Tcc geral mídia_e_evangelização_2006

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Trabalho de conclusão de curso superior em Relações Públicas.

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Tcc geral mídia_e_evangelização_2006

  1. 1. Universidade do Vale do Rio dos Sinos Ciências da Comunicação Curso de Comunicação Social – Habilitação em Relações Públicas Mídia e evangelização: Arquiteturas midiáticas e paralelos com programas de auditório. Maurício Castro Pinzkoski Prof. Dr. Valério Cruz Brittos Orientador São Leopoldo, novembro de 2005.
  2. 2. Universidade do Vale do Rio dos Sinos Ciências da Comunicação Curso de Comunicação Social – Habilitação em Relações Públicas Mídia e evangelização: Arquiteturas midiáticas e paralelos com programas de auditório. Maurício Castro Pinzkoski São Leopoldo, 2005 Monografia de Conclusão em Relações Públicas. Para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social – Habilitação Relações Públicas
  3. 3. 3 Dedicatória Dedico este trabalho aos meus pais, Aldoir e Clarinda, irmãos, Alexandre, Ana Cristina e Aldoir Filho por de alguma maneira me apoiar a cumprir esta importante etapa da minha vida. Não os esquecerei e sempre poderão contar com a minha pessoa. A toda minha família que é cheia de guerreiros. A todos os professores (Efendi, Erica, Cláudia, Helenice, Ricardo, Gilmar, Gabriela, Lauro, Nadege, Nísia, Fabrício Suzana, Vera e o Zé) que sempre serão lembrados no decorrer dos meus pensamentos. Aos excelentes profissionais Valério Cruz Britto e Dênis Simões pelo apoio incondicional e força descomunal empreendida para a conclusão dessa monografia.
  4. 4. 4 Agradecimentos Agradeço ao deputado Ney Lopes do Rio Grande do Norte que em 1976 propôs a criação do crédito educativo, pois sem ele não teria condições de concluir minha formação. Agradeço a todos que colaboraram para que esta conquista fosse alcançada. Com dificuldades e pedras no caminho cheguei aqui com o auxilio de vocês. Um agradecimento especial, pois foi muito importante, ao professor Valério e ao seu bolsista Dênis.
  5. 5. 5 “Não é muito bom ser sábio entre tolos e lúcidos no meio de lunáticos!” Baltazar Gracián
  6. 6. 6 Sumário Resumo.......................................................................................................................................7 Abstrat........................................................................................................................................8 Introdução..................................................................................................................................9 1. Traçando Cenários..............................................................................................................13 2. Técnicas midiáticas para a conquista de corações e mentes. R. R. Soares o missionário da televisão...............................................................................................................................25 2.1 O texto do discurso religioso...................................................................................37 2.2 entendendo os planos do programa R. R. Soares....................................................41 2.2.1 Enquadramento do orador (tabela).......................................................................42 2.2.2 gráfico dos planos do tele-evangelista Soares......................................................43 2.3.1 Enquadramento do público...................................................................................44 2.3.2 enquadramento do público (gráfico)....................................................................44 2.4 Testemunhos............................................................................................................46 2.4.1 Testemunhos de associados e milagres................................................................46 2.5 Tempo de fala..........................................................................................................49 2.5.1 Contagem, em segundos, do tempo da fala do orador e programa......................49 2.5.2 proporção gráfica do tempo de segundos do Tempo do Orador (TO) e do Tempo do Programa (TP)......................................................................................................................50 3. Missão ou programa de auditório......................................................................................51 3.1 Palco........................................................................................................................51 3.2 R. R. Soares e os programas educativos..................................................................58 3.3 A Novela da Vida Real............................................................................................63 4 Considerações conclusivas...................................................................................................68 5 Referência Bibliográfica......................................................................................................76
  7. 7. 7 Resumo Uma análise de conteúdo e interesses religiosos associados à mídia televisão com práticas de programas de auditório. Essa é uma das idéias principais da monografia Mídia e evangelização: arquiteturas midiáticas e paralelos com programas de auditório. O presente trabalho é composto por três capítulos que buscam responder algumas questões mais interessantes no contato religião-comunicação-público. Os capítulos são delineados da seguinte forma: no primeiro á uma introdução das origens da televisão, no segundo capítulo tem-se análises qualitativas e quantitativas a cerca dos programas de R. R. Soares da Igreja Internacional da Graça de Deus e por fim, no último capítulo, um comparativo da comunicação de Soares com alguns programas de auditório. Em meio a um mundo de ofertas televisivas, missionário, pastores, padres e outros religiosos, descobriram na mídia TV uma aliada para a conquista de corações e mentes. Seus objetivos não são declarados, mas a forma como trabalham com a televisão, essa sim é comentada aqui. Um pouco de respostas em meio à diversidade de estratégias comunicacionais e entre públicos é o que essa monografia oferece. Palavras chave: Evangelização – auditório - mídia
  8. 8. 8 Abstract A religious analysis of content and interests associates to the media television with practical of audience programs. This is one of the main ideas of the monograph Media and evangelização: parallel midiáticas architectures and with audience programs. The present work is composed for three chapters that they search to answer some more interesting questions in the contact religion-communication-public. The chapters are delineated of the following form: in first a an introduction of the origins of the television, in as the chapter has qualitative and quantitative analyses about the programs of R. R. Soares of the International Church of the Favour of God and finally, in the last chapter, a comparative degree of the communication To be sounded with some programs of audience. In way to a world of televising offers, missionary, shepherds, priests and other religious ones, had discovered in media TV an allied for the conquest of hearts and minds. Its objectives are not declared, but the form as they work with the television, this yes is commented here. A little of answers in way to the diversity of comunicacionais strategies and between public is what this monograph offers. Keywords: Evangelização – audience - media
  9. 9. 9 Introdução Em meio às novas ordens da globalização e das injunções políticas brasileiras, a sociedade passa por mudanças profundas neste início do século XXI. A televisão, como destaque entre os meios de comunicação, acompanha essas alterações até pelo fato de ser um meio provido de tecnologia e com isso precisar de adaptações constantes (como necessidade de transferência de tecnologia) ou temáticas (advindo de movimentos democráticos sociais e/ou políticos). A própria mídia se alimenta com novas idéias e serve como ponte para transmitir informações rápidas e pluralizadas. Assim essas informações passam a contribuir para novos produtos, que são consumidos pela coletividade. Produtos em rádio, jornal, internet ou a própria televisão, gratuitos ou não, correspondem ao alimento informativo da população. No caso TV, programas como Caldeirão do Huck e Big Brother Brasil, transmitidos pela Rede Globo, são exemplos mais atuais do novo cenário dos veículos televisão. Contudo, a exigência por parte dos receptores (pessoas que consomem determinados programas produzidos pela mídia) passa pela necessidade de transformação progressiva dos conteúdos, havendo introdução de filtros de rejeição e, em menor escala, discussões sobre os temas. Inseridas nesse cenário, algumas emissoras de televisão trabalham com conteúdos que vão ao encontro dos anseios da sociedade e, dentro da nova safra de produtos televisivos, um tipo merece atenção especial. Trata-se do programa religioso. Pode-se citar como referência, os programas da Igreja Internacional da Graça de Deus, da Igreja Católica e também os programas da Igreja Universal do Reino de Deus. No primeiro caso, apresentado por um tele- evangelista e, no segundo, por um padre. Os tele-evangelistas são missionários ou pastores que pregam a palavra de Deus através da TV, religiosos preparados com o dom da palavra para a pregação da evangelização. Procurando entender como esse tipo de construção televisiva ocorre num programa religioso, buscou-se, através desses pastores, encontrar os pontos levantados pelos principais teóricos da comunicação. Como forma de proceder a esse estudo foi analisado o missionário Rodomildo Ribeiro Soares, também conhecido como R. R. Soares. Ele trata de discursos evangélicos, com temas do cotidiano, mas apresentados de forma tecnológica e envolvente. A verbalização e os elementos de transmissão de informações e conhecimentos efetivada entre ele e seu público deve ser estudada a fim de que se entendam os motivos de crescimento
  10. 10. 10 dessas religiões (evangélicas), em especial a Igreja Internacional da Graça de Deus por ele representada. Soares apresenta dois programas Show da Fé (transmitido de segunda a domingo em horários variados) e o programa que leva seu nome, transmitido nas segundas, quartas e sábados, das cinco às 7 horas. 1 Os programas têm características muito próximas. O Show da Fé é transmitido em horário nobre e é composto de quadros como Pergunte ao Missionário. Além disso, têm 52 minutos, enquanto o programa que leva seu nome, R. R. Soares, tem como diferencial, uma permanência maior da sua pessoa, como orador principal. Por esse motivo, o foco deste trabalho será o missionário R. R. Soares. Neste sentido, a problemática de pesquisa envolve as seguintes questões: 1) A comunicação do orador R. R. Soares seria a mesma se seu programa não dispusesse de um auditório com público? 2) Qual a participação efetiva do público na construção do texto do orador? 3) Qual a paridade da comunicação entre o orador R. R. Soares e o público existente em seu programa, em relação aos principais programas de auditório do Brasil? Deve-se, como o objetivo principal do trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social Habilitação em Relações Públicas, pesquisar o processo de comunicação do missionário R. R. Soares. Por conseguinte, tem-se o objetivo específico: 1) Estudar a relação público e tele-evangelista. 2) Analisar os elementos comunicacionais usados no programa. 3) Verificar se, havendo depoimentos, esses influenciam no discurso. 4) Observar a participação do fiel. Cabe salientar que – com mais intensidade – o pregador fala e age como se conhecesse quem está do outro lado da tela. Ele se comunica demonstrando estar dialogando com o telespectador. Para entender o porquê de este profissional estar cada vez mais íntimo do receptor é que se buscou estudar a sua construção discursiva: Contribuindo para as novas formas de permanência da religião na esfera publica os processos midiáticos apresentam-se como uma instância organizadora de operações 1 ONGRACE. Programação. Disponível em: <http://br. www.ongrace.org>. Acesso em: 20 out. 2005.
