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  • 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS LARICE FERREIRA BARROS A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIANA FAN PAGE FORTALEZA NOBRE NO FACEBOOK FORTALEZA DEZEMBRO/ 2012
  • 2. LARICE FERREIRA BARROS A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIANA FAN PAGE FORTALEZA NOBRE NO FACEBOOK Monografia apresentada no Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Ciências Sociais. Orientador: Dr. Irapuan Peixoto Lima Filho FORTALEZA DEZEMBRO/ 2012 2
  • 3. LARICE FERREIRA BARROS A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA NA FAN PAGE FORTALEZA NOBRE NO FACEBOOK Monografia apresentada no Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará como requisito parcial para a obtenção de bacharel em Ciências Sociais. BANCA EXAMINADORA___________________________________________________________ Prof. Dr. Irapuan Peixoto Lima Filho (orientador)___________________________________________________________ Prof. Dr. Gerson Augusto de Oliveira Júnior___________________________________________________________ Prof. Dr. Hermano Machado Ferreira Lima 3
  • 4. AGRADECIMENTOSPrimeiramente, a Deus pelo dom da vida, por poder confiar em sua fidelidade, por serum refúgio nos momentos difíceis, por me ajudar a realizar um sonho.Aos meus pais, Maria e Francisco, pela dedicação, empenho e investimento; poracreditar em mim e se fazerem presentes em todos os momentos da minha vida. A vocêsa minha eterna gratidão.Ao Professor Dr. Irapuan Peixoto por toda dedicação, orientação e por me ajudar apesquisar um tema novo nas Ciências Sociais.A todos os professores da Universidade Estadual do Ceará (UECE), por todo oconhecimento e experiência compartilhada.À banca por todas as sugestões.Aos amigos da graduação, Gabi, Nadja, Saul, Karla, Thalita, Angícia, Bete e Filipe, porfazerem dos momentos na UECE os melhores possíveis.Aos amigos Sara, Andreza, Áquila, Lidiane, Ana Lídia, Ana Carla.A pessoas que são muitos importantes na minha vida, Edilene, Ivone, Angelita, Jéssica. 4
  • 5. RESUMOA Internet e as redes sociais têm proporcionado para os internautas possibilidades deconhecer mais sobre o passado, através dos arquivos de imagens, músicas e vídeos quedispõem, sendo comuns sites que se utilizam desses meios midiáticos para fazerempostagens sobre assuntos antigos. Anteriormente, todo esse acervo era visualizado emmuseus e exposições; agora estão disponíveis através de um click. Nessa pesquisa,analisou-se a rede social Facebook, que tem ganhado cada vez mais espaço nas relaçõessociais humanas, com mais de 1 bilhão de usuários em todo o mundo, e especificamentea fan page Fortaleza Nobre (FN), que é um espaço em que são compartilhadasimagens antigas de Fortaleza. Essa fanpage mostra diversos lugares, em diferentescontextos, além de postar publicações da mídia que mostram notícias antigas,propagandas de produtos, lojas e eventos que outrora eram realizados na cidade. Aspostagens que se referem aos espaços podem ser identificadas por meio de duascategorias: os espaços que não existem mais e os que existem, sendo estes subdivididosentre os que mudaram bastante e os que não mudaram quase nada. Os comentários dosinternautas nas postagens da página fazem referência a lembranças de grupos afetivos,dos espaços mais marcantes e das mudanças da época das fotos para a atualidade assimcomo ao saudosismo que reflete a exaltação do passado como melhor período para seviver. O objetivo desta pesquisa é saber como se dá a construção da memória na páginaFN, através dos usos da memória dos fortalezenses, a partir dos comentários que ficamgravados na rede. Na tentativa de perceber essa construção, analisou-se a página durante3 meses do ano de 2012 e visualizamos um número significativo de postagens ecomentários, procurando entender seus significados.PALAVRAS-CHAVE: Redes Sociais. Facebook. Fortaleza Nobre. Memória. 5
  • 6. ABSTRACTThe Internet and social networks have provided opportunities to know more about thepast, through files of images, music and vídeos. Most common are those sites that usethe media to make posts on old issues. Previously, this entire collection was displayedin museums and exhibitions, but now they are available via a click. In this research, isanalyzed the social network Facebook, which has gained more space in human socialrelations, with over one billion users worldwide, and specifically Fortaleza Nobre (FN)fanpage, that is a space in which people can share old images of Fortaleza. This fanpageshows different places, in different contexts, and posts publications that show old news,advertisements for products, stores and events that were once held in the city. The poststhat refer to the spaces can be identified through two categories: those spaces that nolonger exist and those there still existe. These ones are subdivided in those that havechanged a lot and in those that hardly changed. The netizens comments on posts refer toaffective memories, to the most striking spaces and changes in time as well as thenostalgia that reflects the excitement of the past as a better time to live. The objective ofthis research is to know how is the construction of memory on page, from the commentsthat are written in the network. In an attempt to understand this construction, the pagewas analyzed for 3 months of 2012 and envision a significant number of posts andcomments.KEY WORDS: Social networks. Facebook. Fortaleza Nobre. Memory. 6
  • 7. LISTA DE ILUSTRAÇÕESImagem 1- Fan page Fortaleza Nobre .................................................................. p.21Imagem 2- Cruzamento da Av. treze de maio com Av. da Universidade ............. p.23Imagem 3- Foto aérea do Castelo na década de 60 ............................................... p.24Imagem 4-Beira Mar em 1930 .............................................................................. p.25Imagem 5- Publicidade de evento no ano de 1965 ............................................... p.26Imagem 6- Santa Casa de Misericórdia passado e presente .................................. p.28Imagem 7- Colégio Rui Barbosa na Av. Imperador ............................................ p.34Imagem 8- Representação gráfica da cidade ........................................................ p.36Imagem 9- Imagem da página Pós- Graduando ................................................... p.43Imagem 10- Imagem da página Redes Sociais ..................................................... p.43Imagem 11- Imagem da página Redes Sociais ..................................................... p.47Imagem 12- Iracema Plazza Hotel no final dos anos 60 ...................................... p.51 7
  • 8. SUMÁRIO1. Introdução .......................................................................................... ............ p.091.1. Percursos da Pesquisa ...................... ................................................. ............ p.162. Fortaleza Nobre.................................................................................. ............ p.202.1. Imagens e Memória na Fortaleza Nobre ............................................ ............ p.212.2. Fotografia como Fonte de Pesquisa ................................................... ............ p.282.3. Memória e Interação dos membros .................................................... ............ p.303. Redes Sociais na Internet................................................................... ............ p.353.1. Contexto da Internet.......................................................................... ............ p.383.2. Redes Sociais na Internet ................................................................................. p.413.3 Facebook ........................................................................................................... p.444. A Construção da memória na Fan page Fortaleza Nobre ............................. p.485. Considerações Finais.......................................................................... ............ p.58Referências 8
  • 9. 1. INTRODUÇÃO Havia um castelo na cidade de Fortaleza, construído por volta de 1920,localizado na Avenida Santos Dumont com a Rua Monsenhor Bruno, “concretizado”por Plácido de Carvalho, empresário e industrial que queria impressionar sua esposa, aitaliana Maria Pierina Rossi que conhecera durante uma viagem à Europa. Omonumento era semelhante a outro visto pelo casal em Veneza e era condição da esposapara que viessem morar em Fortaleza. Inaugurada a construção, ali viveu o casal, numacasa que é comumente apontada pelos “mais antigos” como a mais bela que existia nacidade. Esta beleza arquitetônica não existe mais, porque foi demolida na década de1970 para construção de um supermercado. Anos depois, o espaço ficou abandonado e ogoverno construiu a Central de Artesanato Luiza Távora. Atualmente, ficou somente aimagem do castelo e a indignação de alguns pela não preservação do patrimônio,quando visualizam antigas ilustrações. A Praça do Ferreira, localizada no centro de Fortaleza, em uma imagem denovembro de 1952, revela a presença de muitas árvores completando seu entorno, depessoas andando tranquilamente, de bancos dispostos para um possível descanso eoportunidade para conversar e de muitos prédios ao redor, demonstrando que naqueleperíodo o centro já estava crescendo. Bem no centro da praça, já havia a Coluna daHora1. Daquele tempo para hoje, muitas mudanças ocorreram como o desaparecimentodas árvores, a diminuição do espaço devido à utilização da praça para outros fins, oaumento do fluxo de pessoas que andam na praça, devido ao comércio etc. O quepodemos perceber é a presença dos bancos, nos quais encontramos pessoas da terceiraidade conversando e outras sentadas, descansando um pouco: é um espaço importantepara nossa cidade. O cruzamento da Avenida da Universidade com a Avenida Treze de Maio, emuma fotografia de 1974, nos revela como era diferente de hoje. Possuía uma rotatóriaentre as duas avenidas assim como uma fonte, a Avenida da Universidade tinha sentidoduplo, havia muitas árvores na Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), já1 Inaugurada na virada dos anos de 1933 para 1934, foi projetada pelo engenheiro José Gonsalves daJusta, durante a gestão de Raimundo Girão. Em 1968, a praça foi radicalmente modificada e reformadatendo a Coluna removida. Porém, em 1991, a praça foi reformada, e atualmente, uma versão moderna dacoluna está localizada no centro da Praça do Ferreira. 9
  • 10. gradeada e carros circulando em seu entorno. Atualmente, não há mais a rotatória, osentido da Avenida da Universidade é único, o trânsito se encontra com mais carros e asárvores são poucas, mas o que permanece com poucas mudanças é o prédio da Reitoria. Os três exemplos acima são postagens que podem ser visualizadas na rede socialFacebook, através da fan page2 Fortaleza Nobre (FN). A página virtual inteira édedicada à visualização de imagens e fotografias “antigas”, que mostram prédios,praças, ruas e o cotidiano da cidade em tempos idos, sendo possível visualizar imagensque mostram diferentes épocas. A sequência de imagens nos faz conhecer a história e amemória de nossa cidade, possibilitando também interagir com pessoas que gostam deperíodos antigos e com outras que as viveram, nos trazendo detalhes interessantes deoutras épocas. O Facebook é uma rede social virtual, criada em 2004, por Mark Zuckerberg eamigos, no período em que estudavam em Harvard. Inicialmente, o uso era restrito aosalunos da universidade e tinha como finalidade criar uma rede de contato para osuniversitários — seria, então, uma maneira de os estudantes interagirem entre si.Posteriormente, a rede foi ampliada para escolas secundárias e para o público em geral.Atualmente, o site possui mais de 1 bilhão de usuários que o utilizam frequentemente. Para acessar o site, é necessário que o usuário faça um cadastro por meio de umlogin (nome) e uma senha, para em seguida preencher um perfil básico onde colocaalguns de seus dados pessoais. O usuário pode, assim, interagir no site, adicionandoamigos e comunidades, postando fotografias, enviando mensagens eletrônicas,estabelecendo bate-papos virtuais e compartilhando imagens, vídeos e o conteúdo deoutros sites. O site possui no perfil do usuário um mural com a frase “O que você estápensando?” e, através desse espaço, o internauta pode interagir, publicando frases epensamentos. Além disso, ele (ou ela) pode republicar — algo que ganha a terminologiade “compartilhar” — textos de outros sites, como os de notícias, por exemplo, ou o2 Fan page é a terminologia comumente usada para designar as páginas de fãs (fan pages), que existempara que as organizações, empresas, celebridades e bandas transmitam muitas informações aos seusseguidores ou ao público que escolher se conectar a elas. Semelhante aos perfis, as páginas podem seraprimoradas com aplicativos que ajudem as entidades a se comunicarem e interagirem com o seu públicoe adquirirem novos usuários por recomendações de amigos, históricos dos feeds de notícias, eventos doFacebook e muito mais (fonte: Facebook). 10
  • 11. conteúdo de blogs3, links das fan pages além de material em áudio ou vídeo de portaiscomo o YouTube4. O Facebook disponibiliza para os usuários o perfil, onde são colocadasinformações pessoais, e as fan pages, que são utilizadas por empresas e/ou pessoas quemovimentam algum assunto específico e querem “encontrar” e interagir com seupúblico. As diferenças entre elas são importantes: no perfil pessoal, é limitado o númerode amigos (5.000 mil), de envio de mensagens (no máximo 20), além de não se poderfazer customização da página; na Fan page, o número de internautas e mensagens éilimitado e há a possibilidade de mensurar dados estatísticos, a quantidade devisualizações e o número de pessoas que “curtiram” a página. Fortaleza Nobre (FN) se enquadra na categoria de fan page como foiexemplificado acima. Sua descrição no site é: “Tudo sobre a linda cidade de Fortaleza,suas praias, suas ruas, seus bairros históricos e seu povo acolhedor”. Para o internautaque procura ter acesso às comunidades e às outras páginas, é necessário apenas“curtir”5 a página, podendo assim, visualizar suas postagens no mural de seu perfilpessoal, diferentemente do Orkut que, para permitir que se soubesse dos novos tópicos6das comunidades, tornava necessário acessar o link das mesmas. Tendo em vista o grande número de usuários no mundo e no Brasil, que gira emtorno dos 54 milhões de usuários7, ficando atrás somente dos Estados Unidos,percebemos as novas relações sociais que nascem a partir do uso dessas redes virtuais.Dessa forma, faz-se necessário à Sociologia deter-se com atenção a esses novosfenômenos, com já fazem, há algum tempo, grandes sociólogos que nos ajudam arefletir sobre essa nova dinâmica social e de sociabilidade entre as pessoas,notadamente, nomes como Manuel Castells e Zygmunt Bauman. Vivemos em um mundo globalizado, onde os fluxos de pessoas, informações emercadorias estão interligando todo o globo. Com a Internet, temos um meio de3 Um blog é um espaço na web cuja estrutura permite, de uma forma simples e direta, o registrocronológico, frequente e imediato das opiniões, emoções, imagens, fatos, ou qualquer outro tipo deconteúdo à sua escolha.4 O You Tube é uma rede social que permitem a interação, principalmente, por meio de arquivos de vídeo.5 É uma das três formas (curtir, comentar e compartilhar) de interagir com as postagens, além dapossibilidade de adicionar páginas de interesse. Corresponde ao internauta publicizar que “gostou” dedeterminada postagem.6 Os tópicos eram uma das formas de interação nas comunidades do Orkut. A pessoa acessava o link dacomunidade e tinha um tópico, sempre relacionado a assunto específico, a partir do qual os internautascomeçava a colocar suas opiniões a respeito.7 Informação encontrada em http://www.acordacidade.com.br/noticias/96159/usuarios-brasileiros-do-facebook-superam-media-mundial-de-tempo-gasto-com-rede-social-.html. 11
