Resumo bom filosofia
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Resumo bom filosofia Resumo bom filosofia Document Transcript

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS/CCSH GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO II PROFA. DR. ELISETE M. TOMAZETTI ELABORAÇÃO DE ATIVIDADES DE FILOSOFIA ATIVIDADES DE INTRODUÇÃO À FILOSOFIA E FILOSOFIA POLÍTICAACADÊMICOS: Ariana, Camila, Lisiane, Mateus, Rafael A. e Tânia. Santa Maria, RS, Brasil 2009
  • 1. INTRODUÇÃO À FILOSOFIA1.1 O QUE É FILOSOFIA?Etimologia - origem da palavra: Philia = amizade Sophia = sabedoria, conhecimento. “Nós, [homem comum] que vivemos aqui, somos os bichinhos microscópicos quevivem na base dos pêlos do coelho. Mas os filósofos tentam subir da base para a ponta dosfinos pêlos, a fim de poder olhar bem dentro dos olhos do grande mágico.” A partir da citação acima, escreva o que você compreendeu sobre a diferença entre o“homem comum” e o filósofo. No livro O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder expõe uma situação figurativa paraexplicar o que é ser filósofo e o que o diferencia do “homem comum”. Para tanto, ele nos tráso exemplo de um mágico que retira de sua cartola um coelho que simboliza o mundo. Nos pêlos desse coelho existem “bichinhos microscópicos”, alguns residem na basedos pêlos, são os homens comuns, ou seja, pessoas que estão costumadas com o mundo emque vivem, estão na escuridão da base dos pêlos, não se perguntam sobre o mundo e estãoacomodadas no conforto da pelagem do coelho, aceitando, assim, as coisas como são. Elasnão se questionam, portanto, por que as coisas não são diferentes do que se apresentam a elas,tendo como verdades, principalmente, o que vêem e o que ouvem. O filósofo, por sua vez, sobe da base para as pontas dos pêlos do coelho em busca dailuminação do conhecimento que lhe permite questionar o mundo em que vive, ou seja, afilosofia existe para fazer questionamento que os “homens comuns” não fazem. 2
  • Perguntas do “Homem comum” Perguntas do Filósofo Que horas são? O que é o tempo? Ele está sonhando. O que é sonho? Maria ficou maluca. O que é a loucura? Onde há fumaça, há fogo. O que é causa? O que é efeito? As flores são bonitas. O que é o belo? Você é um mentiroso! O que é a verdade? O que é o erro? O que é a mentira? Fazer perguntas como as citadas a cima diz respeito à atitude da filosofia. Com estasperguntas ela quer investigar conceitos, abordando-os de forma crítica e reflexiva. OBSERVAÇÃO: fazer perguntas filosóficas NÃO é função exclusiva de quem temgraduação em filosofia, qualquer pessoa pode filosofar, porém, nem tudo é filosofia. Um dospassos para nos tornarmos filósofos é começar ver o mundo de outra forma, ou seja, nãoapenas fazer afirmações, mas ir além, fazendo destas afirmações verdadeiros questionamentosfilosóficos. EXERCÍCIO: Partindo do que você compreendeu e da reportagem abaixo, encontrepossíveis perguntas filosóficas: 3
  • 1.2 DEFINIÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE FILOSOFIA Muitos filósofos definiram o que é filosofia. Vejamos alguns: “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”. Merleau - Ponty. “A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento de nossa inteligência por meio da linguagem” Ludwig Wittgenstein. “Não devemos fingir fazer filosofia, e sim realmente faze-la; pois precisamos não da aparência de saúde, mas de saúde verdadeira”. Epicuro. “Não se aprende filosofia, mas a filosofar” Kant. “A tarefa da filosofia é entender o que é, pois o que é é a razão”. Hegel. “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo”. Karl Marx.REFLITA: Baseado no que já foi dito em aula e nas definições citadas acima: O que éfilosofia? O que não é filosofia? Para que serve a filosofia?  cartaz. (o que é filosofia, o que não é filosofia, conceitos que podem ser explicados pela filosofia). 4
  • TRABALHO EM GRUPO: Distribuir a cada grupo um quebra-cabeça de figuras. Deixar com que os grupos sedivirtam e tentem montar o quebra-cabeça. Posteriormente, o professor em conjunto com aturma, monta a figura do quebra-cabeça de forma desordenada e expõe para a turma , natentativa que identifiquem a figura. Notando a desordem, os grupos deverão organizar oquebra-cabeça e apresentar novamente à turma, que deverá identificar a figura formada. Após isso, discutir em conjunto, quais foram as dificuldades inicialmente emidentificar a figura montada. Questionar os alunos porque os homens têm dificuldade emcompreender as coisas, quando estas não estão dentro de certa ordem? No que a filosofia viriaajudar neste casos? Qual o papel da filosofia para o pensamento humano? Posteriormente a discussão, solicitar que os grupos criem um texto explicando eargumentando qual a importância da ordem do nosso pensamento.1.3 O QUE NÃO É FILOSOFIA?A) Filosofia X Mito. Para explicar a diferença entre filosofia e mito é preciso ter clareza do que seja o mito.Mito é uma narrativa fantástica sobre a origem de alguma coisa, ele é ausente de ciência, ouseja, um mito não depende de comprovações de hipóteses, mas depende da confiança entrequem conta-o e quem o ouve. O mito é, portanto, incontestável e inquestionável.O MITO GREGO SOBRE A ORIGEM DO MAL: A CAIXA DE PANDORA Hefesto fez uma mulher belíssima chamada Pandora e a apresentou a Zeus antes de eladescer à superfície da Terra. Zeus, admirado com a obra de Hefesto, despachou Pandorapara a Terra, mas antes lhe deu uma grande e belíssima caixa de marfim ornamentadafechada e também lhe deu a chave, dizendo-lhe: “Quando você se casar, ofereça esta caixacomo dote ao seu marido, mas a caixa só pode ser aberta após seu casamento”. Em pouco tempo, Pandora conheceu Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu e logose casaram. Epimeteu viajava constantemente e, certa vez, ficou muito tempo longe de casa.Pandora sentia-se só e triste. Lembrou-se da caixa e foi até o canto onde estava guardada 5
  • examiná-la curiosamente. Enquanto observava os lindos detalhes e adornos externos,Pandora pareceu ouvir pequenas vozes gritando lá de dentro e dizendo: “Deixe-nos sair! ...Deixe-nos sair...”. Pandora não podia esperar mais. Foi correndo buscar a chave eimediatamente abriu a tampa da caixa. Para sua grande surpresa centenas de pequeninas emonstruosas criaturas, parecendo terríveis insetos, saíram voando lá de dentro, com umzumbido assustador.Logo a nuvem desses insetos cobriu o sol, e o dia ficou escuro e cinzento.Apavorada, Pandora fechou a caixa e sentou-se sobre a tampa. Ela estava tendo toda aespécie de sentimentos e pensamentos sombrios e odiosos que nunca tivera antes. Sentiuraiva de si mesma por ter aberto a caixa. Sentiu uma grande onda de ciúme de Epimeteu.Sentiu-se raivosa e irritada. Percebeu que estava doente de corpo e de alma.Súbito pareceu-lhe ouvir outra voz gritando de dentro da caixa: “Liberte-me! Deixe-me sairdaqui!”. Pandora respondeu rispidamente: “Nunca! Você não sairá ! Já fiz tolice demais emabrir essa caixa!” Mas a voz prosseguiu de dentro da caixa: “Deixe-me sair, Pandora! Só euposso ajudá-la!” Pandora hesitou, mas a voz era tão doce, e ela se sentia tão só e desesperada,queresolveu abrir a caixa. De lá de dentro saiu uma pequena fada, com asinhas verdes eluminosas que clarearam um pouco aquele quarto escuro, aliviando a atmosfera que setornara pesada e opressiva. “Eu sou a Esperança”, disse a fada. E prosseguiu: “Você fezuma coisa terrível, Pandora! Libertou todos os males do mundo: egoísmo, crueldade, inveja,ciúme, ódio, intriga, ambição, desespero, tristeza, violência e todas as outras coisas quecausam miséria e infelicidade. Zeus prendeu todos esses males nessa caixa e deu a você e aseu marido. Ele sabia que você iria, um dia, abrir essa caixa. Essa é a vingança de Zeuscontra Prometeu e todos os homens, por terem roubado o fogo dos deuses! Chorando copiosamente, Pandora disse: “Que coisa terrível eu fiz! Como poderemospegar todos esses males e prendê-los novamente na caixa?” “Você nunca poderá fazer issoPandora!” Respondeu tristemente a fada da Esperança. “Eles já estão todos espalhados pelomundo e não podem mais ser presos!” “Mas há algo que pode ser feito: Zeus enviou-metambém, junto com esses males, para dar esperança aos sofredores, e eu estarei sempre comeles, para lembrar-lhes que seu sofrimento é passageiro e que sempre haverá um novoamanhã !”Conclusão: Portanto, enquanto o mito relata a existência das coisas pela explicaçãofantástica, a filosofia se questiona sobre o que são e como tem origem às coisas que existem.REFLITA: E hoje, após tanto tempo do nascimento da filosofia, nos “livramos” dasexplicações mitológicas? Ou, você lembra-se de algum caso em que, por não saber explicar,relatou ou acreditou em alguma história “suspeita” de ser mitológica?EXERCÍCIOS: Diferenciando mito de filosofia: entregar à turma vários tipos de mitos, para que osalunos façam a leitura dos mesmos. Após este primeiro passo, discutir com os alunos que tipode texto é este, para que serve, quando é utilizado, etc. Deixar os estudantes falarem econtarem outros mitos que eles conheçam. Os alunos podem também colocar a em prática a sua criatividade e criarem mitos, ouseja, inventarem explicações para a criação de coisas e acontecimentos da atualidade. 6
  • TRABALHO EM GRUPO: Pesquisar os mitos subjacentes nas produções culturais, por exemplo, em telenovelas,filmes, propagandas, histórias em quadrinhos, etc. Cada grupo faz um relatório e em seguidaabre-se para a exposição dos temas e debates em sala de aula. Após a apresentação de todosos mitos pesquisados, buscar identificar em cada um deles, as características constitutivas dosmesmos: contam uma história sagrada, relatam um acontecimento ocorrido no tempo, narramas façanhas dos entes sobrenaturais, narram uma realidade que passou a existir, umcomportamento humano, uma instituição. É uma narrativa de criações, relatam de que modoalgo foi produzido e começou a ser, se tornando modelo exemplar de todas as atividadeshumanas significativas.B) Filosofia X Religião. As religiões, assim como o mito, tentem responder por que o Universo e as coisaspresentes nele existem. Porém, diferente dos mitos que são transmitidos levando em contaapenas à confiança existente na relação narrador-ouvinte, a religião utiliza a institucionalizaçãodo sentimento do sagrado, o que implica em rotinas e dogmas, comemorados em rituais,visando rememorar e fixar o acontecimento mítico primordial. Em se tratando da filosofia, podemos dizer que ela diverge da religião quanto aocaminho para se chegar à verdade. Enquanto a filosofia utiliza-se da razão, do pensamentológico (veremos o que é isto mais adiante) para chegar à verdade, a religião acredita chegar aela pelas escrituras e pela revelação baseada na fé. A religião trata de muitas questões que a filosofia também se debruça, mas a primeiraatribui mais valor à fé do que à aplicação das faculdades da razão aceita pela filosofia.C) Filosofia X Ciência. Enquanto a ciência explica as coisas através dos cinco sentidos, começando pelaobservação dos fatos e perpassando por outras fases no intuito de confirmar ou refutarhipóteses, a filosofia vai além das indagações científicas. Ela ultrapassa o ponto em que aciência poderia nos fornecer respostas. Assim, por exemplo, enquanto a pergunta “por que as coisas existem?” é explicada peloscientistas através do Big Bang, a filosofia, neste caso, poderia se perguntar “por que háalguma coisa e não nada?”, e a esta pergunta a ciência não teria resposta.1.4 OS PRINCIPAIS PERIODOS DA FILOSOFIA:Filosofia antiga 1. Período pré-socrático ou cosmológico: A filosofia se ocupa com a(VI a.C. – VI d.C.) origem do mundo e as causas das transformações na Natureza. 2. Período socrático ou antropológico: a filosofia investiga as questões humanas, isto é, a ética, a política, as técnicas. 3. Período sistemático: a filosofia busca reunir e sistematizar tudo que foi pensado sobre cosmologia e antropologia, interessando-se 7
