Aspectos psicológicos, sociológicos e filosóficos da educa

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Aspectos psicológicos, sociológicos e filosóficos da educa

  1. 1. ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO estruturas. Para isso é preciso estudar o desenvolvimento o desde o seu inicio, não basta que o professor de 2 Grau AS ORIGENS DO DESENVOLVIMENTO conheça o desenvolvimento do adolescente entre os 14 e os 17 o anos, o de 1 Grau, dos 6 aos 13 anos, e o da pré-escola saiba o RESUMO. Para o professor é muito importante conhecer o que se passa entre os 4 e os 5, anos porque o desenvolvimento desenvolvimento psicológico do aluno, não só no que se refere é um processo continuo e precisamos ter consciência de todas às suas etapas, mas também ao mecanismo pelo qual ele é as suas fases se quisermos compreendê-lo. O que ocorre aos produzido. Muitos dos nossos conhecimentos atuais sobre o 14 anos é resultado de tudo o que ocorreu anteriormente e o desenvolvimento psicológico têm origem nas pesquisas de trabalho que é realizado durante os dois primeiros anos de Jean Piaget. vida tem uma influência profunda sobre o que acontece depois. Por isso, qualquer pessoa interessada no No momento do nascimento, a criança dispõe de uma série desenvolvimento precisa conhecer essa primeira etapa, o de condutas reflexas como sugar, chorar, espirrar, pegar, etc. A período denominado sensóriomotor, anterior á aquisição da partir desse momento irão se produzindo, por diferenciação, linguagem, durante o qual serão estabelecidas as bases de outras condutas mais complexas que são chamadas de todo o desenvolvimento posterior que, de certa forma, será “esquemas”, ou seja, unidades básicas da atividade mental. uma repetição das primeiras aquisições feitas durante esse Esse processo de diferenciação é o resultado da adaptação do período. Um professor precisa conhecer as etapas anteriores organismo ao meio, adaptação que lhe permite sobreviver das crianças com as quais trabalha e também as posteriores, quando há mudanças nas condições .ambientais. A adaptação não só para poder compreender esse processo contínuo, mas é um processo biológico geral que possui dois aspectos: a também porque pode encontrar em uma criança de 14 anos acomodação e a assimilação, sendo que a adaptação estratégias que seriam correspondentes aos 6 ou 7 anos, psicológica prolonga a biológica. As crianças agem para quando lhe são apresentados problemas difíceis e, por isso, restabelecer o equilíbrio que foi quebrado com o meio e, para precisa ter consciência dessas etapas anteriores com a tanto, realizam atividades diferentes, aplicam esquemas que, finalidade de poder ajudar a criança a superar formas de em contato com a nova situação, serão modificados, dando pensamento inapropriadas. lugar a novos. O NASCIMENTO Ao longo do desenvolvimento, o processo de formação de novos esquemas é sempre o mesmo, mas os esquemas variam constantemente ao longo da vida. É conveniente dividir o Ao nascer, a criança é incapaz de se valer por si mesma e desenvolvimento em etapas segundo o tipo de esquemas precisa constantemente da ajuda dos adultos para sobreviver. existentes e o modo de resolver os problemas, que varia ao Possui, no entanto, uma série de condutas que permitem o seu longo da vida. relacionamento com o meio, entendendo-se por meio tanto os objetos como as pessoas. Essas condutas, denominadas Para o professor é tão importante, ou até mais, conhecer reflexos do recém-nascido, entram em funcionamento quando os mecanismos do desenvolvimento quanto os da ocorrem certas situações internas ou externas. Muitas das aprendizagem. O motivo é simples: ele lida com indivíduos que respostas da criança se dão diante de estimulações internas, estão construindo suas estruturas intelectuais e a sua tarefa como mal-estar, fome, sono, etc., outras ocorrem diante de fundamental é contribuir para a formação destas. A estímulos externos, como alterações do meio, objetos, etc. aprendizagem vai acontecer em ligação direta com o Entre esses reflexos encontramos os de sucção, preensão, desenvolvim3nto e depende dele de tal forma que não micção, defecação, espirro, reptação, marcha reflexa, reflexo podemos determinar como a mesma se processa. de Moro, de Babinski, etc. Alguns deles são complexos de reflexos, por exemplo, na sucção podemos distinguir vários, Assim, então, toda teoria do ensino precisa partir, hoje, como a procura de alimento, os reflexos dos lábios, embora não fique restrita a isso, dos conhecimentos sobre o desencadeados com o toque no lábio, os de sucção e desenvolvimento intelectual de que dispomos na atualidade. deglutição, etc. Nesse terreno, a “opção mais completa e coerente que existe é a teoria do desenvolvimento elaborada pelo psicólogo suíço A partir dessas poucas condutas reflexas iniciais será Jean Piaget (1896/1980). construído todo o desenvolvimento psicológico posterior. Nesse desenvolvimento os reflexos têm importância desigual; Essa teoria, construída ao longo de 60 anos de pesquisas, alguns são muito importantes dão lugar a desenvolvimentos representa hoje o ponto de partida de inúmeros trabalhos e é muito complexos, enquanto outros têm uma influência muito completamente indispensável para compreender a criança. A pequena para o desenvolvimento psicológico posterior. A sua posição piagetiana mudou muito a nossa concepção do evolução é, então, muito diversa: alguns são mantidos quase desenvolvimento infantil. A criança não está recebendo inalterados durante toda a vida, como os relativos à micção ou passivamente as influências do exterior e aprendendo só em ao espirro; outros sofrem enormes modificações, como a virtude dessas influencias, mas, pelo contrário, procura preensão ou a locomoção, enquanto outros desaparecem ativamente estímulos e produz as situações nas quais aprende. poucos meses após o nascimento, e o fato de que isso não O seu papel na aprendizagem é completamente ativo. venha a ocorrer se constitui num sinal de patologia, como acontece com os reflexos de Moro ou Babinski. O professor precisa, então, conhecer como se processa o desenvolvimento psicológico, mas o importante para ele não é EM QUE CONSISTEM OS REFLEXOS conhecer unia série de dados isolados sobre as etapas deste desenvolvimento, e sim entender, antes de mais nada, o processo no seu conjunto, compreender como se processa a São condutas que surgem diante de variações externas ou passagem das etapas iniciais às etapas finais, como se dá o internas e têm uma estrutura bastante fixa, ou seja, aumento dos conhecimentos e da formação de novas processam-se sempre de forma parecida. No entanto, os 1
  2. 2. desencadeantes, ás vezes, são variados e os reflexos entram mas, ao mesmo tempo, modifica o meio. A adaptação nunca é em ação diante de estímulos muito diversos, alguns dos quais somente uma modificação do organismo ou uma submissão não parecem guardar relação com a conduta á qual dão deste ao meio, seja ele natural ou social, mas há, ao mesmo origem. Por exemplo, a sucção inicia-se quando um objeto é tempo, uma modificação desse meio em maior ou em menor introduzido na boca da criança, mas também quando se grau. (Neste aspecto há uma distinção do uso corrente do produzem estimulações intensas tais como ruídos próximos á termo adaptação e do uso na biologia.) criança, ou quando perde o equilíbrio, ou outras alterações do meio, e também existe uma sucção no vazio, ou seja, sem Em um processo adaptativo podemos distinguir, com fins objeto. Os reflexos, provavelmente, estão controlados pelas de exposição, dois aspectos que são, na verdade, partes mais primitivas do sistema nervoso. indissociáveis, ou seja, fazemos a distinção para dar um maior esclarecimento, já que um não pode ocorrer sem o outro. Por A partir do nascimento, os reflexos começam a ser um lado, podemos falar de assimilação ou incorporação do consolidados. Embora sejam condutas inatas, desencadeadas meio ao organismo, ação do meio sobre o organismo e, por quando se produz uma estimulação, precisam de um certo tipo outro lado, de acomodação, que supõe uma modificação do de exercício para que possam ser consolidadas, e assim a organismo como resultado da influência do meio. A adaptação criança tem, de certa forma, que aprender a sugar logo após o é, então, uma modificação do organismo em função do meio nascimento e muitos desses reflexos, se não forem que favorece a conservação desse organismo. O organismo exercitados, acabam sendo extintos ou alterados. relaciona-se com o seu ambiente, age sobre ele e o modifica, mas, com o passar do tempo, ele mesmo se modifica, de tal O primeiro mês após o nascimento é dedicado, forma que os novos contatos com o meio já não serão principalmente, á consolidação desses reflexos exatamente iguais. Um exemplo simples é o da nutrição: um posteriormente, começam a modificar-se e diversificar-se, organismo incorpora uma parte do meio, por exemplo, um dando inicio a um processo que terminará na vida adulta. cachorro come um pedaço de carne, incorpora-o, assimila-o. A Veremos agora como vai acontecer esse processo e para isso carne não permanece igual, mas é transformada, triturada, devemos compreender por que se produz o desenvolvimento, misturada com saliva, digerida, eliminada. Essa incorporação, quais são as forças que estimulam um organismo a iniciar esse ao mesmo tempo, supõe uma modificação do cachorro, uma longo período de desenvolvimento psicológico que terminará acomodação aquilo que incorporou, o alimento transformou- muitos anos mais tarde. E indispensável tentarmos se em sangue, em tecidos, em produtos residuais e o compreender como e por que esse processo acontece e, para