FRUTA   de verão

                                               Flávia Fernandes
                                        ...
FRUTA do verão
                     dia”, conta Dulcinéia Zorzanelli          citam sua criatividade e depois da festa    ...
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Brasilidades coco

  1. 1. FRUTA de verão Flávia Fernandes Fotos: Isaumir Nascimento le pode ser considerado a fru- ta do verão. Num sol quente à beira-mar, a água-de-coco é rapidamente lembrada para matar a sede. E a verdade é que do co- queiro nada se perde. A fruta apresenta mil e uma utilidades que espantam quem só se delicia com a doçura da água ou com os diferentes pratos que a culinária oferece. Sem deixar por menos, a água-de- coco tem inúmeras aplicações: é efici- ente soro hidratador, podendo ainda ser utilizada como auxiliar no tratamento de doenças infantis e de organismos debili- tados. Já o leite de coco, de uso culiná- rio, é obtido através da polpa branca, carnuda e oleosa. Do bagaço podem-se produzir azeite, sabão, velas e, até mes- mo, margarina. Capachos, passadeiras, sacos, broxas, escovas, redes, esteiras e estofados para carros são produzidos da Na água e na arte, doce delícia fibra do coco, que envolve a parte carnosa. Do coco nada se perde, Acontece que o capixaba inventou mais utilidades para o mágico coco. Em Vila Valério, mais especificamente na comunidade de Dourado, a fruta já possui até data específica. Pode agendar: tudo se desfruta na última semana de agosto, são três dias de festa. O município é o segundo maior produtor de coco do Estado, perdendo apenas para São Mateus. Lá, são mil hectares de coco-anão-verde, sendo que desses, 800 já estão produ- zindo e os 200 restantes estão em fase de crescimento. Na Festa do Coco existe o concurso para se escolher a Rainha do Coco, so- nho de toda mocinha da cidade. Esti- mulada pelos prêmios oferecidos, a co- munidade se mobiliza e coloca a imagi- nação em dia. É incrível o capricho das artesãs na produção de vestidos com modelos bem-trabalhados, trançados, tendo flores, acessórios, brincos, luvas, bolsas e até sapatos confeccionados com fibras do tronco do coqueiro. Tudo fei- to do coco, chamando a atenção pela beleza. “As artesãs procuram acompa- nhar a moda para a produção ficar em
  2. 2. FRUTA do verão dia”, conta Dulcinéia Zorzanelli citam sua criatividade e depois da festa água-de-coco. Já quem faz o doce come Brumati, vice-presidente da Associação os vestidos e outras produções acabam o tempo todo, durante o preparo. “Não de Moradores e Produtores de Doura- no armário de suas casas. consigo enjoar do coco”, declara o estu- do e Arredores. Até vestido de coco ralado, simulan- dante Hiury Brumati, de 14 anos. Já a Maria Geni Boni e Maria das do um tecido com rendas minuciosas, é doceira Lúcia Mantovanelli Boni sabe Graças Scalfoni Savernini não se pre- fabricado em Vila Valério. “A festa foi o os segredos para que o paladar sempre ocuparam em retirar do armário os ves- que incentivou o artesanato. A gente nem descubra as novas faces do coco. “O tidos confeccionados para festas anteri- sabia que tinha tanto artista por aqui”, que mais vende é a cocada. Fazemos de ores. E é pena que não haja uma casa destaca Dulcinéia. As artesãs levam em todo jeito: com abacaxi, abóbora, leite, de arte para expor o trabalho tão média 25 dias para produzir um banana. Vai ao gosto do freguês. O coco detalhista e de qualidade. As artesãs exer- vestido. Por dia, são nove horas de ralado é o princípio de qualquer prato”, trabalho criativo, em equipes formadas ensina a cozinheira de mão-cheia. por quatro pessoas. Na casa da artesã Vanilda O coco tem um significado especial Bonifácio, o coco ajuda na decoração. para a adolescente Kênia São tapetes, cestos, bonecas e enfeites Brandenburg, de 12 anos, segun- diferenciando o ambiente. “Foi a festa da colocada na última festa do que me motivou a produzir o artesana- coco. Sua irmã, de 15 anos, to. Comecei há oito anos. Produzo sozi- foi a campeã. “Se mamãe inven- nha, com muita paciência”, confidencia. tar de fazer um novo vestido, partici- Seu trabalho é totalmente voltado para po novamente da festa. Ser a Rainha do a festa do coco. Aliás, os artesãos da Coco é o sonho de toda menina daqui”, região ainda não produzem em larga garante, os olhos brilhando. O vestido escala, apesar de não faltar criatividade exibido por Kênia fica escondido num para a generosa arte. “A inspiração de- quarto, como um tesouro, guardando pende do momento. Os modelos sou eu o glamour e o sonho de três dias de mesma quem inventa. Tento ensinar o festa. Ao fechar-se a janela do trabalho para minhas filhas, mas elas não quarto, uma parte do sonho se interessam. É preciso ter o dom. Na também é arquivada na me- verdade, sinto pena de comercializar assim como a decoração na igreja e as sil. São mais de 100 milhões de cocos tada, ocupando principalmente os mória de quem escuta a meus produtos”, descreve Vanilda, de- lembrancinhas”, idealiza Adão anuais. Há 15 anos, o Estado só tinha estados de Alagoas, Sergipe e Bahia. O menina. monstrando que um pouco de incenti- Bonifácio, marido de Vanilda. 