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  • 1. Nº 318 –2 A 9 DE JUNHO DE 2010 –€ 2,95 (CONT.)AS CONFISSÕES DA MULHERQUE CRIOU SEXO EA CIDADEA VIDA DE CANDACE BUSHNELLESTUDOS MOSTRAM QUE OSBEBÉS TÊM SUPERPODERESTELEPATIA E VISÃO ESPECIALSELECÇÃO LEVA NA MALA4.110 GARRAFAS DE ÁGUACOMO SE PREPARA O MUNDIALOquintoaniversáriodamortedolíderhistóricodoPCPassinala-seestemês. Nestafotoinédita,tiradapelopróprioCunhalcomtripéetemporizador,estáabraçadoàfilhaAnitaO meu pai mandava-me livros de BD belga: traduzia os diálogos e colava-os por cima dos originaisQuando era miúda disse-lhe: ‘Pai, estás mais gordo’. No resto das férias, sempre que me via a olhar paraele, fazia uma cara exagerada de inocente e punha-se a assobiar enquanto encolhia lentamente a barrigaUm dia, disse-me para me sentar na areia e construiu um incrível carro de corrida à minha volta
  • 2. Destaque
  • 3. 49O MEUPAITINHA SEMPRECOCA-COLAPARADARAOSNETOSNanoitede3deJaneirode1960,Ál-varo Cunhalemais novepresospolíticosevadiram-sedoFortedePeniche.Deregressoàclandesti-nidade,após11anosdeprisão,olíderhistóricocomunistaapaixonou-seporIsauraMoreira.Eletinha46anos,ela19.Pas-sadosalgunsmeses,a25deDezembronas-ceuasuaúnicafilha: AnaCunhal.Afamíliapassouos meses seguintes emváriascasasclandestinas.MasaeleiçãodeÁl-varo Cunhal parasecretário-geral do Parti-doComunistaPortuguês –cargovagodes-deamortedeBento Gonçalves,em1942–,levouoPCPaenviá-loparaMoscovo. FoiaíqueAnita–comoopaiatratava–passouosprimeirosanosdevida.Quandoocasalsese-parou, em1966, IsauraMoreiraeafilhafo-ram viver para Bucareste, na Roménia. SóvoltaramaPortugalapós o 25 deAbril.AnaCunhal, 49 anos, nuncaquis daren-trevistas.Vivehámuitotemponoestrangei-roesóaceitoufalaragora,quandoestãopres-tes aassinalar-se os cinco anos damorte deÁlvaroCunhal–a13deJunho–“porneces-sidadedesepararaverdadedamentira”.Nãoquis ser fotografada, revelar a cidade ondeviveoufalardosfilhos. Sódesiedoseupai:“Jáqueseinsisteemfalardele,quepelome-nos seconteaverdade.”AnaCunhal.CincoanosdepoisdamortedolíderhistóricodoPCP,aúnicafilhadeÁlvaroCunhalfalapelaprimeiravezdopaiedosmomentosemfamília.Naspáginasseguintes,osamigosrecordamohomemqueconheceram.PorNunoTiagoPintoAnaCunhal,aos19anos,comopaiaassistiràaberturadosJogosOlímpicosdeMoscovo,emJulhode1980tAKG/ATLÂNTICOPRESS
  • 4. 50 2 JUNHO 2010 SÁBADOmõestinhamouvidodizerqueeuerafilhadeÁlvaro Cunhalmas, como não tinhamacer-teza,nãohesitavamemvirperguntar-me.To-dos os dias, várias vezes pordia. Aobsessãoeratalqueeumentia-lhes só paramedeixa-remempaz.Detestavaserumpontodecurio-sidadesóporterumpaiconhecido.Aeuforiacolectivaincomodava-meaopontodeeufal-taràsaulas. AEstufaFrianoParqueEduardoVII era um bom sítio para estudar em paz.Longedos“éverdadequeésafilhade…?”Comoera ÁlvaroCunhal comopai?Maravilhoso.Umserhumanofantástico.Foiecontinuaaserumaverdadeirafontedeins-piração do ponto de vistahumano. Pacien-te. Indulgente. Eu era capaz de ir acamparpara o Algarve sem dar satisfações a nin-guém. E os meus pais (que continuaramsempre afalar um com o outro) preocupa-díssimos,claro.Umdia,semqualquercons-ciência da aflição deles, voltei para casa domeupaicomamochilaàs costas. Qualqueroutro teria feito um escabeche. Ele, apesardos dias de calvário semsaberporonde euandava – mas calculando que teria levadopouco dinheiro –, a primeira coisa que meperguntoufoi:“Jáalmoçastefilhita?”Oimen-so respeito queeutinhaporelevinhasem-pre daminhaadmiração, nuncadasuaim-posição, queerainexistente.Serfilhadeumafiguramíticaeraumpesoouuma responsabilidademuitogrande?Houve quem acreditasse e mesmo insistis-sequedeviaserumaresponsabilidade.Sem-prerecuseiessepapel.Queriaserlivredeco-meter erros na minha vida como qualqueroutrapessoa,semterdepassarporum“jul-gamento público”. E consegui. Os queque-riam fazer de mim um exemplo acabarampor desistir. Afastei-me deles, deixando-ossempontaporondepegar.Aspessoasesperavam queseligasseaoPCPporserfilha dosecretário-geral?Nãovouespecularsobreoqueamaioriadaspessoas esperava. Porquenão sei. Mas nun-caouvininguémcriticarabertamenteofactode eunão me termetido napolítica. Talvez,inicialmente, alguns camaradas mais próxi-mosdomeupaitenhamimaginadoessece-náriocomoóbvio…atémeteremconhecidomelhor.Maschegou a estarligada aoPCP?Nos anos de liceu passei como um cometapela União de Estudantes Comunistas. Nãome lembro