organismo se regenera ou se desenvolve se estiver no período isso teremos que nos remeter à biologia e aos processos de de crescimento, etc. Essa forma de intercâmbio, com esses adaptação do organismo ao meio. dois aspectos de assimilação e acomodação, aparece não só nas trocas materiais com o meio, mas também nas trocas mentais. Quando nos situamos na área da conduta e da sua A ADAPTAÇÃO explicação, a incorporação e a modificação do meio não são de natureza material, mas sim mental, seja ela motora ou A origem de toda a atividade dos seres vivos deve ser simbólica. A criança, por exemplo, pega um objeto, agindo procurada na adaptação do organismo ao meio que, por sua sobre ele, movimentando-o, batendo-o, agitando-o e vez, pressupõe uma modificação deste. Desde Darwin, o acomoda-se às suas propriedades, forma, textura, tamanho, mecanismo de seleção natural é realizado através da superfície, de tal maneira que, se o objeto for grande como sobrevivência dos mais aptos e do desaparecimento daqueles uma bola precisará pega-lo com as duas mãos e não com uma, que estão menos adaptados. Por isso, qualquer variação que se se for escorregadio terá de segurá-lo de uma maneira diferente produzir em um organismo facilitando a sua sobrevivência do que se for áspero. Assim, um conjunto de ações vai se tende a ser mantida e transmitida á sua descendência. formando, ações que chamaremos de esquema, produto da Partindo desse ponto de vista, precisamos considerar que o preensão da bola, por exemplo, o que supõe uma assimilação e desenvolvimento mental que se processou no homem e que o uma acomodação do organismo a esse objeto novo. Desse diferencia dos animais é um resultado da adaptação, é uma momento em diante, a criança poderá pegar objetos redondos modificação que facilita a sobrevivência da espécie e que e grandes aplicando o mesmo esquema de preensão com duas justamente deu ao homem possibilidades inimagináveis em mãos, que supõe uma acomodação nova, que não existia outros animais. Por isso, deve-se entender que o antes. desenvolvimento psicológico é o prolongamento do desenvolvimento biológico: os mesmos mecanismos que O exemplo anterior fazia referência à área da atividade atuam na evolução das outras espécies vegetais e animais motora, dominante na criança nos seus dois primeiros anos. aplicam-se ao caso do homem. O homem constitui-se numa Podemos dar outro exemplo numa área mais abstrata. espécie que foi capaz de adaptar-se ao seu meio (se não fosse Suponhamos que estamos lendo um livro como este e que assim, teria desaparecido), e de adaptar-se com muito sucesso, estamos estudando a relação do organismo com o meio e pois cada vez controla mais a natureza, usando, para isso, seus lemos o que se diz sobre a adaptação. O que estamos fazendo mecanismos psicológicos. A adaptação humana é mais rica que é incorporar uma noção nova, ou seja, assimilá-la, e o fazemos a de outras espécies porque é mais flexível, o que significa que a partir dos nossos conhecimentos anteriores. Precisamos pode adaptar-se a um maior número de situações. Enquanto saber o que é um organismo, o que é um processo, fazer uma que em outras espécies, bem adaptadas ao meio, uma variação representação da ação do organismo sobre o meio e os intensa no meio pode provocar a extinção da espécie ou, pelo intercâmbios que estabelece com ele, etc. Assim, adquirimos menos, o desaparecimento de um grande número de uma nova noção que vai modificar nossos conhecimentos indivíduos, o homem tem conseguido adaptar-se a situações anteriores, os quais terão que acomodar-se ao novo bastante mutáveis e variadas pelo uso da sua inteligência. conhecimento. A partir deste momento podemos aplicar essa noção quando tentarmos explicar outros fenômenos, A adaptação não é um processo passivo, mas ativo, o que produzindo assim novas assimilações e acomodações. significa que o organismo, ao se adaptar, está se modificando, 2
  3. 3. Assim, então, no processo de adaptação parte-se de um a criança procura objetos para pegá-los. Inicialmente, a organismo que, como o seu próprio nome indica, possui uma preensão é de toda a mão e pouco a pouco vai se organização e, agindo sobre o meio, seja de forma física (com aperfeiçoando, será estabelecida a posição polegar-indicador, as mãos, a boca, o estômago, etc.) ou psíquica (aplicação de de fundamental importância para o desenvolvimento humano, esquemas simbólicos anteriores), será ele próprio modificado. já que permite a preensão fina, e assim a criança aprende a A incorporação, como modificação do meio, é o que pegar de forma diferente objetos diferentes: o chocalho, a denominamos de assimilação e a modificação do organismo é manta, o travesseiro, o peito da mãe ou a mamadeira. Cada o que chamamos de acomodação. um deles possui características diferentes e a criança ao pegá- los, assimilá-los, acomoda-se a eles, levando em consideração A assimilação somente é possível quando uma organização tais características. No início, pega todos os objetos da mesma anterior a permite e, por exemplo, não podemos alimentar-nos forma, mas aos poucos vai sendo capaz de antecipar o tipo de com um pedaço de madeira porque não dispomos de um preensão que precisa fazer dependendo de que objeto se sistema digestivo adequado, nem tampouco uma pessoa que trata. Os reflexos iniciais vão dando lugar a condutas muito nunca estudou física poderá entender noções sobre a teoria da diferentes que são executadas de acordo com os objetos de relatividade se não adquirir previamente outras muitas noções. interesse. A partir desse reflexo inicial são processados Mas, uma vez adquirida uma nova capacidade, uma vez diversos esquemas de preensão, que vão se diferenciando formado um novo esquema, pode ser aplicado a novas constantemente em novos esquemas, como caminhos que situações e ser modificado. Essa é, então, uma forma de partem de um ponto e vão se ramificando cada vez mais. adaptação que facilita a sobrevivência. Diante de um objeto determinado, age de uma certa forma; O problema que poderão nos apresentar é o de por que sacode o chocalho para fazê-lo soar, bate nele, esfrega-o na necessária a adaptação do organismo ao meio. Todos os borda do berço; entretanto, chupa o urso de pelúcia, encosta-o organismos vivos tendem a sobreviver e lutam pela sua no rosto ou bate com ele na borda do berço, segurando-o por revivência em condições normais. Podemos considerar que, uma orelha. A cada objeto aplica uma série de ações diferentes em um momento determinado, o organismo encontra-se em que estabelecem categorias de objetos. Essas formas de ação, equilíbrio com seu meio e então esse organismo pode estar essas sucessões de condutas são os denominados esquemas. inativo, mas, no momento em que ocorre uma modificação Um esquema é uma sucessão de ações que possuem uma no meio, tanto externo quanto interno, isso provoca uma organização e que são suscetíveis de repetição em situações desadaptação e o organismo precisa agir para compensá-la. semelhantes. Uma criança de poucos meses alimentou se e está descansando no seu berço, com tranqüilidade, No entanto, o Diante de uma porta, uma criança de três anos tenta sol que entra janela vai se deslocando e os raios caem sobre o movimentar o trinco e empurrá-la para abri-la, enquanto que seu rosto, incomodando-a. Isso representa uma modificação diante de um velocípede tentará subir e fazê-lo movimentar- no meio que o organismo vai tentar superar. Para isso pode se. São dois esquemas diferentes que se aplicam em situações usar diversos procedimentos: pode tentar movimentar-se e diferentes. Quando a criança se encontra pela primeira vez sair fora do alcance do raio de sol, ou então chora expressando diante de uma porta que se abre para ela e não na direção o seu mal-estar e um adulto desloca o berço ou fecha a janela, contrária terá que modificar sua situação, deslocando-se para ou pega a criança no colo. Dessa forma se restabelece o poder abrir a porta, e assim terá aprendido a resolver um equilíbrio, embora temporariamente, pois logo haverá um problema novo. Quando se deparar com urna porta de correr, novo desequilíbrio. não poderá aplicar o esquema que usa para abrir uma porta com dobradiças. Inicialmente tentará usar o mesmo esquema Assim, quando o organismo não está sujeito a nenhuma sem sucesso e tentará pôr em funcionamento novos forma de tensão não precisa agir, mas, no momento em que esquemas, ou se lembrará de ter visto uma outra pessoa abrir uma modificação, faz-se necessária uma ação que a compense. uma porta de correr e tentará fazê-lo apoiando-se em Para resolver o desequilíbrio, aplica os meios que estão a sua esquemas anteriores. Quando finalmente conseguir fazê-lo, disposição e que já usou em situações anteriores, mas a terá formado um novo esquema para abrir portas, que será situação pode ser diferente e isso o leva a procurar novas aplicado quando se encontrar diante de portas de correr. soluções irão representar um progresso. Por meio deste procedimento vão sendo formados esquemas que por sua vez No exposto anteriormente, podemos ver que e vão permitindo uma adaptação, ou seja, a possibilidade de conveniente distinguir dois elementos em um esquema: um estabelecer o equilíbrio em situações novas - nisso se constitui elemento desencadeante e um elemento efetivador. Acontece o desenvolvimento intelectual. que diante de uma porta não aplicamos os mesmos esquemas que diante de um velocípede. Isto se deve a que a visão da OS ESQUEMAS porta constitui-se num elemento desencadeante do esquema de girar o trinco e abri-la, enquanto que o velocípede Salientamos que após o nascimento havia um período no desencadeia o esquema de subir ou empurrá-lo, ou seja, qual ocorria uma consolidação dos reflexos, mas o problema é deslocá-lo. Assim, nas diferentes situações reconhecemos que como se dá a passagem desses reflexos, ações rígidas, para devemos aplicar um esquema determinado. O esquema ações mais complexas e flexíveis, ações novas. Examinaremos propriamente dito é o elemento efetuador e o reconhecimento o caso da preensão. da situação é o elemento desencadeante. O recém-nascido exerce o reflexo de preensão quando algo Quando nos encontramos diante de uma situação nova, estimula a palma de sua mão, nesse caso a fecha. Após algum tentamos aplicar esquemas anteriores e o fazemos enquanto tempo, variável, mas não muito longo, a preensão sofre um podemos, combinando vários deles ou modificando algum até relaxamento e ele solta o objeto. Durante os dias e meses após encontrarmos uma forma de ação que seja mais prática para o o seu nascimento, o bebê exercita o reflexo e o aplica a muitos objetivo que pretendemos alcançar. Mais um exemplo: a objetos que caem acidentalmente em sua mão. A preensão vai criança nos seus primeiros meses pega um chocalho que cai ao se transformando cada vez mais numa conduta voluntária, pois alcance da sua mão. Ela mantém mais firmemente quando o 3
