Otávio Luiz Machado                (Organizador)Aspectos da História dos jovens em      Recife Pós Anos 1960              ...
Programa Juventudes, Democracia, Direitos Humanos e      Cidadania da Universidade Federal de Pernambuco                  ...
AGRADECIMENTOS       É    fundamental agradecer        a todos oscolaboradores, interlocutores, depoentes e estudiososliga...
SUMÁRIOApresentaçãoOtávio Luiz Machado ....................................................... 06IntroduçãoOtávio Luiz Mac...
MOVIMENTOS                    CATÓLICOS                E     DE       ORIGEMPOPULARPadre Reginaldo Veloso ...................
APRESENTAÇÃO       O Programa Juventudes, Democracia, Direitos Humanose Cidadania da UFPE (PROJUPE) publiciza mais umtraba...
INTRODUÇÃO                                  Otávio Luiz Machado       O movimento estudantil figurou durante décadascomo o...
juventudes entre o final dos anos 1970 e meados dosanos 1980.      Os depoimentos publicados aqui publicadostentam apresen...
MOVIMENTOS ESTUDANTISE RESISTÊNCIA                9
Pedro Eugênio de Castro Toledo Cabral1        Fiz o segundo grau no Colégio Militar de Recife.Assim, no período de 67 a 68...
Pernambuco) num comício relâmpago que foi feito naFaculdade de Medicina. Eu dei apoio com outros colegasnesta manifestação...
Nós fazíamos reuniões em um grupo para discutirquestões da universidade ou questões mais gerais. Esse grupose revelou mais...
em reuniões, porque a minha participação efetiva começoudepois disso tudo.        Naquele momento eu tinha acabado de entr...
do país em que os partidos políticos que estavam naclandestinidade faziam oposição cada vez mais radical aoregime.        ...
nulo, por exemplo. O dia-a-dia do Movimento Estudantilpraticamente desapareceu.        O PCBR procurava se recompor também...
e me prendeu. A polícia não sabia direito quem eu era, nemsabia o papel que eu exercia dentro do partido.        Eles pren...
Humberto Costa2       Fui Presidente do Diretório Acadêmico do Centrode Ciências da Saúde da Universidade Federal dePernam...
Mas uma participação mais política foi em 1974,quando eu acompanhei muito e participei da campanhade Marcos Freire para o ...
de coordenação. Eu era coordenador da Área de Saúdedesse DCE.        Nós passamos a ter uma relação com a POLOPpor volta d...
relação conosco, como o Fernando Ferro, que nãochegou a se vincular à POLOP, mas era uma liderançacom a qual a gente tinha...
na prática uma posição muito aguerrida, apesar dessavisão fundamentalista na política. Enquanto o pessoaltinha uma posição...
um pouco que nos tirou do isolamento, pois antes, naseleições de 76 e 77 nós fizemos campanha pelo votonulo. Íamos aos com...
E por isso contávamos com uma confiabilidade daestudantada à época.        Então era contraditório um grupo tão fechadopol...
Maurício Correia de Araújo3        Logo nos primeiros dias na universidade, em 1971, asinformações circulavam muito restri...
Acho que foi uma forma correta como o grupo dachapa Voz trabalhou em 1974 em relação ao que nóstrabalhávamos em 1971. Em 1...
repercussão muito maior de atrair as pessoas do que aspanfletagens que a gente fazia em 1971.        A visão de partes das...
de engenharia em Belo Horizonte onde essa questão foi muitodebatida.        A Voz quebrou e retomou esse apelo de massas c...
Ivaldo Pontes4        À medida que o movimento estudantil se fortaleceu naUFPE, o passo seguinte foi a politização das pri...
porque até então minha participação era exclusivamente noâmbito da tendência estudantil.        Posteriormente, houve um g...
escolas apesar da dificuldade da família. Fiz o segundo grauem Arcoverde, passei no vestibular de 1980 e fui estudarMedici...
no primeiro momento. Saímos a perguntar e chegamos aoSítio dos Pintos, que era a comunidade que tínhamosescolhido. Ali nos...
a força hegemônica naquele momento estava em crise, eestavam abrindo espaços.        E foi discutido que algumas militante...
hegemonia de uma coalizão entre o PCdoB, MR-8, PCB eoutros grupos.        E eu estava lá na chapa vencedora, que era umaco...
jovens do interior naquela época, como se encontra até hoje.Um conterrâneo que fazia parte da Pastoral Universitária e dom...
muitas vezes eram bem embasadas, com textos. Isso tambémajudava muito na formação da militância.        Quando eu fui abor...
Quando olho para trás e comparo com a situação dosmovimentos hoje, vejo como foi importante para o país acontribuição dos ...
com alguns colegas. Abriram as inscrições para as pessoasserem delegadas. As pessoas diziam: “você tem que secandidatar”. ...
crescimento do movimento estudantil e das própriaslideranças, porque naquela época não se tinha apenas aplataforma das uni...
Deputado José Genoíno chamada PRC, depois dissolvida.Também tinha o PCB, cuja participação importante se davanas mais nas ...
voltando para a luta política e as plataformas não eram muitobem definidas. Se tinha grandes embates em torno da questãoda...
influenciado mais pelo gesto e pela atitude dele do quepor ele ter solicitado que a gente o seguisse.       Quase todos os...
corrente de partido chamada Viração. Então eu entrei naViração e comecei a conhecer outras pessoas.       Eu entrei também...
Mas o PT e o PC do B tinha uma boa disputa nomovimento estudantil, porque eram os partidospolíticos que procuram ter vida ...
conseqüente nessa transição democrática, porque foiuma transição necessária para que tivéssemos maisliberdades democrática...
MOVIMENTOS      CATÓLICOSE DE ORIGEM POPULAR                  45
Reginaldo Veloso7        Com juventude, trabalhei um pouco no começo dosanos 1970, ajudando um amigo e companheiro de trab...
João Paulo, uma das expressões nacionais do “sindicalismoautêntico”, um dos fundadores da CUT e do PT, depois,Prefeito do ...
Partiu-se, então, para um trabalho mais organizado doponto de vista da Igreja institucional, com uma Pastoral deJovens do ...
Uma reflexão que faço é que, quando os diversosmovimentos de juventude oriundos do meio de trabalhadoresurbanos e rurais, ...
quando vendíamos algum eletrodoméstico da casa paraisso.       A minha formação escolar ocorreu com doiscursos técnicos qu...
No início de 1971 eu conheci a JuventudeOperária Católica, a JOC. Quando eu estava iniciandoum curso técnico de Edificaçõe...
fábricas      clandestinas,    mantendo      uma     relaçãointersindical com outras categorias de trabalhadores,tais como...
de fábricas clandestinas aqui em Recife. E foi feito umtrabalho de oposição sindical nas fábricas metalúrgicasaté 1983, qu...
E antes de ir para a Europa eu passei a sermilitante do PCR. Não era filiado, mas tinha umamilitância clandestina. Eu fui ...
presidente de associação de moradores e membro daJOC responsável pela cidade e região. Fui o primeirovereador do PT em Rec...
Nesse período de minha juventude vivíamos umaalienação muito grande, onde cada um estava buscandouma saída pessoal através...
companhia limitada para acabar com a linhaprogressista da Igreja não atacou direto o movimento daAção Católica, que tinha ...
Eu acho que o próprio mandato do PresidenteLula e os meus próprios mandatos, nós devemos muitoa esse sonho e a essa utopia...
gestão na Prefeitura de Recife. E o Presidente Lulanunca fez tanto por tanta gente. Nunca um Presidentefez tanto por tanta...
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MOVIMENTOS CULTURAIS    DE JUVENTUDE                       61
Fábio de Morais Luna (Spider)9       Meu nome completo é Fábio de Morais Luna. Soumais conhecido em Recife e no Brasil com...
eu fazia parte de um trio de dançarinos de funk que eraformado por mim, pelo Nelson e pelo Onéssimo.       Do grupo fui eu...
menor noção do que acontecia ali. Foi feito numa boateadquirida pelos japoneses numa época em que elesestavam adquirindo t...
Juntei todo mundo e disse: "Vocês não vão acreditar noque vi agora! Eu vi aquilo que vai ser a dança que agente vai fazer"...
essas revistas, para tentar assistir filmes, etc. E diantedisso tudo veio a idéia de se montar a primeira true, quese cham...
com roupa diferente, girávamos de costas, pulávamosde cabeça e tal. Agora assim tudo muito fragmentado.Do jeito que aprend...
Livro aspectos da história dos jovens em Recife pós anos 1960, organizado por Otávio Luiz Machado
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Livro aspectos da história dos jovens em Recife pós anos 1960, organizado por Otávio Luiz Machado

  1. 1. Otávio Luiz Machado (Organizador)Aspectos da História dos jovens em Recife Pós Anos 1960 PROJUPE Recife – PE 2012 Copyright © 2012 by Otávio Luiz Machado Editor Otávio Luiz Machado Revisão Do Autor 1
  2. 2. Programa Juventudes, Democracia, Direitos Humanos e Cidadania da Universidade Federal de Pernambuco (PROJUPE-UFPE) Caixa Postal 7828. CEP: 50.670-000. Recife-PE. Fones: (81) 8762-5471 ou 9941-6854 e-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br blog: http://movimentosjuvenisbrasileiros1.blogspot.com2
  3. 3. AGRADECIMENTOS É fundamental agradecer a todos oscolaboradores, interlocutores, depoentes e estudiososligados à temática apresentada pela criação de boascondições para que pudéssemos desenvolver o nossotrabalho, cuja responsabilidade final cabe apenas a mimno momento de publicizar o que foi pesquisado etrabalhado. No momento de disponibilizar um pouco daquiloque poucos conhecem a um público maior, o sentimentode dever cumprido aparece, mas também aparece osentimento de que muito ainda precisa ser feito commuito mais intensidade, porque essa é realidadedaqueles que trabalham com a memória das juventudese dos movimentos juvenis. Assim, muito mais no sentido de estimular novostrabalhos do que apresentar algo definitivo que esselivro foi produzido, pois ele também faz parte de umabase fundamental em nossas pesquisas que são asentrevistas, os depoimentos e os documentos.Agradecidos ficaremos de fato se tantos outros trabalhossurgirem e forem compartilhados nos próximos anos emprol do direito à memória e à verdade. 3
  4. 4. SUMÁRIOApresentaçãoOtávio Luiz Machado ....................................................... 06IntroduçãoOtávio Luiz Machado ....................................................... 07MOVIMENTOS ESTUDANTIS E RESISTÊNCIAPedro Eugênio de Castro Toledo Cabral ....................... 10Humberto Costa ................................................................ 17Maurício Corrêa de Araújo ................................................. 24Ivaldo Pontes ..................................................................... 28Múcio Magalhães .............................................................. 29Renildo Calheiros .............................................................. 36Luciana Santos ................................................................... 404
  5. 5. MOVIMENTOS CATÓLICOS E DE ORIGEMPOPULARPadre Reginaldo Veloso ................................................... 46João Paulo de Lima e Silva ............................................... 49MOVIMENTOS CULTURAIS/EDUCACIONAIS DEJUVENTUDEFábio de Moraes Luna (Spider) ....................................... 62José Edson da Silva (Zé Brown) ...................................... 80Mauro César de Lima ....................................................... 83Daniel Coelho .................................................................... 87DOCUMENTO: Manifestos do MangueBeat ............... 92 5
  6. 6. APRESENTAÇÃO O Programa Juventudes, Democracia, Direitos Humanose Cidadania da UFPE (PROJUPE) publiciza mais umtrabalho a partir do registro de depoimentos, pois trata-sede relatos que foram colhidos por mim com inúmerospersonagens que figuraram na antiga cena juvenilpernambucana, cujos ideários de participação ainda estãomuito presentes na luta dos jovens na atualidade e justificaassim publicação, porque são fontes fundamentais para setrabalhar a formação cidadã das nossas mais diversasjuventudes e a sua utilização em trabalhos acadêmicos. Dessa vez não pude me prender ao caráterbiográfico de cada depoente como já era padrão em outraspublicações, mas na temática de interesse que cada umtraz no seu depoimento. Outro aspecto a ser consideradoestá relacionado à padronização dos textos, pois o leitorpoderá facilmente perceber que nem todos eles encontram-se igualmente distribuídos com a mesma quantidade depáginas. A explicação está associada quanto à exploraçãodos mesmos em nossas pesquisas. Uns mais, outrosmenos. Mas todos trazem sua importância histórica e dopapel representado por cada depoente. Mais uma vez espero que o trabalho seja apreciadoe amplamente divulgado nos mais diversos canais, porquea nossa motivação sempre foi e será o atendimento dointeresse público. Boa leitura! Otávio Luiz Machado6
