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  • 1. A Brincadeira e o Jogo na Educação Infantil - PatyFonteNa educação infantil, é difícil estabelecer um horário para a brincadeira e um horáriopara a aprendizagem. Hoje sabe-se que a criança aprende brincando. O mundo em queela vive é descoberto através de jogos dos mais diversos tipos que vão dos mais simplesde encaixe às mais curiosas brincadeiras folclóricas. O jogo, para a criança, é oexercício e a preparação para a vida adulta. É através das brincadeiras, seusmovimentos, sua interação com os objetos e no espaço com outras crianças que eladesenvolve suas potencialidades, descobrindo várias habilidades.Os métodos de ensino foram a preocupação dos educadores durante anos. Não se davapraticamente nenhuma importância para a maneira em que o aluno assimilava osconteúdos e se a aprendizagem era realmente eficaz. Atualmente, a preocupação está emdescobrir como a criança aprende. O professor pode usar uma estratégia de ensinoexcelente, na sua visão, mas se não estiver adequada ao modo de aprender da criança, denada servirá. Toda criança gosta de brincar. Então, se a criança aprende brincando, porque então não ensinarmos da maneira que ela aprenda melhor, de uma forma prazerosae, portanto, eficiente? A utilização de certos jogos e brincadeiras como facilitadores naaprendizagem, na educação infantil, são sem dúvida, a solução para se obter resultadospositivos no processo de ensino – aprendizagem das crianças. Mas, é importante que setenham bem definidos os objetivos que queremos alcançar quando trabalhamos como olúdico, e ter cuidado também com as brincadeiras que vamos mediar, para que estaesteja ligada ao momento correto do desenvolvimento infantil. Como já sabemos, osbrinquedos e as brincadeiras são fontes inesgotáveis de interação lúdica e afetiva. Parauma aprendizagem eficaz é preciso que o aluno construa o conhecimento, assimile osconteúdos. E jogo é um excelente recurso para facilitar a aprendizagem. Neste sentido,CARVALHO afirma que:"desde muito cedo o jogo na vida da criança é de fundamental importância, poisquando ela brinca, explora e manuseia tudo aquilo que está a sua volta, através deesforços físicos se mentais e sem se sentir coagida pelo adulto, começa a tersentimentos de liberdade portanto, real valor e atenção as atividades vivenciadasnaquele instante." (1992,p14)E acrescenta, mais adiante:"e o ensino absorvido de maneira lúdica, passa a adquirir um aspecto significativo eafetivo no curso do desenvolvimento da inteligência da criança, já que ela se modificade ato puramente transmissor a ato transformador em ludicidade, denotando-seportanto em jogo."(1992,p28)As ações com o jogo devem ser criadas e recriadas, para que sejam sempre uma novadescoberta, e sempre se transformem em um novo jogo, em uma nova forma de jogar.Quando brinca, a criança toma certa distância da vida cotidiana, entra em seu mundoimaginário e ilusório, não estando preocupada com a aquisição de conhecimento oudesenvolvimento de qualquer habilidade mental ou física.O que importa, neste caso, é o processo em si de brincar, algo que flui naturalmente,pois a única finalidade é o prazer, a alegria, a livre exploração do brinquedo. Diantedessas informações sobre o prazer de se aprender brincando, sobre a facilidade que oprofessor tem em conduzir uma aula, partindo da curiosidade dos alunos, atualmente,muitos educadores pensam que dinamizar as suas aulas utilizando jogos e brincadeiras épura "perda de tempo". Todavia é fundamental conscientizar esses professores da
  • 2. importância do brincar. Mas como fazê-lo? O brincar sendo direcionado, seguindo umalinha de aprendizagem para o alcance de objetivos é o caminho.Torna-se importante levar o educador a refletir sobre a sua prática pedagógica no quediz respeito à utilização de jogos e brincadeiras, no decorrer de suas aulas, e também debuscar informações, sobre a prática de ensino de alguns educadores que trabalham comcrianças e que conciliam as suas aulas com os jogos e com as brincadeiras. É importantetambém investigar sobre algumas brincadeiras e jogos que, ainda que pareçam semimportância para os adultos, testam diversas habilidades e conhecimento da criança.Exemplo de episódio verídico:No parque, crianças de 4 anos brincam com areia. Uma delas se aproxima daprofessora e oferece "o bolo de chocolate" que havia feito com areia:__ Professora, experimenta. Fui eu que fiz.__ Hum! Que delícia! Mas agora me deu sede. Você não quer fazer um suco para mim?__ Tá bom.A criança mistura água com um pouco de areia num copinho de danone.__ Professora, olha o suco.__ Do que é?__ É de laranja.__ Que tipo de laranja?__ Laranja – lima.A criança volta e faz outro bolo, só que agora com enfeites de folha de árvore, e ooferece à professora.__ Você só sabe fazer doce?__ Não.__ Então eu quero um salgado.__ Eu vou preparar um salgadinho doce.A criança volta com várias bolinhas de areia nas mãos.__ Obá! Que salgadinho é esse?__ Bolinha de queijo.A professora fingindo comer o salgadinho oferece-o a outra criança:__ Quer uma, Matheus?__ Eu não!!! __ responde Matheus.__ Ah! Nós come de mentirinha __ diz a primeira criança.(Episódio extraído do relatório de estágio de Juliana Nogueira, aluna do curso deMagistério, 1993)No episódio citado acima percebe-se claramente que, a professora ao passar a fazerparte da brincadeira que surgiu naturalmente de uma aluna, aproveitou a mesma paracriar situações de aprendizagem: ao perguntar se a menina só sabia fazer doce, de quefruta era o suco, entre outras.Assim a professora explorou o brincar, enriquecendo-o, possibilitando maiororganização e significado.
