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Michel Zaidan Filho
Otávio Luiz Machado
(Organizadores)
PRESENÇA DAS
JUVENTUDES PERNAMBUCANAS:
um diálogo com os jovens ...
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Copyright © 2010 by Michel Zaidan Filho
Otávio Luiz Machado
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Editor
Tarcísio Pereira...
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TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial,
por qualquer meio ou processo, especialmente por s...
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SUMÁRIO
7 Dados dos Autores
11 Agradecimentos
13 Introdução
15 Violência nas Escolas: Como Pensar em Juventudes,
Democra...
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155 Políticas Públicas, escola e direitos multiculturais
Michel Zaidan Filho
185 O DEBATE SOBRE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE DUR...
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DADOS DOS AUTORES
ADJAIR ALVES: Doutor em Antropologia, professor da
Universidade de Pernambuco (UPE).
ALEXANDRE DA SILV...
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ERIVÂNIA VITALINO FERREIRA DA SILVA: Graduanda em
Ciência Política da UFPE. Foi participante do Projeto “Memória
das Juv...
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consumo em São Miguel dos Milagres (Edufal, 2002), e de A
nova retórica do capital: a publicidade brasileira em tempos
n...
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SEVERINO VICENTE DA SILVA: Professor Adjunto do
Departamento de História da UFPE; membro do Colegiado do
Programa de Pó...
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AGRADECIMENTOS
Num trabalho de tal magnitude seria importante
agradecer nominalmente a todos os que colaboraram com o
P...
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com os privilégios essenciais para o seu pleno
desenvolvimento.
Um dos trabalhadores brasileiros que contribuiu em
muit...
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INTRODUÇÃO
Os textos aqui publicados foram produzidos durante o
Seminário Nacional sobre Juventudes Pernambucanas: um
B...
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juventude pernambucana (e para pedir aos possuidores de
documentos históricos sobre a juventude que doem algum tipo
de ...
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VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS: COMO PENSAR EM
JUVENTUDE, DEMOCRACIA, DIREITOS HUMANOS E
CIDADANIA SEM SE PREOCUPAR COM TAL QUES...
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brasileira é o aumento do ingresso dos jovens no ensino formal,
com uma maior demanda por educação das camadas populare...
17
A violência escolar passou a ganhar visibilidade com a
publicação e divulgação pela UNESCO em 2002 do documento
Violênc...
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agridem professores, a relevância de uma pesquisa sobre o
tema corporifica-se na análise da juventude na sociedade
cont...
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percepções dos diversos atores em escolas das diversas regiões
brasileiras, foi possível traçar suas experiências, expe...
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sendo associadas a expressões verbais que não se
concretizam necessariamente em agressão física.
Contudo, no plano de u...
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Muitos autores ao explicar a violência a partir do
espaço escolar sob a ótica da exclusão social consideram que a
prese...
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e ausência de perspectiva em relação ao futuro
(NOVAES, 2006, p. 108).
No Rio Grande do Sul, segundo o relatório do SIN...
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(ABRAMO, 1995, p. 1). Mas no campo da sociologia tem
prevalecido a visão da juventude como categoria social
(ABRAMO, 19...
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novos referenciais de comportamento e de identidade
exigidos por tais processos de mudança (ABRAMO, 1994,
p. 17).
Ao tr...
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inicialmente (WAISELFISZ, 1998; ABRAMOVAY, 2004; ZALUAR,
2004).
Para Abramovay (2004, p. 92-93), “a Escola de Chicago
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vinculados ao mundo da criminalidade (ABRAMO,
1994, p. 10).
Com um amplo leque de estudos abordando o desvio e
da delin...
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dentro de relações sociais e de práticas sociais singulares
(PAIS, 1993).
De acordo com Novaes (2006), Novaes e Vanucci...
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organização e a presença dos jovens nos mais diversos espaços
sociais, o que também pode explicar o aumento do fenômeno...
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comportamento “desviante”, indicando causas que possibilitam
enxergar o “desvio” dentro de uma variedade de contextos
s...
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são vistos como marginais ou desviantes. Mas o autor analisa
que
... a pessoa que recebe o rótulo de marginal pode ter
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(1985), pois “com seu trabalho pioneiro baseado em pesquisas
etnográficas em favelas e comunidades, verificou uma série...
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extramuros, gerando dificuldades para que se
produzam os efeitos esperados pelos teóricos do
poder simbólico. Além diss...
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violência juvenil a partir de arranjos associativos específicos,
dotados de identidade própria” (ABRAMOVAY, 2004, p. 13...
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BAUER, Martin & GASKELL, Georg. Pesquisa qualitativa com
texto, imagem e som. Petrópolis: Vozes, 2002.
BECKER, Howard S...
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CERQUEIRA, Daniel e LOBÃO, Waldir. Determinantes da
Criminalidade: Arcabouços Teóricos e Resultados
Empíricos. DADOS – ...
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DIÓGENES, G. Cartografias da cultura e da violência.Gangues,
galeras e o movimento hip-hop. 2ª ed. São Paulo:
Annablume...
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____. Censo Escolar 2006. Consultado no site:
http://www.educacao.pe.gov.br/
____. Plano Estadual de Juventude: Constru...
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de Pernambuco (1958-75). Recife: PPGS/UFPE, 2008
(Dissertação de Mestrado).
MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O de...
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OLIVEIRA MACIEL, Maria José de. Escuta, Galera! A violência
nas escolas Públicas da Região Metropolitana do Recife.
Rec...
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problemática da violência e drogas nas escolas: Recife,
1999.
RIQUE, C. AGUIAR, E; LINS, J. A & BARROS, L., A criminali...
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militância política nos anos 90. São Paulo: Hacker, 1999.
SPOSITO, Marilia Pontes. “Violencia colectiva, jóvenes y
educ...
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____. Mortes matadas por armas de fogo no Brasil, 1979-2003.
Brasília: Unesco, 2005. Consultado em:
http://www.dominiop...
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tráfico de drogas, Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2004,
p. 177-201.
ZUIN, Antônio. “Adoro odiar meu professor: o orku...
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MÚSICA E SOCIABILIDADE ENTRE JOVENS NEGROS NO
RECIFE: OS MARACATUS NAÇÃO
Isabel Cristina Martins Guillen
Resumo: Este a...
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alienação advindo do consumo, o descomprometimento com a
política, e com a construção da cidadania. Estaríamos vivendo
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e como os jovens têm se posicionado na cena cultural. Os
maracatus hoje expressam aquilo que é mais pernambucano,
que é...
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divergências nos seus grupos optaram pela recriação de outros
maracatus que estavam “guardados no museu”. Em parte é
fu...
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um encontro internacional de maracatus, que já vai em sua
quinta edição.
Na cidade do Recife, surgiu um grande número d...
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maracatu lembrava-se imediatamente do rei ou da rainha. O
batuque acompanhava a corte, e o conjunto constituía um
marac...
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por jovens. E os mais velhos sequer têm espaço, ou conseguem
deles participar. Este fenômeno tem chegado aos mestres, q...
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tradicional levavam-se anos, passava-se por todo um processo
de iniciação para se aprender a tocar todos os instrumento...
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Enquanto maracatu de baque solto o Cambinda Estrela
foi objeto de estudo do maestro César Guerra Peixe, um dos
primeiro...
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os trabalhos necessários para manter o grupo, tanto no
carnaval, mas principalmente no restante do ano.
No início da dé...
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grupo entoou a canção “Nkosi si ke le la”, reconhecido hino do
CNA (Congresso Nacional Africano) e que nos anos oitenta...
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jurema. Desse modo, nessas ações, percebemos que o
Cambinda Estrela tem afirmado sua identidade de
“quilombola”, de “fa...
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criatividade e mobilização, motivando os jovens a participar de
certos espaços de debate público e de alguns canais de
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que permaneçam no ócio e à mercê dos perigos da rua e da
delinqüência, principalmente o tráfico de drogas.
As oficinas ...
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aproxima o carnaval mais de uma vez na semana. Os ensaios
são coordenados pelos jovens acima referidos, e o mestre
inva...
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BORELLI, Silvia H. S.; FREIRE FILHO, João. Culturas juvenis no
século XXI. São Paulo, EDUC, 2008.
CARVALHO, Ernesto Ign...
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LIMA, Ivaldo Marciano de França. Os maracatus do Recife, as
disputas e influências entre o fazer e o refazer dos toques...
