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  • 1. Nesta edição você vai saber sobre o papel do pedagogo nas organizações; também número 01 – ano 01 – novembro-dezembro - 2010 vai conhecer um pouco sobre as idéias de Celso Furtado, um dos mais renomados economistas brasileiros; e como ficam os direitos fundamentais do cidadão diante das crises econômicas. O que você procura? O papel do pedagogo nas organizações por Paulo Roberto Cabral Junior - página 03 Um Novo Modelo para o Brasil: reflexões do pensamento de Celso Furtado por Luis Cesar Fernandes – página 15 Crise econômica e Direitos fundamentais: reflexões a partir de Marx e Luhmann por Gustavo Henrique de Almeida – página 19
  • 2. Editorial Esta troca de saberes é que faz da academia um ambiente único e rico. Várias Passar quatro anos na academia para experiências, vários contextos e um alguns é penoso, cansativo e moroso. Para universo de possibilidades. outros se resume em preparar trabalhos e estudar para provas, o que contribui para o Vários autores já escreveram sobre o papel tempo passar rápido. E para um número fundamental que universidades têm diante menor significa uma oportunidade impar. da sociedade, o saber produzido ali dentro deve sair, ultrapassar os muros e chegar a Quero falar sobre estes que consideram a aplicabilidade, melhorando a qualidade de academia como período único em suas vida das pessoas e ou aumentando a vidas, pois eles estão certos. Talvez, produtividade das empresas. passado estes anos, nunca mais encontrarão ambiente propício para troca A revista Gestão Pedagógica chega com de conhecimentos. O ambiente esta proposta, incentivar a produção universitário exala conhecimento, estimula cientifica de docentes e discentes, seja em a inovação e novas ideias. universidades publicas ou particulares. O objetivo é abrir espaço para que Ao falar de conhecimento, não estou professores e alunos compartilhem suas referindo somente ao corpo docente, pois ideias, suas percepções e, que a academia, parafraseando Paulo Freire, o cumpra seu papel de proporcionar dias conhecimento é construído, ele não melhores para todos. simplesmente transferido de um individuo para outro, ele se constrói com a experiência de todos. E ainda segundo este grande mestre, se o professor entrar e sair de uma sala de aula, sem aprender nada de novo, ele não cumpriu seu papel. 2
  • 3. Gestão do Conhecimento1 into the labor market. Although the focus of magistério disponíveis, outros profissionais studies are focusing on early childhood tomam o lugar do pedagogo em outras O papel do pedagogo para as organizações education, there is a great demand for this áreas, onde o profissional da educação RESUMO professional services firms in the most different follow. Goal is not discard those teria muito mais a contribuir. Nas diretrizes Este artigo tem a intenção de mostrar aos that are the choice of working with the Curriculares Nacionais para o Curso de graduandos em Pedagogia e às organizações literacy of children, but add value to the as várias possibilidades deste profissional no Pedagogia, homologado em 15 de maio de profession, though noble that its value has mercado de trabalho. Apesar do foco dos little recognized even in his own half. 1996, esclarece que: estudos estarem centrados na educação infantil, existe uma grande demanda dos INTRODUÇÃO serviços deste profissional em empresas dos Em uma conversa informal em qualquer mais diferentes seguimentos. Não é objetivo Entende-se que a desfazer daqueles que fazem a opção de sala de aula do curso de Pedagogia, fica formação do licenciado em pedagogia trabalhar com a alfabetização de crianças, claro o objetivo pelo qual o discente busca fundamenta-se no mas sim agregar valor a esta profissão, que esta formação, trabalhar com a educação trabalho pedagógico apesar de nobre tem pouco reconhecimento de crianças e jovens, preferencialmente no realizado em espaços até mesmo em seu próprio meio. escolares e não- ambiente escolar. E esta preferência se escolares, que tem a ABSTRACT concretiza depois de terminado o curso, docência como base. Nesta perspectiva, a This article intends to show to students in onde a maioria busca vagas em escolas docência é the various possibilities of this education públicas e privadas, alguns bem compreendida como ação educativa e remunerados e outros nem tanto. Mas a 1 Paulo Roberto Cabral Junior é Bacharel em processo pedagógico Administração de Empresas, pós graduado em Gestão de verdade é que enquanto os formandos em Projetos e graduando em Pedagogia, Professor no metódico e intencional, Instituto Belo Horizonte de ensino superior e Assessor de Pedagogia preenchem as vagas de construído em relações Relações Institucionais na Fundep. 3
  • 4. sociais, étnico-raciais e referencial teórico utilizado, foram ouvidas Pedagogia Empresarial produtivas, as quais duas pedagogas que trabalham como influenciam conceitos, Ao observar a matriz curricular do curso de princípios e objetivos da gestoras em empresas, longe do ambiente Pedagogia, pode-se ter a falsa impressão pedagogia. 2 da educação infantil. Com o objetivo de que o formando terá que trabalhar mostrar aos formandos que os especificamente com a educação infantil. ensinamentos de Paulo Freire3, as aulas de Conclusão errônea vista a profundidade sociologia, didática, filosofia, e demais que este discente encontra nos seus Ou seja, o espaço de atuação deste disciplinas aprendidas durante o curso de estudos, para Libaneo: profissional é muito mais abrangente que pedagogia são aplicadas e bem recebidas os muros da escola, vão além do espaço nas organizações, seja pela capacidade que O curso de Pedagogia deve formar o escolar. Movidos pela grande concorrência este profissional tem de humanizar o pedagogo stricto senso, que exigem processos mais enxutos e ambiente de trabalho, ou pela inteligência isto é, um profissional melhorados continuamente, as empresas qualificado para atuar emocional que é capaz de aplicar e extrair em vários campos vivem em constante mudança, criando bons resultados a partir dela. O meio educativos para atender assim um ambiente de aprendizado. A empresarial está carente de pedagogos. demandas socio- educativas de tipo realidade no mercado de trabalho, é que Falta somente a conscientização deste formal e não-formal e Administradores e Psicólogos tem tomado profissional. informal, decorrentes de novas realidades - novas os lugares dos pedagogos neste ambiente 3 Paulo Reglus Neves Freire, destacou-se por seu trabalho tecnologias, novos educacional. Neste artigo, além do na área da educação popular, voltada tanto para a atores sociais, escolarização como para a formação da consciência. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história ampliação das formas 2 Resolução CNE/CP 1/2006. Diário Oficial da União, da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento de lazer, mudanças nos Brasília, 16 de maio de 2006, Seção 1, p. 11. chamado pedagogia crítica. 4