  • 3. Segundo HAIDT (2000), o jogo é uma atividade física ou mental organizada por umsistema de regras. É uma atividade lúdica, pois se joga pelo simples prazer de realizaresse tipo de atividade. Para o autor, quando se está brincando com um jogo, nós nospreocupamos exclusivamente com o prazer que este nos proporciona, atentamos para asregras e, no final se saíram vencedores ou perdedores. Mas, analisando profundamenteesta questão, a participação em jogos contribui e muito para a formação de futuroscidadãos conscientes, como o respeito mútuo, a solidariedade, a cooperação, asinceridade, a obediência às regras, senso de responsabilidade, entre outros. Semdúvida, o jogo tem um valor de formação de caráter excitante e também esforçovoluntário, pois trabalha a nossa atenção, concentração e conhecimento. Com a criançanão é diferente. Tendo como característica universal a brincadeira, a criança, através dobrincar e do jogo, faz suas próprias descobertas, testa seus limites, aprende regrasbásicas de convivência e desenvolve o emocional e o cognitivo. Vimos através doexemplo prático que a criança aprende brincando, pois a brincadeira é algo sem"compromisso" que se realiza naturalmente, sem cobranças.O Lúdico na Formação do ProfessorA educação no Brasil passou, recentemente, por reformulações por ocasião dapromulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/1996), aspropostas dos PCNs e a conseqüente divulgação das Diretrizes Curriculares Nacionais.Estes fatos fizeram com que na década de 90 todas as escolas, de norte a sul do Brasil,discutissem o assunto. Muitos professores concordaram com tais diretrizes, outros não.O importante não foram os posicionamentos, mas a possibilidade de debates que sedesencadeou e permitiu o repensar pedagógico.Na esteira do debate, a atividade lúdica ganhou relevo e importância como possibilidadede construção do conhecimento.A palavra lúdico se origina do latim "ludus" que significa "brincar". Segundo Luckesi(2000) o que caracteriza o lúdico "é a experiência de plenitude que ele possibilita aquem o vivencia em seus atos" (p. 96). A ludicidade como um estado de inteireza, deestar pleno naquilo que faz com prazer pode estar presente em diferentes situações denossas vidas. Diante disso aparece uma outra questão: não se pode distinguir formaçãopessoal da formação profissional. Quando pretendemos compreender a ação docente,temos que considerar, sobretudo, que o processo de formação do professor é umcrescente e um contínuo.Portanto, a dimensão lúdica na formação do profissional é parte integrante de todo oprocesso, que é amplo, complexo e integral. É algo indissociável de auto-formação narelação concreta entre o estudo (técnico), entre a reflexão individual e entre a interaçãocoletiva. Isto dentro de um confronto de idéias e troca de experiências vivenciadas.Há, porém, nessas reflexões, uma dimensão dicotômica; pois o que se percebe noprocesso de intinerância acadêmica do professor é que ele gira quase sempre em tornode questões epistemológicas e metodológicas, não atentando para o aspecto humano /pessoal, ontológico que também faz parte do desenvolvimento. Este, por sua vez, deveser o ponto prioritário, pois os sentimentos, assim como as leituras de mundo desseprofessor vão caracterizar e orientar muito sua prática pedagógica.Analisando agora sobre uma outra ótica temos, segundo Feijó (1992), que o lúdico éuma necessidade básica da personalidade, do corpo e da mente e faz parte das atividadesessenciais da dinâmica humana.Portanto, é importante que o professor descubra e trabalhe a dimensão lúdica que existeem sua essência, no seu trajeto cultural, de forma que venha aperfeiçoar a sua práticapedagógica.
  • 4. Analisando agora sobre uma outra ótica temos, segundo Feijó (1992), que o lúdico éuma necessidade básica da personalidade, do corpo e da mente e faz parte das atividadesessenciais da dinâmica humana.Portanto, é importante que o professor descubra e trabalhe a dimensão lúdica que existeem sua essência, no seu trajeto cultural, de forma que venha aperfeiçoar a sua práticapedagógica." A ludicidade poderia ser a ponte facilitadora da aprendizagem se o professor pudessepensar e questionar-se sobre sua forma de ensinar, relacionando a utilização do lúdicocomo fator motivante de qualquer tipo de aula". (Campos,1986, p.111)No entanto para que isso aconteça é necessário que ele busque resgatar a ludicidade, osmomentos lúdicos que com certeza permearam seu caminhar.Nos espaços acadêmicos, os professores geralmente relacionam com pouca intensidadeformação profissional e ludicidade, não tendo, por vezes, um embasamento teórico quepermita compreender a ludicidade como um fator de desenvolvimento humano. Issoacontece porque a ludicidade ainda não foi compreendida como uma dimensãoimportante e que deve ser estudada e vivenciada em sua plenitude.Graças a uma provável formação precária dos educadores, as atividades artísticas, assimcomo as recreativas, só são permitidas pelos professores quando não planejaram nadapara ensinar, quando não estão dispostos e em situações de prêmio por bomcomportamento e, às vezes, em datas comemorativas. Como afirma Rocha:"Ao professor cabe organizar o brincar e, para isto, é necessário que ele conheça suasparticularidades, seus elementos estruturais, as premissas necessárias para seusurgimento e desenvolvimento".(2000, p.48).Diante desses argumentos apresentados até aqui, vale nesse momento o seguintequestionamento: Por que incluir a dimensão lúdica na formação do professor?Conforme Santos (1997) isso possibilitaria ao educador conhecer-se como pessoa, sabersuas possibilidades e limitações, ter visão sobre a importância do jogo e do brinquedopara a vida da criança, jovem e do adulto.O professor não deve adaptar-se à realidade social em que vivemos, e sim assumir o seupapel como ator social capaz de colocar mais cor, mais sabor, mais vida, tanto na suavivencia, como naquilo que se propõe a fazer. Isso é possível quando ele reconhece olúdico que o acompanhou durante todo o seu desenvolvimento.A vivência da ludicidade como fazer pedagógico durante o processo de formação doprofessor instiga o ato criador e recriador, crítico, aguça a sensibilidade, o espírito deliberdade e a alegria de viver.Desse modo a manifestação lúdica estimula o viver de experiências axiológicas, pelageração de novas e relevantes valores (respeito ao outro, lealdade, cooperação,solidariedade) etc.Lamentavelmente a grande maioria das instituições educacionais ainda é pautada numaprática que considera a idéia do conhecimento como repetição, sob uma óticacomportamentalista, tornando o conhecimento cristalizado ou espontaneísta e não comoum saber historicamente construído.Por isso é importante uma educação mais abrangente, que faça com que nós professoresprocuremos outros caminhos para suprir as carências encontradas nessas instituições deensino de professores.