  • 12. conectar os internautas que estão compartilhando vivências, experiências, opiniões ediscussões sobre o cotidiano. A reeleição de Barack Obama8 foi o assunto mais“tuitado” da história das redes sociais com mais 327 mil tweets por minuto9. Em algunspaíses árabes, ativistas políticos e a sociedade civil marcavam “atos” pela Internet,possibilitando organizar manifestações em países estritamente fechados, ajudando aformar o fenômeno social chamado de Primavera Árabe, em 2011. Castells (1999) foi um dos pioneiros a analisar o uso da Internet e é, até hoje, umdos mais importantes estudiosos do assunto. O autor aborda como a sociedade estáinteragindo em um mundo globalizado não só por meios eletrônicos, mas tambémintegrando todos os meios de comunicação, resultando em uma interatividade que mudae continuará mudando nossa cultura. O mesmo autor, em uma entrevista sobre a temática de redes, disse quevivenciamos um mundo de redes sociais e deu o exemplo de que a nossa realidade sefez virtual, pois as pessoas relacionam sua vida física com sua realidade na rede. Assim,quando acessamos um site, buscamos o que mais gostamos (comunidades, produtos,causas), compartilhamos elementos do cotidiano como notícias, músicas, elementosengraçados e coisas que nos trazem indignação também. O autor ainda completa,dizendo que “o que a Internet permitiu é a autoconstrução das redes de relação, daorganização social, e de redes de pensamento. É a primeira vez na história que seproduz uma autoconstrução da sociedade nessa escala”10. Bauman (2008) destaca um valor presente nas redes sociais: a visibilidade. “Osusuários ficam felizes por ‘revelarem detalhes íntimos de suas vidas pessoais’ [...]”(BAUMAN, 2008, p.8), como fotos, detalhes do cotidiano, fazendo da rede umconfessionário público. Essas “atividades” remetem às pessoas uma forma de serempercebidas, notadas por seus amigos. Dependendo da postagem, podem até mesmoganhar grande repercussão, ao serem muito compartilhadas entre os usuários. Algumaspessoas ficaram “famosas” devido ao sucesso de suas postagens.8 Barack Obama (1961-) é advogado e atual presidente dos Estados Unidos, tendo sido reeleito no mês denovembro de 2012, para mais um mandato de 4 anos. Sua primeira eleição, em 2008, também foi bastantecomentada nas redes sociais. Estudiosos de redes e política colocam que Obama, é um dos poucos quesabem utilizar as redes.9 O termos “tuitado” e “tweet” se referem a mensagens enviadas através da rede social Twitter, quecongrega diversos blogs de usuários. O diferencial do Twitter diz respeito à limitação imposta aos seususuários, que só podem publicar mensagens com, no máximo, 140 caracteres. Assim como o Facebook,para enviar ou receber um tweet, é necessário criar uma conta nesse site.10 Entrevista do autor disponível no site http://webmanario.com/2010/09/26/castells-a-rede-social-nao-e-uma-virtualidade-em-nossa-vida-e-nossa-realidade-que-se-fez-virtual/ 12
  • 13. Chris Rojek (2008) mostra que vivemos em um mundo em que “ser umacelebridade” é um tipo de objetivo na vida das pessoas mais comuns. Bauman (2008)também cita um caso interessante: Minha mãe é professora de uma escola primária, disse Corinne a um entrevistador, e quando ela pergunta aos meninos o que eles querem ser quando crescer, eles dizem: “famoso”. Ela pergunta por que motivo, eles respondem: “Não sei, só quero ser famoso”. Nesses sonhos, “ser famoso” não significada nada mais (mas também nada menos!) do que aparecer nas primeiras páginas de milhares de revistas e em milhões de telas, ser visto, notado, comentado e, portanto, presumivelmente, desejado por muitos – assim como sapatos, saias ou acessórios exibidos nas revistas luxuosas e nas telas de TV, e por isso vistos, notados, comentados, desejados... [...]. Numa sociedade de consumidores, tornar-se uma mercadoria desejável e desejada é a matéria de que são feitos os sonhos e os contos de fadas. (BAUMAN, 2008, pp. 21-22). A perspectiva do autor sobre compartilhar dados pessoais na Internet representauma maneira de se autopromover em um mercado simbólico de trocas. No mesmosentido, fala sobre sermos, em nossa sociedade, avaliados uns pelos outros por um tipode “senso de popularidade”, que vai marcar se estamos ou não adequados às novasformas de sociabilidade que se estabelecem no mundo contemporâneo. Bauman é, portanto, um dos autores que enxerga um componente negativo nocrescimento da Internet, pelo menos quanto ao risco de diminuição de espaços desociabilidade real. Insere-se, assim, dentro de um segundo grupo de pensadores sobre aInternet, segundo classificação realizada por Giddens (2009), que ressalta que existe umprimeiro grupo que crê que a rede mundial de computadores traz benefícios no sentidode que pode ampliar redes de sociabilidade (reais e não virtuais) preexistentes oumesmo criar novas. É neste sentido que podemos pensar os usos da memória por parte de habitantesde Fortaleza (ou de outros lugares) que acessam a fan page Fortaleza Nobre. Tendo emvista que sua “função” primordial é apresentar imagens “antigas” da cidade, FN é umaferramenta que nos coloca diretamente em contato com a categoria da memória, palcode tantos estudos da Sociologia e da História. A idéia de “resgate da memória” de tempos passados nos acompanhaconstantemente. Escutamos músicas que marcaram um período, lembramo-nos doscantores, dos costumes e das roupas. Recordamos também as etapas vividas, comoinfância, adolescência, juventude, e os diversos grupos de amigos que se fizeram 13
  • 14. presentes nas mais experiências mais marcantes. E os espaços? A escola, a Igreja, apraça, a casa, o bairro, todo eles tem uma importância para a convivência das pessoas. Um meio que possibilita o resgate da memória é a imagem. Através dela,visualizamos fotografias antigas, recordamos os momentos mais especiais comonascimentos, casamentos, aniversários, formaturas. Através delas, podemos, inclusive,conhecer o que não vivemos ou vimos devido à diferença do tempo, como lugares, ruase praças “de antigamente”. Sabemos que visualizar fotografias antigas nos remete à memória de umadeterminada época. Assim, nos fazemos perguntas e tecemos comentários do tipo:“como aconteceu isso naquela época?”, ou “como seria interessante ter presenciadoisso...”, ou “não nasci no tempo certo”. Voltamos àquele período mesmo sem ter nelenascido, porque a imagem nos permite acreditar que, em comparação com o presente,aqueles tempos eram melhores do que os atuais. O advento das redes sociais na Internet trouxe à tona muitas imagens que atéentão estavam esquecidas. Essas imagens agora estão disponíveis para qualquerinternauta que queira visualizá-las ou “baixá-las” em seu computador. Tal prática parecedeixar mais viva a lembrança de filmes, programas de televisão, objetos, costumes,muitas das vezes ressaltando em quem viveu determinada época sentimentos expressos,como se tivessem realmente sido felizes por ter vivenciado coisas boas. A página Fortaleza Nobre é um exemplo disso. Parte de seu acervo imagéticoadvém de coleções particulares que antes só eram acessíveis nos livros de História ouem locais específicos, como o Museu da Imagem e do Som (MIS)11. Agora, por meio dapostagem de tais imagens na rede, qualquer usuário do Facebook e/ou da página podenão apenas visualizá-las, mas guardá-las em seu computador, para contemplação oucoleção. Além disso, pode compartilhá-las com amigos por meio das ferramentas dosistema do site. No Facebook, existem várias páginas que fazem referência à memória e nasquais são celebrados filmes, músicas, artistas, lugares etc. A escolha por uma páginaque faz referência à memória da cidade de Fortaleza se dá porque esta página permitenão apenas a contemplação de espaços que podem ser conferidos no cotidiano porqualquer morador da cidade, como é o caso da pesquisadora, como também nos coloca11 O MIS era a antiga residência oficial do governador e está localizado, atualmente, na Avenida Barão deStudart, 410, Aldeota. Foi criado e implementado pela Secretaria da Cultura (Secult), desenvolvendo umadiversidade de atividades museológicas, nos âmbitos de ensino, pesquisa, antropologia cultural, culturapopular e expressões audiovisuais. 14
  • 15. dentro de uma realidade sociológica mais próxima e aferível, que possibilita um olharsociológico mais consolidado, menos ensaístico. Dentre muitas, três páginas mostram fotografias antigas da cidade de Fortaleza:a primeira, Fortaleza Nobre, analisada neste trabalho, é a maior e mais acessada; asegunda Fortaleza em Fotos, contém 2.881 pessoas que a “curtiram”; a terceira éCidade de Fortaleza nas Antigas que possuem 3.141 de internautas que “curtiram” afan page. Nesta pesquisa, estamos estudando os usos da memória, a partir doscomentários dos cidadãos de Fortaleza, visualizados na página FN, procurando perceberseus significados. A escolha da fan page se deu por ser a maior em relação às outrasduas citadas acima e pelo crescimento do número de internautas que “curtiram” apágina durante a pesquisa12. Além disso, a página foi o primeiro contato dapesquisadora com imagens antigas de Fortaleza, sendo interessante a organização daspostagens e o fato de ser movimentada diariamente. A participação dos internautas foi de suma importância, porque não adiantaria sea página fosse interessante e não houvesse a participação deles, seja nos comentáriosdas postagens, seja deixando mensagens perguntando sobre fotografias de umdeterminado lugar. A página fez um ano no dia 25 de outubro de 2012 e foi importanteperceber o desenvolvimento e as formas diferentes de postagens que nos levam avisualizar o passado. Em relação à memória de acontecimentos passados, existem outras páginas queabordam também essa temática, como o blog Ceará Nobre, que abrange conteúdos decidades, personalidades e acontecimentos cearenses, enriquecendo ainda mais amemória do nosso estado. Contamos também com o site do Nirez13, em que se pode terum contato com músicas antigas e visualizar imagens de instrumentos antigos. Estepesquisador possui um importante acervo de imagens da Fortaleza antiga, sendo grandeparte delas utilizada na fan page FN. A Internet disponibiliza um acervo com imagens, vídeos e canções que, emsimples acesso, nos permite entrar em contato com o passado. Tudo isso leva osinternautas a recordarem, por exemplo, no You Tube, os vídeos de músicas dos anos12 Em agosto de 2012 eram 5.741 pessoas “curtindo” a página FN, chegando a 6.417 em novembro domesmo ano.13 Miguel Ângelo de Azevedo Nirez é jornalista, historiador, pesquisador de música brasileira. Hojepossui uma das maiores coleções de discos de cera do país com mais de 22 mil exemplares e um acervocomposto por mais de 140 mil itens. Mantém no ar desde l963 o programa de rádio "Arquivo de Cera"que, após passar por várias emissoras, está, aos domingos pela manhã, na Rádio Universitária FM. 15
  • 16. 1960, 1970 e 1980, comentando algo como “Eu amo as músicas dos anos 80, não se fazmais músicas como antigamente”. As pessoas que desfrutaram da época relembramcom saudosismo e as que não haviam nascido ainda têm uma chance de conhecer esseperíodo, através das produções midiáticas como filmes e músicas. Compreendendo a importância da memória e percebendo o resgate da mesmaatravés das redes sociais, neste trabalho, adentraremos no site do Facebook,especificamente na página Fortaleza Nobre, a fim de entender o resgate da memóriaespacial da cidade, onde podemos observar as principais avenidas, colégios, pontosturísticos, praças, campanhas publicitárias, clubes, eventos, em períodos antigos comoem meados do século XX.1.1 Percursos da Pesquisa O tema desta monografia foi decidido, enquanto cursávamos o quinto semestre,por achar bastante interessante as redes sociais na Internet. Na adolescência,presenciamos o surgimento das redes com o Orkut, a primeira rede social utilizada pelosbrasileiros. Mandar scraps14, deixar um depoimento para um amigo, adicionarcomunidades, postar fotos e vídeos, tudo isso ganhou muita repercussão e os brasileirosse entregaram a essa nova sociabilidade através da Internet. A geração de brasileiros nascidos em fins dos anos 1980 e começo dos anos1990 não sofreu grande influência das mídias eletrônicas, até a sua adolescência.Lembramos quando fizemos a primeira conta no Orkut e que, no início, só se podia teracesso à rede através de convite pessoal. Logo, quando fizemos a conta, fomosprocurando amigos para adicioná-los e as comunidades dos assuntos que maisgostávamos. A partir de então, era comum entre os adolescentes destinar a melhorfotografia para o perfil do Orkut. Com o advento das redes sociais, boa parte de nossa vida social em festas eencontros estão sendo registrados e arquivados em álbuns, em alguma rede social.Assim, percebemos a importância da fotografia: ela consegue congelar nossasimpressões e momentos vividos, posteriormente nos fazendo lembrá-los. O cotidiano possui uma nova configuração: está sendo confessado ao público,como diz Bauman (2008). Quase tudo está sendo registrado e, através dessas novas14 Scrap era o nome dado, pelos usuários do Orkut, para a mensagem deixada no perfil de algum amigo. 16
  • 17. mídias eletrônicas, coisas simples ganham visibilidade, como um passeio, uma festa, umencontro, uma música, pensamentos e indignações, que são compartilhados diariamentena Internet. Então, o que começou com o Orkut, em uma forma de adicionar gostos epreferências e de enviar imagens, ganhou espaço também no Facebook e no Twitter. Oprimeiro nos remete a muitas possibilidades de análise como questões que envolvemidentidade, representação, sociabilidade, memória, imagens, comunicação etc. Aspróprias ferramentas do site (curtir, comentar, compartilhar, linha do tempo) nos levama várias compreensões de como os internautas interagem com o cotidiano. Então, era necessário um recorte mais específico dentro do Facebook e surge ointeresse pela página FN, que permite a análise da memória a partir das fotografias ecomentários dos internautas. Assim, algumas questões vieram à mente: O que nosenvolve ao voltar ao passado? Por que o passado é tão evocado em relação ao presente?Serão as lembranças que foram deixadas por um lugar, ou grupo de pessoas? Quaisimagens seriam mais relevantes na página FN para os internautas? Como, através dessasmídias, as pessoas podem interagir a respeito da memória de nossa cidade? Quaisseriam as imagens favoritas, os comentários a respeito dos espaços e os relatos dasexperiências? Ao analisar essa página, levantamos essas questões porque nos deparamos com amemória de uma Fortaleza que só existe naquelas imagens, que, com o tempo, teve seusespaços modificados. O que permanece, no entanto, são as lembranças dos internautas,que recordam o colégio que estudaram, os lugares que visitaram quando criança e osgrupos de amigos que marcaram espaços de encontro. O campo dessa pesquisa é diferente do da maioria dos trabalhos do curso degraduação em Ciências Sociais, nos quais o pesquisador tem um ou vários espaços paravisitar, com a finalidade de compreender melhor o seu objeto de estudo. Assim, ascondições de acesso ao campo de pesquisa são favoráveis. Quando entramos no perfildo Facebook, se houver postagens, conseguimos visualizá-las. De outra maneira,podemos entrar no próprio site e vemos todos os links, imagens e comentários dosinternautas, procurando sempre a melhor forma de entender as postagens, os espaços ecomo os internautas interagem com a página. O estudo da memória ganhou muito importância na Sociologia, a partir dasegunda metade do século XX, quando Maurice Halbwachs ([1968] 1990) aborda osconceitos de memória individual e coletiva e suas ligações com o tempo e espaço. A 17
