UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO            ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTESDEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS, PUBLICIDADE E TURISM...
RAFAEL PRIETO FERRAZ       CLUBES DE FUTEBOL COMO INSERÇÃO SOCIAL E                  FERRAMENTA DE CONSUMOTrabalho de Conc...
BANCA EXAMINADORAEspaço reservado às observações da Banca Examinadora responsável pelaavaliação deste trabalho, apresentad...
“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”                             Nelson Rodrigues
RESUMOResumo: Este trabalho contempla uma análise dos clubes de futebolbrasileiros, sob o ponto de vista sociológico, da c...
OBJETIVOS E METODOLOGIAObjetivo geral: Observar em que medida o futebol enquanto negócio pode ainfluenciar a percepção soc...
LISTA DE GRÁFICOSGráfico 1: Participação das fontes de receita dos clubes brasileiros em 2009 e 2010 (BDORCS)Gráfico 2: En...
Imagem 5: Reprodução de página do jornal “S. Paulo Sportivo”, em 1905, mostrando queapesar de se orgulhar de ser amador, o...
Imagem 21: Modelo da camisa com a foto dos torcedores; e o capitão William (recebendo ataça do Campeonato Brasileiro da se...
LISTA DE TABELASTabela 1: Transferências internacionais de jogadores brasileiros entre 1985 e 2010Tabela 2: Quantidade de ...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO....................................................................................................     ...
4.3. Eu nunca vou te abandonar: resultados.......................................................                 984.4. R...
INTRODUÇÃO      Compartilhando de uma definição de Nelson Rodrigues, “Não se trata de umapaixão, mas de uma senha para a c...
indiretas. A propaganda, além de colaborar para tornar o esporte em espetáculo,também a financia por meio de patrocínios, ...
1. ENTENDENDO AS REGRAS DO JOGO         1.1.     Pontapé inicial         Futebol. Acima de tudo, uma atividade lúdica, com...
emocionalmente milhões de indivíduos, os quais levados por esse tipo de motivaçãoassumem comportamentos muito peculiares (...
um esporte e da maneira como conhecemos hoje, tem sua gênese atribuída àInglaterra.        Há quem diga que o cerne do fut...
Naquele contexto, a Inglaterra da revolução industrial (e posteriormente doneocolonialismo) estava em pleno processo de ex...
até então: com violência, o que podia gerar a desordem social. A regulamentação dofutebol não buscava a consolidação e des...
a confederação, o conselho disciplinar, etc. “Constituía, microssociedades à imageme semelhança da macrossociedade que as ...
França), ora por pessoas que iam estudar na Inglaterra e na volta implantavam oesporte em seus países (caso do Brasil, Por...
caráter (bem ao estilo da Inglaterra vitoriana), foi lá que Miller descobriu o futebol epode desenvolver suas habilidades....
que tenha ocorrido como exibição para a princesa Isabel. No interior de São Paulotambém há indícios da prática do futebol ...
Durante o fim do século XIX e início do XX, foi o período de gênese de novostimes, como a Associação Atlética Mackenzie Co...
Pouco a pouco Cox foi arrebanhando adeptos ao esporte para enfrentar ostimes paulistas em alguns amistosos. Em virtude do ...
relação as estrangeiros pelas vias do futebol, o que se revelaria, não muito tempomais tarde, como uma maneira de afirmar ...
difusão de vínculos de solidariedade e do conseqüentemente afastamento                     dos demais setores sociais. (.....
Era o início de um processo de profissionalização do esporte, “o amadorismoera dissimulado por meio de gratificações ofere...
primeira década do século XX.       A ingressão dos grupos marginalizados deu aofutebol novos campos sociais.      Para as...
internacionalmente (1930 foi o ano da primeira Copa do Mundo) e também quando oBrasil vivia um novo momento político com a...
Antigamente as irradiações eram feitas pelo telefone e os locutores saíam                       correndo do campo para con...
autonomia em relação aos governos e grupos dominantes, autonomia essa                         consolidada na inestimável “...
através de patrocínios, publicidade e outros retornos financeiros. Por fim, aassociação do esporte à televisão e ao capita...
tornam superlativas algumas características de seus objetos de observação, o quecria um processo de espetacularização da (...
Muitas vezes a mídia adquire papel opressor das informações no âmbitoesportivo, seu discurso adquire a percepção de verdad...
O futebol e rádio emergiram no país quase que simultaneamente e                              transformaram as transmissões...
Na região Nordeste esse fenômeno também se repete, mas de forma aindamais notória. A torcida do Flamengo no Nordeste, com ...
2. O FUTEBOL COMO NEGÓCIO      2.1.   Um espetáculo lucrativo      “Aqui o futebol tem tudo que um negócio precisa para pr...
Imagem 5: Reprodução de página do jornal “S. Paulo Sportivo”, em 1905, mostrando          que apesar de se orgulhar de ser...
como “o país do futebol”, apresenta números muito mais modestos. “Do totalmundial, em média, o país responde por volta de ...
Como vimos no capítulo anterior, a partir de 1913 a Liga Paulista de Futebolpassou a cobrar ingresso para os jogos, o que ...
Imagem 6: Reprodução de foto oficial da Seleção Brasileira de Futebol para a Copa de 90,         onde jogadores escondem o...
Diferentemente de outras instituições, o futebol reúne muita coisa na sua                    invejável multivocalidade, já...
conta. Há de ser uma “séria e quase trágica competição por um cetro, não umaexperiência estética, mas a busca do coração d...
ECO (1984), o esporte ao quadrado, faz do atleta um membro de instrumentaçãototal, praticamente um monstro que se destina ...
necessários para se manter um jogador de alto nível no país. Em contra partida, avenda desses atletas passou a ser uma das...
mercados do exterior, principalmente em locais onde o mercado futebolístico aindacarece de mão de obra qualificada.       ...
criador - “Lei Pelé” (BRASIL, 1998) - instituía, entre outras coisas, o passe livre. O“passe”, que antigamente era o víncu...
com qualquer atleta que atuasse no Brasil, cabendo a decisão somente ao jogadore/ou a seus (novos) representantes.        ...
Podemos destacar algumas exceções, como na década de 90, quando o timedo Palmeiras concretizou uma parceria inédita com a ...
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo

3,103

Published on

Este trabalho contempla uma análise dos clubes de futebol brasileiros, sob o ponto de vista sociológico, da comunicação publicitária e de consumo. Os clubes futebolísticos, além de exercer papel identitário sobre o indivíduo, podem apresentar forte poder aglutinador sobre o mesmo, o qual pode manifestar o sentimento de pertencimento de diversas formas: o consumo, o ato de torcer, entre outros. A comunicação publicitária, além de financiar e hiperbolizar o espetáculo esportivo, pode ser ferramenta ratificadora das identidades clubíticas como forma de potencializar o processo de consumo.

Published in: Sports
0 Comments
2 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
3,103
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
103
Comments
0
Likes
2
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Clubes de futebol como inserção socia e ferramenta de consumo

  1. 1. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTESDEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS, PUBLICIDADE E TURISMO Rafael Prieto Ferraz CLUBES DE FUTEBOL COMO INSERÇÃO SOCIAL E FERRAMENTA DE CONSUMO São Paulo 2011
  2. 2. RAFAEL PRIETO FERRAZ CLUBES DE FUTEBOL COMO INSERÇÃO SOCIAL E FERRAMENTA DE CONSUMOTrabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Comunicações e Artes como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Orientador: Prof. Dr. Leandro Leonardo Batista. São Paulo 2011
  3. 3. BANCA EXAMINADORAEspaço reservado às observações da Banca Examinadora responsável pelaavaliação deste trabalho, apresentado em_____ de __________ de 2011, naEscola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.Examinador 1_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Examinador 2_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Examinador 3_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  4. 4. “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola” Nelson Rodrigues
  5. 5. RESUMOResumo: Este trabalho contempla uma análise dos clubes de futebolbrasileiros, sob o ponto de vista sociológico, da comunicação publicitária e deconsumo. Os clubes futebolísticos, além de exercer papel identitário sobre oindivíduo, podem apresentar forte poder aglutinador sobre o mesmo, o qualpode manifestar o sentimento de pertencimento de diversas formas: oconsumo, o ato de torcer, entre outros. A comunicação publicitária, além definanciar e hiperbolizar o espetáculo esportivo, pode ser ferramenta ratificadoradas identidades clubíticas como forma de potencializar o processo deconsumo.Palavras-chave: Futebol, clubes, consumo, pertencimento, inserção,comunicação, propaganda, Corinthians.
  6. 6. OBJETIVOS E METODOLOGIAObjetivo geral: Observar em que medida o futebol enquanto negócio pode ainfluenciar a percepção social sobre o meio futebolístico.Objetivo específico: Avaliar as características e percepções sociais presentesno universo futebolístico por meio dos clubes, tendo como objeto de estudo,ora o indivíduo isoladamente (torcedor) ora coletivamente (torcida).Metodologia: Revisão bibliográfica; Entrevista em profundidade comespecialista no tema: Juca Kfouri, realizada em 17 de maio de 2011; Coleta dedados primários, através de questionário online (servidor SurveyMonkey) comamostra de conveniência, total de 262 respostas, coletadas entre 20 de maiode 2011 e 01 de junho de 2011.
