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Claraboia, na visão do autor, o segundo romance, mas nunca foi publicado,apenas póstumo no ano de 2011). Mas é em Ano da M...
bíblico e acusado, réu sem nenhuma defesa contra o assassinato de Abel,humanizando a figura do primeiro assassino com o di...
mais explicado, é incompreendido. As razões deste talvez, o poeta maisclássico de Fernando Pessoa, não surtem o menor efei...
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ateus e comunistas, se estivesse ao ouvido dos pensamentos de Clarice,embora ao viés é sim um pensamento subjetivo, talvez...
mercado literário, sendo levada a uma viagem que não pertencia, e ao final,ainda consegue voltar para onde veio, isto é, s...
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Ensaio sobre as vírgulas

  1. 1. Ensaio Sobre as Vírgulas de P.P.F. Simões“Uma reflexão sobre a obra saramaguiana num contexto contemporâneo.” José de Sousa Saramago, nascido em 16 de Novembro de 1922, o únicoescritor de língua portuguesa a ser contemplado com o prêmio Nobel deLiteratura, teve sim, uma vida completamente diferente de tantos outrosescritores. Eram oras escritores que freqüentavam círculos acadêmicos ouartísticos, oras outros que trabalhavam com tradução ou eram editores,pertenciam exclusivamente a classes bem vividas, ou jovens escritores quequeriam viver financeiramente de literatura. Para ilustrar esta circunstância,teríamos uma infinidade de exemplos (Marcel Proust, Milton Hatoum, Machadode Assis, Gabriel Garcia Marques entre outros). Não obstante, este diferencialna vida de José Saramago, netos de avós analfabetos, que passou a suainfância inteira no campo de terras portuguesas em Azinhaga, escutando ocuinchar dos porcos, não seria de se dizer que não houve influência destepassado, como diria mais tarde em As Pequenas Memórias, na epígrafe,“Deixa-te levar pela criança que foste”. A vivência cultural de Saramago eranem um pouco abrangente ainda quando atingia a fase adulta de vida, quandofreqüentava as bibliotecas e vasculhava os livros sem algum mediador ouprofessor ao lado, chegando ao ponto de imaginar que Ricardo Reis, realmentetivesse vivido e sido um poeta melhor do que o outro, e o “outro” era FernandoPessoa; (está ai, talvez uma premissa ou pressuposto, se é que Saramagoentedia a literatura como desta maneira mais conceitual, assunto que seráabordado mais tarde); outrossim, eram estes devaneios que resultaram num deseus melhores livros, quando se diz sobretudo pela forma espontânea,aprofundada e arguta de como usa os léxicos, o corpo e a estruturação dotexto e cria um relato definitivamente cativante que é o livro O Ano da Morte deRicardo Reis, o livro que lhe fez conhecer Pilar, sua esposa até o leito demorte; que por ventura também o mudou como escritor. Neste quinto livro de Saramago, anteriores seriam Terra do Pecado (Aviúva); Manual de Pintura e Caligrafia (reeditado em 1984); Levantando doChão (o romance que lhe dá notoriedade nacional) e; Memorial do Convento, oromance que lhe dá notoriedade internacional como um exímio escritor (E
  2. 2. Claraboia, na visão do autor, o segundo romance, mas nunca foi publicado,apenas póstumo no ano de 2011). Mas é em Ano da Morte de Ricardo Reisque o escritor demonstra um texto não apenas vibrante. Mas sim, ficcional, deautoria, com uma voz bem conhecida literariamente, com um estiloaprofundado. E eis, que em toda a história da literatura, existem dois tipos deescritores, àqueles que são dominados por um estilo, e os que dominam oestilo que criaram. Saramago, obviamente, com este livro já demonstrava oquanto era capaz de dar vida, mesmo sem precisar dos “travessões”, com asvírgulas recriava um mundo, dava imaginação intrínseca num texto quehibridamente transpassava uma linha tênue entre o clássico e ocontemporâneo. Pelo contemporâneo, o estilo pós-modernista, que criavaraízes numa