  • em mostrar que tudo pode ser objeto do conhecimento filosófico. 4. este período alcança Roma e os primeiros padres da igreja, a filosofia ocupa-se com as questões da ética, do conhecimento humano, e das relações entre o homem e a natureza e de ambos com Deus.Filosofia patrística A patrística resultou do esforço feito por dois apóstolos: Paulo e(I d.C. – VII d.C.) João e pelos primeiros padres da igreja para conciliar a nova religião – o cristianismo – com o pensamento filosófico dos gregos e romanos. A filosofia patrística liga-se a tarefa religiosa da evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos.Filosofia medieval É o período em que a Igreja Romana dominava a Europa, ungia e(VII d.C. – XIV d.C.) coroava reis, organizava cruzadas à Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. Sendo chamada, a partir do século XII, com o nome de Escolástica. Teve como influencias principais: Platão e Aristóteles. Durante este período surge propriamente a filosofia cristã, a teologia. Um de seus temas mais constantes são as provas da existência de Deus e da alma.Filosofia da É marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas narenascença Idade Média, de novas obras de Aristóteles, bem como pela(XIV d.C. – XVI d.C) recuperação das obras dos grandes autores e artistas gregos e romanos.Filosofia moderna Esse período, conhecido como o grande racionalismo clássico, é(XVII d.C. – VIIId.C.) marcado por três grandes mudanças intelectuais. 1. A filosofia em lugar de começar seu trabalho conhecendo a Natureza e Deus, começa pelo sujeito do conhecimento como consciência de si reflexiva, ou seja, o homem questiona-se sobre sua capacidade de conhecer. 2. Tudo que pode ser conhecido deve poder ser transformado num conceito ou numa idéia clara e distinta, demonstrável e necessária, formulada pelo intelecto. 3. A realidade pode ser conhecida e modificada pelo homem. Nasce a idéia de experimentação e de tecnologia e o ideal de que o homem poderá dominar tecnicamente a Natureza e a sociedade. Obs.: Diferente da Idade Média que concebia o homem como subordinado a uma força superior: Deus, a Idade Moderna, vê o homem como transformador da realidade em que vive.Filosofia do Este período também crê nos poderes da razão, chamado de AsIluminismo Luzes. Aqui há grande interesse pelas ciências que se relacionam(XVIII d.C. – XIX com a idéia de evolução e, por isso, a biologia terá um lugar centrald.C.) no pensamento ilustrado, pertencendo ao campo da filosofia da vida.Filosofiacontemporânea(XIX d.C - ... (hoje) 8
  • 1.5 NASCIMENTO DA FILOSOFIA: A filosofia nasceu na Grécia no final do século VII e início do século VI antes de Cristo. OS PRÉ-SOCRÁTICOS: Os primeiros filósofos que existiram na Grécia queriam descobrir qual era a substânciabásica que estava por trás de todas as transformações, ou seja, queriam entender os fenômenosnaturais. Por isso, ficaram sendo denominados de “filósofos da natureza”. Vejamos alguns:1. TALES DE MILETO: Tales acreditava ser a água o que dava origem a todas as coisas.2. ANAXIMENES: Acreditava ser o ar ou o sopro de ar a substância básica das coisas.3. PARMÊNIDES: acreditava que tudo que existe sempre existiu e que, portanto, nada podesurgir do nada ou se transformar em algo diferente do que é. Assim, dizia que astransformações do mundo que percebemos através dos sentidos é uma ilusão destes. Eleacreditava apenas no que sua razão lhe dizia.4. HERÁCLITO: Ao contrário de Parmênides, ele acreditava nos sentidos e dizia que tudoestá em movimento e nada dura pra sempre. Assim, ele dizia que “não podemos entrar duasvezes no mesmo rio”, pois tanto o rio, quanto nós mudamos constantemente. Para Heráclito omundo é uma interação de opostos, ou seja, para saber o que é a paz é preciso a guerra, parasaber o que é a verdade é preciso a mentira, etc.REFLITA: Você confia mais na sua razão ou nos seus sentidos?5. EMPÉDOCLES: Dizia que tanto Parmênides quanto Heráclito haviam errado, poisassumiram apenas um elemento como substância principal. Porém, concordava comParmênides, pois um elemento sozinho não se transforma (lembre-se de suas aulas dequímica) e concordava com Heráclito quando este dizia que devemos confiar em nossossentidos, pois a natureza está em transformação. Empédocles dizia que haviam quatro elementos básicos: a terra, o ar, o fogo e a água.Estes elementos se combinavam e depois voltavam a se separar para então se combinaremnovamente.6. DEMÓCRITO: Dizia ser o átomo a menor unidade da matéria (hoje se sabe que isto não éverdade), sendo ele eterno, imutável e indivisível (influência de Parmênides). Estes átomos 9
  • que são unidades firmes e sólidas ao se unirem dão origem a formas diferentes que vem e vão(influência de Heráclito).OBSERVAÇÃO: Saber o que cada “filósofo da natureza” defende não é o mais importante.Porém, é preciso ter claro que eles passaram a explicar o mundo de outra maneira, não maispautados pelas explicações míticas, mas baseados na observação empírica da natureza, dandoorigem a forma científica de pensar.PERÍODO ANTROPOLÓGICO: Ao contrário dos Pré-socráticos que questionavam sobre a origem do mundo, osfilósofos deste período investigam as questões humanas, isto é, a ética, a política e as técnicas,além de conceitos como justiça, bem, virtude, conhecimento, verdade e outros.1. SOFISTAS: Eram professores viajantes que vendiam ensinamentos práticos de filosofia.Ensinavam conhecimentos úteis para o sucesso nos negócios públicos e privados. Assim,tinham como objetivo o desenvolvimento do poder de argumentação, da habilidade retórica,do conhecimento de doutrinas divergentes, no intuito de ensinar como convencer as pessoas. Para os sofistas, as opiniões humanas são infindáveis, diversas e não podem serreduzidas a uma única verdade. Não existem valores ou verdades absolutas. Assim, os sofistasforam acusados, principalmente, por Platão de manipuladores de raciocínio, ou seja, deproduzir o falso, de iludir os ouvintes, sem qualquer amor pela verdade.2. SÓCRATES: Sócrates era filho de uma parteira e de um escultor e, inspirado em seus pais, tinha aintenção de esculpir um homem que fosse capaz de dar a luz a suas próprias idéias. Pela suaabordagem antropológica, ou seja, por interessar-se por questões humanas, atribui-se a ele afrase “conhece-te a ti mesmo”, inscrita no Oráculo de Delfos. Sócrates desenvolvia sua filosofia em praça pública, dialogando com todos: jovens evelhos, ricos e pobres, escravos e cidadãos. Ele procurava a essência de questões feitas pelohomem como: O que é bem? O que é justiça? O que é a virtude?, ou seja, ele queria descobrir 10
  • o que esses conceitos eram em sua validade universal. Para tanto, sua filosofia eradesenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores. Esses diálogos podem serdivididos em dois momentos: a ironia e a maiêutica. Ironia: No grego, ironia quer dizer “interrogação”. Sócrates interrogava seusinterlocutores sobre aquilo que pensavam. Ele procurava evidenciar as contradições afirmadase os problemas das afirmações proferidas. Seu objetivo era demolir o orgulho, a arrogância e apresunção do saber. Para Sócrates, a primeira virtude do sábio é adquirir consciência daprópria ignorância, assim, ele dizia: “só sei que nada sei”.Vejamos como Sócrates utilizava a Ironia, através de um trecho da República de Platão, ondeSócrates interroga seus interlocutores a respeito do que seja a justiça. Sócrates – Falaste admiravelmente, Céfalo. Mas é que se deve entender por essa mesma qualidade, a justiça, a que te referes? Devemos defini-la como nem mais nem menos que veracidade e restituição do que um homem recebeu de outro? Ou é possível, por atos desta mesma natureza, ser as vezes justo, as vezes injusto? Exemplificando: todos admitem sem dúvida que, se um homem, na posse de suas faculdades, pusesse armas perigosas nas mãos de um amigo, e, mais tarde, em um acesso de loucura as reclamasse, aquele não deveria restituir o depósito e praticaria uma injustiça se o fizesse ou dissesse ao tal toda a verdade a respeito do seu estado mental. Céfalo – Dizes bem. Sócrates – Logo, é falsa definição de justiça a que a faz consistir em dizer a verdade e restituir o que se recebeu. Maiêutica: Termo grego que significa “arte de trazer luz”. Depois de libertar osdiscípulos da pretensão de que tudo sabiam Sócrates, nesta segunda fase do diálogo, tinhacomo objetivo ajudá-los a conceber suas próprias idéias. Assim, a exemplo de sua mãe, que,sendo parteira, ajudava a trazer crianças ao mundo, Sócrates transportava para o campo dafilosofia a intenção de ajudar seus discípulos a parir suas próprias idéias. Como vimos, Sócrates dialogava com todos (jovens e velhos ricos e pobres, escravos ecidadãos). Tal atitude era vista pela democracia ateniense, da qual não participava a maioriada população (escravos, estrangeiros e mulheres), como uma conduta subversiva querepresentava uma ameaça social, na medida em que desrespeitava a ordem vigente já queSócrates não fazia distinções de classe ou posição social dos que com ele dialogavam. Poresse motivo, recebeu a acusação de ser injusto com os deuses da cidade e de corromper ajuventude, sendo condenado a beber cicuta (veneno extraído de uma planta de mesmo nome).Sócrates morreu sem ter renunciado a seus maiôs caros valores morais. A morte de Sócrates é contada por seu discípulo Platão no diálogo Fédon: Echecrates – Estava tu mesmo, Fédon, ao lado de Sócrates, no dia em que ele bebeu o veneno na prisão, ou, então, ouviste de outrem aquilo que sabes? Fédon – Eu ali estava em pessoa, Echecrates. Echecrates – Pois bem; e de que falou, antes de morrer, o nosso amigo? E como morreu? Eis o que eu desejaria saber. Dos meus concidadãos de Filionte, com efeito, nenhum se encontra presentemente em Atenas; e também dali não chega há muito tempo nenhum forasteiro capaz de contar-nos com exatidão como se 11
  • passaram as coisas, a não ser que ele morreu depois de ter bebido o veneno. E de tudo o mais, nada conseguimos saber.OBSERVAÇÃO: Esse é apenas o início do diálogo. Se você, assim como Echecrates, quersaber como Sócrates morreu e de que falou antes de morrer, leia-o até o fim.3. PLATÃO: Nascido em Atenas (427-347 a.C) pertencia a uma das mais nobres famíliasatenienses. Ele foi discípulo de Sócrates e após a morte de seu mestre empreendeu inúmerasviagens. Em 387 a. C. retornou a Atenas, onde fundou sua escola a Academia. Um dosaspectos mais importantes da filosofia de Platão é sua teoria das idéias, com a qual procuraexplicar como se desenvolve o conhecimento humano: passagem do “mundo dos sentidos”para o “mundo das idéias”. Segundo Platão a primeira etapa de nosso conhecimento se dá pelas impressões ousensações advindas do mundo dos sentidos. Essas impressões são responsáveis pelas opiniões(doxa) que temos da realidade. No entanto, o conhecimento que vem dos sentidos não sãoconfiáveis, pois estão em constante transformação (influência de Heráclito) e deles nadapodemos verdadeiramente conhecer ou afirmar. O conhecimento, entretanto, para ser autêntico e atingir o domínio do eterno eimutável (influencia de Parmênides), deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais, oplano da opinião, e penetrar na esfera racional da sabedoria, o mundo das idéias. Para atingiresse mundo, o homem não pode ter apenas “amor às opiniões” (filodoxia), mas precisapossuir um “amor ao saber” (filosofia). É no mundo das idéias, que segundo Platão, moram os seres totais e perfeitos: ajustiça, a bondade, a coragem, a sabedoria, etc. O mito da caverna: Platão criou uma alegoria, conhecida como mito ou alegoria dacaverna, que serve para explicar a evolução do processo de conhecimento. Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Nacaverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da cavernapermanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada,acorrentados, sem poder locomover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo dacaverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesauma fogueira. Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.Um dosprisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento com o qual quebra osgrilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, comdificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenasque as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.Vejamos o mito da caverna de uma maneira mais divertida: 12
