Inclusiva superdotação tecnologia
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Inclusiva superdotação tecnologia Inclusiva superdotação tecnologia Presentation Transcript

  • Ministério da EducaçãoSecretaria de Educação Especial Altas Habilidades / Superdotação Encorajando Potenciais Angela M. R. Virgolim Brasília, DF 2007
  • FICHA TÉCNICASecretaria de Educação Especial Projeto GráficoClaudia Pereira Dutra Michelle VirgolimDepartamento de Políticas de Educação IlustraçõesEspecial Isis MarquesCláudia Maffini Griboski Lucas B. SouzaCoordenação Geral de Desenvolvimento Fotosda Educação Especial Vini GoulartKátia Aparecida Marangon Barbosa João Campello Banco de imagens: FICHA CATALOGRÁFICAAutora Stock XchngAngela Mágda Rodrigues Virgolim Dados Interncaionais de Catalogação na Publicação (CIP) CapaRevisão Técnica Rubens Fontes Virgolim, Angela M. R.Renata Rodrigues Maia-Pinto Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais / AngelaTiragem M. R. Virgolim - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de5 mil exemplares Educação Especial, 2007. 70 p.: il. color. ISBN 978-85-60331-13-0 1. Superdotação. 2. Identificação de talentos. 3. Educação dos superdotados. I. Brasil. Secretaria de Educação Especial. II. Título. CDU 376.54
  • 4
  • APRESENTAÇÃO A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdotação tem fundamento nos princípios filosóficos que embasam a educação inclusiva e comoobjetivo formar professores e profissionais da educação para a identificação dos alunos com altashabilidades/superdotação, oportunizando a construção do processo de aprendizagem e ampliando oatendimento, com vistas ao pleno desenvolvimento das potencialidades desses alunos. Para subsidiar as ações voltadas para essa área e contribuir para a implantação, a Secretaria deEducação Especial do Ministério da Educação – SEESP, convidou especialistas para elaborar esseconjunto de quatro volumes de livros didático-pedagógicos contendo informações que auxiliam as práticasde atendimento ao aluno com altas habilidades/superdotação, orientações para o professor e à família.São idéias e procedimentos que serão construídos de acordo com a realidade de cada Estado contribuindoefetivamente para a organização do sistema educacional, no sentido de atender às necessidades e interessesde todos os alunos, garantindo que tenham acesso a espaços destinados ao atendimento e desenvolvimentode sua aprendizagem. A atuação do MEC/SEESP na implantação da política de educação especial tem se baseadona identificação de oportunidades, no estímulo às iniciativas, na geração de alternativas e no apoioaos sistemas de ensino que encaminham para o melhor atendimento educacional do aluno com altashabilidades/superdotação. Nesse sentido, a Secretaria de Educação Especial, implantou, em parceria comas Secretarias de Educação, em todas as Unidades da Federação, os Núcleos de Atividades de AltasHabilidades/Superdotação – NAAH/S. Com essa ação, disponibiliza recursos didáticos e pedagógicose promove a formação de professores para atender os desafios acadêmicos, sócio-emocionais dos alunoscom altas habilidades/superdotação. Estes Núcleos são organizados para atendimento às necessidades educacionais especiais dosalunos, oportunizando o aprendizado específico e estimulando suas potencialidades criativas e seu sensocrítico, com espaço para apoio pedagógico aos professores e orientação às famílias de alunos com altashabilidades/superdotação. Os professores formados com o auxílio desse material poderão promover o atendimento e odesenvolvimento dos alunos com altas habilidades/superdotação das escolas públicas de educação básicae disseminando conhecimentos sobre o tema nos sistemas educacionais, comunidades escolares e famíliasnos Estados e no Distrito Federal. Claudia Pereira Dutra Secretária de Educação Especial
  • 6
  • SUMÁRIOIntrodução 09Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/superdotação? 13O papel da família, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentosCapítulo 2: O que as palavras querem dizer? 21As diferentes terminologias e definições na áreaCapítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? 41As características cognitivas, afetivas e sociais do superdotadoCapítulo 4: Encorajando potencialidades 51Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática
  • 9INTRODUÇÃO Atas Habilidades / Superdotação: Encorajando de Alunos Volume 02: Atividades de Estimulação Potencias Introdução Sempre que falamos em superdotação, o cialidades em seus anos iniciais de vida e seusque nos vem à mente é a figura dos grandes gênios talentos podem ficar escondidos ainda durantee visionários da humanidade. Albert Einstein, os anos escolares e, às vezes, por toda a sua vida.William Shakespeare, Wolfgang Amadeus É vital para a criança, já nas primeirasMozart, Isaac Newton, Charles Darwin, séries, sentir que é aceita pelos professores eLeonardo da Vinci, Marie Curie, Mahatma colegas de classe. No entanto, se o professorGhandi e Pablo Picasso estão entre os relati- não valida ou aceita as habilidades avançadas evamente poucos que ousaram inventar idéias interesses intelectuais da criança, incorporando-inteiramente novas e quebrar os paradigmas os ao currículo, esta pode deixar de vivenciarvigentes em suas áreas. Todos eles se destacaram sentimentos de aceitação. Da mesma forma, se aem virtude de suas realizações criativas, deram criança cedo descobre que é diferente dos colegascontribuições positivas para a humanidade e e que a comunicação é difícil devido à diferençaelevaram o conhecimento humano, as ciências, de vocabulário e modo de se expressar, pode vira tecnologia, a cultura e as artes a patamares a não ser aceita pelos amigos. Assim é que osinusitados. primeiros anos escolares, que deveriam fomentar No entanto, chama-se a atenção, nos dias o ímpeto para o entusiasmo e aprendizagematuais, para o fato de que essas mentes extra- nos anos vindouros, pode ser um sinal, para oordinárias, a despeito de suas potencialidades aluno brilhante, de fracasso e insucesso. Muitogenéticas, não nasceram inteiramente prontas. freqüentemente a criança aprende a esconderNão há uma separação absoluta entre tais ou negar suas habilidades, passando a desen-pessoas e os seres humanos “comuns” como eu volver problemas comportamentais ou psicoló-e você. Pesquisadores chamam a atenção para gicos, a fim de melhor se adaptar às demandaso fato de que todos temos aspectos comuns no do ambiente escolar. Além disso, a maiorianosso desenvolvimento e, embora nem todos nós dessas crianças demonstra um padrão desigualsejamos um dia reconhecidos por nossos talentos, de desenvolvimento cognitivo, expresso emtorna-se reconfortante pensar que podemos diferenças entre o desenvolvimento intelectual eencorajá-los e desenvolvê-los pelo menos para o emocional ou psicomotor, por exemplo.levarmos vidas mais produtivas e satisfatórias. Torna-se nossa tarefa, enquanto educa- A criança entra na vida escolar, em geral, dores, conhecer os pontos fortes e os interessessem consciência de seus talentos. Muitas crianças do aluno, suas necessidades cognitivas, sociais enão têm a oportunidade de explorar suas poten- afetivas peculiares, a fim de dar-lhes oportunidades
