Catálogo Territórios
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Catálogo de atividades do projeto ASAS em 2009/2010

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    Catálogo Territórios Catálogo Territórios Document Transcript

    • Natacha Rena (org.)Territórios aglomerados
    • http://projetoasas.orgNatacha Rena (org.)Territórios aglomerados Belo Horizonte (2010)
    • ReitoriaProf. Antônio Tomé LouresVice-reitoriaProf.ª Maria da Conceição RochaPró-reitoria de Ensino, Pesquisa e Extensão Gerência de projetos Diretoria de Desenvolvimento SustentávelProf. Eduardo Martins de Lima Daniela Lemos Maria Luiza Pinto e PaivaPró-reitoria de Planejamento e Administração Consultores voluntários e sociosfundadores Superintendência de Ação SocialProf. Eduardo Leopoldino de Andrade Prof. Dr. Waldenor Barros Moraes Filho Laura Regina Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de SouzaCoordenadoria Geral de Pesquisa Coordenação do Concurso Banco RealProf.ª Rúbia Carneiro Neves Universidade Solidária Eloísa MartinsCoordenadoria Geral de ExtensãoProf. Osvaldo Manoel CorrêaCoordenadora do setor de Relações InternacionaisProf.ª Astréia Soares BatistaAssessoria de Ensino de GraduaçãoProf. Luiz Antônio Melgaço Nunes Branco Professora coordenadora: Paulo Neves Rodrigues, Rafael Miranda Barbosa, Silvia Natacha Rena Alves Ferreira Pio Martins, Rodrigo Franco MattarFACULDADE DE ENGENHARIA E ARQUITETURA - FEA Assistente de coordenação: ArtesãosDiretor Geral Bruno Elias Gomes de Oliveira Adson Luiz QuevedoProf. Luiz de Lacerda Júnior Adrielle Silva Técnicos: Etelvina Xavier de AlmeidaDiretor de Ensino Éder Jorge Almeida Eva SouzaProf. Lúcio Flávio Nunes Moreira Éder Peixoto Fátima Rodrigues Frois Emanuel Lucas Ferreira Ribeiro Maria do Carmo da RochaDiretor Administrativo Financeiro Maria Crisóstomo Ramos Maria ElizabethProf. Fernando Antônio Lopes Reis Maria Inês Rios Marianne Souza Stoklasa Cláudia Aparecida Teixeira Marilene Porto SantosCoordenador do setor editorial FEA-FUMEC Shirley Maria AraújoProf. Antônio Pertence Júnior Estudantes: Suzana Marília dos Anjos Oliveira Alessandra Luísa Teixeira Santos, André SantosCoordenadora Geral do Curso de Design de Oliveira, Ana C. Bahia, Aruan Mattos, Bruno Parceiros do projeto ASAS:Prof.ª Ângela Souza Lima Elias Gomes de Oliveira, Carolina Medeiros, Universidade FUMEC Cristiana Santos, Fernanda Hott, Julia de Assis Raiz da TerraCoordenadores por Habilitação Barbosa Soares, Juliana Augusta de Lima Rocha, Loja GrampoD.Gráfico | Prof. Guilherme Guazzi Rodrigues Larissa Oliveira Duarte, Maria Lina Ceschim, Quina GaleriaD.Interiores | Prof.ª Maria Fernanda Loureiro Nayara Rodrigues Santos, Larissa Duarte, Lilian Café com LetrasD.Produto | Prof. Eliseu de Rezende Santos Gustini, Lorena Marinho, Marcela Amorim Torres, Escola Municipal Padre Guilherme PetersD.Moda | Prof.ª Gabriela Maria Torres
    • PROJETO CATÁLOGO TERRITÓRIOS AGLOMERADOST327 CoordenaçãoTerritórios aglomerados / Organizadora Natacha Rena. Belo Horizonte: Prof.ª Juliana Pontes RibeiroEd. FUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010. Direção de arte144 p.: il. (fotografias e grafismos). Ana C. BahiaVários autores. Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro Prof.ª Natacha RenaISBN 978-85-61258-12-2. Design/Projeto gráfico Ana C. Bahia1. Design social. 2. Artesanato urbano. 3. Tecnologia social. 4. Artesanatosolidário. 5. Criação colaborativa. I. Rena, Natacha. II. Título. Fotografias Ana C. BahiaCDD: 745 Juliana AugustaCDU: 745.2 Silvia Pio Bruno OliveiraInformação bibliográfica conforme a NBR 6023:2002 da Associação Nayana RodriguesBrasileira de Normas Técnicas (ABNT): Júlia de AssisRENA, Natacha (Org.). Territórios aglomerados. Belo Horizonte: Ed. Revisão de textosFUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010. 144 p.: il. ISBN Maria Clara Xavier978-85-61258-12-2. Tradução Laura Torres
    • sumário01 apresentação p.1201 presentation p.11602 instituições parceiras p. 2603 design e inclusão social p. 3604 oficinas de capacitação p.7805 desdobramentos p.9606 depoimentos p.110anexo coleção territórios
    • 01apresentação
    • HistóricoTerritórios aglomerados: design e extensão universitária Natacha Rena || Bruno Oliveira É isso, uma teoria é exatamente como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o signifi- Natacha Rena é graduada em Arquitetura e Urbanismo cante. É preciso que sirva, é preciso que funcione. (DELEUZE, 2006, p. 267) pela EAUFMG, mestre em Arquitetura pela EAUFMG e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC SP. Coordenadora de projetos Acreditando-se na relação essencial entre ensino, pesquisa e extensão, e na importância especiais da COMUNA S.A. e de projetos socioambientais do JA.CA. Professora dos cursos de Design e Arquitetura da Universidade do envolvimento das universidades com comunidades com alto índice de vulnerabilidade FUMEC e da EAUFMG. Coordenadora do programa ASAS que social é que demos início em 2003 a uma série de trabalhos com abordagens mais críticas e engloba três projetos de extensão e um de pesquisa. políticas do design e da arte. O primeiro trabalho desenvolvido foi o projeto interdisciplinar natacharena@gmail.com de pesquisa Táticas de Sobrevivência, que baseou-se em um vasto levantamento de inventos — resultados das táticas e estratégias de sobrevivência — dos moradores da Vila Ponta Porã, Bruno Oliveira é graduado em Ciência da Computação pela FUMEC e graduando do curso de Artes Plásticas (UEMG). favela pertencente à região central da cidade de Belo Horizonte. Construímos um catálogo de brunogomesoliveira@gmail.com objetos e produtos do cotidiano que revelaram o enorme potencial criativo do cidadão comum, principalmente quando exposto a situações de precariedade econômica. A intenção foi traçar Introdução uma microcartografia de pequenas táticas de sobrevivência no cotidiano de “homens comuns e sem qualidades”: documentou-se as formas particulares de habitar e sobreviver desses moradores, que constroem um universo mágico de “gambiarras” produzindo artefatos que O Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra (ASAS) é uma iniciativa da Universidade esbarram nos limites da arte e do design. FUMEC (Belo Horizonte/MG) iniciada em 2007 sob a coordenação da professora Natacha Rena. Por intermédio do desenvolvimento de projetos nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, a Os trabalhos envolvendo capacitação em artesanato e design tiveram início em 2005 com equipe de professores, técnicos, alunos e voluntários do ASAS busca consolidar tecnologias o projeto de extensão intitulado Sempre Savassi, que, com a parceria de instituições como sociais reaplicáveis de geração de renda que atuem em uma perspectiva contemporânea da CDL e SEBRAE, envolveu diversas comunidades de artesãos. Durante a elaboração de uma intersecção entre design e artesanato urbano. metodologia adequada para realização desse projeto, surgiu a demanda do desenvolvimento de uma pesquisa conceitual mais consistente sobre questões como artesanato e suas relações Este catálogo apresenta as atividades da equipe no projeto ASAS_ com a arte e o design. Essa investigação resultou na criação do conceito de Artesanato Urbano, aglomeradas durante os anos de 2009 e 2010.1 Ao todo, mais de 60 alunos visando classificar os produtos que seriam elaborados pelos beneficiários. documentadas em outro livro: RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). das quatro habilitações do curso de Design (Gráfico, Interiores, Moda e ASAS: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora No ano de 2006 foi realizado o projeto Artesanato Solidário no Barreiro. A As atividades relacionadas ao projeto ASAS nos anos de 2007 e 2008 estão Produto) participaram do projeto como bolsistas ou voluntários, auxiliando Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA-Universidade FUMEC, 2009. na capacitação técnica e criativa dos artesãos moradores do Aglomerado capacitação em artesanato e design foi voltada para grupos de terceira idade, da Serra em costura, bordado, imagem e movimento, encadernação e no intuito de promover a melhoria da qualidade dos produtos artesanais já Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA – estamparia. Em paralelo ao desenvolvimento e execução de tais oficinas, desenvolvidos pelos núcleos produtivos existentes na região do Barreiro. A partir RENA, Natacha (org). Coleção 9 + 1. Belo Horizonte: os alunos elaboraram os artigos acadêmicos apresentados neste catálogo, da proposta de criação de uma coleção de almofadas e, contando com diversas 2 instituições parceiras (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte; UNITEC— Nova visando consolidar a interface das iniciativas de ensino, pesquisa e extensão envolvidas pelo ASAS. Também serão encontrados relatos das atividades Zelândia; ASTIB — Associação da Terceira Idade do Barreiro; entre outros), um realizadas durante o processo de capacitação, assim como outras ações plano de capacitação com aulas, palestras, visitas técnicas e oficinas foi oferecido 1 para aproximadamente 30 beneficiárias. Ao final da capacitação foi lançado um desenvolvidas, como as exposições (Grampo e Quina Galeria), mostras (Mostra de Design do Café com Letras), gravação de documentário (Televisão catálogo do projeto contendo a metodologia e as almofadas desenvolvidas.2 da América Latina), entre outras. Ao final deste catálogo apresentamos Universidade FUMEC, 2008. uma documentação com descrições detalhadas dos produtos da mais recente A equipe também participou, em janeiro e julho de 2007, de expedições do coleção desenvolvida pelo projeto: TERRITÓRIOS (2009). projeto RONDON, realizado pelo Ministério da Defesa. Por meio de diversas ações nas cidades de Assis Brasil e Jequitaí, buscou-se desenvolver um É importante ressaltar que a parceria com o programa Universidade processo de capacitação em artesanato como forma de geração de renda Solidária (UNISOL) e com o Banco Real/Santander nos anos de 2008 e 2009, para as comunidades, utilizando-se de metodologia específica para ação de possibilitou um grande avanço nas ações desenvolvidas, não somente por transformação dos processos produtivos em curto prazo. A força expressiva dos meio do auxílio financeiro, mas também através do aprendizado de uma produtos foi resultado de um trabalho que revelou tanto as singularidades de cada metodologia específica para geração de tecnologia social e avaliação de um dos artesãos quanto a contaminação mútua de um intenso trabalho coletivo. projetos, com foco na geração de renda e empoderamento de comunidades.14 15
    • técnico e criativo dos beneficiários, assim como oficinas que visem o estabelecimento de um processo integrado e sustentável de planejamento, gestão e produção de objetos com alto valor agregado entre os três núcleos. A equipe do ASAS se tornou verdadeiramente multidisciplinar e conta com alunos e professores dos cursos de Design de Interiores, Design de Moda, Design Gráfico, Arquitetura,Com o apoio da Universidade FUMEC e da FUNADESP, também foi desenvolvida, em 2007, a pesquisa Engenharia Ambiental, Psicologia, Administração e Ciências Contábeis,de iniciação científica Artesanato Urbano, com o qual pôde-se mapear alguns importantes projetos de o que garante uma maior diversidade de ações como também umcapacitação em artesanato e design no Brasil. O objetivo principal foi analisar os projetos da forma mais aprendizado mais rico e colaborativo.completa, desde a concepção metodológica e o plano de sustentabilidade das ações e produtos, passandopelos resultados da capacitação (produtos), até a etapa de inserção dos grupos produtivos no mercado, Além disto, iniciou-se também em 2010 a pesquisa Desenvolvimentobuscando verificar a eficácia da atuação dos designers junto às comunidades de artesãos e entender até que de Tecnologia Social para realização de projetos de capacitação emponto os projetos empoderavam realmente seus beneficiários. artesanato e design tendo o projeto ASAS_aglomeradas como estudo de caso. Esta pesquisa pretende avaliar a metodologia utilizada nosAlém da atuação em pesquisa e extensão, durante este processo de constituição de projetos, surgiu uma projetos de capacitação, principalmente no ASAS_aglomeradas, paraforte demanda por parte dos alunos da graduação por uma disciplina que pudesse oferecer um instrumental que se possa criar diretrizes para novos projetos. O objetivo destateórico contendo uma abordagem crítica na construção de projetos e desenvolvimento de projetos nesta área. pesquisa é investigar o processo criativo, coletivo e colaborativoCriou-se então a disciplina optativa Artesanato e design — visando instigar a reflexão teórica sobre a relação desenvolvido, e parte da hipótese de que é possível identificar e listarentre design, artesanato e arte, construindo um panorama atualizado sobre as principais ações brasileiras características e procedimentos que contribuam positivamente pararelevantes neste campo. Também tem sido objetivo desta disciplina preparar o aluno de design para que ele capacitar e formar multiplicadores do conhecimento adquirido.possa se tornar um profissional com potencial ativo para atuar em programas de capacitação em artesanato eem projetos de gestão cultural com caráter social. Princípios Também durante o ano de 2007 iniciaram-se as atividades do projeto ASAS_ aglomeradas. Como reconhecimento do trabalho e das metodologias de reposicionamento social desenvolvidas através de programas de ensino, pesquisa (...) nos últimos três séculos a palavra “artesanal” teve seu sentido modificado; no século e extensão na Universidade FUMEC, o projeto ASAS ficou entre os dez premiados XVIII era, mais do que um modo particular de construir coisas, uma maneira de conduzi-las, dos 212 inscritos no concurso Banco Real Universidade Solidária, com o tema especialmente na política. Em alguns de seus empregos (...) a expressão “a arte” tem (e mantém Desenvolvimento Sustentável com ênfase em Geração de Renda. O prêmio de 40 mil ainda) o significado de poder e conhecimento secreto. (DORMER, 1997, p.5, tradução nossa).3 reais foi um incentivo para a implementação do plano de capacitação ao longo de um ano. No ano de 2009, a parceria foi renovada e o projeto ASAS recebeu mais R$ 40 Acredita-se que o artesanato é uma atividade com um elevado potencial no conjunto mil para complementar as atividades e adquirir novos equipamentos para a oficina de ações que incentivam a elaboração de políticas para geração de renda e inclusão de estamparia construída no Aglomerado da Serra. Um primeiro catálogo indexado social. O design, aliado ao artesanato, pode estabelecer-se como eixo estratégico applications, (...) the phrase ‘the craft’ had (and still retains) the foi lançado contendo artigos dos professores envolvidos, assim como a metodologia no desenvolvimento dos territórios, empoderando comunidades em estado de (...) in the last three centuries, the word ‘craft’ has changed its but rather a way of doing things, especially in politics. In some meaning of power and secret knowledge. (DORMER, 1997, p.5) utilizada no projeto, depoimento dos alunos, funcionários e dos artesãos capacitados, meaning; in the eighteenth particular way of making things vulnerabilidade social e promovendo sua autonomia criativa e de gestão. Agenciar além dos produtos da primeira coleção desenvolvida. novas produções colaborativas de artesanato em locais onde não havia uma cultura de técnicas de criação e de produção artesanal foi, e continua sendo, um dos grandes Atualmente o ASAS se tornou uma rede criativa e produtiva no Aglomerado da Serra desafios deste projeto. Utilizando-se um conceito amplo de Design Social, inserido e possui três projetos em andamento: o ASAS_aglomeradas, iniciado em 2007, que no raciocínio do conceito de Tecnologia Social, desenvolveu-se uma metodologia possui uma oficina completa de estamparia e uma equipe de artesãos capacitados de criação que incitasse o trabalho coletivo e colaborativo, articulando processos em estamparia, encadernação e costura; o ASAS_meninas do cafezal, iniciado no inovadores que resultassem na construção de objetos contendo fortes características segundo semestre de 2010, que é um dos núcleos produtivos da rede que foca no 3 locais. O incentivo à elaboração de produtos com alto valor agregado surge em paralelo desenvolvimento de peças de moda à partir de modelagem, costura e bordado com o crescimento de um mercado de consumo responsável, que valoriza cada vez mais experimentais, além de possuir um núcleo de produção gráfica e outro de modelo produtos com propostas estéticas contemporâneas alinhadas às tendências do universo e produção de moda; o ASAS_serra de bambu que possui artesãos capacitados do design sustentável e, ao mesmo tempo, produzido por comunidades de artesãos locais. no plantio e manejo do bambu, bem como na construção de móveis e produtos à partir do bambu “in natura”. No segundo semestre de 2010 iniciou-se um novo Acredita-se que os processos de criação, quando bem estruturados, possam incentivar ciclo de capacitação para efetivar a criação de uma rede produtiva englobando os a coletividade, possibilitando a união dos grupos e a capacidade de trabalho três projetos. Acredita-se que esta nova configuração irá dar mais visibilidade às colaborativo. Sabe-se que em comunidades muito vulneráveis socialmente é bastante ações e ampliar o mercado e o valor agregado dos produtos desenvolvidos, além difícil desenvolver um trabalho de integração devido às diferenças sociais vigentes. da diversificação das peças e do aumento do número de artesãos envolvidos. O Como não existem metodologias publicadas e conhecidas de procedimentos coletivos e ASAS pretende realizar atividades de capacitação voltadas para o empoderamento colaborativos em design e artesanato, pensa-se que é papel da universidade registrar, organizar, analisar e desenvolver informações que possam construir novas tecnologias16 sociais que auxiliem em projetos envolvendo design e geração de renda.
