Catálogo Territórios

1,699
-1

Published on

Catálogo de atividades do projeto ASAS em 2009/2010

Published in: Education
0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
1,699
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
10
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Catálogo Territórios

  1. 1. Natacha Rena (org.)Territórios aglomerados
  2. 2. http://projetoasas.orgNatacha Rena (org.)Territórios aglomerados Belo Horizonte (2010)
  3. 3. ReitoriaProf. Antônio Tomé LouresVice-reitoriaProf.ª Maria da Conceição RochaPró-reitoria de Ensino, Pesquisa e Extensão Gerência de projetos Diretoria de Desenvolvimento SustentávelProf. Eduardo Martins de Lima Daniela Lemos Maria Luiza Pinto e PaivaPró-reitoria de Planejamento e Administração Consultores voluntários e sociosfundadores Superintendência de Ação SocialProf. Eduardo Leopoldino de Andrade Prof. Dr. Waldenor Barros Moraes Filho Laura Regina Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de SouzaCoordenadoria Geral de Pesquisa Coordenação do Concurso Banco RealProf.ª Rúbia Carneiro Neves Universidade Solidária Eloísa MartinsCoordenadoria Geral de ExtensãoProf. Osvaldo Manoel CorrêaCoordenadora do setor de Relações InternacionaisProf.ª Astréia Soares BatistaAssessoria de Ensino de GraduaçãoProf. Luiz Antônio Melgaço Nunes Branco Professora coordenadora: Paulo Neves Rodrigues, Rafael Miranda Barbosa, Silvia Natacha Rena Alves Ferreira Pio Martins, Rodrigo Franco MattarFACULDADE DE ENGENHARIA E ARQUITETURA - FEA Assistente de coordenação: ArtesãosDiretor Geral Bruno Elias Gomes de Oliveira Adson Luiz QuevedoProf. Luiz de Lacerda Júnior Adrielle Silva Técnicos: Etelvina Xavier de AlmeidaDiretor de Ensino Éder Jorge Almeida Eva SouzaProf. Lúcio Flávio Nunes Moreira Éder Peixoto Fátima Rodrigues Frois Emanuel Lucas Ferreira Ribeiro Maria do Carmo da RochaDiretor Administrativo Financeiro Maria Crisóstomo Ramos Maria ElizabethProf. Fernando Antônio Lopes Reis Maria Inês Rios Marianne Souza Stoklasa Cláudia Aparecida Teixeira Marilene Porto SantosCoordenador do setor editorial FEA-FUMEC Shirley Maria AraújoProf. Antônio Pertence Júnior Estudantes: Suzana Marília dos Anjos Oliveira Alessandra Luísa Teixeira Santos, André SantosCoordenadora Geral do Curso de Design de Oliveira, Ana C. Bahia, Aruan Mattos, Bruno Parceiros do projeto ASAS:Prof.ª Ângela Souza Lima Elias Gomes de Oliveira, Carolina Medeiros, Universidade FUMEC Cristiana Santos, Fernanda Hott, Julia de Assis Raiz da TerraCoordenadores por Habilitação Barbosa Soares, Juliana Augusta de Lima Rocha, Loja GrampoD.Gráfico | Prof. Guilherme Guazzi Rodrigues Larissa Oliveira Duarte, Maria Lina Ceschim, Quina GaleriaD.Interiores | Prof.ª Maria Fernanda Loureiro Nayara Rodrigues Santos, Larissa Duarte, Lilian Café com LetrasD.Produto | Prof. Eliseu de Rezende Santos Gustini, Lorena Marinho, Marcela Amorim Torres, Escola Municipal Padre Guilherme PetersD.Moda | Prof.ª Gabriela Maria Torres
  4. 4. PROJETO CATÁLOGO TERRITÓRIOS AGLOMERADOST327 CoordenaçãoTerritórios aglomerados / Organizadora Natacha Rena. Belo Horizonte: Prof.ª Juliana Pontes RibeiroEd. FUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010. Direção de arte144 p.: il. (fotografias e grafismos). Ana C. BahiaVários autores. Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro Prof.ª Natacha RenaISBN 978-85-61258-12-2. Design/Projeto gráfico Ana C. Bahia1. Design social. 2. Artesanato urbano. 3. Tecnologia social. 4. Artesanatosolidário. 5. Criação colaborativa. I. Rena, Natacha. II. Título. Fotografias Ana C. BahiaCDD: 745 Juliana AugustaCDU: 745.2 Silvia Pio Bruno OliveiraInformação bibliográfica conforme a NBR 6023:2002 da Associação Nayana RodriguesBrasileira de Normas Técnicas (ABNT): Júlia de AssisRENA, Natacha (Org.). Territórios aglomerados. Belo Horizonte: Ed. Revisão de textosFUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010. 144 p.: il. ISBN Maria Clara Xavier978-85-61258-12-2. Tradução Laura Torres
  5. 5. sumário01 apresentação p.1201 presentation p.11602 instituições parceiras p. 2603 design e inclusão social p. 3604 oficinas de capacitação p.7805 desdobramentos p.9606 depoimentos p.110anexo coleção territórios
  6. 6. 01apresentação
  7. 7. HistóricoTerritórios aglomerados: design e extensão universitária Natacha Rena || Bruno Oliveira É isso, uma teoria é exatamente como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o signifi- Natacha Rena é graduada em Arquitetura e Urbanismo cante. É preciso que sirva, é preciso que funcione. (DELEUZE, 2006, p. 267) pela EAUFMG, mestre em Arquitetura pela EAUFMG e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC SP. Coordenadora de projetos Acreditando-se na relação essencial entre ensino, pesquisa e extensão, e na importância especiais da COMUNA S.A. e de projetos socioambientais do JA.CA. Professora dos cursos de Design e Arquitetura da Universidade do envolvimento das universidades com comunidades com alto índice de vulnerabilidade FUMEC e da EAUFMG. Coordenadora do programa ASAS que social é que demos início em 2003 a uma série de trabalhos com abordagens mais críticas e engloba três projetos de extensão e um de pesquisa. políticas do design e da arte. O primeiro trabalho desenvolvido foi o projeto interdisciplinar natacharena@gmail.com de pesquisa Táticas de Sobrevivência, que baseou-se em um vasto levantamento de inventos — resultados das táticas e estratégias de sobrevivência — dos moradores da Vila Ponta Porã, Bruno Oliveira é graduado em Ciência da Computação pela FUMEC e graduando do curso de Artes Plásticas (UEMG). favela pertencente à região central da cidade de Belo Horizonte. Construímos um catálogo de brunogomesoliveira@gmail.com objetos e produtos do cotidiano que revelaram o enorme potencial criativo do cidadão comum, principalmente quando exposto a situações de precariedade econômica. A intenção foi traçar Introdução uma microcartografia de pequenas táticas de sobrevivência no cotidiano de “homens comuns e sem qualidades”: documentou-se as formas particulares de