porque entrei, mas lembro-meporqueéquesaí.Oambientenaquelaépoca,aindatãopróximadofrenesimdaRevoluçãodeAbril,acaboupordesencadeartensõesen-Querecordaçõestemdoseupainaépocaemquevivia em Bucareste?Passei todas as férias de Verão com ele. Eramuito brincalhão, paciente, carinhoso… eueraumamaria-rapazquegostavadetreparàsárvoresecavarburacosnaareiadapraia“parachegar ao outro lado da terra”. Ele só dizia:“Anita,põeochapéunacabeçaeocremeparaosolnos ombros. Olhaqueosolestámuitoforte.” Umavez disse-me parame sentarnaareiaeconstruiuumincrívelcarrodecorridaàminhavolta.Pareciamesmoqueestavasen-tadaládentro. Nemmexiaos dedos dos péspara não perfurar a parte da frente. Depois,enquanto eu não quis sair, ia-me trazendoconchas paraeudecoraro“paineldeinstru-mentos”. Aoutramaneiradeeuestarquietamais de30segundos eraquando elemede-safiavaparaumapartidadexadrez.Nãoper-diadepropósito parameajudaradesenvol-veras faculdades de umbomjogador. Cadavezqueperdiadizia-lhe:“Maisuma.”Eelefi-cavaajogarmuitas “mais umas” até euaca-barporganhar.Eduranteorestodoano?Recebiafrequentementegiríssimascaricatu-ras degatos, queeleinventava, desenhavaecoloriaàmão. Gato de bicicleta, gato afazeresqui, gato-bombeiro, gato-capitão de umbarco,gatodorminhocoacairdesono…Ohu-mornessascaricaturaseraprecioso.Eletinhaumjeitãoparadesenhar,emboracostumas-se dizer que aquilo eram “só uns bonecos”.Mandava-me regularmente As Aventuras deSofia,umasériedelivros debandadesenha-da belga que eu adorava e que só havia emfrancês. O meu pai traduzia todos os diálo-gosparaportuguês,ecolava-osporcimadosoriginais,bemrecortados,retocandooscon-tornos. Mais tarde começou a enviar-me asaventurasdeTintim,massemtraduções. Es-tavanumaboaidade paraaprenderfrancês.Eaprendibastante.Construiuumincrívelcarrodecorridaàminhavolta.Etrazia-meconchinhasparaeudecoraropaineldeinstrumentosttComofoi a mudança para Portugal?Sabíamos oqueseestavaapassarduranteo25deAbrileeraevidentequeíamosvoltaraonosso país. Sebemmelembro, porvoltadeJunho ou Julho de 1974, regressámos numaviãocomcriançascujospaistinhamestadoforadePortugalduranteaclandestinidadeecompassageirosquenadatinhamavercon-nosco.Quaisasprincipaisdiferenças?Falava-sedepolíticaportodoolado.OPaíses-tavanumfrenesimpermanenteetodaagen-tequeriaparticiparnessaaventura. Osliceustransformaram-seemcamposdebatalhaen-tre os queques, os MRPPs, os trotskistas, oscomunas,etc. OsoutrosalunosnoLiceuCa-FOTOSD.R.ÁlvaroCunhalnapraia,nadécadade1930. AnaCunhal,em2007,apintaraparededeumamigo
  • 5. DESTAQUE52 2 JUNHO 2010 SÁBADOserra de Sintra, à Praia das Maçãs ou tentarapanharo espectacularpôr-do-solno Guin-cho. As conversas eramsempresobrecoisasinteressantesouentãosobrecomoeuestavaeoquetinhafeito. Desabafeimuitocomele,que sempre foi um bom ouvinte. Dava-mebonsconselhos,massemmecriticarnemim-porasuaopinião.Era um pai presente?Semprequepossível,apesardascondições.Éverdadequeeletinhaumsentidodehumorfinoeapurado?Ele fazia-me sempre rir. Quando era muitomiúda, durante umas das nossas férias depraia, olheiparaele emfato de banho e dis-se-lhe:“Pai,estásmaisgordo.”Duranteores-todas férias,semprequeolhavaparaele,elefazia uma cara exagerada de inocente e pu-nha-se a assobiar enquanto encolhia lenta-menteabarriga,atéeunotaredesataràsgar-galhadas.Dizem queelequandosezangava nunca gri-tava nem sedescontrolava. Éverdade?Sim.Podiaficardesgostoso,desapontadoouindignado,masnuncalevantavaavoz.Lem-bro-me de uma vez ter sido eu a levantar avoz contra ele. Tinha uns 17 anos e aquilodeveter-lhedoídoimenso.Eelesódissecomuma voz baixa mas ferida: “Já viste como équeestásafalarparaoteupai?”Sentiqueti-nhacometidoumaincrívelinjustiça.Dei-lhelogoumgrandeabraçoachorarderemorsos.tremimealíder,queacharaque,como“filhadodito-cujo”,eu“tinhaaobrigação”desatis-fazercertoscritériosquenadacondiziamcomapessoaqueeuera.Osermãoqueajovemjul-gouserboaideiapregar-meresultounomeurápidoafastamento.Foiogolpefatal.Játinhaaversão ao fanatismo do lado direito. E ago-racomessa, tinha-me apercebido que fana-tismonãotinhapreferênciapartidária.Equeindivíduosdessetiposemeteriamnaminhavidaseeuosdeixasse.Oseupaicontava-lhehistóriasdoquepassouna clandestinidadeou na prisão?Nunca. Só me contava essas histórias se eulhepedisse.Umdia,quandojáviviaemPor-tugal,fuiaocinemacomunsamigosverumfilmede1973,chamadoPapillon.Acertaaltu-ra,oSteveMcQueen,queestavadetidonumaprisão