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Aspectos psicológicos, sociológicos e filosóficos da educa
 

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Aspectos psicológicos, sociológicos e filosóficos da educa Aspectos psicológicos, sociológicos e filosóficos da educa Document Transcript

  • ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO estruturas. Para isso é preciso estudar o desenvolvimento o desde o seu inicio, não basta que o professor de 2 Grau AS ORIGENS DO DESENVOLVIMENTO conheça o desenvolvimento do adolescente entre os 14 e os 17 o anos, o de 1 Grau, dos 6 aos 13 anos, e o da pré-escola saiba o RESUMO. Para o professor é muito importante conhecer o que se passa entre os 4 e os 5, anos porque o desenvolvimento desenvolvimento psicológico do aluno, não só no que se refere é um processo continuo e precisamos ter consciência de todas às suas etapas, mas também ao mecanismo pelo qual ele é as suas fases se quisermos compreendê-lo. O que ocorre aos produzido. Muitos dos nossos conhecimentos atuais sobre o 14 anos é resultado de tudo o que ocorreu anteriormente e o desenvolvimento psicológico têm origem nas pesquisas de trabalho que é realizado durante os dois primeiros anos de Jean Piaget. vida tem uma influência profunda sobre o que acontece depois. Por isso, qualquer pessoa interessada no No momento do nascimento, a criança dispõe de uma série desenvolvimento precisa conhecer essa primeira etapa, o de condutas reflexas como sugar, chorar, espirrar, pegar, etc. A período denominado sensóriomotor, anterior á aquisição da partir desse momento irão se produzindo, por diferenciação, linguagem, durante o qual serão estabelecidas as bases de outras condutas mais complexas que são chamadas de todo o desenvolvimento posterior que, de certa forma, será “esquemas”, ou seja, unidades básicas da atividade mental. uma repetição das primeiras aquisições feitas durante esse Esse processo de diferenciação é o resultado da adaptação do período. Um professor precisa conhecer as etapas anteriores organismo ao meio, adaptação que lhe permite sobreviver das crianças com as quais trabalha e também as posteriores, quando há mudanças nas condições .ambientais. A adaptação não só para poder compreender esse processo contínuo, mas é um processo biológico geral que possui dois aspectos: a também porque pode encontrar em uma criança de 14 anos acomodação e a assimilação, sendo que a adaptação estratégias que seriam correspondentes aos 6 ou 7 anos, psicológica prolonga a biológica. As crianças agem para quando lhe são apresentados problemas difíceis e, por isso, restabelecer o equilíbrio que foi quebrado com o meio e, para precisa ter consciência dessas etapas anteriores com a tanto, realizam atividades diferentes, aplicam esquemas que, finalidade de poder ajudar a criança a superar formas de em contato com a nova situação, serão modificados, dando pensamento inapropriadas. lugar a novos. O NASCIMENTO Ao longo do desenvolvimento, o processo de formação de novos esquemas é sempre o mesmo, mas os esquemas variam constantemente ao longo da vida. É conveniente dividir o Ao nascer, a criança é incapaz de se valer por si mesma e desenvolvimento em etapas segundo o tipo de esquemas precisa constantemente da ajuda dos adultos para sobreviver. existentes e o modo de resolver os problemas, que varia ao Possui, no entanto, uma série de condutas que permitem o seu longo da vida. relacionamento com o meio, entendendo-se por meio tanto os objetos como as pessoas. Essas condutas, denominadas Para o professor é tão importante, ou até mais, conhecer reflexos do recém-nascido, entram em funcionamento quando os mecanismos do desenvolvimento quanto os da ocorrem certas situações internas ou externas. Muitas das aprendizagem. O motivo é simples: ele lida com indivíduos que respostas da criança se dão diante de estimulações internas, estão construindo suas estruturas intelectuais e a sua tarefa como mal-estar, fome, sono, etc., outras ocorrem diante de fundamental é contribuir para a formação destas. A estímulos externos, como alterações do meio, objetos, etc. aprendizagem vai acontecer em ligação direta com o Entre esses reflexos encontramos os de sucção, preensão, desenvolvim3nto e depende dele de tal forma que não micção, defecação, espirro, reptação, marcha reflexa, reflexo podemos determinar como a mesma se processa. de Moro, de Babinski, etc. Alguns deles são complexos de reflexos, por exemplo, na sucção podemos distinguir vários, Assim, então, toda teoria do ensino precisa partir, hoje, como a procura de alimento, os reflexos dos lábios, embora não fique restrita a isso, dos conhecimentos sobre o desencadeados com o toque no lábio, os de sucção e desenvolvimento intelectual de que dispomos na atualidade. deglutição, etc. Nesse terreno, a “opção mais completa e coerente que existe é a teoria do desenvolvimento elaborada pelo psicólogo suíço A partir dessas poucas condutas reflexas iniciais será Jean Piaget (1896/1980). construído todo o desenvolvimento psicológico posterior. Nesse desenvolvimento os reflexos têm importância desigual; Essa teoria, construída ao longo de 60 anos de pesquisas, alguns são muito importantes dão lugar a desenvolvimentos representa hoje o ponto de partida de inúmeros trabalhos e é muito complexos, enquanto outros têm uma influência muito completamente indispensável para compreender a criança. A pequena para o desenvolvimento psicológico posterior. A sua posição piagetiana mudou muito a nossa concepção do evolução é, então, muito diversa: alguns são mantidos quase desenvolvimento infantil. A criança não está recebendo inalterados durante toda a vida, como os relativos à micção ou passivamente as influências do exterior e aprendendo só em ao espirro; outros sofrem enormes modificações, como a virtude dessas influencias, mas, pelo contrário, procura preensão ou a locomoção, enquanto outros desaparecem ativamente estímulos e produz as situações nas quais aprende. poucos meses após o nascimento, e o fato de que isso não O seu papel na aprendizagem é completamente ativo. venha a ocorrer se constitui num sinal de patologia, como acontece com os reflexos de Moro ou Babinski. O professor precisa, então, conhecer como se processa o desenvolvimento psicológico, mas o importante para ele não é EM QUE CONSISTEM OS REFLEXOS conhecer unia série de dados isolados sobre as etapas deste desenvolvimento, e sim entender, antes de mais nada, o processo no seu conjunto, compreender como se processa a São condutas que surgem diante de variações externas ou passagem das etapas iniciais às etapas finais, como se dá o internas e têm uma estrutura bastante fixa, ou seja, aumento dos conhecimentos e da formação de novas processam-se sempre de forma parecida. No entanto, os 1
  • desencadeantes, ás vezes, são variados e os reflexos entram mas, ao mesmo tempo, modifica o meio. A adaptação nunca é em ação diante de estímulos muito diversos, alguns dos quais somente uma modificação do organismo ou uma submissão não parecem guardar relação com a conduta á qual dão deste ao meio, seja ele natural ou social, mas há, ao mesmo origem. Por exemplo, a sucção inicia-se quando um objeto é tempo, uma modificação desse meio em maior ou em menor introduzido na boca da criança, mas também quando se grau. (Neste aspecto há uma distinção do uso corrente do produzem estimulações intensas tais como ruídos próximos á termo adaptação e do uso na biologia.) criança, ou quando perde o equilíbrio, ou outras alterações do meio, e também existe uma sucção no vazio, ou seja, sem Em um processo adaptativo podemos distinguir, com fins objeto. Os reflexos, provavelmente, estão controlados pelas de exposição, dois aspectos que são, na verdade, partes mais primitivas do sistema nervoso. indissociáveis, ou seja, fazemos a distinção para dar um maior esclarecimento, já que um não pode ocorrer sem o outro. Por A partir do nascimento, os reflexos começam a ser um lado, podemos falar de assimilação ou incorporação do consolidados. Embora sejam condutas inatas, desencadeadas meio ao organismo, ação do meio sobre o organismo e, por quando se produz uma estimulação, precisam de um certo tipo outro lado, de acomodação, que supõe uma modificação do de exercício para que possam ser consolidadas, e assim a organismo como resultado da influência do meio. A adaptação criança tem, de certa forma, que aprender a sugar logo após o é, então, uma modificação do organismo em função do meio nascimento e muitos desses reflexos, se não forem que favorece a conservação desse organismo. O organismo exercitados, acabam sendo extintos ou alterados. relaciona-se com o seu ambiente, age sobre ele e o modifica, mas, com o passar do tempo, ele mesmo se modifica, de tal O primeiro mês após o nascimento é dedicado, forma que os novos contatos com o meio já não serão principalmente, á consolidação desses reflexos exatamente iguais. Um exemplo simples é o da nutrição: um posteriormente, começam a modificar-se e diversificar-se, organismo incorpora uma parte do meio, por exemplo, um dando inicio a um processo que terminará na vida adulta. cachorro come um pedaço de carne, incorpora-o, assimila-o. A Veremos agora como vai acontecer esse processo e para isso carne não permanece igual, mas é transformada, triturada, devemos compreender por que se produz o desenvolvimento, misturada com saliva, digerida, eliminada. Essa incorporação, quais são as forças que estimulam um organismo a iniciar esse ao mesmo tempo, supõe uma modificação do cachorro, uma longo período de desenvolvimento psicológico que terminará acomodação aquilo que incorporou, o alimento transformou- muitos anos mais tarde. E indispensável tentarmos se em sangue, em tecidos, em produtos residuais e o compreender como e por que esse processo acontece e, para organismo se regenera ou se desenvolve se estiver no período isso teremos que nos remeter à biologia e aos processos de de crescimento, etc. Essa forma de intercâmbio, com esses adaptação do organismo ao meio. dois aspectos de assimilação e acomodação, aparece não só nas trocas materiais com o meio, mas também nas trocas mentais. Quando nos situamos na área da conduta e da sua A ADAPTAÇÃO explicação, a incorporação e a modificação do meio não são de natureza material, mas sim mental, seja ela motora ou A origem de toda a atividade dos seres vivos deve ser simbólica. A criança, por exemplo, pega um objeto, agindo procurada na adaptação do organismo ao meio que, por sua sobre ele, movimentando-o, batendo-o, agitando-o e vez, pressupõe uma modificação deste. Desde Darwin, o acomoda-se às suas propriedades, forma, textura, tamanho, mecanismo de seleção natural é realizado através da superfície, de tal maneira que, se o objeto for grande como sobrevivência dos mais aptos e do desaparecimento daqueles uma bola precisará pega-lo com as duas mãos e não com uma, que estão menos adaptados. Por isso, qualquer variação que se se for escorregadio terá de segurá-lo de uma maneira diferente produzir em um organismo facilitando a sua sobrevivência do que se for áspero. Assim, um conjunto de ações vai se tende a ser mantida e transmitida á sua descendência. formando, ações que chamaremos de esquema, produto da Partindo desse ponto de vista, precisamos considerar que o preensão da bola, por exemplo, o que supõe uma assimilação e desenvolvimento mental que se processou no homem e que o uma acomodação do organismo a esse objeto novo. Desse diferencia dos animais é um resultado da adaptação, é uma momento em diante, a criança poderá pegar objetos redondos modificação que facilita a sobrevivência da espécie e que e grandes aplicando o mesmo esquema de preensão com duas justamente deu ao homem possibilidades inimagináveis em mãos, que supõe uma acomodação nova, que não existia outros animais. Por isso, deve-se entender que o antes. desenvolvimento psicológico é o prolongamento do desenvolvimento biológico: os mesmos mecanismos que O exemplo anterior fazia referência à área da atividade atuam na evolução das outras espécies vegetais e animais motora, dominante na criança nos seus dois primeiros anos. aplicam-se ao caso do homem. O homem constitui-se numa Podemos dar outro exemplo numa área mais abstrata. espécie que foi capaz de adaptar-se ao seu meio (se não fosse Suponhamos que estamos lendo um livro como este e que assim, teria desaparecido), e de adaptar-se com muito sucesso, estamos estudando a relação do organismo com o meio e pois cada vez controla mais a natureza, usando, para isso, seus lemos o que se diz sobre a adaptação. O que estamos fazendo mecanismos psicológicos. A adaptação humana é mais rica que é incorporar uma noção nova, ou seja, assimilá-la, e o fazemos a de outras espécies porque é mais flexível, o que significa que a partir dos nossos conhecimentos anteriores. Precisamos pode adaptar-se a um maior número de situações. Enquanto saber o que é um organismo, o que é um processo, fazer uma que em outras espécies, bem adaptadas ao meio, uma variação representação da ação do organismo sobre o meio e os intensa no meio pode provocar a extinção da espécie ou, pelo intercâmbios que estabelece com ele, etc. Assim, adquirimos menos, o desaparecimento de um grande número de uma nova noção que vai modificar nossos conhecimentos indivíduos, o homem tem conseguido adaptar-se a situações anteriores, os quais terão que acomodar-se ao novo bastante mutáveis e variadas pelo uso da sua inteligência. conhecimento. A partir deste momento podemos aplicar essa noção quando tentarmos explicar outros fenômenos, A adaptação não é um processo passivo, mas ativo, o que produzindo assim novas assimilações e acomodações. significa que o organismo, ao se adaptar, está se modificando, 2
  • Assim, então, no processo de adaptação parte-se de um a criança procura objetos para pegá-los. Inicialmente, a organismo que, como o seu próprio nome indica, possui uma preensão é de toda a mão e pouco a pouco vai se organização e, agindo sobre o meio, seja de forma física (com aperfeiçoando, será estabelecida a posição polegar-indicador, as mãos, a boca, o estômago, etc.) ou psíquica (aplicação de de fundamental importância para o desenvolvimento humano, esquemas simbólicos anteriores), será ele próprio modificado. já que permite a preensão fina, e assim a criança aprende a A incorporação, como modificação do meio, é o que pegar de forma diferente objetos diferentes: o chocalho, a denominamos de assimilação e a modificação do organismo é manta, o travesseiro, o peito da mãe ou a mamadeira. Cada o que chamamos de acomodação. um deles possui características diferentes e a criança ao pegá- los, assimilá-los, acomoda-se a eles, levando em consideração A assimilação somente é possível quando uma organização tais características. No início, pega todos os objetos da mesma anterior a permite e, por exemplo, não podemos alimentar-nos forma, mas aos poucos vai sendo capaz de antecipar o tipo de com um pedaço de madeira porque não dispomos de um preensão que precisa fazer dependendo de que objeto se sistema digestivo adequado, nem tampouco uma pessoa que trata. Os reflexos iniciais vão dando lugar a condutas muito nunca estudou física poderá entender noções sobre a teoria da diferentes que são executadas de acordo com os objetos de relatividade se não adquirir previamente outras muitas noções. interesse. A partir desse reflexo inicial são processados Mas, uma vez adquirida uma nova capacidade, uma vez diversos esquemas de preensão, que vão se diferenciando formado um novo esquema, pode ser aplicado a novas constantemente em novos esquemas, como caminhos que situações e ser modificado. Essa é, então, uma forma de partem de um ponto e vão se ramificando cada vez mais. adaptação que facilita a sobrevivência. Diante de um objeto determinado, age de uma certa forma; O problema que poderão nos apresentar é o de por que sacode o chocalho para fazê-lo soar, bate nele, esfrega-o na necessária a adaptação do organismo ao meio. Todos os borda do berço; entretanto, chupa o urso de pelúcia, encosta-o organismos vivos tendem a sobreviver e lutam pela sua no rosto ou bate com ele na borda do berço, segurando-o por revivência em condições normais. Podemos considerar que, uma orelha. A cada objeto aplica uma série de ações diferentes em um momento determinado, o organismo encontra-se em que estabelecem categorias de objetos. Essas formas de ação, equilíbrio com seu meio e então esse organismo pode estar essas sucessões de condutas são os denominados esquemas. inativo, mas, no momento em que ocorre uma modificação Um esquema é uma sucessão de ações que possuem uma no meio, tanto externo quanto interno, isso provoca uma organização e que são suscetíveis de repetição em situações desadaptação e o organismo precisa agir para compensá-la. semelhantes. Uma criança de poucos meses alimentou se e está descansando no seu berço, com tranqüilidade, No entanto, o Diante de uma porta, uma criança de três anos tenta sol que entra janela vai se deslocando e os raios caem sobre o movimentar o trinco e empurrá-la para abri-la, enquanto que seu rosto, incomodando-a. Isso representa uma modificação diante de um velocípede tentará subir e fazê-lo movimentar- no meio que o organismo vai tentar superar. Para isso pode se. São dois esquemas diferentes que se aplicam em situações usar diversos procedimentos: pode tentar movimentar-se e diferentes. Quando a criança se encontra pela primeira vez sair fora do alcance do raio de sol, ou então chora expressando diante de uma porta que se abre para ela e não na direção o seu mal-estar e um adulto desloca o berço ou fecha a janela, contrária terá que modificar sua situação, deslocando-se para ou pega a criança no colo. Dessa forma se restabelece o poder abrir a porta, e assim terá aprendido a resolver um equilíbrio, embora temporariamente, pois logo haverá um problema novo. Quando se deparar com urna porta de correr, novo desequilíbrio. não poderá aplicar o esquema que usa para abrir uma porta com dobradiças. Inicialmente tentará usar o mesmo esquema Assim, quando o organismo não está sujeito a nenhuma sem sucesso e tentará pôr em funcionamento novos forma de tensão não precisa agir, mas, no momento em que esquemas, ou se lembrará de ter visto uma outra pessoa abrir uma modificação, faz-se necessária uma ação que a compense. uma porta de correr e tentará fazê-lo apoiando-se em Para resolver o desequilíbrio, aplica os meios que estão a sua esquemas anteriores. Quando finalmente conseguir fazê-lo, disposição e que já usou em situações anteriores, mas a terá formado um novo esquema para abrir portas, que será situação pode ser diferente e isso o leva a procurar novas aplicado quando se encontrar diante de portas de correr. soluções irão representar um progresso. Por meio deste procedimento vão sendo formados esquemas que por sua vez No exposto anteriormente, podemos ver que e vão permitindo uma adaptação, ou seja, a possibilidade de conveniente distinguir dois elementos em um esquema: um estabelecer o equilíbrio em situações novas - nisso se constitui elemento desencadeante e um elemento efetivador. Acontece o desenvolvimento intelectual. que diante de uma porta não aplicamos os mesmos esquemas que diante de um velocípede. Isto se deve a que a visão da OS ESQUEMAS porta constitui-se num elemento desencadeante do esquema de girar o trinco e abri-la, enquanto que o velocípede Salientamos que após o nascimento havia um período no desencadeia o esquema de subir ou empurrá-lo, ou seja, qual ocorria uma consolidação dos reflexos, mas o problema é deslocá-lo. Assim, nas diferentes situações reconhecemos que como se dá a passagem desses reflexos, ações rígidas, para devemos aplicar um esquema determinado. O esquema ações mais complexas e flexíveis, ações novas. Examinaremos propriamente dito é o elemento efetuador e o reconhecimento o caso da preensão. da situação é o elemento desencadeante. O recém-nascido exerce o reflexo de preensão quando algo Quando nos encontramos diante de uma situação nova, estimula a palma de sua mão, nesse caso a fecha. Após algum tentamos aplicar esquemas anteriores e o fazemos enquanto tempo, variável, mas não muito longo, a preensão sofre um podemos, combinando vários deles ou modificando algum até relaxamento e ele solta o objeto. Durante os dias e meses após encontrarmos uma forma de ação que seja mais prática para o o seu nascimento, o bebê exercita o reflexo e o aplica a muitos objetivo que pretendemos alcançar. Mais um exemplo: a objetos que caem acidentalmente em sua mão. A preensão vai criança nos seus primeiros meses pega um chocalho que cai ao se transformando cada vez mais numa conduta voluntária, pois alcance da sua mão. Ela mantém mais firmemente quando o 3