  11. 11. 11 tecno-simbólicas que são apropriada pelo campo religioso para dar forma e instituir um novo tipo de discurso religioso. 2 Entendendo o discurso religioso e a comunicação do tele-evangelista, é possível compreender qual a mensagem que a instituição tenta passar. Será possível observar quais objetivos estão por trás desta figura, que funciona como porta voz da igreja. Às vezes essas observações passam despercebidas ao olhar do telespectador, que nem se dá conta de todo o jogo de interesses que há por trás deste discurso e acaba sendo capturando facilmente pelas idéias que estão sendo ditas. Esse trabalho visa mostrar que na retaguarda de tudo que diz um pastor midiático da Igreja Internacional da Graça de Deus há mais do que um simples discurso religioso sem pretensões. A amostragem utilizar-se-á da análise correspondente a um total de 11 edições do programa R. R. Soares, veiculado no canal 10 de Porto Alegre, pertencente à Rede Bandeirante de Televisão. O período escolhido, de três de setembro a três de outubro de 2005, se deu de forma aleatória, em função deste não interferir na maneira que se dá à construção do programa do tele-evangelista pela emissora. O programa R. R. Soares vai ao ar – segundo consulta á grade de programação do jornal Correio do Povo das edições dos dias 20, 23 e 25 de agosto de 20053 - nas segundas e quartas-feiras e aos sábados, das 5h às 7h, apresentado pelo próprio missionário R. R. Soares e também com alguns pastores convidados. Todas as edições foram gravadas em fitas de vídeo VHS e as imagens captadas de uma antena de VHF. Nas gravações foram incluídos os comerciais (sem utilização e análise), por situações técnicas. Algumas edições poderão ter falhas, tendo a imagem e o som prejudicados, em função de problemas técnicos de captação, por causa do mau tempo. Mas esse dado não atrapalhará a análise desta pesquisa. A primeira parte da apreciação se constituirá numa análise quantitativa, verificando o tempo de fala dos pastores da televisão em cada programa, os enquadramentos usados para focá-los, a postura, signos (como, por exemplo, a Bíblia) e palavras mais ditas. Enfim, na segunda parte haverá um mergulho nos dados, com base qualitativa. De posse desses dados, será feita uma inspeção para verificar como essas observações (considerando o uso de imagens, objetos e outros incrementos mais, no discurso do tele-evangelista) se tornam relevantes na construção da imagem do pregador e seu discurso. 2 FAUSTO, Antonio Neto, A Igreja Doméstica: Estratégias Televisivas de Construção de Novas Religiosidades, in Cadernos Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo: editora Unisinos. 2004. 3 IBOPE, Pesquisa, Disponível em <http://www.almanaqueibope.com.br/asp/busca_tabela.asp>. Acesso em: 31 out. 2005. 3 Correio do Povo, Programação, Porto Alegre, dias 20, 21, 23 e 25.p.24.
  12. 12. 12 O uso de objetos nos cultos televisivos também é uma importante forma de atração dos tele-evangelistas. Sinal da necessidade das classes mais desesperadas de resolver seus problemas através de um meio material. A Bíblia agitada pelo pastor, a figura de Jesus como um grande empreendedor, a compara de objetos que legitimam a ação. 4 Comenta-se ainda, a importância do uso de objetos no decorrer dos cultos. Bíblia, gestos rápidos, expressão de voz, são componentes importantes na construção desse discurso. Dessa forma, para avaliar a maneira que os discursos dos tele-evangelistas da Igreja Internacional da Graça de Deus são criados (dialogo e interação com seu público) são analisados certos quesitos levantados por alguns autores descritos neste trabalho, como, por exemplo, o grau de informalidade de o programa estar ligado ao horário de veiculação. Ainda é observada, na análise, a maneira com que esse tele-evangelista dialoga verbalmente, o conteúdo ideológico das falas, se no discurso são usadas falas que buscam uma interação entre o destinador e o destinatário, criando, desta maneira, uma ilusão de diálogo: O impacto dos conteúdos ideológicos metropolitanos (novo estilo de vida, novas opiniões, toda a pletora de bens e serviços da moderna sociedade de consumo) sobre comunidades fechadas, com sua poderosa carga pedagógica, é capaz de alterar comportamentos e de remanejar atitudes. Modernização não significa, entretanto, desenvolvimento real das possibilidades humanas e políticas dos indivíduos. 5 A análise do impacto dos conteúdos tem importância na construção do discurso, pois é usada como base para interação entre os públicos. O uso de assuntos do cotidiano aproximada quem fala de quem ouve. Há uma interação por familiaridade de pautas. Nesta parte da análise haverá também algumas transcrições das falas do pregador do programa. Algumas frases relevantes serão transcritas verificando-se a exposição de idéias e o uso do poder de convencimento de Soares. É preciso ter cuidado para não desrespeitar o telespectador, o que pode acontecer se o emissor não transmitir sinceridade naquilo que diz se tentar enganar o telespectador com argumentos falsos ou então apelar para o convencimento a partir da exposição de idéias irreverentes ou autoritárias. 6 A presente investigação está estruturada em torno de três capítulos, que examinam os seguintes aspectos: Num primeiro momento, é feito uma explanação genérica do assunto em questão. Ele será composto de religião, televisão e por fim, religião e televisão juntas. Um pouco do desenvolvimento das religiões desde o seu surgimento até os dias de hoje abrirá o capítulo; a seguir será comentada a respeito da história da televisão, ressaltando quando nasceu e localizando-a no Brasil do século XXI (para que o leitor situe-se a respeito do surgimento e 4 GOMES, Pedro. Processos Midiáticos e a Construção de Novas Religiosidades. São Leopoldo: Unisinos, Programa de Pós Graduação da Comunicação, 2004. 5 Muniz , SODRÉ. O monopólio da Fala, Rio de Janeiro, 1998. 6 GOMES, Pedro. op. cit.
  13. 13. 13 desenvolvimento deste meio de comunicação); por fim, será apresentada uma conexão entre religião e televisão: o que os tele-evangelistas têm feito, visão da religião via televisão e o discurso do missionário R. R. Soares. O capítulo seguinte trata de uma exposição de dados quantitativos e qualitativos em paralelo com programas de auditório. Os dados quantitativos referem-se à quantidade e tipo de ângulos, tempo de permanência do orador no programa e quantidade de palavras mais ditas que, por conseguinte constroem o discurso. Já a base de dados qualitativos, refere-se aos quadros expostos no programa de Soares. A Novela da Vida Real, Pergunte ao Missionário e Abrindo o Coração, são as fontes para análise do conjunto da comunicação religiosa mediatiza de Soares. Já no terceiro capítulo, serão comparados os dados qualitativos e quantitativos, frente ao que o mercado televisivo brasileiro oferece. Os programas balizadores serão o Domingão do Faustão e Domingo Legal. Assim sendo, o próximo passo é composto das considerações conclusivas e o fechamento da monografia Mídia e evangelização: Arquiteturas midiáticas e paralelos com programas de auditório.
  14. 14. 14 Traçando cenários A comunicação é um fator que existe desde que o homem é homem, seja do início dos tempos ao homem desse século. Desde o tempo das cavernas, nossos antepassados mais primitivos, já trocavam informações para garantir sua sobrevivência da coletividade. Por isso determinadas raças prosperaram e outras sucumbiram ao longo dos tempos. Através de pinturas rupestres, nas cavernas que até hoje são estudadas, ou por tradição de pai para filho o homem continua a transmitir conhecimentos através de suas relações. Mesmo que esses conhecimentos não sejam para a sobrevivência de uma raça e sim para prover interesses próprios. Porém, ainda que primitiva a comunicação do homem das cavernas, ela indicava muitos elementos que podem, sim, serem estudados até hoje. Pinturas rupestres com ambições teológicas e os fenômenos da natureza são indicativos de comunicação que colaboravam para a manutenção desse homem. Nossos antepassados não se preocupavam com detalhes. Para eles as pinturas representavam algo a ser conquistado, logo, se houvessem detalhes o animal pintado já teria sido capturado. Eram pinturas ambiciosas. Dessa mesma maneira eles também se comunicavam com os deuses, desenvolvendo técnicas através da produção de imagens e sons que os representavam. Logo, com esses Deuses idealizados, era possível um diálogo. Essas crenças se constituíam como fugas e explicações aos aspectos do cotidiano, até por essas razões nossos antepassados eram politeístas agregando acontecimentos a sua respectiva divindade. Passaram-se séculos, outros povos continuaram com o desenvolvimento da comunicação. Já na Grécia a comunidade democrática tinha na comunicação sua base social. Com praças próprias para o diálogo, chamadas de ágoras, expressavam-se e colaboravam para o incremento da sociedade baseada na comunicação social. A ágora grega era o espaço no qual a limitação da esfera pública urbana estava claramente decidida: aí se praticava a democracia direta, sendo o lugar, por excelência, da discussão e do debate de idéias entre os cidadãos. A ágora normalmente se delimitava por um mercado, uma stoa e demais edifícios, sendo que dela era possível ver a acrópole, a morada dos deuses na mitologia grega.7 Ao mesmo tempo em que os gregos desenvolviam sua comunicação social com democracia em praças públicas, eles também tinham sua teologia preservada. Através da mitologia que os antigos gregos construíram sua condição social. O desenvolvimento dos gregos, na comunicação, não passava apenas pela oral, eles trabalhavam a arte em esculturas e 7 WIKIPÉDIA. Praça. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pra%C3%A7a>. Acesso em: 20 out. 2005.
