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  • 1. Da Teoria à Prática Leny Rodrigues Kyrillos (Organizadora)
  • 2. Expressividade - Da Teoria à Prática Copyright © 2005 by Livraria e Editora Revinter Ltda. ISBN 85-7309-899-6 Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução deste livro, no seu todo ou em parte, por quaisquer meios, sem o consentimento por escrito da Editora. Contato com os autores: leny.kyrillos@uol.com.br Te!.: (11) 5579-1988 A responsabilidade civil e criminal, perante terceiros e perante a Editora Revinter, sobre o conteúdo total desta obra, incluindo as ilustrações e autorizaçõesJcréditos correspondentes, é do(s) autor(es) da mesma. Livraria e Editora REVINTER Ltda. Rua do Matoso, 170 - Tijuca 20270-131 - Rio de Janeiro - RJ Te!.: (21) 2563-9700 - Fax: (21) 2563-9701 livraria@revinter.com.br - www.revinter.com.br
  • 3. CApiTUlo 2 EXPRESSIVIDADE DA FALA Sandro Madureiro Oestudo da Lingüística sempre fez parte dosprpgramas dos Cursos de Fonoaudiologia, mas usualmente os alunos tinham dificuldade de estabelecer sua aplicação prática. Além de a disciplina ser ministrada geralmente no 1º ou 2º ano do Curso, o que dificulta a observação de seu uso durante a parte prática dos 3º e 4º anos, nem sempre a programação do curricu/um favorece a discussão conjunta dos conteúdos. Nosso recente olhar para a expressividade resgatou o interesse dos pro- fissionais para o aprofundamento dos conhecimentos dessa área, de impor- tância vital para a compreensão de todo o processo comunicativo. A Dra. Sandra Madureira, lingüista que atua com fonoaudiólogos, orientando e dis- cutindo trabalhos de pesquisa, favoreceu imensamente a aproximação das duas áreas e faz ponte entre os conhecimentos teóricos e a aplicação prática de maneira didática e bastante clara. Neste capítulo, ela nos fornece os ele- mentos necessários para a compreensão da fonética e sua relação íntima com a avaliação e a compreensão da expressividade de fala, evidenciando a grande importância desses conceitos e favorecendo o uso desse conheci- mento, não só para compreendermos o processo, mas principalmente para podermos interferir no mesmo. É uma grande contribuição para nossa área de atuação. Leny R. Kyri//os 15
  • 4. 16 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA À PRÁTICA RESUMO o objetivo deste trabalho é abordar conceitos que têm interesse para a investigação da expressividade na fala e fornecer subsídios para a realização de uma análise dos elementos envolvidos na construção da expressividade oral. INTRODUÇÃO Quando dizemos que uma fala é expressiva, geralmente nos referimos a uma fala caracterizada por variabilidade de padrões melódicos e rítmicos, os quais, em trabalho anterior, denominamos "recursos fônicos que veiculam e- feitos de sentido". O termo "efeitos de sentido" é usado nesse contexto para sinalizar que a matéria fônica causa impressões nos ouvintes, os quais lhe atribuem sentidos (Madureira, 1992). Entretanto, toda a fala é expressiva, no sentido de que alguma forma de atitude, emoção, crença, estado físico ou condição social é veiculada por meio da fonação e da articulação dos sons. Portanto, a fala, comumente referida como monótona, também é expressiva. Ela pode ser interpretada pelo ouvinte como indicadora de falta de entusiasmo, apatia, desinteresse, entre outros sentidos. A fala é a face sonora da linguagem e é essa materialidade sonora que oferece inúmeras possibilidades de ser trabalhada (Granger, 1974) para a expressão de sentidos. Assim, pelo trabalho do falante, forma (a matéria fôni- ca) e conteúdo (o sentido) se interinfluenciam. Foi exatamente a constatação dessa interação que motivou Possenti (1988) a afirmar que uma forma suscita um conteúdo e um conteúdo suscita uma forma, ou, no dizer de Albano (1988) "se é verdade que o sentido faz som o som também faz sentido". Essapotencialidade da fala para expressar sentidos a torna um meio eficaz para a comunicação. Por meio da fala veiculamos informações, mas também expressamos nossas atitudes, emoções e crenças e sinalizamos nossas posi- ções em relação ao discurso. Dessa maneira, um tom ascendente pode ser interpretado pelos ouvintes como indicador de continuidade do discurso e cri- ar expectativas sobre o que o falante irá dizer na seqüência da fala. Se escutar- mos as gravações de uma mesma frase enunciada por um grupo de pessoas, também somos capazes de fazer inferências a partir da matéria fônica sobre características físicas, sociais e psicológicas dos indivíduos que o compõe. A expressividade da fala constrói-se a partir das interações que se estabe- lecem entre elementos segmentais (vogais e consoantes) e prosódicos (rit- mo, entoação, qualidade de voz, taxa de elocução, pausas e padrões de acento) e das relações que se estabelecem entre som e sentido. Vogais e consoantes co-articuladas constituem o fluxo da fala, e suas características fonéticas alteram-se, dependendo das características prosódicas.