  • segura pelo cabo e essa ação que inicialmente produziu por não pode assimilar a situação nem, portanto, acomodar-se a acaso tentará reproduzi-la sistematicamente. Chegará um ela. momento em que a visão do chocalho desencadeará a ação de segurá-lo pelo cabo de forma precisa. Começará a aplicar ao Então, o indivíduo aprende principalmente em situações chocalho diversos esquemas, como esfregar, sacudir, bater, que diferem um pouco de situações anteriores e que, ao etc. Se um objeto parecido, por exemplo, um martelo de contrário, não aprende em situações idênticas às anteriores, brinquedo, dos que fazem ruído quando batemos, cai ao nas quais somente repete esquemas anteriormente formados, alcance de suas mãos, aplicará os mesmos esquemas, mas nem tampouco em situações totalmente novas para as quais chegará um momento em que descobrirá que o martelo se não dispõe de esquemas adequados, nem mesmo parecidos. presta melhor a ser batido e produz efeitos mais interessantes, Assim, quando a discrepância entre a situação nova e uma e lhe aplicará preferencialmente esse esquema, enquanto que situação anterior é intermediária se produz o maior progresso, para o chocalho ficará reservado o de sacudir, que é o que enquanto que se a discrepância for mínima ou máxima o produz os melhores resultados. progresso não será possível. Em experiências com crianças de poucos meses, comprovou-se que se interessam Imaginemos agora que encontra um objeto muito principalmente por objetos parecidos com outros que já diferente: um pedaço de fio elétrico de uns 20 cm ou uma conhecem e que mostram um interesse muito menor por bola. A conduta será diferente. A criança tentará pegar os dois objetos muito conhecidos ou por objetos totalmente novos. objetos e, no primeiro caso, pega o pedaço de cabo, mas este não se presta bem à aplicação dos esquemas anteriores; não é Os esquemas vão se combinando entre si ao longo do interessante nem bater, nem sacudir, nem esfregar, mas pode desenvolvimento, dando lugar a sucessões de ações cada vez aplicar outros esquemas, como segurar as duas pontas e mais complexas. Um adulto diante da porta de sua casa realiza esticar, ou enrolá-lo em volta de outro objeto. Assim são automaticamente uma sucessão de ações sem estar consciente introduzidos novos esquemas que são uma diferenciação dos disso, ou seja, enquanto pensa em algo totalmente diferente. anteriores, e se cair nas mãos da criança um pedaço de elástico Tira do bolso um molho de chaves, seleciona a adequada, de borracha ser-lhe-ão aplicados os esquemas usados para o enfia-a na fechadura, faz a chave girar, abre a porta, torna a fio e não os empregados com o martelo. Dessa forma, constrói fecha-la, guarda novamente a chave, etc. Cada uma dessas uma espécie de preconceito, já que a cada objeto aplica ações poderia ser, inicialmente - e possivelmente foi - um preferencialmente um tipo de esquemas, o que significa que esquema independente, mas, ao final, foram combinadas em aplica uma série de ações determinadas. um esquema único que foi automatizado. Da mesma forma, uma pessoa que está aprendendo a dirigir precisa concentrar- se intensamente em pisar na embreagem e colocar a marcha O PRINCÍPIO DE DISCREPÂNCIA quando quer mudar e isso exige dela uma atenção que dificulta o domínio do volante, a atenção à circulação dos outros carros, O importante de tudo isso é que se constitui num exemplo ou olhar pelo espelho retrovisor; um motorista experiente, ao de como se processa o progresso psíquico. A criança assimila o contrário, automatizou os diversos esquemas da direção e mundo circundante atuando sobre ele e, ao mesmo tempo, se pode ir da sua casa para o trabalho de uma forma totalmente acomoda produzindo novos esquemas por diferenciação dos automática, sem pensar em momento algum no que está esquemas anteriores. Ao agir, seus esquemas se multiplicam, fazendo. Pode havê-lo automatizado a tal ponto que, se quiser se diversificam e o seu número cresce sem cessar enquanto o ir a outro lugar e iniciou o mesmo caminho que quando vai sujeito aprende. para o trabalho, pode distrair-se e seguir a rota habitual ao invés de fazer o caminho que previa ao sair de casa. Os Quando a criança se encontra em uma situação idêntica à diferentes lugares pelos quais vai passando são elementos outra anterior, a única coisa que faz é aplicar os esquemas de desencadeadores de novas ações, como as voltas do volante que já dispõe. O aspecto desencadeante põe em ação esses que, estando automatizadas, vão se desencadeando sem que o esquemas e os aplica até que chega um momento no qual o indivíduo tenha consciência disso. processo se automatiza completamente. Nesse caso, falamos que houve a formação de um hábito. Entretanto, quando a Os problemas que nos dão trabalho para resolver são situação é nova, o sujeito tem que fazer coisas diferentes, mas aqueles para os quais não dispomos de esquemas previamente começará usando também os esquemas de que dispõe. O estabelecidos e temos que formar outros novos. Estamos aspecto desencadeante colocará em funcionamento alguns aprendendo a pintar paredes com um rolo, mas sempre esquemas que pudessem ser apropriados e o sujeito ocorrem pingos e a pintura escorre para baixo. Como resolver selecionará uns ao invés de outros. Se a situação for parecida o problema? Notamos, então, que pintamos de baixo para com outra anterior, o indivíduo tentará aplicar um esquema cima e quando o rolo está muito encharcado de tinta é introduzindo alguma modificação: se, ao invés de querer abrir justamente quando pintamos para baixo, caso em que a tinta, a porta de uma peça, tentar abrir a porta de um armário com excessiva nesse momento, escorre. Nossos conhecimentos chave ao invés de trinco, tentará aplicar os movimentos que sobre o deslocamento de líquidos por superfícies e da situação realiza com o trinco à chave e talvez depois de algumas na qual nos encontramos nos levam a mudar a técnica e, tentativas o consiga. Em situações futuras, adaptará a sua então, tentamos pintar de cima para baixo, acompanhando o preensão à forma da chave e moverá a mão de forma deslocamento da tinta que sobra e evitando, assim, que a adequada para fazê-la girar. pintura se solte e escorra. Resolvemos, dessa forma, um problema novo, o que se constitui num ato de inteligência. Se a situação for muito diferente, como diante de uma Para nós constitui-se num problema uma situação nova onde janela de guilhotina”, das que se deslocam verticalmente, o existem alguns elementos diferentes de outras situações já indivíduo pode não encontrar no seu repertório de esquemas conhecidas, mas que não são totalmente novos, pois nesse nenhum adequado e, por isso, será incapaz de resolver a caso estaríamos perdidos e não saberíamos por onde começar. situação. Nesse caso não haverá formação de novos esquemas, A inteligência é, justamente, o que permite a nossa adaptação nem terá se produzido nenhum progresso no indivíduo porque a essas situações novas. 4
  • subperíodo pré-operatório no qual a criança se mostra muito Evidentemente, a situação que descrevemos mostra um apegada aos aspectos externos das situações. único momento da pintura, não é um problema novo para um pintor experiente e, para ele, é somente uma questão de Dos 7 aos 11 anos, em média, transcorre o período das aplicar esquemas completamente automatizados que se operações concretas, no qual a criança organiza as suas ações desencadeiam de forma apropriada na situação, mas para um em sistemas de conjunto e realiza grandes progressos na amador que está se iniciando na pintura de paredes há muitos aplicação de noções lógicas, mas ainda continua apegada à aspectos problemáticos que precisam ser resolvidos por situação concreta na qual se encontra. modificação de esquemas anteriores. A possibilidade de adaptar-se a novas situações cada vez mais complexas é o Dos 11 aos 15 ou 16 anos, transcorre a etapa das resultado do processo de desenvolvimento. operações formais, na qual o indivíduo começa a raciocinar de forma hipotético-dedutiva e a aplicar os conceitos básicos do Os esquemas aos quais fizemos referência eram esquemas pensamento científico. Com esta etapa termina o principalmente do tipo motor, mas o mesmo acontece com desenvolvimento intelectual. outros- esquemas mais abstratos, por exemplo, com a solução de problemas de matemática. Se aprendemos a calcular a área Esses diferentes estágios definem distintas maneiras de de um retângulo, podemos considerar que dispomos de um nível os problemas que se apresentam e, portanto, a esquema que se aplica quando encontramos uma figura desse adaptação à realidade. A ordem em que transcorrem esses tipo. Mas se tivermos um paralelogramo não retângulo, nos estádios parece ser invariável, mas as idades são mais flexíveis encontramos diante de um problema novo, uma situação e dependem do meio onde se encontra o indivíduo. Não discrepante na qual teremos que experimentar nossos podemos dizer, portanto, que um sujeito de 12 anos se esquemas anteriores. Logicamente, se não sabemos calcular encontra no período das operações formais, senão que, para áreas de superfícies o problema será muito difícil ou impossível fazermos tal afirmação, precisamos analisar a sua conduta. Os de resolver. Pelo contrário, se a diferença entre o tipo de área diferentes fatores do desenvolvimento sobre os quais que temos que calcular e outras que calculamos antes for falaremos mais adiante podem introduzir grandes variações na muito pequena, o problema será muito simples. velocidade com este se processa. Chegaremos a formar um esquema novo. Há também a OS PAIS E A ESCOLA possibilidade de que recebamos instruções verbais sobre a forma de resolver esse problema, como e feito geralmente na escola. Isso facilita a nossa tarefa, mas, muitas vezes não supõe Os pais desempenham um papel muito importante, a formação de um novo esquema que possa ser generalizado embora não necessariamente benéfico, na educação dos filhos. para outras situações, por isso é conveniente deixar que o Essa influência tem início, naturalmente, antes do nascimento. indivíduo explore suas próprias soluções, o que será abordado Em geral, a influência continua sendo particularmente mais adiante. importante durante os primeiros anos de vida, quando a criança permanece grande parte do tempo, ou todo o tempo, em casa tendo contato com a sua família. Como sabemos, essa OS ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO etapa determina em grande parte o desenvolvimento posterior. O ambiente da criança proporcionado pela família Embora o procedimento de formação de esquemas novos deve ser rico em estímulos, não só em quantidade mas seja idêntico em todas as idades, há diferenças marcantes nas também qualitativamente, apresentados da forma adequada e condutas entre crianças de 1 ano, por exemplo, e de 7 anos. no momento oportuno; a relação afetiva com os pais e com os Por isso podemos dizer que o mecanismo do desenvolvimento, irmãos e, antes de mais nada, a relação com a figura materna o princípio pelo qual se produz o progresso psicológico, é o será um determinante de relações sociais posteriores. mesmo em todas as idades, mas o repertório de esquemas vai mudando e vai dando origem a estruturas diferentes nas Assim, quando a criança vai para a escola, o fato de que diferentes idades. Por isso, para entender melhor o progresso tenha tido um desenvolvimento inicial adequado será um das condutas é conveniente distinguir estádios no ponto de partida positivo para o trabalho escolar e para sua desenvolvimento. integração afetiva dentro da escola. Mas não é esse u aspecto ao qual queremos fazer referência agora, e sim, Até 1 ano e meio ou 2 anos, a criança relaciona-se com o principalmente, à influência que os pais possam ter sobre a meio através dos seus sentidos e agindo sobre ele. As trocas criança durante a etapa escolar e sobre o que a criança faz na são principalmente materiais e limitadas à situação atual e a escola. esse lugar. Em torno dessa idade, fins do segundo ano, começam a aparecer a linguagem e a representação, ou seja, a No momento em que a criança chega à escola, estabelece possibilidade de usar um significante ao invés de um novas relações com professores e colegas, relações que, como significado. Isso abre enormes perspectivas e uma nova etapa afirmamos, são influenciadas pelo desenvolvimento anterior no desenvolvimento. A primeira é denominada de período da criança. Quando os pais enviam a criança à escola, criam sensório-motor devido às características predominantes, ou uma série de expectativas sobre o que ela fará ali e seja, atividade sensorial e motora, enquanto que depois estabelecem comparações com outras crianças. Até então, se entramos numa fase representativa. existem diferenças entre a criança e as outras à sua volta, os pais são considerados os responsáveis e, por isso, se a Entre a idade de 2 e 7 anos, a criança reconstrói, pela comparação era desfavorável para a própria criança, produz-se linguagem. muitos dos seus conhecimentos anteriores. A sua uma certa tendência a ignorá-la ou a justificá-la de alguma capacidade de atenção, no entanto, continua ainda sendo forma (“ele é muito distraído, mas muito carinhoso”, “é um limitada e permanece dominada pelo que se denomina chato, mas vivo como ninguém”, etc.). No entanto, no egocentrismo. E a etapa do pensamento intuitivo, ou momento em que a criança começa a freqüentar a escola, 5
  • tende-se a passar a responsabilidade pelos progressos mãos dos pais. As crianças pertencem a toda a sociedade, pois satisfatórios ou menos satisfatórios do filho aos professores a à representam o seu futuro e, por isso, da mesma maneira que organização escolar. não se permite que os pais maltratem ou até matem os seus filhos, tampouco se deve permitir que façam coisas que são Quando a criança vai à escola e à medida que vai negativas na área do desenvolvimento psicológico e, assim, a crescendo, os pais projetam uma série de expectativas sobre o participação dos pais nas decisões sobre a educação dos filhos trabalho de seu filho. É freqüente, também, que projetem suas deve ser limitada. Mesmo falando de pais normais, não se frustrações pessoais ou profissionais e que desejem que seu pode dizer que desejem sempre o melhor para seus filhos se filho chegue mais longe que eles. Aqui aparece uma atitude considerarmos as coisas do ponto de vista objetivo e não ambígua na qual o pai apresenta-se como modelo idealizado subjetivo. Ou seja, podem pensar que estão desejando o com quem o filho deve parecer-se e, ao mesmo tempo, de uma melhor para seu filho e, na realidade, o que estão desejando é forma mais real, como uma meta que deve ser superada, o que mais satisfaz a eles próprios, o que melhor lhes esperando que a criança chegue mais longe. Estas expectativas possibilita realizar suas fantasias sobre o que não conseguiram submetem o filho a uma certa pressão que, em alguns casos, atingir em sua juventude, fantasias que podem perturbar o pode ser muito forte e dificilmente suportável. desenvolvimento dos filhos. As expectativas dos pais diante do trabalho dos filhos Inclusive, se realmente existirem problemas, se a criança costumam referir-se aos aspectos mais facilmente observáveis apresentar atrasos reais, o pior é sempre angustiar-se em do trabalho escolar. Nos primeiros níveis, fazem referência relação a eles e pressionar ou forçar a criança para que os quase exclusivamente aos progressos na leitura, na escrita e supere. Se a criança não aprende a escrever, o que se deve nas primeiras noções de matemática; posteriormente, muitos fazer não é recrimina-la ou dar-lhe mais horas de aula, mas sim pais já não são capazes de avaliar esses progressos e limitam- tentar descobrir os motivos pelos quais não aprende ou tentar se às notas. Se a pressão dos pais para que a criança obtenha eliminá-los. Muitos pais somente desejam que seus filhos boas notas for muito grande, esta pode chegar a detestar o progridam na escola, mas não manifestam o mínimo interesse trabalho escolar e a fugir dele, já que se constitui numa fonte pela tarefa que as crianças realizar ai ou pelos verdadeiros de conflitos com a sua família. Por isso, uma excessiva pressão, interesses de seus filhos. Certos pais inclusive menosprezam principalmente se for referente somente às notas, é sempre profundamente o trabalho dos professores e até o manifestam negativa porque, ao invés de estimular a criança, o que diante dos filhos. Por isso é normal que estes pensem (de uma consegue é impedi-la de avançar. forma geralmente não consciente) que, já que seus pais têm tão pouco interesse por aquilo que eles fazem na escola e Os pais costumam prestar muito menos atenção a outros apreciam tão pouco os professores, não vale muito a pena aspectos do desenvolvimento, àqueles aos quais fizemos preocupar-se com o trabalho escolar. A atenção e a referência, que são menos visíveis, porém, mais importantes e preocupação