A Reestruturação Produtiva e o RH

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    A Reestruturação Produtiva e o RH - Presentation Transcript

    1. A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E O RH. Os Novos Processos de Trabalho nas Empresas do Século XXI vis a vis a Área de RH e os Impactos na Subjetividade da Classe Trabalhadora. Por Angelo Peres, 2008∗. Resumo. Vivemos um novo método de gestão da produção que atende as exigências do capitalismo: a reestruturação produtiva. Este é o pilar central que move a maioria das mudanças no mundo do trabalho, e que agrava o processo de alienação da classe trabalhadora, nas organizações do século XXI, em especial, no Brasil. Assim, este artigo reflete isto: esta nova lógica de produção de mercadorias que alterou a estrutura e o funcionamento das empresas e impactou severamente na área de RH, como o basilar espaço responsável pela gestão institucional das pessoas. Até porque, foi na década de 90, no Brasil, que a reestruturação produtiva ganha poder ideológico (e estruturante) e passa a representar inéditos processos na subjetividade da classe trabalhadora, e uma nova cartografia imposta nos espaços controlados do trabalho e do não-trabalho, dentro do plano da mundialização do capital. Sobreposto a isto, e dentro deste novo nexo, as empresas passam a ter como preocupação central: a sua imagem corporativa, a partir do referencial sugerido pelo marketing; e, nesta ordem exigem do trabalhador um novo tipo de engajamento. Nesta perspectiva, instaura-se, nesta década, uma nova subordinação formal do trabalho ao capital. 1. A Reestruturação Produtiva e as Macrotransformações no Mundo do Trabalho, no Brasil, no Fim do Século XX e no Início do XXI. Na última década do século XX, principalmente, presenciamos a importantes mutações no país no que diz respeito à mudança no regime de acumulação capitalista, e este nos trouxe severas modificações nos processos de trabalho, de ∗ Mestre em Economia. Pós-Graduado em Recursos Humanos, Marketing e Gestão Estratégica. Professor da Universidade Candido Mendes (UCAM) e do Centro Universitário Celso Lisboa (UCL). Sócio-Gerente da P&P Consultores Associados empresas especializada em consultoria em RH. Artigo publicado na Revista do Direito Trabalhista – RDT, em setembro/outubro de 2008.
    2. produção, nos hábitos de consumo, nas configurações geográficas e geopolíticas, bem como em novos padrões tecnológicos (HARVEY, 2006). Na verdade, e no limite, essas alterações foram capazes de transformar tanto as condições de produção, como as de reprodução dos assalariados. Nesta perspectiva, a transformação do cenário produtivo nacional, do fim do século XX ao XXI, a partir da reestruturação produtiva, foi conseguida a custa dessa mudança do padrão capitalista. Ou melhor, as empresas brasileiras passaram a focar seus investimentos em novos processos com base em inovação e na microeletrônica, principalmente1. Esses avanços, e com o incremento deles, por um lado, foi possível a implementação de significativas melhorias nos processos produtivos, tais como: o lançamento de inéditos produtos e serviços; investimentos na mudança do padrão de qualidade, produtividade e inovação2 através de novos aparatos tecnológicos; o incremento no processo de comunicação junto aos clientes; uma nova preocupação por parte das empresas com o setor de exportações para os mercados internacionais; e os novos avanços relacionados aos direitos dos clientes- consumidores, agora investidos de grande poder de barganha. Porém, e por outro lado, estas transformações específicas, no mundo do trabalho, repercutiram de forma ímpar na classe trabalhadora, em sua subjetividade, bem como no seu universo de consciência de classe e em suas formas de representação. Isto porque, passamos a assistir a um longo processo multiforme que vem afetando e metamorfoseando este universo. Assim, e nesta perspectiva, essa nova conformação produtiva tem nos apontado para um lado perverso, a saber: passam a existir enormes enxugamentos da força de trabalho; ocorrem novíssimas mutações sociotécnicas no processo produtivo e na organização do controle social do trabalho; há a flexibilização e a desregulamentação dos direitos sociais dos trabalhadores; ocorrem novos fenômenos como o da terceirização e as novas formas de gestão da força de trabalho; e passa-se a viver com um novo processo de desterritorialização da produção, que vem gerando sérios abismos, no que diz respeito à questão social, a renda, a riqueza, e a cidadania (ANTUNES, 2006). 2