  15. 15. 15 também na escrita. Livros como Ilíada8 e Odisséia9 são referências literárias ainda no século XXI. Já no império Romano, varias modificações nas estruturas sociais e políticas aconteceram. Com destaque às forças militares, o regime tornou-se opressor e a democracia reduzida a focos resistentes. Com o cristianismo houve a transição do politeísmo ao monoteísmo, resultando em mudanças culturais. Através dessas alterações no império Romano, todos os povos dominados por ele foram obrigados a aderirem a nova tendência religiosa, cultuando assim Jesus Cristo, promovendo o cristianismo por diversos povos e culturas. O cristianismo dentro da Europa constituiu, oficialmente, a Igreja Católica Apostólica Romana, que com o passar dos anos sofreu uma ruptura interna por forças de poderes próprios. Isso fez com que surgissem dois novos grupos, os católicos ortodoxos (oriente) e os católicos romanos (ocidente). A própria comunicação e a forma de cultuar, fizeram com que à distância entre os dois grupos aumentasse, nascendo novas formas de expor a religiosidade, foram surgindo ao longo dos tempos caracterizando de forma mais clara a igreja oriental da ocidental. O poder do papado já estava enfraquecido. O Papa Alexandre VI apoiava monarcas sanguinários e tentava vender indulgências. Era uma Igreja Católica do ocidente com muitas terras, mas pobre. Nesse cenário, revoltado com ações diretas da igreja, o monge Martinho Lutero promove a Revolta Protestante. No Consílio de Trento 10 há a oficialização da separação entre católicos e protestantes. 11 Com o protestantismo aconteceram processos de comunicação que inovaram as relações das novas igrejas e os fiéis. Dessa revolva oficializaram-se novas religiões, entre elas a Anglicana12 (Inglaterra), Calvinista13 (França) e Luterana14 (Alemanha). 8 A Ilíada [...] é um poema épico grego que narra os acontecimentos [...] da Guerra de Tróia e cuja gênese radica na cólera "inumana" [...] , de Aquiles. O título da obra deriva do nome grego de Tróia, Ílion. WIKIPÉDIA. Ilíada. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Il%C3%ADada>. Acesso em: 20 out. 2005. 9 Odisséia [...] é um poema [...] em 24 cantos atribuído, [...] a Homero. WIKIPÉDIA. Odisséia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Odiss%C3%A9ia>. Acesso em: 20 out. 2005. 10 O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, [...] convocado pelo Papa Paulo III [...] O Concílio de Trento foi o mais longo da história da Igreja: é chamado Concílio da Contra-Reforma. Emitiu numerosos decretos disciplinares [...] A nova missa estandardizada tornou-se conhecida como a "Missa Tridentina", [...] Regula também as obrigações dos bispos e confirma a presença de Cristo na eucaristia. WIKIPÉDIA. Concílio de Trento. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_de_Trento>. Acesso em: 20 out. 2005. 11 VASCONCELOS, Yuri, O triunfo da cruz. Aventuras na história, São Paulo, ed. 16, p. 30-39, dez. 2004. 12 A Igreja Anglicana, ou Igreja de Inglaterra, [...] é o tronco principal da Comunhão Anglicana Mundial, [...] foi o resultado [...] do corte de relações com a Igreja Católica Romana no reinado de Henrique VIII de Inglaterra. WIKIPÉDIA. Anglicanismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Anglicano>. Acesso em: 20 out. 2005.
  16. 16. 16 No campo da cultura, Lutero defendia que todos os cidadãos (também as mulheres!) deviam saber ler, para, ao menos, entenderem as Sagradas Escrituras. Por isso, a sua primeira medida foi à tradução da Bíblia para a língua alemã. 15 Como uma das alterações provenientes do protestantismo, por exemplo, há uma forma de repensar o modo como o conteúdo da Bíblia é passado aos fiéis, na questão dos luteranos. A inclusão da mulher e o acesso à bíblia traduzida, acrescem a essas comunidades uma semente de novas visões. A partir de agora todo um conjunto de ações fez com que a Igreja Católica repensa-se sua forma de discursar, lançando a Contra-Reforma16. O próprio incentivo à alfabetização, para discussão de assuntos teológicos, propiciou transformações intelectuais, que foram sentidas na sociedade. Os fiéis deixam de ser passivos, passando a dialogar e interessar-se por novos assuntos. Passada as reformas, parte dessas novas igrejas acabam por denominar-se evangélicas. Ocorreu uma reorganização das igrejas cristãs européias, assim como a formação de comunidades religiosas independentes (divisões tanto provenientes dos católicos quanto dos protestantes). A própria colonização da América propiciou novas expectativas aos movimentos religiosos, seja pela cristianização dos índios, seja pela comunidade européia ali instalada. Diferente dos primórdios do Brasil, onde a religião católica era a única permitida, o país do século XXI está repleto de varias crenças, cristãs, afro-brasileiras, muçulmanas, judaicas, espíritas, entre outras. Mesmo com a configuração variada, no panorama religioso brasileiro as comunidades cristãs ainda representam a imensa maioria. A comunicação concatenada com todas suas pluralidades e também as pluralidade das inúmeras igrejas estabelecidas no Brasil tem auxiliado no processo de conquista e manutenção de fiéis. Instituições, como a Igreja Internacional da Graça de Deus (foto II), deixaram de fazer cultos como nas décadas passadas, pois em tempo passados, não havia meios que colaborasse para uma comunicação tão versátil e diversificada como tem no século XXI. 13 O Calvinismo recebe o seu nome de João Calvino, que exerceu uma influência internacional no desenvolvimento da doutrina da Reforma Protestante, [...] o Calvinismo é também o resultado de uma evolução independente das idéias protestantes no espaço europeu de língua francesa, surgindo sob a influência do exemplo que na Alemanha a figura de Martinho Lutero tinha exercido. WIKIPÉDIA. Calvinismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Calvinismo>. Acesso em: 20 out. 2005. 14 Igreja que foi fundada a partir do movimento de Martinho Lutero. 15 LUTERO, Base de dados, Disponível em: <http://www.lutero.com.br/vida_de_lutero_reforma.php>. Acesso em: 20 out. 2005. 16 Com avanços do protestantismo e com a perda de fiéis, bispos e papas reúnem-se na cidade italiana de Trento objetivando traçar um plano de reação. [...] Catequização dos habitantes de terras descobertas, através da ação dos jesuítas; Retomada do Tribunal do Santo Ofício - Inquisição : punir e condenar os acusados de heresia [...] evitar a propagação de idéias contrárias à Igreja Católica. SUA Pesquisa.com. Reforma Protestante e Contra- Reforma. Disponível em: <http://www.suapesquisa.com/protestante>. Acesso em: 20 out. 2005.
  17. 17. 17 Assim sendo, os cultos evangélicos fazem-se compostos por verdadeiros shows como é o título de um dos programas do Missionário R. R. Soares. Mas e a comunicação e a televisão? Quem quer comunicar quer dizer algo a alguém. Mas o quê quer dizer comunicar? Comunicar significa tornar comum; por em contato ou relação. Travar ou manter entendimento; entender-se.17 O ato de comunicar pode ser muito além da voz, escrita ou da imagem. Comunicar vai pela via do relacionamento. Todo ser humano que se relaciona, se comunica. É insociável a comunicação das relações. Com esse preceito, pode-se afirmar que através das relações de confiança são criados vínculos entre determinados públicos, regulamentados por conjuntos de regras técnicas em determinados meios. Por exemplo, no meio jornal impresso, há formas precisas e disciplinadas na construção de texto. Evidente que tem variação, mas as regras existem para regulamentar e padronizar determinadas formas de se dizer algo. Já no rádio, a comunicação é feita de forma dinâmica. Ela pode ser trabalhada com frases muito curtas e com a inserção de efeitos sonoros que dificultam ou mesmo colaboram para que a mensagem do receptor seja transmitida da melhor forma possível. Por conseguinte a televisão trabalha com uma das formas de comunicação mais ágeis que existe. A televisão desperta os mais íntimos desejos do telespectador. É nela que ele gosta de ver tragédias e os coisas que não pode fazer é que são transmitidas por esse meio. Eugêncio Bucci comenta: A maldade é essencial para que o bem seja eficiente. Até mesmo a novela [...], que nunca foi católica (ao contrário sempre foi o tradicional festim de traições e de crimes).18 É a rapidez com que um flagrante pode ser filmado, a dinamicidade de entrar ao vivo em um programa de televisão mesmo estando a mais de 10 000Km de distância. Em outras palavras, a comunicação aproxima as pessoas, e faz com que o longe, inatingível, seja real ao menos por um determinado período de tempo. Assim o que se pode considerar, mais para o futuro, observando as empresas/instituição que vão continuar a prosperar, são aquelas que se preocupam com a opinião dos leitores, das suas mensagens. Logo, partindo desse pressuposto de que a comunicação via televisão, funciona como uma das vias modernas de comunicação muito utilizada pelos homens do século XXI, 17 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário Aurélio. 2.ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 126. 18 BUCCI, Eugêncio. Brasil em tempo de TV. São Paulo: editora Boitempo, 1997.
  18. 18. 18 considera-se um meio de comunicação de massa (MCM)19, característica tal que populariza estratégias televisivas e faz da televisão o meio mais popular dentre as opções rádio, internet, jornal ou revistas. Os MCM ajudam a quebrar a identidade cultural na medida em que recolhem os produtos de seus lugares de origem e os multiplicam em grande quantidade, vendendo-os ou transmitindo-os a milhares de pessoas em territórios e regiões diferentes.20 Ora para se transmitir um enlatado americano ao mercado brasileiro ou qualquer outro mercado, deve-se ter uma relação com os mesmos. O mínimo de conhecimento estabelecendo assim, parâmetros para aceitação ou não de tais produtos. É importante considerar que antes da televisão outros meios foram desenvolvidos até chegar-se ao estágio atual de tecnologia. Não somente o desenvolvimento físico e tecnológico, mas o desenvolvimento cultural da sociedade que é composta de expectadores que entre si fazem comunicação. A base, mas remota da televisão, vem da fotografia. Descoberta em 183121 por Jacques Daguerre, a fotografia foi um invento revolucionário no mundo da comunicação. Depois da fotografia houve o invento do cinema, posteriormente o rádio, até chegar a televisão. Mas se a televisão teve origem na fotografia e depois na evolução do cinema, de onde partiu todo o conjunto de profissionais e a própria cultura que formou esse espaço televisivo? Mais do que a invenção e a tecnologia de outros meios, a televisão absorveu idéias e conceitos. Assim foi com o rádio, programas de auditório, antes transmitidos sem imagens e só com sons (ainda que de baixa qualidade) faziam do rádio o início para o desenvolvimento mais completo da TV. Ora, evidente que um meio de comunicação não brota do nada e desenvolve-se até o século XXI e, além disso, tem grandes evoluções futuras. O que aconteceu foi uma transposição de artistas, técnicas e idéias que já existiam e que agora passam a serem adaptadas para um meio mais dinâmico e capaz de possibilitar um envolvimento maior. Pode-se tomar como exemplo o programa do Chacrinha, como era chamado, José 19 Falar à sociedade brasileira [...] mais de 160 milhões de pessoas, [...]. Em nossa história recente, experimentamos a grande capacidade de integração dos meios de comunicação de massa e seu poder de influenciar usos e costumes e de mudar mentalidades. Também os modernos recursos da informática acenam com possibilidades pouco exploradas de produção, uso e difusão rápida de informação e formação. A comunicação torna-se, assim, um espaço político em si, estratégico para a defesa da igualdade do desenvolvimento e da paz. Meios de Comunicação. Disponível em: <http://www.ibam.org.br/viomulher/info157.htm>. Acesso em: 21 out. 2005. 20 MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão a vida pelo vídeo. 3.ed. São Paulo: Polêmica, 1989. p. 31. 21 FOTOGRAFIA. Daguerreotipia - a fotografia começa a caminhar no tempo, Disponível em: <http://www.cotianet.com.br/photo/hist/daguerre.htm>. Acesso em: 21 out. 2005.