500 hectares. Hoje, o coco representa a coqueiro-anão – introduzido no Brasil Em Vila Valério, é vo à cultura artesanal viria bem a ca- cultura agrícola que mais cresceu”, em 1925, vindo da Malásia – não alcan- alto o consumo de lhar. Durante o dia, a artesã trabalha na ECONOMIA salienta Dalmo Nogueira da Silva, ça mais do que 10 metros de altura, o produção de café, e à noite solta a ima- coordenador estadual do Programa de que facilita bastante a colheita. Essa es- ginação entre as palhas do coqueiro. O coqueiro e seus frutos, presentes Desenvolvimento da Fruticultura no pécie inicia sua frutificação no segundo Vestidos e sapatos Estado. Ao chegar à propriedade rural onde em mais de 80 países ao redor do mun- ano após o plantio, apresentando maior feitos em Vila três modelos já aguardavam vestidas de do, têm grande importância na vida e No Brasil, os coqueiros mais comuns produtividade: cerca de 200 frutos/ano Valério: coco, com a produção de Vanilda, a equi- na economia de várias populações. São são encontrados em duas variedades: a por pé. Em compensação, vive apenas originalidade pe da revista, olhando de longe, aproxi- cultivadas as variedades (conhecidas gigante e a anã. O coqueiro-gigante é 20 anos, bem menos tempo do que o (ao lado). Na página oposta, mava-se do que supunha serem três como coqueiro-da-baía) anão-verde, uma planta que pode viver além dos 150 centenário coqueiro comum. Kênia bonecas douradas que servissem de amarelo, vermelho e híbrido (anão x gi- anos e chegar a 35 metros de altura. Dos É comum, em Vila Valério, os Brandenburg, enfeite para o belo jardim. Para nossa gante). No Espírito Santo, os municípi- 6 aos 9 anos de idade, o planta inicia a produtores consorciarem a cultura do segunda surpresa, as bonecas começaram a se os que mais produzem são, além de Vila produção de frutos, que se estabiliza aos coco com a produção de café. “O pro- colocada no mexer, demonstrando a vida existente Valério e São Mateus, São Gabriel da 12 anos, com uma média de 70 cocos dutor economiza até o oitavo ano, épo- concurso de no talento da artesã. “Falei para Vanilda Palha, Colatina, Linhares e Pinheiros. No ao ano. A variedade gigante é a mais ca em que o café é retirado. O coqueiro Rainha do para produzir vestidos feitos do coco Estado, cultiva-se o coco-anão para a comum em todo o Nordeste brasileiro, garante sombra ao cafeeiro. Da produ- Coco para o casamento de nossas filhas. extração de água. “O Espírito Santo é o região responsável por 85% da produ- ção de Vila Valério, 30% são realizados Tenho a idéia de fazer tudo do coco, primeiro produtor de coco-anão do Bra- ção nacional e mais de 90% da área plan- dessa forma e a produção anual é de 10
  3. 3. FRUTA do verão dores eram, nada mais nada menos, os sogros de dona Otília. Acontece que a artista, poetisa e artesã não sabia que possuía tais qualidades na época. “Eu não sabia como fazer. Fiquei a noite toda pensando até que surgiu num estalo. Daí eu peguei um canivete e tesoura e con- segui realizar a tarefa. Primeiro saiu o velho e, depois, a velha”, lembra. A se- melhança chamou a atenção dos mora- dores e, a partir daí, dona Otília não parou mais. Na sala de sua casa, são 30 esculturas como gatos, galos, galinhas, besouros, relógios, coelho, macaco, gato, índio, tatu, além de figuras ilustres como o Papa João Paulo II e Os Trapalhões. Para dar mais vida às suas criações, a artesã utiliza botões de roupa, des- pertando o brilho nos olhos dos perso- “APRENDI DE MIM nagens (percepção dela mesma). “Eu MESMA ” aprendi de mim mesma. Tudo tem que ter imaginação, senão, não sai”, comen- Imagine criar esculturas ta a comunicativa artesã que não ven- no coco seco e, além disso, de nenhuma peça de sua coleção. “Uma fazer poesias em um livro vez um rapaz se interessou por uma todo encadernado com pa- escultura. Pedi R$ 20 e ele achou caro. lhas da fruta de mil e uma Falou que o coco é barato. Só que eu utilidades. Para dona Otília não vendo coco. Vendo arte. Depois Boni Tartaglia, de 74 anos, dessa decepção, nunca mais quis ven- o ofício veio sem avisar, as- der uma peça de minha coleção. Te- milhões de cocos”, explica