sensatas dos pais pelo trabalho da criança e pela que traduzem melhor os progressos da criança, por exemplo, tarefa que é realizada na escola são um dos fatores que mais os seus avanços na área das relações lógicas, das noções de podem contribuir para o progresso da criança. conservação ou no domínio do pensamento hipotético- dedutivo e das formas de pensamento racional. Como estes Assim, um pai que se interessa pelos avanços que seu filho aspectos são mais difíceis de serem observados, realiza na escola, que não é exigente demais, que não principalmente por pessoas não especializadas, os pais não pretende comparar constantemente o filho com outras costumam dar-lhes a atenção que merecem e, desse ponto de crianças, que é sensível aos esforços inovadores realizados na vista, é comum que os pais sejam uma das principais escola e ao trabalho dos professores, pode ser um estímulo dificuldades para a introdução de melhorias e reformas nas positivo para a aprendizagem da criança, mas atitudes escolas. Afirma-se, com freqüência, que muitas experiências contrárias ou simplesmente a falta de interesse, que são muito inovadoras realizadas na escola têm sido frustradas pela falta freqüentes, são altamente negativas e são, sem dúvida, uma de colaboração ou até pela oposição encontrada nos pais, que das causas dos fracassos escolares. esperam que seus filhos saibam o que sabem os filhos dos seus vizinhos ou o que eles sabiam com essa idade. Os relatos de A reprovação é considerada como a medida do sucesso ou grandes pedagogos inovadores contêm, freqüentemente, do fracasso na escola. Mas não é mais do que um índice alusões a estes problemas. Quando as mudanças são devidas a externo que pode ser conseqüência de muitas causas. O reformas gerais do sistema educacional, ainda são capazes de importante é, então, tentar detectar quais são essas causas e aceitá-las, mas quando se referem ao trabalho experimental encontrar a sua solução. realizado em uma determinada escola, a oposição é muito maior e isso obriga os professores não somente a realizar um Podemos dizer que os exames e as reprovações são uma trabalho criativo e de busca, mas realizá-lo num ambiente, em forma de controle social e de ordenação dos indivíduos. Não última análise, hostil. analisaremos agora o valor e necessidade da existência de exames, assunto que já tem sido muito abordado. O que A partir desse ponto de vista, é muito conveniente que os queremos dizer é que por trás de cada reprovação há um pais conheçam as fases de desenvolvimento dos seus filhos e problema cognitivo ou afetivo, e geralmente ambos, e que o possam ser mais compreensivos com o ritmo de progresso que precisamos fazer é tentar encontrar esse problema se destes e com os problemas que eventualmente possam surgir. quisermos que o sujeito progrida. Mas o que não costuma ser Por isso, seria muito conveniente realizar um trabalho de uma solução é fazê-lo repetir o ano ou dar-lhe algumas aulas formação dos pais através de diversos meios, incluindo a complementares. Se um aluno for capaz de ser aprovado em televisão. uma disciplina recebendo algumas aulas suplementares fora da escola, isso pode ser devido a três causas. Ou o procedimento Esta cegueira dos pais diante do desenvolvimento dos de ensino na escola é decisivamente mau, e então deveria ser filhos e a projeção de frustrações que tentam resolver através mudado; ou essa criança precisa de um contato mais pessoal e deles é um motivo para não deixar a educação somente em direto com uma pessoa, e isso consegue com um professor 6
  • particular, mas, então, não é o que ele ensina, mas sim a estar sujeita a controles muito rígidos e deveriam ser usados atenção que lhe é dada nessa situação e que provavelmente apenas em casos excepcionais. não recebe em outros lugares o que o ajuda na aprendizagem; ou, finalmente, o que lhe é exigido na escola é puramente uma Mas além da falta de garantias com que são obtidos os aprendizagem memorística ou de receitas e o professor dados dos testes, há outro problema igualmente grave, que é o particular ensina justamente essas receitas. Em qualquer um da interpretação dos resultados. Com freqüência, o próprio dos três casos a solução deveria ser procurada dentro da professor e também os pais atribuem aos resultados dos testes escola. um valor muito maior do que estes realmente possuem e formam, então, uma idéia sobre a criança que pode influenciar As repetições de ano, e, mais ainda, as aulas de decisivamente seu rendimento na escola. Diversas experiências recuperação, são em geral totalmente inúteis se o que têm manifestado que as atitudes e expectativas do professor esperamos é que os estudantes aprendam realmente e se em relação ao aluno se constituem num fator muito desenvolvam. Se a nossa pretensão é somente que decorem importante para o aproveitamento escolar, uma matéria determinada, é evidente que, quanto mais horas independentemente da capacidade medida pelos testes. Ou forem dedicadas a uma aprendizagem memorística mais seja, a convicção de um professor de que um aluno tem provável será que se consiga isso, mas os resultados não serão capacidade determina mais o seu bom rendimento do que sua bons porque rapidamente serão esquecidos. O que acontece é inteligência medida pelos testes, e o mesmo ocorre no sentido que, nesse meio tempo, o exame já terá passado e teremos a inverso, um aluno que o professor considera como um mau ilusão de que a criança aprendeu alguma coisa. Se quisermos aluno facilmente obterá maus resultados. Segundo esta visão, conseguir um autêntico avanço de nossos alunos, o que o uso dos testes nas escolas pode ser algo extremamente precisamos é detectar as causas pelas quais eles não aprendem prejudicial, pois pode determinar atitudes do professor ou de e tentar solucioná-las. Em alguns casos talvez não haja solução outros adultos que se transformariam em realidade devido a porque o aluno não seria capaz de aprender aquilo que lhe é que consideram os resultados como autêntica expressão da ensinado mas essa é uma situação excepcional e, na maioria inteligência de um aluno. das vezes, os atrasos devem-se a defeitos na maneira de ensinar ou nas relações em classe ou em casa. Ter consciência De qualquer maneira, a função do psicólogo numa escola disso é um primeiro passo para encontrar a solução. pode e deve ser muito importante, independentemente dos testes. Ao longo de todo este livro, tentamos mostrar a OS PSICOLOGOS NA ESCOLA E OS TESTES necessidade de conhecer o desenvolvimento psicológico do aluno e adequar ao mesmo o ensino, a fim de que este seja Os testes de inteligência estiveram ligados, na sua origem, eficaz. Para realizar essa tarefa, para planejar e desenvolver o a problemas escolares. O criador dos primeiros testes de trabalho em aula, o psicólogo pode ser um excelente apoio inteligência que respondiam a necessidades práticas, o para o professor. Este deve conhecer o desenvolvimento da psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911), tinha como criança, mas não tem por que ser um especialista. O psicólogo objetivo elaborar um instrumento de diagnóstico que pode ajudá-lo em sua tarefa, mas, para isso, precisa trabalhar permitisse determinar se uma criança estava adiantada ou dentro da escola em intima cooperação com os professores. atrasada em relação às de sua idade, sem analisar se o seu Isto requer uma grande modificação na função do psicólogo atraso era adquirido ou devido a causas congênitas. Binet não escolar. Não será uma pessoa que vem de vez em quando considerava, absolutamente, que os resultados no teste examinar as crianças, diagnosticar as que apresentam algum fossem fixos e não pudessem ser modificados. O que ele tipo de problema, nem será a pessoa à qual são encaminhados pretendia era, justamente, determinar o nível em que se os alunos difíceis; essa será, em todo caso, uma tarefa encontrava um aluno para, caso não fosse suficiente, contribuir excepcional. Tampouco será aquele que diz ao aluno o que ele para o seu progresso. tem que ser ou quais são suas tendências, servindo como orientador. Cada vez está sendo mais debatida essa idéia da Entretanto, o desenvolvimento posterior dos testes de orientação, pois sabe-se que serve para pouco. Sua tarefa inteligência, principalmente nos Estados Um dos, levou a principal dentro da escola será a de planejar atividades, pensar que os testes medem realmente a inteligência e que analisar o rendimento dos alunos, mas não de cada aluno, ou esta é algo fixo que acompanha o sujeito ao longo da sua vida. de um aluno, e sim de todos, pois o que é preciso avaliar é o Diante disto é preciso dizer que as pontuações dos testes método de trabalho. O psicólogo deve visitar a sala de aula e indicam muito pouco sobre a inteligência da criança e, não trabalhar em uma gabinete isolado. Só excepcionalmente principalmente, sobre o seu futuro. Os testes estão mais se ocupará dos alunos com problemas, pois o que ele tem que relacionados com o rendimento escolar, considerado nesse fazer é contribuir para que esses alunos não existam, sentido limitado de obter resultados facilmente visíveis mas planejando junto com os professores as condições e o pouco indicativos do desenvolvimento intelectual real da ambiente adequado de trabalho, tanto do ponto de vista criança. intelectual como social. Na verdade, a utilização de testes na escola é muito mais Para realizar essas tarefas de planejamento e profilaxia, prejudicial do que benéfica devido à forma como são aplicados deveria haver psicólogos nas escolas, nos centros de ensino e e à utilização que se faz deles. Freqüentemente os testes são nos centros de atualização de professores. Mas, naturalmente, mal aplicados, por pessoas não qualificadas, de forma coletiva deveriam ser psicólogos com uma formação diferente daquela e com poucos cuidados. As pessoas que analisam os resultados que possuem muitos deles mais inclinados a realizar não sabem como devem ser interpretados. Mesmo tomando diagnósticos ou a considerar o aluno como um paciente. todas as precauções e aplicado por um especialista, um teste não é nada além de mais um elemento dentro de um PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO diagnóstico, que deve ser complementado com outras provas e com entrevistas. A utilização dos testes nas escolas deveria 7
  • A Psicologia da Educação procura utilizar os princípios as crianças, do ponto de vista do indivíduo e do grupo. informações que as pesquisas psicológicas oferecem acerca do Professores que mantêm relações agradáveis com os alunos, comportamento humano, para tomar mais eficiente o processo que preferem atitudes democráticas e cooperadoras, que são ensino-aprendizagem. delicados e pacientes, têm muito mais probabilidades de serem bem sucedidos em seu trabalho educativo. A contribuição da Psicologia da Educação abrange dois aspectos fundamentais: Outro aspecto importante do papel do professor refere-se a)Compreensão do aluno. Compreensão de suas á sua participação em atividades escolares extraclasse. Essas necessidades, suas características individuais e seu atividades são responsáveis por grande parte da aprendizagem desenvolvimento, nos aspectos físico, emocional, intelectual e dos alunos: é no recreio, em promoções culturais, artísticas, social. O aluno não é um ser ideal, abstrato. É uma pessoa sociais e esportivas que os alunos aprendem a convivência concreta, com preocupações e problemas, defeitos e social, o gosto pela cultura e pela arte e a prática de esportes, qualidades. E um ser em formação, que precisa ser tão salutares para seu desenvolvimento. O professor deveria compreendido pelo professor e pelos demais profissionais da participar dessas atividades que contribuem para uma melhor escola, a fim de que tenha condições de desenvolver-se de aprendizagem das matérias escolares. Essa participação forma harmoniosa e equilibrada. proporcionaria ao professor oportunidades ótimas de conhecer b) Compreensão do processo ensino-aprendizagem,. melhor seus alunos. Para o professor, não é suficiente conhecer o aluno. E É sabido que o relacionamento fora da sala de aula, em necessário que ele saiba como funciona o processo de atividades extraclasse, costuma ser muito mais natural e aprendizagem, quais os fatores que facilitam ou prejudicam a espontâneo e, portanto, muito mais rico para o aprendizagem, como o aluno pode aprender de maneira mais desenvolvimento integral de alunos e professores. eficiente, além de outros aspectos ligados á situação de aprendizagem, envolvendo o aluno, o professor e a sala de A participação do professor em atividades da comunidade aula. onde se situa a escola também é importante para que ele conheça os resultados de seu trabalho e possa orientar as Na verdade, além desses dois aspectos existe outro, de tarefas escolares de acordo com as necessidades e aspirações fundamental importância para que o professor consiga realizar reais da população. Muitas vezes a escola permanece isolada satisfatoriamente seu trabalho: a compreensão do papel de da comunidade, quando deveria estar a seu serviço, atendendo professor. aos pais e a outros moradores da comunidade, como centro de encontros, reuniões, cursos e promoções artísticas, culturais, 1- Compreensão do papel do professor esportivas, etc. Além dos aspectos relacionados com os vários papéis que o professor desempenha junto aos alunos e à A idéia que fazemos de escola quase sempre inclui o comunidade, convém chamar a atenção para a própria seguinte quadro: um professor tentando ensinar alguma coisa realização do professor. Para o sucesso do trabalho educativo, a uma turma de alunos. Na verdade, o professor também é importante que o professor goste do que faz, acredite que aprende enquanto ensina, e o aluno, enquanto aprende, está alcançando os resultados esperados e se sinta satisfeito e também ensina. Se o professor precisa conhecer a si mesmo realizado. Um professor frustrado é um fator de frustração para poder conhecer os alunos, a abertura ao que os alunos para os alunos. Sabe-se que uma atitude positiva do professor podem ensinar-lhe é um dos passos para esse em relação á matéria, aos alunos e a seu próprio trabalho é de autoconhecimento. fundamental importância para a eficiência da aprendizagem O professor não é o senhor absoluto, dono da verdade e por parte dos alunos. dono dos alunos, que manipula a seu bel-prazer. Os alunos são pessoas humanas, tanto quanto ele, e seu desenvolvimento e Na medida em que se sente realizado, o professor tem sua liberdade de manifestação precisam ser respeitados pelo interesse em evoluir constantemente, em procurar dedicar-se professor. Na medida em que isso acontecer, o professor efetivamente a seu trabalho. Quanto mais o professor se chegará á conclusão de que não é apenas uma maquininha de aperfeiçoa, tanto mais alcança sucesso em seu trabalho, e ensinar ou um gravador ou qualquer outro aparelho. Como os quanto mais se vê bem sucedido, tanto mais procura alunos, ele também é uma pessoa e relaciona-se com eles de aperfeiçoar-se e desenvolver-se. forma global, e não apenas como instrutor ou transmissor de ordens e conhecimentos. É evidente que a realização do professor, enquanto instrutor, orientador e exemplo, enquanto participante das Enquanto pessoa humana adulta, o professor costuma ser atividades de seus alunos e da comunidade, depende também considerado um exemplo para os alunos. Quase sempre sem das condições objetivas de trabalho. Se o professor ganha ter consciência exata disso, o professor transmite a seus alunos pouco e seu dinheiro não dá nem para comprar um livro ou ir a atitudes positivas ou negativas em relação ao estudo e aos um teatro; se é obrigado a trabalhar em várias escolas para colegas, transmite seus preconceitos, suas crenças, seus sobreviver; se a escola não lhe fornece os recursos necessários valores, etc. O aluno ás vezes aprende muito mais com o que o a seu trabalho educativo, dificilmente ele poderá contribuir professor faz ou deixa de fazer, do que com aquilo que o para a realização dos alunos. Nessas condições, será um herói professor diz. É importante que o professor tenha consciência aquele que conseguir aperfeiçoar-se constantemente e de que além de mero transmissor de conhecimentos, ele é realizar-se. mais um dos exemplos adultos que os alunos em desenvolvimento poderão vir a imitar. A população e os professores devem trabalhar para que os poderes públicos tomem consciência da importância da Ao menos em relação a crianças, certas pesquisas têm educação para o país e canalizem para o setor os recursos demonstrado que o conhecimento da matéria e a eficiência do necessários. ensino não são as características mais valorizadas pelos alunos. Mais importante é o relacionamento do professor com as 2- Compreensão do aluno 8