  • 18. influência desse autor foi muito importante para diversos autores e suas pesquisas,alguns dos quais são aqui estudados como Pollak (1992), Le Goff (1990) Abreu (1998),Schmidt & Mahfoud (1993). Halbwachs também influenciou pesquisas em Psicologia Social como o de EcléaBosi (1994), em que, através dos relatos de pessoas idosas, a autora vai pontuandoquestões importantes da memória como a concepção de tempo, lembranças da família,podendo analisar a figura materna, a figura paterna e os espaços da memória como acasa. Na FN, percebemos, através da leitura de Bosi, a importância da família,principalmente da figura materna na manutenção da memória. Os espaços também sãode suma importância, revelando lugares como a casa da infância, o bairro, o colégio eoutros. Recuero (2009) é umas das leituras sobre redes sociais que são necessárias parauma melhor compreensão do tema. A autora aborda a definição de rede social como umconjunto de dois elementos: atores e suas conexões. Além de dar conta de váriosestudos importantes na temática, ela indica alguns valores presentes nesses sites, sendoum dos mais significativos a visibilidade, mais perceptível na forma como osinternautas expõem detalhes pessoais ao público. Um paradoxo que permeia essa pesquisa diz respeito à imposição do presentecom toda a tecnologia que utilizamos e à reverência que fazemos ao passado. Oencontro dessa tecnologia atual com um desejo tão antigo como o de rememorar fatos,lugares e pessoas nos oferece a possibilidade de rever momentos anteriores, de formaímpar. Tendo em vista essas colocações, o principal objetivo dessa pesquisa é o desaber como se dá construção da memória na fan page Fortaleza Nobre, procurandodetalhadamente analisar as postagens e a interação entre os internautas. Trata-se,portanto, de analisar e responder às indagações sobre memória, mediante a visualizaçãoda página. Quando começamos a analisar a fan page, já havia várias imagens referentes hámais de seis meses de postagens. Essas imagens foram visualizadas, todos oscomentários lidos e as imagens e informações mais interessantes foram salvas. Fizemosanotações, com a finalidade de compreender a página e a duração do tempo de pesquisade campo foi de três meses (agosto, setembro e outubro do corrente ano), durante quasetodos os dias. 18
  • 19. O trabalho de campo não era propriamente difícil, mas realizar uma pesquisaatravés da Internet requer também concentração. Muitas vezes, ficávamos tentados aolhar as atualizações no Facebook, a escutar músicas, assistir séries, mas toda pesquisasociológica requer o maior contato possível para entender o objeto de estudo, asinterações, as relações presentes e tudo isso não foi diferente com a fan page FN. Então, como era difícil ter contato com todos os membros (por serem muitos epor não entrarem em contato diariamente com a página), entramos em contato com apessoa que movimenta a página, Leila Nobre. Começamos o contato por e-mail,mandamos algumas perguntas e fomos respondidos atenciosamente. Apesar de não terfeito entrevistas formais, utilizamos os comentários deixados pelos internautas naspostagens de FN, como um meio de perceber a expressão de seu pensamento, além defazer uma leitura imagética da página, por meio das imagens postadas. O campo e a entrevista semi-formal com a proprietária da página possibilitaramestruturar o trabalho da seguinte forma: o capítulo 2 realiza a descrição da fan page FN,como começou, suas principais e diferentes postagens que mostram as mudanças emalguns espaços de Fortaleza e lugares que não existem mais. Alguns dos comentáriosdos internautas foram citados, porque são importantes para a compreensão daconstrução da memória. O capítulo 3 fez referência às redes sociais, destacando os primeiros estudossobre a teoria de rede, o início da Internet em um contexto globalizado, as mudançasatravés de um meio de comunicação que conecta pessoas, possibilitando conhecimento,informações e interações, sendo citados os principais sites de redes como Orkut, Twittere Facebook, com especial destaque para este último. O capítulo 4 procurará responder todas as indagações da pesquisa. Voltando àabordagem da memória na cidade de Fortaleza, percebemos, nos comentários dosinternautas, relatos da memória que se fazem presentes nos períodos de infância, nosespaços como praças, igrejas e bairros, assim como o sentimento do saudosismomediante as mudanças. Aqui também conheceremos os nomes dos lugares maispreferidos dos internautas na fan page FN, de acordo com as ferramentas de visibilidade(curtir, comentar e compartilhar) do Facebook. 19
  • 20. 2. FORTALEZA NOBRE: A CIDADE DO PASSADO POR MEIO DA IMAGEM "Uma janela para o passado Janela aberta é saudade Quem se debruça sobre ela Sabe e sente Que tem olhos no passado E o corpo no presente" JJ Leandro15 A fan page analisada nesta pesquisa começou no Facebook no dia 25 de outubrode 2011, mas tem origem em um blog com o mesmo nome. Até o presente momento,tem o total de 6.465 de pessoas que curtiram e recebem as atualizações da página. Aspostagens das fotografias contêm uma breve descrição da imagem, na maioria dasvezes, a data na qual foi fotografada, um pouco da história, o lugar de referência etc. A iniciativa de formar o blog que deu origem à fan page se deu quando LeilaNobre já tinha conseguido muitas imagens do passado de Fortaleza, devido às suaspesquisas e, segundo ela própria, por querer compartilhar a sua motivação com outraspessoas que também gostassem de ver fotografias antigas. O blog Fortaleza Nobre começou em 2009, com fotos antigas da cidade econtando um pouco da história dos principais lugares, como avenidas, praças, pontosturísticos, cinemas, colégios, igrejas, fábricas e tantos outros espaços importantes.Atualmente, o blog contém 918 membros. Com o uso das redes sociais, foram criadaspáginas com o mesmo conteúdo, no Facebook e no Twitter. Todas essas páginas são movimentadas pela técnica em contabilidade LeilaNobre, que afirma ter sempre gostado de fotos antigas de Fortaleza. Tudo começouquando criança: gostava de ler livros, como A Normalista, de Adolfo Caminha, quefalavam sobre a cidade em tempos passados e que a deixavam curiosa para saber quaiseram as ruas descritas neles. Segundo ela, era um hobby procurar fotos na Internet, atéque decidiu criar o blog. Depois, como muitas pessoas pediam fotos pelo seu perfil,decidiu criar uma fan page. Este capítulo analisará a Fan page Fortaleza Nobre de forma geral, relatandosuas principais características e algumas de suas postagens mais populares.15 Nas trocas de e-mails com Leila Nobre, moderadora da página FN, esse poema sempre aparece quandoela responde. 20
  • 21. 2.1 Imagens e Memória na Fortaleza Nobre A rede social Facebook disponibiliza aos internautas ferramentas importantes deinteração, a saber: “curtir”, “comentar” e “compartilhar”. As postagens sãomovimentadas e, a partir delas, os comentários enriquecem a imagem, acrescentandohistórias e lembranças. Já a ferramenta “compartilhar” é um meio de divulgar aimagem, ao fazê-la aparecer nos perfis de outras pessoas. Segue-se a imagem inicial da fan page, o primeiro contato que qualquerinternauta tem quando clica em Fortaleza Nobre. Essa fotografia maior é a capa, um dosrecursos da linha do tempo do Facebook e representa uma imagem muito importantepara o grupo. Os demais detalhes são a descrição da página, como outros endereços naInternet como o próprio blog e a página no Twitter. A imagem pequena foi a últimapostagem (imagem) feita no grupo e fica ao lado o número de pessoas que curtiram. Imagem 01: Fan page Fortaleza Nobre Fonte: Facebook. Acesso em 04 dez 2012. A diversidade dos espaços visualizados nas fotografias da página é bastanteinteressante. A fonte das imagens corresponde a jornais, livros, revistas, sites e acervoscomo o do Nirez16, do MIS17 e o de Assis de Lima18. Analisando as imagens, podemos16 Miguel Ângelo de Azevedo Nirez é jornalista, historiador, pesquisador de música brasileira. Hojepossui uma das maiores coleções de discos de cera do país com mais de 22 mil exemplares e um acervocomposto por mais de 140 mil itens. Ele possui um grande acervo de músicas, apresenta um programamusical desde 1963, que atualmente é transmitido na Radio Universitária. 21
  • 22. perceber que elas se enquadram em dois exemplos: postagens que mostram espaços quenão existem mais, que foram destruídos, causando indignação por parte dos internautas;e postagens que revelam também espaços que ainda existem, podendo estes sersubdivididos entre os que apresentam muitas mudanças e outros que não mudaramquase nada. A importância do acervo de Nirez para a página é significativa, pois muitas dasimagens postadas fazem parte do seu acervo. A moderadora postou no dia doaniversário da Fan Page, do corrente ano, que ele foi sua inspiração para gostar deimagens antigas. Neste trabalho, iremos visualizar as fotos antigas de Fortaleza, perceber asmudanças, saber um pouco da história e identificar os usos da memória, a partir doscomentários dos internautas que acessam a página, procurando perceber seussignificados. Como coloca Halbwachs (1990, p. 78), “é assim que, quando percorremosos antigos bairros de uma grande cidade, experimentamos uma satisfação particular emque nos contem de novo a história daquelas ruas e casas”. A primeira imagem19 comentada neste capítulo é uma das que obteve maiorrepercussão na página, chamada Cruzamento da Av. Treze de Maio com Av. daUniversidade – Foto Anterior a 74 .20 Ela mostra um trajeto totalmente diferente doatual, possuindo uma rotatória, um chafariz e sentido duplo na Avenida daUniversidade. Esta postagem deixou 85 comentários dos internautas, juntamente com268 links curtidos e 480 compartilhamentos. Este último dado quer dizer que 480internautas exibiram em suas próprias páginas pessoais do Facebook a imagem referida,permitindo que todos os seus “amigos” também visualizassem a imagem. Essaferramenta amplia significativamente o alcance da Fortaleza Nobre e pode até atrairmais visitantes virtuais que a “curtam” e passem, então, a receber as atualizações da fanpage.17 Museu da Imagem e do Som, localizado na Av. Barão de Stuart, Aldeota.18 Francisco Assis de Lima é fotógrafo profissional. Foi o idealizador e responsável pelo curso defotografia “Da Câmara ao laboratório”, que desenvolveu entre 1992 até 2004.19 Em cada postagem aqui colocada, fazemos referência ao título e à data de postagem publicada na fanpage.20 Cf. imagem 2. 22
  • 23. Imagem 2: Cruzamento da Av. Treze de Maio com Av. da Universidade. Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem 21 de março de 2012. Os comentários são muito importantes, pois cada internauta percebe diferentesdetalhes da foto, como os nomes dos carros, o chafariz, a Reitoria da UFC (sem quasenenhuma alteração), o trânsito com uma quantidade significativa de carros e oacréscimo de informações (como o lugar para onde o chafariz foi recolocado21). A maiscomum das observações se referiam a como era bonito o lugar e às lamentações por nãoexistir mais. Uma das postagens que chamaram a atenção dos internautas na página foi a deum palácio22 que era localizado na Avenida Santos Dumont entre as ruas CarlosVasconcelos e Monsenhor Bruno e que, na década de 1970, foi demolido para aconstrução de um supermercado. O link recebeu 145 “curtidas” dos internautas, 47comentários e 180 compartilhamentos. A Fortaleza Nobre informa na postagem que: No início do século XX, Plácido de Carvalho era um bem sucedido comerciante e industrial em Fortaleza, isso nas duas primeiras décadas do século até a metade da década de trinta. Em 1916, viajando pela Europa veio a conhecer em Paris, Maria Pierina Rossi, uma italiana de Milão, que apesar de apaixonada recusava-se a vir morar no Brasil. Ele, porém, também muito apaixonado, prometeu construir para ela21 Segundo um dos internautas, o chafariz, conhecido como “Fonte das Sereias”, está hoje na PraçaMurilo Borges, no centro da cidade, de frente à antiga sede do Banco do Nordeste, atual prédio da JustiçaFederal.22 Cf imagem 3. 23
  • 24. em Fortaleza, uma cópia de um belo palácio que ambos viram em Veneza. (Fortaleza Nobre, postagem em 13 de agosto de 2012). Imagem 3: Foto Aérea do Castelo na década de 1960 Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem 13 de agosto. Os comentários da imagem 03 renderam uma discussão a respeito de como foipermitido destruir um lugar tão memorável, que representava um marco históricoimportante para a cidade. Muitos internautas lamentaram a demolição e outroscontribuíram com mais detalhes por terem visitado o castelo. Um dos comentadoresdisse que o castelo se encontrava comprometido, com cupins, infiltrações; outra pessoacomentou que visitava o castelo depois do colégio, que na época já se encontravaabandonado. Da mesma forma, nessa postagem, também apareceram pessoas quefizeram parte da vida dos antigos donos, como Fernanda Rossi, sobrinha-neta de MariaPierina Rossi, esposa de Plácido de Carvalho. Alódia Moreira Guedis Guimarães comentou que os seus pais eram amigos deMaria Peirina e conta que ela ficou viúva, chegando a se casar novamente. Um doscomentários do link foi da própria sobrinha-neta, que conta um pouco da história: Regina, ela [Maria Pierina Rossi] era irmã do meu avô, por parte de mãe, era minha tia-avô. Nós chamamos ela de tia Arina. Uma pena a destruição do castelo!!!!” (Fernanda Rossi, postado em 13 de agosto de 2012). 24
  • 25. A imagem da Praia de Iracema23 é a que mais se repete na Fortaleza Nobre. Sãoimagens muito antigas, de cartões postais de várias décadas diferentes: é uma viagem notempo de um dos espaços favoritos de nossa cidade. Na imagem abaixo, algumas casase coqueiros bem próximos da praia evidenciam quão totalmente diferente o local era doespaço atual. Imagem 4: Beira Mar da Praia de Iracema, em 1930Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem 19 de agosto. O espaço não possui os elementos que marcam o seu uso hoje como o calçadão,os inúmeros edifícios, restaurantes, a ponte metálica, a feirinha24, os pintores amadores,os comerciantes, compreendendo assim um fluxo de pessoas circulando no lugar. No Facebook, existem outras páginas que abordam nossa cidade como a fanpage Fortaleza, que é um espaço dedicado a mostrar pontos turísticos, eventos, notíciase a cultura da nossa cidade. A Beira Mar também é uma das imagens mais postadas eelementos como a natureza e o mar encantam bastante as pessoas, além de serem umespaço para lazer, para andar de patins e/ou de bicicleta e fazer caminhada. Naspostagens, existem comentários de turistas e de cearenses que moram fora do estado,relatando que gostam bastante do lugar. Acreditamos, então, que, para o fortalezense, seestabelece uma relação de identidade.23 Cf. imagem 4.24 A feirinha, localizada em um trecho da Beira Mar, é composta de barracas que vendem elementosvariados como artesanatos, redes, bijuterias, camisetas, bebidas típicas etc. 25