  • 5. ritmos de vida, presença animação cultural, na Esse perfil vem de encontro às atuais dos meios de televisão, no rádio, na necessidades empresariais, onde a figura comunicação e produção de vídeos, informação, mudanças filmes, brinquedos, nas do multiplicador de conhecimentos é profissionais, editoras, na condição sinequanon para propagação de desenvolvimento requalificação sustentado, preservação profissional etc.4 boas práticas dentro das empresas bem ambiental - não apenas como na construção de uma equipe da gestão, supervisão e motivada e competente. Neste âmbito coordenação pedagógicas de escolas, O Pedagogo adquire durante o curso um vimos uma área pouco explorada pelos como também na vasto conhecimento sobre aspectos sociais pedagogos, a Pedagogia Empresarial. pesquisa, na e psicológicos do ser humano, fato este administração dos A Professora Maria Luiza Marins Holtz, uma sistemas de ensino, no que, com exceção do curso de Psicologia planejamento das fundadoras da MH Assessoria não acontece em outros cursos. Este educacional, na Empresarial, que já atuou na área definição da políticas aprendizado somado ao adquirido com educacionais, nos educacional como professora, e que há 24 disciplinas como didática, práticas movimentos sociais, nas anos tem trabalhado com treinamento e empresas, nas várias pedagógicas e outras, o torna um instancias de educação capacitação de funcionários de várias profissional apto a atuar em diversas de adultos, nos serviços empresas, afirma em seu livro Lições de funções além das inerentes a educação de psicopedagogia e Pedagogia Empresarial, que hoje mais do orientação educacional, infantil. nos programas sociais, que nunca percebe a necessidade dos nos serviços para trabalhos pedagógicos dentro das terceira idade, nos 4 LIBANEO, José Carlos. Pedagogia e Pedagogos, para serviços de lazer e que? 5. ed. São Paulo: Cortez, 2002. empresas e a admiração dos empresários 5
  • 6. pelos trabalhos com este perfil pedagógico pronta, linguagem transmitindo seus conhecimentos não fluente. Imaginais que e seus resultados. somente para crianças, mas também para seja um único indivíduo? Pois oculta, dentro de si, adultos, onde exerciam esta tarefa como Para a Professora Maria Luiza, esta uma infinidade. É ao escravos e logo depois foram contratados e capacidade do pedagogo de contribuir para mesmo tempo gramático, geômetra, pagos para tal. formação profissional dentro das pintor, adivinho, empresas, vem desde a Grécia Antiga. médico, mágico, sabe Quando a Grécia foi conquistada pelos tudo quanto quer saber, compreende tudo Houve muita evolução na profissão desde a romanos, que traziam consigo uma quanto quer conquista da Grécia por Roma. Na idade característica guerreira, perceberam nos compreender.5 média por muitos anos a educação ficou a gregos homens cultos e letrados, com Na história da humanidade foi comum a cargo da igreja, depois tivemos os burgos habilidades e conhecimentos que interação entre culturas durante as em busca da qualificação de sua mão obra causavam muita admiração aos romanos, e conquistas. Tanto do povo dominado abrindo espaço para criação das primeiras foram eles, os gregos, os primeiros a quanto do povo dominador. Na conquista universidades. Veio o movimento receberem o título de pedagogos, não da Grécia por Roma esta interação se deu renascentista. Vários pensadores, filósofos simplesmente pelo conhecimento que de modo intencional. Os gregos exerceram e sociólogos escrevendo e defendendo possuíam, mas pela capacidade de um importante papel na cultura romana, suas idéias sobre a educação. Mais tarde transmiti-lo aos demais. Juvenal escreveu o tivemos a regulamentação da profissão, o seguinte sobre os atenienses: 5 HOLTZ, Maria Luiza M. .Lições de pedagogia empresarial. MH Assessoria Empresarial Ltda., Sorocaba que no Brasil só aconteceu no século SP. Disponível em Eles têm gênio <http://www.mh.etc.br/documentos/licoes_de_pedagogia passado. galhofeiro, audácia _empresarial.pdf>. Acesso em: 18 de maio de 2009. 6
  • 7. Mas a tendência de se aproveitar os negócio. Os ativos tangíveis – como capital conhecimentos dos pedagogos nas financeiro, instalações, Desenvolver pessoas empresas só tomou força a partir da maquinário – perderam não é apenas dar-lhes espaço para ativos informação para que década de 1980. Talvez pela grande intangíveis – como elas aprendam novos necessidade das empresas de capacitarem conhecimentos, conhecimentos, seus profissionais diante da globalização ou habilidades e habilidades e destrezas 6 competências. e se tornem mais também pelo grande fluxo de informações eficientes naquilo que que necessitava de gerenciamento O certo é que a partir de 1980 a fazem. É, sobretudo, globalização e o neoliberalismo forçaram as dar-lhes a formação correlato. básica para que elas empresas a tomarem uma nova postura na aprendam novas As décadas de 1980 e gestão de pessoas. A figura do atitudes, soluções, 1990 foram idéias, conceitos e que caracterizadas por uma multiplicador, aquele que entende bem os modifiquem seus intensa onda de processos da empresa e tem capacidade de hábitos e reorganizações nas transmitir seus conhecimentos aos outros comportamentos e se maiores organizações tornem mais eficazes do mundo todo. (...) se tornou obrigatória para as organizações naquilo que fazem. Nessa onda de que queriam ter sucesso em suas Formar é muito mais do reestruturações e que simplesmente reorganizações, as atividades. Para Chiavenato: informar, pois pessoas deixaram de ser representa um um recurso produtivo ou mero agente passivo 6 CHIAVENATO, Idalberto. Administração de Recursos para se tornar o agente Humanos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. ativo e proativo do 7