habitar e sobreviver desses moradores, que constroem um universo mágico de “gambiarras” produzindo artefatos que O Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra (ASAS) é uma iniciativa da Universidade esbarram nos limites da arte e do design. FUMEC (Belo Horizonte/MG) iniciada em 2007 sob a coordenação da professora Natacha Rena. Por intermédio do desenvolvimento de projetos nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, a Os trabalhos envolvendo capacitação em artesanato e design tiveram início em 2005 com equipe de professores, técnicos, alunos e voluntários do ASAS busca consolidar tecnologias o projeto de extensão intitulado Sempre Savassi, que, com a parceria de instituições como sociais reaplicáveis de geração de renda que atuem em uma perspectiva contemporânea da CDL e SEBRAE, envolveu diversas comunidades de artesãos. Durante a elaboração de uma intersecção entre design e artesanato urbano. metodologia adequada para realização desse projeto, surgiu a demanda do desenvolvimento de uma pesquisa conceitual mais consistente sobre questões como artesanato e suas relações Este catálogo apresenta as atividades da equipe no projeto ASAS_ com a arte e o design. Essa investigação resultou na criação do conceito de Artesanato Urbano, aglomeradas durante os anos de 2009 e 2010.1 Ao todo, mais de 60 alunos visando classificar os produtos que seriam elaborados pelos beneficiários. documentadas em outro livro: RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). das quatro habilitações do curso de Design (Gráfico, Interiores, Moda e ASAS: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora No ano de 2006 foi realizado o projeto Artesanato Solidário no Barreiro. A As atividades relacionadas ao projeto ASAS nos anos de 2007 e 2008 estão Produto) participaram do projeto como bolsistas ou voluntários, auxiliando Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA-Universidade FUMEC, 2009. na capacitação técnica e criativa dos artesãos moradores do Aglomerado capacitação em artesanato e design foi voltada para grupos de terceira idade, da Serra em costura, bordado, imagem e movimento, encadernação e no intuito de promover a melhoria da qualidade dos produtos artesanais já Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA – estamparia. Em paralelo ao desenvolvimento e execução de tais oficinas, desenvolvidos pelos núcleos produtivos existentes na região do Barreiro. A partir RENA, Natacha (org). Coleção 9 + 1. Belo Horizonte: os alunos elaboraram os artigos acadêmicos apresentados neste catálogo, da proposta de criação de uma coleção de almofadas e, contando com diversas 2 instituições parceiras (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte; UNITEC— Nova visando consolidar a interface das iniciativas de ensino, pesquisa e extensão envolvidas pelo ASAS. Também serão encontrados relatos das atividades Zelândia; ASTIB — Associação da Terceira Idade do Barreiro; entre outros), um realizadas durante o processo de capacitação, assim como outras ações plano de capacitação com aulas, palestras, visitas técnicas e oficinas foi oferecido 1 para aproximadamente 30 beneficiárias. Ao final da capacitação foi lançado um desenvolvidas, como as exposições (Grampo e Quina Galeria), mostras (Mostra de Design do Café com Letras), gravação de documentário (Televisão catálogo do projeto contendo a metodologia e as almofadas desenvolvidas.2 da América Latina), entre outras. Ao final deste catálogo apresentamos Universidade FUMEC, 2008. uma documentação com descrições detalhadas dos produtos da mais recente A equipe também participou, em janeiro e julho de 2007, de expedições do coleção desenvolvida pelo projeto: TERRITÓRIOS (2009). projeto RONDON, realizado pelo Ministério da Defesa. Por meio de diversas ações nas cidades de Assis Brasil e Jequitaí, buscou-se desenvolver um É importante ressaltar que a parceria com o programa Universidade processo de capacitação em artesanato como forma de geração de renda Solidária (UNISOL) e com o Banco Real/Santander nos anos de 2008 e 2009, para as comunidades, utilizando-se de metodologia específica para ação de possibilitou um grande avanço nas ações desenvolvidas, não somente por transformação dos processos produtivos em curto prazo. A força expressiva dos meio do auxílio financeiro, mas também através do aprendizado de uma produtos foi resultado de um trabalho que revelou tanto as singularidades de cada metodologia específica para geração de tecnologia social e avaliação de um dos artesãos quanto a contaminação mútua de um intenso trabalho coletivo. projetos, com foco na geração de renda e empoderamento de comunidades.14 15
  8. 8. técnico e criativo dos beneficiários, assim como oficinas que visem o estabelecimento de um processo integrado e sustentável de planejamento, gestão e produção de objetos com alto valor agregado entre os três núcleos. A equipe do ASAS se tornou verdadeiramente multidisciplinar e conta com alunos e professores dos cursos de Design de Interiores, Design de Moda, Design Gráfico, Arquitetura,Com o apoio da Universidade FUMEC e da FUNADESP, também foi desenvolvida, em 2007, a pesquisa Engenharia Ambiental, Psicologia, Administração e Ciências Contábeis,de iniciação científica Artesanato Urbano, com o qual pôde-se mapear alguns importantes projetos de o que garante uma maior diversidade de ações como também umcapacitação em artesanato e design no Brasil. O objetivo principal foi analisar os projetos da forma mais aprendizado mais rico e colaborativo.completa, desde a concepção metodológica e o plano de sustentabilidade das ações e produtos, passandopelos resultados da capacitação (produtos), até a etapa de inserção dos grupos produtivos no mercado, Além disto, iniciou-se também em 2010 a pesquisa Desenvolvimentobuscando verificar a eficácia da atuação dos designers junto às comunidades de artesãos e entender até que de Tecnologia Social para realização de projetos de capacitação emponto os projetos empoderavam realmente seus beneficiários. artesanato e design tendo o projeto