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  1. 1. 1
  2. 2. 2 Michel Zaidan Filho Otávio Luiz Machado (Organizadores) PRESENÇA DAS JUVENTUDES PERNAMBUCANAS: um diálogo com os jovens brasileiros NEEPD Olinda-PE 2010
  3. 3. 3 Copyright © 2010 by Michel Zaidan Filho Otávio Luiz Machado Impresso no Brasil Printed in Brazil Editor Tarcísio Pereira Diagramação Laís Mira Design da Capa Manoel Felipe Batista da Fonseca Fotografias da Capa e Contra-Capa Plano Estadual de Juventude (Governo do Estado de Pernambuco, Agosto de 2008) Projeto Gráfico Sérgio Siqueira Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia (NEEPD) está ligado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFPE e faz pesquisas, publica estudos políticos, oferece cursos de capacitação e pós-graduação em Ciência Política. Endereço Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50670-901. E-mail: neepd@ufpe.br Diretoria: Coordenador: Prof. Dr. Michel Zaidan Filho (UFPE) Vice-Coordenador: Prof. Ms. Clóvis Myiachi (UPE) Secretário-Executivo: Otávio Luiz Machado (NEEPD) Assessor jurídico: Ricardo Gueiros Júnior (RG Consultoria Jurídica) Corpo de Pesquisadores e Assistentes de Pesquisa: Sídia Lima Porto, Fábio Andrade Bezerra, Heli Ferreira, Otávio Luiz Machado, Alexandre da Silveira Lins, Andrine Souza Silva, Anna Paula Pereira Pinto, Erivania Vitalino Ferreira da Silva, Girleide de Sá Menezes, Jullyanne Campos Martins, Manoel Felipe Batista da Fonseca, Monyke Cabral e Silva, Niedja de Lima Silva e Tatiane Helena Lins dos Santos. Revisão Dos Organizadores Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ficha Catalográfica P933 Presença das juventudes pernambucanas: um diálogo com os jovens brasileiros. /Michel Zaidan Filho; Otávio Luiz Machado (org.).- Olinda: Livro Rápido, 2010. 198 p; Inclui Bibliografia ISBN: 978-85-7716-918-4 1. Juventude pernambucana. 2. Movimentos juvenis. 3. Formação cidadã do jovem. I. Zaidan Filho, Michel (org.). II. Machado, Otávio Luiz (Org.). III. Título. 323.1 CDU (1997) Fabiana Belo – CRB-4/1463 Livro Rápido – Elógica Rua Dr. João Tavares de Moura, 57/99 Peixinhos Olinda-PE CEP: 53230-290 Fones: (81) 2121-5300 Fax: (81) 2121-5333 www.livrorapido.com
  4. 4. 4 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos e videográficos. Vedada a memorização e/ou recuperação total ou parcial em qualquer sistema de dados e a inclusão de qualquer parte da obra em qualquer programa juscibenético. Essas proibições aplicam-se também as características gráficas da obra e à sua editoração. Pesquisa “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” (apoiado pelo CNPq e UFPE)” Coordenadores do projeto: Michel Zaidan Filho e Otávio Luiz Machado Pesquisadores-Colaboradores: Marília Pontes Sposito (Programa de Pós- Graduação em Educação da USP), Marcelo Siqueira Ridenti (Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp), Maria Ribeiro do Valle (Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UNESP/Araraquara), José Luis Sanfelice (Programa de Pós-Graduação em Educação da Unicamp), Janice Tirelli Ponte de Sousa (Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSC), José Alberto Saldanha (Programa de Pós-Graduação em História da UFAL), Luis Antônio Groppo (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Educação da UNISAL), João Roberto Martins Filho (Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar), Ângelo Emílio da Silva (Programa de Pós-Graduação em História da UFPB), Carla de Sant´Anna Brandão (Departamento de Psicologia da UEPB), Marcos Ribeiro Mesquita (Departamento de Psicologia da UFAL), Ellen Spielmann (Departamento de Literatura da University of Düsseldorf, Alemanha) e Elísio Estanque (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal). Estudantes: Alexandre da Silveira Lins (Ciência Política), Andrine Sousa (Serviço Social), Erivânia Vitalino Ferreira da Silva (Ciência Política), Girleide de Sá Menezes (Serviço Social), Manoel Felipe Batista da Fonseca (História), Niedja de Lima Silva (Serviço Social)
  5. 5. 5 SUMÁRIO 7 Dados dos Autores 11 Agradecimentos 13 Introdução 15 Violência nas Escolas: Como Pensar em Juventudes, Democracia, Direitos Humanos e Cidadania sem se Preocupar com tal Questão? Otávio Luiz Machado 43 Música e Sociabilidade entre Jovens Negros no Recife: os Maracatus Nação Isabel Cristina Martins Guillen 59 Pensar os Jovens dos Novos Movimentos de Juventude: Contribuições Teóricas à Construção de uma Categoria Adjair Alves 92 As Juventudes, uma experiência em uma periferia do Recife Severino Vicente da Silva 103 Juventude, política e consumo: imagens juvenis na publicidade brasileira a partir de 1964 Maria Eduarda Rocha 123 Educação, Cultura e Política Janice Tirelli Ponte de Sousa 135 Juventude em Transe: o cinema novo e a invenção do jovem na cultura visual brasileira Paulo Carneiro da Cunha Filho
  6. 6. 6 155 Políticas Públicas, escola e direitos multiculturais Michel Zaidan Filho 185 O DEBATE SOBRE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE DURANTE OS TRABALHOS PARA A ELABORAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 Otávio Luiz Machado
  7. 7. 7 DADOS DOS AUTORES ADJAIR ALVES: Doutor em Antropologia, professor da Universidade de Pernambuco (UPE). ALEXANDRE DA SILVEIRA LINS: Graduando em Ciência Política da UFPE. Foi participante do Projeto “Memória das Juventudes Pernambucanas da UFPE” (Projeto Proext-Bex-Recife). Integrante do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973- 1985)” com bolsa Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Pernambuco (FACEPE). ANDRINE SOUSA: Graduanda em Serviço Social da UFPE. Foi bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Pernambuco (FACEPE). Integrante do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” com bolsa da Propesq-UFPE. ANÍSIO BRASILEIRO: Professor do Departamento de Engenharia Mecânica do Centro de Tecnologia e Geociências da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É Pró-Reitor da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (Propesq) da UFPE. BRUNO MEDEIROS: Mestrando do PPG em Psicologia Social (UFPB). CARLA DE SANT’ANA BRANDÃO: Professora nos Cursos de Graduação em Psicologia do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPE) e da UEPB. Mestre em Psicologia Social (UFPB) e Doutora em Sociologia (UFPE).
  8. 8. 8 ERIVÂNIA VITALINO FERREIRA DA SILVA: Graduanda em Ciência Política da UFPE. Foi participante do Projeto “Memória das Juventudes Pernambucanas da UFPE” (Projeto Proext-Bex- Recife). Integrante do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Pernambuco (FACEPE). GIRLEIDE DE SÁ MENEZES: Graduanda em Serviço Social da UFPE. Foi bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Pernambuco (FACEPE) e participante do Projeto “Memória das Juventudes Pernambucanas da UFPE” (Projeto Proext-Bex-Recife). Integrante do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” com bolsa da Propesq-UFPE. ISABEL CRISTINA MARTINS GUILLEN: Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). JANICE TIRELLI PONTE DE SOUSA: Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política, do PPG em Sociologia, e Coordenadora do Núcleo de Estudos da Juventude Contemporânea da UFSC. MARCOS RIBEIRO MESQUITA: Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). MARIA EDUARDA ROCHA: Professora do PPG em Sociologia da UFPE. Autora de O consumo precário – pobreza e cultura de
  9. 9. 9 consumo em São Miguel dos Milagres (Edufal, 2002), e de A nova retórica do capital: a publicidade brasileira em tempos neoliberais (Edusp, 2010). MICHEL ZAIDAN FILHO: Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). NIEDJA DE LIMA SILVA: Graduanda em Serviço Social da UFPE. É participante do Projeto “Memória das Juventudes Pernambucanas da UFPE” (Projeto Proext-Bex-Recife). Integrante do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973- 1985)”. É bolsista da Proext-UFPE. OTÁVIO LUIZ MACHADO: Pesquisador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia do Programa de Pós- Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (NEEPD-UFPE). Coordenador do Programa sobre Juventudes, Democracia, Direitos Humanos e Cidadania na UFPE. Pesquisador do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” (financiado pelo CNPq) na instituição. Possui bolsa do CNPq no referido projeto PAULO CARNEIRO DA CUNHA FILHO: É professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Doutor em Artes pela Universidade de Paris 1 (Panthéon-Sorbonne), pesquisa atualmente as forma de representação cinematográficas do Nordeste do Brasil. Publicou, recentemente, A Utopia Provinciana: Cinema, Recife, Melancolia, pela Editora Universitária da UFPE.
  10. 10. 10 SEVERINO VICENTE DA SILVA: Professor Adjunto do Departamento de História da UFPE; membro do Colegiado do Programa de Pós-Graduação em História da UFPE; Membro da Comissão de Estudos de História da Igreja da América Latina, CEHILA; Membro do Instituto Histórico de Olinda.
  11. 11. 11 AGRADECIMENTOS Num trabalho de tal magnitude seria importante agradecer nominalmente a todos os que colaboraram com o Projeto em todas as suas etapas, mesmo sabendo que o esquecimento de muitos nomes é previsível. Mas seria uma tarefa difícil. Então pensamos em agradecer inicialmente às instituições, pois aí todas as pessoas poderão se sentir igualmente honradas com a obra produzida coletivamente e de interesse dos brasileiros e brasileiras. A UFPE criou boas condições para a realização do trabalho, assim como os diversos homens e mulheres que nos ajudaram a construir as bases do nosso projeto fora desse ambiente. À Propesq, à Proacad, à Proext e diversos órgãos da UFPE que sempre se prontificaram a colaborar com o presente projeto. Também agradecemos a FACEPE pelas bolsas disponibilizadas aos nossos estudantes. O apoio do CNPq foi essencial, pois através do projeto “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973-1985)” (apoiado pelo CNPq e UFPE)”, Agradecemos nossa equipe de bolsistas que estiveram envolvidos diretamente na organização do evento e no projeto propriamente dito, bem como aos monitores e demais colaboradores das atividades. Agradecemos a cada pesquisador-colaborador que se dispôs a falar no Seminário Nacional sobre Juventudes Pernambucanas, que sem eles os nossos projetos nunca teriam o respaldo necessário. Quando pautamos as nossas ações pela ética pública, o interesse da sociedade, a preocupação com o aprendizado de cidadania de cada membro envolvido e o avanço da ciência, também não podemos deixar de lembrar que o povo brasileiro é o grande financiador de parte dos nossos estudos e trabalhos, pois foi a partir daí que foram abertas as condições de fazê-los
  12. 12. 12 com os privilégios essenciais para o seu pleno desenvolvimento. Um dos trabalhadores brasileiros que contribuiu em muito com as nossas atividades chamava-se Severino Ramos (o Biu), que faleceu recentemente em um trágico acidente. A homenagem que fazemos nesse livro em nome de toda a nossa comunidade do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFPE.