    3. Para Ramalho e Santana (2003), por exemplo, a segurança do pleno emprego foi substituída pelo desemprego, bem como os sistemas de contratação foram atacados na busca da flexibilização da produção e dos mercados. Deste modo, estas transformações e o reflexo delas, impactaram diretamente na área de Recursos Humanos (RH), enquanto área. Tendo reflexos diretos no mundo do trabalho. Fora que, a questão da humanização das relações ficou em segundo plano. Ou melhor, na alternativa capitalista, a questão das relações trabalhistas e os processos humanos deixaram de ser observados. Isto porque, os empresários, em sua grande maioria, passaram a significar mais ainda a marca de sua empresa, que as pessoas. Ou seja, os valores humanos foram substituídos pela funcionalidade das máquinas, e pelo discurso fácil do marketing. 2. A Área de Recursos Humanos, Sua Complexidade e os Reflexos Desta na Subjetividade da Classe trabalhadora e nos Seus Processos de Produção e de Reprodução. Há um grupo de autores que defendem que a atribuição primordial da área de RH: é a de contribuir para o aperfeiçoamento do trabalhador com vistas ao melhor atendimento da satisfação dos clientes-consumidores, acionistas e fornecedores3. Ainda, e segundo esse mesmo grupo de autores, essa área existe na medida em que: ela coopera com a humanização dos processos; com a personalização das relações; e com a profissionalização dos trabalhadores. Mesmo dentro deste processo turbulento e complexo que vivemos. Já para Antunes, Tauile e Alves, entre outros, o entendimento quanto a esta questão específica é distinto deste grupo. Ou seja, eles acreditam que algumas atribuições, citadas acima, para esta área, são de fato reais e importantes. Porém, todas elas, ocorrem por determinação da reestruturação produtiva, citada na seção anterior. Ou seja, os avanços, no campo da área de RH, para estes autores, são “concessões” dadas aos trabalhadores na expectativa de apagar sua subjetividade e, no limite, buscar seu engajamento para os novos desafios postos, e na busca por super-lucros. 3
    4. Assim, e para estes autores, a função dessa área se restringe, unicamente, a atender aos interesses do capital e da classe hegemônica, que dá suporte a ele. Ou seja, a concessão das melhorias relativas aos RH, no campo da profissionalização, do reconhecimento, da carreira, da remuneração, dos benefícios e do desenvolvimento profissional, entre outros, no âmbito dos RH, são pílulas do capitalismo na intenção de buscar o tal do engajamento dito acima. Para estes autores, o giro que se deu, no campo da potencial transformação da área de RH, foi no redimensionamento do estado burguês, através de significativas mudanças no padrão econômico capitalista, no final do século XX e, repercutindo neste. Dito de outra forma, essas possíveis mudanças são fruto das novas determinações capitalistas no mundo do trabalho que se desenvolveram intensamente em nosso país por meio da implantação de vários receituários oriundos da acumulação flexível, em conformidade com o ideário e a pragmática neoliberal, que intensifica o processo de reestruturação produtiva (ANTUNES, 2006). Assim, o discurso da “polivalência”, da “multifuncionalidade” e do “engajamento” são estratégias capitalistas na intenção de responder melhor as situações inóspitas criadas pela concorrência, neste novo ambiente concorrencial, que enfrentamos no século XXI. Na verdade, como dito acima, o que se observa são mutações sociotécnicas nos processos produtivos, e na organização do controle social do trabalho. É disto que se trata. No limite, estes movimentos de flexibilização são disfarces capitalistas, no sentido de continuar avançando sobre a desregulação dos direitos sociais. Ou seja, as proteções ao trabalhador - dentro e fora das organizações – estão sendo, paulatinamente, desregulamentadas; e, estão sendo colocadas, no lugar, para substituí-las, “novas” políticas de RH. Subsumidas ao capital. Tudo isto, está sendo feito com a finalidade, no discurso das organizações, em nome e em prol do “bem-estar” dos trabalhadores (sic.). O debate é longo e importante, mas não podemos esquecer que, nesta nova perspectiva posta, o trabalhador passa a ser escolhido a “dedo”, pelo RH. E esta área passa a impor novas regras para a contratação. Ou melhor, o trabalhador não pode ter passado sindical e tem que aceitar um “contrato de trabalho” com total promessa de comprometimento. 4