  7. 7. LISTA DE GRÁFICOSGráfico 1: Participação das fontes de receita dos clubes brasileiros em 2009 e 2010 (BDORCS)Gráfico 2: Envolvimento do brasileiro com a Copa do MundoGráfico 3: Gasto médio com a Copa do Mundo 2010 (Firjan)Gráfico 4: Interesse pela Copa vs Gasto médio (Firjan)Gráfico 5: Envolvimento do brasileiro com seu clubeGráfico 6: Receitas dos clubes brasileiros em 2010 (BDO RCS)Gráfico 7: Motivos pelos quais a marca que patrocina o time influencia positivamente acompra de produtos LISTA DE IMAGENSImagem 1: Os onze participantes da reunião de 1863, que uniformizou as regras do futebolImagem 2: Charles Miller (sentado com a bola) e seus companheiros no São Paulo Atletic,em 1904Imagem 3: Anúncio (parcial) do canal esportivo “ESPN Brasil”, em busca de novosanunciantes, no jornal publicitário “Meio & Mensagem”, focado na qualidade da programação.Antes de ser agente de consumo, o jornalismo esportivo se consolida como objeto deconsumo (Agosto/2010)Imagem 4: Torcedores acompanhando, pelo rádio e pelo placar do jornal “Última Hora”, afinal da Copa entre Brasil e Suécia (Acervo do jornal Última Hora/Arquivo público do Estadode São Paulo)
  8. 8. Imagem 5: Reprodução de página do jornal “S. Paulo Sportivo”, em 1905, mostrando queapesar de se orgulhar de ser amador, o futebol já era explorado economicamente.Imagem 6: Reprodução de foto oficial da Seleção Brasileira de Futebol para a Copa de 90,onde jogadores escondem o patrocínio da Pepsi por estarem descontentes com os valoresnegociados. A associação do futebol com os negócios não se isenta de polêmica.Imagem 7: Principais destinos dos jogadores brasileiros em 2010Imagem 8: Anúncio da Coca-Cola, em 1987, patrocinando todos os clubes da Copa UniãoImagem 9: Ícone do caixão, uma das manifestações de negação do rival (como forma deafirmação)Imagem 10: Diferentes manifestações de adoração ao escudo (através do beijo, tatuagem,ou mesmo ajoelhando-se sobre ele), como demonstração de identificação com o clube/torcidaImagem 11: Promoção da Olympikus usando a expressão do “manto sagrado” para se referirà camisaImagem 12: A Gaviões da fiel, por meio do carnaval, foi pioneira em extrapolar a presença deseu campo social a ambientes alheios ao futebol. Importante notar a presença dos signosclubísticos.Imagem 13: Propaganda (banner de internet) na qual fica evidenciado que o consumo doproduto (e seu uso, posteriormente) é ratificador do pertencimento do indivíduo à massaImagem 14: Comercial onde os jogadores tatuariam o escudo do time para substituir acamisa, a qual representa uma marcação eterna do indivíduoImagem 15: Escada rolante de envolvimentoImagem 16: Torcedores do Corinthians mostrando apoio ao time, antes do rebaixamento, dediversas formas. Entre elas, a frase/grito “eu nunca vou te abandonar”Imagem 17: Apresentadora Sabrina Sato, foto divulgação do lançamento oficial da campanhanos meios de comunicaçãoImagem 18: Sala de imprensa do Corinthians no dia do lançamento da campanhaImagem 19: As camisetas da campanhaImagem 20: As ferramentas e a mensagem da campanha, logo reabsorvida pelasarquibancadas
  9. 9. Imagem 21: Modelo da camisa com a foto dos torcedores; e o capitão William (recebendo ataça do Campeonato Brasileiro da segunda divisão) vestindo a camisa que representava ainclusão e a participação dos torcedores naquela conquistaImagem 22: Manifestações espontâneas da torcida dentro dos valores da campanha: alémda faixa (no centro) também há vários torcedores usando a camisetaImagem 23: Patrocínio majoritário na camisa: em 2007, com o clube na 1ª divisão, aSamsung desembolsou R$ 9 milhões ; em 2008, a Medial Saúde pagou R$ 16 milhões peloespaçoImagem 24: Capa e material de divulgação do filme “Fiel”Imagem 25: Camisa do Centenário e elenco do Corinthians durante a apresentação damesmaImagem 26: Anúncio da República Popular do CorinthiansImagem 27: Alguns documentos da “república”, respectivamente: a Carta Magna, a Certidãode Nascimento e a Carteira de Identidade, além da Embaixada itinerante.Imagem 28: Bandeira gigante, hasteada no estádio do Pacaembu; e a posse simbólica deLula como o primeiro presidente da “República Popular do Corinthians”Imagem 29: Representação heróica dos jogadores, usada não apenas nas peças publicitária,mas também nos armários dos vestiários e em (algumas) páginas pessoais no TwitterImagem 30: Anúncio da campanha, projetando os jogadores como verdadeiros guerreiroslutando pelos interesses da naçãoImagem 31: A campanha permanece no ar, tanto que a primeira grande contratação em2011, do jogador conhecido como “Adriano, o Imperador” já foi representada e adequada aospreceitos da campanha por meio da frase “Do Império à República”Imagem 32: Diversos apresentadores de televisão repercutindo a campanhaespontaneamente
  10. 10. LISTA DE TABELASTabela 1: Transferências internacionais de jogadores brasileiros entre 1985 e 2010Tabela 2: Quantidade de jogadores que voltaram para o futebol brasileiroTabela 3: Valoração das mais valiosas marcas de clubes de futebol, em 2010Tabela 4: Valoração das mais valiosas marcas de clubes de futebol no Brasil, em 2010
  11. 11. SUMÁRIOINTRODUÇÃO.................................................................................................... 131. ENTENDENDO AS REGRAS DO JOGO ...................................................... 151.1. Pontapé inicial.............................................................................................. 151.2. O esporte bretão........................................................................................... 161.3. Futebol em terras tupiniquins....................................................................... 211.4. Esporte e veículos de massa........................................................................ 292. O FUTEBOL COMO NEGÓCIO ..................................................................... 382.1. Um espetáculo lucrativo .............................................................................. 382.2. Produto de exportação................................................................................. 452.3. A importação do produto nacional................................................................ 492.4. Marcas valiosas e lucrativas......................................................................... 533. UMA FERRAMENTA SOCIAL ....................................................................... 633.1. Contexto brasileiro........................................................................................ 633.2. A identidade e união clubística..................................................................... 663.3. Motivações e implicações da aglutinação clubística.................................... 733.4. Torcer é participar, e participar é torcer........................................................ 774. ANÁLISE DE CASO ....................................................................................... 874.1. Metodologia.................................................................................................. 874.2. Eu nunca vou te abandonar: análise............................................................ 91
  12. 12. 4.3. Eu nunca vou te abandonar: resultados....................................................... 984.4. República Popular do Corinthians: análise................................................... 1014.5. República Popular do Corinthians: resultados.............................................. 1094.6. Análise comparativa entre campanhas......................................................... 1125. CONCLUSÃO.................................................................................................. 1155.1. Inserção social e ferramentas de consumo.................................................. 1155.2. Hipótese futura: a gênese da identidade coletiva......................................... 118ANEXOS ............................................................................................................. 120Anexo 1: História popular e remota do futebol ................................................... 120Anexo 2: Entrevista em profundidade com especialista: Juca Kfouri ................. 126Anexo 3: Pesquisa quantitativa: questionário e resultados ................................ 139BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 147
  13. 13. INTRODUÇÃO Compartilhando de uma definição de Nelson Rodrigues, “Não se trata de umapaixão, mas de uma senha para a cidadania” (apud FRANCO, 2007: 210), inicio oTrabalho de Conclusão de Curso almejando a análise e observação da presençados clubes de futebol como motivador e influenciador social, cultural e psicológico nocontexto brasileiro. Ademais, o trabalho objetiva avaliar o papel da propagandanesse processo de produção simbólica e de consumo. A observação da análise estará pautada sobre o público e as práticaspresentes no Brasil, apesar de algumas vezes usar preceitos e possíveis exemplosde outros países, pois se trata de um tema mundial e, sob a ótica de consumo,podemos considerá-lo mais maduro em países europeus. Partimos do princípio que, possivelmente, os clubes de futebol exerçamfunção de extrato social que apresenta autonomia em relação à sociedade externa,inclusive apresentando identidade e comportamentos coletivos. Nesse contexto,muitas vezes, o indivíduo torcedor pode se tornar estrutura e estruturante de umamassa única (torcida), cabendo a ele a possibilidade de absorção dos valores e daidentidade coletiva. A partir dessas premissas será possível buscar evidências paraa presença de tais valores coletivos, assim como gênese e manutençãocontemporânea. Além do mais, esse estudo baseia-se em uma segunda hipótese básica, a deque o consumo de produtos (ou serviços) relacionados ao clube pode ser umamanifestação do comportamento/consciente coletivo, além de elemento de inserçãoe de demonstração de pertencimento ao grupo. Assim como essa análise foi concebida, a divisão de capítulos estrutura-se demodo a buscar a constatação das premissas mencionadas. Após inserção no tema,e com o entendimento do contexto histórico e cultural do esporte, a análisepermeará constatações de que o futebol deixou de ser apenas um esporte e umterritório exclusivamente dominado pela paixão, hoje ele movimenta muito dinheiro,em diversas formas, desde diretamente no campo (como patrocínios e venda dejogadores), até com a força de sua torcida (produtos licenciados) e outras formas 13
  14. 14. indiretas. A propaganda, além de colaborar para tornar o esporte em espetáculo,também a financia por meio de patrocínios, propagandas em suas transmissões,entre outras formas. Posteriormente, a análise se estruturará em preceitos teóricosque nos apresentem com clareza o modo como os clubes podem ser associados amicro-sociedades independentes, nas quais os indivíduos apresentam fortesentimento de pertencimento e carência dessa evidenciação, o que pode se dar porvia do consumo de produtos. Ademais, a análise de dois cases reais, de um mesmo clube de futebol, temcomo função ilustrar os conceitos apresentados de forma que possa tangibilizar (ouaté mesmo refutar) a hipótese central do trabalho: os clubes de futebol, enquantoinserção social, podem se tornar ferramentas de consumo. Por fim, compartilho um pensamento de VERÍSSIMO (2010), que demonstra omaior desafio pessoal na construção desse trabalho: diferenciar observador e objeto,torcedor e analítico, paixão e razão. De certa forma, consola acreditar que, talvez,este seja o desafio da imensa maioria de estudiosos nesse rico campo de estudo. Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar para trás essas criancices: a devoção a um clube e às suas cores como se fosse a nossa outra nação, o desconsolo (...) quando o time perde, a exultação guerreira quando com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, e fazer teses sobre a bola e observações sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mas é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada. E essa nossa infantilidade compartilhada, de certa forma, redime tudo. (VERÍSSIMO, 2010: 25) 14