  13. 13. 13 INTRODUÇÃO Os textos aqui publicados foram produzidos durante o Seminário Nacional sobre Juventudes Pernambucanas: um Balanço a Partir do Século XX e no decorrer do projeto de pesquisa financiado pelo CNPq intitulado “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações - 1973-1985”). O Seminário foi realizado entre os dias 29 e 30 de abril de 2010, na UFPE. Com apoio da Proext, da Propesq e do CNPq (por meio do projeto o evento trouxe diversos estudiosos para debater a questão juvenil nos seus múltiplos aspectos. Com a presença de pesquisadores e professores com vasta contribuição no campo das ciências humanas e sociais – e de um público interessado em trocar conhecimentos e experiências –, o balanço que pode ser feito é o mais positivo possível, ao considerarmos que discutimos a situação das nossas juventudes focando na questão da formação cidadã, da visibilidade da juventude, do protagonismo juvenil, da escolarização, da violência e de outras questões que se encontram na ordem do dia. O evento contribuiu para consolidar mais uma vez uma linha de pesquisa sobre Sociologia da Juventude na UFPE, contribuindo assim na formação de diversas juventudes da própria UFPE, sem contar a extensão dos resultados aos gestores de políticas públicas específicas para os jovens, membros de ONGs, militantes juvenis e pessoas que estão se voltando à questão da juventude no seu trabalho cotidiano. A nossa equipe é composta por bolsistas dos cursos de Ciência Política, Serviço Social e Ciências Sociais, que atuam na execução e promoção de eventos, pesquisas e demais atividades acadêmicas de interesse da sociedade. O empenho, a motivação, o compromisso público e o interesse em aprender é algo muito forte do nosso grupo. Como são poucos os espaços para que possamos apresentar os principais resultados do resgate da memória da
  14. 14. 14 juventude pernambucana (e para pedir aos possuidores de documentos históricos sobre a juventude que doem algum tipo de material para a pesquisa em curso), também esperamos impulsionar junto à sociedade uma reflexão e a ação urgente em prol dos nossos jovens através do envolvimento com as atividades educativas que desenvolvemos. Recife, 28 de outubro de 2010 Os organizadores
  15. 15. 15 VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS: COMO PENSAR EM JUVENTUDE, DEMOCRACIA, DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA SEM SE PREOCUPAR COM TAL QUESTÃO?1 Otávio Luiz Machado As juventudes tem sido um dos temas fortes nas nossas agendas de pesquisas e reflexões na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A educação é um dos instrumentos de diferenciação social, pois podemos considerá-la um canal de integração dos indivíduos na sociedade2 . O que se observa na realidade 1 Algumas reflexões dos textos foram construídas a partir dos projetos de Pesquisa “Aspectos da Memória das Juventudes Pernambucanas: Novas Configurações e Transmutações (1973- 1985)” (financiado pelo CNPq) e “Estudos Interdisciplinares sobre Juventude, Democracia, Direitos Humanos e Cidadania” (Financiado pela Propesq-UFPE). O tema foi uma preocupação anterior ao início dos referidos projetos, mas é trazido aqui mais como uma instigação do que como resultados ou conclusões de pesquisas. 2 A luta pelo acesso à educação é histórica no Brasil, embora “A escola oficial e pública, que na década de 40 foi objeto de duras lutas políticas para torná-la universal, passou a ser posta sob suspeita de ser agente da dominação. A escola estaria a serviço da reprodução da ordem social desigual vigente e da legitimação do Estado opressor e do estamento técnico- burocrático. Por causa disso projetos educacionais informais, conceituados como educação popular ou alternativa, tomaram conta da imaginação política dos intelectuais brasileiros” (ZALUAR, 1994, p. 30). A escola tem sido colocada em xeque segundo pesquisas ao não responder satisfatoriamente às expectativas imediatas dos jovens, mesmo sendo “considerada inadequada em parte porque não sabe responder às aspirações
  16. 16. 16 brasileira é o aumento do ingresso dos jovens no ensino formal, com uma maior demanda por educação das camadas populares, embora também os índices elevados de repetência, de fracasso, de evasão ou de expulsão dos alunos possam ser considerados significativos (GOMES, 1997; LAHIRE, 1997; PAIVA, 1992; SOUZA e SILVA, 2003)3 , além do analfabetismo juvenil no Brasil, que conta com cerca de meio milhão de jovens analfabetos, sendo 66% do total provenientes da Região Nordeste (SEJE, 2008)4 . Mas simultaneamente, também, o fenômeno social da violência tem atingido enormemente os jovens, pois dados divulgados em diversos estudos demonstram que a juventude é cada vez mais atingida pela violência, bem como o grupo que também mais pratica violência (SEJE, 2008; UNESCO, 2002; ZALUAR, 1992, 1993, 1994, 2004; ABRAMOVAY, 1998, 2001; WAISELFISZ, 2004)5 . E a violência tem ocupado cada vez mais espaços em locais fundamentais para a socialização dos jovens, como é o caso da escola, o que permite considerar que um dos seus canais importantes de transição para a vida adulta também seja permeado pela violência (ABRAMOVAY e AVANCINI, 2003). populares nem dialogar com suas várias linguagens, ou seja, porque inexiste, da parte do educador, o conhecimento e o respeito pela cultura do educando” (idem, p. 31). 3 O Brasil tem alcançado níveis significativos de matrículas na última década. Além a universalização e da meta da educação como “direito de todos”, a carta da Constituição de 1988 incluiu, além dos direitos políticos e civis, os direitos sociais (SCHWARTZMAN, 2004b). Apoiando-se nesse Documento, o debate atual sobre políticas públicas de juventude insiste na inclusão da juventude como sujeito de direitos. 4 SEJE: Secretaria de Juventude e Emprego do Estado de Pernambuco. 5 UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura;
  17. 17. 17 A violência escolar passou a ganhar visibilidade com a publicação e divulgação pela UNESCO em 2002 do documento Violências nas Escolas (ABRAMOVAY e RUA, 2002). É o que também diversos estudos acadêmicos ou produzidos por escolas, sindicatos de professores6 ou pelos órgãos públicos destacam mais recentemente, embora os dados vão além, ao apresentar especificamente o crescimento de agressões contra professores (as) nos seus mais diversos graus (CNTE, 2004; ABRAMOVAY, 2006; SINTEPE, 2006; SINPRO/RS, 2007; APEOESP, 2008)7 . Os dados de uma pesquisa realizada pelo SINTEPE e publicada no Diário de Pernambuco revelam que 31% dos casos de violência escolar em Recife relaciona-se com a agressões praticadas pelos estudantes contra educadores (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 24/10/2008). Com dados mais específicos sobre violência escolar na região metropolitana de Recife, Maria José de Oliveira Maciel em sua tese – produzida na área de Sociologia – analisou 186 escolas municipais e estaduais a partir de uma abordagem institucional, constatando que a violência faz parte da realidade das escolas e se manifesta de diversas formas. A autora partiu da hipótese de que existia “uma relação estatisticamente significativa entre grau de violência nas escolas e a adoção de medidas institucionais que repercutem na organização escolar das instituições públicas de ensino da atualidade” (OLIVEIRA MACIEL, 2004, p. 87), o que permitiu concluir que várias ações no próprio ambiente escolar tenderiam a diminuir a violência escolar. Com tais indicadores que apresentam a baixa preocupação com a produção de estudos sobre os jovens que 6 Quando nos referirmos ao termo “professores” também abrangemos as profissionais do sexo feminino (“professoras). 7 CNTE: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação; SINPRO/RS: Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul; SINTEPE: Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco; APEOESP: Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo.
  18. 18. 18 agridem professores, a relevância de uma pesquisa sobre o tema corporifica-se na análise da juventude na sociedade contemporânea, onde um cotidiano de violências nas escolas passou a ser associada a um comportamento de jovens marcados pela exclusão social. É preciso ir além da identificação da violência escolar, mas analisar o que pensam as diversas juventudes que freqüentam as nossas escolas, suas percepções sobre tais tipos de violências cotidianas e o diálogo desse discurso com as falas dos professores vitimizados. Com o estudo de Abramovay e Avancini (2003)8 , quando se analisou as 8 Outra pesquisa apoiada pela UNESCO também pode nos fazer melhor pensar a questão, especificamente por meio da análise de três indicadores. Trata-se da “Pesquisa Nacional Violência, Aids e Drogas nas Escolas” (Unesco, 2001). Um dos dados da pesquisa indicou que a proporção de alunos dos Ensinos Fundamental (5ª a 8ª) e Médio que presenciaram o uso de drogas dentro da escola em diversas capitais brasileiras (em 2000) foi a seguinte: em menor intensidade em Belém (15,7%); e maior em Florianópolis (35,1%). Em Recife constatou-se 22,1%. Questionados os alunos sobre relatos de violência sexual e/ou estupros no ambiente da escola, 5% dos estudantes do Pará, Ceará e Espírito Santo disseram saber algo a respeito, enquanto 12% no Mato Grosso. 6% de Pernambuco responderam positivamente sobre a ocorrência de violência sexual nas escolas. Noutra parte referiu-se ao “Uso e porte de armas”. Os alunos das capitais das Unidades da Federação, Quanto ao testemunho de porte de armas de fogo e de outras armas por alunos, professores ou pais no ambiente da escola, 18% dos estudantes do Distrito Federal e 9% da Amazônia e do Pará. As respostas dos alunos de Pernambuco foram de 12%. Quanto a outros tipos de armas (faca, Porrete, estilete etc.), 15% no Mato Grosso e 10% de Pernambuco presenciaram outros tipos de armas. A pesquisa conclui que “as armas, mesmo quando não acionadas, impõem respeito entre os jovens e simbolizam poder, status e masculinidade. A presença de qualquer tipo de
  19. 19. 19 percepções dos diversos atores em escolas das diversas regiões brasileiras, foi possível traçar suas experiências, expectativas e perspectivas. O que chamou a atenção foram os mais diversos tipos de manifestação de violência nas escolas, tais como a física, a simbólica e o que as autoras chamaram de incivilidades. Os dados foram analisados relacionando-os com realidade social de pobreza e exclusão social não só cercam as escolas, mas afeta enormemente o seu dia-a-dia. A pesquisa também identificou a violência sexual nas escolas, que “vão desde ´brincadeiras´, que podem gerar constrangimento àqueles a que são dirigidas, até estupros” (idem). Conforme dados preliminares da Pesquisa de Vitimização nas Escolas 2003, realizada pela UNESCO em escolas da rede pública de cinco capitais (Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo), 83,4% dos alunos entrevistados afirmaram existir violência na escola; 69,4% disseram sobre a ocorrência de furtos no ambiente escolar; cerca de 37% alegam ter sido furtados uma ou mais vezes. Além disso, 21,7% dizem já ter visto canivetes no ambiente escolar e 12,1%, revólveres (WERTHEIN, 2004). Os dados conclusivos dessa pesquisa, publicados em 2006, apontaram que a direção da escola dificilmente tomou providências independentemente de quem fosse o alvo de violências nas escolas (aluno, professor ou outro adulto) (ABRAMOVAY, 2006, p. 166), levando-se em consideração que, no caso de ameaças de agressão física a professores pelos alunos, em sua maioria as motivações relacionam-se com o rendimento escolar ou em recusa da dinâmica cotidiana da escola. É preciso considerar que As ameaças são, muitas vezes, minimizadas e consideradas parte da comunicação entre os jovens, armamento na escola aponta a banalização do uso de armas e a possibilidade de episódios de violência efetiva”.