  19. 19. 19 Abelardo Barbosa de Medeiros, que iniciou suas atividade como primeiro comunicador do Brasil. Em 1956 estreou seu programa na extinta TV Tupi, em São Paulo, apresentando o programa o Rancho Alegre, a seguir programas de auditório como Discoteca do Chacrinha, Buzina do Chacrinha e o Cassino do Chacrinha, fizeram da carreira do palhaço do povo, como se autodenominava, um sucesso duradouro. Seu programa mais comentado é a Buzina do Chacrinha, último antes de falecer, transmitido pela Rede Globo de Televisão22. Com características muito próximas do rádio, Chacrinha utilizava-se de elementos como auditório, piadas, efeitos sonoros, (inclusive muitos na televisão) e assim apresentava calouros para um jurado classificarem ou ridicularizarem frente ao público ouvinte e o público do auditório. Assim, com métodos muito próximos do rádio, a televisão facilita o acesso aos telespectadores e ajuda na necessidade de falar como o emissor estivesse contando os acontecimentos a um único interlocutor. Ela tem a capacidade de ser um meio intimista, que busca conquistar a cumplicidade do telespectador e, que por isso mesmo, exige a linguagem conversada, coloquial, própria de quem está contando confidências a um amigo. 23 Porém, de outra forma, se com as imagens, a televisão possui fatores importantes na comunicação social ela é feita muito além de imagens e sim, também, com oratória e eventos, promovendo uma informação a um receptor. Logo, se a televisão apossou-se de técnicas do rádio, como programas de auditório, de onde o rádio obteve as suas características e técnicas? O rádio tem semelhanças fortes com o mundo do circo.24 Os espetáculos circenses nada mais são do que as origens de programas como Domingão do Faustão (transmitido pela Rede Globo de televisão) ou Domingo Legal (transmitido pelo Sistema Brasileiro de Rádio e Televisão-SBT). Pode-se notar semelhança em situações como piadas apresentação de músicos, aberrações, curiosidades e desfiles de mulheres são alguns pontos que tiveram origem remota lá nos espetáculos circenses e ainda no século XXI, a briga continua a ser a mesma. Observa-se que os circos eram palcos que viajavam e se instalavam em determinados locais por tempo estipulado. E o objetivo principal desse mundo circense era atrair o maior número possível de pessoas, lotando as arquibancadas dispostas ao público. Nesse século as mudanças que ocorrem só vieram a agregar novas formas de conquistas para esse mundo espetacular. A televisão não precisa mais se deslocar como o circo fazia, os telespectadores é que vão de encontro à programação que mais interessa. 22 WIKIPEDIA, Abelardo Barbosa, Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Chacrinha>. Acesso em: 21 out. 2005. 23 FAUSTO, Antonio Neto, op. cit. 24 MARCONDES FILHO, Ciro, op.cit.
  20. 20. 20 Porém o princípio de querer atrair o maior número possível de telespectadores permanece e assim as guerras por audiência persistem acabando por prejudicar o desenvolvimento de programações mais completas e agradáveis. Ao povo ―Pão e Circo‖, essa expressão criada durante o Império Romano pelo imperador Otavio25, ainda descreve os objetivos dos programas de auditório apresentados nesse século XXI. Especificamente no caso da televisão brasileira, não importa mais nada ao povo, se após um dia de trabalho ele não parar e não assistir a ―sua novela‖ ou, no domingo, o seu programa preferido. A fórmula é antiga, mas os efeitos são reais e presentes. O programa Domingão do Faustão tem 19 pontos de audiência e o programa Domingo Legal tem 14 pontos.26 Observa-se, dessa forma, que a fórmula pão e circo têm sua validade e sua funcionalidade e mais, agregado a isso a televisão passa a ser referência para outro tipo de comunicação. Sim a religião, de olho em um negócio que funciona para atrair, manter e fidelizar ―clientes‖, passa a fazer uso do meio TV como forma de acessar e relacionar-se com seus fiéis. A religião, bem como a teledramaturgia, utiliza-se de temas atuais e polêmicos para fazer com que o telespectador envolva-se no que está sendo apresentado. A Rede Globo de Televisão, empresa com mais de 40 anos de atuação no Brasil que levou ao ar a sua primeira novela em 1966, produzida pela cubana Glória Magadan é vanguardista nesse tipo de programa lançando tendências, no sentido de incrementar as novelas brasileiras que são exportadas para vários países do mundo. Com seus mais de oito mil funcionários envolvidos direta e indiretamente, a Globo, fundada pelo falecido jornalista Roberto Marinho, coloca no ar anualmente, mais de 4.420 horas de programação própria27. Mas qual é a fórmula das novelas? Elas são compostas por imprevistos e indo mais além, por mocinho, mocinha, a ingênua, o bandido, o filho perdido que não sabe quem são os pais verdadeiros, o velho, o jovem e o romance jovem. Em sua maioria é conectada com os acontecimentos mais atuais, algo que esteja em evidência e que possa sair na TV. Ao todo são três novelas diárias a Alma Gêmea (transmitida por volta das 18 horas), a Bang Bang (vai ao ar aproximadamente às 19 horas) e a novela do horário nobre28 das 20 25 WIKIPEDIA, Abelardo Barbosa, Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ot%C3%A1vio>. Acesso em: 21 out. 2005. 26 IBOPE, Pesquisa, Disponível em <http://www.almanaqueibope.com.br/asp/busca_tabela.asp>. Acesso em: 31 out. 2005. 27 MICROFONE, História da televisão brasileira, Disponível em <http://www.microfone.jor.br/hist_globo.htm>. Acesso em: 21 out. 2005. 28 O chamado Horário Nobre é a faixa de horário das 20 as 21hrs da televisão brasileira. Ele é considerado, por todos as emissoras de televisão, o horário que mais possui telespectadores. Por isso seu nome e por essa razão é o horário mais oneroso para se fazer investimentos em mídia.
  21. 21. 21 horas, América29. A manipulação das novelas é tão contagiante que a autora Glória Perez afirma "A novela tem esse poder de fazer com que o país inteiro discuta um determinado assunto‖.30 Além dessas novelas, há mais 42 programas no ar. Dentre eles destacam-se os 31 programas de auditório Domingão do Faustão (no ar desde 1989) , TV Xuxa e o programa Vídeo Show. As características são semelhantes observando-se o tema tratado anteriormente, o que diferencia é o público a quem se destina os conteúdos exibidos. No caso Domingão do Faustão, trata-se de um público muito misto, variando de idade, classe social e cultura. Lógico que há foco de público e o relacionamento principal se dá para um público menos capaz intelectualmente e mais descompromissado com assuntos importantes. O programa TV Xuxa é um desdobramento do antigo Planeta Xuxa, também apresentado por Xuxa Meneguel. O foco de público se dá sobre uma faixa mais restrita de baixinhos32 como chama Xuxa. Antes era para crianças e até adolescentes, porém hoje33 as atenções são voltadas para crianças na faixa de um até oito anos. Já o programa Vídeo Show, é para um público mais adolescente que inclui adulto, sendo transmitido por volta das 14 horas. O programa é caracterizado pelos quadros: Dê seu Pitaco, Erros de Gravação, Flagra. Além disso, são feitas perguntas e jogos. Evidente que a Rede Globo não optou pelo mercado da teledramaturgia sozinha. Junto com ela outros canais como SBT e a Rede Record criam e desenvolvem novelas que já fazem parte da cultura do povo brasileiro. O Sistema Brasileiro de Televisão surgiu a mais de trinta anos34, seu fundador Silvio Santos (e ainda presidente do grupo Silvio Santos) começou com a TVS e passando, logo a seguir, com o desmantelamento do império de Assis Chateaubriand, a adquirir as redes TV Tupi, TV Marajoara, TV Piratini e TV Continental, compondo assim o SBT (hoje com uma novela própria no ar). Mas o programa que mais se destacou, no SBT, é foi o Programa Silvio Santos – hoje fora do ar. Tratava-se de um programa de auditório com muita animação e festa, como Silvio costumava dizer, auditório mais feminino do Brasil. Compunha-se por quadros como Show de Calouros (pessoas com alguma habilidade artística 29 GLOBO.COM, Entretenimento, Disponível em <http://www.globo.com/>. Acesso em: 21 out. 2005. 30 TELEDRAMATURGIA, Frase, Disponível em <http://www.teledramaturgia.com.br>. Acesso em: 21 out. 2005. 31 MICROFONE, Domingão do Faustão, Disponível em <http://www.microfone.jor.br/hist_auditorio.htm>. Acesso em: 21 out. 2005. 32 Baixinho é o termo que a apresentadora usa para referir-se ao seu público. Geralmente são crianças compostas pelas faixas de idade de 1 ano até 10 anos. 33 Outubro/2005. 34 SBT.COM, Institucional, Disponível em <http://www.sbt.com.br/institucional/default.asp>. Acesso em: 21 out. 2005.