  • 10 de construir seu próprio conhecimento no seu uma resposta adequada aos problemas propostos mento da legislação brasileira e o princípio da próprio ritmo. Talvez assim possamos trans- pela área. Além de atender ao alunado identi- igualdade de oportunidades para todos. formar suas potencialidades e promessas, visua- ficado como superdotados, os Núcleos objetivam O propósito deste livro é o de esclarecer, lizadas em seus primeiros anos, em certezas a promoção da formação e capacitação dos principalmente os educadores que atuam nos e realizações. professores para que possam identificar e atender NAAH/S, sobre o desenvolvimento de poten- Muitos são os desafios que nossas escolas a esses alunos, aplicando técnicas e estratégias ciais. Sabemos que o tema das altas habilidades/ têm que enfrentar para poderem fornecer uma de ensino para a suplementação, a diferenciação superdotação é ainda pouco discutido em nossas educação de qualidade e atender às demandas e o enriquecimento curricular. Além disso, universidades, o que produz uma lacuna na cognitivas de todo o seu alunado de forma propõem-se a oferecer acompanhamento aos pais formação dos professores. Muitos saem de seus inclusiva. A par destes desafios, a criação dessas crianças e à comunidade escolar em geral, cursos sem terem a oportunidade de conhecer dos Núcleos de Apoio às Altas Habilidades/ e colaborar para a construção de uma educação esta área tão importante do desenvolvimento Superdotação – NAAH/S apresenta-se como inclusiva e de qualidade, assegurando o cumpri- da criança. Para os pais, o desconhecimento é
  • 11ainda maior, uma vez que nossa sociedade ainda pela mudança e transformação contínuas são mentos, o senso de humor, a não conformidade,trata este tema como tabu. A mídia, muitas pontuadas, tendo como foco o papel da pessoa a introversão. Pais e professores necessitam saber Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos Introduçãovezes, nos dá uma idéia estereotipada sobre a com altas habilidades nestas transformações. A destas características peculiares para se colocaremsuperdotação, vista principalmente sob a ótica criatividade, o pensamento crítico e habilidades em uma posição privilegiada para entender eda pessoa academicamente precoce e capaz de analíticas devem ser combinadas para aumentar guiar a criança em seu processo de desenvolvi-feitos maravilhosos. O termo “superdotado”, as chances de sucesso na sociedade atual. Assim, mento, de forma a ajudá-la a se tornar um adultoalém de ser apresentado de forma deturpada, torna-se necessário entender como os educadores equilibrado e saudável.gera confusões até mesmo entre as pessoas com podem contribuir para desenvolver o talento e o E finalmente, o quarto e último capítulohabilidades superiores, que não se percebem potencial dos filhos desde tenra idade, tendo em focaliza o encorajamento das potencialidades,como superdotadas. Isto provavelmente se dá mente que o ambiente é o principal promotor mostrando a relação da superdotação com aporque a palavra as remete aos super-heróis das das capacidades superiores que um dia vão inteligência e como ela é vista pelos teóricosestórias em quadrinhos que, com seus poderes desabrochar de forma plena. nos dias atuais. Atividades práticas a seremsobrenaturais, as fazem se sentir diferentes O segundo capítulo vem esclarecer o desenvolvidas pelas crianças de acordo comdos demais. significado de tantas palavras diferentes – super- as inteligências demonstradas em sala de aula As pessoas com altas habilidades formam dotado, precoce, prodígio, gênio, entre outras. e como os professores podem aconselhar osum grupo heterogêneo, com características A superdotação será assim focalizada inicial- pais a desenvolver o talento e a criatividadediferentes e habilidades diversificadas; diferem mente pelo olhar da mídia e pelo que ela tem no contexto familiar são também debatidos. Euns dos outros também por seus interesses, a contribuir com a divulgação da área, por meio finalmente, o capítulo termina mostrando comoestilos de aprendizagem, níveis de motivação de casos que se tornaram conhecidos no cenário a superdotação pode ser identificada e desen-e de autoconceito, características de perso- mundial. Em contraponto, a visão da ciência e volvida na prática, assinalando os métodos denalidade e principalmente por suas necessi- informações advindas de evidências empíricas identificação mais comuns aos diversos modelosdades educacionais. Entendemos que é tarefa serão apresentadas, focalizando questões como existentes, as formas mais comuns utili-dos educadores, sejam eles professores ou pais, heterogeneidade da população, multipotenciali- zadas na escola regular e nos programas paracompreender a superdotação em seus aspectos dades, níveis diferentes de habilidades e pontos de superdotados, e exemplificados por meio domais básicos e assim se tornarem agentes na vista diferentes sobre a importância da genética e Modelo de Enriquecimento Escolar de Josephpromoção do desenvolvimento dos poten- do ambiente no fenômeno da superdotação. Renzulli e do Modelo do Aprendiz Autônomociais, de forma a poder atender as necessidades Como reconhecer uma criança super- de George Betts.especiais desta população. dotada? As características cognitivas e afetivas do Esperamos que este livro venha a suprir O primeiro capítulo deste livro foi delineado superdotado, assim como suas necessidades sócio- as necessidades na área apontadas por paisem forma de uma instigante pergunta: Por que emocionais são debatidas no terceiro capítulo. e professores, preocupados em fornecer umainvestir na educação de alunos com altas habili- Torna-se importante entender alguns traços educação de excelência aos seus filhos e alunos,dades/ superdotação? Neste capítulo são discu- de personalidade típicas do grupo – como por dirimindo noções estereotipadas e assinalandotidos o papel da família, da escola e da sociedade exemplo, o perfeccionismo, a grande necessidade práticas que favorecem o desenvolvimento deno desenvolvimento dos talentos. As habilidades de entender o mundo à sua volta, de ter a neces- potenciais.mentais essenciais em uma sociedade que prima sária estimulação mental, a intensidade dos senti- A todos uma boa leitura.