história da literatura como priori, dialogava com o social,intercalava e dialogava com estilos, e pelo clássico, por aprimorar um estilobarroco, de vírgulas, textos fortes, com referências ao teatro grego (Porexemplo, quando não intitula seus personagens: Soldado, mulher do médico,etecetera) e das poesias ditas em praças públicas, que o discurso era asoberania de um texto, o jogo de palavras líricas. Saramago fez um texto dediálogo, sua narrativa passa a idéia de um escritor dizendo para o leitor em vozalta, o que tem total relação com os textos líricos (Mas no caso a línguaportuguesa como trabalho fonético de leitura). Outra constante que demonstra isto, é o fato de como Saramago optavárias vezes por recriar uma história, ou aprimorar algo que não écompletamente contato. Temos alguns exemplos, História do Cerco de Lisboa,ao refletir sobre pormenores históricos referentes a história-cultural de seupaís, demonstrando a tantas leitores o quanto amava Portugal (E não comofora acusado inúmeras vezes, indo se refugiar em Lanzarote), ademaisdemonstrando o quanto um simples “Não”, poderia mudar a história de umpaís, dar uma nova visão ou sobretudo, estimular a uma reflexão. Um “Não”,que também pode ser entendido metaforicamente, como se dissesse para nós,Diga Não para aquilo que sempre fora dito Sim; A Caverna, refletindo sobre aAlegoria da Caverna de Platão numa nuança, com uma atmosferacontemporânea, numa crítica voraz ao capitalismo, talvez este uma dasmaiores preocupações do autor; temos também Caim, recriando uma versãoprópria sobre como enxergava a bíblia, dando uma voz ao primeiro assassino
  3. 3. bíblico e acusado, réu sem nenhuma defesa contra o assassinato de Abel,humanizando a figura do primeiro assassino com o disser “Que diabos de deusé este que para enaltecer um filho despreza o outro.” (Talvez este, de todos osromances, o mais fraco); e, o bem mais desenvolvido O Evangelho SegundoJesus Cristo, uma perfeita alusão aos outros Evangelhos: Mateus, Marcos,João e Lucas, como se no fundo, faltasse algo, algo contado pela própriapersona que sempre fora narrada, Jesus Cristo. Sobretudo pertinênciahermenêutica ao autor que também reflete acirradamente em Ricardo Reis. Este heterônimo de Fernando Pessoa, assim como Álvaro Campos, não háregistro de Fernando Pessoa sobre as mortes destes dois heterônimos. O “ILsommo poeta” Pessoa morreu sem dar cabo a este assunto sem qualquerexplicação, talvez cansara, nem dera tempo, restaram as suposições que paraSaramago fizeram o maior sentido e então, com homenagem a sua falta deconhecimento daquele época em que imaginava ser Ricardo Reis uma pessoade fato, como homenagem a um de seus preferidos escritores, (leitor assíduode Pessoa, assim como de Joyce, Proust, Tolstoi e, Almeida Garrett umescritor do romantismo português), resolveu parabenizar com um relato e o anoem que Ricardo supostamente morreria, que logo dito, é a grande metáfora detodo o livro. Não é o poeta que morre, e sim, como dizia na epígrafe destememorável livro “Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo”,e Ricardo vem do Brasil à Lisboa justamente anos antecessores ao fascismoque assolaria Portugal, Espanha e se desencadearia em tantos outros países,como na Itália. O poeta, a pessoa de Ricardo Reis, não consegue mais compreenderaquele mundo. Não sente nenhuma vontade em voltar a ter sua própria clínicahospitalar, o desejo de exercer a profissão foi embora junto com a capacidadede voltar e se reconhecer como um cidadão Português, paradoxalmente, sentevontade de conhecer melhor uma senhorita maneta que freqüenta o mesmohotel em que ele se hospeda mas há o temor para isto, e tem conversas comFernando Pessoa que surge em momentos inesperados, mesmo depois que olegitimo poeta morrera, aprofundando conceitos de meta-texto e meta-linguagem. “O tempo tem melhorado, o mundo é que vai a pior” (pag. 262), Ricardonão sente mais a poesia ganhar vida ao explicar o mundo, o mundo já não é