  22. 22. 22 se apresentavam frente a jurados e eram selecionadas para passar para a próxima fase ou desclassificadas). Mas Silvio Santos era mais que um simples apresentador, sua origem foi o circo. Começou contando piadas e as suas habilidades aflorando no trato com o público. Um dia Manoel da Nóbrega convida Sílvio para ser animador do quadro Cadeira de Barbeiro. Manoel da Nóbrega35, devido à má fé de seu sócio, fica em situação financeira delicada pedindo a Sílvio que intercedesse por ele junto aos clientes. Santos fez mais, associou-se a Nóbrega e ficaram sócios durante quatro anos. No ano de 1964, Santos começa sua carreira como apresentador de televisão, e por acaso na empresa que seria anos depois sua maior concorrente, na TV Globo. Trabalhando nas tardes de domingo, Sílvio Santos cresceu e desenvolveu suas performances com o auditório. A seguir, veio o seu canal de televisão TVS e, por conseguinte o SBT. Sílvio sempre manteve um estilo elegante e uma posição de apresentador flexível e ao mesmo tempo acessível. Simpático com o público, ele ficou eternizado por participar de quadros como Programa de Calouros, Qual é a música?, Quem sabe mais o homem ou a mulher?, Namoro na TV, Boa noite Cinderela, Domingo no parque, Os galãs cantam e dançam aos domingos, Porta da Esperança, Câmera Escondida, Quem quer dinheiro?, Tentação, Em Nome do Amor e Show do Milhão.36 A história da Rede Record foi um pouco diferente. Fundada em 1953 quando só a TV Tupy estava no ar, a Record teve seu ponto alto com programas Circo de Arrelia e Praça da alegria, na década de 6037. Hoje a TV Record tem, no ar, as novelas Essas Mulheres, Vidas Cruzadas e Roda da Vida. Essas três emissoras são as principais em se tratando de assuntos de teledramaturgia, mas o início de tudo deu-se com a primeira emissora de televisão brasileira. A TV Tupi, pouco mais de um ano após sua inauguração, em 1951, inaugurou o sucesso da dramaturgia nacional com a novela Sua Vida me pertence38. O drama tinha 15 capítulos e seu autor, Walter Forstes, também ator, foi o primeiro homem a beijar na televisão brasileira. Mas foi a Rede Globo, com seus altos investimentos em tecnologia e estudos da arte da dramaturgia, que obteve um destaque e leva produtos com a cultura brasileira para além 35 Manoel da Nóbrega foi um radialista de sucesso na cidade de São Paulo nas décadas de 50 e 60. Participou da fundação do programa A Praça da Alegria e foi sócio de Sílvio Santos no Baú da Felicidade. Faleceu em 1976. SANTOS, A História de Silvio Santos, Disponível em <http://www.paginadosilviosantos.com/pags/historia/livro/cap3.htm >. Acesso em: 21 out. 2005 36 SANTOS, Silvio Santos, Disponível em <http://saulo.guerra.vilabol.uol.com.br/silvio.html>. Acesso em: 21 out. 2005 37 MICROFONE, História da televisão brasileira, Disponível em <http://www.microfone.jor.br/hist_record.htm>. Acesso em: 21 out. 2005. 38 TELEDRAMATURGIA, Telenovela Brasileira: história, Disponível em <http://www.teledramaturgia.com.br/historia.htm>. Acesso em: 21 out. 2005.
  23. 23. 23 das fronteiras territoriais. O Clone que tratava se assuntos como religião e drogas, rendendo prêmios para a Rede Globo e sua autora Glória Perez39. Apesar de TV ter tecnologia, grandes investimentos e enormes mudanças, o princípio permanece o mesmo com tímidas alterações estruturais para adaptar as antigas novelas do rádio a vida agitada e corrida do século XXI. Mas se o povo tem o pão e o circo com novelas e entretenimento (mesmo que de baixa qualidade – esse julgamento não cabe aqui), porque ainda assim as religiões têm atingido um crescimento tão adjacente como nas últimas décadas? Vale lembrar, ainda, que a televisão – com seus programas de auditório – têm aquela áurea envolvente e que baseado em todos os incrementos e assessórios tecnológicos sempre haverá alguém discursando para algum público. As relações entre públicos são vitais e dão calor humano para os programas. Logo surge uma pergunta, porque pastores, missionários, bispos e padres, têm conseguido atrair fiéis para templos de fé? Destarte, em especial, como é desenvolvida a comunicação de R. R. Soares? Muito mais que pão e circo, o povo necessita de conteúdo. Pressões psicológicas, financeiras, políticas e outras tantas, fazem com que o povo necessite de drogas especiais. Não é intenção deste trabalho julgar o bem ou o mal que as religiões fazem para quem está nela inserido. O objetivo desse trabalho é entender como a comunicação contribui para que o crescimento da religião visa televisão, sejam incrementadas a ponto de obter tamanho sucesso e para que instituição dita religiosa invista exorbitantes quantias de dinheiro em investimentos nessa mídia. Presume-se que o sucesso de programas de auditório como, por exemplo, o Sai de Baixo,40 contribuam para esse cenário favorável. Com sua fórmula: sitcom41 sobre as dificuldades de uma família - gravado num teatro com direito a platéia – foi o mesmo de um programa de sucesso: A Família Trapo, produzido pela TV Record entre 1967 e 1972.42 O envolvimento que havia do público com o programa Sai de Baixo era, por vezes, total. Mais 39 NOVELA O CLONE. Mais notícias. Disponível em < http://geocities.yahoo.com.br/novela_oclone/>. Acesso em: 21 out. 2005. 40 TELEDRAMATURGIA, Sai de Baixo, Disponível em <http://www.teledramaturgia.com.br/sai.htm>. Acesso em: 21 out. 2005. 41 Sitcom é um estrangeirismo, [...] versão aportuguesada para o mesmo termo: comédia de situação. [...] utilizado em programas de rádio - nos anos 20 do século XX -, hoje é aplicado a séries televisivas ficcionais, de humor, provindas dos EUA, as quais surgiram em meados dos anos 40 [...]. Cada episódio tem uma duração inferior a 30 minutos e cada temporada tem direito à cerca de 20 episódios. É freqüente ouvirem-se, nas cenas mais cômicas, gargalhadas dos espectadores em estúdio ou estas serem adicionadas posteriormente durante a edição. WIKIPÉDIA, Sitcom, Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sitcom>. Acesso em: 21 out. 2005. 42 TELEDRAMATURGIA, Sai de Baixo, Disponível em <http://www.teledramaturgia.com.br/sai.htm>. Acesso em: 21 out. 2005.
  24. 24. 24 do quê ler placas, (antigos programas usavam desse artifício para fazer a platéia sorrir) o público dessa apresentação interagia. Seus atores, com mais freqüência o personagem Vavá, chegavam a dialogar com a platéia. A fórmula está completa. Um palco, próximo aos espectadores, texto para orientar, mas que possa ser improvisado, atores simpáticos e sorridentes, assuntos em pauta que fazem o público se identificar e o tema humor. A droga do povo está pronta para ser consumida, ou em outras palavras, ao povo pão e circo! Além disso, pregadores como Soares, que fazem os programas, Show da Fé, R. R. Soares, Edir Macedo, que participa do programa Seção do Descarrego (da Igreja Universal da Graça de Deus) e outros pregadores da Igreja Católica – como padre Marcelo Rossi – que participam dos programas A Igreja pelo Mundo, Alegria e Esperança, são exemplos reais de que a comunicação, via televisão, contribui para o aumento de telespectadores que acabam por se tornarem fiéis (e fiel mesmo, no sentido literal pois a pessoa fica fidelizada pelo programa e/ou religião).
  25. 25. 25 2 – Técnicas midiáticas para a conquista de corações e mentes. R. R. Soares o missionário da televisão. Este capítulo será composto de duas estruturas. Na primeira haverá uma análise qualitativas dos dados, ou seja, quadros como A Novela da Vida Real, Pergunte ao Missionário e Abrindo seu Coração. Por conseguinte a análise quantitativa vai tratar de informações técnicas como: plano do orador, tempo de permanência da sua imagem no ar e quantidade de palavras mais dita. Dessa forma, um dos seus programas, o que leva seu nome, é transmitido no horário das cinco às 7 horas43. Trata-se de um painel aos moldes do Show da Fé, mas que não vai ao ar em horário nobre. É importante relembrar que todas as edições formam gravadas em fitas de vídeo VHS e sem a inserção dos comerciais. O programa é composto dos quadros A Novela da Vida Real, Abrindo o Coração e Pergunte ao Missionário. No primeiro quadro, A Novela da Vida Real, tem-se depoimentos de homens e mulheres, que estavam à beira da morte, com doenças fatais, no entanto, coincidentemente, passaram na frente de uma Igreja Evangélica, e lá conheceram Jesus e seus milagres. O quadro é composto de personagens, geralmente família, pois vislumbra mais credibilidade, que estavam perdidos e com a igreja conseguiram salvar suas vidas. O discurso emotivo e a narração em baixo tom, da repórter, remetem a uma situação já resolvida, mas que antes causava muita dor ao(s) ator(es) principal(is). O quadro é seu escopo composto por: repórter (sempre começa com a narração, introduzindo o assunto), ator principal (contando seu drama) e uma testemunha (como forma de comprovar os acontecidos) por repetidas vezes usam-se o pai, marido, mãe, irmão ou mesmo vizinho. A seguir vem à solução do problema narrado - novamente pela repórter - depois o fechamento do quadro. Num segundo momento o ator principal e o coadjuvante são entrevistados pelo missionário dentro da igreja. Em determinadas situação, como no exemplo a seguir, Soares aproveita a oportunidade criada para oferecer algum produto. Quase sempre são livros, mas o patrocínio é o mais comentado, uma vez que é citado em grande quantidade. Assim, no segundo bloco, do dia 03 de setembro de 2005, com o título Jesus me trouxe a paz e a alegria verdadeira, foi capitado a passagem abaixo: Repórter (R): após a morte de sua mãe, Vanilson Ferreira foi morar avó materna no interior de Minas Gerias. Ainda criança, passou a ter medo de tudo e começou a ver vultos e ouvir vozes. 43 Correio do Povo, op. cit.