  • Capítulo 1Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? O papel da família, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos
  • 15O desenvolvimento dos talentos e são uma fonte revigorante, duradoura e infin- recomenda aos educadores que considerem trêso papel dos educadores dável. Neste sentido, o psicólogo e neurofi- papéis que a criança terá que representar, com Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? siólogo David Lewis, em seu livro “Mentes perfeição, a fim de que seja bem sucedida no O século XXI nasce como o prenúncio de Abertas” (Lewis, 1987) alerta para o papel dos mundo do futuro: o papel do aventureiro; douma nova era, em que cada vez mais as nações pais e educadores na aprendizagem inicial da artista e do atleta.percebem que os talentos humanos são seus bens criança, a fim de ajudá-la a dominar as habili- O papel de aventureiro refere-se a umamais preciosos. Os desafios do futuro exigem, dades mentais essenciais para o sucesso futuro. disposição interior para explorar e se aventurarsem dúvida, que nossos jovens desenvolvam Segundo ele, o bom êxito da aprendizagem por novos caminhos, descobrir novos padrõeshabilidades intelectuais fundamentais, como depende de três fatores fundamentais: infor- e levantar diversos tipos de informações paraa capacidade de recordar rapidamente infor- mação, motivação e segurança. Assim sendo, construir uma idéia. O aventureiro é aquelamações, de desenvolver o pensamento lógico, de os educadores devem colocar tais fatores em pessoa curiosa, que busca estratégias parabuscar soluções eficientes para problemas e tomar prática, da seguinte maneira: (a) agindo comodecisões efetivas. No entanto, a velocidade com uma fonte de informação; (b) desenvolvendoque o conhecimento passou a ser transmitido por o desejo natural da criança de aprender; e (c)meios eletrônicos de uma região do mundo à outra proporcionando-lhe um ambiente seguro ondeintroduziu a necessidade de constante inovação, ela possa exercitar e aperfeiçoar suas habilidadesque compreende o domínio e a conquista de mentais. E, em adição a tudo isso, estimular asnovas habilidades, o desenvolvimento e aperfei- crianças a manterem uma mente aberta.çoamento de talentos e a urgência de se agir e A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTOpensar com maior criatividade. O mundo de DE TALENTOS NA SOCIEDADEhoje clama por boas idéias, por mudanças em Os educadores que querem ajudar osnossas noções pré-concebidas, principalmente jovens a obterem êxito no mundo atual devemquando os velhos hábitos já não resolvem novos estimular certos aspectos de sua personalidadeproblemas. Essa postura exige uma combinação que os permitam expandir seus talentos ede inteligências para resolvermos problemas e aplicá-los em algum campo do conhecimentocriarmos novos produtos necessários ao desen- e da cultura. Sendo assim, em adição a estasvolvimento de nossa cultura. Exige também a habilidades mentais essenciais já citadas – reterintegração de ações que devem se iniciar no lar e recordar informações, pensamento lógico,e progredir com a ajuda da escola, a fim de que resolução criativa de problemas e tomada efetivapossamos preparar nossos jovens para enfrentar de decisões –, o jovem do mundo de hoje deveos desafios de uma sociedade onde as transfor- desenvolver outras habilidades mentais que,mações constantes são a única certeza. embora fundamentais para o êxito do pensa- A inteligência, a criatividade, o entusiasmo mento, raramente são reconhecidas comoe a habilidade das crianças constituem-se não tendo um papel essencial no talento intelectualsó no bem maior de uma nação, como também adquirido. Para perceber sua importância, Lewis
  • 16 descobrir, de forma eficiente, as informações ação. Lewis recomenda aos educadores que das experiências vivenciadas. Neste ponto, a que estão no mundo à sua volta; é perseverante e estimulem nas crianças a imaginação, a intuição família aprece em posição de destaque. confia em sua percepção e intuição; tem espírito e a habilidade de ver além dos limites do que é, Benjamin Bloom (1985) e seus colabo- independente e mente flexível, que o levam ao para discernir o que poderia ser. radores no final da década de 50 desenvol- desejo de conquistar, de estabelecer metas e lutar No entanto, em um mundo essencialmente veram uma pesquisa que se tornou clássica e para alcançá-las. Pessoas com o espírito aventu- tecnológico como o de hoje, onde as questões bastante conhecida na área, envolvendo famílias reiro são as que buscam o conhecimento, usando da prioridade e da rapidez se traduzem como de renomados nadadores, jogadores de tênis, seu pensamento lógico para acumular infor- vantagens competitivas no mundo do trabalho, as pianistas, escultores, matemáticos e neurolo- mações essenciais, mas também usam suas habili- habilidades apresentadas pelos atletas se tornam gistas. Este autor relata que os pais de crianças dades de pensamento criativo para fugir da rotina também necessárias. Neste sentido, o jovem que mais tarde se tornaram adultos com habili- e dos velhos hábitos. Assim como o aventureiro, do nosso século deve possuir o entusiasmo, a dades superiores acreditavam na importância precisamos treinar nossos jovens para se tornarem energia criativa e a determinação dos campeões do trabalho árduo e ativo, com ênfase na aptos a conquistar as experiências do mundo em esportivos para comunicar suas novas idéias ao autodisciplina e em dar o melhor de si para se primeira mão, não apenas lendo sobre elas, mas mundo. Necessitará ainda do poder de persuasão alcançar o objetivo proposto; demonstravam manipulando, experimentando e elaborando suas e de clareza de expressão, mostrando ao mesmo estar orgulhosos das habilidades dos filhos e de próprias hipóteses. Os responsáveis pela educação tempo sua paixão, entusiasmo e motivação pelo suas realizações, inclusive mostrando interesses da criança devem cultivar a sua curiosidade, seu projeto. Pais e professores estão em uma similares aos deles (como passatempos ou motivá-la a buscar novas estratégias e construir posição chave para estimular nas crianças a auto- profissões), ajudando-os a organizar o tempo, a seus próprios caminhos em busca do saber. confiança e a determinação necessárias para estabelecer prioridades e a manter altos padrões O sucesso no mundo que o jovem irá vencer em um mundo onde a força do raciocínio para que uma tarefa fosse completada. enfrentar no futuro depende cada vez mais da e da criatividade substituíram a força física como Bloom forneceu evidências de que pais que habilidade de lidar com o desconhecido, trans- um passaporte essencial para o sucesso. têm maiores chances de influenciar positivamente formando, adaptando, imaginado outros usos A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO no desenvolvimento da inteligência e do potencial e agindo sob perspectivas únicas e originais. DE TALENTOS NA FAMÍLIA de seus filhos são os que: (a) combinam apoio e Assim, torna-se também essencial agregar ao Pais afetuosos e preparados, assim como altas expectativas para com o desempenho dos papel de aventureiro outro traço importante um professor motivador, enamorado pela disci- filhos; (b) encorajam