Teatro como experiência

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Trabalho apresentado no Simpósio de História Cultural da ANPUH, Goiânia, 2008.

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Teatro como experiência

  1. 1. Teatro como experiência: reflexões a partir do espaço entre palco e platéia Taís Ferreira ( [email_address] ) Universidade Federal de Santa Maria/ RS IV Simpósio de História Cultural UCG/ Goiânia Outubro de 2008
  2. 2. Teatro: experiência? <ul><li>O teatro acontece no espaço entre : entre o palco e a platéia, entre os atores e os espectadores; sem entes passivos, atores e espectadores enquanto atuantes. A partir deste pressuposto e do conceito de experiência forjado por Jorge Larrosa em diversas de suas obras, segundo o qual a experiência é aquilo que nos atravessa, não aquilo que apenas nos tangencia, deixando em nós, portanto, rastros e marcas que nos constituirão, desenvolvo, neste trabalho, reflexões acerca da recepção teatral enquanto experiência. Para tanto, faço uso de exemplos construídos junto à pesquisa empírica realizada com um grupo de crianças espectadoras. </li></ul>
  3. 3. Teatro: experiência? <ul><li>Por não se caracterizar enquanto uma efeméride cotidiana e banal, a relação com o teatral abre uma brecha para que possa acontecer algo aos espectadores , para que se torne experiência a posicionalidade de espectador de teatro. </li></ul><ul><li>Experiência: a possibilidade de que algo nos aconteça, de que algo nos toque; somente através da quebra da temporalidade acelerada, da hiperatividade, da ultra-informação e da super-estimulação, das opiniões transbordantes. Espaço que necessita do silêncio, da calma, da contemplação, da suspensão, da exposição. O teatro infantil nem sempre se aproxima destas qualidades; muito pelo contrário, vai ao encontro do ritmo frenético das sociedades digitais de controle. Ainda assim, percebo o teatro enquanto um espaço em que o contato com “outros mundos”, o extracotidiano e o espetacular potencializam a possibilidade da experiência. Por isso, penso as vivências das crianças espectadoras com o teatro enquanto experiências possíveis. </li></ul>
  4. 4. Teatro: experiência? <ul><li>“ O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião” (LARROSA, 2002, p. 25). Parece-me o fazer teatro experienciado pelos atores muito semelhante ao que Larrosa entende como o sujeito da experiência. Por que não poderia assemelhar-se ao construir teatro do lugar de espectador (lugar este imprescindível à existência do teatral)? Também o espectador deve lançar-se em um espaço desconhecido para que, enfim, aconteça o teatral . Permitindo-me a analogia ao que diz Larrosa (1996) acerca da experiência da leitura, ou melhor, da leitura quando experiência, posso pensar que, embora não tome neste trabalho o espectador enquanto leitor e sim como co-autor, tanto no teatro como na leitura, “ler, quando acontece de verdade, é fazer vulnerável o centro mesmo de nossa identidade”, pois “não há leitura se não há este movimento em que algo, às vezes de forma violenta, vulnera o que somos e o põe em questão” (LARROSA, 1996, p. 64). </li></ul>
  5. 5. Perguntas: <ul><li>Como, então, posso pensar a relação entre crianças espectadoras e o teatro linguagem enquanto experiência? Deixa rastros e marcas este contato efêmero e esporádico? Atravessa estas crianças algum tipo de experiência enquanto espectadores co-autores de teatro? E mais ainda: que outras tantas experiências vão ser determinantes na constituição desta experiência específica que aqui é meu interesse central, a das crianças em relação com o teatro linguagem? </li></ul>
  6. 6. I-ma-gi-na-ção! <ul><li>Crianças realizam corporalmente a cena em que o Palhaço e a Joaninha “brincam de aviãozinho”, ou seja, são o próprio avião. </li></ul>
  7. 7. I-ma-gi-na-ção! <ul><li>Crianças reproduzem a cena em que a Joaninha e o Palhaço “brincam de dirigir”. </li></ul><ul><li>“ Teatro é diferente da televisão porque na televisão eles gravam e no teatro não: eles se vestem, andam no palco e... apresentam” </li></ul><ul><li>(Maíra, 5 anos). </li></ul>
  8. 8. Ação!!! <ul><li>Meninos reproduzem cena em que Léo espanca o Palhaço. </li></ul>