  26. 26. 26 Vanilson Ferreira (V): eu fui morar com minha avó, lá em Minas Gerais, ela me levava freqüentemente ao benzedor e me benzia. Lá ele me dizia que minha mãe tinha morrido, ia me ajudar trazendo uma luz. Lá em São Paulo seu pai ficou meio doido e foi por isso que sua mãe morreu. Melhor você ficar aqui com a gente ele dizia. Com essa freqüência ao benzedor, eu acabei vendo vultos e a ouvir vozes. Eu me lembro perfeitamente. Eu lembro tipo uns flasches, cenas que ficaram gravadas. Lembro de uma vez que eu tava de noite ai eu ouvi uma voz me chamando batendo na porta eu com aquele medo de que ninguém mais via...só eu. Ai eu comecei a ficar com mais medo, assustado percebendo que era alguma coisa comigo por que ninguém mais via era só eu. Ai assim acontecia freqüentemente e um dia, até que um dia meu pai foi lá em Minas e me buscou. Trouxe-me de volta para São Paulo. Ele queria ficar comigo. Tinha meu irmão para criar, casou teve uma nova família. R: o tempo passou e o pai de Vanilson superou a morte da espoca e começou a refazer sua vida. Decidiu que o filho deveria voltar para o aconchego do lar. Observa-se a construção de uma realidade baseada na família que foi fragmentada após a morte da mãe do ator principal. Os problemas iniciaram para Vanilson quando começou a ouvir vozes. Há, ainda, uma crítica ao espiritismo quando o construção verbal refere-se ao benzedor44. Repara-se que a responsabilidade pelas visões do personagem ver vultos, é destinada às visitas ao homem que benze. Assim, o discurso pende ao induzimento, do pensamento, de que não há salvação sem a palavra de Deus e que todos os outros cultos e religiões não trazem o benefício que o evangelho, pregado por Soares, som. Continue a observar a passagem. Pai (P): ele sabe que eu tinha perdido minha esposa quando ele era muito criança. Ele e a irmã dele. Ai eu não tinha condições de manter eles aqui em São Paulo e pedi que fossem morar com seus avós maternos lá no interior de Minas Gerais. Eles ficaram um tempo lá em Minas até que eu consegui reconstruir a minha vida. Ai graça a Deus casei novamente e trouxe de volta para minha casa. O Vanilson veio completamente diferente. A mentalidade diferente, ele falava palavrões, ele via vultos, eram coisas estranhas. Eu não me preocupei por que sabia que no fundo mesmo era tudo espiritual. Como eu já conhecia a palavra de Deus, tinha lido aquele livro do missionário R. R. Soares que fala Morte para onde Iremos. V: ai ele falou assim ó: isso não existe, é coisa da sua cabeça, pára com essas maluquices, amaldiçoa que isso é coisa do demônio. Quando ele começou a falar isso eu comecei a fazer o que ele disse. Ai passou, nunca mais eu ouvi falar até que um dia surgiu a notícia de que meu primo tinha morrido. Quando meu tio foi conversar com meu pai ele disse: olha to ouvindo vozes e ele contando o medo surgiu em meu coração de novo. E eu com medo comecei a ver tudo de novo. Até que ele falou pára com isso que isso é coisa da sua cabeça. Foi o que eu fiz e daí em diante Deus só tem me abençoado e eu parei de ver. R: Liberto Vanilson, hoje agradece e faz a obra. Agradece a Deus pelas maravilhas que ele operou em sua vida. 44 Sua ―profissão‖ não passa de rezar sobre a cabeça do doente. Não receita remédios, apenas benze. Os gestos que pratica são todos idênticos ao da religião dominante: reza fazendo o sinal da cruz. [...]; executa sua benzedura na própria casa do enfermo ou em suas peças de roupa. Suas rezas, na maioria das vezes, deturpações das orações oficializadas pela Igreja, entremeadas de palavras incompreensíveis, resmungadas, do latim o mais estropiado que possa ser concebido. As benzedeiras costumam rezar mais sobre crianças. [...] Benzedor e benzedeira são os maiores ensinadores de simpatias. TERRA BRASILEIRA. Benzedores. Disponível em: < http://www.terrabrasileira.net/folclore/manifesto/benzer.html>. Acesso em: 24 out. 2005
  27. 27. 27 A introdução de um pai, que resgata seu filho da família da mãe falecida e a reintrodução dessa pessoa no seu mundo que está sendo resolvido com um novo casamento associado ao uso da palavra de Deus, é a solução que o texto propõem-se a passar. Com credibilidade da palavra da figura paterna, o provedor do personagem principal orienta (pois já foi evangelizado e orientado segundo os interesses da igreja de Soares) o filho a expulsar o Demônio, conselhos seguidos por Vanilson. V: hoje to transformado to fazendo a obra juntamente com o pastor Ricardo lá na Lapa, na Rua Roma 433 e pastoreando uma igreja lá no morro Doce e sempre tendo mais bênção em minha Vida. P: pra mim o Vanilson hoje é uma benção, é uma pessoa exemplar, ele faz parte do grupo de pastores auxiliares da Lapa. Com pastor Ricardo, e ele toma conta de uma comunidade lá no morro Doce. São 30/40 pessoas e Vanilson é uma benção só me dá alegria principalmente por estar fazendo a obra de Deus, crescendo na obra de Deus. Palmas. Vanilson está curado. Com ajuda do seu pai, só em pensamento, acabou com os Demônios e hoje ajuda na construção da obra de Deus. Mensagens como essa, contribuem para dar credibilidade a todo o conjunto do texto aplicado no contexto. Em outras palavras, hoje Vanilson está curado porque seu pai tem uma nova família e essa é evangelizada. Pai traga seu filho à igreja, resolva os problemas dele. A Transcrição abaixo é continuidade da Novela da Vida Real. Observe: Missionário (M): glória a Deus. Mas Vanilson o quê essas vozes falavam pra você? V: não dava para identificar, chamava meu nome. M: chamava você pelo nome? V: Isso. M: no início você procurava pra vê quem estava te chamando? V: não ficava com medo. M: mas no início de tudo, a primeira vez que te chamou será que é alguém? Pai te chamando, mãe? V: eu chamava meus avós. Ó vó tem alguém lá fora chamando e eles falavam: mas não to ouvindo nada. M: era voz masculina ou feminina? V: masculina. M: e visão você tinha também? V: tinha só que era como se fosse um vulto. Passava assim, ia ver já não tinha mais. M: e depois do conselho do seu pai você resistiu na fé e nada mais aconteceu. V: desapareceu, amaldiçoei, expulsei o demônio e o medo foi embora. M: e o pai...ta feliz? P: to feliz muito feliz graças a Deus o Vanilson é uma benção. E agradeço ao Sr. Missionário, por aquele livro Morte Aonde Iremos. M: Morte aonde iremos? P: que me ajudou muito nessa trajetória. M: me empresta esse livro. Pra você que é casado, tem filhos, leia esse livro, por favor. Isso aqui é uma mensagem que Deus me deu. 45 O processo de indução do jogo das palavras discursivas fica evidenciado, pois Vanilson ouvia vozes e via vultos, mas agora com a palavra de Deus foi tirado desse mundo 45 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 03 de set. 2005.
  28. 28. 28 do Demônio. A agregação do testemunho do seu pai e o enredo dos familiares torna o drama comum e acessível ao entendimento do público em geral. Pode-se notar, ainda, que quando a repórter fala em morte, há uma identificação quase unânime. Sobre isso Fausto comenta: Elege-se uma outra dimensão sígnica, não mais o território das palavras, mas construções trans-discursivas muito complexas que refletem investimentos significantes heterogêneos. Mas não se trata apenas de fazer os fiéis, via estratégias enunciativas, se reportarem a estes novos signos, como algo que assim sendo permaneceria na esfera abstrata. Estes signos são mobilizados e convertidos pela ―economia do contato‖ em insumos de novas práticas pela quais a magia ganha contornos de corporeidade. Os objetos são dinamizados em novos produtos que se desdobram continuamente, criando-se a circulação dos significantes do mundo do sagrado.46 Todo o enredo de signos, envolto no depoimento, remete o telespectador para uma situação de conforto e alívio frente as mais terríveis diversidades. Evidentemente que a linguagem, os gestos, a narração, texto e todo o conjunto da trama, é estudado e feito dentro dos padrões de convencimento. Traçando um paralelo com os programa de auditório, tem-se a emoção e a identificação direta de quem assiste para com quem participa. A linguagem popular (com desconexões gramaticais) demonstra humildade e tenta construir uma relação de credibilidade, contudo pela observação da narração, vê-se que o uso da palavra Demônio vai e volta. Esse movimento, que reforça as crenças de quem fala e utiliza-se de vários pleonasmos, serve como um bater de teclas repetitivas. Ou seja, Vanilson fala em inúmeras vezes na morte, mostra a família e por fim confirma que Deus melhorou tanto sua vida, a ponte dele transformar-se em pastor. Como se pode notar na próxima análise, a construção desse quadro, sempre finaliza com uma mensagem que se acredita ser a mais importante. Especificamente nesse exemplo, a mensagem subentendida é que se o espiritismo é ruim, é coisa da sua cabeça e que sendo liberto disso, você está em Deus e até pode se transformar em pastor. O conjunto das informações complementares da situação expostas, ainda é formado por ângulos lentos e planos médio, há música no início e no final do quadro. [...] a parte acústica de um programa é mais importante para o processo de atenção do que imagina. [...] vozes infantis e femininas vozes não comuns, feitos sonoros, risos e aplausos excitam a atenção e prendem-na por longo tempo, o que não ocorre com vozes masculinas. [...] o uso da música na telenovela, por exemplo, já demonstrou sua importância para a fixação da atenção.47 Há de se comentar, também, a utilização de mulheres em quadros emotivos desta natureza. Sobre isso um diretor de novelas da Rede Globo comenta: 46 FAUSTO, Antonio Neto, op. cit. 47 MARCONDES FILHO, Ciro. op.cit.