  7. 7. INTRODUÇÃO Otávio Luiz Machado O movimento estudantil figurou durante décadascomo o movimento juvenil por excelência, mas começoua perder seu vigor no final dos anos 1970 e durante todaa década de 1980. Os novos movimentos juvenis entramem cena, como o movimento dos jovens em bairros e osmovimentos culturais de juventude, como o Hip-Hop e opróprio Manguebeat, o último mais específico dePernambuco. Se é fato que as juventudes se converteram emator central em qualquer análise que tratamos sobre asociedade nos tempos modernos, também éfundamental a busca de uma análise que tente entenderesse ator social, principalmente a partir de elementosque identifiquem que, ao lado dos jovens, tambémtivemos outros atores que atuaram tão quantoprotagonistas ou artífices das mudanças sociais, emboranão esquecendo que em momentos históricos diversos ajuventude parecia estar só na sua luta, nos seusmovimentos, nos seus protagonismos. Agora, o crescimento das sociedades urbanas e amaior demanda por direitos sociais como bandeira cadavez mais crescente na sociedade brasileira, o que vemosé a entrada maior das juventudes no debate público,esfera até então palco de atuação de atores não ligadosàs juventudes, mas onde o prestígio dos “mais velhos”era o que contava. E Pernambuco foi um cenáriomaravilhoso para a atuação das mais diversas 7
  8. 8. juventudes entre o final dos anos 1970 e meados dosanos 1980. Os depoimentos publicados aqui publicadostentam apresentar um pouco do que foi esse fervilhar demovimentos juvenis na voz dos próprios participantesde momentos-chaves da história dos jovens emPernambuco.8
  9. 9. MOVIMENTOS ESTUDANTISE RESISTÊNCIA 9
  10. 10. Pedro Eugênio de Castro Toledo Cabral1 Fiz o segundo grau no Colégio Militar de Recife.Assim, no período de 67 a 68, que era de grande efervescênciapolítica nos meios secundaristas e universitários, nãoparticipei do Movimento Estudantil devido ao fato de que,estando no Colégio Militar, a inserção dos seus alunos nesseprocesso era praticamente nula. Havia, é verdade, ummovimento cultural lá dentro do Colégio, mas as pessoas nãotinham participação no Movimento Estudantil. De junho de 67 a junho de 68 participei de umprograma de Intercâmbio Cultural nos Estados Unidos, ondeconcluí o curso secundário. Foi justamente no período daminha ausência que o Movimento Estudantil e o movimentopolítico na sociedade em geral – mas muito fortemente oMovimento Estudantil – tiveram grande crescimento, com asmanifestações de rua que caracterizaram o ano de 68. Ao retornar ao Brasil em julho de 68, passei então aatender um cursinho pré-vestibular no Colégio Nóbrega.Revendo ex-colegas do Colégio Militar, encontrei-os já forado Colégio, pois tinham saído para se preparar para ovestibular. Alguns deles estavam engajados no MovimentoEstudantil e já me chamavam para participar. Como eu estavadefasado na preparação ao vestibular, por ter passado um anofora, decidi “dar um tempo” e dedicar-me só aos estudos. Nesse período eu tive apenas uma rápida atuaçãoquando me juntei a alguns colegas pra fazer a segurança doRoberto Peixe, que era da UEP (União dos Estudantes de1Estudou Engenharia na UFPE. Atualmente é deputado federal epresidente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Pernambuco.10
  11. 11. Pernambuco) num comício relâmpago que foi feito naFaculdade de Medicina. Eu dei apoio com outros colegasnesta manifestação, mas sem estar engajado de formasistemática em qualquer outra atividade. Fiz vestibular no final de 68, simultaneamente naUniversidade Católica de Pernambuco (UNICAP), no cursode Economia e na Universidade Federal de Pernambuco(UFPE), no curso de Engenharia. Passei a cursar os dois:Engenharia pela manhã e tarde; Economia à noite Assim que eu ingressei na universidade, procureimeus amigos do período secundarista. Com esses contatos,pude iniciar, com mais força, meu envolvimento noMovimento Estudantil. No início das aulas, em 69, foipromulgado o decreto 477 que permitia cassações deestudantes e fechamento de nossas entidades. Logo no iníciodas aulas foram fechados todos os DAs (DiretóriosAcadêmicos) da Católica. Os DA’s ativos de Pernambuco foram sendo fechados,com exceção de Arquitetura e de Geologia, que não sofreramintervenção. Na Católica chegou até a ocorrer a demolição,por tratores, dos prédios onde funcionavam os diretóriosacadêmicos das diversas faculdades que lá existiam. Então, naEngenharia, havia um clima de desarticulação do ME devidoà ofensiva da ditadura. Foi nesse clima que, como disse, logo após ter passadono vestibular, procurei alguns amigos que me apresentaram acolegas lá de Engenharia. E aí eu comecei a participar dealgumas reuniões, pois eu entendia e sabia que eram reuniõesdo Movimento Estudantil. Mas eram reuniões clandestinas,porque naquela altura, com o 477 e o fechamento do DA,qualquer tipo de encontro – até uma simples reunião – erailegal. 11
  12. 12. Nós fazíamos reuniões em um grupo para discutirquestões da universidade ou questões mais gerais. Esse grupose revelou mais adiante para mim como um grupo ligado aoPCBR, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, quetinha na universidade atuação através de um movimentochamado “Integração e Luta”. A partir do meu atendimento a essas reuniões eu metornei simultaneamente um participante do MovimentoEstudantil através da “Integração e Luta” e, na prática,membro do PCBR. Como as condições ilegais de atuação dasorganizações que contestavam o regime naquela épocaimpusessem uma informalidade nessas relações, não houvenenhum momento de filiação partidária. Era um processo quese dava, digamos assim, a partir do engajamento no dia-a-diadessas reuniões e discussões. Passei a atuar e a atender a essasreuniões do partido muito focado especificamente na questãoestudantil. No início das aulas daquele ano de 1969, o presidenteda UEP, Cândido Pinto de Melo sofreu um atentado. Naantiga ponte da Torre, ele, à noite, em uma parada de ônibus,foi alvejado pelo Major Ferreira. A bala atingiu sua coluna eele ficou paralítico da cintura para baixo. Foi uma grandecomoção no Movimento Estudantil. O DA de Engenharia comandou uma grave políticacontra o atentado. Como resposta o Diretor da Escola,Professor Arnóbio, intimou a todos os alunos, por escrito,individualmente, a declararem se haviam participado da greveou faltado por outro motivo. Para os grevistas assumidoshaveria cassação. O protesto foi liderado claramente pelo D.A., que teveuma posição de liderança consciente nesse protesto. Euparticipei pouco desse momento. Mas comecei a me envolver12
  13. 13. em reuniões, porque a minha participação efetiva começoudepois disso tudo. Naquele momento eu tinha acabado de entrar nafaculdade e estava ali no meio como mais um estudanteparticipando das assembléias, mas sem estar ligado a nenhumgrupo. Eu não estava engajado no movimento naquelemomento exato, embora estivesse refazendo meus contatos. Esó depois quando tinha havido todo um processo defechamento, de refluxo do D.A. e tudo mais, é que passei aparticipar. A minha leitura desse episódio da greve é a de alguémrecém chegado à Escola. A visão que eu tenho é de que foium processo muito maior do que o de uma greve. Houve umcombate decisivo entre os militares que acompanhavam oMovimento Estudantil, a Direção da Escola e o D.A.Para este,que vinha muito combativo e atuante, ficava difícil não tomaruma posição forte em relação aos acontecimentos. Talvez naquele momento, em que a Direção da Escolaexigia uma justificativa a um seu inquérito, o D.A. pudesse terele próprio encaminhado uma resposta aparentemente nãopolítica pra poder evitar as punições, mas na prática, essaatitude colocava o DA correndo grande risco dedesmoralização. Na realidade o Diretor estava jogando e fazendopolítica. Estava criando uma oportunidade de saída pra todomundo, inclusive que livrasse também a posição dele e, aomesmo tempo, que desse uma oportunidade para osestudantes. Mas a leitura que o D.A. teve é de que seria umato para desmoralizar o D.A. E convenhamos, para quem tinha a liderança deprocesso crescente de mobilização e até de radicalização,penso que seria pedir muito para recuar. Inclusive no contexto 13
  14. 14. do país em que os partidos políticos que estavam naclandestinidade faziam oposição cada vez mais radical aoregime. É praticamente impossível imaginar que, naquelemomento, no D.A., surgisse uma posição política capaz demanter a liderança de forma, ao mesmo tempo, firme econciliadora. Recuar é algo que requer muito amadurecimentoe força política. Se o D.A. fizesse ou não uma aliança com o diretor –que era visto naquela época como preposto da ditadura –poderíamos de toda forma imaginar que o D.A cometesse umerro, de uma forma ou outra. A verdade é que nossaslideranças ficaram em um beco sem saída. Se houve um erroaí foi do grande erro da tragédia brasileira que foi a ditaduramilitar, porque o que o pessoal do D.A. fez foi conseqüênciainevitável do processo que eles vinham liderando, que nãolhes dava outra saída. Uma posição que o D.A. poderia ter tido era elepróprio encaminhar uma justificativa mais ampla, menospolítica e não se isolar. Mas, como disse, o risco de serdesmoralizado era grande. Mas de qualquer forma aintervenção, ao que parece, já estava decidida. Só faltava umadesculpa. A maioria deu justificativas não políticas. Com isso, aslideranças foram cassadas e o DA fechado. Assim oMovimento Estudantil praticamente desapareceu na Escola deEngenharia, que tinha grande tradição de luta. Houve umesvaziamento muito grande e, a partir daí, todo o processopassou a se resumir a um grupo pequeno de estudantes que sereunia clandestinamente e distribuía alguns panfletos contra oregime. Ou pichando paredes ou fazendo a campanha do voto14
  15. 15. nulo, por exemplo. O dia-a-dia do Movimento Estudantilpraticamente desapareceu. O PCBR procurava se recompor também dentro doMovimento Estudantil. Como eu passei a integrar um núcleode organização do partido nesse período, fiquei fazendo essepapel, mas atuando no Movimento Estudantil como um todoe, eventualmente, apoiando a organização quando necessário.Isso foi de 69 até 72. Nas faculdades eu ia a muitas reuniões, como naArquitetura e na Geologia, que eram os D.As quepermaneceram funcionando. Atuávamos juntos com a AçãoPopular (AP) em alguns momentos.Era um momento de muita falta de alternativas de realizaçãode campanhas ou mobilizações abertas. Então se fazia umcomício relâmpago aqui ou uma panfletagem ou pichaçãoacolá, que eram essas as manifestações às quais dedicávamosalgum tempo para organizar, para procurar também juntaralguns companheiros que pudessem atuar no movimento.Buscávamos bastante atrair nossos colegas estudantes paradiscussões políticas internas. Mas a ditadura foi fechando o cerco O grupo do qualeu fazia parte foi preso no começo de 1972. Houve umdesastre automobilístico até hoje não esclarecido entreCachoeirinha e Caruaru e a polícia ostensivamente começoua atuar no caso. No pretenso desastre morreram o Bebeto(Luiz Alberto de Sá e Benevides) e Míriam Verbena, ambosdo PCBR. Prisões começaram a acontecer no MovimentoEstudantil. Passei a ser procurado. Saí de casa. Meu amigoIvanildo Machado abrigou-me em sua casa no bairro dePeixinhos, em Olinda. Fiquei escondido lá, mas depois dealgum tempo a polícia descobriu onde eu estava, cercou a casa 15