a criança nos seus esforços de nossa personalidade: o de artista. Este seria plina que ensina, podem aumentar a probabi- para aprender novas habilidades; (c) providenciam nosso personagem interior que transforma as lidade da criança e do jovem a desenvolverem recursos e oportunidades de aprendizagem além informações obtidas pelo aventureiro em novas as habilidades necessárias para dar, no futuro, daquelas fornecidas pelo ambiente escolar; e (d) idéias, que enxerga o mundo por novas perspec- contribuições expressivas à humanidade e, ainda, estimulam seus filhos a se engajarem na área tivas, conceitos e idéias. O artista dentro de ter uma qualidade de vida mais satisfatória. de interesse o mais cedo possível, escolhendo o nós não se prende à rotina do que é familiar e Apesar de a inteligência geral apresentar uma primeiro instrutor com cuidado. está sempre transformando, invertendo, modifi- grande predisposição genética, outras habili- Os seres humanos nascem com um cando, imaginando como pode fazer diferente dades cognitivas relacionadas à superdotação enorme potencial. No entanto, o estudo de para se tornarem produtivas em seu campo de podem desenvolver-se ou declinar-se em função Bloom confirma que o desempenho superior
  • 17aparece depois que as crianças são estimuladas de 1986, a professora Drª. Eunice Soriano de talentos humanos, a Drª. Zenita Guenthere encorajadas pelos pais, e não antes, como se Alencar, pioneira na implementação do estudo reflete que o nosso papel, enquanto educadores, é Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação?poderia supor. O autor parte do princípio de que, das altas habilidades/ superdotação no país, já o de “encaminhar o desenvolvimento de pessoasnão importando quais sejam as características chamava a ateção para a importância do desen- e encontrar a melhor e mais apropriada formainatas apresentadas pela criança, a menos que volvimento dos talentos e para a implementação de prover a cada um aquilo de que ele necessitahaja um longo e intensivo processo de encora- de programas educacionais direcionados a esta para se tornar o melhor ser humano que podejamento, afetividade, educação e treinamento, população. Dizia ela: vir a ser” (Guenther, 2000, p. 20). Reconhecer,os indivíduos não atingirão níveis extremos de “... o futuro de qualquer nação depende da estimular e aproveitar talentos humanos emcapacidade nos campos pesquisados. qualidade e competência de seus profissionais, desenvolvimento ou em potencial nas diversas Bloom enfatiza que o encorajamento e da extensão em que a excelência for cultivada áreas do saber humano é, afinal, responsabi-afetividade são essenciais no caso dos primeiros e do grau em que condições favoráveis ao de- lidade de todos: família, escola e sociedade.instrutores ou professores dos anos iniciais da senvolvimento do talento, sobretudo do talento Nesta perspectiva, torna-se necessário quecriança pré-escolar. Mais do que a disciplina intelectual, estiverem presentes desde os primei- nossas escolas encarem o desafio de guiar nossose a habilidade em si, estes devem, fundamen- ros anos da infância”. (...) “O fato de que uma alunos para o desenvolvimento de traços detalmente: (a) ensinar com carinho e respeito à boa educação para todos não signif ica uma edu- personalidade e atitudes favoráveis ao desenvol-velocidade e estilo de aprendizagem da criança; cação idêntica para todos tem levado a um inte- vimento do talento; e que este possa ser correta-(b) transformar as lições em atividades lúdicas; resse crescente pelos alunos mais competentes mente identificado, estimulado e potencializado(c) utilizar mais o ensino individual do que o e capazes, a par de uma consciência de que um ao máximo.coletivo; e (d) desenvolver atividades em que os sistema educacional voltado apenas para o estu- Mudanças são necessárias na estruturapais possam participar e demonstrar interesse no dante médio e abaixo da média pode significar escolar atual, a fim de que se promova condiçõesque a criança aprendeu. À medida que a criança o não-reconhecimento e estímulo do talento e, apropriadas para a realização criativa e produtivase desenvolve, progride em seu aprendizado e consequentemente, o seu não-aproveitamento” dos alunos; engajá-los em experiências dedomina uma técnica ou habilidade, o papel do (p. 11). aprendizagem que satisfaçam seus interesseseducador também se modifica, tornando-se Desta forma, a eqüidade na educação e estimulem sua imaginação (Alencar, 1995),eventualmente mais centrado nas habilidades, seria obtida não por meio do fornecimento de assim como prepará-los para se tornarem produ-na autodisciplina e no ensino individualizado. experiências de aprendizagem idênticas para tores, e não só consumidores, do conhecimento O trabalho de Bloom fez importante todos os alunos, mas sim por uma ampla gama (Renzulli & Reis, 1997a).contribuição à prática educacional, no sentido de experiências cuidadosamente planejadas Neste sentido, a missão das escolas deveriade acentuar a importância dos anos iniciais e, e diferenciadas que levam em conta as habili- ser a de encorajar a produtividade criativa econsequentemente, do ensino pré-escolar no dades, interesses e estilos de aprendizagem de intensificar a qualidade de experiências dedesenvolvimento precoce das altas habilidades. cada estudante (Virgolim,1998). aprendizagem para todos os estudantes e não A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO Nesta mesma linha de pensamento, e só para os que se destacam por suas capacidadesDE TALENTOS NA ESCOLA preocupada com o desperdício e o desvio dos intelectuais superiores. Assim sendo, a sua meta No prefácio da primeira edição de seu 1 Este livro foi reeditado por Alencar e Fleith, em 2001, sob o título: não seria, a priori, identificar e separar o grupolivro “Psicologia e educação do superdotado”¹ “Superdotados: Determinantes, educação e ajustamento”, ed. EPU. dos superdotados daqueles que não o são, mas
  • 18 sim prover a cada aluno com as oportunidades, níveis em escolas públicas e particulares; (d) especiais; de se fazer mais pesquisas na área; e recursos e encorajamento necessários para atingir cursos de graduação e pós-graduação nas de influenciar o desenvolvimento de políticas o seu potencial máximo, de forma inclusiva. universidades brasileiras específicos para a área; públicas, no contexto brasileiro, que favoreçam o DESAFIOS PARA AS ESCOLAS BRASILEIRAS : (e) técnicas mais modernas de identificação; (g) reconhecimento, o estímulo e o aproveitamento PROBLEMAS E SOLUÇÕES maior número de pesquisas realizadas com esta de nossos potenciais humanos. Embora o perfil do atendimento ao população para a realidade brasileira; e (h) mais Algumas pesquisas realizadas no Brasil aluno superdotado tenha expressivamente se literatura especializada em nosso idioma. (Fleith & Virgolim, 1999; Maia-Pinto, 2002; modificado nos últimos cinco anos, vários são Vários pesquisadores brasileiros (por Virgolim, 2005) apontam para alguns desafios a os problemas que a área da superdotação ainda exemplo, Alencar & Fleith, 2001; Fleith & serem enfrentados na área, como a necessidade enfrenta na realidade educacional brasileira Virgolim, 1999; Guenther, 2000; Sabatella, de