  • 26. Assim, uma questão a ser abordada é a identidade que os internautas assumemcom as imagens postadas. Entendendo a individualidade de cada um e também daprópria imagem, como as mudanças ocorridas através do tempo e do espaço nãointerferem na identificação com o lugar, essas imagens assumem a importância delembranças. Abreu (1998, p. 7) acrescenta que o passado “é uma das dimensões maisimportantes da singularidade” e podemos visualizá-lo na paisagem, na instituição damemória ou ainda na cultura e no cotidiano. É interessante perceber que, em umacidade, podemos sim visualizar o passado através da arquitetura, dos museus, dosteatros, das canções e das tradições. O site mostra também as campanhas publicitárias25 antigas que mostrameventos, produtos e lojas antigos, realizados na cidade. Através dos comentários dosinternautas, percebemos os detalhes que são separados pelo tempo. Os comentadores,no site, observaram o horário que era muito cedo, a possibilidade de contato direto porser pequeno, a juventude do “Rei”26, na época com 24 anos, o próprio ano da festa, em1965, e muitos escreveram que queriam ter ido ir a esse show. Imagem 5- Publicidade de evento do ano de 1965 Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem: 10 de agosto de 2012. O anúncio desse evento levanta um pouco de curiosidade: como os jovens nadécada de 1960 se divertiam? Quais eram os espaços que eram utilizados para taiseventos? Quais os cantores preferidos? Na postagem, os internautas perceberam alguns25 Cf. imagem 5: I Festival da Juventude com Roberto Carlos e Wanderléa em 1965. Data da publicação:10 de Agosto de 2012.26 “Rei é o apelido comum do cantor Roberto Carlos. 26
  • 27. detalhes, mas infelizmente ninguém se manifestou para contar um pouco sobre oshábitos de lazer da juventude fortalezense da época. Os links que rendem mais comentários são aqueles que evidenciam a diferençado espaço entre a data da fotografia e como permanece na atualidade, como empostagem da fotografia do Teatro José de Alencar, nos anos 1930, que revela um espaçobem preservado, com a arquitetura em boas condições, a praça limpa, poucas pessoas,várias iluminarias e árvores, possibilitando, não só pela indicação da data, visualizaruma época diferente da nossa. O que vemos atualmente é praça ocupada por muitos ambulantes que dificultama passagem dos pedestres, assim como artistas populares que concentram pessoas emvolta para escutar histórias e pessoas conversando. Tudo isso leva os membros aescreverem sobre as diferenças de uso do espaço, quando naquela época o lugar eraorganizado, sendo hoje impossível perceber a beleza devido a fatores humanos. Segundo Pollak (1989), vestígios arqueológicos como, por exemplo, os teatros,as catedrais e tantos outros monumentos são pontos de referência que estabelecemsentimentos de filiação e de origem, que integram a cultura no sentido comum. Napágina FN, é notório alguns pontos de referência como a Praia de Iracema, a AvenidaTreze de Maio e imagens relacionadas ao Centro da cidade. Algumas postagens unem as duas imagens: uma do passado e outra do presente.É interessante visualizar as possíveis mudanças ou até a preservação do espaço, comopodemos perceber na imagem da Santa Casa de Misericórdia27 abaixo, localizada narua Barão do Rio Branco. Essa postagem é um dos espaços que mais conseguiram resistir às mudanças dotempo. Na página, há imagens mais antigas da Santa Casa, que não mudou quase nada.Próximo desse local, há outros pontos históricos que continuam preservados, como oPasseio Público e o Centro de Turismo28, que era a antiga cadeia pública de Fortaleza.27 Cf. imagem 6: Santa Casa de Misericórdia, na rua Barão do Rio Branco ontem e hoje. Data dapublicação-16 de Agosto de 2012.28 A cadeia pública foi construída em 1866, sendo desativada em 1967. O Centro de Turismo foiinaugurado em 1973, para acolher as atividades comerciais turísticas e divulgar o artesanato cearense. 27
  • 28. Imagem 6: Santa Casa de Misericórdia, passado e presente.Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem 16 de outubro de 2012.2.2 Fotografia como fonte de pesquisa Acima, colocamos como a página se porta a partir das imagens e como a mesmase organiza, portanto, é importante também atentarmos para a relevância da fotografia.Segundo Araújo (2010), a imagem encontra suas bases no Renascimento e a invençãoda fotografia “surgiu como a necessidade que a Europa renascentista já experimentavade se ter uma imagem pessoal, desde seu início a possibilidade de democratizar aimagem representada” (ARAÚJO, 2010, p.24). Nos períodos do Renascimento e da Idade Média, devido à soberania da Igreja,as imagens eram relacionadas à religião. Somente a partir da Modernidade, sãofotografados os indivíduos e a vida cotidiana. Percebemos, em álbuns de família, fotosdas crianças em todas as etapas, registrando, assim, cada fase de seu desenvolvimento.No período contemporâneo, então, percebemos as fotografias postadas nas redes sociaiscomo imagens que estão registrando os mais simples detalhes do cotidiano. A fotografia possibilita a veracidade de qualquer situação registrada. Assim,visualizar as imagens da página FN significa perceber como eram os espaços nopassado. Como coloca Barthes (1984): 28
  • 29. Talvez tenhamos uma resistência invencível para acreditar no passado, na História, a não ser sob forma de mito. A fotografia, pela primeira vez, faz cessar essa resistência: o passado, doravante, é tão seguro quanto o presente, o que se pode ver no papel é tão seguro o quanto se toca (BARTHES, 1984, p. 130). Podemos, então, compreender a fotografia como um fenômeno urbano e que osusos passaram a produzir um grande arquivo da cidade e de seus cidadãos, como, porexemplo, com os arquivos policiais, as fotos dos jornais e os meios audiovisuais. Omesmo acontece na página Fortaleza Nobre, em que todas as postagens fazemreferência à cidade, detalhando os espaços físicos mais relevantes e os acontecimentosque fizeram história. Na página pesquisada neste trabalho, é importante ressaltar que as imagens sãode origem analógica, tendo sido preservadas no decorrer do tempo e depoisdigitalizadas. Além de visualizar o espaço em tempos anteriores, podemos observartambém as imagens, as posições, as pessoas e as diferenças de tempo, que nos dão umacompreensão das mudanças. Desta forma, as mudanças que ocorreram na transformação da imagem analógicapara a digital foram significativas e podem ser percebidas. Antes, o uso da imagem eralimitado: o filme tinha 12, 24, e 36 poses que nem sempre eram completamenteaproveitados, pois algumas fotos “queimavam” quando eram reveladas. As imagenstiradas eram escolhidas e não se tirava uma fotografia de qualquer jeito. Através damáquina digital, a quantidade de imagens é produzida em escala muito maior, não émais necessário revelar as fotos, elas podem ser arquivadas no computador e a imagemque não ficar boa, para o dono da câmera, pode ser apagada. A Internet possibilitou também uma forma de organizar fotos em álbuns virtuais.Alguns anos atrás, era comum que algumas pessoas criassem um blog pessoal eadicionarssem fotos pessoais. Esse recurso fazia bastante sucesso, principalmente entreas meninas. Em 2004, com o surgimento do Orkut, ficou ainda mais simples organizarum álbum virtual: bastava enviar as fotos para a rede social, colocar um título,comentários nas fotos e as imagens estavam organizadas. Se uma pessoa quisesse umafoto de uma amiga, bastaria clicar na imagem e salvar. O Facebook facilitou a vida do internauta, disponibilizando o “detector de face”:esse recurso permite que, em uma foto postada, seja identificado o rosto das pessoasfotografadas para adicionar seus nomes. Assim, uma pessoa pode marcar as demais e a 29
  • 30. respectiva imagem aparecerá no perfil de todas as cinco. Com isso, não é preciso quetodas as pessoas postem a imagem e é possível compartilhar a foto, que aparece noperfil sem a necessidade de adicionar.2.3 Memória e interação dos membros da Fortaleza Nobre A principal interação na página FN é realizada através dos internautas, com seuscomentários sobre cada postagem, que revelam a memória de tempos passados,lembranças de pessoas que marcaram, espaços que se fizeram presentes em períodos desuas vidas. Tudo isso nos leva a conhecer uma cidade e uma época que não conhecemosatualmente. Cada geração tem seus momentos e sempre acha que aqueles momentos foram os melhores. Isso é regra, mas a verdade é que comparar o que é bonito e moda hoje com o de ontem, desculpem, não existe grau de comparação meu amigos. Natal, carnaval, reizado, São João… tudo ficou na poeira do tempo e das lembranças somente, tudo efetivamente mudou [...]. (Sylvio Montenegro, postagem Bons Tempos, de 29 de julho de 2012). Os membros do site têm uma importância significativa, porque são eles que dãocomplemento às imagens disponibilizadas na página. Através do Facebook, eles podeminteragir de três maneiras: pelo “curtir”, pelo “comentar” e pelo “compartilhar”.Através dessas ferramentas, podemos perceber a imagem que obteve maior visualizaçãoentre os mesmos. As legendas das imagens postadas na fan page Fortaleza Nobre acrescentaminformações, curiosidades, histórias do lugar. Em cada fotografia, vem a explicação donome do lugar, possivelmente a data e um pouco do acontecimento. Tudo isso leva ointernauta ao melhor entendimento e compreensão da imagem vista. Araújo (2010) analisa fotografias analógicas e digitais em álbuns familiares,destacando a importância das últimas, através dos comentários dos espectadores, porquecada um expõe sua interpretação pessoal da imagem e enriquece ainda mais. Halbwachs (1990) afirma que a memória é construída em um grupo dereferência, no qual o indivíduo compartilhou momentos, vivências e estabeleceuidentidades. Entendemos, então, a lembrança como fruto de um processo coletivo,inserido em um contexto social que retoma relações sociais, conferindo reconhecimentoe a construção de novos laços. 30
  • 31. A relação da memória com os relatos dos espaços mostra como um conjunto devivências, experiências e grupos de referência são percebidos neles. Não é, pois,somente uma pessoa comentando, mas um ser dotado de várias influências. De Certeau(1998, p. 188) diz que “os relatos de lugares são bricolagens. São feitos com resíduos oudetritos do mundo”. Os internautas interagem bastante. Muitos links são comentados fazendoreferência à memória de tempos de infância e de adolescência. O saudosismo dostempos vividos é constante, sempre ressaltando que uma época passada era melhor paraviver devido à tranquilidade, à existência de locais verdes, à inexistência deengarrafamento e demais detalhes do cotidiano. Bauman (2010) explica que essanostalgia reflete a solidez dos tempos passados em oposição ao que é vivenciado nocotidiano, às relações esparsas e fluidas. Muitas vezes, um membro de FN conta um pouco da história da imagem, comoocorreu com a Casa do Português, um lindo casarão localizado na Avenida JoãoPessoa, que até hoje suscita questionamentos sobre seus antigos donos e comentários decomo se encontra em condições de desleixo. Minha mae conheceu a familia que morava ai e conta que os donos tem apenas um filho que se acreditavam que era doente mental, logo apos a morte dos pais não ficou na verdade ninguem para administrar o imovel pelo o fato do filho ser doente. Minha mae contava lindas historia de qdo ia la... (Deborah Raquel, postada em 30 de agosto de 2012) Muitos dos comentários são lembranças da infância dos internautas, como, porexemplo, um dos comentários da postagem da Casa de Thomaz Pompeu de SouzaFilho29: Sou fascinada por esse palacete! Mamãe nos levava para a missa da Igreja do Patrocínio e depois pra Praça da Lagoinha...Brincávamos nos coretos...tinha retretas...uma fonte linda e ela conversava conosco sobre Fortaleza e nos mostrava o palacete e contava histórias da construção...quem era o proprietário, etc. Amo Fortaleza Nobre! (Angela Marques Gadelha, postada em 16 de outubro de 2012). Os internautas observam as mudanças na época das fotografias, comparando-as àatualidade e manifestando, assim, o sentimento de saudosismo:29 Thomaz Pompeu de Souza Brasil Filho (1852-1929) nasceu em Fortaleza, foi advogado, político,escritor e neto do senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Sua casa tornou-se o Espaço Cultural daSaúde da cidade de Fortaleza. 31
  • 32. Quão diferente era fortaleza...(João Braga postado em 5 de dezembro de 2012) Muito Lindo...Esse era tempo bom...onde se tinha dignidade, respeito e amor pelo próximo.Não nos dias de hoje, onde todo mundo, quer levar vantagem em tudo, passando por cima de tudo e de todos...(Francisco Ageu) Uma das coisas de que mais gosto em fotos antigas é imaginar quem era essa pessoa, como vivia de quê vivia, no que estava pensando, principalmente naquela distante época em que nosso cidade era pouco povoada e a paz reinava, haja vista a solitária caminhada desse senhor cabisbaixo. O que menos gosto não está na foto, está na insensibilidade de quem destrói tão belo patrimônio arquitetônico. (Célio Viana) Essas três citações de internautas representam a maioria dos comentários napágina. Por meio delas, podemos perceber como o passado é exaltado mediante aapresentação das fotografias antigas, das observações dos detalhes da época, dasoposições encontradas com o confronto com o presente. Tudo isso leva as pessoas aimaginarem como seria ter vivido em tal período. É bastante comum alguém pedir uma fotografia, seja para um trabalho docolégio, por seu um lugar que não tenha aparecido na página ainda, por ser algumespaço vivenciado pela pessoa ou por mera curiosidade, como exemplificam osseguintes comentários dos internautas, retirados do contato mais direto deles com apágina: Ola tudo bem ? você tem alguma publicação sobre esses casarões que ficam no centro dragão do mar em frente a praça almirante Saldanha ? to muito curioso para saber a origem deles e suas histórias abraços.(Patrick Senna, postagem em 28 de Novembro de 2012) Olá! Meu nome é Mariana C. aquino. Gostaria de saber se você tem algo sobre José Júlio Barbosa, o Radialista. A minha avó é filha dele. E ela vai completar 80 anos! E gostaria de saber se vc não tem nenhum documento com fotos, artigos ou até mesmo a voz dele gravada. Eu queria só colocar a voz dele pra minha avó ouvir! ;D o/ ♥ 30 ” (Mariana C. Aquino, postada em 7 de agosto de 2012-link respondido) As pessoas fazem muitos elogios à página e são comuns comentários do tipoabaixo:30 Esses símbolos são utilizados na Internet para expressar emoções. O primeiro (;D) significa umapiscadela e um sorriso, para demonstrar alegria. O segundo (o/) também indica alegria. O terceiro (♥)indica afeição por alguém ou por algo. 32
