História da Pornografia

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História da Pornografia - Presentation Transcript

  1. A PORNOGRAFIA E A INTERNET TEORIA DA COMUNICAÇÃO Universidade da Beira Interior Ciências da Comunicação Trabalho realizado por: 1ºano 2006/2007 Maio 2007 André Ventura Filipa Machado Joana Violante Liliana Monteiro Marta Rodrigues Nuno Santos
  2. ÍNDICE INTRODUÇÃO.................................................................................................................................................... 3 CONCEITOS E DEFINIÇÕES DE DICIONÁRIOS E ENCICLOPÉDIAS ............................................ 5 HISTÓRIA DA MANIFESTAÇÃO E DO CONDICIONAMENTO DA SEXUALIDADE ............... 8 PORNOGRAFIA COMO NEGÓCIO.......................................................................................................... 15 QUESTÕES DE LEGISLAÇÃO ................................................................................................................... 16 CONCLUSÃO .................................................................................................................................................. 17 BIBLIOGRAFIA................................................................................................................................................ 18 LINKGRAFIA.................................................................................................................................................... 18 2
  3. INTRODUÇÃO Intimamente ligada aos confins da sexualidade humana, os dados existentes (e conhecidos até agora) relativos à pornografia nas suas diferentes formas têm já séculos, senão mesmo milhares de anos. Segundo consta, as primeiras representações da nudez e sexualidade humana remontam, mais precisamente, ao período pré-histórico (no período do Paleolítico, que teve início há mais de 2 milhões de anos atrás). Através de pinturas, de esculturas, da fotografia, do vídeo ou da literatura, o Homem sempre procurou manifestar uma espécie de culto da sexualidade (hoje, o facto de a palavra sexo ser a mais procurada no motor de busca online Google é, um pouco, exemplo disso mesmo). Entre essas manifestações encontramos geralmente dois géneros essenciais: o erotismo e a pornografia. Estes dois conceitos, embora partilhem uma mesma História, foram sofrendo diferentes evoluções ao longo do tempo, fruto do desenvolvimento das sociedades, e também das mentalidades que se foram despontando com essa evolução cultural. Convém assinalar as diferenças mais significativas, entre esses dois conceitos, que são geralmente apontadas (muito embora haja quem diga que essas mesmas diferenças ou não existem, ou são praticamente nulas). A pornografia é geralmente definida como uma representação clara e explícita de práticas sexuais, que tem como objectivo principal “despertar” a libido do observador/espectador, independentemente dos meios dos quais se socorre para fazer isso. Há quem a considere obscena, perversa, doentia. Já o erotismo, é geralmente colocado num patamar bastante diferente daquele que é normalmente atribuído à pornografia. O erotismo surge mais ligado à estética sexual (enquanto forma artística). Embora represente, também, muitas cenas explícitas, assume um carácter mais discreto, muito menos agressivo quando comparado à pornografia. No entanto, estas representações foram sofrendo diversas influências e transformações, e assumindo diferentes formas. A título de exemplo, podemos ver como a imagem da mulher, que pode ser tratada na pornografia ou no erotismo como uma questão central. Numa abordagem histórica, encontramos duas posições opostas sobre a figura feminina: uma que defende que a mulher adquire um estatuto de “musa”, de culto (como acontecia na pré-história, por exemplo); noutra encontra-se uma figura feminina inferiorizada, subjugada, desvalorizada, explorada (como acontece um pouco no “panorama” pornográfico actual). Os vários movimentos feministas, apesar do seu objectivo comum em relação à figura da mulher emancipada na 3