  16. 16. e me prendeu. A polícia não sabia direito quem eu era, nemsabia o papel que eu exercia dentro do partido. Eles prenderam muita gente. Prenderam uns vinte outrinta estudantes, alguns profissionais liberais e trabalhadores. O grosso foi de militantes do Movimento Estudantil. Apolícia agiu, sem sucesso, sempre no afã de desenrolar o fioda meada para chegar ao pessoal do partido que fazia lutaarmada. Deste grupo cerca de quinze ficaram durante novemeses aguardando julgamento. Um mês no DOI-CODI (noQG do IV Exército perto da Faculdade de Direito) quandofomos muito torturados. E mais oito meses no buque (hojedemolido) da Secretaria de Segurança Pública na Rua daAurora. Éramos muito jovens, rapazes e moças. Dos estudanteseu era o mais velho, com apenas 23 anos. O mais novo era umgaroto que tinha 18 anos. Então era essa a faixa de idade. A repressão manteve o processo deixando o grupopreso na Secretaria de Segurança durante nove meses,incluindo um mês de muita tortura no DOI-CODI. Finalmentefomos absolvidos no final do ano de 1972. Nossa vida estava só começando. Mas não paraEzequias Bezerra da Rocha, geólogo que foi preso antes denós, torturado e morto, cujo corpo jamais apareceu. Não parao Bebeto. Não para Míriam Verbena. Aos jovens de hoje fica a demonstração histórica deque, mesmo nas condições mais difíceis, a sede de justiça e odesejo de construir o novo na sociedade são sementes queinsistem em germinar. E que a mobilização da juventude, emtorno dessas aspirações universais, é um dos berços maisimportantes aonde permanentemente são forjados quadrospolíticos comprometidos com as utopias mais belas queinsistem em fazer mover para melhor a sociedade humana.16
  17. 17. Humberto Costa2 Fui Presidente do Diretório Acadêmico do Centrode Ciências da Saúde da Universidade Federal dePernambuco (UFPE), Diretor do Diretório Central dosEstudantes (DCE) da UFPE e membro da DiretoriaProvisória da União dos Estudantes de Pernambuco(UEP). E tive, embora meus pais não participassemdiretamente de nenhum tipo de movimento, massempre tivessem uma visão política mais progressista, [aoportunidade de aprender muito em casa sobre asquestões nacionais] . Meu pai, que votou em Jango eapoiava o Governo, foi contra a ditadura civil-militar. Eisso chegou para gente, também. Por isso sempre tiveuma visão mais crítica. Na minha adolescência, a minhaidentidade cultural foi muito grande com osmovimentos de juventudes mundiais, como omovimento hippie, e a contestação por essa linha. Edepois em 1971 por aí, eu já comecei a ter uma visãomais política das coisas. No colégio, por exemplo, fizparte de grêmio, mas ainda era uma coisa muito fechadoe basicamente muito em cima de coisas culturais. E nocolégio também editei um jornal.2Formou-se em Medicina. Atualmente é Senador da República peloPT-PE. 17
  18. 18. Mas uma participação mais política foi em 1974,quando eu acompanhei muito e participei da campanhade Marcos Freire para o Senado, no MDB daquelaépoca. Depois entrei na Faculdade e começamos aquerer fazer um trabalho mais de formação política,como um jornal para discutir cultura e outros assuntos,quando conhecemos um pessoal que havia ganho oDiretório Acadêmico do Centro de Ciências da Saúde,como o Pedro Ismael, o Ricardo Gimenez, o Luiz Oscar.E começamos a ter um primeiro relacionamento comesse pessoal e começamos a militar no básico, pois elesestavam mais adiante no curso. Tempos depois nósherdamos o Diretório. O movimento estudantil que conquistou o DCEda UFPE antes da nossa gestão em 1979 foi importantepara, dentre tantas questões, impor uma derrota ao setorde direita que até então comandava a entidade. O DCEnum primeiro momento atuava em cima da extinção doDecreto-Lei 477, cuja atuação era feita diante de todaaquela estrutura tutelada pela burocracia universitária.E ganhamos o DCE em oposição a uma gestão deesquerda que era ligada ao PCR e mantinha umahegemonia no movimento estudantil da UFPE. Umaparte desse grupo depois foi vinculado ao MR-8.Éramos da oposição e atuávamos na POLOP com umaforça no Centro de Ciências da Saúde, Biológicas e naEngenharia, enquanto eles tinham muita força noCentro de Artes e de Filosofia. E mudamos inclusive oestatuto do DCE, que até então estava sob um sistemapresidencialista, passando a partir daí para um sistema18
  19. 19. de coordenação. Eu era coordenador da Área de Saúdedesse DCE. Nós passamos a ter uma relação com a POLOPpor volta de 1977. Mas muito em termos de fraçãoestudantil, pois a organização tinha uma militânciamuito rigorosa em termos de recrutamento. Fomos termilitância mesmo na POLOP a partir de 1978 e 1979. Nomovimento tínhamos as chamadas tendências, que eramquase todas braços de organizações clandestinas. Nocaso da POLOP, que tínhamos uma tendência que sechamava “Travessia” aqui em Pernambuco, o seuespaço era muito pequeno no movimento estudantil,pois sua atuação se resumia em alguma atividade aquiem Pernambuco, na Bahia, na Paraíba e no Rio deJaneiro. E nós tivemos muitos rachas, sendo o maiordeles o que criou o MEP (Movimento de Emancipaçãodo Proletariado). Alguns companheiros, como o Siqueira sevinculou ao MEP. E Jarbas Barbosa se vinculou ao MEP,vivenciando um desses rachas. E quem puxava o MEPaqui em Pernambuco era o Paulo Rubem Santiago, quenão chegou ser da POLOP, mas entrou no MEP comomilitante atraído pelo pessoal.Mas dizer que nós da POLOP tivéssemos umapenetração importante no movimento operário nãocorresponderia à realidade, pois aí a força maior era daIgreja. Nesse período teve a greve na Chesf, que foi umnegócio pesado, mas íamos lá apenas para dar apoio esolidariedade. Algumas pessoas de lá tinha alguma 19
  20. 20. relação conosco, como o Fernando Ferro, que nãochegou a se vincular à POLOP, mas era uma liderançacom a qual a gente tinha relação. Com outrosmantínhamos relação, mas não era uma coisa muitoorgânica. A POLOP tinha uma política para o movimentoestudantil muito equivocada, mas ao mesmo tempo eramuito clara. Era a visão de que o processo dereorganização do movimento estudantil tinha que se darem torno dos temas específicos da política estudantil. Anossa visão é que a luta por democracia, por liberdadesdemocráticas, por anistia e por constituinte erambandeiras burguesas, porque defendiam umademocracia burguesa. E como não víamos historica-mente a necessidade de nenhuma etapa anterior para aconstrução do Socialismo, então as nossas bandeiraspolíticas tinham que ser bandeiras socialistas. Entãocomo não tinha espaço para agitar essas bandeirassocialistas, a maneira de reorganizar o movimento estu-dantil, o movimento sindical e outros movimentos seriaem cima das bandeiras específicas. Portanto, a nossaprincipal bandeira era a luta contra a PolíticaEducacional do Governo (a PEG). As outras coisasachávamos que eram bandeiras políticas burguesas. Apesar desse esquerdismo todo e dessa visãovanguardista, tínhamos um trabalho de baseimportante. Nós recebíamos os feras com debate políticoe cultural. E tínhamos uma presença muito importantena sala de aula. E isso nos trazia uma aproximaçãomuito grande com o pessoal. Por outro lado tínhamos20
  21. 21. na prática uma posição muito aguerrida, apesar dessavisão fundamentalista na política. Enquanto o pessoaltinha uma posição muito cautelosa em questões demobilização, éramos mais sintonizados com o nível deconsciência do pessoal, e com a política nacional. Aprimeira mobilização que fizemos aqui no movimentoestudantil foi no 3º dia nacional de lutas. Aqui emPernambuco nós brigamos para fazer eventos no 1º e no2º, mas perdíamos no conselho de entidades de base. Noúltimo conseguimos ganhar. E aí convocamos umamanifestação, que foi uma coisa gigantesca na Escola deEngenharia. E como se tivéssemos uma sintonia maiorcom o pessoal no sentimento da base. E fazíamos muitasdiscussões políticas, porque trazia muito as pessoas parao debate. A visão fechada do nosso grupo se sustentou atéo momento que a luta contra a ditadura foi tomandouma dimensão maior, porque a partir a luta foiestabelecendo em torno de bandeiras que hoje eu avalioque estavam absolutamente corretas, como o retornodas liberdades democráticas e da democracia [comoúnico caminho]. E nós que tínhamos essa visãofundamentalista de que é só socialismo ou não é nada,nós nos isolamos fortemente do ponto de vista político.Nós só começamos a sair do isolamento depois quefizemos a opção de participar do PT, inclusive nopróprio processo de criação. A POLOP entra no PT nosprimórdios do PT, mas com aquela visão de quefinalmente surgia um partido independente dostrabalhadores e sem a presença da burguesia. E isso foi 21
  22. 22. um pouco que nos tirou do isolamento, pois antes, naseleições de 76 e 77 nós fizemos campanha pelo votonulo. Íamos aos comícios do MDB fazer campanha pelovoto nulo e tomávamos carreiras lá. Ou militava naprópria universidade defendendo o voto nulo. Entãocom isso fomos nos isolando politicamente de umaforma muito profunda. Na luta pela Constituinte nóséramos contra, na luta pela Anistia, também. Omovimento de massas estava envolvido com essascoisas. E nós fazendo discurso contra todas essasbandeiras. Eis os motivos do enfraquecimento daPOLOP, ou seja, estar fora de sintonia com o momentopolítico que estávamos vivenciando naquela época. Mas mesmo assim, o nosso trabalho de base eramuito mais forte do que em outros grupos. Eles ficavammuito nessa grande política e na articulaçãoinstitucional, enquanto nós ficávamos na luta dentro daEscola. Só para exemplificar, em 1979 houve uma grevede 21 dias na Universidade Federal de Pernambuco,algo que não acontecia desde a década de 1960. E foiuma greve pesada lá, inclusive participei de umacomissão que foi recebida pelo Ministro da Educação, oEduardo Portela. A greve adquiriu uma dimensão querepercutia nacionalmente, como a luta por mais verbas. Esse fato de lutar mais por temas específicos porum lado era ruim porque nos isolava politicamente, maspor outro lado, também era importante porquevivíamos o dia-a-dia do estudante, porque passávamosnas salas, debatia, discutia e conseguia coisas concretas.22
  23. 23. E por isso contávamos com uma confiabilidade daestudantada à época. Então era contraditório um grupo tão fechadopoliticamente conseguir crescer, mas também tinha ofato do pessoal se desgastar depois de cerca de trêsgestões liderando o DCE, o que vai gerando umaacomodação e acaba se desgastando. Com a prisão de Cajá houve uma grandemobilização, ou seja, em cima de um temaespecificamente político, e que exigia uma confrontaçãodireta com o regime. Nós fizemos vários atos nosdiversos centros pedindo a liberdade de Cajá. E houvegreves em alguns lugares. O que parecia ser ummomento do movimento agir com um certo receio,serviu para a luta se intensificar. E com uma luta maispolítica, mesmo. Houve aí até uma certa unidade,mesmo que temporária, mas o que estava em questãoera a liberdade dos estudantes, a luta contra a tortura [eoutras bandeiras que giraram em torno do fato políticocriado]. Não se pode construir na sociedade ummovimento de mudanças que se centre apenas nosestudantes. O movimento que os estudantes começaramem 1973 e 1974, só veio a ter uma dimensão no sentidode causar uma mudança, a partir da entrada domovimento operário e dos direitos humanos. Nósprecisamos resgatar na cabeça das pessoas,principalmente dos que se encontram na Universidade,hoje, uma visão mais generosa do que seja o seu papel,realmente. 23
  24. 24. Maurício Correia de Araújo3 Logo nos primeiros dias na universidade, em 1971, asinformações circulavam muito restritamente. Algunsestudantes oriundos do movimento de 1968 que estavam entreo quarto e quinto ano, quando souberam que tinham algunscolegas que poderiam participar do movimento estudantil,então logo se aproximaram da gente. Eu e mais dois colegasfomos chamados para conversar, quando começamos a ouviras primeiras críticas sobre a Escola de Engenharia, o acordoMEC-Usaid, a repressão da ditadura etc. Também foi importante a conversa, porqueorganizamos nossa participação na eleição para uma comissãode representantes do 1º ano. Fomos escolhidos comorepresentantes dos cerca de seiscentos alunos que estavam no1º ano. Os critérios da eleição das entidades estudantis eramdominados na época ainda pela Reitoria, pois as eleições nãoeram livres e os estudantes com reprovação não podiam nemser candidatos. Os estudantes mais antigos e politizadostentavam fazer uma ponte entre os grupos que estavam naclandestinidade – para não serem presos e torturados – e osnovos e estudantes que chegavam num ambiente de paz decemitérios e um vazio de debates no meio universitário. Porisso a demanda maior da época foi a denuncia de falta deliberdade e o chamado de luta contra a ditadura. Mas essadiretriz só podia ser feita para grupos muitos restritos, porrazões obvias.3 Estudou Engenharia na UFPE. Atualmente trabalho no Sebrae-PE.24