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  • EXERCÍCIO: O que você compreendeu da charge? De que maneira podemos dizer que a“idéia” presente no mito da caverna de Platão pode ser estendida ao nosso dia-a-dia? (fazerem grupo e entregar no final da aula). Os filósofos no poder: Desiludido com a democracia grega que matara seu mestreSócrates, Platão em seu livro A República, imaginou uma sociedade ideal, governada por reis-filósofos. Ele comparou a sociedade com o corpo humano. No baixo-ventre, onde estão osdesejos ou prazer deveriam ficar os trabalhadores que precisam ser controlados. No peito,onde reside à vontade, deveriam encontrar-se os sentinelas, para mostrar coragem e na cabeça,onde encontra-se a razão devem estar os filósofos para que aspirem a sabedoria. Para Platão,portanto, somente os filósofos, amantes da verdade, teriam condições de libertar-se da cavernadas ilusões e atingir o mundo luminoso da realidade e sabedoria.4. ARISTÓTELES: Aristóteles nasceu em Estagira, na Macedônia (384-322 a.C.). Ele erafilho de Nicômacos, médico do rei da Macedônia, de quem herdou o interesse pelas ciênciasnaturais. Aos dezoito anos foi para Atenas e ingressou na academia de Platão, de quem setornou discípulo. Com a morte do mestre, partiu para a Ásia menor. Pouco tempo depois, foiconvidado por Felipe II, rei da Macedônia, para dar aula a seu filho Alexandre. A amizade deAristóteles e Alexandre foi interrompido quando este assumiu a direção do ImpérioMacedônico, em 340 a.C.). pouco tempo depois, Aristóteles voltou a Atenas onde fundou suaescola: o Liceu. Após a morte de Alexandre, os sentimentos antimacedônicos ganharam intensidadeem Atenas e devido a sua ligação com a corte macedônica, Aristóteles passou a serperseguido. Foi então que ele decidiu abandonar Atenas, dizendo querer evitar que osatenienses “pecassem duas vezes contra a filosofia” (a primeira vez teria sido com Sócrates). O discípulo discorda do mestre: Aristóteles rejeitava a teoria das idéias de Platão,segundo a qual a realidade do mundo dos sentidos não passa de sombras ou ilusões daverdadeira realidade do mundo das idéias. Para Aristóteles, a observação da realidade leva-nos a constatação da existência de inúmeros seres individuais, concretos, mutáveis, que sãocaptados por nossos sentidos. Partindo dessa realidade empírica a ciência deve buscar asestruturas essenciais de cada ser, ou seja, partindo de um número x de indivíduos observadosa ciência deve constatar o que este grupo de coisas tem em comum. Exemplo: ao observarmosum grupo de cavalos, constatamos através de nossos sentidos que eles são diferentes entre si,mas existem elementos que todos possuem, o que nos faz concluir que eles sejam cavalos enão galinhas. A estes elementos comuns Aristóteles chama FORMA, o que difere daSUBSTÂNCIA que é o material de que cada cavalo individual se compõe. Assim, Aristóteles,diferente de Platão, dizia que primeiro vem os sentidos e depois as idéias. 17
  • A nova interpretação para as mudanças do ser: Assim como Platão, retoma adiscussão sobre o caráter estático (Heráclito) e permanente (Parmênides) do ser. Para resolveresta questão, Aristóteles propõe um nova interpretação segundo a qual em todo ser devemosdistinguir: o ATO como manifestação atual do ser, aquilo que já existe; e a POTÊNCIA comoas possibilidades do ser, aquilo que ainda não é mas pode vir a ser. Exemplo: a árvore queestá sem flores pode tornar-se com o tempo uma árvore florida. Ao adquirir flores, essa árvoremanifesta em ato aquilo que já continha, intrinsecamente, em potência. Por outro lado, podeacontecer que pelas condições climáticas, uma árvore que deve dar flores não venha aflorescer. Esse caso Aristóteles classifica como um acidente, ou seja, algo que não ocorresempre, é circunstancial e por isso não-essencial ao ser, não necessários para definir anatureza própria de cada ser. A passagem da potência ao ato não se dá ao acaso, mas é causada. Para ele, existemquatro tipos de causas fundamentais: causa material (refere-se a matéria de que é feita umacoisa), causa formal (refere-se a forma, a configuração de uma coisa), causa eficiente (refere-se ao agente que produziu a coisa) e causa final (refere-se ao objetivo de ser de uma coisa). Felicidade do Homem: Aristóteles define o homem como ser racional e considera aatividade racional, o ato de pensar, como a essência humana. Para ele: “(...) para o homem avida conforme a razão é a melhor e a mais aprazível, já que a razão, mais que qualquer outracoisa, é o homem. Donde se conclui que essa vida é também a mais feliz”. 18
  • 2. INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA2.1 TEXTOS INTRODUTÓRIOS: A filosofia política visa fazer uma reflexão sobre os fenômenos políticos1. Esta análisepossui fundamentalmente os seguintes objetivos: 1) determinar as características próprias dofenômeno político e os elementos que o distinguem de outros fenômenos existentes no vastocampo dos fenômenos sociais; 2) avaliar criticamente o método seguido pelos estudiosos quese ocupam/ocuparam de tais fenômenos; 3) avaliar as razões por eles propostas para explicaras relações entre os fenômenos políticos e os demais fenômenos; e, por fim, 4) examinar osvários modelos ideais de uma sociedade perfeita que influenciaram de alguma forma naconstrução do pensamento político de inúmeros pensadores. Segundo Norberto Bobbio (2000), pode-se distinguir a filosofia política pelo menosem quatro diferentes formas: I – Filosofia Política como construção de um modelo ideal de Estado: esta primeiraforma visa a teorização de um Estado ideal indiferentemente da possibilidade de sua aplicaçãoefetiva. Geralmente este Estado ideal é construído sob a base de um critério de valor absoluto,os pensadores que teorizam tal Estado buscam encontrar a solução definitiva do problema dopolítico baseando-se em um valor supremo e absoluto de justiça, isto é, uma ordem justa écondição indispensável para a realização de um ordenamento social e político perfeito.Fundamentalmente o problema político é o da injustiça. O exemplo mais notório deste tipo defilosofia é A República de Platão. II – Filosofia Política como busca do fundamento que legitima o poder: esta formabusca fazer a análise do fundamento das relações políticas, das razões do vínculo dedependência que elas comportam, ou seja, determinar o porquê do Estado, os motivos queexplicam a obediência que os homens prestam ou negam ao poder. Vários pensadores modernos e contemporâneos se ocuparam largamente de talconcepção de filosofia política. Max Weber, por exemplo, expõe três formas de legitimaçãodo poder: 1) Tradicional (obediência ao poder aceita por tradição, por exemplo, o pátrio poderou uma monarquia absolutista hereditária); 2) Carismática (sujeição da maior parte daspessoas à ações de um líder que pelo seu carisma conquista o consenso); e 3) Racional(obediência ou sujeição aceita por meio de determinação consciente como um cálculoutilitário por exemplo). Outros exemplos são Hobbes, Locke e Rousseau, este últimoinclusive fazendo uma distinção entre a existência do poder e sua legitimidade que se dáatravés da aceitação do poder de um indivíduo ou grupo de indivíduos por parte da maioria. Em geral, teorias da legitimação limitam-se a indicar em que condições o poder devese submeter para ser aceito como válido, deixando indeterminados os modos pelos quais essascondições podem ser de fato realizadas. Um exemplo disso é a existência de umamultiplicidade de sistemas políticos justificados por um único princípio, o “princípiodemocrático”.1 Fenômeno: designa um objeto específico do conhecimento humano que é percebido pelo aparato cognoscívelhumano sob condições particulares. Um dos objetivos da filosofia política é determinar que condiçõesparticulares são estas que permitem que um fenômeno possa ser denominado como sendo político. 19
  • III – Filosofia Política como determinação do conceito ou categoria do político:esta terceira forma busca determinar o conceito geral de política, do que a caracteriza comoum fenômeno distinto de outros fenômenos sociais. Benedetto Croce, em sua análise sobre a filosofia política, expõe que esta foi iniciadacom a descoberta da autonomia da política, na identificação de características e leis própriasda atividade política, distintas especialmente da moral. Neste sentido, Maquiavel seria odescobridor da categoria da política por ser o primeiro pensador a distinguir entre política emoral, identificando nas primeiras leis próprias muitas vezes antagônicas à moral. O principal problema desta definição de filosofia política é que ela é exclusiva.Seguindo fielmente tal forma, deixaríamos de tratar como filosofia política obras depensadores como Rousseau, Hegel, Marx, Aristóteles, Stuart Mill entre muitos outros. Éinegável admitir que tais pensadores “filosofaram” sobre a política, mesmo que não seja damesma forma que Maquiavel. Alguns autores importantes que seguiram a fórmula de Maquiavel: Gaetano Mosca eVilfredo Pareto – disseram que a essência do fenômeno político consiste na imposição dopoder por parte de uma minoria sobre uma maioria (por exemplo, governantes sobre umasociedade). Carl Schmitt – encontrou o que é próprio da política na relação amigo-inimigo, nasolidariedade do grupo perante o desafio ou a ameaça de um adversário (como quando amaior parte dos norte-americanos era a favor da invasão do Afeganistão). Em ambos os casos, a filosofia política é atribuída a função de determinar ascaracterísticas diferenciais do fenômeno político, sendo este reduzido, em última instância, auma relação de forças. IV – Filosofia Política como análise da linguagem política: aqui a filosofia políticaé entendida como metodologia e como uma reflexão crítica sobre o discurso político, quer dosmodernos cientistas, quer dos teóricos políticos do passado. Ela visa analisar, esclarecer eclassificar a linguagem, os argumentos e as finalidades dos que utilizam da linguagempolítica. Entre seus objetivos está também o de identificar os componentes do pensamentopolítico tradicional para explicitá-los. Sob este aspecto a filosofia política é como uma metaciência por se utilizar de umaverificação rigorosa dos procedimentos com os quais é conduzida a pesquisa da ciênciapolítica empírica. É uma ciência da ciência política. A aceitação de tal forma de filosofia política torna as duas primeiras (filosofia políticacomo modelo ideal e como busca pelo fundamento) meras ideologias, demonstráveis apenasde modo que seus valores, por não possuírem uma linguagem clara e livre de ambiguidades,não são suscetíveis de um discurso que possa ter alguma significação. Tomada a terceira forma na análise da linguagem e na função atribuída à filosofiapolítica, cabe a ela, como metaciência, apurar em primeiro lugar o conceito de política edelimitar o campo em que se realiza ou se poderia realizar a pesquisa empírica.EXERCÍCIOS:1) Buscar saber o que os alunos pensam ser um discurso político.2) Leitura e contextualização de trechos de discursos feitos por políticos.3) Caracterização, junto com os alunos, dos discursos elencando os elementos principais. 20
  • 4) Apresentação do que pode ser compreendido por filosofia política (baseado no textoacima).5) Análise dos discursos lidos em sala de aula baseada nas acepções de filosofia políticapropostas por Bobbio apresentadas durante a aula.2.2 POLÍTICA E DEMOCRACIA: Uma reflexão sobre política e democracia Podemos falar de política como a arte de governar, de gerir os destinos da cidade;aliás, etimologicamente política vem de polis (cidade). A palavra democracia vem do gregodemos (povo) e kratia, de krátos ( governo, poder, autoridade). Historicamente, consideramosos atenienses o primeiro povo a elaborar o ideal democrático, dando ao cidadão a capacidadede decidir os destinos da polis ( cidade – estado grega). Povo habituado ao discurso encontrana ágora (praça pública) o espaço social para o debate e o exercício da persuasão. (*Várioseram excluídos do direito à cidadania e poucos detinham efetivamente o poder.) O ideal democrático reaparece na história, com roupas diferentes, ora no liberalismo,ora exaltado na utopia de Rousseau, ora nos ideais socialistas e anarquistas. Nunca foi possível evitar que , em nome da democracia, conceito abstrato, valores quena verdade pertenciam a uma classe apenas fossem considerados universais. A RevoluçãoFrancesa se fez sob o lema “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”, e sabemos que foi umarevolução que visava interesses burgueses e não populares. A institucionalização do poder A Idade Moderna promove uma profunda mudança na maneira de pensar medieval,que era predominantemente religiosa. Ocorre a secularização da consciência, ou seja, oabandono das explicações religiosas, para se usar o recurso da razão. Essa transformação severifica nas artes, nas ciências, na política. À tese de que todo poder emana de Deus , se contrapõe a origem social do pacto feitopelo consentimento dos homens. A legitimação do poder se encontra no próprio homem que oinstitui. Para ilustrar o caráter divino do poder no pensamento medieval, veja-se Jean Bodin(1530 – 1596): jurista e filósofo francês, que defendeu em sua obra A República, o conceitodo soberano perpétuo e absoluto, cuja autoridade representava a vontade de Deus. Assim,todo aquele que não se submetesse à autoridade do rei deveria ser considerado um inimigo daordem pública e do progresso social. Segundo Bodin, o rei deveria possuir um poder supremosobre o Estado, respeitando, apenas, o direito de propriedade dos súditos. Com a emergência da burguesia no panorama político, dá-se a criação do Estado comoorganismo distinto da sociedade civil. Em outras palavras, na Idade Média, o poder políticopertencia ao senhor feudal dono de terras, e era transmitido como herança juntamente comseus bens; com as revoluções burguesas, essas duas esferas dissociam-se: o poder não éherdado, mas conquistado pelo voto. Assim, separa-se o público do privado. O espírito dademocracia está em descobrir o valor da coisa pública, separada dos interesses particulares. 21