  4. sociedade, foram adoptando (cada um à sua maneira) estes dois pontos de vista relativamente à imagem que fazemos da mulher. Estas e outras manifestações foram sendo directamente influenciadas, por um lado, pelos meios e ferramentas que o Homem foi arranjando, ao longo dos tempos, para se exprimir; e por outro lado, pelos contextos psicológicos, sociais, éticos, morais em que esteve inserido e que em muito determinaram (e determinam) o modo como encaramos a sexualidade nas suas diferentes manifestações. Por mais instintiva que seja a sexualidade, não nos podemos esquecer que o lado racional do ser humano sempre tentou assumir uma certa atitude de controlo sobre os seus instintos. Com o aparecimento da Internet, a divulgação de conteúdos pornográficos encarou uma mudança exponencial. O desenvolvimento da World Wide Web (WWW) a partir de 1991, mais a enorme expansão que esta teve nos anos que se seguiram permitiu abrir portas a novas oportunidades de acesso à pornografia, de forma generalizada, independentemente dos tipos de utilizadores (hoje, pessoas que legalmente ou socialmente estão proibidas de aceder a este tipo de conteúdos, deixam de o estar quando o fazem na Internet, usando-a como uma espécie de máscara). Podemos afirmar que a Internet se assumiu, nos últimos anos, como o meio de divulgação, por excelência, da pornografia. Isto fez com que a própria pornografia se tenha tornado num negócio virtual altamente rentável para as empresas e empresários que o gerem. A web está, hoje, inundada de sites e conteúdos pornográficos, Uma vez que a Internet é um meio de comunicação internacional, torna-se complicado atingir um consenso quanto à legislação a tomar em relação a isso. É praticamente impossível alcançar uma lei abrangente a todos os países, e nisto o Direito Internacional peca no que consta a legislar sobre a própria Internet e os seus conteúdos. A pornografia apresenta-se assim (em termos de legislação) como uma questão bastante delicada, à semelhança do que acontece com outros temas como a droga, a prostituição, o aborto ou a eutanásia, etc., em que não existem regras iguais para todos os países. O propósito deste trabalho é desenvolver todas estas questões ligadas à pornografia, que hoje em dia é ainda um tema bastante polémico e susceptível de ferir muitas sensibilidades, tentando interpretar as muitas contradições que este tema oferece, como por exemplo, o carácter paradoxal de ser um “tema-tabu” ao mesmo tempo que é um dos negócios mais rentáveis da Internet. A pornografia surge assim como um problema sobre o qual muitos têm problemas em falar, omitindo, muitas vezes, a sua verdadeira opinião, mas a que muitos recorrem, independentemente dos motivos. 4
  5. CONCEITOS E DEFINIÇÕES DE DICIONÁRIOS E ENCICLOPÉDIAS Haverá diferenças entre pornografia e erotismo? Ou serão duas palavras, que, na prática, terão o mesmo significado? Estas questões ainda permanecem opacas e difusas no senso comum, onde o tabu muitas vezes impera sobre a análise cuidada destes termos. Tende- -se a criar uma homogeneização destes termos no seio da sociedade actual. Porém, se analisarmos mais pormenorizadamente a semântica destes dois termos descobriremos alguns aspectos que os distinguem por completo. Por um lado temos o erotismo, que diz respeito a um amor sexual obcecado pela sensualidade e luxúria. Um amor que diz mais respeito ao amor e paixão pelo corpo do que ao carácter subjectivo da palavra amor em si. A palavra erotismo leva-nos também para a dimensão da representação da sexualidade baseada no estímulo, e não no acto. Além de possuir uma componente associada à estética sexual, ao domínio artístico. Por outro, deparamo-nos com o termo pornografia, que aponta para uma representação da sexualidade obscura, explícita, obscena; muitas vezes associada à submissão e à disponibilidade da mulher para o acto sexual. De acordo com vários dicionários, abaixo mencionados, será possível analisar mais atentamente o significado destas duas palavras que tanta confusão causam. NOVA ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA, Ediclube, Lisboa, 1991 Erotismo: 1. Aptidão para o amor sexualizado. Obsessão da sensualidade chegando a atingir a lascívia 2. Exaltação frequente acompanhada de descrição, amor, em especial físico. Neste aspecto o erotismo tem sido o responsável por grande parte da criação estética, quer literária, quer visual. No entanto, incide não sobre o objecto explicitamente representado, mas sobre o estímulo. Pornografia: 1. Genero de representação de temas ou assuntos considerados obscenos. Sempre difícil de distinguir do erotismo, cujo conteúdo pertence mais ao domínio artístico. THE OXFORD CLASSICAL DICTIONARY , Oxford University Press, New York (USA), 1996 Pornography: 1. has been defined as material which presents people – particulary women – as mute, available, available, and subordinate sexual objects, often shown in a context of violence. In its most extreme form, pornography theory argues that all representation produced by men in patriarchal societies is, by very definition, pornographic. In antiquity the rare term pornographos is used to in 5