  25. 25. Acho que foi uma forma correta como o grupo dachapa Voz trabalhou em 1974 em relação ao que nóstrabalhávamos em 1971. Em 1971 não conseguíamos maisavançar. Fazíamos panfletagens com os panfletos amarradosem um barbante, que eram lentamente queimados por umcigarro, o que dava tempo para que pudéssemos fugir para anossa sala de aula. Depois de algum tempo os panfletos caiam no pátio.Seus conteúdos eram basicamente denúncias da falta deliberdade. No final éramos nós mesmos que tínhamos quepegar os panfletos diante dos outros estudantes fazendo carade surpresos para ver se outras pessoas seguiam o exemplo.No final quase ninguém pegava e nós ficávamos altamenteexpostos. O custo benefício era muito baixo. Todo mundotinha muito medo. Mesmo assim em 1971 fizemos uma feira de livros emparceria com a Livro 7 que foi um sucesso. Aí sim fizemosações compatíveis com o momento. Aquele outro tipo depropaganda não dava mais certo. Além do pouco resultado,servia apenas para nos identificar frente a repressão. Em 1972ela veio pesada e prendeu quase todo mundo. Fez-se osilencio dos cemitérios.O que conseguimos em 1974 na chapa Voz foi uma adaptaçãoda estratégia para conseguir quebrar a barreira da participaçãodos estudantes – claro a conjuntura era outra com as eleiçõespara senador que tinha Marcos Freire como candidato – como lema “Sem ódio sem medo”, e um grande repúdio a situaçãodemonstrada pela imensa derrota eleitoral do partido daditadura - a ARENA –, foi nesse ambiente que tudo começoua renascer com força. Assim começamos a garimpar e a atrair pessoas comanseios para se expressarem e isso teve, é claro, uma 25
  26. 26. repercussão muito maior de atrair as pessoas do que aspanfletagens que a gente fazia em 1971. A visão de partes das esquerdas foi a de tentar resistire construir a luta contra a ditadura de armas na mão, cujo augefoi em 1968, 1969 e 1970. Mas em 71, e mais ainda em 74,elas estavam fisicamente isoladas e/ou destroçadas, levando amuitos grupos a realizarem a crítica e o reconhecimento dacorrelação de forças desfavoráveis e buscarem novas formasde ação que passaram a possuir – a partir de 1974 – novoscontornos e novas dinâmicas. A chapa Voz era composta de estudantes que apesar deestarem num ambiente de efervescência política estavamisolados de contatos e influência dos grupos da esquerdarevolucionaria que na época tinha se dividido em muitosgrupos e sub-grupos. Com a Chapa Voz começa a surgir um grupo que nãoestava tão polarizado, nem familiarizado com debates oucisões. A união era muito forte, e creio que na época nenhumdos integrantes ainda não era militante de alguma organizaçãode esquerda. Isso foi importante e só aconteceu depois. O que a gente fez foi o seguinte: ´Vamos fazer cultura,vamos chamar os poetas e fazer um livro de poesias, vamosfazer teatro, chamar boas peças – lembro uma de Brecht.Vamos chamar os cantores e teve o Parangolé, depois veioJoão Bosco, Gonzaguinha e outros e todos faziam shows degraça. Começamos a levar filmes para os estudantesassistirem, que eram filmes políticos, mas que mesmo assim oauditório ficava lotado de cima a baixo. Ensaiamos também anecessidade do debate sobre os currículos na escola deengenharia que estavam apartados das necessidades dapopulação – em 75 – teve um grande encontro de estudantes26
  27. 27. de engenharia em Belo Horizonte onde essa questão foi muitodebatida. A Voz quebrou e retomou esse apelo de massas com oque era possível, com cinema, teatro, música e outros eventosculturais para permitir a geração de um debate. Então aí aestudantada começou a se reunir de novo. A chapa Voz, naEscola de Engenharia, creio que foi um dos catalisadores daretomada do movimento estudantil na Universidade Federalde Pernambuco, porque veio com uma nova prática. E opessoal começou a tentar perceber o que estava acontecendoali. Aí começou a despertar a Faculdade de Medicina, quevem com o grupo de Humberto Costa e Jarbas Barbosa. Aíveio o pessoal do CFCH, que tinha lideranças como Cajá eAlzira. Ou o pessoal da Arquitetura e comunicações comOrlando alguns ainda oriundos de 70, 71 e de movimentossecundaristas etc . E aí começou novamente a criar ummovimento universitário mais politizado retomando asbandeiras pela liberdade e contra a ditadura e a exploração. ODCE - diretório central dos estudantes da UFPE - ainda tinhana época eleições indiretas. E era dominado por um pessoal dadireita apadrinhado diretamente pela reitoria. Mais adianteretomamos o controle do DCE e se generalizou a reconstruçãode inúmeros centros acadêmicos por toda a universidade. O pessoal que fez greve na Chesf anos depois eraliderado por muita gente que veio da Escola de Engenharia dePernambuco da UFPE e que participaram ativamente dasações realizadas pela chapa Voz. Alguns nomes comoFernando Ferro, Sebastião Lins, Hélio Almeida, Otoniel,Eduardo Mota e muitos outros saíram desse movimentoestudantil para liderarem na militância sindical na Chesf. 27
  28. 28. Ivaldo Pontes4 À medida que o movimento estudantil se fortaleceu naUFPE, o passo seguinte foi a politização das principaislideranças do movimento. É neste contexto que partidos eorganizações políticas de esquerda procuram buscar novoscontatos e iniciar discussões políticas para formar novosquadros. No caso da POLOP essa rearticulação emPernambuco foi iniciada em 1975 e expandida em 1976. É evidente que neste período toda a discussão ocorriasob o signo do sigilo, da clandestinidade, pois na primeirametade da década de 70, em particular em 72, houve umaonda de prisões massiva de militantes. A POLOP já havia perdido muitos quadros tanto comsuas divisões internas quanto com a repressão e o exílio naprimeira metade da década de 1970. E estava praticamente sereestruturando no início da segunda metade dessa década. Poresses motivos, a POLOP tinha uma prática de segurançamuito exigente, com um recrutamento de militantes muitolento. Ela não recrutava cinco ou seis pessoas ao mesmotempo, pois primava muito pela manutenção da organizaçãoque restou. Até 1977 no Recife não se pronunciava o nome daPOLOP mesmo entre as pessoas de confiança por questões desegurança. Tratava-se exclusivamente com o nome dastendências estudantis. No meu caso em particular, só atueicom a POLOP a partir de minha ida para o Rio de Janeiro,4 Estudou Engenharia na UFPE. Atualmente é Professor dessainstituição.28
  29. 29. porque até então minha participação era exclusivamente noâmbito da tendência estudantil. Posteriormente, houve um grande crescimento daPOLOP no movimento estudantil, com forte influência tantonas Engenharia, como na Medicina da UFPE. A base eramuito extensa, a liderança tinha um discurso muito articuladoe a militância era muito disciplinada. Em dois ou três anos foiem Pernambuco que a POLOP teve seu maior crescimento noBrasil. Em conseqüência, podemos situar esse período como omelhor momento do movimento estudantil em Pernambucoapós sua retomada em 75. Com a criação do PT, toda herança dos movimentosliderados pela POLOP no movimento estudantil e nasassociações de bairro foi canalizado para a construção doPartido. Portanto, a geração que retomou o movimentoestudantil da UFPE a partir de 1975 e posteriormente militouna POLOP foi amplamente vitoriosa. E foi uma geração queconseguiu ser parte ativa na construção do PT. É uma geraçãoque contribui politicamente com o avanço na organizaçãoindependente dos trabalhadores da cidade e campo. Múcio Magalhães5 Eu sou de Arcoverde, filho de família trabalhadora esempre vivi modestamente. Meus pais, Jorge Magalhães deSouza e Áurea Magalhães de Souza, especialmente minhamãe, sempre fizeram de tudo para que eu estudasse em boas5Estudou Medicina Veterinária na UFRPE. Atualmente é vereadorem Recife-PE pelo PT-PE. 29
  30. 30. escolas apesar da dificuldade da família. Fiz o segundo grauem Arcoverde, passei no vestibular de 1980 e fui estudarMedicina Veterinária na Universidade Federal Rural dePernambuco (UFRPE) em 1981. No primeiro ano tive contato com a PastoralUniversitária. Foi a minha iniciação política e militante, queme conduziu por uma reflexão para tomar o caminho de fazeruma opção de vida, o que nós chamávamos de opçãopreferencial pelos pobres e pela nossa própria classe. Asreflexões que fazíamos nos levava a uma tomada deconsciência que, mesmo pobres as pessoas se orientam pelosvalores que a sociedade burguesa nos ensina desde cedo, eportanto era preciso optar pela nossa própria classe e osvalores políticos e ideológicos que organizavam a classetrabalhadora. Passei a atuar então, enquanto militante cristão, nonúcleo de militantes cristãos universitários da PastoralUniversitária da UFRPE e depois do Movimento de CristãosUniversitários, fundado por dentro da PU por setores mais aesquerda. Após estudar onde ter uma atividade prática,optamos por atuar no meio popular, porque naquele momentoo movimento estudantil, apesar de ser um movimentouniversitário, vivia um ambiente muito difícil, controlado eaparelhado, com as dificuldades que sempre tem o movimentoestudantil quando forças políticas que momentaneamentehegemonizam o movimento em uma universidade nãoestimulam o livre debate como forma de abrir canais para aampla participação dos estudantes. Então optamos por militar no movimento popularnuma área próxima da universidade, uma decisão tomada deforma bem vanguardista, pois quando nós fomos àcomunidade não sabíamos nem o caminho de como chegar lá30
  31. 31. no primeiro momento. Saímos a perguntar e chegamos aoSítio dos Pintos, que era a comunidade que tínhamosescolhido. Ali nos apresentamos como estudantes da Ruralque estavam ali para discutir um projeto de hortascomunitárias, como forma que imaginávamos ser capaz dequebrar a resistência da comunidade em nos receber. Deu certo, porque aos poucos nós fomos chegando,entrando na comunidade, visitando as pessoas e conversandocom elas sobre diversos assuntos. Até que um belo dia numareunião num barzinho com uma mesa de sinuca, um senhorque estava lá sentadinho no seu canto disse: “Olha, a gentenão está aqui atrás de horta. Precisamos de uma associação demoradores”. Aí descobrimos que ele era um antigo militantedas ligas camponesas que estava morando ali na comunidade,seu nome era Manuel Marques. Foi decidido nesse momento que esta era a prioridadenúmero um, porque a partir dali nunca mais se falou em hortae se falou o tempo todo em associação, começando o processoque levou à fundação da entidade. E muitas lutas foram organizadas por associação deMoradores do Sítio dos Pintos. A comunidade não tinha caminhos até ela asfaltados,não tinha ônibus, a iluminação era precária e não tinhaassistência médica nenhuma. Era uma comunidade com onível de vida bastante precário. Então a primeira grande lutafoi levar ônibus para a comunidade e esta foi a primeiravitória de muitas que transformaram o Sítio dos Pintos nobairro que te m o nível de urbanização atual. Estávamos ali nessa militância. Só que nesse caminhoo grupo começou a perceber que o movimento estudantil dauniversidade estava mudando de posição, de práticas, porque 31