  4. 4. mais explicado, é incompreendido. As razões deste talvez, o poeta maisclássico de Fernando Pessoa, não surtem o menor efeito e nem as emoçõesconseguem ir de encontro aos problemas da sociedade. “O Autor da Mensagem (poesia nacionalista de Fernando Pessoa) morrerano dia trinta de Novembro próximo, de cólica hepática, talvez fosse ao médicoe deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber odobro, para poder morrer antes. Ricardo Reis baixa o jornal” (pag. 49);ambiguidade capaz de explicar ou exemplificar a crise existencialista que paírasobre o poeta mais clássico de Pessoa. A vida que o texto ganha, adquirindo inclusive nos diálogos entre FernandoPessoa e Ricardo Reis, demonstra o quanto o autor conhecia este, o maiorpoeta português desde Camões. Sem ter nenhuma mediação, nenhumprofessor e ninguém que lhe auxilia-se, apenas uma única pessoa quedissesse a Saramago, Vê àquele livro, ao lado de Fernando Pessoa na estante,é o próprio, Ricardo Reis é um heterônimo; mudaria tudo, mudaria como cadapersona neste livro parece ter sua própria personalidade. Não que Saramagotenha dado vida a Ricardo Reis, ele já tinha, para isto o Poeta já tinha lhecriado quando escrevia seus versos, o fato é que a visão saramaguiana fazuma releitura, um trabalho de arqueologia com as letras. Se O Ano da Morte de Ricardo Reis foi então, um livro homenagem que oautor Saramago elucidou com enorme precisão, arquitetando umapersonalidade em cada persona, então, o seu livro pós-Ensaio Sobre aCegueira, o livro Todos os Nomes, é, algo que a priori o remetia a infância quetivera em que, estava barrada numa burocracia já por assim dizer, arcaica,contra a humanização do homem. Definitivamente muitos escritores passaram por um período de inatividadeapós serem contemplados com o prêmio Nobel, outros escreviam mas emmenos quantidade; os motivos seriam então preenchidos pelas suposições;mas um fato é claro em Saramago, até a sua morte sempre floresceu umaimpetuosa vontade veemente de continuar a escrever, com um vigor deadolescente, lança livro atrás de livro (Quase como um Woddy Allen, lançandomaterial anos após ano), Saramago não cessa e no ano de 1997, um ano apóso Ensaio Sobre a Cegueira, um ano antes de ser contemplado com o prêmioNobel, é então lançado um de seus mais brilhantes livros quando se diz em
  5. 5. caráter psicológico com um personagem cativante e uma alusão perfeita aolabirinto borgiano, com o fio de Ariadne dentro dum escritório público em lidarcom os nomes dos mortos, em que o ser humano, se perde, não se encontra,resultando numa exímia reflexão de quão estamos vivendo e construindo paranossos próprios labirintos contemporâneos e a partir disto, a cuidar destesnomes sem fim, sem solução, nomes esquecidos que um certo rapaz,simplesmente sem motivos cabíveis, contempla o nome de uma simplesmulher. O seu hobbie?, colecionar fotos de pessoas famosas que logo perdemvez por um fascínio aflorado, um fascínio hermético. E começa numa buscaintangível e quase doente de uma pessoa desconhecida simplesmente porquese interessara pelo seu nome. Para isto comete delitos, invadindo escolas,repartições públicas, o humano vai se revelando ao próprio humano e com aepígrafe "Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens",encabexa a grande metáfora de todo o livro. Ademais, deve ser dito também, que pela maneira aprofundada que oprotagonista é encurralado neste relato, há sim, uma demasiada influencia desua própria vida. Ainda na infância, quando seu irmão menor falecera e nãosouberam o dia exato de sua morte ou de seu enterro. Quando mais tardeSaramago se interessou pelo assunto, coube a ele a tarefa de buscar nasbibliotecas e repartições por este “Nome”, tentando decifrar o que acontecerade fato, com todo este processo burocrático que se torna o nosso