  6. a far more limited sense, to mean a writer about, or a painter of, whores. (...) It is possible to read homosexual images on Athenian vases as more 'romantic' in tone than the heterosexual images. Erotic wall paintings from cities such as Pompeii were once used to define buildings as brothels, but it is now clear that erotic wall paintings as exemplars were found on the walls of private houses as well. DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, Temas e Debates, Lisboa (Portugal), 2001 Pornografia: 1. estudo da prostituição. 2. colecção de pinturas ou gravuras obscenas 3. característica do que fere o pudor (numa publicação, num filme, etc.) 4. qualquer coisa feita com o intuito de ser pornográfico, de explorar o sexo tratado de maneira obscena, como atractivo (p.ex., revistas, fotorafias, filmes, etc.). 5. (1899) violação ao pudor, ao recato, à reserva, socialmente exigidos em matéria sexual; indecência, libertinagem, imoralidade. Erotismo: 1. estado de excitação sexual. 2. tendência para experimentar a excitação sexual mais prontamente que a média das pessoas. 3. tendência para se ocupar com ou de exaltar o sexo em literatura, arte ou doutrina. 4. estado de paixão amorosa. DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA 2006 , Porto Editora, Porto (Portugal), 2006 Pornografia: 1. representação de elementos de cariz sexual explícito, sobretudo quando considerados obscenos, em textos, fotografias, publicações, filmes, ou outros suportes. 2. produção de filmes, revistas ou outros elementos de cariz sexual explícito, considerada como uma indústria. Erotismo: 1. atribuição de carga erótica; qualidade do que desperta o desejo sexual. 2. amor sensual; sensualidade. 3. (livro, filme, etc.) presença ou manifestação da sexualidade. 4. PSICANÁLISE aptidão da excitação e da actividade de certas zonas corporais para se acompanharem de prazer sexual (erotismo genital, oral, cutâneo, etc.). 5. interesse ou desejo sexual frequente e invulgar. 6
  7. (ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA) DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA, Editorial Verbo, Lisboa (Portugal), 2001 Pornografia: 1. tratado acerca da prostituição. 2. representação de situações obscenas sob a forma de texto, desenho, fotografia, encenação ... com o objectivo de despertar e excitar a líbido. 3. devassidão, libertinagem. Erotismo: 1. carácter do que é relativo ao amor sensual 2. qualidade do que apela ao prazer dos sentidos ou suscita o desejo sexual. 3. presença ou manifestação da sexualidade de forma explícita; alusão de carácter licencioso. 4. preocupação de ordem sexual patalogicamente exagerada. 5. Psicologia aptidão de certas zonas corporais erógenas de causar prazer sexual. 7
  8. HISTÓRIA DA MANIFESTAÇÃO E DO CONDICIONAMENTO DA SEXUALIDADE As primeiras representações da sexualidade datam da era pré-histórica, do período Paleolítico. Não se sabe se estas representações seriam feitas para a obtenção de prazer. As linhas e as formas das estatuetas exageravam as proporções de todo o corpo feminino, entre as quais as partes/zonas erógenas. A mulher era, nesta altura, venerada. Supõe-se que estas representações pretendiam exercer uma função de culto da sexualidade e da fertilidade, uma vez que o Homem tinha consciência da sua total dependência da mulher para garantir a reprodução e, consequentemente, a continuidade da espécie. Isto evidencia a necessidade que o Homem sempre teve, como sempre o demonstrou, de representar a sexualidade nas suas diferentes formas. A escultura foi, no período pré-histórico, o meio mais usado para fazer isto. A viragem do pensamento humano no mundo helénico representou um salto gigante no que diz respeito à importância que o Homem dava à sexualidade, e à maneira como manifestava isso. Na arte grega, eram constantes as obras relacionadas (directa ou indirectamente) com a sexualidade humana. Os principais meios de expressão utilizados foram as esculturas, os vasos, pinturas murais, etc. Representavam, na sua maioria, corpos nus que caracterizavam a perfeição física da figura humana. Eram também inúmeras as influências da sexualidade em toda a cultura grega, que se baseava, e muito, no princípio do prazer e da satisfação pessoal (patente, por exemplo, na filosofia epicurista, que defendia que o prazer é o objectivo máximo do Homem). Eram, digamos assim, obcecados