  • 5. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 17 Os elementos prosódicos exercem diversas funções, entre elas: segmen- tar o fluxo da fala, facilitar a compreensão da fala, destacar elementos na fala (conferir proeminência), expressar modalidades (declarativa, interrogati- va etc.), atitudes, emoções, condições físicas etc. A segmentação do fluxo de fala reduz a ambigüidade, aumenta a inteligi- bilidade e proporciona ao ouvinte uma margem maior de tempo para proces- sar a fala nos intervalos entre grupos de palavras. Essadivisão em grupos pode ser realizada pelo uso de variados elementos prosódicos que tendem a co-ocorrer. Além da pausa silenciosa, a segmentação do fluxo de fala pode ser sinalizada por uma variação de pitch, pelo alongamento de segmentos e síla- bas, pelo não-estabelecimento de fenômenos coarticulatórios e por ajustes de qualidade da voz. Além da segmentação, o que facilita a compreensão da fala é o acento, ou seja, a proeminência relativa que faz com que certas sílabas de palavras se destaquem no fluxo da fala. Um elemento proeminente é aquele que apre- senta características que o permitem se diferenciar dos demais no contexto. Como a segmentação e a acentuação interagem com a organização sin- tática, semântica e pragmática, os resultados provenientes da investigação sobre a prosódia das línguas são cruciais para o entendimento de como se dá a expressão de várias modalidades e efeitos de sentido a partir de uma mes- ma seqüência segmental na fala natural. Tentemos imaginar possíveis maneiras de se pronunciar "Sim" em respos- ta a uma pergunta. Você gostou do filme? Imaginemos que você não gostou muito e quer dar uma resposta evasiva. Uma das maneiras de demonstrar isso seria alongar um pouco a vogal e modificar gradativamente o tom em dire- ção ascendente. Entretanto, se quisesse afirmar categoricamente, a direção do tom seria provavelmente descendente e mais abrupta. Se você alongasse os segmentos e usasse um tom ascendente-descendente, possivelmente, o ouvinte o julgaria entusiasmado. E se você alterasse sua qualidade de voz, uti- lizando um ajuste de mandíbula fechada (Laver, 1980, 1994) mudasse gra- dativamente o tom em direção descendente e alongasse a duração do seg- mento vocálico, seu interlocutor provavelmente perceberia que você não está a fim de responder a pergunta. As variações para cima e para baixo no contorno melódico dos enuncia- dos são acompanhadas por mudanças de ajustes de qualidade de voz que vão desde a voz rangida (o nível mais baixo) até o falseto (o nível mais alto), passando pelo moda I (o nível médio). Essas alterações dentro dos enuncia- dos têm importantes implicações para a análise da fala. A fala é expressiva porque suas condições de produção possibilitam infi- nitos ajustes. Nosso aparelho fonador é dotado de plasticidade e por causa
  • 6. 18 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA À PRÁTICA disso, podemos combinar a atuação das câmaras iniciadoras da corrente de ar (pulmões, laringe e véu palatino), a quantidade de fluxo de ar, as direções da corrente de ar (ingressiva e egressiva), as modificações causadas pelo po- sicionamento das pregas vocais e pelos articuladores na formação das con- figurações do trato vocal. As combinações permitidas são inúmeras e os efei- tos acústicos variados compreendem modificações nos parâmetros de dura- ção, freqüência e intensidade. E é a partir das pistas acústicas depreendidas do sinal da fala, que o falante impressiona o ouvinte. Consideraremos neste artigo alguns conceitos que julgamos particular- mente relevantes de serem discutidos quando se aborda a expressividade da fala: os papéis do falante e as relações entre som e sentido considerados a partir das noções de metáfora sonora e simbolismo sonoro. Por fim, apresen- taremos subsídios para a realização de uma análise da expressividade oral. A EXPRESSIVIDADE DA FALA E OS PAPÉIS DO FALANTE Segundo Goffmann (1981), o falante desempenha três papéis diferen- tes: o animador, o autor e o protagonista. Estes papéis referem-se a três as- pectos distintos: a emissão do gesto vocal (o animador; a máquina falante), a produção do texto (o autor) e a veiculação de um sistema de crenças que se quer compartilhado (protagonista). Essa noção tripartida do falante ressalta aspectos fundamentais da dinâ- mica da fala: o ouvinte está contemplado nessa noção de falante por meio da postulação da categoria de protagonista. A esse ouvinte o falante quer impressionar, e essa sua missão realiza-se pelas escolhas que faz sobre a for- ma (a animação oral) e o conteúdo (a escolha das palavras). Essa noção também abre perspectivas para a avaliação da expressivida- de na fala. Por que alguns oradores arrebatam o público e outros não? Por que algumas pessoas prendem a atenção de seus interlocutores em uma conversa? Para responder a essas perguntas temos de investigar como cren- ças (o falante no seu papel de protagonista) são expressas pelas escolhas lexicais (o falante no seu papel de autor) e de recursos fônicos (o falante no seu papel de animador). A EXPRESSIVIDADE E AS RELAÇÕES ENTRE SOM E SENTIDO 'O sentido de um mesmo enunciado pode ser alterado em função das escolhas prosódicas que fazemos. São as relações entre som e sentido que se colocam aí. As relações entre som e sentido têm sido debatidas ao longo dos séculos por filósofos e lingüistas. Platão, em um dos seus famosos diálogos, o Cráti-
  • 7. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 19 lo.discute se as relações entre som e sentido estabelecem-se por convenção ou por natureza, apresentando argumentos a favor das duas interpretações. O fato é que os dois aspectos estão envolvidos, se considerarmos por um lado o caráter arbitrário da linguagem e por outro o caráter simbólico dos sons, o qual interessa particularmente a investigação da expressividade oral por implicar relações entre som e sentido que se estabelecem a partir das evocações motivadas pelas características fônicas. Afinal, a viva voz opõe-se à letra morta segundo a metáfora proposta por Fonagy (1983). Para esse autor, as relações entre som e sentido podem ser consideradas a partir de representações sintomáticas e simbólicas. Na re- presentação sintomática, a reprodução de um sintoma pode sinalizar emo- ções dela derivadas, por exemplo: a contração de músculos do aparelho fo- nador pode sinalizar a tensão, nervosismo, raiva, etc. Na representação sim- bólica, um órgão do aparelho fonador pode representar um outro órgão do corpo, um objeto ou uma condição de proximidade, distância etc. Dessa ma- neira, formam-se as metáforas sonoras. Essasteorizações ajudam-nos a formular hipóteses sobre os mecanismos utilizados por ouvintes quando instados a correlacionar tamanhos, cores, for- matos com sons da fala (Peterfalvi, 1975; Woodworth 1995): a associação entre [i] e o que é pequenino; entre [u] e o que é escuro, por exemplo. A ANÁLISE DA EXPRESSIVIDADE DA FALA A análise da expressividade da fala deve apoiar-se nos fundamentos de mo- delos de descrição fonética e de análise dos gêneros e de estilos orais e deve abordar as correlações entre os aspectos perceptivo-auditivos e acústicos. Tanto os segmentos quanto os elementos prosódicos são passíveis de se- rem analisados quanto aos três parâmetros acústicos: duração, freqüência fundamental e intensidade. No caso dos segmentos, referimo-nos à duração, freqüência fundamental e intensidade intrínsecas (microprosódia) e no caso dos elementos prosódicos, referimo-nos à duração, freqüência fundamental e intensidade das unidades maiores do que o segmento, tais como a sílaba (macroprosódia). A análise fonética deverá, portanto, levar em conta o uso de: • Variantes segmentais. • Padrões acentuais. • Padrões entoacionais. • Padrões rítmicos. • Variações de taxa de elocução. • Pausas (distribuição e tipologia). • Ajustes de qualidade de voz.