  • A Psicologia da Educação é indispensável para que o 3- Compreensão do processo ensino-aprendizagem professor tenha condições de compreender seus alunos e desenvolver um trabalho mais eficiente. Entre os professores, muitas idéias falsas sobre o processo educativo já estão sendo substituídas por outras. Hoje em dia Não é a mesma coisa trabalhar com crianças de quatro sabe-se que não basta punir ou recompensar o aluno para que anos, com crianças de dez anos ou com adolescentes. O aluno ele aprenda; que despejar conhecimentos sobre os alunos não está em formação, em desenvolvimento. E em cada uma das é o mais importante; que apenas falar a matéria na aula é etapas desse desenvolvimento tem características diferentes, insuficiente; que não basta que o aluno memorize os necessidades diferentes, maneiras diferentes de entender as conhecimentos para que os utilize na prática; que não adianta coisas. Daí a importância que tem para o professar o criar uma situação agradável na sala de aula, se o aluno não conhecimento integral do aluno, em seus aspectos físico, está interessado em aprender, etc. emocional, intelectual e social. A aprendizagem ocorre sob a ação de inúmeros fatores, A escola geralmente dá mais importância ao que a Psicologia da Educação procura estudar e explicar. As desenvolvimento intelectual do que aos outros aspectos. Mas, vezes, o aluno não aprende por razões simples, como, por principalmente em regiões desfavorecidas, cabe á escola suprir exemplo, o fato de ter ficado retido em casa por causa da as deficiências da comunidade e contribuir para o chuva, ou o fato de os pais não darem muita importância à desenvolvimento físico, emocional e social dos alunos. Isso é escola, e assim por diante. importante na medida em que o desenvolvimento humano se faz de forma integral e global, envolvendo todos os aspectos. O Por tudo isso é muito importante que o professor estude as desenvolvimento intelectual poderá ser prejudicado, se não principais questões analisadas pela Psicologia da Educação: houver o desenvolvimento concomitante dos outros aspectos. Como deve ser a interação entre professores e alunos para Além dos conhecimentos ligados ao desenvolvimento que a aprendizagem seja mais eficiente? afetivo e intelectual dos alunos, a Psicologia da Educação pode ajudar o professor a compreender os alunos em suas relações O que é aprendizagem? Quais os fatores que facilitam a com a família, com os amigos, com a escola, com a aprendizagem? comunidade, etc. No decorrer de sua vida diária, o aluno sofre uma série de influências que vão ter repercussões, negativas Como fazer com que os alunos estejam motivados para ou positivas, em seu trabalho escolar. Se essas influências aprender e se interessem pela matéria a ser estudada? estão em concordância com a direção imprimida ao trabalho escolar, podem ser benéficas para a aprendizagem. Como fazer para tornar a matéria e o seu ensino mais criativos, mais dinâmicos e menos monótonos? Em alguns casos, verifica-se que a família e a escola orientam a criança em sentidos diferentes, ou que os valores Qual a importância da liberdade para a aprendizagem? dos amigos e os da escola sejam valores divergentes. Haverá, então, conflitos, e a criança poderá ser prejudicada em seu Por que os alunos esquecem a maior parte do que trabalho escolar. estudam? Conflitos podem nascer também das diferenças de classes Como não esquecer o que aprendemos? sociais. Quais os fatores que prejudicam a aprendizagem? Muitos alunos já chegam à escola familiarizados com o material escolar mais comum - lápis, borracha, régua, caderno, O que significa avaliar a aprendizagem? livro -, enquanto outros nunca usaram esse material em sua vida. Muitos alunos chegam imbuídos de valores como ordem, Como avaliar o que foi aprendido? limpeza, higiene, trabalho persistente, etc., ao passo que outros não estão acostumados a dar importância a tais valores. A todas essas questões e a muitas outras a Psicologia da O que acontece, então? Educação procura responder. Entretanto, é preciso que se tenha sempre em mente o seguinte: cada situação é diferente, Na medida em que o professor é oriundo de uma cada caso é um caso. A Psicologia da Educação não fornece determinada classe social, pode não levar em consideração tais receitas prontas, que o professor possa aplicar diferenças e apresentar dois comportamentos negativos para a automaticamente. Diante de cada situação, o professor deve aprendizagem: analisar e estudar todos os aspectos e, somente então, ver qual o procedimento indicado para o caso. As informações 1) desconhecer que o não-aproveitamento dos alunos sobre o comportamento oferecidas pela Psicologia podem pode ser conseqüência da inadaptação á própria escola; ajudar o trabalho do professor. 2) tentar impor seus próprios valores de classe a todos os 4- Objetivos do curso de Psicologia da Educação alunos, desrespeitando a realidade de cada um. Objetivos no campo da compreensão: Como se vê, o trabalho educativo não é tão simples quanto se possa imaginar. Embora o conhecimento de Psicologia da 1. Compreensão do comportamento humano, incluindo- Educação não seja garantia de bom ensino, pode ajudar o se o do professor, como condição para a compreensão do professor a desempenhar suas funções de maneira mais comportamento dos alunos. satisfatória para ele e para os alunos 9
  • 2. Compreensão dos princípios da Psicologia da Educação, não como regras a serem memorizadas, mas como meios a Sabe-se também que não se pode mais conceituar o serem utilizados para lidar mais corretamente com os alunos. ensino, apenas como transmissão de conhecimentos e informações nas várias áreas da vida. Hoje, sabe-se, é 3. Compreensão dos vários aspectos do crescimento e muitíssimo importante que se forme o educando para a vida e desenvolvimento e de suas inter-relações. que as informações estão embutidas no todo maior da formação. 4. Compreensão do vocabulário utilizado em Psicologia da Educação. Atualmente é, muito difundida a crença de que a educação escolar é o meio mais eficaz para se galgar a escala social. Objetivos no campo das habilidades: Aquele que conseguir ingressar nas escolas, superando as dificuldades e lograr concluir seus estudos certamente, terá 1. Capacidade para utilizar os conhecimentos de melhoria em sua posição social. Nos países chamados desen- Psicologia da Educação no trabalho escolar. volvidos observa-se uma política governamental voltada para este objetivo. O ideal de uma escola pública, universal e 2. Capacidade para compreender os alunos, suas gratuita é perseguido, ainda hoje, em todos os países em fase necessidades e aspirações. de desenvolvimento, entre eles o Brasil. 3. Capacidade para manter na sala de aula uma situação Sabe-se que em nossos dias ainda existem inúmeros favorável á realização do professor e dos alunos. brasileiros que carregam o estigma de analfabetos, sem contar com milhões de crianças na faixa-etária escolar sem condições 4. Capacidade para motivar os alunos no sentido do mínimas de, sequer, serem alfabetizados. aproveitamento das oportunidades que a escola oferece para o seu desenvolvimento integral. Formando um contingente bastante grande estão aqueles que passaram pela escola e apenas conseguiram acumular 5. Capacidade para ler textos sobre o assunto e fracasso. aperfeiçoar-se constantemente, melhorando seu trabalho A repetência nas primeiras séries do ensino fundamental é educativo. ainda um fator que preocupa as autoridades e que apesar das tentativas não foi encontrada a solução. Objetivos no campo das atitudes: Paralelamente a estes estão os que buscam na escola 1. Respeito ás crianças em geral e a cada uma em apenas a possibilidade de receber alimentação. particular, sem deixar-se influenciar por preconceitos e Pelo exposto, não causa surpresa o número cada vez maior avaliações alheias a respeito de suas capacidades. de evadidos nas primeiras séries do ensino fundamental. 2. Senso de responsabilidade em relação ao Sabem os educadores que muitas são as causas da situação desenvolvimento global dos alunos. atual da Educação no Brasil. Impossível seria resolvê-las com fórmulas milagrosas, mas não se pode estagnar e ficar 3. Consciência da importância do professor como aguardando novos dias melhores. Eles chegarão, certamente, exemplo a ser imitado pelos alunos. se todos colaborarem formando um verdadeiro bloco onde a comissão de frente estaria integrada por autoridades 4. Convicção de que o aluno está em primeiro lugar e o educacionais e docentes de todos os níveis. centro de todo o processo ensino-aprendizagem. ENSINO INDIVIDUALIZADO E SOCIALIZADO 5. Interesse constante pelo próprio trabalho profissional. ASPECTOS SOCIOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO ENSINO POR SOLUÇÃO DE PROBLEMA INVESTIGAÇÃO E MATERIAL CONCRETO ENSINO, ESCOLA E SOCIEDADE Uma questão metodológica: novo modo de fazer a O ensino voltado para as novas gerações é um trabalho educação. complexo e sutil de engenharia humana pois é o inicio de um processo (ensino-aprendizagem) que busca desenvolver e Há, no interior da escola, uma relação básica, fundamental, formar o caráter, a inteligência e a personalidade das novas sobre a qual devemos, tecer a algumas considerações. Trata-se gerações de modo a integrá-las na conjuntura da vida social da relação educador/educando, e das relações sociais dela como fator positivo de bem-estar, de produtividade e de decorrentes, como a primeira a existir no âmbito da atividade melhoria no progresso humano. educacional. E essa a relação que deve determinar as demais Não mais se pode partir do pressuposto de que basta a no interior da escola, que vão desde a existência do serviço intenção de se ensina r para que a aprendizagem seja atingida. especializado na escola (orientação, supervisão) até aos Compreende-se que no processo ensino-aprendizagem, não é serviços administrativos e de apoio. Queremos dizer que tudo suficiente que haja uma intenção, um planejamento, uma o que a escola faz parte daquela relação fundamental. Essa é quantidade de bom material auxiliar e etc, para que esse uma reorientação para o próprio planejamento educacional, ensino seja efetivado. Todos os fatores apresentados são que deve tomar a escola como referência e como ponto de importantes, mas não garantem a efetiva aprendizagem. Só se partida, fugindo da concepção de planejamento como poderá dizer que houve ensino se, em verdade, ocorrer a sustentáculo do aparelho escolar. Considerar, ainda, aprendizagem. fundamental a relação educador/educando é reconhecer que a 10
  • escola deve ser a detentora da direção moral e intelectual do na medida em que concorrem para tornar explícita as processo educativo. tendências, isto é, as concepções de Filosofia da Educação. O destino desse processo é o aluno e, por extensão, a Tendo em vista o objetivo deste trabalho das diferentes chamada “comunidade social” - logo, deve existir uma concepções de Filosofia da educação, classificação essa que articulação dinâmica entre a escola e a totalidade das pessoas funcionaria como referencia teórica orientador das que convivem e que são atendidas nessa escola. Por investigações a serem processadas e, ao mesmo tempo, teria a conseguinte, a passagem do conteúdo educativo para o sujeito sua validade submetida a teste no decorrer das investigações. ao qual se destina não pode ser arbitrária e autoritária, nem à O resultado foi o grupamento das diferentes correntes em base do “laissez-faire”, nem, de maneira desconectada e quatro concepções fundamentais de Filosofia da Educação: desorganizada - há do se ter direção, condução, proposta, A passagem dirigida do conteúdo educativo tem, no caso, a)Concepção “humanista” tradicional; significado definido: o processo educativo tem um objetivo a b) Concepção “humanista” moderna; alcançar e, para isso, exige que os educadores tenham um c) Concepção analítica; claro conhecimento da realidade para a qual se educa. Se a d) Concepção dialética. escola detém a liderança do processo educacional, ela tem de O segundo passo consistiu no levantamento do “material ter clareza sobre a realidade para a qual está educando. empírico” (literatura educacional). Tomando como ponto de partida a situação atual, considerou-se necessário levar em Essa exigência parece óbvia mas, na verdade, vem sendo conta as obras em circulação no Brasil no momento presente. ignorada nas atividades educativas, O professor de Ciências Para tanto, foram utilizados como instrumento os catálogos julga que não precisa conhecer a realidade social; o professor atualizados das Editoras, referentes ao ano de 1977. Como, de Educação Física atribui esse conhecimento ao professor de porém, as dissertações/teses na sua maioria não são história, e assim por diante. Essa situação é uma decorrência publicadas podendo, entretanto, constituir-se num indicador da divisão do próprio trabalho educativo, onde o professor de significativo da produção da literatura educacional e, Matemática ignora a proposta dos conteúdos de Língua consequentemente, das tendências e correntes em vigência na Portuguesa que estão sendo ensinados, e os professores educação brasileira, decidiu-se efetuar o levantamento acabam por exigir dos meninos o que eles mesmos não sabem também das dissertações/teses apresentadas nos Programas e não conhecem. Isso concorre para o estabelecimento de de Pós-Graduação em Educação até dezembro de 1977. exigências acima daquilo a que o aluno pode responder, porque o educador desconhece, sobretudo, a própria realidade Os resultados obtidos, quando confrontados, à luz do inerente dos alunos. Como decorrência dessa última situação, referencial teórico adotado, com estudos preliminares de temos instituições formadoras de professores preparando-os História da Educação Brasileira no que toca ao período para trabalhar numa escola que não existe, como alunos cuja posterior a 1930, sugeriam que o período compreendido entre realidade desconhecem - a de alunas mal alimentadas, 1930 e 1960 caracterizou-se pelo predomínio da concepção marginalizados da cultura, de escolas sem biblioteca, mal humanista com progressivo avanço da versão tradicional. No instaladas, de alunos incapazes de fazer uma pesquisa escolar período posterior a 1960 a concepção humanista começa a porque sua família não possui os mínimos elementos materiais ceder lugar à tendência tecnicista (concepção analítica) que vai e intelectuais aplicáveis a esse trabalho. Ocorre, desta forma, a se tornar nitidamente predominante especialmente a partir de multiplicação de processos educativos dissociados das 1969. condições reais e objetivas dos educandos. A realidade com a qual convive o educando não tem nada a ver com a proposta Julgou-se, então, necessário complementar os dados já educativa que envolve. O ponto mais importante a assinalar, levantados a fim de contar com elementos mais precisos no creio, é o da definição de uma pedagogia que deveria ser sentido de testar a validade do esquema de análise utilizado. desenvolvida para o nosso contexto social - e o primeiro passo Decidiu-se, assim, tomar como pontos de referência o ano de para isso é o conhecimento da realidade. 1960, situado em plena fase de predomínio da concepção humanista, e o ano de 1974, em plena fase de predomínio de tendência tecnicista, e efetuar o levantamento dos trabalhos, a ASPECTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO partir da Bibliografia Brasileira de Educação. Encerrada a fase de levantamento de dados, estávamos diante e 1.479 estudos Neste trabalho pretende-se evidenciar as correntes e assim distribuídos: tendências da educação brasileira enquanto expressão da Filosofia da Educação, entendida esta como tomada de posição Obras listadas a partir dos catálogos de Editoras=421 explícita, portanto, sistematizada, sobre a problemática educacional. Em conseqüência, para efeito deste estudo, Estudos relacionados a partir da B.B.E., 1960 =249 consideramos “tendências” determinadas orientações gerais à luz das quais e no seio das quais se desenvolvem determinadas Estudos relacionados a partir da B.B.E., 1974 =163 orientações especificas, subsumidas pelo termo ‘corrente”. Dissertações / teses = 646 Assim sendo, nos inclinamos a identificar as “tendências” com as concepções de Filosofia da Educação. Dessa forma, esta Total =1.479 pesquisa, versando sobre “Filosofia da Educação Brasileira” visa a detectar as tendências, isto é, as concepções de Filosofia Esse conjunto de dados foi organizado em fichas e da Educação â luz das quais e sob cuja inspiração se classificado de modo a se separar, primeiramente, os trabalhos desenvolvem as diferentes correntes da educação brasileira. de autores estrangeiros daqueles de autores nacionais. Os Não é, pois, nosso propósito fazer um levantamento e estudos de autores nacionais, por sua vez, foram distribuídos exposição sistemáticos das correntes. Nossa atenção se em dois grupos: textos da áreas básicas (Psicologia, Sociologia, concentrará nas tendências. As correntes serão mencionadas Fisiologia, História, Economia); e textos das áreas aplicadas 11
  • (metodologia do Ensino, Didática, Estrutura e Funcionamento À guisa de ilustração, mencionamos alguns autores que, a do Ensino, Currículo, Avaliação, Tecnologia Educacional, etc.). nosso ver, incidiram no risco acima referido. Brubacher, no capítulo intitulado “Filosofias Sistemáticas de Educação”, O terceiro passo se caracterizou pela seleção, análise e analisa as seguintes correntes: “naturalismo pragmático”, interpretação do material levantado. Cabe frisar que esta “reconstrucionismo”, “naturalismo romântico”, etapa limitou-se aos textos de autores nacionais das áreas “existencialismo”, “análise lingüística”, “idealismo”, “realismo”, básicas, como ênfase especial na área de Filosofia da Educação. “humanismo racional”, realismo escolástico”, “ fascismo”, “comunismo” e “democrata”. Cunningham, por sua vez, Finalmente, o quarto passo é constituído pela exposição identifica as seguintes correntes: “idealismo”, “materialismo”, dos resultados, que forma o corpo do presente texto. Tal “humanismo” e “supernaturalismo”. exposição será feita em duas partes: Já Kneller distingue entre o pensamento dos filósofos sobre a)explicitação do quadro teórico; educação, indicando cinco correntes: “idealismo”, “realismo”, b) análise das tendências e correntes da educação “pragmatismo”, “existencialismo” e “análise”, e o pensamento brasileira na perspectiva da Filosofia da Educação. dos educadores, identificando neste caso, quatro correntes: “progressismo”, “perenalismo”, “essencialismo” e Nas conclusões serão feitas algumas considerações sobre o “reconstrutivismo”. Ozmon apresenta classificação modo como as diferentes tendências se interpenetram, semelhante. Indica cinco “correntes de filosofia”: idealismo, cruzando a prática pedagógica no atual contexto brasileiro. realismo, pragmatismo, existencialismo e behaviorismo, às quais correspondem, respectivamente, as seguintes “filosofias educacionais”: perenalismo, essencialismo, progressismo e O QUADRO TEÓRICO recosntrucionismo, existencialismo e planejamento de comportamento. Nota-se, nas classificações apresentadas, o Analisar as correntes e tendências da educação brasileira é tratamento “autônomo” conferido às idéias filosóficas e uma tarefa que pode ser encetada de múltiplas maneiras. No pedagógicas. caso deste estudo já há, é certo, uma delimitação preliminar; trata-se de uma tarefa a ser cumprida segundo uma Decorre daí o caráter até certo ponto arbitrário das perspectiva determinada: a perspectiva da Filosofia da referidas classificações. De passagem, observamos que a Educação. dificuldade decorre da própria concepção assumida pêlos autores citados. Entretanto, o que se deve entender por “filosofia da Mais adiante veremos que a exigência de articulação com o educação”? Em que medida ela poderá nos oferecer um contexto histórico-concreto é inerente á concepção dialética, o referencial seguro para a análise que pretendemos mesmo não ocorrendo com as demais concepções. desenvolver? Para evitar o risco acima apontado, vamos esboçar um Por trás das muitas acepções que pode assumir a quadro sistemático que, no entanto, mantenha articulação expressão “filosofia da educação”, podemos identificar dois com o processo concreto, isto é, com a atividade educacional sentidos fundamentais: a) a filosofia da educação como tal como ela vem se manifestando no seio da organização processo; b) a filosofia da educação como produto. Em outro social em que vivemos. trabalho, procurando enfatizar o caráter de processo, conceituamos a filosofia da educação como uma “reflexão Por razões didáticas, apresentaremos, primeiramente, a (radical, rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a classificação a que chegamos das diferentes concepções de realidade educacional apresenta”. E evitamos utilizar o termo filosofia da educação, destacando apenas os seus traços “filosofia” para designar o produto, empregando, neste caso, o distintivos. Em seguida será indicado o modo como elas se termo “ideologia”, entendido, porém, no sentido mais amplo articulam com a organização educacional historicamente d& “orientação da ação” e não com o significado de “falsa considerada. consciência”. Entretanto, chamávamos atenção para o fato de que os dois significados de filosofia da educação (processo e Após o estudo das diversas correntes e o exame da produto) estão intimamente relacionados, só sendo evolução da organização escolar desde meados do século distinguíveis por um ato de abstração. passado quando a sociedade atual adquire contornos definidos com a consolidação do poder burguês, chegamos às conclusões Neste texto, sem perder a vista a intima relação entre os que, resumidamente, passamos a expor. dois aspectos, a ênfase será posta no produto, isto é, a filosofia da educação será encarada enquanto concepção Em grandes linhas, seriam as seguintes as concepções razoavelmente articulada á luz da qual se interpreta e/ou se fundamentais de Filosofia da Educação: busca imprimir determinado rumo ao processo educativo. 1- Concepção “humanista” tradicional; Existem, pois, diferentes concepções de filosofia da 2- Concepção “humanista” moderna; educação. Como identificá-las e classificá-las? Aqui corre-se o 3- Concepção analítica; risco de se perder num emaranhado de concepções, 4- Concepção dialética. identificando-se tantas quantos são os filósofos e pedagogos que se conseguir enumerar. Tal risco está particularmente 1) A concepção “humanista”, seja na versão tradicional, presente dada e tendência a se considerar a filosofia da seja na versão moderna, engloba um conjunto bastante educação á margem do desenvolvimento do processo grandes de correntes que têm em comum o fato de derivarem educativo no contexto histórico-concreto. a compreensão da educação de uma determinada visão de homem. Segundo essas duas tendências, a Filosofia da Educação é algo sempre tributário de determinado “sistema 12