  32. 32. a força hegemônica naquele momento estava em crise, eestavam abrindo espaços. E foi discutido que algumas militantes deveriam sairdaquele trabalho popular e se dedicar ao movimentoestudantil na universidade. Eu fui um deles. Nesse momento estávamos vivendo uma transição dahegemonia do MR-8, que foi até o início de 1981, que era agrande força do movimento estudantil da Rural, que sofre umgrande racha. A grande maioria estava saindo do MR-8 eentrando no PCB. Então, os mesmos militantes praticamentesaíram do MR-8 e foram para o PCB, mas como aorganização era diferenciada, o grupo abriu um espaço paranovas idéias e novas práticas. Foi nesse período que eu fui fazer movimentoestudantil. Eu fiquei no movimento popular até consolidar agrande conquista, os ônibus. Depois disso eu comecei aparticipar das discussões do movimento estudantil noDiretório Acadêmico (D.A.) de Veterinária, e fui escolhidopara ser secretário geral. Disputei o DCE com uma chapa deoposição, perdemos e organizamos uma oposição. Fizemosum trabalho de um ano de organização e em dezembro de1984 nós ganhamos a eleição do DCE. Eu era de novo oSecretário-Geral da chapa. E fomos fazer todo um trabalho dereconstrução do movimento, que nós achávamos que estavamuito devagar. E enfrentamos muitas lutas, a exemplo daeleição direta para reitor, diretas para a representaçãoestudantil nos conselhos da universidade e tantas mais.E nesse período a gente reinseriu o movimento estudantil daRural no movimento estadual. Nos debates da União dosEstudantes de Pernambuco foi realizado um congresso daentidade, onde a oposição ganhou depois de muito tempo de32
  33. 33. hegemonia de uma coalizão entre o PCdoB, MR-8, PCB eoutros grupos. E eu estava lá na chapa vencedora, que era umacomposição entre militantes mais identificados com o PT.Tinha gente da tendência estudantil “caminhando”, que erado extinto PRC (Partido Revolucionário Comunista),e de OTrabalho, e de organizações clandestinas, como eu e outrosque nesse debate de marxismo e de luta revolucionáriatomamos contato com outra organização a Política Operária, aPOLOP. Eu militei nos últimos anos da POLOP que sedissolveu em 1986. Muita gente pensa que foi bem antes. Eumilitei no último núcleo da POLOP do Estado. Tudo isso era um caldo, uma efervescência, porque eumilitava na Igreja progressista, mas tinha contato com umaorganização marxista, clandestina e que construiu o PT. Umtempo de muita atividade, uma coisa tão intensa que ocupavatodo o nosso tempo. Ia na aula, cumpria as tarefas do ME noDA de Veterinária, no DCE, na UEP e depois saia dali e iamilitar no PT, no núcleo da universidade e ainda contribuíacom o Núcleo da Brasilit. Foi uma geração que se dedicou integralmente a essesonho de construir uma organização dos trabalhadores quefosse independente dos patrões e que tivesse um efetivo papelna luta de classes. Que tivesse força para elevar o patamar deorganização, capacidade de mobilização e de consciência daclasse, saindo do estágio de “classe em si” para o de “classepara si”, e protagonizar a construção do socialismo no Brasil.A minha juventude foi toda dedicada a isso. Foi umajuventude muito generosa. Quando nós entravamos na universidade você sempreera abordado pelo pessoal dos mais diversos movimentos. Eufui convidado por um conterrâneo. Se encontrava muitos 33
  34. 34. jovens do interior naquela época, como se encontra até hoje.Um conterrâneo que fazia parte da Pastoral Universitária e domovimento estudantil, também. Só que ele era da área de mais influência do PCB. Eele me chamou para uma reunião da pastoral. E eu fui lá ver.E aquilo bateu comigo, então. E a partir dali eu fui ficando.Fui a uma primeira reunião e na terceira eu já fui entrando.Eu tive sorte de ser iniciado pela Pastoral, porquediferentemente de muita gente, eu não entrei para serdoutrinado numa linha. Primeiro porque a Pastoral era a quemelhor formava, por estimular muito o estudo. Entãotínhamos grupos de estudos em que íamos estudar a tradiçãoda esquerda marxista. Não se estudava uma das tradições, masse estudava todas: trotskismo, stalinismo, marxismo-leninismo e aqueles que não se situavam em nenhum ou outrocampo. Você estudava tudo, inclusive a tradição das váriasInternacionais. Os assessores também conseguiamdocumentos clandestinos de outras organizações para a genteler e discutir. Então a gente tinha uma formação ampla e boa.Na Pastoral atuavam muitos quadros que dominavam muitobem o arsenal teórico do marxismo e transitavam entre asdiversas organizações e eram muito respeitados. Considero uma sorte começar desse jeito. Posso dizerque tive uma formação ampla e profunda e acumulei acapacidade de compreender os debates porque eram muitosgrupos. Então quem não tinha nenhuma informação ficava aliperdido para entender aqueles dialetos diferentes, e a gentetinha acesso aos debates, porque o movimento estudantildebatia muito. Era muito texto, jornal, documentos de gruposque circulavam. Não eram apenas documentos para formar no sentidostricto, era também o debate de propostas pontuais, que34
  35. 35. muitas vezes eram bem embasadas, com textos. Isso tambémajudava muito na formação da militância. Quando eu fui abordado e passei a militar, primeironuma tendência chamada Travessia, que era muito forte naUFPE, mas na Universidade Rural era fraquinha e tinhapoucos contatos, e era a tendência estudantil da POLOP ouPO como era conhecida também, já tinha um nível razoávelde formação. A PO era uma das organizações que tinha umnível de formação política muito forte. Lá se aplicava umcurso básico que era condição para o recrutamento. Era ummaterial que tinha dez aulas e cada aula tinha um tema, comvários livros e textos da organização como subsídios.Por exemplo, se fazia um estudo sobre imperialismo ou sobreo capitalismo no Brasil. Quem conseguia terminar já saia comum nível de apuro político muito grande e preparado paraassumir as responsabilidades de um militante da organização.Eu tive as duas oportunidades. Eu tive a formação da Pastorale da PO. E depois fui seguindo e aprendendo com o PT, comas lutas, com a vida. Quem foi formado naquele período estudava muito,militava muito, vivenciava uma práxis. Por isso quando vocêvai olhar hoje os principais dirigentes em várias áreas dapolítica brasileira vê que são desse tempo e dessa geração,porque a turma era muito bem preparada. Havia um apreço e uma dedicação muito grande àformação política. E eu sou fruto desse processo e dessadinâmica que combinava muita ação e muita discussão. Quando fui convidado para o Diretório Regional doPT e entrei para a executiva estadual, a tarefa que assumi foiorganizar a secretaria de formação política, que até então nãotinha no PT de Pernambuco. 35
  36. 36. Quando olho para trás e comparo com a situação dosmovimentos hoje, vejo como foi importante para o país acontribuição dos que foram para os mais diferentesambientes,ou seja, para os bairros populares, para ascomunidades rurais, para as fábricas e para as universidadespregar um mundo novo, fraterno e justo,e conquistarammilhares de pessoas para essa luta.Falo aqui da militânciacristã da teologia da libertação. Diferente das organizações daesquerda tradicional que ficou muito restrita ao meiouniversitário, esse setor da esquerda brasileira deu umainegável contribuição para a luta do nosso povo.Estas experiências forjaram o que sou hoje, um militante queneste ano de 2012 completa 31 anos de luta política e quecada vez mais me convenço de que continua válida e atual aopção de vida que fiz no começo. Renildo Calheiros6 Depois de aprovado no vestibular em fins de 1978, foiem 1979 que comecei a estudar Geologia na UniversidadeFederal de Pernambuco (UFPE), cujo período foi marcado poruma luta muito grande na universidade por melhorias do R.U.e para se barrar as medidas que limitavam a assistênciaestudantil nas universidades logo no início. Também nesse período tive o conhecimento de ummovimento pela reconstrução da UNE chamado demovimento Pró-UNE. Eu era recém-chegado à universidadecom a cabeça raspada e tinha um diretório acadêmico da áreaII que estava começando a movimentação e eu estava no D.A.6Formou-se em Geologia na UFPE. É Prefeito da Cidade de Olinda-PE e filiado ao PC do B-PE.36
  37. 37. com alguns colegas. Abriram as inscrições para as pessoasserem delegadas. As pessoas diziam: “você tem que secandidatar”. Eu achava que não tinha chance nenhuma,porque eu não conhecia ninguém direito porque haviachegado a pouco tempo e tinha mais contato com o pessoal daminha turma ali. Mas com o incentivo dos colegas eu acabeime inscrevendo como delegado. Era uma quantidade enormede delegados, se não me falha a memória a área II tinhadireito a 9 delegados ao Congresso da UNE. Tinha o dia daeleição e antes tinha a campanha dos delegados que passavamem salas de aula para apresentar ali a sua plataforma, as suasbandeiras. Embora muito jovem e novo participei daquelemovimento de passar em sala de aula e apresentar algumasidéias. Acabei sendo delegado e participei do Congresso deReconstrução da UNE em Salvador. A UNE foi reconstruída e se marcou a primeira eleiçãopara a diretoria da entidade, que foi feita e elegeu comopresidente um estudante que presidiu as principais plenáriasdo Congresso de Reconstrução. Era também presidente doDCE da Universidade Federal da Bahia e chamava-se RuyCésar. Voltando do congresso eu estava participandoativamente do movimento estudantil. Fizemos ainda em 1979na UFPE protestos por suplementação de verbas. Asuniversidades já viviam esse processo de estrangulamento derecursos e faltava verba para comprar material de laboratórios.A universidade já começava a viver muitas dificuldades. Nesse período os diretórios acadêmicos foram semultiplicando. Na época se tinha diretório por centro, como oD.A. do CTG, de Saúde, do CFCH. Cada curso começou afazer o seu Diretório. Foi um período do movimentoestudantil muito intenso na universidade e de muito 37
  38. 38. crescimento do movimento estudantil e das própriaslideranças, porque naquela época não se tinha apenas aplataforma das universidades, porque o País vivia numaditadura militar e as lutas se juntavam todas: luta por anistia,constituinte, eleições e as plataformas estabelecidas nauniversidade, nos cursos, eleições diretas para reitor,participação dos estudantes nos órgãos colegiados; nasuniversidades particulares se tinha a luta contra os aumentosabusivos das mensalidades. Nas federais a luta contra oaumento das refeições do R.U. Como nos departamentos se reproduzia aquele sistemaautoritário que existia fora da universidade, então mesmodentro da universidade se tinha muitas lutas democráticas quese juntavam a essa luta mais geral que existia fora dasuniversidades. Não se tinha muito como separar as lutasgerais com as específicas do movimento estudantil, porquetudo acabava numa questão autoritária da universidade queera reflexo de um ambiente sem democracia alguma nasociedade. Pouco depois dessa experiência inicial fui Presidentedo D.A. de Geologia e depois fui eleito Presidente do DCE daUFPE com a chapa Mudança. Fizemos uma plataforma muitoousada para a universidade na época e vencemos as eleições. Na UFPE haviam vários partidos organizados comoMR-8 , que tinha como lideranças maiores Alzira Mindelo eLuis Falcão. Alzira fazia Ciências Sociais e Luis Falcão, oLula, Economia, como o próprio Alberto. Tinha ummovimento muito forte na Medicina que estava ligada a umaorganização política chamada POLOP, que é de onde vemHumberto Costa, Jarbas Barbosa, Lipídio, Amélia e uma sériede lideranças que depois se migraram para o PT. Parte dessepessoal foi para uma corrente que foi criada depois pelo38
  39. 39. Deputado José Genoíno chamada PRC, depois dissolvida.Também tinha o PCB, cuja participação importante se davanas mais nas Ciências Sociais e um pouco no curso de Direito.O PC do B era um partido novo a atuar dentro da universidadee eu ajudei a criá-lo ali, pois surgiu basicamente no Centroque agregavam a área de Engenharia, onde a Geologia estáligada, que era o Centro de Tecnologia e Geociências (CTG). Ganhamos ali o diretório acadêmico do curso básico edepois ganhamos outros diretórios, como na Química. Haviamvárias outras organizações menores. Mas que era maior naUFPE era o MR-8, que presidia o DCE. Mas o PT ganhoumuita força nesses grupos e passou a dominar, sendo depoissubstituído pelo PC do B, que foi a maior força dentro daUFPE. Foi no período em que fui Presidente do DCE. Havia outras organizações de matriz mais trotkista naQuímica, que se chamava “Alicerce”. Depois eles viraram“Mobilização Estudantil”. É hoje o pessoal que se organizaem torno do PSTU ou do PSOL. Também tinha o PCR, maisera um partido pequeno. Haviam vários grupos pequenos, mas quando o PTsurgiu vários deles se agruparam nele. O PC do B participavamais ligado ao PMDB, cuja tendência se chamava “TendênciaPopular”. As outras organizações eram mais complexasporque não se interessavam pela luta pela anistia ouconstituinte. Tinha uma política que se distanciava dos outrosmovimentos. Na UFRPE tinha uma composição diferente, porque oPCR era muito forte lá, assim como o PCB. E o PC do B eramuito pequeno por lá. Na Católica o PC do B tinha muitaforça, assim como na Fafire. Os partidos políticos estavam surgindo ali e a coisasnão estavam muito bem definidas. Esses partidos estavam 39