pelo culto da perfeição e da harmonia, do belo, do corpo humano. Vemos isso na arte, como o vemos no cuidado que os gregos tinham com o corpo, na forma religiosa como praticavam e cultivavam o desporto. A importância assumida pela cultura grega é visível ainda hoje, por exemplo, na noção que os gregos tinham do belo – igual (ou, pelo menos, muito semelhante) àquela que temos enraizada, ainda hoje, na mentalidade ocidental. A estética grega (assim como muitos outros elementos político-culturais) manteve- se, assim, bem viva ao longo dos muitos séculos que decorreram desde então. A cultura romana, também ela, baseou-se imenso na cultura helénica. Mais uma vez, o culto da figura humana nua assumiu grande destaque. De notar, aliás, que grande parte (senão a larga maioria) das esculturas romanas eram cópias integrais das gregas, extremamente admiradas (e intensamente estudadas e copiadas) pelos romanos. No que respeita à representação da sexualidade, podemos, com efeito, concluir que a escultura foi, uma vez mais, o principal meio 8
  9. utilizado pelos artistas romanos, de acordo com regras e princípios que pouco diferiram daqueles que eram utilizados pelos gregos; a par de outros meios como o desenho e a pintura (como o exemplo de Pompeia, na imagem), ou ainda a literatura (caso de Ovídio, célebre poeta romano, que entre outros escritos, organizou uma espécie de “manual sexual”, onde tenta orientar casais e amantes no que diz respeito à sua vida conjugal e sexual; refere ainda, na mesma obra, locais onde encontrar e abordar “os mais belos parceiros” da capital romana). Muito embora a arte romana tenha apresentado um carácter essencialmente bélico, servindo para glorificar sobretudo os triunfos militares e a supremacia da civilização romana e dos líderes; em detrimento da figura humana, que, em comparação à cultura grega, assumiu muito menor protagonismo na arte. O Kamasutra, talvez o livro mais famoso no que diz respeito à sexualidade (pode-se quase dizer que é uma verdadeiro “manual” de práticas sexuais), é, ao contrário do que se possa pensar, antiquíssimo. Os primeiros escritos relativos à obra datam (vejamos só) do século 2 d.C., e nela já constavam mais de 500 posições sexuais diferentes tendo sido redigido na Índia. O autor acreditava que a sexualidade era uma obra divina, e, como tal, devia assumir um estatuto “sagrado”. Na Idade Média, a representação visual da sexualidade, como toda a sexualidade enquanto meio de obtenção de prazer, foi altamente reprimida. Foi, por assim dizer, um período “negro”, um período das “trevas”, na história da representação da sexualidade. Não convém esquecer a influência social e política que a Igreja teve neste período. A castidade, como forma de demonstrar devoção a Deus (e à própria Igreja) era tida como um princípio absoluto, essencial, na vida pessoal de cada um (note-se, aliás, que um dos sete pecados mortais é a luxúria, quer seja material, quer seja carnal). A Inquisição, como nos mostra a História, não deixava escapar muitas excepções a esta regra. A “perversidade” sexual era punida com a morte na fogueira. A partir de certa altura, até na própria arte medieval (de índole sobretudo religiosa), a Inquisição fez notar a sua influência: era proibida a representação da imagem do corpo humano nu, incluindo nos próprios retratos das figuras cimeiras ligadas à Igreja e à sua doutrina, como é o caso do próprio Jesus Cristo, e de muitos outros santos. Os meios de divulgação da pornografia eram nesta altura escassos e representavam um verdadeiro acto de coragem contra a ordem estabelecida, uma vez que colocavam em risco a vida do sujeito que o fazia. Resumiam-se essencialmente ao relato oral (feito sobretudo por viajantes e andarilhos, em locais como tabernas e outros, onde narravam experiências sexuais tais como o desfloramento de mulheres virgens, aventuras com mulheres esbeltas, orgias, etc). Existiu também alguma literatura de índole erótica e sexual, que foi, como é 9