  • filosófico” geral. A concepção “humanista” tradicional está histórico. Partindo do principio segundo o qual o ficado de uma marcada pela visão essencialista de homem. O homem é palavra é determinado pelo emprego, isto é, uso que dela se encarado como constituído por uma essência imutável, faz, a análise informal julga não ser necessário ultrapassar o cabendo à educação conformar-se á essência humana. As âmbito da linguagem corrente para se compreender o mudanças são, pois, consideradas acidentais. Cumpre significado das palavras. distinguir, no interior da concepção “humanista” tradicional, 4) A concepção dialética de Filosofia da Educação duas vertentes. De um lado, a vertente religiosa que afunda também se recusa a colocar no ponto de partida determinada raízes na Idade Média e cuja manifestação mais característica visão de homem. Interessa-lhe o homem concreto, isto é, o consubstancia-se nas correntes do tomismo e do neotomismo. homem como “síntese de múltiplas determinações”, vale dizer, Há diversos textos e manuais de Filosofia da Educação que o homem como conjunto das relações sociais. Considera que a seguem essa orientação, de outro lado, a vertente leiga, tarefa da Filosofia da Educação é explicitar os problemas centrada na idéia de “natureza humana” e elaborada pêlos educacionais. Entende, contudo, que os problemas pensadores modernos já como expressão da ascensão da educacionais não podem ser compreendidos senão por burguesia e instrumento de consolidação de sua hegemonia. É referência ao contexto (histórico) em que estão inseridos. essa vertente que inspirou a construção dos “sistemas públicos Como a concepção (humanista” moderna, admite que a de ensino” com as características de laicidade, obrigatoriedade realidade é dinâmica. Não erige, entretanto, o dinamismo em e gratuidade. Dentre as correntes que integram essa vertente, principio metafísico, isto é, em uma força misteriosa, um “élan destaca-se o intelectualismo de Herbart que sistematizou o vital” que governa o processo objetivo de modo imperscrutável modo como se desenvolve o ensino nas escolas convencionais. cabendo ao homem apenas admitir sua existência, sujeitar-se Com efeito, os cinco passos formais do método herbartiano ao seu capricho, entrar no seu ritmo. Segundo a concepção sintetizam os procedimentos didáticos que se generalizaram e dialética o movimento segue leis objetivas que não só podem ainda subsistem nas amplas redes oficiais de ensino como devem ser conhecidas pelo homem. Encarando a constituídas desde meados do século passado. realidade como essencialmente dinâmica, não vê necessidade 2)A concepção “humanista” moderna abrange correntes de negar o movimento para admitir o caráter essencial da tais como o Pragmatismo, Vitalismo, Historicismo, realidade (concepção “humanista” tradicional) nem de negar a Existencialismo, Fenomenologia. Diferentemente da concepção essência para admitir o caráter dinâmico do real (concepção tradicional, esboça-se uma visão de homem centrada na “humanista” moderna). O dinamismo se explica pela interação existência, na vida, na atividade. Não se trata mais de se recíproca do todo com as partes que o constituem, bem como encarar a existência como mera atualização das pela contraposição das partes entre si. Determinada formação potencialidades contidas a priori e definitivamente na essência. social, mercê das contradições que lhe são inerentes, engendra Ao contrário; aqui a existência precede a essência. Já não há sua própria negação, evoluindo no sentido de uma nova uma natureza humana ou, dito de outra forma, a natureza formação social. Nesse contexto, o papel da educação será humana é mutável, determinada pela existência. Na visão colocar-se a serviço da nova formação social em gestação no tradicional dá-se um privilégio do adulto, considerado o seio da velha formação até então dominante. homem acabado, completo, por oposição á criança, ser imaturo, incompleto. Daí que a educação se centra no Passemos agora á articulação do esquema acima educador, no intelecto, no conhecimento. Na visão moderna, apresentado com o processo concreto, isto é, com a atividade sendo o homem considerado completo desde o nascimento e educacional tal como ela vem se manifestando no seio da inacabado até morrer, o adulto não pode se constituir em organização social em que vivemos, a qual assume feições modelo. Daí que a educação passa a centrar-se na criança (no características com a consolidação do poder burguês e a educando), na vida, na atividade. Admite-se a existência de conseqüente formulação de sua visão de mundo: o liberalismo. formas descontinuas na educação. E isto, em dois sentidos: A escola surge, então, como o grande instrumento de num primeiro sentido (mais amplo) na medida em que, m vez realização dos ideais liberais. Forja-se, a partir da segunda de considerar a educação como um processo continuado, metade do século XIX, a idéia da “escola redentora da obedecendo a esquemas predefinidos, seguindo a ordem humanidade”. Desencadeia-se a campanha pela escola pública, lógica, considera-se que a educação segue o ritmo aí que é universal e gratuita. Surgem os chamados “sistemas nacionais variado, determinado pela diferenças existenciais ao nível dos de ensino”. No século atual, especialmente a partir da primeira indivíduos; admite idas e vindas com predominância do grande guerra, as esperanças depositadas na escola resultam psicológico sobre o lógico; num segundo sentido (mais restrito frustadas. A escola que nascera com a missão de “redimir os e especificamente existencialista), na medida em que os homens de seu duplo pecado histórico: a ignorância, miséria mentos verdadeiramente educativos são considerados raros, moral, e a opressão, miséria política”, revelou-se incapaz de passageiros, instantâneos. São momentos de plenitude, porém levar a bom termo aquele objetivo. azes e gratuitos. Acontecem independentemente da vontade de preparação. Tudo o que se pode fazer é estar predisposto Acreditou-se, então, que a razão do fracasso não estava na atento a esta possibilidade. escola com tal, mas o tipo de escola de que se dispunha. Consequentemente, manteve-se a crença na “escola redentora 3) A concepção analítica de Filosofia da Educação não da humanidade”. Todavia, para que ela pudesse desempenhar pressupõe explicitamente uma visão de homem nem um tema seu papel, era mister formar a escola. Desencadeia-se, então, o filosófico” geral. Pretende que a tarefa da Filosofia da movimento da escola nova. Esse movimento, no entanto, educação é efetuar a análise lógica da linguagem educacional. começa a perder ímpeto a partir da segunda grande guerra. o que a linguagem educacional é uma linguagem comum, é, Começa-se a desconfiar de se ter atribuído á escola uma tarefa não formalizada, não “científica”, o método que mais se presta imensamente superior às suas possibilidades. Passa-se, então, á tarefa proposta é o da chamada análise informal ou lógica a falar em Educação Permanente e a se valorizar as formas de informal. A análise informal postula que o significado de a educação informal, para-escolar ou, simplesmente, não- palavra só pode ser determinado em função do contexto em é escolar, até o ponto em que se chega mesmo a advogar a utilizada. Entenda-se, porém; trata-se do contexto lingüístico e destruição da escola. Nesse quadro, as atenções se voltam não do contexto sócio-econômico-político, ou, numa palavra, para as potencialidades educativas dos meios de comunicação 13
  • de massa e ensaia-se o aproveitamento das conquistas também da classe dominada. Fica ai evidente o caráter tecnológicas no processo educativo. hegemônico da burguesia, isto ê, ela é não só classe dominante mas também dirigente: seus interesses são expressos de modo Nota-se que a fase da “escola redentora da humanidade” a abarcar também os interesses das demais classes; a ideologia corresponde à escola convencional e tem suas bases naquilo liberal se torna consenso. Isto não se dá, porém, de modo que se convencionou chamar aqui de concepção “humanista” linear, as de maneira contraditória, conflituosa. Com efeito, se tradicional de filosofia da educação. A “Escola Nova” pretende a participação política das massas configura um interesse reformular internamente o aparelho escolar, inspirada na comum a ambas as classes (dominante e dominada), ao se concepção “humanista” moderna. Quanto à terceira fase, não efetivar, acaba por colocá-las em confronto de vez que os é por acaso que ela torna corpo no mesmo período em que interesses específicos de uma e outra são inconciliáveis em ganha terreno a influência da concepção analítica. E que esta última instância. A expectativa dos representantes da classe está em estreita relação com o neopositivismo cujo postulado dominante era a de que o povo, uma vez alfabetizado, iria da neutralidade científica é estendido também às conquistas apoiar seus programas de governo. Isto, porém, não se deu, tecnológicas. como ilustra a citação seguinte: “Entre 10 e 20, se difunde a convicção de que apesar da alfabetização universal não resulta E a concepção dialética? Como se daria sua articulação com tão simples implantar, de verdade, as formas democráticas de o movimento histórico? Aqui é preciso observar que as análises governo (...) Começou a se advertir que sem sempre um povo do tipo daquela que foi sumariada acima, incorrem numa ilustrado escolhia bem os seus governantes’ e que se davam falácia. Ela sugerem que a uma etapa sucede outra, isso é, a casos de povos instruídos, alfabetizados, que, apesar de tudo, primeira etapa é substituída e superada pela segunda, esta continuavam ‘elegendo Rosas’, isto é, seguiam a demagogos, pela terceira e assim sucessivamente. Entretanto, não é isso o aceitavam tiranos a caudilhos, e deixavam de lado os melhores que se dá. O movimento da “Escola Nova” não aboliu a escola programas de governo, que se lhes ofereciam em cartilhas bem convencional, muito ao contrário. Ela está ai e constitui o impressas”. Tais “programas de governo”, obviamente, eram padrão dominante nas amplas redes escolares oficiais. A “os melhores” do ponto de vista dos interesses dominantes. As “escola nova” é que constitui exceção, organizando-se a título camadas dominadas, não se identificando como os referidos de escolas experimentais ou como núcleos raros muito bem programas, buscavam, dentre as alternativas propiciadas pelas equipados e destinados a reduzidos grupos de elite. O várias frações da classe dominante em luta pela hegemonia, movimento da “escola nova” não logrou constituir-se em aquela que acenasse com algum espaço que permitisse a “sistema público de ensino” e influenciou apenas manifestação de seus interesses. Desse modo, as decisões do superficialmente os procedimentos adotados nas escolas povo não coincidiam com as expectativa das elites: “Algo, em oficiais. Da mesma forma, os meios de comunicação de massa síntese, não havia funcionado bem. e a tecnologia do ensino que caracterizam a terceira etapa da Algo não havia saído como se esperava. Algo tinha sido etapa atual, segundo Zanotti) continuam desempenhando malfeito, talvez”. E para corrigir aquilo que não estava papel secundário e influenciando apenas perifericamente o “funcionando bem”, desencadeia-se o movimento da “Escola aparelho escolar propriamente dito. Para se compreender esse Nova”. A “escola nova” surge, pois, como um mecanismo de fenômeno e dissipar a falácia acima aludida, é necessário recomposição da hegemonia da classe dominante, hegemonia ultrapassar a superfície dos fatos e vincular o processo essa ameaçada pela crescente participação política das massas, educativo às condições estruturais da sociedade que o viabilizada pela alfabetização através da escola universal e engendra. gratuita. Ao enfatizar a “qualidade do ensino”, a “escola nova” desloca o eixo de preocupações do âmbito político (relativo à Ora, dissemos antes que a organização social em que sociedade em seu conjunto) para o âmbito técnico, pedagógico vivemos adquiriu feições características com a consolidação do (relativo ao interior da escola), cumprindo, ao mesmo tempo, poder burguês e conseqüente formulação de sua visão de uma dupla função: manter a expansão da escola nos limites mundo. Isto significa que a burguesia, ao consolidar-se no suportáveis pêlos interesses dominantes e desenvolver um tipo poder, se torna não apenas classe dominante mas também de ensino adequado a esses interesses. Com isso, a “escola classe hegemônica. O signo de hegemonia consiste em que a nova”, ao mesmo tempo que aprimorou a qualidade do ensino visão de mundo da classe dominante - o liberalismo destinado à elites, forçou a baixa da qualidade do ensino transforma-se em senso comum, vale dizer, a ideologia destinado ás camadas populares já que sua influência burguesa passa a ser compartilhada pelo conjunto da provocou o afrouxamento da disciplina e das exigências de sociedade. Tal fato não significa, entretanto, que ficam qualificação nas escolas convencionais. E quando surgem anulados os antagonismos de classe característicos da movimentos que intentam uma renovação pedagógica na sociedade estruturada sobre a base do modo de produção direção dos interesses populares e começam a se desenvolver capitalista. Ao contrário, a hegemonia cimenta a dominação, o críticas à “escola nova” tendentes a incorporar as suas que quer dizer que a divisão de classes com interesses contribuições no esforço de formulação de uma pedagogia conflitantes é pressuposta. Nesse quadro a sucessão de etapas popular, o avanço do capitalismo monopolista já oferece ( na política educativa) e a correspondente emergência de condições à política educacional de acionar um novo concepções ide filosofia da educação, diferenciadas constituem mecanismo de recomposição de hegemonia: os meios de mecanismos de recomposição acionados pela classe comunicação de massa e as tecnologias de ensino. dominante para garantir sua hegemonia. Assim, a fase da “escola redentora da humanidade” situada a educação em As considerações anteriores pretendiam mostrar, por um termos explicitamente políticos. lado, que não é possível compreender criticamente as diferentes concepções sem recorrer à concepção dialética. Isto A escola era entendida como um instrumento para porque, sendo as diferentes tendências expressão das “transformar os súditos em cidadãos”, portanto, um diferentes forças que contraditoriamente tecem o tecido instrumento de participação política, um meio de se implantar social, elas não podem ser compreendidas senão por a democracia efetiva. Ora, tratava-se de uma proposta que referência ao contexto histórico da estrutura da sociedade que representava os anseios não apenas da classe dominante como as engendra. Por outro lado, as referidas considerações 14