    5. Enfim, o RH só passa a contratar – trabalhadores - que são despojados de sua identidade de classe, de seu lugar na sociedade e de seu pertencimento à sociedade global; e, em troca, a empresa lhe oferece: uma identidade empresarial; uma formação profissional específica; e um estilo comportamental e vestimentar próprio (GORZ, 2004). 3. Um Possível e Novo Posicionamento do RH, no Nexo da Reestruturação Produtiva. Pelo que se lê, a partir de autores como Antunes, Tauile e Alves, entre outros, temos a correta consciência/e a ciência de que o capitalismo explora e subsume a classe trabalhadora, na busca por super-lucros. Ainda, lê-se, também, a partir desses autores, que esta nova lógica de produção de mercadorias já está “dissolvida” nos ambientes organizacionais, e dele pouco ou nada pode ser restaurado. Isto porque, no mundo do trabalho no nexo da reestruturação produtiva, mudou-se não só funcionamento dos processos, mas, também, alterou-se a gestão da força de trabalho e construiu-se uma nova hegemonia do capital, na produção, por meio da captura da subjetividade da classe trabalhadora, pela lógica do capital (ALVES, 2005). Esta alteração capitalista, citada acima, provocou o surgimento de um “novo” trabalhador e, está exigindo, por conseguinte, uma nova – e potencial – área de RH. Visto que, hoje não vislumbramos qualquer alternativa – dentro deste nexo - de superarmos este ambiente agressivo e hostil do capitalismo flexível, na era da mundialização do capital. A verdade é que no século XXI, e nos séculos que virão pela frente, concordando com o primeiro e o segundo grupo de autores, se espera muito do profissional de RH, e sua real articulação entre o mundo do trabalho e o capital. Isto porque, deve caber a este trabalhador, da área de RH, desenvolver novas estratégias que venham a garantir um nível aceitável de satisfação do trabalhador ante o capital, e vice-versa. 5
    6. Dito de outra forma deve caber a esta área, mormente, o desafio de propiciar um clima diferente do que encontramos hoje: que é espoliativo4 e alienante, bem como subsumido ao capital. Isto porque, ao RH deve caber tentar transformar os ambientes profissionais em algo mais humano, inclusivo e menos subsumidor. Até porque, ao trabalhador, individualmente e coletivamente, grosso modo, na contemporaneidade, não há qualquer alternativa de superar esta situação. Ou seja, as empresas, em sua grande maioria, ainda sujeitam e exploram a classe trabalhadora, e esta pouco ou quase nada consegue fazer para escapar desse jugo. Assim, o RH deve se conscientizar de que terá pela frente inéditos desafios dobrados, e terá que lidar com as novas demandas postas para o século XXI, bem como terá que atuar na transformação da postura das administrações das empresas, que hoje ainda estão mais voltados para o lucro financeiro e para a acumulação capitalista. Enfim, e para concluir, devemos entender que o RH é, no limite, é uma forma de pensar, uma filosofia, um conceito. É, também, uma forma de interação do homem com a organização e a sociedade. Assim, gerir RH, é no fim das contas ajudar a criar vantagens competitivas a partir das pessoas. E, não como se entende hoje: colocar o marketing no centro das relações sociais. Deste modo, e finalizando efetivamente, o desafio final do RH será o de conscientizar o capitalista-empresário que deve aceitar esse caráter múltiplo e multifacetado, não só da realidade, mas do Homem. 6
    7. Referências: ALVES, G. (2006). O Novo (e precário) Mundo do Trabalho. São Paulo: Boitempo. ANTUNES, R. (2005). Os Sentidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo. ___________. (2006). A Era da Informatização e a Época da Informalização – Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil. In: ANTUNES, Ricardo (org.). Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo. CHIAVENATO, Idalberto. (2008). Gestão de Pessoas. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Campus. CORIAT, B. (1994). Pensando pelo Avesso: O Modo Japonês de Trabalho e Organização. Rio de Janeiro: UFRJ. HARVEY, D. (2005). O Novo Imperialismo. 2ª Ed. São Paulo: Loyola. _______. (2006). Condição Pós-Moderna. 15ª Ed. São Paulo: Loyola. LEITE, Márcia de Paula. (1994). O Futuro do Trabalho: Novas tecnologias e Subjetividade Operária. São Paulo: Página Aberta. SANTANA, M. A., & RAMALHO, J. R. (2003). Trabalhadores, Sindicatos e a Nova Questão Social. In: SANTANA, M. A., & RAMALHO, J. R. (orgs.) Além da Fábrica. São Paulo: Boitempo. TAUILE, J. R. (2001). Para (Re)Construir o Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto. ULRICH, D. (2000). Recursos Humanos Estratégicos. São Paulo: Futura. Notas: 1 Para leitura substantiva: Tauile (2001), Antunes (2005), Alves (2005), Coriat (1994), Leite (1994). 2 Diversas técnicas foram incorporadas aos processos de produção, tais como: CCQ,s, Kanban, Just- in-time, Total Quality Control, Kaizen, 5S, entre outras. 3 Para leitura: Chiavenato, 2008; Ulrich, 2000; entre outros. 7
    8. 4 Para leitura Harvey (2005). 8

    + Angelo  PeresAngelo Peres, 3 months ago

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