  • Desse modo, ocorre a institucionalização do poder, que não mais se identifica comaquele que o detém, pois este é mero depositário da soberania popular. O poder se torna umpoder de direito, e sua legitimidade repousa, não no privilégio, não no uso da violência, masdo mandato popular. O súdito, na verdade, torna-se cidadão, já que participa da comunidade cívica. Nãohavendo privilégios, todos são iguais e têm os mesmos direitos e deveres. COMO SERIA A VERDADEIRA DEMOCRACIA? Segundo Marilena Chauí, as três características da democracia são as idéias deconflito, abertura e rotatividade. · O conflito: se a democracia supõe o pensamento divergente, isto é, os múltiplosdiscursos, ela tem de admitir uma heterogeneidade essencial. Então, o conflito é inevitável. Apalavra conflito sempre teve sentido pejorativo, de algo que devesse ser evitado a qualquercusto. Ao contrário, divergir é inerente a uma sociedade pluralista. O que a sociedadedemocrática deve fazer com o conflito é trabalhá-lo, de modo que, a partir da discussão, doconfronto, os próprios homens encontrem a possibilidade de superá-lo. · A abertura: significa que na democracia a informação circula livremente, e a culturanão é privilégio de poucos. · A rotatividade: significa tornar o poder na democracia realmente o lugar vazio porexcelência, sem o privilégio de um grupo ou classe. É permitir que todos os setores dasociedade possam ser legitimamente representados. A fragilidade da democracia: A construção da democracia é uma tarefa difícil, devido à incompletude essencial dademocracia. Não havendo modelos a seguir, a democracia se autoproduz no seu percurso, e aárdua tarefa em que todos se empenham está sujeita aos riscos dos enganos e dos desvios. Porisso, a democracia é frágil e não há como evitar o que faz parte da sua própria natureza. O principal risco é a emergência do totalitarismo, representado nos grupos quesucumbem à sedução do absoluto e desejam restabelecer a “ordem” e a hierarquia. A condição do fortalecimento da democracia encontra-se na politização das pessoas,que devem deixar o hábito (ou vício?) da cidadania passiva, do individualismo, para setornarem mais participantes e conscientes da coisa pública. 22
  • EXERCÍCIO: O analfabeto político O pior a analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia política.Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto. E lacaio das empresas nacionais e multinacionais. Bertolt BrechtQuestão para reflexão: Qual a mensagem do poema “O analfabeto político”?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Vamos Praticar:Analise a seguinte charge: 23
  • O ato de refletir e questionar devem ser um exercício diário para todos nós. Por que entãomencionar a respeito da desigualdade social pode se tornar um “ato perigoso”? Responda deacordo com o que você entendeu da charge:_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Democracia e cidadania Se até hoje temos nos contentado com a democracia representativa, não há como deixarde sonhar com mecanismos típicos da democracia direta que possibilitem a presença maisconstante do povo nas decisões de interesse coletivo. Na Constituição brasileira de 1988 foi introduzida a “iniciativa popular de projetos deleis”, através de manifestação do eleitorado, mediante porcentagem mínima estipuladaconforme o caso. Essa forma de atuação ainda será regulamentada e devem ser enfrentadasdificuldades as mais diversas para o exercício efetivo. Mas alguns poderiam argumentar: paraparticipar enquanto cidadão pleno é preciso que haja politização, caso contrário haverá apatiaou manipulação. Daí o desafio: quem educa o cidadão? 24
  • Cidadania se aprende no exercício mesmo da cidadania. Embora a escola seja aliadaimportante, não é nela fundamentalmente que se dá a aprendizagem, pois há o risco daideologia e do discurso vazio, quando o ensino não é acompanhado de fato pela ampliaçãodos espaços de atuação política do cidadão na sociedade. A participação popular se intensifica com as já referidas organizações saídas dasociedade civil. Essas organizações, ao colocarem seus representantes em confronto com opoder constituído, tornam-se verdadeiras escolas de cidadania. O importante do processo éque, ao lado dos outros poderes, como o poder oficial do município, do estado e federal, e opoder das elites econômicas, desenvolve-se o poder alternativo. Ou seja, o esforço coletivo nadefesa de interesses comuns transforma a população amorfa, inexpressiva e despolitizada emcomunidade verdadeira. Na luta contra a tirania e o poder arbitrário, nem as regras da moral, nem apenas as leisimpedirão o abuso do poder. Na verdade, como já dizia Montesquieu, só o poder controla opoder. Aprendendo de forma divertida 25
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  • Questões para reflexão:1. O que você entendeu da charge acima?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________2. Com base na situação visualizada na charge, pode-se dizer que o povo teve uma atitudecidadã? Por quê?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________3. Para você, o que significa a frase: “Em terra de cego, quem tem um olho é mentiroso”!Responda de acordo com as suas palavras._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________4. Qual é a etimologia das palavras política e democracia?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________5. O que significa a personalização do poder?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________6. O que significa s separação entre a sociedade política e a sociedade civil?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________7. Por que a burguesia não representa ainda o ideal democrático?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________8. Quais são as três características da democracia?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________9. Em que consiste a fragilidade da democracia e que significa cidadania passiva?_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 28
  • 2.3 O PENSAMENTO DE MAQUIAVEL: Italiano. Filósofo, historiador, político e filósofo político. Nicolau Maquiavel nasceu em 3/5/1469, Florença. Faleceu em 22/6/1527, Florença. É o fundador do pensamento político moderno, cujos escritos sobre habilidade política, amorais, porém influentes, tornaram seu nome um sinônimo de astúcia. "Todos vêem o que pareces, poucos sentem o que és." (Maquiavel) Antes de "O Príncipe" - Embora diferentes e, muitas vezes, contrárias, as obraspolíticas medievais e renascentistas operam num mundo cristão. Isso significa que, para todaselas, a relação entre política e religião é um dado de que não podem escapar. É verdade que asteorias medievais são teocráticas, enquanto as renascentistas procuram evitar a idéia de que opoder seria uma graça ou um favor divino; no entanto, embora recusem a teocracia, nãopodem recusar outra idéia qual seja a de que o poder político só é legítimo se for justo e sóserá justo se estiver de acordo com a vontade de Deus e a Providência divina. Assim,elementos de teologia continuam presentes nas formulações teóricas da política. Maquiavélico, maquiavelismo - Estamos acostumados a ouvir as expressões:maquiavélico e maquiavelismo.. São usadas quando alguém deseja referir-se tanto à políticacomo aos políticos, e a certas atitudes das pessoas, mesmo quando não ligadas diretamente auma ação política (fala-se, por exemplo, num comerciante maquiavélico, numa professoramaquiavélica, no maquiavelismo de certos jornais, etc...). Quando ouvimos ou empregamos essas expressões? Sempre que pretendemos julgar aação ou a conduta de alguém desleal, hipócrita, fingidor, poderosamente malévolo, que brincacom sentimentos e desejos dos outros, mente-lhes, faz a eles promessas que sabe que nãocumprirá, usa a boa-fé alheia em seu próprio proveito. Falamos num "poder maquiavélico" para nos referirmos a um poder que agesecretamente nos bastidores, mantendo suas intenções e finalidades desconhecidas para oscidadãos; que afirma que os fins justificam os meios e usa meios imorais, violentos eperversos para conseguir o que quer; que dá as regras do jogo, mas fica às escondidas,esperando que os jogadores causem a si mesmos sua própria ruína e destruição. Maquiavélico e maquiavelismo fazem pensar em alguém extremamente poderoso eperverso, sedutor e enganador, que sabe levar as pessoas a fazer exatamente o que ele deseja,mesmo que sejam aniquiladas por isso. Como se nota, maquiavélico e maquiavelismocorrespondem àquilo que, em nossa cultura, é considerado diabólico. TEXTOS DE MAQUIAVELO Amor à LiberdadePercebe-se facilmente de onde nasce o amor à liberdade dos povos; a experiência nos mostraque as cidades crescem em poder e em riqueza enquanto são livres. É maravilhoso, porexemplo, como cresceu a grandeza de Atenas durante os cem anos que se sucederam à 29
  • ditadura de Pisístrato. Contudo mais admirável ainda é a grandeza alcançada pela repúblicaromana depois que foi libertada dos seus reis. Compreende-se a razão disso: não é o interesseparticular que faz a grandeza dos Estados; mas o interesse coletivo. E é evidente que ointeresse comum só é respeitado nas repúblicas: tudo o que pode trazer vantagem geral é nelasconseguido sem obstáculos. Se uma certa medida prejudica um ou outro indivíduo, são tantosos que ela favorece, que se chega sempre a fazê-la prevalecer, a despeito das resistências,devido ao pequeno número de pessoas prejudicadas.” (Do Livro: "Comentários sobre aprimeira década de Tito Lívio", II, 2º)Observância da LeiNão observar uma lei é dar mau exemplo, sobretudo quando quem a desrespeita é o seu autor;é muito perigoso para os governantes repetir a cada dia novas ofensas à ordem pública. ....Éperigoso para uma república ou para um príncipe manter os cidadãos em regime de terrorcontínuo, atingindo-os sem cessar com ultrajes e suplícios. Nada há de mais perigoso do queesse tipo de procedimento, porque os homens que temem pela própria segurança começam atomar todas as precauções contra os perigos que os ameaçam. Depois, sua audácia cresce, eem breve nada mais pode conter sua ousadia. Por isso, é necessário ou não atacar ninguém ouentão cometer ao mesmo tempo todas as ofensas, dando garantias, em seguida, aos cidadãos,para restaurar sua confiança e a tranqüilidade geral. (Comentários sobre o primeira década deTito Lívio, 1, 45º)O que o povo deseja?São verdadeiramente infelizes os príncipes que, tendo a multidão como inimiga, são,obrigados a usar meios extraordinários para afirmar seu poder. De fato, aquele que só tem umpequeno o número de inimigos pode viver seguro sem muita preocupação; mas quem é objetodo ódio geral nunca pode ter certeza de qualquer coisa. Quanto maior crueldade demonstra,mas se enfraquece seu poder. O caminho mais seguro é, portanto, procurar ganhar a afeiçãodo povo. (Comentários, I, 16º)A apoio do povoChegamos agora ao caso do cidadão que se toma soberano não por meio do crime, ou daviolência intolerável, mas pelo favor dos seus concidadãos: é o que se poderia chamar degoverno civil. Chegar a essa posição dependerá não inteiramente do valor ou da sorte, mas daastúcia assistida pela sorte . Chega-se a ela com o apoio da opinião popular ou da aristocracia.Em todas as cidades se podem encontrar esses dois partidos antagônicos, que nascem dodesejo do povo de evitar a opressão dos poderosos, e da tendência destes últimos paracomandar e oprimir o povo. Desses dois interesses que se opõem surge uma de trêsconseqüências: o governo absoluto, a liberdade ou a desordem. [... ] quem se tornar umpríncipe pelo favor do povo deve manter sua amizade - o que não lhe será difícil, pois a únicacoisa que o povo pede é não ser oprimido. Mas aquele que chega ao poder apoiado pelosnobres, contra os desejos do povo, deve acima de tudo procurar conquistar a amizade deste - oque conseguirá facilmente, se o proteger. Os homens que recebem o bem quando esperavamo mal se sentem ainda mais obrigados com relação ao benfeitor; por isso a massa logo setornará ainda mais bem disposta em relação ao príncipe do que se ela própria lhe tivesse dadoo poder. O príncipe poderá ganhar a simpatia do povo de muitas formas, de acordo com ascircunstâncias, pois nesse ponto não há regra que possa ser estabelecida, razão pela qual não 30