  15. 15. 1. ENTENDENDO AS REGRAS DO JOGO 1.1. Pontapé inicial Futebol. Acima de tudo, uma atividade lúdica, como qualquer outra. Segundoo dicionário, quer dizer apenas o “jogo entre dois grupos (...) onde cada um procurafazer entrar uma bola no gol adversário sem lhe tocarem com a mão” 1. No entanto,seu significado literal pouco importa nesse momento - até porque, seria difícilencontrar uma definição exata – o que interessa aqui é entender o que representa, oque motiva, e quais as conseqüências sociais e econômicas desse que é o esportemais praticado do mundo. Tomemos, portanto, o fato do futebol ser o esporte mais popular e maispraticado no mundo como um axioma (VOSER et al, 2006: 126). Tal princípio nospermite dimensionar melhor qual o poder de influência dessa manifestação popularno mundo contemporâneo em que vivemos. Para se ter uma ideia, segundo pesquisa realizada pela FIFA em 20062, cercade 270 milhões de pessoas no mundo estão ativamente envolvidas com o futebol,sejam elas jogadores, árbitros ou diretores. De todas essas, 265 milhões são apenasjogadores que praticam o esporte regularmente, sejam eles homens ou mulheres,profissionais, semi-profissionais ou amadores; esse número representa 4% dapopulação mundial. Além do mais, devemos lembrar que esse dado desconsideracompletamente aqueles que apenas torcem e acompanham o esporte regularmente(sem praticá-lo), o que tornaria o número total da abrangência do esporte aindamuito maior. Somente como efeito comparativo, no mesmo ano de 2006, a partidaúnica da final da Copa do Mundo FIFA foi transmitida para mais de 760 milhões depessoas ao redor do mundo.3 Ninguém nega, portanto, o papel mobilizador do futebol e seu lugar dedestaque no mundo contemporâneo. Porém, mais do que isso, o futebol mobiliza1 Dicionário Michaelis2 In: Site FIFA, 31/05/20073 In: Site Abril, 11/07/2010 15
  16. 16. emocionalmente milhões de indivíduos, os quais levados por esse tipo de motivaçãoassumem comportamentos muito peculiares (como a violência, o consumo deprodutos, etc.) ou se organizam de forma que remonta os princípios básicos daantropologia e sociologia (a figura do líder, a organização e adoração clânica, etc). Contrariamente à idéia bastante difundida, o futebol não se situa à margem dos grandes problemas da sociedade, não constitui um espaço reservado. Pelo contrário em torno dele estão presentes interesses econômicos consideráveis, em que se confrontam ideologias e em que se manifesta a política nacional e internacional. O futebol é um espelho dos problemas do nosso tempo.” (WITTER, 1995: 15) Segundo FRANCO (2007), as tentativas de explicar uma única razão (ousentido) a esse fenômeno são, por essência, contraditórias. Segundo ele, cadaindivíduo atribui às práticas lúdicas - no geral - diferentes significados de diferentesorigens. E, por isso, uma atividade lúdica como o futebol é pode assumir diferentespapéis na vida de um indivíduo e/ou grupo. Na verdade, o futebol desperta dupla reação, muito curiosa. De um lado, há quem veja nele atividade de espírito infantil praticada por homens adultos, desviados dessa maneira de ações produtivas e de ações sociais mais nobres. De outro lado, há parcela considerável da população mundial que atribui a ele papel importante, se não central, na sua vida. A contradição está no significado que – por razões ideológicas, sociais, culturais, religiosas, psicológicas – cada pessoa confere às praticas lúdicas em geral. (FRANCO, 2007: 14) 1.2. O esporte bretão Muito se diz sobre a verdadeira origem do futebol, não é algo isento depolêmica, diferentes culturas e/ou países reivindicam o posto de inventores dodesporto com os pés (história remota do futebol ver Anexo 1). Mas o futebol, como 16
  17. 17. um esporte e da maneira como conhecemos hoje, tem sua gênese atribuída àInglaterra. Há quem diga que o cerne do futebol inglês surgiu graças à importação docalcio italiano4. Outra corrente histórica, mais aceita, diz que os ingleses criaramuma modalidade própria a partir do século XVI, influenciados - ou não - pelohaspastum5 romano. Essa modalidade, que se chamava hurling over country, eradisputada por duas cidades diferentes e consistia em levar a bola até a praça centralda cidade adversária. (BORSARI, 1989: 12). Posteriormente essa prática se tornou ohurling at gols, que equipes entre 40 e 60 pessoas deveriam fazer com que a bolaultrapassasse a linha entre dois postes fixados no chão. Apesar dessa prática aindaser muito parecida com o rugby, foi a posterior popularização e diferentes variaçõesdela (uma delas usando somente os pés) que fez com que o football se separassedefinitivamente dos esportes praticados com as mãos através de suas regraspróprias, no século XVIII. O regramento do futebol britânico, portanto, pode serconsiderado o marco zero da história do futebol moderno. A partir desse ponto, segundo FRANCO (2007), para entender odesenvolvimento do esporte moderno a análise não pode ser restrita a história dofutebol em si, mas observada sob a ótica da história das civilizações. Além de seuquadro geográfico (Inglaterra) devemos observar também o quadro histórico(Revolução Industrial). A revolução industrial e o futebol estão intimamente ligados, seja por ambosfloresceram durante o mesmo momento histórico, seja pelos diversos elementos deintersecção que os unem, como a competição, produtividade, especialização defunções e, principalmente, fixação de regras. Também podemos pensar no estabelecimento das regras futebolísticas como manifestação particular da Inglaterra do então desenvolvimento das instituições, que nada mais são do que regras do jogo social. Ou seja, restrições de comportamento que permitem a vida em sociedade, controlam interesses individuais em nome do bem comum. (FRANCO, 2007:25)4 Modalidade esportiva, de origem helenística, praticada na Itália entre os séculos XIV e XVI, que segundoalguns autores influenciou a gênese do futebol inglês (ver Anexo 1)5 Modalidade esportiva parecida com o futebol atual, antecessora do calcio, praticada no Império Romano e que,segundo alguns autores, foi disseminada pelas terras conquistadas, inclusive na região da Bretanha (ver Anexo 1) 17
  18. 18. Naquele contexto, a Inglaterra da revolução industrial (e posteriormente doneocolonialismo) estava em pleno processo de expansão industrial, comercial, masprincipalmente político e social. A sociedade britânica se preparava para criarcidadãos fortes e capazes de influenciar e liderar outras partes do mundo. Entre 1820 e 1900 o “cristianismo atlético” foi o caminho pedagógicoencontrado para desenvolver a fibra e a moral da elite britânica para “governarregiões longínquas e inóspitas, plenas de súditos hostis e pouco civilizados”(FRANCO, 2007: 26). Para os representantes dessa corrente os esportes eramfundamentais para dar vigor físico, fibra ao espírito e rapidez de raciocínio. Talprojeto foi incorporado ao recém lançado “A origem das espécies” de CharlesDarwin, visando adaptar a vida social ao conceito biológico de sobrevivência dosmais fortes. Dentro dessa expectativa foi incorporado às escolas elitistas inglesas, e aalgumas universidades, um jogo com bola que aparentava muito aquele jogado naInglaterra séculos atrás, o qual apesar de várias tentativas de interdições nuncahavia desaparecido nas classes sociais mais pobres. O desafio era apenas inseri-lonas escolas das classes dominantes. O futebol, por todas as suas características físicas e coletivas, e por terpreceitos muito semelhantes à sociedade da revolução industrial tinha claramente opapel de formar elites aptas a governar. “O futebol moderno nasceu como instrumento do darwinismo social”, o quedemonstra, desde os primórdios, o poder e potencial do futebol para ser mais queapenas uma atividade física. Quiçá um mecanismo de manipulação. Segundo LEAL (2000) o futebol começou a ganhar destaque com a burguesiainglesa à medida que atividades físicas - como a esgrima, a equitação, o tiro -começaram a perder sua importância, pois estavam ligadas ao treinamento militar. Em 1848 diversas escolas reuniram-se para uniformizar as regras daqueleesporte (mas ela continuaria a se revisada e discutida até 1863), a iniciativa buscavaevitar que cada escola praticasse sua própria norma (educando os indivíduos demaneira diferente), assim como também evitava a maneira como o jogo era jogado 18
  19. 19. até então: com violência, o que podia gerar a desordem social. A regulamentação dofutebol não buscava a consolidação e desenvolvimento do esporte (isso foi umaconseqüência), mas sim o domínio do próprio corpo, submetendo-o ao podersocialmente aceitável. Finalmente, a 26 de outubro de 1863 representantes de varias escolas e clubes encontraram-se na Freemanson‟s Tavern, no centro de Londres, para criar a Football Association e um comitê que uniformizasse as regras. (...) Eram catorze regras simples, que davam identidade própria ao football (FRANCO, 2007: 28). AQUINO (2002) cita, por exemplo, que a quantidade de jogadores (11 porequipe) pode estar ligada ao fato das turmas de Cambridge ter 10 alunos e um bedel(inspetor), assim como também há indícios que levam a crer que eram 11 times deescolas que estabeleceram código de regras do esporte, em 1863. Imagem 1: Os onze participantes da reunião de 1863, que uniformizou as regras do futebol Dessa forma, à medida que o futebol regrado crescia, se expandia e setornava uma atividade sólida e consistente da elite britânica, nasciam com elafiguras representativas e decisórias desse universo - como o capitão do time, o juiz, 19
  20. 20. a confederação, o conselho disciplinar, etc. “Constituía, microssociedades à imageme semelhança da macrossociedade que as criara e acolhera” (FRANCO, 2007: 28). À medida que o futebol se consolidava nas classes dominantes, não demoroumuito para que ele ganhasse o interior da Inglaterra, as classes médias baixas e ooperariado. O esporte começou a ser praticado nas escolas públicas que, graças arecente lei que tornara o ensino primário obrigatório, passou a ser freqüentada pelasclasses pobres. Surgiram novos clubes. Em 1883 o primeiro clube oriundo declasses pobres ganhara a Copa da Inglaterra. O padrão estabelecido havia mudado,o mais humilde poderia ganhar do mais rico. O futebol passou a ser encarado como um mecanismo de destaque social,jogadores operários mais talentosos começaram a trocar de equipes com apromessa de melhores empregos. Comerciantes passaram a dividir parte de seusrecursos para financiar alguns clubes. O futebol começava a demonstrar suanecessidade e potencial de sustentação financeira. Para financiar despesas do profissionalismo, os clubes passaram a procurar outras receitas além das bilheterias, caso de loterias e de mecenato. A solução capitalista foi empregada pelo Arsenal, de Londres, que em 1891 abriu parte de seu capital a 860 acionistas, pessoas físicas ou jurídicas (FRANCO, 2007: 35). A expansão do futebol iniciou-se primeiramente nas Ilhas Britânicas, atravésdas partidas anuais entre Escócia e Inglaterra desde 1872, e posteriormente pelocampeonato entre as quatro nações britânicas a partir de 1883. A exportação do esporte seguiu conforme o processo histórico doimperialismo inglês, o qual não exportava apenas uma infinidade de produtos eserviços, mas também uma série de manifestações culturais e sociais que, só pelofato ser “produto inglês” já era agregava valores de modernidade. Com o futebol nãofoi diferente. O futebol foi implantado em outros países ora através de ingleses e/ouempresas inglesas que ayuavam no exterior (caso de Argentina, Suíça, Alemanha, 20