    • Por fim, acredita-se que seja necessário introduzir outras formas de lidar com o design que possibilitem O projeto Vila Viva da Prefeitura de Belo Horizonte, considerado um dos maioresnovos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido para esta disciplina, para além projetos de urbanização de favelas do país no momento, se propõe a urbanizar odo tecnicismo e do mercado de produção em massa, incentivando um desenvolvimento contaminado pelo conjunto de vilas, ligando diretamente, através de grandes vias asfaltadas, duas planejados e se instalam em quarteirões inteiros O projeto Vila Viva nem terminou e já é possível Conjuntos residenciais de altissimo luxo já sãocotidiano, pela arte, pela arquitetura, pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e regiões da cidade. Mesmo que haja um investimento na melhoria das condições assitir à gentrificação do contexto imediato. nas proximidades do Aglomerado da Serra.política, criando um ambiente para a existência de um design mais engajado e militante: de vida da população local e na sua inserção definitiva no cenário urbano formal, seria preciso repensar a real questão que impossibilita com que muitos moradores A militância atual é uma atividade positiva, construtiva e inovadora. Esta é a forma pela qual do lugar não tenham acesso ao mercado de trabalho. A educação para todos e a nós e todos aqueles que se revoltam contra o domínio do capital nos reconhecemos como capacitação profissional deveriam ser a base de qualquer projeto de inclusão social. militantes. Militantes resistem criativamente ao comando imperial. Em outras palavras, a 6 Simplesmente oferecer melhores condições de habitabilidade (o que é inclusive resistência está imediatamente ligada ao investimento constitutivo no reino biopolítico e à bastante questionável quando se vê o tipo de moradia que a prefeitura oferece aos formação de aparatos cooperativos de produção e comunidade. Eis a grande novidade da moradores deslocados de suas residências originais 6) não gera espontaneamente militância atual: ela repete as virtudes da ação insurrecional de duzentos anos de experiência novas condições de trabalho e dinâmicas sociais mais justas. A região onde subversiva, mas ao mesmo tempo está ligada a um novo mundo, um mundo que não conhece se encontra a Escola Municipal Padre Guilherme Peters, é bastante afastada nada do lado de fora. Ela só conhece o lado de dentro, uma participação vital invevitável no dos principais pontos de urbanização, determinando indiretamente um menor conjunto de estruturas sociais, sem possibilidade de transcendê-las. Esse lado de dentro é a investimento na escola e em obras na sua adjacência. Esta situação acaba por gerar cooperação produtiva da intelectualidade das massas e das redes afetivas, a produtividade da um desnível de oportunidades dentro do próprio aglomerado, acentuando ainda biopolítica pós-moderna. Essa militância faz da resistência um contrapoder e da rebelião um mais as questões ligadas ao desemprego, violência e exclusão social. projeto de amor. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 436) O Aglomerado da Serra possui uma grande dimensão 7, o que dificulta ações eficazes em todo o seu território de combate aos diversos focos de violência e de disputas territoriais de grupos ligados ao tráfico de drogas. A ênfase da proposta em escolas municipais, começando comO local e a comunidade um projeto piloto em uma escola específica, propõe a ação em um campo fértil, o dos jovens em formação. A falta de infraestrutura, recursos materiais e capital humano nas escolas municipais são ainda um grande Os favelados, embora sejam apenas 6% da população urbana dos países desenvolvidos, Desenvolvimento Social, 45.920 pessoas e, segundo empecilho para que essas unidades sustentem projetos de inserção constituem espantosos 78,2% dos habitantes urbanos dos países menos desenvolvidos; isto econômica e capacitação profissional adequados à realidade O aglomerado possuía em 1999, segundo dados 37.641 habitantes, mas segundo a Secretaria de o jornal Estado de Minas, 160.000 habitantes. corresponde a pelos menos um terço da população urbana global. (DAVIS, 2006, p. 34) social e às demandas do mercado de consumo e serviços hoje, e da URBEL, uma população total por volta de Rua Coronel Jorge Dário, s/número. CEP 30240-560, Bairro Novo portanto, parcerias com universidades podem auxiliar, e muito, na implementação de projetos de extensão que renda frutos evidentes, O desenvolvimento de projetos socioambientais no Aglomerado da Serra é a proposta de inclusive à curto prazo. um dos programas de extensão priorizados pela Universidade FUMEC, principalmente pelo fato de estar territorialmente próximo ao campus universitário. Portanto, a escolha do local Na última pesquisa para a Prova Brasil o índice socioeconômico para a realização deste projeto faz parte de uma estratégia acadêmica criada pela gestão da no aglomerado foi de 1.1 numa escala de 1 a 5. Além disso, outra pesquisa e da extensão em nossa universidade. justificativa para a escolha da Escola Municipal Padre Guilherme Peters como local de atuação é que essa foi uma das duas escolas Dentro da comunidade escolhida, o conjunto de vilas e favelas de mais baixo índice socioeconômico da cidade, revelando uma de Belo Horizonte denominado Aglomerado da Serra 4 o foco cidade de Belo Horizonte, onde também se encontra a Localizado dentro da região sul da cidade, em um dos 7 enorme necessidade de melhorar a sua infraestrutura e estabelecer setores residenciais de mais alto poder aquisitivo da da ação foi na Escola Municipal Padre Guilherme Peters.5 A parcerias externas que complementem o processo educativo e São Lucas, Belo Horizonte. escola pertencente à Vila Novo São Lucas tem procurado respondam às demandas que a escola não pode atender sozinha. parcerias para que seus alunos possam se apropriar de novos conhecimentos e tecnologias que os ajudem a enfrentar novas 4 dinâmicas educacionais e de trabalho. Além de possuir turmas 5 de alunos da Educação Infantil até a nona série do Ensino Fundamental, possui também, no turno da noite, turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Muitos programas parceiros têm aberto novos horizontes para esses alunos, que Universidade FUMEC. em sua maioria estão distantes de exercer uma atividade econômica por falta de capacitação específica.18
    • Temas abordados durante a capacitação acabaram por contribuir para o Objetivos bom desempenho das atividades de campo, e entre eles se destacaram o desenvolvimento do trabalho coletivo focado em ações colaborativas, culminando em um processo mais organizado e produtivo e também na conscientização dos O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. São, artesãos e alunos bolsistas da importância deste tipo de dinâmica de trabalho todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os (tanto no processo criativo e produtivo quanto nos processos de gestão e mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações planejamento). Tais temas também reafirmaram a relevância do empoderamento diferentes, quiçá divergentes e opostas. Esse acontecer simultâneo tornado possível dos beneficiários e dos próprios alunos, obtendo como resultado processos de graças aos milagres da ciência, cria novas solidariedades: a possibilidade de um pesquisa e criação mais dinâmicos, mais democráticos e também mais inovadores acontecer solidário, malgrado todas as formas de diferença, entre pessoas, entre sobre a percepção dos territórios subjetivos da favela (cidade informal) e da cidade lugares. (SANTOS, 1994, p.16) formal como um todo. Estas discussões alimentaram tanto os temas das coleções, como o aprendizado coletivo em relação às formas como nos relacionamos com O objetivo geral do projeto se constrói à partir do desenvolvimento de estes territórios desconhecidos e pouco experimentados por quem mora e vive na tecnologias sociais (TSs) reaplicáveis que, segundo Lassance e Pedreira (2004, cidade formal. p. 66), podem ser definidas como um “conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. Baseadas na intersecção de ensino, pesquisa e extensão em design social e buscando promover Indicadores e avaliação dos resultados autonomia criativa e produtiva de forma sustentável nas comunidades envolvidas, tais tecnologias consolidam a metodologia do projeto e incitam discussões que subsidiam políticas acadêmicas para uma prática atrelada Para finalizar seria fundamental falar um pouco de como os indicadores de avaliação à necessidade de um real empoderamento dos beneficiários. Além disto, constituem um aspecto muito importante na constituição da metodologia do ASAS. Esses demandam um grande número de alunos capacitados para atuar de forma fizeram parte constantemente da relação estabelecida com a equipe do UNISOL/SANTANDER mais colaborativa e menos autoral, proporcionando uma mudança de durante o acompanhamento das ações do projeto ASAS_aglomeradas nos anos de 2008 e paradigma no meio acadêmico. 2009. Incorporados de forma definitiva ao cronograma de atividades, a elaboração continuada dos indicadores enquanto parâmetro de avaliação de processos e resultados se tornou uma Existe uma enorme necessidade de desenvolvimento de parâmetros ferramenta crucial para o direcionamento das propostas de atuação, embasando as decisões e teóricos que possam nortear as ações no sentido de valorizar, para além comprovando a eficácia ou não de tais procedimentos. do empoderamento econômico por si só, a identidade cultural de grupos e comunidades locais, promovendo a melhoria da qualidade de vida das Entre os principais indicadores do ASAS encontra-se a autonomia dos beneficiários e alunos, pessoas envolvidas, assim como potencializando a construção de uma promovida através de ações que visam a consolidação dos grupos de forma coletiva e identidade cultural compatível com o território e a época em que se produz colaborativa. A autonomia dos beneficiários em relação à criação, produção e contato com o artefato. Agregar valor aos produtos através da coleta de informações que clientes e fornecedores se faz tão importante quanto a formação de uma equipe executora de nutram a criação de iconografias, que revelem nos produtos a localidade e a alunos pró-ativos e dispostos a se apropriar das estruturas e práticas do projeto ASAS. A partir cultura de comunidades específicas faz parte do eixo metodológico adotado. da valorização das potencialidades individuais, propõe-se constituir grupos múltiplos que se Para que isto aconteça, ao longo de todo o processo, realizamos pesquisas fortaleçam por meio do desdobramento dos conhecimentos adquiridos e da autoria coletiva da sobre design, artesanato, arte contemporânea e outras manifestações de produção. capacitação em artesanato e design que apresentem como parâmetros da produção nacional e internacional e possam auxiliar nas metodologias de Outros indicadores também relevantes durante o desenvolvimento do projeto são a melhoria da criação e desenvolvimento de produtos. qualidade de vida dos beneficiários diretos (participantes das oficinas) e indiretos (familiares, amigos e demais membros da comunidade), tendo como referência: qualidade dos produtos Como estes processos de capacitação que envolvem aulas teóricas desenvolvidos (avaliação dos lojistas e dos próprios beneficiários em relação ao acabamento intercaladas com oficinas criativas e técnicas são frutos de intensas e ao produto como um todo); a ampliação do repertório e o olhar crítico sobre a criação; pesquisas, realizam-se textos para publicação indexada, nos quais os alunos divulgação do projeto; e, finalmente, a consolidação de novas parcerias que viabilizem a são incentivados a pensar e pesquisar temas importantes para o universo do continuidade dos processos de capacitação. design contemporâneo e, principalmente, que envolvam a produção deste outro design, que transcenda o raciocínio positivista e industrial vigente na academia e que se encontre na interface com parâmetros de responsabilidade social através do estabelecimento de vínculos com a comunidade, conectando de forma intensa as atividades de ensino, pesquisa e extensão.20 21
    • A equipe executora do projeto se pautou constantemente pelo incentivo em ações colaborativas como possibilidade de trabalho, através de metodologias que incentivassem a autoria coletiva dos produtos. Percebeu-se que, de maneira indireta, estas práticas colaborativas reforçam a ideia de grupo reafirmandoMetodologia uma identidade local, que, mesmo sendo híbrida e multifacetada, auxilia na consolidação de uma equipe criativa e produtiva mais coesa. A partir da utilização de tais metodologias experimentais, ficou clara a importância da construção de Essa definição que busca o desenvolvimento sustentável opõe-se ao modelo de desenvolvimento novas estratégias de invenção para serem realizadas em projetos de capacitação dominante, que promove a fusão de empresas, a concentração do capital e da renda, o aumento da em artesanato e design, tanto para o grupo de alunos (que precisam trabalhar desigualdade social, a exclusão social, a segregação urbana, (...). Mesmo nas épocas em que houve coletivamente e pensar nas estratégias de ação do projeto como um todo), crescimento, não se reduziu a desigualdade. (...) queremos um desenvolvimento que beneficie a quanto para o grupo de beneficiários (que precisam entender a necessidade e a grande maioria da população; queremos um desenvolvimento com distribuição de renda; queremos potencialidade que o trabalho coletivo pode trazer para a iniciativa). um desenvolvimento que seja um projeto identificado com as aspirações da população e sustentado por ela. (BAVA, 2004, p. 110)8 O processo de capacitação da equipe constitui parte fundamental da metodologia e se faz em um processo continuado que ocorre durante todo o período do projeto. Durante as reuniões semanais, as discussões propostas envolvem, além de questões relacionadas aos problemas cotidianos, o embasamento teórico da proposta e a contextualização das ações Conclusão realizadas pelo projeto. A troca de experiências, informações e referências desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. durante estes processos consolidam os parâmetros das ações (de ensino, de políticas públicas” In: Tecnologia social – uma estratégia para o LASSANCE JÚNIOR, A. E.; PEDREIRA, J. S. “Tecnologias sociais e construção da coletividade, da proposição de maneiras de gestão do grupo na favela, dos eventos realizados, etc.), viabilizando o estabelecimento de relações Por fim, acredita-se que seja necessário inventar outras formas de lidar com o design que e propostas diferenciadas. A coordenação, no entanto, precisa ter consciência possibilitem novos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido de seus limites, observando quando é necessário agir firmemente e quando para esta disciplina, para além do tecnicismo e do mercado de produção em massa, deixar que os alunos, junto à comunidade, tomem decisões e direções nas incentivando um desenvolvimento contaminado pelo cotidiano, pela arte, pela arquitetura, atividades. Este é um limite tênue e extremamente difícil de ser atingido pelo pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e política. professor, porque devido ao sistema convencional de ensino no qual a maioria dos participantes foi formado, há, em geral, uma relação forte de hierarquia e Um dos pontos importantes a se compreender é que, em projetos sociais desta natureza, os centralização por parte da coordenação. Tendo a coordenação assumido este discursos idealistas e utópicos, mesmo que muito bem intencionados, são extremamente posto de supervisão e orientação do processo, permitindo um maior engajamento difíceis de serem realizados. É preciso coragem e perserverança porque a complexidade e autonomia dos alunos, estes últimos podem então participar mais diretamente do encontro entre vidas com dinâmicas cotidianas tão diversas está presente em todos da capacitação dos artesãos na favela, propondo direcionamentos e delineando os momentos do trabalho. Mesmo que seja fundamental pensar um projeto (ideal) com estratégias para o próprio projeto. Desta forma, consegue-se compor um grupo diagnóstico, objetivos, metodologia, cronograma, não há garantia alguma de resultados de alunos presente e atuante, destacando-se por iniciativas responsáveis e eficazes a curto prazo. O inesperado é uma constante, sendo assim necessário que haja eficazes para o avanço do trabalho em direção aos objetivos propostos. uma flexibilidade enorme nas ações e uma compreensão da necessidade de se reinventar os processos lidando constantemente com frustrações, e criando novas situações para as 8 Ressalta-se aqui que, para capacitar alunos de design para trabalhar nesta novas realidades que se apresentam. interface com artesanato, é necessário rever a maneira na qual o estudante de design é incentivado durante o tempo todo na academia a possuir um trabalho Para finalizar, pretende-se dizer que em casos de projetos de extensão universitária, autoral. Esta ideia precisa ser diluída em projetos com foco em criação e gestão nos quais quase sempre existe uma relação cotidiana com uma comunidade em colaborativa para que os alunos compreendam na prática as dificuldades de se estado de vulnerabilidade social, é preciso estar atento a todo momento ao perigo trabalhar com o outro nestes processos que visam o desenvolvimento de estratégias de negociação do estabelecimento de relações de poder entre os alunos e professores universitários e troca de conhecimento. É, para a maioria dos alunos que entram no grupo, uma novidade e um (designers) e os artesãos da comunidade. É necessário entender que o trabalho envolvendo desafio ter como objetivo aprender com o outro, trocar experiências, negociar procedimentos para realidades sociais díspares deve estabelecer um ambiente de troca de experiências de que possam surgir produtos que sejam realmente consequência de uma subjetividade coletiva, já vida e de conhecimento. Acredita-se na potência de invenção latente nas relações geradas que esta só se produz no embate cotidiano de ideias entre pessoas com origem social, cultural e pela fricção entre o erudito e o conhecimento popular. Muitos resultados positivos do ponto econômica tão diversas. de vista coletivo, social e pessoal, são difíceis de mensurar, mas precisam também serem mapeados e agregados aos resultados qualitativos positivos dos projetos.22 23
    • Belo Horizonte, estabelecimentos comerciais como a loja Grampo, a galeria Quina ou o Café com Letras, ou confecções de moda como a Raíz da Terra, além dos alunos, professores, membros da comunidade envolvidos, todos ganham neste processo de troca que deve ser equilibrado, gerando benefícios a todos, não num sentido capitalista exclusivamente do termo, mas num sentido mais amplo, que engloba a generosidade e a solidariedade humana dentro de um movimento de tradução, invenção e formulação de tecnologia social. Pretende-se gerar, através do encontro de instituições, profissionais e pessoas de realidades sociais e culturais diversas, atos que se dão como biopotência, que resiste aos mecanismos do biopoder estabelecido pelas relações perversas do capital contemporâneo, mesmo que como no caso do ASAS envolvendo parceiros que são evidentes representantes do capital, desde que todos ganhem com isto. Uma nova forma de militância criativa, um outro design. Todos e qualquer um inventam, na densidade social da cidade, na conversa, nos costu- mes, no lazer — novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. (…) Todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos numa relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode tornar-se vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo e a riqueza biopolítica da multidão. (PELBART, P. P., 2003, p.139)O objetivo essencial deste tipo de projeto realizado pelo ASAS é também estabelecer umarede de trocas desierarquizada e compreender que todos aprendem e ampliam os seushorizontes ao longo destas experiências. Nestes projetos de extensão, a consciência daatuação política deve ser evocada a todo momento para que a construção das tecnologiassociais não aconteçam de forma consciente apenas no nível técnico e burocrático, que éum risco evidente dentro das estruturas acadêmicas. REFERêNCIAS BIBLIOGRáFICASAlguns movimentos, iniciativas e campanhas reúnem-se em torno do princípio da igual-dade, outros em torno do princípio da diferença. A teoria da tradução é o procedimento que BAVA, Silvio Caccia. Tecnologia Social e Desenvolvimento Social. In: Tecnologia social: uma estratégiapossibilita a sua mutual inteligibilidade. Tornar mutuamente inteligível significa identificar para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004.o que une e é comum a entidades que estão separadas pelas suas diferenças recíprocas.(SANTOS, B. S., 2006, p.198) DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2007.Segundo Boaventura de Souza Santos, a construção do cosmopolitismo, que se assenta DELEUZE, Gilles. A ilha deserta. São Paulo: Iluminuras, 2006.no procedimento de tradução, requer uma inteligibilidade mutual que é pré-requisitodo que o autor chamaria “a mistura, autorreflexiva e interna, da política da igualdade DORMER, Peter. The Salon de refuse. In: DORMER, P. (org.). The Culture of Craft. NY: Manchestere da política da diferença no seio dos movimentos, das iniciativas, das campanhas ou University Press, 1997.das redes.” (SANTOS, 2006, p.198) HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001.O autor trata aqui do que ele chama de luta contra-hegemônica, que são práticas demaninfesto, ou programas claros e inequívocos, de alianças que são possíveis porque LASSANCE JÚNIOR, Antonio E.; PEDREIRA, Juçara Santiago.Tecnologias sociais e políticas públicas.baseiam-se em denominadores comuns, objetivos comuns, e que são mobilizadoras In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio deporque produzem uma ação positiva, isto é, porque conferem vantagens específicas Janeiro, 2004.a todos os que participam nelas em função do seu grau de participação. E é nestaconsciência das vantagens para todos os atores envolvidos no processo que o trabalho PELBART, Peter. Paul. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.do ASAS vem sendo realizado. Parceiros instituicionais como UNISOL/SANTANDER,Escola Municipal Pe. Guilherme Peters, Universidade FUMEC, Prefeitura Municipal de SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo. Para uma nova cultura política. São Paulo: Corteza, 2006. SANTOS, Milton. O retorno do território. In: SANTOS, M; SOUZA, M. A. de; SILVEIRA, M. L. Território:24 globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994. 25
    • 02instituições parceiras
    • Universidade FUMEC Diretoria geral da FEA/FUMEC Prof. Luiz de Lacerda Júnior O princípio da conectividade nos coloca diante da noção de As demandas do nosso tempo são tão urgentes comunidade de aprendizagem. Nem o estudante e nem a e graves que apontam para a importância Universidade são entidades isoladas, ao contrário, encontram- de reafirmar o papel da Universidade e -se em relação com seus pares, com a comunidade educativa e de fortalecer sua conectividade com as com sua comunidade ampliada que é a humanidade. necessidades da nossa sociedade e do nosso planeta através do ensino, da extensão e Diante de uma sociedade voltada para o culto ao da pesquisa . Promover o engajamento de individualismo e à competitividade, não é difícil perceber seu corpo docente e discente com as causas a insustentabilidade das formas atuais de produção e os sociais desperta em todos um profundo consequentes transtornos causados nos meios ambientes, sentido de responsabilidade social, pois os econômicos e sociais. O paradigma vigente é concentrador caminhos e as transformações começam a de riqueza e distribuidor de injustiças sociais. Diante disso, surgir a partir do comprometimento individual BH nunca foi tão importante e urgente pensar e repensar a ética, enquanto campo de ação/reflexão e intervenções no mundo, capaz de operar mudanças de valores e de condições com a construção de elos para uma cidadania em cadeia, que visa assegurar o direito ao presente e ao futuro. É papel da Universidade cotidianas de existência, de abrir-se para o encontro solidário adotar uma postura profundamente crítica e com o outro enquanto diferença e apostar num futuro melhor construtiva em favor do desenvolvimento de para a vida da terra e na terra. uma ética planetária, possibilitando ao aluno formar uma atitude de ruptura ante o estabelecido, e tecer um projeto de vida, individual e coletiva, muito mais digna e bonita. O projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — representa mais um elo na construção desta cadeia na medida em que através da arte e do artesanato promove o resgate cultural, a preservação de saberes, tradições, tecnologias, além de contribuir com a geração de renda e emprego, promovendo a integração social e o resgate da cidadania da população pobre. Trabalhar eticamente é exatamente isto: agir com clareza, cuidar com sensibilidade, sentir o coração secreto das coisas, produzir encantamento, dar cor, sabor, ritmo e tonalidade às vidas humanas, inaugurando em nós mesmos e no outro um novo jeito de ser e de viver no mundo. 29
    • Coordenadoria do setor de extensão da Universidade FUMECProf. Osvaldo Manoel CorrêaUm ciclo de vida compreende fecundação, germinação, Assim, em 2007/2008, depois de longa coletivo focado em ações colaborativas, que culminou em também, pelos parceiros, clientes, e, numagestação, nascimento, maturação. Pequenas histórias, viagem e voos de maturação com diversos um processo mais organizado e produtivo e também na dimensão verdadeiramente histórica, pelosindividuais ou de grupos, dentro da grande história do nomes, faces e interfaces, o projeto ASAS conscientização dos artesãos, alunos bolsistas e professoras moradores do Aglomerado da Serra. Serra,mundo. Fases de um passado se fazem presentes num faz seu ninho no Aglomerado da Serra da importância desse tipo de dinâmica de trabalho. Em em sentido figurado, designa uma cadeia deser vivo, potencializado e resultante de tempo e no tempo. para gerar formas de empoderamento. segundo lugar, além dessa dimensão coletiva, o surgimento montanhas com muitos picos e quebradas;No caso, após um longo ritual de passagem, moradores E, entre uma parceria aqui, Universidade de resultados, como consciência de grupo, melhoria aglomerado, sementeira de possibilidadesda comunidade Vila Ponta Porã, em Belo Horizonte, veem FUMEC e Unisol (Banco Real/Santander), da qualidade de vida, olhar crítico sobre a produção e nem sempre potencializadas, pode serregistradas suas Táticas de Sobrevivência (2003/2004) neste e outra ali, FUMEC e a Escola Municipal criação, crescente autonomia em relação ao contato com um somatório, uma soma de soma deCatálogo como num espelho revelador de sonhos e de Padre Guilherme Peters, jurisdicionada à clientes, fornecedores e novos parceiros, empoderamento intervenções positivas mais do que de açõesresultados, e de realizações a partir do enorme potencial Vila Novo São Lucas, foi possível, no espaço já incorporado pelos alunos, aglomeradas, professoras beneficentes. É a Universidade FUMEC, maisde cidadãos comuns. O acervo é enriquecido com um vasto intramuros da universidade, realizar oficinas e a associação como sendo de um só compartilhamento do que trabalhando intramuros, trabalhandolevantamento de inventos, objetos e produtos do cotidiano de serigrafias, encadernação, de corte e costura comunitário. também, com responsabilidade social, toda ada própria comunidade. num feliz casamento entre o teórico/prático área circundante de seu entorno geográfico e acadêmico e a prática/vivencial comunitária. Nossos alunos enriqueceram em escala, nesta ação de social. Isto é fazer extensão.Do Sempre Savassi Design e Cultura (2005/2006) e da E, no extramuros, a possibilidade de novos extensão, a produção de textos, transmitindo novos saberesarticulação entre pesquisa e extensão nasceu o Primeiro saberes para nossos alunos fora do seu status adquiridos na prática e, principalmente, puderam dirigir umCatálogo que mais tarde viria a ser “uma série”: Artesanato social. O encontro com uma nova realidade é novo olhar sobre a existência humana projetando-o na suaSolidário no Barreiro (2006/2007), em que a Coleção 9 + 1 sempre oportunidade de novos aprendizados vida assim como no fazer profissional.registra a história de vida de cada artesã e conquista seu e de grandes transformações em nosso ser.registro no Segundo Catálogo. Toda essa rica experiência compartilhada poderá Nossas professoras reaprenderam a relevância do papel de ser apreciada no Terceiro Catálogo. coordenar, ou seja, mais do que conjugar esforços, conciliarAntes de chegar ao Aglomerado da Serra, o projeto ASAS diferenças, ser responsável por um setor ou equipe derealizou uma passagem pelo projeto Rondon em Assis Brasil O Quarto Catálogo traz novos ganhos produção de artesanato e design, elas fizeram acontecer(AC) e em Jequitaí (MG). Naquela cidade do Acre foram e aprendizados para a Universidade, um aprendizado eficaz a partir da convivência, graças a umtrabalhadas oficinas de capacitação em artesanato e design Comunidade e Parceiros na Ação de Extensão. gratificante trabalho a vislumbrar novas oportunidades dede produtos e mobiliários de bambu. Na cidade mineira de Não é possível enumerar, numa Apresentação, vida e diferentes dinâmicas sociais.Jequitaí, uma coleção de almofadas registra a historicidade todos esses ganhos e aprendizados. Cumpre,e a vida da comunidade. porém, destacar, em primeiro lugar, o trabalho Que este novo Catálogo não seja o início do fim, mas o fim do começo de uma nova era de empoderamentoToda caminhada exige parada para descanso e e consciência coletiva a ser vivida por toda a equipe areabastecimento, e intervalos para reflexão sobre o já partir dessas ações de extensão, em suas vidas, comorealizado e para a articulação de novas metas. Num dessesínterins, foi cadastrado, no CNPq, o grupo de pesquisa cominterface em extensão sobre a temática “Diferenças: Arte,Design, Arquitetura”. Uma exposição realizada, em Inhotim,foi um fruto maduro da experiência em Jequitaí.30
    • UniSol - Universidade Solidária UniSol e Grupo Santander Em uma comunidade as atividades de cada indivíduo contribuir para a melhoria de suas condições estão sempre interligadas de alguma maneira. Quando de vida; e apoiar a extensão universitária, um se beneficia, é muito provável que o próximo seja estimulando a troca de conhecimentos e a envolvido. Assim, os projetos sociais que se baseiam em inserção na comunidade. parceria de benefícios mútuos formam “pequenas células de multiplicadores” nessas comunidades, promovendo a Esta iniciativa apoia a implementação autossustentabilidade. de projetos sociais com a participação de Instituições de Ensino Superior (IES) Acreditando nisso, o Programa UniSol e o Grupo Santander brasileiras, trabalhando na construção Brasil apoiaram o projeto ASAS — Artesanato Solidário no de soluções locais de desenvolvimento Aglomerado da Serra — vencedor do 11º Concurso Banco sustentável e comunitário, e disseminado Real Universidade Solidária. Executado pela Universidade valores de cidadania e de responsabilidade FUMEC, o projeto ASAS é um exemplo de iniciativas que social aos jovens universitários — futuros contribuem para fortalecer a extensão universitária, profissionais do país. evidenciando a poder da relação transformadora entre universidade e sociedade e a integração com o ensino e a Em 14 anos de atuação, o concurso já pesquisa. mobilizou 94 IES, 1.340 estudantes, 178 professores e beneficiou direta e Criado em 1996, o concurso Banco Real Universidade indiretamente mais de 4 mil pessoas em Solidária, agora com o nome de Prêmio Santander todo Brasil, a partir da interação entre o Universidade Solidária, atua por meio de parcerias para conhecimento acadêmico e o popular. atingir três grandes objetivos: contribuir para a formação cidadã dos jovens universitários, proporcionando ao estudante, pela prática na comunidade, a oportunidade de rever e trabalhar sistemicamente os conhecimentos SP adquiridos na universidade; colocar o conhecimento das universidades à disposição das comunidades, de forma a 33
    • Escola Municipal Padre Guilherme Peters Diretoria da Escola Municipal Padre Guilherme Peters Márcia Libânio Teixeira A escola Municipal Padre Guilherme Peters está situada dentro do Aglomerado da Serra — local de vulnerabilidade social — e a nossa missão é a de oferecer a melhor educação aos nossos alunos, o que muitas vezes é dificultado pela história de vida e de falta de perspectiva das famílias em relação a suas crianças e adolescentes. Este projeto oferecido e realizado pela Universidade FUMEC e pela Unisol, juntamente com o Banco Real, ofereceu um movimento na comunidade para que se tornassem construtores de sua independência. Nós já percebemos o quanto as aglomeradas se tornaram cidadãs do mundo — já estão se organizando para comprar uma casa, viajam de avião, conheceram outros estados e ganham seu dinheiro com seu trabalho digno e criativo que se tornou economicamente possível de ser realizado. Sinto orgulho de ter sido parte desta mudança com um simples empréstimo do espaço para que o projeto se realizasse. O mundo pode ser diferente e mais digno de se viver quando nos esforçamos para trabalhar a favor das ondas das adversidades e não contra elas. BH 35
    • 03design e inclusão social Este capítulo do livro é uma reunião de textos desenvolvidos pelos alunos que participaram do projeto de extensão ASAS em 2009. A ideia foi orientar os alunos para que escre- vessem um pequeno artigo sobre a experiência adquirida ao longo do projeto. Paralelamente às atividades práticas, todos leram livros e artigos relacionados aos temas da área de interesse individual e, em alguns momentos entre reuniões semanais, apresentaram para dis- cussão coletiva as principais questões levantadas. Não consideramos ainda uma experiência aca- dêmica completa e alguns textos não possuem a profundidade e coerência necessária para que se tornem artigos verdadeiramente científicos. Mas, como quase todos foram alunos também da disciplina optativa de Artesanato e Design, entendemos que os registros pessoais buscaram complementar a prática e o ensino com uma ou- tra parte da tríade acadêmica fundamental que é a pesquisa, realizando um exercício de pensar sobre o processo extensionista e registrá-lo sob a forma de texto acadêmico.