numa ilha, calcula o movimento dasondas do mar para escapar sem ser atiradocontraasrochas.Foidepoisdeverofilmequepediao meupaiparamecontarcomo tinhafugido daprisão dePeniche. Deviater14ou15 anos. Já tinha lido e ouvido falar sobre afuga, mas ahistóriacontadaporeledeu-meessasensaçãodeviverumfilme.AAnaviviacomamãe.Disse-sedurantemui-tosanosqueoseupaimoravanumpaláciodopartidona estrada doPaçodoLumiar.Issoéumaficçãoquesóquemnãoconheceuomeupaipodeacreditar.Elenuncairiaviverparaumpalácio,nemqueoobrigassem.Mes-mo quando lhe ofereciam privilégios recu-sousempre. Vivianumacasamodesta, masarranjadacomgosto,nazonadeRiodeMou-ro. Amobíliaerasimples ebaratamas boni-ta. Tinhanasparedesquadrosmaravilhososdo meuavô Avelino, desenhos meus efoto-grafiasdosmeusavós,minhas,daminhatiaedosmeusprimos. Emcimadamesinhadecabeceira,tinhafotografiasdaFernandaBar-roso[asuasegundamulher].Nãoeramretra-tos tirados por um fotógrafo num estúdio.Emcasa,omeupaitinhaumlaboratóriofotográfico.Ensinou-metudooqueseisobrefotografiaantesdaeradigitalEramfotosapretoebranco,tiradaserevela-dasporeleouoferecidaspelairmã:gargalha-das entre família, passeios à beira-mar, osmeusprimosnarelvadeumparque,euafa-zercaretas…Naquelaépocaomeupaitinhaumapequenadivisão dacasatransformadaemlaboratóriofotográfico.Ensinou-metudooqueseisobrefotografiaantesdaeradigital.Coleccionavalivros dearte. Gostavadearte-sanato português. Cozinhavadeliciosos pe-tiscos.Lavavaaroupadele(eaminha,quan-doeupassavaofim-de-semanaemcasadele).Nunca teve uma empregada, não por umaquestãodesegurançamas porumaquestãodeprincípio.Dizia-se que ele a ia buscar com uma boina,para disfarçara cabeleira branca...Erasobretudoeuqueo“iabuscar”.IatercomeleaoCentrodeTrabalhodoPCPeeletenta-vasairmaiscedoeíamosdarumavoltaatéàO secretário-geraldo PCPtinhauma enormeadoração pela filha.Aproveitava osmomentos livrespara passearcom ela pelaserra de Sintraou vero pôr-do-solna praiado GuinchoLUSAAKG/ATLÂNTICOPRESStt
  • 6. 54 2 JUNHO 2010 SÁBADOSintra. Gostava do mar, do cheiro de mare-sia,dosomdasondasedoassobiodovento.E seestávamos porpertonãoperdiaaopor-tunidadedeestarconnosco.Eledissenumaentrevistaqueerabomdança-rino.Algumavezoviudançar?Não. Mas ouvi-o várias vezes fazer grandeselogios às faculdades de dançarino do Mi-chaelJackson.Sempreelogiouartistascomta-lento.EleachavaquetudooquevinhadosEstadosUnidoseramauouestavareceptivoaaspec-tosda cultura americana?Bebíamos Coca-Cola se nos apetecesse. Seos netos estivessemdevisita,haviasempreuma garrafa de dois litros no frigorífico emais umaou duas de reservanadespensa.Apreciávamosumbomfilme,dosquaismui-tos eram americanos. Gostávamos de Ste-ven Spielberg, adorávamos os Simpsons.Casei-me com um americano e o meu paigostavaimenso deleevice-versa.VivemosactualmentenosEstadosUnidos.Claroqueseopunhaapolíticasinvasivasemilitaristas.E não gostava da faceta monopolizante dosistemacapitalista.Masissonadatinhaavercomoresto.Nacabeçadomeupaiascoisasnuncaforama“pretoebranco”.Eraumho-memde convicções, mas tinhaconsciênciadacomplexidadedas coisas.O queaconteceu aoespóliodele? Ficou paraa família ou foi entregueaopartido?Foi-meentregue.Deixou-metudooquetinhadematerialeimaterial.Paraquemmedirari-quezaapenas emvalormonetário,direiquenão foinenhumafortuna. Mas paraquemamediremvalorespiritual, emocionaleinte-lectual, posso afirmarque herdeiumtesou-rodeumvaloretamanhoinigualáveis.Qual era a relaçãodelecom odinheiro?Davatudooquetinha.Viviaegastavamuitomodestamente.Como é que ele reagiu ao saber que ia seravô?Apoiou-mecompletamente.Eleera realmenteum avôbabado?Avôepaibabado.Orgulhava-semuitodenós.Dizia-me sempre: “Vou ter de ir buscar umlençolparalimpartodaestababa”...umlen-çonãochegaria.Porqueéquedecidiu vivernoestrangeiro?Numadasminhasviagensdemochilaàscos-taspelaEuropadescobriacidadedeGante,naBélgica.Deviateruns18anos.Foiamoràpri-meiravista.Lembro-medeterpensado:“Umdiavireiviverparaaqui”. Efui.Em quepaísesviveu?União Soviética, Roménia, Portugal, BélgicaeEstadosUnidos.Quegénerodecontactomantinham?Escrevia-me.Telefonava-me.EuvinhaaPor-tugalsemprequepodia.Eleia visitar-vospara estarcom osnetos?