ASAS_aglomeradas como estudo de caso. Esta pesquisa pretende avaliar a metodologia utilizada nosAlém da atuação em pesquisa e extensão, durante este processo de constituição de projetos, surgiu uma projetos de capacitação, principalmente no ASAS_aglomeradas, paraforte demanda por parte dos alunos da graduação por uma disciplina que pudesse oferecer um instrumental que se possa criar diretrizes para novos projetos. O objetivo destateórico contendo uma abordagem crítica na construção de projetos e desenvolvimento de projetos nesta área. pesquisa é investigar o processo criativo, coletivo e colaborativoCriou-se então a disciplina optativa Artesanato e design — visando instigar a reflexão teórica sobre a relação desenvolvido, e parte da hipótese de que é possível identificar e listarentre design, artesanato e arte, construindo um panorama atualizado sobre as principais ações brasileiras características e procedimentos que contribuam positivamente pararelevantes neste campo. Também tem sido objetivo desta disciplina preparar o aluno de design para que ele capacitar e formar multiplicadores do conhecimento adquirido.possa se tornar um profissional com potencial ativo para atuar em programas de capacitação em artesanato eem projetos de gestão cultural com caráter social. Princípios Também durante o ano de 2007 iniciaram-se as atividades do projeto ASAS_ aglomeradas. Como reconhecimento do trabalho e das metodologias de reposicionamento social desenvolvidas através de programas de ensino, pesquisa (...) nos últimos três séculos a palavra “artesanal” teve seu sentido modificado; no século e extensão na Universidade FUMEC, o projeto ASAS ficou entre os dez premiados XVIII era, mais do que um modo particular de construir coisas, uma maneira de conduzi-las, dos 212 inscritos no concurso Banco Real Universidade Solidária, com o tema especialmente na política. Em alguns de seus empregos (...) a expressão “a arte” tem (e mantém Desenvolvimento Sustentável com ênfase em Geração de Renda. O prêmio de 40 mil ainda) o significado de poder e conhecimento secreto. (DORMER, 1997, p.5, tradução nossa).3 reais foi um incentivo para a implementação do plano de capacitação ao longo de um ano. No ano de 2009, a parceria foi renovada e o projeto ASAS recebeu mais R$ 40 Acredita-se que o artesanato é uma atividade com um elevado potencial no conjunto mil para complementar as atividades e adquirir novos equipamentos para a oficina de ações que incentivam a elaboração de políticas para geração de renda e inclusão de estamparia construída no Aglomerado da Serra. Um primeiro catálogo indexado social. O design, aliado ao artesanato, pode estabelecer-se como eixo estratégico applications, (...) the phrase ‘the craft’ had (and still retains) the foi lançado contendo artigos dos professores envolvidos, assim como a metodologia no desenvolvimento dos territórios, empoderando comunidades em estado de (...) in the last three centuries, the word ‘craft’ has changed its but rather a way of doing things, especially in politics. In some meaning of power and secret knowledge. (DORMER, 1997, p.5) utilizada no projeto, depoimento dos alunos, funcionários e dos artesãos capacitados, meaning; in the eighteenth particular way of making things vulnerabilidade social e promovendo sua autonomia criativa e de gestão. Agenciar além dos produtos da primeira coleção desenvolvida. novas produções colaborativas de artesanato em locais onde não havia uma cultura de técnicas de criação e de produção artesanal foi, e continua sendo, um dos grandes Atualmente o ASAS se tornou uma rede criativa e produtiva no Aglomerado da Serra desafios deste projeto. Utilizando-se um conceito amplo de Design Social, inserido e possui três projetos em andamento: o ASAS_aglomeradas, iniciado em 2007, que no raciocínio do conceito de Tecnologia Social, desenvolveu-se uma metodologia possui uma oficina completa de estamparia e uma equipe de artesãos capacitados de criação que incitasse o trabalho coletivo e colaborativo, articulando processos em estamparia, encadernação e costura; o ASAS_meninas do cafezal, iniciado no inovadores que resultassem na construção de objetos contendo fortes características segundo semestre de 2010, que é um dos núcleos produtivos da rede que foca no 3 locais. O incentivo à elaboração de produtos com alto valor agregado surge em paralelo desenvolvimento de peças de moda à partir de modelagem, costura e bordado com o crescimento de um mercado de consumo responsável, que valoriza cada vez mais experimentais, além de possuir um núcleo de produção gráfica e outro de modelo produtos com propostas estéticas contemporâneas alinhadas às tendências do universo e produção de moda; o ASAS_serra de bambu que possui artesãos capacitados do design sustentável e, ao mesmo tempo, produzido por comunidades de artesãos locais. no plantio e manejo do bambu, bem como na construção de móveis e produtos à partir do bambu “in natura”. No segundo semestre de 2010 iniciou-se um novo Acredita-se que os processos de criação, quando bem estruturados, possam incentivar ciclo de capacitação para efetivar a criação de uma rede produtiva englobando os a coletividade, possibilitando a união dos grupos e a capacidade de trabalho três projetos. Acredita-se que esta nova configuração irá dar mais visibilidade às colaborativo. Sabe-se que em comunidades muito vulneráveis socialmente é bastante ações e ampliar o mercado e o valor agregado dos produtos desenvolvidos, além difícil desenvolver um trabalho de integração devido às diferenças sociais vigentes. da diversificação das peças e do aumento do número de artesãos envolvidos. O Como não existem metodologias publicadas e conhecidas de procedimentos coletivos e ASAS pretende realizar atividades de capacitação voltadas para o empoderamento colaborativos em design e artesanato, pensa-se que é papel da universidade registrar, organizar, analisar e desenvolver informações que possam construir novas tecnologias16 sociais que auxiliem em projetos envolvendo design e geração de renda.