  4. 4. segura pelo cabo e essa ação que inicialmente produziu por não pode assimilar a situação nem, portanto, acomodar-se a acaso tentará reproduzi-la sistematicamente. Chegará um ela. momento em que a visão do chocalho desencadeará a ação de segurá-lo pelo cabo de forma precisa. Começará a aplicar ao Então, o indivíduo aprende principalmente em situações chocalho diversos esquemas, como esfregar, sacudir, bater, que diferem um pouco de situações anteriores e que, ao etc. Se um objeto parecido, por exemplo, um martelo de contrário, não aprende em situações idênticas às anteriores, brinquedo, dos que fazem ruído quando batemos, cai ao nas quais somente repete esquemas anteriormente formados, alcance de suas mãos, aplicará os mesmos esquemas, mas nem tampouco em situações totalmente novas para as quais chegará um momento em que descobrirá que o martelo se não dispõe de esquemas adequados, nem mesmo parecidos. presta melhor a ser batido e produz efeitos mais interessantes, Assim, quando a discrepância entre a situação nova e uma e lhe aplicará preferencialmente esse esquema, enquanto que situação anterior é intermediária se produz o maior progresso, para o chocalho ficará reservado o de sacudir, que é o que enquanto que se a discrepância for mínima ou máxima o produz os melhores resultados. progresso não será possível. Em experiências com crianças de poucos meses, comprovou-se que se interessam Imaginemos agora que encontra um objeto muito principalmente por objetos parecidos com outros que já diferente: um pedaço de fio elétrico de uns 20 cm ou uma conhecem e que mostram um interesse muito menor por bola. A conduta será diferente. A criança tentará pegar os dois objetos muito conhecidos ou por objetos totalmente novos. objetos e, no primeiro caso, pega o pedaço de cabo, mas este não se presta bem à aplicação dos esquemas anteriores; não é Os esquemas vão se combinando entre si ao longo do interessante nem bater, nem sacudir, nem esfregar, mas pode desenvolvimento, dando lugar a sucessões de ações cada vez aplicar outros esquemas, como segurar as duas pontas e mais complexas. Um adulto diante da porta de sua casa realiza esticar, ou enrolá-lo em volta de outro objeto. Assim são automaticamente uma sucessão de ações sem estar consciente introduzidos novos esquemas que são uma diferenciação dos disso, ou seja, enquanto pensa em algo totalmente diferente. anteriores, e se cair nas mãos da criança um pedaço de elástico Tira do bolso um molho de chaves, seleciona a adequada, de borracha ser-lhe-ão aplicados os esquemas usados para o enfia-a na fechadura, faz a chave girar, abre a porta, torna a fio e não os empregados com o martelo. Dessa forma, constrói fecha-la, guarda novamente a chave, etc. Cada uma dessas uma espécie de preconceito, já que a cada objeto aplica ações poderia ser, inicialmente - e possivelmente foi - um preferencialmente um tipo de esquemas, o que significa que esquema independente, mas, ao final, foram combinadas em aplica uma série de ações determinadas. um esquema único que foi automatizado. Da mesma forma, uma pessoa que está aprendendo a dirigir precisa concentrar- se intensamente em pisar na embreagem e colocar a marcha O PRINCÍPIO DE DISCREPÂNCIA quando quer mudar e isso exige dela uma atenção que dificulta o domínio do volante, a atenção à circulação dos outros carros, O importante de tudo isso é que se constitui num exemplo ou olhar pelo espelho retrovisor; um motorista experiente, ao de como se processa o progresso psíquico. A criança assimila o contrário, automatizou os diversos esquemas da direção e mundo circundante atuando sobre ele e, ao mesmo tempo, se pode ir da sua casa para o trabalho de uma forma totalmente acomoda produzindo novos esquemas por diferenciação dos automática, sem pensar em momento algum no que está esquemas anteriores. Ao agir, seus esquemas se multiplicam, fazendo. Pode havê-lo automatizado a tal ponto que, se quiser se diversificam e o seu número cresce sem cessar enquanto o ir a outro lugar e iniciou o mesmo caminho que quando vai sujeito aprende. para o trabalho, pode distrair-se e seguir a rota habitual ao invés de fazer o caminho que previa ao sair de casa. Os Quando a criança se encontra em uma situação idêntica à diferentes lugares pelos quais vai passando são elementos outra anterior, a única coisa que faz é aplicar os esquemas de desencadeadores de novas ações, como as voltas do volante que já dispõe. O aspecto desencadeante põe em ação esses que, estando automatizadas, vão se desencadeando sem que o esquemas e os aplica até que chega um momento no qual o indivíduo tenha consciência disso. processo se automatiza completamente. Nesse caso, falamos que houve a formação de um hábito. Entretanto, quando a Os problemas que nos dão trabalho para resolver são situação é nova, o sujeito tem que fazer coisas diferentes, mas aqueles para os quais não dispomos de esquemas previamente começará usando também os esquemas de que dispõe. O estabelecidos e temos que formar outros novos. Estamos aspecto desencadeante colocará em funcionamento alguns aprendendo a pintar paredes com um rolo, mas sempre esquemas que pudessem ser apropriados e o sujeito ocorrem pingos e a pintura escorre para baixo. Como resolver selecionará uns ao invés de outros. Se a situação for parecida o problema? Notamos, então, que pintamos de baixo para com outra anterior, o indivíduo tentará aplicar um esquema cima e quando o rolo está muito encharcado de tinta é introduzindo alguma modificação: se, ao invés de querer abrir justamente quando pintamos para baixo, caso em que a tinta, a porta de uma peça, tentar abrir a porta de um armário com excessiva nesse momento, escorre. Nossos conhecimentos chave ao invés de trinco, tentará aplicar os movimentos que sobre o deslocamento de líquidos por superfícies e da situação realiza com o trinco à chave e talvez depois de algumas na qual nos encontramos nos levam a mudar a técnica e, tentativas o consiga. Em situações futuras, adaptará a sua então, tentamos pintar de cima para baixo, acompanhando o preensão à forma da chave e moverá a mão de forma deslocamento da tinta que sobra e evitando, assim, que a adequada para fazê-la girar. pintura se solte e escorra. Resolvemos, dessa forma, um problema novo, o que se constitui num ato de inteligência. Se a situação for muito diferente, como diante de uma Para nós constitui-se num problema uma situação nova onde janela de guilhotina”, das que se deslocam verticalmente, o existem alguns elementos diferentes de outras situações já indivíduo pode não encontrar no seu repertório de esquemas conhecidas, mas que não são totalmente novos, pois nesse nenhum adequado e, por isso, será incapaz de resolver a caso estaríamos perdidos e não saberíamos por onde começar. situação. Nesse caso não haverá formação de novos esquemas, A inteligência é, justamente, o que permite a nossa adaptação nem terá se produzido nenhum progresso no indivíduo porque a essas situações novas. 4
  5. 5. subperíodo pré-operatório no qual a criança se mostra muito Evidentemente, a situação que descrevemos mostra um apegada aos aspectos externos das situações. único momento da pintura, não é um problema novo para um pintor experiente e, para ele, é somente uma questão de Dos 7 aos 11 anos, em média, transcorre o período das aplicar esquemas completamente automatizados que se operações concretas, no qual a criança organiza as suas ações desencadeiam de forma apropriada na situação, mas para um em sistemas de conjunto e realiza grandes progressos na amador que está se iniciando na pintura de paredes há muitos aplicação de noções lógicas, mas ainda continua apegada à aspectos problemáticos que precisam ser resolvidos por situação concreta na qual se encontra. modificação de esquemas anteriores. A possibilidade de adaptar-se a novas situações cada vez mais complexas é o Dos 11 aos 15 ou 16 anos, transcorre a etapa das resultado do processo de desenvolvimento. operações formais, na qual o indivíduo começa a raciocinar de forma hipotético-dedutiva e a aplicar os conceitos básicos do Os esquemas aos quais fizemos referência eram esquemas pensamento científico. Com esta etapa termina o principalmente do tipo motor, mas o mesmo acontece com desenvolvimento intelectual. outros- esquemas mais abstratos, por exemplo, com a solução de problemas de matemática. Se aprendemos a calcular a área Esses diferentes estágios definem distintas