Éramos nós que o vínhamos visitar. Assim,aproveitávamosparavisitarafamíliatodadeLisboa. Ficou com eles duas ou três vezes.Numa dessas vezes levou-os ao Centro Co-mercialdeCascaisparacomerpipocas,ham-búrguereseiraocinema.Umdia,quandoes-tava só com a Fernanda [Barroso] e com omaisnovo,omeupaipediuaonetoparade-senharo quequeriaalmoçar. Depois prepa-rou-lheopetiscotalequaleguardouprecio-Umdiapediuaonetoparadesenharoquequeriaalmoçar.Depoispreparou-lheopetiscoeguardouodesenhosamenteo desenho, queestavamuito bom.Maistardemostrava-o,orgulhoso.Ondeéqueeleia passarférias?DevezemquandoiaaMonteGordo.IaaLa-gossódepassagemparaespreitarapraiadaDonaAna,dequesempregostou.Eletransportouparaavidaem“liberdade”oshábitosdosanosda clandestinidade?Sóalguns.Masteveboasrazõesparaofazer.Ninguémgostadeserreconhecidoeaborda-domilvezespordia.Privacidadeéumarega-liaparaquemquasenuncaatinha.Eletinhaumaimagempúblicadeumhomemduro. Era assim em privado?Algumaspessoasconfundemdurocomcoe-rente,responsável,íntegro,corajosoesince-ro.Eletinhaumavisãoparaonossomundo.Deutudooquetinhaeoquenãotinhaparaalcançar esse sonho. Nessa visão havia me-nosinjustiça,maisigualdade,maisrespeito.As pessoas podem ou não estar de acordocomoqueelequeria– aliás,sempreparaosoutros e nuncaparasi–, mas daíadizeremqueeleeraumhomemduro… Nunca.Mui-topelocontrário.Eletinhamomentosdedescontracçãoouatéostemposlivreseram dedicadosà política?Temposlivreseramtemposlivres.Desenha-vae pintavaquando podia. Gostavade mú-sicaclássica, de documentários sobre avidaselvagem,deliteratura,depasseiosàserradeÁlvaro Cunhalenviava paraa filha caricaturasde gatose bandadesenhada.Em casa tinhaquadros seus,do seu paie desenhosda filhae de um netoRUIOLIVEIRAAVANTEt
  • 7. DESTAQUE56A30 de Abril de 1974, Álvaro Cu-nhal recebeu o primeiro banhodemultidãoapós13anosdeexí-lio, 11 de prisão e oito de clan-destinidade. Tinha acabado dedesembarcar no aeroporto de Lisboa, vin-do deParis. Erao último dos principais di-rigentespolíticosaregressaraPortugalapóso 25 de Abril. Emocionado, disse a CarlosBrito:“Conseguisteumaboamobilização.”Momentos depois estava a subir para umcarro de combate paraagradeceros aplau-sos. Foi uma recepção apoteótica. Mas foitambémummomentobreve.Poucodepoisentrou numa espécie de semiclandestini-dadequedurantedécadas manteveemse-gredo tudo o que dizia respeito à sua vidapessoal.Umdosgrandesmistérioseraasuacasa.O líder comunista aparecia em público,mas poucos sabiam onde vivia. Nos pri-meiros dias depois do seu regresso ficoualojadonacasadeMariadasDoresMedei-ros e Ivo Madeira. Depois, o Partido Co-munista Português (PCP) arranjou-lheumacasanazonadeRio deMouro. Viveutambém perto dapraia– mas não se sabeexactamenteonde. Disse-oàjornalistaCa-tarina Pires numa entrevista para o livroCincoConversascomÁlvaroCunhal: “Quan-tas vezes não fui à praia logo cedo, antesdevirparaotrabalho. Vivianumsítioqueme permitia de passagem sair do carro eiràpraiaeestaraliumbocado.” Nos anos90 asuaresidênciaoficialeranaRuaSou-saMartins,n.º17,emLisboa– queeraafi-nal a casa da irmã e onde nunca terá vivi-do. Só no fim da vida a sua morada nosOlivais foi conhecida.As deslocações também eram compli-cadas. Mudava de carro entre um local eoutro por questões de segurança. “O Paísesteve quase emguerracivil. O Álvaro eraDESTAQUENUNO TIAGO PINTOamado,mastambémodiado”,recordaDo-mingos Lopes, que foi secretário do lídercomunista quando ele era ministro sempastanoIIGovernoProvisório. “Conheci-o nessa altura. Era mais baixo e mais bar-rigudo do quepensava”, diz. “E mais des-contraído também. Chamou-meaS. Ben-to e perguntou-me se percebia algumacoisade Direito. Respondi-lhe que estavaa acabar o curso e ele disse-me: ‘Não foiissoqueperguntei. Pergunteisepercebiasalguma coisa de Direito [risos].’ Depoisquis saber se eu gostava de papéis. Res-pondiquenemporissoeeleconcluiu: ‘En-tão se calhar ficas aqui.’” Ficou.NAQUELA ÉPOCA, AS reuniões do Conse-lho de Ministros prolongavam-se pelamadrugada.Ossecretáriosficavamàespe-ra do final. E foi numa dessasocasiões que Domingos Lopesconheceuo “lado solidário” deÁlvaroCunhal.“Numadasnoi-tes encomendámos comidaparaduaspessoas–masacabá-mos por ficar uns quatro. Foiquando o Álvaro apareceu parajantar. Aoverquetínhamospoucacomida,dissequejá tinha jantado e que o Vasco Gonçalvestinha pedido leitão e não sei que mais.Poucodepoistocouotelefone.EradoCon-selho de Ministros para saber se o Álvarojá estava despachado porque tinha desci-do paracomerconnosco.”Por vezes, as reuniões de trabalho nasededo PCP tambémduravamatédema-ApósasreuniõesnoPCP,dormiaumashorasnosbelichesepassavaasuacamisaaferroConsideravaoamordacompanheirauma“granderiqueza”.Gostavadecozinharearrumavaopratoquandoacabavadejantar.E nãodeixavaumasenhorasegurar-lheaportaA vidadeÁlvaronaintimidadeHISTÓRIA.A13DEJUNHOPASSAMCINCOANOSDAMORTEDECUNHAL2 JUNHO 2010 SÁBADO