  9. 9. Por fim, acredita-se que seja necessário introduzir outras formas de lidar com o design que possibilitem O projeto Vila Viva da Prefeitura de Belo Horizonte, considerado um dos maioresnovos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido para esta disciplina, para além projetos de urbanização de favelas do país no momento, se propõe a urbanizar odo tecnicismo e do mercado de produção em massa, incentivando um desenvolvimento contaminado pelo conjunto de vilas, ligando diretamente, através de grandes vias asfaltadas, duas planejados e se instalam em quarteirões inteiros O projeto Vila Viva nem terminou e já é possível Conjuntos residenciais de altissimo luxo já sãocotidiano, pela arte, pela arquitetura, pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e regiões da cidade. Mesmo que haja um investimento na melhoria das condições assitir à gentrificação do contexto imediato. nas proximidades do Aglomerado da Serra.política, criando um ambiente para a existência de um design mais engajado e militante: de vida da população local e na sua inserção definitiva no cenário urbano formal, seria preciso repensar a real questão que impossibilita com que muitos moradores A militância atual é uma atividade positiva, construtiva e inovadora. Esta é a forma pela qual do lugar não tenham acesso ao mercado de trabalho. A educação para todos e a nós e todos aqueles que se revoltam contra o domínio do capital nos reconhecemos como capacitação profissional deveriam ser a base de qualquer projeto de inclusão social. militantes. Militantes resistem criativamente ao comando imperial. Em outras palavras, a 6 Simplesmente oferecer melhores condições de habitabilidade (o que é inclusive resistência está imediatamente ligada ao investimento constitutivo no reino biopolítico e à bastante questionável quando se vê o tipo de moradia que a prefeitura oferece aos formação de aparatos cooperativos de produção e comunidade. Eis a grande novidade da moradores deslocados de suas residências originais 6) não gera espontaneamente militância atual: ela repete as virtudes da ação insurrecional de duzentos anos de experiência novas condições de trabalho e dinâmicas sociais mais justas. A região onde subversiva, mas ao mesmo tempo está ligada a um novo mundo, um mundo que não conhece se encontra a Escola Municipal Padre Guilherme Peters, é bastante afastada nada do lado de fora. Ela só conhece o lado de dentro, uma participação vital invevitável no dos principais pontos de urbanização, determinando indiretamente um menor conjunto de estruturas sociais, sem possibilidade de transcendê-las. Esse lado de dentro é a investimento na escola e em obras na sua adjacência. Esta situação acaba por gerar cooperação produtiva da intelectualidade das massas e das redes afetivas, a produtividade da um desnível de oportunidades dentro do próprio aglomerado, acentuando ainda biopolítica pós-moderna. Essa militância faz da resistência um contrapoder e da rebelião um mais as questões ligadas ao desemprego, violência e exclusão social. projeto de amor. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 436) O Aglomerado da Serra possui uma grande dimensão 7, o que dificulta ações eficazes em todo o seu território de combate aos diversos focos de violência e de disputas territoriais de grupos ligados ao tráfico de drogas. A ênfase da proposta em escolas municipais, começando comO local e a comunidade um projeto piloto em uma escola específica, propõe a ação em um campo fértil, o dos jovens em formação. A falta de infraestrutura, recursos materiais e capital humano nas escolas municipais são ainda um grande Os favelados, embora sejam apenas 6% da população urbana dos países desenvolvidos, Desenvolvimento Social, 45.920 pessoas e, segundo empecilho para que essas unidades sustentem projetos de inserção constituem espantosos 78,2% dos habitantes urbanos dos países menos desenvolvidos; isto econômica e capacitação profissional adequados à realidade O aglomerado possuía em 1999, segundo dados 37.641 habitantes, mas segundo a Secretaria de o jornal Estado de Minas, 160.000 habitantes. corresponde a pelos menos um terço da população urbana global. (DAVIS, 2006, p. 34) social e às demandas do mercado de consumo e serviços hoje, e da URBEL, uma população total por volta de Rua Coronel Jorge Dário, s/número. CEP 30240-560, Bairro Novo portanto, parcerias com universidades podem auxiliar, e muito, na implementação de projetos de extensão que renda frutos evidentes, O desenvolvimento de projetos socioambientais no Aglomerado da Serra é a proposta de inclusive à curto prazo. um dos programas de extensão priorizados pela Universidade FUMEC, principalmente pelo fato de estar territorialmente próximo ao campus universitário. Portanto, a escolha do local Na última pesquisa para a Prova Brasil o índice socioeconômico para a realização deste projeto faz parte de uma estratégia acadêmica criada pela gestão da no aglomerado foi de 1.1 numa escala de 1 a 5. Além disso, outra pesquisa e da extensão em nossa universidade. justificativa para a escolha da Escola Municipal Padre Guilherme Peters como local de atuação é que essa foi uma das duas escolas Dentro da comunidade escolhida, o conjunto de vilas e favelas de mais baixo índice socioeconômico da cidade, revelando uma de Belo Horizonte denominado Aglomerado da Serra 4 o foco cidade de Belo Horizonte, onde também se encontra a Localizado dentro da região sul da cidade, em um dos 7 enorme necessidade de melhorar a sua infraestrutura e estabelecer setores residenciais de mais alto poder aquisitivo da da ação foi na Escola Municipal Padre Guilherme Peters.5 A parcerias externas que complementem o processo educativo e São Lucas, Belo Horizonte. escola pertencente à Vila Novo São Lucas tem procurado respondam às demandas que a escola não pode atender sozinha. parcerias para que seus alunos possam se apropriar de novos conhecimentos e tecnologias que os ajudem a enfrentar novas 4 dinâmicas educacionais e de trabalho. Além de possuir turmas 5 de alunos da Educação Infantil até a nona série do Ensino Fundamental, possui também, no turno da noite, turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Muitos programas parceiros têm aberto novos horizontes para esses alunos, que Universidade FUMEC. em sua maioria estão distantes de exercer uma atividade econômica por falta de capacitação específica.18