  • 5. Trazendo o estudo para a realidade das Universidades de Educação houve uma mudançano currículo do Curso de Pedagogia de várias partes de nosso país com o objetivo deaproximá-lo das exigências do mundo do trabalho e da educação contemporâneos.O currículo atual pretende responder aos anseios por mudanças no Curso de Pedagogia,reclamadas desde os anos oitenta, quando professores e alunos desta instituiçãoformularam críticas e propostas alternativas à proposta implantada em 1969.Assim, o novo currículo aumentou o número de disciplinas cujas ementas englobam oselementos para a compreensão dos fundamentos teóricos do lúdico, seu papel nodesenvolvimento do ser humano e as implicações para a prática educativa, e considerama possibilidade de uma educação realmente voltada para a formação nos seus aspectoséticos, cognitivos, afetivos, estéticos, corporais e sociais atentando para a importânciado prazer, da alegria nos mais variados espaços e tempos.A dimensão lúdica na formação do professor permite a ele questionar-se quanto a suapostura e conduta em relação ao objetivo prioritário de proporcionar aos alunos umdesenvolvimento integral no qual a competência técnica combina com o compromissopolítico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: • ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção . Rio de janeiro: Wak, 2003. • BEE, Helen. A Criança em Desenvolvimento . São Paulo, HARBRA, 1986. • BENJAMIN, Walter. Reflexões: A criança, o brinquedo, a educação . São Paulo, Summus, 1984 • BOCK, Ana M, FURTADO, Odair, TEIXEIRA, Maria de Lourdes T. Psicologias: Uma introdução ao estudo de psicologia . São Paulo, SP: Saraiva, 1999. • BRASIL, Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil , Brasília: MEC / SEF, 1998. • CAMPOS, D. M. S. – Psicologia da Aprendizagem , 19º ed., Petrópolis: Vozes, 1986. • CARVALHO, A.M.C. et al. (Org.). Brincadeira e cultura: viajando pelo Brasil que brinca . Vol. 1 e 2. São Paulo: Casa do Psicológo, 2003. • FONTANA, Roseli A. C. & CRUZ, Maria Nazaré. Psicologia e Trabalho Pedagógico - São Paulo –1997, Atual. • FREIRE, P. (1995). A Educação na Cidade (2ª ed.). São Paulo: Cortez. • FREIRE, P. (1997 b). Professora sim, Tia não: Cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d`Água. • FREIRE, P. (1999). Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. • FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler . São Paulo: Cortez, 2001 • GALVÃO, Izabel. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri Wallon . In: Cadernos Idéias, construtivismo em revista. São Paulo, F.D.E., 1993. • HAIDT, Regina C. C. Curso de Didática Geral . 7. ed., São Paulo: Ática, 2000. • KISHIMOTO, Tisuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação . São Paulo, SP: Cortez, 1996 • LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar . São Paulo: Cortez,1997.
  • 6. • PALANGANA, I. C. (1994) – "Desenvolvimento & aprendizagem em Piaget e Vygotsky (a relevância do social)" – São Paulo: Plexus. • PRADO, Patrícia Dias. As crianças pequenininhas produzem cultura? Considerações sobre educação e cultura infantil em creche. Campinas: Proposições , vol.10, nº1(28), março de 1999. • PIAGET (1975) – A formação do símbolo na criança . Rio de Janeiro: Zahar Editores. • POMAR, Clarinda e NETO,.Carlos. Percepção da apropriação e do desempenho motor de gênero em atividades lúdicas motoras In: NETO (org). Jogo e desenvolvimento da criança. Rio de Janeiro: Sprint, 1999. p. 118-205. • RONCA, A. Carlos & ESCOBAR, Virgínia. Técnicas Pedagógicas: Domesticação ou Desafio à Participação? Petrópolis, Vozes, 1980. • SANTOS, Santa Marli Pires (Org.). Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos. Petrópolis , RJ: Vozes, 1997. • SANTOS, Santa Marli Pires. A ludicidade como ciência . Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. • VYGOTSKY, L.S. (1984). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes. • VYGOTSKY, L.S.(1993) Pensamento e linguagem . São Paulo: Martins Fontes. • VYGOTSKY, L.S.; LURIA, A.R. e LEONTIEV, A.N. (1988) Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone. • ___________. O jogo e a Educação Infantil . São Paulo, SP: Pioneira, 1994. • MOYLES, Janet R. Só brincar? – O papel do brincar na educação infantil . São Paulo: Artmed, 2002.ResumoA intenção deste artigo é sensibilizar os professores de educação infantil e doensino fundamental das séries iniciais do importante papel que os jogos, asbrincadeiras e os brinquedos exercem no desenvolvimento da criança. Para isso sefaz necessário saber o significado do brincar, conceituar os principais termosutilizados para designar o ato de brincar, tornando-se também fundamental analisaro papel do educador neste processo lúdico, e ainda, os benefícios que o brincarproporciona. Faremos também algumas considerações importantes sobre os jogos ebrinquedos. Desta forma, espera-se oferecer uma leitura mais consciente acerca daimportância do brincar na vida do ser humano, e em especial na vida da criança.Palavras chave: brincar; educação infantil; criança; escola.1. Introdução: o brincar e a criança"O brincar é uma necessidade básica e um direito de todos. O brincar é umaexperiência humana, rica e complexa." (ALMEIDA, M. T. P, 2000)Gostaria de começar o artigo lembrando ao educador sobre os reais objetivos daEducação Infantil. Estes objetivos devem ser pensados a longo prazo e dentro deuma perspectiva do desenvolvimento da criança. Os objetivos serão divididos comrelação a três pontos.
  • 7. I. Em relação aos professores: gostaríamos que as crianças desenvolvessem suaautonomia através de relacionamentos seguros no qual o poder do adulto sejareduzido o máximo possível.II. Em relação aos companheiros: gostaríamos que as crianças desenvolvessem suahabilidade de descentrar e coordenar diferentes pontos de vista.III. Em relação ao aprendizado: gostaríamos que as crianças fossem alertas,curiosas, criticas e confiantes na sua capacidade de imaginar coisas e dizer o querealmente pensam. Gostaríamos também que elas tivessem iniciativa, elaborassemidéias, perguntas e problemas interessantes e relacionassem as coisas umas àsoutras. (KAMII, 1991, p. 15.)Vamos também iniciar o artigo fazendo uma pergunta: "O que as crianças precisampara serem felizes?"A criança para ser feliz precisa de muita coisa, mas, em especial ela precisa de:Sabemos que o brincar é um direito da criança como apresentam diversosdocumentos internacionais: Declaração universal dos direitos da criança - ONU (20/11/1959)"... A criança deve ter todas as possibilidades de entregar-se aos jogos e àsatividades recreativas, que devem ser orientadas para os fins visados pelaeducação; a sociedade e os poderes públicos devem esforçar-se por favorecer ogozo deste direito". (Declaração universal dos direitos da criança, 1959)• Associação internacional pelo direito da criança brincar - IPA 1979 (Malta), 1982(Viena), 1989 (Barcelona)Os princípios norteadores da Associação Internacional pelo Direito da CriançaBrincar - IPA são:SaúdeBrincar é essencial para saúde física e mental das crianças.EducaçãoBrincar faz parte do processo da formação educativa do ser humano.Bem estar - ação socialO brincar é fundamental para a vida familiar e comunitária.Lazer no tempo livreA criança precisa de tempo para brincar em seu tempo de lazer.PlanejamentoAs necessidades da criança devem ter prioridade no planejamento do equipamentosocial.