  • 8. drugada. Nessas ocasiões, Álvaro Cunhalnem iaacasa. Dormiaalgumas horas nosbeliches dos seguranças e até foi visto apassaraferro aprópriacamisa. Aprendeuafazertodas as tarefas domésticas duran-te a clandestinidade. Manteve os hábitosno exílio emMoscovo, onde, entre1961 e1964, viveu num apartamento perto doÁlvaro Cunhal(1913-2005),fotografadonaentradadasededoPartidoComunistaPortuguês,naRuaSoeiroPereiraGomes,em1981Palácio dos Pioneiros com a companhei-ra,IsauraMoreira,eafilharecém-nascida,Ana. “Sempre que acabávamos de almo-çar,oÁlvarolevantava-se,lavavaoseupra-to e arrumava-o”, conta à SÁBADO LuísaBasto, que na época estudava na capitalsoviética.A MULHER QUE AINDA em Moscovo gra-vou a primeira versão de Avante Camara-da tornou-sevisitahabitualdafamíliaCu-nhal. O secretário-geral do PCP afeiçoou-se a ela. Tanto que considerava Luísa suaafilhada. Foiele, aliás, quemlhe escolheuo pseudónimo quando elachegouaMos-covo–oseuverdadeironomeéÚrsulaLo-bato. Elavia-ocomoumpai. “Estavasem-pre preocupado connosco, se estávamosbem e se suportávamos o frio. Obrigava-nos a limpar as solas dos sapatos para ti-rarogeloeversetinhamburacos. E às ve-zes tinham”, diz.tRUIOCHOAPUB
  • 9. DESTAQUE58 2 JUNHO 2010 SÁBADOOconvívioterminouquandoÁlvaroCu-nhal e a companheira se separaram, porvolta de 1965. Isaura Moreira (que aindahoje é funcionária do PCP) e a filha, Ana,mudaram-se paraBucareste, na Romé-nia. O secretário-ge-ral do PCP dividia-seentre Praga, Mosco-voeParis. Massóporquestõesdetrabalho.A sua cabeça estavaemBucareste. Passa-va horas a desenharcaricaturasdegatosea traduzir As Aventu-rasdeSofia,umaban-da desenhada belga,queenviavaparaafi-lha. E reservava osmeses de Verão parapassarférias napraiacom ela.FoinasededaRuaSoeiroPereiraGomesque, nos primeirosanos da década de1980, o líder comu-nista passou váriasvezes a véspera deNatal. Fazia questãode estar com os seguranças que ficavamde serviço. “Estivemos lá com ele muitasvezes. Jantávamos emcasaedepois íamoslátercomos miúdos”, recordaLuísaBas-to. “À meia-noite comíamos umas fatiasdouradas e umas gambas com eles. O Ál-varo reconhecia a lealdade daqueles ho-mens, que eram capazes de se pôr à fren-te de uma bala porele”, diz João Fernan-do, o companheiro deLuísa Basto. “Masquando lá chegáva-mos ele queria era sa-ber dos miúdos. Brin-cava com eles e quan-do estavam cansadosia deitá-los nos sofás.De cinco emcinco mi-nutosiaverseestavambem”,contaaafilhadade Cunhal.Emparalelo,manti-nhaumcódigodecon-duta que mesmo nopróprio partido eravistocomodemasiadorígido. “Não recebiaofertas, a menos quefossem consideradasofertas ao partido, aquem competia deci-dir o destino que lhesdava. Não assistia aolançamento de livros(...) para não dar a ideia de alguma prefe-rência por parte do partido. Não aceitava,obviamente, convites para almoçar nemparajantaremcasadecamaradas paranãoparecer que era o partido a fazer distin-ções. Mas podia aceitá-los de artistas ouintelectuais amigos do partido, pois nes-se caso entendia-os como trabalho políti-co”, revelaCarlos Britoem Álvaro Cunhal, SeteFôlegos do Combatente.As sucessivas espe-culações sobre os mis-térios dasuavidaleva-ram-no a revelar umpouco de si numa en-trevista a Joaquim Le-tria,noprogramaDirec-tíssimo,naRTP2,a15deNovembro de 1978. Aídisse levar uma vidanormal: “Pagoosmeusimpostos, descontopara a Previdência, ga-nhoumsaláriomensal,como funcionário domeu partido, de 7.533escudos [que corres-ponderiahojea517,77euros], salário que éigualparatodos os quenele trabalham.”No entanto, muitasdas suas despesas, como as deslocações e acasaondevivia, eramsuportadas pelo PCP.Até o fato de fazendainglesae agravatadeseda com que se apresentou no programatinhamsido oferecidas ao partido.NÃOENRIQUECEU napolítica. “Eradeumaintegridadeincrível. Sefosseprecisotinhaumtratamento VIP e o Brejnevarranjava-lhe umavião privado. Mas o que deixaderiqueza são os livros e as pinturas”, dizDomingos Lopes. A fi-lha, Ana Cunhal, con-firma.