  10. óbvio, violentamente reprimida pelas instituições medievais. Muitos foram os artistas que morreram nas célebres fogueiras da Inquisição durante este período. Outros meios artísticos populares e mais comuns nesta altura, como é o caso da pintura, encontravam-se submetidos a rígidos cânones, mais uma vez por influência directa da Igreja Católica; o que explica o facto de a expressão da sexualidade estar presente sobretudo na oralidade, entre as camadas mais baixas da sociedade medieval – as populares. Durante a época dos Descobrimentos, Portugal abriu-se ao mundo graças ao contacto com outras culturas, com outras pessoas, com outras mentalidades. Todo este rol de acontecimentos representou uma novidade, que levou ao aparecimento de uma nova dimensão/visão (entre outras coisas) da sexualidade, resultado da mistura que houve com outros povos e raças; e que levou, como consequência, a uma miscigenação, ou seja, a um cruzamento de diferentes raças (que caracteriza aquilo que aconteceu, por exemplo, no Brasil). Todos estes factores levaram a uma abertura de mentalidades no que toca ao assunto da sexualidade. A título de curiosidade, observemos a passagem da Ilha dos amores, n’Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões: depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia, os “heróicos” navegadores portugueses teriam uma “merecida” recompensa na Ilha dos Amores – um maravilhoso banquete e, mais importante ainda, esbeltas mulheres à sua espera. Em 1434 apareceu, graças a Gutenberg, um mecanismo que permitiu pela primeira vez uma impressão fidedigna e reutilizável. Muito mais duradouros do que os seus precedentes caracteres de madeira não reutilizáveis. A descoberta da Imprensa é tida como uma das invenções mais importantes de toda a história da humanidade, uma vez que permitiu a impressão de livros, de maneira muito mais veloz, sem ser necessário recorrer à mão humana, como se verificava até então. Antes desta invenção os livros eram escritos por alunos, monges ou escribas, levando meses até estarem concluídos. Todo este trabalho tornava os livros algo raros, só acessíveis às classes mais altas da hierarquia social. Isto levou, assim, a uma descentralização do conhecimento, e influenciando, em última instância, o aparecimento de ideais vindouros, como foi o caso do movimento que se seguiu: o Renascimento. Lynn Hunt organizou uma colectânea de ensaios que têm como título A Invenção da Pornografia – A obscenidade e as origens da modernidade, onde pretende investigar a cultura erótica e o seu aparecimento na sociedade moderna. Segundo Hunt, toda esta emancipação da cultura do “obsceno” se deve à invenção de Gutenberg, que permitiu a impressão de imagens e textos pornográficos a um preço mais acessível a todas as camadas sociais. No Renascimento dá-se uma alteração profunda da mentalidade europeia, assente numa forte crítica à era medieval e a todo o seu “obscurantismo”. Esta alteração fundou-se um bocado na descentralização da figura de Deus como hélice do Universo. O Homem passa então a ser considerado o centro do cosmos (visão antropocêntrica). Houve um verdadeiro “renascimento” de aspectos 10
  11. culturais da época clássica greco-latina, resultado dum fascínio que os renascentistas sentiam por toda a cultura clássica. O nu e o corpo humano ressurgiram nas mais variadas formas de arte. A rigidez clássica volta a ser uma regra: harmonia e perfeição são, novamente, um princípio e uma finalidade de toda a arte. No entanto, ao contrário do que acontecia na Grécia (onde vingava o culto do paganismo), esta representação encontrava-se agora influenciada pela religião cristã (apesar da visão antropocêntrica). No período posterior ao Renascimento, existiram importantes movimentos político-culturais e artísticos, como é o caso do Absolutismo, do Iluminismo, do Romantismo (na arte), do Liberalismo. Movimentos esses que influenciaram, e muito, as bases da política e de toda a cultura moderna ocidental que hoje temos. No entanto, a representação da figura humana surgiu quase sempre associada aos grandes ideais humanistas (contrários ao contexto absolutista que os antecedeu, e que motivou o seu aparecimento) tão exaltados durante os séculos em que decorreram estes movimentos. Ideais como o famoso “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (elementos-chave do ideário da Revolução Francesa, também ela directamente influenciada pelas ideias iluministas do século XVIII) foram, por outro lado, espelhados um pouco por toda a arte. Uma vez mais, a arte reflecte por inteiro as condições sócio-culturais em que se desenvolve. A figura humana nua continua a aparecer em algumas pinturas, mas desta vez com uma função sobretudo simbólica, estando associada aos ideais que a obra tenta reproduzir/representar. Na obra acima representada, “A Liberdade guiando o Povo” (da autoria do pintor francês Eugene Delacroix), um dos mais célebres e emblemáticos exemplares artísticos do período romântico, vemos a figura central que uma mulher (Mariane), parcialmente nua, assume ao erguer a bandeira francesa à frente de todos as outras figuras humanas representadas. A bandeira, segura (e não devido a mero acaso) por essa mulher, representa a luta pela conquista do ideal supremo da Liberdade. A própria mulher surge, supondo 11