  • 8. enriquecimento da salienta a importância do pedagogo tanto conjunto de modelos ou personalidade humana.7 instrumentos de ação no setor de Recursos Humanos quanto no que a empresa utiliza No ambiente empresarial muito se tem setor de Gestão do Conhecimento. Para ela para falar e se fazer falado das “Learning Organizations”, ou existe uma grande necessidade para a ouvir. Interna ou externamente, a organizações que aprendem. O grande documentação e circulação de informações informação prestada trunfo destas empresas é a gestão do dentro das empresas, porém não existe um por ela correspondente a uma estratégia.9 conhecimento, entende-se por profissional para perceber como tais conhecimento a informação interpretada, elementos devem chegar aos receptores, É notório que quando se fala em ou seja, o que cada informação significa e quem são eles, sua capacidade de transmissão de conhecimento estamos que impactos no meio ela pode causar. O compreensão e análise. Sendo assim, intrinsecamente ligados à educação. Faz-se objetivo deste processo é criar um fluxo milhões são gastos em tecnologia e necessário o uso de várias metodologias tão transparente, que ele deixe de estar processos sem muitas vezes alcançar o para se alcançar o objetivo desejado. Para nas pessoas e sim na empresa. Isto pela objetivo desejável. O pedagogo entra como Muños: grande troca de valores entre os membros facilitador desta comunicação, com a O processo de 8 da equipe. Kathia Pimentel , Coordenadora análise do receptor, sua capacidade de desenvolvimento do conhecimento é Pedagógica dos cursos de Graduação em aprendizado e como preparar a basicamente o de Administração da FEAD em Belo Horizonte, comunicação para maximizar o resultado. aprendizagem. Portanto, a gestão da Para Bahia: 7 CHIAVENATO, Idalberto. Administração de Recursos Humanos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. A que se denomina 9 BAHIA, Juarez. Introdução à Comunicação Empresarial. Rio de Janeiro: Mauad, 1995. comunicação 8 Entrevista concedida dia 22 de maio de 2009 por telefone. empresarial é, assim o 8
  • 9. aprendizagem é uma equipe de Gestão do Conhecimento, neste representa a necessidade do ser humano de variável chave na gestão trazer de dentro para fora as suas caso, o pedagogo. eficiente do potencialidades interiores.11 conhecimento. O Kathia Pimentel lembra que nos processo de aprendizagem é um treinamentos empresariais, a presença do Em empresas que não possuem o mecanismo de melhora pedagogo, estes materiais são preparados pedagogo facilita a construção de textos e pessoal, mecanismo materiais preparados pedagogicamente de de forma técnica, com linguagem individualizado que depende das modo garantir o aprendizado dos complicada sem levar em conta o nível de capacidades de cada conhecimento que os ouvintes possuem. A pessoa, porém também funcionários. As organizações se das experiências de preocupam em capacitar seus funcionários extração das potencialidades fica aprendizagem que este comprometida, bem como os resultados objetivando aperfeiçoar processos e encontra pelo 10 maximizar resultados. Novamente fica esperados. O administrador ou qualquer caminho. claro o aspecto educacional. Capacitação outro funcionário pode adquirir tal nada mais é que um processo educativo. habilidade, mas este o faz depois de muitos Desse modo várias estratégias elaboradas erros. Novamente fica clara a falta que o por empresas se perdem no caminho, não As pessoas apresentam uma incrível olhar pedagógico faz às organizações. por falta de investimento, mas pela falta do capacidade de aprender e desenvolver. A profissional facilitador como membro da educação esta no cerne dessa capacidade. Os Não há docência sem discência, as duas se processos de desenvolvimento de pessoas 10 MUÑOZ, Beatriz; RIVEROLA, Josep. Transformando explicam e seus sujeitos Conhecimento em resultados: a gestão do conhecimento estão intimamente relacionados com a como diferencial na busca de mais produtividade e educação. Educar (do latim, educere) significa 11 CHIAVENATO, Idalberto. Administração de Recursos competitividade. São Paulo: Clio Editora, 2004. Humanos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. extrair, trazer, arrancar. Em outros termos, 9
  • 10. apesar das diferenças obrigação, e sim produzido com sua ajuda. humanização consegue-se extrair o melhor que os conotam, não se Neste viés, o pedagogo tem papel dos colaboradores. Hoje na Gerencia de reduzem à condição de objeto, um do outro. importante, pela sua facilidade de Concursos além de gerenciar pessoas, o Quem ensina aprende humanizar o ambiente em que trabalha e curso de pedagogia lhe ajuda nas outras ao ensinar e quem aprende ensina ao utilizar disso para conseguir a participação funções inerentes ao setor, tais como: 12 aprender. da equipe nesta produção epistemológica.  Desenvolver programas para provas Todas as atividades de capacitação de Valéria Fernandes 13 é Pedagoga e atua de acordo com a área de funcionários deveriam seguir esta lógica de como Gerente da Área Pedagógica da conhecimento; Paulo Freire, o conhecimento deve circular Gerencia de Concursos da Fundep, antes  Elaboração da parte pedagógica de dentro da empresa tornando o ocupava o cargo de Gerente de Prestação editais para concursos; aprendizado um processo continuo. de Contas. Sempre liderando equipes ela  Análise de critérios de avaliações Quando isto acontece, os resultados fluem enfatiza a facilidade que o pedagogo tem das provas; de forma mais natural dentro da empresa. em humanizar o ambiente de trabalho e  Revisão lingüística de todos os O funcionário fazendo parte do processo e conduzir o gerenciamento de pessoas. documentos; não somente sendo um receptor, ele Pode-se pensar que esta expertise  Traçar o perfil do candidato, colabora e se vê motivado a aplicar as sobreponha o racional e prejudique o programas e bibliografias. novas práticas dentro da organização. O cumprimento de metas, mas segundo sua Além destas ações, Valéria está sempre em conhecimento não apresentado como experiência ela afirma que com a contato com professores das mais diversas 12 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra, 13 Entrevista concedida dia 20 de maio de 2009 nas áreas, onde o fato dela ser pedagoga 1996. dependências da FUNDEP. facilita o contato com os mesmos. 10