  20. 20. 20 sendo associadas a expressões verbais que não se concretizam necessariamente em agressão física. Contudo, no plano de uma ética de civilidade, em particular em ambiências escolares, elas merecem atenção singular. Há que também levar em conta que esse tipo de ocorrência pode ser um aviso, uma etapa pré-agressão física, sendo, portanto, um momento importante para intervenção dos adultos da escola. A importância das ameaças na vida social é também reconhecida, tanto que tipifica um delito sujeito à punição prevista no artigo 147 do Código Penal (idem, p. 145). Mas um consenso entre os mais diversos autores é que a violência atinge significativamente os mais jovens9 , seja na condição de vítima, seja na condição de autores, também considerando que são eles o grupo social mais identificado quando abordamos o tema da violência (ZALUAR, 1993; SPOSITO, 1994; CASTRO, 2001; ABRAMOVAY, 2004; NOVAES, 2006; DIÓGENES, 2008). O Brasil é o quinto colocado no ranking internacional em homicídios na população jovem. Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo configuram-se como os estados mais violentos, cujos indicadores para as causas são multidimensionais10 . 9 A violência escolar tem sido tratada em diversos estudos. É o caso da pesquisa da ONG inglesa Plan, que lançou recentemente a campanha mundial “Aprender Sem Medo”. Algumas conclusões foram: 84% dos cerca de 12 mil estudantes de seis estados pesquisados consideraram suas escolas violentas; 70% afirmaram ter sido vítimas de violência escolar; e um terço dos estudantes afirmou estar envolvido em bullying, como agressor ou como vítima. 10 Por exemplo, na década de 1980 foram assinadas 11,7 pessoas em cada 100 mil habitantes no País. Entre 1991 e 1998, houve um aumento da taxa de mortalidade por causas externas em todas as regiões do País exceto na região sul, com
  21. 21. 21 Muitos autores ao explicar a violência a partir do espaço escolar sob a ótica da exclusão social consideram que a presença na escola não reduz a vulnerabilidade social de adolescentes e jovens que estão afastados do mercado de trabalho: As desigualdades foram se aprofundando, mas havia mobilidade. Hoje, os jovens não possuem, em geral, condições melhores de trabalhos e de vida que seus pais. Os filhos dos pobres estão ficando mais pobres que os pais, os filhos dos ricos estão menos ricos que os pais. Não por acaso, a diminuição das possibilidades de mobilidade social gera pessimismo acentuada mortalidade masculina (cinco vezes mais que a feminina), predominando os homicídios na região Norte, Nordeste e Sudeste. Em 1998 os Homicídios passaram a ocupar o primeiro lugar na região Centro-oeste (Organização Pan- Americana de Saúde, 2004). Em 2000, esse número chegou a 28, 7, mostrando um aumento de 100% em relação à década anterior. Em 2004, foram assinados 200 jovens por 100.000 habitantes, o que a Nações Unidas considerou um resultado de situação de guerra. As três capitais Brasileiras com os maiores índices de criminalidade foram: Rio de Janeiro, São Paulo e Recife (RIQUE, 2005). Em Pernambuco, as vítimas de homicídios que foram agredidas e mortas são jovens e significativamente do sexo masculino. “A faixa etária predominante foi a dos 20 a 29 anos (41% do total), seguida da dos 30 a 39 anos (21%). Os jovens de 15 a 19 anos constituíram 19% do total” (Pacto pela Vida, 2007). 83% das mortes masculinas ocorreram na faixa etária dos 15 aos 39 anos. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados no Plano Estadual de Juventude de Pernambuco (2008), a juventude – 15 a 29 anos de idade – é vítima de 47% das mortes violentas (lesões, acidentes, homicídios, entre outras) no Estado de Pernambuco.
  22. 22. 22 e ausência de perspectiva em relação ao futuro (NOVAES, 2006, p. 108). No Rio Grande do Sul, segundo o relatório do SINPRO (RS), 92,0% dos respondentes informaram já ter sofrido ou presenciado violência no ambiente de trabalho (Sinpro, jan. 2007). Dentre os fatos vivenciados pelos professores que trabalham na Grande Porto Alegre estão os seguintes: agressão física, agressão via internet, assédio sexual, relativização das agressões dos alunos e outras (idem, p. 5). Segundo pesquisa da Apeoesp sobre os professores da rede estadual que trabalham em Campinas, numa amostra de 580 entrevistados (num universo de 6.600 professores), 24% sofreram violência física, 43% já foi alvo de xingamentos, 30% sofreram humilhações, 20% foram vítimas de agressões verbais e 7%, de outros tipos de agressão, como intimidação. A pesquisa ainda perguntou sobre objetos pessoais danificados por alunos. A resposta foi a seguinte: 42% afirmaram que houve danos a seus carros, 30% citaram danos a livros, 8% a celulares e 20% mencionaram outros danos (FSP, 25/09/2008). Também foi divulgada uma pesquisa pelo Conselho Tutelar de Cariacica em escolas públicas das redes estadual e municipal de ensino, que constatou haver constatado violência contra professores na maioria delas (REDE GAZETA, 02/09/2007). Em outros casos de violências contra professores estão envolvidos ex-alunos das escolas, como ocorreu em Recife com uma professora da Escola Estadual Vidal de Negreiros, que foi seqüestrada por quatro jovens que haviam estudado na escola Em quase todos os casos de violências contra professores, nos seus mais diversos níveis, a grande dificuldade é a ausência de registros, levando-se em consideração que os dados geralmente não são notificados. O debate sobre juventude tem tido marcado pela multiplicidade de visões, sendo a mais usual a que trata a categoria juventude a partir de um ciclo biológico e psicológico (faixa de idade, período de vida, mudanças psicológicas etc)
  23. 23. 23 (ABRAMO, 1995, p. 1). Mas no campo da sociologia tem prevalecido a visão da juventude como categoria social (ABRAMO, 1994, 1995; GROPPO, 2000; PAIS, 1999; SOUSA, 1999). Assim, ao discutirmos juventude também analisamos a diferenciação das sociedades modernas, pois “a acentuada divisão de trabalho e a especialização econômica, a segregação da família das outras esferas institucionais e o aprofundamento das orientações universalistas agudizam a descontinuidade entre o mundo das crianças e o mundo adulto” (ABRAMO, 1994, p. 3). Para a categoria juventude precisamos recorrer a noções como transitoriedade (período de preparação para a vida adulta), que está relacionada à idéia de suspensão da vida social, “dada principalmente pela necessidade de um período escolar prolongado, como um tempo para o treinamento da atuação futura” (ABRAMO, 1994, p. 12). Outra noção é a de individuação, na questão da identidade própria, de recusa de valores e normas considerados fundamentais pelos pais e a importância dos grupos de pares. Também poderíamos recorrer à noção de crise potencial, ou mesmo de socialização, porque ... o destaque do grupo de idade correspondente à adolescência, na sociedade moderna, aparece como fruto do desenvolvimento da sociedade industrial que, ao criar a disjunção entre a infância e a maturidade, tornou necessário um segundo processo de socialização. Esta consiste, fundamentalmente, na preparação dos jovens para a assunção dos papéis modernos relativos à profissão, ao casamento, à cidadania política etc, que os coloca diante da necessidade de enfrentar uma série de escolhas e decisões. Dessa maneira, por ocupar um status ambíguo, between and betwixt, os jovens constroem redes de relações particulares com seus companheiros de idade e de instituição, marcadas por uma forte afetividade, nas quais, pela similaridade de condição, processam juntos a busca de definição dos
  24. 24. 24 novos referenciais de comportamento e de identidade exigidos por tais processos de mudança (ABRAMO, 1994, p. 17). Ao tratarmos a noção de juventude – ao invés do seu caráter geracional e biológico – no aspecto histórico, social e cultural, trazemos o debate para a compreensão como “parte de grupos sociais e culturais específicos“ (CARDOSO & SAMPAIO, 1995, p. 18.) Ou seja: A juventude só pode ser entendida em sua especificidade, em termos de segmentos de grupos sociais mais amplos. Os jovens passam, assim, a ser vinculados a suas experiências concretas de vida e adjetivados de acordo com o lugar que ocupam na sociedade. Não se fala mais em juventude em abstrato, como uma espécie de energia potencial de mudanças, ainda que culturalmente construída, mas das múltiplas identidades que recortam a juventude (idem, p, 18). A juventude geralmente foi enxergada como vivenciadoras de situações ditas de risco e dotadas de uma rebeldia típica da juventude. Não se consideravam alguns aspectos relacionados à família, à escolaridade e à situação de classe desde o seu início, pois abordagem dada pela Sociologia à juventude esteve inicialmente associada à desordem, conforme estudos realizados nos Estados Unidos pela chamada Escola de Chicago entre os anos 1920 e 194011 . Tais estudos focaram os conflitos e as violências entre as gangues, 11 Alguns dos estudantes produzidos pela Escola de Chicago foram: THRASHER, Frederick M. The Gang. Chicago: The University of Chicago Press, 1927; MCKAY, Henry e SHAW, Clifford R. Juvenile Delinquency in urban areas. Chicago: The University of Chicago Press, 1942; FIGLIO, Robert, SELLIN, Thorten e WOLFGANG, Marvin E. Delinquency in a Birth Cohort. Chicago: The University Press, 1972.
  25. 25. 25 inicialmente (WAISELFISZ, 1998; ABRAMOVAY, 2004; ZALUAR, 2004). Para Abramovay (2004, p. 92-93), “a Escola de Chicago fornece os primeiros postulados de uma ´sociologia da delinqüência juvenil´, referindo-se aos problemas de integração das microcomunidades, distanciadas das normas dominantes na sociedade”, pois seus interesses não estavam voltados ao tema juventude especificamente, mas no efeito do acelerado crescimento urbano, na ausência de integração nesses novos espaços sociais e no comportamento dos moradores dos locais em que surgiram rapidamente inúmeras gangues, organizações criminosas ou bandos com forte presença de jovens. Para Zaluar (2004), “pela primeira vez, falou-se das zonas ecológicas e dos territórios da cidade, e fez- se associação entre desorganização social e violência, zona de transição e criminalidade, violência urbana e juventude”. Por outro lado, ... esse aparecimento pela contraposição aos padrões dominantes é dado também pelos grupos delinqüentes ou ligados à criminalidade, compostos por jovens das “classes baixas”, que suscitam o tema do desvio no processo de integração dos jovens à vida social. Esse é o foco dos trabalhos realizados nos anos 20 e 30 pela Escola de Chicago, os quais constituem uma das primeiras e mais importantes séries de pesquisa sociológica sobre juventude. Esses pesquisadores, preocupados com os problemas decorrentes da desorganização social provocada pelo crescimento das metrópoles, voltam a atenção para os street gang boys, rapazes de bairros de imigrantes que vivem a maior parte de seu tempo nas ruas, fora dos espaços institucionais adequados à uma socialização “sadia”, e que acabam por desenvolver comportamentos “em desconformidade com as normas sociais”, muitas vezes inspirados ou
  26. 26. 26 vinculados ao mundo da criminalidade (ABRAMO, 1994, p. 10). Com um amplo leque de estudos abordando o desvio e da delinqüência juvenil inspirados nos estudos da Escola de Chicago12 , a Sociologia norte-americana focou no universo cultural da marginalidade e da criminalidade, cujo principal modelo teórico foi o de cunho funcionalista, que estudou os jovens em sua maioria de classes de baixa renda em condições sociais anômalas, sobretudo no pós Segunda Guerra Mundial. A Sociologia preocupava-se com as chamadas “subculturas juvenis”, pois alguns grupos juvenis marcados pelo desemprego e o consumo de drogas, como os membros das gangues, eram facilmente identificados como jovens “desviantes”. Para analisarmos a violência juvenil nos espaços escolares das periferias da cidade de Recife, cremos que a perspectiva teórica ou conceitual da Sociologia da Juventude que se orienta pela noção de culturas juvenis de José Machado Pais será a mais factível para orientarmos a questão do ponto de vista da existência de diversas “juventudes” que se interagem no espaço escolar. Ao tratar o conceito de juventude visando se distanciar de uma homogeneidade e superando a noção como “transição para a vida adulta”, Pais considera que as vivências juvenis são múltiplas e relativiza a análise focada nas gerações, pois para ele cada jovem tem um percurso próprio onde os comportamentos e atitudes são vistos 12 Com a publicação de Delinquent boys por Albert Cohen (1955) tal tradição é mantida, ao defender “a idéia de que os meninos da classe baixa trabalhadora que estão frustrados com sua situação de vida frequentemente se unem a subculturas delinqüentes, como gangues. Essas subculturas rejeitam os valores da classe média, substituindo-os por normas que celebram o desafio, tais como a delinqüência e outros atos de não-conformidade” (idem, 2005, p. 177).