  21. 21. França), ora por pessoas que iam estudar na Inglaterra e na volta implantavam oesporte em seus países (caso do Brasil, Portugal, Holanda). Segundo a concepção dos ingleses, o futebol era um produto inglês quebuscava formar líderes para o grande império e, como tal, deveria permanecerexclusivo. Esse tipo de percepção explica porque os tais inventores do esportedemoraram tanto admitir a presença do futebol em outros países, assim comoretardaram sua entrada (e reconhecimento) a recém criada Fedération Internationalede Football Association (FIFA). A FIFA, aliás, o primeiro e mais importante órgão internacional do esporte,fora fundada em 1904 em Paris, contando com a adesão de muitos países, como:França, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Holanda, Suécia, Suíça, Alemanha,Tchecoslováquia, Itália, Áustria, posteriormente a Inglaterra em 1906 e, por fim, oprimeiro país não europeu, a África do Sul em 1910. O futebol havia se instalado no mundo todo. No entanto, por incrível que pareça, o advento da Primeira Guerra Mundialajudou a difundir ainda mais o esporte e a democratizá-lo. Durante este período, ofutebol era uma atividade bem aceita pelos militares como forma de descontração,manutenção da forma física e fomento da amizade entre colegas. Soldados inglesesjogavam entre si e com seus aliados franceses e belgas durante as tréguas nasfrentes de batalha. Esse tipo de comportamento popularizou o esporte nas camadasmais populares, os quais ao fim da guerra difundiram a moda do futebol para seusnúcleos sociais. Agora sim, definitivamente, o futebol estava semeado mundialmentee em todas as classes sociais. 1.3. Futebol em terras tupiniquins Oficialmente o futebol chegou ao Brasil em 1894, graças ao paulista CharlesWilliam Miller – brasileiro descendente de escoceses pelo lado paterno e de inglesesno lado materno - fora estudar na Banister Court School, uma escola pequena, denão muito destaque no mundo acadêmico, mas com a especialidade em formar 21
  22. 22. caráter (bem ao estilo da Inglaterra vitoriana), foi lá que Miller descobriu o futebol epode desenvolver suas habilidades. Com apenas 20 anos o jovem regressou aoBrasil trazendo consigo duas bolas de futebol e um livro de regras. Sua intenção erapraticar e disseminar em sua terra natal o esporte que aprendera na universidade,principalmente entre ingleses dissidentes. Miller, que era sócio do São Paulo Athletic Club e funcionário da companhiabritânica de trens São Paulo Railway Company, organizou em 14 de abril de 1895 oprimeiro jogo oficial de futebol entre as duas instituições (com times formados porbrasileiros e ingleses), vencido por 4 a 2 pelo Railway (time de Miller). O São PauloAthletic Club adotou o futebol oficialmente em 1896, tendo Miller como seu principaldestaque. Imagem 2: Charles Miller (sentado com a bola) e seus companheiros no São Paulo Atletic, em 1904 Todavia, há indícios também de que o futebol fora praticado em terrasbrasileiras muito antes de Charles Miller o trazer em suas malas. SegundoGUTTERMAN (2010), 30 anos antes do regresso de Miller ao Brasil, há registros demarinheiros estrangeiros, principalmente ingleses, jogando o esporte com bola pelasáreas descampadas do litoral brasileiro. Há também o registro de jogos nas mesmascondições entre 1874 e 1878, no Rio de Janeiro; um desses jogos, aliás, acredita-se 22
  23. 23. que tenha ocorrido como exibição para a princesa Isabel. No interior de São Paulotambém há indícios da prática do futebol “pré-Miller”: na cidade de Jundiaí foraorganizados jogos entre brasileiros e ingleses da São Paulo Railway; já em Itu, umpadre jesuíta de um colégio da elite cafeeira (que acreditava nos métodospedagógicos dos tradicionais colégios britânicos) estimulava seus alunos apraticarem o esporte da terra da rainha. Segundo FRANCO (2007) o estabelecimento de um “inventor” do futebol noBrasil tem apenas função de marcação literária, uma vez que todo o processo deapropriação e de absorção de novas culturas já explica parte da identidade tanto doesporte quanto do Brasil. Estabelecer paternidades quase heróicas e datas oficiais, não esclarece as relações entre o futebol e sociedade brasileira. Pelo contrário, suas significações mais profundas residem no processo de apropriação pelos diversos setores sociais que o transformaram em fenômeno de massas (FRANCO, 2007: 62). No entanto, é importante ressaltar que sem a ação de Miller (que além detrazer o esporte de forma regrada também organizou os primeiros campeonatos que,consequentemente, culminou no conhecimento popular do esporte) dificilmente ahistória esportiva do futebol no Brasil teria se desenrolado da mesma maneira.Talvez, mesmo sem Miller, o Brasil tivesse absorvido o futebol a sua cultura, assimcomo talvez não o tivesse. Enquanto que para GUTTERMAN (2010), a atribuição da paternidade doesporte no Brasil à Charles Miller é apenas uma marcação necessária pararepresentar o início da popularização do esporte. Assim como na Inglaterra, somentea prática regrada permitiu que o esporte fosse replicado da mesma forma em várioslugares diferentes e, portanto, com capacidade para se tornar popular, democráticoe abrangente. O que Miller introduziria no Brasil seria o perfil competitivo do futebol, com suas regras, limitações e artimanhas, provável razão pela qual ele é considerado o pioneiro desse esporte no país (GUTTERMAN, 2010: 18). 23
  24. 24. Durante o fim do século XIX e início do XX, foi o período de gênese de novostimes, como a Associação Atlética Mackenzie College (1898), o primeiro clube doBrasil formado somente para o futebol e integrado exclusivamente por brasileiros,ainda que todos pertencentes à elite paulistana. Assim como na Inglaterra, a história do futebol no Brasil não se resumesomente a história do esporte, mas deve ser interpretada como reflexo do contextohistórico do país. No Brasil da Belle Époque, a prática do futebol vindo da Inglaterraera um dos ingredientes mais importantes do processo de modernização e daidentidade de uma nação em transformação. Para as elites, a prática do futebol tipicamente inglês era uma representaçãoimaginária do desenvolvimento do país (sobretudo culturalmente), era afirmação daprópria identidade através da absorção de outra. O futebol, antes de mais nada, éum fenômeno cultural antropofágico, tipicamente brasileiro. Vale lembrar também que o esporte mais popular entre os ingleses genuínosque moravam no Brasil era o críquete, não o futebol. O esporte com os pés,portanto, era uma grande oportunidade de afirmação para a elite daquela sociedadeainda em transformação e com dificuldade para a criação de identidade e de auto-reconhecimento. Adotar um esporte com o “pedigree” inglês, mas não o preferidopelos ingleses que aqui moravam, era uma forma de transmitir tanto a sofisticaçãocomo a diferenciação e unicidade da aristocracia brasileira. Durante esse período, destacam-se a figuras do brasileiro Oscar Cox e doalemão Hans Nobiling, que segundo GUTTERMAN (2010), foram mais importantespara o futebol do que o próprio Miller pois, apesar de não serem considerados ospioneiros, foram aqueles responsáveis pela disseminação do esporte de modoorganizado. Oscar Alfredo Cox, que ajudou a introduzir o futebol no Rio de Janeiro,conheceu o esporte quando estava estudando no colégio suíço La Chatelaine. Coxtentou introduzir o futebol no clube que jogava críquete, o Paissandu, encomendouinclusive uma bola vinda da Inglaterra; no entanto, os associados preferiram usá-lapara jogar rúgbi. 24
  25. 25. Pouco a pouco Cox foi arrebanhando adeptos ao esporte para enfrentar ostimes paulistas em alguns amistosos. Em virtude do Rio de Janeiro ainda não ternenhum clube de futebol, a equipe era apenas um combinado de cariocas e contavainclusive com atletas dos clubes náuticos (como o Flamengo, o Botafogo e o Vasco).Como os amistosos ganharam certa a freqüência, finalmente em 1902, Coxconseguia fundar o primeiro clube carioca voltado apenas para o futebol (formadopelas famílias tradicionais da capital do país): o Fluminense. Hans Nobiling teve trajetória parecida com Cox, porém em São Paulo.Nobiling era ex-jogador de futebol em um time alemão, chegou em São Paulo em1897 com disposição para disseminar o esporte no país que chegara. Inicialmenteteve dificuldade em encontrar um clube consolidado que aceitasse o esporte,resolveu então formar o próprio time (com seu próprio nome), o Hans Nobiling Team,que desafiou os dois times existentes na época: o Mackenzie e o São Paulo Athletic.Naquela época os dois times jogavam o esporte somente como recreação e, a partirda iniciativa de Nobiling, fora lançado o embrião da primeira competição de futeboldo Brasil. Em 1899 os três times se enfrentaram. Ao final dessa série de amistosos Nobiling e seus amigos decidiram fundarum clube, deram a ele o nome de Sport Club Internacional, uma homenagem àsdiversas nacionalidades que formavam o time (brasileiros, alemães, ingleses,franceses e portugueses). Nobiling discordou do nome (achava que deveria chamarSport Club Germânia) e em protesto retirou-se do clube. Dias depois ele fundava oGermânia. Nobiling, assim como Cox, sabia que somente por meio dos clubes o futebol fincaria raízes no Brasil e deixaria de der um mero passatempo da elite. As competições oficiais e a formação de ligas não tardariam (...). Agora com status de esporte nobre, o campeonato ganhou cobertura da imprensa, que antes tendia a desprezar o futebol (GUTTERMAN, 2010: 29). O futebol paulista contava, até 1900, com quatro times: São Paulo Athletic,Mackenzie, Internacional e Germânia. O quinto clube de São Paulo, o Paulistano,surgiu por brasileiros que haviam sido preteridos no São Paulo Athletic.“Materializava-se assim a tendência brasileira de traçar contrapontos nacionais em 25