“Davatudooquetinha. Vivia e gastavamuitomodestamente”,diz à SÁBADO.Ana Cunhal regres-soucomamãeaPortu-gal no Verão de 1974.FoiinscritanoLiceuCa-mões, onde depressacorreu a notícia de que era filha do lídercomunista. Ananãogostavadeseralvodacuriosidade dos colegas e chegou a faltaràs aulas. Naquelaépoca,osecretário-geraldoPCPtinhaumaagendapreenchida.Masnão escondia a preocupação com a filhaaos mais próximos. “Ele tinha uma ado-O edifício dos Olivaisonde o lídercomunistaviveu nos últimos anosde vida; à direita, nojardim do TorelAS CASAS DE ÁLVARO CUNHALCONHECIDAS APÓS O 25 DE ABRILO LÍDER COMUNISTASEMPRE MANTEVE ASUAMORADAEM SEGREDO. MESMO EM LIBERDADE• Quandoregressou a Portugal ficou nacasa deMaria dasDoresMedeiroseIvoMadeira –um antigopontodeapoiodoPCP• Maistarde,opartidoarranjou-lheuma casa na zona deRiodeMouro• Numa entrevista nosanos90dissequeviveu pertoda praia,ondepara-va a caminhodotrabalho• Garantiu quemorava na Rua SousaMartins,nº17,em Lisboa –queera a casa da irmã• Sópertodofim da vidaa sua morada foi conhe-cida: era na Rua deBenguela,nosOlivaisNunca tivenenhumamigo fascista.Mas não souapenas amigode camaradasdo meupartido. Sou-oe sou capazde sê-lo depessoas quetêm opiniõesmuito críticasem relação aconcepções eposições doPCPenaturalmenteàs minhasCinco Conversascom Álvaro Cunhal1999Aliança é coisaque emnenhumascondiçõesusariaAntena 1Sem Margem2 de Junho de 1981ttLUSARUIOCHOA
  • 10. 60 2 JUNHO 2010 SÁBADOraçãoenormepelaAnitaechegouapedir-me para falar com ela porque estavaapreensivo”, recorda Helena Neves, ex-membro do ComitéCentraldo Partido Co-munistae que naépo-ca era casada com ochefe de gabinete deCunhal, Joaquim Gor-jão Duarte. “Acho quefuncionou.” Domingos Lopes acrescenta:“Chegueiaverlivros debandadesenhadaque ele fez para a filha.”AnaiatercomopaiaoCentrodeTraba-lhodoPCPeeletentavasairmaiscedoparapassearem,discretamente.Defendiaaomá-ximo a sua privacidade.Por várias vezes ÁlvaroCunhalrecusoumostraracasaefotografiasdein-fância, como faziam oslíderes de outros parti-dos. Gabava-se disso.Foicomsurpresaquedecidiuquebraressare-gra numa entrevistaconduzida por CarlosCruz, na RTP2, a 6 deNovembrode1991. “Es-távamosafalardosecre-tismodasuavidaquan-do ele abriu a bolsinhapretaque traziasempree tirou uma fotografiadafilhaedos netos”,re-corda o apresentador àSÁBADO.A sua relação comFernanda Barroso foimantidaemsegredodu-rante anos. Os dois te-rão começado a namorar no fim da déca-da de 70. Nos primeiros anos só os maispróximos souberam da relação. “Ele sen-tianecessidadedefalardelaefazia-o comuns quantos camaradas com quem tinhamais intimidade, mas sempre arranjandouns certos pretextos detrabalho”,recordaCarlos BritoemÁlvaroCunhal,SeteFôlegosdo Combatente. “Um dia (...) veio pergun-tar-me se sabiase aFernandajátinhaidoàUniãoSoviética. Começavaassim: ‘Aque-la camarada da DORL [Direcção da Orga-nização Regional de Lisboa]...’ E eu, feitomanhoso, perguntava: ‘AMarília?’ Entãoele ládiziaruborizado: ‘Não, aFernanda.’Sugeriquelhetelefonasse.Respondeuquejálhetinhatelefonadonessediaenãoque-ria insistir, senão o que é que as camara-das dos telefones iampensar. Ora, játodaa gente sabia dos telefonemas, que eramcomentados com sorrisos de simpatia.”Mas nãoeramsó as telefonistas asaberdo romance. “Começámos a suspeitarquandoela,queeradoMovimentoDemo-crático das Mulheres, passou a aparecermais vezes naSoeiroPereiraGomes. O Ál-varo era naturalmente cordial. Mas comelaeramenos quandoestavamvárias mu-lheres. E nós percebemos essas coisas”,recorda Helena Neves.Asuaatençãoaospormenoresera também o que atraía muitasmilitantescomunistas.“Eramui-to sedutore sempre atento. Umavez entrevistei-o parao Avante! eele reparou que estava a tremer.Perguntou-melogooquesepassavaesees-tava bem. Às vezes esse interesse era malinterpretado”,lembraaantigamilitanteco-munista.