  12. por aquilo que está (e como está) representado, associada à pureza do ideal libertino. Com a progressiva industrialização e massificação da sociedade e da cultura, e consequentemente com o seu avanço no domínio das tecnologias, a divulgação, assim como o acesso, de (e a) conteúdos de natureza sexual aumentou de maneira explosiva. Se a invenção da imprensa constituiu um elo de viragem no que diz respeito à descentralização do conhecimento, a industrialização e a progressiva massificação da sociedade acentuaram ainda mais esse processo de forma gradual. Grandes descobertas e concepções científicas davam-se, também nesta altura. Foi um período de grandes convulsões sociais, políticas, culturais. Uma nova conjuntura social e política, mais liberal no que diz respeito ao pensamento e à liberdade de expressão, mais aberta à pluralidade de ideias (deixam de existir condicionamentos dogmáticos de ordem religiosa), faz com que a sociedade europeia encare e tolere a sexualidade de maneira diferente, vendo-a de uma maneira mais natural. Como reflexo directo de toda esta “revolução tecnológico-cultural”, nascem as vanguardas artísticas 1 , decididas a romper com todas as regras, com todos os cânones artísticos dos clássicos e classicistas, recusando-as ou modificando- as sistematicamente à sua maneira. Entre os vários movimentos de vanguarda (que foram aparecendo desde o final do século XIX até às primeiras décadas do século XX) – Impressionismo, Fauvismo, Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo e Surrealismo –, aquele que mais nos interessa aqui é, sem dúvida, o Surrealismo, devido à enorme importância que atribuiu à sexualidade. Os artistas surrealistas, inspirados em grande parte pelas ideias revolucionárias de Freud, trataram de transpor essas mesmas ideias para as suas obras, tais como: o papel fundamental que a sexualidade desempenha em toda a vida humana, desde o momento do nascimento; o lado inconsciente do ser humano e o seu predomínio sobre o lado consciente; as pulsões, os impulsos, os instintos sexuais como força-motor de grande parte das acções humanas (conscientes e inconscientes), a valorização dos sonhos e da imaginação humana, etc. Obviamente, a exposição directa destas ideias através da pintura, da literatura, ou ainda através do recém-nascido cinema, causou grande escândalo nas mentalidades algo conservadoras que ainda vigoravam nesta época (a diferença é que nesta altura os artistas que iam contra a ordem vigente não morriam na fogueira; quanto muito, levavam uma cuspidela em cima). As duas guerras mundiais da primeira metade do século XX foram um dos elementos que mais fizeram mudar a mentalidade europeia. Além de serem períodos que se caracterizam por um elevado desenvolvimento tecnológico (que embora sirva, na sua fase inicial, fins bélicos, é aproveitado posteriormente para 1 “O termo vanguarda significa, no seu sentido literal, a \"primeira linha de um exército, em ordem de batalha\", a \"guarda avançada que abre a marcha\", \"o corpo militar que vai à frente\". Na arte, passou a referir-se aos artistas que se colocam culturalmente à frente do seu tempo, abrindo o caminho a novas ideias, a novas mentalidades, a novas culturas. A arte de vanguarda procura romper com toda a concepção artística e cultural até então vigente. Apresenta-se como uma revolução cultural que busca novas estruturas, estéticas e pensamentos.” (in DICIOPÉDIA X, Porto Editora,2006) 12
  13. fins civis), não é por acaso que a década que se seguiu à Primeira Guerra Mundial [1914-1918] é conhecida por Loucos Anos 20. Mudam-se, por completo, entre as camadas mais jovens (que desafiam a ordem tradicional), os antigos padrões e hábitos de vida. Foi um período caracterizado pela filosofia do “Carpe Diem”: desejo de intensamente viver e de aproveitar da melhor maneira possível todos os momentos da vida. Para além disso, a rádio, massificada mais ou menos a partir desta altura, surge como um poderoso meio de comunicação. Mais tarde, com a Segunda Guerra Mundial [1939-1945], aconteceu um pouco a mesma coisa, não imediatamente, mas mais na década de 60. Nos anos 60, nova revolução nas mentalidades e no campo da sexualidade humana. É lançada para o mercado, exactamente em 1960, a primeira pílula contraceptiva, que teve, desde logo, um estrondoso