  • 33. Preciso dizer uma coisa: Desde que eu entrei no Facebook, o Fortaleza Nobre foi a MELHOR coisa que vi por aqui. De verdade e sem exageros!!!! Nunca havia me interessado por um "website" assim...Parabéns!!! Vou ver se consigo algumas fotos dos meus pais...Grande abraço e CONTINUE com esse desfile de tempos de OURO!!! (Poliana Falçao, postado em 2 de agosto de 2012). PARABÉNS PELO O LINDO TRABALHO... É UMA VOLTA AO TÚNEL DO TEMPO, SOU DA DÉCADA DE 60,MAITAS COISAS NÃO CONHECI...VENDO TD ISSO PARECE Q VIVEMOS NA ÉPOCA, ATÉ O CORAÇÃO FICA CHEIO DE SAUDADES;;;; (Salete Moura, postada em 30 de out de 2012) Os internautas, através dos comentários, remetem a lembranças de um espaço etempo específico, evidenciando a importância do grupo no qual foi vivenciada aexperiência. Como explica Schmidt & Mahfoud (1993): Os grupos no presente e no passado permitem a localização da lembrança num quadro de referência espaço-temporal que, justamente, possibilita sua constituição como algo distinto do fluxo contínuo e evanescente das vivências (SCHMIDT; MAHFOUD, 1993, p. 289). A memória individual, segundo Halbwachs (1990), é um ponto de encontro dediferentes influências sociais e uma forma particular de articulá-las; também é um pontode vista sobre a memória coletiva, juntamente com as relações que o indivíduo mantémcom outros meios, mudando conforme o lugar. Uma pessoa, no decorrer de sua vida, passa por muitas etapas como a infância, aadolescência, a juventude e a maturidade. Tudo isso se faz presente nas recordações,além de influências, dos pais, amigos, professores etc, levando, assim, o indivíduo aregistrar na memória aquilo que foi importante. Compreendemos, então, que a memóriaé seletiva: são guardadas as lembranças que mais gostamos, pois não conseguiremoslembrar tudo. A seguinte postagem31 de Fortaleza Nobre assim exemplifica: Em 01 de maio de 1945, o professor Clodomir Teófilo Girão realiza um de seus grandes sonhos, funda o Instituto Rui Barbosa, funcionando em prédio na Rua Senador Pompeu nºs 1329/1335, onde antes tinha funcionado o Colégio Dom Bosco, do professor Oscar Costa Sousa. Foi neste Instituto Rui Barbosa que o Nirez fez seu 3º ano primário. Depois o estabelecimento foi vendido, mudando-se para a Avenida do Imperador nº 372 já como Colégio Rui Barbosa, passando depois a Ginásio. Cronologia Ilustrada de Fortaleza de Miguel Ângelo de Azevedo.31 Título da postagem: O Colégio Rui Barbosa, na Avenida Imperador. Data da Postagem: 4 de setembrode 2012. 33
  • 34. Imagem 7 - Colégio Rui Barbosa, na Avenida Imperador. Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem: 4 de setembro de 2012. Algumas das declarações de internautas a respeito da postagem dizem: Pena que esse belo prédio não exista mais...Estudei nesse colégio...Saudades! A residência mais á frente, foi um belo solar...Hoje está destruído também...Tenho muita pena da destruição da nossa história! (Angela Maria Gadelha, postada em 4 de setembro de 2012) Muito bom, estudei lá em 1999. (Renato Matarazzo, postada em 4 de setembro de 2012) Nossa estudei nesse Ginásio Rui Barbosa, na Av. Imperador, fiz todo Ginásio e Normal, antes era assim, que saudades. Puxa. Valeu amiga. Boa Noite e um grande beijo. (Uyla Ulysses, postada em 8 de setembro de 2012) A experiência vivenciada por cada pessoa mencionada acima revela que odepoimento reflete a memória individual. Todos estudaram na mesma instituição, sóque em épocas diferentes, em contextos diferentes, mas todos se identificam com ocolégio e remontam a lembranças no/do lugar. É interessante observar que cada pessoaexpressa de uma forma singular a sua relação com o espaço. Os comentários das postagens foram aqui citados, para exemplificar como osinternautas se colocam perante as fotografias antigas, o que eles escrevem, o querelembram, o que pensam, o que sentem, mostrando, portanto, as interações das pessoascom a página e suas contribuições. 34
  • 35. 3. REDES SOCIAIS NA INTERNET: SEUS USOS E SUAS IMPORTÂNCIAS “Vivemos em rede. Não é novidade nenhuma. Cada época que a gente viveu atéhoje, sem dúvida nenhuma, foi caracterizada por redes de relacionamento.” Esse é umtrecho da entrevista do jornalista Marcelo Tas32 ao programa Café Filosófico33 com otema Mundo virtual: relações humanas, demasiado humanas. A partir desse trecho,portanto, é muito importante dizer que o tema aqui estudado não é recente. Semprevivemos em rede, porque o conceito de rede implica relações sociais. Assim, desdesempre, o ser humano viveu em rede(s). O conceito de redes não é novo: quando percebemos o grande uso do termoatualmente, logo o associamos à tecnologia e Internet, mas sua discussão pelaSociologia vai muito além do ambiente virtual e está presente em muitos estudos. “Umdos principais insights do novo entendimento da vida que está emergindo nas fronteirasavançadas das ciências é o reconhecimento de que a rede é um padrão comum para todotipo de vida. Onde quer que haja vida, vemos redes” (CAPRA, 2008, p.19). O primeiro estudo de rede foi feito pelo matemático Leonard Euler34, em 1736,quando analisou a cidade prussiana de Königsberg. Segundo as crenças populares dolugar, seria possível sair da cidade, atravessando as sete pontes, somente uma vez cada.Ele investigou matematicamente essa crença e publicou um artigo sobre o enigma daspontes de Königsberg, afirmando que era impossível sair da cidade sem repetir algumcaminho. Com isso, ele criou a primeira Teoria dos Grafos, associando as quatro partesterrestres (nós) com as sete pontes (arestas ou conexões), demonstrando, assim, ainexistência do caminho (Recuero, 2009).32 Marcelo Tas é diretor, escritor, jornalista, e atualmente apresentador do programa CQC (Custe O QueCustar) na emissora Band.33 Café Filosófico é um programa de televisão, transmitido pela TV Cultura, que disponibiliza suasgravações para os internautas que acessam o site do programa.34 Leonard Euler (1707 -1783) nasceu na Suíça, foi matemático, físico, engenheiro, astrônomo e filósofo.Realizou grandes descobertas nos campos da Matemática e da Física. 35
  • 36. Imagem 8: Representação Gráfica da Cidade Fonte: Jornal Santuário Assim, explica Recuero (2009): Um grafo é, assim, a representação de uma rede, constituído de nós e arestas que conectam esses nós. A teoria dos grafos é uma das partes da matemática aplicada que se dedica a estudar as propriedades dos diferentes tipos de grafos. Essa representação de rede pode ser utilizada como metáfora para diversos sistemas. Um conglomerado de rotas de voo e seus respectivos aeroportos, por exemplo, pode ser representado por um grafo (RECUERO, 2009, p.20). Com o aprofundamento dos estudos utilizando a metáfora de rede, percebemosque ela pode ser utilizada em estudos de relações sociais, relacionando as pessoas e suaspossíveis interações com um determinado grupo. No decorrer do capítulo, citaremosalguns trabalhos importantes que contribuíram para uma melhor compreensão das redessociais. O primeiro estudo foi o do Barnes Arundel35, em 1950, sobre Bremmes, umacomunidade pescatória norueguesa. Esse antropólogo analisou a importância dasinterações individuais na definição de estrutura social comunitária. Ele abordou doiscampos (industrial e territorial), em cuja base se realizavam relações entre osindivíduos. Contudo, percebendo que eram insuficientes somente esses dois, Arundelacrescentou um terceiro, o dos laços sociais (de parentesco, de amizade e deconhecimento). Portanto, o uso do conceito ajudou na descrição da comunidade comotambém na compreensão dos processos sociais (PORTUGAL, 2007, p.4). Logo depois, em 1957, Elizabeth Bott36, com o estudo sobre a família e as redesde relações sociais, trouxe para a academia a relevância do conceito de rede social. Elaanalisou a categoria família e as redes de relações sociais, ressaltando a importância de35 John Barnes Arundel (1918- 2010) foi um antropólogo social, conhecido por ser o primeiro a utilizar oconceito de redes sociais.36 Elizabeth Bott (1924-) é uma antropóloga, socióloga da família e psicanalista kleiniana. 36
  • 37. reconhecer a relação entre o caráter interno e a estrutura da rede, entendendo assim quea composição familiar não compreende somente as relações familiares, mas as demaisrelações com outras pessoas (amigos, vizinhos, colegas) que exercem influências nasrelações familiares. Além disso, ela contribuiu com a primeira estrutura da rede: aconexão, entendida como a extensão de pessoas conhecidas por uma família e de outraspessoas conhecidas, independente do círculo familiar. Bott fez a distinção entre “malhaestreita”, em que existem muitas relações entre as pessoas, e “malha frouxa”, na qual osrelacionamentos são escassos (PORTUGAL, 2007). Podemos perceber esses conceitos acima nas redes sociais na Internet. Recuero(2009) aborda os “laços fortes” que são estabelecidos pela intimidade, pela proximidadee pela intencionalidade de criar e manter uma conexão entre duas ou mais pessoas. Já os“laços fracos” são caracterizados por relações esparsas que não possuem proximidadenem intimidade. Outra análise de estudos sobre redes é a Network Analysis, que coloca que aspessoas que conhecemos e com as quais podemos contar influenciam nosso estilo devida, sucesso, segurança, bem-estar e, até mesmo, a saúde (MARINS & FONTES apudPORTUGAL, 2007, p. 10). O estudo realizado por Barry Wellman37, por exemplo,analisou os habitantes de um quarteirão urbano de Toronto e se orientava na seguintequestão: “a perda da comunidade”. Ao contrário do esperado, não foi possívelidentificar essa perda nas conversas entre os vizinhos, nas reuniões familiares e nastrocas de serviços entre amigos. Os pesquisadores, então, perceberam que os critériossociológicos para o conceito “comunidade” não se enquadravam nesse caso e passarama abordá-lo não como uma realidade local, mas como uma forma específica de relaçãosocial. Este trabalho tem importância pela maneira como aborda a relação entre oscomportamentos individuais e as características das redes de relações (PORTUGAL,2007). Outro estudo importante sobre redes sociais é do Claude Fisher38, que aborda asdiferenças originadas pela comunidade de residência, desenvolvendo uma comparaçãoentre as redes de habitantes dos centros urbanos e as redes daqueles que vivem empequenos centros. Para o autor, os habitantes urbanos possuem uma rede de relações,37 Barry Wellman (1942-) é um sociólogo canadense-americano. Suas áreas de pesquisa são comunidadesociológica, Internet, interação humano-computador. O título original de seu livro é Networks as PersonalCommunities (1985).38 Claude Serge Fisher (1948-) é um sociólogo americano e professor de Sociologia na Universidade daCalifórnia. Seu trabalho inicial foi em Psicologia Social da vida urbana e redes sociais. O título originalde seu livro é To Dwell Among Friends: Personal Network in Town and City. 37
  • 38. com maiores oportunidades de desenvolverem mais laços de interações (como trabalho,estudo e amigos), formando, assim, uma rede mais densa e vasta de relações do que ados moradores da zona rural. Assim, a importância desse trabalho reside na maneiracomo o autor evidencia a diferença entre a estrutura social e a configuração das redespessoais, mostrando como as escolhas das pessoas são condicionadas pelos contextosem que estão inseridas, como moradia, trabalho e família (PORTUGAL, 2007). Os trabalhos rapidamente citados trouxeram uma contribuição no âmbito dosestudos das relações sociais, como o uso da metáfora e a análise de redes sociais.Contudo, posteriormente, podemos perceber que essas relações sociais secomplexificam com as redes sociais na Internet, abordadas mais a frente.3.1 Contexto da Internet . Os primeiros computadores foram lançados nos Estados Unidos e na Inglaterracom fins militares, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Assim, com odecorrer dos anos, a utilização dos computadores foi expandida para civis, indústrias(robótica, linhas de produção, máquinas industriais) e o setor terciário (bancos,seguradoras). Nos anos 1970, o crescimento e desenvolvimento do computador forammuito significativos, principalmente, devido à relação com a cultura da liberdade,inovação individual e iniciativa empreendedora da época. O advento da Internet também se deu para a comunicação entre militares norte-americanos, desenvolvendo, assim, uma rede de computadores autônomos cominúmeras maneiras de conexão e criando um sistema que dificultaria o bloqueio pelospossíveis inimigos soviéticos. O primeiro modelo foi imaginado pelo DARPA39,posteriormente denominado ARPANET (1969), quando a tecnologia conseguiucompactar todas as espécies de mensagens, como som, imagem e dados. A ARPA-INTERNET (1980) foi denominada como uma rede das redes, tornando o que hojeconhecemos por Internet. É importante abordar a relevância das universidades, como meio que possibilitatrocas de informações, conhecimentos e novas idéias. É o caso, por exemplo, da criaçãoda rede social Facebook, que foi desenvolvida por um aluno de Harvard, para acomunidade universitária. Como afirma Castells (1999): “Essa origem universitária da39 Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos. 38
  • 39. rede sempre foi decisiva para o desenvolvimento e difusão da comunicação eletrônicapelo mundo” (CASTELLS, 1999, p. 379). A Internet possibilitou uma nova forma dedifusão das informações, livre de um controle centralizado: O modelo informatizado, cujo exemplo é o ciberespaço, é aquele onde a forma rizoma (redes digitais) se constitui numa estrutura comunicativa de livre circulação de mensagens, agora não mais editada por um centro, mas disseminada de forma transversal e vertical, aleatória e associativa (LEMOS, 2007, p. 79 - 80). Os meios de comunicação em cada período de sua invenção trouxeramconquistas significativas para as pessoas, mas a Internet consegue amplitudes maioresem relação às outras. Assim: A revolução do impresso, com a invenção de Gutenberg, retirou os livros do monopólio da Igreja, o telefone permitiu uma comunicação instantânea entre pessoas, a TV e o rádio levaram informações a distância para uma massa de espectadores. A Internet cria hoje, uma revolução sem precedentes na história da humanidade. Pela primeira vez o homem pode trocar informações, sob as mais diversas formas, de maneira instantânea e planetária (Id., ibid. p.116). Então, com todas essas transformações do computador e da Internet, podemosperceber que surge um novo espaço, denominado ciberespaço. Segundo Lévy (1999, p.17), ciberespaço “[...] é o novo meio de comunicação que surge da interconexão doscomputadores”, um espaço que possibilita comunicação, sociabilidade, informação,conhecimento, interação, dentre outras coisas. Esse termo ciberespaço foi criado pelo escritor cyberpunk40 de ficção científicaWilliam Gibson no livro Neuromancer41, em 1984. Para ele, “o ciberespaço é umespaço não-físico ou territorial composto por um conjunto de redes de computadores,através das quais todas as informações (sob as suas mais diversas formas) circulam”(GIBSON apud LEMOS, 2007, p.127). Na atualidade, com as influências de um mundo globalizado e conectado, ainformação e conhecimento podem ser visualizados em inúmeras páginas da Internet. 42Através de um endereço www , a informação é transmitida em tempo real: é40 Cyberpunk é um sub-gênero de ficção científica que utiliza de elementos de romances policiais, filmnoir e prosa pós-moderna.41 Neuromancer é um livro de ficção científica que introduziu novos conceitos para a época, comointeligências artificiais avançadas e um ciberespaço quase físico.42 O significado da sigla é World Wide Web, a tradução para o português é “Rede de Alcance Mundial”. 39