  • insistirei no assunto. Direi apenas, concluindo, que é necessário que o príncipe tenha o favordo povo; senão, lhe faltarão recursos na adversidade. ("O príncipe", IX)O direito de acusação públicaNão se pode dar aos guardiães da liberdade num Estado direito mais útil e necessário do que ode poder acusar, perante o povo, ou diante de uni magistrado ou tribunal, os cidadãos quetenham atentado contra essa liberdade. Essa medida tem, numa república, dois efeitosextremamente importantes: o primeiro é que os cidadãos, temendo ser acusados, não ousaminvestir contra a segurança do Estado; se tentam fazê-lo, recebem imediatamente o castigomerecido. O outro é o de se constituir numa válvula de escape à paixão que, de um modo oude outro, sempre fermenta contra algum cidadão. Quando essa paixão não encontra um meiolegal de vir a superfície, assume uma importância extraordinária, que abala os fundamentos darepública. Nada a enfraquecerá tanto, todavia, quanto organizar-se o Estado de modo tal que afermentação de paixões possa escapar por um canal autorizado. É o que se prova com muitosexemplos, e sobretudo pelo que Tito Lívio relata a propósito de Coriolano. (Do Livro:"Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio", I, 7º)Os conflitos na RepúblicaNão quero silenciar sobre as desordens ocorridas em Roma, entre a morte dos Tarquínio e oestabelecimento dos tribunos. Mas não aceitarei as afirmativas dos que acham que aquela foiuma república tumultuada e desordenada, inferior a todos os outros governos da mesmaespécie a não ser pela boa sorte que teve, e pelas virtudes militares que lhe compensaram osdefeitos. Não vou negar que a sorte e a disciplina tenham contribuído para o poder de Roma;mas não se pode esquecer que uma excelente disciplina é a conseqüência necessária de leisapropriadas, e que em toda parte onde estas reinam, a sorte, por sua vez, não tarda abrilhar.Examinemos, porém, as outras particularidades de Roma. Os que criticam as contínuasdissensões, entre os aristocratas e o povo parecem desaprovar justamente as causas queasseguraram fosse conservada a liberdade de Roma, prestando mais atenção aos gritos erumores provocados por tais dissensões do que aos seus efeitos salutares. Não queremperceber que há em todos os governos duas fontes de oposição: os interesses do povo e os daclasse aristocrática. Todas as leis para proteger a liberdade nascem da sua desunião, comoprova o que aconteceu em Roma, onde, durante os trezentos anos e mais que transcorreramentre os Tarquínio e os Graco, as, desordens havidas produziram poucos exilados, e maisraramente ainda fizeram correr o sangue. Não se pode, portanto, considerar essas dissensõescomo funestas, nem o Estado como inteiramente dividido, pois durante tantos anos taisdiferenças só causaram o exílio de oito ou dez pessoas, e a morte de bem poucos cidadãos,sendo alguns outros multados. Não se pode de forma alguma acusar de desordem umarepública que deu tantos exemplos de virtude, pois os bons exemplos nascem da boaeducação; a boa educação das boas leis; e estas, das desordens que quase todos condenamirrefletidamente. De fato, se se examinar com atenção o modo como tais desordensterminaram, ver-se-á que nunca provocaram o exílio, ou violências prejudiciais ao bempúblico, mas que, ao contrário, fizeram nascer leis e regulamentos favoráveis à liberdade detodos. (Do Livro: "Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio", I, 4º)Agir de acordo com as necessidades do momento“....se acontece que o tempo e as circunstâncias são favoráveis a quem age com cuidado eprudência, o resultado será bom; mas se mudam as circunstâncias e o tempo, a mesma pessoa 31
  • se arruinará, se não alterar seu procedimento. Não há homem tão prudente que possa adaptar-se a esse fato - ou porque não se consegue desviar do rumo a que o inclinou a natureza, ouporque, tendo sempre prosperado no único caminho utilizado, não se convence de que seráoportuno abandoná-lo. “Não se pode, contudo, chamar de valor o assassínio dos seus compatriotas, à traição dosamigos, a conduta sem fé, piedade e religião; são métodos que conduziu ao poder, mas não àglória. Se considerarmos o valor demonstrado por Agátocles em enfrentar e superar perigos, esua grandeza de ânimo ao suportar e vencer obstáculos, não há razão para julgá-lo inferior aqualquer um dos capitães mais afamados. Contudo sua desumanidade, sua crueldade bárbara,juntamente com as atrocidades incontáveis que praticou, não permitem nomeá-lo entre oshomens mais famosos. Não se pode de qualquer forma atribuir ao valor ou à sorte o que eleconseguiu prescindindo de ambos. ("O príncipe”, XXV)A conquista do poder pelo crimeA alguns pode espantar o fato de que após tantas traições e tão grande crueldade, Agátocles -e outros como ele - pudesse viver em segurança no seu país durante muitos anos, defendendo-se contra inimigos estrangeiros sem ser vitimado por qualquer conspiração. Isso, não obstantemuitos outros príncipes não terem podido manter sua posição em tempos de paz, para nãofalar dos tempos incertos de guerra, devido à sua crueldade. Creio que a diferença reside nouso adequado ou não da crueldade. No primeiro caso, estão aqueles que a usaram bem (se éque se pode qualificar um mal com a palavra bem), uma só vez, com o objetivo de se garantir,e que depois não persistiram nela, mas, ao contrário, a substituíram por medidas tão benéficasa seus súditos quanto possível. As crueldades mal-empregadas são as que, sendo a princípiopoucas, crescem com o tempo, em vez de diminuir. Os que aplicam o primeiro método podemremediar de alguma forma sua condição, diante de Deus e dos homens, como Agátocles.Quanto aos outros, não lhes é possível manter-se. De onde se deve observar que, ao tomar umEstado, o conquistador deve praticar todas as suas crueldades ao mesmo tempo, evitando terque repeti-las a cada dia; assim tranqüilizará o povo, sem fazer inovações, seduzindo-o depoiscom benefícios. Quem agir de outra forma, por timidez . ou maus conselhos, estará obrigado apermanecer de arma em punho, e nunca poderá depender dos seus súditos que, devido àscontínuas injurias, não terão confiança no governante. As injúrias devem ser cometidas todasao mesmo tempo, de modo que, sendo sentidas por menos tempo, ofendam menos. Asvantagens, por sua vez, devem ser concedidas gradualmente, de forma que sejam melhorapreciadas. Acima de tudo, o soberano deve ter tais relações com seus súditos que nenhumacidente, bom ou mau, o afaste do seu rumo; porque, como a necessidade surge emcircunstâncias adversas, não deixará tempo para a prática do mal; e se fizer o bem, nadalucrará com isso, pois se pensará que foi forçado a fazê-lo. (O príncipe, VIII)É melhor ser amado ou temido?Chegamos assim à questão do saber se é melhor ser amado do que temido. A resposta é que épreciso ser ao mesmo tempo amado e temido mas que, como isso é difícil, é muito maisseguro ser temido, se for preciso escolher. De fato, pode-se dizer dos homens, de modo geral,que são ingratos, volúveis, dissimulados; procuram escapar dos perigos e são ávidos devantagens; se o príncipe os beneficia, estão inteiramente do seu lado; como já observei,oferecem seu próprio sangue, o patrimônio, sua vida e os filhos quando a necessidade éremota; quando ela é iminente, revoltam-se. Estará perdido o príncipe que confiar somentenas suas palavras, sem fazer outros preparativos, porque a amizade conquistada pela compra,e não pela grandeza e nobreza de espírito, não é segura - não se pode contar com ela. Os 32
  • homens têm menos escrúpulos em ofender quem, se faz amar do que quem se faz temer, poiso amor é mantido por uma corrente de obrigações que se rompe quando deixa de sernecessária já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo da punição, quenunca falha. ("O príncipe", XVII)O papel da religiãoNossa religião... só santifica os humildes, os homens inclinados à contemplação, e não à vidaativa. Para ela, o bem supremo é a humildade,o desprezo pelas coisas do mundo. Já os pagãosdavam a máxima importância à grandeza d’alma, ao vigor do corpo, a tudo, enfim, quecontribuísse para tornar os homens robustos e corajosos. Se a nossa religião nos recomendahoje que sejamos fortes, é para resistir aos males, e não para incitar-nos a grandesempreendimentos. Parece que essa moral tornou os homens mais fracos, entregando o mundoà audácia dos celerados. Estes sabem que podem exercer sem medo a tirania, vendo oshomens prontos a sofrer sem vingança todos os ultrajes, na esperança de conquistar o paraíso.A conduta dos príncipes e governantesTodos sabem que é louvável que o príncipe mantenha a palavra empenhada, e viva comintegridade e não com astúcia. Contudo a experiência dos nossos tempos mostra que ospríncipes que tiveram pouco respeito pela boa-fé puderam com astúcia confundir os espíritose chegaram a superar os que basearam sua conduta na lealdade. Como sabemos, pode-se lutarde duas maneiras: pela lei e pela força. O primeiro método é o dos homens; o segundo, o dosanimais. Porém, como o primeiro pode ser insuficiente, tem-se que recorrer ao segundo. Énecessário, portanto, que o príncipe saiba usar bem tanto o processo dos homens como o dosanimais. .... Sendo obrigado a agir como um animal, deve o príncipe imitar a RAPOSA e oLEÃO, pois o leão não se pode defender das armadilhas, e a raposa não consegue defender-sedos lobos. É preciso, portanto, ser raposa para reconhecer as armadilhas, e leão para assustaros lobos. ...Não é necessário que um príncipe tenha todas as qualidades... Mas é muitonecessário que as aparente todas. ... Assim é bom ser misericordioso, leal, humanitário,sincero e religioso – como é bom parecê-lo; mas é preciso ter a capacidade de se converter aosatributos opostos, em caso de necessidade. (O príncipe, XVIII). TÓPICOS DO PENSAMENTO DE MAQUIAVEL1) Maquiavel escreve sobre o campo político - relação entre governo e governados - eportanto a aplicação do que escreveu ao campo privado é indevido.2) Separa a MORAL DA VIDA PRIVADA da política. Esta tem OUTRA MORALfundamentada no coletivo, nas instituições, nas leis, na natureza má dos homens, na sociedadedividida em classes, na indeterminação da política, na exigência de eficiência da política. Porexemplo: às vezes o governo tem que ser mau, avarento, não cumpridor das promessas. Masisto depende das circunstâncias. Quando for necessária uma conduta política que está emdesacordo com a moral privada o príncipe deve empregar a ASTÚCIA e dissimulá-la sob amáscara da virtude. Isto porque sendo o povo incapaz de compreender o bem (político) que seoculta por detrás da necessidade de praticar o mal (moral) resta a alternativa da astúcia paraAPARENTAR possuir as qualidades que o povo julga boas. 33