sucesso a nível mundial. A mentalidade conservadora, ainda algo vigente no início do século, já quase não se fazia notar. Numa época em que a grande maioria da população ocidental era constituída por jovens, os movimentos estudantis assumem grande importância (não só mas também) na divulgação da sexualidade e da natureza profundamente sexual do ser humano. Outros movimentos, como os Hippies, defendiam exaustivamente uma total liberdade amorosa e sexual (em nome do bem-estar da alma), a par de outros ideais como o pacifismo (eram apolíticos). No cinema, Marilyn Monroe vinga como actriz e, sobretudo, como verdadeiro ícone sexual. Na música, é exaltada também a nova mentalidade juvenil. A televisão massifica-se. Pouco tempo depois, em 1972, foi feito o mais emblemático filme pornográfico de toda a história do cinema: Deep Throat (Garganta Funda). Provocou, como seria de esperar, grande polémica na altura em que saiu. Foi, no entanto, um enorme sucesso de bilheteira, sendo ainda, até hoje, o filme que mais dinheiro rendeu em toda a história do cinema pornográfico (estima-se que, a nível mundial, o lucro que obteve tenha superado os 600 milhões de dólares). Apesar da sua componente sexual (extremamente) explícita, o filme não tinha “objectivos” meramente lúdicos. Pretendia, entre outras coisas, quebrar alguns dos preconceitos morais que existiam (e que existem) relativamente à sexualidade e à sua manifestação explícita. No entanto, como podemos ver, aquilo que se seguiu no percurso “cinematográfico” da pornografia, ao contrário do que se passou com o Deep Throat, não teve (nem tem) grandes contornos “ideológicos”, por assim dizer; não costuma apresentar outros fins além dos lúdicos, relacionados com a excitação sexual propriamente dita; não tem uma mensagem implícita. Mais tarde, com o aparecimento da World Wide Web, em 1991, juntamente com a massificação do uso do computador e da Internet que se veio a verificar nos anos seguintes (a nível mundial), podemos dizer que o processo de divulgação da pornografia aumentou de forma brutal, aumentando também o consumo deste tipo de produtos conteúdos online. Resta tentar perceber o porquê deste crescimento. Por um lado, temos a questão da identidade. Antigamente, no que diz respeito a filmes pornográficos, o consumidor encontrava-se limitado aos clubes de vídeos e a outros sítios do género, estando a sua identidade mais 13
  14. directamente exposta. Com a Internet, a sua identidade pode ser, inclusivamente, disfarçada (como acontece nos casos em que menores de idade consultam sites pornográficos, mascarando a sua verdadeira identidade). Isto pode, no entanto, ser uma ilusão, uma vez que tudo aquilo que se faz num qualquer computador (sobretudo aquilo que se faz online) fica sempre registado em algum lado. O que não existe ainda são grandes mecanismos de controlo sobre os websites e sobre os conteúdos pornográficos digitais, à semelhança daquilo que já existe nas televisões públicas e na publicidade (e isto só para dar dois exemplos): um controlo sistemático sobre os conteúdos (entre os quais os de natureza sexual) que são passíveis de ferir determinadas susceptibilidades, sejam elas de que tipo forem. Por outro lado, o facto de a pornografia online se ter vindo a tornar, ao longo dos últimos anos, numa verdadeira indústria comercial massificada fez com que tenham sido criados inúmeros incentivos ao seu consumo, nem que este se dê de forma acidental (sendo isso visível, por exemplo, na imensa publicidade pornográfica que encontramos um pouco por toda a Web). Esta “industrialização” da pornografia deu-se, numa primeira fase (a inicial), de forma gratuita. Contudo, nos últimos anos, a tendência tem-se revelado cada vez mais no sentido de os conteúdos pornográficos serem cada vez menos acessíveis gratuitamente – daí o facto de esta indústria online se ter tornado, também ela, num negócio. Um negócio que por sinal se tem revelado um dos mais lucrativos de toda a Internet, senão o mais rentável. 14