  • 40. disponibilizada a leitura de livros, jornais e revistas on line, que proporcionam aointernauta um grande acesso ao conhecimento. Pensando em nosso contexto, que podemos denominar como era eletrônica ouIdade Mídia, a tecnologia nos proporciona a rapidez de acesso à informação e nosdeparamos com a alteração da relação com o tempo e o espaço. Bauman (2010) colocaque o tempo foi convertido em ouro, na medida em que é usado como ferramenta paradiminuir as distâncias e superar a resistência do espaço. O autor continua a dizer que acomunicação tomou o lugar do transporte, como principal veículo da mobilidade.Acreditamos, então, que a mobilidade é um dos grandes problemas do século XXI: nãoprecisamos estar fixados a lugar algum, a Internet não precisa mais de cabos, estando nocelular, e o computador ganha versões cada vez menores, mais portáteis e comqualidade. Os exemplos acima colocados são consequências da globalização. Ianni (1999)compreende “globalização” como mais um ciclo do capitalismo, posterior aomercantilismo, ao colonialismo e ao imperialismo. Assim, globalização seria umprocesso que envolve um intenso fluxo de mercadorias, pessoas e conhecimento, masnão somente isso: impõe também grandes mudanças, pois “esse é um processosimultaneamente civilizador , já que desafia, rompe, subordina, mutila, destrói ou recriaoutras formas sociais de vida e trabalho, compreendendo modos de ser, pensar, agir,sentir e imaginar” (IANNI, 1999, p.13). Pensar em mundo globalizado significa pensar em um mundo, no qual aspessoas estão conectadas e trocando ideias, informações e discussões, revelando comoelas estão interagindo através da Internet. Alguns acontecimentos têm ganhadorepercussão devido à movimentação nas redes, como, por exemplo, a reeleição doBarack Obama, que foi o assunto mais “tuitado” da história das redes sociais, com maisde 327 mil tweets por minuto, e a Primavera Árabe, uma onda de protestos emanifestações que vêm ocorrendo no Oriente Médio e no norte da África, no qual aspessoas fizeram o uso das redes como Facebook e Twitter para organizar e comunicar aspessoas sobre os atos políticos desencadeados. 40
  • 41. 3.2 Redes Sociais na Internet As redes sociais são um dos assuntos mais abordados em nosso cotidiano, sendocomum encontrar pessoas que tenham perfil em alguma rede social. Quando lemos umanotícia, em qualquer endereço eletrônico, frequentemente encontramos um ícone doFacebook ou do Twitter, que permite “curtir” ou “compartilhar” aquela página daInternet, com outros usuários da rede. Até mesmo ao inspecionar um produto à vendaem sites de comércio eletrônico, podemos encontrar referências a estas redes sociais. A definição de rede social é a de “[...] um conjunto de dois elementos: atores(pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laçossociais)” (RECUERO, 2009, p.24). Entender o mecanismo de uma rede, portanto,significa observar os atores, visualizados através dos perfis, e perceber as conexões comoutros atores, comunidades e páginas. A primeira rede social foi o Orkut, criada pelo engenheiro Orkut Buyukkokten,no período em que era aluno da Universidade Stanford e funcionário do Google, e elaobteve muito sucesso, principalmente no Brasil. A pessoa criava um perfil, colocandosuas principais informações, como dados pessoais, gostos e fotos, na rede. Para seramigo de alguém usando o perfil do Orkut, era preciso receber um convite e erapermitido também participar de comunidades, em que aconteciam muitas discussões,com tópicos sobre algum tema importante. No Brasil, o Orkut fez sucesso entre as pessoas, especificamente adolescentes ejovens. Mandar scraps, deixar um depoimento para um amigo, adicionar pessoas epostar vídeos foram a primeira experiência de muitos, mas logo seriam aprimoradaspelo surgimento de mais sites e de redes sociais. Atualmente, o Orkut está com poucoou quase nenhum uso, pois os internautas migraram para o Facebook, o Twitter e outrasredes mais populares. Atualmente, entrar no Orkut parece com a visita a uma cidadedesabitada, sem pessoas, com casas abandonadas. No mesmo ano de criação do Orkut, foi criado também o Facebook peloestudante de Harvard, Mark Zuckerberg. No início, o uso da rede era exclusivo paraestudantes daquela universidade, com o objetivo de socializar os alunos novatos, quemudavam de cidade e passavam por muitas mudanças. Depois, o seu uso foi aberto paraas demais pessoas, obtendo, assim, um grande sucesso mundial, chegando, no dia 4 deoutubro do corrente ano, a ter mais de 1 bilhão de usuários no mundo. 41
  • 42. Outra rede muito utilizada é o Twitter, criado em 2006, por Jack Dorsey, BizStone e Evan Williams. Correntemente, essa rede é denominada como ummicroblogging, porque permite ao usuário escrever pequenos textos de até 140caracteres, a partir da pergunta “O que você está fazendo?” Esta rede funciona a partirde seguidores e pessoas a se seguir, em que cada twitter pode decidir quem deseja seguire por quem ser seguido. O Twitter possibilitou contato de pessoas famosas (seja no meio artístico,jornalístico ou intelectual) com pessoas anônimas, proporcionando uma “aproximação”,diferentemente do que acontecia antes. Anteriormente, o único meio de saber sobreessas pessoas era através das revistas, jornais e de páginas de notícias na Internet. As redes sociais têm proporcionado um campo vasto de análises, pois o usodesses sites transformou muitos elementos em nosso cotidiano. Um passeio comamigos, uma frase que marca um dia, um grupo preferido, um momento de desabafo,uma música podem ser, agora, vistos por muitas pessoas, em tempo real. O que ficavarestrito à mente, à memória ou mesmo a um pequeno grupo de amigos agora é reveladoem um lugar público. Os internautas, portanto, utilizam esse espaço para diversascoisas, além de interagir com os amigos, como para sair do anonimato, investindo empostagens pessoais. É relevante, então, a questão da identidade, a maneira como aspessoas constroem a sua imagem em um perfil, colocam suas fotografias pessoais,assumem os principais gostos, discutem os assuntos que estão presentes no cotidiano. As redes sociais podem oferecer visibilidade para as pessoas anônimas e muitasinvestem nisso, para ter um pouco de fama, como exemplifica o caso de uma famíliaque postou um vídeo de uma música antiga Galhos Secos43. O rapaz, a irmã delejuntamente com sua mãe cantam de uma forma bem engraçada e descontraída essamúsica, gerando o bordão “para a nossa alegria” e virando sucesso virtual, com váriaspessoas a imitarem o vídeo. O tempo em que as pessoas passam nos sites é assunto abordado pelos própriosinternautas. Estar conectado faz parte do cotidiano, principalmente com os avançostecnológicos, como a possibilidade de conectar-se pelo celular. Assim, fica mais fácilpostar fotos e fazer comentários, como divulgou uma pesquisa44, em que uma pessoa43 Música composta em 1972, pela Banda Êxodos. Posteriormente foi gravada por diversos cantoresevangélicos.44 Informação retirada da página Olhar Digital. 42
  • 43. passa, em média, 8 horas e 40 minutos na Internet, sendo, desse tempo, 17% destinadospara o Facebook. Imagem 9: Postagem da página Pós-graduando Fonte: Página Pós-graduando. Acesso em agosto de 2012. É interessante abordar a efemeridade do uso dessas páginas. O Orkut foi bastanteutilizado, mas, na medida em que foram surgindo outras páginas e devido a frequentesquedas no sistema e infecção viral, os internautas migraram totalmente para o Twitter e,principalmente, para o Facebook. Além disso, é importante ressaltar que muitas pessoasutilizam e movimentam mais de uma página de rede social. Imagem 10: Postagem da página Redes Sociais Fonte: Página Redes Sociais. Acesso em setembro de 2012. No Brasil, o ano de 2012 é eleitoral e as redes sociais têm uma participaçãomuito importante nesse processo, pois os políticos utilizam o espaço para fazercampanha: colocar suas propostas, divulgar agenda e aproximar-se dos eleitores. A 43
  • 44. agência Nuvem Digital produziu um infográfico45 sobre o comportamento dosbrasileiros nas redes e revelou que o Flickr, rede social exclusiva para fotografias, émais usada do que o Google+ para discussão política. Os canais de maior diálogo são,em primeiro lugar, o Facebook com 50, 27%, em segundo, o Twitter com 29,01%, emterceiro, o Flickr com 11,49% e, em quarto, o Google+ com 5, 01%. Já a distribuiçãopor sexo informa que 63, 03% dos usuários são homens e 36, 97% são mulheres. Ohorário das postagens se dá com frequência nas 22 horas. Especificamente em Fortaleza, o uso desses sites não tem revelado umdiferencial nas campanhas. O Diário do Nordeste online tem uma seção dedicada aoscandidatos à prefeitura de Fortaleza e o uso que fazem das redes sociais, pois todos oscandidatos têm um perfil em alguma rede social e a maioria dos candidatos possuivários perfis nas redes. Na página do jornal46 on line, um especialista em marketingpessoal, Gabriel Rossi, abordou que os sites não apresentam novidades de uso e que oscandidatos estão mais preocupados com a tecnologia. O comentarista ressalta tambémque é importante não apenas focar nas pessoas que gostam de política, mas conquistarnovos eleitores.3.3 Facebook No Facebook, a página do perfil contém um mural, localizado no centro dapágina e onde fica registrado tudo o que os amigos e as comunidades “curtidas” postamnesta rede. Podemos, assim, “curtir”, “comentar” e/ou “compartilhar” qualquer linkadicionado. O perfil é composto ainda pela página inicial, que reúne as informações básicasdo usuário, como nome, data de nascimento, endereço, formação escolar, atuaçãoprofissional, estado civil etc. Também há um espaço para a disponibilização de fotos ouimagens, reunidas sob a forma de álbuns. Um dos recursos mais conhecidos é a linha do tempo (timeline). Nela, o usuáriotem direito a uma capa de perfil, que corresponde a uma imagem de sua escolha, exibidaem grandes dimensões como pano de fundo para as informações pessoais de seu perfil,sendo descrita pelo site como “uma imagem única que represente (sic) o seu melhor.45 Infográficos são gráficos com algumas informações, usados onde a informação precisa ser explicada deforma mais dinâmica.46 http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=344051&modulo=963 44
  • 45. Essa é a primeira coisa que as pessoas irão ver quando visitarem a sua linha dotempo”. A página da linha do tempo possibilita também elencar as histórias que ficamcronologicamente organizadas no perfil do usuário, além dos aplicativos47 usados.Assim, explica o próprio Facebook: “Os filmes que você cita. As músicas que você ouvesem parar. As atividades que você ama. Agora temos novos aplicativos sociais paramostrar quem você é em todas as atividades do site”. O perfil de uma pessoa, em qualquer rede social, representa uma oportunidadebastante rica de análises. Naquele espaço virtual, estão expostos gostos e atividadesrealizadas, tudo o que a pessoa mais gosta e faz questão de postar. No mural, que fazparte do perfil, percebemos as atualizações das demais páginas do Facebook comopostagens de links compartilhados, comentados e fotos recentes. Em cada postagem, seja ela de qualquer tipo, há as seguintes opções: curtir,comentar e compartilhar. Quando uma determinada pessoa “curte” uma postagem, ficaregistrado no próprio link o número de pessoas que o curtiram. Essa informação, porém,não aparece enfaticamente no mural do usuário. Em princípio, é uma forma simples depassar para os outros usuários que se gostou do link, mas, quando uma postagem é“curtida” por muitas pessoas, ela vai ganhando visibilidade, refletindo a quantidade depessoas que perceberam o link. Já o compartilhar possui outra dimensão: um linkcompartilhado aparece em todos os perfis dos amigos que a pessoa tiver, podendo sercompartilhado por eles também. Remete a algo mais interessante, mais visível e maisdigno de nota. Uma postagem ou link compartilhado pode, assim, circular muito rapidamentena Internet. Foi dessa maneira, por exemplo, que boa parte do mundo ficou sabendo damorte do cantor Michael Jackson, em 2010, antes mesmo que qualquer aviso fossepublicado na imprensa oficial. O mais interessante de observar em um perfil do Facebook é como a pessoa setorna “transparente”. Aquilo de que o indivíduo gosta, como a enorme paixão de umrapaz por futebol, é conhecido por sua torcida, por sua família e por seus amigos. Nele,tampouco são postadas coisas negativas, defeitos ou assuntos tristes. Bauman (2008)escreve sobre o grande boom das redes sociais, percebendo também como as pessoasfizeram desta um confessionário pessoal. Assim, “os usuários ficam felizes por47 São exemplos de aplicativos: as mensagens, os jogos, os eventos e as fotos. 45
  • 46. ‘revelarem detalhes íntimos de suas vidas pessoais’, ‘fornecerem informações precisas’e ‘compartilharem fotografias’” (BAUMAN, 2008, p.8) Recuero (2009) aponta para a visibilidade permitida pelas redes sociais. Para aautora, a visibilidade “é um valor por si só, decorrente da própria presença do ator narede social” (RECUERO, 2009, p.109). Como citamos acima, uma pessoa possuivisibilidade quando suas postagens têm repercussão, com uma grande quantidade de“curtir” e “compartilhar”, assim como a presença assídua no site. Castells (1999) entende que a comunicação mediada pelo computador (CMC)reforça padrões sociais existentes, pois a Internet tem a possibilidade de potencializartudo o que vivemos. Por exemplo, sempre existiram pessoas que fizeram muitas coisasao mesmo tempo, como ler muitos livros e praticar diversos esportes; no entanto, agora,com a Internet, essas pessoas se tornam internautas e têm como amplificar o número deamigos, mantendo mais contatos. No dia 04 de outubro do corrente ano, logo depois que Mark Zuckerberg, criadordo Facebook, fez referência ao 1 bilhão de usuários frequentes da página, a página dojornal O Povo, no Facebook, trouxe uma postagem48 sobre o assunto, informando queuma em cada sete pessoas no mundo faz uso da página do Facebook e que, se o sitefosse um país, seria o terceiro maior do mundo. A continuação da matéria na versão online acrescenta que o Brasil está entre os cinco países que mais possuem usuáriosjuntamente com Índia, Indonésia, México e Estados Unidos. A imagem abaixo mostra asoma dos habitantes de vários países que, juntos, remete à quantidade de usuários dosite. Imagem 11: Postagem da página Redes Sociais.48 Postagem disponível em:http://www.facebook.com/photo.php?fbid=434849029885761&set=a.169443479759652.28868.138267762877224&type=1&theater 46
  • 47. Fonte: Página Redes Sociais. Acesso em outubro de 2012. 47
  • 48. 4. A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA NA FAN PAGE FORTALEZA NOBRE A fan page Fortaleza Nobre é um espaço virtual, no qual visualizamosfotografias antigas da cidade de Fortaleza. Já abordamos suas principais postagens e ainteração de seus membros. Reconhecemos também a importância de outras páginas noFacebook e também de blogs que abordam a memória e a história de nossa cidade. AInternet disponibiliza outros sites que contêm acervos com imagens, músicas, relatos dedécadas anteriores, permitindo, assim, que observemos momentos que marcaram ahistória. O objetivo desta pesquisa é entender como se dá a construção da memória napágina FN, a partir dos comentários dos cidadãos de Fortaleza, procurando seussignificados através das postagens. Primeiramente, descrevemos a página, procurandoapresentar as diferentes postagens, que foram: o cruzamento entre a Avenida Treze deMaio e a Avenida da Universidade; um castelo, já foi demolido, que se localizava naAvenida Santos Dumont; uma imagem da Avenida Beira Mar, em 1930; um convite aoFestival da Juventude da década de 1960, com Roberto Carlos e Wanderléia; uma daSanta Casa de Misericórdia; e, por último, do Colégio Rui Barbosa. Posteriormente, analisamos os principais estudos sobre redes, o surgimento dossites na Internet, como Orkut, Facebook e Twitter, as contribuições dos mesmos para aanálise das relações na Internet e, especificamente, o Facebook, onde se localiza apágina FN, sempre procurando perceber como os internautas, através do site, podiaminteragir com as postagens. Todas as imagens mencionadas representam nossa cidade em diferentes espaçose períodos, nos quais boa parte dos internautas que interagem com a página não era nemnascida. Contudo, por intermédio das fotografias, essas pessoas conseguem visualizar opassado, descobrir um pouco do lugar em que moram, através dos comentários depessoas que viveram no período. Nesta pesquisa, estamos abordando a memória nas imagens de uma fan page noFacebook, percebendo-a como um arquivo virtual, que contribui com a história e apreservação da memória de nossa cidade. Se pensarmos nas sociedades antigas, algumasdelas tinham o objetivo de deixar algo para a posteridade, de deixar na História seusfeitos, estabelecendo, assim, grandes arquivos. “Os reis criam instituições-memória:arquivos, bibliotecas, museus. Zimrilim (cerca de 1782-59 a. C) faz do seu palácio de 48