  27. 27. 27 dentro de relações sociais e de práticas sociais singulares (PAIS, 1993). De acordo com Novaes (2006), Novaes e Vanucci (2004) e Velho (2006), para a compreensão da inserção do jovem no espaço social precisamos considerar as aproximações, as diferenças, as trajetórias etc. Estar ou não estar na escola implica em inclusão ou exclusão, mas certamente não se pode afirmar com precisão que a educação será um canal de mobilidade social para o conjunto da juventude, pois precarização do trabalho, o grau de vulnerabilidade e de estigma dos jovens oriundos das camadas populares dificulta a integração dos mesmos a oportunidades iguais usufruídas por outras juventudes. Pais (1994) atribuiu aos jovens na contemporaneidade como membros de “geração yô-yô”, levando-se em consideração as idas e vindas dos jovens à escola, ao trabalho ou à casa dos pais, quando buscam construir formas próprias de sociabilidade e de ingresso ao mundo adulto. No tocante ao interesse pela escola, que pode ser entendido como espaço de inclusão social, Pais também tem suas restrições: E já agora, por que muitos jovens faltam às aulas ou ficam satisfeitos quando os professores faltam? É porque encaram a escola como um espaço cerrado, estriado. Tantas vezes designadas como “culturas de margem”, o que estas culturas juvenis reclamam é inclusão, pertencimento, reconhecimento. Daí suas perfomatividades, que não por acaso se ritualizam nos domínios da vida cotidiana mais libertos dos constrangimentos institucionais – os do lazer e do lúdico (“espaços lisos”) (PAIS, 2007, p. 14-15): Uma nova perspectiva surge quando a expressão da violência passa a ser reconhecida como forma alternativa de visibilidade, de reconhecimento e de ocupação do espaço urbano pelas mais diversas juventudes que são excluídas, porque a presença das gangues ou das galeras demonstram a
  28. 28. 28 organização e a presença dos jovens nos mais diversos espaços sociais, o que também pode explicar o aumento do fenômeno social da violência: A violência é uma certa modalidade disciplinada de auto-realização, de produção de si e de relacionamento. É uma modalidade de organizar a experiência da sociabilidade, ainda que cabe dissipando as condições mesmas da experiência de sociabilidade (SOARES, 2006, p. 126). A questão da instituição escolar merece atenção, pois passou ser um novo espaço de segmentação e de elaboração das identidades e das relações solidárias necessárias à transição de uma faixa etária para outra, pois sua função “é a transmissão de conhecimentos e valores para o desempenho da vida futura, inclusive profissional” (ABRAMO, 1994, p. 3). Ariès (2006) correlaciona condição juvenil à separação social imposta pela escola, o que nos permite pensar a construção social da juventude como problema surgido na sociedade moderna e intensamente ligado à educação: É como um fenômeno da sociedade moderna, portanto, que a juventude emerge como tema para a sociologia. Na verdade, esta disciplina se interessa pela juventude na medida em que determinados setores juvenis parecem problematizar o processo de transmissão das normas sociais, ou seja, quando se tornam visíveis jovens com comportamentos que fogem aos padrões de socialização aos quais deveriam estar submetidos (ABRAMO, 1994, p. 8). Outro referencial a ser adotado é o da Sociologia do Crime e da Violência, quando o comportamento “desviante” passa a ser observado não mais a partir das motivações individuais e relacionadas às instituições, mas a partir de análises multidimensionais que tentam ir além do
  29. 29. 29 comportamento “desviante”, indicando causas que possibilitam enxergar o “desvio” dentro de uma variedade de contextos sociais e culturais. E uma das teorias que poderá nos oferecer um referencial teórico para analisar as violências produzidas pelos estudantes contra professores será a interacional, sobretudo a Teoria da Rotulação de Howard Becker13 . O desvio é visto a partir dessa teoria como um processo de interação entre desviantes e não-desviantes e não uma divisão entre os “normais” e os “desviantes”14 , o que torna seu estudo um diferencial nos estudos criminológicos, pois quando consideramos que ... a proposição do modelo interacional é que o comportamento desviante ocorre em um processo interacional dinâmico. Desse modo, mais do que perceber a delinqüência como uma conseqüência de um conjunto de fatores e processos sociais, a perspectiva interacional procura entendê-la simultaneamente como causa e conseqüência de uma variedade de relações recíprocas desenvolvidas ao longo do tempo (CERQUEIRA e LOBÃO, p. 246-247). Para Becker (1977, p. 53), todos os grupos sociais estabelecem regras sociais e esperam que sejam seguidas, levando-se em consideração que elas definem situações sociais e os diversos tipos de comportamentos pretensamente apropriados. Os indivíduos que não concordam com tais regras 13 As traduções da publicação original em português de Becker (1977) utilizaram os termos desviantes e marginais ao invés de outsiders, que foi considerada em Becker (2008). 14 Muitos estudos criminológicos produzidos do início até meados do século XX preocupavam-se em entender os desviantes dos não desviantes. Alguns desses autores são: LOMBROSO, HAKEEM, HEALY e GLUECK, 1918.
  30. 30. 30 são vistos como marginais ou desviantes. Mas o autor analisa que ... a pessoa que recebe o rótulo de marginal pode ter uma visão diferente da questão. Ela pode não aceitar a regra em função da qual está sendo julgada e pode não considerar aqueles que a julgam como competente ou legitimamente autorizados para julgá-la. Conseqüentemente, surge um segundo significado do termo: a pessoa que quebra as regras pode sentir que seus juízes são desviantes (idem). O autor considera desviante, portanto, o indivíduo que, permanecendo fora do círculo de membros “normais” do grupo, diferem das regras formais consideradas realmente apropriadas pela maioria das pessoas (idem, p. 65). Mas o importante da teoria de Becker é a consideração de que a definição de um ato desviante ou não desviante está relacionada à reação dos outros indivíduos, pois seu conceito de desvio a ser utilizado na pesquisa relaciona-se com as interações cotidianas e as construções dos “rótulos” a partir daí. No caso da agressão contra os professores, então como pensar que alguns estudantes são levados a ameaçar e a agredir professores de diversas formas e outros não? A explicação preliminar de alguns estudantes jovens contatados são a baixa capacidade de punição (uma faixa deles são protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente), a desestruturação familiar e a incapacidade da escola de oferecer-lhes as condições que a família não provem ou mesmo a avaliação dos custos (são protegidos por gangues ou criminosos da áreas e assim pressionam os membros escolares a não acionar a polícia). Outras percepções de outros indivíduos também merecerão análises mais aprofundadas. Além da Teoria da Rotulação, também é importante mencionar uma série de pesquisas brasileiras que também poderão nos dar suporte teórico. É o caso de Alba Zaluar
  31. 31. 31 (1985), pois “com seu trabalho pioneiro baseado em pesquisas etnográficas em favelas e comunidades, verificou uma série de elementos que associariam o contexto social nessas comunidades aos fenômenos da violência e criminalidade, lançando luz sobre a questão” (CERQUEIRA e LOBÃO, p. 254). Como tratamos de escolas localizadas em áreas limítrofes à concentração de pontos de convergência de uma estrutura de crime organizado, também é relevante perceber, como apontou Zaluar e Leal (2001, p. 153), o mesmo como uma instância de poder que afeta não apenas o cotidiano dos moradores dos bairros e favelas, mas que também afeta as relações entre professores e estudantes e entre estes e a própria escola, pois coloca em xeque um sistema de sociabilidades onde a escola teria sido o seu grande expoente. Para as autoras: Os depoimentos e os dados apresentados ressaltam o confronto entre a violência física extramuros (na rua) e a violência intramuros, praticada na escola, demonstrando que as formas tradicionais de educação moral, até então presentes nas escolas públicas, não têm sido suficientes para impedir a invasão da escola pelos códigos e práticas que dominam as ruas das áreas pobres. O saldo desse confronto, que pode ser identificado nas estatísticas oficiais de mortalidade e nas violências as mais diversas cometidas contra a população jovem dessas áreas, sem registro, tem sido favorável aos responsáveis pela destruição de laços de civilidade e de vidas. A pesquisa realizada pelas autoras vem demonstrar que a violência não está restrita a alguns espaços sociais pré-determinados, mas que faz parte de uma rede de relações que alcançam vários limites: Os dados que apresentaremos revelam como a escola está tomada pela violência física
  32. 32. 32 extramuros, gerando dificuldades para que se produzam os efeitos esperados pelos teóricos do poder simbólico. Além disso, a violência psicológica suposta em qualquer atividade pedagógica precisa ser melhor delimitada para que não se confunda a socialização necessária ao viver em grupo com o esmagamento e o silenciamento daqueles que deveriam estar sendo formados para se tornarem sujeitos com capacidade de argumentação na defesa de seus pontos de vista e interesse. Em que medida isso também acontece dentro do sistema escolar? Também questionam a cidadania que deveria ser promovida pela escola, mas que a violência também reproduz o fracasso escolar: A evasão aparece mais nos depoimentos de alunos do CIEP (22%) do que nos da escola de tempo parcial (12%). Nesta última, as razões mais apresentadas pelos estudantes para terem deixado de freqüentá-la foram em ordem decrescente: os problemas decorrentes da mudança de moradia, a violência na escola e a necessidade de trabalhar. Para os alunos do CIEP, a ordem é diferente: primeiro, a violência na escola. São eles também que mencionaram a discriminação de aluno pobre e a violência no bairro como responsáveis por dificuldades na escola e no entorno, embora em percentuais baixos (5%). Embora a violência esteja relacionada aos jovens pobres das periferias das cidades, como no caso de “gangues” e galeras e a diferenciação dos agrupamentos juvenis nesses locais, sua proliferação estão de alguma forma associadas à violência (DIÓGENES, 2008). Um fenômeno importante a considerar na violência urbana hoje é a existência de “gangues”, que utiliza-se da “prática de atos de transgressão e
  33. 33. 33 violência juvenil a partir de arranjos associativos específicos, dotados de identidade própria” (ABRAMOVAY, 2004, p. 13). O comportamento “desviante” dos membros dessas “gangues” é considerado como ajustamento e contraste com a ordem estabelecida. Também precisamos observar tais grupos quando refletimos sobre a violência nas escolas. Referências Bibliográficas ABRAMO, Helena Wendel. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo: Scritta, 1994. ABRAMOVAY, Miriam. “Cultura, identidades e cidadania: experiências com adolescentes em situação de risco”. In: Jovens Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas, Brasília, CNPD, 1998, 2 vol. ____. (Coord.). Escolas de paz. Brasília: UNESCO e Governo do Estado do Rio de Janeiro/ Secretaria de Estado de Educação, Universidade do Rio de Janeiro, 2001. ____. (Coord.). Cotidiano das escolas: entre violências. Brasília: UNESCO, Observatório de Violência, Ministério da Educação, 2005. ____. RUA, Maria das Graças. Violências nas escolas. Brasília: UNESCO, 2004. ____. et al. Gangues, Galeras, Chegados e Rappers. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. ____. et al. Juventude, violência e Vulnerabilidade social na América Latina: Desafios para políticas públicas. Brasília: Unesco/BID, 2002. AQUINO, Júlio Groppa. Confronto na sala de aula: leitura institucional da relação professor-aluno. São Paulo: Summus, 1996. ARIÈS Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 2006. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992.