Joventino no. O certo é que, no Brasil, ou melhor, ganhando a vida sem patrão e literalmente sim como as constantes mu- nho ciúme”, segreda dona Otília, que Vieira de Souza, técnico agrícola e che- na Bahia, o coco chegou em 1553 a bor- quebrando o coco para conseguir sua renda ao danças de endereço em sua atualmente mora na ilha de Guriri, em fe local do escritório da Incaper. Essa do das embarcações portuguesas, pro- final de cada mês. “No verão o que sai mais vida. Nascida em 12 de abril São Mateus, tendo o coco como um forma de se cultivar o coco demonstra veniente das ilhas de Cabo Verde, como são as pregadeiras, bolsas, pingentes enta- de 1927, em Guarapari, dona passatempo. mais uma utilidade da fruta. relatam algumas enciclopédias. Na épo- lhados e outras coisas que surgem através Otília mudou-se para a loca- Ninguém sabe ao cer- ca, foram logo descobertos pratos típi- da encomenda do freguês”, situa Falcão. lidade de Dourado, em Vila to a origem do coquei- cos e variados como vatapá, caruru de Além disso, os sutiãs de coco também vi- Valério, aos 18 anos. Lá, ela ro. Uns dizem que folha, efó, xinxim, arroz-de-hauçá e, até ram sensação no verão. “As pessoas se inte- se deparou com a tarefa de vem da Índia, outros mesmo, a moqueca (não a capixaba!). ressam pelo coco independentemente da esculpir o rosto dos primei- afirmam que é pro- Entre os doces, baba-de-moça, cocadas, estação ou da moda. O artesanato confun- ros moradores da vila no coco veniente das ilhas quindim, creme-do-homem, beiju mo- de alguns fregueses, que pensam que o pro- seco. O pedido partiu de duas do Pacífico e al- lhado, cuscuz de tapioca, bolos, mingaus, duto é feito de madeira. A arte de trabalhar professoras locais, preocupa- guns ainda afir- xerém, munguzá e outras invenções com o coco é perigosa, devido aos moto- Roupas exibidas na Festa do Coco das com os preparativos da primeira mam que o possíveis. res e lixadeiras”, conta o artesão. Suas pe- (página oposta, no alto) criados pela festa do coco – isso há 12 anos. coco é africa- Diante de tanta história, o artesão Paulo ças variam de R$ 2 a R$ 15, o que torna artesã Vanilda Bonifácio (alto), que Para algumas pessoas a tarefa pare- qualquer produto bem acessível. Com tan- também produz bonecas e outros cia simples porque os primeiros mora- Falcão aproveita a melhor época do ano objetos; Dulcinéa Brumati, vice- para vender suas peças. Bem tas utilidades, resta perguntar se o coco dá presidente da associação dos diferente do artesanato encontrado em Vila lucro. “Não é 100% mas dá um bom cal- produtores de coco, com bolsa Valério, Falcão expõe em praças de Vitória, do”, brinca o animado artesão. confeccionada para o evento (página oposta, embaixo); artesã mostra arranjo de flores, utilizado pelas candidatas a Rainha
  4. 4. FRUTA do verão O que também chama atenção na produção das peças é que dona Otília não utiliza fotos para guiar os traça- dos. Geralmente os personagens ficam marcados pelas rápidas aparições na TV ou na lembrança de alguma foto do passado. Apesar de seus 74 anos, a memória, assim como sua imaginação, anda totalmente em dia. Tanto é as- sim que ela está concentrada na pro- dução final de seu livro ainda manus- crito. “Quero publicá-lo, mas ainda estou sem patrocínio. Não tenho re- cursos para isso”, lamenta a artista. No “Livro que saiu do coração”, dona Otília não abandonou o coco: ele faz parte de algumas poesias e embeleza a encadernação da obra, toda feita com palhas da fruta. Nos 61 poemas, todos em rima com temas ecológicos, saudades, lembranças, esperança e muita alegria. “O livro saiu do coração mesmo. Saiu tudo que esta- va preso aqui”, conta, com a mão no peito. Dentre as poesias, o galo e a gali- nha (duas esculturas criadas no coco) der o ofício da avó. “Não tenho paciên- foram lembrados. “Na época que fiz a cia, mas gosto da poesia quando ela lê Otília Boni Tartaglia, poesia, ainda não tinha preparado o galo para mim”, assume. Para dona Otília, o com algumas das suas e a galinha. Parecia que eu estava adivi- coco trouxe um novo significado em sua esculturas (alto, à nhando. Demorei 30 dias para fazer o existência. “Eu não sei o preço de minha esquerda); detalhe do galo. Deu muito trabalho”, comenta a arte e, por isso, fica difícil de vender. Vi- trançado de uma artesã, que tem os dedos machucados ver do coco ainda não dá. Por enquanto, roupa (acima) pela afiada lâmina do canivete. só dá dor nos dedos”, brinca. Com cer- Sua neta, Mitssa Merlem Calegari, teza, dona Otília tem outros olhos para a de 15 anos, nem de longe sonha em apren- dureza do coco.

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