integração do ensino regular com o especia- (ver Quadro 1). Para Virgolim (1998), a área 2005; Virgolim, 1997, 2005) assinalam a neces- lizado. Estes autores destacam a importância do se caracteriza pela falta de: (a) treinamento sidade de ampliação de serviços específicos para professor do ensino regular estimular a partici- especializado dos profissionais; (b) materiais se conhecer melhor as características deste grupo pação do aluno identificado em sala de recursos adequados à necessidade do grupo; (c) currí- em nosso país; de atender, no contexto escolar e e de que haja uma coordenação efetiva que se culos e programas adequados aos diferentes familiar, suas necessidades afetivas e cognitivas responsabilize pelo desenvolvimento destes alunos tanto no contexto da sala regular quanto QUADRO 1: OS DESAFIOS DA ÁREA na de recursos. Também Reis (1986) discute a questão da Disseminar a área da superdotação, aprofundando o conhecimento da sociedade sobre o tema; “responsabilidade” do programa, apontando para o fato, tão comum nas escolas americanas quanto Ressaltar as necessidades cognitivas, sociais e emocionais especiais desta população; nas brasileiras, da escola regular não assumir a Combater mitos e falácias, como o de que o superdotado não necessita de mais recursos, podendo se responsabilidade pela educação total da criança desenvolver sozinho; ou do jovem, quando isso implica o exercício Proporcionar treinamento especializado aos profissionais envolvidos; de atividades fora da classe regular. Há uma tendência para se criar uma separação entre os Proporcionar materiais adequados à necessidade do grupo; dois programas, como se a criança pudesse “ser Desenvolver e utilizar técnicas modernas de identificação; superdotada” apenas no atendimento especia- Adaptar e diferenciar currículos e programas aos diferentes níveis em escolas públicas e particulares; lizado. Esta separação é também percebida quando o professor do ensino regular não tem Implantar cursos de graduação e pós-graduação específicos para a área nas universidades brasileiras; conhecimento de que o aluno está participando Realizar mais pesquisas com esta população para a nossa realidade; de um programa para as altas habilidades, ou Publicar e implementar a literatura especializada em nosso idioma. quando atribui a responsabilidade pelo desen- volvimento do potencial deste aluno apenas ao Fonte: Virgolim, 1998 professor da sala de recursos. Conseqüentemente, o programa passa a ser visto como um apêndice
  • 19do sistema escolar, ao invés de um serviço neces- assim, é interessante ressaltar que Evgeny teve a O caso desses dois talentos artísticossário ou mesmo essencial (Fleith & Virgolim, oportunidade de participar de um atendimento mencionados revela os desafios que ainda Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação?1999). especializado, em São Petesburgo, e contar com teremos de enfrentar se quisermos elevar o nível Para ilustrar este ponto de vista, tomemos uma flexibilidade curricular que permite que as da educação e das oportunidades oferecidas aoso exemplo de dois alunos superdotados na área crianças talentosas aprendam apenas o básico das jovens talentosos no nosso país. Como tantosartística, que participam de programas especiais disciplinas tradicionais para ter mais tempo livre outros jovens brasileiros carentes, Neilsonem seus respectivos países: Evgeny Sviridov, para se dedicar às práticas artísticas. Evgeny toca não teve a chance de ser incluído no atendi-russo, talentoso no violino, e Neilson Moreira seu violino pelo menos seis horas todo dia. Sua mento especial quando era mais jovem; nãoda Costa, brasileiro, aluno talentoso na área professora e técnica, Elena Zaitseva, é a respon- teve oportunidades, com o seu colega russo, dedo desenho. sável pela escolha do repertório e o acompanha desenvolver ao máximo suas habilidades artís- Em maio de 2004, os principais jornais onde quer que ele se apresente, afim de avaliar ticas desde tenra idade. No Ensino Fundamentalbrasileiros noticiaram a apresentação, no Brasil, suas falhas e corrigir sua performance. e no Ensino Médio, Neilson não usufruiu dedo jovem violinista Evgeny Sviridov, então com Contrapondo a esta realidade, que se pode um currículo adaptado às suas necessidades15 anos de idade. Nascido em São Petersburgo, observar em alguns países mais desenvolvidos, especiais, o que poderia ter-lhe proporcionandoSviridov começou os estudos de violino em 1994, muitos dos talentos brasileiros passam desper- tempo para o estudo e o refinamento de suaquando tinha apenas seis anos de idade. Dois cebido durante seus anos escolares. Nem sempre arte. Além disso, seus professores no ensinoanos depois, foi convidado a integrar o elenco são incentivados a desenvolver suas habilidades regular não se envolveram com o programada Escola Especial de Música para Crianças específicas, o que ocorre por razões diversas. Este desenvolvido na sala de recursos, refletindo oTalentosas do Conservatório Rimsky-Korsakov. foi o caso de Neilson, que apenas aos 17 anos foi problema do gerenciamento da responsabilidadeEm 1998, aos 10 anos de idade, fazia o primeiro indicado para participar do Programa para Altas pelo desenvolvimento integral do aluno. E porrecital solo. Em 1999, conquistou o III Concurso Habilidades da Secretaria de Estado de Educação fim, observa-se que o jovem optou por sacrificarInternacional “Virtuosi do Século XXI” em do Distrito Federal, embora suas habilidades para sua arte em função da sua subsistência imediataMoscou. No ano seguinte, foi o grande vencedor o desenho fossem já excepcionais desde criança. e da família. Suas habilidades artísticas, insufi-do II Concurso para Violinistas e Violoncelistas Dinâmico e comunicativo, Neilson trabalhava cientemente valorizadas em seu contexto sócio-de Toda a Rússia, em Novosibirski e em como caixa e empacotador de supermercado, cultural mais imediato, não foram encorajadas2001, recebeu o prêmio máximo do Concurso onde também era estagiário na área de compu- fora da sala de recursos.Internacional de Televisão “Bravo-Bravissimo” tação. Estudava à noite para concluir o 3º ano Guenther (2006) nos lembra que “aem Milão. Estreando em Paris em 2004, foi do Ensino Fundamental. Neilson freqüentava capacidade e talento humano se desenvolvem,aclamado de pé durante 10 minutos ao término o programa 2 vezes por semana, à tarde, mas só e se expressam em produção superior, desdede seu recital no auditório do Louvre. ia quando tinha oportunidade e tempo. Em seus que o potencial seja identificado, estimulado, Segundo Alencar e Fleith (2001), no trabalhos, Neilson gostava de usar lápis de cor, acompanhado e orientado” (p.31). Sem estesdecorrer desta última década houve um retro- spray e grafite. Perguntado sobre suas pretensões fatores, sem dúvida, os talentos mais promis-cesso nas oportunidades oferecidas na Rússia, futuras, o jovem revelou que não pretendia cursar sores em nossa sociedade serão desperdiçados.em comparação ao que este país tradicional- a universidade: precisava trabalhar para garantir Este é um dos grandes desafios que teremosmente oferecia aos seus jovens talentos. Mesmo seu sustento e de sua família. que enfrentar.