  10. 10. Temas abordados durante a capacitação acabaram por contribuir para o Objetivos bom desempenho das atividades de campo, e entre eles se destacaram o desenvolvimento do trabalho coletivo focado em ações colaborativas, culminando em um processo mais organizado e produtivo e também na conscientização dos O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. São, artesãos e alunos bolsistas da importância deste tipo de dinâmica de trabalho todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os (tanto no processo criativo e produtivo quanto nos processos de gestão e mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações planejamento). Tais temas também reafirmaram a relevância do empoderamento diferentes, quiçá divergentes e opostas. Esse acontecer simultâneo tornado possível dos beneficiários e dos próprios alunos, obtendo como resultado processos de graças aos milagres da ciência, cria novas solidariedades: a possibilidade de um pesquisa e criação mais dinâmicos, mais democráticos e também mais inovadores acontecer solidário, malgrado todas as formas de diferença, entre pessoas, entre sobre a percepção dos territórios subjetivos da favela (cidade informal) e da cidade lugares. (SANTOS, 1994, p.16) formal como um todo. Estas discussões alimentaram tanto os temas das coleções, como o aprendizado coletivo em relação às formas como nos relacionamos com O objetivo geral do projeto se constrói à partir do desenvolvimento de estes territórios desconhecidos e pouco experimentados por quem mora e vive na tecnologias sociais (TSs) reaplicáveis que, segundo Lassance e Pedreira (2004, cidade formal. p. 66), podem ser definidas como um “conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. Baseadas na intersecção de ensino, pesquisa e extensão em design social e buscando promover Indicadores e avaliação dos resultados autonomia criativa e produtiva de forma sustentável nas comunidades envolvidas, tais tecnologias consolidam a metodologia do projeto e incitam discussões que subsidiam políticas acadêmicas para uma prática atrelada Para finalizar seria fundamental falar um pouco de como os indicadores de avaliação à necessidade de um real empoderamento dos beneficiários. Além disto, constituem um aspecto muito importante na constituição da metodologia do ASAS. Esses demandam um grande número de alunos capacitados para atuar de forma fizeram parte constantemente da relação estabelecida com a equipe do UNISOL/SANTANDER mais colaborativa e menos autoral, proporcionando uma mudança de durante o acompanhamento das ações do projeto ASAS_aglomeradas nos anos de 2008 e paradigma no meio acadêmico. 2009. Incorporados de forma definitiva ao cronograma de atividades, a elaboração continuada dos indicadores enquanto parâmetro de avaliação de processos e resultados se tornou uma Existe uma enorme necessidade de desenvolvimento de parâmetros ferramenta crucial para o direcionamento das propostas de atuação, embasando as decisões e teóricos que possam nortear as ações no sentido de valorizar, para além comprovando a eficácia ou não de tais procedimentos. do empoderamento econômico por si só, a identidade cultural de grupos e comunidades locais, promovendo a melhoria da qualidade de vida das Entre os principais indicadores do ASAS encontra-se a autonomia dos beneficiários e alunos, pessoas envolvidas, assim como potencializando a construção de uma promovida através de ações que visam a consolidação dos grupos de forma coletiva e identidade cultural compatível com o território e a época em que se produz colaborativa. A autonomia dos beneficiários em relação à criação, produção e contato com o artefato. Agregar valor aos produtos através da coleta de informações que clientes e fornecedores se faz tão importante quanto a formação de uma equipe executora de nutram a criação de iconografias, que revelem nos produtos a localidade e a alunos pró-ativos e dispostos a se apropriar das estruturas e práticas do projeto ASAS. A partir cultura de comunidades específicas faz parte do eixo metodológico adotado. da valorização das potencialidades individuais, propõe-se constituir grupos múltiplos que se Para que isto aconteça, ao longo de todo o processo, realizamos pesquisas fortaleçam por meio do desdobramento dos conhecimentos adquiridos e da autoria coletiva da sobre design, artesanato, arte contemporânea e outras manifestações de produção. capacitação em artesanato e design que apresentem como parâmetros da produção nacional e internacional e possam auxiliar nas metodologias de Outros indicadores também relevantes durante o desenvolvimento do projeto são a melhoria da criação e desenvolvimento de produtos. qualidade de vida dos beneficiários diretos (participantes das oficinas) e indiretos (familiares, amigos e demais membros da comunidade), tendo como referência: qualidade dos produtos Como estes processos de capacitação que envolvem aulas teóricas desenvolvidos (avaliação dos lojistas e dos próprios beneficiários em relação ao acabamento intercaladas com oficinas criativas e técnicas são frutos de intensas e ao produto como um todo); a ampliação do repertório e o olhar crítico sobre a criação; pesquisas, realizam-se textos para publicação indexada, nos quais os alunos divulgação do projeto; e, finalmente, a consolidação de novas parcerias que viabilizem a são incentivados a pensar e pesquisar temas importantes para o universo do continuidade dos processos de capacitação. design contemporâneo e, principalmente, que envolvam a produção deste outro design, que transcenda o raciocínio positivista e industrial vigente na academia e que se encontre na interface com parâmetros de responsabilidade social através do estabelecimento de vínculos com a comunidade, conectando de forma intensa as atividades de ensino, pesquisa e extensão.20 21
  11. 11. A equipe executora do projeto se pautou constantemente pelo incentivo em ações colaborativas como possibilidade de trabalho, através de metodologias que incentivassem a autoria coletiva dos produtos. Percebeu-se que, de maneira indireta, estas práticas colaborativas reforçam a ideia de grupo reafirmandoMetodologia uma identidade local, que, mesmo sendo híbrida e multifacetada, auxilia na consolidação de uma equipe criativa e produtiva mais coesa. A partir da utilização de tais metodologias experimentais, ficou clara a importância da construção de Essa definição que busca o desenvolvimento sustentável opõe-se ao modelo de desenvolvimento novas estratégias de invenção para serem realizadas em projetos de capacitação dominante, que promove a fusão de empresas, a concentração do capital e da renda, o aumento da em artesanato e design, tanto para o grupo de alunos (que precisam trabalhar desigualdade social, a exclusão social, a segregação urbana, (...). Mesmo nas épocas em que houve coletivamente e pensar nas estratégias de ação do projeto como um todo), crescimento, não se reduziu a desigualdade. (...) queremos um desenvolvimento que beneficie a quanto para o grupo de beneficiários (que precisam entender a necessidade e a grande