  • 11. Tanto Valéria Fernandes como a Kathia própria cultura do nosso país de se investir Regionais de Pedagogia, o campo de atuação Pimentel afirmam que todos os pouco em educação pode explicar este do Pedagogo fica restrito às salas de aula, fundamentos teóricos que se aprende no fato. Essa falta de investimento e sem o valor devido.14 Assim profissionais de curso de pedagogia podem ser reconstruídos reconhecimento pelo poder público minou outras classes com conselhos atuantes e em sua aplicabilidade sempre que envolve o a credibilidade da classe. Paulo Freire regulamentados ocupam os lugares dos aprender. O aprendizado que o pedagogo destaca no livro Professora sim, tia não a pedagogos no mercado de trabalho, adquiriu na faculdade, deve ultrapassar os necessidade do resgate da dignidade do ficando os mesmos restritos às salas de muros da escola, a atuação deste professor. Com profissionais sendo aulas e sem o devido reconhecimento. profissional é uma necessidade da chamados de tias ou tios, muitas vezes mal Metodologia sociedade de um modo geral. Para Libaneo remunerados e sem plano de carreira, (2002) “verifica-se hoje, uma ação criou-se certo descrédito perante a Para confecção deste artigo foi utilizada a pedagógica múltipla na sociedade. O sociedade. pesquisa bibliográfica buscando autores da pedagógico perpassa toda a sociedade, área administrativa, pedagógica e aqueles Para Kathia Pimentel a falta de um extrapolando o âmbito escolar formal, que atuam nas duas áreas e entrevistas conselho da classe dificulta ações que abrangendo esferas mais amplas da com pedagogos que não atuam na visem dignificar o ofício do pedagogo. A educação informal e não-formal”. educação infantil. Definindo a pesquisa Associação Universitária de Pedagogia do bibliográfica como “aquela que procura Com tanto a oferecer às empresas, por que Brasil em seu site afirma que sem a então existem tão poucos pedagogos regulamentação da profissão que inclui, 14 MADEIRA, Wania. Pedagogos lutam pela regulamentação da profissão. 2009. Disponível em: atuando em empresas? Ou porque este entre outras exigências, a aprovação do <http://www.aunipedagbr.kit.net/eventos.htm> profissional não é mais valorizado. A Código de Ética e a criação de Conselhos . Acesso em: 18 de maio de 2009. 11
  • 12. aplicar os conhecimentos adquiridos formação visam entender o discente, seu pressuposto que seus funcionários 15 baseados em referências teóricas” , o contexto social e a partir dele exercer sua necessitam de ajuda para superarem as objetivo foi analisar o atual contexto social, influência educativa, respeitando os limites dificuldades de relacionamento no grupo, o papel do pedagogo diante dele e a e ao mesmo tempo o expandindo. precisam superar fragmentações de aplicabilidade dos conhecimentos setores e criar condições para que As empresas por sua vez encontram-se adquiridos no meio empresarial. As trabalharem de forma interdisciplinar. diante do neoliberalismo e da globalização, entrevistas com as Pedagogas Kathia onde a concorrência não respeita mais Para facilitar esta união entre a pedagogia Pimentel e Valéria Fernandes vieram fronteiras e o diferencial está no capital e a gestão, a regulamentação do conselho reiterar e validar o referencial teórico. humano. E a única maneira de sobressair da classe teria papel fundamental. Como Considerações finais sobre seus concorrentes é investir na autarquias federais garantiriam à sociedade capacitação de seus colaboradores e a qualidade dos serviços prestados por A construção do conhecimento é uma melhorar o fluxo de informações entre estes profissionais, tendo como tarefa nobre que exige dedicação. O eles. conseqüência sua valorização. pedagogo é o único profissional que é formado para exercer tal tarefa. Todos os Neste contexto a figura do pedagogo se A valorização do conhecimento dentro das conhecimentos adquiridos durante sua faz tão necessária dentro da empresa como empresas abre uma exponencial dentro das escolas. A empresa que aprende oportunidade para o profissional da 15 CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia Científica. 5.ed. São Paulo: Prentice Hall, necessita de metodologias que irão criar o pedagogia. Cabe agora ao pedagogo fazer 2002. ambiente de aprendizado. E tais sua parte incluindo em seu currículo procedimentos devem partir do especializações em gestão. Existem vários 12
  • 13. cursos de pós-graduação em recursos várias oportunidades fora dos muros das Estados Unidos. Foi professor da EAESP- humanos, gestão de pessoas e escolas e, ocupar o espaço que, pela FGV, como também de várias universidades administração, sem falar nas graduações formação, é do pedagogo. no exterior, e consultor de empresas. para tecnólogos em dois anos que também Idalberto Chiavenato é pedagogo, sua Um dos autores sobre administração mais o auxiliariam na inserção no meio graduação foi em pedagogia. Estranho? lidos no Brasil e no mundo chama-se empresarial. Os pedagogos que atuam Não. O pedagogo tem todo o Idalberto Chiavenato. Único autor brasileiro nesta área geralmente têm esta formação conhecimento necessário para trabalhar a ostentar mais de doze livros sobre complementar, como é o caso das duas com pessoas, o capital intelectual da administração traduzidos para a língua pedagogas entrevistadas para este artigo. empresas, o mais valorizado, mais que espanhola. Traz consigo vários prêmios e produtos ou tecnologias. No meu ponto de vista o que falta para a distinções recebidos por sua atuação na valorização do pedagogo no mercado de área de administração geral e de recursos Referências Bibliográficas trabalho é a sua auto-valorização. humanos incluindo dois títulos Doutor BAHIA, Juarez. Introdução à Comunicação Conscientizar-se da sua importância para a Honoris Causa em universidades na América Empresarial. Rio de Janeiro: Mauad, 1995. sociedade como um todo. A construção do Latina. Especializado em Psicologia CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. conhecimento se torna natural com a Educacional pela USP, em Direito pela Metodologia Científica. 5.ed. São Paulo: inserção do trabalho deste profissional, Universidade Mackenzie e pós-graduado Prentice Hall, 2002. seja nas escolas ou no ambiente em Administração de Empresas pela organizacional. Atitudes mais ativas se EAESP-FGV, também é mestre (MBA) e CHIAVENATO, Idalberto. Administração de tornam necessárias por parte dos Doutor (Ph.D.) em Administração pela City Recursos Humanos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. pedagogos, a primeira delas é visualizar as University of Los Angeles, Califórnia, 13
  • 14. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/pemp03 saberes necessários à pratica educativa. São .htm>. Acesso em: 18 de maio de 2009. Paulo: Paz e Terra, 1996. RIBEIRO, Amélia Escotto do Amaral. Pedagogia HOLTZ, Maria Luiza M. .Lições de pedagogia Empresarial: a atuação do pedagogo na empresarial. MH Assessoria Empresarial Ltda., empresa. Rio de Janeiro: Wark, 2003. Sorocaba SP. Disponível em <http://www.mh.etc.br/documentos/licoes_de_ pedagogia_empresarial.pdf>. Acesso em: 18 de maio de 2009. LIBANEO, José Carlos. Pedagogia e Pedagogos, para que? 5. ed. São Paulo: Cortez, 2002. MUÑOZ, Beatriz; RIVEROLA, Josep. Transformando Conhecimento em resultados: a gestão do conhecimento como diferencial na busca de mais produtividade e competitividade. São Paulo: Clio Editora, 2004. NOGUEIRA, Rodrigo dos Santos. A importância do pedagogo na empresa. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: 14