  9. 9. (Re)conhecimento de características da linguagem teatral pelas crianças espectadoras: <ul><li>Conhecimento e diferenciação de gêneros e estilos em diferentes linguagens. </li></ul><ul><li>Percepção da provisoriedade, efemeridade e potencialidade improvisacional do teatro. </li></ul><ul><li>Necessidade de trabalho e elaboração prévia na construção de um espetáculo, modelos de uma “boa interpretação”. </li></ul><ul><li>Existência da máscara, de personagens (diferentes dos atores) envolvidos em ações e uma trama narrativa. </li></ul><ul><li>(Quase) silenciamento em relação aos processos de criação através do teatro. </li></ul>
  10. 10. Narrando as experiências com o teatro... <ul><li>Teatro para mim é uma grande e divertida comédia e com ficção e também gosto de comédia com tristeza eu adoro teatro gosto de uma comédia com muitas pessoas um cenário com mecanismos e criatividade e alegria . </li></ul><ul><li>(Juliana, 8 anos) </li></ul><ul><li>Teatro é pessoas que fazem parte de um grupo que participam de brincadeiras se vestem de várias maneiras fazem coisas engraçadas tristes e até coisas alegres. Teatro para mim é isso e muito mais </li></ul><ul><li>(Patrício, 8 anos) </li></ul><ul><li>Teatro é muito legal a gente aprende se diverte e o melhor de tudo fica alegre quando falam em teatro penso só em coisas boas. Gosto muito de teatro. Gosto de teatro por que é legal e engraçado: Porque tem Comédia Interpretação Aventuras Agilidade. </li></ul><ul><li>(Karina, 9 anos) </li></ul><ul><li>Muitas risada a interpretação de desenhos comédia e histórias emocionantes como Romeu e Julieta e Titanic Teatro é uma coisa que eu não consigo explicar porque cada teatro é diferente um do outro. Uns teatros mostram tristeza e outros alegria enfim teatro é tudo isso e muito mais. Fim </li></ul><ul><li>(Amanda, 9 anos) </li></ul>
  11. 11. Perguntando para finalizar: Por que escrever a experiência? <ul><li>Por que escrever a experiência? Pensar, refletir a experiência? É factível narrá-la? Não seria inútil dedicar-se à impossível tarefa de apreensão daquilo que não nos pertence? Àquela experiência (ainda) que envolve os “outros maléficos”, os enigmas indecifráveis? Que dizer, então, da quase impossibilidade também de apre(e)ndermos tudo aquilo que imaginamos como nos pertencendo? Para que e por que pensar crianças e teatro, teatro através de crianças, crianças no teatro e com o teatro? Como refletir a experiência em uma linguagem (portadora de tantas linguagens) e os outros que configuro como meus outros ? Se “o outro é aquele que me transcende infinitamente, aquele que jamais posso possuir” (MÈLICH, 1998, p. 171), se re-conheço esta condição, abordá-lo por quê? Para que a tentativa de tocá-lo, se intangível desde o início (provavelmente sem fim...)? </li></ul>
  12. 12. A escola no teatro e o teatro na escola . Porto Alegre: Ed. Mediação, 2006.
  13. 13. Referências bibliográficas <ul><li>ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu Duplo . São Paulo: Martins Fontes, 1993. </li></ul><ul><li>FERREIRA, Taís. Teatro infantil, crianças espectadoras, escola – Um estudo acerca de experiências e mediações em processos de recepção. Porto Alegre: UFRGS, 2005. Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. </li></ul><ul><li>______. A escola no teatro e o teatro na escola . Porto Alegre: Mediação, 2007. </li></ul><ul><li>GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre . São Paulo: Civilização Brasileira, 1971. </li></ul><ul><li>GUINSBURG, J.; SILVA, A. S. da. A linguagem teatral do Oficina. In: SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato . São Paulo: Perspectiva, 1981. </li></ul><ul><li>LARROSA, Jorge. La experiência de la lectura – Estudios sobre Literatura y Formación. Barcelona: Laertes, 1996. </li></ul><ul><li>______. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação , n.19, p. 20-29, Jan/Fev/Mar/Abr 2002. </li></ul><ul><li>MÈLICH, Joan-Carles. A resposta ao outro: a carícia. In Imagens do outro . LARROSA, J; PEREZ, N (orgs.). Petrópolis: Vozes, 1998. </li></ul><ul><li>SKLIAR, Carlos (org.). Derrida e a Educação . Belo Horizonte: Autêntica, 2005. </li></ul>

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