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  44. 44. 44 MÚSICA E SOCIABILIDADE ENTRE JOVENS NEGROS NO RECIFE: OS MARACATUS NAÇÃO Isabel Cristina Martins Guillen Resumo: Este artigo discute as transformações ocorridas nos maracatus nação do Recife devido em grande parte ao sucesso que alcançaram nas duas últimas décadas. Analisa alguns fenômenos da espetacularização nos grupos de modo geral, e esmiúça, avaliando, os seus efeitos em um maracatu-nação em particular, o Cambinda Estrela, concluindo com algumas considerações a respeito do que é ser jovem e como se organizam neste maracatu. “Eu tinha vinte anos. E ninguém me diga que esta foi a melhor fase da minha vida.” O autor da frase acima (ou algo muito semelhante) é Paul Nizan. Quando fui convidada a esboçar estas linhas fiquei pensando no grande desafio que é, para nós professores universitários, exercermos um atividade crítica acerca de um ator social com quem lidamos cotidianamente. Acredito que temos lidado com certa dificuldade com as mudanças que tem ocorrido com os anseios e angústias dos jovens que entram na universidade. Forçosamente teríamos que pensar sobre a condição do jovem no mundo de hoje, como se constrói esse lugar social, quais as sociabilidades que lhe estão postas na definição das identidades, principalmente o papel que a cultura tem exercido nessa definição. Quando pensamos em jovem, a idéia de rebeldia, de inquietação, de estar sempre pensando em um mundo novo, de estar desafiando as regras, surge como primeira associação. Mas esta é uma referência da minha geração, que tinha 1968, e todos os acontecimentos que circundam este ano, como parâmetro. O que pensam e o que desejam os jovens hoje? Muitos estudos têm apontado para a criação de um lugar em que consumo e atitudes se interligam na definição do ser jovem no mundo contemporâneo. Aos jovens da atualidade se atribui alguns estereótipos, dentre os quais de destaca o da
  45. 45. 45 alienação advindo do consumo, o descomprometimento com a política, e com a construção da cidadania. Estaríamos vivendo sob a égide de uma geração pós coca-cola, super informada graças ao acesso à internet, com tecnologias diversas à sua disposição, mas acima de tudo descomprometidos. Temos que concordar com isso? Trata-se de estereótipos, e não se pode objetar a condição de protagonista que os jovens vêm assumindo no mundo contemporâneo, em diversos segmentos. (Martin-Barbero, 2008). Inclusive se pode discutir se a geração de 1968, que tomamos como parâmetro, era assim tão comprometida... Dentre muitos aspectos que poderíamos apontar na construção das identidades entre os jovens no mundo contemporâneo, a cultura tem assumido uma grande importância, principalmente a musical, que aparece como central na própria definição do que é ser jovem. Esta cultura musical não aparece apenas aos jovens como produtos a serem consumidos, pois estes têm construído novas sensibilidades musicais, novas linguagens estão sendo criadas ou ressignificadas. Ao mesmo tempo, a cultura musical que tem sido criada pelos jovens tem proporcionado a construção de novos espaços de sociabilidade, de elaboração de identidades, tanto individuais quanto coletivas, espaços estes que, por sua vez, permitem a formulação e eleição de valores e posturas de vida. Através da música, pode-se afirmar, estes jovens têm criado espaços de sociabilidade em que elegem um estilo de vida, um modo de ver e se posicionar no mundo, bem como de expressar esse posicionamento (Abramo, 2008; Dayrell, 2002). Jovens e maracatus na cena cultural recifense Os maracatus têm se mostrado um espaço de criatividade e mobilização entre os jovens recifenses. A batida do maracatu, desde que Chico Science e o Nação Zumbi fincaram a parabólica na lama, tem sido central em Pernambuco para se pensar os movimentos culturais na cidade,
  46. 46. 46 e como os jovens têm se posicionado na cena cultural. Os maracatus hoje expressam aquilo que é mais pernambucano, que é símbolo da pernambucanidade, que expressa uma idéia de ser de Pernambuco. Aliás, isso já foi dito por Katarina Real, na década de 1960, quando afirmou que “ser de Pernambuco é sentir o maracatu” (Real, 1990). Só que no momento que Katarina Real disse isso, os maracatus passavam por uma grande crise, a ponto desta antropóloga prognosticar o seu desaparecimento. Como eram considerados tradições que vinham da África estavam, neste sentido, fadados a desaparecer, a não terem continuidade, porque os velhos -que transmitiam a tradição- estavam morrendo. Não haveria, portanto, como repassar essa tradição antiga e imemorial, porque os negros também estariam desaparecendo no Brasil, uma vez que se tomava como verdade inquestionável os ideais de mestiçagem presentes no mito da democracia racial. Então, desde o início do século XX até a década de 1960 os maracatus estariam fadados ao desaparecimento, o que não condiz com a história e com a vitalidade de cada um deles na contemporaneidade. Assim, se os maracatus nação hoje têm uma vitalidade própria, não é dessa forma que foram vistos pelos intelectuais, pelos folcloristas de uma forma geral, que proclamaram por década os perigos que a tradição vinha sofrendo de desaparecer completamente. Isso não impede que reconheçamos que se adentrou os anos de 1970 e 1980 com pouquíssimos maracatus nação em atuação na cidade. Não mais do que seis grupos foram os que conseguiram se manter em atividade, desfilando no carnaval, ou simplesmente desenvolvendo atividades em suas comunidades (Indiano, Leão Coroado, Estrela Brilhante, Cambinda Estrela, Porto Rico do Oriente e Almirante do Forte). Esse quadro começa a se modificar já nos anos oitenta com a recriação de três novos maracatus (Porto Rico em 1981; Sol Nascente em 1985; Elefante em 1986) que até então estavam desarticulados ou sem desfilar há alguns anos. Esse ressurgimento dos maracatus ocorreu em função, em parte, da própria ação dos maracatuzeiros, que em virtude das
  47. 47. 47 divergências nos seus grupos optaram pela recriação de outros maracatus que estavam “guardados no museu”. Em parte é fundamental considerar a ação do movimento negro em Pernambuco - que se articula em torno dessas manifestações culturais que são definidoras de uma identidade, de uma negritude, principalmente no final da década. Esses maracatus nação ganharam uma nova força. Em 1986, por exemplo, o Maracatu Nação Elefante, que foi o maracatu da famosa Dona Santa (Guillen, 2006; Lima e Guillen, 2007), foi “retirado” do museu e propiciou um reviver desta manifestação cultural. Os maracatus se tornaram mais visíveis para a cena cultural do mundo todo quando, no início dos anos noventa, Chico Sciense e o Nação Zumbi usam a afaya e seus toques, propagando a batida do maracatu para todo o mundo. Não se pode atribuir este reviver dos maracatus exclusivamente à ação de Chico Sciense, mas também à própria ação do Movimento Negro e dos maracatuzeiros que vão colocar o maracatu nação numa cena cultural mais ampla do que a das passarelas do carnaval (Lima, 2010). Assim sendo, ao final dos anos noventa a batida do maracatu se espalhava por todo o mundo. O maracatu deixava de ser uma manifestação da cultura popular pernambucana, feita nas favelas e nos morros da cidade do Recife para chegar no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul. Em quase todas as capitais do Brasil (se não em todas) há jovens que têm um grupo musical que chamam de maracatu. Se é maracatu - legítimo ou autêntico - ou não, é uma outra controvérsia. Mas eles tocam essa música que chamam de maracatu, muitos deles influenciados pelos toques dos grandes grupos de maracatu nação de Pernambuco. Para além disso, uma série de produtores culturais tem levado os grandes grupos de maracatus nação para fora do Brasil, contribuindo para que hoje existam grupos que tocam maracatu na França, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Japão e Canadá, dentre outros países. Assim sendo, temos jovens que não são brasileiros necessariamente, e que tocam maracatu. Este ano, por exemplo, no mês de julho realiza-se na França
  48. 48. 48 um encontro internacional de maracatus, que já vai em sua quinta edição. Na cidade do Recife, surgiu um grande número de grupos que tocam maracatu, comumente formados por jovens de classe média, que mantém essas atividades como entretenimento, mas que têm contribuído para afirmar uma pernambucanidade na contemporaneidade. Ainda hoje, circulando pelo bairro do Recife nos finais de semana, podemos encontrar pelas ruas e esquinas grupos de jovens carregando suas “afayas” (ou tambores) ao encontro de outros jovens, para simplesmente tocar maracatu. Estes grupos se caracterizam por serem formados por jovens, em sua grande maioria pertencentes à classe média, brancos e brancas, que moram em diversos lugares da cidade – o que demonstra a não vinculação com uma comunidade – e os instrumentos musicais utilizados pelo grupo são, via de regra, dos membros que se encontram para tocar Há ainda aqueles grupos que, mesmo os jovens sendo donos de seus instrumentos, pagam uma mensalidade para deles fazerem parte (Lima e Guillen, 2007). Neste novo panorama, fazer maracatu se tornou uma espécie de atividade eminentemente jovem? Uma manifestação cultural feita pelos jovens e para os jovens? O que é esse maracatu que foi descrito? Alerto ao leitor e à leitora que não podemos denominar estes grupos que se formaram fora de Pernambuco, recentemente, ou mesmo aqui, de maracatu nação, mas sim de grupos percussivos. Preferimos diferenciar essas atividades dos maracatus nação efetivamente, que são aqueles grupos possuidores de práticas e costumes compartilhados e que, grosso modo, possuem a maior parte de seus integrantes em uma só comunidade. Nestes maracatus os instrumentos musicais pertencem ao grupo, e o pertencimento à religião (candomblé, jurema e umbanda) é fundamental na definição da identidade. Além do mais, os maracatus nação são caracterizados não apenas pelo conjunto musical, mas também pela corte de súditos de um rei e rainha, corte esta que é composta por uma série de figuras ou personagens. Até bem recentemente, quando se falava em