  • Capítulo 2 O que as palavras querem dizer?As diferentes terminologias e definições na área
  • 22
  • 23A superdotação pelo olhar do No entanto, concepções teóricas divergentes, assim ramente desenvolvida em qualquer área do conhe-senso comum como percepções estereotipadas sobre a super- cimento, como na música, na matemática, nas artes, Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? dotação, em geral propagadas na sociedade, têm na linguagem, nos esportes ou na leitura. Sem Os indivíduos que se destacam em virtude de permeado o campo (Ziegler & Heller, 2000). Nota- dúvida, Igor é uma criança precoce, mas não se devesuas altas habilidades ou feitos prodigiosos sempre se, por exemplo, na notícia de jornal sobre o caso de rotulá-la como superdotada, prodígio ou gênio, semforam foco da curiosidade popular. Desta forma, os Igor, uma confusão entre “prodígio” e “precoce”, já antes acompanhar seu desenvolvimento. Mesmo ameios de comunicação atuais estão sempre buscando no título da reportagem, onde se lê: “Criança prodígio superdotação precoce, em seu grau extremo, não éexemplos de crianças e jovens que se destacam por seu – Igor é um pequeno craque. Com um livro nas mãos”, o garantia de sucesso futuro, ou de que esta pessoa sepotencial superior. Assim, em 2001, uma das crianças que acaba por trazer mais desinformação ao campo tornará um adulto eminente.em destaque era Igor, um simpático garotinho de e confundir também a população. Além disso, ao Crianças superdotadas, para Winner (1998)três anos, morador de uma região administrativa do focalizar sua atenção em demasiado na divulgação são precoces. Elas progridem mais rápido do que asDistrito Federal. Igor tornou-se notícia de jornal por de casos raros, a mídia colabora na propagação da outras crianças por demonstrarem maior facilidadeostentar uma habilidade precoce para uma criança de superdotação como uma competência extremamente em uma área do conhecimento. No entanto, Freemansua idade. Ainda trocando o “r” pelo “l”, Igor surpre- elevada em todas as áreas, gerando uma expectativa e Guenther (2000) alertam para o fato de que nemendeu sua professora do Maternal II, quando esta de desempenho e de produção que não se observa todos os adultos que se tornaram eminentes foramperguntou, mostrando um livrinho de estórias: “Quem neste grupo de forma homogênea (Alencar, 2001). crianças precoces. Há múltiplos fatores que inter-sabe o que está escrito aqui?” “Eu sei! – respondeu Neste capítulo vamos abordar as diferentes ferem na trajetória de vida de uma criança precoceIgor: “A menina Dorminhoca!” e leu todas as outras terminologias na área mostrando, por meio de além do nível de habilidade, como os atributos deinformações contidas na capa do livrinho. Chamada exemplos e estudos de caso veiculados pela mídia e personalidade, a motivação em buscar a excelência,na escola, a mãe informou que Igor, com um ano e que fazem parte do senso comum, a diferenças entre o ambiente familiar propício para o desenvolvi-meio, já lia anúncios na rua e se exibia para pequenas este grupo tão heterogêneo. Exemplos de crianças mento das habilidades e as oportunidades queplatéias. Os pais, de origem humilde e pouca instrução precoces e prodígios serão discutidos. A fim de ilustrar aparecerão no decurso de sua vida. Além disso, aformal, explicaram que não ensinaram a criança os diferentes tipos de talentos focalizados na definição motivação intrínseca, a curiosidade e a vontadea ler, embora tenham dado a ela oportunidade de brasileira de superdotação, mostraremos as caracterís- de aprender, fatores essenciais para um desem-manipular livros, oferecidos como distração enquanto ticas apresentadas por pessoas que são reconhecidas penho superior, dependem de um ambienteambos estudavam. Embora orgulhosos do filho, os como gênios. E, por fim, faremos o contraponto educacional enriquecido para se desenvolverem.pais revelavam uma preocupação típica de quem tem com as definições oferecidas pelos pesquisadores da Tão precoce quanto Igor foi Léo Romano,em casa uma criança precoce: não querem que o filho área, analisando a superdotação por sua perspectiva que foi notícia em 2004 em uma revista semanalse sinta diferente ou excluído pelos colegas. científica. de informação 2. De família modesta da zona Acontece que Igor está longe de ser um caso Antes de passarmos para a próxima seção, norte de São Paulo, filho de um bancário e umaúnico, ou mesmo raro. A habilidade superior, a vamos esclarecer as diversas denominações para o dona de casa, Léo nunca freqüentou escolassuperdotação, a precocidade, o prodígio e a genia- termo “superdotado”. nem recebeu nenhuma orientação. No entanto,lidade são gradações de um mesmo fenômeno, A CRIANÇA PRECOCE com 2 anos e meio já conhecia as letras do alfabeto,que vem sendo estudado há séculos em diversos São chamadas de precoce as crianças quepaíses, como China, Alemanha e Estados Unidos. apresentam alguma habilidade específica prematu- 2 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004