  • 8. 20 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA À PRÁTICA A maneira de descrever os elementos elencados anteriormente depende, naturalmente, do modelo fonético adotado. Entretanto, independentemente do modelo adotado, o recurso à análise fonético-acústica é essencial para que se possam determinar todos os parâmetros envolvidos. Alguns trabalhos de interesse que consideram os parâmetros acústicos na análise dos elementos prosódicos do português brasileiro são: Albano (2001); Barbosa (1995, 2000, 2002); Gama Rossi (1998,1999,2002); Massini (1991); Madureira (2002). A investigação das pistas acústicas auxilia-nos a estabelecer correlações com o nível auditivo. A percepção de uma pausa, por exemplo, pode ser sina- lizada por características de variação de pitch e alongamento da sílaba acen- tuada imediatamente anterior à pausa ou por presença de silêncio, ou, ain- da, pelo conjunto dessas características. Recorrer à inspeção acústica é um meio eficaz de investigarmos os fenômenos ocorridos. Apresentamos, a seguir, três representações para ilustrarmos de que maneira uma investigação fonético-acústica pode oferecer subsídios para a identificação das pistas presentes no sinal acústico que possam ter influenci- ado a percepção de uma pausa medial em uma das emissões de um enuncia- do "A casa branca foi reformada", gravado por um sujeito do sexo masculi- no. A pausa medial a que nos referimos ocorreu entre "branca" e "foi". A gravação foi feita em ambiente acusticamente tratado, e os dados, digitaliza- dos em 22 kHz e analisados por meio do Multi Speech da Kay Elemetrics. A primeira representação é a da forma da onda sonora, unidade básica da fonética acústica que nos dá informações sobre a variação da freqüência e amplitude no tempo. Na forma da onda podem ser realizadas medidas de duração. A segunda representação é um contorno da freqüência fundamen- talda voz. Finalmente, a terceira representação, aqui utilizada como referên- cia para delimitar os segmentos na realização das medidas de duração feitas na forma da onda, é um gráfico de espectrograma de banda larga, no qual podem ser visualizados os formantes que correspondem às ressonâncias do trato vocal. Os cursores estão posicionados sincronicamente na forma da onda e no espectrograma de banda larga entre as palavras "branca" e "foi". Note-se que não há presença de pausa silenciosa. Na Figura 2-1, a seguir, pode-se verificar um aumento da freqüência fun- damental a partir do núcleo vocálico da sílaba tônica da palavra "branca", atingindo o valor máximo na sílaba pós-tônica dessa mesma palavra. Nesse intervalo, constatou-se uma variação de 20 Hz e é esse um dos fatores que contribuem para a sensação de pausa. Determinar os valores relativos de duração, freqüência e intensidade dos segmentos e a duração do intervalo de pausa possibilitam fazer correlações
  • 9. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 21 fij]Mullo-Spcedl l!lril Ei Fde Ed:t View Speak PIlal....-;rs Tags IP,c., t,lêC10S" log Opliom l/indow Help DI~11ii11~ .1!11lô'Iq.rol*16'1 ,('1«1 mll!:Jl®Jl..!Jl a"C- li<t. 310.L3- •••••" IlII!l ~~II~f-JM, /v'--ffo' (I!i37JD x -O.OB223 sec I g I ~ I W L t ~ Recdy [" --I ;3!llnicia,1!! ~ 9 ~&;J t;.;l "·II![]Sob,.ô •.,p,ess'v.dódl ~D;:',;m.r.'oi-MIC,o,·IIj.,'JfMultj-sp~eCh Fig. 2-1. Forma da onda, contorno de freqüência fundamental e espectrograma de banda larga do enunciado "A casa branca foi reformada". entre os níveis acústico e perceptivo. Como ilustração, apresentamos os grá- ficos referentes a duas emissões do sintagma "a casa branca" por um mes- mo sujeito na mesma taxa de elocução. Na emissão referida como "seqüência 1" o sujeito enfatizou a palavra "ca- sa". Na emissão da "seqüência 2" a ênfase recaiu sobre "branca". Essesjulga- mentos auditivos podem ser confrontados com os resultados da medição dos valores de duração (em ms) e freqüência fundamental (em Hz) apresen- tados nas Figuras 2-2 e 2-3, a sequir. Comparação em termos de porcentagem indica que na emissão com ênfase em "casa" a vogal tônica de "casa" correspondeu a 3,2% da duração total do enunciado, e a "branca" a 5,95. Na emissão com a ênfase em "bran- ca" os valores são 4,1 e 6,45% respectivamente. Como podemos observar, as curvas de duração apresentadas na Figura 2-1 seguem uma evolução semelhante, pois ambas atingem o valor de dura- ção máximo no núcleo vocálico tônico da palavra "branca". Contudo, a dife- rença entre o valor da vogal tônica de "casa" e o da vogal tônica de "branca"