  26. 26. relação as estrangeiros pelas vias do futebol, o que se revelaria, não muito tempomais tarde, como uma maneira de afirmar a identidade do próprio país”(GUTTERMAN, 2010: 30). O surgimento das ligas, por mais que completamente elitizadas, foramimportantes elementos para popularização do esporte. A presença da disputa, e nãomais da recreação, culminou na espetacularização do esporte, o qual passara aganhar diferentes papéis culturais, sociais e antropológicos. “Uma hora antes do início do jogo, já era difícil encontrar um lugar nasarquibancadas (..), que estavam cheias de moças para ver o Belo Sport inglês.”(GUTTERMAN, 2010: 25). A medida que o futebol ganhava popularidade entre aelite, os jogos se tornavam grandes espetáculos, o público que normalmente eraformado por famílias de classe alta, passou a receber também torcedores comuns. Alatente popularidade do futebol fez com que a imprensa cobrisse suas disputas, oque contribuiu enormemente para a o conhecimento e entendimento do jogo nasclasses populares. Segundo FRANCO (2007) a proliferação de clubes e times pelo país,sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo, obedece basicamente a duas tendências. A primeira delas orienta para a formação de equipe dentro dos gruposdominantes, orientados pelo espírito do fairplay e do cavalheirismo. Nessemovimento nasceu diversos times com origens distintas, como aqueles fundadosespecialmente para a pratica do futebol (Fluminense, 1902; América-RJ, 1904),aqueles criados como associações atléticas vinculados a instituições de ensino(Ponte Preta, 1900; Botafogo, 1904), ou mesmo aqueles clubes dedicados a outrosesportes e que aceitaram a prática do futebol (Náutico, 1909; Flamengo, 1911). Oelemento que permite aglutinarmos todos esses clubes, pertencentes a essatendência elitista, é o papel que o futebol estabelecia para seus grupos: ao mesmotempo ferramenta lúdica e social, como também atestado de superioridade eexclusão aos demais grupos. Colégios e clubes constituíam-se em espaços restritivos de formação, lazer e sociabilidade, nos quais se representava a pretensa superioridade da elite, que procurava se fortalecer, num movimento endógeno, por meio da 26
  27. 27. difusão de vínculos de solidariedade e do conseqüentemente afastamento dos demais setores sociais. (...) O futebol tornara-se um novo item da modernidade européia que não podia faltar aos anseios de atualização da elite brasileira e que devia ser praticado por pessoas de igual condição social (FRANCO, 2007: 62-63). Essa primeira tendência, no entanto, não impediu a formação de uma outrafrente para a gênese de novos clubes no país; a segunda tendência era na verdadea contra-tendência da primeira, obedecendo aos interesses das camadas médias ebaixas da população, as quais viam no futebol uma maneira de afirmarem suaexistência e identidade que a aristocracia tentara negar. Além do mais, o futebol éum esporte simples de ser praticado, mesmo sem os recursos ideais (bolas, campoe equipamentos); a improvisação foi um importante facilitador para a disseminaçãodo esporte nos grupos marginalizados. Desse movimento surgiram vários clubes poriniciativa de operários, artesãos, comerciantes e imigrantes das grandes metrópoles(Internacional, 1909; Corinthians, 1910). As fronteiras sociais do futebol começaram a ser transpostas desde cedo com a formação de times improvisados pelos setores populares, que passaram da curiosidade ao mimetismo. (...) O futebol dos grupos subalternos tornava-se um modo de representação da existência negada em outros campos sociais. E alastrava-se pelos subúrbios proletários (FRANCO, 2007: 63). Por outro lado, houve também outra manifestação dentro da segundatendência na gênese de clubes. Essa manifestação - que também quebrava asbarreiras sociais erguidas inicialmente pelo futebol - ocorria quando a iniciativa daformação de clubes não partia diretamente dos indivíduos das classes populares, esim das empresas e fábricas que estes indivíduos pertenciam (Bangu, 1904;Juventus, 1924). Os clubes vinculados a empresas recrutavam operários para seustimes e, com freqüência, os bons atletas gozavam de diversos privilégios nasempresas, dedicando-se cada vez mais para as tarefas do time do que para aquelasatividades que, teoricamente, haviam sido contratados. Processo semelhante aoocorrido na Inglaterra décadas antes. 27
  28. 28. Era o início de um processo de profissionalização do esporte, “o amadorismoera dissimulado por meio de gratificações oferecidas aos jogadores de origemoperária” (FRANCO, 2007: 64). A partir de 1913 a Liga Paulista de Futebol (naépoca chamava-se APSA – Associação Paulista de Sports Athléticos) decidiu cobraringressos para seus jogos, rendendo recursos extras aos clubes que agorapoderiam oferecer gratificações a seus atletas. Desse momento em diante diversosjogadores que não originários da elite passaram a figurar nas escalações de timeselitistas, ou seja, a competitividade dos clubes tradicionais abria lacunas no seuexclusivismo e permitia certo afrouxamento das barreiras sociais. Devemos ressaltar, também, outro processo histórico-social que teve papelfundamental para a formação de novos clubes brasileiros: o intenso fluxo migratóriode europeus. A abolição da escravatura e a conseqüente necessidade de mão deobra assalariada (após 1888), assim como a deflagração da Primeira GuerraMundial (1914-17), fez do Brasil um dos principais pólos de recepção de imigranteseuropeus abnegados e sem recursos (aqueles com melhores condições, na maioriados casos, imigravam para os Estados Unidos). O processo migratório culminou no branqueamento da população brasileira(em todas as classes sociais) e a transformarão da região centro-sul em um grandemosaico de colônias européias. A população imigrante buscava a construção de sua identidade e meios deascensão social (em um pais distante e de cultura muito diferente daquela em seupais de origem), levando-nos a supor que a adoção do futebol tenha sido encaradacomo plataforma para atingir esses objetivos e como adaptação à cultura local.Nesse contexto sugiram alguns dos clubes mais famosos do Brasil, formadosinicialmente pela aglutinação de alemães, italianos, portugueses e espanhóis,respectivamente: Grêmio (1903) e Coritiba (1909); Guarani (1911), Juventude (1913)e Palestra Itália (1914, que posteriormente se dividiriam entre Palmeiras e Cruzeiro);Vasco da Gama (1898, departamento de futebol em 1915) e Portuguesa deDesportos (1920); Jabaquara (1914). Se inicialmente o futebol tivesse personalidade elitista, características demodismo importado, e funcionava como afirmação das famílias nobres e exclusãodas camadas subalternas, todo esse cenário havia mudado radicalmente já na 28
  29. 29. primeira década do século XX. A ingressão dos grupos marginalizados deu aofutebol novos campos sociais. Para as camadas populares o futebol exercia função completamentediferente, seja como ferramenta de ascensão social ou como exercício lúdico. Aosindivíduos mais talentosos o futebol passou a ser um mecanismo para conseguirmelhores empregos, gratificações e destaque social (o cerne do atual mercado dejogadores); enquanto que a imensa maioria, menos talentosa, descobriu no futebolum passatempo lúdico, fácil de praticar por permitir o improviso e o uso de espaçospúblicos das metrópoles que se formavam. Mas para todos os grupos - ricos e pobres, talentosos ou não - ou o futebolera o espaço para a produção simbólica, de identidade e de sociabilidade. Através do futebol, a sociedade brasileira experimenta sentido singular de totalidade e unidade, revestindo-se de universalidade capaz de mobilizar e gerar paixões a milhões de pessoas. É nesse universo que se observam, com freqüência, indivíduos cuja diversidade está estabelecida pelas normas econômicas e sociais de comunicação que nos leva a abraços e conversas informais nos estádios, ruas, praias e escritórios (HELAL, 1997: 25). 1.4. Esporte e veículos de massa A importância que o futebol adquiriu na sociedade contemporânea é visívelaos nossos olhos, sua quase onipresença faz com que ele seja praticado, assistido ediscutido em todas as classes e campos sociais. E, se hoje o futebol tem tamanha abrangência, os meios de comunicação demassa, sobretudo o rádio e a televisão, tiveram (e ainda têm) papel fundamental,pois ao mesmo tempo garantem o acesso fácil ao espetáculo esportivo, comotambém hiperbolizam e ratificaram seu caráter puramente espetacular. O casamento entre o futebol e os veículos de comunicação consolidou-se nadécada de 30, período no qual o futebol ganhava muito espaço nacionalmente e 29
  30. 30. internacionalmente (1930 foi o ano da primeira Copa do Mundo) e também quando oBrasil vivia um novo momento político com a posse do jovem Getúlio Vargas. Opresidente, que colocara fim a república café-com-leite, encarava um país tentandose reinventar depois que a crise de 1929 havia desvalorizado completamente seuprincipal ativo econômico, o café. A política popular de Vargas encontrou no rádio eno futebol dois importantes pilares para sua sustentação ideológica. A primeira transmissão integral de um jogo de futebol ocorreu em 1931, emum jogo entre a Seleção de São Paulo contra a Seleção do Paraná. Os narradoresesportivos, por sua vez, tinham como desafio criar no imaginário popular a “imagem”da disputa, apesar de não possuírem esse recurso tecnológico. A solução, ou aconseqüência, foi à criação de uma linguagem e dinâmica própria para astransmissões, a qual por essência precisava transmitir emoção para suprir acarência de referências visuais. Essa linguagem própria, como representação daidentidade e diferenciação da manifestação esportiva, colaborou ainda mais parafazer do esporte um espetáculo. Brincando com as palavras, criando neologismos e empregando um ritmo veloz e de emoção, os narradores esportivos encontraram fórmulas que caíram no gosto popular, tanto quanto o futebol. O rádio buscou através dos vários recursos da linguagem radiofônica (...) levar a magia do espetáculo ao ouvinte, por meio do apelo a sua imaginação. O objetivo era levar o ouvinte a ver praticamente outro jogo, mais vibrante, que o prendesse ao rádio durante os 90 minutos (ALMEIDA; MICELLI, 2004: 10). O grito de “gooooool” esticado, uma das mais importantes características datransmissão radiofônica do futebol, foi inventado para ganhar tempo e descobrir oautor do lance. Essa forma de narrar é tão marcante que depois fora incorporadopela televisão, mesmo sem a necessidade inicial. O fenômeno lingüístico é arepresentação consolidada da catarse coletiva gerada pelo gol, além de ter a funçãode fazer com que o ouvinte distante corra para perto do aparelho (de rádio ou da TV)para saber mais detalhes do lance e da partida. 30
  31. 31. Antigamente as irradiações eram feitas pelo telefone e os locutores saíam correndo do campo para contar os lances do jogo (...). Só depois as transmissões esportivas viraram “óperas sonoras”, superando e trazendo uma outra conotação para o próprio espetáculo (BAUMWORCEL, 1999: 61). A partir de 1932 o governo federal começa a distribuir concessões de canaisde rádio a particulares, além do mais, é nesse período que as emissoras sãoautorizadas a veicular anúncios publicitários. Esses dois fatos, somados, mudariacompletamente o percurso da comunicação de rádio e a propagação do futebol. Getúlio iniciou um projeto de expansão do rádio a várias regiões do Brasil,num processo de aparente modernização nacional, onde os veículos de massatinham papel fundamental: “à radiofonia está reservado o papel de interessar a todospor tudo quando se passa no Brasil” (HAUSSEN, 1997: 23). Já a publicidade, que em sua essência mais primitiva objetiva a venda, fazdos veículos um meio para atingir esse objetivo. No entanto, antes de se tornaremagentes de consumo os veículos precisam ser objetos de consumo. Dessa forma, apublicidade ao mesmo tempo exigia e garantia a profissionalização do rádio (e dosveículos de comunicação em geral), o futebol se tornara fonte de audiênciagarantida e o presságio de recursos que melhorariam a transmissão do espetáculo,e que conseqüentemente mobilizaria ainda mais pessoas. O futebol, portanto, foraretro-alimentado pela publicidade num ciclo vicioso e virtuoso. É sabido que a publicidade tem papel essencial na sociedade moderna, poisalém de diversos papéis sociais (como a informação, o estímulo a concorrência e atéo entretenimento), é também fonte de recursos que garante a liberdade deexpressão para os canais de comunicação. Fato que, antes da consolidaçãodefinitiva da democracia (1989), fora fundamental no decorrer dos acontecimentospolíticos do Brasil. A publicidade sempre esteve presente no escopo da mídia, formando com a informação e o entretenimento o tripé da sua programação e do seu discurso. Inclusive, é preciso reconhecer que a publicidade exerceu um papel importante na construção da sociedade moderna, pois representava uma fonte para o auto-financiamento da mídia, garantindo-lhe relativa 31
