enfeitado e nessa época rola uma festa deliciosa, chamada MidSummer Night Swing, onde dança-se muito ao ar livre. Para mais informações, acesse o site: www.midsummernightswing.org. Para quem é fã de cinema francês, o Riverside Park Pier 1 exibe filmes legendados em inglês logo após o pôr do sol. c o m u n i d a d e j u d a i c a Nova York abriga a segunda maior comunidade judaica do mundo, só perde para Tel Aviv. No início do século XX, os judeus tomaram conta do que hoje é conhecido como o Lower East Side. A grande maioria saiu de lá e foi para o Brooklyn, deixando para trás boas casas de comida kosher. Dentre elas, a melhor e mais antiga é a Russ & Daughters, que desde 1914 vem servindo os israelitas e, há bem menos tempo, o Lucas Mendes. DÁ UMA OLHADA O Russ & Daughters é um paraíso para quem aprecia arenque, salmão, bagels e caviar. Fique de olho nas fotos penduradas nas paredes e não se acanhe na hora de pedir para experimentar tudo antes de comprar. O minibagel com salmão é o meu predileto. Outro marco judeu na cidade é o Katz’s Deli. Os sanduíches de pastrami são enormes e, na minha opinião, ficam melhores na calada da noite, depois de alguns (muitos) drinks: Lehaim! Um pouco mais para o sul da ilha, sente-se no 12 Chairs e se delicie com um cardápio estritamente kosher. Depois, siga para o Jewish Museum, uma instituição focada em artistas judeus e repleta de objetos importantes para a história judaica. 20
  • 13. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio p o r t o r i c o A Puerto Rican Parade, ou Parada Porto-riquenha, é um evento no mínimo popular em NY. No dia 10 de junho, só se ouve espanhol e é impossível escapar das bandeiras estreladas ou do povo suado no meio da rua. Confesso que corro de muvuca como o diabo foge da cruz, mas Viva los Boriquas!. g r é c i a No Queens, Astoria abriga uma grande comunidade grega, além de bons restau- rantes. No verão, o Cavo é uma ótima pedida porque oferece uma área descoberta ampla e cheia de musakas e yusis (bebida tipicamente grega com gosto de anis que, para mim, parece novalgina em gotas com vodca. Mas há quem adore...). Se você não estiver a fim de se mandar para o outro lado da cidade em busca de boa comida grega, visite a Snack Taverna, na Bedford Street, uma das ruas mais bem frequentadas da Costa Leste. r ú s s i a Para explorar a Rússia em NY, você tem que ir até Brighton Beach, uma área no Brooklyn onde muita gente nem se preocupa em aprender um hábito muito comum por essas bandas: falar inglês! É tanto russo que parece que recortaram um pedacinho de Moscou e colaram na periferia de NY. Para quem quer uma amostra dessa cultura sem sair de Manhattan, uma ida ao Mari Vanna é essencial. Além da decoração e da comida, quase todo o estafe é importado. Mesmo quem não curte essa culinária deve provar o borsch (sopa tradicional de beterraba com carne) e o pelmeni (uma massa com carne de vitela). Já o estrogonofe... Confesso que prefiro o abrasileirado mesmo, com creme de leite e catchup. b u l g á r i a A festa Mehanata rola de quinta a sábado em um bar de mesmo nome, no Lower East Side, e proporciona uma experiência autenticamente búlgara com direito a música cigana ao vivo e bartender equilibrando cadeira na testa no meio da pista de dança! DÁ UMA OLHADA Tanto o Mari Vana quanto o Mehanata oferecem mais de cinquenta tipos de vodca no que eles chamam de “ice cage”, ou “jaula congelada”! Nos fins de semana, a situação no bar fica russa, literalmente. ­ 21
  • 14. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio j a pã o Para os amantes da cultura japonesa, a Japan Society, na 47 Street, se encarrega de trazer o que há de melhor na arte kabuki. Quando o assunto é comida de qualidade, há muitas opções, mas a maioria não é barata. O sushi Yasuda é dos mais tradicionais do país e fica ao lado do Grand Central Terminal. Você se senta e o “mestre” do outro lado do balcão escolhe tudo o que você vai comer, e determina inclusive quanto shoyu você vai consumir. Além disso, eles pedem duas horas para a refeição. A experiência é longa, porém inesquecível. Nada de comer com pressa, encher o bucho com bolinho de arroz recheado com cream cheese ou