  • 10. 22 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA À PRÁTICA a CASA branca Valores de duração (em ms) de segmentos consonantais e vocálicos ti) E 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ________a casa BRANCA Fig. 2-2. A linha com losangos corresponde à emissão em que a palavra "casa" foi enfatizada e a linha com quadrados, à emissão em que a palavra "branca" foi enfatizada. Os números na abscissa correspondem aos dez segmentos consonantais e vocálicos que formam o sintagma "a casa branca", e os valores de duração (em ms) são apresentados na ordenada. Valores de tO na parte medial do núcleo vocálico ~~~j ..- === • I a CASA branca N I ________a casa BRANCA I I 1 2 3 4 5 Sílabas Fig. 2-3. A linha com losangos corresponde à emissão em que a palavra "casa" foi enfatizada, e a linha com quadrados, à emissão em que a palavra "branca" foi enfatizada. Os números na abscissa correspondem aos núcleos vocálicos das sílabas que formam o sintagma "a casa branca", e os valores de freqüência fundamental (em Hz) são apresentados na ordenada. na seqüência 1 é de 39 ms, enquanto que na seqüência 2 é de 67 ms (na emis- são com ênfase em "casa", a vogal tônica dessa palavra tem 85 ms de dura- ção, e a vogal tônica de branca 124 ms, enquanto que na emissão com ênfase em "branca", a vogal tônica de "casa" tem 65 ms, e a de "branca", 132 ms). Não consideraremos neste artigo procedimentos exigidos pela metodo- logia de análise acústica, como normalização e tratamento estatístico dos
  • 11. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 23 dados. Nosso intuito aqui é apenas explicitar como se pode obter dados sobre as características acústicas a partir da medição de segmentos no sinal da fala. Consideraremos a seguir o contorno de freqüência fundamental (fO). Como podemos observar, o contorno da freqüência fundamental é idên- tico nas duas primeiras sílabas, mas a partir daí divergem. A freqüência fun- damental sobe 5 Hz da segunda para a terceira sílaba e cai 8 Hz da terceira para a quarta sílaba na seqüência 1. Na seqüência 2, nessas mesmas posi- ções as diferenças são de 19 Hz e 21 Hz respectivamente. A seqüência 1 ter- mina em contorno descendente, e a 2, em contorno ascendente. Além da realização da descrição fonética, é necessária a investigação de aspectos sintáticos, semânticos, pragmáticos e discursivos a partir de mode- los de análise do discurso oral. Só dessa maneira é possível o estabelecimen- to de correlações entre as categorias da estruturação discursiva e as caracte- rísticas fonéticas. Por exemplo, a transição entre partes do discurso, como entre a introdução de uma palestra em que o falante se apresenta e o início do desenvolvimento da temática, pode ser sinalizada por alterações de ajus- tes de qualidade de voz, de estruturação rítmica ou de dinâmica de voz, entre outros recursos fõnicos. Pelo que expusemos neste artigo, analisar a expressividade da fala com- preende o desenvolvimento de várias atividades e pressupõe desenvolvimen- to da habilidade de escuta e formação em fonética e aquisição de conhe- cimentos sobre o funcionamento lingüístico (noções de variação lingüística, de estilo, de categorias discursivas, de estruturação sintática e textual, entre ou- tras). O desenvolvimento da habilidade de escuta requer atenção ao detalha- mento fonético, às pistas fonéticas presentes no sinal de fala. A escuta deve ser dirigida à identificação de: proeminências relativas; características de ruído e sonoridade; interrupções no fluxo de fala; e alterações, contrastes, alternân- cias e repetição de padrões prosódicos. O apoio na inspeção acústica do sinal de fala é , sem dúvida, um grande meio facilitador da escuta atenta. Para se abordar questões sobre a expressividade da fala é preciso, portan- to, recorrer a uma ferramenta fundamental: a formação em fonética, sem dúvida, indispensável para o estudo de qualquer aspecto da fala. CONSIDERAÇÕES FINAIS Falar de expressividade da fala é falar sobre o uso simbólico dos sons. O uso simbólico dos sons não se restringe ao poético, ao uso mágico do som, ele invade o discurso oral em seus variados gêneros e estilos e aponta para o âmago da questão do tratamento entre som e sentido: a epistemologia do som não pode ser desvinculada da epistemologia do sentido.