    • O primeiro passo para a realização deste trabalho foi a construção de um mapa da região — arredores da Vila Novo São Lucas — a ser percorrida pelo grupo. A partir de memórias coletivas e individuais e do cotidianodas experiências e percepções aglomeradas Território desdobra na comunidade, os artesãos cartografaram o espaço em que habitam: labirinto contínuo que se desdobra, desenfreado e orgânico, dentro da cidade formal — e que, paradoxalmente, está à margem, mas é interior, intrínseco à ela. Ana C. Bahia Partindo da ideia de que territórios não têm escala e de que se pode territorializar/cartografar praticamente tudo o que se vê — ou melhor ainda, tudo o que se sente —, a comunidade construiu, com desenhos e recortes, o “mapa vivido” dos seus percursos diários. Mapa que não é definitivo, pois “só há mapas instantâneos”: Contra a prática do planejamento urbano, a ideia do Labirinto nos sugere uma volta à cartografia, que reflete uma situação, acompanhando os movimentos de transformação da paisagem. Em lugar das cartografias (quase) O presente artigo se propõe a analisar e militares do espaço real, podemos ver as cartografias da experiência do espaço, cartografias subjetivas do próprio levantar questões acerca do processo de movimento. [...] Não são as cartografias da forma do percurso, mas da experiência do percurso, da ação de criação da coleção Territórios, idealizada e percorrê-lo, de descobri-lo. (JACQUES, 2007, p.97) desenvolvida pelo projeto ASAS ao longo do ano de 2009 junto à comunidade Vila Ao relacionar e fazer convergirem os espaços por ela percorridos, a comunidade dialogou com os gestos que Novo São Lucas, no Aglomerado da Serra. esses espaços contêm. Percorreu seus traçados íngremes e vivos para depois representá-los, enredá-los num É sob a luz de algumas figuras conceituais outro olhar — atravessando a vertigem dos limites, as poéticas sobrepostas nos muros, nas frestas, nas dobras, apresentadas por Gilles Deleuze e Félix entre uma rua e outra, entre um beco, entre outro, outros. Guattari em Mil Platôs, e posteriormente relacionadas no livro Estética da Ginga, Mediadores de experiências diversas, os exercícios de livre perambulação de Paola Berenstein Jacques, que este pela Vila Novo São Lucas fez o grupo de artesãos confrontar dinâmicas, trabalho levantará questões referentes “desenhar a favela para além do registro oficial”, como exemplificado em à estética própria das favelas e à Silva & Souza (2002). valorização das peculiaridades deste território, tendo em vista o artesanato e o A tentativa de deslocar e desconstruir a imagem oficial é a forma de pensar design como catalisadores da criação de a informalidade como fruto de uma genética urbana não compatibilizada, uma imagem positiva ligada ao seu local que precisa recriar seus espaços. É necessária uma nova escrita da cidade, de origem. a história da cidade habitada, vivida. (SILVA & SOUZA, 2002, p.161) Com o objetivo de reforçar a Depois de traçado o mapa, já completamente imersos nesse labirinto- autoestima da comunidade, -favela e munidos de câmeras pinhole nas mãos — construídas em instigar novos olhares, resgatar oficinas ministradas durante o projeto —, os artesãos registraram os e fortalecer a identidade local detalhes, as surpresas, os desvios, o amontoado de fragmentos e sua a partir da investigação das infinidade de junções: estado de permanente incompletude que marca possibilidades que esse espaço as paisagens dos aglomerados. oferece, a coleção de produtos desenvolvida no projeto ASAS O fragmento é a força daquilo cuja natureza não conhecemos, daquilo durante o ano de 2009 teve o que não oferece nenhuma garantia de atualização. O fragmento semeia território como tema central. Para a dúvida. Ele pode ser um pedaço, uma etapa ou um todo, até, o contrário isso nós, alunos da Universidade de si mesmo. (JACQUES, 2007, p.44) FUMEC e artesãos do Aglomerado da Serra, discutimos e trabalhamos temas e motivos observados dentro da favela. A partir deles, redirecionamos a nossa percepção sobre esse espaço: relacionando aspectos materiais e imateriais para estabelecermos conexões entre o contexto local e o entorno. 39
    • Por meio do projeto ASAS nós,alunos do curso de design,pudemos perceber a favela O espaço liso, por sua vez, pode ser comparado ao feltro, que é um emaranhadopelo lado de dentro e, assim, de fibras prensadas, de fios indistintos. Nesse caso, ele pode então representar asde algum modo, desmistificá- favelas, assim como todos os espaços informais da cidade. Num espaço liso ocupa-sela, enxergá-la sob uma ótica aleatoriamente, desregradamente e por acontecimentos: o espaço liso “é um espaçoque não aquela à qual estamos de afetos, mais que de propriedades.” (Deleuze, 1997)condicionados: a imagemconstruída e veiculada pela O feltro não implica distinção alguma entre os fios, nenhum entrecruzamento, masgrande mídia, por exemplo. apenas um emaranhado de fibras [...] é infinito de direito, aberto ou ilimitado em todasParalelamente ao trabalho junto as direções; não tem direito nem avesso, nem centro; não estabelece fixos e móveis, masà comunidade desenvolvemos antes distribui uma variação contínua. (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.181)uma pesquisa acerca dasconstruções simbólicas geradas O espaço liso é aberto, ilimitado e descentralizado, estende-se sobre a superfície depelas superfícies. Investigamos forma rápida e desordenada. É um modelo composto por estruturas múltiplas, nãosuas potências e exploramos lineares, horizontais e aleatórias — o que Deleuze denomina “Rizoma”: o processo, osuas conformações. movimento, o ímpeto.No livro Estética da Ginga, Paola Berenstein Jacques nos apresentou a favela através da obra de Hélio Oiticica. A cidade libera espaços lisos, que já não são só os da organização mundial, mas os de um revide queE a partir de três figuras conceituais: o “Fragmento”, o “Labirinto” e o “Rizoma”, fomos transportados para o combina o liso e o esburacado, voltando-se contra a cidade: imensas favelas móveis, temporárias [...]universo estético dos barracos e dos becos. nômades, restos de metal e de tecido, patchwork [...] (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.188-189)Ao longo deste trabalho estabelecemos relações entre formas e texturas, que também podem ser vistas juntoaos conceitos referentes ao “Espaço liso” e “Espaço estriado”, ambos formulados por Gilles Deleuze e Félix Guattari.O espaço estriado pode ser comparado ao tecido e representa a malha da cidade formal. É bem delimitado, poissua largura é definida pelo quadro da urdidura, organizado e fixo.Um tecido apresenta em princípio certo número de características que permitem defini-lo como espaço estriado.[...] ele é constituído por dois tipos de elementos paralelos: no caso mais simples, uns são verticais e os outroshorizontais, e ambos se entrecruzam perpendicularmente. [...] um tal espaço estriado está necessariamente de-limitado, fechado [...] (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.180)
    • [...] a relação com o espaço é a forma básica com que as pessoas vão construindo suas identidades, vão produzindo alteridade, vão se reconhecendo enquanto partes de um espaço global, num ambiente local. Enfim, o lugar em si é fomentador da identida- de/alteriadade. (SILVA; SOUZA, 2002, p.162)Deve-se lembrar que tanto o espaço liso quanto o estriado contêm A partir da memória, da observação dos espaços físicosaspectos variáveis, cruzamentos complexos, ou seja, todos os e das imagens geradas pelas superfícies na favela —territórios já estão de certa forma contaminados, híbridos. A o que está à tona, matéria bruta para a construção dacidade informal não é completamente formada por espaços lisos, experiência subjetiva —, os artesões do Aglomerado da Serrapois possui dinâmicas internas de poder, conflitos e contradições. desenvolveram os produtos da Coleção ASAS 2009.Olhar o Aglomerado da Serra e ao mesmo tempo tentar capturar, Multiplicidades não métricas, imprevistos, linhas de fuga —entrever e direcionar o olhar — um outro olhar — do morador a favela está sempre em movimento de territorialização esobre o território que ele habita é também considerar e estimular desterritorialização. Pode ser comparada a uma colcha deas discussões políticas sobre a segregação espacial, alteridade, retalhos, a um trabalho de “patchwork” com seus sucessivosidentidade, fronteiras e diferenças culturais, pois acréscimos de tecido, que remetem à construção dos barracos. Bricolagem (ou a construção em estado selvagem), reagrupamento de restos, arquitetura vernácula, sobras que são justapostas de acordo com a necessidade de cada momento — o que se vê aí é um processo ininterrupto, no qual tudo é constituído por fragmentos e de forma também fragmentária. As misturas, emendas, sobreposições e percepções aglomeradas no decorrer do projeto foram traduzidas em mapas pela comunidade de artesãos da Vila Novo São Lucas — que transformou-os em estampas para a coleção de produtos desenvolvida ao longo do ano de 2009. E como afirmou uma das artesãs da comunidade: “Agora a gente tira fotos, vê as coisas e já enxerga estampas”. REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICAS DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.5. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. GUIMARÃES, César G.; VAZ, Paulo Bernardo F.; SILVA, Regina Helena Alves da; FRANÇA, Vera Regina Veiga. Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007. SILVA, Regina H. Alves; SOUZA, Cirlene Cristina de. Múltiplas Cidades: entre morros e asfaltos. In: GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena Alves; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002 43
    • que possuem algum tipo de valor nostálgico genuíno no que diz respeito à sua simplicidade Passagem – sobre movimentos em fotografias no Aglomerado da Serra técnica, à sua produção artesanal; e ainda remete aos primeiros brinquedos ópticos do século XIX. No entanto, mais do que simples objetos saudosistas eles levam em sua carga mais íntima uma discussão do processo em que ele se criou. Os “flipbooks” surgem como tentativa de um “fixo-fluxo” de um espaço-tempo-território. A imagem que se transforma e desvanece a cada movimento do dedo, talvez cria o paradoxo mais próximo do movimento do projeto: o fixo e o fluxo, o não-tátil pelo tátil, o surgimento a partir Aruan Mattos Lopes de construções internas, o processo, o fluxo pelo fixo, o fixo pelo fluxo, movimentação de fotogramas inertes capturados a partir do O que foi construído nas oficinas de audiovisual, dentro do projeto ASAS trânsito; o movimento existe em um espaço (Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra), são exemplos pontuais do de passagem. Entre o fixo e o fluxo a imagem olhar cotidiano no espaço da favela. O trânsito, a fresta, o caminho, o espaço, o aparece fotograficamente independente e beco, a caixa de fósforo: ferramentas e espaços disponíveis para a produção de como passagem virtual dependente do tempo. arte-objetos ou produtos de design. A constante permuta do “high” e do “low Como movimentos internos e externos. Não tech”, da cidade formal e informal. por acaso, o que está (passa) nos fotogramas apontam para este espaço de diálogos: o De um lado câmeras de vídeo e de fotografia tradicionais. De outro as território de passagem. caixinhas de fósforos pintadas com spray preto envolvendo bobinas de filmes. A motivação não é a comparação, mas sim o uso, a pesquisa, a produção e Em um primeiro “flipbook”, a imagem simula, a permanência. Daí se dá o embate: se o que foi e ainda é feito na favela como em uma ação cinematográfica da acontece nos dois campos do “high” e do “low”, se o que acontece é a câmera subjetiva, o movimento de entrada imbricação e complementação destas áreas, não existe de fato dois lados por um determinado beco. Diálogos curtos opostos. A realização de uma oficina que quebra a dicotomia primária para e estendidos em movimento ou estagnação. se construir um emaranhado de conversas distintas e compartilháveis: A imagem da favela é por si só um discurso ironia ou constatação da lógica do “Rizoma” na favela, construída a partir acerca da passagem: a desestruturação e a reestruturação, mas ainda estruturas, mesmo que passagens. de fragmentos próprios que se correlacionam e produzem enunciados que Linhas retas, tortas, angulosas e curvas, desenham uma espécie de “grid” desconstruído. Formas que narram se sustentam por criação interna, surgindo a linha de fuga: a gambiarra, o o movimento espacial na favela: a gambiarra, o invento, formas e deformidades que se entrelaçam. Concreto, invento, a inovação da sobrevivência, a guerrilha estrutural espacial. tijolo e madeiras aparentes são alguns elementos primários que ressaltam algum tipo de estruturação própria. Por um lado, a imagem sugere um crescimento formal em todos os sentidos, por aglomeração e associações. Antes mesmo de ser uma oficina, apreende-se este núcleo audiovisual Uma sugestão de que nada é retirado para se construir o novo: formas e “grids” coexistem com a estrutura como uma construção de uma oficina enquanto processo. Problemas, original. Por outro lado, o espaço-tempo do próprio objeto se comporta como uma troca constante, uma alternativas, soluções e não-soluções geradas durante o movimento (e substituição de fotogramas que criam um ritmo alucinante de transformação tradicional. A cada microssegundo gerada pelo próprio movimento). De todo, o que se exibe em relação a todas uma imagem é sobreposta a outra criando a ilusão do movimento. as questões levantadas, como uma espécie de pós-movimento, não revela o movimento de fato. Exatamente pelo caráter de fluxo descompassado, onde oficinantes e oficineiros carregam cargas distintas e as conversas se fazem assimetricamente próximas, o plano de permanência deixa de ser de fixação e passa a ser de sorção, ou seja, movimento. Como uma construção: o que se troca, o que se vive, o que se desestrutura e reestrutura, o que se dialoga, o que se ambienta, o que se altera, enfim, o que existiu no percurso, não é a sua finalização de fato. Como a cidade, como a favela: organismos mutáveis. Os produtos gerados a partir do núcleo audiovisual no ASAS se ligam a arte- -objetos ou produtos de design ou simplesmente brinquedos — comparando com aqueles que antes possuíam um valor de culto anterior à produção44 industrial de larga escala (BENJAMIN, 1994, p. 246). De todo modo são objetos
    • Nos outros “flipbooks”, o posicionamento acontece de forma Por outro lado, existem ainda os objetos luminosos originados tambémdiferente: a câmera se fixa e os elementos em quadro se na mesma oficina audiovisual. Trata-se de objetos compostos a partir demovimentam. O trânsito na praça: crianças brincam com uma fotografias realizadas através da técnica pinhole: as máquinas fotográficasbola de futebol sobre um gramado. No corpo, vestimentas de tradicionais são colocadas de lado neste momento e constroem-se pequenasuniformes de futebol de clubes internacionais. Não existem câmaras escuras a partir de caixas de fósforos atreladas a bobinas de filmes.linhas de demarcação para dimensionar a área do jogo, nem Nestas máquinas construídas artesanalmente o controle da luz que marca atraves ou mesmo chinelos ou pedras — comuns nas brincadeiras película é quase inexistente. É a partir da prática e da intuição que se podede rua — que as demarquem. Todo o espaço parece ser definido ter algum tipo de intento, mas ainda pouco certeiro. A entrada da luz deixavirtualmente em um diálogo não verbal entre as crianças, ou de ser acionada em um microssegundo e passa a acontecer em um espaçoainda, “um diálogo mudo, baseado em signos, entre a criança e de tempo maior, fazendo com que as imagens não alcancem uma silhuetao povo” (BENJAMIN, 1994, p. 248). Tudo indica ser estabelecido bem definida. As imagens se aproximam do pictórico, e apesar destes objetosdurante o movimento da brincadeira. Qualquer pré-definição não possuírem o mesmo princípio de movimento dos “flipbooks’’— a mão éespacial aparenta ser quebrada a cada instante que se irrompe desvencilhada do objeto e nenhum truque ilusório de movimento é acionadoa fascinação de uma jogada. No primeiro quadro, a câmera em – ainda o território e o fluxo são colocados em discussão. As figuras perdemsua posição fixa e fotográfica se desnorteia assim que a bola seu contorno e as formas passam a ter uma apresentação mais de flutuaçãotraça o seu primeiro trajeto. Fica evidente que em uma tentativa do que propriamente fixação sobre o quadro. Mais uma vez, os registrosde estriar objetos, espaços e personagens em cena, a câmera se fotográficos apontam para o território de passagem, de movimento. Becos,perdeu e a montagem posterior funciona como a construção de ruas, vielas, são cenários que se apresentam de forma indicativa à passagem.uma linha narrativa lógica. Ora, a edição aparece como objeto de Cores e formas, por sua vez, são repetidas mais ou menos vezes indicandoadequação ao espaço e não o contrário. Os cortes são realizados um mapeamento de forma geral da região.na tentativa de narrar, ou melhor, situar o comprometimento deuma brincadeira no campo virtual. Entende-se assim que os produtos — “flipbooks” e objetos luminosos — narram de alguma forma como foi realizada a oficina audiovisual. IndicamNo terceiro e último “flipbook”, uma rua movimentada com ainda o território de pesquisa geral do projeto ASAS e apontam para algunsmotos, bicicletas e, em sua maioria, pessoas com sacolas nas pensamentos e reflexões geradas durante o processo. Por fim, acredita-semãos. A região, que possui o nome informal de “Savassinha”, é que o núcleo gerou produtos estáveis e produtos passageiros, um ligado aoo ponto comercial desta região do Aglomerado da Serra. Fluxo outro, mas sempre em transição.ininterrupto de indivíduos e outros diversos elementos dediálogo. Elementos transitam entre formas, cores, percepções,corpos, dentre outras caracterizações formais e não-formais.Ainda aqui a extensão de acontecimentos e estaticidadetransitam entre o virtual e o material. O espaço trata de um dia adia de trânsito ininterrupto. Daí se dá uma estaticidade origináriado movimento: o cotidiano, a repetição. Como aquele movimentoque se repete tantas vezes que acaba se transformando emuma imagem única da recorrência, o hábito. Neste objeto oparadoxo se expande do seu espaço formal: um registro (umafixação) do cotidiano ou uma continuação da sua repetição?Por sua vez, o próprio objeto convida a repetir a ação ilusória domovimento mais de uma vez. Dá-se uma multiplicidade variadade representações e brincadeiras. “A essência da representação,como da brincadeira, não é ‘fazer como se’, mas ‘fazer semprede novo’, é a transformação em hábito de uma experiênciadevastadora.” (BENJAMIN, 1994, p. 253). O objeto, o brinquedo, arua e o registro em conversas que se aproximam e se distanciam REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICASpara a construção de um espaço em movimento de uma favela. BENJAMIN, Walter. História Cultural do Brinquedo. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs: Esquizofrenias do Capitalismo. Vol.1. São Paulo: Editora 34, 1995 DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs: Esquizofrenias do Capitalismo.46 Vol.5. São Paulo: Editora 34, 1995 47
    • A favela e a construção do comum para adequar-se a esta nova realidade. Nas frestas da malha urbana começaram a surgir barracos e casebres que, em concordância com a Bruno Oliveira velocidade dos processos modernos, rapidamente se multiplicaram e iniciaram a formação do que hoje são os grandes aglomerados de vilas e favelas. Estas margens do planejamento urbano moderno se tornaram, A articulação aqui proposta se baseia no pensamento então, representativas de todo o fenômeno urbanístico do século XX: reflexivo sobre as perspectivas de transformação social o foco se volta para a multidão sem rosto que transborda e escorre às de ações de empoderamento criativo em comunidades. A estruturas de controle social. Segundo Davis (2007, p. 28): intersecção entre os trabalhos de Deleuze e Guattari, Hardt e Negri, Pelbart e outros auxiliou no delineamento desta As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto interface construída entre as tensões da vida na favela por gerações anteriores de urbanistas, serão construídas em grande parte e o cotidiano inventivo. Por meio da contextualização de tijolo aparente, palha, plástico reciclado, blocos de cimento e restos histórica da formação dos aglomerados urbanos e de suas de madeira. Em vez das cidades luz arrojando-se aos céus, boa parte do dinâmicas estruturais e relacionais, uma rede de referências mundo urbano do século XXI instala-se na miséria, cercada de poluição, é construída visando transparecer a potência do imaginário excrementos e deterioração. na construção de universos possíveis e de realidades por vir (PELBART, 2003). Alternativas informais à normativa cidade formal, as favelas cresceram e se organizaram através das particulares formas de interação e No início do século XX, os centros urbanos, para além de sociabilidade vivenciadas por seus habitantes. Caracterizado por restritos espaços de convivência, se tornaram as referências Jacques (2003, p.15) como um “processo singular do tratamento do centrais da sociedade moderna, resultado da intensificação espaço-tempo”, a construção do território marginalizado pode ainda ser do fluxo de pessoas, bens, serviços, informações e dinheiro. compreendida objetivamente como uma “outra maneira de construir o Estas instâncias inauguradas pela crescente globalização e espaço, que difere completamente da lógica racional e binária”: para pela rápida industrialização da sociedade da época acar- além dos rigores formais da arquitetura, engenharia e urbanismo, retaram em uma explosão nos contingentes populacionais as favelas surgem impregnadas da experiência cotidiana de seus e no consequente aumento dos contrastes entre realidades citadinos. A complexidade vernácula, orgânica e impermanente de sociais. Na fragmentada urbe do novo século, que já não suas subversivas estruturas apresentam-se como indícios da tentativa de mais conseguia suprir suas dívidas sociais, surge um pro- criação de uma identidade coletiva, em meio à adversidade imposta, como cesso chamado de “superurbanização” (DAVIS, 2007, p.26): sugerem Silva & Souza (2002, p.154): referindo-se a marginalização de parte da população e a contínua reprodução da segregação socioespacial se tornaram inevitáveis. Segundo Silva & Souza (2002, p. 148): Em todas as épocas, as cidades tem sido chamadas de “o Recriando uma representação da favela como o mundo do vivido, a configuração do espaço transforma- lugar do progresso e da civilização”, lugares em que se in- se no ambiente da vizinhança […]. A vida aqui é dinâmica. [...] As relações, como a de vizinhança, criam tegram pessoas de diferentes culturas, diferentes idiomas e identificações, provocando encontros, laços afetivos que estabelecem as reações efetivas em torno da credos, lugares de tolerância e convívio. Hoje em dia, se são luta pela valorização do espaço da favela. […]. As imagens são de uma cidade moderna que ainda reflete sinônimos de sociabilidade democrática, também os são, fre- problemas de insalubridade, de propriedade, de diferenciação racial. quentemente, de exclusão, racismo, violência, etc. E exclusão urbana significa fragmentação, isolamento, focos de pobreza e diferenças radicais. A hierarquia espacial já tão característica das metrópoles do novo século tornou-se ainda mais crítica durante esta crise da urbanidade. Os cidadãos marginalizados, excluídos dos espaços “nobres” da cidade e destituídos de seus contextos socioculturais, se viram forçados a buscar alternativas48 49
    • Também importante é a observação da dinâmicaorganizacional deste território “outro”, construídoe habitado pelo outro (JACQUES, 2003, p.9) e amaneira como ela se transborda sobre os universosrelacional e estético dos “aglomerados”. De formasistemática, Jacques propõe três figuras conceituaisque podem auxiliar na compreensão desse processo:“do corpo à arquitetura, o Fragmento; da arquiteturaao urbano, o Labirinto; e do urbano ao território, oRizoma” (JACQUES, 2003, p. 16); elaboradas a partirde seus habitantes e suas moradias, passando pelodesenrolar dos meandrosos becos e vielas do morro Também podemos considerar o “mundo” intei-e chegando à expansão rizomática da favela sobre A multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ro como uma composição cósmica completa, poras frestas da cidade. Faz-se necessário pontuar a ou identidade única – diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de sua vez composta de uma quantidade infinita deconexão intrínseca entre tais figuras, associadas a trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. A multidão é uma multi- composições autônomas cada vez menores, todaspartir do incessante empilhamento de camadas e plicidade de todas essas diferenças singulares. compostas em última análise, tanto no macrocosmosignificâncias, compondo um real palimpsesto que se como no microcosmo, de pontos [...].concretiza em diversas outras análises e transparece, A realidade incompleta das favelas demanda, de seus moradores, um enfrentamento diferenciado dosob um olhar atento, nas próprias relações humanas problemático cotidiano à margem da cidade formal. “Na medida em que a multidão não é uma identidade Ainda sobre a perspectiva múltipla e sobrepostae proposições estéticas dos moradores das favelas. (como o povo) e não é uniforme (como as massas), suas diferenças internas devem descobrir o comum que do universo relacional das favelas, pode-sePor meio da sobreposição recursiva do conceito deste lhe permite comunicar-se e agir em conjunto” (HARDT; NEGRI, 2004, p. 14). A percepção deste conjunto como afirmar que uma identidade local nunca é“urbanismo outro” para instâncias mais subjetivas, potência transformadora torna-se necessário para que a produção realmente formada. De fato, as favelas surgemtorna-se possível a analogia com as reflexões sobre da subjetividade e do comum (HARDT; NEGRI, 2004, p. 247) alcancem da incessante busca de seus moradores pora natureza das formas de Kandinsky, nas quais novos patamares no enriquecimento da realidade coletiva. uma sensação de pertencimento, coesão socialpropunha observar a composição do mundo de forma e reconhecimento individual (PESAVENTO, 2007,estética (KANDINSKY, 1997 p. 31): À margem da cidade e do capital contemporâneo, este processo de p. 1). Entretanto, a lógica que aqui se instaura é outra. A construção dessa identidade não construção do comum se encontra em potência, e novos modelos encontra seu estágio terminal devido a transfor- de mundo e de realidades possíveis se inauguram e transformam- mação contínua do espaço da favela que agrega -se a todo momento: relações, estruturas, referências e dinâmicas à carga identitária de seus habitantes uma construídas à partir do atravessamento de múltiplos vetores de perspectiva efêmera e incompleta da realidade, subjetividade, compondo e antecedendo a própria constituição sem que se tornem menos concretas as relações do real. Segundo Hissa (2006, p. 116), a imaginação seria “uma constituídas no plano subjetivo desses espaços. faculdade de representação, de construção, de combinação de Inaugura-se, então, a figura da multicolorida imagens; é sempre leitura e, como tal, é leitura que cria, recombina “multidão” (HARDT & NEGRI, 2005, p. 12): e interpreta”. Por meio da constituição deste arsenal de imagens possíveis o imaginário talvez passe a ser percebido não como instância irreal, “mas como a câmara de produção de uma realidade por vir” (PELBART, 2003 p. 134). Segundo Hissa (2006, p.118):50 51