  • 15. Um Novo Modelo para o Brasil: reflexões do científica, ele observa que a interação entre Para Furtado, essa reprodução dos padrões de pensamento de Celso Furtado1 esses dois processos deveria ser buscada da consumo vai continuar/continua a determinar Embora soubesse que a definição de um seguinte maneira: de um lado, na intuição de atualmente as duas tendências centrais das projeto nacional não era tarefa de uma pessoa, Galileu de que a natureza seria racional e economias subdesenvolvidas (periféricas): a mas de uma nação, Celso Furtado dedicou-se, poderia ser reduzida a esquemas propensão ao endividamento externo e a em grande parte de sua vida, na busca de um geometrizáveis e, de outro, no processo de concentração social da renda. Ambos os novo paradigma de desenvolvimento. Em seu acumulação capitalista que torna a processos têm como ponto central a alta último livro, "Em Busca de Novo Modelo" (Paz racionalidade instrumental dominante. propensão a consumir das classes altas e e Terra, 2002), se ele não encontrou esse médias brasileiras, em sua ansiedade em Todavia, neste contexto, a industrialização modelo, destacou seu pensamento com brio e reproduzir o modelo de consumo dos países tardia de países como o Brasil é muito diferente nos ofereceu direcionamentos valiosos para centrais. da dos países hoje desenvolvidos, porque, uma densa reflexão dos problemas, das opções enquanto nestes a inovação e a difusão Ao comparar o Brasil com a Índia, ele nos e dos caminhos que possam ser galgados por combina-se para responder às próprias oferece dados importantes que fundamentam nossa nação. necessidades das sociedades, naqueles a o seu argumento. Ainda que a Índia tenha uma Ao voltar às raízes do desenvolvimento difusão é marcada pela tentativa de imitação renda por habitante que é um quinto da econômico, ou seja, às revoluções capitalista e por parte das elites (as classes altas e médias). brasileira, sua taxa de poupança é Essas, em grande parte, passam a assumir os consideravelmente maior do que a do Brasil. 1 Luiz Cesar Fernandes da Silva é Mestre em padrões de consumo e do modismo dos países Como pode ser explicado isto? A resposta é que Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, desenvolvidos (centrais) a ignorar o interesse no Brasil a renda é consideravelmente mais especialista em Finanças – UFMG e bacharel em Economia. Professor Universitário, trabalha com nacional. Consultoria Financeira Empresarial e integra o grupo de Pesquisa – Emprego e Renda da Fundação João Pinheiro, juntamente com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo de Minas Gerais. 15
  • 16. concentrada nas classes altas e médias do que reforçada por esses tipos de bens. Entretanto, fenômeno de aculturação. Ou seja, o brasileiro na Índia. 2 hoje, a concentração de renda deve ser de renda alta absorve padrões de consumo, de buscada no tipo de desenvolvimento desperdício e o gosto pela ostentação dos Pode-se inferir que a busca da reprodução dos tecnológico, que aumentou a demanda de países desenvolvidos. Todavia, como ter esse padrões de consumo norte-americano está na trabalho qualificado4. padrão de vida com uma renda dez vezes raiz, seja da concentração de renda, seja da menor do que a dos norte americano? baixa taxa de poupança. Desta, dada a própria Todavia, a maior ênfase na análise de Furtado, natureza da tentativa; daquela, na medida em recai no fato de que as classes (altas e médias) Para ele, a acusação de prática de populismo que a demanda para os bens de consumo de beneficiadas com essa concentração não se econômico, que essas classes (elites) usam luxo produzidos depende dessa concentração.3 mostram à altura de seu papel de elite. Ao para atacar os políticos populares, é imprópria, copiarem os padrões de consumo norte- porque o consumo é delas, e não das classes A primeira relação me parece irrefutável. americano, não poupam para investir e pobres. Dito de outro modo, as elites, em Todavia, a segunda me parece que perdeu 5 endividam o país no exterior. Furtado ressalta parte, proporcionam o déficit público e, parte da sua validade. Nos anos 60 e 70, que esse é um grande desafio que parte de um principalmente, o "populismo cambial" (a quando muitos dos bens de consumo de massa valorização artificial do câmbio, em nome do 4 O atual debate social apresenta geralmente o estavam restritos à classe média e à classe alta, desemprego como o resultado de três fatores combate à inflação, para facilitar o consumo de a concentração de renda já existente era emenrgentes: a mundialização dos mercados, que provoca uma reestruturação da produção, a introdução bens e serviços com considerável componente de uma tecnologia que utiliza cada vez menos mão-de- obra e o fim de uma era de crescimento econômico importado). Apesar das classes de baixo poder 2 A Renda per capta na Índia não alcança 20% da brasileira. sustentado, que garantia o pleno emprego. Assim, dentro Além disso, no Brasil, os 20% que detém a renda mais alta, do contexto da globalização, podem-se observar aquisitivo também adquirirem bens absorvem cerca de 70% desta. Na índia, esse fator mercados altamente competitivos, movidos por políticas importados, esses são, em termos monetários, corresponde a 40%.Detalhes: Furtado (2002). econômicas agressivas, que têm evidenciado um 3 Na índia, os 20% menos favorecidos recolhem 9% da ambiente com grandes e imprevisíveis mudanças. Sob renda, enquanto no Brasil essa mesma percentagem da este aspecto, a inovação tecnológica passou a ser um população recolhe apenas 2%. Ou seja, a população fator vital para a sobrevivência das organizações, pois ela 5 Pois grandes partes dos impostos recaem sobre as indiana faz um esforço para poupar superior ao da determina o avanço da qualidade de produtos e serviços. classes pobres. A arrecadação, em termos monetários, brasileira. torna-se baixa, apesar da alta carga tributária. 16