  • 24 lia sílabas e palavras simples e demonstrava uma que começou a tocar cravo aos três anos de idade. de ambientes. Tanto o especialista quanto o genera- impressionante memória: sabia identificar as Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia lista podem apresentar realizações impressionantes bandeiras dos Estados brasileiros e de uma centena peças com rapidez, e aos sete já compunha regular- que refletem habilidades radicalmente diferentes, de países. Além disso, memorizou fatos geográ- mente e se apresentava nos principais salões da como se deu no caso de Mozart e Leonardo da ficos e históricos - por exemplo, sabia que a capital Europa. Além disso, ao ouvir apenas uma vez o Vinci. Mozart é o exemplo do especialista: múltiplas do Afeganistão é Kabul, que Nelson Mandela foi Miserere de Gregório Allegri, foi capaz de trans- e profundas habilidades musicais, mas em outros presidente da África do Sul e que Nero mandou crever a peça inteira de memória, quase sem cometer aspectos uma pessoa simples e intelectualmente atear fogo em Roma. erros (Gardner, 1999). Nesta sessão vamos falar de normal. Já Leonardo da Vinci representa o perfil Divulga-se em destaque a precocidade no alguns prodígios da atualidade que têm encantado do generalista: erudita, curioso, uma mente vigorosa xadrez, chamando a atenção para dois irmãos, muita gente e desafiado nosso entendimento sobre que dominou e contribuiu significativamente em Giovani e Giuliano Vescovi. Giovani mal havia o desenvolvimento humano típico. uma variedade de diferentes domínios. completado dois anos quando, de tanto observar Feldman (1991) acredita que a existência dos Os prodígios são, como um todo, especialistas o pai, aprendeu sozinho a montar as peças em prodígios é de suma importância para entendermos extremos, especialmente bem sintonizados a um um tabuleiro de xadrez. Esta criança precoce, no o fenômeno da mente humana. Este autor reflete campo particular do conhecimento, demonstrando entanto, recebeu toda a atenção da família, que que, mais do que nos ensinar sobre a expressão e o um domínio rápido e aparentemente sem esforço. se mudou do Rio Grande do Sul para São Paulo desenvolvimento do potencial humano, o prodígio Embora os prodígios possam ser ou não talentosos quando Giovani tinha seis anos, para que pudesse também nos ensina como a humanidade chegou no sentido de uma perícia intelectual mais genera- receber orientações específicas relativas à sua área de onde está e talvez como deva melhor coreografar lizada, não demonstram desempenho extraordinário talento. Aos sete anos obteve em Porto Rico a taça essa nossa dança única na espécie. No passado, os por várias áreas. Sendo precoce, o prodígio revela de vice-campeão do torneio mundial na categoria prodígios eram vistos como “uma monstruosidade, uma tenacidade no seu envolvimento com sua área infantil, após seis horas de jogo. Seu irmão menor, algo fora do curso usual da natureza, como um de talento, sendo este aspecto absolutamente neces- Giuliano, que também treinava xadrez diariamente cometa ou meteoro” (p. 4), explorados para propó- sário para sua satisfação, expressão e bem-estar. desde os 4 anos, foi campeão paulista na categoria sitos financeiros e isolados dos amigos; no entanto, Desta forma, o prodígio é relativamente dente-de-leite. Os irmãos só paravam o treino na ainda hoje surpreende-nos por violar nossas expec- raro e necessita da convergência de um número de hora de brincar – que para eles muitas vezes signi- tativas sobre como o mundo deveria funcionar. circunstâncias únicas para permitir uma completa e ficava resolver problemas de matemática em livros Feldman propõe uma interessante distinção especializada expressão de um poderoso potencial. O de séries mais avançadas. entre o indivíduo superdotado que se destaca por prodígio emerge em um ambiente onde convergem A CRIANÇA PRODÍGIO seu alto QI, medido por testes psicométricos, e o a tendência altamente específica do indivíduo de se Já o termo “prodígio” é utilizado para prodígio. O prodígio é único no sentido de exibir engajar profundamente na área em que apresenta designar a criança precoce que apresenta um alto uma habilidade extremamente especializada, precocidade com uma específica receptividade desempenho, ao nível de um profissional adulto, em somente expressa sob condições bastante específicas ambiental, sendo por isso mesmo infreqüente algum campo cognitivo específico (Feldman, 1991; do ambiente sócio-cultural. De forma contrastante, e improvável. Morelock e Feldman, 2000). Um clássico exemplo o indivíduo superdotado com alto QI possui habili- Ao estudá-los, estaremos numa posição de de uma criança prodígio, com uma habilidade dades intelectuais generalizadas que permite altos melhor compreender o processo mais geral envolvido excepcional, foi o de Wolfgang Amadeus Mozart, níveis de funcionamento em uma grande amplitude no desenvolvimento do potencial. Vejamos alguns
  • 25casos divulgados pela mídia brasileira e internacional. no I Concurso Nacional Nelson Freire para Novos incluindo o Brasil) e dentro de seu próprio PRODÍGIO NA MÚSICA Talentos Brasileiros. Com o apoio do Governo do país, Gregory dá palestras sobre o fim do Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? Um típico caso de criança prodígio é o Estado do Paraná, Pablo conseguiu uma bolsa de ciclo da violência e sobre a manutenção dapianista catarinense Pablo Rossi que, com apenas estudos para cursar o Conservatório Tchaikovsky paz. Já se encontrou com a rainha Noor, da11 anos de idade, gravou um CD com obras de Moscou, a convite da Sociedade Rachmaninov, Jordânia, com presidentes, como Bill Clintonde Chopin, Bartók, Schumann, Tchaikovsky, em novembro de 1999, quando tinha 10 anos, tendo e Mikhail Gorbachev, líderes religiosos comoRachmaninov, Shostakovich e Nepomuceno, tendo então a oportunidade de participar das masterclasses o Arcebispo Desmond Tutu da África do Sul,sido também notícia na mídia impressa.3 Pablo toca de Alexander Mndoyants e Viktor Merdjanoff. e educadores para discutir suas idéias para acom a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo O aclamado prodígio já se apresentou com a educação e para a paz.e treina cinco a seis horas por dia. Considerado hoje Orquestra de Câmara Solistas de Londrina,a Orquestra Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz emo melhor pianista jovem do Brasil, este catarinense Sinfônica do Paraná, a Camerata Florianópolis, a 2002 (quando tinha 12 anos), continuando ade 17 anos foi vencedor do 1º Concurso Nacional Sinfônica de Santa Catarina, a Sinfônica de Ribeirão concorrer nos anos posteriores (2003 a 2006).Nelson