sashimi de omelete. O chef Naomichi Yasuda se orgulha de oferecer um jantar impecável até para os paladares mais apurados. Outro marco gastronômico em NY é o Masa, no Columbus Circle, onde é capaz de você comer melhor do que em boa parte dos estabelecimentos culinários de Tóquio. No entanto, vá sabendo que sua conta vai custar o mesmo – ou mais – que uma passagem NY-Osaka-NY! Uma boa pedida é o Soto, considerado por Frank Bruni (que por muitos anos foi crítico gastronômico do NY Times) o melhor japa do país. O restaurante é pequeno e consiste em quatro paredes brancas numa área sem o menor charme. Nesse lugar, o atrativo é somente a ótima comida, mais nada. As porções são pequenas, mas tudo é muito bem-feito e lindamente apresentado. Um bom exemplo é o tofu, que por natureza é uma coisa sem graça, mas o do Soto é digno de repeteco e foto no Instagram. O prato mais famoso da casa é, de longe, o ouriço fresco. De preferência, sente-se ao balcão e admire a arte que a autêntica cozinha japonesa requer. Hoje em dia ela se perdeu um bocado e até fast-food de sushi a gente vê por aí. Não tem como ser bom. Nobu Matsuhisa abriu seu primeiro restaurante em 1994, quando o bairro de Tribeca não oferecia um décimo dos encantos que oferece hoje. Mas com a ajuda de seu parceiro, Robert de Niro, transformou o local em um sucesso de proporções mundiais. Como a demanda continuou a crescer, ele abriu também o Nobu Next Door, colado no original, porém mais acessível e receptivo a grupos sem reserva. Mais recentemente, a filial na 57th Street tende a atrair mais turistas. Outros bons japas são: Sugiyama, Sushi of Gari, Sushi Sem-nin e o delicioso Sasabune. Todos esses lugares, mesmo oferecendo ótima comida, não são frequentados pela comunidade japonesa. Se você quiser se sentir em Fukushima, vá ao Kenka. O cardápio é exótico: eles não servem sushi nem sashimi, já que focam nas papilas gustativas do norte do país. Além da famosa okonomiyaki (uma panqueca de batata com recheio de porco, lula e mais um bando de ingredien22 th
  • 15. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio tes indecifráveis), eles também se orgulham em servir testículos de peru, pênis de boi, intestino do “mamífero que estiver dando sopa no dia”, dentre outras iguarias irresistíveis, caso você esteja com o espírito aventureiro coçando, é claro. ALI DO LADO O quarteirão do Kenka é bem popular entre os imigrantes japoneses, principalmente à noite. O St Marks Place ficou muito conhe­ cido como reduto punk nos anos 1980 e 1990, mas, aos poucos, nossos colegas da Terra do Sol Nascente foram se instalando. Colado no Kenka fica um brechó bacanérrimo chamado Search and Destroy, onde eles mal falam inglês. Por incrível que pareça, a música ambiente (um heavy me­ tal oriental insuportável) é tão alta que, mesmo que eles falassem portu­ guês, a comunicação seria absolutamente impossível. Se você curte saquê, o Bar Decibel é parada obrigatória. Um dos locais mais charmosos da Grande Maçã com uma variedade de saquês que deixaria até as gueixas mais pinguças impressionadas! Os detalhes eu dou depois, no capítulo “Romance”. m é x i c o A relação do México com NY não é tão intensa quanto com Los Angeles (que faz fronteira com “los amigos”), no entanto, não faltam bons restaurantes dedicados a essa culinária. O bom é que esse tipo de cozinha não discrimina “bolsos”. Para os que querem gastar menos: Dos Toros Taqueria (rede californiana), Calexico, Tortaria, Fonda Nolita e El Rey Del Sabor (comida de rua) são boas pedidas. Se dinheiro não é problema, recomendo o Empellon Cocina, El Toro Blanco, Fonda, Maya e La Esquina. DÁ UMA OLHADA Serge Becker é um empresário que está por trás de alguns dos estabelecimentos mais transados e bem-sucedidos de Manhattan (dentre eles, a boate The Box e o bistrô caribenho Miss Lily’s). Uma de suas primeiras empreitadas foi o restaurante La Esquina. Para o caso de um lanche rápido, você pode – e deve – comer na taqueria. Se a busca é por uma experiência memorável, faça uma reserva e jante no sa­ lão secreto no subsolo da birosca. Quem olha de fora acredita que o local 23