    • A imaginação desempenha diversas funções fundamentais, entre as quais merecem ser sa- lientadas a função crítica e a função criadora. [...] É de fato à criatividade que a imaginação se associa, sendo um dos pré-requisitos indispensáveis à construção de novas respostas ou de novos arranjos interpretativos do mundo. A função criadora da imaginação permite ultrapas- sar o dado, o agora, o imediato, originando o que não era visível e nem existente, mas em que se reconhece [...] o que deveria ser revelado. REFERêNCIAS BIBLIOGRáFICAS Tomar esta força-invenção (Pelbart, 2003) como significante local e torná-la o eixo central de um processo de empoderamento de uma DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2007. comunidade se faz extremamente pertinente: ao se incorporar esta inventividade em uma metodologia de desenvolvimento DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. local, a própria potência do comum viabiliza a constituição de Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 2009. uma outra dinâmica social. “Cada variação, por minúscula que seja, ao propagar-se e ser imitada torna-se quantidade social, DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. e assim pode ensejar outras invenções e novas imitações, novas Vol. 5. São Paulo: Editora 34, 2008. associações e novas formas de cooperação (Pelbart, 2003 p.23). GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005. HISSA, Cássio Eduardo Viana. A mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. JACQUES, Paola Berenstein (org.). Apologia da Deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. JACQUES, Paola Berenstein. Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. KANDINSKY, Wassily. Ponto e Linha sobre Plano. São Paulo: Martins Fontes, 1997. PELBART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras, 2003. PELBART, Peter Pál. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira de História, São Paulo, Vol. 27, n° 53, p. 11-23, 2007. SILVA, Regina H. Alves; SOUZA, Cirlene Cristina de. Múltiplas Cidades: entre morros e asfaltos. In: GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena Alves; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de52 ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002 53
    • Como são aceitas asinterferências urbanas na favela As favelas crescem desordenadamente e seguem a prática do “construa você mesmo”, como observado por John Turner (apud DAVIS, 2006, p.39), arquiteto inglês, que parte para o Peru em 1957 e fica fascinado com a capacidade de organização e construção com habilidade e inteligência das comunidades. A partir das décadas Carolina Rios de M. Moreira de 1970 e 1980 surgem muitos projetos arquitetônicos do estado, mas como analisado por Paola B. Jacques, em seu livro A estética da Ginga, “os arquitetos passaram a intervir nas favelas existentes O primeiro registro de um estudo sobre favelas, ou algo próximo a isso foi visando transfomá-las em bairros” e isso acaba impondo sua própria em 1805 com Survey of Poverty in Dublin [Estudo da pobreza em Dublin], estética, quase sempre a da cidade dita formal. Afinal, as favelas em de James Whitelaw (DAVIS, 2006, p.31), o que nos leva a crer que elas suas constantes formações não são fixas como as cidades ditas formais, surgiram muito antes do que as pessoas em geral imaginam. A maioria sua complexidade espacial se mistura a sua temporalidade, com uma das pessoas acredita que o fenômeno de crescimento desordenado de cultura sem centro e instável. aglomerados é algo que se inicia depois da Segunda Guerra Mundial. Realmente há uma diferença significativa do antes e depois da guerra, as Em Belo Horizonte 46 mil pessoas habitam o Aglomerado da Serra, favelas passaram a crescer mais desenfreadamente, com o êxodo rural, maior favela da cidade com uma área de 1,4 milhões de metros dentre outros fatores. quadrados. O Aglomerado faz limite com o Hospital da Baleia, o Parque das Mangabeiras e com os bairros Paraíso, Santa Efigênia, Segundo Mike Davis, a grande diferença entre estes períodos é o modo São Lucas e Serra. Situada na zona centro-sul de Belo Horizonte, a como o governo passa a tratar este “problema” urbano. Antes da Segunda favela se divide em oito vilas — vila Nossa Senhora da Conceição, Guerra os governos criaram diferentes políticas e leis para tentar acabar vila Marçola, vila Santana do Cafezal, vila Novo São Lucas, vila Nossa com as favelas, tentando sem sucesso transferir os moradores para Senhora de Fátima, vila Fazendinha, vila Nossa Senhora do Rosário e conjuntos habitacionais em outras regiões; os governos socialistas como vila Nossa Senhora Aparecida. Cuba e China tentaram abrigar essas famílias de outras formas, mas não passaram de teorias. Em 2007, foi desenvolvido e aprovado o programa de reformas no Aglomerado, o Vila Viva, que engloba obras de saneamento, remoção Então, no período pós-guerra, outras de famílias, construção de unidades habitacionais, erradicação de medidas foram tomadas: devido ao áreas de risco, reestruturação do sistema viário, urbanização de becos, fracasso dos planos anteriores, os governos implantação de parques e equipamentos para a prática de esportes passam a tentar interferir nas favelas sem e lazer. Após o término da urbanização, a área será legalizada com a destruí-las, e sim tentando urbanizá-las, emissão das escrituras dos lotes aos ocupantes. As obras começaram mantendo-as no mesmo local, com o em fevereiro de 2008 e estão previstas para terminar em 2011. intuito de apenas melhorar as condições de vida de seus habitantes. Mas para que Este projeto é um exemplo que pode ser avaliado como é aceita isso fosse possível, os investimentos de a interferência que vem de fora, com o intuito de melhorar a vida empresas, ONG’s e cooperativas, assim desses habitantes. Nem sempre algo que visa ajudá-los é considerado como doadores internacionais, passaram a por eles desta forma, pois como formam uma parte da sociedade que ser fundamentais. sempre foi excluída; os seus habitantes formam uma comunidade fechada e desconfiada e, muitas vezes, com razão, afinal foi um longo processo até que esses aglomerados fossem considerados pelo Governo e pela população como parte da sociedade e da cidade, com direitos assim como qualquer outro morador da cidade formal. 55
    • Em se tratando de um projeto que apresenta diversidade deO projeto Vila Viva foi muito criticado pelos moradores, porque inicialmente ninguém acreditava na melhoria participantes, entre alunos da FUMEC e artesãos do Aglomerado, todosque poderia trazer, e se a promessa do estado de reabitá-los em um lugar melhor seria cumprida. Segundo apresentam visões próprias, algo que é causado, principalmente, pelaspesquisa da URBEL, 75% dos moradores do aglomerado preferiram continuar em suas casas e o restante diferenças inegáveis entre esses grupos. Este é um dos motivos que levaoptou pela indenização em torno de 20 a 22 mil reais. São muito poucos os que optam por mudar para os a aceitação de um grupo tão distinto ali dentro, um pouco difícil, paraapartamentos, e esses acabam vendendo o imóvel e indo para o interior com o dinheiro da indenização. ambas as partes. É um exercício de aprendizagem, de como lidar com essas diferenças socioculturais da melhor forma possível. Não se trataNo Aglomerado da Serra é muito comum casas que têm algum comércio funcionando no primeiro piso ou no apenas de aceitar as diferenças, mas muito mais de compreenssão,quintal, às vezes até alugados para outras pessoas, então isso também causa certa resistência. Assim como entender as opiniões diversas, por mais que soem absurdas para alguns.a professora Nilma Alves, de 26 anos, que alega vários fatores prejudiciais, muitos outros moradores tambémse posicionaram “Eu não tenho vontade de morar nos prédios, aqui em casa tem área, tem espaço, tem três Toda esta forma de trabalho, este crescimento pessoal para todosquartos, pra mim, apartamento é sem espaço. Eu tenho um quintal, tenho uma loja, que estava alugada. Eu os envolvidos, quebra os paradigmas de uma relação frágil entreperdi uma fonte de renda, agora a loja está parada porque nós vamos sair. Aí a gente não aluga mais. Aqui calaborador e colaborado. Como analisado pelas próprias artesãs, oem casa todo mundo vai perder o emprego”(Vila Viva: intervenção radical no Aglomerado da Serra , disponível projeto mudou muitas coisas na vida delas, principalmente na questãoem Favela é isso aí: http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=59). Assim como Nilma, muitos outros de compreensão mútua e em como lidar com outros grupos.moradores enfrentam os mesmos problemas. Outros apenas desconfiam e nem cogitam a probabilidade, comoDona Eva, que faz parte do projeto ASAS (Artesanato Solidário do Aglomerado da Serra), e que acha que os prédios Um dos objetivos do ASAS é fazer com que estas artesãs prossigamficaram prontos muito rápido, que não se mudaria para lá, pois, ao seu ver, não parecem seguros. com seus processos de criação e conclusão de produtos qualificados, e continuem a gerar renda a partir disso. E esta jornada sem umaO projeto ASAS, por sua vez, é um projeto de extensão da Universidade FUMEC, coordenado por Natacha Rena, interferência muito radical da FUMEC começa principalmente nosno qual alunos do Curso de Design ministram aulas e “workshops” de costura, encadernação, estamparia, dentre relacionametos comerciais e parcerias que serão feitos por meio de outros, para capacitar um grupo de artesãs, para que um membro da comunidade. Além disso, o projeto é reconhecido essas possam ter uma fonte de renda com os produtos internacionalmente por outros grupos que trabalham com comunidades criados a partir das técnicas aprendidas. carentes, muitos deles visitam a escola onde o ASAS atua, e a reação dos visitantes e da comunidade é sempre muito gratificante. A intervenção proposta para a comunidade pelo ASAS é cercada de cuidados: passa primeiramente por uma Vemos que realmente a imersão em um projeto social não se trata avaliação da proposta a ser abordada, com todos os apenas de ir para a favela e ajudar do modo que cada um sabe. Há todo critérios necessários para este fim. São marcadas um envolvimento necessário e muitos desafios pela frente, muitos deles reuniões com o grupo da comunidade que pretende fazer marcados por discussões que talvez não levem a nenhuma conclusão, parte do projeto e explicado os mínimos detalhes: como mas que servem para começarmos a perceber que cada grupo tem uma será executado o projeto, quais setores da comunidade opinião, e é muito importante conseguir fazer uma ponte entre esses poderá fazer parte do mesmo e como tudo funcionará, de dois mundos, estabelecendo relações de confiança e dedicação, além forma que fique claro para os participantes todo o processo. de estar sempre aberto a questionamentos vindos de todas as partes, Os objetivos devem ser claros e expostos logo no começo principalmente de você mesmo. das atividades. Os resultados também são expostos e a transparência é a melhor aliada do processo. Com este projeto, o que se busca é o crescimento na formação educacional e profissional, tanto para as aglomeradas quanto para os alunos da FUMEC. Dando condições aos participantes para que desenvolvam novas habilidades, novas formas de agregar valores a suas atividades, que poderão ser transformadas em acréscimo da renda familiar e também em melhoria da autoestima de cada um, dando condições dos mesmos se sentirem REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICAS inclusos na sociedade e elevar o desenvolvimento pessoal e profissional. DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006. Vila Viva: intervenção radical no Aglomerado da Serra. Disponível em: http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=59 JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a aquitetura das favelas56 através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007. 57
    • A tentativa de reconstruir a realidade buscando melhores condições representa mais que o sustento próprio, é também uma forma de melhorar a sociedade que os cerca e atenuar as desigualdades sociais. Convívio e experiências:trajetórias de vida do projeto ASAS “Toda a oportunidade é válida, alguma coisa irá nos servir.”, afirma Suzana Marília dos Anjos Oliveira, funcionária da Escola Municipal Padre Guilherme Peters, integrante há dois anos do ASAS, “Fico muito feliz em poder repassar aos alunos da escola o que aprendemos no projeto, eles adoram!”. Nas escolas públicas, o relacionamento entre professores e alunos é marcado por contradições. Normalmente, essa relação está associada à conflitos e a falta de respeito, intensificando a distância social e psicológica entre ambos. Imaginava-se, então, que o convívio entre Lilian Gustini Simões universitários e aglomerados pudesser ser motivo de repulsa: O projeto ASAS (Artesanato Solidário no Aglomerado O rico aparece, basicamente, de duas formas: a primeira é a do outro ideal, da Serra), formado a partir de uma parceria entre a aquele que possui uma identidade, uma forma de vida e uma experiência Universidade FUMEC e o Unisol/Banco Real, é descrito por que se almeja. Essa figura aparece às vezes ligada a um padrão de educa- um grupo de universitários e moradores do Aglomerado da ção e comportamento — que o pobre não tem. (...) parecem buscar uma Serra (periferia de Belo Horizonte), que objetivam migrar e relação de aproximação, de identificação com o outro- rico. (...) A segunda conciliar conhecimentos acadêmicos e populares. O processo forma sob a qual a figura do rico aparece é a do outro opressor. Aquele que percorrido defronta-se com caminhos e princípios distintos é a fonte — ou o elemento perpetuador — das imagens e das práticas que consequentes da oposição entre origens. Entretando, a geram a exploração, o preconceito e a exclusão social. (GUIMARÃES et al, trajetória estabelecida por responsabilidades, convivência e 2002, p. 179-180) aprendizagem mútua, cruza fronteiras e preconceitos e se direciona à uma só finalidade: a formação profissional. As diferenças culturais que poderiam causar desconforto e opressão não impediram que surgisse um sentimento de amizade e carinho entre Adquirir habilidades e capacidades formais, dispor de as partes. A gratidão dos aglomerados e a consciência dos universitários interesses, atitudes e bons comportamentos são objetivos em estarem vulneráveis à erros e apredizagem tornou possível o acesso básicos e função social da escola. É compromisso da e respeito mútuos. Maria Elizabeth Arce Alcocer, participante da oficina mesma, preparar indivíduos produtivos e formar cidadãos de costura relata: “Gostava muito de observar e senti segurança. Nunca respeitáveis. À procura pela escola, mesmo nas classes tive noção de costura e, agora que aprendi, estou aperfeiçoando.” mais favorecidas, advém da expectativa de uma vida Em meio a trocas de experiências e ao interesse em buscar novas financeira satisfatória e da realização profissional. Nas informações, os aglomerados passaram a frequentar eventos de arte favelas, apesar de parte da população se entregar ao e design, estreitando as relações culturais e aos poucos se inserindo tráfico e a marginalidade, a visão de um futuro melhor e em ambientes elitizados. As exposições das Aglomeradas — marca honesto é atribuído, em geral, ao estudo. No caso do projeto designada ao setor de criação dos produtos do projeto ASAS — em ASAS, o anseio de aprender um ofício e poder utilizá-lo lojas de design como a Grampo e a Quina (ambas em Belo Horizonte) em benefício próprio consiste na motivação inicial dos serviu de oportunidade para os aglomerados mostrarem seus trabalhos participantes das oficinas oferecidas. Tornar-se autônomo e assegurou firmeza aos artesãos. A gratificação e o reconhecimento em uma produção artesanal e criativa é sinônimo de estar obtidos superaram barreiras econômicas e sociais. Para quem se apto a competir no mercado de trabalho, o que eleva a sentia excluído da sociedade, mostrar-se perante a mesma de forma autoestima e a renda familiar: igualitária elevou a questão ao ganho de status. As dificuldades impostas pelas condições econômicas, embo- ra reconhecidas, não impedem que os alunos esforcem-se para conseguir qualificação e habilitação na tentativa de superar as condições de vida adversas. Mover obstáculos que se colocam para a superação dessas dificuldades pode ser o único meio de ter acesso às oportunidades culturais e materiais que hoje lhe são negadas. (GUIMARÃES et al, 2002, p. 201-202) 59
    • Inerente à identidade da favela é a boa convivência entre os moradores. A vizinhança mantém relações desolidariedade e confiança, além de compartilharem das mesmas situações. Formar um grupo de qualquer queseja o valor gera disputas internas e desentendimentos. E por mais que os aglomerados não fujam à regra, oslaços de convivência foram sempre lembrados como motivo de permanência na associação que se atou.Manter os laços com um lugar significa reafirmar um modo de vida e, na construção das redes de solidariedadee das relações afetivas, tecer uma identidade. (...) Essas relações se estendem para além das necessidadesmateriais e são colocadas num plano afetivo — a comunidade é tomada como uma extensão da família.(GUIMARÃES et al, 2002, p.170-171)É evidente que a harmonia do grupo envolva interesses profissionais e facilite o desenvolvimento do trabalho,mas a amizade garantiu também a distração e fuga da rotina. As conversas descontraídas omitiram osproblemas pessoais, enquanto o desabafo serviu de consolo, gerando, involuntariamente, quase uma terapiade grupo. “Todos têm histórias pra contar. Às vezes tudo é motivo pra rir e se distrair. Quando não venho sintofalta”, confessa Eva Fátima Souza, integrante da oficina de audiovisual. O percurso traçado pelos universitários é, inicialmente, o oposto da trajetória dos aglomerados. Por cumprimentos de horários ou até mesmo por motivos financeiros, a primeira relação com o projeto fundamentou-se direta e profissionalmente. A obrigação das reuniões iniciais, a responsabilidade em estabelecer tarefas e o envolvimento tímido dos primeiros contatos provocaram interesses inseguros, divergentes e indefinidos. No decorrer do projeto, com a realização das oficinas e o resultado concreto das atividades, é que se percebeu a importância da ação solidária como meio de aprendizagem e responsabilidade social. O campo de visão se ampliou ainda mais com as experiências de vida contadas pelos aglomerados. O orgulho de ver-se responsável pela felicidade e conhecimento adquirido pelo outro tornou a ação prazerosa, livre do sentido puro de obrigação. Apesar da diferença entre culturas e realidades, o interesse recíproco em formar-se e reafirmar-se profissionalmente orientou universitários e aglomerados em uma mesma direção. A troca de experiências e informações culturais, adquiridas pelo convívio, gerou um ensinamento e crescimento de vida que nenhuma educação acadêmica poderia proporcionar. O que parecia formar histórias distintas depara-se com desejos e expectivas semelhantes, cruzando origens opostas com destinos comuns. REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICAS GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.60 61
    • Design e artesanato Lorena Marinho Duarte Este artigo tem como objetivo mostrar como Os trabalhadores manuais constroem objetos para um mundo que não é seu, e tais objetos, na avidez contempo- o design o e artesanato podem andar juntos. rânea por novidades, tendem a ser simbolicamente superados em pouco tempo. (LEON, 2005, p.66) O que focar e como devemos agir diante dessa junção para que o produto final tenha Após essa mudança de olhar, essa visão amplificada sobre o mundo a sua volta, a elaboração de um o resultado desejado. projeto diversificado para uma linha de produção fica mais fácil. É necessário, a partir desse momento, a preocupação com a qualidade dos produtos. Essa, porém, requer tempo e persistência. É preciso empenho Um programa de design e artesanato deve e treinamento e o processo é longo e exaustivo. Normalmente, produtos artesanais com um design mais criar condições e autonomia projetual para apurado possui uma clientela mais exigente daquela que os produzem. Neste caso, o nível de qualidade os artesãos. Isso significa ter condições de deve ser superior. A busca por novas coleções de produtos, com novos conceitos, deve ser constante. No pensar na criação de produtos, e a melhor mundo de hoje, o consumo se faz cada vez mais evidente, e a procura por novidade é incansável. Além da forma de fazê-lo é que respondam à suas ne- qualidade, deve ser trabalhada a agilidade na produção. cessidades. Alguns designers são conscientes disso e tentam, no contato com os artesãos, Estimular o reconhecimento das qualidades e dos valores relacionados realizar essa proeza — fazer com que eles com um produto local — qualidades referentes ao território, aos recur- criem objetos moldados às suas necessida- sos, ao conhecimento incorporado na sua produção e à sua importância para des, antes de tudo. (LEON, 2005, p.66) a comunidade produtora — é uma forma de contribuir para tornar visível à sociedade a história por trás do produto. Contar essa “história” significa co- Não é fácil, mas é possível. Aplicar aos municar elementos culturais e sociais correspondentes ao produto, possi- artesões uma visão de designer é um desafio. bilitando ao consumidor avaliá-lo e apreciá-lo devidamente. E significa É preciso fazê-los enxergar a gama de desenvolver uma imagem favorável do território em que o produto se origina. possibilidades que o ambiente em que estão (KRUCKEN, 2009, p.22) inseridos oferece. Transformar o óbvio em algo novo e sofisticado. O processo inicial de uma Para que o casamento entre o artesanato e o design funcione é necessário coleção é a coleta de dados, experiências, que as interferências propostas sejam inseridas em todo o processo produtivo sensações e imagens. No projeto ASAS foi e não somente na finalização do produto, como embalagens e etiquetas. A trabalhado a valorização do território, a fim forma de agregar valor ao produto vai muito além disso, é preciso valorizar os de usufruir dos seus recursos. Cada artesão recursos locais, resgatar a cultura e a identidade do território envolvido. possuia um caderno de processos, preenchido a medida em que iam coletando essas Segundo Eduardo Barroso, “as características do território podem significar informações sobre o território em que vivem, oportunidades ou ameaças, vantagens ou restrições, cujo proveito ou sempre atentando aos detalhes. A tarefa superação dependerá da disposição e determinação de sua população.” não é simples, foi preciso trabalhar com os (BARROSO: 2009). Caberá ao artesão identificar essas características e filtrá-las. artesões essa mudança do olhar, da percepção Essa fase é de suma importância para a elaboração do projeto, de um conceito. de sentidos, fazê-los perceberem o inusitado, o diferente e o curioso. Através desse olhar é O design auxilia na padronização da linguagem aplicada, definição de conceitos, objetivos e diretrizes. E isso possível trabalhar diversas possibilidades. é importantíssimo para agregar valor ao produto. O estudo do tema, a pesquisa, as alternativas geradas para a concepção de um protótipo final, tudo isso é essencial para a diferenciação do produto no mercado. A tradução É importante também que a tomada de das imagens de elementos cotidianos, expressões e comportamentos em algo material, criativo e original é um decisões não esteja somente na mão de dos objetivos do design. E com visibilidade no mercado se torna eficiente o processo produtivo. Através desse artistas e/ou designers profissionais, pois é processo se adquire empoderamento, constroem-se parcerias, compartilha-se os resultados, e convergem-se fundamental a participação da comunidade e demandas locais e não-locais. sua inserção nesse ambiente, já que o objetivo é a aquisição da autonomia e a participação de todos durante todo o processo. 63
    • A visão de designer possibilita a capacidade de criar novos modelos de referência e de associar comestilos de vida de valores diversificados. Para que o consumidor reconheça o valor agregado ao pro-duto, em que muitas vezes a sua realidade foge completamente da realidade do território onde elefoi produzido, é de extrema importância que haja de forma eficiente a comunicação entre esses doismundos, através de marcas, embalagens, tags e outros. Essa mediação é necessária e envolve muitasensibilidade e responsabilidade. O consumidor busca informações que possibilitam identificar asqualidades do produto, sua história, os elementos culturais e sociais em que se encontram.O design encontra o tema da transição em direção à sustentabilidade, de modo potencialmente fértil. Écada vez mais evidente a necessidade de mudança de estilos de vida e dos modelos produtivos para reduziro impacto ambiental. (KRUCKEN, 2009, p.14)Não é possível pensar em artesanato sem pensar em sustentabilidade. No mundo de hoje é cada vezmais exigido essa transformação de comportamento, hábitos e modos de viver.“É muito bom ver que o que eu aprendi pode ser passado para frente.” (Mariane, aluna do projetoASAS). No projeto ASAS foi trabalhado o “compartilhar”, o grupo de artesões foi dividido em três,cada qual em uma oficina (corte e costura, encadernação e audiovisual). O objetivo era capacitarcada grupo em áreas diferentes, para que houvesse a troca de informações e experiências entre eles.Os alunos da oficina de costura ficaram resposáveis por costurarem em máquina a capa dos cadernosfeitos na oficina de encadernação, sendo que esses últimos encadernaram os “flipbooks” dos alunosda oficina de audiovisual, e assim por diante. Apesar das oficinas funcionarem no mesmo horárioe em lugares diferentes, impossibilitanto um aluno de participar de mais de uma oficina, tivemosmuita troca de experiências e um trabalho final coletivo, integrando dessa forma as três oficinas.O conhecimento adquirido durante o processo de conceitualização de um projeto, a execução dosprodutos, a troca de experiências durante a produção, pode e deve ser passado adiante. O projetoASAS tem como um dos objetivos transformar os artesões em multiplicadores. A partir disso, épossível criar uma rede de associação, objetivando a inserção social e a geração de renda. REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICAS BARROSO, Eduardo. A imagem gráfica de um território. Disponível em: <http://eduardobarroso.blogspot.com/2009/09/imagem-grafica-de-um- territorio.html/>. Acesso em: 20 de novembro de 2009. KRUCKEN, Lia. Design e território: valorização de identidades e produtos locais. São Paulo: Studio Nobel, 2009. LEON, Ethel. Design e artesanato: relações delicadas. In: Revista D’Art, 12o64 ed. São Paulo, 2005.territorio.html/>. Acesso em: 20 de novembro de 2009. 65
