Elaine - parte 1 - 3set
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    Elaine - parte 1 - 3set Elaine - parte 1 - 3set Document Transcript

    • Sumário1. Considerações iniciais2. O que é leitura................................2.1. Definições de leitura..................3. O processo de formação do leitor4. O processo de ensino-aprendizagem da leitura4.1. A importância do hábito da leitura5. Considerações finais6. Bibliografia2. O que é leituraHá muito tempo está na moda dizer que o brasileiro não lê, não freqüenta bibliotecas e que a televisão é umaameaça à leitura. Fala-se também que a escola não está ensinando o aluno a ler e, mesmo na era dainformática, com tantos recursos para ensinar de uma forma menos cansativa, o livro continua sendo oinstrumento mais utilizado em sala de aula. Não que o livro seja algo cansativo e ultrapassado, porém é oconceito que tem sido atribuído a ele nos últimos tempos. O que falta, na verdade, é uma maior coerência sobreo sentido dado ao ensino da leitura por parte dos envolvidos nesse processo e, principalmente, sobre asresponsabilidades que isso implica. É preciso sair do lugar-comum.Muitos tivemos, felizmente, um livro que marcou momentos de nossa infância. A história,contada e recontada por alguém importante para nós, alguma ilustração, que durante certotempo ficou gravada em nossa memória. Somos capazes de nos lembrar da sensação dedescobrir as palavras identificando letra por letra, soletrando sílabas, ou até mesmo deescrevermos nosso nome e identificá-lo perante os outros na lista de chamada da turma.Nossa aprendizagem passou por vários estágios: o contorno das formas, depois partes específicas, maisadiante as imagens auditivas até chegar ao surgimento do significado. A descoberta da leitura deixava aimaginação tomar conta dos nossos momentos de lazer: construíamos castelos, escrevíamos na areia,brincávamos com as palavras, criávamos nossa própria história... às vezes até sem “começo, meio e fim”. Masera a nossa história e podíamos recriá-la, reinventá-la. E, mesmo não dominando a leitura e a escrita, podíamoscontar histórias e recriá-las apenas “lendo” as figuras ou soletrando algumas palavras. Interpretávamos essashistórias segundo os nossos sentimentos, sem nos preocuparmos com a “verdade absoluta” do autor. Dávamoso final de acordo com nossos princípios e, a cada minuto, inventávamos o nosso próprio texto. [salto?]Então começamos a ler. Líamos qualquer coisa que encontrávamos, até o ilegível. Inventávamos, fazíamos deconta que estávamos lendo. [salto?] E assim, aos poucos, ampliamos o nosso vocabulário, formando frases
    • mais extensas e redigindo com maior coerência o nosso texto. [salto?] O que será que aconteceu de erradodurante esse percurso? Por que essa motivação parece ter se estagnado?Elaine: num desses lugares, ou noutro, você avalie o melhor, por favor, há um baita salto. Você vinha tratandoda leitura [talvez a de mundo, não sei], de um modo bastante amplo e informal. De repente, “começamos a ler”.Pergunto: passe de mágica? Alfabetização na escola? Inteligência extra? Tome cuidado para que seu trabalhonão fique preso à fase de aquisição da linguagem, ok?Para responder a essas perguntas, é preciso, antes, compreender uma questão de grande relevância, pois, apartir dela, é que a interpretação se torna possível. Afinal, o que é ler? Em que consiste a leitura? Por queprecisamos aprender a ler?O ato de ler é um processo de elaboração de significados ou de pensamentos diante de símbolos, sejam elesescritos ou não. “Lemos” facilmente os sinais de trânsito, as sirenes (das ambulâncias, das patrulhas policiais,dos bombeiros, das fábricas), ouvimos rádio e assistimos à televisão recebendo e decodificando mensagens atodo momento. Ou seja, ler “um texto” é também ler o que a sociedade produziu. Segundo Martins (1994:9),“Com freqüência nos contentamos, por economia ou preguiça, em ler superficialmente, ‘passar os olhos’, comose diz. Não acrescentamos ao ato de ler algo mais de