  • 3) Não existe comunidade política. A sociedade é dividida entre os GRANDES, que queremoprimir, e os PEQUENOS, o POVO, que não quer ser oprimido. Ou seja, apesar deMaquiavel não usar o termo classe podemos afirmar que bem antes de Marx percebeu que asociedade é dividida em classes sociais.4) VIRTÙ = tem virtú o governo que sabe agir de acordo com as circunstâncias sem se deixarperturbar pela diferença entre virtude e vício. Por isso a virtú sempre é oscilante, flexível e sócom ela pode ser enfrentada a FORTUNA. Para isso o príncipe tem que ser pudente,autoconfiante, firme, decidido, não ser odiado, tomar partido e não se manter neutro, SERSÁBIO.5) FORTUNA = força imprevisível. Governa, segundo Maquiavel, metade das açõeshumanas. O nosso LIVRE ARBÍTRIO pode ser exercer sobre a outra metade.6) CIRCUNSTÂNCIAS = tornam possível o aparecimento do homem de virtú7) O governo tem que ter apoio do povo para se manter no poder porque são em maiornúmero. O povo consente em obedecer para se livrar da opressão dos grandes e se for tratadobem pelo governo. A fortaleza do príncipe (governo) está no povo.8) Principais fundamentos do Estado: boas leis e boas armas.9) Política: tem a ver com a verdade efetiva das coisas e não com a imaginação sobre elas.Não deve se trocar o que se faz pelo que se deveria fazer. A política exige EFICIÊNCIA,RESULTADOS.10) Governante: misto de homem (leis) e animal (força). Animal: LEÃO (amedronta os lobosmas cai nos laços) e RAPOSA (escapa dos laços mas não dos lobos).11) Parlamento: importante para controlar os grandes e favorecer os pequenos evitandoexposição inconveniente do príncipe (ou governo).12) O conflito não é mal por princípio, pode levar a leis melhores e maior justiça..13) Melhor regime para Maquiavel: REPÚBLICA. Se for o BEM COMUM que engrandeceas cidades este é observado somente nas Repúblicas (= participação popular e liberdade). AMonarquia é aceita em períodos onde domina a corrupção e a desigualdade (= domínio dosgrandes). Mas após o saneamento deve vir a República. Na República a manutenção daliberdade deve ser confiada à coletividade dos cidadãos e aos excelentes, que tem boareputação. A reputação é legítima. O perigo está em estar acima do bem coletivo. Por isso éboa a reputação adquirida quando se age pelo bem comum. A reputação originada por viaprivada, através do "favor popular", é perigosa e nociva à República, pois pode introduzir opoder tirânico.14) IDEAL REPUBLICANO = harmonizar o benefício privado e o bem de todos. Satisfazerapetites individuais ou de grupos (natureza maligna do homem) sem torná-los incompatíveiscom o bem comum. Visa o equilíbrio de forças entre os grandes e o povo, nela os diferentesgrupos sociais se equilibram mutuamente. Deve ter mecanismos de participação popular comoa possibilidade de acusação pública, mas as calúnias não devem ser toleradas pois sãoperniciosas para a República. 34
  • 15) Maquiavel se coloca contra a TIRANIA que visa interesses particulares e egoístas.16) Por isso cidadão é aquele que tem afeição não à pessoa do governante mas às leis einstituições. A criação de laços pessoais promove a particularização do que é público.17) O que honra o governante são AS LEIS E INSTITUIÇÕES que são os principaisfundamentos do Estado.18) Como outros renascentistas Maquiavel valoriza a vida ativa em detrimento dacontemplativa. O homem pode intervir no mundo. Por isso o ócio é negativo podendoproduzir corrupção política, a ruína política.19) Maquiavel propõe a imitação dos homens de virtù porque tem como princípio aimutabilidade do homem e da natureza. . "Isto porque, como todas as coisas são executadaspor homens que têm e terão sempre as mesmas paixões, não podem deixar de apresentar osmesmos resultados" (Discorsi, III, 43).20) Estudo da História - só tem sentido se for útil para o presente. Procura-se extrair lições dopassado para aplicá-las no presente e ao futuro. A história se converte em instrumento daeducação.21) Religião - interessa na medida em que contribui para a ordem, paz, submissão ás leis eobediência dos súditos aos dirigentes. O mau uso da religião produz a descrença nasdivindades e isto é perigoso para o Estado facilitando o caminho para a corrupção. O temor àdivindade constitui uma alternativa ao emprego da violência. O Catolicismo da sua época écriticado pois prega o desprezo pelas coisas deste mundo e exalta a humildade e o apego avalores extraterrestres. Não forma para a luta, para o enfrentamento como a religião romana.22) O melhor regime político é a República (Maquiavel escreve mais sobre ela no seu livro,pouco conhecido, intitulado: “Comentários à primeira década de Tito Lívio). Mas quando ogovernante se depara com um Estado corrompido a solução é a MONARQUIA. Só amonarquia, com um poder forte, pode conter os grandes e acabar com a corrupção. ESTE É OCONTEXTO DE “O PRÍNCIPE”. Mas mesmo assim Maquiavel prefere o PRÍNCIPE(monarca) NOVO ao PRÍNCIPE HEREDITÁRIO. O príncipe novo para se manter precisa doapoio do povo: “aquele que, contra o povo e pelo favor dos grandes, se torna príncipe, deve,antes de qualquer coisa procurar conquistar o povo” (O Príncipe, 9:272). Isto expressa a suaruptura com a estrutura política feudal.23) POVO para Maquiavel: pequena e média burguesia ligada às corporações de ofício. Estaparticipava politicamente nas cidades-estado republicanas. O mesmo não se pode dizer emrelação ao popolo magro (desvinculado de qualquer corporação, sem especialização,miseráveis).24) A república perfeita caracteriza-se pelo EQUILÍBRIO DE FORÇAS que se torna realquando os diferentes grupos sociais detêm uma parcela de poder, de modo que possamcontrolar-se mutuamente (Discorsi I, 2:81). “O poder dos tribunos da plebe foi grande emRoma e, como dissemos mais de uma vez, necessário, pois de outro modo não teria sidopossível frear a ambição da nobreza...” (Discorsi, III, 11:216). A sobrevivência do regimerepublicano depende da capacidade do governante em estabelecer medidas que garantam aLIBERDADE. Esta tarefa deve ser confiada à maioria, isto é, ao POVO: “nunca se deve 35
  • permitir, numa cidade, que a minoria (i pochi) possa tomar alguma deliberação entre aquelasque ordinariamente são necessárias à manutenção da república” (Discorsi, I, 50:132).2.4 AS TEORIAS CONTRATUALISTAS: Nos séculos XVII e XVIII a principal preocupação da filosofia política é ofundamento racional do poder soberano. Ou seja, o que se procura não é resolver a questão dajustiça, nem justificar o poder pela intervenção divina, mas colocar o problema dalegitimidade do poder. É por isso que filósofos tão diferentes como Hobbes, Locke eRousseau têm idêntico propósito: investigar a origem do Estado. Não propriamente a origemno tempo, mas o “princípio”, a “razão de ser” do Estado. Todos partem da hipótese do homemem estado de natureza, isto é, antes de qualquer sociabilidade, e, portanto, dono exclusivo desi e dos seus poderes. Procuram então compreender o que justifica abandonar o estado denatureza para constituir o Estado, mediante o contrato. Também discutem o tipo de soberaniaresultante do pacto feito entre os homens. Thomas Hobbes (1588-1679) é um daqueles filósofos contratualistas que, ao longo dos séculos XVII e XVIII, postularam que o Estado político é fruto de uma convenção entre os homens; antes dessa espécie de acordo vive-se num estado de natureza; a passagem de uma instância à outra é conhecida como contrato ou pacto social. No modelo hobbesiano o estado de natureza se configura como uma condição onde os indivíduos se encontram em guerra uns contra os outros. Cada qual está livre para fazer o que bem entender. Não há governo: vive-se numa anarquia completa. A vida humana nesse quadro natural édesconfortável. Miséria, violência, expectativa de existência breve e medo recíproco sãoalgumas das perturbações que atingem o homem pré-civil. Para resolver a problemática da guerra os homens pactuam entre si uma sociedadecivil, ou seja, uma instância onde podem viver em paz uns com os outros. Para garantir oobjeto do contrato, o Estado se apresenta como uma força soberana e absoluta sobre a vontadedos indivíduos (súditos), que enquanto tais estão livres apenas naquilo e tão-somente naquiloque a lei estatal, ou lei civil, permitir como liberdade. Diante disso, pode se indagar, o Estado postulado por Hobbes não é por excelência olugar do autoritarismo? A quem diga que sim. Entretanto, é necessário observarmos que opropósito do contrato social é gerar uma condição onde se possa viver em paz. A concepção de Hobbes (no século XVII), segundo a qual, em estado de natureza, osindivíduos vivem isolados e em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos ou“o homem lobo do homem”. Nesse estado, reina o medo e, principalmente, o grande medo: oda morte violenta. Para se protegerem uns dos outros, os humanos inventaram as armas ecercaram as terras que ocupavam. Essas duas atitudes são inúteis, pois sempre haverá alguémmais forte que vencerá o mais fraco e ocupará as terras cercadas. A vida não tem garantias; aposse não tem reconhecimento e, portanto, não existe; a única lei é a força do mais forte, quepode tudo quanto tenha força para conquistar e conservar. Hobbes, advertindo que o homem natural vive em guerra com seus semelhantes,conclui que a única maneira de garantir a paz consiste na delegação de um poder absoluto aosoberano.- Thomas Hobbes filósofo inglês, escreveu o livro Leviatã ( o título refere-se aomonstro bíblico, citado no livro de Jó, que governava o caos primitivo), no qual compara o 36
  • Estado a um monstro todo-poderoso, especialmente criado para acabar com a anarquia dasociedade primitiva. Segundo Hobbes, nas sociedades primitivas “o homem era o lobo dopróprio homem”, vivendo em constantes guerras e matanças, cada qual procurando garantirsua própria sobrevivência. Só havia uma solução para dar fim à brutalidade: entregar o podera um só homem, que seria o rei, para que ele governasse todos os demais, eliminando adesordem e dando segurança a todos. John Locke (1632 – 1704): filósofo inglês, considerado por muitos como o “Pai doIluminismo”. Sua principal obra é o Ensaio sobre o entendimento humano, em que afirmaque nossa mente é uma tabula rasa, sem nenhuma idéia. Tudo o que adquirimos é devido à eexperiência. Para ele, nossas primeiras idéias vêm à mente através dos sentidos. Depois,combinando e associando as primeiras idéias simples, a mente forma idéias cada vez maiscomplexas. Em resumo, todo o conhecimento humano chega ànossa mente através dos sentidos e, depois, desenvolve-se peloesforço da razão. Em termos políticos, Locke condenou oabsolutismo monárquico, revelando sua grande preocupação emproteger a liberdade individual do cidadão. Para ele, o consentimento dos homens ao aceitarem o poderdo corpo político instituído não retira seu direito de insurreição,caso haja necessidade de limitar o poder do governante. Alémdisso, o Parlamento se fortalece enquanto legítimo canal derepresentação da sociedade, e deve ter força suficiente paracontrolar os excessos do Executivo. Rousseau vai mais longe ainda, atribuindo a soberania ao “povo incorporado”, isto é aopovo enquanto corpo coletivo, capaz de decidir o que é melhor para o todo social. Com issodesenvolve a concepção radical da democracia direta, em que o cidadão é ativo, participante,fazendo ele próprio as leis nas assembléias públicas. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra na Suíça, transferindo-se para a França em 1742, onde escreveu suas grandes obras. Entre elas podemos destacar O contrato social, na qual expôs a tese de que o soberano deveria conduzir o Estado segundo a vontade geral de seu povo, sempre tendo em vista o atendimento do bem comum. Somente esse Estado, de bases democráticas, teria condições de oferecer a todos os cidadãos um regime de igualdade jurídica. Em outra de suas importantes obras, o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, Rousseau glorificou os valores da vida natural e atacou a corrupção, a avareza e os vícios da sociedade civilizada. Fez inúmeros elogios à liberdade que desfrutava o selvagem, na pureza do seu estado natural, contrapondo-se à falsidade e ao artificialismo do homem civilizado. Rousseau tornou-se célebre como defensor da pequena burguesia einspirador dos ideais que estiveram presentes na Revolução Francesa. Rousseau, na verdade, antecipa algumas das críticas que no século seguinte ossocialistas farão ao liberalismo. Denuncia a propriedade como uma das causas da origem da 37