  • 17. extremante inferiores aos das classes ricas. Furtado percebe este fato quando afirma que Concordo com Furtado quando ele diz que, Furtado concentra assim, sua análise no "o ponto de partida do processo de grande parte da questão central é saber se consumo das elites. reconstrução que temos de enfrentar deverá temos ou não possibilidade de preservar nossa ser uma participação maior do povo no identidade cultural e nacional. A essa indagação Ao referir sobre o aspecto político ele é mais processo de decisão" (pág. 36), mas em não me permito responder. No contexto atual rigoroso. Desataca que é constrangedor o seguida, contraditoriamente, ele manifesta sua de internacionalização das economias, os fracasso das elites. Enquanto as elites cafeeiras esperança de que os intelectuais ajam como Estados nacionais são mais interdependentes, do Oeste paulista e, mais tarde, as elites uma vanguarda para evitar que a mancha de mas precisam ser cada vez mais “fortes”. industriais e tecnocráticas, que surgiram entre irracionalidade se alastre. os anos 30 e 50, foram salientes em promover Dois vetores contraditórios expressam os o desenvolvimento nacional, as de hoje, Em síntese, posso até confiar que os novos tempos de economias “globais”. Se por alienadas em um grau impensável, fracassam intelectuais tenham essa capacidade, um lado se prega a liberalização dos mercados na sua missão de dirigir o país. Ao entretanto, não me parece visível que isso (afastamento do Estado) para que os países reproduzirem os padrões de consumo dos venha ocorrendo no país. Assim como ele, subdesenvolvidos possam colher as benesses países centrais, reproduzem também, de forma acredito numa prosperidade para a nação, na da revolução tecnológica e da nova divisão acrítica, a ideologia externa e o modismo. Ao medida em que a democracia se aprofunde, internacional do trabalho, por outro, necessita- invés de definirem qual o interesse nacional e o através da aproximação, cada vez mais, da se cada vez mais de um Estado regulador. defenderem, dedicam-se ao confidence sociedade no envolvimento do debate público. Bastam dois exemplos: o da crise imobiliária building: ou seja, o que lhes interessa é saber o Pode-se assim, estabelecer limites para a dos EUA e as reuniões dos organismos que os estrangeiros pensam do Brasil, não o “alienação” das classes médias e altas e a internacionais que acontecem sobre as que o Brasil pensa sobre seu futuro. formação do acountabilty democrático- relações comerciais. Os governos dos países político. desenvolvidos defendem a todo custo o capital (suas empresas e seus setores nacionais por 17
  • 18. meio de medidas protecionistas) e o trabalho nacional (seus interesses sociais). Parece-me que o Brasil não tem alternativa a não ser, tentar fazer o mesmo. Referência Bibliográfica FURTADO, Celso. Em busca de novo modelo. Reflexões sobre a crise contemporânea. Editora Paz e Terra;São Paulo, 2002. 18
  • 19. Crise econômica e Direitos fundamentais: análise sobre a histórica luta de classes entre Segundo o filósofo, o capitalismo possui reflexões a partir de Marx e Luhmann1 opressores e oprimidos.4 contradições inexoráveis cada vez mais gravosas que, ao fim, levariam à superação do aludido A história de todas as sociedades que existiram Marx e Engels desconstruíram os paradigmas sistema pelo comunismo. Uma primeira até nossos dias tem sido a história das lutas de epistemológicos do historicismo vigente à época contradição refere-se à acumulação de capital nas classes, 2 assim, Karl Marx e Friederich Engels propugnando pela análise da história a partir do mãos de uma minoria abastada gera a redução do definiram o curso histórico da sociedade até 1848, materialismo dialético,5 sustentados pela doutrina poder de compra dos pobres. Decorre de tal fato quando veio a público o Manifesto do Partido de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. desigualdades sociais que acabam por minar o Comunista. O estado de crise da sociedade na qual Marx próprio mercado gerando dificuldade crescente A oposição entre a tese e a antítese,3 que sob a viveu, em pleno século XIX, fez com que ele no escoamento da produção. luz da teoria luhmanianna denomina-se código aprofundasse o estudo da história da A segunda contradição marcante refere-se ao binário, desdobrou-se, em Marx e Engels, na humanidade, o que lhe permitiu encontrar uma esgotamento dos recursos disponíveis em virtude marcante oposição entre classes. do aumento da produção, pois o capitalismo 1 Gustavo Henrique de Almeida é mestrando em Direito Diante da reformulação do historicismo a partir trabalha a ideia de satisfazer necessidades Empresarial pela Fundação Universidade de Itaúna, pós- graduado em Direito Empresarial pela Universidade Gama do materialismo dialético, o estudioso explicitou a infinitos com recursos finitos. Filho, pós-graduado em Direito Privado pela Universidade 6 crise do sistema capitalista, fundado na Cândido Mendes, além de ser professor de Direito As críticas ao pensamento de Marx não são raras, Empresarial, Direito Civil, Direito da Informática, Direito economia de mercado e na propriedade privada, Processual Civil e Ética. Desempenha também a função de especialmente após a queda da União Soviética, coordenador do curso de bacharelado em Direito da evidenciando a contradição econômica entre o ter FACEMG, e é Advogado militante. que pretendeu adotar, na prática, a sua teoria 2 ENGELS, Friedrich; MARX. Karl Heinrich. O Manifesto e o não-ter. comunista.7 Comunista. 1848. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/manifestoc omunista.html>. Acesso em: 15 de dezembro de 2008. 4 ENGELS, Friedrich; MARX, Karl Heinrich. op. cit. 3 VALLESPIN, Fernando. Introducción. In: LUHMANN, Niklas. 5 MARX, Karl Heinrich. Para a Crítica da Economia Política; 7 MISES, Ludwig Von. Economic Calculation in the Teoría Política en el Estado de Bienestar. Trad. Fernando Salário, preço e lucro; O rendimento e suas fontes: a Socialist Commonwealth. Disponível em: Vallespín. Madrid: Alianza Editorial, 1993. p. 14-15. economia vulgar. São Paulo: Editora Abril, 1982, p. 4. <http://mises.org/pdf/econcalc.pdf>. Acesso em: 16 de 6 ENGELS, Friedrich; MARX, Karl Heinrich. op. cit. dezembro de 2008, p. 32. 19
  • 20. Apesar das oposições às teorias marxistas, outros proposições disseminadas por Marx11 no século todos, independentemente da condição pensadores propugnaram a crise do capitalismo, XIX, não no que toca ao comunismo ou à ausência econômica individual, vivessem dignamente. dentre eles o inglês John Maynard Keynes,8 que da propriedade privada, mas sim no que se refere 12 Não se pode atribuir à escassez 13 a miséria, a sustentou, também, ideias acerca de contradições às bases do materialismo histórico e dialético. pobreza, e outras mazelas materiais internas daquele sistema, muito parecidas com as A concentração de riquezas nas mãos de poucos, experimentadas pela sociedade pós-industrial. de Marx, de sorte que ambos defendiam que as que ocorre em algumas economias que adotam o Com efeito, a concentração de riquezas 14 se crises correspondem ao reflexo da insuficiência sistema capitalista, demonstra a incapacidade de apresenta como a ferida mais aguda do do poder de compra por parte da população. tal