  • 8. Diante do exposto percebe-se que nem sempre a teoria pode ser aplicada naprática, afinal vivemos em um país que não tem dado aos pequenos a devidaimportância, principalmente no que se refere ao direito de brincar. Nunca devemosesquecer que o brincar é uma necessidade básica e um direito de todos. O brincar éuma experiência humana, rica e complexa. Se o brincar é um direito devemos ter,estimular e cobrar políticas públicas dirigidas em quatro eixos básicos:I. Criação de espaços lúdicos estruturados para jogos, brinquedos e brincadeiras;II. Organização sistemática de ações de formação lúdica de recursos humanos emdiferentes níveis;III. Campanhas formativas e informativas sobre a importância do brincar;IV. Criação de centros de pesquisa, de documentação e assessoria sobre jogos,brinquedos e brincadeiras e outros materiais lúdicos.Gostaria de encerrar com a seguinte reflexão: o brincar tem contido nele os maisdiferentes elementos e valores que são suas virtudes e os seus pecados. Virtudes,porque na essência, eles são constituídos de princípios generosos que permitem arevitalização permanente. Pecados porque o brincar pode ser também manipulado edesviado para as mais diferentes finalidades ou objetivos, podendo comprometer averdade.Um outro documento de grande relevância foi o estudo introdutório do referencialcurricular nacional para a educação infantil no eixo do brincar e conhecido comoParâmetros Curriculares Nacionais - PCNs. Este documento foi criado no ano de1998 em Brasilia por educadores especialistas no assunto. Elencaremos abaixoalguns pontos apresentados neste estudo:É imprescindível que haja riqueza e diversidade nas experiências que lhes• sãooferecidas nas instituições.A brincadeira é uma linguagem infantil.No ato de brincar, os sinais, os gestos, os objetos e os espaços valem e significamoutra coisa daquilo que aparentam ser. Ao brincar as crianças recriam e repensamos acontecimentos que lhes deram origem, sabendo que estão brincando.O principal indicador da brincadeira, entre as crianças, é o papel que• assumemenquanto brincam.Nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuíamanteriormente em conceitos gerais com os quais brinca.O brincar contribui, assim, para a interiorização de determinados modelos• deadulto.Os conhecimentos da criança provêm da imitação de alguém ou de algo• conhecido,de uma experiência vivida na família ou em outros ambientes, do relato de umcolega ou de um adulto, de cenas assistidas na televisão, no cinema ou narradasem livros etc.É no ato de brincar que a criança estabelece os diferentes vínculos entre• ascaracterísticas do papel assumido, suas competências e as relações que possuemcom outros papéis, tomando consciência disto e generalizando para outrassituações.Para brincar é preciso que as crianças tenham certa independência para escolherseus companheiros e os papéis que irão assumir no interior de um determinadotema e enredo, cujos desenvolvimentos dependem unicamente da vontade dequem brinca.Segundo os PCNs o brincar apresenta-se por meio de várias categorias. E essascategorias incluem:
  • 9. O movimento e as mudanças da percepção resultantes essencialmente da•mobilidade física das crianças;A relação com os objetos e suas propriedades físicas assim como a• combinação eassociação entre eles;A linguagem oral e gestual que oferecem vários níveis de organização a• seremutilizados para brincar; os conteúdos sociais, como papéis, situações, valores eatitudes que se referem à forma como o universo social se constroem;E, finalmente, os limites definidos pelas regras, constituindo-se em um• recursofundamental para brincar.O brincar pode, de acordo com os estudiosos e pesquisadores do tema ser divididoem duas grandes categorias:O Brincar Social: reflete o grau no quais as crianças interagem umas com as•outras.O Brincar Cognitivo: revela o nível de desenvolvimento mental da criança.Estas categorias de experiências podem ser agrupadas em quatro modalidadesbásicas de brincar:O brincar tradicional•O brincar de faz-de-contaO brincar de construção•O brincar educativo•As crianças na idade de educação infantil vivenciam experiências lúdicas sociais enão-sociais. Um estudo feito por PARTEN (1932) citado por PAPALIA (2000) revelaque no brincar das crianças pequenas, podemos identificar seis tipos de atividadeslúdicas sociais e não-sociais:Comportamento desocupado•Comportamento observador•Atividade independente (solitária)•Atividade paralelaAtividade associativa•Atividade cooperativa ou organizada suplementar•É importante saber que existem cinco grandes pilares básicos nas ações lúdicas dascrianças em seus jogos, brinquedos e brincadeiras, estes pilares são:I. A imitaçãoII. O espaçoIII. A fantasiaIV. As regrasV. Os valoresPara entender o universo lúdico é fundamental compreender o que é brincar e paraisso, é importante conceituar palavras como jogo, brincadeira e brinquedo,permitindo assim aos professores de educação infantil e do ensino fundamentaltrabalhar melhor as atividades lúdicas. Esta tarefa nem sempre é fácil exatamentepelo fato dos autores compreenderem os termos de forma diferente. Temos quesalientar que esta dificuldade não é somente do Brasil, outros países que sepreocupam em pesquisar o tema, também têm dificuldade quanto àsconceituações. Para efeito deste artigo adotaremos as seguintes definições.