  • desigualdade e, ao desenvolver os conceitos de vontade geral e cidadania ativa, rejeita oelitismo da tradição burguesa do seu tempo. Além disso, as teorias contratualistas se baseiam em uma concepção individualista dasociedade, o que é típico do pensamento liberal. A sociedade é compreendida como asomatória dos indivíduos, e o Estado têm por fim garantir que os interesses particularespossam coexistir em harmonia. Esta concepção será criticada pelas teorias socialistas. Apesar das diferenças, o que existe em comum nas teorias contratualistas é a ênfase nocaráter racional e laico ( não-religiosos) da origem do poder. É o próprio homem que dá oconsentimento para a instauração do poder, reafirmando assim o valor absoluto do indivíduo edo cidadão. A concepção de Rousseau (no século XVIII), segundo a qual, em estado de natureza, osindivíduos vivem isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que a Natureza lhes dá,desconhecendo lutas e comunicando-se pelo gesto, pelo grito e pelo canto, numa línguagenerosa e benevolente. Esse estado de felicidade original, no qual os humanos existem sob aforma do bom selvagem inocente, termina quando alguém cerca um terreno e diz: “É meu”. Adivisão entre o meu e o teu, isto é, a propriedade privada, dá origem ao estado de sociedade,que corresponde, agora, ao estado de natureza hobbesiano da guerra de todos contra todos. O estado de natureza de Hobbes e o estado de sociedade de Rousseau evidenciam umapercepção do social como luta entre fracos e fortes, vigorando a lei da selva ou o poder daforça. Para fazer cessar esse estado de vida ameaçador e ameaçado, os humanos decidempassar à sociedade civil, isto é, ao Estado Civil, criando o poder político e as leis. A passagem do estado de natureza à sociedade civil se dá por meio de um contratosocial, pelo qual os indivíduos renunciam à liberdade natural e à posse natural de bens,riquezas e armas e concordam em transferir a um terceiro – o soberano – o poder para criar eaplicar as leis, tornando-se autoridade política. O contrato social funda a soberania. Como é possível o contrato ou o pacto social? Qual sua legitimidade? Os teóricosinvocarão o Direito Romano – “Ninguém pode dar o que não tem e ninguém pode tirar o quenão deu” – e a Lei Régia romana – “O poder é conferido ao soberano pelo povo” – paralegitimar a teoria do contrato ou do pacto social. Parte-se do conceito de direito natural: por natureza, todo indivíduo tem direito á vida,ao que é necessário à sobrevivência de seu corpo, e à liberdade. Por natureza, todos são livres,ainda que, por natureza, uns sejam mais forte e outros mais fracos. Um contrato ou um pacto,dizia a teoria jurídica romana, só tem validade se as partes contratantes foram livres e iguais ese voluntária e livremente derem seu consentimento ao que está sendo pactuado. A teoria do direito natural garante essas duas condições para validar o contato social ouo pacto político. Se as partes contratantes possuem os mesmos direitos naturais e são livres,possuem o direito e o poder para transferir a liberdade a um terceiro, e se consentemvoluntária e livremente nisso, então dão ao soberano algo que possuem, legitimando o poderda soberania. Assim, por direito natural, os indivíduos formam a vontade livre da sociedade,voluntariamente fazem um pacto ou contrato e transferem ao soberano o poder para dirigi-los. Para Hobbes, os homens reunidos numa multidão de indivíduos, pelo pacto, passam aconstituir um corpo político, uma pessoa artificial criada pela ação humana e que se chamaEstado. Para Rousseau, os indivíduos naturais são pessoas morais, que, pelo pacto, criam avontade geral como corpo moral coletivo ou Estado. A teoria do direito natural e do contrato evidencia uma inovação de grande importância:o pensamento político já não fala em comunidade, mas em sociedade. A idéia de comunidadepressupõe um grupo humano uno, homogêneo, indiviso, que compartilha os mesmos bens, asmesmas crenças e idéias, os mesmos costumes e que possui um destino comum. 38
  • Quem é o soberano? Hobbes e Rousseau diferem na resposta a essa pergunta Para Hobbes, o soberano pode ser um rei, um grupo de aristocratas ou uma assembléiademocrática. O fundamental não é o número dos governantes, mas a determinação de quempossui o poder ou a soberania. Esta pertence de modo absoluto ao Estado, que, por meio dasinstituições públicas, tem o poder para promulgar e aplicar as leis, definir e garantir apropriedade privada e exigir obediência incondicional dos governados, desde que respeitedois direitos naturais intransferíveis: o direito à vida e à paz, pois foi por eles que o soberanofoi criado. O soberano detém a espada e a lei; os governados, a vida e a propriedade dos bens. Para Rousseau, o soberano é o povo, entendido como vontade geral, pessoa moral,coletiva, livre e corpo político de cidadãos. Os indivíduos, pelo contrato, criaram-se a simesmos como povo e é a este que transferem os direitos naturais para que sejamtransformados em direitos civis. Assim sendo, o governante não é o soberano, mas orepresentante da soberania popular. Os indivíduos aceitam perder a liberdade civil: aceitamperder a posse natural para ganhar a individualidade civil, isto é, a cidadania. Enquanto criama soberania e nela se fazem representar, são cidadãos. Enquanto se submetem às leis e àautoridade do governante que os representa chamam-se súditos. São, pois, cidadãos do Estadoe súditos das leis. A origem da desigualdade A concepção política de Rousseau estabelece uma trajetória de evolução da organizaçãosocial que difere de outros pensadores. Assim como Hobbes, Rousseau constrói uma hipótesede estado de natureza e estado civil, mas considera o "estado de guerra" hobbesiano presentena sociedade civil. O estado de natureza é apresentado como um momento de amplafelicidade humana, onde os seres humanos não tinham a necessidade de se relacionarem e nãohavia desigualdade. Este modo de vida, hipoteticamente construído para justificar suaproposta de República, teria sido destruído com a instituição da propriedade privada e dasleis. É na sociedade das instituições civis que reside a crítica de Rousseau e o fundamento desua teoria política. Entretanto, se com a razão o ser humano construiu uma civilizaçãocorrompida, é com a capacidade racional que a humanidade deverá encontrar suas soluções. Diante da constatação de que "o verdadeiro fundador da sociedade foi o primeiro que,tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoassuficientemente simples para acreditá-lo", Rousseau encontra na desigualdade humana oprincipal problema da organização política.2.5 LIBERALISMO: Liberalismo e fim do antigo regime - As idéias políticas liberais têm como pano defundo a luta contra as monarquias absolutas por direito divino dos reis, derivadas daconcepção teocrática do poder. O liberalismo consolida-se com os acontecimentos de 1789,na França, sito é, com a Revolução Francesa, que derrubou o Antigo Regime. Antigo, em primeiro lugar, porque politicamente teocrático e absolutista. Antigo, emsegundo lugar, porque socialmente fundado na idéia de hierarquia divina, natural e social e naorganização feudal, baseada no pacto de submissão dos vassalos ou súditos ao senhor. 39
  • Com as idéias de direito natural dos indivíduos e de sociedade civil (relações entreindivíduos livres e iguais por natureza), quebra-se a idéia de hierarquia. Com a idéia decontrato social (passagem da idéia de pacto de submissão à de pacto social entre indivíduoslivres e iguais), quebra-se a idéia da origem divina do poder e da justiça fundada nas virtudesdo bom governante. O término do Antigo Regime se consuma quando a teoria política consagra apropriedade privada como direito natural dos indivíduos, desfazendo a imagem do rei como“marido” da terra, senhor dos bens e riquezas do reino, decidindo segundo sua vontade e seucapricho quanto a impostos, tributos e taxas. A propriedade ou é individual e privada, ou éestatal e pública, jamais patrimônio pessoal do monarca. O poder tem a forma de um Estadorepublicano impessoal porque a decisão sobre impostos, tributos e taxas é tomada por umparlamento – o poder legislativo -, constituído pelos representantes dos proprietários privados. As teorias políticas liberais afirmam, portanto, que o indivíduo é a origem e odestinatário do poder político, nascido de um contrato social voluntário, no qual oscontratantes cedem poderes, mas não cedem sua individualidade (vida, liberdade epropriedade). O indivíduo é o cidadão. Afirmam também a existência de uma esfera de relações sociais separadas da vidaprivada e da vida política, a sociedade civil organizada, onde proprietários privados etrabalhadores criam suas organizações de classes, realizam contratos, disputam interesses eposições sem que o Estado possa aí intervir, a não ser que uma das partes lhe peça paraarbitrar os conflitos ou que um das partes aja de modo que pareça perigoso para a manutençãoda própria sociedade. Afirmam o caráter republicano do poder, isto é, o Estado é o poder público e nele osinteresses dos proprietários devem estar representados por meio do parlamento e do poderjudiciário, os representantes devem ser eleitos por seus pares. Quanto ao poder executivo, emcaso de monarquia, pode ser hereditário, mas o rei está submetido às leis como os demaissúditos. Em caso de democracia, será eleito por voto censitário, isto é, são eleitores oucidadãos plenos apenas os que possuírem uma certa renda ou riqueza. O Estado, através da lei e da força, tem poder para dominar – exigir obediência –e parareprimir – punir o que a lei defina como crime. Seu papel é a garantia da ordem pública, talcomo definida pelos proprietários privados e seus representantes. A cidadania liberal – O Estado liberal se apresenta como república representativaconstituída de três poderes: executivo (encarregado da administração dos negócios e serviçospúblicos), o legislativo (parlamento encarregado de instituir as leis) e o judiciário(magistraturas de profissionais do direito, encarregados de aplicar as leis). Possui um corpo demilitares profissionais que formam as forças armadas – exército e polícia - , encarregadas daordem interna e da defesa (ou ataque) externa. Possui também um corpo de servidores oufuncionários públicos, que formam a burocracia, encarregada de cumprir as decisões dos trêspoderes perante os cidadãos. O Estado liberal julgava inconcebível que um não-proprietário pudesse ocupar um cargode representante num dos três poderes. Ao afirmar que os cidadãos eram os homens livres eindependentes, queriam dizer com isso que eram dependentes e não-livres os que nãopossuíssem propriedade privada. Estavam excluídos do poder político, portanto, ostrabalhadores e as mulheres, isto é, a maioria da sociedade. Lutas populares intensas, desde o século XVIII até nossos dias, forçaram o Estadoliberal a tornar-se uma democracia representativa, ampliando a cidadania política. Comexceção dos Estados Unidos, onde os trabalhadores brancos foram considerados cidadãosdesde o século XVIII, nos demais países a cidadania plena e o sufrágio universal só vieram a 40
  • existir completamente no século XX, como conclusão de um longo processo em que acidadania foi sendo concedida por etapas. Não menos espantoso é o fato de que em duas das maiores potências mundiais,Inglaterra e França, as mulheres só alcançaram plena cidadania em 1946, após a SegundaGuerra Mundial. Pode-se avaliar como foi dura, penosa e lenta essa conquista popular,considerando-se que, por exemplo, os negros do sul dos Estados Unidos só se tornaramcidadão nos anos 1960. Também é importante lembrar que em países da América Latina, soba democracia liberal, os índios ficaram excluídos da cidadania e que os negros da África doSul votaram pela primeira vez em 1994. As lutas indígenas, em nosso continente, e asafricanas continuam até nossos dias. Podemos observar, portanto, que a idéia de contrato social, pelo qual os indivíduosisolados se transformam em multidão e esta se transformam em corpo político de cidadãos,não previa o direito à cidadania para todos, mas delimitava o contrato ou o pacto a uma classesocial, a dos proprietários privados ou burguesia. O MARXISMO Economista, filósofo e socialista alemão, Karl Marx nasceu em Trier em 5 de Maio de 1818 e morreu em Londres a 14 de Março de 1883. Estudou na universidade de Berlim, principalmente a filosofia hegeliana, e formou- se em Iena, em 1841, com a tese Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. Em 1842 assumiu a chefia da redação do Jornal Renano em Colônia, onde seus artigos radical-democratas irritaram as autoridades. Em 1843, mudou-se para Paris, editando em 1844 o primeiro volume dos Anais Germânico-Franceses, órgão principal dos hegelianos da esquerda. Entretanto, rompeu logo com os líderes deste movimento, Bruno Bauer e Ruge. Em 1844, conheceu em Paris Friedrich Engels,começo de uma amizade íntima durante a vida toda. Foi, no ano seguinte, expulso da França,radicando-se em Bruxelas e participando de organizações clandestinas de operários eexilados. Ao mesmo tempo em que na França estourou a revolução, em 24 de fevereiro de1848, Marx e Engels publicaram o folheto O Manifesto Comunista, primeiro esboço da teoriarevolucionária que, mais tarde, seria chamada marxista. Voltou para Paris, mas assumiu logoa chefia do Novo Jornal Renano em colônia, primeiro jornal diário francamente socialista. Depois da derrota de todos os movimentos revolucionários na Europa e o fechamentodo jornal, cujos redatores foram denunciados e processados, Marx foi para Paris e daíexpulso, para Londres, onde fixou residência. Em Londres, dedicou-se a vastos estudoseconômicos e históricos, sendo freqüentador assíduo da sala de leituras do British Museum.Escrevia artigos para jornais norte-americanos, sobre política exterior, mas sua situaçãomaterial esteve sempre muito precária. Foi generosamente ajudado por Engels, que vivia emManchester em boas condições financeiras. Em 1864, Marx foi co-fundador da Associação Internacional dos Operários, depoischamada I Internacional, desempenhando dominante papel de direção. Em 1867 publicou oprimeiro volume da sua obra principal, O Capital. Dentro da I Internacional encontrou Marx 41