ÁLVARO CUNHALe FernandaBarroso esti-veram juntos mais de 20 anos. Faziam fé-rias no Algarve, emMonteGordo. “Iaparaapraiacomo vai todaagente,iaemcabelo,por-que gosto de apanharsolnacabeça,semócu-los”,disseaCatarinaPi-res numa das entrevis-tas para o livro CincoConversascomÁlvaroCu-nhal. “E como muitasvezes fui para a praiacomumapessoapróxi-ma, que gosta de apa-nharconquilhas comodedodopénaareiaaes-tragar as unhas (...), euàs vezes também apanhava conquilhas.”Considerava o amor de Fernanda Barroso“umagranderiqueza”davida.Naentrevis-taaCarlosCruzafirmou:“Sechegasseàmi-nhaidade e não amasse estavamorto.”Cunhal tentava manteremsegredoonamoroecoravaquandofalava em FernandaHelenaNevesfoicasadacomochefedegabinetede Cunhal.DomingosLopesfoisecretárioeresponsávelpelasRelaçõesInternacionaisdoPCPCarlosBritorecordaemlivroepisódiospassadoscomCunhaldurantemaisde30anosSouapaixonadoporfutebolcomomagníficodesporto eespectáculo.Em jovem,joguei (...).Havia até umacontradiçãoentre a minhaorientaçãopolítica, deextrema--esquerda, e ometergolos...porque eu eraponta-direitaDiário deNotícias21 de Dezembrode 1996GostomuitodeiràscomprasTSF, GrandeJúri17de Outubro de 1992Ahomos-sexualidadeé uma coisatriste nasociedade,mesmo muitotriste, é umaopinião queeu tenhoRTP2, CarlosCruz–Quarta-Feira6 de Novembrode 1991ttFOTOSD.R.NATÁLIAFERRAZ/CM
  • 11. DESTAQUE62 2 JUNHO 2010 SÁBADO“Ele eramuito carinhoso comela”, con-taUrbanoTavaresRodrigues,amigodolíderhistórico comunista. “E ela também. Eraumarelação muito bonita.” O casal jantouvárias vezes nacasadoescritor,quesalien-ta o sentido de humor de Álvaro Cunhal.“PubliqueiolivroAFlordaUtopia,querepre-sentaas revoluções francesas de 1848 e deMaiode1968.QuandooliaoÁlvaroeledis-se:‘Émuitobonito,estámuitobemescrito,masnãoconcordonadacomisso.DeviaseraterescritosobreoOutubrorusso.’”No seulivro, Carlos Brito recordaoutrasituação, passada naChecoslováquia, em1967,antesdaconferên-cia dos Partidos Comu-nistas. Álvaro Cunhaljuntou-se ao grupo deportugueses e, com arsério, disse: “Estive apensar que a nossa de-legação não foi bem es-colhida.” Os três que oouviampuseramlogoolugar à disposição. Foiquando Cunhal obser-vou, com um sorriso:“Viemos paraumaCon-ferênciadePartidos Co-munistas da Europa,mas afinal de nós osquatro o único europeusou eu, o Manuel [Ro-drigues daSilva] nasceuno Brasil, a Cândida[Ventura] em Moçam-bique, o [Carlos] Britoem Moçambique.”Foiduranteas muitasviagens quealguns companheiros depar-tido conheceram melhor Álvaro Cunhal.“Falávamos das coisas mais incríveis.Lembro-me de que em Viena ele me fezuma descrição deslumbrante dos dese-nhosecaricaturasde[Pieter] Bruegel[pin-torholandês do Renascimento]”, lembraDomingos Lopes, que foi o responsávelpelas Relações Internacionais do PCP.Foi também em Praga que Carlos Bri-to descobriu o entusiasmo e os conheci-mentos de Cunhal sobre a gastronomiaportuguesa. “Sobretudo em relação aosnossos queijos e vinhos”, escreve no seulivro. “Passámos um jantar, no hotel dopartido, afalar de queijos. (...) No diase-guinte foi-nos servido um almoço só dequeijos.” JáCarlos Carvalhas garantequea cultura gastronómica deCunhaleramuito mais vasta:“Semprequesaíamos emini-ciativas partidárias ele sabiaexactamente o que se comiaem cada região.”O CONHECIMENTOeratambémpassado àprática. Alémdeapreciador,ÁlvaroCunhalera bom cozinheiro. Carlos Carvalhas re-corda um prato de “salsichas injectadascom molho”. O próprio líder comunistaadmitiu que faziauns óptimos pastéis debacalhau. Domingos Lopes lembra-se davez em que lhe ofereceu um pato e decomo Cunhal lhe des-creveu ao pormenorcomo o preparou: “Sóse queixou de ter tidode o depenar.”Normalmentealmo-çavanacantinado par-tido, na Soeiro PereiraGomes. Ia para a filacomo os restantes “ca-maradas” e sentava-secomoseutabuleiro. Devez em quando fre-quentavarestaurantes.O da afilhada LuísaBasto, o Forno de Cima, no Pragal, Alma-da, eraumdeles. “Nemperguntavao quehavia. Comia o que vinha para a mesa. Ebebia um copo de vinho branco.”Também gostava imenso de cinema.“Adorava Ingmar Bergman, Visconti eTarkovsky. Mas também filmes america-nos.TinhaumagrandeadmiraçãopeloPa-drinho I e II e pelo Era uma vezna América,No Verão ia para a praia deMonte Gordo. Gostava de andarao sol e apanhava conquilhasAsmulheresdavidadeCunhalnoseufuneral: acompanheiraFernanda,afilhaAna,eairmãEugéniaOsfilmesdeCunhalTINHA UMA VASTA CULTURA CINEMATOGRÁFI-CA E ADMIRAVA PRODUÇÕES DE HOLLYWOODCHOVESOBREONOSSOAMORIngmar Bergman, 1946SENTIMENTOLuchino Visconti, 1954OS ASSASSINOSAndrei Tarkovsky, 1958ACONTECEU NO OESTESergio Leone, 1968O PADRINHOFrancis Ford Coppola, 1972APOCALYPSENOWFrancis Ford Coppola, 1979ERA UMA VEZNA AMÉRICASergio Leone, 1984Não sou bomcontadordeanedotas, masconheço-ase aprecio-as.O humortambémdá riquezae sal à vidae às opiniõesDiário Insular2 de Maio de 1999Não perfilhoda ideia deque o homem,ao chegaracasa, se devasentara verna televisão ofutebol ou a lero jornal e digaà mulher:‘Traz-me umcopo de águaou prepara eserve o jantar.’Num casalé bonitoo homemcomparticiparcom a mulherna vidada casaDiário deNotícias11 de Fevereirode 1993ttFOTOSRICARDOPEREIRA