  • 10. O que é brinquedo?Para a autora KISHIMOTO (1994) o brinquedo é compreendido como um "objetosuporte da brincadeira", ou seja, brinquedo aqui estará representado por objetoscomo piões, bonecas, carrinhos etc. Os brinquedos podem ser considerados:estruturados e não estruturados. São denominados de brinquedos estruturadosaqueles que já são adquiridos prontos, é o caso dos exemplos acima, piões,bonecas, carrinhos e tantos outros.Os brinquedos denominados não estruturados são aqueles que não sendoindustrializados, são simples objetos como paus ou pedras, que nas mãos dascrianças adquirem novo significado, passando assim a ser um brinquedo. A pedrase transforma em comidinha e o pau se transforma em cavalinho. Portanto, vimosque os brinquedos podem ser estruturados ou não estruturados dependendo de suaorigem ou da transformação criativa da criança em cima do objeto.O que é brincadeira?A brincadeira se caracteriza por alguma estruturação e pela utilização de regras.Exemplos de brincadeiras que poderíamos citar e que são amplamente conhecidas:Brincar de Casinha, Ladrão e Polícia etc. A brincadeira é uma atividade que pode sertanto coletiva quanto individual. Na brincadeira a existência das regras não limita aação lúdica, a criança pode modificá-la, ausentar-se quando desejar, incluir novosmembros, modificar as próprias regras, enfim existe maior liberdade de ação paraas crianças.O que é jogo?A compreensão de jogo está associada tanto ao objeto (brinquedo) quanto àbrincadeira. É uma atividade mais estruturada e organizada por um sistema deregras mais explícitas. Exemplos clássicos seriam: Jogo de Mímica, de Cartas, deTabuleiro, de Construção, de Faz-de-Conta etc. Uma característica importante dojogo é a sua utilização tanto por crianças quanto por adultos, enquanto que obrinquedo tem uma associação mais exclusiva com o mundo infantil.Os diferentes significados do brincarUm mesmo jogo, brinquedo ou brincadeira para diferentes culturas pode terdiferentes significados, isto quer dizer que é preciso considerar o contexto socialonde se insere o objeto de nossa análise.Boneca: Objeto que pode ser utilizado como um brinquedo em uma cultura, serconsiderado objeto de adoração em rituais ou ainda um simples objeto dedecoração.Arco e Flecha: Objeto que pode ser utilizado como brinquedo em uma cultura, masem outra cultura é um objeto no qual se prepara às crianças para a caça e a pescavisando à sobrevivência.Depois das definições apresentadas é necessário esclarecer que as mesmas devemservir para ajudar na reflexão do professor em sua ação lúdica diante da criança enão para limitá-lo neste processo. É importante que as pessoas envolvidas napesquisa do lúdico acreditem que o jogo, o brinquedo e a brincadeira terão umsentido mais profundo se vierem representados pelo brincar.Em resumo o universo lúdico abrange, de forma mais ampla os termos brincar,brincadeira, jogo e brinquedo. O brincar caracteriza tanto a brincadeira como o jogoe o brinquedo como objeto suporte da brincadeira e/ou do jogo. (ver figura)
  • 11. 2. Papel do educador na educação lúdica"A esperança de uma criança, ao caminhar para a escola é encontrar um amigo,um guia, um animador, um líder - alguém muito consciente e que se preocupe comela e que a faça pensar, tomar consciência de si de do mundo e que seja capaz dedar-lhe as mãos para construir com ela uma nova história e uma sociedademelhor". (ALMEIDA,1987,p.195)Para se ter dentro de instituições infantis o desenvolvimento de atividades lúdicaseducativas, é de fundamental importância garantir a formação do professor econdições de atuação. Somente assim será possível o resgate do espaço de brincarda criança no dia-a-dia da escola ou creche.Para nós a formação do Educador Infantil, ganha em qualidade se, em suasustentação, estiverem presentes três pilares:I. Formação teóricaII. Formação pedagógicaIII. Formação lúdicaA decisão de se permitir envolver no mundo mágico infantil seria o primeiro passoque o professor deveria dar. Explorar o universo infantil exige do educadorconhecimento teórico, prático, capacidade de observação, amor e vontade de serparceiro da criança neste processo. Nós professores podemos através dasexperiências lúdicas infantis obtermos informações importantes no brincarespontâneo ou no brincar orientado. Estas descobertas podem definir critérios taiscomo:A duração do envolvimento em um determinado jogo;•As competências dos jogadores envolvidos;•O grau de iniciativa, criatividade, autonomia e criticidade que o jogo proporcionaao participante;A verbalização e linguagem que acompanham o jogo;O grau de interesse, motivação, satisfação, tensão aparente durante o jogo•(emoções, afetividade etc.);Construção do conhecimento (raciocínio, argumentação etc.);•Evidências de comportamento social (cooperação, colaboração, conflito,competição, integração etc.).A aplicação de jogos, brincadeiras e brinquedos em diferentes situaçõeseducacionais podem ser um meio para estimular, analisar e avaliar aprendizagensespecíficas, competências e potencialidades das crianças envolvidas.
  • 12. No brincar espontâneo podemos registrar as ações lúdicas a partir da: observação,registro, análise e tratamento. Com isso, podemos criar para cada ação lúdica umbanco de dados sobre o mesmo, subsidiando de forma mais eficiente e científica osresultados das ações. É possível também fazer o mapeamento da criança em suatrajetória lúdica durante sua vivência dentro de um jogo ou de uma brincadeira,buscando dessa forma entender e compreender melhor suas ações e fazerintervenções e diagnósticos mais seguros ajudando o indivíduo ou o coletivo. Asinformações obtidas pelo brincar espontâneo permitem diagnosticar:Idéias, valores interessantes e necessidades do coletivo ou do indivíduo;Estágio de desenvolvimento da criança;•Comportamento dos envolvidos nos diferentes ambientes lúdicos;•Conflitos, problemas, valores etc.•Com isso podemos definir, a partir de uma escolha criteriosa, as ações lúdicas maisadequadas para cada criança envolvida, respeitando assim o princípio básico deindividualidade de cada ser humano.Já no brincar dirigido pode-se propor desafios a partir da escolha de jogos,brinquedos ou brincadeiras determinadas por um adulto ou responsável. Estesjogos orientados podem ser feitos com propósitos claros de promover o acesso aaprendizagens de conhecimentos específicos como: matemáticos, lingüísticos,científicos, históricos, físicos, estéticos, culturais, naturais, morais etc. E um outropropósito é ajudar no desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, motriz, lingüísticoe na construção da moralidade (nos valores).Segundo o professor ALMEIDA (1987) a educação lúdica pode ter duasconseqüências, dependendo de ser bem ou mal utilizada:I. A educação lúdica pode ser uma arma na mão do professor despreparado, armacapaz de mutilar, não só o verdadeiro sentido da proposta, mas servir de negaçãodo próprio ato de educar;II. A educação lúdica pode ser para o professor competente um instrumento deunificação, de libertação e de transformação das reais condições em que seencontra o educando. É uma prática desafiadora, inovadora, possível de seraplicada.Sobre este tema do papel do educador como facilitador dos jogos, das brincadeiras,da utilização dos brinquedos e principalmente da organização dos espaços lúdicospara criança de 0 a 6 anos muito poderia ser dito, mas gostaríamos de chamaratenção sobre alguns aspectos considerados importantes para facilitar a relação dacriança e do professor nas atividades lúdicas. Estas informações foram tiradas doprojeto "Brincar é coisa séria" desenvolvido pela Fundação Samuel - São Paulo, emcampanha realizada em 1991, p.8, 9 e 10.Segundo REGO (1994), autora da obra citada, o papel do educador é o seguinte:O educador tem como papel ser um facilitador das brincadeiras, sendo• necessáriomesclar momentos onde orienta e dirige o processo, com outros momentos onde ascrianças são responsáveis pelas suas próprias brincadeiras.É papel do educador observar e coletar informações sobre as brincadeiras• dascrianças para enriquecê-las em futuras oportunidades.Sempre que possível o educador deve participar das brincadeiras e• aproveitar paraquestionar com as crianças sobre as mesmas.É importante organizar e estruturar o espaço de forma a estimular na• criança anecessidade de brincar, também visando facilitar a escolha das brincadeiras.