maneiras de de um retângulo, podemos considerar que dispomos de um nível os problemas que se apresentam e, portanto, a esquema que se aplica quando encontramos uma figura desse adaptação à realidade. A ordem em que transcorrem esses tipo. Mas se tivermos um paralelogramo não retângulo, nos estádios parece ser invariável, mas as idades são mais flexíveis encontramos diante de um problema novo, uma situação e dependem do meio onde se encontra o indivíduo. Não discrepante na qual teremos que experimentar nossos podemos dizer, portanto, que um sujeito de 12 anos se esquemas anteriores. Logicamente, se não sabemos calcular encontra no período das operações formais, senão que, para áreas de superfícies o problema será muito difícil ou impossível fazermos tal afirmação, precisamos analisar a sua conduta. Os de resolver. Pelo contrário, se a diferença entre o tipo de área diferentes fatores do desenvolvimento sobre os quais que temos que calcular e outras que calculamos antes for falaremos mais adiante podem introduzir grandes variações na muito pequena, o problema será muito simples. velocidade com este se processa. Chegaremos a formar um esquema novo. Há também a OS PAIS E A ESCOLA possibilidade de que recebamos instruções verbais sobre a forma de resolver esse problema, como e feito geralmente na escola. Isso facilita a nossa tarefa, mas, muitas vezes não supõe Os pais desempenham um papel muito importante, a formação de um novo esquema que possa ser generalizado embora não necessariamente benéfico, na educação dos filhos. para outras situações, por isso é conveniente deixar que o Essa influência tem início, naturalmente, antes do nascimento. indivíduo explore suas próprias soluções, o que será abordado Em geral, a influência continua sendo particularmente mais adiante. importante durante os primeiros anos de vida, quando a criança permanece grande parte do tempo, ou todo o tempo, em casa tendo contato com a sua família. Como sabemos, essa OS ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO etapa determina em grande parte o desenvolvimento posterior. O ambiente da criança proporcionado pela família Embora o procedimento de formação de esquemas novos deve ser rico em estímulos, não só em quantidade mas seja idêntico em todas as idades, há diferenças marcantes nas também qualitativamente, apresentados da forma adequada e condutas entre crianças de 1 ano, por exemplo, e de 7 anos. no momento oportuno; a relação afetiva com os pais e com os Por isso podemos dizer que o mecanismo do desenvolvimento, irmãos e, antes de mais nada, a relação com a figura materna o princípio pelo qual se produz o progresso psicológico, é o será um determinante de relações sociais posteriores. mesmo em todas as idades, mas o repertório de esquemas vai mudando e vai dando origem a estruturas diferentes nas Assim, quando a criança vai para a escola, o fato de que diferentes idades. Por isso, para entender melhor o progresso tenha tido um desenvolvimento inicial adequado será um das condutas é conveniente distinguir estádios no ponto de partida positivo para o trabalho escolar e para sua desenvolvimento. integração afetiva dentro da escola. Mas não é esse u aspecto ao qual queremos fazer referência agora, e sim, Até 1 ano e meio ou 2 anos, a criança relaciona-se com o principalmente, à influência que os pais possam ter sobre a meio através dos seus sentidos e agindo sobre ele. As trocas criança durante a etapa escolar e sobre o que a criança faz na são principalmente materiais e limitadas à situação atual e a escola. esse lugar. Em torno dessa idade, fins do segundo ano, começam a aparecer a linguagem e a representação, ou seja, a No momento em que a criança chega à escola, estabelece possibilidade de usar um significante ao invés de um novas relações com professores e colegas, relações que, como significado. Isso abre enormes perspectivas e uma nova etapa afirmamos, são influenciadas pelo desenvolvimento anterior no desenvolvimento. A primeira é denominada de período da criança. Quando os pais enviam a criança à escola, criam sensório-motor devido às características predominantes, ou uma série de expectativas sobre o que ela fará ali e seja, atividade sensorial e motora, enquanto que depois estabelecem comparações com outras crianças. Até então, se entramos numa fase representativa. existem diferenças entre a criança e as outras à sua volta, os pais são considerados os responsáveis e, por isso, se a Entre a idade de 2 e 7 anos, a criança reconstrói, pela comparação era desfavorável para a própria criança, produz-se linguagem. muitos dos seus conhecimentos anteriores. A sua uma certa tendência a ignorá-la ou a justificá-la de alguma capacidade de atenção, no entanto, continua ainda sendo forma (“ele é muito distraído, mas muito carinhoso”, “é um limitada e permanece dominada pelo que se denomina chato, mas vivo como ninguém”, etc.). No entanto, no egocentrismo. E a etapa do pensamento intuitivo, ou momento em que a criança começa a freqüentar a escola, 5
  6. 6. tende-se a passar a responsabilidade pelos progressos mãos dos pais. As crianças pertencem a toda a sociedade, pois satisfatórios ou menos satisfatórios do filho aos professores a à representam o seu futuro e, por isso, da mesma maneira que organização escolar. não se permite que os pais maltratem ou até matem os seus filhos, tampouco se deve permitir que façam coisas que são Quando a criança vai à escola e à medida que vai negativas na área do desenvolvimento psicológico e, assim, a crescendo, os pais projetam uma série de expectativas sobre o participação dos pais nas decisões sobre a educação dos filhos trabalho de seu filho. É freqüente, também, que projetem suas deve ser limitada. Mesmo falando de pais normais, não se frustrações pessoais ou profissionais e que desejem que seu pode dizer que desejem sempre o melhor para seus filhos se filho chegue mais longe que eles. Aqui aparece uma atitude considerarmos as coisas do ponto de vista objetivo e não ambígua na qual o pai apresenta-se como modelo idealizado subjetivo. Ou seja, podem pensar que estão desejando o com quem o filho deve parecer-se e, ao mesmo tempo, de uma melhor para seu filho e, na realidade, o que estão desejando é forma mais real, como uma meta que deve ser superada, o que mais satisfaz a eles próprios, o que melhor lhes esperando que a criança chegue mais longe. Estas expectativas possibilita realizar suas fantasias sobre o que não conseguiram submetem o filho a uma certa pressão que, em alguns casos, atingir em sua juventude, fantasias que podem perturbar o pode ser muito forte e dificilmente suportável. desenvolvimento dos filhos. As expectativas dos pais diante do trabalho dos filhos Inclusive, se realmente existirem problemas, se a criança costumam referir-se aos aspectos mais facilmente observáveis apresentar atrasos reais, o pior é sempre angustiar-se em do trabalho escolar. Nos primeiros níveis, fazem referência relação a eles e pressionar ou forçar a criança para que os quase exclusivamente aos progressos na leitura, na escrita e supere. Se a criança não aprende a escrever, o que se deve nas primeiras noções de matemática; posteriormente, muitos fazer não é recrimina-la ou dar-lhe mais horas de aula, mas sim pais já não são capazes de avaliar esses progressos e limitam- tentar descobrir os motivos pelos quais não aprende ou tentar se às notas. Se a pressão dos pais para que a criança obtenha eliminá-los. Muitos pais somente desejam que seus filhos boas notas for muito grande, esta pode chegar a detestar o progridam na escola, mas não manifestam o mínimo interesse trabalho escolar e a fugir dele, já que se constitui numa fonte pela tarefa que as crianças realizar ai ou pelos verdadeiros de conflitos com a sua família. Por isso, uma excessiva pressão, interesses de seus filhos. Certos pais inclusive menosprezam principalmente se for referente somente às notas, é sempre profundamente o trabalho dos professores e até o manifestam negativa porque, ao invés de estimular a criança, o que diante dos filhos. Por isso é normal que estes pensem (de uma consegue é impedi-la de avançar. forma geralmente não consciente) que, já que seus pais têm tão pouco interesse por aquilo que eles fazem na escola e Os pais costumam prestar muito menos atenção a outros apreciam tão pouco os professores, não vale muito a pena aspectos do desenvolvimento, àqueles aos quais fizemos preocupar-se com o trabalho escolar. A atenção e a referência, que são menos visíveis, porém, mais importantes e preocupação sensatas dos pais pelo trabalho da criança e pela que traduzem melhor os progressos da criança, por exemplo, tarefa que é realizada na escola são um dos fatores que mais os seus avanços na área das relações lógicas, das noções de podem contribuir para o progresso da criança. conservação ou no domínio do pensamento hipotético- dedutivo e das formas de pensamento racional. Como estes Assim, um pai que se interessa pelos avanços que seu filho aspectos são mais difíceis de serem observados, realiza na escola, que não é exigente demais, que não principalmente por pessoas não especializadas, os pais não pretende comparar constantemente o filho com outras costumam dar-lhes a atenção que merecem e, desse ponto de crianças, que é sensível aos esforços inovadores realizados na vista, é comum que os pais sejam uma das principais escola e ao trabalho dos professores, pode ser um estímulo dificuldades para a introdução de melhorias e reformas nas positivo para a aprendizagem da criança, mas atitudes escolas. Afirma-se, com freqüência, que muitas experiências contrárias ou simplesmente a falta de interesse, que são muito inovadoras realizadas na escola