    • Leitura sociológica sobre a favela Canclini usa, em seu livro Culturas Híbridas um termo específico para definir tal disseminação cultural, ele a chama de “democracia audiovisual”. Nesse momento Canclini passa a fazer uma análise da memória histórica e uma crítica ao momento em que a cultura massiva e midiática (televisiva) passa a substituir a herança do passado e as interações públicas. Maria Lina Cheschim Nas favelas é preciso relevar que tal meio de desenvolvimento de conhecimentos é quase recente e ainda atua com máxima força. Levando em consideração a modernização tardia da América Latina (tópico também tratado no livro Culturas Híbridas), e os problemas na O projeto ASAS, realizado no Aglomerado da Serra durante 2009, fez com que renda dos moradores destes aglomerados, pode-se arriscar dizer que a comunidade e Universidade criassem laços de conhecimento e coletividade. Alunos supervalorização da cultura televisiva ainda é generalizada (fato que já universitários passaram a entender mais o sistema de relacionamentos que ocorre está em decadência na cidade formal). dentro das comunidades, e as aglomeradas (como são chamadas as artesãs do grupo ASAS) passaram a ter mais contato com certos conhecimentos que podem ser As favelas também são conhecidas no mundo inteiro por sua inicial adquiridos apenas dentro de centros de estudo. anomia, como são consideradas informais, a maioria dos governos tem dificuldade de manter o controle sobre a população aglomerada, ou seja, Este artigo procura explicar, em linguagem formal, o meio em que o projeto atua, não sabe quantos são, o que fazem ou onde moram. Logo, a dominação seu funcionamento, sua teia de relacionamentos, suas prioridades, etc. Fazendo, legítima, aquela que realmente ocorre no local, ou em suas sub-regiões é assim, com que outras pessoas possam, como os estudantes acima citados, sempre decidida tradicionalmente (de acordo com a “ordem do eterno”, o compreender melhor o cotidiano dessas comunidades. comodismo e/ou conformismo) ou carismaticamente (que vem da graça e do poder de conquista de alguma pessoa). A modernidade é conhecida por ser um tempo de desenvolvimento tecnológico, linear, burocrático e com poucas oportunidades, e é nesse momento do Neste momento é necessário ressaltar que a mídia televisiva exerce uma desenvolvimento que surgem os assentamentos informais de grupos, conhecidos dominação carismática sobre toda a população que atinge, cobrindo os como favelas. As favelas são dotadas de uma cultura própria e bastante peculiar, “vazios” deixados pelo desenvolvimento e pela falta de encaixe dessas uma verdadeira miscigenação de costumes e conhecimentos considerados misturas culturais anteriormente citadas (referência ao estudo de Flusser, “populares”. Grande parte desses conhecimentos vem da mídia televisiva. e sua terceira catástrofe, livro O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação, São Paulo, 2007). Tal meio de comunicação funciona basicamente como a “política de pão e circo” usada na Roma antiga para distrair os escravos. Como nenhum outro meio Ainda discorrendo sobre o comportamento dos moradores das favelas, é de comunicação, a televisão transmite uma cultura de rápida compreensão e necessário citar Michel de Certeau e seu livro A Invenção do Cotidiano. consideravelmente “leve”, para que os indivíduos esqueçam as condições em que Neste livro Certeau faz uma divisão entre instituições em geral, vivem e/ou trabalham. nomeando-as como “estratégicas”, e pessoas comuns não-produtoras, nomeando-as como “táticas”, dois conceitos-chave, nos quais todo o O tempo livre dos setores populares, coagidos pelo subemprego e pela deteriorização estudo sociológico sobre esses indivíduos se resume. salarial, é ainda menos livre por ter que preocupar-se com o segundo, ou terceiro trabalho, ou em procurá-los (CANCLINI, 1998, p. 288).66
    • Sem ter posses, a tática é caracterizada como ágil e flexívele se baseia na arte da improvisação para conseguir o quequer. Ela não depende de um fundo próprio, e sim docoletivo, e explora furos no sistema, se infiltrando, tomandoespaço, porém sem dominar. Misturando-se sutilmente aogrupo estratégico, a tática se torna quase imperceptível, eneste ponto configura-se grande parte de seu poder.Essa separação idealizada por Michel de Certeau tange outrofilósofo que não deve ser deixado de lado; Émile Durkheim(Durkheim apud OLIVEIRA et. al., 2007), é conhecidopor seus estudos sobre a Integração Social, e separa apopulação em dois modos de Pressão Social, ou seja, adominação de um grupo sobre um indivíduo. Primeiramentetemos a Solidariedade Social Mecânica, em que o indivíduose liga ao grupo através da semelhança e sofre pressão por“sair da linha” (referência imediata à tática). E em segundotemos a Solidariedade Social Orgânica, em que todos formamum único ser maior dentro do qual cada um exerce umafunção para que ele se mantenha “vivo”, o que pressiona osindivíduos desse grupo é o regimento do mesmo (referênciadireta à estratégia).Durkheim também define dois conceitos ainda muito atuais, o primeiro trata do modo pelo qual cada grupose traduz, se encherga, refletindo imediatamente a sociedade em que vive, a Representação Coletiva. A partirdesse conceito é fácil compreender a moda e o comportamento diferenciado deste grupo. O Segundo é aMobilidade Social, outro estudo que se divide em duas partes: Mobilidade Vertical, é aquela em que a pessoa cresceou cai socialmente , e a Mobilidade Horizontal, quando as pessoas mudam de cidade, por exemplo. Agora se faz necessária uma observação: dentro dos aglomerados, quase nãoAs favelas começaram, quase todas, a partir a Mobilidade Horizontal, pessoas que mudam para as cidades atrás existe mais fome ou frio. O senso de comunidade e de solidariedade dessasde Mobilidade Vertical, porém, ao chegarem lá, não conseguem melhorar de vida e se afundam cada vez mais pessoas deve ser notado, copiado, e aplaudido pela sociedade formal. Ona falta de oportunidades da sociedade Moderna/Pós-Moderna. número de pessoas passando por essas necessidades básicas fora das favelas é muito maior do que dentro delas. É em um ambiente como esse, de culturas variadas que se misturam e se modificam diante de um televisor, de grupos que se dividem de acordo com o modo que se veem, e de pessoas com alto nível de solidariedade, capazes de se infiltrar em qualquer espaço, que atua o projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Tal projeto, realizado por alunos e professores da Universidade FUMEC, visa promover um maior conhecimento artístico, estético, artesanal e cultural, resultando no desenvolvimento e na aplicação do design na vida dos alunos/moradores da favela. Assim, esses moradores podem passar a se representar de maneiras diferentes, inserindo-se melhor na sociedade formal e abrindo espaço para chegar à uma qualidade de vida razoável. A tentativa do projeto é de fazer com que o trabalho das artesãs envolvidas, e recém descobertas, possa representar a cultura miscigenada de onde vem, porém de forma melhorada. Utilizando aplicações variadas dos conhecimentos passados pelos alunos da Universidade FUMEC, o objetivo é que seus produtos alcancem algum destaque no mercado consumidor exigente das classes A e B, as quais não só podem consumir, mas procuram produtos com valor agregado. 69
    • Neste meio de coletividade foram criadas três oficinas, a de Costura e Bordado, a de Encadernação artesanal e a de Audiovisual, dentre as quais o grupo das aglomeradas se dividiu. A intenção deste momento foi de inter-relação, já que ninguém podia fazer duas, ou mais oficinas (que ocorriam no mesmo horário em locais diferentes da Escola Municipal Padre Guilherme Peters). Os alunos universitários propuseram que os conhecimentos adquiridos fossem passados entre os grupos, fora do horário de aula e que os produtos finais fossem produzidos pelas três oficinas em conjunto, reforçando a ideia de dependência e coletividade. Ao mesmo tempo, em outro dia da semana e outro horário, ocorria a Oficina de Criatividade, na qual a memória dos moradores dos aglomerados foi reavivada, facilitando a criação dos conceitos dos trabalhos finais. É necessário pontuar que a influência televisiva não foi ignorada por completo (uma vez que isso não é possível de ser feito), mas foi remanejada e redirecionada para seu melhor aproveitamento. Ainda nesse momento, foi trabalhada a relação dessas pessoas com os lojistas, e expositores. Deve-se considerar o modo como os moradores das favelas são capazes de se encaixar em ambientes variados, como eles aprendemCom este projeto é quase impossível não perceber a alternação de significados que ocorre rapidamente e como se relacionam com facilidade (tática).entre os alunos e os artesãos. É notável a interpretação diferenciada que ocorre sobre ummesmo signo, objeto ou aspecto. Isso, segundo Émile Durkheim (Durkheim apud OLIVEIRA Ao fim do processo, o grupo de artesãs no Aglomerado da Serra éet. al., 2007), é devido aos conhecimentos prévios da episteme (saber) misturados às perfeitamente capaz de seguir sozinho. O ponto de vista, tanto delas quantoexperiências estéticas (primeira sensação que se tem ao conhecer algo novo) de cada dos alunos e professores da Universidade FUMEC, mudou esteticamente,um dos grupos envolvidos, pessoas com o mesmo tipo de vivência enxergam o mundo de socialmente, coletivamente e de muitas outras maneiras. Foi um trabalhoforma semelhante, logo, para a realização do projeto, houve muita compreensão de todos muito gratificante para os três grupos, e de aprendizado imensurável.os lados (aglomeradas, alunos universitários e profissionais da área).A qualidade dos produtos e da organização do projeto é uma junção de todos osfatores sociais previamente citados. As culturas populares miscigenadas geram todo oconhecimento que as artesãs trazem. Esses conhecimentos foram aproveitados por inteiropelos alunos da FUMEC e aplicados diretamente em trabalhos e oficinas. Neste ponto sefaz necessária uma breve explicação da metodologia do projeto, para que o entendimentodo mesmo seja completo. REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICASO conceito projeto se baseia diretamente no empoderamento das aglomeradas como umgrupo. Para chegar lá foi necessário que os alunos se organizassem da mesma maneira, CANCLINI, Néstor Garcia Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1998.tomando, de certa forma, o controle e recorrendo à coordenação apenas em momentos degrandes indecisões e/ou problemas. O exemplo dado pelos alunos foi muito bem percebido e CERTAU, Michel. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.seguido pelas artesãs que, por sua vez, passaram a procurar cada vez menos os alunos para aresolução de questões básicas. OLIVEIRA, Maria Gardênia Monteiro; BARBOSA, Maria Lígia de Oliveira; QUINTANEIRO, Tânia. Um toque de clássicos. UFMG, 2007. BERGER, Peter Ludwig. Perspectiva sociológica: uma visão humanística. Vozes: Petrópolis, 1998. FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da70 comunicação. Cosac Naify: São Paulo, 2007. 71
    • Luxo aglomerado (...) a grande diferença entre abrigar e habitar vem do fato de que abrigar é da ordem do temporário do provisório, enquanto habitar é da Sílvia Pio ordem do durável e do permanente. (BERENSTEIN, 2003, p. 26) O seguinte artigo apresenta uma visão de uma não habitante do A construção dos barracos como abrigos faz relação com a Aglomerado da Serra que conceitua e dialoga com a relação entre a bricolagem, com o uso de materiais diversos e restos, com a captação estética arquitetônica da favela e a estética das roupas e do consumo de permanente desses materiais, com a atemporalidade e com a moda. Este texto analisa o consumo comparado a evolução dos produtos construção infinita. A bricolagem (BERENSTEIN, 2003, p.24), assim de luxo e seu direcionamento para a massa, mapeando então a lógica como o trabalho de “patchwork”, é de caráter provisório, estão sempre do consumo desses produtos pelos moradores do aglomerado. em alteração, tem apenas a intenção de abrigar um corpo, assim como as roupas. As favelas têm datada sua criação ainda no século passado, com a tentativa de tornar a capital, então Rio de Janeiro, uma cidade com mais As roupas são uma outra forma de se abrigar e de se mostrar ao características europeias, assim, com medidas extremas, a cidade foi externo. É através delas que somos classificados e identificados. esvaziada dos negros e pobres. A alternativa era ocupar os morros de Observou-se que ao contrário do que acontece com a construção dos difícil acesso e de improvável ocupação da monarquia e todos os seus barracos, nas roupas não existe constante mudança e nem constante servidores (ZALUAR, 2004, p. 07). construção, as roupas são extremamente bem acabadas sem sequer resquícios de emendas como no “patchwork”. Diferentemente do que aconteceu no Rio de Janeiro, o Aglomerado da Serra tem seu início com habitantes vindos do interior de Minas Gerais, As roupas e toda a composição da moda, em qualquer indivíduo, têm principalmente das cidades Rio Casca, Teófilo Otoni, Raul Soares e função de gerar identidade, de identificar, não só perante os outros Montes Claros, a procura de oportunidades na capital. As construções mas também a si mesmo. Determinados grupos são identificados a partir eram de caráter extremamente provisório e refletia a dificuldade desses da cor e estilo que se vestem, outros apenas por acessórios, isso ocorre novos moradores em se adaptar (URBEL, acesso em: 02/11/2009). em qualquer parte da cidade, na cidade formal e nos aglomerados. Analisando diretamente as construções, a maioria se encontra em obras Os jovens são mais bem identificados dessa forma, pois passam e sempre com um aglomerado de materiais ao redor, com a sensação pela transformação física e psicológica na fase da adolescência, de que está para ser mudado algo, ou que a mudança ainda está isso contribui ainda mais para a construção do “abrigo roupa” acontecendo. (BERENSTEIN, 2003 p.26). Nessa fase o abrigo o identifica e o classifica, e essa classificação é de extrema importância para a Paola Beresntein, em Estética da sua afirmação diante do resto da sociedade. A roupa então tem uma Ginga, classifica as construções função de proteção, quase se funde ao corpo, uma forma de escudo aos como “fragmentos” que são transtornos da adolescência. construídos com restos de materiais encontrados na cidade formal, chamaremos assim aquela parte da cidade que não é favela e nem aglomerado, que possui organização de construção e na construção. As primeiras casas do Aglomerado da Serra que foram construídas com folhas de zinco, tábua e papelão. Os barracos ou fragmentos, são transitórios, estão em constante mudança, sempre há uma nova parte a ser construída ou mudada, há sempre algo a ser melhorado. 73
    • marcas e mantinham um acesso de massa a esse produto. Os magazines são o melhor exemplo, pois fazem cópias de peças de luxo, com material de aparência similar ao original, porém com qualidade inferior. As camisas de futebol, tanto de times nacionais quanto de times internacionais, são peças garantidas nos armários de adolescentes e adultos do aglomerado. As crianças são marcadas pelo consumo de calçados de personagens de desenhos animados, mesmo que de material emborrachado, a presença de tal personagem garante a satisfação e a certeza de um consumo de produtos que são direcionados a um público de renda mais alta. O luxo, não sendo algo exclusivo das classes altas e dos poucos que concentram dinheiro, tornou real a vontade de pessoas de baixa renda de adquirir esses produtos e de usá-los de forma a se destacar em seu meio e também de se confundir em outros meios. Com certa democratização do luxo, alguns setores ficaram abalados com o questionamento sobre qual seria o valor agregado nos produtos que realmente os diferenciasse de outros e que justificasse seu valor. A valorização do feito a mão e de pequenas imperfeições nas peças que as caracterizam como exclusivas foram aderidas a esse mercado, o que não é bem aceito no mercado de massa, pois a produção em série impede tal detalhamento e o próprio consumidor não absorve essas imperfeições como valorização do produto, mas sim como defeito. Passando por todo o processo de popularização e democratização do luxo surge um novo tipo de estabelecimento, os grandes magazines (LIPOVETSKY, 2003, p. 16). Em meados do século XX, são os magazines os grandes responsáveis pela sofisticação da moda para a massa e da facilidade de compra. Criam então o sistema de crediário (JÚLIO, 2005, p.85), em que não é necessário o pagamento a vista; o parcelamento e o prazo nas compras deram acesso a uma maior parte da população de massa. Com os cartões de crédito dos magazines As roupas assim como a moda têm uma função de exibição muito além da função de abrigo. O exibicionismo com a roupa se dá na ostentação de modelos, cores, acessórios e principalmente de marcas. A marca, o nome da empresa, ou do estilista que vem estampado na etiqueta, é muito mais importante do que a roupa que sustenta aquela etiqueta (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p.43). E essa ostentação não se limita apenas a roupas, mas também a acessórios, e muitas vezes a acessórios menosprezados pelo uso do cotidiano, mas que quando agregado a uma marca tem seu valor disparado. As marcas, e principalmente o mercado de luxo que muitos não imaginam, são frequentes nas ladeiras e becos dos aglomerados. Muito antes de chegar aos aglomerados, o mercado de luxo teve alguns ajustes para atender a um público maior. Foi criado um segmento de semi luxo (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 45), seriam então segundas linhas das grandes marcas, porém com a mesma sofisticação de modelos, mas com material e acabamentos que não se encaixam ao mercado de luxo, ou até mesmo novas marcas que copiavam modelos de luxo das grandes74 75
    • A vaidade dentro do Aglomerado da Serra é nítida em qualquer esquina e em qualquer faixa etária. A forma como os barracos são feitos, e o ar de inacabado não se reflete no comportamento em relação ao vestuário. A perfeição e a vaidade nas roupas existem como uma forma de se autoafirmar dentro de um grupo, nesse caso um grande grupo, a cidade formal.a facilidade de compra cresce ainda mais. Os cartões não são mais exclusivos de cada magazine, pode se Georg Simmel, que afirmava já em 1923 que a moda tinha uma dupla função, a derealizar compras em qualquer loja, o limite dado a esse cartão é feito aleatoriamente, a princípio é dado um reunir ou de religar um grupo e de o separar ou de o distinguir, ao mesmo tempo, doslimite básico e de acordo com o fluxo de compra esse limite cresce, aumentando a quantidade das compras e a outros grupos sociais (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 119)facilidade do pagamento. Atualmente os grandes magazines oferecem também serviços financeiros, permitemque pequenos empréstimos sejam feitos através desse mesmo cartão. Essa necessidade de afirmar-se, e de mimetizar a cidade formal, muito pelo contrário, não é uma forma de negar a origem ou menosprezar o local onde vive.Com a abertura da aceitação desses cartões de créditos adquiridos nos magazines, a população dos aglomerados Há em um grande grupo de moradores dos aglomerados um grande orgulhoveriam ali uma nova forma de conseguir consumir o luxo. Todos os produtos que ficavam apenas no imaginário, de residir ali, principalmente nos moradores antigos, onde qualquer conversapassam a ser realidade. Produtos não apenas de moda, mas de necessidade básica, como eletrodomésticos e retorna ao passado e a história de como tudo aquilo nasceu e as dificuldades queeletrônicos, que são consumidos direto das lojas, e sempre com os melhores benefícios e aparência de produtos enfrentaram. Eles se orgulham e contribuem muito para a melhoria do local, tantonovos e de ótima qualidade. O valor nessas compras não limita a escolha do produto, lembrando sempre da física e psicológica, com apoio e incentivo de projetos sociais, projetos de capacitaçãofacilidade de crédito que surgiu. profissional, entre outros que contribuem para o crescimento de cada morador.Toda essa facilidade encontrada na compra de produtos eletrônicos e eletrodomésticos transfere-se tambémpara roupas e sapatos, não somente nos grandes magazines. Outras lojas também facilitam o pagamento,principalmente no setor de calçados. Dentro do aglomerado a forma que se veste e o calçado que se usaimporta, principalmente, no momento de se misturar na cidade formal. A vontade de consumir o luxo para os aglomerados não é tratada da mesma forma que para as outras classes. No aglomerado, o luxo e a ostentação (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 122) de marcas não é para se mostrar superior aos outros, o significado é de simples falta de identificação de sua origem. É uma maneira de se mimetizar na cidade formal, de se misturar à cidade e não ser classificado ou identificado como favelado. REFEFêNCIAS BIBLIOGRáFICAS BERENSTEIN, Paola. Estética da Ginga. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. GARDIN, Cibele. Sobre Têxteis e Subtextos. Trabalho de Conclusão de Curso. Rio de Janeiro: SENAI/Cetiquit, 2007. JÚLIO, Carlos Albert. A Arte da Estratégia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O Luxo Eterno. França: Editions Gallimard, 2003. URBEL. Histórico do Aglomerado da Serra. In: Portal Prefeitura de Belo Horizonte. Disponível em: http://portalpbh.pbh.gov.br Acesso em: 02/11/2009. ZALUAR, Alba; ALVITO, Marcos. Um Século de Favela. Rio de Janeiro:76 Editora FGV, 2004. 77
    • 04oficinas de capacitação
    • Encadernação Oficineiros: Lorena Marinho (texto) Maria Lina Cheschim Ser responsável por uma oficina no projeto ASAS foi mais que uma responsabilidade. Nunca lecionei na minha vida. Foi preciso aprender para ensinar. A pouca experiência que tinha com encadernação foi suficiente para que essa oficina caísse em minhas mãos, porém foi preciso correr atrás de materiais, aprender o que não sabia e o mais importante: aprender a ensinar. A princípio, minha oficina seria dividida em 3 etapas: encadernação, serigrafia e toy art de papel. Foi necessário montar um cronograma, pesquisar tipos diferentes de encadernação, fazer lista de materiais e criar um método para que tudo isso fosse passado para frente. Mas como definir a quantidade certa de materiais para que nada faltasse e nem fosse desperdiçado? Foi complicado, sentia que estava com uma grande responsabilidade em minhas mãos. No começo foi difícil, alunos e professores inexperientes, sobra de papel, de linha... A forma que encontrei para reutilizar esses materiais foi dando como dever de casa a criação de capas e aula 1: tipo cola e borboleta aula 3: tipo capa dura com tecido formatos inusitados. Alguns resultados ficaram bem interessantes. Começamos com uma apresentação básica sobre Este tipo de caderno exige muito cuidado e paciência Foi um começo gostoso, de descobertas e de aprendizagem. O primeiro dia no papéis, livros e criatividade na confecção de para que tenhamos certa qualidade. Foi uma aula aglomerado foi de apresentação das oficinas. Os responsáveis pelas três oficinas cadernos. Logo depois ensinamos as encadernações difícil. Colocamos os alunos para cortarem os papéis, o oferecidas (bordado e costura, audiovisual e encadernação), fariam uma breve mais simples, a com cola e a borboleta. tecido, o calandrado e prepararem todo o material que apresentação do conteúdo e no final haveria um lista a ser preenchida com a Posteriormente utilizamos a encadernação com usariam na confecção. Alguns hesitaram, alegando escolha que cada aluno faria. Me lembro que havia toda uma expectativa, será que cola na finalização dos “flipbooks” (oficina de não possuírem tais habilidades. Começamos então minha oficina foi bem recebida? Estarão eles interessados? A resposta foi positiva. audiovisual), porque um dos nossos objetivos era a a descobrir as habilidades de cada um. No final interação entre as três oficinas do projeto. estavam todos ajudando uns aos outros. Aprendemos Na semana seguinte começarmos as aulas com quatro alunos. A aula foi tranquila, o que a coletividade e a insistência são importantíssimas alunos interessados e um clima amigável. Ao longo da oficina tivemos variações aula 2: tipo japonesa para o nosso trabalho. O resultado foi razoável, mas de alunos, muitos vinham e iam, chegamos a ter oito alunos num mesmo dia. insistimos no treinamento fora da sala de aula. As aulas eram sempre práticas, e todos os dia confeccionávamos algum tipo de Com seis alunos, obtemos um resultado muito bom caderno. No decorrer das semanas fui percebendo que poderíamos focar mais nessa aula. A encadernação japonesa, fácil, porém aula 4: tipo costura exposta com tiras de nas encadernações, já que as meninas que participaram do ASAS no ano anterior sofisticada, chamou a atenção dos alunos. Fizemos couro ficariam responsáveis em transferir o conhecimento adquirido pela oficina de um caderninho com uma costura simples e outra serigrafia para os novos integrantes do projeto. Por causa dos feriados nossa carga em zig-zag. O resultado foi muito bom, tanto nos Aula bastante agitada, com oito alunos. Utilizamos horária foi prejudicada. A oficina agora seria apenas de encadernação, poderíamos executados em sala de aula quanto nos deveres de casa. tiras de couro de diferentes tipos e cores, escolhidas explorar outras costuras e focar na qualidade dos produtos. por eles. Os alunos gostaram muito deste modelo, devido a exposição da costura.80 81