  • 13. Nos jogos de regras o professor não precisa estimular os valores• competitivos, esim tentar desenvolver atitudes cooperativas entre as crianças. Que o maisimportante no brincar é participar das brincadeiras e dos jogos.Devemos respeitar o direito da criança participar ou não de um jogo. Neste• caso oprofessor tem que criar uma situação diferente de participação dela nas atividadescomo: auxiliar com materiais, fazer observações, emitir opiniões etc.Em uma situação de jogo ou brincadeira é importante que o educador explique• deforma clara e objetiva as regras às crianças. E se for necessário pode mudá-las ouadaptá-las de acordo com as faixas etárias.Estimular nas crianças a socialização do espaço lúdico e dos brinquedos,• criandoassim o hábito de cooperação, conservação e manutenção dos jogos e brinquedos.Exemplos: "quem brincou guarda"; "no final da brincadeira todos ajudam a guardaros materiais" etc.Estimular a imaginação infantil, para isso o professor deve oferecer• materiais dosmais simples aos mais complexos, podendo estes brinquedos ou jogos seremestruturados (fabricados) ou serem brinquedos e jogos confeccionados commaterial reciclado (material descartado como lixo), por exemplo: pedaço demadeira; papel; folha seca; tampa de garrafa; latas secas e limpas; garrafaplástica; pedaço de pano etc. Todo e qualquer material cria para a criança umapossibilidade de fantasiar e brincar.É interessante que o professor providencie para que as crianças tenham• espaçopara brincar (área livre), e que possam mexer no mobiliário, montar casinhas, fazercabanas, tendas de circo etc.O professor deve dar o tempo necessário às crianças para que as brincadeirasapareçam, se desenvolvam e se encerrem.Ser aquele que coordena sua ação a ação da criança, pelo conhecimento e• ligaçãocom as emoções desta.RIZZO (1996) em seu livro "Jogos Inteligentes" analisa com muita propriedadealguns aspectos necessários para que um bom educador possa realizar suaatividade com crianças pequenas. Para a autora o educador:Deve ser um líder democrático, que propicia, coordena e mantém um clima de•liberdade para a ação do aluno, limitado apenas pelos direitos naturais dos outros.Deve atuar em sintonia com a criança para estabelecer a necessária• cooperaçãomútua.Precisa ter antes construído a sua autonomia intelectual e segurança afetiva.Precisa aliar a teoria à prática e valorizar o conhecimento produzido a partirdesta.Deve jogar com as crianças e participar ativamente de suas brincadeiras,• talvezseja o caminho mais seguro para obter informações e conhecimentos sobre omundo infantil. (RIZZO, 1996, p.27 e 29)Espera-se que as sugestões acima possam abrir novos horizontes, reflexões equestionamentos para o educador infantil, e que com isso ele possa desenvolveratividades mais conscientes e seguras.3. Brincar é importante ... por quê?Para a professora CUNHA (1994), o brincar é uma característica primordial na vidadas crianças. Segundo a autora em seu livro "Brinquedoteca: um mergulho nobrincar" o brincar para a criança é importante:Porque é bom, é gostoso e dá felicidade, e ser feliz é estar mais• predisposto a serbondoso, a amar o próximo e a partilhar fraternalmente;
  • 14. Porque é brincando que a criança se desenvolve, exercitando suas• potencialidades;Porque, brincando, a criança aprende com toda riqueza do aprender fazendo,•espontaneamente, sem pressão ou medo de errar, mas com prazer pela aquisiçãodo conhecimento;Porque, brincando, a criança desenvolve a sociabilidade, faz amigos e• aprende aconviver respeitando o direito dos outros e as normas estabelecidas pelo grupo;Porque, brincando, aprende a participar das atividades, gratuitamente, pelo• prazerde brincar, sem visar recompensa ou temer castigo, mas adquirindo o hábito deestar ocupada, fazendo alguma coisa inteligente e criativa;Porque, brincando, prepara-se para o futuro, experimentando o mundo ao seu•redor dentro dos limites que a sua condição atual permite;Porque, brincando, a criança está nutrindo sua vida interior, descobrindo suavocação e buscando um sentido para sua vida. (CUNHA, 1994, p. 11)Sendo assim fica claro que o brincar para a criança não é uma questão apenas depura diversão, mas também de educação, socialização, construção e plenodesenvolvimento de suas potencialidades.4. Por quê nem todas as crinças brincam?Segundo Declaração Universal dos Direitos da Criança todas as crianças têm odireito de brincarem e de serem felizes, mas nem sempre elas têm essaoportunidade, por quê?Porque precisam trabalhar;•Porque precisam estudar e conseguir notas altas;Porque são tratadas como adultos em miniatura;•Porque não podem atrapalhar os adultos;•Porque não têm com o que brincar;•Porque não tem espaços (em cidades) apropriados para brincar;Porque é preciso aprender e ser inteligente. (CUNHA, 1994, p. 12)Diante do exposto percebe-se que nem sempre a teoria pode ser aplicada naprática, afinal vivemos em um país que não tem dado aos pequenos a devidaimportância, principalmente no que se refere ao direito de brincar.5. Critérios para escolha de brinquedosO que é um bom brinquedo para a criança?- É o que atende as necessidades da criança. (CUNHA, 1994)Para que os brinquedos atendam as reais necessidades dos sujeitos envolvidos naação lúdica é necessário que os seguintes fatores estejam presentes para que issoaconteça:InteresseO brinquedo mais lindo e sofisticado não tem valor algum se não der prazer àcriança, pois sua validade é o interesse da criança que irá determinar. Bombrinquedo é o que convida a criança a brincar, é o que desafia seu pensamento, é oque mobiliza sua percepção, é o que proporciona experiências e descobertas.Para diferentes momentos, diferentes brinquedos poderão ser mais indicados. Umbrinquedo que estimula a ação, outro que possibilite uma aprendizagem, ou quesatisfaça a imaginação e a fantasia da criança; às vezes, apenas um ursinho depelúcia que lhe faça companhia.Dar um carrinho para um menino de 10 anos pode ser tão ofensivo quanto seriadesapontador oferecer um quebra-cabeças de 500 peças a um garoto de 5 anos.