  • 49. Mari, onde foram encontradas numerosas tabuletas, um centro arquivístico” (LE GOFF,1990, p. 375). Halbwachs (1990) afirma que, para lembrar-nos de situações e de coisas, énecessário que o grupo de referência reforce esse pensamento, sempre que possível. Nosexemplos dessas páginas que postam elementos antigos, elas trazem coisas que nemlembrávamos mais e, na grande maioria das vezes, fazem referência às perceptíveisdiferenças entre o presente e o passado. Na página FN, existem muitas postagens fazendo alusão a diferentes lugares.Segue-se uma tabela com as dez imagens mais preferidas, de acordo com os internautas,através das ferramentas de visibilidade (curtir, comentar e compartilhar) do Facebook.São notáveis os espaços bem conhecidos da população como a Praça do Ferreira, aAvenida Treze de Maio, a Praça Portugal, o Teatro José de Alencar e o Cine Diogo. Quadro 01: Imagens e visualizações Imagens Curtir Comentários Compartilhamentos 1-Iracema Plazza Hotel 298 133 309 2- Av. Treze de Maio 268 86 439 com Av. Universidade. 3-Praça Portugal 207 74 215 4- Castelo 146 47 180 5-Teatro José de 145 15 139 Alencar 6-Cine Diogo 126 33 133 7-Casa do Português 134 34 55 8-Foto da varanda do 152 28 112 Excelsior Hotel 9-Foto do Riacho 126 29 104 Maceió 10-Casa Tomaz Pompeu 113 29 61 Fonte: Elaborada pela autora. 49
  • 50. As imagens que foram colocadas na tabela, dotadas de visibilidade pelosinternautas, se fizeram ou se fazem presentes na vida cotidiana dessas pessoas, como nocaminho para o trabalho ou outro destino, como pudemos perceber através doscomentários: –[...]Mto irado, ja me perdii aii( Iracema Plazza Hotel), ja viver altos pensamentos naquela alto,rs. Olhando p mar. Sinto falta desse atual, resto de apartamento,rs. (Tatiana Rocha, postado em 13 de fevereiro de 2012.) Mas em 1978 era ainda assim,águas limpissimas( Riacho Maceió),transparentes,peixinhos e as crianças tomavam banho tranquilas.Minhas roupas eram lavadas ai no Riacho[...] (Sonia Lucia Machado Braga, postada em 29 de julho de 2012) Nesse sentido, De Certeau (1998) diz que “certamente, os processos de caminharpodem reportar-se em mapas urbanos de maneira a transcrever-lhes os traços (aquidensos, ali mais leves) e as trajetórias (passando por aqui e não por lá)” (DECERTEAU, 1998, p.176). Castells (2010) ressaltou, em uma entrevista a respeito das redes sociais, que aspessoas associam sua vida com a rede, portanto, “não é uma virtualidade em nossa vida,é nossa realidade que se fez virtual”49. É considerável dizer que muitos espaços foramapresentados para os internautas pela primeira vez, através da página, mas, por meio demuitos comentários, podemos perceber que espaços já participaram do cotidiano deles. Na visualização dos lugares, percebemos que os internautas apreciam trêsespecíficos tipos de imagens, a saber: as que não existem mais, como a do Castelo e ado Riacho Maceió; as imagens de lugares que mudaram bastante, como a da AvenidaTreze de Maio e a do Teatro José de Alencar; e as que marcaram ou chamam atençãodos internautas de alguma forma subjetiva (aspecto físico, recordações), como a daCasa do Português, a do Cine Diogo, a da Casa Thomaz Pompeu e a da Iracema PlazzaHotel. A Casa do Português, localizada na Avenida João Pessoa, por exemplo,impressiona as pessoas por sua arquitetura, mas se encontra abandonada; o Cine Diogo,não funciona mais, e a imagem da Iracema Plazza Hotel50, a mais visualizada da49 Link da entrevista: http://webmanario.com/2010/09/26/castells-a-rede-social-nao-e-uma-virtualidade-em-nossa-vida-e-nossa-realidade-que-se-fez-virtual/50 Cf. imagem 12: Postagem do edifício Iracema Plazza Hotel, em meados dos anos dourados. Data dapublicação 21 de dezembro de 2011. 50
  • 51. página, é uma estrutura grandiosa que, atualmente, se encontra em condições dedesleixo. Imagem 12: Iracema Plazza Hotel, no final dos anos 60 Fonte: Fortaleza Nobre. Data da postagem: 21 de dezembro de 2012. Quando abordamos um tema como a memória, não podemos esquecer que ela éseletiva, que só se guarda o que foi importante para o indivíduo ou para o grupo. Noscomentários, percebemos isso: através das fotografias, as pessoas relembravamepisódios da infância e da juventude, que, com certeza, contribuíram bastante para oconhecimento do espaço, visto na página (Pollak, 1992). Halbwachs (1990) aborda as definições de memória individual e memóriacoletiva. Podemos entender a primeira como um ponto de convergência de diferentesinfluências, uma forma particular de articulação das mesmas. Já a segunda se refere aotrabalho de um grupo, articulando e localizando as lembranças em quadros sociaiscomuns. Identificamos a memória coletiva na fan Page, quando os internautas possuemum pensamento em comum, como o fato de considerarem o passado como a melhorépoca para ser vivida. Em boa parte das postagens é comum essa ideia. Os lugaresantigos, juntamente com seu envolto e as ruas sem trânsito, em comparação com opresente, remetem a um desejo de retorno para o passado. Le Goff (1990) ressalta dois acontecimentos concernentes à memória coletiva,um no século XIX e outro no século XX. O primeiro foi o surgimento da fotografia, 51
  • 52. que, segundo o autor, veio para revolucionar a memória com sua multiplicação edemocratização, levando, assim, a uma precisão e a uma visualização nunca vistas antese ocasionando a possibilidade de guardar a memória no tempo e na evoluçãocronológica. O segundo acontecimento ocorreu no fim da Primeira Guerra Mundial (1918),em que foram criados os monumentos aos mortos. Assim: A comemoração funerária encontra aí um novo desenvolvimento. Em numerosos países, é erigido um Túmulo ao Soldado Desconhecido, procurando ultrapassar os limites da memória, associada ao anonimato, proclamando sobre um cadáver sem nome a coesão da nação em tomo da memória comum (LE GOFF, 1990, p. 401-402). Esse segundo acontecimento, citado pelo autor, mostra que a memória ganhanotoriedade em relação aos atos que merecem ser lembrados com honra, como acoragem dos soldados de lutar pela nação, criando, assim, um monumento para aposteridade. Atualmente, existem vários países que prestam essa homenagem e várioslíderes políticos o visitam. Le Goff (1990), citando Bourdieu, comenta que o hábito de fotografar ascrianças e formar um “álbum de família” significa deixar para elas um legado e mostrar-lhes os melhores momentos da infância, pois: As imagens do passado dispostas em ordem cronológica, “ordem das estações” da memória social, evocam e transmitem a recordação dos acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo vê um fator de unificação nos monumentos de sua unidade passada ou, o que é equivalente, porque retém de seu passado as confirmações de sua unidade presente (LE GOFF, 1990, p. 402). Araújo (2010), ao analisar as principais transformações das imagens fotográficasanalógicas para as digitais, coloca que estas possuem três olhares possíveis: o primeiroque parte do olhar dos personagens, o segundo que parte do ponto de vista do fotógrafoe o último que parte do ponto de vista dos espectadores. Na página FN, percebemosprincipalmente o último tipo de olhar, pois, através destes, a imagem é enriquecida commais detalhes e questionamentos. No Facebook, assim como os perfis, as postagens das fan pages são organizadasna linha do tempo (Timeline). Fazendo referência à data das postagens, Leila Nobremovimenta a página, colocando diferentes imagens do mesmo lugar ou seguindo uma 52
  • 53. mesma temática. Assim, podemos visualizar a página até mesmo como um álbum, comdescrições dos espaços, uma ordem e comentários dos internautas, mostrando nossahistória e memória. As imagens antigas mostram uma cidade diferente para muitos. Quando asvisualizamos, reconhecemos a localização, mas, muitas das vezes, é difícil imaginá-laem nosso contexto atual. Só assim percebemos por quantas mudanças passou a nossacidade, sejam nas ruas, na arquitetura, na própria natureza ou nos demais detalhes quecaracterizam um período, evidenciando que “a imagem não mostra o que a cidade foi,mas aquilo em que ela se transformou” (CUNHA FILHO, 2006, p.227). Ao postar fotografias antigas, fazendo menção aos espaços que não existem maise que foram destruídos, a página FN também reúne uma série de comentáriosindignados por parte dos internautas. Eles destacam que, assim, se acaba com umaarquitetura, uma história, uma memória de pessoas que utilizaram o lugar e asproximidades, que teriam um contato com o passado. Que odio me dá esse estado sem memoria. essa foi a a demolição mais absurda desta cidade.....51 Acima, os internautas criticam não só a destruição de lugares importantes dacidade, como também a existência de lugares não preservados. Essa problemática podeser percebida, por exemplo, na edição de capa do jornal O Diário do Nordeste, do dia26 de novembro do corrente ano, em que lemos a manchete “Prédios Históricos emFortaleza estão sem conservação”. Na matéria, a jornalista informa que a equipe dojornal visitou 11 lugares históricos da cidade, localizados nos bairros Centro, Aldeota eMucuripe, e constatou que muitos desses espaços não estão preparados para recebervisitantes. A matéria enfatiza o problema, principalmente por estar se aproximando operíodo das férias, sendo esta uma boa oportunidade para os turistas conhecerem nossahistória. Além de enfatizar que boa parte desses espaços não está preservada, que esseslugares são inseguros e faltam projetos de conservação, a reportagem mostra tambémoutro lado: a existência de importantes espaços que estão disponíveis para visitação51 Os dois comentários fazem referência a postagens do Castelo que fora construído por Plácido deCarvalho. Cf. imagem 3. 53
  • 54. como a Igreja Nossa Senhora do Rosário52, a Academia Cearense de Letras53, o Museuda Imagem e do Som54, o Museu de Arte da UFC (MAUC) 55 e a Igreja Nossa Senhora 56dos Remédios . Em relação à tipologia de memória, podemos diferenciar dois tipos principais: aautobiográfica ou pessoal e a social ou histórica. Como explica Halbwachs (1990), “aprimeira se apoiaria na segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da história emgeral. Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira”(HALBWACHS, 1990, p.55). Percebemos, na fan page FN, esses dois tipos dememória. No exemplo do link da inauguração da Avenida Marechal Castelo Branco(mais conhecida por Avenida Leste-Oeste)57, cada comentário à postagem manifesta amemória pessoal e remete também a uma memória social, pois, na postagem, osinternautas relatam experiências que eram, então, conhecidas por todos que estavampresentes no evento. As várias fases da vida remetem também a diversos grupos que compõem asrelações sociais, como os amigos do colégio, do trabalho, os vizinhos e os familiares.Com eles, vivemos episódios e situações que marcaram o grupo, como tambémformamos lembranças individuais. Com um grupo de referência, porém, se torna “maisfácil” relembrar essas situações, devido a um maior número de pessoas para reforçaremas lembranças. Como coloca Schmidt & Mahfoud (1993), “para Halbwachs, o indivíduo quelembra é sempre um indivíduo inserido e habitado por grupos de referência; a memóriaé sempre construída em grupo, mas é também, sempre, um trabalho do sujeito”(SCHMIDT; MAHFOUD, 1993, p. 288). Já com relação à memória coletiva, percebemos que os internautas possuem emcomum esse “apego” a fotografias antigas, que trazem para eles uma “sensação” de52 A Igreja Nossa Senhora do Rosário foi construída pela comunidade negra, em 1730, e se localiza naPraça General Tibúrcio S/N, no bairro Centro.53 A Academia Cearense de Letras é a academia literária mais antiga do Brasil, tendo sido fundada em 15de agosto de 1894. Está localizada na Rua do Rosário, nº 1, no bairro Centro.54 O Museu da Imagem e do Som era a antiga residência oficial do governador do estado. Está localizadana Avenida Barão de Studart, nº 410, n bairro Aldeota.55 O MAUC foi inaugurado em 25 de junho de 1961, pelo reitor Antônio Martins Filho. Atualmente commais de cinco mil obras no acervo, está localizada na Avenida da Universidade, nº 2, no bairro Benfica.56 A Igreja Nossa Senhora dos Remédios foi inaugurada em agosto de 1910 e demorou 32 anos para serconstruída, por falta de recursos. Sua construção foi uma iniciativa do casal João do Amaral e MariaCorreia do Amaral. A construção está localizada na Avenida da Universidade, nº 2974, no bairro Benfica.57 A Avenida Leste-Oeste foi inaugurada em 20 de outubro de 1973, com a presença do então Ministro doInterior Costa Cavalcante. Naquele dia, alguns aviões faziam evoluções, quando um deles sedesgovernou, caindo sobre três casas e matando mais de uma dezena de pessoas. 54
  • 55. recordação, de saudosismo, de identidade e, até mesmo, de descobrimento, de conhecernossa cidade. FOI BOM VOLTAR A PRAÇA [do Ferreira] COM ESTA NA FOTO. (M Lucia Moura Lucia, postada em 19 de maio de 2012) Temos bons... pena que não os vivi!!! (Amarilio Alencar, postada em 24 de ago de 2012) Ai ai..queria MUITO ter vivido nessa época de tanta coisa diferente, lindas e, principalmente, VALORIZADAS. (Poliana Falcão, postagem em 2 de ago de 2012) Relatos oriundos da infância também estão presentes na página. Os espaçosrelembram aos internautas os trajetos que eram feitos depois da escola, as visitas quefaziam com as mães, os lugares que faziam parte de seu cotidiano, como praças eigrejas. Este teatro foi o primeiro teatro (São José) a ir quando criança, é uma pena ver que ninguém até hj teve olhos para o mesmo. Brinquei muito nessa praça [a Praça Clóvis Beviláqua], quando criança. Agora me bateu a saudade! (Fátima Di Bittencourt Viera postada em 7 de Novembro de 2012). Os espaços guardados na memória são de suma importância, como a casamaterna. Bosi (1994) exemplifica, ao dizer que “ela [a casa] é o centro geométrico domundo, a cidade cresce a partir dela, em todas as direções” (BOSI, 1994, p. 435). Alémdesse espaço, podemos perceber outros na página FN, como uma igreja, uma rua e umbairro específicos. O meu cinema predileto. Fui assistir Romeu + Julieta no último dia de funcionamento do Diogo. Uma pena!!! (Cícero Robson Pereira, postada em 16 de agosto de 2012) Minha Igreja por longos anos, enquanto morei no centro! Linda!!! (Maria Alcione Almeida Chagas, postada em 25 de setembro de 2012) Fui batizado nela [na Igreja de Messejana] em 75 (Régis De Freitas Vasconcelos, postada em 18 de setembro de 2012). Assim, na página FN, os comentários dos internautas são de suma importância,porque, através deles, conhecemos um pouco de nossa própria cidade. Por meio de suaspostagens, descobrimos como ocorriam as coisas em determinada época e percebemos 55