maioria da população; queremos um desenvolvimento com distribuição de renda; queremos potencialidade que o trabalho coletivo pode trazer para a iniciativa). um desenvolvimento que seja um projeto identificado com as aspirações da população e sustentado por ela. (BAVA, 2004, p. 110)8 O processo de capacitação da equipe constitui parte fundamental da metodologia e se faz em um processo continuado que ocorre durante todo o período do projeto. Durante as reuniões semanais, as discussões propostas envolvem, além de questões relacionadas aos problemas cotidianos, o embasamento teórico da proposta e a contextualização das ações Conclusão realizadas pelo projeto. A troca de experiências, informações e referências desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. durante estes processos consolidam os parâmetros das ações (de ensino, de políticas públicas” In: Tecnologia social – uma estratégia para o LASSANCE JÚNIOR, A. E.; PEDREIRA, J. S. “Tecnologias sociais e construção da coletividade, da proposição de maneiras de gestão do grupo na favela, dos eventos realizados, etc.), viabilizando o estabelecimento de relações Por fim, acredita-se que seja necessário inventar outras formas de lidar com o design que e propostas diferenciadas. A coordenação, no entanto, precisa ter consciência possibilitem novos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido de seus limites, observando quando é necessário agir firmemente e quando para esta disciplina, para além do tecnicismo e do mercado de produção em massa, deixar que os alunos, junto à comunidade, tomem decisões e direções nas incentivando um desenvolvimento contaminado pelo cotidiano, pela arte, pela arquitetura, atividades. Este é um limite tênue e extremamente difícil de ser atingido pelo pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e política. professor, porque devido ao sistema convencional de ensino no qual a maioria dos participantes foi formado, há, em geral, uma relação forte de hierarquia e Um dos pontos importantes a se compreender é que, em projetos sociais desta natureza, os centralização por parte da coordenação. Tendo a coordenação assumido este discursos idealistas e utópicos, mesmo que muito bem intencionados, são extremamente posto de supervisão e orientação do processo, permitindo um maior engajamento difíceis de serem realizados. É preciso coragem e perserverança porque a complexidade e autonomia dos alunos, estes últimos podem então participar mais diretamente do encontro entre vidas com dinâmicas cotidianas tão diversas está presente em todos da capacitação dos artesãos na favela, propondo direcionamentos e delineando os momentos do trabalho. Mesmo que seja fundamental pensar um projeto (ideal) com estratégias para o próprio projeto. Desta forma, consegue-se compor um grupo diagnóstico, objetivos, metodologia, cronograma, não há garantia alguma de resultados de alunos presente e atuante, destacando-se por iniciativas responsáveis e eficazes a curto prazo. O inesperado é uma constante, sendo assim necessário que haja eficazes para o avanço do trabalho em direção aos objetivos propostos. uma flexibilidade enorme nas ações e uma compreensão da necessidade de se reinventar os processos lidando constantemente com frustrações, e criando novas situações para as 8 Ressalta-se aqui que, para capacitar alunos de design para trabalhar nesta novas realidades que se apresentam. interface com artesanato, é necessário rever a maneira na qual o estudante de design é incentivado durante o tempo todo na academia a possuir um trabalho Para finalizar, pretende-se dizer que em casos de projetos de extensão universitária, autoral. Esta ideia precisa ser diluída em projetos com foco em criação e gestão nos quais quase sempre existe uma relação cotidiana com uma comunidade em colaborativa para que os alunos compreendam na prática as dificuldades de se estado de vulnerabilidade social, é preciso estar atento a todo momento ao perigo trabalhar com o outro nestes processos que visam o desenvolvimento de estratégias de negociação do estabelecimento de relações de poder entre os alunos e professores universitários e troca de conhecimento. É, para a maioria dos alunos que entram no grupo, uma novidade e um (designers) e os artesãos da comunidade. É necessário entender que o trabalho envolvendo desafio ter como objetivo aprender com o outro, trocar experiências, negociar procedimentos para realidades sociais díspares deve estabelecer um ambiente de troca de experiências de que possam surgir produtos que sejam realmente consequência de uma subjetividade coletiva, já vida e de conhecimento. Acredita-se na potência de invenção latente nas relações geradas que esta só se produz no embate cotidiano de ideias entre pessoas com origem social, cultural e pela fricção entre o erudito e o conhecimento popular. Muitos resultados positivos do ponto econômica tão diversas. de vista coletivo, social e pessoal, são difíceis de mensurar, mas precisam também serem mapeados e agregados aos resultados qualitativos positivos dos projetos.22 23
  12. 12. Belo Horizonte, estabelecimentos comerciais como a loja Grampo, a galeria Quina ou o Café com Letras, ou confecções de moda como a Raíz da Terra, além dos alunos, professores, membros da comunidade envolvidos, todos ganham neste processo de troca que deve ser equilibrado, gerando benefícios a todos, não num sentido capitalista exclusivamente do termo, mas num sentido mais amplo, que engloba a generosidade e a solidariedade humana dentro de um movimento de tradução, invenção e formulação de tecnologia social. Pretende-se gerar, através do encontro de instituições, profissionais e pessoas de realidades sociais e culturais diversas, atos que se dão como biopotência, que resiste aos mecanismos do biopoder estabelecido pelas relações perversas do capital contemporâneo, mesmo que como no caso do ASAS envolvendo parceiros que são evidentes representantes do capital, desde que todos ganhem com isto. Uma nova forma de militância criativa, um outro design. Todos e qualquer um inventam, na densidade social da cidade, na conversa, nos costu- mes, no lazer — novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. (…) Todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos numa relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode tornar-se vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo e a riqueza biopolítica da multidão. (PELBART, P. P., 2003, p.139)O objetivo essencial deste tipo de projeto realizado pelo ASAS é também estabelecer umarede de trocas desierarquizada e compreender que todos aprendem e ampliam os seushorizontes ao longo destas experiências. Nestes projetos de extensão, a consciência daatuação política deve ser evocada a todo momento para que a construção das tecnologiassociais não aconteçam de forma consciente apenas no nível técnico e burocrático, que éum risco evidente dentro das estruturas acadêmicas. REFERêNCIAS BIBLIOGRáFICASAlguns movimentos, iniciativas e campanhas reúnem-se em torno do princípio da igual-dade, outros em torno do princípio da diferença. A teoria da tradução é o procedimento que BAVA, Silvio Caccia. Tecnologia Social e Desenvolvimento Social. In: Tecnologia social: uma estratégiapossibilita a sua mutual inteligibilidade. Tornar mutuamente inteligível significa identificar para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004.o que une e é comum a entidades que estão separadas pelas suas diferenças recíprocas.