nós além do gesto mecânico de decifrar os sinais”.O ato de compreender não está, portanto, diretamente ligado a um ato racional: está também vinculado aoemocional do ser humano. Tudo tem significado, sentido próprio: uma palavra, um silêncio, um gesto; e apenassão notados por meio da compreensão.Mas ler não é, pois, traduzir, repetir sentidos dados como prontos. É construir uma cadeia de sentidos a partirdo texto, do seu conteúdo. É ir além do óbvio. A atividade de leitura pressupõe a interação entre sujeitos esupõe muito mais que a simples decodificação de sinais gráficos. O leitor atua participativamente, buscandointerpretar e compreender o conteúdo e as intenções pretendidos pelo autor.Muitas vezes nos esquecemos de que, muito além do que simples palavras, para apreender o texto precisamosfazer uso do nosso conhecimento prévio, ou seja, de algo que é anterior ao que está lá. Isso quer dizer que ainterpretação de um texto depende de outros conhecimentos além do conhecimento da língua. As palavras,portanto, não são os únicos elementos necessários para sua compreensão.Essas inúmeras “definições” nos permitem perceber que, no início de nossa aprendizagem, nosso processo deleitura baseava-se na decodificação, um processo diferente da leitura, embora necessário para que ela ocorra.Enquanto Como adultos, percebemos as palavras globalmente e adivinhamos muitas outras guiados peloconhecimento prévio e pelas hipóteses de leitura.Assim, o contexto sociocultural, os conhecimentos de mundo, as experiências e as crenças individuaisinfluenciam na organização das inferências durante a leitura, ou seja, os conhecimentos individuais afetamdecisivamente a compreensão, de modo que o sentido não reside no texto, ele só se tornará uma unidade desentido na integração com o leitor.2.1 Definições de leituraMuitos autores dedicaram-se ao estudo desse tema tão abrangente, como forma de resgatar o sentido e aimportância desse ato em nossas vidas. Pretende-se, aqui, apresentar parte dessa rica contribuição.
    • De acordo com o Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa, ler é “Percorrer com a vista (o que está escrito),proferindo ou não as palavras, mas conhecendo-as”; “Decifrar e interpretar o sentido de”; e, ainda, “Ver as letrasdo alfabeto e juntá-las em palavras” (1989:332).Segundo Martins (1994:31), as inúmeras concepções de leitura podem ser sintetizadas emdois tipos: como decodificação mecânica de signos lingüísticos, e como processo decompreensão abrangente, “cuja dinâmica envolve componentes sensoriais, emocionais,intelectuais, fisiológicos, neurológicos, tanto quanto culturais, econômicos e políticos”.A partir dessa concepção, temos pelo menos dois tipos de leitura: aquela em que apenasdecodificamos mecanicamente os sentidos do texto, e aquela em que adquirimos umacompreensão ampla, indo além do próprio texto.Geraldi (2006) integra o trabalho com a leitura à produção em dois sentidos: de um ladosobre “o que se tem a dizer” e, do outro, sobre “as estratégias do dizer”. O produto éoferecido ao leitor e nele se realiza a cada leitura: “São mãos carregadas de fios (...) e é oencontro destes fios que produz a cadeia de leituras construindo os sentidos de um texto”(2006:166); evidenciando que o sentido se dá pela interação entre texto e leitor, ou, ainda,entre autor e leitor. “O texto é, pois, o lugar onde o encontro se dá” (2006:167).A leitura é interpretada de modo diferente por cada indivíduo, isso porque se trata de umaexperiência individual, mais ligada à vivência de cada um do que ao conhecimentosistemático da língua. O leitor participa desse processo com uma aptidão que não dependede sua capacidade de decifrar sinais, mas sim de sua capacidade de dar sentido a eles, decompreendê-los. Dar sentido a um texto implica levar em conta a situação desse texto e deseu leitor: a noção de texto não fica restrita ao que está escrito, mas abre-se para englobardiferentes linguagens. A leitura precisa ser vista como um instrumento possível de serusufruído