  32. 32. autonomia em relação aos governos e grupos dominantes, autonomia essa consolidada na inestimável “liberdade de imprensa” (PIRES, 2007: 7). Imagem 3: Anúncio (parcial) do canal esportivo “ESPN Brasil”, em busca de novos anunciantes, no jornal publicitário “Meio & Mensagem”, focado na qualidade da programação. Antes de ser agente de consumo, o jornalismo esportivo se consolida como objeto de consumo (Agosto/2010). Apesar de parecer muito claro os benefícios trazidos com as transmissõesdas partidas de futebol (em todas as esferas da sociedade), no início os radialistasencontraram muitas barreiras. Acreditava-se que as transmissões iriam afastar ostorcedores dos estádios, cuja renda era a principal fonte de recursos dos clubes. Noentanto, a imprensa a popularizou ainda mais o esporte e hoje é a base da indústriaesportiva. A educação dos gostos é o ponto-chave na constituição de um mercado. Nesse caso, o início da imprensa esportiva foi fundamental para educar o público com novas regras, práticas e para construir os ídolos locais que realimentam toda a indústria (SOARES, A.; VAZ, 2009: 501). Graças à comunicação o esporte ganha “informação” e “exposição”; ainformação faz com que a imprensa estabeleça papel didático com o público,ensinando regras, comportamentos e linguagem do esporte, o que incentivam aindamais a prática e ao consumo do próprio espetáculo. Paralelo a isso, a intensaexposição e alcance da mensagem culminam na ativação da economia esportiva 32
  33. 33. através de patrocínios, publicidade e outros retornos financeiros. Por fim, aassociação do esporte à televisão e ao capital proporciona condições para oaperfeiçoamento técnico e estético do esporte, ora por meio do acesso à tecnologiaa serviço do esporte (materiais, condições de treinamento), ora através detecnologia de transmissão (equipamentos de ponta) que possibilita o acesso àinformação e a imagens espetaculares. Sobre isso, a tensão gerada entre ainformação pura e a hiperbolização do espetáculo, PIRES (2007) discorre: Apesar do seu discurso pretensamente informativo-educativo, os meios de comunicação não vacilam em afrouxar o rigor com que deveriam lidar com o conhecimento sobre esporte, em favor da sua espetacularização, mesmo ao arrepio de qualquer ética profissional (PIRES, 2007: 7). No entanto, é importante ressaltar que os veículos de comunicação exercempapel muito mais determinante na percepção das pessoas do que a simplescirculação pura de um conjunto de informações. A mídia vem exercendo fundamentalmente uma função de agendamento do debate sobre esporte, isto é, ao proceder a escolha dos assuntos, do tipo de abordagem e da forma como repercute aquilo que veicula, ela define sobre o quê devemos falar e ter opinião, além de, no limite, formar a nossa opinião sobre os temas que elege e faz circular (PIRES, 2007). A teoria do Agenda Setting (MCCOMBS; SHAW, 1972) se aplica aqui pois, aomediar o acesso a realidade concreta, a mídia a recria artificialmente através deseus recortes subjetivamente escolhidos, suprimindo ou exaltando fatos ecaracterísticas da manifestação esportiva de acordo com seus interesses edemanda. A estratégica de síntese da imprensa esportiva, com os “melhoresmomentos”, é um bom exemplo disso; assim como a intensa cobertura jornalísticados clubes com maior torcida em detrimento das informações dos clubes de menorexpressão. Dessa forma, para conseguir vender-se e também ser agente de promoção doconsumo de bens concretos e simbólicos que veicula, a mídia adota estratégias que 33
  34. 34. tornam superlativas algumas características de seus objetos de observação, o quecria um processo de espetacularização da (hiper)realidade, na qual é incentivado oseu consumo para suprir essa necessidade artificialmente produzida. Mecanismos psicológicos de identificação com os ídolos esportivos, por meio das imagens vencedoras que são construídas pela mídia, ajudam a criar necessidades de consumo no imaginário dos torcedores, que para satisfazê-la/s procuram comportar-se como seus ídolos, adquirir os produtos e os símbolos a eles relacionados, enfim, “assumem” os valores que eles ajudam a difundir (PIRES, 2007). No final da década de 40 já havia essa demanda cultural latente pelo futebole, para supri-la, começaram a surgir diversos programas sobre futebol, os quaisinaugurariam uma categoria jornalística (e de entretenimento) muito representativanos dias de hoje. O primeiro programa, chamado de “Filmando a rodada” e criadoem 1948 pela Rádio Pan-americana (hoje Jovem-Pan), apenas retransmitia osprincipais momentos do jogo. O surgimento desses programas atende a doisobjetivos: “atrair a audiência masculina para outros horários, além das tardes dedomingo e trazer para as rádios novos anunciantes e patrocinadores.” (ALMEIDA;MICELLI, 2004: 15) Mas apesar da inegável contribuição dos meios de comunicação para apopularização do futebol, segundo FRANCO (2007), o futebol possui característicasintrínsecas que já garantiriam sua espetacularização, com ou sem o auxílio da mídia.O papel da mídia, portanto, seria apenas criar a linguagem e significação própria, aqual passaria a ser absorvida e replicada pela população. Mas se o futebol pôde ser adaptado ao capitalismo atual pela televisão, é porque seus traços essenciais permitem isso. O futebol tem profundos e inegáveis traços antropológicos, religiosos e psicológicos, que para serem comunicados fizeram dele uma linguagem. Na essência, ele é espetáculo. E muito antes da televisão colocá-lo ao alcance de milhões de pessoas (FRANCO, 2007: 182). 34
  35. 35. Muitas vezes a mídia adquire papel opressor das informações no âmbitoesportivo, seu discurso adquire a percepção de verdade empírica ou de modeloúnico de assunto a ser reproduzido. Fato que, segundo ECO (1984), em “a falaçãoesportiva”, contribui enormemente para que o assunto futebol seja consideradointrínseco à cultura brasileira, não cabendo contestação para tal. Esse possívelpapel opressor da comunicação esportiva, enquanto fábrica de assunto social (e desimulacros de desempenho físico), talvez seja o principal malefício da mesma. Essa prática, que ECO (1984) chamou de “opressora”, atingiu seu augedurante a década de 50. Naquela época era comum que pequenas emissoras locaise/ou rádios amadoras retransmitissem as partidas de futebol, algumas vezes atépara alto falantes instalados nas praças centrais. Imagem 4: Torcedores acompanhando, pelo rádio e pelo placar do jornal “Última Hora”, a final da Copa entre Brasil e Suécia (Acervo do jornal Última Hora/Arquivo público do Estado de São Paulo) Essa rede, totalmente informal, amadora e sem contrato entre as emissorasou pagamento de direitos autorais, garantia que o futebol atingisse todo o Brasilatravés de um efeito-dominó de retransmissão. Durante a Copa do Mundo de 1958as ondas curtas da Rádio Bandeirantes, retransmitidas, chegou de norte a sul dopaís com audiência média de 85%. “No jogo contra a Suécia (decisão da Copa) aaudiência da Bandeirantes foi de 92,5%” (SOARES, E; 1994: 55). 35
  36. 36. O futebol e rádio emergiram no país quase que simultaneamente e transformaram as transmissões das partidas em espetáculo de massa. (...) Sua mobilidade, praticidade e acessibilidade por parte do público fizeram dele o grande parceiro do futebol. O rádio levou o esporte a todo o Brasil, mas foi mais além. Contribuiu, de forma definitiva, para formar novos torcedores e realimentar a paixão de várias gerações (ALMEIDA; MICELLI, 2004). Podemos notar esse possível papel opressor dos meios de comunicação,aplicado ao futebol, quando notamos a presença de torcidas que são muitopopulares fora de seus estados de origem. No estado do Paraná (segundo Instituto Paraná Pesquisa)6, a maior torcida éa do Corinthians (SP), em detrimento aos tradicionais clubes locais. Para se ter umaidéia, das 8 maiores torcidas do estado, 5 são de clubes de SP ou do RJ: oCorinthians lidera (12,5%) e o Atlético-PR vem a seguir (9,6%), já o Coritiba (7,5%)disputa um empate técnico com outro paulista, o Palmeiras (7,6%); o Paraná Clubeé apenas oitavo colocado (3,2%), sendo superado pelos “estrangeiros” São Paulo(6,5%), Flamengo (6,2%) e Santos (4,3%). Diversos motivos podem explicar talfenômeno, não apenas a comunicação, mas sem dúvida o rádio e a televisãotiveram papel fundamental para a escolha dos torcedores paranaenses, à medidaque as transmissões esportivas dos últimos 25 anos preteriam os clubes regionaisem favor daqueles de SP e do RJ; conforme relata o site regional Paraná Online: A mídia teve um papel determinante para que os torcedores não aderissem ao futebol paranaense, (...) em algumas regiões (...) não era possível sintonizar as rádios paranaenses e o que era ouvido eram rádios do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em relação à televisão é a mesma coisa. Os jogos que eram transmitidos na época eram de paulistas e cariocas (MAIA, 7 J. C; 2009 in site PARANÁ ONLINE) .6 In: Site Uol Esporte, 21/12/2008.7 In Site Paraná Online, 06/02/2009. 36
  37. 37. Na região Nordeste esse fenômeno também se repete, mas de forma aindamais notória. A torcida do Flamengo no Nordeste, com quase 24% da preferência,representa mais do que o triplo do segundo colocado na região, o Corinthians, queapesar de também não ser regional, conta com 7,4% dos torcedores. O Flamengo,aliás, possui mais torcedores no nordeste (11,93 milhões) do que em qualquer outraregião, inclusive no sudeste (11,45 milhões), constituindo portanto uma parcelamuito representativa para o total do clube e um importante ativo econômico (graçasao potencial de consumo) fora dos limites regionais. O time nordestino de maiormassa é o Sport, com 6,2%; número praticamente idêntico ao do São Paulo, quetem 6,1% dos torcedores na região (DAMATTA, 2010). Há várias explicações para tal cenário, uma delas diz que durante a ditaduramilitar todos os cinemas eram obrigados a transmitir, nos primeiros 15 minutos, osmelhores momentos dos jogos pelo país. Com essa iniciativa o governo militarbuscava manter a ordem, o bem-estar social e o otimismo coletivo. Não há provaspara os argumentos a seguir mas, segundo a imprensa esportiva, o Flamengo (timemais popular do país) teria sido privilegiado na montagem desses pequenos filmes-noticiários, tanto em exposição quanto em construção de imagem, o que teriainfluenciado diretamente na percepção e consequentemente na escolha do clube,sobretudo na região nordeste. Outra explicação razoável, e ainda também com osmeios de comunicação como os principais agentes, é a de que o campeonatocarioca fora transmitido por muitos anos para a região nordeste, em detrimento doscampeonatos locais. Tal explicação é tão plausível que até hoje, no ano de 2011,alguns times paulistas buscam a transmissão de seus jogos para a região nordeste.8O futebol se tornou poder. O que se observa nesse percurso de pouco mais de um século de futebol no Brasil é um deslocamento radical de finalidade. De diversão descompromissada e elitizada, o principal esporte brasileiro passou a fenômeno de massa e, na fase atual, a produto de consumo midiatizado (GURGEL, 2006: 17).8 In: Site Blog do Perrone, 05/04/2011. 37