têm sido frustradas pela falta freqüentes, são altamente negativas e são, sem dúvida, uma de colaboração ou até pela oposição encontrada nos pais, que das causas dos fracassos escolares. esperam que seus filhos saibam o que sabem os filhos dos seus vizinhos ou o que eles sabiam com essa idade. Os relatos de A reprovação é considerada como a medida do sucesso ou grandes pedagogos inovadores contêm, freqüentemente, do fracasso na escola. Mas não é mais do que um índice alusões a estes problemas. Quando as mudanças são devidas a externo que pode ser conseqüência de muitas causas. O reformas gerais do sistema educacional, ainda são capazes de importante é, então, tentar detectar quais são essas causas e aceitá-las, mas quando se referem ao trabalho experimental encontrar a sua solução. realizado em uma determinada escola, a oposição é muito maior e isso obriga os professores não somente a realizar um Podemos dizer que os exames e as reprovações são uma trabalho criativo e de busca, mas realizá-lo num ambiente, em forma de controle social e de ordenação dos indivíduos. Não última análise, hostil. analisaremos agora o valor e necessidade da existência de exames, assunto que já tem sido muito abordado. O que A partir desse ponto de vista, é muito conveniente que os queremos dizer é que por trás de cada reprovação há um pais conheçam as fases de desenvolvimento dos seus filhos e problema cognitivo ou afetivo, e geralmente ambos, e que o possam ser mais compreensivos com o ritmo de progresso que precisamos fazer é tentar encontrar esse problema se destes e com os problemas que eventualmente possam surgir. quisermos que o sujeito progrida. Mas o que não costuma ser Por isso, seria muito conveniente realizar um trabalho de uma solução é fazê-lo repetir o ano ou dar-lhe algumas aulas formação dos pais através de diversos meios, incluindo a complementares. Se um aluno for capaz de ser aprovado em televisão. uma disciplina recebendo algumas aulas suplementares fora da escola, isso pode ser devido a três causas. Ou o procedimento Esta cegueira dos pais diante do desenvolvimento dos de ensino na escola é decisivamente mau, e então deveria ser filhos e a projeção de frustrações que tentam resolver através mudado; ou essa criança precisa de um contato mais pessoal e deles é um motivo para não deixar a educação somente em direto com uma pessoa, e isso consegue com um professor 6
  7. 7. particular, mas, então, não é o que ele ensina, mas sim a estar sujeita a controles muito rígidos e deveriam ser usados atenção que lhe é dada nessa situação e que provavelmente apenas em casos excepcionais. não recebe em outros lugares o que o ajuda na aprendizagem; ou, finalmente, o que lhe é exigido na escola é puramente uma Mas além da falta de garantias com que são obtidos os aprendizagem memorística ou de receitas e o professor dados dos testes, há outro problema igualmente grave, que é o particular ensina justamente essas receitas. Em qualquer um da interpretação dos resultados. Com freqüência, o próprio dos três casos a solução deveria ser procurada dentro da professor e também os pais atribuem aos resultados dos testes escola. um valor muito maior do que estes realmente possuem e formam, então, uma idéia sobre a criança que pode influenciar As repetições de ano, e, mais ainda, as aulas de decisivamente seu rendimento na escola. Diversas experiências recuperação, são em geral totalmente inúteis se o que têm manifestado que as atitudes e expectativas do professor esperamos é que os estudantes aprendam realmente e se em relação ao aluno se constituem num fator muito desenvolvam. Se a nossa pretensão é somente que decorem importante para o aproveitamento escolar, uma matéria determinada, é evidente que, quanto mais horas independentemente da capacidade medida pelos testes. Ou forem dedicadas a uma aprendizagem memorística mais seja, a convicção de um professor de que um aluno tem provável será que se consiga isso, mas os resultados não serão capacidade determina mais o seu bom rendimento do que sua bons porque rapidamente serão esquecidos. O que acontece é inteligência medida pelos testes, e o mesmo ocorre no sentido que, nesse meio tempo, o exame já terá passado e teremos a inverso, um aluno que o professor considera como um mau ilusão de que a criança aprendeu alguma coisa. Se quisermos aluno facilmente obterá maus resultados. Segundo esta visão, conseguir um autêntico avanço de nossos alunos, o que o uso dos testes nas escolas pode ser algo extremamente precisamos é detectar as causas pelas quais eles não aprendem prejudicial, pois pode determinar atitudes do professor ou de e tentar solucioná-las. Em alguns casos talvez não haja solução outros adultos que se transformariam em realidade devido a porque o aluno não seria capaz de aprender aquilo que lhe é que consideram os resultados como autêntica expressão da ensinado mas essa é uma situação excepcional e, na maioria inteligência de um aluno. das vezes, os atrasos devem-se a defeitos na maneira de ensinar ou nas relações em classe ou em casa. Ter consciência De qualquer maneira, a função do psicólogo numa escola disso é um primeiro passo para encontrar a solução. pode e deve ser muito importante, independentemente dos testes. Ao longo de todo este livro, tentamos mostrar a OS PSICOLOGOS NA ESCOLA E OS TESTES necessidade de conhecer o desenvolvimento psicológico do aluno e adequar ao mesmo o ensino, a fim de que este seja Os testes de inteligência estiveram ligados, na sua origem, eficaz. Para realizar essa tarefa, para planejar e desenvolver o a problemas escolares. O criador dos primeiros testes de trabalho em aula, o psicólogo pode ser um excelente apoio inteligência que respondiam a necessidades práticas, o para o professor. Este deve conhecer o desenvolvimento da psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911), tinha como criança, mas não tem por que ser um especialista. O psicólogo objetivo elaborar um instrumento de diagnóstico que pode ajudá-lo em sua tarefa, mas, para isso, precisa trabalhar permitisse determinar se uma criança estava adiantada ou dentro da escola em intima cooperação com os professores. atrasada em relação às de sua idade, sem analisar se o seu Isto requer uma grande modificação na função do psicólogo atraso era adquirido ou devido a causas congênitas. Binet não escolar. Não será uma pessoa que vem de vez em quando considerava, absolutamente, que os resultados no teste examinar as crianças, diagnosticar as que apresentam algum fossem fixos e não pudessem ser modificados. O que ele tipo de problema, nem será a pessoa à qual são encaminhados pretendia era, justamente, determinar o nível em que se os alunos difíceis; essa será, em todo caso, uma tarefa encontrava um aluno para, caso não fosse suficiente, contribuir excepcional. Tampouco será aquele que diz ao aluno o que ele para o seu progresso. tem que ser ou quais são suas tendências, servindo como orientador. Cada vez está sendo mais debatida essa idéia da Entretanto, o desenvolvimento posterior dos testes de orientação, pois sabe-se que serve para pouco. Sua tarefa inteligência, principalmente nos Estados Um dos, levou a principal dentro da escola será a de planejar atividades, pensar que os testes medem realmente a inteligência e que analisar o rendimento dos alunos, mas não de cada aluno, ou esta é algo fixo que acompanha o sujeito ao longo da sua vida. de um aluno, e sim de todos, pois o que é preciso avaliar é o Diante disto é preciso dizer que as pontuações dos testes método de trabalho. O psicólogo deve visitar a sala de aula e indicam muito pouco sobre a inteligência da criança e, não trabalhar em uma gabinete isolado. Só excepcionalmente principalmente, sobre o seu futuro. Os testes estão mais se ocupará dos alunos com problemas, pois o que ele tem que relacionados com o rendimento escolar, considerado nesse fazer é contribuir para que esses alunos não existam, sentido limitado de obter resultados facilmente visíveis mas planejando junto com os professores as condições e o pouco indicativos do desenvolvimento intelectual real da ambiente adequado de trabalho, tanto do ponto de vista criança. intelectual como social. Na verdade, a utilização de testes na escola é muito mais Para realizar essas tarefas de planejamento e profilaxia, prejudicial do que benéfica devido à forma como são aplicados deveria haver psicólogos nas escolas, nos centros de ensino e e à utilização que se faz deles. Freqüentemente os testes são nos centros de atualização de professores. Mas, naturalmente, mal aplicados, por pessoas não qualificadas, de forma coletiva deveriam ser psicólogos com uma formação diferente daquela e com poucos cuidados. As pessoas que analisam os resultados que possuem muitos deles mais inclinados a realizar não sabem como devem ser interpretados. Mesmo tomando diagnósticos ou a considerar o aluno como um paciente. todas as precauções e aplicado por um especialista, um teste não é nada além de mais um elemento dentro de um PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO diagnóstico, que deve ser complementado com outras provas e com entrevistas. A utilização dos testes nas escolas deveria 7