  49. 49. 49 maracatu lembrava-se imediatamente do rei ou da rainha. O batuque acompanhava a corte, e o conjunto constituía um maracatu nação. Lembramos que a corte não está presente na grande maioria dos grupos percussivos, pois o que interessa verdadeiramente a estes agrupamentos é a música. Nem por isso estes grupos percussivos deixam de ser considerados espaços de sociabilidade e definição de identidades, mas não se pode – definitivamente – confundi-los com os maracatus nação. O lugar dos jovens nos maracatus nação O maracatu nação, ainda hoje, é tido como o lugar da tradição. Ele foi representado como um espaço de sociabilidade em que os velhos transmitiam um determinado saber aos mais jovens, compartilhando um lugar no mundo, enquanto negros e negras que viviam nas favelas e morros da periferia do Recife. Até recentemente os maracatus não eram tidos como espaços de sociabilidade para os jovens. Ao contrário, os maracatus nação eram considerados manifestações culturais em que pais e mães de santo de senioridade reproduziam seu poder e autoridade, e aos mais jovens destinava-se o lugar de aprendizes, sobretudo lugares secundários. Quando se toma como parâmetro um maracatu nação considerado tradicional, como o Elefante de Dona Santa, percebemos que mesmo no batuque (orquestra percussiva) havia uma predominância de homens formados, e não de jovens. Essa configuração começa a mudar no final dos anos oitenta, quando encontramos com mais facilidade jovens integrandos os maracatus, a exemplo do Elefante de Dona Madalena e o Leão Coroado de Luis de França, este último em menor proporção. Na atualidade, assistimos a um fenômeno interessante, em que a corte é tida como um espaço dos mais velhos, no qual pais e mães de santo continuam a exercer sua autoridade, ao contrário do batuque que é predominantemente formado
  50. 50. 50 por jovens. E os mais velhos sequer têm espaço, ou conseguem deles participar. Este fenômeno tem chegado aos mestres, que a cada dia são mais jovens, o que era inconcebível nos maracatus nação algumas décadas atrás. Atualmente há um visível rejuvenescimento do maracatu nação. Num universo de vinte e cinco maracatus nação existentes hoje no grande Recife, apenas quatro mestres têm mais de cinqüenta anos (Walter do Estrela Brilhante do Recife, Toinho do Encanto da Alegria, Geraldo do Gato Preto e Antônio Roberto do Nação de Luanda). Os maracatus nação têm sofrido com o fenômeno da espetacularização da cultura popular. A convivência entre as pessoas, outrora comunitária, propiciava que o aprendizado ocorresse no quotidiano, de modo informal, e o saber se transmitia acima de tudo, fazendo e se observando fazer. E se aprendia não apenas a tocar um instrumento, mas a construí-lo e afiná-lo. E aprendia-se também a exercer outras funções de modo que um mestre era considerado aquele que detinha esse saber. Consoante à espetacularização ocorre contemporaneamente uma desritualização do maracatu que se transforma em “música” que pode ser ensinada e aprendida em oficinas e workshops (Carvalho, 2007). Paga-se e recebe-se para se aceder ao saber musical. O maracatu nação expressa muitos conflitos advindos dessa relação com o mercado cultural e as demandas que este impõe aos maracatuzeiros. Ele continua a se manter como uma comunidade orgânica e que tem vinculação com as religiões afro-descendentes, No entanto, no âmbito da reprodução do saber fazer o mestre teve seu lugar transformado. Não mais se mantém enquanto mestre simplesmente porque detém o saber, mas devido a qualidades performáticas, adequando-se às necessidades de se produzir o espetáculo. Alguns mestres de maracatu, mais antigos, têm expressado uma dificuldade muito grande em fazer oficinas, em ensinar jovem a tocar maracatu, porque tem outra forma de transmissão do saber, diferente da lógica em que se organizam esses cursos. Essa diferença se expressa no tempo de formação de um batuqueiro. No modo
  51. 51. 51 tradicional levavam-se anos, passava-se por todo um processo de iniciação para se aprender a tocar todos os instrumentos. Atualmente, com apenas uma oficina muitos jovens conseguem executar alguns toques básicos. Nesse sentido, o maracatu nação sintetiza diversas questões e contradições: qual é o lugar do jovem e qual é o lugar do velho? Se o maracatu é ainda símbolo da tradição, como essa herança cultural tem sido transmitida de modo tão moderno? O que é que os velhos mestres de maracatu querem transmitir aos jovens? Podemos observar, por exemplo, que alguns mestres de maracatu se sentem extremamente angustiados com essas questões. Assim sendo, no interior dos maracatus nação claramente há uma tensão entre o lugar do jovem e do velho, entre os modos como se dá a transmissão do saber nessa expressão cultural. O Maracatu Nação Cambinda Estrela Fundado no Alto Santa Isabel, bairro de Casa Amarela, em 1935, o Cambinda Estrela surgiu como maracatu de baque solto (também conhecido como maracatu de orquestra ou rural) e nessa modalidade atuou até provavelmente o início dos anos 1960. O Cambinda Estrela foi fundado por trabalhadores migrantes da mata norte do Estado de Pernambuco, e que na zona norte da cidade do Recife reconstruíram fortes redes de sociabilidade. Nas lembranças de Dona Leinha, filha de um dos fundadores do maracatu, o convívio entre parentes e amigos fazia o quotidiano mais suportável e o Cambinda o lugar da alegria e da diversão. Muitos moradores idosos do Alto Santa Isabel ainda se lembram com saudades do maracatu, e de seu famoso articulador, Tercílio, considerado um mestre de primeira categoria por sua capacidade de improvisação e beleza das toadas que compunha. Tercílio criou fama entre os maracatuzeiros de ser um excelente versejador. “Como ele não tinha igual!”, afirma o senhor Zezinho, morador do Alto, e que quando jovem saia no grupo como caboclo de lança.
  52. 52. 52 Enquanto maracatu de baque solto o Cambinda Estrela foi objeto de estudo do maestro César Guerra Peixe, um dos primeiros estudiosos a diferenciar as modalidades de maracatu bem como a respeitá-la em sua diversidade. As observações de Guerra Peixe em seu livro Maracatus do Recife (1981) atestam a importância do Cambinda no universo dos maracatus. Não obstante, como maracatu de orquestra, o Cambinda Estrela sofreu as mesmas pressões que existiram sobre esta modalidade rítmica, e que impeliram vários grupos para a mudança de baque, a exemplo do Indiano. Não se pode precisar com certeza quando esta mudança ocorreu, mas a transformação do baque não acarretou a desestruturação do grupo. O maracatu se re-configurou para receber novos membros, destacando-se a atuação do famoso carnavalesco Mário Miranda, também afamado pai-de-santo da comunidade do Alto Santa Isabel, mais conhecido como Maria Aparecida. O Cambinda Estrela, nesses anos, conquistou espaços, e alguns títulos. Nas décadas de 1960 e 1970 encontramos o Cambinda Estrela em atuação no carnaval da cidade, disputando concursos, ou mesmo sendo homenageado, a exemplo de Abelardo da Hora que em meados da década de 1960 tomou seu símbolo (o peixe) como motivo para a decoração carnavalesca da cidade do Recife. O Cambinda Estrela foi perdendo seu brilho ao longo dos anos 1980, sobretudo após a morte do Sr. Tercílio e Dona Inês, que era a rainha. Em 1997, ressurgiu com sede em Chão de Estrelas, graças ao trabalho de um grupo de pessoas que congregava estudantes, pais e mães de santo e moradores das comunidades. Desde esse momento o Cambinda Estrela abrigou uma variedade de terreiros e comunidades, bem como de interesses e concepções acerca do que define um maracatu nação, e para resolver as tensões inerentes à forma como se deu seu ressurgimento o grupo optou por instituir fóruns de decisão que, esperava-se, pudessem dirimir conflitos e disputas. O Cambinda Estrela é, na atualidade, um maracatu que possui uma diretoria organizada e que efetivamente dirige
  53. 53. 53 os trabalhos necessários para manter o grupo, tanto no carnaval, mas principalmente no restante do ano. No início da década de 2000 estabeleceu-se uma parceria com o grupo de maracatu da Alemanha, o Nation Stern der Elbe, sediado em Hamburgo, e que contribuía financeiramente com alguns projetos que começaram a ser desenvolvidos na ocasião, tais como aulas de alfabetização para jovens e adultos, oficinas de percussão para crianças e jovens da comunidade. O projeto com o maracatu alemão se encerrou, mas o Cambinda Estrela não deixou de atuar de forma decisiva entre os jovens de Chão de Estrela. Daquele tímido início para os dias de hoje o Cambinda Estrela progressivamente ampliou sua ação, e contribui financeiramente para que os meninos e meninas, de seu batuque e corte, estudem em escolas particulares da região, bem como mantém alguns jovens na universidade. Alguns desses jovens que estão na universidade acompanham o maracatu desde que eram garotos e participaram das primeiras aulas comunitárias. São eles que hoje coordenam as atividades do batuque do Cambinda. Do ponto de vista do espetáculo que delineamos acima, o Cambinda Estrela destoa de muitos dos maracatus nação mais “tradicionais”. Seja devido à atuação de seu mestre, ou à própria composição da diretoria, o maracatu é conhecido na cena cultural recifense por ter uma performance mais politizada e engajada, e traz em sua camiseta a frase Festa e Luta, como uma espécie de “palavra de ordem”. Isto porque nos últimos anos se notabilizou por discutir publicamente, em suas apresentações, o respeito pela diferença (gênero, sexual e geracional), bem como por claramente lutar contra o racismo e a homofobia. Neste ano de 2010, no show de abertura do carnaval, que ocorre no Marco Zero e é conduzido por Naná Vasconcelos acompanhado do batuque de dezessete maracatus nação, o Cambinda Estrela se apresentou com uma grande bandeira verde, amarela e vermelha, na qual estava estampado: “contra o apartheid brasileiro: quotas raciais para negros e negras na UFPE, UFRPE e UPE”. Além da bandeira o
  54. 54. 54 grupo entoou a canção “Nkosi si ke le la”, reconhecido hino do CNA (Congresso Nacional Africano) e que nos anos oitenta foi consagrado na luta contra o racismo no Brasil. Esta é uma performance que tem caracterizado o Cambinda Estrela ao longo de suas apresentações. Suas toadas aludem a reivindicações do grupo, às lutas nas quais o Cambinda tem se engajado. Essas toadas têm contribuído para a afirmação da identidade do grupo, reforçando a auto-estima e o orgulho de pertencerem à “nação”. A identidade do grupo, portanto, tem se definido a partir de uma ressignificação da África para o maracatu, a politização da religião com o enaltecimento de Malunguinho (entidade da jurema) e forte apelo à consciência política. A África aparece não de forma difusa e homogênea, como o lugar da tradição e da origem, mas de fonte de inspiração na luta contra o racismo e a discriminação. Líderes e personagens históricos como Chaka Zulu e Steve Biko, tem seus nomes gravados nos muros do bairro misturados aos nomes de Martin Luther King, Zapata, Xangô, Acotirene, Zumbi e outros. Estes nomes aparecem constantemente nas toadas, como referências para a construção de identidade. A África, neste contexto, não é aludida de forma genérica, mas é tratada como lugar em que uma história de luta se desenvolveu. A Etiópia é referida como exemplo: “o único pais que não sucumbiu aos colonizadores”. Malunguinho, entidade da jurema, também tem sido ressignificado. Por ter sido um líder quilombola, tem a sua história contada e seus pontos são constantemente cantados. Diga-se de passagem que foi gravado nos dois CDs do grupo. Por outro lado, os quilombos, de modo geral, servem de referência nessa formação de identidade, e quando o grupo conseguiu uma apresentação em Salgueiro, durante a semana pré-carnavalesca, não perdeu a oportunidade de levar seus membros para se apresentarem em Conceição das Crioulas, um dos mais conhecidos e organizados “remanescentes” de quilombos do Estado. Não sem antes ter visitado uma das maiores favelas de Salgueiro e lá ter conhecido um terreiro de