  • 12. DESTAQUE64 2 JUNHO 2010 SÁBADOdoSergioLeone.AtépeloApocalypseNow”,diz Helena Neves, que teve longos deba-tes comÁlvaro Cunhalsobre cinema. “Al-gunscamaradastinhampreconceitospelaviolência dos filmes americanos. Ele não.Tinha uma perspectivamuitomaisvasta.”Erafãde Steven Spielberg eWoodyAllen. E até gos-tava da série de anima-ção Os Simpsons.Os últimos anos dasuavidaforampassadosnoapartamentodosOli-vais. A casa pertenceu aJorgeAraújo, umdesta-cadomilitantedoPorto,membro do ComitéCentral,quenosanos90a doou ao PCP. ÁlvaroCunhal e FernandaBar-roso mudaram-se paralá no fim da década. Éumacasaespaçosa,comcerca de 200 m2 e quemenos de um ano após a sua morte foiocupada por outro membro do PCP: temtrêsquartos,umasala,umacozinhaeumapequena divisão que servia de escritório.Poucos fora do partido lá entraram.JUDITE DE SOUSA foi a única jornalistaque subiuao nono andardaqueleprédiona Rua de Benguela para a que viria a sera última entrevista televisiva de ÁlvaroCunhal. “A única coisa que ele me pediufoidiscrição emrelaçãoa imagens no interiorda casa”, diz a jornalis-ta da RTP. “Entrámosdirectamenteparaasalae a entrevista foi feitanumamesadepinho. Aumcantotinhaumape-quena mesa de apoiocomfotografias dafilhaedos netos eumapare-de com quadros quejulgo serem dele.”Foinaqueleescritórioqueescreveuosúltimoslivros. Fazia-oàmão. Nafase final da vida ditavapara a secretária, OlgaConstança. Urbano Ta-vares Rodrigues era dos poucos que po-diam ver os manuscritos antes de serempublicados. “Às vezes sugeria alterações,masnamaiorpartedasvezesdeixavacomoestava”, recorda.A maioria das pessoas mais próximasdo líder comunista estava ligada ao PCP.Álvaro Cunhal chegou a dizer que nuncateve nenhum amigo fascista. Mas manti-nha relações de amizade com alguns dosseus críticos eex-companheiros – exceptocomaqueles que o criticaramempúblico,oqueconsideravaumatraiçãopessoal.He-lenaNeves é umexemplo: “Umdiaestavanumaconsultade oftalmologiaquando omédicomedissequeoÁlvaroestavaláfora.Tinhasaído do partido eacheiqueelenãoia falar-me. Mas quando saí ele abraçou-me e beijou-me e à minha filha. Fez umagrande festa. Mais tarde, quando acabeiomestrado,telefonou-meadarosparabéns.E enviou-me um telegrama que vai ficarparaos meus netos.” A professorauniver-sitária tem uma explicação. “Quando saído PCP li uma carta no Comité Central enão volteiafalar disso naimprensa.”Afastado da política activa, Álvaro Cu-nhal pôde dedicar-se àpinturaeàescrita. Mastambém à educaçãodos mais novos. “Umdia a minha filha tevedefazerumtrabalhodegrupo sobre o 25 deAbril e ele aceitou aju-dar”,contaDoraCarva-lho, a porteira do pré-dio. “Foram cinco me-ninas lá para casa edurante mais de uma hora ele explicou-lhes tudo. As miúdas vieram encantadas.E tiveram Excelente.”Álvaro Cunhalnão faziavidade bairro.Só saía de casa para apanhar um táxi. EraFernandaBarroso,quemorreuumanode-pois dele, em 2006, quem ia à merceariaque ficano bloco de apartamen-tos comprar os produtos do dia.Porvezes,traziaparacasaalgunsbolos. Olídercomunistanão. Cu-nhalresguardava-seaomáximo.Cumprimentava educadamentetodos os vizinhos e,mesmocomquase 90 anos, mantinha o charme quelhe foi reconhecido durante toda a vida.Numa das últimas vezes que saiu de casasozinho,cruzou-secomavizinhadolado,Sofia Pereira. Desceram juntos no eleva-dore,quandoamulherseantecipouequisabrir-lhe a porta, Álvaro Cunhal lançou:“Minhasenhora,umasenhoranãomese-gura a porta.”ÁlvaroCunhalerafãdeStevenSpielbergeWoodyAllen.EgostavadasérieOsSimpsonsÁlvaro Cunhal teveum tratamento VIPna União Soviética.Se precisasse,Brejnevarranjava--lhe um aviãoprivado. Mas nãoenriqueceu napolíticaEu tambémfui um grandefumador,agora nãofumo. Mastambém fumeimuito. Achoque é umdisparate.[Fumei]muitos,muitos. Demata-ratosa outrosAntena 1Sem Margem2 de Junho de 1981Admiti nãoacordardaanestesia oumorreremconsequênciada operação.Testamentonão fiz. Masdeixei últimasvontades.Estive umanoite inteira aescreverRTP-2, CarlosCruz–Quarta-Feira6 de Novembrode 1991Amorsem sexonãochegaa seramor.Esexosemamorésexobem pobreCinco Conversascom Álvaro Cunhal1999tAFPAKG/ATLÂNTICOPRESS