  29. 29. 29 [...] as mulheres são naturalmente apaixonadas, tendo a generosidade de abrir o coração de uma maneira que em geral, os homens não se permitem. As atrizes têm maior facilidade para demonstrar todas as gamas de amores. 48 Por esse motivo à repórter do quadro é uma figura feminina e utilizam-se mais mulheres a homens. Assim a emoção fica mais evidenciada e capaz de se aproximar da realidade com mais êxito. Na questão dos ângulos, deve-se comentar que assim como nos programas de auditório, quadros emotivos dessa natureza, trabalham com ângulos mais fechados e também muito com primeiro plano49. A emoção estampada no rosto do ator principal é um dos principais argumentos utilizados. Nas expressões faciais, leituras são feitas e conexões são estabelecidas. O programa Domingão do Faustão tem um quadro semelhante a esse. O painel Quenta Coração é composto, geralmente de artistas da Rede Globo que ficam expostos em frente ao público e assistem, pelo telão no fundo do palco, vídeos de pessoas íntimas que falam de momentos que ninguém mais contaria. Por vezes, os atores choram. Não se sabe a real emoção daquelas pessoas por que são atores e podem choram a qualquer momento. É como se o eles – naquele instante – fossem representados ele por eles mesmos. Silva faz surpresa para a pessoa que participará do quadro, porém evidencia-se uma surpresa ilusória, pois os atores convidados já estão preparados e treinados para os próximos acontecimentos. O quadro tem duração aproximada de 5 minutos, com música se completar o clima ideal e somado, ainda, a muitos atores coadjuvantes, como já referido anteriormente. Sobre as estratégias de discurso da televisão, Fausto comenta: As diferentes estratégias discursivas postas em marcha pelas igrejas para desenvolver duelos e processos de capturas do mercado da fé, não se constituem em ações espontâneas, apesar de muitas delas serem confiadas a desempenho dos atores religiosos, como missionários, pregadores eletrônicos, padres cantores e outros especialistas.50 A teoria se completa na prática e com freqüência os discursos são adaptados para se atingir os objetivos almejados. Dessa forma, toda a lógica, do esquema, assim como no painel A Novela da Vida Real faz um grande esforço para que quem assista, além de identificar-se com o mesmo, seja solidário com ela e assim participe do quadro composto para criar uma situação que não existe. 48 DANIEL Filho, O Circo Eletrônico. Fazendo TV no Brasil. Rio de Janeiro, Editor Jorge Zahar, 2.ed. 2003. 49 O chamado Primeiro Plano é o ângulo do cinegrafista, que capta o apresentador de forma bem próxima. A proximidade é tanta que só aparece o seu rosto. Um exemplo do seu uso é quando um determinado canal de televisão está entrevistando um atleta e esse tem um boné sobre sua cabeça. O Primeiro Plano corta esse boné a ponto de que não seja possível enxergar. Assim somente o rosto do atleta é captado. 50 FAUSTO, Antonio Neto, op. cit.
  30. 30. 30 Hoje, a televisão trabalha com esquemas. Por exemplo, há certas características na aparência de um homem que personifica o herói da TV. Esse traços típicos são então construídos pelos idealizadores de tipos e apresentados na tela de forma acentuada.51 Completando o comentário de Marcondes, pode-se afirmar que as aparências personificadas vão além dos heróis e chegam ao fator apelativo da criação de personagens pobres52 que merecem atenção e respeito. Voltando ao quadro da Igreja da Graça, há uma construção de personagem que de 53 humilde passa a ser obreiro e a seguir pastor. Conclui-se que de humilde, Vanilson passou por muitas situações difíceis – e o que A Novela da Vida Real evidencia, é que quanto mais difícil – melhor é construção do esquema a que a apresentação se propõe – deixando de ser carente para tornar-se um herói. De um modo semelhante são apresentados os atores no quadro Quenta Coração. No programa do dia 06 de agosto de 2005, foi a fez da atriz Luana Pionavi. A fórmula é a mesma, uma pessoa vem do interior, passa por dificuldade e a seguir consegue vencer na vida. Nesse caso a associação que existe é de quem está na mídia consegue vencer e se tornar alguém mais importante ao passo que se você está fora, é uma pessoa triste e infeliz. Uma construção de discursos que remetem a paralelas conclusões às orações evangélicas assim, as construções é semelhantes, mas os mundos construtivos, dessas ―realidades‖, são distintos. De um lado um programa de auditório assistido por muitos brasileiros todos os domingos à tarde, do outro um culto transmitido pelas manhãs e composto por uma imensa platéia em busca da palavra de Cristo. Quer dizer, é possível que mundos diferentes montem esquemas tão semelhantes? Sim, com o auxílio de técnicas de comunicação e teoria colocada em prática é possível mesmo. E os signos e os clichês, são exemplos de técnicas. Veja o que Marcondes filho escreve: A televisão trabalha com dois esquemas básicos de comunicação que passam para sua linguagem os fatos da realidade que pretende transmitir. São os signos e os clichês. O signo atua em dois lados: na cabeça do receptor e no produto de comunicação que o receptor vê, pois o produto é realizado por pessoas que também elaboram os pensamentos como signos. A produção sígnica só tem efeito se realiza essa dualidade de forma plena.54 51 MARCONDES FILHO, Ciro. op.cit. 52 Podre no sentido emotivo e espiritualmente. Construções nesse sentido, também são feitas e em muitos momentos obtém o sucesso que almejam, quando esses pobres realmente são desprovidos de maiores recursos financeiros. Desse modo, a grande massa, identifica-se quase que plenamente com a situação. 53 Pastor é o ministro religioso nas Igrejas Protestantes. O rito de investidura do pastor é chamado ordenação ou consagração, dependendo da denominação. EVANGÉLICOS ON LINE. Bíblia on line. Disponível em: <http://www.evol.com.br/v3/biblia/listagem.asp?procura=pastor&banco=>. Acesso em: 24 out. 2005. 54 MARCONDES FILHO, Ciro. op.cit
  31. 31. 31 Logo, pode-se presumir que a soma de técnicas colaboram para que um mundo de signifique façam sentidos para quem assiste. Para todas as situação á técnicas que, se bem utilizadas, são ferramentas para manter o telespectador sempre atento. Observe o próximo caso analisado. Captado no dia 14 de setembro de 2005 tem como título Ele é o Deus que Restaura: O quadro Carta começa com uma repórter narrando e segue, geralmente, com duas pessoas. Um ator principal e uma testemunha. Veja a transcrição a seguir: Repórter(R): Antonieta conta que estava revoltada e pensou em abandonar os caminhos do evangelho. Antonieta (A): eu tava muito revoltada...pelas decepções que eu tive na vida, e eu cheguei em casa revoltada com vontade de chutar tudo, não queria mais ir a igreja...não queria mais nada. Ai eu liguei a TV. Quando eu liguei tava o missionário pregando, justamente no momento de associado. Falando do associado e isso me chamou atenção e eu me revoltei. Puxa vida seu um dia eu tiver de ser associado, eu vou ser associado de Deus não de um homem. Aquilo ficou questionando dentro de mim. Né! O tempo passou e foi questão de meses. Continuei a olhar televisão inclusive outros programas, mas já sentindo que tava gostando. Ai minha irmã me emprestou um livro: Como tomar posse da benção. E eu coloquei em prática como tomar posse daquilo que o Senhor Jesus já tinha dado pra mim, e eu coloquei em prática essa palavra. Como tomar posse de tudo que o senhor Jesus já me deu. 55 Observa-se que tem uma arquitetura de desespero e da perda da fé na introdução do assunto. Antonieta, a atriz principal, perdeu sua crença por completo, mas começou a ver televisão com programas religiosos. Ela assistia, também, de outras igreja e sentindo que estava gostando do programa do missionário R. R. Soares. Procurou mais informações até que, emprestado da sua irmã – novamente o envolvimento de familiares –, leu o livro Como Tomar Posse da Bênção. R: e nesse período que Antonieta estava sem esperanças, desgostosa da vida. A irmã dela tava acompanhando. O quê aconteceu Nair? T: ela tava assim...pouco revoltada...assim tipo fria na fé, vamos dizer assim, né! Então foi que ela começou a assistir o programa do missionário, depois recebeu o convite da amiga e foi, né! Gostou. Começou a freqüentar. R: foram nove anos pagando aluguel cansou da situação e clamou ao senhor e em dois meses, Antonieta conseguiu resposta de um processo que estava a mais de 10 anos para ser julgado.56 Surge um problema para ser resolvido por Deus. Uma oportunidade para a Igreja de R. R. Soares. Assim mesmo, Antonieta continuou resistente aos apelos do missionário para com o dízimo e seu patrocínio. A: eu tinha tudo, se eu perdi...então senhor Deus é restaurador – eu frisei essa palavra – quando o missionário falou um dia que Deus restaura tudo que a gente tinha perdido. Que ele é o Deus da transformação/restaurador, que a gente não tinha que se preocupar. Assim, já é seu...que você já podia tomar posse. Ai eu determinei o que eu queria. Foram nove anos pagando aluguel então eu determinei: não meu Deus, então a partir de agora eu não quero mais pagar aluguel. Eu vou comprar a minha casa própria. Foi questão de três para quatro meses, eu tinha um processo já...desde 91, processo trabalhista que o advogado já tinha dado como perdido a 55 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 28 de set. 2005. 56 PROGRAMA R. R. Soares, op. cit.
  32. 32. 32 causa e eu lembrei no momento e eu comecei a participar das reuniões do ministro Caetano e eu aprendi. Não meu Deus, vou colocar em prática e esse processo vai sair e eu determinando assim em oração. E quanto ao processo...quando eu coloquei em prática...em dois meses esse dinheiro saiu. Ai eu fui para Salvador... 57 Nesse caso da Novela da Vida Real, pode-se entender que o discurso utilizado pelo ator principal, na forma de testemunho, não é para ser discutido. Evidente que há uma história – com forte dosagem de cargas emocionais e aos moldes de todos os conteúdos que são selecionadas para esse quadro – a ser contada para convencer alguém daquilo que se quer, mas esse mesmo enredo é editado dentro dos esquemas do sistema de comunicação que se utiliza e inseridos nos interesses ali existentes. Ainda que presa a um contrato, esta participação se expande largamente, pois as emissões estruturam-se fortemente em torno de operações específicas, que mantêm trechos das falas do seu autor e cuja responsabilidade é daquele que o profere, no caso, o testemunhante. Os discursos, na forma de testemunho, têm uma característica muito específica: não pretende apresentar soluções ou desenvolver considerações de ordens doutrinárias e/ou conceituais a respeito de um certo fato e/o problema.58 Quer dizer, evidencia-se uma situação como problema maior e o testemunhante, fazendo parte de um sistema, uma teledramaturgia, representa alguém que com Deus resolve seus problemas. Apesar do texto do ator principal não ser original, o editor deve respeitar a montagem que foi feita sobre os discursos. Sua finalidade está mais voltada para apontar um problema visando-se com isso produzir impacto, especialmente de natureza emocional. É pronunciado mais para sensibilizar do que convencer e/ou persuadir a pessoa a respeito de um tema apresentado. Um relato na forma de testemunho é pronunciado para não ser discutido, mas para ser compartilhado, e é neste sentido que determinadas emissões trabalham fortemente com esta dimensão afetiva existente no âmbito das discursividades. Neste momento regras da gramática convergem para uma dimensão: produzir emoções.59 Fausto dá a entender que não importa o quê se diz, mas como se diz. A transcrição da fala acima procurou ser a mais fiel possível, logo se pode perceber que em determinados momentos há dificuldades de se entender algum trecho. Mas há emoção ali contida e essa não pode ser transcrita para o papel. O testemunho chama atenção para o fato de ser um relato que tem uma autoria, e, portanto, marcas singulares de um lugar de fala, um âmbito de enunciação. Entretanto, a sua inserção no contexto das tele emissões produzidas pela esfera das instituições religiosas passa diretamente por uma determinada autorização, o que relativiza desta forma a autonomia do poder daquele que o profere. Assim, temos um relato singular, mas autorizado e que funciona segundo as regras da estrutura enunciativa do modelo que a oferta. O testemunho é não só um relato, mas um ―dizer‖ que está subordinado a determinadas regras de produção que certamente não são definidas por aquele que o pronuncia.[...] Chama-se atenção para a presença destas marcas de autorização e de controle, bem como para outras que dizem 57 Ibid. 58 FAUSTO, Antonio Neto, op. cit. 59 Ibid.