  • 15. Mas nem sempre a criança sozinha irá escolher o melhor brinquedo para ela; ummenino, ao entrar numa loja, pode procurar só revólveres ou carrinhos, mas istonão significa que só goste deste tipo de brinquedo, mas sim que só reconheceestes objetos. Os carros estão nas ruas por onde a criança passa e os revólveres eas metralhadoras são a fonte do poder, segundo a mensagem passada pelasdezenas de filmes que a criança assiste todos os dias na televisão.Certos brinquedos precisam ser apresentados à criança para que possa imaginar oque pode fazer com eles. 0 que torna um brinquedo atraente para uma criança? Umbrinquedo pode tornar-se irresistível e até imprescindível pelas seguintes razões:Por haver-se tornado um objeto de afeto; quantas vezes a ligação com uma•boneca, ou um ursinho, é tão forte que a criança não dorme sem ele.Por representar status, como no caso dos brinquedos anunciados na televisão• ouimportados.Por darem sensação de segurança, como os revólveres e as fardas de soldados esuper-heróis.Por atender a uma hiperatividade.•Por funcionar como objeto intermediário entre a criança e uma situação• difícil paraela.Por satisfazer uma determinada carência ou atender a uma fantasia.Por ser desafio a uma determinada habilidade, como os ioiôs, bambolês,• skatesetc.Porque algum amigo tem.AdequaçãoO brinquedo deve ser adequado à criança, considerada como indivíduo especial ediferenciado; deve atender à etapa de desenvolvimento em que a criança seencontra e as suas necessidades emocionais, socioculturais, físicas ou intelectuais.Apelo à imaginaçãoO brinquedo deve estimular a criatividade. Quando é muito dirigido e não oferecealternativas, passa a ser apenas uma tarefa a ser cumprida. É aconselhável quehaja sempre um convite a participação criativa. Entretanto, este apelo deve estar àaltura da criança. Os jogos muito abstratos não conseguirão motivá-la, pois, parapoder criar, ela precisa ter alguns pontos de referência.VersatilidadeO brinquedo que pode ser utilizado de várias maneiras é um convite a exploração ea inventividade. A criança pode brincar com algo que já conhece, mas criandonovas formas ou alcançando objetivos diferentes. É interessante que o jogopossibilite à criança a obtenção de sucesso progressivo, para que, à medida que elavai conhecendo melhor os recursos que ele oferece, possa alcançar níveis maisaltos de realização. Um jogo bem versátil pode representar um constante desafio àshabilidades da criança.ComposiçãoAs crianças gostam de saber como o brinquedo funciona ou como ele é por dentro.Por esta razão, os jogos desmontáveis são mais interessantes. 0 pensamento lógicoé bastante estimulado pelo manuseio dos jogos de montar, nos quais a criança temoportunidade de compor e observar a seqüência necessária para a montagemcorreta.Cores e formasAs cores mais fortes e as formas mais simples atraem mais as crianças pequenas.Mas as maiores preferem cores naturais e formas mais sofisticadas. De qualquer
  • 16. maneira, a variedade no colorido, na forma e na textura irá contribuir para aestimulação sensorial da criança, enriquecendo sua experiência.O tamanhoDeve ser compatível com a motricidade da criança. Um bebê não pode brincar compeças pequenas pois poderá levá-las a boca, engolir ou engasgar-se com elas.Também não terá coordenação motora suficiente para manipular peças miúdas.Brinquedos grandes e pesados podem machucar a criança ao caírem no chão.DurabilidadeOs brinquedos muito frágeis causam frustração não somente por se quebraremfacilmente, mas também porque não dão à criança o tempo suficiente para queestabeleça uma boa relação com eles.SegurançaTintas tóxicas, pontas e arestas, peças que podem se soltar, tudo isto deve serobservado num brinquedo, para evitar que a criança se machuque. Com os bebês,o cuidado deve ser ainda maior, pois, levando tudo à boca, correm o risco deengolir ou engasgar-se com uma pequena peça que se desprenda. Cuidado com ossacos plásticos, porque podem provocar sufocação se levados à boca ou enfiados nacabeça. É melhor evitá-los. Nem sempre será possível atender a todos estes pré-requisitos para fazer uma escolha. Mas, pelo menos o primeiro e o último destalista serão indispensáveis considerar.6. Sobre a segurança dos brinquedos: alguns cuidados e sugestõesAs crianças, acostumadas que estão a passarem grande parte do tempo em frenteà TV, são vítimas ingênuas dos apelos da publicidade e desorientam os pais comexigências sutis, declaradas e até abusadas. Como nenhum pai agüenta a cantilenae até as pirraças comuns aos baixinhos contrariados, acabam cedendo aos seusapelos. Mas é necessário que estejam atentos para comprarem produtos quetenham alguma utilidade para as crianças, e mais, que não tragam danos imediatosou futuros. Vamos a alguns conselhos:Brinquedo é um tipo de treinamento divertido para a criança, através dele é• queela começa a aprender, conhecer e compreender o mundo que a rodeia.Existem brinquedos para todas as faixas etárias. Não adianta forçar a• natureza.Quanto mais adequado à idade da criança, mais útil ele é. Se o brinquedo puder serutilizado em várias idades acompanhando o desenvolvimento, melhor ainda.Brinquedos que servem para adultos brincarem e crianças assistirem não sãoestimulantes. Pelo contrário: habituam a criança a ser um mero espectador.Bom brinquedo estimula a imaginação e desenvolve a criatividade. Brinquedosque ensinam apenas a repetir mecanicamente