sistema manter o equilíbrio necessário para capitalismo, cujas demais cóleras dela decorrem. Estivessem certos ou não, as crises econômicas garantir o mínimo existencial a todos os que estão Não obstante à escassez dos recursos naturais, o experimentadas após a exposição do pensamento inseridos no mercado. capitalismo é dotado de meios para produzir o dos citados filósofos fizeram com que as teorias Em tempo de crise, mas especialmente em suficiente para atender à demanda pelos diversos por eles elaboradas fossem visitadas de forma circunstâncias normais no cenário econômico do bens de primeira ordem. Entretanto, a produção recorrente.9 sistema capitalista, a grande preocupação se dá em virtude da demanda do mercado,15 que Em que pese à hipercomplexidade10 da sociedade consiste em garantir direitos básicos a todos, o considera apenas aqueles que possuem renda do século XXI, cujo sistema econômico apresenta- que se revela tarefa árdua. para o consumo. O grande desafio desse sistema se igualmente complexo, as crises econômicas é possibilitar aos indivíduos excluídos, que não A economia de mercado, fundamento do aludido revelam a necessidade de repensarmos as sistema capitalista, não garante à população acesso ao mínimo para sua subsistência com 13 GALDINO, Flávio. Introdução à Teoria dos Custos do Direito: direitos não nascem em árvores. Rio de dignidade. Mesmo com a evolução da economia, Janeiro: 2005, Lumen Júris. p. 155. 8 PREBISCH, Raúl. Keynes, uma introdução. Trad. 14 RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO DA os Estados não foram capazes de assegurar que Otacílio Fernando Nunes Jr. São Paulo: Brasiliense, ONU. Lisboa: Trinova Editora. Disponível em: 1991. p. 25. <http://www.pnud.org.br/hdr/hdr2000/docs/RDH6por. 9 GRESPAN, Jorge. Karl Marx. São Paulo: Publifolha, pdf>. Acesso em: 16 de dezembro de 2008, p. 2. 2008, p. 13. 11 COELHO, Luiz Fernando. Teoria Crítica do Direito. 3ª 15 SZTAJN, Rachel. Teoria jurídica da empresa: 10 FAGUNGEZ, Paulo Roney Ávila. O Direito e a ed. Curitiba: Del Rey. 2003, p. 103. atividade empresária e mercados. São Paulo: Atlas, hipercomplexidade. São Paulo: Ltr, 2003, p. 98. 12 MARX, Karl Heinrich. op. cit. p. 4. 2004, p. 105. 20
  • 21. possuem condições materiais, acesso aos bens pensamento apresenta-se como teoria de garantia dos direitos fundamentais aos indivíduos necessários à sobrevivência digna. sistemas autopoiéticos e autorreferenciais.19 que compõem a sociedade. O diálogo entre o sistema econômico, o sistema Sob a ótica do sociólogo, os sistemas sociais são Todos os esforços devem se dirigir, político e o sistema jurídico afigura-se como uma fechados organizacionalmente, de forma que são primordialmente, para a erradicação das mazelas possibilidade de diagnosticar as falhas que levam capazes de se automodificarem, além de se auto- sociais que assolam a humanidade. Entretanto, a ao desequilíbrio e impedem os indivíduos de ter observarem e se autorreferirem. lógica sistêmica da economia baseia-se no binário acesso ao mínimo existencial. 20 ter não-ter. 22 Tal codificação, à luz de Marx, Por outro lado, os sistemas são abertos representa a relação dialética dos opressores e Niklas Luhmann apresentou à ciência sua forma cognitivamente, de sorte que a comunicação dos oprimidos, em outras palavras, entre aqueles de compreender a sociedade, denominada de entre eles não só é possível, mas necessária. que têm e aqueles que não têm. teoria dos sistemas.16 Para tanto, apoiou-se nos Nessa perspectiva, o sistema jurídico, o político e estudos biológicos de Humberto Maturana e A hipercomplexidade da sociedade pós-industrial o econômico devem se comunicar, sem que isso Francisco Varela, reduzindo a complexidade da não permite sustentar as proposições de Marx no signifique dizer que entre eles haja sobreposição compreensão social.17 que se reporta à classe burguesa em contraponto ou controle. à classe proletária. Luhmann concebe a sociedade como um conjunto O que se torna imprescindível é a comunicação de sistemas vivos observado por meio da Com efeito, nos dias atuais, a dialética social 18 para se formar um acoplamento estrutural,21 em distinção entre sistemas e meio. Seu estabelecida pela economia de mercado que o sistema jurídico venha a influenciar o configura-se no binário incluídos/excluídos, na sistema econômico e político, culminando na 16 LUHMANN, Niklas. Die Gesellschaft der Gesellschaft. medida em que tenham ou não tenham. Frankfurt: Suhrkamp, 1997, cap.1, p. X; Cap. 4, p. XII. 17 MATHIS, Armin. A sociedade na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Disponível em: A exclusão social, provocada pela concentração <http://www.infoamerica.org/documentos_pdf/luhma http://revistaeletronicardfd.unibrasil.com.br/index.php/ de riquezas, consiste em objeto recorrente de nn_05.pdf>. Acesso em: 12 de dezembro de 2008, p. 4. rdfd/article/view/172/119. Acesso em: 13 de dezembro 18 LIMA, Fernando Rister Sousa. Constituição Federal: de 2008, p. 3. apontamentos estatísticos de organismos acoplamento estrutural entre os sistemas político e 19 LIMA, Fernando Rister Sousa. op. cit. p. 4. jurídico. Revista Direitos Fundamentais e Democracia. 20 LIMA, Fernando Rister Sousa. op. cit. p. 5. 2008. v. 4. Disponível em: 21 LIMA, Fernando Rister Sousa. op. cit. p. 1. 22 LIMA, Fernando Rister Sousa. op. cit. p. 6. 21
  • 22. internacionais. Relatórios apresentados pela ONU dólares para erradicar a fome, que mata 10 Qualquer acoplamento estrutural resultante da demonstram que 85% da produção e do consumo milhões de crianças por ano.25 comunicação entre tais sistemas não pode se mundial estão localizados nos países efetivar sem conceber aspectos relativos à Os EUA concentram 5% da população mundial, desenvolvidos que, em contrapartida, dignidade da pessoa humana, resguardando os que consome 40% dos recursos naturais concentram apenas 19% da população global.23 direitos fundamentais. disponíveis. Proporcionalmente, se os 6 bilhões Alguns outros Relatórios do Desenvolvimento de pessoas que habitam o globo mantivessem o Entretanto, tal premissa não é a preocupação das Humano demonstraram que a riqueza conjunta mesmo padrão de vida dos 270 milhões de instituições privadas e das governamentais, tendo das duzentas pessoas mais ricas do mundo atingiu americanos, seriam necessários 6 planetas para em vista as medidas que estas adotam como 1 trilhão de dólares em 1999; a renda conjunta dos suprir tal nível de consumo.26 solução em momentos de crise, especialmente no quinhentos e oitenta e dois milhões de pessoas que se refere à esfera econômica. Esses dados refletem, além dos traços de