  38. 38. 2. O FUTEBOL COMO NEGÓCIO 2.1. Um espetáculo lucrativo “Aqui o futebol tem tudo que um negócio precisa para prosperar: um enormepúblico cativo, mão de obra barata, publicidade de graça e praticamente nenhumconcorrente no seu ramo, o do esporte profissional” (VERÍSSIMO, 2010: 87-8). Muito antes do termo “marketing esportivo” ser inventado, e até mesmo antesda profissionalização do futebol, já havia no Brasil iniciativas embrionárias paratornar o esporte do povo em instrumento rentável de capital, seja em torno de simesmo ou através da associação com produtos e marcas. O primeiro caso, famoso e de grande repercussão, no Brasil, ocorreu nadécada de 30, com o naming do jogador de futebol mais famoso da época. Aempresa, Lacta, queria relançar uma barra de chocolate e, para isso, nada melhorque associá-la a um ídolo popular. O ídolo, Leônidas da Silva, era o autor doprimeiro gol brasileiro em Copas do Mundo, o inventor do gol de bicicleta e, segundoalguns especialistas esportivos, o maior jogador brasileiro durante o período queantecedeu Pelé (primeira metade do século XX). A ideia era associar o produto aojogador através do nome do produto, e apelido do craque: Diamante Negro. A Lacta (...) usou o codinome dado ao jogador por um maravilhado jornalista francês: Diamante Negro. O sucesso da fusão ídolo do esporte/produto ajudou a transformar a Lacta numa gigante da indústria alimentícia no Brasil, onde o Diamante Negro, em pleno século XXI, ainda é uma das marcas mais consumidas (AREIAS, 200: 17). 38
  39. 39. Imagem 5: Reprodução de página do jornal “S. Paulo Sportivo”, em 1905, mostrando que apesar de se orgulhar de ser amador, o futebol já era explorado economicamente. Ao longo do século XX, o futebol deixou de ser apenas um esporte lúdico,cujo território era dominado exclusivamente pela paixão e euforia quase infantil. Ofutebol hoje movimenta muito dinheiro, em diversas formas, desde diretamente nocampo (como patrocínios e venda de jogadores), até com a força de sua torcida(produtos licenciados) e outras formas indiretas. Clubes se tornaram marcas,jogadores se tornaram ícones, e aos torcedores coube o papel (ora imposto pelosistema, ora por ele criado) de consumidores desse processo. Atualmente, o esporte passa por este processo de mercadorização, tendo se tornado um produto a ser preferencialmente consumido através dos meios de massa. (...) Junto com ele, disponibilizam-se e consomem-se produtos, símbolos e estilos de vida (PIRES in GRUNENNVALDT, 2007: 7). Os números do futebol são impressionantes, segundo GURGEL (2006), amaioria das pesquisas indica que o esporte movimente mundialmente acima de US$210 bilhões ao ano. Mas, “João Havelange, ex-presidente da Fifa, já deu entrevistascravando em US$ 225 bilhões o poder econômico desse esporte. Outros falam emUS$ 260 bilhões” (GURGEL, 2006: 96). Todavia, o Brasil, conhecido mundialmente 39
  40. 40. como “o país do futebol”, apresenta números muito mais modestos. “Do totalmundial, em média, o país responde por volta de 1% a 4% desse total, ou seja. DeUS$ 2 bilhões a US$ 7 bilhões” (2006: 97) As possibilidades de ganhos com os eventos se ampliaram muito: cotas de televisão, patrocinadores de eventos e campeonatos, imagem dos atletas, marketing esportivo disseminando os valores do esporte, etc. Um maior volume de dinheiro significa mais investimentos e uma ampliação das possibilidades de lucro e empregabilidade (SOARES, A; 2009: 503). O engajamento despertado pelo esporte bretão começou a aglutinar valor denegócio à medida que seu processo de espetacularização se consolidava, o qualfora potencializado por diversos fatores. Sendo o mais notório deles, sem dúvida, aação dos meios de comunicação. Essa criação de valor passa, por exemplo, pela potencialização da torcida, antes limitada aos torcedores do estádio, quando as TVs passaram a massificar a transmissão do evento, (...) com isso, é incorporado o telespectador, o torcedor da poltrona. Outra constatação desse processo (...) foi o potencial propagandístico dos times de futebol, o que deu início a patrocínios a clubes, jogadores e anúncios em estádios (GURGEL, 2006: 43). Podemos elencar alguns fatores, anteriores a consolidação dos meios decomunicação de massa, que podem ser considerados o pontapé inicial do processode capitalização do meio esportivo brasileiro. Essas ações, no início do século XX,não podem ser vistas unicamente como o cerne do processo lucrativo do futebol,mas também como seu processo de profissionalização. Como seria de se esperar em sociedades crescentemente mercantilizadas, o futebol de jogo estudantil foi se tornando atividade profissional. Ele passava a ser mais um produto e seus produtores mais um tipo de operário. Ou produtos eles próprios (FRANCO, 2007: 43). 40
  41. 41. Como vimos no capítulo anterior, a partir de 1913 a Liga Paulista de Futebolpassou a cobrar ingresso para os jogos, o que garantiu renda assegurada aosclubes e o pagamento organizado de gratificações aos jogadores. No entanto, “muitos historiadores colocam como fator central na passagempara o modelo profissional a conquista do título fluminense pelo Vasco da Gama, em1923” (GURGEL, 2006: 19). Essa conquista é histórica, pois une no mesmo feito oprimeiro título de um time remunerado, o qual já se considerava profissional, e queera formado por jogadores mulatos, negros e pobres. Ou seja, foi o primeiro títulovencido por jogadores antes renegados socialmente (por sua raça ou por sua origemnão aristocrática) e que através de seu talento individual puderam ascenderfinanceiramente e socialmente. Criava-se aqui um movimento de aspiração socialque permeia o sonho da maioria dos garotos pobres do Brasil: querer se tornarjogador de futebol e mudar de vida. O processo de espetacularização do futebol, no entanto, apresenta algunsmalefícios ao esporte se consideramos sua origem recreativa. Quanto maior a espetacularização do esporte, maior a dimensão econômicaque o esporte pode alcançar e, dessa forma, ele se distancia de seu princípio inicialde jogo, o da celebração lúdica e amadora, passando a ser pautado pelaperformance e pelos resultados. Vemos esse fenômeno também emclubes/campeonatos que tiveram o amadorismo como gênese e característicaprincipal. A Copa Guaraná Antártica (que nasceu como um campeonato juvenil decolégios) e a Copa Kaiser de Futebol Amador cresceram tanto que, hoje, possuempatrocínios e até cobertura jornalística e hoje são pautadas pelo desempenho,perdendo quase que totalmente seu caráter lúdico. 41
  42. 42. Imagem 6: Reprodução de foto oficial da Seleção Brasileira de Futebol para a Copa de 90, onde jogadores escondem o patrocínio da Pepsi por estarem descontentes com os valores negociados. A associação do futebol com os negócios não se isenta de polêmica Visto essa constatação, a profissionalização do futebol e a associação domesmo com a busca de capitais nem sempre é vista com bons olhos, principalmentepara os torcedores mais apaixonados e românticos. Estes que são, justamente,aqueles com maior afinidade ao esporte e aos seus clubes, consequentementeaqueles que teriam maior propensão à compra de produtos. O processo deespetacularização/capitalização do futebol, portanto, cria um ambiente praticamentecontraditório do ponto de vista do torcedor/consumidor, pois ao mesmo tempo osapaixonados almejam o resgate do caráter lúdico e romântico do esporte(principalmente no que tange a venda de atletas, que contraria o jogar por “amor àcamisa”) e o resgate de valores e identidade clubistica (os quais muitas vezes sãonegligenciados em favor de uma negociação lucrativa); por outro lado a paixãoinserida no torcedor é potencializada pela espetacularização na qual ele foraimpactado ao longo de sua vida, além do mais esse mesmo torcedor espera e cobrao comprometimento dos atletas, a busca por resultados e a disponibilidade deprodutos/serviços que o permitam participar do espetáculo (camisas do clube,ingressos para o jogo). 42
  43. 43. Diferentemente de outras instituições, o futebol reúne muita coisa na sua invejável multivocalidade, já que é jogo e esporte, ritual e espetáculo, instrumento de disciplina das massas e evento prazeroso (DAMATTA, 1994: 12). O Estatuto do Torcedor, lei federal de 2003, passa a encarar definitivamente otorcedor como um consumidor, o qual passa a ter como direito receber um serviçode qualidade: o jogo comprado. Segundo a lei, “torcedor é toda pessoa que aprecie,apóie ou se associe a qualquer entidade de prática desportiva do País e acompanhea prática de determinada modalidade esportiva” (BRASIL, 2003). A lei permeiadesde acomodações e ingressos demarcados, como transporte, transparência deregulamento e arbitragem esportiva, assim como o direito a reclamação caso sinta-se lesado de alguma forma. “É direito do torcedor que a arbitragem dascompetições desportivas seja independente, imparcial, previamente remunerada eisenta de pressões” (BRASIL, 2003). E, por mais que o torcedor não admita tal fato, ele se torna comprador (comdireitos e deveres) de um espetáculo armado, não em sua conclusão edesenvolvimento, mas em sua razão de existir. Assim como os consumidores decinema, teatro e outras artes, o torcedor compra um espetáculo narrativo de finaldesconhecido; a diferença entre os primeiros está na unicidade da narrativa (quenunca se repetirá da mesma forma) e na imprevisibilidade de sua conclusão(resultado desconhecido). Segundo artigo publicado por VERÍSSIMO (1996), no Jornal do Brasil, ofutebol hoje vive um grande dilema, assim como todos os outros esportes de massado mundo. Segundo ele, o futebol está no ramo do entretenimento, concorrendo comoutros espetáculos diversos, desde o entretenimento de contemplação presencial(como o teatro, dança e outras artes) até o entretenimento através da televisão(filmes, programas, etc.). Para sobreviver o futebol precisa ser mais atraente. Noentanto, nenhum torcedor diria que se “entretém” com seu time, que acompanha umjogo como quem acompanha uma ópera. O torcedor vai a um jogo “para dilacerar ouser dilacerado, vai para a guerra, mesmo que quase sempre uma guerra metafórica”(1996: 3). Dessa forma, para o espetáculo futebolístico ser atraente, o mesmo nãopode ter nenhum atrativo de espetáculo, nenhum indício de montagem ou faz de 43