  8. 8. A Psicologia da Educação procura utilizar os princípios as crianças, do ponto de vista do indivíduo e do grupo. informações que as pesquisas psicológicas oferecem acerca do Professores que mantêm relações agradáveis com os alunos, comportamento humano, para tomar mais eficiente o processo que preferem atitudes democráticas e cooperadoras, que são ensino-aprendizagem. delicados e pacientes, têm muito mais probabilidades de serem bem sucedidos em seu trabalho educativo. A contribuição da Psicologia da Educação abrange dois aspectos fundamentais: Outro aspecto importante do papel do professor refere-se a)Compreensão do aluno. Compreensão de suas á sua participação em atividades escolares extraclasse. Essas necessidades, suas características individuais e seu atividades são responsáveis por grande parte da aprendizagem desenvolvimento, nos aspectos físico, emocional, intelectual e dos alunos: é no recreio, em promoções culturais, artísticas, social. O aluno não é um ser ideal, abstrato. É uma pessoa sociais e esportivas que os alunos aprendem a convivência concreta, com preocupações e problemas, defeitos e social, o gosto pela cultura e pela arte e a prática de esportes, qualidades. E um ser em formação, que precisa ser tão salutares para seu desenvolvimento. O professor deveria compreendido pelo professor e pelos demais profissionais da participar dessas atividades que contribuem para uma melhor escola, a fim de que tenha condições de desenvolver-se de aprendizagem das matérias escolares. Essa participação forma harmoniosa e equilibrada. proporcionaria ao professor oportunidades ótimas de conhecer b) Compreensão do processo ensino-aprendizagem,. melhor seus alunos. Para o professor, não é suficiente conhecer o aluno. E É sabido que o relacionamento fora da sala de aula, em necessário que ele saiba como funciona o processo de atividades extraclasse, costuma ser muito mais natural e aprendizagem, quais os fatores que facilitam ou prejudicam a espontâneo e, portanto, muito mais rico para o aprendizagem, como o aluno pode aprender de maneira mais desenvolvimento integral de alunos e professores. eficiente, além de outros aspectos ligados á situação de aprendizagem, envolvendo o aluno, o professor e a sala de A participação do professor em atividades da comunidade aula. onde se situa a escola também é importante para que ele conheça os resultados de seu trabalho e possa orientar as Na verdade, além desses dois aspectos existe outro, de tarefas escolares de acordo com as necessidades e aspirações fundamental importância para que o professor consiga realizar reais da população. Muitas vezes a escola permanece isolada satisfatoriamente seu trabalho: a compreensão do papel de da comunidade, quando deveria estar a seu serviço, atendendo professor. aos pais e a outros moradores da comunidade, como centro de encontros, reuniões, cursos e promoções artísticas, culturais, 1- Compreensão do papel do professor esportivas, etc. Além dos aspectos relacionados com os vários papéis que o professor desempenha junto aos alunos e à A idéia que fazemos de escola quase sempre inclui o comunidade, convém chamar a atenção para a própria seguinte quadro: um professor tentando ensinar alguma coisa realização do professor. Para o sucesso do trabalho educativo, a uma turma de alunos. Na verdade, o professor também é importante que o professor goste do que faz, acredite que aprende enquanto ensina, e o aluno, enquanto aprende, está alcançando os resultados esperados e se sinta satisfeito e também ensina. Se o professor precisa conhecer a si mesmo realizado. Um professor frustrado é um fator de frustração para poder conhecer os alunos, a abertura ao que os alunos para os alunos. Sabe-se que uma atitude positiva do professor podem ensinar-lhe é um dos passos para esse em relação á matéria, aos alunos e a seu próprio trabalho é de autoconhecimento. fundamental importância para a eficiência da aprendizagem O professor não é o senhor absoluto, dono da verdade e por parte dos alunos. dono dos alunos, que manipula a seu bel-prazer. Os alunos são pessoas humanas, tanto quanto ele, e seu desenvolvimento e Na medida em que se sente realizado, o professor tem sua liberdade de manifestação precisam ser respeitados pelo interesse em evoluir constantemente, em procurar dedicar-se professor. Na medida em que isso acontecer, o professor efetivamente a seu trabalho. Quanto mais o professor se chegará á conclusão de que não é apenas uma maquininha de aperfeiçoa, tanto mais alcança sucesso em seu trabalho, e ensinar ou um gravador ou qualquer outro aparelho. Como os quanto mais se vê bem sucedido, tanto mais procura alunos, ele também é uma pessoa e relaciona-se com eles de aperfeiçoar-se e desenvolver-se. forma global, e não apenas como instrutor ou transmissor de ordens e conhecimentos. É evidente que a realização do professor, enquanto instrutor, orientador e exemplo, enquanto participante das Enquanto pessoa humana adulta, o professor costuma ser atividades de seus alunos e da comunidade, depende também considerado um exemplo para os alunos. Quase sempre sem das condições objetivas de trabalho. Se o professor ganha ter consciência exata disso, o professor transmite a seus alunos pouco e seu dinheiro não dá nem para comprar um livro ou ir a atitudes positivas ou negativas em relação ao estudo e aos um teatro; se é obrigado a trabalhar em várias escolas para colegas, transmite seus preconceitos, suas crenças, seus sobreviver; se a escola não lhe fornece os recursos necessários valores, etc. O aluno ás vezes aprende muito mais com o que o a seu trabalho educativo, dificilmente ele poderá contribuir professor faz ou deixa de fazer, do que com aquilo que o para a realização dos alunos. Nessas condições, será um herói professor diz. É importante que o professor tenha consciência aquele que conseguir aperfeiçoar-se constantemente e de que além de mero transmissor de conhecimentos, ele é realizar-se. mais um dos exemplos adultos que os alunos em desenvolvimento poderão vir a imitar. A população e os professores devem trabalhar para que os poderes públicos tomem consciência da importância da Ao menos em relação a crianças, certas pesquisas têm educação para o país e canalizem para o setor os recursos demonstrado que o conhecimento da matéria e a eficiência do necessários. ensino não são as características mais valorizadas pelos alunos. Mais importante é o relacionamento do professor com as 2- Compreensão do aluno 8
  9. 9. A Psicologia da Educação é indispensável para que o 3- Compreensão do processo ensino-aprendizagem professor tenha condições de compreender seus alunos e desenvolver um trabalho mais eficiente. Entre os professores, muitas idéias falsas sobre o processo educativo já estão sendo substituídas por outras. Hoje em dia Não é a mesma coisa trabalhar com crianças de quatro sabe-se que não basta punir ou recompensar o aluno para que anos, com crianças de dez anos ou com adolescentes. O aluno ele aprenda; que despejar conhecimentos sobre os alunos não está em formação, em desenvolvimento. E em cada uma das é o mais importante; que apenas falar a matéria na aula é etapas desse desenvolvimento tem características diferentes, insuficiente; que não basta que o aluno memorize os necessidades diferentes, maneiras diferentes de entender as conhecimentos para que os utilize na prática; que não adianta coisas. Daí a importância que tem para o professar o criar uma situação agradável na sala de aula, se o aluno não conhecimento integral do aluno, em seus aspectos físico, está interessado em aprender, etc. emocional, intelectual e social. A aprendizagem ocorre sob a ação de inúmeros fatores, A escola geralmente dá mais importância ao que a Psicologia da Educação procura estudar e explicar. As desenvolvimento intelectual do que aos outros aspectos. Mas, vezes, o aluno não aprende por razões simples, como, por principalmente em regiões desfavorecidas, cabe á escola suprir exemplo, o fato de ter ficado retido em casa por causa da as deficiências da comunidade e contribuir para o chuva, ou o fato de os pais não darem muita importância à desenvolvimento físico, emocional e social dos alunos. Isso é escola, e assim por diante. importante na medida em que o desenvolvimento humano se faz de forma integral e global, envolvendo todos os aspectos. O Por tudo isso é muito importante que o professor estude as desenvolvimento intelectual poderá ser prejudicado, se não principais questões analisadas pela Psicologia da Educação: houver o desenvolvimento concomitante dos outros aspectos. Como deve ser a interação entre professores e alunos para Além dos conhecimentos ligados ao desenvolvimento que a aprendizagem seja mais eficiente? afetivo e intelectual dos alunos, a Psicologia da Educação pode ajudar o professor a compreender os alunos em suas relações O que é aprendizagem? Quais os fatores que facilitam a com a família, com os amigos, com a escola, com a aprendizagem? comunidade, etc. No decorrer de sua vida diária, o aluno sofre uma série de influências que vão ter repercussões, negativas Como fazer com que os alunos estejam motivados para ou positivas, em seu trabalho escolar. Se essas influências aprender e se interessem pela matéria a ser estudada? estão em concordância com a direção imprimida ao trabalho escolar, podem ser benéficas para a aprendizagem. Como fazer para tornar a matéria e o seu ensino mais criativos, mais dinâmicos e menos monótonos? Em alguns casos, verifica-se que a família e a escola orientam a criança em sentidos diferentes, ou que os valores Qual a importância da liberdade para a aprendizagem? dos amigos e os da escola sejam valores divergentes. Haverá, então, conflitos, e a criança poderá ser prejudicada em seu Por que os alunos esquecem a maior parte do que trabalho escolar. estudam? Conflitos podem nascer também das diferenças de classes Como não esquecer o que aprendemos? sociais. Quais os fatores que prejudicam a aprendizagem? Muitos alunos já chegam à escola familiarizados com o material escolar mais comum - lápis, borracha, régua, caderno, O que significa avaliar a aprendizagem? livro -, enquanto outros nunca usaram esse material em sua vida. Muitos alunos chegam imbuídos de valores como ordem, Como avaliar o que foi aprendido? limpeza, higiene, trabalho persistente, etc., ao passo que outros não estão acostumados a dar importância a tais valores. A todas essas questões e a muitas outras a Psicologia da O que acontece, então? Educação procura responder. Entretanto, é preciso que se tenha sempre em mente o seguinte: cada situação é diferente, Na medida em que o professor é oriundo de uma cada caso é um caso. A Psicologia da Educação não fornece determinada classe social, pode não levar em consideração tais receitas prontas, que o professor possa aplicar diferenças e apresentar dois comportamentos negativos para a automaticamente. Diante de cada situação, o professor deve aprendizagem: analisar e estudar todos os aspectos e, somente então, ver qual o procedimento indicado para o caso. As informações 1) desconhecer que o não-aproveitamento dos alunos sobre o comportamento oferecidas pela Psicologia podem pode ser conseqüência da inadaptação á própria escola; ajudar o trabalho do professor. 