  • pretendiam também indicar que a concepção dialética está desencadeia-se o “entusiasmo pela educação” que traduz, em presente desde o início, isto é, desde a fase da “escola termos brasileiros, a fase da “escola redentora da redentora da humanidade”. Subsumindo variadas correntes e humanidade”. Sobre o pano de fundo das idéias liberais, que movimentos sociais, a referida concepção inspira e orienta de são retomadas e debatidas intensamente, advoga-se a modo mais ou menos sistematizado a atuação dos diferentes extensão universal do processo de escolarização com, o grande grupos que se empenham em colocar a educação e a escola a instrumento de participação política. Diversas correntes de serviço das forças emergentes da sociedade, abrindo espaços idéias e movimentos sociais agitam a questão da extensão da para a expressão dos interesses populares; buscando tornar de escolaridade obrigatória e gratuita a toda a população. Nesse fato de todos aquilo que a ideologia liberal proclama ser de “quadro nota-se, já com certo vigor, a presença da tendência direito de todos, contribuem para fazer predominar a nova ilética que inspira e orienta um conjunto razoável de correntes, formação social que está sendo gerada no seio da velha movimentos, organizações, periódicos que decididamente formação até agora dominante. buscam expressar os interesses as camadas dominadas. A partir do final da década de 20 e, especialmente, a partir TENDÊNCIAS E CORRENTES DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA de 1930, o “entusiasmo pela educação” cede lugar ao ‘otimismo pedagógico” que, com o advento do escolanovismo, A partir do quadro teórico esboçado, cumpre indicar, a deslocar as preocupações educacionais do âmbito político o largos traços, as principais tendências da educação brasileira. âmbito técnico-pedagógico. Através desse deslocamento o Com efeito, foi com os olhos voltados para o processo de escolanovismo, aliado ao trabalhismo, irá cumprir a função de desenvolvimento da educação brasileira que operamos a desmobilização das forças populares, constituindo-se, em construção daquele referencial. Se neste, texto os doe freqüência, em instrumento de hegemonia da classe momentos aparecem separados, isto ocorre apenas para efeito dominante. A tendência “humanista” moderna ganha impulso de exposição. especialmente a partir da criação da ABE (Associação Brasileira Educação) em 1924. Tendo em vista a preocupação de sistematização presente ao longo deste trabalho, for mulemos, de início, uma Após 1930 ela está em condições de medir forças com periodização provisória que permita classificar as concepções tendência “humanista” tradicional. A oportunidade surge com de filosofia da educação. Em seguida serão indicados certos debates em torno da Constituinte. matizes e apontadas determinadas correntes buscando-se a sua localização no âmbito de determinada tendência ou o seu Trava-se um conflito entre ambas as tendências, entrecruzamento na intersecção de tendências, de modo a representadas uma pela ideologia dos pioneiros da “escola atenuar a rigidez das linhas e nos aproximarmos mais do nova” e outra pela ideologia católica. O Estado administra e movimento histórico real. concilia o conflito, cujo resultado registra um equilíbrio de forças traduzido no texto da Constituição de 1934. Com efeito, Esquematicamente, a periodização assumiria a seguinte a constituição incorporou tanto as teses da LEC (liga Eleitoral configuração: católica) como a quase totalidade das propostas dos pioneiros. Até 1930: predomínio da tendência “humanista” O período do Estado Novo corresponde a um refluxo na tradicional; circulação das idéias pedagógicas. Após 1945, com a reabertura democrática, vai se tornando cada vez mais nítido o De 1930 a 1945: equilíbrio entre as tendências predomínio da tendência “humanista moderna. Isto é “humanista” tradicional e “humanista” moderna; facilmente compreensível se considerarmos que desde 1930 os pioneiros vinham controlando a burocracia educacional oficial, De 1945 a 1960: predomínio da tendência “humanista” tendo, pois, oportunidade de ensaiar várias reformas da instrução pública, criar escolas experimentais e implementar De 1960 a1968: crise da tendência “humanista” moderna e os estudos pedagógicos de modo especial a partir da criação articulação da tendência tecnicista; do INEP. Sob a égide da concepção “humanista” moderna viajem correntes como o psicologismo pedagógico, A partir de1968: predomínio da tendência tecnicista e a predominante na década de 40, o sociologismo que ganha concomitante emergência de criticas à pedagogia oficial e á impulso na década de 5ô e o economicismo que se esboça nos política educacional que busca implementá-la. inícios de 60 e que já representa a crise de transição para a tendência tecnicista. Se recuarmos ao século passado, veremos que a tendência Neste ponto se faz necessário matizar as indicações que “humanista” tradicional se manifesta nas suas duas vertentes, estão sendo feitas. Com efeito, no final da década de 50 a religiosa e a leiga, na vertente religiosa a corrente inspiradora reedita-se o conflito escola particular-escola pública. é, sem dúvida, o tomismo. Já na vertente leiga detecta-se a influência de um punhado de autores europeus ‘de segunda A defesa da escola pública é feita, não se pode negar, sob ordem” de tal modo que, se pode falar aí em corrente, o seu inspiração da tendência “humanista” moderna. Entretanto, nome seria “ecletismo”. podemos distinguir, em seu âmbito, pelo menos três correntes: o “liberal-pragmatismo” constituí do pelo grupo dos Não é por acaso que V.’Cousin, pensador menor na Europa, educadores que prolonga a tradição da ABE. O “liberal- tenha exercido considerável influência no Brasil. Para idealismo” representado pelo núcleo de professores das áreas mencionar um pensador que se ocupou explicitamente com a de História e Filosofia da Educação da Universidade de São educação, lembre-se a influência eclética sofrida por Rui Paulo. E o grupo de sociólogos liderado por Florestan Fernades, Barbosa. com conotações socialistas. Ora, o “liberal-idealismo” se Nos inícios do século atual, em especial na década de vinte, articula com a concepção “humanista” tradicional já que sob a inspiração da tendência “humanista” tradicional, afunda raízes na ética Kantiana. O “ liberal-pragmatismo” se 15
  • prolonga, com as necessárias adaptações, na tendência “instrução programada”, “máquinas de ensinar”, “educação via tecnicista. O grupo de sociólogos, por sua vez, aponta na satélite”, “tele-ensino”, “microensino”, etc. A Pós-Graduação direção da concepção dialética. Do lado da escola particular, os em Educação ilustra esse fenômeno de modo eloqüente. Com católicos retomam os mesmos argumentos o início da década efeito, através do levantamento que fizemos, pudemos de 30. Nesse sentido guardam o mesmo caráter monolítico de constatar que a maioria das 646 dissertações e teses então. Entretanto, em meados dos anos 50, surge uma espécie concluídas até dezembro de 1977 segue a orientação de “escola católica”. Em 1955, 1956 e anos seguintes, a A.E.C. tecnicista. (Associação de Educadores Católicos) organizou as “Semanas de Estudos Pedagógicos”. Através, principalmente, do Pe. Tal constatação coincide com a análise de Luiz Antônio Pierre Faure que por diversas vezes esteve, a convite da A . E. Cunha que, em relação aquilo que chamou de “(des)caminhos C., proferindo palestras e ministrando cursos intensivos em da pesquisa na Pós-Graduação em Educação”, identificou, a nosso pais, divulgaram-se as idéias de Montessori e Lubienska, partir de 1968, a “prevalência ‘espontânea’ do estrangeirismo, especialmente desta última. Essa iniciativa acabou por gerar na sua versão norte-americanista, e, em decorrência, do posteriormente o Instituto Pedagógico “Montessori- economicísmo, do computacionísmo, do tecnicismo, do Lubienska”. Mais tarde denominado Instituto Pedagógico sistemísmo”. É preciso registrar, porém, que a pós-graduação, Maria Montessori e ligado á Associação Montessori refletindo as contradições da sociedade brasileira atual, tem se Internacional, com sede na Holanda. constituído num espaço importante para o desenvolvimento de uma tendência crítica que, embora não predominante, vem O predomínio da tendência “humanista” moderna força, de gerando estudos consistentes e significativos sobre a educação certo modo, a renovação das escolas católicas. A questão era, brasileira. pois, renovar a escola confessional sem abrir mãos de seus objetivos religiosos. Provavelmente isso explique a preferência Com efeito, paralelamente ao predomínio da tendência por Lubienska, que mantinha preocupações religiosas explícitas tecnicista emerge, na década de 70, um conjunto de estudos e ao mesmo tempo se inseria no movimento europeu da” que poderíamos agrupar sob o nome de “tendência crítico Escola Nova”. reprodutivista”. Além disso, cabe observar que, especialmente após o Tal tendência se desenvolveu sob a influência dos “radicais Concilio Vaticano II, a Igreja, sobretudo através dos americanos”, da “teoria do sistema do ensino enquanto movimentos de Ação Católica, tende a se comprometer violência simbólica”, da “teoria da escola enquanto aparelho concretamente na defesa dos interesses populares. Por esta ideológico de Estado”, da “teoria da escola dualista”. via, setores da Ação Católica passam a desenvolver uma O mérito dessa tendência foi promover a denúncia crescente participação política e a própria hierarquia sistemática da pedagogia tecnicista implementada pela política eclesiástica organiza o M.E.B. (Movimento de Educação de educacional ao mesmo tempo que minava a crença, bastante Base) surgindo, ainda, o Movimento Paulo Freire de Educação comum entre os educadores, na autonomia da educação em de Adultos que guarda nítida inspiração cristã. Vê-se, pois, que face das relações sociais. Entretanto, por considerar as através desses movimentos os católicos acabam também por relações entre determinantes sociais e educação de modo extravasar a tendência “humanista” tradicional, mantendo externo e mecânico, a referida tendência acabou por acentuar afinidades com a concepção dialética. uma postura pessimista e mobilista nos meios educacionais. Constata-se, então, que da mesma forma que na década de Cumpre superar tais insuficiências, abrindo caminho 10, quando predominava a tendência “humanista” tradicional, através da tendência dialética, isto é, captando o modo buscou-se abrir espaços para a manifestação dos interesses específico de articulação da educação com conjunto da das camadas populares, assim também no final da década de relações sociais. Compreender-se-á, então, que o espaço 50 e inícios dos anos 60, agora sob o predomínio da tendência próprio da educação é o espaço da “humanista” moderna, esses espaços foram criados. apropriação/desapropriação/reapropriação do saber e que Entretanto, se a Revolução de 30 encontrou mecanismos de esse espaço está atravessado pela contradição inscrita na recomposição que lhe permitiram manter a hegemonia, a essência mesma do modo de produção capitalista: a Revolução de 64 revelou-se incapaz de acionar mecanismos de contradição capital-trabalho. persuasão. Em conseqüência, obrigou-se a lançar mão da repressão para garantir o domínio. Sendo o saber força produtiva e sendo, a sociedade capitalista, caracteriza pela propriedade privada dos meios de Concomitantemente, buscou racionalizar os recursos produção, a classe que detém os meios de produção se existentes, lançar as bases (Embratel, etc.) e montar um empenha em se apropriar do saber desapropriando-o da classe poderoso aparato persuasivo alicerçado nos meios de trabalhadora. Contudo, sendo impossível a apropriação comunicação de massa e em recursos tecnológicos exclusiva do saber, já que a contradição, porque inerente à sofisticados, culminando na reformulação do ensino superior sociedade capitalista é insolúvel no seu âmbito, a classe (Lei 5540168), na criação de um “sistema nacional de Pós- capitalista sistematiza o saber de que se apropria e o devolve Graduação” a partir da regulamentação contida no Parecer na forma parcelada (taylorismo). Assim fazendo, detém a 77169 do C.E.E, e na reorganização do ensino que passou a ser propriedade exclusiva do saber relativo ao conjunto do o o denominado de 1 e 2 graus (Lei 5692/71). processo produtivo, restando ao trabalhador apenas o domínio do saber correspondente á parceria do trabalho que lhe abe Configura-se, então, como predominante, a tendência executar. tecnicísta que passa, em conseqüência, a inspirar a maior parte dos estudos e iniciativas na área de educação. A partir dai, os A classe trabalhadora, por sua vez, se esforça, meios educacionais são invadidos por correntes ou propostas cotidianamente e de variadas formas, por reapropriar o saber pedagógicas tais como o “enfoque sistêmico”, de que é desapropriada. Nesse quadro, a educação emerge “operacionalização de objetivos”, “tecnologias de ensino”, como um instrumento de luta. Não há, pois, lugar para 16
  • pessimismo ou mobilismo. Nessa direção aponta aquilo de A Filosofia fornece á educação uma reflexão sobre a mais fecundo que podemos detectar nos debates que se sociedade na qual está situada, sobre o educando, o educador travam atualmente sobre educação no Brasil. e para onde esses elementos podem caminhar. Nas relações entre Filosofia e educação só existem FILOSOFIA E EDUCAÇÃO realmente duas opções: ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se realiza uma ação educativa consciente; ou não se A educação é um típico “que-fazer” humano, ou seja, um reflete criticamente e se executa uma ação pedagógica a partir tipo de atividade que se caracteriza fundamentalmente por de uma concepção mais ou menos obscura e opaca existente uma preocupação, por uma finalidade a ser atingida. A na cultura vivida do dia-a-dia - e assim se realiza uma ação educação dentro de uma sociedade não se manifesta como um educativa com baixo nível de consciência. fim em si mesma, mas sim como um instrumento de manutenção ou transformação social. Assim sendo, ela O educando, quem é, o que deve ser, qual o seu papel no necessita de pressupostos, de conceitos que fundamentem e mundo; o educador, quem é, qual o seu papel no mundo; a orientem os seus caminhos. A sociedade dentro da qual ela sociedade, o que é, o que pretende; qual deve ser a finalidade está deve possuir alguns valores norteadores de sua prática. da ação pedagógica. Estes são alguns problemas que emergem da ação pedagógica dos povos para a reflexão filosófica, no Não é nem pode ser a prática educacional que estabelece sentido de que esta estabeleça pressupostos para aquela. os seus fins. Quem o faz é a reflexão filosófica sobre a educação dentro de uma dada sociedade. Assim sendo, não há como se processar uma ação pedagógica sem uma correspondente reflexão filosófica. Se a As relações entre Educação e Filosofia parecem ser quase reflexão filosófica não for realizada conscientemente, ela o “naturais”. Enquanto a educação trabalha com o será sob a forma do “senso comum”, assimilada ao longo da desenvolvimento dos jovens e das novas gerações de uma convivência dentro de um grupo. Se a ação pedagógica não se sociedade, a filosofia é a reflexão sobre o que e como devem processar a partir de conceitos e valores explícitos e ser ou desenvolver estes jovens e esta sociedade. conscientes, ela se processará, queiramos ou não, baseada em conceitos e valores que a sociedade propõe a partir de sua Anísio Teixeira chega a refletir que “muito antes que as postura cultural. filosofias viessem expressamente a ser formuladas em sistemas, já a educação, como processo de perpetuação da Quando não se reflete sobre a educação, ela se processa cultura, nada mais era do que o meio de se transmitir a visão dentro de uma cultura cristalizada e perenizada. Isso significa do mundo e do homem, que a respectiva sociedade honrasse e admitir que nada mais há para ser descoberto em termos de cultivasse”. Evidentemente, nessa afirmação o autor está interpretação do mundo. É propriamente a reprodução dos tomando filosofia como forma de vida de um povo, e não meios de produção. como sistema filosófico elaborado e explicitado deliberadamente. “Por mais grandiosa que seja uma cultura - diz Arcângelo Bumi - ela jamais é a interpretação acabada do ser. A ciência, a Deve-se mesmo observar que os primeiros filósofos do moral, a arte, a religião, a política, a economia são expressões Ocidente, na quase totalidade, tiveram um “preocupar” com o visíveis, codificadas de uma determinada interpretação, que aspecto educacional. Os chamados filósofos pré-socráticos, os em seu conjunto perfaz aquilo que denominamos cultura ou, sofistas, Sócrates, Platão foram os intérpretes das aspirações de modo mais amplo, ‘mundo’. Estamos tão habituados a de seus respectivos tempos e apresentaram-se sempre como encarar esse ‘mundo’ interpretado como ‘natural’ que não nos educadores. damos conta de que ele é apenas possível e realizada interpretação do ser”. Por exemplo, os pré-socráticos, pelo que podemos saber por seus fragmentos, dedicavam-se a entender a origem do Inconscientemente, adaptamo-nos a essa interpretação do cosmos e a criar uma compreensão para a educação morale mundo e lá permanecerá como a única para nós, se não nos espiritual dos homens. Os sofistas foram educadores. Foram, pusermos a filosofar sobre ela, a questioná-la, a buscar-lhe inclusive, no Ocidente os primeiros a receberem pagamento novos sentidos e novas interpretações de acordo com os novos para ensinar. Sócrates foi o homem que morreu em função do anseios que possam ser detectados no seio da vida humana. seu ideal de educar os jovens e estabelecer uma moralização do ambiente grego ateniense. Platão foi o que pretendeu dar Filosofia e educação, pois, estão vinculadas no tempo no ao filósofo o posto de rei, a fim de que este tivesse a espaço. Não há como fugir a essa “fatalidade” da nossa possibilidade de imprimir na juventude as idéias do bem, da existência. Assim sendo, parece-nos ser mais válido e mais rico, justiça, da honestidade. para nós e para a vida humana, fazer esta junção de uma maneira consciente, como bem cabe a qualquer ser humano. E Da mesma maneira, se percorrermos a História da Filosofia liberdade no seio da necessidade. e dos filósofos, vamos verificar que todos eles tiveram uma preocupação com a definição de uma cosmovisão que deveria Pedagogia ser divulgada através dos processos educacionais. Uma pedagogia inclui mais elementos que os puros Filosofia e Educação são dois fenômenos que estão pressupostos filosóficos da educação, tais como os processos presentes em todas as sociedades. Uma como interpretação socioculturais, a concepção psicológica do educando, a forma teórica das aspirações, desejos e anseios de um grupo de organização do processo educacional etc.; porém, esses humano, a outra como instrumento de veiculação dessa elementos compõem uma Pedagogia à medida que estão interpretação. aglutinados e articulados a partir de um pressuposto, de um direcionamento filosófico. A reflexão filosófica sobre a 17