  44. 44. conta. Há de ser uma “séria e quase trágica competição por um cetro, não umaexperiência estética, mas a busca do coração do inimigo e da glória eterna, mesmoque no ano seguinte todos voltem a ter zero pontos” (1996: 3). GURGEL (2006) diz que entre 1950 e 1958, período compreendido entre omaior trauma brasileiro do futebol (a derrota na final da Copa do Mundo, noMaracanã) e o primeiro título mundial, viu-se uma grade mudança narrativa e deperspectiva nacional em relação ao futebol, que passou de representação datragédia e sofrimento ao clássico apogeu heróico. Segundo o autor, a televisão foi oprincipal responsável por essa construção da hiper-realidade e posteriormente pelamudança de perspectiva, a medida que com o fortalecimento da mesma “a produçãode jogos como batalhas épicas, e de jogadores como heróis, somente se potencializou.Sem dúvida, uma nova fase começava a se colocar à frente dos negócios do futebol. Eas mídias não ficariam somente assistindo.” (GURGEL, 2006: 29). Elas seriam partesintrínsecas do processo. Para GALEANO (2004) a história do futebol é uma triste dicotomia entre oprazer e o dever. Do “prazer”, pelo amor com que o esporte é jogado nos inúmeros“Maracanãs” existentes em cada bairro das cidades brasileiras e pelo “dever”, peloalto profissionalismo e inúmeros interesses comerciais, com que são tratados osatletas e os agentes envolvidos no esporte mais popular do mundo. Essa estrutura narrativa dicotômica - entre prazer e dever, paixão e negócios,jogador e atleta profissional – é fruto de uma não definição entre a relação objeto eobservador do espetáculo, que Umberto ECO (1984) chamou de “esporte aoquadrado”. O esporte é elevado ao quadrado (...) quando o esporte, de jogo que era jogado em primeira pessoa, se torna uma espécie de discurso sobre o jogo, ou seja, o jogo enquanto espetáculo para os outros, e depois o jogo enquanto jogado por outros e visto por mim. O esporte ao quadrado é o espetáculo esportivo (ECO, 1984: 222). A espetacularização esportiva ratifica o papel do mais importante personagemdessa estrutura narrativa: o atleta, o herói, a representação do povo. Ainda segundo 44
  45. 45. ECO (1984), o esporte ao quadrado, faz do atleta um membro de instrumentaçãototal, praticamente um monstro que se destina a um único fim, assim como osgladiadores romanos. O atleta é um ser que hipertrofiou um único órgão, que faz de seu corpo a sede e a fonte exclusiva de um jogo; o atleta é um monstro, é o Homem que Ri, é a gueixa do pé apertado e atrofiado destinada a instrumentalização total (ECO, 1984: 222). 2.2. Produto de exportação É inegável, portanto, que hoje os atletas configuram a engrenagem principalpara o funcionamento e fonte de recursos dos clubes; seja por seu papel como“meio de produção” no espetáculo futebolístico, como “bem de consumo” através daassociação do ícone com produtos/marcas e elemento de engajamento social, atémesmo através do papel de “propriedade privada”, estabelecido quando hátransferência para outro clube (venda da propriedade) ou mesmo o ressarcimento aoclube quando o atleta está servindo a seleção nacional ou emprestado a outro clube(aluguel da propriedade). Para se ter uma ideia, recentemente a FIFA divulgou os valores pagos aosclubes por terem liberados seus atletas, ou “suas propriedades”, para a disputa daCopa do Mundo de 2010. Campeonato, aliás, de apenas um mês de duração e queparalisa todos os outros campeonatos locais. Ou seja, nenhum clube foi lesado pelaausência de seus “meios de produção”. A cifra alcançou o valor de 40 milhões deEuros; valor que, apesar de alto, não chega nem perto dos 2,6 bilhões de Eurosarrecadados pela FIFA em receitas comerciais com o evento. (FIFA, 2011) 9. Para WITER (1996) a influência do mundo capitalista alterou a relação entreatletas e clubes. O saudosismo com que é lembrada a relação de parceira entreambas as partes fundamenta-se nos milhões (de dólares) que (hoje) são9 FIFA apud Site Futebol Finance, 07/01/2011. 45
  46. 46. necessários para se manter um jogador de alto nível no país. Em contra partida, avenda desses atletas passou a ser uma das principais estratégias de negócio dosclubes brasileiros (1996: 15). Em 2004, juntamente com os direitos de televisão, a venda de jogadores jáera o principal ativo econômico dos maiores clubes do Brasil: As transferências de atletas representaram R$ 191,97 milhões, ou 30% do faturamento dos 19 maiores clubes – Foram R$ 825,7 milhões (como faturamento total) de acordo com os balanços referentes a 2004. O dinheiro da televisão respondeu por 29%; patrocínios e publicidade, por 11%; e bilheteria, por apenas 7% (KISCHINHEVISKY in GURGEL, 2006: 190). De fato, “para o Brasil os atletas profissionais tornaram-se mesmo o principalproduto de exportação. Em 2007, segundo o Banco Central, entraram no país cercade 195,2 milhões de Euros só em negociações de jogadores”. (SOARES, A.; 2009:502) Há várias causas para esse o fluxo migratório do futebol brasileiro,relacionadas às especificidades locais e externas. Podemos notar que o mercadoempregador do futebol tem uma dinâmica completamente diferente se comparadacom outros setores da economia nacional, o que pode ser entendido como umpotencializador para as transferências internacionais. “Quem nunca sonhou em serum jogador de futebol”, não é verdade? A famosa música, “É uma partida de futebol”(1996), da banda Skank, reflete muito a realidade no que tange a aspiração daimensa maioria dos meninos brasileiros. No entanto, pouquíssimos conseguemrealizar o sonho. É uma relação clara entre oferta e demanda, são muitos candidatospara poucas vagas. Notamos que o número de postos de trabalho, para atletas profissionais bemremunerados, é pequeno e não se expande na proporção do crescimento econômicomundial e da multiplicação de escolas e centros de treinamento para formação deatletas no Brasil. Esse cenário cria uma competição interna muito grande e viabilizaa saída de trabalhadores/atletas competentes para ocupar postos de trabalho em 46
  47. 47. mercados do exterior, principalmente em locais onde o mercado futebolístico aindacarece de mão de obra qualificada. Imagem 7: Principais destinos dos jogadores brasileiros em 201010 Tanto que, em 2007, o país que mais recepcionou atletas brasileiros foiPortugal (com 209 jogadores), enquanto que Ásia foi segundo continente que maisempregou futebolistas brasileiros (com 222 atletas), perdendo apenas para aEuropa. Esses dados contrariam a percepção coletiva de que a maioria dosjogadores brasileiros migra para jogar em tradicionais mercados europeus, como oinglês, italiano e espanhol11. As transações internacionais milionárias são exceções,ocorrendo apenas com atletas de alto rendimento e já conhecidos no futebolbrasileiro. O mercado exportador de atletas, no Brasil, é focado em volume, não emvalor. Outro fator interno e que, segundo os clubes, teve grande influência no êxodode atletas, foi uma nova lei sancionada em 1998. A lei conhecida pelo nome de seu10 In: Site ESTADÃO, 12/04/201111 In: Site UOL Esporte, 22/12/2008 47
  48. 48. criador - “Lei Pelé” (BRASIL, 1998) - instituía, entre outras coisas, o passe livre. O“passe”, que antigamente era o vínculo estabelecido entre o jogador e o clube, foisubstituído por um vínculo trabalhista e desportivo, permitindo que o atleta sobcontrato fosse contratado por outra equipe mediante o pagamento de uma clausulapenal. TRANSFERÊNCIAS INTERNACIONAIS DE JOGADORES BRASILEIROS Ano Nº de transferências Ano Nº de transferências 1985 64 1998 530 1986 96 1999 658 1987 199 2000 701 1988 227 2001 736 1989 132 2002 665 1990 136 2003 858 1991 137 2004 857 1992 205 2005 804 1993 321 2006 851 1994 207 2007 1085 1995 254 2008 1176 1996 381 2009 1017 1997 556 2010 1029 Tabela 1: Transferências internacionais de jogadores brasileiros entre 1985 e 2010 12 13 Os clubes alegam que a Lei Pelé os enfraqueceu, uma vez que não haviauma legislação especifica para resguardar seus interesses e assegurar o vínculo dosjogadores. No entanto, segundo os atletas, a Lei Pelé representou o fim de umvínculo injusto, uma vez que estes não tinham o poder de decisão sobre seu futuro,cabendo as negociações e a “autorização” de transferência unicamente ao clube. Apartir da Lei Pelé, qualquer clube disposto a pagar a multa contratual, poderia contar12 GURGEL, 2006: 62. (Dados entre 1985 e 2001)13 CBF apud Site Papelada Solta, 22/04/2011 48
  49. 49. com qualquer atleta que atuasse no Brasil, cabendo a decisão somente ao jogadore/ou a seus (novos) representantes. O dinheiro passou a falar mais alto, e a economia internacional (sobretudo aeuropéia), com maior poder de barganha, tinha imensa vantagem comercial sobre omercado local. Começava, de fato, o modelo quase industrial de formação eexportação de atletas. Outro fator, dessa vez europeu, também contribuiu para a migração dejogadores brasileiros. A Lei Bosman, instituída em 1995, estabelecia que qualquerjogador pertencente à Comunidade Européia pudesse atuar em qualquer paísmembro da CE sem ser considerado estrangeiro. Desde então, o futebol europeusofreu uma invasão de “novos europeus” para atuar nos campeonatos locais, osclubes europeus foram muito beneficiados a medida que não precisariam maisrestringir o número de estrangeiros no time, a naturalização seria uma alternativapara o problema. O fluxo de naturalização de brasileiros foi tão intenso – alguns jogadoresatuam até pelas seleções nacionais -, que em 2008 o presidente da FIFA, JosephBlatter, declarou que um dia "o Brasil vai acabar sendo batido por ele mesmo secontinuar exportando tantos jogadores. Eles vão se naturalizar e um dia todas asseleções do mundo jogarão apenas com brasileiros" (BLATTER, 2008)14. 2.3. A importação do produto nacional Recentemente pudemos assistir no Brasil o crescimento de um movimentocontrário ao tradicional êxodo de atletas. A repatriação de ídolos consagrados não énovidade, mas chamou muita atenção por ser o contra-fluxo do modelo no qual otorcedor estava acostumado e por se tratar em um novo modelo de negócios. Era via de regra que os jogadores brasileiros voltassem ao Brasil somentepara encerrar suas carreiras, estando normalmente muito aquém tecnicamente e,por isso, sem espaço na Europa.14 In: Site O Globo, 21/09/2008 49
  50. 50. Podemos destacar algumas exceções, como na década de 90, quando o timedo Palmeiras concretizou uma parceria inédita com a empresa Parmalat, o quepermitiu a contratação de grandes jogadores e técnicos, e consequentemente aconquista de títulos no período. No entanto, esse modelo de negócio logo semostrou ineficiente, uma vez que o clube (completamente dependente da empresaparceira) não conseguiu manter os grandes atletas com o fim da parceria. Em dezembro de 2008, um novo conceito chega ao Brasil. Ronaldo“Fenômeno” é apresentado no Corinthians, uma contratação que parecia impossível,mas que fora concretizada graças a cotas de patrocínio que pagariam seu altosalário. O clube era responsável pelo pagamento de um valor fixo do salário, algoem torno de R$ 400 mil ao mês, enquanto que o restante do salário seria pago com80% da cota de patrocínio dos calções e mangas, as quais foram super valorizadasgraças à exposição gerada pela presença do ídolo e a repercussão do clube namídia. O salário total de Ronaldo era em torno de R$ 1,2 milhão ao mês, e o clubeainda embolsava 20% do patrocínio dos calções e mangas. Ademais, a parceria foide grande lucratividade para o clube, que logo no primeiro ano teve um aumento de60% (CORINTHIANS, 2010)15 na venda de produtos licenciados, e na cota depatrocínio principal (que não é dividida com o atleta), a qual subiu de R$ 15 milhõespara R$ 18 milhões (PAVÃO, 2009)16. O caso Ronaldo alavancou uma série de repatriações de outros atletasrenomados em situação bastante parecida, como por exemplo: Roberto Carlos(Corinthians, 2010), Ronaldinho Gaúcho (Flamengo, 2011), Luís Fabiano (SãoPaulo, 2011), Rivaldo (São Paulo, 2011), Robinho (Santos, 2010), Elano (Santos,2011) e Adriano (Flamengo, 2009, e Corinthians, 2011).15 CORINTHIANS, Sport Club apud Site Justiça Desportiva, 02/01/2010.16 In: Site Veja.com, 30/04/2009 50

×