2) tentar impor seus próprios valores de classe a todos os 4- Objetivos do curso de Psicologia da Educação alunos, desrespeitando a realidade de cada um. Objetivos no campo da compreensão: Como se vê, o trabalho educativo não é tão simples quanto se possa imaginar. Embora o conhecimento de Psicologia da 1. Compreensão do comportamento humano, incluindo- Educação não seja garantia de bom ensino, pode ajudar o se o do professor, como condição para a compreensão do professor a desempenhar suas funções de maneira mais comportamento dos alunos. satisfatória para ele e para os alunos 9
  10. 10. 2. Compreensão dos princípios da Psicologia da Educação, não como regras a serem memorizadas, mas como meios a Sabe-se também que não se pode mais conceituar o serem utilizados para lidar mais corretamente com os alunos. ensino, apenas como transmissão de conhecimentos e informações nas várias áreas da vida. Hoje, sabe-se, é 3. Compreensão dos vários aspectos do crescimento e muitíssimo importante que se forme o educando para a vida e desenvolvimento e de suas inter-relações. que as informações estão embutidas no todo maior da formação. 4. Compreensão do vocabulário utilizado em Psicologia da Educação. Atualmente é, muito difundida a crença de que a educação escolar é o meio mais eficaz para se galgar a escala social. Objetivos no campo das habilidades: Aquele que conseguir ingressar nas escolas, superando as dificuldades e lograr concluir seus estudos certamente, terá 1. Capacidade para utilizar os conhecimentos de melhoria em sua posição social. Nos países chamados desen- Psicologia da Educação no trabalho escolar. volvidos observa-se uma política governamental voltada para este objetivo. O ideal de uma escola pública, universal e 2. Capacidade para compreender os alunos, suas gratuita é perseguido, ainda hoje, em todos os países em fase necessidades e aspirações. de desenvolvimento, entre eles o Brasil. 3. Capacidade para manter na sala de aula uma situação Sabe-se que em nossos dias ainda existem inúmeros favorável á realização do professor e dos alunos. brasileiros que carregam o estigma de analfabetos, sem contar com milhões de crianças na faixa-etária escolar sem condições 4. Capacidade para motivar os alunos no sentido do mínimas de, sequer, serem alfabetizados. aproveitamento das oportunidades que a escola oferece para o seu desenvolvimento integral. Formando um contingente bastante grande estão aqueles que passaram pela escola e apenas conseguiram acumular 5. Capacidade para ler textos sobre o assunto e fracasso. aperfeiçoar-se constantemente, melhorando seu trabalho A repetência nas primeiras séries do ensino fundamental é educativo. ainda um fator que preocupa as autoridades e que apesar das tentativas não foi encontrada a solução. Objetivos no campo das atitudes: Paralelamente a estes estão os que buscam na escola 1. Respeito ás crianças em geral e a cada uma em apenas a possibilidade de receber alimentação. particular, sem deixar-se influenciar por preconceitos e Pelo exposto, não causa surpresa o número cada vez maior avaliações alheias a respeito de suas capacidades. de evadidos nas primeiras séries do ensino fundamental. 2. Senso de responsabilidade em relação ao Sabem os educadores que muitas são as causas da situação desenvolvimento global dos alunos. atual da Educação no Brasil. Impossível seria resolvê-las com fórmulas milagrosas, mas não se pode estagnar e ficar 3. Consciência da importância do professor como aguardando novos dias melhores. Eles chegarão, certamente, exemplo a ser imitado pelos alunos. se todos colaborarem formando um verdadeiro bloco onde a comissão de frente estaria integrada por autoridades 4. Convicção de que o aluno está em primeiro lugar e o educacionais e docentes de todos os níveis. centro de todo o processo ensino-aprendizagem. ENSINO INDIVIDUALIZADO E SOCIALIZADO 5. Interesse constante pelo próprio trabalho profissional. ASPECTOS SOCIOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO ENSINO POR SOLUÇÃO DE PROBLEMA INVESTIGAÇÃO E MATERIAL CONCRETO ENSINO, ESCOLA E SOCIEDADE Uma questão metodológica: novo modo de fazer a O ensino voltado para as novas gerações é um trabalho educação. complexo e sutil de engenharia humana pois é o inicio de um processo (ensino-aprendizagem) que busca desenvolver e Há, no interior da escola, uma relação básica, fundamental, formar o caráter, a inteligência e a personalidade das novas sobre a qual devemos, tecer a algumas considerações. Trata-se gerações de modo a integrá-las na conjuntura da vida social da relação educador/educando, e das relações sociais dela como fator positivo de bem-estar, de produtividade e de decorrentes, como a primeira a existir no âmbito da atividade melhoria no progresso humano. educacional. E essa a relação que deve determinar as demais Não mais se pode partir do pressuposto de que basta a no interior da escola, que vão desde a existência do serviço intenção de se ensina r para que a aprendizagem seja atingida. especializado na escola (orientação, supervisão) até aos Compreende-se que no processo ensino-aprendizagem, não é serviços administrativos e de apoio. Queremos dizer que tudo suficiente que haja uma intenção, um planejamento, uma o que a escola faz parte daquela relação fundamental. Essa é quantidade de bom material auxiliar e etc, para que esse uma reorientação para o próprio planejamento educacional, ensino seja efetivado. Todos os fatores apresentados são que deve tomar a escola como referência e como ponto de importantes, mas não garantem a efetiva aprendizagem. Só se partida, fugindo da concepção de planejamento como poderá dizer que houve ensino se, em verdade, ocorrer a sustentáculo do aparelho escolar. Considerar, ainda, aprendizagem. fundamental a relação educador/educando é reconhecer que a 10
  11. 11. escola deve ser a detentora da direção moral e intelectual do na medida em que concorrem para tornar explícita as processo educativo. tendências, isto é, as concepções de Filosofia da Educação. O destino desse processo é o aluno e, por extensão, a Tendo em vista o objetivo deste trabalho das diferentes chamada “comunidade social” - logo, deve existir uma concepções de Filosofia da educação, classificação essa que articulação dinâmica entre a escola e a totalidade das pessoas funcionaria como referencia teórica orientador das que convivem e que são atendidas nessa escola. Por investigações a serem processadas e, ao mesmo tempo, teria a conseguinte, a passagem do conteúdo educativo para o sujeito sua validade submetida a teste no decorrer das investigações. ao qual se destina não pode ser arbitrária e autoritária, nem à O resultado foi o grupamento das diferentes correntes em base do “laissez-faire”, nem, de maneira desconectada e quatro concepções fundamentais de Filosofia da Educação: desorganizada - há do se ter direção, condução, proposta, A passagem dirigida do conteúdo educativo tem, no caso, a)Concepção “humanista” tradicional; significado definido: o processo educativo tem um objetivo a b) Concepção “humanista” moderna; alcançar e, para isso, exige que os educadores tenham um c) Concepção analítica; claro conhecimento da realidade para a qual se educa. Se a d) Concepção dialética. escola detém a liderança do processo educacional, ela tem de O segundo passo consistiu no levantamento do “material ter clareza sobre a realidade para a qual está educando. empírico” (literatura educacional). Tomando como ponto de partida a situação atual, considerou-se necessário levar em Essa exigência parece óbvia mas, na verdade, vem sendo conta as obras em circulação no Brasil no momento presente. ignorada nas atividades educativas, O professor de Ciências Para tanto, foram utilizados como instrumento os catálogos julga que não precisa conhecer a realidade social; o professor atualizados das Editoras, referentes ao ano de 1977. Como, de Educação Física atribui esse conhecimento ao professor de porém, as dissertações/teses na sua maioria não são história, e assim por diante. Essa situação é uma decorrência publicadas podendo, entretanto, constituir-se num indicador da divisão do próprio trabalho educativo, onde o professor de significativo da produção da literatura educacional e, Matemática ignora a proposta dos conteúdos de Língua consequentemente, das tendências e correntes em vigência na Portuguesa que estão sendo ensinados, e os professores educação brasileira, decidiu-se efetuar o levantamento acabam por exigir dos meninos o que eles mesmos não sabem também das dissertações/teses apresentadas nos Programas e não conhecem. Isso concorre para o estabelecimento