    • aula 5: tipo costura exposta (ou copta)O interessante dessa encadernação foi que apósvários dias de treino os próprios alunos descobriram na confecção de protótipos e dos materiais para auma forma de finalizar a costura melhor do que a venda. A aula 5 foi importante para a familiarizaçãoensinada. Isso foi ótimo. A prática e a persistência os dos alunos com a costura, a mesma utilizada noslevaram à um resultado superior. Esse foi um exemplo cadernos da coleção passada e atual. Conseguimosde aula onde quem aprendeu foi o professor. aperfeiçoar o modelo e o acabamento. Tivemos umNas aulas seguintes ficamos por conta das exposições, resultado excelente.82 83
    • Bordado e costura Oficineiros: Silvia Pio Juliana Augusta de Lima Rocha (texto) Ensinar em uma oficina do projeto ASAS o que aprendemos na faculdade! Sabíamos que não seria fácil, afinal para lecionar professores passam anos estudando além de possuírem um certo dom. Já nós éramos três estudantes, cada uma com seu nível de prática e conhecimento o que facilitou bastante. Silvia, já estava prestes a se formar, fazendo seu Trabalho de Conclusão de Curso, Lilian já costurava, sempre fazia seus próprios trabalhos de faculdade. Já eu, Juliana, acho que era a que menos sabia de costura das três. Entretanto, ainda bem, ninguém viu essa diferença como uma dificuldade. Tivemos que estudar e trocar informações sobre o que iríamos ensinar. Já no início acabamos aprendendo bastante com as pesquisas. Entre erros e acertos em cronogramas e decisões, finalmente resolvemos que iríamos dividir a oficina em três. O início seria ensinar a trabalhar na máquina de costura, avaliando qualidade de acabamento e aprendendo dicas. Na segunda etapa aula 1: conhecendo o instrumento de trabalho aula 2: técnicas de costura, orientação sobre a modelagem seria ensinada, aprendendo a fazer um molde industrial e suas pontos e noções básicas de acabamento variações. Depois, a peça seria fechada e assim um produto estaria pronto. Em Começamos ensinado o básico. Como ligar a sua terceira e última etapa iríamos ensinar bordados diferenciados, detalhes máquina de costura, como passar a linha na agulha Nesta aula ensinamos técnicas de costura para focados em traços de linhas. Foi necessário montar um cronograma de datas e aprender a controlar a velocidade da máquina. facilitar a montagem de um produto. Dicas e prazos, pensar em o que pedir para as artesãs fazerem em casa, pesquisar Tendo como material o papel, as artesãs costuravam importantes também foram dadas para acabamento. tipos diferentes de bordados, mostrar trabalhos de artistas, fazer lista de o papel, desde a linha reta até curvas. Algumas Ensinamos alguns macetes usados por costureiras materiais e criar um método de como passar o nosso conhecimento para elas. com mais facilidade, já nessa aula, passaram a profissionais para que os produtos fiquem mais O começo até que foi mais fácil do que imaginávamos. Claro que tivemos costurar no tecido. Tentamos ao máximo igualar as bonitos. As meninas também aprenderam sobre os dificuldades, nunca tínhamos dado uma aula antes e, assim como nós, elas alunas em conhecimento e técnica. Em um segundo diferentes pontos de uma máquina de costura e também possuíam níveis de aprendizado diferentes. Algumas já costuravam momento, as artesãs aprenderam a trabalhar com quando usá-los. há anos, outras nunca tinham nem ligado uma máquina de costura. Mas com uma nova máquina, o overloque. Apesar de ser o tempo uma foi ajudando a outra e todas, inclusive nós, conseguiram bons um equipamento barulhento e rápido, as meninas resultados. tiveram facilidades. Tendo como dever de casa o treino na máquina, para aprender a controlá-la.84 85
    • aula 3: corte e costura – modelagem Em um segundo momento desta aula elas aprende- ram a fazer a variação dos moldes. Tendo o moldeA aula de modelagem esteve entre uma das aulas básico é possível modificar a gola, aumentar a manga,mais difíceis, pois a modelagem na confecção de um além de aprender a fazer a variação de tamanhos.produto é tudo. É preciso fazer o molde para depoispensar em cortar tecido e costurar, para finalmen- aula 5: entre pontoste ser transformado em um produto. Por isso todasas atenções eram necessárias nesse momento. As Neste momento entramos em outro ciclo das oficinas.meninas aprenderam a cortar um molde industrial, As meninas começaram a aprender a bordar pontosa visualizar o produto — neste caso uma camiseta diferentes. Mostramos peças de artistas e associaçõesbaby look e uma regata — no papel. Ainda nessa aula que trabalham o bordado de forma peculiar. Aindaaprenderam a cortar o molde no tecido, distinguindo nessa aula demos início à produção do mostruáriofrente e verso. pessoal. Em retalhos de tecidos as meninas apren- deram a fazer diversos pontos. Os deveres de casaaula 4: fechamento da peça e variações em primavam pela prática dos pontos. Assim, cada umacima do molde básico deveria bordar uma imagem. Elas também perce- beram que não é necessário a imagem estar todaCom o molde feito na aula passada, e já cortado no bordada para que o produto seja valorizado, pelotecido, no primeiro momento desta aula as artesãs contrário, os bordados eram sempre em detalhes paraaprenderam a fechar a peça. Pregar manga, arrumar a que tivesse um diferencial. As aulas de bordados segola, fazer a base. Sempre com as dicas de acaba- estenderam por mais dois dias.mento dadas em aulas anteriores. Terminado o ciclo de oficinas, a partir deste momen- to o nosso foco era colocar as aulas em prática. A confecção dos produtos era o principal dever de casa. Com exposição marcada, elas colocaram em prática todas as dicas dadas por nós e as que elas adquiriram com o tempo.86 87
    • Imagem e movimento Oficineiros: Aruan Mattos Lopes (texto) Ana C. Bahia As oficinas de imagem e movimento aconteceram durante todo o ano de 2009. A oficina foi inicialmente composta por 6 alunas entre 18 e 60 anos. Após as primeiras três aulas o número de alunas foi reduzido a 3 e assim se estabeleceu até o seu encerramento. aula 1: introdução à história da fotografia e aula 2, 3 e 4: trabalhos de campo, registros construção das câmeras Na segunda, terceira e quarta semana de aula Após o primeiro dia de apresentações dos oficineiros começaram os trabalhos de campo no Aglomerado e dos beneficiários, as aulas de imagem e movimento da Serra. Oficineiros e beneficiários percorrem por deram início com uma apresentação teórica diversas vias, becos, praças e casas na favela, afim de sobre a história da fotografia. Neste momento, foi provocar maior imersão no território. Foram realizados exposto o desenvolvimento da câmara escura e registros com as máquinas de pinhole desenvolvidas seus desdobramentos até se chegar à concepção na primeira aula, além de vídeos com câmeras de da máquina fotográfica. Em seguida foi proposta a mini-dv tradicionais. construção de câmeras fotográficas artesanais de pinhole com caixas de fósforos e bobinas de filme. As câmeras pinhole caracterizam-se pelos seus materiais ordinários e o não-uso de qualquer tipo de lente, utilizando-se apenas de um micro buraco de agulha para a entrada de luz em sua câmara escura.88 89
    • aula 5: atividade paralela(ofina na Casa do Baile)A sexta aula foi organizada no espaço cultural Casado Baile. Esta aula foi uma parceria organizada entreos projetos ASAS e 111 BH — Belo Horizonte peloBuraco da Agulha. Além dos beneficiários primeirosda oficina de imagem e movimento, compareceramainda os beneficiários das demais oficinas e diversos As fotografias em pinhole, por sua vez, compuseramalunos da Escola Municipal Padre Guilherme Peters. os chamados objetos-luminosos. Estas peças sãoNesta ocasião foi realizado oficina de pinhole com compostas pela ampliação e impressão das fotografiaslatas, caixas e papéis fotográficos. realizadas com as câmeras ordinárias. Em um segundo momento é encomendada a um técnico emNas duas semanas seguintes, foram selecionadas e maquetes a fabricação de caixas em papel calandradoeditadas as cenas para a produção dos “flipbooks”. com medidas específicas. As fotografias impressasAo fim, foram escolhidas três cenas que definiram são então dispostas nestas caixas e ainda sãoos seus respectivos produtos finais. Neste montados circuitos de LED`s direcionais. A fabricaçãomomento foram preparados os arquivos finais para destes produtos foi realizada em todas as semanasimpressão. Os “flipbooks” foram finalizados com subsequentes até a montagem da exposição na Quinacapas e encadernações realizadas na oficina de Galeria, localizada no edifício Maletta no centro daencadernação. cidade de Belo Horizonte.90 91
    • Criatividade Oficineiros : Bruno Oliveira (texto) Ana C. Bahia A metodologia do projeto ASAS se estrutura a partir de um processo de capacitação múltiplo, que engloba não só o aprendizado e aprimoramento de técnicas (estamparia, costura, bordado e encadernação), mas também a formação criativa dos artesãos. Acredita-se que a autonomia real dos beneficiários e de seus grupos produtivos só pode ser alcançada por meio deste empoderamento conjunto (técnico e criativo), além do desenvolvimento do capital humano, da ampliação do repertório dos artesãos e da valorização de novas formas de se perceber a próprio entorno e o trabalho coletivo e colaborativo como potências de construção de novas realidades. alternativas para a utilização das estampas: Para a segunda coleção ASAS_aglomeradas, tomou-se como ponto de camadas de cores e imagens sobrepostas, redes partida o território. Durante as oficinas de criatividade, diversas atividades de nós e ligações entre palavras e desenhos. foram propostas para elaborar discussões sobre as relações territoriais Comprovando sua autonomia criativa, o grupo construídas no cotidiano da favela, além de aulas teóricas de história da de beneficiárias inaugurou, para a equipe de aula 2: frotagem arte, teoria da forma e cor, entre outras. Valorizando dinâmicas de trabalho oficineiros, um novo parâmetro para o processo de coletivas e processos criativos colaborativos, os desenhos e estampas foram capacitação: o empoderamento criativo e técnico A proposta desta aula foi discutir a forma como produzidos a várias mãos, buscando eliminar a autoria das imagens e não deve ser distanciado e os beneficiários devem os artesãos percebiam o próprio espaço cotidiano. incentivar a formação de um grupo produtivo mais coeso. ser incentivados a construir novas estratégias e Após terminar o mapa iniciado na aula anterior, os processos a partir da contaminação dos saberes. alunos foram incentivados a buscar texturas com O processo de criação das estampas desta coleção foi pautado pela giz de cera pela escola. Posteriormente, foram construção de diversos mapas coletivos em tecido e papel, em grandes aula 1: introdução ao processo criativo e incentivados a trabalhar de forma coletiva sobre as e pequenos formatos, com colagem, desenho, pintura e bordado. Para início do primeiro mapa coletivo (tecido) frotagens coletadas, criando novas formas a partir além do racionalismo cartesiano encontrado em mapas, os artesãos foram das texturas. incentivados a elaborar novos mapeamentos subjetivos, que lidassem com Durante a primeira aula houve uma breve outras territorialidades e estruturas invisíveis não contempladas em bases contextualização sobre metodologia criativa e sobre aula 3: cor e forma cartográficas comuns. Ao se trabalhar com essa construção colaborativa o caderno de processos, que os acompanharia por de narrativas coletivas, instituiu-se um processo de troca de experiências toda a oficina. Discutiu-se também com o grupo Nesta aula os beneficiários foram apresentados a territoriais e um entrelaçamento de percursos e histórias. de beneficiários a proposta de tema para a nova diversas referências (trabalhos de arte, design e coleção: Territórios. Limites, bordas e fronteiras vistas artesanato) e, por meio de análises das imagens Ao final do processo de capacitação proposto pelos oficineiros, as de outra forma: iniciou-se a construção de uma nova mostradas, discutiu-se teorias relativas à utilização beneficiárias desenvolveram uma série de estampas a partir de cartografias cartografia subjetiva associadas à experiência dos de cor e forma. Após a discussão, houve uma prática semânticas elaboradas durante o processo criativo. Os artesãos, em espaços da favela em um mapa desenhado, pintado sobre cor, com tintas (círculo cromático), e sobre continuidade às discussões construídas nas oficinas, propuseram novas e bordado coletivamente em tecido. forma, com recortes de papel.92 93
    • quais habitavam. Nesta aula também apresentamos aos beneficiários exemplos de uso da tipografia como imagem nas artes moderna e contemporânea. Após a teoria, um grande mapa do Aglomerado daaula 4: desenho Serra, composto por recortes de textos e texturas, foi construído coletivamente.Incentivados a trazer referências, desenhos enovas anotações no caderno de processos todas aula 6: história da arte e definição daas aulas, esta aula se iniciou com a apresentação cartela de cores da coleçãodos cadernos de cada um, discutindo ideias e a suautilização como estampa para a coleção. Neste dia Esta aula foi composta por uma aula teórica sobreos artesãos também tiveram uma prática de desenho a História da Arte dos séculos XX e XXI, discutindolivre, com discussão de referências ao final do dia. referências de cada período e estabelecendo relações com a produção contemporânea. Naaula 5: mapa semântico segunda parte da aula, houve uma conversa sobre mercado e público-alvo e as suas implicaçõesNesta aula introduzimos o conceito de “deriva”, sobre as definições de estampas e cartela de coreselaborado pelo Movimento Situacionista, que surgiu dos produtos. Finalmente, a partir das pesquisasna década de 60, na França — e a partir do qual realizadas pelos alunos em seus cadernos deos jovens da época propuseram aos cidadãos a processos, definiu-se a cartela de cores da coleção.construção coletiva dos espaços das cidades nas aula 7: definição das estampas Durante a última aula da oficina de criatividade os artesãos tomaram a frente do processo de criação das estampas e eles mesmos selecionaram, nos mapas e imagens construídas coletivamente, aquelas que seriam mais adequadas para a coleção com o tema Territórios. No final desta oficina os artesãos já tinham a arte-final das estampas da coleção prontas.94
    • 05desdobramentos
    • lançamento da coleção 2008 na loja de objetos de design Grampo mesa redonda design e inclusão social na Mostra de Design do Café com Letras setembro 2009 No dia 10 de setembro de 2009 fizemos uma mesa redonda Foram meses de preparação, dias de produção exaustiva, reuniões e mais sobre DESIGN E INCLUSÃO SOCIAL na Mostra de Design do reuniões nas quais o assunto era único: nossa primeira exposição. Café com Letras. Esta mesa redonda possuía o objetivo de apresentar e discutir os projetos de capacitação em artesanato Nosso primeiro contato com a loja de design Grampo, foi tímido. Após a e design e a importância política do designer nos processos coordenadora do projeto, Natacha Rena, entrar em contato com a Patrícia de reposicionamento social, utilizando processos sustentáveis Naves, uma das sócias da loja, explicando o projeto e pedindo o apoio, de geração de renda, dentro de um conceito amplo de design marcamos um primeiro encontro e levamos junto duas aglomeradas solidário. (Schirley e Suzana), e dois alunos da Universidade FUMEC (Lina e Bruno), para falarmos sobre a data de abertura da exposição, sobre a cara dos Mediação: Natacha Rena (Universidade FUMEC) produtos, dentre tantas outras coisas. Por alguns segundos duvidamos se conseguiríamos montar uma exposição que alcançasse o nível de Palestrante 1: Ana Maria Queiroz de Andrade (Imaginário qualidade da loja. Saímos desta primeira reunião super agitados e Pernambucano/UF Pernambuco) cheios de ideias para a exposição, mas, principalmente, preocupados em Palestrante 2: Gabriela Torres (FUMEC/Talentos do Brasil/BH) realizar uma produção no nível estético e qualitativo que a loja exigia dos Palestrante 3: Heloísa Crocco (Laboratório Piracema de Design/ produtos. Na nossa reunião seguinte com todos do grupo na Universidade Porto Alegre) e Fernando Maculan (A&M Arquitetura/BH) FUMEC, levamos uma retrospectiva da visita para o resto do grupo, fazendo com que todos participassem igualmente do processo, do pensamento Neste evento contamos com a participação das artesãs do ASAS e da conceitualização da exposição. Lá, lançaríamos nosso primeiro e também dos alunos da FUMEC envolvidos no projeto. catálogo. No ano anterior, em 2008, também em uma mesa sob a Como sempre, o encontro com nossos colegas universitários foi produtivo. curadoria da Professora Natacha Rena, tivemos a presença Ideias surgiram instantaneamente, e a montagem do evento daria certo dos designers Paula Dib e Eduardo Barroso, para tratar do tema com qualquer uma delas. Então, Natacha Rena sugeriu que o grupo DESIGN SOCIAL. pensasse uma proposta de exposição utilizando caixas desmontadas de papelão (um material barato e fácil de transportar), com estampas Site da Mostra de Design do Café com Letras: dos produtos na superfície das caixas; e daí empilharíamos estas caixas http://www.mostradedesign.com.br/ desordenadamente no espaço da loja Grampo, fazendo uma analogia ao crescimento desordenado da cidade informal. Todos concordaram, já que parte das nossas inspirações e referências, para auxiliar as aglomeradas na escolha dos temas e gerar iconografia dos produtos, era o próprio território e as características singulares da favela. Esta proposta se encaixou muito bem, tanto com o nosso conceito, quanto com o visual da loja. Depois dessa reunião trabalhamos muito para conseguirmos cumprir todos os prazos e tarefas: finalizar o catálogo, escrever os relatórios para a UNISOL e produzir a coleção, que seria lançada, com estoque para vendas. Decisões sobre o buffet tornou o grupo mais unido em um momento importantíssimo do projeto. A exposição estava marcada para sábado, dia 12 de setembro de 2008, e faríamos parte da programação sugerida pela Mostra de Design do Café com Letras. Foi quando, no dia 11 pela manhã, o buffet escolhido por nós nos ligou e cancelou o serviço.98 99
    • Com tudo pronto fomos montar a exposição. Passamos o dia na loja, colando caixas, tirando o plotter antigo da parede, decidindo encaixes, e reorganizando a loja. O dia pareceu leve, a montagem realizada em grupo foi agradável e produtiva. Logo estava tudo pronto para o dia seguinte. O dia 12 foi muito movimentado, além de receber tantos convidados, recebemos a visita do nosso avaliador da UNISOL, David. Primeiramente ele ficou observando tudo como um comprador comum da loja. Em seguida chamou nossos beneficiários/artesãos para uma conversa, da qual saiu satisfeito com as informações que obteve. Depois chegou a nossa vez: David se reuniu com grupo de alunos da FUMEC para conversar sobre o projeto. Conversamos com ele sobre a formação do nosso grupo, e de como nos relacionávamos. David nos revelou que de todos os grupos participantes do UNISOL, naquele momento, o nosso era o que tinha um grupo mais unido e os alunos mais empoderados e empolgados. Este foi um ponto forte na avaliação do ASAS como um todo, e uma maneira interessante de nos fazer entender que a forma aparentemente desorganizada Nossa reunião de trabalho semanal virou um caos absoluto. com que trabalhávamos era, na verdade, uma sintonia que gerava um Ligávamos para vários buffets da cidade tentando encontrar processo de harmonia no caos. algum que se dispusesse a nos atender. Por fim, na última hora conseguimos um novo bufett que nos atendeu Foi realmente um dia feliz. Além disto, vendemos muitos produtos e a perfeitamente. recepção do público foi bastante positiva. Por fim, a Grampo continua nossa parceira e nos apoiando, dando ideias quanto à melhor forma Nos dividimos em equipes, cada qual com uma função: de expor os produtos para que tenham visibilidade. Também nos dão alguns responsáveis pela produção do evento, outros pelo retorno sobre a qualidade de acabamento das peças, cartela de cor, etc. material gráfico, outros pela divulgação e acessoria de imprensa. Aproveitamos a oportunidade para registrar nossos agradecimentos à Patrícia e Manoela, proprietárias da Grampo, à Naiara, uma de suas Além de todo esse trabalho, estávamos esperando pela funcionárias que nos ajudou muito.Agradecemos também ao David, equipe da UNISOL, que viria nos avaliar um dia antes da nosso avaliador da UNISOL, que nos mostrou o quanto tudo tinha mais exposição — o que acabou acontecendo só no dia mesmo do qualidade do que pensávamos. Essas pessoas não só nos proporcionaram coquetel de lançamento da esposição. uma oportunidade considerável de produção, mas uma nova noção de autoconhecimento do grupo, incluindo a coordenação e os beneficiários. Bom, com o novo buffet contratado, toda a parte de divulgação e convite prontos, inclusive as caixas sendo estampadas só faltava, então, a montagem e nossa confiança de que tudo daria certo.100 101
    • exposição na Quina Galeria novembro 2009 A ideia da exposição de luminárias com imagens em “pinhole” dos artesãos do Aglomerado da Serra surgiu depois de um bate papo descontraído com Aruan Matos, designer gráfico, que nos apresentou o projeto ASAS. A exposição foi um sucesso e com isso conseguimos dar mais visibilidade ao trabalho que o projeto vem executando no aglomerado da Serra. A exposição trouxe mídia espontânea em jornais e blogs, divulgando e valorizando ainda mais o ASAS. A partir desta exposição a Quina Galeria iniciou uma parceria tornando-se um novo ponto de vendas para o ASAS e com isso novas encomendas de produtos foram feitas, promovendo ainda mais a inserssão do projeto no mercado consumidor. Para o segundo semestre de 2010 realizaremos nossa segunda exposição com o lançamento de uma nova coleção dando continuidade a essa nossa parceria, sendo uma forma bem bacana de poder ajudar e divulgar um trabalho tão interessante, e social enfatizando a verdadeira identidade de uma comunidade. Rodrigo Furtini Cardoso Artista plástico, Designer e Proprietário da Quina Galeria Ayrton Ribeiro de Mendonça Filho Designer e Proprietário da Quina Galeria Quina Galeria Ed. Maletta - Rua da Bahia, 1148, sobreloja 06, Centro, Belo Horizonte, MG www.flickr.com/quinagaleria www.twitter.com/quinagaleria102 103
    • palestra sobre o ASAS para um grupo de curadores do FORMING IDEAS março 2010 O projeto ASAS foi apresentado pela coordeanadora do projeto Natacha Rena e pelo assistente de coordenação Bruno Oliveira para um grupo de curadores ingleses que estiveram no Brasil em março de 2010. Financiados pelo Forming Ideas — Curatorial Development Programme —, que organiza debates sobre práticas contemporâneas em artesanato, formando uma rede internacional de parceiros. A visita do grupo ao Brasil trouxe alguns curadores que estão interessandos em novas práticas em artesanato e design, principalmente se tiverem uma interface com a arte contemporânea. Eles não estão interessados em artesanato tradicional e, portanto, o interesse maior foi conhecer projetos socialmente engajados e que cruza diversas disciplinas. A equipe de curadores que assitiram a palestra sobre o projeto ASAS no escritório A&M foi composta por: NN JONES DEIRDRE FIGUEIREDO KELDA SAVAGE MARTINA MARGETTS STEPHEN BEDDOE MICHELLE BOWEN YVONNA DEMCZYNSKA RICHARD EDWARDS MELANIE KIDD CHRISTINE LAWRY JACKIE LEE SARAH ROBERTS DAVID SINCLAIR104 105
    • oficina de pinhole no Festival Eletronika 2010 maio 2010 palestra no Oi Futuro sobre design, artesanato, criação coletiva e tecnologia social Natacha Rena (coordenadora do projeto), Bruno Oliveira e Aruan Mattos (alunos da Univerdidade FUMEC) e Shirley Maria Araújo e Suzana Marília Agenciamento de tecnologia social desenvolvida a partir dos Anjos Oliveira (aglomeradas) ministraram a oficina de pinhole na de projetos de pesquisa e extensão em artesanato e favela, no evento CIDADE ELETRONIKA que aconteceu em maio de 2010. design. Adota-se o conceito de design social no sentido de desenvolver processos criativos coletivos que incitem o trabalho A oficina teve o objetivo de construir percursos fotográficos no colaborativo, resultando na construção de objetos inventivos e Aglomerado da Serra possibilitando a profissionais e estudantes com fortes características da identidade local. É uma constante apreender tanto as técnicas de fotografar em pinhole (desde a nos projetos o foco na autonomia criativa e produtiva para que confecção da câmera com caixinha de fósforo até a revelação do filme e haja um real empoderamento das comunidades. impressão das fotos) quanto o espaço singular da favela através de uma visita guiada pelas aglomeradas. No primeiro dia houve uma aula teórica inicial sobre a história e conceitos básicos de fotografia, e sobre a dinâmica do processo de fotografia pinhole. Além da aula teórica, no primeiro dia também foram confeccionadas câmeras a partir de caixas de fósforo. No segundo dia foi realizada uma visita ao Aglomerado da Serra e, durante as caminhadas, os visitantes realizaram percursos fotográficos a partir de um mapa de becos e vielas do aglomerado. No terceiro dia os filmes foram levados para revelação e a impressão das fotografias em laserfilm que foram utilizadas na exposição final. No quarto dia todos se reuniram na Escola de Arquitetura da UFMG para desenhar coletivamente o mapa da favela que foi projetado na parede frontal de vidro com o auxílio de um retroprojetor. Ao mesmo tempo foram construídos os circuitos (led e bateria) que ficaram anexados às fotografias para serem fixadas no mapa, demarcando os percursos realizados.106 107