  40. 40. voltando para a luta política e as plataformas não eram muitobem definidas. Se tinha grandes embates em torno da questãoda anistia e nenhuma corrente que era contra a luta daConstituinte porque achavam que defender a anistia eraadmitir que tinham feito alguma coisa errada ou algum crime.E que para isso precisava ser anistiado. Os que eram contra a Constituinte achavam quevivíamos numa sociedade burguesa e a constituintereproduziria essa sociedade. Então na análise deles aconstituinte não interessaria aos trabalhadores, pois haveriamais um controle sobre os trabalhadores. Então eram movimentos com um grau de polêmica ede disputas políticas muito fortes, mas isso acabou sendoimportante, porque ajudou a preparar e a formar toda essageração através desse debate político intenso. Luciana Santos A minha formação foi muito influenciada pormeus pais. Ambos foram filhos de operários quemoravam em Santo Amaro. O meu pai sempre fez daminha casa um ambiente de estudo e de debate político.Então ele dava aulas para a gente desde quando éramoscrianças, mas também nossos amigos de turmas e osagregados todos. Como meu pai era professor de Matemática etambém engenheiro, por mais que ele quisesse dizerpara a gente não seguir a profissão dele, a gente era40
  41. 41. influenciado mais pelo gesto e pela atitude dele do quepor ele ter solicitado que a gente o seguisse. Quase todos os meus irmãos fizeram Engenharia.O mais novo que foi para o lado da Educação Física,mas mesmo assim fez vestibular para Engenharia porcausa desse ambiente que era criado dentro de casa,tanto de muita matemática, como pelo debate. Entrei no curso de Engenharia Elétrica da UFPEem 1984. E desde o primeiro momento tive contato como movimento estudantil da Universidade por meio depessoas do PC do B. Foi uma pessoa do PC do B que viatuando no dia da minha matrícula, que estava com ummegafone fazendo uma agitação. Ele era o Presidente doDCE da UFPE, o Renildo Calheiros. Uma amiga que havia entrado um semestre antesjá me dizia um semestre antes de duas pessoas queestavam no movimento estudantil da Engenharia, opróprio Renildo Calheiros (que estudava Geologia) e oRaul Henry (que estudava Engenharia Civil). Foi o Raul que inclusive me convidou para mecandidatar pela primeira vez no movimento estudantilpara ser delegado num Congresso da União Nacionaldos Estudantes de Pernambuco (UEP). Eu conheci o PC do B por sua atuação nomovimento estudantil, mas também tinha um professorde Física que era do Partido que me chamou muito aatenção no início, porque além de ser muito competente,também era muito centrado e convincente. O PC do B tinha uma vida de movimentoestudantil maior e muito mais proativa. Daí tinha uma 41
  42. 42. corrente de partido chamada Viração. Então eu entrei naViração e comecei a conhecer outras pessoas. Eu entrei também no D.A., convidado por umestudante chamado Henrique. De 1984 e 1987 eu fizmovimento estudantil na Viração. Fui do D.A., fui paracongresso da UEP e da UNE. Só em 1987 que entrei noPC do B. Essa era uma época do Colégio Eleitoral, quediscutia quem ia e quem não ia. O Congresso da UNEna época de Renildo ficou polarizado com essasopiniões. O que fazer? Ser contra ou ser a favor doColégio Eleitoral? E a Viração – que tinha o pensamentodo PC do B nisso – era uma organização de juventudeque tinha influência do PC do B e refletia essepensamento, que era mais amplo e defendia o ColégioEleitoral. Quanto a isso divergíamos do pessoal do PT. Na UFPE tinha uma luta muito grande quanto aopreço e a qualidade do R.U., bem como da situação daCasa do Estudante. Também tinha muita reclamação daalta reprovação na área II, da didática dos professores eda falta de eleição direta para Reitor da universidade. Havia no movimento estudantil da UFPE aViração, que era mais ampla e não abarcava somente opessoal do PC do B. Eu ainda peguei a Travessia e aPOLOP a nível nacional. Na verdade peguei umatransição, quando já não havia mais MR-8 na UFPE. OPC do B ainda tinha pouca influência e militantes,enquanto o PRC (que era uma corrente do PT) era amaior força que se tinha por lá. Eles ficaram durante trêsgestões seguidas no DCE da UFPE.42
  43. 43. Mas o PT e o PC do B tinha uma boa disputa nomovimento estudantil, porque eram os partidospolíticos que procuram ter vida orgânica, ter luta nasfrentes de massa. A direita nunca se organizou, a nãoser na Faculdade de Direito, que foi a única faculdadede maneira mais organizada e assumida que a direitateve algum espaço, mas mesmo assim sempre tevemuita dificuldade. Ela não tinha vida perene nomovimento estudantil. Quanto à UNE, posso dizer que chegar a ela foiuma conseqüência, porque quando fui eleita delegadada UEP – e como era lá que se elegiam os delegadospara a UNE – eu fui então participar do congresso queelegeu Renildo Calheiros Presidente da UNE, que foi noMaracanazinho. Daí fui candidata a Presidente do DCEnuma época em que o PRC era muito forte. A genteperdeu para Paulete e depois para Sheila. Masdirigíamos o D.A. da Área II e passamos a crescer nauniversidade e a influenciar outros diretóriosacadêmicos. Na minha época fizemos uma base enormedo PC do B, que era gigantesca e criou muitos frutos,teve vários quadros. Na UNE fui vice-regional, numa época em que jáhavia na entidade o critério de proporcionalidade, ondeas diretorias eram distribuídas de acordo com o númerode votos. Foi nesse período também que abri ocongresso das Diretas Já ali na Dantas Barreto, quandodevia ter umas vinte mil pessoas. O principal legado de nossa geração foi o de terpermitido ao movimento estudantil uma posição 43
  44. 44. conseqüente nessa transição democrática, porque foiuma transição necessária para que tivéssemos maisliberdades democráticas e para se ter um projeto maisousado como aquele que tivemos a partir de 1989, quepermitiu e possibilitou a candidatura de um operário etudo que ele representava. Não tem como isolar a luta da universidade,porque a universidade e suas escolas não são uma ilha.Elas dependem das grandes decisões políticas dessePaís, porque se não tiver vontade política e projetospolíticos claros – seja na condução do País seja nacondução do Estado – as nossas lutas terão muitoslimites. É óbvio que elas confluem com as lutasespecíficas na melhora da qualidade do ensino e dessecotidiano de manutenção da universidade, com daassistência estudantil ou daquilo que move o dia-a-diado estudante, como a elevação do seu nível cultural, dapolítica do esporte, etc. Isso tudo faz parte da vida dajuventude e naturalmente as entidades estudantisprecisam ter uma política voltada para isso. Então o nosso legado foi o bom resultado datransição democrática, que veio depois com a rupturada agenda neoliberal. Para os jovens deixo a mensagem para que sejamcompetentes e busquem o conhecimento, mergulhem ese dediquem naquilo que gostam de fazer, porque sóassim vai ser um jovem mais livre.44
  45. 45. MOVIMENTOS CATÓLICOSE DE ORIGEM POPULAR 45
  46. 46. Reginaldo Veloso7 Com juventude, trabalhei um pouco no começo dosanos 1970, ajudando um amigo e companheiro de trabalho – oPadre Adriano Jansen – na organização do MovimentoS’IMBORA, que foi o embrião do Movimento de Jovens doMeio Popular, aqui no Recife. Mas a JOC, a Juventude Operária Católica, anterior aesse movimento, desde os anos 50, vinha sendo um espaço demobilização e formação humana, política e cristã para jovenstrabalhadores (as) urbanos (as). No início dos anos 1960, ocorreu um processo deradicalização do compromisso político dos militantes da JOC,quando, dentro de toda aquela fermentação política, ajuventude teve uma presença muito forte. A JOC, também, foialvo de uma repressão muito forte por parte do regime militar.Aí as equipes de JOC ficaram muito reduzidas, com umcampo de atuação muito limitado, sobretudo, a partir de 1968(AI 5 etc.). Aqui no Recife, a JOC tivera presençasignificativa. E também foi significativa a repressão contra aJOC, já entre os anos 64 e 66 quando eu ainda estava naEuropa. Não esquecer que foi no seio dessa juventudeoperária e cristã que se formaram várias e expressivaslideranças do movimento social e político, como JoãoFrancisco e “Mexicano”, de saudosa memória, e o próprio7Presbítero das CEBs, Assistente do Movimento de TrabalhadoresCristãos - MTC (antiga ACO), Assessor do Movimento deAdolescentes e Crianças – MAC, Assessor do Projeto de AnimaçãoCultural – PROAC (Secretaria de Educação - Jaboatão dosGuararapes).46
  47. 47. João Paulo, uma das expressões nacionais do “sindicalismoautêntico”, um dos fundadores da CUT e do PT, depois,Prefeito do Recife. Foi, justamente, quando eu comecei a ter um certocontato com a JOC, uma certa aproximação com o que restoudos militantes depois da repressão, dada a minha aproximaçãocom o Padre Adriano Jansen, que era o assistente regional daJOC aqui em Pernambuco. E eu pude perceber que elesficaram muito limitados na sua atuação como militantes,trabalhadores. Sentiu- então, que era o momento de criar umcerto espaço para os jovens trabalhadores nos ambientes deIgreja que permitisse uma certa mobilização deles sem atrairdemais a repressão do regime, da ditadura. Urgia, então, a criação de um movimento mais “leve”do ponto de vista de sua atuação política, mas que continuassecomo presença no meio da juventude trabalhadora, fazendo oque se podia fazer, ou seja, trabalhar uma certa consciênciapolítica que ajudasse os jovens a entender o momento e osseus desafios, suas limitações e possibilidades de ação, semdeixar essa juventude simplesmente entregue a si mesma. Umtrabalho educativo, sempre utilizando a dinâmica criada pelaJOC, o método VER-JULGAR-AGIR, que pudesse garantiruma consciência básica de cidadania e fé, e a vontade deinfluenciar os companheiros e colegas, ajudando-os aperseverar na sua caminhada militante, ao mesmo tempopolítica e cristã, no meio dos jovens trabalhadores. E aí o Movimento dos Jovens do Meio Popular(MJMP) teve uma grande expansão nas paróquias cujospadres que tinham uma visão mais comprometida com aproblemática do povo. E nesse período havia vários, o quepermitiu que houvesse um crescimento desse Movimentobastante rápido. 47
  48. 48. Partiu-se, então, para um trabalho mais organizado doponto de vista da Igreja institucional, com uma Pastoral deJovens do Meio Popular (PJMP), que é o que existe até hoje,com certa expressão. Existiam em vários bairros e existia umaarticulação na região metropolitana, mas também surgiu nointerior. E houve encontros regionais de jovens do meiopopular. Houve até encontros nacionais. E despontaramalgumas lideranças. Uma das lideranças no meio dajuventude, agora como educador social, é o João Simão Neto. Passei dez anos na Macaxeira e em 1978 eu vim para oMorro da Conceição. Todo esse tempo, então, o meu trabalhofoi muito na linha das Comunidades Eclesiais de Base, porqueas paróquias eram entidades muito centralizadas numa igrejamatriz, tudo girando em torno e na dependência da pessoa dopadre. A paróquia passava, então, a ser dividida e organizadaem pequenas comunidades, onde o povo assumia toda aorganização da vida da Igreja local, inclusive financeiramente.Nós começamos isso na Macaxeira, mas concretizamos issode maneira plena no Morro da Conceição, tendo cadacomunidade dessas seu grupo de jovens ligado ao Movimentode Jovens do Meio Popular. Dentro desses espaços de Igreja ressurgiram asassociações de moradores, cuja existência, com a repressão, sereduzira a de Brasília Teimosa e Nova Descoberta. Mas, àmedida que os espaços de democracia foram se abrindo,foram surgindo novos conselhos e/ou associações demoradores, em cada um desses bairros onde a Igreja estavapresente e atuavam as Comunidades Eclesiais de Base(CEBs), claro, com participação de adultos e de jovens,ligados a Movimentos como “Encontro de Irmãos” e“Movimento (depois, Pastoral) de Jovens do Meio Popular”,como vimos acima.48