uma que vivem nos 43 países menos desenvolvidos é sociedade contingente,27 a impotência do sistema Todos os olhares voltam-se para o mercado, de de 146 bilhões de dólares, e que, em 1998, os 48 econômico, político e jurídico atualmente sorte que prevalece a crença vã de que a sua países menos desenvolvidos atraíram menos de 3 estabelecidos, que ignoram28 o estado crônico de salvação significa a salvação da humanidade, com bilhões de dólares de investimento direto crise no qual a humanidade se imerge. o que não se pode concordar. estrangeiro, apenas 0,4% do total mundial.24 Enquanto todas as medidas estatais são Estima-se que sejam investidos anualmente 435 direcionadas ao salvamento da indústria, que bilhões de dólares em publicidade no mundo, 25 STARICCO, Beatriz Bissio. As soluções não se situam esgota os recursos naturais; bem como das enquanto seriam suficientes apenas 15 bilhões de mais dentro da economia. Revista Ecologia e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Terceiro Milênio, instituições financeiras, que beneficiam poucos à 2000, p. 76. 26 MOON, Peter. O futuro é um inferno. Disponível em: custa da exploração de muitos, grande parte da <http://www.istoedigital.com.br>. Acesso em: 4 maio população mundial resta excluída do acesso ao de 2002. 23 VITOR, C. A questão ambiental deve estar no centro 27 LIMA, Fernando Rister Sousa. op. cit. p. 5. mínimo existencial, cujo comprometimento dos de tudo. Revista Ecologia e Desenvolvimento. Rio de 28 CORSI, Giancarlo. Sociologia da Constituição. Trad. Janeiro: Terceiro Milênio, 2002, p. 100. Juliana N. Magalhães. Revista da Faculdade de Direito órgãos governamentais para sua oferta aos 24 RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO DA da Universidade Federal de Minas Gerais. Nº 39. Belo cidadãos não demandaria todos os recursos ONU. op. cit. p. 1. Horizonte: UFMG, janeiro-junho de 2001, p. 1. 22
  • 23. destinados à solução de crises econômicas como Por fim, cabe ressaltar que os excluídos que <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/manifestoc as ocorridas em 1929, 2002 e 2008. figuram à margem dos sistemas, embora deles omunista.html>. Acesso em: 15 de dezembro de 2008. façam parte, devem se agitar, especialmente no Com efeito, a crise do sistema econômico âmbito político, de forma a irritar o meio para a FAGUNDEZ, Paulo Roney Ávila. O Direito e a evidencia as contradições internas do próprio hipercomplexidade. São Paulo: Ltr, 2003, p. 98. promoção de mudanças, o que só é possível com capitalismo, modelo que não apresenta para a o fim do estado de alienação dos indivíduos,32 todos os casos respostas efetivas para se atingir produto do capitalismo consumista e da GALDINO, Flávio. Introdução à Teoria dos Custos equilíbrio29 econômico e desenvolvimento. sociedade de massa. do Direito: direitos não nascem em árvores. Rio de Janeiro: Lumen Júris. 2005, p. 155. Nesse sentido, a real crise, mais vasta, crônica e Bibliografia: de difícil solução, está na inter-relação sistêmica GRESPAN, Jorge. Karl Marx. São Paulo: Publifolha, 2008, p. 13. entre o direito, a economia e a política, pois, CARVALHO NETTO, Menelick de. Requisitos enquanto os direitos e garantias fundamentais pragmáticos da interpretação jurídica sob o LIMA, Fernando Rister Sousa. Constituição paradigma do Estado Democrático de Direito. In: Federal: acoplamento estrutural entre os sistemas não forem acoplados em cada sistema, e estes Revista de Direito Comparado. Belo Horizonte. político e jurídico. Revista Direitos Fundamentais e não assimilarem a prioridade da dignidade da Democracia. 2008. v. 4. Disponível em: Curso de Pós-Graduação em Direito da UFMG e pessoa humana, a política continuará a se Mandamentos. v. 3, maio de 1999, p. 473-486. <http://revistaeletronicardfd.unibrasil.com.br/inde preocupar com os interesses da situação, a x.php/rdfd/article/view/172/119>. Acessado em: 13 COELHO, Luiz Fernando. Teoria Crítica do Direito. de dezembro de 2008. p. 3. economia manterá a minoria dos indivíduos 3ª ed. Curitiba: Del Rey, 2003, p. 103. detentora da maioria das riquezas e o direito LUHMANN, Niklas. Die Gesellschaft der CORSI, Giancarlo. Sociologia da Constituição. Gesellschaft. Frankfurt: Suhrkamp, 1997, cap.1, p. permanecerá como instrumental de controle30 dos Trad. Juliana N. Magalhães. Revista da Faculdade X; Cap. 4, p. XII. excluídos pela classe dominante dos incluídos.31 de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Nº 39. Belo Horizonte: UFMG, janeiro- MARX, Karl Heinrich. Para a Crítica da Economia junho de 2001. Política; Salário, preço e lucro; O rendimento e suas fontes: a economia vulgar. São Paulo: Editora 29 GORENDER, Jabob. Introdução à obra Para a Crítica ENGELS, Friedrich; MARX, Karl Heinrich. O Abril, 1982, p. 4. da Economia Política de Karl Marx. São Paulo: Editora Abril, 1982, p. VII. Manifesto Comunista. 1848. Disponível em: 30 CORSI, Giancarlo. op. cit., p. 5. 31 COELHO, Luiz Fernando. op. cit. p. 573. 32 COELHO, Luiz Fernando. op. cit. p. 108. 23
  • 24. MATHIS, Armin. A sociedade na teoria dos SZTAJN, Rachel. Teoria jurídica da empresa: sistemas de Niklas Luhmann. Disponível em: atividade empresária e mercados. São Paulo: <http://www.infoamerica.org/documentos_pdf/lu Atlas, 2004, p. 105. hmann_05.pdf> Acesso em: 12 de dezembro de VALLESPÍN, Fernando. Introducción. In: 2008, p. 4 LUHMANN, Niklas. Teoría Política en el Estado de MISES, Ludwig Von. Economic Calculation in the Bienestar. Trad. Fernando Vallespín. Madrid: Socialist Commonwealth. Disponível em: Alianza Editorial, 1993, p. 14-15. <http://mises.org/pdf/econcalc.pdf>. Acesso em: VITOR, C. A questão ambiental deve estar no 16 de dezembro de 2008, p. 32. centro de tudo. Revista Ecologia e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Terceiro Milênio, 2002. p. 100. MOON, Peter. O futuro é um inferno. ISTOÉ. Disponível em: <http://www.istoedigital.com.br>. Acesso em: 4 de maio de 2002. PREBISCH, Raúl. Keynes, uma introdução. Trad. Otacílio Fernando Nunes Jr. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 25. Créditos RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO DA ONU. Lisboa: Trinova Editora. Disponível em: Editor-chefe – Paulo R. Cabral Jr. <http://www.pnud.org.br/hdr/hdr2000/docs/RDH Direção de arte – Alex Pereira Costa 6por.pdf>. Acesso em: 16 de dezembro de 2008, p. 2. Revisão – Alex Pereira Costa STARICCO, Beatriz Bissio. As soluções não se Contribuições nesta edição: Luís Cesar situam mais dentro da economia. Revista Ecologia Fernandes e Gustavo Henrique de e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Terceiro Almeida Milênio, 2000, p. 76. 24