    • participação na série de documentários“Caminhos”realizada pela TAL (Televisão da América Latina) junho 2010 O ASAS participou da série de documentários “Caminhos”, realizada pela TAL, em junho de 2010 A TAL — Televisão da América Latina é uma organização social de interesse público, sem fins lucrativos, dedicada à produção e distribuição de conteúdos, que neste momento encontra- se empenhada em produzir uma série de 10 episódios para televisão, em parceria com o Governo Federal, através do Ministério da Cultura, voltados à apresentação de experiências positivas no campo da economia da cultura. Os programas têm por objetivo apresentar a área de cultura como ambiente de alta diversificação (segmentos e cadeias produtivas) e grande potencial gerador de emprego e renda e, neste sentido, uma plataforma de inclusão cidadã e alternativa de sobrevivência, especialmente para a juventude das classes C, D e E. A série de programas irá apresentar casos bem sucedidos que demonstrem resultados na transformação de vida dos indivíduos e grupos sociais deles participantes, protagonizados por personagens vindos das classes C, D e E que habitem em zonas de periferia das grandes cidades brasileiras. As áreas enfocadas são, prioritariamente, mas não exclusivamente, os segmentos de moda, artes visuais, artes cênicas, design, fotografia, audiovisual, cultura digital, animação, música e culinária. Buscando abordar experiências em Minas Gerais, o projeto ASAS ASAS – Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — foi Autor: Ice Band - Hudson Carlos selecionado por ser um ótimo exemplo de como trabalhar letra de RAP sobre o projeto geração de renda aliada à economia criativa. A equipe técnica ASAS composta especialmente Oh! Minas Gerais, passou uma semana em Belo Horizonte para realizar registros para o documentário da série suas riquezas são demais CAMINHOS (TAL). uai, vai e entrevistas com todos os envolvidos no projeto e quaisquer agentes que contribuam para o sucesso do empreendimento. além das montanhas artesanato solidário; aglomerado, serra dando asas às suas ideias, mostrando para o mundo a cultura da nossa terra FICHA TÉCNICA com parceria de pessoas que acreditam no sonho da periferia, Direção executiva: Malu Viana sem treta, Coordenação Programa Mais Cultura Audiovisual: Mário por entre caminhos e ruelas tortas Borgneth fomos abrindo nossas portas. Roteiro: Hilton Lacerda Demorô, já é, Diretor episódio ASAS: Wagner Morales pessoas, arte e alegria, parceria de pé porque artesanato solidário fortalece no salário. Junto com a arte a vida na periferia acontece na mais perfeita harmonia. Artesanato solidário, correria,108 é arte com alegria. 109
    • 06depoimentos
    • Gente, é demais! Vocês não tem noção da coisa. Sair em jornais, dar entrevistas,conhecerpessoas, discutir sobre design, viajar, fazer um documentário... Comunidade acorda emquanto é tempo, pois o tempo não vai esperar você! Até parece que estamos no ramo há muitotempo. É muito bom ser comparada com outros artistas. Sem saber, o que eu fazia já tinha O projeto foi ótimo com a parceria da FUMEC que me deu a capacidade de aprender mais e terum conceito. Neste ano estamos formando a rede ASAS. Isso vai tornar nossos produtos mais conhecimento. Aprendi a criar o meu próprio produto, pois aprendi a dar mais valor para o meusustentáveis e dar sustentabilidade aos participantes. Para o ano de 2011 quero estar em outro trabalho. O meu tema é o Aglomerado da Serra. Agradeço a Deus pelo conhecimento, paciênciapaís com a grife Aglomeradas dando workshops e fazendo exposições. O melhor foi receber a e sabedoria que ele tem me dado.notícia da premiação ao lado dos meus pais, foi demais! Também recebi propostas de trabalhopara formar outros grupos em outra cidade. Agradeço a Deus, a todos da Fumec, escolas e Suzana Marília dos Anjos Oliveiraparceiros pelo aprendizado. Quando estampo um tecido, é porque já fui estampada por ele.O projeto me trouxe um novo olhar dentro da perspectiva do design artesanal, ou seja, oartesanato que faço hoje tem outro conceito. Tornei-me uma pessoa mais ponderada econfiante. O mais interessante foi mesclar minhas atividades do Coletivo Criarte com o ASAS.Assim meus trabalhos foram tendo uma forma mais prática e objetiva. O melhor de tudo é quesurgiu novamente a vontade de voltar a estudar.Schirley Maria Araujo O trabalho desenvolvido pelas aglomeradas é muito importante para esta comunidade. A maneira como a arte e a criatividade são colocadas nas telas é muito interessante. Quando conheci as meninas não imaginei que fariam tanto sucesso. O trabalho de orientação dos professores da FUMEC é muito importante, e também algumas palestras. Comecei um trabalho voluntário com o grupo ainda um pouco lento, e pretendo poder ajudar mais. Acho importante que as pessoas que estão à frente do grupo, por serem mais antigas, tenham segurança e evitem desgastes desnecessários por situações que podem ser evitadas. Denise Rangel (voluntária)
    • Participar do Asas é muito gratificante! Especialmente no que tange a um projeto social de sucesso. No ASAS pude aprimorar meus conhecimentos sobre redes sociais, voluntariado educativo e cidadania. Contribui sobremaneira na minha formação de “coaching” social, pois já realizo várias atividades em diversas ONGS de Minas Gerais. Elisângela Maria de Jesus O Aglomeradas é uma realização. Sinto-me muito orgulhosa de participar de um projeto com tanta criatividade e beleza. Aprendi muito com a Shirley e Suzaninha, que são exemplos de força de vontade e de luta. Sou grata também aos professores da FUMEC que nos auxiliaram e auxiliam sempre e com tanto cuidado e zelo que nos faz admirá-los ainda mais. Marianne Souza StoklasaO que é este projeto o nome já diz: vamos Acho bom o projeto, mas tenho muito que aprender, poisvoar, subir, caminhar até o céu. Tenho pouco entrei agora. Com a renda da produção, quero podertempo no projeto, mas tenho a visão de um comprar minhas máquinas de costura.grande progresso. Uma grande bola de neveem que o projeto é a bola pequena e os nossos Fátima Rodrigues Froistrabalhos são a neve. Assim, vai chegar umahora em que a bola será enorme. É um grandeprazer trabalhar com os profissionais dosASAS. Amo de verdade fazer o que faço aquidentro. Obrigada ASAS_aglomeradas por medar a oportunidade de conhecer o projeto e aspessoas que dele participam.Marilene Porto Santos
    • 116 117 01 presentation [Survival Tactics], which was based on the gathering of action of transformation of the production processes in theA cluster of territories: design and academic extension extensive data about the ‘inventions’ - - the results of survival short-term. The expressive force shown by the products was Natacha Rena || Bruno Oliveira tactics and strategies - - of the residents of ‘Vila Ponta Porã’, the result of a work which revealed both the singularities of Natacha Rena holds a Bachelor of Architecture and Urbanism degree from EAUFMG, a Master a favela located on the downtown area of Belo Horizonte. each individual and the cross-pollination which results from of Architecture degree from the EAUFMG and a Ph. D. in Communication and Semiotics from PUC-SP. A catalog of products and objects was built, revealing the an intense collective work. Coordinator of special projects of COMUNA S.A. and of socio-environment projects of JA.CA. Professor of enormous creative potential of the common citizen, chiefly Design and Architecture, FUMEC University and EAUFMG. Coordinator of the ASAS project, which comprises when exposed to economically precarious situations. The With the support of FUMEC University and of FUNADESP 7 three extension projects and a scientific research project. intention was to draw a micro-cartography of the daily small it was developed, in 2007, an undergraduate research natacharena@gmail.com survival tactics of the ‘common men without distinction’: mentorship program - - Artesanato Urbano [Urban Bruno de Oliveira holds a Bachelor in Computer Science from the FUMEC University and is currently the particular ways of living and surviving found by these Craftwork] - - which mapped some important Brazilian art studying Fine Arts at UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). residents, which build a magical universe of ‘gambiarras’3 , and design capacity building programs. The main objective brunogomesoliveira@gmail.com making artifacts that touch the boundaries of art and design. was to make a full analysis of these projects, including their methodological conception and the sustainability The the extension project Sempre Savassi [Always Savassi], plan for the actions and products, the results of the project in which many craftsmen communities participated, (products), and the step concerning the placement of began in 2005, having as partners institutions such as the team in the market. The objective was to verify theIntroduction CDL 4 and SEBRAE5 ; the works were directed to craftwork effectiveness of the participation of the designers within and design training. During the delineation of an adequate the craftsmen communities, and to understand to whichThe project ‘Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra’ Latina/Latin America Television), among others. In the methodology, a demand for a more consistent research on extent the projects actually helped in the empowerment of(ASAS) [Solidary Craftwork at Aglomerado da Serra] is an end of this catalog we present detailed descriptions of issues such as the relationship between craftwork, art and their beneficiaries.initiative of the FUMEC University (Belo Horizonte/MG), the products of the two collections created by ASAS until design came forth, which resulted in the creation of thewhich began in 2007 under the coordination of professor the present moment: NATUREZA NA FAVELA [Nature at the concept of Urban Craftwork, its objective being to classify Beyond the activities related to scientific research andNatacha Rena. By means of developing projects in the area Favela] (2008) and TERRITÓRIOS [Territories] (2009). the products created by the beneficiaries of the project. extension, the undergraduate students have shown,of education, scientific research and extension programs, It is worth mentioning that the partnership with the program throughout the process of constitution of the project,the team of professors, technicians, students and volunteers Universidade Solidária [Solidary University] (UNISOL) and In the year of 2006, the project Artesanato Solidário no a yearning for an academic subject that could offer aof ASAS seeks the consolidation of income generating with Banco Real/Santander in the years of 2008 and 2009 Barreiro [Solidary Craftwork at ‘Barreiro’ – a neighborhood theoretical instrumentation with a critical approach to there-applicable social technologies able to perform in the has enabled a great improvement, not only due to the of Belo Horizonte] was conducted. Capacity training in art creation and conduction of projects in this area. This demandcontemporary perspective of the intersection between financial aid given, but in relation to the learning of an and design was directed to groups of senior citizens, aiming led to the creation of the optative subject ARTESANATOdesign and urban craftwork. specific methodology employed in the generation of social to improve the quality standards of the items already E DESIGN [Craftwork and Design], its attempt being to technology and the evaluation of projects focusing on produced by the residents. The proposal was the creation of instigate reflection on the relationship between design,This catalog presents the activities carried on by the team income generation and empowerment of the communities. a cushion collection; with the participation of many partner craftwork and art, building an up-to-date panorama of theof ‘projeto ASAS_aglomeradas’ throughout the years of institutions (the City Hall of Belo Horizonte; UNITEC – New main relevant Brazilian actions in this field. It is also one2009 and 2010 1. In total, more than 60 students of the four Zealand; ASTIB – Associação da Terceira Idade do Barreiro of the aims of this optative subject to train design studentsareas of the Design Course (Graphic, Interiors, Fashion and Record [Barreiro Association of Senior Citizens]; among others), to become professionals with an active potential to takeProduct) participated in the project, as scholarship holders a capacity building program - - which provided courses, part in craftwork empowerment and cultural managementor volunteers, helping with the technical and creative conferences, technical visits and workshops - - was offered programs with social character.empowerment of the craftsmen of ‘Aglomerado da Serra’, A theory is exactly like a box of tools. It has nothing to approximately 30 beneficiaries. A catalog containingin sewing, embroidery, image and movement, bookbinding to do with the signifier. It must be useful. It must the employed methodology and pictures of the cushions The activities of projeto ASAS_aglomeradas also began inand textiles printing. In parallel with the planning and function.(DELEUZE, 2004, p. 208) created by the craftsmen was launched after the conclusion 2007. As an acknowledgment of the work and of the socialconduction of these workshops, the students wrote the of the program6. relocation methodologies developed by FUMEC Universityarticles presented in this catalog, with the intention of Believing in the essential relationship between education, (through education, research and extension programs),consolidating the interface between the educational scientific research and extension programs, and in the In January and July of 2007, the team also took part on the the ASAS project was among the ten prize-winners ofinitiatives, scientific research and extension programs importance of the involvement of the universities with expeditions of ‘projeto RONDON’, organized by the Ministry the competition launched by Banco Real/Universidadepresented by ASAS. There will also be presented accounts of communities with a high level of social risk, we have of Defense. The intention was to developed, through varied Solidária, with the theme ‘Sustainable Development withthe activities carried on during the empowerment process, started, in 2003, a series of works with a more critical and actions in the towns of Assis Brasil and Jequitaí, a capacity emphasis in Income Generation’. The competition had 212as well as other events, such as design exhibitions (Grampo building program as a means of income generation for the projects enrolled. The prize of R$ 40,000.00 (forty thousandand Quina Gallery), shows (Café com Letras2 Design Show), political approach to art and design. The first work was the interdisciplinary research project Táticas de Sobrevivência communities, employing a specific methodology to the Brazilian Reais, which is equivalent to 23,353.57 U.S. Dollars 8)the filming of a documentary (TAL — Televisão da América
    • 118 119was an incentive for the implementation of a training plan e design [Development of Social Technology concerning the We believe that creation processes, when well structured, are The area and the communityof one year duration. In 2009, the partnership was revamped conduction of craftwork and design empowering projects] able to stimulate a sense of collectivity, bringing differente the ASAS project was given more R$ 40,000.00 to carry also began in 2010, with projeto ASAS_aglomeradas as its groups together and increasing the capacity of collaborative Residents of slums, while only 6 percent of the cityon with the activities and purchase new equipments for case study. This research aims to evaluate the methodology work. It is known that in those communities with a high level population of the developed countries, constitutethe textile printing workshop built at ‘Aglomerado da employed in the empowerment projects, mainly in the ‘ASAS_ of social vulnerability the development of a work of social a staggering 78.2 percent of urbanities in the least-Serra’. A first indexed catalog with articles written by the aglomeradas’, in order to create guidelines for the forthcoming integration is not an easy task, due to the social differences developed countries; this equals fully a third of theprofessors involved was launched, with the description projects. The aim of this research is to investigate the collective in force. Considering that there are no published - - or known global urban population. (DAVIS, 2006, p. 23)of the methodology employed, personal accounts of the and collaborative creation process, parting from the hypothesis - - methodologies regarding collective and collaborativestudents, staff members and empowered craftsmen, as well that it is possible to identify and list characteristics and processes concerning craftwork and design, we think thatas pictures of the products created in this first collection. procedures that can positively contribute to empower and it is the role of the university to register, organize, analyze The development of socio-environmental projects at ‘Aglomerado educate multipliers of the acquired knowledge. and gather data about these processes, so that new social da Serra’ is the proposal of one of the extension programsAt present, the ASAS project became a production and technologies directed to help the projects involving design prioritized by FUMEC University, mainly because it is locatedcreation network at ‘Aglomerado da Serra’ and has currently and income generation can be built. in an area next to the campus of the university. Therefore, thethree projects being conducted: ASAS_aglomeradas, which Principles choice of this site for the conduction of the program is part ofbegan in 2007, and has a complete textile printing workshop, Lastly, we believe that it is necessary to introduce new the academic strategy developed by our university researchand a team of craftsmen trained in textile printing, (...) in the last three centuries, the word ‘craft’ has ways to deal with design, so that new guidelines for the and extension management team.bookbinding and sewing; ASAS_meninas do cafezal, which changed its meaning; in the eighteenth century consolidation of the creation of an expanded field for thisbegan in the second semester of 2010, and is one of the particular way of making things but rather a way subject will appear, beyond the technicalities and the mass Once the choice was made - - the community of the groupproduction centers of the network, focusing on the creation production market, encouraging a type of development of doing things, especially in politics. In some of villages and favelas called Aglomerado da Serra9 - -of fashion items based on experimental pattern making, applications, (...) the phrase ‘the craft’ had (and still cross-pollinated by everyday life, art, architecture, the center of the action was at the district school ‘Escolasewing and embroidery, with two production centers: urbanism, which can exist in a more social and political retains) the meaning of power and secret knowledge . Municipal Padre Guilherme Peters10. The school, locatedgraphic production and pattern and fashion production; (DORMER, 1997, p.5) way, creating an environment for the beingness of a more at ‘Vila Novo São Lucas’, has been looking for partnershipsASAS_serra de bambu, with craftsmen trained in the committed and militant design: which will help its students to grasp new and different typesgrowing and handling of bamboo, as well as in the building We believe that craftwork is an activity with a high potential of knowledge and technologies, what would help them toof furniture and products from this material ‘in natura’. in the set of actions which motivate those creation policies Militancy today is a positive, constructive, and face the new educational and labor dynamics. It offers Pre-In the second semester of 2010 a new training season aimed to income generation and social inclusion. Design, innovative activity. This is the form in which we and all School and Elementary School classes, and also eveningbegan, aiming to put into effect a production network associated with craftwork, can be an strategic axis in those who revolt against the rule of capital recognize classes for adults (‘Educação de Jovens e Adultos’ (EJA)/that would include the three projects. We believe that this the development of the territories, empowering those ourselves as militants today. Militants resist imperial Youngsters and Adults Education). The students, which innew configuration will grant more visibility to the actions, communities in a social vulnerability state and promoting command in a creative way. In other words, resistance their majority are far from performing any kind of economicbroaden the market to the products and increase their added their creative and management autonomy. To encourage is linked immediately with a constitutive investment activity due to the lack of specific training, are being helpedvalue; moreover, it will lead to the diversification of the and conduct new collaborative productions in areas without in the biopolitical realm and to the formation by these partners to spread their wings.items and increase the number of craftsmen involved. ASAS previous culture of creation and production techniques of cooperative apparatuses of production andintends to carry out training programs directed towards the was, and still is, one of the major challenges of the project. community. Here is the strong novelty of militancy The project ‘Vila Viva’, created by the City Hall of Belotechnical and creative empowerment of the beneficiaries, Working with a broad concept of Social Design, and with the today: it repeats the virtues of insurrectional action Horizonte, considered one of the major Brazilian projects ofas well as workshops aiming to establish an integrated reasoning of the concept of Social Technology, a ‘creation of two hundred years of subversive experience, but at urbanization of favelas at present, proposes to urbanize theand sustainable process of planning, management and methodology’ has been developed, with the proposal of the same time it is linked to a new world, a world that set of villages by creating big paved access roads that willproduction of objects with a high added value, involving inciting collective and collaborative work, articulating knows no outside. It knows only an inside, a vital and directly link two areas of the city. Even if there is an investmentthe three centers. With students and professors of courses innovative processes that could lead to the construction ineluctable participation in the set of social structures, in order to increase the improvement of livelihoods of thelike Interior Design, Fashion Design, Graphic Design, of objects bearing strong local traits. The support to the with no possibility of transcending them. This inside is local population and its definite placement in the formalArchitecture, Environmental Engineering, Psychology, elaboration of products with a high added value appears in the productive cooperation of mass intellectuality and urban scenario, it would be necessary to ponder over the realBusiness Administration and Accounting Sciences, the parallel with the growth of a responsible consumer market, affective networks, the productivity of postmodern reason that prevents many village dwellers from enteringASAS team became truly multidisciplinary, what assures not which increasingly acknowledges the value of products with biopolitics. This militancy makes resistance into the labor market. Education for all and professional trainingonly a vast diversity of actions but also a richer and more contemporary aesthetic proposals, aligned with sustainable counterpower and makes rebellion into a project of should be the cornerstone of any social inclusion program.collaborative learning experience. design trends and, concomitantly, produced by local love. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 413) To merely offer better housing conditions (which actually is craftsman communities. a quite refutable statement when one looks at the type ofMoreover, the research Desenvolvimento de Tecnologia Social housing offered by the City Hall to those dwellers that werepara realização de projetos de capacitação em artesanato removed from their prior houses11) does not spontaneously