(SANTOS, B. S., 2006, p.198) DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2007.Segundo Boaventura de Souza Santos, a construção do cosmopolitismo, que se assenta DELEUZE, Gilles. A ilha deserta. São Paulo: Iluminuras, 2006.no procedimento de tradução, requer uma inteligibilidade mutual que é pré-requisitodo que o autor chamaria “a mistura, autorreflexiva e interna, da política da igualdade DORMER, Peter. The Salon de refuse. In: DORMER, P. (org.). The Culture of Craft. NY: Manchestere da política da diferença no seio dos movimentos, das iniciativas, das campanhas ou University Press, 1997.das redes.” (SANTOS, 2006, p.198) HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001.O autor trata aqui do que ele chama de luta contra-hegemônica, que são práticas demaninfesto, ou programas claros e inequívocos, de alianças que são possíveis porque LASSANCE JÚNIOR, Antonio E.; PEDREIRA, Juçara Santiago.Tecnologias sociais e políticas públicas.baseiam-se em denominadores comuns, objetivos comuns, e que são mobilizadoras In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio deporque produzem uma ação positiva, isto é, porque conferem vantagens específicas Janeiro, 2004.a todos os que participam nelas em função do seu grau de participação. E é nestaconsciência das vantagens para todos os atores envolvidos no processo que o trabalho PELBART, Peter. Paul. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.do ASAS vem sendo realizado. Parceiros instituicionais como UNISOL/SANTANDER,Escola Municipal Pe. Guilherme Peters, Universidade FUMEC, Prefeitura Municipal de SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo. Para uma nova cultura política. São Paulo: Corteza, 2006. SANTOS, Milton. O retorno do território. In: SANTOS, M; SOUZA, M. A. de; SILVEIRA, M. L. Território:24 globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994. 25
  13. 13. 02instituições parceiras
  14. 14. Universidade FUMEC Diretoria geral da FEA/FUMEC Prof. Luiz de Lacerda Júnior O princípio da conectividade nos coloca diante da noção de As demandas do nosso tempo são tão urgentes comunidade de aprendizagem. Nem o estudante e nem a e graves que apontam para a importância Universidade são entidades isoladas, ao contrário, encontram- de reafirmar o papel da Universidade e -se em relação com seus pares, com a comunidade educativa e de fortalecer sua conectividade com as com sua comunidade ampliada que é a humanidade. necessidades da nossa sociedade e do nosso planeta através do ensino, da extensão e Diante de uma sociedade voltada para o culto ao da pesquisa . Promover o engajamento de individualismo e à competitividade, não é difícil perceber seu corpo docente e discente com as causas a insustentabilidade das formas atuais de produção e os sociais desperta em todos um profundo consequentes transtornos causados nos meios ambientes, sentido de responsabilidade social, pois os econômicos e sociais. O paradigma vigente é concentrador caminhos e as transformações começam a de riqueza e distribuidor de injustiças sociais. Diante disso, surgir a partir do comprometimento individual BH nunca foi tão importante e urgente pensar e repensar a ética, enquanto campo de ação/reflexão e intervenções no mundo, capaz de operar mudanças de valores e de condições com a construção de elos para uma cidadania em cadeia, que visa assegurar o direito ao presente e ao futuro. É papel da Universidade cotidianas de existência, de abrir-se para o encontro solidário adotar uma postura profundamente crítica e com o outro enquanto diferença e apostar num futuro melhor construtiva em favor do desenvolvimento de para a vida da terra e na terra. uma ética planetária, possibilitando ao aluno formar uma atitude de ruptura ante o estabelecido, e tecer um projeto de vida, individual e coletiva, muito mais digna e bonita. O projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — representa mais um elo na construção desta cadeia na medida em que através da arte e do artesanato promove o resgate cultural, a preservação de saberes, tradições, tecnologias, além de contribuir com a geração de renda e emprego, promovendo a integração social e o resgate da cidadania da população pobre. Trabalhar eticamente é exatamente isto: agir com clareza, cuidar com sensibilidade, sentir o coração secreto das coisas, produzir encantamento, dar cor, sabor, ritmo e tonalidade às vidas humanas, inaugurando em nós mesmos e no outro um novo jeito de ser e de viver no mundo. 29
  15. 15. Coordenadoria do setor de extensão da Universidade FUMECProf. Osvaldo Manoel CorrêaUm ciclo de vida compreende fecundação, germinação, Assim, em 2007/2008, depois de longa coletivo focado em ações colaborativas, que culminou em também, pelos parceiros, clientes, e, numagestação, nascimento, maturação. Pequenas histórias, viagem e voos de maturação com diversos um processo mais organizado e produtivo e também na dimensão verdadeiramente histórica, pelosindividuais ou de grupos, dentro da grande história do nomes, faces e interfaces, o projeto ASAS conscientização dos artesãos, alunos bolsistas e professoras moradores do Aglomerado da Serra. Serra,mundo. Fases de um passado se fazem presentes num faz seu ninho no Aglomerado da Serra da importância desse tipo de dinâmica de trabalho. Em em sentido figurado, designa uma cadeia deser vivo, potencializado e resultante de tempo e no tempo. para gerar formas de empoderamento. segundo lugar, além dessa dimensão coletiva, o surgimento montanhas com muitos picos e quebradas;No caso, após um longo ritual de passagem, moradores E, entre uma parceria aqui, Universidade de resultados, como consciência de grupo, melhoria aglomerado, sementeira de possibilidadesda comunidade Vila Ponta Porã, em Belo Horizonte, veem FUMEC e Unisol (Banco Real/Santander), da qualidade de vida, olhar crítico sobre a produção e nem sempre potencializadas, pode serregistradas suas Táticas de Sobrevivência (2003/2004) neste e outra ali, FUMEC e a Escola Municipal criação, crescente