  • 16. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio seja somente um balcão servindo tacos e enchiladas, mas quem é bem in­ formado, como a gente, entra no lugar e fala com o rapaz mal-encarado sentado na portinha perto do banheiro. O leão de chácara vai procurar seu nome numa listinha fajuta e, caso você esteja lá, abre-te Sésamo! Vai passar pela cozinha e chegar a um salão encantado onde a comida é boa e a tequila é farta. e s pa n h a Conheço muita gente que entende de boa comida e várias garantem que a culinária espanhola é a mais criativa hoje em dia. Durante séculos, achei que ir a Barcelona seria sinônimo de paella sete dias na semana, mas aprendi que não é bem assim. Para quem curte vinhos  e belisquetes vindos diretamente de Sevilla, Madri e afins, o Despaña, no SoHo, é um prato cheio – e eu não estou me referindo a arroz. Os donos formam um casal adorável que importa iguarias do mundo inteiro há décadas. Como a demanda dos espanhóis era de longe a mais alta, eles decidiram deixar o restante do mundo para trás e focar no que estava fazendo sucesso em Manhattan. O lugar é um achado para quem, como eu, curte bons queijos, azeitonas, frios etc. Os sanduíches, no fundo da loja, também são excepcionais. E não deixe de explorar a seção de vinhos. DÁ UMA OLHADA Se você não quer levar sacolas de compras para casa e prefere se sentar, comer bem, pagar e pular fora, não deixe de provar estas maravilhas made in Spain: Manzanilla, Casa Mono, Boqueria, Alta e Bar Carrera. No momento, um dos meus restaurante prediletos é, sem sombra de dúvida, o Tertulia. S ­ eamus Mullen ganhou alguns prêmios de melhor chef graças à combinação do clássico com o inovador. Quando for ao restaurante, tente pedir um prato diferente do seu acompanhante, assim vocês provam um pouco de tudo (o carneiro e o pato são preciosos). Outra maravilha para os adeptos da culinária espanhola é o Atera. O restaurante arrematou duas estrelas Michelin e foi considerado um dos melhores da cidade pelo NY Times. O esquema é demorado, já que são servidos mais de vinte pequenos pratos por refeição. A comida é uma delícia e o preço, um tanto salgado. 24
  • 17. Este material foi enviado para Luiza Modesto do Jornal do Comércio á f r i c a Comida africana é gostosa, mas requer espírito aventureiro. Para começo de conversa, em boa parte do continente não se usa garfo ou faca, e só esse detalhe, assim como o elefante, já incomoda muita gente. Caso a curiosidade grite, os melhores são esses: Papaye (no Bronx), Ghenet (em Park Slope) e Zoma (no Harlem). Sabores da Etiópia podem ser degustados nas festas “secretas” Habesha Nights, onde boa parte da comida é vegan e as tradições da cultura africana são levadas muito a sério. Para saber a localização da festa durante a sua visita, acesse o site www.habeshanights.com. Colecionadores de arte africana não podem deixar de conferir a Hemingway African Gallery, na 2 Avenue com a 56th Street. Apesar de ser americaníssimo, o dono, Brian, tem verdadeira paind xão pelo continente africano. Desde jovem viaja pelo menos quatro vezes por ano para comprar os mais diversos estilos de arte, que não são poucos, levando em consideração a variedade de tribos. Além disso, ele ainda tem um trabalho fascinante de preservação de leões. ESCUTA ESSA Na minha última visita à galeria, me deparei com um grupo de colecionadores contratados pela realeza britânica para esco­ lher peças autênticas e valiosas. O cara é bom! E, caso você seja desas­ trado como eu, siga o conselho que minha mãe sempre me dava antes de entrar em qualquer loja ou galeria: “Mão no bolso e cuidado com mochi­ las.” Um esbarrão distraído e lá se vão trocentos anos de história. malásia Para comida da Malásia, vá ao Fatty Crab. Se o destino for a Jamaica, o Miss Lilly’s, na Houston, promete não só encher sua barriga, mas também seus ouvidos, já que eles abriram uma loja de discos responsa no mesmo espaço. Por lá você vai acompanhar gravações de programas de rádio e shows de artistas vindos do mundo inteiro – até hoje a performance mais lotada foi a do brasuca Criolo! ALI DO LADO O dono, um americano casado com uma jamaicana api­ mentadíssima, decidiu abrir uma loja de sucos ao lado do Miss Lilly’s. Tudo natureba e de primeira! 25