    • 120 121generate new labor conditions and fairer social dynamics. Objectives production, and which can contribute to the creation of the evaluation of processes and results became a majorThe area in which ‘Escola Municipal Padre Guilherme Peters’ methodologies and products. tool in directing the proposals for the actions to be carriedis located is quite far from the main urbanized spots, which through, being the ground for the decisions and confirming The territory, today, can be made of continuousindirectly determines lower investments in the school and As these capacity training processes which involve or not the effectiveness of such procedures. places or places in a network. They are, though, theconstruction works in its surroundings. This situation leads classroom practices and technical and creation workshops same localities which create the networks that createto an unevenness of conditions among the dwellers of are the results of intense research, texts for indexed Among the main indicators of ASAS, one is the autonomy the ordinary space. They are the same localities, the‘Aglomerado da Serra’, emphasizing even more the issues publications are written, in which the students were of beneficiaries and students, promoted through actions same spots, but they have, simultaneously, differentregarding unemployment, violence and social exclusion. encouraged to think over and research important subject- which aim to the consolidation of groups in a collective and functioning, perhaps diverging and opposite. This matters for the universe of contemporary design and, collaborative fashion. The autonomy of the beneficiaries in simultaneous happening, made possible thanks to the ‘Aglomerado da Serra’ occupies a great area12 , what hinders mainly, which involve the creation of this ‘other’ design, relation to the creation process, production and contact with miracles brought by science, creates new solidarities:effective actions to be taken in all its extension – those able to transcend the industrial and positivist approach that customers and suppliers is as important as the training of an the possibility of a solidary happening, despite all theactions concerning combating the many violence foci and prevails in the academy, and which is also in an interface implementation team of pro-active students, willing to seize types of difference, among people, among places.the territorial disputes between drug-trafficking groups. with parameters of social responsibility, establishing bonds the structures and practices of the ASAS project. From the (SANTOS, 1994)14The emphasis of the proposal in district schools, starting with the community, and connecting, in an intensive way, acknowledgment of individual potentialities, the proposal iswith a pilot plan in a specific school, places the action in education, research and extension activities. to set up multiple groups, capable of empowering each other The general objective of the project is built from thea fertile soil: the youngsters. The lack of infrastructure, both by unfolding and sharing the acquired knowledge and development of re-applicable social technologies which,material assets and human capital at the district schools is The subject-matters approached during the capacity building by the collective authorship trait of the items created. according to Lassance & Pedreira (2004), can be definedstill a great obstacle for the support of projects of economic processes led to a good performance in field activities, and as a “set of technics and procedures, associated with typesintegration and professional empowerment adequate to among them, the conduction of collective work with focus on Other relevant indicator detected throughout the conduction of collective organization which represent solutions forthe social reality and the present demands of the consumer collaborative actions was distinguished, culminating in an of the project was the increasing in the improvement of social inclusion and increase in the standard of living15.”and service rendering markets. This is the reason why organized and productive process and also in the awareness- livelihoods of both direct and contingent beneficiaries, Based on the intersection between education, academicpartnerships with universities can help, and a lot, in the raising, among craftsmen and scholarship holders, about the first, those who participated in the workshops, and research and extension programs in social design, andimplementation of extension projects that will actually bear the importance of this kind of working dynamics (both in the the latter their relatives, friends and the other members seeking to promote sustainable creative and productionfruit, even in the short-term. creation and production processes as in the management of the community. The references were: the quality of the autonomy in the involved communities, such technologies and planning ones). Such subject-matters also reassured products (according to the evaluation of the shopkeepers consolidate the methodology employed in the project andIn the latest ‘Prova Brasil’13 survey, the socioeconomic index the relevance of the empowerment of craftsmen and of the and beneficiaries themselves, regarding the finishing and propel discussions which supplement academic policies forof ‘Aglomerado da Serra’ scored 1.1 on a scale of 1 to 5. students themselves; the results were more dynamic and the product as a whole); the broadening of the creation actions coupled with the need of a real empowerment ofTherewith, another reason for choosing the district school democratic research and creation processes, which are also repertoire and of a critical regard upon it; promotion of the the beneficiaries. Moreover, they request a large number‘Escola Municipal Padre Guilherme Peters’ was due to the fact more innovative in regard to the perception of the subjective project and, finally, the consolidation of new partnerships of students trained to act in a more collaborative and lessthat, among all the schools of Belo Horizonte, it was one of the territories of the favela (informal city) and of the formal city that will ensure the continuation of the training processes. authorial way, enabling a paradigm shift in the academictwo schools with the lowest scores, revealing a great need to as a whole. These discussions were useful not only for the milieu.have its infrastructure improved and also to establish external creation of the themes for the collections but also for thepartnerships to complement the educational process and answer There is a great need for the development of theoretical collective learning experience, in the sense of how we relate Methodologyto those demands that the school, alone, cannot fulfill to these territories, rarely experienced and unknown to guidelines that can steer the actions in the direction those who live and dwell in the formal city. This definition, which seeks sustainable development, of acknowledging the value of the cultural identity of local groups and communities, beyond the economic stands in opposition to the dominant model of empowerment in itself, thus enhancing the creation of a development, which promotes the merging of cultural identity compatible with both the territory and the Indicators and evaluation of the results enterprises, the concentration of capital and wealth, period of time in which the artifact is produced. It is part the increase in social inequality, social exclusion, To conclude, it is fundamental to point out that evaluation urban segregation, (…) Inequality was not reduced of the methodological axis to add value to the products indicators constitute a very important facet in the delineation even in the periods of economic growth.(...) we want by gathering information that will nurture the creation of of the methodology employed by ASAS. They were always a development that benefits the great majority of the iconographies which represent, in the products, the locality present in the relationship established with the UNISOL/ population; we want a development with distribution and the culture of the specific communities where they are SANTANDER team during the following of the activities of of wealth; we want a development as a project which made. In order for this to happen, we conducted, throughout the ASAS_aglomeradas project in the years of 2008 and identifies itself with the needs of the people, and the whole process, researches on design, craftwork, contemporary art and other manifestations of craftwork and design training 2009. Irrevocably merged with the timetable of activities, which is supported by them. (BAVA, 2004) 16 17 the continuous elaboration of indicators as parameters for which are regarded as parameters of local and international
    • 122 123The training process of the team is a cornerstone of the The implementation team of the project was constantly exists, one needs to be aware of the risk of establishing power according to the extent to which they are involved. It ismethodology employed, built in a continuous process, guided by the idea of motivating collaborative actions relations - between the students, professors (designers) under this awareness, shared by all the actors involved inthroughout the whole duration of the project. During as a work alternative, and employed methodologies that and the craftsmen. It is important to understand that a work the process, that the ASAS project is being carried through.the weekly meetings the discussions ranged from issues stimulate collective authorship. It was noted that, in an which involves people coming from different social realities Institutional partners like UNISOL/SANTANDER, ‘Escolarelated to everyday life problems to the theoretical basis indirect way, these collaborative practices, by reassuring - - with wealth and income disparities - - must create an Municipal Pe. Guilherme Peters’, FUMEC University, the Cityof the proposal, and about how to contextualize the the local identity, reinforced the concept of a ‘group’, and environment in which knowledge and life experiences are Hall of Belo Horizonte, retail shops like Grampo, Quina Artactions carried through during the project. The sharing of that this identity, even being a crossbred and multifaceted shared. We believe in the ‘invention potency’ that is latent Gallery or Café com Letras, and ready-to-wear labels likeexperiences, information and references throughout these one, is an auxiliary in the consolidation of a more cohesive in those relationships generated by the friction between ‘Raíz da Terra’, students, professors and the communityprocesses consolidated guidelines for the actions (regarding creative and productive team. From the usage of such scholarly knowledge and common sense. Although it is members involved in the project: all of them profit fromeducation, the building of collectivity, the proposal for experimental methodologies, it has become evident the difficult to evaluate many of the positive results in the this sharing process, which must be balanced and generatethe management of the group at the favela, the events importance of creating new ‘invention strategies’ to the collective, social and subjective arenas, it is a fact that ‘benefits’ to all sides - not exclusively in the capitalistcarried on, etc.), enabling distinguished relationships and design and craftwork capacity building projects, both they also need to be mapped and added up to the positive usage of the word, but in a broader sense, including humanproposals to be established. The coordinators, though, must for the students (who need to work collectively and think qualitative results of the projects. solidarity and generosity, within a movement of translation,be aware of their limits, observing carefully when to hold over action strategies for the project as a whole), and for invention and formulation of social technology. The aim, byfast and when to let the students - - among and with the the beneficiaries (who need to understand the necessity of The main objective of this type of project conducted by ASAS promoting the encounter of institutions, professionals andcommunity - - make their decisions and lead the activities. working collectively and the potentialities that this kind of is also to establish a non-hierarchical sharing network, and people from diverse social and cultural backgrounds, is toA blurring boundary, indeed, and, for the professors, it is work can bring on for the initiative). to acknowledge that all those involved learn and broaden generate actions that configure themselves as a biopotency,extremely difficult not to trespass it; the majority of the their perspectives throughout the experiences. In these resisting those biopower mechanisms established by theparticipants was educated in the conventional education extension programs, awareness concerning political actions perverse relationships of contemporary capitalism, even insystem, usually marked by the centralization of the Conclusion must be constantly evoked, in order to prevent the conscious those situations – like the ASAS project - involving partnersdecisions and by strong hierarchical relationships. The construction of social technologies to happen only on that are clearly representatives of the Capital, since all thecoordinators, having assumed this role of supervision and Lastly, we believe that it is necessary to introduce new technical and bureaucratic levels, which, with regard to participants benefit from this situation. A new model ofguidance, allowed a greater autonomy and involvement of ways to deal with design, so that new guidelines for the academic structures, is an evident risk. creative militancy, another design.the students, the latter thus being able to participate, in consolidation of the creation of an expanded field for thisa more direct way, in the training of the craftsmen at the academic subject, beyond market technicalities and mass Some movements, initiatives and campaigns gather All and every one ‘invent’, in the social density of thefavela, proposing guidelines and delineating strategies for production, encouraging a development that is cross- around the principle of equality, others around city, in conversations, in the habits, in leisure momentsthe project itself. In this way it is possible to assemble an pollinated by everyday life, art, architecture, urbanism, and the difference principle. Translation theory is the – new desires and new beliefs, new associations andattentive and participating group of students, distinguished which can exist in a more social and political way. procedure by which mutual intelligibility is fostered. new collaborative ways. (…) All and every one, andby responsible and efficient initiatives for the progress of To render mutually intelligible means to identify what not only the wage-earning workers, possess thethe work towards the proposed goal. One of the important points to be understood is that, in social unites and is common to entities that are separate by ‘invention-power’, each brain-body is a value source, projects of this nature, utopias and idealized discourses, 18 their reciprocal differences. (SANTOS, B. S. S., 2006) each part of the network can become a vector ofIt is worth pointing out that, in order to train design although well-intentioned, are very difficult to be put into appreciation and self-appreciation. Therefore, whatundergraduate students to work in this interface with practice. Courage and perseverance are needed to face the According to Boaventura de Souza Santos, the construction comes to the surface, in an increasingly clearer way,craftwork, it is necessary to revise the manner in which they ubiquitous presence of the complexity brought forth by the of cosmopolitanism, which lay in the concept of translation, is the biopotency of the collective and the biopoliticalare stimulated throughout all their academic experience to encounter of lives with such different everyday dynamics. requires a mutual intelligibility, which is a prerequisite of richness of the crowd21.(PELBART, P. P., 2003, p.139)create authorial works. This idea must be diluted in projects The fact that a (ideal) project is carefully thought over, what the author calls “the internal, self-reflexive mix of thewith focus on collaborative management and creation, so i.e., its objectives, methodology employed, its timetable, is politics of equality and the politics of difference amongthat the students can experience, in practice, the difficulties no guarantee that effective results will come forth in the movements, initiatives, campaigns, networks.”19 (SANTOS,in working with other people in these processes, which aim short-term. The unexpected is a constant, a great amount of 2006, p.19820)to the develop negotiation strategies and to the sharing flexibility being thus necessary, and also the understandingof knowledge. This is, for the majority of the students of the need of re-inventing the processes, constantly Here the author is dealing with what he calls counter-participating in the project, both a novelty and a challenge: dealing with frustrations, and creating new situations for hegemonic struggle, which are Manifesto practices - orhaving as an objective to learn with the other, to share the new realities that appear. clear and unequivocal blueprints - of alliances that areexperiences, negotiate procedures so that new products can possible because they are based on common denominatorscome into existence; products that are the real consequence To conclude, we would like to say that, concerning university and common objectives; they are mobilizing because theyof a collective subjectivity, which is only possible by means extension projects, in which a daily relationship with a yield to a positive sum, i.e., because they grant specificof the daily clash of ideas among people with different community in a state of social vulnerability nearly always advantages to all those participating in the practicessocial, cultural and economic backgrounds.
    • 124 125ENDNOTES 11 The ‘Vila Viva’ project has not yet been concluded opõe-se ao modelo de desenvolvimento dominante, que BIBLIOGRAPHY and it is already possible to witness the gentrification of the promove a fusão de empresas, a concentração do capital area. Luxury residential condominiums are already being e da renda, o aumento da desigualdade social, a exclusão BAVA, Silvio Caccia. Tecnologia Social e Desenvolvimento1 The data concerning the activities related to planned and set up in huge blocks in the surroundings of social, a segregação urbana, (...). Mesmo nas épocas em Social. In: Tecnologia social – uma estratégia para oprojeto ASAS during the years of 2007 and 2008 can be ‘Aglomerado da Serra’. que houve crescimento, não se reduziu a desigualdade. desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro,found in: RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). (...) queremos um desenvolvimento que beneficie a grande 2004.Asas: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo 12 According information provided from URBEL maioria da população; queremos um desenvolvimentoHorizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura (Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte), the urban com distribuição de renda; queremos um desenvolvimento DAVIS, Mike. Planet of Slums. London: Verso, 2006.FEA—Universidade FUMEC, 2009. development corporation of the city , the total population of que seja um projeto identificado com as aspirações da Aglomerado da Serra, in 1999, was around 37.641 inhabitants, população e sustentado por ela. (BAVA, 2004, page 110). DELEUZE, Gilles. Desert Islands and Other texts (19532 Café com Letras is a restaurant and bookshop but according to data from the Social Development Office -1974). ed. D. Lapoujade and trans. M. Taormina, New York:which also holds art exhibitions, being an important place there were 45.920 dwellers; the local newspaper ‘Estado 18 Our translation. Original text in Portuguese: Semiotext(e), 2004.in the cultural scenario of Belo Horizonte. de Minas’ pointed out that the number of inhabitants was “Alguns movimentos, iniciativas e campanhas reúnem- actually around 160.000. se em torno do princípio da igualdade, outros em torno DORMER, Peter. The Salon de refuse. In: DORMER, P. (org.).3 ‘Gambiarra’ is a colloquial word in spoken do princípio da diferença. A teoria da tradução é o The Culture of Craft. NY: Manchester University Press, 1997.Brazilian Portuguese. The closest translation to English 13 ‘Prova Brasil’ is a diagnostic assestment system procedimento que possibilita a sua mutual inteligibilidade.would be ‘jerry-rig’, meaning a way to create or fix things that works on a large scale, developed by the National Tornar mutuamente inteligível significa identificar o que HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Empire. Cambridge &in an unconventional way, using whatever is at hand. It is Institute of Education Studies Anísio Teixeira. Its aim une e é comum a entidades que estão separadas pelas suas London: Harvard University Press, 2000.generally used as a noun. [Translator’s note] is to evaluate the quality of education offered by the diferenças recíprocas. (SANTOS, B. S. S., 2006, p.198) Brazilian educational system using standardized tests and LASSANCE JR, António E.; PEDREIRA, Juçara S. Tecnologias4 CDL – Câmara de Diretores Lojistas. Retailing and socioeconomic surveys. 19 In: Theory, Culture & Society, 2001. Nuestra sociais e políticas públicas. In: Tecnologia social – umaservice rendering trade association. America: Reinventing a Subaltern Paradigm of Recognition estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do 14 Our Translation. Original text in Portuguese: “O and Redistribution. Web. http://scholar.google.com/schola Brasil, Rio de Janeiro, 2004.5 SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e r?q=%22call+the+internal,+self-reflexive+mix+of+the+politiPequenas Empresas (Brazilian Service of Support for Micro de lugares em rede. São, todavia, os mesmos lugares que cs+of+equality%22 PELBART, Peter Pál. Vida Capital. Ensaios de biopolítica.and Small Enterprises). formam redes e que formam o espaço banal. São os mesmos São Paulo: Iluminuras, 2003. lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente 20 This is the reference for the passage in the6 RENA, Natacha (org). Coleção 9 + 1. Belo funcionalizações diferentes, quiçá divergentes e opostas. original text in Portuguese. In: A gramática do tempo. Para SANTOS, B. S. A gramática do tempo. Para uma novaHorizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura Esse acontecer simultâneo tornado possível graças uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006. The cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.FEA – FUMEC University, 2008. aos milagres da ciência, cria novas solidariedades: a english version was extracted from the link above. possibilidade de um acontecer solidário, malgrado todas as SANTOS, Milton. O retorno do território. In: SANTOS, Milton;7 FUNADESP - Fundação Nacional de formas de diferença, entre pessoas, entre lugares. (SANTOS, 21 Our translation. Original text in Portuguese: SOUZA, Maria Adélia de; SILVEIRA, Maria Laura. Território:Desenvolvimento do Ensino Superior Particular. Non-profit 1994, p.16) “Todos e qualquer um inventam, na densidade social da globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994civil foundation for the development of private Higher cidade, na conversa, nos costumes, no lazer – novos desejosEducation. 15 Our translation. Original text in Portuguese: “... e novas crenças, novas associações e novas formas de conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas cooperação. (…) Todos e qualquer um, e não apenas os8 According to Universal Currency Converter www. de organização coletiva, que representam soluções para a trabalhadores inseridos numa relação assalariada, detêmxe.com/ucc/, October of 2010. inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. LASSANCE a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, & PEDREIRA, 2004, page 66. cada parte da rede pode tornar-se vetor de valorização9 Placed in the south side of Belo Horizonte, in one e de autovalorização. Assim, o que vem à tona com cadaof the residential areas with higher purchase power of the 16 LASSANCE JÚNIOR, A. E.; PEDREIRA, J. S. vez maior clareza é a biopotência do coletivo e a riquezacity, where the FUMEC University is also located. “Tecnologias sociais e políticas públicas” In: Tecnologia biopolítica da multidão. (PELBART, P. P., 2003, p age 139) social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação10 Coronel Jorge Dário Street, no number. Area code Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004 .(CEP) 30240560. Bairro Novo São Lucas, Belo Horizonte,Minas Gerais. 17 Our translation. Original text in Portuguese: “Essa definição que busca o desenvolvimento sustentável
    • AGRADECIMENTOS Agnaldo Rocha, Aguinaldo de Paulo, Aruan Mattos, Ayrton Ribeiro de Mendonça Filho, Betina Flávia dos Anjos Oliveira, Bruno Alexandre dos Anjos Oliveira, Bruno Golgher, Camilo Martinez, Cassius Silva , Luiz Coelho de Souza, Cristina Provezano, Daniela Gontijo, Daniela Lemos Camelo, Débora Gonçalves, Débora Mattos, Edna Aparecida dos Santos, Edson Ermelino Lima, Elizete de Almeida, Eloisa Martins, Felipe Giffoni da Silva, Flávia Regaldo, Frederico Guimarães, Gabriel Zea, Gezane Costa, Gilberto Cabido, Igor Amorim Moraes, Igor Rios, Jansey Valdez de Lima , Joanna Sanglard, Jordan Sebastião de Paiva, Jorge Sebastião de Paiva, Juliana Myhra , Letinha Maria Schimit, Luana Anastácia Ananias, Lucas Bambozzi, Lucia Helena dos Santos, Manoela Beneti, Marcelo José Araujo, Márcia Libânio, Maria Helena Anastácio, Maria Lúcia Araújo, Maria Lucia Araújo, Marize Monteiro de Castro, Milton Pereira Araújo, Miriam Alves, Naiara Cristina de Jesus Silva, Naiara Faria, Neia Aparecida Miranda, Nuan Possolati Lopes, Otavio Pupo, Patrícia Faria, Patrícia Naves, Pedro Moraes, Prof. Alexandre Lopes, Prof. Alexandre Menezes, Prof. Antonio, Fernando Batista, Prof. Eduardo Martins, Prof. Eliseu de Rezende Santos, Prof. Flávio Lima, Prof. Flávio Negrão, Prof. Flavio Vignoli, Prof. Guilherme Guazzi, Prof. Osvaldo Manuel Corrêa, Prof. Rafael Neder, Prof. Stela Maris, Prof. Tadeu Sampaio, Prof. Antônio Fernando Batista dos Santos, Prof. Walter Alves, Prof.ª Guadalupe Machado Dias, Profª Adriana Tonani, Profª Ângela Souza Lima, Profª Cássia Macieira, Profª Gabriela Maria Torres, Profª Juliana Pontes, Profª Maria Fernanda Loureiro, Reinaldo Santana, Renato Baeta Sacramento, Rita Lessa Cardoso, Rodrigo Marra, Rogério Barbosa, Rogério Pio, Roseana dos Santos Sabem, Simone Moura, Tânia Porto, Vicente Esteve Franco, Wagner Morales, Walison Alves de Moura, Waldenor Barros Moraes Filho. Equipe Cedro Cachoeira Têxtil Festival Cidade Eletronika Gráfica Imagem Color Pastelaria Marília de Dirceu (buffet do coquetel de lançamento da coleção 2008)APOIO
    • anexo coleção territórios O grupo Aglomeradas surgiu em 2007, a partir de oficinas de capacitação do projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. O ASAS é uma atividade extensionista da Universidade FUMEC em que alunos, professores e artesãos do aglomerado visam criar uma rede produtiva e criativa que desenvolve produtos socioambientais dentro dos preceitos da economia solidária e da participação colaborativa. Os produtos da coleção territórios foram criados a partir de processos criativos de uma pesquisa realizada com referências iconográficas coletadas na favela. O valor agregado das peças produzidas em técnicas diversas (estampas, bordados e encadernação manual) fica evidente na complexidade das imagens produzidas para esta coleção, que reflete as bricolagens e a desordem labiríntica típicas da cidade informal. Constrói-se uma identidade híbrida e coletiva do grupo Aglomeradas. aglomeradas@projetoasas.org
    • JOgO AMEriCAnO tamanho 35cm X 45 cm (unidade) composição 100% CO peso 73,5 g (unidade) gUArdAnAPO tamanho 40 cm X 40 cm (unidade) composição 100% CO peso 36,2 g (unidade) POrtA COPOS tamanho 10 cm X 10 cm (unidade) composição 100% CO peso 8,65 g (unidade)
    • LEnçO composição 100% CO LEnçO grAndE tamanho 140cm X 40 cm peso 42,07g LEnçO PEqUEnO tamanho 70cm X 70 cm peso 32,71 gAvEntAL (com detalhes bordados à mão) tamanho 60 cm X 90 cm bolso 35cm X 45 cm alças 135 cm x 4 cm peso 373,24 g
    • ALMOFAdA (com detalhes bordados à mão) acabamento zíper de metal composição 100% CO ALMOFAdA PEqUEnA tamanho 45 cm X 45 cm espessura 4 cm peso 213,22 g ALMOFAdA grAndE tamanho 65 cm X 65 cm espessura 4 cm peso 325,49 g BOLSA (com detalhers bordados à mão) composição 100% CO forro 100% CO tamanho 100 cm X 100 cm peso 323,23 g
    • CAdErnO (encadernação artesanal com fio encerado; capa dura — papel calandrado revestido em tecido estampado) 65 folhas craft e sulfite / folhas internas estampadas peso A4 502,09 g peso A5 254,13 g peso A6 128,24 gEStOJO (com detalhes bordados à mão) composição 100% CO acabamento zíper de metal tamanho 24 cm X 24 cm / bolso com zíper (11,5 cm X 24 cm) / bolso aberto (12 cm x 16 cm) peso 52, 4 g BLOCO (encadernação em espiral transparente 0,2 cm x 9 cm, capa dura—papel calandrado) tamanho 24 cm X 24 cm espessura 1,5 cm peso 117,32 g
    • Este livro foi composto em DIN Schrift e Tetria LT.O miolo é impresso em papel Reciclato 90 g e papelOffset 120 g. A capa em papel Color Plus Pastel240 g com aplicação de relevo seco. impressão eacabamentos por Artes Gráficas Formato. tiragem:1000 exemplares.