  • a oposição tenaz dos anarquistas, liderados por Bakunin, e em 1872, no Congresso de Haia, aassociação foi praticamente dissolvida. Em compensação, Marx podia patrocinar a fundação,em 1875, do Partido Social-Democrático alemão, que foi, porém, logo depois, proibido. Nãoviveu bastante para assistir às vitórias eleitorais deste partido e de outros agrupamentossocialistas da Europa. A teoria marxista é, substancialmente, uma crítica radical das sociedades capitalistas.Mas é uma crítica que não se limita a teoria em si. Marx, aliás, se posiciona contra qualquerseparação drástica entre teoria e prática, entre pensamento e realidade, porque essasdimensões são abstrações mentais (categorias analíticas) que, no plano concreto, real,integram uma mesma totalidade complexa. O marxismo constitui-se como a concepção materialista da História, longe de qualquertipo de determinismo, mas compreendendo a predominância da materialidade sobre a idéia,sendo esta possível somente com o desenvolvimento daquela, e a compreensão das coisas emseu movimento, em sua inter-determinação, que é a dialética. Portanto, não é possívelentender os conceitos marxianos como forças produtivas, capital, entre outros, sem levar emconta o processo histórico, pois não são conceitos abstratos e sim uma abstração do real, tendocomo pressuposto que o real é movimento. Karl Marx compreende o trabalho como atividade fundante da humanidade. E otrabalho, sendo a centralidade da atividade humana, se desenvolve socialmente, sendo ohomem um ser social. Sendo os homens seres sociais, a História, isto é, suas relações deprodução e suas relações sociais fundam todo processo de formação da humanidade. Estacompreensão e concepção do homem é radicalmente revolucionária em todos os sentidos, poisé a partir dela que Marx irá identificar a alienação do trabalho como a alienação fundante dasdemais. E com esta base filosófica é que Marx compreende todas as demais ciências, tendosua compreensão do real influenciado cada dia mais a ciência por sua consistência. A crítica da economia política consiste, justamente, em mostrar que, apesar dasafirmações greco-romanas e liberais de separação entre a esfera privada da propriedade e aesfera pública do poder, a política jamais conseguiu realizar a diferença entre ambas. Nempoderia. o poder político sempre foi a maneira legal e jurídica pela qual a classeeconomicamente dominante de uma sociedade manteve seu domínio. O aparato legal ejurídico apenas dissimula o essencial: que o poder político existe como poderio doseconomicamente poderosos para servir seus interesses e privilégios e garantir-lhes adominação social. Divididas entre proprietários e não-proprietários (trabalhadores livres,escravos, servos), as sociedades jamais foram comunidades de iguais e jamais permitiram queo poder político fosse compartilhado com os não-proprietários. Marx indaga: O que é a Sociedade Civil? E responde: Não é a manifestação de umaordem natural racional nem o aglomerado conflitante de indivíduos, famílias, grupos ecorporações, cujos interesses antagônicos serão conciliados pelo contrato social, queinstituiria a ação reguladora e ordenadora do Estado, expressão do interesse e da vontadegerais. A sociedade civil é o sistema de relações sociais que organiza a produção econômica(agricultura, indústria e o comércio), realizando-se através de instituições sociais encarregadasde reproduzi-lo (família, igrejas, escolas, polícia, partidos políticos, meios de comunicação,etc.) É o espaço onde as relações sociais e suas formas econômicas e institucionais sãopensadas, interpretadas e representadas por um conjunto de idéias morais, religiosas, jurídicas,pedagógicas, artísticas, científico-filosóficas e políticas. A Sociedade Civil é o processo de constituição e reposição das condições materiais daprodução econômica pelas quais são engendradas as classes sociais: os proprietários privadosdos meios de produção e os trabalhadores ou não-proprietários, que vendem sua força detrabalho como mercadoria submetida à lei da oferta e da procura no mercado de mão-de-obra. 42
  • Essas classes sociais são antagônicas e seus conflitos revelam uma contradição profunda entreos interesses irreconciliáveis de cada uma delas, isto é, a sociedade civil se realiza como lutade classes. O que é, porém, o Estado? - Longe de diferenciar-se da sociedade civil e de separar-sedela, longe de ser a expressão da vontade geral e do interesse geral, o Estado é a expressãolegal – jurídica e policial – dos interesses de uma classe social particular, a classe dosproprietários privados dos meios de produção ou classe dominante. E o Estado não é umaimposição divina aos homens, nem é o resultado de um pacto ou contrato social, mas é amaneira pela qual a classe dominante de uma época e de uma sociedade determinadas garanteseus interesses e sua dominação sobre o todo social. O Estado é a expressão política da luta econômico-social das classes, amortecida peloaparato da ordem (jurídica) e da força pública (policial e militar). Não é, mas aparece comoum poder público distante e separado da sociedade civil. Não por acaso, o liberalismo define oEstado como garantidor do direito de propriedade privada e, não por acaso, reduz a cidadaniaaos direitos dos proprietários privados (a ampliação da cidadania foi fruto de lutas popularescontra as idéias e práticas liberais). A economia, portanto, jamais deixou de ser política. Simplesmente, no capitalismo, ovínculo interno e necessário entre economia e política tornou-se evidente. No entanto, se perguntarmos às pessoas que vivem no Estado liberal capitalista se, paraelas, é evidente tal vínculo, certamente dirão que não. Por que o vínculo interno entre o podereconômico e o poder político permanece invisível aos olhos da maioria? Marx faz duas indagações:1. Como surgiu o Estado? Isto é, como os homens passaram da submissão ao poder pessoal visível de um senhor à obediência ao poder impessoal invisível de um Estado?2. Por que o vínculo entre o poder econômico e o poder político não é percebido pela sociedade e, sobretudo, por que não é percebido pelos que não têm poder econômico nem político? Gênese da sociedade e do Estado – Dissemos que Marx indaga como os homenspassaram da submissão ao poder pessoal de um senhor à obediência do poder impessoal doEstado. Para responder a essa questão, é preciso desvendar a gênese do Estado. Os seres humanos escrevem Marx e Engels, distinguem-se dos animais não porquesejam dotados de consciência –animais racionais – nem porque sejam naturalmente sociáveise políticos – animais políticos -, mas porque são capazes de produzir as condições de suaexistência material e intelectual. Os seres humanos são produtores: são o que produzem e sãocomo produzem. A produção das condições materiais e intelectuais da existência não é escolhidalivremente pelos seres humanos, mas estão dadas objetivamente, independentemente de nossavontade. Eis por que Marx diz que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem emcondições escolhidas por eles. São historicamente determinados pelas condições em queproduzem suas vidas. A produção material intelectual da existência humana depende de condições naturais (asdo meio ambiente e as biológicas da espécie humana) e da procriação. Esta não é apenas umdado biológico (a diferença sexual necessária para a reprodução), mas já é social, pois decorreda maneira como se dá o intercâmbio e a cooperação entre os humanos e do modo como ésimbolizada psicológica e culturalmente a diferença dos sexos. Por seu turno, a maneira comoos humanos interpretam e realizam a diferença sexual determina o modo como farão a divisãosocial do trabalho, distinguindo trabalhos masculinos, femininos, infantis e de velhice. 43
  • As relações sociais de produção não são responsáveis apenas pela gênese da sociedade,mas também pela do Estado, que Marx designa como superestrutura jurídica e política,correspondente à estrutura econômica da sociedade. Qual a gênese do Estado? Conflitos entre proprietários privados dos meios de produçãoe contradições entre eles e os não-proprietários (escravos, servos, trabalhadores livres). Osconflitos entre proprietários e as contradições entre proprietários e não-proprietários aparecempara a consciência social sob a forma de conflitos e contradições entre interesse particulares eo interesse geral. Aparecem dessa maneira, mas não são realmente como aparecem. Em outraspalavras, onde há propriedade privada, há interesse privado e não pode haver interessecoletivo ou geral.Vamos refletir:Leia o fragmento abaixo, de Karl Marx:“Com o próprio funcionamento, o processo capitalista de produção reproduz, portanto, aseparação entre a força de trabalho e as condições de trabalho, perpetuando, assim, ascondições de exploração do trabalhador. Compele sempre o trabalhador a vender sua força detrabalho para viver, e capacita sempre o capitalista a comprá-la. MARX, K. O capital, Livro I,O processo de produção do Capital [Vol. II].”De acordo com o filósofo alemão, a condição do trabalhador na economia capitalista clássicaé:I . de realização plena da sua capacidade produtiva, alcançando a autonomia financeira e asatisfação dos valores existenciais tão almejados pela humanidade, desde os primórdios dahistória.II . de alienação, pois os trabalhadores possuem apenas sua capacidade de trabalhar, que évendida ao capitalista em troca do salário, por isso, a produção não pertence ao trabalhador,sendo-lhe estranha.III . de superação da sua condição de ser natural para tornar-se ser social, liberto graças àdivisão do trabalho, que lhe permite o desenvolvimento completo de suas habilidades naturaisna fábrica.IV . de coisa, isto é, o trabalhador é reificado, tornando-se mercadoria, cujo preço é o salário,ao passo que as coisas produzidas pelo trabalhador, na ótica capitalista, parecem dotadas deexistência própria.Assinale a alternativa que apresenta as assertivas corretas.A) II e IVB) I e IIC) II e IIID) III e IV 44
  • Analise a seguinte charge ao lado: O que será que Mafalda quis dizer com isso? Explique conforme o que você entendeu? ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________ ____________________________Conforme a charge à direita e aos conteúdos jáestudados responda: a) Para você é certo dizer que existe igualdade entre os homens?_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ b) Em que sentido os homens podem ser considerados iguais ou não? Dê exemplos:_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ c) Analise o seguinte fragmento: “O modo de produção escravista é decorrência doaumento da produção além do necessário à subsistência e exige o recurso a novas forças detrabalho, conseguidas geralmente entre prisioneiros de guerra, transformados em escravos.Com isso surge propriamente a propriedade privada dos meios de produção, e a primeiraforam de exploração do homem pelo homem com a conseqüente contradição entre senhores eescravos. Dá-se então a separação entre trabalho intelectual e trabalho manual.” 45
  • Responda: Essa forma “desigual” de meios de trabalho pode ser vista como um malnecessário? Como essa situação é vista pela sociedade atual, de acordo com o seu ponto devista?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________REFERÊNCIAS:ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.ARANHA & MARTINS. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos. Apud História do Pensamento, v.1, p. 97, s/d.BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola, et.al. Dicionário de Política. Vol. 1, 5ªed.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000._______________ & BOVERO, Michelangelo (org.). Teoria Geral da Política: A FilosofiaPolítica e a lição dos clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: Ática, 2001.COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2002.GAARDENER, Jostein. O mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.LAW, Stephen. Guia Ilustrado Zahar: Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.MARX, Karl. Livro I: O processo de produção do Capital. Tradução de ReginaldoSant’Anna. 11ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1987. 46