  15. PORNOGRAFIA COMO NEGÓCIO Graças à Internet, a pornografia viu concretizada a possibilidade de uma expansão à escala global, sem restrições nem fronteiras. Os internautas (ao que parece) responderam positivamente, e o negócio da pornografia atingiu números impressionantes. Vejamos estas estatísticas recolhidas de alguns sites que fizeram estudos na matéria: 12% do total dos websites são de conteúdos pornográficos; 25% das pesquisas efectuadas são relativas à pornografia; 35% dos downloads efectuados na Internet são de pornografia; A cada segundo que passa 28.258 internautas estão, em média, a ver pornografia; Gastam-se 89 dólares norte-americanos por segundo em pornografia; Surgem 266 novos sites de pornografia por dia; “Sex” é a palavra mais pesquisada na Internet; Os resultados financeiros dos EUA em pornografia na Internet são 2.84 mil milhões de dólares; Estima-se que existam cerca de 372 milhões de sites pornográficos Estima-se que os americanos gastem de 7 a 14 biliões de dólares por ano em material pornográfico Com estes dados não é muito difícil chegar à conclusão que a pornografia é, hoje, um negócio altamente rentável, com público suficiente para a sua oferta. Por isso, mesmo que consideremos a pornografia algo de obsceno e ofensivo não nos é possível colocar de parte a sua importância financeira. 15
  16. QUESTÕES DE LEGISLAÇÃO No panorama internacional a legislação respeitante à pornografia online é, no conjunto da maioria dos países, semelhante. Normalmente, verifica-se uma restrição: o seu acesso é condicionado pela idade (normalmente, no mínimo 18 anos). Nos países europeus (onde está incluído Portugal) a legislação que diz respeito à pornografia assemelha-se ao que acontece na maior parte do globo. Ou seja, a regra geral diz que o acesso é apenas restrito a menores de 18 anos. Existem, no entanto, países em que a pornografia foi completamente banida. É o caso de países como a China, Cuba, Malásia, Indonésia, entre outros países. Nos Estados Unidos da América (maior produtor de pornografia mundial, com cerca de 89% da totalidade dos sites pornográficos existentes a nível mundial), a legislação, além de proibir a visualização de pornografia por menores de 18 anos, proíbe também toda e qualquer transmissão de material, entre utilizadores, que possa ser considerado obsceno e ofensivo. Porém, toda esta legislação em vigor poderá ser facilmente contornada graças ao anonimato e à difícil identificação do utilizador de Internet. Como tal, nos E.U.A está a ser desenvolvido um sistema chamado Adult Check I.D., que permitirá identificar os utilizadores recorrendo a uma base de dados online com informações que poderão confirmar (ou não) a autenticidade desses mesmos utilizadores. 16
  17. CONCLUSÃO Depois de tudo isto, parece haver poucas conclusões a tirar. Por um lado, como já constatámos, a representação da sexualidade humana sempre esteve presente (praticamente) desde os primórdios existenciais do ser humano, que sempre arranjou maneiras de a expressar, quer isso tenha acontecido através de meios artesanais como a escultura ou a pintura, quer tenha sido através de meios tecnológicos e digitais como o vídeo ou a fotografia, quer tenha sido através da literatura; e por aí em diante. A Internet, como também já vimos, representou um ponto de viragem fulcral no que diz respeito ao modo como a pornografia é encarada, ao mesmo tempo que é visualizada (e apreciada). A pornografia assume-se, assim, como uma questão muito controversa, que apresenta um carácter extremamente paradoxal. Se por um lado, sempre representou uma faceta da sexualidade da qual pouco há (supostamente) para falar; surge, por outro lado, como uma indústria e um negócio extremamente rentável. É a partir de paradoxos como este que precisamos de analisá-la, percebendo se o tema é aquela coisa tão insignificante a que muitos a reduzem. 17
  18. BIBLIOGRAFIA NOVA ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA, Ediclube, Lisboa, 1991 THE OXFORD CLASSICAL DICTIONARY, Oxford University Press, New York (USA), 1996 DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, Temas e Debates, Lisboa (Portugal), 2001 DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA 2006 , Porto Editora, Porto (Portugal), 2006 (ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA) DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA, Editorial Verbo, Lisboa (Portugal), 2001 LINKGRAFIA http://taniaafl.multiply.com/reviews/item/10 http://www.renatojanine.pro.br/TV/pornografia.html http://www.astrovates.com.br/tese/apornoar.htm http://2.0.bloguite.com/geral/pornografia-na-internet-video-da-good- apresenta-os-dados.html www.suaescolha.com/essay/toxica.html www.revistapsicologia.com.br/materias/pontoDeVista/erotismo_porno.htm http://en.wikipedia.org/wiki/Internet_pornography http://brazilianpress.locaweb.com.br/20070509/colunas/opiniao.htm http://en.wikipedia.org/wiki/Pornography_addiction http://www.cultsock.ndirect.co.uk/MUHome/cshtml/media/intregus.html 18

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