o que os outros fazem sãoprejudiciais, irritantes e monótonos.Criança gosta de brinquedos que possibilitem ação e movimento, com isso,•aprende a coordenar olhos, mãos e o corpo, garantindo com naturalidade e prazeruma maior saúde física e mental no futuro.Brinquedo sério é aquele que educa a criança para uma vida saudável, livre,•solidária, onde o companheirismo e a amizade sejam os pilares básicos.Evite tudo o que condiciona a padrões discutíveis como a discriminação• sexual,racial, religiosa e social. Afaste brincadeiras que incentivam a vitória a qualquercusto, a esperteza fora das regras, a conquista de lucro ilegal, a compra ou vendaatravés de meios desonestos.7. Considerações finais e sugestõesTentamos de forma resumida mostrar algumas idéias sobre o brincar. Agora cabe acada leitor fazer uma reflexão mais profunda sobre este tema tão maravilhoso e ao
  • 17. mesmo tempo misterioso. Esperamos que as informações contidas neste trabalhopossam ajudar ao educador infantil, na organização e planejamento de suasatividades. É importante colocar que o educador que trabalha diretamente comcrianças pequenas deve sempre que possível ler artigos, textos e livros que falemsobre jogos, brincadeiras, brinquedos, e ainda sobre a criança e o seudesenvolvimento. Por isso esperamos que os conteúdos abordados acima venhamcolaborar de forma objetiva e concreta para uma melhor compreensão do universolúdico infantil. E principalmente para uma melhor qualidade educativa na formaçãolúdica do educador infantil. Caro educador não esqueça que existem várias formasde brincar e nem sempre é preciso dinheiro para isso, só precisa de imaginação,ser criativo e acreditar em sonhos. Os estudos feitos por SINGER & SINGER, (1990)citado por PAPALIA (2000) mostra que o brincar de faz-de-conta é um ótimorecurso para a realização deste sonho:I. Cerca de 10 a 17 % do brincar nas crianças de 2 a 3 anos é o jogo de faz-de-conta;II. A proporção aumenta para cerca de 33% nas idades de 4 a 6 anos;III. A dimensão do jogo de faz-de-conta muda na proporção que as criançascrescem. Passam do jogo imaginativo para o jogo sociodramático;IV. Através do faz-de-conta, as crianças aprendem a compreender o ponto de vistade outra pessoa, a desenvolver habilidades na resolução de problemas sociais e aexpressar sua criatividade;V. As crianças que com freqüência brincam de faz-de-conta tendem a cooperar maiscom outras crianças e tendem a ser mais populares e mais alegres do que aquelasque não brincam de modo imaginativo;VI. Os adultos e crianças que brincam de faz-de-conta tendem a ter uma relaçãomais saudável e prazerosa;VII. As crianças que brincam de faz-de-conta tem mais facilidade de criar suaspróprias imagens e ser protagonista da ação lúdica;VIII. Quanto maior for a qualidade do brincar maior será o desenvolvimentocognitivo.8. Bibliografia consultada e sugestões1) ALMEIDA, M.T.P. Jogos divertidos e brinquedos criativos. Petrópolis, RJ: EditoraVozes, 2004.2) ____. Los juegos cooperativos em la educación física: una propuesta lúdica parala paz. In: Juegos cooperativos. Tándem. Didáctica de la Educación Física nº 14,ano 4. Barcelona-Espanha: GRAÓ, 2004, pp. 21 - 31.3) ____. Os Jogos Tradicionais Infantis em Brinquedotecas Cubanas e Brasileiras.São Paulo: USP, 2000. (Dissertação de Mestrado)4) ____. Brinquedoteca e a importância de um espaço estruturado para o brincar.In: Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos. Petrópolis, RJ: EditoraVozes,1997, pp. 132 -140.5) ALMEIDA, Paulo Nunes de. Educação Lúdica - técnicas e jogos pedagógicos. SãoPaulo: Edições Loyola, 1987.6) BERTTELHEIM, Bruno. Uma vida para seu filho. Trad. Maura Sardinha e MariaHelena Geordane. Rio de Janeiro: campus, 1988.7) BORJA, Maria Sole. O jogo infantil: organização das ludotecas. Lisboa - Portugal:Instituto de Apoio à Criança - IAC, 1992.8) CUNHA, Nylse H. S. Brinquedoteca: um mergulho no brincar. São Paulo. Maltese,1994.
  • 18. 9) KAMII, Constance & DEVRIES, Rheta. Jogos em grupo na educação infantil:implicações da teoria de Piaget. Trad. Marina Célia Dias Carrasqueira. São Paulo:Trajetória Cultural, 1991.10) KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O jogo e a educação infantil. São Paulo: LivrariaPioneira Editora, 1994.11) ____. O cotidiano da pré-escola. São Paulo: Série IDÉIAS, nº7, FDE, 1990.12) LEBOVICI. S. O significado e função do brinquedo na criança. Trad. Liana diMarco. Porto alegre: Artes Médicas, 1985.13) MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antiguidade. São Paulo:E.P.U., 1990.14) OLIVEIRA, Paulo de Salles. O que é brinquedo. São Paulo: Editora Brasiliense,1990.15) PAPALIA, Diane E. & OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. Trad.Daniel Bueno. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.16) REGO, Teresa Cristina. Brincar é coisa séria. São Paulo: FundaçãoSamuel,1992.17) RIZZO, Gilda. Jogos Inteligentes. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil,1996.Nota:* Professor da Universidade Federal do Ceará - UFC na Faculdade de Educação -FACED no Curso de Educação Física. Coordenador do Laboratório de Brinquedos eJogos - LABRINJO da UFC. Atualmente desenvolve atividades de pesquisa, ensino,estágio e extensão na Faculdade de Educação - FACED/UFC. Facilitador de jogoscooperativos na Educação Física. Membro da diretoria da Associação Brasileira deBrinquedotecas - ABBRI.

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