  • educação é que dá o tom à pedagogia, garantindo-lhe a Assim sendo, esta terceira tendência poderá ser compreensão dos valores que, hoje, direcionam a prática denominada de “crítica” tanto na medida em que não cede ao educacional e dos valores que deverão orientá-la para o futuro. ilusório otimismo, quanto na medida em que interpreta a educação dimensionada dentro dos determinantes sociais, Assim, não há como se ter uma proposta pedagógica sem com possibilidades de agir estrategicamente. Assim ela pode pressuposições (no sentido de fundamentos) e proposições ser uma instância social, entre outras, da luta pela filosóficas, desde que tudo o mais depende desse transformação da sociedade, na perspectiva de sua direcionamento. Para lembrar exemplos corriqueiros, a democratização efetiva e concreta, atingindo os aspectos não “Pedagogia Montessori”, a “Pedagogia Piagetiana”, a só políticos, mas também sociais e econômicos. “Pedagogia da Libertação” do professor Paulo Freire, e todas as outras sustentam-se em um pensamento filosófico sobre a Para tanto, importa interpretar a educação como uma educação. Se nem sempre esses pressupostos estão tão instância dialética que serve a um projeto, a um modelo, a um explícitos, é preciso explicitá-los, desde que eles sempre ideal de sociedade. Ela medeia esse projeto, ou seja, trabalha existem. Por vezes, eles estão subjacentes, mas nem por isso para realizar esse projeto na prática. Assim, se o projeto for inexistentes. conservador, medeia a conservação; contudo, se o projeto for transformador, medeia a transformação; se o projeto for O estudo e a reflexão deverão “obrigá-los” a aparecer, autoritário, medeia a realização do autoritarismo; se o projeto desde que só a partir da tomada de consciência desses for democrático, medeia a realização da democracia. pressupostos é que se poda optar Por escolher uma ou outra pedagogia para nortear nossa prática educacional. Dessa forma, a educação, por si, não será mecanicamente reprodutivista. Ela poderá ser reprodutora, mas não Educação como transformação da sociedade necessariamente; desde que poderá ser criticizadora. Poderá estar, pois, a serviço de um projeto de libertação das maiorias A terceira tendência é a que tem por perspectiva dentro da sociedade. compreender a educação como mediação de um projeto Claro, não será simples à educação, e aos educadores que social. Ou seja, por si ela nem redime nem reproduz a a realizam, efetivar esse processo dentro da sociedade sociedade, mas serve de meio, ao lado de outros meios, para capitalista, pois que esta possui muitos ardis pelos quais ela se realizar um projeto de sociedade; projeto que pode ser recompõe, tendo em vista não modificar-se. conservador ou transformador. No caso, essa tendência não coloca a educação a serviço da conservação. Pretende O professor Dermeval Saviani nos alerta para essa demonstrar que é possível compreender a educação dentro da dificuldade, dizendo-nos o seguinte: sociedade, com os seus determinantes e condicionantes, mas “O caminho é repleto de armadilhas, já que os mecanismos com a possibilidade de trabalhar pela sua democratização. de adaptação acionados periodicamente a partir dos interesses dominantes podem ser confundidos com anseios da classe A tendência redentora é otimista em relação ao poder da dominada. Para evitar esse risco, é necessário avançar no educação sobre a sociedade, a tendência reprodutivista é sentido de captar a natureza específica da educação, o que nos pessimista, no sentido de que sempre será uma instância a levará à compreensão das complexas mediações pelas quais se serviço do modelo dominante de sociedade. Em termos de dá sua inserção contraditória na sociedade capitalista”. resultados, as duas tendências parecem chegar ao mesmo ponto. A tendência redentora pretende “curar” a sociedade de Por ora, encerramos com uma sugestão do professor suas mazelas, adaptando os indivíduos ao modelo ideal de Saviani. Ele nos indica a necessidade de cuidar daquilo que é sociedade (que, no fundo, não é outra senão aquela que específico da escola, para que esta venha a cumprir um papel atende aos interesses dominantes). A tendência reprodutivista de mediação num projeto democratizador da sociedade. Diz afirma que a educação não é senão uma instância de ele: reprodução do modelo de sociedade ao qual serve; que, no caso do presente, é a sociedade vigente. Uma reconhece que a “Do ponto de vista prático trata-se de retomar educação é a instância que corrige desvios do modelo social; vigorosamente a luta contra a seletividade, a discriminação e o outra reconhece que a educação reproduz o modelo social. Em rebaixamento do ensino das camadas populares. Lutar contra a ambos os casos, a organização da sociedade é tida como marginalidade, através da escola, significa engajar-se no “natural” e a histórica. As formas de visão é que diferem: esforço para garantir aos trabalhadores um ensino da melhor otimismo de um lado, pessimismo de outro. qualidade possível nas condições históricas atuais. O papel de uma teoria crítica da educação é dar substância concreta a essa Os teóricos da terceira tendência, nem negam que a bandeira de luta, de modo a evitar que ela seja apropriada e educação tem papel ativo na sociedade, nem recusam articulada com os interesses dominantes”. reconhecer os seus condicionantes histórico-sociais. Ao contrário, consideram a possibilidade de agir a partir dos Os sujeitos do processo educativo próprios condicionantes históricos. Dermeval Saviani assim se refere a esse tema: a) O educador “Uma teoria do tipo acima enunciado se impõe a tarefa de Quem é o educador no processo educativo escolar? Será superar tanto o poder ilusório (que caracteriza as teorias não- que nós educadores, ao assumirmos atividade de docentes, críticas) como a impotência (decorrente das teorias-crítico- nos perguntamos o significado dessa atividade na sociedade reprodutivistas), colocando nas mãos dos educadores uma como um todo e na vida dos educandos? arma de luta capaz de permitir-lhes o exercício de um poder real, ainda que limitado”. Em geral, e a não ser numa minoria de casos, parece que o senso comum é o seguinte: para ser professor no sistema de 18
  • ensino escolar, basta tomar um certo conteúdo, preparar-se Porém, no oposto deste entendimento, há um outro para apresentá-lo ou dirigir o seu estudo; ir para uma sala de conceito comum muito alastrado: o de que o educando deve aula, tomar conta de uma turma de alunos e efetivar o ritual ser ativo sempre. Todavia, não há muita clareza sobre o que se da docência: apresentação de conteúdos, controle dos alunos, compreende como um aluno “ativo”. Por vezes, ativos têm avaliação da aprendizagem, disciplinamento etc. Ou seja, a sido designados os educandos que se agitam durante as atividade de docência tornou-se uma rotina comum, sem que atividades escolares. Com isso, esquece-se de verificar que o se pergunte se ela implica ou não decisões continuas, modo de ser ativo depende do conteúdo com o qual se esteja constantes e precisas, a partir de um conhecimento adequado trabalhando. Se o conteúdo refere-se à atividade física, será das implicações do processo educativo na sociedade. ativo o aluno que a praticou; porém se o conteúdo for A ação docente tem sentido e significado. Já definimos intelectual, a atividade será mental. Assim, o conceito de anteriormente que, nas práticas humanas, quando não “ativo” deve ser bem compreendido. formulamos um sentido especifico para a ação que vamos realizar, adotamos um sentido dominante que se faz presente Desse modo, é preciso ter cuidado para criticar o senso na sociedade e na cultura em que vivemos. Assim, se não comum no que se refere á passividade ou à atividade do buscarmos o sentido e o significado crítico, consciente e educando. Isso dependerá da tarefa posta em questão, explícito da ação docente, seguimos o sentido e o significado dependerá da situação de aprendizagem. dominante desse entendimento que se tornou senso comum. A segunda crença na qual se alicerça a prática pedagógica Isso se dá de tal forma que, muitíssimas vezes, para que escolar é a de que o educando é um ser dependente do alguém exerça a função de educador, não lhe é exigida educador: desde o que deve aprender até o que deve nenhuma formação específica. Existem profissionais de áreas responder. Tem que se dar a ele a “certeza” sobre alguma diversificadas que estão na regência escolar e que não tiveram coisa, a resposta pronta, pois ele não “deve ter” independência nenhuma formação para tal. Possuem uma formação para buscar respostas. E como se se dissesse que o educando específica numa área do conhecimento e, a partir daí, “não tem querer”; o seu “querer” deve ser o do professor. O dedicam-se ao ensino. Não é que eles não possam ser bons critério de certeza sobre a validade dos conhecimentos deve profissionais da educação. O que queremos ressaltar é que não depender do critério do professor. se busca um senso crítico do papel do educador no processo educativo; não se exige do educador uma preparação Será mesmo que o educando é tão dependente assim? adequada para o exercício da docência, tanto do ponto de vista Será que ele não pode ter um “querer diferente”, que lhe do compromisso político, quanto do ponto de vista da desenvolva a autonomia? Será que o querer do professor e do competência técnica e científica, que ela exige. educando não podem ser permeados pela busca de um entendimento, novo e superior, através da discussão entre Por enquanto, basta-nos a percepção de que, em geral, no ambos? que se refere ao entendimento do que seja o educador, seguimos um ritual que se tornou senso comum. Uma terceira forma do senso comum pedagógico é a de considerar que o educando é um ser incapaz de criar. Ele tem b) O educando que reter e repetir os conhecimentos e não inventá-los. Apesar das reclamações constantes de que os alunos não são criativos, Como os professores concebem o educando? Um dos a ação pedagógica, na maior parte das vezes, está pautada pela sujeitos do processo educativo? Quem é ele? Qual a sua idéia de que o aluno é incapaz de criar, é um inválido do ponto dimensão? Qual o seu papel no processo de ensino- de vista intelectual. Toda vez que o educando tenta sair do aprendizagem? esquema linear do dia-a-dia, é cerceado de diversas maneiras. As estratégias para delimitar seu campo de ação baseiam-se no O professor raramente se faz essas perguntas. Para ele, lema “fazer as coisas como o professor quer”. essa questão de “quem é o educando” já está plenamente definida. Parece natural tratar o educando como ele vem Por vezes, sugerimos a nossos filhos formas diferenciados e sendo tratado todos os dias nas salas de aula. possíveis de fazer uma tarefa de casa, porém a criança nos responde: “o professor quer assim; e, se não for assim, ele tira Que elementos caracterizam o senso comum pedagógico nota”. Mas será que há apenas uma única forma de se fazer sobre o educando? alguma coisa de modo correto? Se fosse assim, Einstein não teria superado Newton, e Marx não teria superado os Observando a relação professor-aluno, no cotidiano economistas clássicos etc. escolar, uma das características do educando que parece permear a prática pedagógica é a de que ele é um ser passivo. Além disso, as histórias e fábulas relatadas nas aulas, por Basta observar uma sala de aula e veremos que, na maior parte vezes, indiretamente acrescentam o castigo a quem tem das vezes, o professor considera que o aluno deve estar ali curiosidade. Veja a exemplo a narração da estória do “Américo para receber as “suas lições” e, depois, no final de uma Pisca-Pisca: o reformador do mundo”, que teria sido castigado unidade de ensino, devolvê-las em provas e testes exatamente se tivesse efetuado sua reforma da natureza, colocando a como foram ensinadas, até mesmo nas vírgulas e pontos. Não abóbora na jabuticabeira e a jabuticaba nos ramos de abóbora; é que o aluno seja propriamente passivo,- mas, segundo o desde que, ao fazer a sesta sob a jabuticabeira, uma das senso comum, deve sê-lo. Em geral, os atos e condutas dos jabuticabas maduras caíra-lhe sobre o nariz. Já imaginou professores dão a entender que eles querem que os alunos acordar com uma abóbora rachando nossa cara!?! Ele recebia sejam passivos, pois os ativos “dão trabalho”, seja na disciplina o castigo da sua curiosidade e criatividade. Depois dessas comportamental, seja na disciplina intelectual. Usualmente, estórias, quem mais vai querer ser curioso e criativo? não se tem tido suficiente cuidado com a produtividade do educando. Entre muitas outras características desse senso comum sobre o educando, poderemos observar também que da ação 19
  • dos professores se depreende que o educando é um sujeito incapaz de julgamento sobre si mesmo e sobre sua O conhecimento e seu processo aprendizagem. No momento da avaliação, na maior parte das vezes, o professor nem sequer dá ao educando a oportunidade A partir do que se observa numa sala de aula, como definir de verificar o que não conseguiu aprender e nem por que não o que é conhecimento? De um lado, um professor expõe conseguiu aprender. Aplica-se um teste, contam-se as informações, conceitos e regras de trabalho; de outro, os questões certas e erradas, dá-se uma nota, registra-se em alunos ouvem a apresentação e se utilizam de material caderneta e pronto. Ser que o aluno não merece um momento didático. Ao final, um teste para verificar o que o aluno reteve de troca de idéias e entendimento sobre seus avanços e suas do que foi dito ou lido. Que é conhecimento neste contexto e dificuldades? Será que o educando não teria condições de, qual o seu processo? juntamente com o professor, encontrar explicações para os seus desvios de aprendizagem? E mais: será que a O conhecimento parece ser o conjunto de informações que compreensão desses desvios não ajudaria em seu crescimento são apresentadas ou lidas no livro-texto e o processo parece intelectual? Será que esse diálogo com o aluno sobre os dados ter sido o de reter essas informações, na memória, para depois objetivos de sua aprendizagem não ajudaria também o repeti-las. professor a entender melhor as suas atividades didáticas, os seus acertos e os seus erros? Professor e aluno, abordando Será que, de fato, isso é conhecimento e este é o seu juntos os resultados objetivos da aprendizagem, podem processo de apropriação e construção? Não. Mas esse é o formular juízos que servem ara ambos e para a melhoria do senso comum que permeia a maior parte ou a quase totalidade próprio processo de ensino e aprendizagem. Entender o dos atos pedagógicos escolares. Conhecimento é uma forma educando como incapaz de julgamento é perder oportunidade de entendimento da realidade; é a compreensão inteligível de crescimento e avanço para ambos. daquilo que se passa na realidade. Para isso, é claro, podemos e devemos nos utilizar do saber que a humanidade nos legou. Coroando esses elementos do senso comum sobre o Porém, isso não significa que o nosso objetivo de educando, gostaríamos de lembrar ainda uma característica conhecimento se encerre na retenção daquilo que foi dito ou que, vez, seja a raiz de todas as anteriores: é a forma de que está escrito. Esses elementos são nossos auxiliares na considerar o educando como um elemento dotado de tudo o compreensão da realidade. Mas o que importa é a mais que o cerca. O educando é considerado como “se fosse compreensão da realidade. Por outro lado, o processo de ido do céu”, sem vínculos com a natureza, com o ambiente conhecimento é ativo. Não é uma retenção padronizada e sócio-cultural, com a história, com a sociedade; sem vinculação acabada de “lições”; ao contrário, é um processo de com a sua própria natureza ativa. Ou seja, o educando é assimilação ativa dos conhecimentos já estabelecidos e um tomado de uma forma idealista’, que nada mais quer dizer do processo de construção ativa de novas compreensões da que tomar o educando como um ser que fosse “dado aí”, realidade. Até mesmo o ato de memorizar é ativo - o processo pronto, definido desde toda a eternidade. de memoritação é ativo. Memorização não significa pura e simplesmente reter alguma coisa, mas encontrar ativamente De fato, o educando, ao contrário, é um ser material- os mecanismos pelos quais se pode guardar na memória espiritual, com muitos condicionantes objetivos envolvendo-o; alguma coisa. E mais fácil memorizar a tabuada quando se tem uma natureza físico-biológica que se constrói pelo entende seu mecanismo: a multiplicação é a soma sucessiva do crescimento, tem uma inteligência que adquire patamares mesmo número. E mais fácil decorar a distribuição das ruas de complexos de reflexão pela sua relação com o meio e pela uma cidade quando nós ativamente estabelecemos pontos de atividade; tem maior ou menor capacidade de apropriar-se dos referência. conhecimentos e habilidades, dependendo de suas vivências e convivências. Tudo isso tem que ser levado em consideração A prática pedagógica diária pouco tem levado em conta a para que não predomine o senso comum de que o educando é reflexão crítica sobre o que vem a ser o conhecimento. Na um “certo anjo” que caiu não se sabe de onde. A posição maior parte das vezes ela se fundamenta no senso comum idealista não vê o educando como ele é — daí os sobre o que seja o conhecimento e o seu processo. entendimentos arbitrários de passividade, não-criatividade etc. Essa forma de conceber a educação do seu verdadeiro O senso comum pedagógico manifesta um entendimento caminho - aí ela trabalha a partir de “suposições” sobre o iiiealhta do que seja o conhecimento. E como se o educando e não a partir daquilo que o educando é. conhecimento não tivesse história e não contivesse acertos e erros. O que se diz é assumido como se sempre tivesse sido Muitos outros pontos de senso comum pedagógico sobre o assim. No entanto, o conhecimento tem história, está eivado educando poderiam ser levantados. Estes servem de de desvios por interesses de uns ou de outros. Nasceu é amostragem. Cada um de nós poderá continuar a inventadar continua nascendo num determinado momento do tempo e os conceitos e valores que estão ou podem estar direcionando terá uma duração. Temos não só que nos apropriar do que já nossas práticas pedagógicas. existe como entendimento, mas também assumir o papel de criadores do conhecimento. Só poderemos chegar a um Há uma contradição entre essas condutas educacionais e entendimento relativamente adequado do que venha ser o aquilo que os educadores dizem. Todos dizem que desejam conhecimento e o seu processo se abandonarmos essa posição educandos ativos, criativos, autônomos, capazes de decisão idealista e ingênua. Importa refletir sobre isso, para etc. Porém, as ações educativas, enquanto atos educativos, assumirmos na prática pedagógica uma conduta relativamente mostram o contrário. O senso comum tornou-se hegemônico - adequada á aprendizagem dos educandos. agimos com e por ele, sem nos perguntarmos sobre a sua significação e validade. Só com a tomada de consciência desses O conteúdo a ser assimilado elementos do senso comum - e com sua superação - poderemos chegar a uma nova compreensão do educando, dando um salto à frente. 20