  49. 49. Uma reflexão que faço é que, quando os diversosmovimentos de juventude oriundos do meio de trabalhadoresurbanos e rurais, de estudantes etc. se deixam ir a reboque dospartidos, vão perdendo, pouco a pouco, sua autonomia e suafidelidade às causas próprias da juventude e do seu meio.Convertidos em meros cabos eleitorais, meras células departido, pouco a pouco, vão deixando as causas realmentepopulares, juvenis ou estudantis em segundo plano. Essasmesmas causas ficam apenas usadas no discurso, em temposde eleição, para se conseguir eleger fulano ou sicrano. Aí nãotem jeito: perdem a essência dos seus movimentos, suaautonomia e fidelidade às causas que lhes deram origem. João Paulo de Lima e Silva8 Meu nome completo é João Paulo Lima e Silva.Nasci no dia 31 de outubro de 1952, em Olinda,Pernambuco, embora meu nascimento foi registradoapenas no dia 31 de dezembro. Meu pai foi operário defábrica, passou jogo de bicho e se aposentou comocobrador de ônibus da CTU, a antiga Companhia deTransportes Urbanos. E minha mãe sempre foidoméstica. Eu era um menino pobre, pois enfrentei pordiversos momentos o desemprego dele e as dificuldadesem ir morar em casa alugada com pagamento doaluguel, inclusive, também, tendo a dificuldade de fazera feira, que se tornava possível em diversas vezes8 Foi Prefeito do Recife-PE por duas gestões é atualmente édeputado federal pelo PT-PE 49
  50. 50. quando vendíamos algum eletrodoméstico da casa paraisso. A minha formação escolar ocorreu com doiscursos técnicos que fiz, Edificações e Mecânica, pelaEscola Técnica Estadual Professor AgamenonMagalhães. E há quase dez anos tento concluir agraduação em Economia pela Faculdade de BoaViagem. O meu pai é de São Luis de Quitunde, Alagoas,mas veio aqui para Recife em busca de trabalho e deopção de emprego. E já tinha passado por Maceió, ondetrabalhou na Panair do Brasil. E eu me lembro que elefalava que vivia muito bem ate então, mas com ofechamento da empresa, veio pra cá e trabalhou emcomércio. Meu pai foi uma pessoa que sempre trabalhoumuito para ganhar a vida. Meu pai e minha mãe tinham um sonho muitogrande para que estudássemos e não tivéssemos omesmo destino que eles. Então eu estudava muito. Ecomo a minha madrinha era uma pessoa extremamentereligiosa e ligada aos carmelitas, então durante um bomtempo eu pensei em ser padre. Mas como padre nãocasava e não tinha filhos então eu dizia: “estou foradesse negócio”. Eu tinha um lado de preocupação com as outraspessoas muito grande. E num determinado momento eufiz uma alfabetização espontânea e sem estar ligado amétodo Paulo Freire e nem nada. Fiz isso muito maispor não achar justo ter pessoas no mundo que nãosoubessem ler e escrever.50
  51. 51. No início de 1971 eu conheci a JuventudeOperária Católica, a JOC. Quando eu estava iniciandoum curso técnico de Edificações foi aí que comecei aentender o porquê do sofrimento tido por meu pai e pormuitos outros pais e jovens no meu bairro, no Ibura. Ecomecei a observar que a causa maior era fruto de umasociedade que não estava organizada. E tínhamosmuitos exemplos no mundo de povos que seorganizaram e mudaram com essa experiência,principalmente os países do Leste Europeu. Aí eu comecei, dentro do movimento da JOC eatravés da Igreja por meio do método Ver-Julgar-E-Agir,a organizar os jovens do meu bairro. E aí nós tínhamosmomentos de reunião em que discutíamos os principaisproblemas da juventude, como o emprego, o lazer, acultura, a gravidez indesejada, a utilização de drogas e aindependência da própria juventude. Com isso nós começamos a fazer muitas reuniõese mobilizações no início dos anos 1970. Isso ficou sendovigiado, pois eu soube muitos anos depois que tinhauma agente da Polícia Federal que acompanhava esseprocesso lá. Depois dessa experiência eu entrei numa fábricacomo estagiário e começamos a organizar os primeirospontos de resistência contra a ditadura a partir daorganização dos trabalhadores no seu local de trabalho.Depois trabalhei na Sotinque S.A. e na Hidromecânicade Victore, todas metalúrgicas. Quando voltei daexperiência na Europa, trabalhei na Produsa ProdutoresSiderúrgicos. E organizamos as primeiras comissões de 51
  52. 52. fábricas clandestinas, mantendo uma relaçãointersindical com outras categorias de trabalhadores,tais como gráficos, bancários ou do setor de bebidas. Como nos organizávamos a partir dos locais detrabalho, como estudantes secundaristas, a nossaorganização era muito limitada. Eu estudava numaescola que estava listada nas áreas de segurança noBrasil inteiro. E tinha um tratamento muito especial, oque fazia ter uma perseguição muito grande contraqualquer tipo de organização. Então eu já estudava desde 1965, quando fiz oexame de admissão na Escola Técnica Estadual. Então, apartir de 1966 e no início de 1970 eu estudei nesse local,onde o regime era extremamente rigoroso, quase quenum sistema militar. Inclusive a parte de treinamento deeducação física era feito numa área militar, o quedificultava ainda mais qualquer tipo de organização. Foi no início de 1973, quando eu fiz algunsquestionamentos sobre uma taxa que teríamos de pagar,me deram vários dias de suspensão. E até queriamtransferir a mim e aos colegas dessa escola por causados questionamentos que fazíamos. Eu dizia que aescola era muito eficiente para cobrar as taxas quemuitos nem podiam pagar, mas não tinham toda essaeficiência para cobrar do professor que estava faltando,da falta de material nas oficinas ou outras deficiências.Esse tipo de movimento estudantil nas escolas técnicasera difícil, e é por isso não se ouvia falar muito nele. E começamos um processo de formação políticade trabalhadores, organizando as primeiras comissões52
  53. 53. de fábricas clandestinas aqui em Recife. E foi feito umtrabalho de oposição sindical nas fábricas metalúrgicasaté 1983, quando tomamos a direção do Sindicato dosMetalúrgicos. No nosso trabalho, que estava focando nomovimento operário e nos movimentos dascomunidades, foi iniciado no próprio movimento deIgreja com o questionamento ao modelo de sociedadecapitalista que apontava a necessidade de uma mudançade modelo. Em 1978, através dos contatos com o pessoal dosmovimentos de igrejas, eu recebi um convite de PauloFreire para estudar durante seis meses na Europa. Foino Cedal, portanto, o Centro de Estudos deDesenvolvimento da América Latina, que estudei comos professores que estavam exilados do Brasil, Chile eArgentina. E junto com Paulo Freire nós estudamosdesde o surgimento do homem até o que nóschamávamos de países em transição para o Socialismo.O que já era uma crítica ao centralismo democrático e àditadura do proletariado. E estudávamos Economia, História, Filosofia. Etambém tivemos nessa época o contato com omovimento sindical francês, italiano, português eespanhol. Na Espanha, só em Madri, eu passei trintadias em movimentos comunitários de trabalhadores.Nós ficamos na casa de trabalhadores que estavam naluta. E estudamos a história do movimento sindical naAmérica do Norte, na Europa e na América Latina. 53
  54. 54. E antes de ir para a Europa eu passei a sermilitante do PCR. Não era filiado, mas tinha umamilitância clandestina. Eu fui recrutado por umcompanheiro depois de dois anos de observação, que foio Antônio Medina. Ele foi o primeiro nome do Partidoque tive contato. Ele me falou que haviam estudadotoda a minha história de vida durante dois anos parapoder fazer o convite e me deixar participar daorganização. O meu trabalho era dentro do movimentooperário e de ação em fábrica e no movimento sindical.Nós realizávamos, além de estudos d’ O Capital, doManifesto Comunista e de tantos outros, um trabalhoreservado e clandestino com toda uma cadeia desegurança e de proteção por trás. Mas foram momentossignificativos e de aprendizado político. Eu acho que a Igreja e o PCR me ajudaram muitona minha formação ou capacitação política. Também oestudo que eu fiz na Europa e nos diversos semináriosaqui no Brasil me ajudaram, sem falar nos diversosconflitos que eu participei, como as mais de mil grevesaqui em Recife, que me resultaram em treze prisões eem dois enquadramentos na Lei de Segurança Nacional,ocorridos por conta de uma greve geral que nós fizemosnos anos 1980. Além de quatro costelas quebradas e umpulmão perfurado numa luta por posse de terra, já nacondição de deputado estadual nessa década. Então foram nesses momentos de efervescênciapolítica que tive a oportunidade de ser membro decomissão de fábrica clandestina, cipeiro (erarepresentante da CIPA em fábrica), delegado sindical,54
  55. 55. presidente de associação de moradores e membro daJOC responsável pela cidade e região. Fui o primeirovereador do PT em Recife, o primeiro deputadoestadual pelo Partido (junto com Humberto Costa), tivetrês mandatos de deputado (sendo o mais votado), oprimeiro Prefeito operário da cidade de Recife, oprimeiro prefeito a ser reeleito na cidade e o primeiroprefeito a fazer o seu sucessor no primeiro turno. Eu participei da fundação do PT em Pernambuco,e logo fiz campanhas para novas filiações ao PT. Mascomo eu estava muito no movimento de fábrica, então omeu trabalho inicial no PT foi muito mais nos bairrosque na direção partidária, pois aqui em Pernambuco oPT foi formado em parte pelos membros dosmovimentos de igreja, por alguns militantesrevolucionários de várias organizações, intelectuais,movimento sindical e movimento comunitário. Mas omovimento sindical teve um papel muito grande nacriação do PT aqui. E essa formação do PT aqui noEstado levou de imediato à primeira candidatura aGovernador com Manuel da Conceição. Mas eu acho que para minha formação política, amaior influência foi da JOC, com o padre AdrianoJansen, depois com o Padre Romano Evufferri da AçãoCatólica Operária. Depois no movimento operário, como Padre Henrique Corsat, e o padre Jorge Talisoto, quefoi Presidente da JOC nacional e do padre AgostinhoPreto da Ação Católica Operária Nacional. Acho queessas pessoas foram as que mais me influenciaram paraa consolidação da minha militância política. 55
  56. 56. Nesse período de minha juventude vivíamos umaalienação muito grande, onde cada um estava buscandouma saída pessoal através do estudo e do esforçopessoal. Então todo o nosso esforço naquelesmovimentos de juventude era conscientizar para umacausa coletiva, porque nós acreditávamos que um outromundo era possível. E uma sociedade nova era possível.E para a realização desse sonho, na verdade, outroscompanheiros e eu estávamos dispostos a tudo paralutar por esse sonho para todos. Mas o nível dealienação no meio dos jovens era muito grande. E onosso trabalho de conscientização era muito a partir deuma reflexão pelo método Ver-Julgar-E-Agir, que erautilizado pelos movimentos de Ação Católica, como aJUC, a JEC, a JOC, JAC e a Ação Operária Católica, essaúltima era dada por pessoas que tinham uma idademaior e quando saíam desses movimentos juvenis sedirigiam a ela. Então se fazia um questionamento muito grandedo modelo capitalista. Quando eu saí da JOC eu fui paraa ACO, isso já na década de 80. E eu fui conselheironacional da ACO. Eu participei de movimentos com opadre Reginaldo Veloso, com Dom Hélder. Lembro-me,como num ato na Sete de Setembro, quando ficamosilhados pela polícia com cachorro e bomba com DomHélder lá. Mas os movimentos de Ação Católica sãoindependentes da Igreja católica, porque as nossasresoluções eram retiradas em congressos e semsubordinação ao Vaticano. Tanto prova que quandoveio o golpe do Vaticano com João Paulo XX e56