autonomia em relação ao contato com um somatório, uma soma de soma deCatálogo como num espelho revelador de sonhos e de Padre Guilherme Peters, jurisdicionada à clientes, fornecedores e novos parceiros, empoderamento intervenções positivas mais do que de açõesresultados, e de realizações a partir do enorme potencial Vila Novo São Lucas, foi possível, no espaço já incorporado pelos alunos, aglomeradas, professoras beneficentes. É a Universidade FUMEC, maisde cidadãos comuns. O acervo é enriquecido com um vasto intramuros da universidade, realizar oficinas e a associação como sendo de um só compartilhamento do que trabalhando intramuros, trabalhandolevantamento de inventos, objetos e produtos do cotidiano de serigrafias, encadernação, de corte e costura comunitário. também, com responsabilidade social, toda ada própria comunidade. num feliz casamento entre o teórico/prático área circundante de seu entorno geográfico e acadêmico e a prática/vivencial comunitária. Nossos alunos enriqueceram em escala, nesta ação de social. Isto é fazer extensão.Do Sempre Savassi Design e Cultura (2005/2006) e da E, no extramuros, a possibilidade de novos extensão, a produção de textos, transmitindo novos saberesarticulação entre pesquisa e extensão nasceu o Primeiro saberes para nossos alunos fora do seu status adquiridos na prática e, principalmente, puderam dirigir umCatálogo que mais tarde viria a ser “uma série”: Artesanato social. O encontro com uma nova realidade é novo olhar sobre a existência humana projetando-o na suaSolidário no Barreiro (2006/2007), em que a Coleção 9 + 1 sempre oportunidade de novos aprendizados vida assim como no fazer profissional.registra a história de vida de cada artesã e conquista seu e de grandes transformações em nosso ser.registro no Segundo Catálogo. Toda essa rica experiência compartilhada poderá Nossas professoras reaprenderam a relevância do papel de ser apreciada no Terceiro Catálogo. coordenar, ou seja, mais do que conjugar esforços, conciliarAntes de chegar ao Aglomerado da Serra, o projeto ASAS diferenças, ser responsável por um setor ou equipe derealizou uma passagem pelo projeto Rondon em Assis Brasil O Quarto Catálogo traz novos ganhos produção de artesanato e design, elas fizeram acontecer(AC) e em Jequitaí (MG). Naquela cidade do Acre foram e aprendizados para a Universidade, um aprendizado eficaz a partir da convivência, graças a umtrabalhadas oficinas de capacitação em artesanato e design Comunidade e Parceiros na Ação de Extensão. gratificante trabalho a vislumbrar novas oportunidades dede produtos e mobiliários de bambu. Na cidade mineira de Não é possível enumerar, numa Apresentação, vida e diferentes dinâmicas sociais.Jequitaí, uma coleção de almofadas registra a historicidade todos esses ganhos e aprendizados. Cumpre,e a vida da comunidade. porém, destacar, em primeiro lugar, o trabalho Que este novo Catálogo não seja o início do fim, mas o fim do começo de uma nova era de empoderamentoToda caminhada exige parada para descanso e e consciência coletiva a ser vivida por toda a equipe areabastecimento, e intervalos para reflexão sobre o já partir dessas ações de extensão, em suas vidas, comorealizado e para a articulação de novas metas. Num dessesínterins, foi cadastrado, no CNPq, o grupo de pesquisa cominterface em extensão sobre a temática “Diferenças: Arte,Design, Arquitetura”. Uma exposição realizada, em Inhotim,foi um fruto maduro da experiência em Jequitaí.30
  16. 16. UniSol - Universidade Solidária UniSol e Grupo Santander Em uma comunidade as atividades de cada indivíduo contribuir para a melhoria de suas condições estão sempre interligadas de alguma maneira. Quando de vida; e apoiar a extensão universitária, um se beneficia, é muito provável que o próximo seja estimulando a troca de conhecimentos e a envolvido. Assim, os projetos sociais que se baseiam em inserção na comunidade. parceria de benefícios mútuos formam “pequenas células de multiplicadores” nessas comunidades, promovendo a Esta iniciativa apoia a implementação autossustentabilidade. de projetos sociais com a participação de Instituições de Ensino Superior (IES) Acreditando nisso, o Programa UniSol e o Grupo Santander brasileiras, trabalhando na construção Brasil apoiaram o projeto ASAS — Artesanato Solidário no de soluções locais de desenvolvimento Aglomerado da Serra — vencedor do 11º Concurso Banco sustentável e comunitário, e disseminado Real Universidade Solidária. Executado pela Universidade valores de cidadania e de responsabilidade FUMEC, o projeto ASAS é um exemplo de iniciativas que social aos jovens universitários — futuros contribuem para fortalecer a extensão universitária, profissionais do país. evidenciando a poder da relação transformadora entre universidade e sociedade e a integração com o ensino e a Em 14 anos de atuação, o concurso já pesquisa. mobilizou 94 IES, 1.340 estudantes, 178 professores e beneficiou direta e Criado em 1996, o concurso Banco Real Universidade indiretamente mais de 4 mil pessoas em Solidária, agora com o nome de Prêmio Santander todo Brasil, a partir da interação entre o Universidade Solidária, atua por meio de parcerias para conhecimento acadêmico e o popular. atingir três grandes objetivos: contribuir para a formação cidadã dos jovens universitários, proporcionando ao estudante, pela prática na comunidade, a oportunidade de rever e trabalhar sistemicamente os conhecimentos SP adquiridos na universidade; colocar o conhecimento das universidades à disposição das comunidades, de forma a 33
  17. 17. Escola Municipal Padre Guilherme Peters Diretoria da Escola Municipal Padre Guilherme Peters Márcia Libânio Teixeira A escola Municipal Padre Guilherme Peters está situada dentro do Aglomerado da Serra — local de vulnerabilidade social — e a nossa missão é a de oferecer a melhor educação aos nossos alunos, o que muitas vezes é dificultado pela história de vida e de falta de perspectiva das famílias em relação a suas crianças e adolescentes. Este projeto oferecido e realizado pela Universidade FUMEC e pela Unisol, juntamente com o Banco Real, ofereceu um movimento na comunidade para que se tornassem construtores de sua independência. Nós já percebemos o quanto as aglomeradas se tornaram cidadãs do mundo — já estão se organizando para comprar uma casa, viajam de avião, conheceram outros estados e ganham seu dinheiro com seu trabalho digno e criativo que se tornou economicamente possível de ser realizado. Sinto orgulho de ter sido parte desta mudança com um simples empréstimo do espaço para que o projeto se realizasse. O mundo pode ser diferente e mais digno de se viver quando nos esforçamos para trabalhar a favor das ondas das adversidades e não contra elas. BH 35

×