por todos, não apenas pelos letrados.Ainda segundo Martins (1994:37), a leitura apresenta três níveis básicos: sensorial, emocional e racional. Cadaum desses três níveis corresponde a um modo de aproximação do objeto lido. O sensorial dá ao leitor conhecero que gosta ou não, mesmo inconscientemente, sem a necessidade de justificativas e, quando nos faz ficaralegres e provoca descobertas, deixamos de ler com os sentidos para entrar em contato com o emocional.Quando a compreensão torna-se abrangente, com participação do leitor com todas as suas capacidades paraapreender as diversas formas de expressão, a competência para criar ou ler se concretiza tanto por meio detextos escritos quanto de expressão oral: é a leitura racional.Kleiman (2000:65) define a leitura como “uma interação a distância entre leitor e autor viatexto”, em que o leitor constrói, e não apenas recebe, um significado global para o texto; eleprocura pistas formais, formula e reformula hipóteses, aceita ou rejeita conclusões.Para Antunes (2006:66), a leitura é “parte da interação verbal escrita, enquanto implica aparticipação cooperativa do leitor na interpretação e na reconstrução do sentido e dasintenções pretendidos pelo autor”, ou seja, os elementos gráficos funcionam comoverdadeiras instruções do autor, que não podem ser desprezadas, para que o leitor descubrasignificações, elabore hipóteses e tire suas conclusões. Todo o esforço feito para entenderessas instruções só se justifica pelo que elas representam para a compreensão global do atocomunicativo feito por meio do texto.
    • Dessa forma, todo texto tem um percentual maior ou menor da dependência deconhecimentos que são anteriores a ele, ou seja, o que está no texto e o que é conhecimentoprévio do leitor se unem, se completam, para reconstruir o sentido e as intençõespretendidos pelo texto.O ato de ler também está relacionado à leitura do mundo, pois está vinculado ao nossocotidiano e às experiências que temos a todo o momento. A leitura vai além,“(...) não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa ouse alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leituradesta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele” (Freire, 2001:11).A leitura é considerada, ainda, o momento crítico de produção do texto, pois é o momento em que ocorre oprocesso da interação verbal: aquele em que os interlocutores desencadeiam o processo de significação.Porém, o texto não resulta da soma de frases nem da soma de interlocutores; seus sentidos resultam de umasituação discursiva, com enunciados efetivamente realizados. Considerar as condições em que a leitura éproduzida é trabalhar, também, com a incompletude do texto, pois ele é resultado de sua relação com ascondições de produção e com os interlocutores.Sabemos que há grande diversidade entre as compreensões apresentadas nas versões de um mesmo texto.Isso nos mostra que a leitura não é um processo preciso que envolve uma percepção exata, detalhada eseqüencial, com a identificação de todos os componentes. Ela não é feita linearmente, mas progride empequenos blocos ou fatias e não produz compreensões definitivas. É um ato de interação comunicativa, do qualnão se pode prever, com segurança, os resultados.ElaineAlém do que está assinalado em seu texto, nas palavras que evidencio em rosa, você toca em noções queprecisam estar bem esclarecidas em seu trabalho. Sei que você ainda não deu conta de tudo, claro, mas jáassinalei para que você não se esqueça de esmiuçar bem o que pintei de rosa, ok?Quando você desenvolver a perspectiva do processo, avalie se ela não merece um tópicoexclusivo no sumário.BjsLílian
    • 6. BibliografiaANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2001. GERALDI, J. Wanderley. Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 2006.KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor - aspectos cognitivos da leitura. Campinas, São Paulo: Pontes, 2000.MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 1994, 19ª edição.