labirintocontemporâneo. Assim com a infância, Saramago mudou como escritor, intelectualizou oque já estava intelectualizado, amadureceu algo já praticamente completo,provando que a arte, a literatura nunca tem um fim, ad infinitum continuamente.Foi um antes e outro depois de Pilar del Rio. Os seus livros começam a surgir,isto depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis, com personagens femininasmuito bem tratadas, argutas, talvez uma versão da própria esposa, sãopersonagens abnegadas, idealistas, que não poupam esforços para manteracima de tudo, aquilo que acreditam, em prol dum objetivo maior. Vide Amulher do médico, as mulheres de Jangada de Pedra, as mulheres de Todosos Nomes, as mulheres de Ensaio Sobre a Lucidez, as mulheres de a Cavernae assim por diante; não que devam ser consideradas personas feministasporque de fato não são. Mas talvez a maior mudança, dita até no filme José &
  6. 6. Pilar, é quando os dois estão conversando e ele diz para Pilar, “Vem cá Pilar,tenho algo bonito a dizer, o que é mais importante a literatura ou a vida,responde Pilar sem dar tempo a resposta, “A vida”. Saramago não seria oescritor que se tornou sem Pilar, sua companheira, amiga, esposa e colega detrabalho. Não é nenhuma mentira, especialmente neste mundo literário atual,rodeado por regras de editores, consultores e ghost writer, de que Saramagoquis optar por ser um escritor seguindo pelo caminho mais difícil. Se outroraDostoievsky levava o homem as suas últimas consequências dentro dasociedade, Saramago faz o mesmo com as metáforas, criando histórias forados padrões atuais mercadológicos. Exemplificando, cria metáforas indo até asúltimas consequências, metáforas que não são fáceis de serem entendíveis emuito menos o escritor se faz para ser compreendido, como praxe e discursoSaramaguiano, ele dizia, Nunca um escritor deve mudar sua literatura para sermais facilmente entendido pelo público, o público que se esforço em entender,se quiser (Em entrevista ao Correio da Manhã). Obviamente esteamadurecimento literário só ocorreu depois de tantas frustrações em escrevere publicar. Com o primeiro livro viera a frustração e ter que mudar o título, como segundo (Claraboia), nunca publicado, viera a frustração em saber que seulivro foi esquecido num departamento da editoria em que, fora-lhe prometidopublicar, e isto aos trinta anos de idade, o que o fez afastar-se da literatura;Mas não parar de escrever, para a nossa sorte. Talvez a maior crítica a ser feita sobre Saramago, e talvez não as suasobras, é o fato de ele não seguir um dito tupiniquim de uma escritora chamadaClarice Lispector que disse em sua única entrevista “A função do escritor é falarpouco” (Clarice nunca disse isto a ninguém ou a alguém, disse a si própria). Defato, Clarice com um contexto de vida completamente diferente, autora de umdos romances mais importantes da literatura contemporânea brasileira, A Horada Estrela e Maça no Escuro, tinha seus porquês ao mencionar isto, além dofato de ser uma persona hermética. Só que Saramago ficou conhecido maispelos seus discursos e entrevistas do que seus livros, por assim dizer.Infelizmente, especificando, muitas pessoas o conheceram por seus discursos
  7. 7. ateus e comunistas, se estivesse ao ouvido dos pensamentos de Clarice,embora ao viés é sim um pensamento subjetivo, talvez as pessoas, o públicoem geral, não teria jamais associado o escritor as estas questões. Até porque éum escritor de fato amadurecido consigo próprio e com sua literatura,obviamente seus livros não se resumem ou apenas englobam assuntos ateusou comunistas, o que leva ao grande público assimilá-lo de uma maneiradiferenciada antes de conhecê-lo, isto é, adquirem um preconceito. Fato quejamais também, por outro lado, descaracterizava a sua literatura, Saramagonão fazia questão de ser, ou de aparecer, apenas demonstrava suas opiniõese, sua literatura, sem dúvida, é