  33. 33. 33 respeito à presença de dispositivos enunciativos midiáticos articulados com operações discursivas que estruturam os novos discursos religiosos. 60 Assim, em nenhum dos casos, aqui comentados, há liberdade de quem se pronuncia para quem quer ouvir. Fausta ainda completa com a idéia de que nas comunidades das tele emissões, as pessoas são chamadas para nelas participarem de modo individual, segundo a natureza do seu problema e a importância dele para as finalidades estratégicas das emissões. São, de fato, consumidores ainda que em determinadas circunstâncias se constituam em co- protagonistas da sua realização.61 Entre uma atração e outra, o missionário lê algumas passagens da Bíblia, conta histórias engraçadas, rindo muitas vezes, daqueles que não pertencem a sua religião, e encerra com as orações. Primeiro, ele reza e toda platéia repete. R. R. Soares fala com muita confiança que ele vai orar e as enfermidades das pessoas ali presentes vão sumir. ―De agora em diante, você nunca mais será um fracassado. Não existem falhas‖ 62 , profetiza. Dando continuidade, ele pede silêncio e finaliza suas preces sozinho. Após a última oração ele faz a seção dos milagres. Ao mediador comete igualmente, ato contínuo, checar se o exercício deu resultados, quando indaga “onde está o mal”, circunstâncias de respostas em que seu poder e autoridade poderiam ser colocados em prova. Mas no fundo sinalizam também as intenções de controle do oficiante. Observe a transcrição abaixo. Respire fundo e faça aqui que não fazia antes, mexa o braço para cima ou para trás, procure aquela hérnia ou aquele caroço, mioma. Deus está operando agora, tape aquele ouvido bom e escuta com aquele que não escutava. Tape o olho e enxerga com o olho que não enxergava. Onde está o seu mal? E faça como eu que já saiu o meu mal. Aconteceu o milagre você conta que não é para o demônio anular o milagre.63 Esse ritual é composto de muita energia de sua voz. Enfatizando a fé em Jesus Cristo e Deus, Soares invoca o poder da fé das pessoas, através da comunicação direta com seu público, para que esses acreditem estar curados. Deus vai operar muito aqui hoje, diz64. Após a oração solitária, ele ordena que as pessoas que não podiam enxergar abram os olhos, quem não podia mexer o pescoço agora pode. O mais interessante de se comentar é o fato de que – observado por continuidade – ele diz que Deus hoje curou isso e aquilo. Afirmando. Cabe salientar aqui, que somente na continuidade a que se refere Requena, foi possível visualizar tal situação. 60 Ibid. 61 Ibid. 62 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 16 de set. 2005. 63 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 03 de set. 2005. 64 PROGRAMA R. R. Soares, op. cit.
  34. 34. 34 Dentro dessa análise cabe salientar a continuidade. O desenvolvimento da observação de todos os programas concatenados. Mas o fenômeno da continuidade não tem que ser reduzido a estes elementos. É necessário considerar, todo seu valor, porque há pontos excedentes: a referência, do interior de um programa, a outro ou a outros programas do para possuir o transmissor. A intercalação, ao lado dos pontos que anunciam, de outros segmentos dos discursivos que pretendem publicar programas de futuros. [...] 65. Com a observação de 11 edições do seu programa, foi capaz de identificar que o missionário parece que prevê que em determinado dia Deus vai operar mais nisso ou naquilo. Assim, no dia 26 de setembro, quando ele afirmou que naquele dia nódulos desapareceriam, logo depois de sua lembrança, testemunhos começaram a surgir e os obreiros a correr para alcançar o microfone. Dessa forma muitos milagres são realizados e comprovados por testemunhos de inúmeros fiéis. Para finalizar, Soares diz que Deus vai continuar a operar. Nos últimos minutos do programa (quando não sai logo depois que iniciou a oração), volta a apresentar a Revista da Graça, pertencente à Igreja, fala de promoções, assinaturas e pede para que as pessoas se associem a sua obra. Além dos quadros A Novela da Vida Real, e o Pergunte ao Missionário, o programa R. R. Soares é composto pelo quadro Abrindo o Coração. Nesse painel uma pessoa envia uma correspondência pedindo conselhos sobre determinado assunto. A carta é editada e resumida de maneira que o quadro não dure mais que dois minutos. Com tom humilde, sofredor e necessitado, uma narradora lê e trata de emocionar quem escuta. Parte da carta editada aparece no vídeo fazendo com que haja um acompanhamento pelo telespectador. A transcrição a seguir foi retirada da análise do dia 19 de setembro de 2005. Entra narradora lendo a carta da fiel: meu amigo missionário Soares. Estou escrevendo porque preciso desabafar, tenho 29 anos e perdi meu esposo há pouco tempo. Tenho duas filhas, uma de 10 e outra de oito anos. Sei que preciso ser forte principalmente por elas. 66 O conjunto do enredo principal estabelecido no eixo desabafo-morte-filhos faz com que a trama contenha uma alta overdose67 de emoção. É uma pessoa que está passando por necessidades e precisa de ajuda. Estou sem condições de confortar e alimentar as meninas. Quando elas vão para a escola, as lágrimas em meus olhos são inevitáveis. É o momento – em que sozinha – coloco para fora a minha dor. Quando vou a igreja consigo ficar melhor. Ouso a palavra e me conforto. Infelizmente a igreja é muito longe da minha casa e eu não consigo ir com freqüência. Estou muito abalada, sei que preciso ser forte e ajudar as 65 REQUENA, Jesus G. El Discurso Televisivo: espectáculo de la posmodernidad. Madri. Espanha. Editora Cátedra, 1999, p. 35. 66 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 19 de set. 2005. 67 Overdose. É uma super dose de alguma coisa. Geralmente a overdose é associada ao uso excessivo de entorpecentes.
  35. 35. 35 minhas filhas que são o meu bem mais precioso. Preciso muito de sua ajuda, peço de todo meu coração.68 Observa-se, repetidamente, que a família é envolvida no esquema. Há aflição e angústia na carta e na voz, como já comentado tem emoção e enlaçamento. O missionário assiste ao quadro e a seguir faz o seu comentário a respeito dos tópicos comentadas no papel. Para essa carta, observe o comentário do missionário R. R. Soares: Missionário: esse negócio de morte é uma coisa que às vezes a gente fala, mas isso mexe com a gente realmente. Mexeu até com Jesus. Jesus chorou na frente do túmulo de Lázaro. Quer dizer...é uma coisa que mexe. Agora nós que somos salvos. Nós entendemos a coisa diferente.69 Soares continua com o assunto morte. Nisso ele separa nós (referindo-se a eles) das outras pessoas. Assim, se eles entendem a morte dessa forma, quem não a vê assim, não faz parte do grupo deles. A uns quatro ou cinco anos eu tava aqui em São Paulo e recebi um telefonema que meu pai tinha falecido. Eu tinha culto de manhã, o sepultamento era à tarde, peguei o avião, fiz o sepultamento, voltei e fiz o culto da noite. Quer dizer, você não ama? Puxa! Quem não ama um pai? Mas a obra de Deus é coisa maior. Agora você tem duas filhas, é uma moça nova, olha o quê a bíblia diz. Essa semana eu já disse, 1 Corintios 7:39. A mulher está ligada ao marido enquanto ele viver. Mas, se morrer o marido, ela fica livre e poderá casar-se com quem quiser, contando que seja no Senhor. Claro que você tem lembranças dele, mas louva a Deus pelo marido que você teve, acorde! Você é nova. Se você quiser, você pode casar, Deus lhe dá um casamento no Senhor e criar suas duas filhas no temor de Deus... 70 Citando a Bíblia como argumento para suas explicações, o missionário ainda incrementa seu discurso com exemplos. A pessoa que busca orientação na vida de um pastor trata-o como se fosse um analista. Seus medos, angústias e frustrações, são traduzidos em poucos linhas e expostos aos olhos de todos que participam desse grande cenário. Além de procura de respostas. Há busca de inserção no meio social, segundo Fausto Neto, a busca pela vivência de outras racionalidades e experiências, na falta daquelas que foram tragadas pelo estilo de vida da modernidade, e hoje da chamada sociedade pós- moderna, não tem assegurado a identificação de horizontes sobre as quais os indivíduos gozem, de fato, possibilidades de autonomia e segurança nas suas escolhas. Encravados em mercados nos quais se encontram também as instituições, como é o caso das Igrejas, os indivíduos se vêm à mercê de ofertas discursivas e simbólicas que se propõem, de uma forma peculiar, à solução do mal estar provocado pela falta de referências de inserção no mundo em que vivem.71 68 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 03 de set. 2005. 69 PROGRAMA R. R. Soares, op. cit. 70 PROGRAMA R. R. Soares, Fitas VHS. Disponível em arquivo particular. Gravado em: 01 de out. 2005. 71 FAUSTO, Antonio Neto, op. cit.

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