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ApresentaçãO Gestar Ii Palestra
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ApresentaçãO Gestar Ii Palestra

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Transcript

  • 1. A BATALHA DOS  MÉTODOS Marlene Carvalho
  • 2. Numa rua de um subúrbio,  uma menina, sentada à porta  de casa, olhava um livro  ilustrado. Perto dali havia  uma escola normal e  passavam muitas jovens que  se preparavam para ser  professoras.
  • 3.  Uma delas parou com o  livro nas  mãos e disse: ­Que gracinha! ­Me conta  a história? ­Não, primeiro você tem que aprender  a ler. Quer que eu te ensine?  Olhando o título, a jovem apontou: ­A, o, e, u, i, o. Não, assim não. Melhor  assim: a,e,i, o, u. 
  • 4. A criança olhou desconsolada  e pediu novamente para ouvir  a história. A futura  professora não desistiu. ­Veja, é fácil: a com i faz ai!  Como você fala quando sente  uma dor. E e com u faz eu! E  apontava para o próprio  peito, dizendo: eu, ai! Eu, ai! 
  • 5. Um pouco assustada, a criança  desviou o olhar e abriu o livro.  A normalista aborreceu­se e foi  para aula de Métodos e técnicas  de alfabetização contar para a  professora que tinha   encontrado uma pobre criança  que era um caso típico de falta  de prontidão para a leitura.
  • 6.  Logo depois  passou outra jovem e perguntou: ­O que você está lendo? ­Não sei ler. Me conta a história? ­Vou ensinar você  a ler. Como é seu nome? ­Betinha. ­Não, isso é seu apelido. Como é seu nome? A menina pensou um pouco e olhou Desolada para o livro: ­Me conta a história? ­Só se você me disser seu nome ­Elisabete Maria de Oliveira. ­Ah, bom. Então vamos ver.
  • 7.  Puxando um caderninho da bolsa, a  moça escreveu Elisabete e deu à  criança. ­Aqui está o seu nome:ELISABETE.  Vamos ver apontando com o dedinho.  Apontando as nove letras, a menina  leu: E­li­sa­be­te Ma­ri­a de O­li­vei­ra. A jovem ficou  embatucada e anotou a  resposta para ir perguntar como  interpretá­la à professora de  psicogênese da língua escrita. ­Tchau, querida! Outro dia eu te ensino,  ok?
  • 8.  Não demorou muito, passou outra jovem  simpática e a criança lhe pediu:  ­Me conta a história!  ­Que gracinha! Eu conto se você me responder  umas perguntas.  A criança olhou ressabiada.  ­Você já sabe as letras do alfabeto?  ­Não.  ­Você conhece as famílias silábicas?  ­Quê?   ­Deixa pra lá. Me diga uma palavra que começa  com pa. Por exemplo: pato, papai, palácio.  ­Rei, princesa.  ­Quê?
  • 9.  ­Palácio, rei, princesa.  A futura professora suspirou. Saiu dali  muito triste, achando que a menina era  muito bonitinha, mas não tinha  discriminação auditiva.  Daí a meia hora, passou um professor  de gramática, cansado e meio calvo,  andando devagar. A menina resolveu  tentar a sorte.
  • 10.  ­ Me conta a história?  ­ Não é assim: fale de novo: conta­me a  história.  ­Hum?  ­Conta­me a história eu disse.  ­mas eu não sei ler.  ­Não, não é você que deve contá­la. Aliás,  minha pobre criança, você nem sabe falar.
  • 11.  A menina fechou o livro com força e fez  uma careta de nojo para o gramático. Ele  respondeu:  ­Atrevida! Analfabeta! Iletrada! Anômala!  Anojosa! Anacoluto! E retirou­se, muito  satisfeito de possuir um vasto vocabulário  para qualificar a pirralha.  Passou um tempinho, veio pela calçada  uma professora de sociolinguística, com  seu gravador a tiracolo, e a menina  resolveu tentar a sorte:  ­Tia, me conta a história?
  • 12.  Fala de novo meu bem, disse a professora  e ligou o gravador. Estava fazendo uma  pesquisa sobre dialetos das classes  populares do subúrbio do Rio, de modo que  não podia perder a chance de gravar a fala  de uma criança.  ­Que que é isso?   ­ Um gravador. Vou gravar o que você  falar. Vamos conversar. Quantos anos você  tem?  ­Me conta a história?  Depois eu conto. Converse um pouco  comigo.
  • 13.  ­Quero a história.  ­Você me conta uma história. Eu gravo,  depois passo tudo para o papel, pego a  sua história e aí...  Mas a professora não pode concluir: a  menina já estava longe, pulando num  pé só, fora do alcance da pesquisadora.
  • 14.  Na esquina, encontrou o vendedor de cocadas que  fazia ponto perto da escola normal. Pouco  movimento, tarde parada. O vendedor olhou para  a menina com o livro e perguntou:  ­Já leu esse livro? 
  • 15.  Não, lê pra mim? Disse a menina sem  muita esperança de ser atendida.  ­Hum, deixa eu ver.  O rapaz abriu o livro. Foi lendo devagar,  como possível, pois tinha aprendido a ler  mal e mal há muito tempo atrás.  ­Era uma vez, uma menina chamada   Chapeuzinho Vermelho. Um dia, a mãe  dela cha­cha­mou­a e disse...
  • 16.  A menina deu um suspiro de prazer  e sentou no muro da escola para  ouvir  a  história. Lá dentro, alguém  dava aulas sobre métodos de  alfabetização. 

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