  • 56. que muitos desses relatos estão vivos na memória, existindo pequenos detalhes nosdiscursos das pessoas. Percebemos que o saudosismo se faz presente, em quase todos os comentários.Ao visualizar as imagens e ao compará-las ao cotidiano (com engarrafamento, lugaresnão preservados, grande demanda da população), destacam-se a tranquilidade, oslugares preservados, pouco populosos, remetendo à exaltação dos períodos antigos. Essesaudosismo é notável, nos seguintes comentários: Era muito linda...Q pena,o crescimento só nos traz "FERIURA”. (Kátia Almeida, postada em 30 de agosto de 2012) Que Fortaleza linda que era!! (Valcir Machado, postada em 17 de setembro de 2012) As pessoas não sentem saudosismo somente a partir de imagens e de lugares,mas também com músicas. Os grupos musicais têm grande preferência na memória daspessoas, como The Beatles58, que cantavam na década de 1960 e tinham milhares de fãsna Inglaterra e em todo o mundo. Com a posterior separação da banda, eles aindacontinuaram conquistando fãs, vendendo discos e gerando uma demanda de eventospara relembrar suas músicas, como observou Lima Filho (2004). Os fãs de The Beatles possuem algo em comum com os internautas da fan pageFN: ambos os grupos cultuam o passado, como um melhor tempo para ser vivido.Ambos ressaltam os bons costumes e fazem oposição ao presente. Fazendo uso doexemplo dos fãs da banda britânica, eles afirmam que as músicas atuais não têmqualidade. Já os internautas apontam que o trânsito, os lugares muito cheios e a falta depreservação dos espaços são exemplos opostos às imagens da página FN. Ao visualizar as imagens, o que os internautas percebem nos detalhes vistos sãoas diferenças de uma época para a outra. As imagens postadas refletem um período quenos faz pensar no encanto da organização e em como era o estilo de vida. Como expõeCunha Filho (2006), “não é bem o passado que se mostra, mas a distância percorrida atéo presente” (CUNHA FILHO, 2006, p.227).58 The Beatles foi uma banda de rock britânica, formada em Liverpool em 1960, com os seguintesintegrantes: John Lennon, Paul McCartney George Harrison e Ringo Star. O grupo lançou 13 álbuns e 22singles (compactos). Foram os maiores vendedores de discos na década de 1960 e mantiveram o posto atémesmo depois de sua separação. O grupo encerrou suas apresentações no ano de 1970, quando seusmembros seguiram na indústria musical, com carreiras individuais. 56
  • 57. Visualizar as imagens da fan page FN implica em perceber que aqueles espaços,ainda hoje, preservam a grandeza do passado e que, devido à “falta de cuidado” e àsmudanças no decorrer do tempo, não conseguimos perceber a grande importância dessesespaços para a nossa cidade. No mais, fora das gravuras, e dos livros, na sociedade de hoje, o passado deixou muitos traços, visíveis algumas vezes, e que se percebe também na expressão dos rostos, no aspecto dos lugares e mesmo nos modos de pensar e de sentir, inconscientemente conservados e reproduzidas por tais pessoas e dentro de tais ambientes, nem nos apercebemos disto, geralmente. (HALBWACHS, 1990, p. 138). Cada postagem nos leva a muitas questões, mas a imagem sozinha não revelamuitas informações. Somente quando os internautas comentam uma imagem, ocorre umdetalhamento e enriquecimento do link. Assim, percebemos relatos de uma memóriaindividual que apresenta experiências pessoais e lugares marcantes para um período. Amemória coletiva se constitui quando os internautas compartilham e reforçam algo emcomum: valorizar o passado e colocá-lo como o melhor tempo para se viver. As postagens da página FN possibilitam aos internautas uma reelaboração dopassado e da memória pessoal, através das fotografias. Como podemos perceber, emalguns comentários, os internautas fazem referência a lugares que freqüentavam. Sãoalguns exemplos: uma pessoa comentou que foi ao Cine Diogo, onde assistiu ao seuprimeiro filme; outra comentou a igreja em que tinha casado e em que batizou seusfilhos; um internauta ressaltou a Praça Clóvis Beviláqua, onde brincou quando criança. Assim, é importante perceber que, nos comentários dos internautas, existe umaconexão entre biografias pessoais e um contexto mais amplo, da própria cidade. Apágina, então, representa um meio em que podemos perceber como se dá o trânsito entreaspectos individuais e coletivos. Na postagem sobre o Castelo de Plácido Carvalho, porexemplo, descobrimos o principal motivo de sua construção e alguns detalhes, mas,quando aparecem comentários de internautas que tiveram um maior contato com aesposa de Plácido Carvalho, mostram-se detalhes pessoais que ampliam o conhecimentoda história do lugar. As pessoas se voltam para o passado, porque encontram nele o opostovivenciado no presente. As fotografias antigas mostram uma cidade tranquila, osespaços bem preservados, poucas pessoas, os costumes e as práticas de uma épocamarcante para pessoas que tiveram a oportunidade de vivenciá-los. 57
  • 58. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Internet, juntamente com as redes sociais, disponibiliza, através de seusarquivos imagéticos, sonoros e musicais, possibilidades de recordar ou visualizarmomentos que marcaram uma época e que antes só podiam ser vistos em museus eexposições. Muitos desses elementos não eram muito lembrados, mas, com essesrecursos, foram facilitadas as possibilidades de recordar elementos importantes. A rede social analisada nesta pesquisa é o Facebook, criada por MarkZuckerberg, em 2004, e que tem crescido bastante nos últimos anos, tendo alcançado,em outubro do corrente ano, mais de 1 bilhão de usuários. Essa rede disponibilizaferramentas que possibilitam interações dos internautas com amigos, comunidades e fanpages. Existem muitos estudos relacionados a essa rede, procurando saber como aspessoas a estão utilizando e as principais mudanças que ela acarreta no cotidiano. Essa pesquisa analisou especificamente a fan page Fortaleza Nobre, que propõeser um espaço para postagens de imagens da Fortaleza antiga. A página remete adiferentes espaços, épocas e algumas publicações da mídia. Então, analisamos os usosda memória, a partir dos comentários dos internautas que interagem com a página,buscando saber como se dá a construção dessa memória. As postagens da página FN fazem referências aos espaços que são conhecidospelos fortalezenses e abrangem praças, igrejas, avenidas e escolas, destacando lugaresque foram e que ainda são relevantes para a nossa cidade. As imagens são deimportantes acervos como o do Nirez, de Assis de Lima e do MIS. Dessa forma, percebemos até aqui que a visualização de fotografias antigas emrede proporciona ao internauta uma forma de ver imagens que até algum tempo atrás seencontravam disponíveis apenas em museus, em exposições e em livros. Além disso, apágina possibilita as expressões dos fortalezenses sobre os espaços, através deexperiências próprias e recordações. A estrutura da fan page pode ser visualizada como sendo semelhante a umálbum familiar, porque as fotografias possuem data, legendas, uma organização lógicade imagens e ainda com comentários. Esses comentários completam a imagem e sãofeitos pelos internautas, que detalham os objetos, a estrutura física e as possíveismudanças. Araújo (2010) explica que, em um álbum digital, são acrescentados elementosque não eram possíveis em meio analógico. Uma imagem, por exemplo, pode receber 58
  • 59. várias interpretações em forma de comentários. Assim, através dos internautas, muitosapontamentos são feitos e se destacam elementos da época, se fazem comparações como presente e se acrescentam informações que esclarecem eventuais dúvidas. Mediante as postagens e as ferramentas de visibilidade (curtir, comentar ecompartilhar), percebemos dois tipos de imagens com as quais os internautasinteragem: os espaços que não existem mais e que, na maioria das vezes, impressionamas pessoas por não terem sido preservados; e os espaços que ainda existem, sendosubdivididos entre os que mudaram bastante e os que não mudaram quase nada. Osespaços mais visualizados são conhecidos por boa parte população, como é o caso daAvenida Treze de Maio, da Praça Portugal, do Teatro José de Alencar e do Cine Diogo. Entendemos, então, que a memória pode ser individual e/ou coletiva(HALBWACHS, 1990) e que, para as lembranças serem recordadas, é necessário queum grupo de referência as reforce. Na página FN, percebemos que cada comentárioexpõe uma experiência individual, que melhora a compreensão da imagem, e que amemória coletiva, entendida como um pensamento comum que liga um grupoespecífico, ali se faz notar pela forma de pensar o passado como o melhor tempo para seviver. Assim, as imagens que revelam tranqüilidade e preservação do espaço e danatureza são exaltados, em oposição ao presente, com todos os problemas comoinsegurança e lotação de espaços de lazer, por exemplo. Destarte, os comentários mais comuns são “eu queria ter nascido nessa época”,“A cidade era mais bonita”, “Nasci na época errada” e “Nós observamos que o tempopassa, [...], preferia antes”. O saudosismo está presente na página, assim como aexaltação de tempos passados. As imagens, por fim, revelam uma cidade que seapresenta diferente da atual. Os grupos de referências como amigos de infância e da escola e familiares estãotambém presentes nos comentários. As imagens lembram momentos vividos pelosinternautas que citam experiências pessoais e isso revela a importância desses grupospara o reforço das lembranças pessoais (HALBWACHS, 1990). No primeiro capítulo desta monografia, abordamos como começou a página FN,quem faz a moderação, quais são as principais postagens e comentários dos internautas,tendo como objetivo de aproximar o leitor da página e explicar seu mecanismo. Já nosegundo capítulo, vimos os principais estudos sobre redes e os principais sites,especificamente o Facebook e como os internautas interagem com suas ferramentas. 59
  • 60. Então, mediante a análise da fan Page, com suas postagens e os comentários dosinternautas, percebemos como se dá a construção da memória em Fortaleza Nobre.Primeiramente, o saudosismo presente nos comentários é evocado, pelo modo como opassado é apresentado nas imagens e se opondo ao que vivemos hoje. Nas fotografias,se apresenta uma cidade em que muitos membros da FN não vivenciaram, devido àdiferença do tempo. Outra forma pela qual o saudosismo se apresenta é nos comentários que relatamlembranças, de alguma forma, vividas pelos internautas. As boas recordações parecemquerer dizer que aquele período era o melhor. Assim, podemos entender que o passado érepresentado na página por coisas boas: as imagens evocam nos internautas vivências elembranças que possibilitam o resgate dos detalhes necessários para complementar aimagem, como momentos, espaços, grupos de referência, estilo de vida na época ecostumes. Tudo isso faz com que o passado ganhe cada vez mais visibilidade dentro dapágina. Portanto, compreendermos que a construção da memória depende da junção devários elementos, cuja base está no saudosismo. A partir dele, são retomados vários“detalhes’ da memória, presentes tanto nos comentários como nas descrições de lugares,na utilização dos mesmos, nas lembranças dos grupos, nos espaços e nos trajetos,compondo juntamente com as imagens a memória da página. 60
  • 61. REFERÊNCIASABREU, Maurício de Almeida. Sobre a Memória das Cidades. In: Revista Território,ano III, n. 4. Lisboa: 1998, p. 5-26. Disponível em:<http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1609.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2012.ARAUJO, Camila Leite de. Do Analógico ao Digital: As Transformações na Produçãodos Instantâneos Fotográficos no Cotidiano. Fortaleza: UFC, 2010. [Dissertação deMestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social daUniversidade Federal do Ceará].BARTHES. Roland. A Câmara Clara: Nota sobre fotografia. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1984.BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: A transformação das pessoas emmercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.______; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: JorgeZahar, 2010.BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia dasLetras, 1994.CAPRA, Fritjof. Vivendo em redes. In: DUARTE, Fábio et alli. (orgs.). O tempo dasRedes. São Paulo: Perspectiva, 2008, p. 17 -29. [Coleção Big Bang].CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede: A era da informação: economia, sociedadee cultura. V. 1. 4 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.CUNHA FILHO, Paulo Carneiro. A representação visual da memória: Imagens emelancolia na Cidade Periférica. In: PRYSTHON, Angela (org.). Imagens da Cidade:Espaços Urbanos na Comunicação e Cultura Contemporâneas. Porto Alegre: Sulina,2006. 61
  • 62. DE CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. 3 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998.GIDDENS, Anthony. Os meios de comunicação de massa e a comunicação em geral.In: ______. Sociologia. 7 ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2009.HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.IANNI, Octavio. A era do Globalismo. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1999.LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: EdUNICAMP, 1990.LEMOS, André. Cibercultura, Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea.Porto Alegre: Sulina, 2007.LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999.LIMA FILHO, Irapuan Peixoto. A Cena Beatle em Fortaleza: Memória e Sociabilidadena Construção de um Movimento Cultural. Fortaleza: UFC, 2004. [Dissertação deMestrado apresentada no Programa de Pós- Graduação em Sociologia da UniversidadeFederal do Ceará].RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.POLLAK, Michel. Memória, esquecimento e silêncio. In: Revista Estudos Históricos.v.2, n.3. Rio de Janeiro: FGV, 1989. p. 3-15. Disponível em:<http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2278/1417>. Acesso em: 4set. 2012.______. Memória e Identidade Social. In: Revista Estudos Históricos. v. 5, n.10. Riode Janeiro: FGV,1992. p. 200-212. Disponível em: 62
  • 63. <http://reviravoltadesign.com/080929_raiaviva/info/wp-gz/wp-content/uploads/2006/12/memoria_e_identidade_social.pdf>. Acesso em: 18 set. 2012.PORTUGAL, Silva. Contributos para uma discussão do conceito de rede na teoriasociológica. In: Oficina do CES, n. 271. Lisboa, s/Ed, 2007. Disponível em:<http://www.ces.uc.pt/publicacoes/oficina/271/271.pdf >. Acesso em: 17 ago. 2012.SCHMIDT, Maria Luiza Sandoval; MAHFOUD, Miguel. Halbwachs: MemóriaColetiva e Experiência. In: Psicologia USP, 4(1/2). São Paulo: Instituto de Psicologiada USP, 1993. p. 285-298. Disponível em:<http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/psicousp/v4n1-2/a13v4n12.pdf >. Acesso em:27 ago. 2012.Notícias da InternetMatéria sobre Mark Zuckerberg. Disponível em:<http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/02/ele-sabe-tudo-sobre-voce-trecho.html> Acesso em: 15 fev. 2012.Repercussão do Filme Rede Social. Disponível em:<http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/11/o-g1-ja-viu-filme-rede-social-traca-retrato-critico-da-juventude-20.html>. Acesso em: Nov. 2011.Reeleição do Barack Obama. Disponível em:<http://blogmidia8.com/2012/11/infografico-analisa-repercussao-da-vitoria-de-obama-nas-redes-sociais.html>. Acesso em: 7 nov. 2012.Campanhas eleitorais nas redes. Disponível em:<http://blogmidia8.com/2012/10/as-campanhas-e-as-discussoes-politicas-nas-redes-sociais.html>. Acesso em: Out. 2012.Parte de entrevista com Manuel Castells. Disponível em:<http://webmanario.com/2010/09/26/castells-a-rede-social-nao-e-uma-virtualidade-em-nossa-vida-e-nossa-realidade-que-se-fez-virtual/>. Acesso em: Nov. 2012.Linha do Tempo contando a história do Facebook. Disponível em:<http://g1.globo.com/platb/o-perfil-do-facebook/>. Acesso em: Abr. 2012.Estudo sobre Mídias Sociais. Disponível em: 63
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