  • 12. 24 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA À PRÁTICA Para quem tem interesse na análise da expressividade da fala, há um gran- de número de obras de referência, para citar algumas de relevância: Sapir (1957); Crystal & Quirk (1964); Hymes (1971); Jakobson (1977); Scherer & Giles (1979); Fonagy (1983); Bolinger (1986); Jakobson & Waugh (1987); Hin- ton, Nichols & Ohala (1994); Pittam (1994) e Scherer (2003). Nessas obras deparamo-nos com a potencialidade da matéria fônica de evocar sentidos, a capacidade do falante de materializar em som suas idéias, atitudes e sentimentos para comunicar ao ouvinte a impressão que intenta. No sinal da fala, as marcas são utilizadas pelo ouvinte para atribuir caracterís- ticas físicas, sociais e psicológicas. Isso nos dá a dimensão do impacto da fala na comunicação entre os homens. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Albano EC. Fazendo sentido do som. Ilha do desterro. Florianópolis: Editora da Universidade de Santa Catarina, 1988. 18-26p. ____ o O Gesto e suas bordas: esboço de fonologia acústico-articulatória do Português Brasileiro. Campinas: Mercado de Letras, 2001. Barbosa P. Estrutura rítmica da frase revelada por aspectos de produção e percepção de fala. Anais do XLIIIGEL,25-27 de maio de 1995. ____ o Syllable-timing in Brazilian Portuguese: uma crítica a Roy Major. DELTA 2000;16(2):369-402. ____ o Explaining Brazilian Portuguese resistance to stress shift with a coupled-oscillator model of speech rhythm production. Cadernos de Estudos Lingüísticas, 2002;43 :71-92. Bolinger D. Intonation and its parts. melody in spoken english. London: Edward Arnold Publishers l.tda., 1986. Crystal D, Quirk R. Systems of prosodic and paralinguistic features in english. Mouton: The Hague, 1964. Fonagy I. La vive voix. Paris: Payot, 1983. Cama-Rossi A. Qual é a natureza do acento secundário no português brasileiro? Cadernos do Centro Universitário São Camilo 1998;4(1 ):77-92. _____ . Relações entre desenvolvimento lingüística e neuromotor: a aquisição da duração. Tesede Doutorado pelo Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, 1999. _____ . Considerations on some aspects of the relationship between intrinsic and extrinsic time in two 4-year-old-children's and adult's speech for duration in Brazilian Portuguese. Cadernos de Estudos Lingüísticas 2002;43:127-142. Coffman E. The lecture. Forms of talk. University of Pensilvania, 1981. 162-195p. Cranger GC. Filosofia do estilo. (Trad.) Scarlett Zerbetto Marton. São Paulo: Perspectiva, Editora da Universidade de São Paulo, 1974. Hinton L, Nichols J, Ohala JJ (eds.) Sound symbolism. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. Hymes D. Sociolinguistic and ethnography of speaking. Ardener E (ed.) Social Anthropology and language. London: Tavistock, 1971. lakobson R. Seis lições sobre o som e o sentido. Lisboa: Maraes Editores, 1977. lakobson R, Waugh LR. The sound shape of language. Berlin: Mouton de Gruyter, 1987.
  • 13. A EXPRESSIVIDADEDA FALA 25 Laver J. The phonetic description of voice quality. Cambridge University Press, 1980. ___ o Principles"of phonetics. Cambridge University Press, 1994. Madureira S. Post-stressed syllables in Brazilian Portuguese as rnarkers. Proceedings of the 74th ICPhS, San Francisco, vaI. 2. 1999. 917 -920p. ___ o An acoustics study of phonological phrases containing sequences of words with adjacent prirnary-stressed syllables: does stress shift occur in Brasilian Portuguese. Cadernos de Estudos LingOísticos2002;43:109-126. Massini G. A duração no estudo do acento e ritmo do português. Dissertação de Mestrado pelo Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, 1991. Peterfalvi JM Les Recherches Expérimentales sur le syrnbolisme phonétique. American Journal of Psvchologv 1965;65 :439-473. . Pittam J. Voice in social interaction: an interdisciplinaryapproach. London: SAGE, 1994. Possenti S. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1988. Sapir E. Culture, language and personality. Mandelbaum DG (ed.) Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1957. Scherer KR, Giles H (eds.) Social marker in speech. Paris: Cambridge University Press and Maison des Sciences de l'Hornrne, 1979. 343-82p. Scherer K. Vocal communication of ernotion: A review of research paradigrns. Speech Communication 2003;40:227-256. Woodworth Nancy L. Sound syrnbolisrn in proxirnal and distal Forms. Linguistics 1991 ;29 :273-299.

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