  • Ultimamente muito se tem discutido e escrito sobre Essa concepção “bíblica” se manifesta, entre outras coisas, desvios e inverdades expressos nos conteúdos escolares. Por pela existência de um livro do aluno e um livro do professor. E, exemplo, Maria de Lourdes Nosela escreveu As belas mentiras: o professor, infelizmente, se utiliza do livro que a ele é ideologia subjacente aos textos didáticos onde trata dos destinado. livros de Comunicação e Expressão; Gildázio Cerqueira Filho e Gizlene Neder discutiram as inverdades veiculadas através dos O que significa a existência desses livros, que são quase nossos textos de História do Brasil, no artigo “Conciliação e que perfeitamente iguais? A pequena diferença está no fato de violência na história do Brasil”. Muitos outros têm escrito e que o livro do professor traz, além daquilo que está contido no falado sobre isso. E é através desses livros didáticos assumidos do aluno, as respostas padronizadas às questões formuladas a criticamente que ensinamos Português, História, Ciências etc. para o exercício dos alunos. O professor deverá seguir as para nossos alunos. respostinhas dadas pelo autor do livro. Se o aluno for um pouco além, ele terá uma conduta considerada inadequada. Os conteúdos dos livros-textos não são os melhores e os Professor e aluno terão que se submeter aos ditames do livro mais corretos. No entanto, nos baseamos neles para ensinar e didático e, pois, do seu autor. Mas temos que ser assim avaliar nossos alunos. Continuamos a exigir dos nossos alunos submissos intelectualmente? que repitam erros já reconhecidos. E, se o aluno não repetir, ele estará reprovado. Ou seja, ao nos basearmos no senso O senso comum diz que “o que está escrito é verdadeiro”. E comum estabelecido sobre os conteúdos que ensinamos, nos acostumamos a isso de tal forma que perdemos a passamos a exigir que nossos alunos adquiram conhecimentos capacidade de duvidar do que está escrito. O escrito passou a errados da realidade. Se não errados, ao menos distorcidos. ser “sagrado”, um “fetiche”, que não pode ser tocado pela dúvida. Para esclarecer essa questão, basta citar alguns exemplos. Diz-se que Pedro Alvares Cabral “descobriu” o Brasil. Será que Será que os livros didáticos merecem todo esse respeito e descobriu ou invadiu? E será que foi Pedro Alvares Cabral ou a submissão? Ou será que devem ser usados sempre de uma classe dominante portuguesa, através de Pedro Alvares Cabral? forma crítica, como um ponto de partida a ser abordado, Diz-se, em História do Brasil, que “expulsamos os estrangeiros: discutido, questionado, duvidado? Será que os livros didáticos franceses, holandeses, ingleses”. E os portugueses, não eram contêm tantas e tais verdades que devemos nos submeter e estrangeiros? Diz-se que “Calabar foi o traidor da pátria”. submeter os nossos alunos a eles? Traidor da pátria ou dos interesses portugueses? Diz-se que José Bonifácio foi o “patriarca da Independência do Brasil”. Baseados nessas considerações, não vamos cair no Será que foi isso mesmo? Ou será que a Independência se extremo oposto e dizer: “então, não vale a pena utilizar livro faria, com ou sem José Bonifácio? didático nenhum”. Será que esta também não será uma posição ingênua e de senso comum? Já que os livros didáticos Citamos desvios dos conteúdos de História. Porém eles não contêm “a” verdade, eles não devem ser utilizados! Ao existem em Ciências, em Matemática, em Geografia etc. O contrário, eles podem e devem ser utilizados com criticidade, senso comum pedagógico toma por verdade aquilo que é uma ultrapassando os elementos do senso comum. Ultrapassando, forma de interpretar a realidade. pela critica, os próprios limites desses livros. Devido ás muitas críticas que se têm feito aos desvios dos Métodos e procedimentos de ensino conteúdos de ensino, uma posição oposta e ingênua tem sido tomada: a de que não vale a pena ensinar conteúdo algum e Aqui, também impera o senso comum. deixar que os alunos reflitam sobre o seu dia-a-dia, para que “tomem consciência” dele. Com isso, praticamente, passou-se Se tomarmos um conjunto de planejamentos de ensino de a não ensinar nada. diversos professores veremos que no item denominado “método de ensino” ou “atividade de ensino”, Que crítica é essa que destrói tudo? Onde está a dialética invariavelmente, está escrito: aula expositiva, dinâmica de que supera a posição anterior por sua incorporação crítica? grupo, trabalho dirigido, questionamento oral etc. Essa é mais uma atitude de senso comum pedagógico. Não é Generalidades! porque muitos dos atuais conteúdos ensinados possuam desvios que não se deva ensinar conteúdo algum. O que Mas, será que essas indicações decorrem da reflexão importa é recuperar o sentido adequado dos conteúdos teórica, objetiva, consciente? Ou elas emergiram do “costume’ escolares e passar a trabalhar a partir deles. de dizer que os métodos de ensino são esses? Mas propriamente: esse modo de agir não indica a presença do Material didático senso comum também naquilo que se refere ás questões metodológicas do ensino? Vinculado à questão do conteúdo, vale lembrar a forma como, em geral, é tomado o livro didático, desde que é através Os planejamentos são produzidos mais ou menos da forma dele que fundamentalmente são transmitidos os conteúdos como descrevemos a seguir. No inicio do ano letivo há uma escolares. semana dedicada ao planejamento de ensino. Como é uma atividade obrigatória na escola, tem que ser realizada. Assim, Qual o significado do livro didático na prática pedagógica toma-se o formulário de planejamento e cumpre-se a tarefa de escolar? No geral, ele tem sido assumido como uma “bíblia”, preenchê-lo. A atividade é assumida como se fosse de ou seja, como um livro sagrado: tudo o que está escrito nele se planejamento, mas é executada como um preenchimento de assume como verdade. Deve ser essa a atitude a ser assumida formulário. Começa-se pela coluna de conteúdos, que é a mais diante do livro didático? Será que ele não contém inverdades, fácil. Os conteúdos já estão explícitos e ordenados nos livros reduções e desvios de conhecimentos? didáticos. Basta, para tanto, copiar o índice. A seguir, inventam-se objetivos que casem com os conteúdos indicados. 21
  • De fato, o planejamento exige o contrário: em primeiro lugar, o Na práxis pedagógica, o educador é aquele que, tendo estabelecimento dos objetivos e, depois, encontrar os adquirido o nível de cultura necessário para o desempenho de conteúdos que os operacionalizem. As atividades para efetivar sua atividade, dá direção ao ensino e à aprendizagem. Ele esses conteúdos já estão definidas “desde sempre”. Por que assume o papel de mediador entre a cultura elaborada, pensar nelas? Todo mundo dá aulas com exposição, dinâmica acumulada e em processo de acumulação pela humanidade, e de grupo etc. É o senso comum pedagógico que conduz a essa o educando. O professor fará a mediação entre o coletivo da decisão. De fato, o planejamento seria o momento decisivo sociedade (os resultados da cultura) e o individual do aluno. sobre o que fazer; um momento de definição política e Ele exerce o papel de um dos mediadores sociais entre o científica da ação pedagógica, no caso da educação. Não pode universal da sociedade e o particular do educando. ser feito a partir do senso comum, mas, exclusivamente, com senso critico. Para que possa exercer esse papel, o educador deve possuir conhecimentos e habilidades suficientes para poder De fato, sobre métodos e procedimentos de ensino, é auxiliar o educando no processo de elevação cultural. Deve ser preciso agir com critérios definidos e com prudência. Não basta suficientemente capacitado e habilitado para compreender o relacionar qualquer coisa num planejamento. Há necessidade patamar do educando. E, a partir dele, com todos os de estudar que procedimentos e que atividades possibilitarão, condicionamentos presentes, trabalhar para elevá-lo a um da melhor forma, que nossos alunos atinjam o objetivo de novo e mais complexo patamar de conduta, tanto no que se aprender o melhor possível daquilo que estamos pretendendo refere ao conhecimento e às habilidades, quanto no que se ensinar. refere aos elementos e processos de convivência social. Síntese dos elementos do senso comum pedagógico Para tanto, o educador deve possuir algumas qualidades, tais como: compreensão da realidade com a qual trabalha, Até aqui conseguimos estabelecer um conjunto de comprometimento político, competência no campo teórico de elementos que nos permitiram inventariar conceitos que conhecimento em que atua e competência técnico- permeiam e atravessam a atividade docente escolar. São profissional. entendimentos do senso comum, que define e orienta a ação pedagógica diária de todos nos. Será que esses são os Em primeiro lugar, o educador dificilmente poderá princípios que queremos levar à frente, que queremos utilizar desempenhar seu papel na práxis pedagógica se não tiver uma no direcionamento de nossa prática pedagógica? Será que certa compreensão da realidade na qual atua. Precisa queremos agir, em educação, sem ter claro nossos objetivos compreender a sociedade na qual vive, através de sua história, políticos, sem ter claro quem é o educando que está à nossa sua cultura, suas relações de classe, suas relações de produção, frente? Sem ter claro o que é o conhecimento e seu processo? suas perspectivas de transformação ou de reprodução. Enfim, o educador não poderá ser ingênuo no que se refere ao Será que, conscientemente, queremos e desejamos utilizar entendimento da realidade na qual vive e trabalha. Caso os livros didáticos, com seus respectivos conteúdos, como se contrário, sua atividade profissional nada mais será que eles fossem a pura verdade? Será que, como procedimentos de reprodutora da sociedade via o senso comum hegemônico. ensino, bastará definir genericamente modos já “definidos” de técnicas didáticas, tais como exposição, dinâmica de grupo Em segundo lugar, o educador precisa ter etc.? Ou temos que dar um salto, buscando os melhores comprometimento político com o que faz. Compreendendo a modos de agir para que nossos alunos aprendam da melhor sociedade em que vive, terá clareza daquilo com que está forma aquilo que estamos querendo ensinar? comprometida a sua ação. Não poderá agir sem esse comprometimento explícito (explícito ao menos para si Nosso inventário não é completo nem exaustivo, mas é mesmo, se não quer torná-lo público). Em outro momento suficiente para lembrar os limites teóricos nos quais estamos dessa discussão dissemos que o educador que afirma não desenvolvendo ou sofrendo atividades educacionais. Tanto possuir posicionamento político assume o posicionamento como professores como enquanto alunos, passamos pelas dominante dentro da sociedade - no caso da nossa sociedade, experiências aqui sumarizadas. um posicionamento burguês. A ação do educador não poderá ser executada de qualquer Os sujeitos da práxis pedagógica forma, como se toda e qualquer forma fosse suficiente para que ela possa ser bem realizada. Ela só poderá ser bem O educador realizada se tiver um compromisso político que a direcione. Ou seja, o educador só tem duas opções: ou quer a permanência Quem é o educador e qual o seu papel? desta sociedade, com todas as suas desigualdades, ou trabalha para que a sociedade se modifique. Em primeiro lugar, é um humano e, como tal, é construtor de si mesmo e da história através da ação;. é determinado Em terceiro lugar, o educador necessita conhecer bem o pelas condições e circunstâncias que o envolvem. É criador e campo científico com o qual trabalha. Se ensina Matemática, criatura ao mesmo tempo. Sofre as influências do meio em que deve conhecer bem este campo; se ensina História, deve vive e com elas se autoconstrói. conhecê-la bem - enfim, seja lá qual for o campo teórico com o qual trabalhe, o educador tem necessidade de possuir Em segundo lugar, além de ser condicionado e competência teórica suficiente para desempenhar com condicionador da história, ele tem um papel específico na adequação sua atividade. Não pode, de forma alguma, mediar relação pedagógica, que é a relação de docência. a cultura de sua área se não detiver os conhecimentos e as habilidades que a dimensionam. Não é apenas com os O que isso significa? rudimentos de conhecimentos adquiridos nos livros didáticos que um educador exerce com adequação o seu papel. O livro 22
  • didático é útil no processo de ensino, mas ele nada mais educação formalizada. Isso não significa uma condenação ao significa do que uma cultura científica estilizada. É muito pouco autodidatismo. Ocorre que o autodidatismo, no que se refere para o educador que deseja e necessita deter os ao acesso à cultura elaborada, exige iniciação escolar ou, ao conhecimentos de sua área. menos, iniciação preliminar de leitura, escrita, raciocínio numérico etc. A cultura elaborada, hoje, exige a escolarização, Em quarto lugar, o educador deve deter habilidades e como instância pedagógica. recursos técnicos de ensino suficientes para possibilitar aos alunos a sua elevação cultural através da apropriação da Dentro dessa perspectiva, o educando não deve ser cultura elaborada. Ensinar não significa, simplesmente, ir para considerado, pura e simplesmente, como massa a ser uma sala de aula onde se faz presente uma turma de alunos e informada, mas sim como sujeito, capaz de construir-se a si “despejar” sobre ela uma quantidade de conteúdos. Ensinar é mesmo, através da atividade, desenvolvendo seus sentidos, uma forma técnica de possibilitar aos alunos a apropriação da entendimentos, inteligência etc. São as experiências e desafios cultura elaborada da melhor e mais eficaz forma possível. Para externos que possibilitam ao ser humano, através da ação, o tanto, será necessário deter recursos técnicos e habilidades de crescimento, o amadurecimento. O mundo externo exige uma comunicação que facilitem a apropriação do que se comunica. ruptura com a condição existente, sem suprimir todos os seus O educador necessita possuir habilidades na utilização e elementos. Há uma continuidade dos elementos anteriores e, aplicação de procedimentos de ensino. ao mesmo tempo, uma ruptura, formando o novo. O velho não é suprimido, mas sim incorporado ao novo. Para exemplificar, Por último, esses elementos todos se completam com uma não suprimimos a cultura espontânea para, em seu lugar, habilidade que denominamos “arte de ensinar”. É preciso colocar a cultura elaborada. A cultura elaborada, que cada um desejar ensinar, é preciso querer ensinar. De certa forma, é detém, é uma síntese nova de sua cultura anterior, revivificada preciso ter paixão nessa atividade. Gramsci lembra que os pela apropriação e assimilação da cultura elaborada. Quando intelectuais, na maior parte das vezes, esquecem-se do uma criança aprende um modo novo de executar uma sentimento em suas atividades. E preciso estar em sintonia brincadeira, não suprime o modo anterior; ao contrário, afetiva com aquilo que se faz. Um professor que faz de sua incorpora o modo anterior ao novo modo de execução. É o atividade apenas uma mercadoria dificilmente será um novo que nasce do velho, incorporando-o, por superação. professor comprometido com a elevação cultural dos educandos. O salário não paga o trabalho que temos. Por isso, O educando é um sujeito que necessita da mediação do torna-se importante, além da competência teórica, técnica e educador para reformular sua cultura, para tomar em suas política, uma paixão pelo que se faz. Uma paixão que se próprias mãos a cultura espontânea que possui, para manifeste, ao mesmo tempo, de forma afetiva e política. Sem reorganizá-la com a apropriação da cultura elaborada. essa forma de paixão, as demais qualidades necessárias ao educador tornam-se formais e frias. O processo educativo Assim, o educando é um sujeito possuidor de capacidade exige envolvimento afetivo. Dai vem a “arte de ensinar”, que de avanço e crescimento, só necessitando para tanto da nada mais é que um desejo permanente de trabalhar, das mais mediação da cultura elaborada, que possibilita a ruptura com o variadas e adequadas formas, para a elevação cultural dos seu estado espontâneo. educandos. Disso decorre que o educando nem possui todo o saber, Para ser educador não basta ter contrato de trabalho numa nem é pura ignorância. Ele detém uma cultura que adquiriu escola particular ou um emprego de funcionário público. É espontaneamente no seu dia-a-dia, porém limitada ao preciso competência, habilidade e comprometimento. circunscrito e ao espontâneo. A função da mediação da cultura Ninguém se faz professor, do dia para a noite, sem elaborada é possibilitar a ruptura com esse estado de coisas. A aprendizagem e preparação satisfatórias. não-apropriação da cultura elaborada faz com que os sujeitos humanos permaneçam profundamente carentes de Em síntese, para exercer o papel de educador, é preciso entendimento e consciência. Entender de construção e uso de compromisso político e competência técnica. arco e flecha é muito interessante, porém insuficiente na luta contra quem possui arma de fogo. Foi exatamente isso que O educando possibilitou que portugueses e espanhóis dizimassem os indígenas das Américas do Sul e Central. O educando, como o educador, é caracterizado pelas múltiplas determinações da realidade. Ou seja, é um sujeito Assim, no trabalho escolar, o educador deve estar atento ativo que, pela ação, ao mesmo tempo se constrói e se aliena. ao fato de que o educando é um sujeito, como ele, com Ele é um membro da sociedade como qualquer outro sujeito, capacidade de ação e de crescimento - e, por isso, um sujeito tendo caracteres de atividade, socialidade, historicidade, com capacidade de aprendizagem, conduta inteligente, praticidade. criatividade, avaliação e julgamento. Na relação educativa, dentro da práxis pedagógica, ele é o sujeito que busca uma nova determinação em termos de É preciso compreender o educando a partir de seus patamar crítico da cultura elaborada. Ou seja, o educando é o condicionantes econômicos, culturais, afetivos, políticos etc, se sujeito que busca adquirir um novo patamar de quer trabalhar adequadamente com ele. conhecimentos, de habilidades e modos de agir. É para isso que busca a escola. Ir à escola, forma institucionalizada de Conclusão educação da sociedade moderna, não tem por objetivo a permanência no estágio cultural em que se está, mas, sim, a aquisição de um patamar novo, a partir da ruptura que se Relação educador / Educando processa pela assimilação ativa da cultura elaborada. A cultura espontânea é insuficiente para a sociedade moderna que exige Tomando por base as características fundamentais do dos indivíduos novos níveis de entendimentos através da educador e do educando, como seres humanos e como 23
  • sujeitos da práxis pedagógica, verificamos que o papel do educador está em criar condições para que o educando aprenda e se desenvolva, de forma ativa, inteligível e sistemática. Para tanto, o educador, de modo algum, poderá obscurecer o fato de que o educando é um sujeito ativo e que, para que aprenda, deverá criar oportunidades de aprendizagens ativas, de tal modo que o educando desenvolva suas capacidades cognoscitivas assim como suas convicções afetivas morais, sociais, políticas. O educador, como sujeito direcionador da práxis pedagógica escolar, deverá, no seu trabalho docente, estar atento a todos os elementos necessários para que o educando efetivamente aprenda e se desenvolva. Para isso, além das observações aqui contidas, deverá ter presente os resultados das ciências pedagógicas, da didática e das metodologias específicas de cada disciplina. O planejamento, a execução e avaliação do ensino serão insatisfatórios se não forem processados dentro de mínimos parâmetros de criticidade. O estudo deste capítulo tem por intenção chamar a atenção de educadores e de futuros educadores para o fato de que os sujeitos da práxis pedagógica não estão dados definitivamente, mas sim que eles devem ser permanentemente repensados e recompreendidos, se queremos produzir uma ação docente-discente de forma crítica. 24