de de Pós-Graduação em Educação até dezembro de 1977. exigências acima daquilo a que o aluno pode responder, porque o educador desconhece, sobretudo, a própria realidade Os resultados obtidos, quando confrontados, à luz do inerente dos alunos. Como decorrência dessa última situação, referencial teórico adotado, com estudos preliminares de temos instituições formadoras de professores preparando-os História da Educação Brasileira no que toca ao período para trabalhar numa escola que não existe, como alunos cuja posterior a 1930, sugeriam que o período compreendido entre realidade desconhecem - a de alunas mal alimentadas, 1930 e 1960 caracterizou-se pelo predomínio da concepção marginalizados da cultura, de escolas sem biblioteca, mal humanista com progressivo avanço da versão tradicional. No instaladas, de alunos incapazes de fazer uma pesquisa escolar período posterior a 1960 a concepção humanista começa a porque sua família não possui os mínimos elementos materiais ceder lugar à tendência tecnicista (concepção analítica) que vai e intelectuais aplicáveis a esse trabalho. Ocorre, desta forma, a se tornar nitidamente predominante especialmente a partir de multiplicação de processos educativos dissociados das 1969. condições reais e objetivas dos educandos. A realidade com a qual convive o educando não tem nada a ver com a proposta Julgou-se, então, necessário complementar os dados já educativa que envolve. O ponto mais importante a assinalar, levantados a fim de contar com elementos mais precisos no creio, é o da definição de uma pedagogia que deveria ser sentido de testar a validade do esquema de análise utilizado. desenvolvida para o nosso contexto social - e o primeiro passo Decidiu-se, assim, tomar como pontos de referência o ano de para isso é o conhecimento da realidade. 1960, situado em plena fase de predomínio da concepção humanista, e o ano de 1974, em plena fase de predomínio de tendência tecnicista, e efetuar o levantamento dos trabalhos, a ASPECTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO partir da Bibliografia Brasileira de Educação. Encerrada a fase de levantamento de dados, estávamos diante e 1.479 estudos Neste trabalho pretende-se evidenciar as correntes e assim distribuídos: tendências da educação brasileira enquanto expressão da Filosofia da Educação, entendida esta como tomada de posição Obras listadas a partir dos catálogos de Editoras=421 explícita, portanto, sistematizada, sobre a problemática educacional. Em conseqüência, para efeito deste estudo, Estudos relacionados a partir da B.B.E., 1960 =249 consideramos “tendências” determinadas orientações gerais à luz das quais e no seio das quais se desenvolvem determinadas Estudos relacionados a partir da B.B.E., 1974 =163 orientações especificas, subsumidas pelo termo ‘corrente”. Dissertações / teses = 646 Assim sendo, nos inclinamos a identificar as “tendências” com as concepções de Filosofia da Educação. Dessa forma, esta Total =1.479 pesquisa, versando sobre “Filosofia da Educação Brasileira” visa a detectar as tendências, isto é, as concepções de Filosofia Esse conjunto de dados foi organizado em fichas e da Educação â luz das quais e sob cuja inspiração se classificado de modo a se separar, primeiramente, os trabalhos desenvolvem as diferentes correntes da educação brasileira. de autores estrangeiros daqueles de autores nacionais. Os Não é, pois, nosso propósito fazer um levantamento e estudos de autores nacionais, por sua vez, foram distribuídos exposição sistemáticos das correntes. Nossa atenção se em dois grupos: textos da áreas básicas (Psicologia, Sociologia, concentrará nas tendências. As correntes serão mencionadas Fisiologia, História, Economia); e textos das áreas aplicadas 11
  12. 12. (metodologia do Ensino, Didática, Estrutura e Funcionamento À guisa de ilustração, mencionamos alguns autores que, a do Ensino, Currículo, Avaliação, Tecnologia Educacional, etc.). nosso ver, incidiram no risco acima referido. Brubacher, no capítulo intitulado “Filosofias Sistemáticas de Educação”, O terceiro passo se caracterizou pela seleção, análise e analisa as seguintes correntes: “naturalismo pragmático”, interpretação do material levantado. Cabe frisar que esta “reconstrucionismo”, “naturalismo romântico”, etapa limitou-se aos textos de autores nacionais das áreas “existencialismo”, “análise lingüística”, “idealismo”, “realismo”, básicas, como ênfase especial na área de Filosofia da Educação. “humanismo racional”, realismo escolástico”, “ fascismo”, “comunismo” e “democrata”. Cunningham, por sua vez, Finalmente, o quarto passo é constituído pela exposição identifica as seguintes correntes: “idealismo”, “materialismo”, dos resultados, que forma o corpo do presente texto. Tal “humanismo” e “supernaturalismo”. exposição será feita em duas partes: Já Kneller distingue entre o pensamento dos filósofos sobre a)explicitação do quadro teórico; educação, indicando cinco correntes: “idealismo”, “realismo”, b) análise das tendências e correntes da educação “pragmatismo”, “existencialismo” e “análise”, e o pensamento brasileira na perspectiva da Filosofia da Educação. dos educadores, identificando neste caso, quatro correntes: “progressismo”, “perenalismo”, “essencialismo” e Nas conclusões serão feitas algumas considerações sobre o “reconstrutivismo”. Ozmon apresenta classificação modo como as diferentes tendências se interpenetram, semelhante. Indica cinco “correntes de filosofia”: idealismo, cruzando a prática pedagógica no atual contexto brasileiro. realismo, pragmatismo, existencialismo e behaviorismo, às quais correspondem, respectivamente, as seguintes “filosofias educacionais”: perenalismo, essencialismo, progressismo e O QUADRO TEÓRICO recosntrucionismo, existencialismo e planejamento de comportamento. Nota-se, nas classificações apresentadas, o Analisar as correntes e tendências da educação brasileira é tratamento “autônomo” conferido às idéias filosóficas e uma tarefa que pode ser encetada de múltiplas maneiras. No pedagógicas. caso deste estudo já há, é certo, uma delimitação preliminar; trata-se de uma tarefa a ser cumprida segundo uma Decorre daí o caráter até certo ponto arbitrário das perspectiva determinada: a perspectiva da Filosofia da referidas classificações. De passagem, observamos que a Educação. dificuldade decorre da própria concepção assumida pêlos autores citados. Entretanto, o que se deve entender por “filosofia da Mais adiante veremos que a exigência de articulação com o educação”? Em que medida ela poderá nos oferecer um contexto histórico-concreto é inerente á concepção dialética, o referencial seguro para a análise que pretendemos mesmo não ocorrendo com as demais concepções. desenvolver? Para evitar o risco acima apontado, vamos esboçar um Por trás das muitas acepções que pode assumir a quadro sistemático que, no entanto, mantenha articulação expressão “filosofia da educação”, podemos identificar dois com o processo concreto, isto é, com a atividade educacional sentidos fundamentais: a) a filosofia da educação como tal como ela vem se manifestando no seio da organização processo; b) a filosofia da educação como produto. Em outro social em que vivemos. trabalho, procurando enfatizar o caráter de processo, conceituamos a filosofia da educação como uma “reflexão Por razões didáticas, apresentaremos, primeiramente, a (radical, rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a classificação a que chegamos das diferentes concepções de realidade educacional apresenta”. E evitamos utilizar o termo filosofia da educação, destacando apenas os seus traços “filosofia” para designar o produto, empregando, neste caso, o distintivos. Em seguida será indicado o modo como elas se termo “ideologia”, entendido, porém, no sentido mais amplo articulam com a organização educacional historicamente d& “orientação da ação” e não com o significado de “falsa considerada. consciência”. Entretanto, chamávamos atenção para o fato de que os dois significados de filosofia da educação (processo e Após o estudo das diversas correntes e o exame da produto) estão intimamente relacionados, só sendo evolução da organização escolar desde meados do século distinguíveis por um ato de abstração. passado quando a sociedade atual adquire contornos definidos com a consolidação do poder burguês, chegamos às conclusões Neste texto, sem perder a vista a intima relação entre os que, resumidamente, passamos a expor. dois aspectos, a ênfase será posta no produto, isto é, a filosofia da educação será encarada enquanto concepção Em grandes linhas, seriam as seguintes as concepções razoavelmente articulada á luz da qual se interpreta e/ou se fundamentais de Filosofia da Educação: busca imprimir determinado rumo ao processo educativo. 1- Concepção “humanista” tradicional; Existem, pois, diferentes concepções de filosofia da 2- Concepção “humanista” moderna; educação. Como identificá-las e classificá-las? Aqui corre-se o 3- Concepção analítica; risco de se perder num emaranhado de concepções, 4- Concepção dialética. identificando-se tantas quantos são os filósofos e pedagogos que se conseguir enumerar. Tal risco está particularmente 1) A concepção “humanista”, seja na versão tradicional, presente dada e tendência a se considerar a filosofia da seja na versão moderna, engloba um conjunto bastante educação á margem do desenvolvimento do processo grandes de correntes que têm em comum o fato de derivarem educativo no contexto histórico-concreto. a compreensão da educação de uma determinada visão de homem. Segundo essas duas tendências, a Filosofia da Educação é algo sempre tributário de determinado “sistema 12

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