muito mais rica do que seus discursos, como jápensava seu grande amigo-irmão Gabriel Garcia Marques que recusava-se adar entrevistas ou proferir palestras por dois motivos, a timidez que sempre oacompanhara ou, temendo que as palestras não fossem congruentes aos seusromances. Mas para Saramago a função do escritor é escrever, e como cidadão se viano direito de intervir na sociedade assim que achava pertinente, a própriafundação de Saramago, com o intuito de divulgar literatura do escritor pelomundo visava questões de estrema importância social, tanto dentro de Portugalcomo fora; com um conceito extremamente pertinente as artescontemporâneas que é, a literatura não tem mais poder sobre as mudanças dasociedade, como se acreditava durante séculos, de que com a literatura, amúsica, o teatro, as artes em geral, eram cabíveis de mudanças sociais (Vide apeça de teatro grega, As Troianas), o que a literatura faz, na concepçãosaramaguiana, é refletir e dá reflexão quem sabe mudar, pelo menos eu queestou a refletir, assim pensava Saramago que ressaltava, não haver objetivo naliteratura. Livros não serviriam para absolutamente nada. Reflexões que surgem em então o seu último grande romance Viagem doElefante (Caim é o último, mas é um texto fraco, sem o melhor da narrativa doautor), um livro que resgata não apenas um paralelo histórico do autor e sim,um poder de narrativa tão impressionante quanto os primeiros livros. Primeiro de tudo, há de sabermos que este livro possui duas interpretaçõespertinentes que estariam corretas. A primeira, o Elefante é o próprio Saramago,que se vê no dilema de interesses, conflitos sociais e políticas, interesses do
  8. 8. mercado literário, sendo levada a uma viagem que não pertencia, e ao final,ainda consegue voltar para onde veio, isto é, ser quem deveria ser. A segunda, simples, é uma fábula de fato, e como tal, o elefante é o própriohomem contemporâneo, carregado por interesses políticos, religiosos, umhomem então como o elefante, que não pensa, não fala, não age, apenas estásucumbido a viagem que no caminho haverá a guerra, a fome, as desgraça,haverá um padre usando o elefante para ludibriar um povo, dizendo que hámilagre de deus. O elefante estará no meio do conflito entre os cristãos e oshindus. O elefante será considerada um encosto na vida daqueles que ocercam. E será, ademais, usado como um presente dum rei ao outro. Certamente as duas visões estão corretas. O elefante é um resgate dopróprio autor consigo próprio e com o mundo que lho cerca, não seriamoscapazes de fazer nada além do que pensar e até mesmo a nossa maneira depensar estaria corrompida. Metáforas não faltariam na literatura saramaguiana. Em intermitências daMorte, vemos a morte se apaixonando pela vida e a vida pela morte, emJangada de Pedra o choque cultural dum mundo que não consegue viver aosentendimentos, em Ensaio Sobre a Lucidez, o voto nulo branco como ponto departida para se criar a democracia. Saramago, além disto, era um exímio leitor voraz. Partia da máxima, faleum escritor e Saramago conhecerá. Desde literatura portuguesa até as maisdistantes de seu país natal, fato comprovado quando se olha o acervo deixadopor ele na biblioteca em Lanzarote aberta ainda hoje para visitas. O seu legado é indiscutível e pode-se dizer talvez o mais importanteescritor, no mundo, das últimas décadas, escritor dito como “polêmico”, xingadoacirradamente pelos próprios portugueses várias vezes, mesmo depois de seuóbito quando as pessoas mandavam cartas para Pilar dizendo, Foi tarde, Vaiqueimar no inferno. Entrementes foi um escritor que só escrevia no que de fato acreditava, viviae pensava sobre literatura com o seu comentário que fecha este ensaio, talvezo comentário mais reflexivo congruente a literatura saramaguiana, “Eu escrevopara entender o meu pensamento”. P.P.F.S. 06/10/2011

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