  57. 57. companhia limitada para acabar com a linhaprogressista da Igreja não atacou direto o movimento daAção Católica, que tinha uma estrutura independenteda estrutura oficial da Igreja. O que perdeu muito foi a utopia. E se perdeumuito a valorização das pessoas e do ser. É o pouco doque sinto em relação aos movimentos de hoje. Nosmovimentos que fazíamos tínhamos uma crítica muitogrande ao modelo do sistema capitalista de desen-volvimento, se lutava pela construção do Socialismo,mas acima de tudo nós tínhamos um forte, que era o sere os seus problemas. E a partir de sua vida e do processode conscientização política, de valorização e decompreensão dos erros, na ajuda para que as pessoaspudessem conhecer a sua importância e a suaessencialidade. E ajudar as pessoas a superar as suasdificuldades. E acho que hoje os movimentos ficaram muitopragmáticos. A luta pelos espaços das associações demoradores, dos sindicatos, dos partidos políticos, dosmandatos sindicais. Isso parece que virou um pouco aessência da política. E não um projeto político, a utopiade realizar um sonho de uma sociedade mais justa emais fraterna. Eu sinto um distanciamento muito grandenisso de quando eu comecei e hoje. Eu penso que a nossa geração deixou conquistas.E o movimento sindical e os próprios partidos políticos,principalmente o PT, a organização da sociedade civilorganizada deve muito a essa luta que todos nósfizemos no sentido de ter um mundo melhor. 57
  58. 58. Eu acho que o próprio mandato do PresidenteLula e os meus próprios mandatos, nós devemos muitoa esse sonho e a essa utopia de querer mudar o mundo.E não só querer, mas acima de tudo lutar e avaliar cadapasso que a gente dava na busca do sonho de ummundo melhor. Para nós que fazemos movimentos popularesainda existe o preconceito de classe e o ódio de classe.Isso não é algo subjetivo, porque eu vi em diversosmomentos em relação a minha gestão. Apesar de tersaído do governo com 88% de uma avaliação positiva,onde 77% eram de ótimo e bom. Mas em diversosmomentos setores elitistas da sociedade tiveram umpreconceito de classe e um ódio de classe muito grande. Eu acho também que a consolidação dademocracia ajudou muito. Foi a oportunidade que eunão tive na minha juventude. Não tinha o direito nemde se reunir. As nossas reuniões para a leitura d’ O Ma-nifesto Comunista foi feito muitas vezes em sacristia deigreja. Uma mensagem que eu deixaria aos jovens é nãodesistir nunca de sonhar por um mundo justo e por umasociedade fraterna e, acima de tudo, estimular outrosjovens a tomarem consciência de que somos nós queconstruímos as riquezas do Brasil e somos nós quefazemos o mundo. E o ponto principal: o mundo podeter outra direção. Depois de mais de trinta e sete anos de militância,eu nunca fiz tanto por tanta gente como fiz na condiçãode prefeito em oito anos. Eu acho que os oitos anos de58
  59. 59. gestão na Prefeitura de Recife. E o Presidente Lulanunca fez tanto por tanta gente. Nunca um Presidentefez tanto por tanta gente como fez o Presidente Lula. Eisso prova que o mundo pode mudar a partir de cadaum de nós. Essa é a reflexão que eu faço: tudo podemudar dependendo de como nós iremos enfrentar edependendo do nosso posicionamento individual emfunção do coletivo. Os jovens precisam resgatar os seus sonhos, nãodesanimar nunca, buscar o trabalho e entender anecessidade de não buscar solução só para o seuproblema individual, mas tentar cada vez mais as açõescoletivas. É preciso que os jovens possam participar dosindicato, das comunidades de bairros e ter umaparticipação mais ativa na vida política da cidade, doEstado e do País. É preciso estimular muito uma reflexão nointerior da juventude sobre o seu papel. E tinha umamúsica que nos fizemos no movimento da JuventudeOperaria Católica: “E a força jovem pôs a mão nomundo. E a juventude fez o amor voltar”. É preciso sensibilizar a juventude pra isso criandoespaços e formas, porque o movimento carece de umametodologia para que o jovem se sinta valorizado eestimulado a participar. Eu sinto uma diferença, pois eusempre fui muito estimulado de que poderia crescerindividualmente e coletivamente a partir domovimento. 59
  60. 60. 60
  61. 61. MOVIMENTOS CULTURAIS DE JUVENTUDE 61
  62. 62. Fábio de Morais Luna (Spider)9 Meu nome completo é Fábio de Morais Luna. Soumais conhecido em Recife e no Brasil como Spider. Sounatural de Recife, Pernambuco. Os primeiros contatos que eu tive com a dança derua e sua música propriamente dita – o que me fez irpara essa questão da dança – ainda era bastante jovem. Não morava em Recife à época que eu conheci adança de rua e a música que me fez gostar de dançar.Morava numa cidade que faz parte da regiãometropolitana de Recife, que se chama Camaragibe. Naépoca que eu me mudei para lá era ainda um distrito deuma outra cidade maior, que também faz parte daregião metropolitana, São Lourenço da Mata. Foi lá queaflorou essa coisa de gostar de música, mesmo. Mais ou menos nos meados de 1981 me depareipela primeira vez com aquilo que ia definitivamentemudar a minha vida. Apesar de ser um fragmento detodo um universo que eu iria depois conhecer, foi oprimeiro elemento de que nós hoje conhecemos comocultura Hip-Hop. Que eu vi e que me fez apaixonar poressa cultura tão urbana e ao mesmo tempo tão humana. Na época que eu vi eu já dançava funkmodestamente, e fazia parte da melhor geração daquelaépoca. Apesar de não estar no Recife e sabendo que osmelhores dançarinos e mais conhecidos eram de Recife,9É um dos fundadores do Hip-Hop em Pernambuco e atualmente ébancário, DJ e produtor cultural.62
  63. 63. eu fazia parte de um trio de dançarinos de funk que eraformado por mim, pelo Nelson e pelo Onéssimo. Do grupo fui eu pela primeira vez que vi umadança b-boy na televisão, sendo o responsável pordemocratizar aquilo que vi, pois quando olhei aquelesjovens dançando e a movimentação deles, aquilo bateuem mim. Estou me referindo a uma matéria no Fantásticoda Rede Globo mais ou menos oito e pouco da noitequando entrou o Cid Moreira com aquela voz dizendo oseguinte: “Você não acredita. Vamos mostrar aqui apouco para você a dança maluca. Você não acredita noque esses jovens podem fazer”. Eu me perguntei:“Dança maluca? O que ele vai mostrar?”. De repentemostrou um flash. Eu estava bem despojado e nem iasair essa noite. Ia ficar em casa. Mas quando mostrou osjovens fazendo os movimentos, se virando de costas,dançando parecendo um robô, eu não acreditei naquilo,não. Eu esperei a matéria realmente entrar. Quandomostraram - hoje eu sei o que é e digo até o local ondefoi feita a matéria – , na hora aquilo foi impactantedemais para mim, porque eu achava que tudo que euestava fazendo era antigo e não prestava. Na verdade prestava sim. Mas a base de tudoque aqueles jovens estavam fazendo era o que eu estavafazendo naquele momento. Era funk. Mas era tão novo,impactante e tão cheio de energia. E mostraram os b-boys, os lockers e os poppers e tudo ao mesmo tempo,porque as pessoas que fizeram a matéria não tinham a 63
  64. 64. menor noção do que acontecia ali. Foi feito numa boateadquirida pelos japoneses numa época em que elesestavam adquirindo tudo dos americanos. Ficava nocentro de Nova York. Essa matéria que a Globo fez ejogou naquele domingo foi feita lá no Bronks. Mostrou adança que veio revolucionar as danças urbanas. Ali eramostrada a história da dança de rua com o break, o bop,o b-boy e o lock que anos depois se tornou umaverdadeira febre. Naquela hora na minha casa estava tendo aoportunidade de conhecer isso sem preparação alguma.Veio ali a decisão de uma pessoa que foi tomadasozinho dentro de casa: é isso que quero fazer! Eu agoravou fazer isso aí! Com isso não deixei as raízes, eu não deixei dedançar funk. Pelo contrário. Por dançar funk foi melhorainda para mim, porque eu tive toda a ajuda do quevinha fazendo para desenvolver aquela dança que euqueria aprender. Mas aprender como? Como é que eu iaaprender algo que só tinha visto apenas algunsfragmentos na televisão? Saí de casa correndo feito um maluco e fui pararnum clube que também tinha lá em Camaragibe, que naépoca era o único lugar que a gente tinha para sair, aCasa da Música, que funcionava num galpão quedurante a semana servia uma oficina mecânica , e queno final de semana era esvaziada para a galera alugar efazer festas. Eu saí de casa correndo uns dois ou trêsquilômetros e cheguei lá procurando meus amigos.64
  65. 65. Juntei todo mundo e disse: "Vocês não vão acreditar noque vi agora! Eu vi aquilo que vai ser a dança que agente vai fazer". Eu fiz para eles mais ou menos osmovimentos sem saber. No fim de tudo dois dos meus amigos que saiamcomigo para festas, o Nelson e o Onéssimo, comprarama idéia. A gente começou a treinar na casa do Onéssimo.Era final de 1981. Aí tentamos como loucos conseguir o máximo domáximo de informação sobre aquela dança que a genteaté então nem sabia chamar o seu nome. Quando iapassar um filme que os caras estavam dançando íamosassistir. Ou quando tinha um clipe na televisão,também. Ficamos como doidos mesmo atrás de tudo,inclusive começamos também a ir atrás das músicas queos caras dançavam. Como tocávamos em banda marcial como umaatividade extra-classe, então começamos a tocar emoutros lugares, e foi aí que nos deparamos com pessoasque iam para os Estados Unidos - essas pessoas tinhamum poder aquisitivo muito maior que o nosso – evoltavam falando dessas danças para nós. Era muitocomum eles se depararem com esses espetáculos de rua. Então essas pessoas começaram a se tornar comoo elo de ligação entre aquilo que a gente queria sabercom a informação que a gente precisava. Tentamosadquirir material visual, inclusive. Descobrimos naslojas aqui duas revistas alemães que retratavam ajuventude da Alemanha, e a dança chegando por lá. O dinheiro que ganhávamos era para comprar 65
  66. 66. essas revistas, para tentar assistir filmes, etc. E diantedisso tudo veio a idéia de se montar a primeira true, quese chamou "The Brother of the Breakers", que foiinicialmente composta por mim, o Nelson e o Onéssimo.A princípio ninguém assumiu nenhum nome emantivemos os nossos nomes naturais. A gente começou a dançar, a ir para bailes blacks.Só que a gente dançava funk. Quando a músicacomeçava a ser mais adequada a gente dançava a dançab-boy. A galera ficava de queixo caído e a genteganhava todas as meninas. Os bailes blacks aconteciam no Castelo Branco,que era a associação de moradores da Caxangá, queficava ali no bairro de Torrões. Tinha os bailes com aCentauro Som. A gente também ia para os bailes doSargento Wolf, que ficava entre a Ilha do Leite eAfogados. E também íamos para o Clube dosSubtenentes e Sargentos da Polícia Militar, que ficava naTorre. Íamos para o Monte Líbano, que ficava no Pina.Nós íamos também para o Clube Rodoviário, que ficavana Imbiribeira. E na Associação dos Moradores do Pina.Basicamente esses eram inicialmente os clubes queíamos. Depois ampliamos isso aí e fomos para o ClubeInternacional, que ficava na área do Derby. Chegamos air para o Santa Cruz, também. E não se encontravaninguém que dançava o que dançávamos. Masencontrávamos os dançarinos de funk no fim daquelageração. E dançarinos de break não se encontravanenhum. Éramos os destaques nas festas, porque íamos66
  67. 67. com roupa diferente, girávamos de costas, pulávamosde cabeça e tal. Agora assim tudo muito fragmentado.Do jeito que aprendeu e aprendeu. Aos poucoscomeçamos a procurar lá mesmo em Camaragibealgumas pessoas que estivessem a fim de participar doprojeto da gente. Então mais ou menos em 1983 a genteagregou mais um componente ao grupo, que foi oMarcos. A gente viu o talento que ele tinha paraalgumas coisas. E virou um quarteto. Conseguimos o nosso primeiro trabalho comodançarinos de rua dançando break, que aconteceu naépoca em que eu participava como componente de umabanda num colégio em Boa Viagem. Quase todo final desemana tinha umas festinhas que o pessoal abastadofinanceiramente fazia. E convidava os pobretões para ire que não eram de Boa Viagem, mas de uma outracidade, mas que tocava na banda de um colégio deoutra. Numa dessas festas eu perguntei se podia trazeros meus amigos para dançar. O resultado foi uma festana casa de um brother chamado Márcio. E quando chegamos e fizemos a apresentação agalera "pirou". Primeiro porque a maioria deles viajava epassava as férias nos Estados Unidos e viram de repentea gente dançando o que eles estavam cansados de vernos Estados Unidos no início dos anos 1980, que eram oscaras dançando nas ruas. E as pessoas dali nosperguntavam: "Vocês dançam isso? Semana retrasadaeu estava de férias em Orlando e vi os caras dançando". E numa dessas festas nós conhecemos um grupo 67

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