  55. 55. 55 jurema. Desse modo, nessas ações, percebemos que o Cambinda Estrela tem afirmado sua identidade de “quilombola”, de “favelado” e de ser formado por negros e negras. Esse esforço de construção de identidades está bastante presente nas toadas. Uma delas define bem a tentativa do grupo em traduzir-se: “construímos nossa casa para todo o povo cantar. Só não pode ter elite nem senhor neste lugar.” Outra toada com letra definidora dos caminhos trilhados pelo grupo afirma um pertencimento social e uma crítica política quando afirma: “falei e disse, vou cantar com alegria, o Cambinda é uma mosca na sopa da burguesia.” Diante desta performance pode-se entender porque o Cambinda Estrela não é o maracatu que mais atrai os jovens de classe média para tocar no seu batuque. Ao contrário! A entrada de jovens de classe média no batuque tem gerado acaloradas discussões. No contexto em que fazer maracatu tem forte apelo entre os jovens da classe média, o Cambinda Estrela tem se notabilizado por debater o branqueamento que os maracatus nação têm sofrido, discutindo em seus fóruns a entrada ou não de pessoas que não são da comunidade no seu batuque. Em uma de suas toadas afirma: “eu sou do asfalto eu sou da lama, gente rica não me engana, Cambinda tem orgulho de ser do Vasco da Gama.” Dessa forma afirma positivamente o pertencimento ao lugar onde mora. Em outras, à religião e à negritude. Ser jovem no Cambinda Estrela Chão de Estrelas é um bairro que se caracteriza, como tantos outros da periferia do Recife, pela carência de equipamentos culturais e dificuldade de acesso aos bens culturais, como teatros ou mesmo cinema. Para os jovens do Cambinda Estrela o maracatu tem se mostrado um espaço de
  56. 56. 56 criatividade e mobilização, motivando os jovens a participar de certos espaços de debate público e de alguns canais de participação política, a exemplo da inserção no orçamento participativo, nos debates sobre a igualdade racial e o combate ao racismo. A atuação dos jovens no maracatu tem propiciado que exercitem sua criatividade e sua capacidade de realizar eventos e projetos. São eles os responsáveis pela organização das aulas de percussão, bem como de todo o batuque na época do carnaval. O mestre têm se submetido aos fóruns de decisão coletivos, e todos os aspectos que envolvem a organização do batuque são discutidos em “assembléias”. A performance da bandeira não foi diferente uma vez que passou por um intenso processo de discussão e preparação, inclusive do aprendizado da letra da canção Nkosi si ke le la, cantada em três línguas diferentes. Há um claro reforço à atuação coletiva, e o maracatu tem se tornado um pólo de referência para os jovens que não participam diretamente dele. Podemos citar outros grupos culturais, como o Gambiarra que agia fazendo pequenos curtas-metragens sobre a atuação dos jovens em Chão de Estrelas. Mesmo para os jovens que pertencem ao Cambinda a atuação mais destacada de alguns deles também se constitui numa referência. O que podemos observar ao longo destes anos é que tem aumentado a procura para ingressar na universidade bem como para concluir seus estudos, seja o ensino médio ou o fundamental. Estes jovens que atuam no maracatu têm um claro protagonismo social e cultural, pois formaram outro grupo musical, o Coco dos Pretos, no qual atuam paralelamente às atividades que exercem no maracatu. Pode-se sem sombra de dúvidas afirmar que há uma aposta do grupo maior do Cambinda Estrela na potencialidade criativa dos jovens, no seu desenvolvimento pessoal e social. Nesse sentido, o maracatu Cambinda Estrela tem demonstrado habilidade para atuar como instrumento auxiliar na formação educativa dos jovens, evitando desvios na formação e no desenvolvimento desses jovens, pois tem conseguido ocupá-los positivamente e evitado
  57. 57. 57 que permaneçam no ócio e à mercê dos perigos da rua e da delinqüência, principalmente o tráfico de drogas. As oficinas oferecidas pelo Cambinda Estrela ocorrem todos os sábados no período vespertino, em sua sede, e dela participam principalmente jovens da comunidade de Chão de Estrelas e regiões adjacentes. Não são ministradas pelo mestre, mas por jovens que dirigem o batuque, e que atuam como contra-mestres durante o período do carnaval. Estes jovens tem atuado no Cambinda Estrela há muitos anos, e alguns deles que estão no grupo desde garotos passaram por um longo processo de aprendizado. Hoje, o Cambinda Estrela é talvez o único maracatu nação que tem mais de um “mestre” jovem, e que têm condições de substituir em apresentações diversas o mestre Ivaldo Marciano. Adriano, Wanessa, Jefferson e Madson são jovens que estão no grupo há mais de dez anos, e que hoje tem condições de conduzir o batuque sem a presença de outro mestre. Ao longo desse processo de aprendizado tornaram-se protagonistas do batuque, dirigindo-o e discutindo suas formas de atuação e identidade. Estes jovens discutem intensamente os processos de transmissão do saber entre os maracatus nação, e tem se posicionado criticamente quanto à questão da oferta de oficinas pagas pelos que desejam aprender a tocar maracatu. Sempre que surge um convite para se oferecer oficinas, discute-se internamente quem irá ministrá-la e em que condições, e via de regra os proventos recebidos revertem em parte para o maracatu. Instituiu-se um sistema de rodízio entre os contra-mestres de modo a que todos possam participar desse processo de aprendizado de se tornar mestre. Normalmente a função de oficineiro é reservado ao mestre, que agrega além dos proventos que recebe, capital simbólico ao seu nome. Se as oficinas são intensamente discutidas e organizadas pelos jovens, as atividades do batuque na época do carnaval não ficam atrás. Durante o processo de preparação do maracatu para as apresentações do período momesco, o batuque ensaia semanalmente, e na medida em que se
  58. 58. 58 aproxima o carnaval mais de uma vez na semana. Os ensaios são coordenados pelos jovens acima referidos, e o mestre invariavelmente propicia que haja um revezamento entre os que podem ocupar esta posição. Discute-se em assembléias o valor da ajuda de custo que cada batuqueiro receberá pelas apresentações feitas, qual o modelo da fantasia a ser adotada, a disciplina e as regras a serem obedecidas por todos a respeito do consumo de bebidas alcoólicas ou outras drogas, bem como outras questões que regulamentam o convívio dos jovens. É necessário se observar que no período do carnaval o batuque assume proporções muito grandes, chegando a ser composto por mais de cem batuqueiros. Não se trata de organizar a apresentação de uma banda! O Cambinda Estrela não atua com vista a impedir que o jovem se torne um problema, tirando-o da rua, mas postula radicalmente o direito ao protagonismo sócio-cultural e junto com esse protagonismo o enriquecimento enquanto pessoas através do alargamento e acesso aos meios de informação, meios de intervenção e participação no universo simbólico da sociedade. Na medida em que discutem corriqueiramente o que é ser negro nesta sociedade, e através de suas manifestações culturais postulam um modo positivo de ser jovem e negro, têm contribuído para criar identidade, um modo de ser jovem na periferia do Recife. Não se trata simplesmente de “ser jovem”, mas de, através destas atuações culturais, se posicionarem como atores e interlocutores dos debates que se processam na sociedade de modo mais amplo. BIBLIOGRAFIA ABRAMO, Helena. Retratos da juventude brasileira. São Paulo, Perseu Abramo, 2006.
  59. 59. 59 BORELLI, Silvia H. S.; FREIRE FILHO, João. Culturas juvenis no século XXI. São Paulo, EDUC, 2008. CARVALHO, Ernesto Ignácio de. Diálogo de negros, monólogo de brancos: transformações e apropriações musicais no maracatu de baque virado. Recife, Dissertação de mestrado em Antropologia, UFPE, 2007. DAYRELL, Juarez. A escola faz as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação e Sociedade, Campinas, vol. 28 n. 100, 2007, p.1105-1128. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/es/v28n100/a2228100.pdf DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. Revista Brasileira de Educação. N. 24, set/dez 2003, p. 40-52. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n24/n24a04.pdf DAYRELL, Juarez. O rap e o funk na socialização da juventude. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28 n. 01, p. 117-136, jan- junh 2002. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ep/v28n1/11660.pdf GUILLEN, Isabel Cristina Martins. Dona Santa, rainha do maracatu: memória e identidade no Recife. Cadernos de Estudos Sociais. Recife: vol. 22, n. 01, p. 33-48, 2006. GUILLEN, Isabel Cristina Martins; LIMA, Ivaldo Marciano de França. Cultura afro-descendente no Recife: maracatus, capoeiras e catimbós. Recife, Bagaço, 2007. LIMA, Ari. Funkeiros, timbaleiros e pagodeiros: notas sobre juventude e música negra na cidade de Salvador. Cadernos Ceres, vol. 22, n. 57, 2002. P. 77-96. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v22n57/12004.pdf LIMA, Ivaldo Marciano de França. Maracatus e maracatuzeiros: desconstruindo certezas, batendo afayas e fazendo histórias. Recife, 1930 – 1945. Recife: Dissertação de mestrado em História, UFPE, 2006. LIMA, Ivaldo Marciano de França. Identidade negra no Recife: maracatus e afoxés. Recife: Bagaço, 2009. LIMA, Ivaldo Marciano de França. Maracatus-nação: ressignificando velhas histórias. Recife: Bagaço, 2005.
  60. 60. 60 LIMA, Ivaldo Marciano de França. Os maracatus do Recife, as disputas e influências entre o fazer e o refazer dos toques: os casos do Cambinda Estrela, Porto Rico e Estrela Brilhante. Anais eletrônicos do II encontro nacional da ABET – Associação Brasileira de Etno-musicologia, Salvador: 2004. REAL, Katarina. O folclore no carnaval do Recife. 2.ed. Recife: Massangana, 1990. SAVAGE, John. A criação da juventude. Rio de Janeiro, Rocco, 2009. SCHMITT, Jean claude; LEVI, Giovanni. História dos Jovens. São Paulo, Companhia das Letras, 1996, vol. 02.

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