Freire de Novos Talentos Brasileiros e Preto, a Orquestra Sinfônica Brasileira, além de ter Quando terminou o Ensino Fundamentalacumula premiações no Brasil e no exterior. realizado recitais em cidades como São Paulo, São e o Médio em apenas cinco anos – em vez Pablo Rossi nasceu em Florianópolis em 1989 José dos Campos, Macaé e Curitiba. dos treze esperados de uma criança comume iniciou os estudos musicais aos seis anos. Aos sete PRODÍGIO ACADÊMICO –, virou estrela de programas populares nosganhou o concurso para piano Jovens Intérpretes, O americano Gregory Robert Smith tem Estados Unidos.de Lages, e passou a ter aulas em Curitiba com feitos notáveis em sua biografia de apenas 17 anos4. Gregory foi precoce em muitas áreas e de umaOlga Kiun, pianista russa naturalizada brasileira, ela Destacamos aqui algumas de suas realizações: forma qualitativamente diferente da grande maioriaprópria uma criança prodígio que fez seu primeiro Aos 13 anos recebeu seu diploma de graduação das crianças. Começou a falar muito mais cedo querecital solo aos nove anos e aos doze realizou seu suma cum laude em Matemática na Randolph- o esperado para um bebê, aos 2 meses de idade.primeiro concerto como solista de orquestra. Macon College, em Ashland, Virginia. Com um ano e dois meses era capaz de nomear Pablo acumula diversos prêmios em sua curta Em maio de 2006, aos 16 anos de idade, todos os tipos de dinossauros que já existiram e decarreira de pianista: já aos oito anos recebia o prêmio recebeu o título de Mestre em Matemática resolver problemas simples de álgebra. Aos 2 anosrevelação no XXXII Festival de Inverno de Campos pela Universidade de Virginia, EUA. já lia e corrigia a gramática de adultos. Nesta idadedo Jordão e logo em seguida recebia o primeiro Recentemente revelou que pretende obter seu ele também decidiu abandonar os sanduíches dolugar nos seguintes concursos: Concurso de Piano PhD em quatro diferentes áreas: matemática, McDonald’s e tornou-se vegetariano por contaArtlivre em 1997 e em 2000; no VII Concurso engenharia aeroespacial, ciência política e própria. Aos 5 anos era capaz de recitar trechosNacional Magda Tagliaferro; no IX Concurso engenharia biomédica. de livros de memória – tinha na cabeça a coleçãoNacional de Piano em Governador Valadares; É fundador da International Youth Advocates, inteira de Júlio Verne e era capaz de discorrerno XIII Concurso Internacional na cidade de dedicada à defesa de jovens e crianças carentes sobre uma enorme gama de assuntos. Seus paisCórdoba, Argentina; no XI Concurso Internacional e à paz mundial. Em suas viagens ao exterior comentam que, nesta idade, sua capacidade mental,de Piano ‘Perfecto García Chornet’, na Espanha; e (já visitou nove países em quatro continentes, medida por testes de QI, ultrapassava os limites dos próprios testes. Gregory foi acelerado nos3 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004 4 http://www.gregoryrsmith.com/ estudos e o currículo compactado para atender suas
  • 26 necessidades especiais únicas; assim, no período de da criança fossem expostos em uma lanchonete local. com alto desempenho na vida adulta, há evidências um ano o menino cumpriu sete séries escolares (da O primeiro quadro, vendido por 250 dólares, foi logo que crianças superdotadas param de se esforçar em segunda à oitava), pulando toda a terceira série e sucedido por outros. Em Agosto de 2004 a galeria resposta ao excesso de pressão parental e podem cumprindo um curso de Álgebra em 10 semanas. de artes Anthony Brunelli, de Nova York, atraiu terminar desengajadas, deprimidas e ressentidas. Ele tinha sete anos quando entrou para o Ensino mais de 2.000 pessoas com a primeira exposição A conseqüência de um pai que faz exigências Médio no Orange Park High School, na Florida. de Marla, cujos quadros foram vendidos por cerca constantes, manipula a vida dos filhos e vive intei- Em entrevista ao jornal Washington Post, em de 6 mil dólares cada. Marla gosta de usar tintas ramente através de suas conquistas são relatadas em 1999, quando se formava com honras no Ensino acrílicas coloridas e, diferentemente das crianças inúmeras biografias de pessoas famosas que tiveram Médio, dois dias antes do seu 10º aniversário, Gregory de sua idade, constrói suas pinturas em camadas sua infância roubada e o amor dos pais inteiramente comentou: “Acredito que recebi um dom especial, mas e cobre toda a tela de tinta, não deixando espaços condicionados ao sucesso profissional. No entanto, não sei como ou porque ele me foi dado; apenas sei vazios. Inicialmente trabalha com largas pinceladas como acrescenta Winner, “alto desempenho em que quero usar o máximo de minhas habilidades para de tinta e com os dedos, e progressivamente outras qualquer domínio está sempre associado a altos ajudar a humanidade.” Entre as suas metas, anunciou, ferramentas são incorporadas ao trabalho, como padrões estabelecidos por um adulto e que também está a de se tornar Presidente dos Estados Unidos. garrafas de plástico. O pai, atuando agora como seu modela alto desempenho. O que leva algumas PRODÍGIO NA PINTURA assistente, incentiva a filha a produzir com regula- crianças superdotadas a desengajar-se de seu talento Marla Olmstead5, atualmente com 6 anos de ridade e rapidez, pintando vários quadros por mês. jamais são as altas expectativas, mas antes, superexi- idade, começou a pintar pouco antes de completar Segundo o pai, Marla pinta regularmente, três vezes gência, dominação, exploração e privação emocional 2 anos, com o incentivo de seu pai, também artista por semana, e em geral termina seu trabalho após extremas” (Winner, 1998, p.161). plástico. Usando pincéis, espátulas, seus próprios três horas de grande concentração. PRODÍGIO NA LITERATURA dedos e até tubos de ketchup, a menina cria telas Atraindo a atenção da mídia, e tornando- Descrita como “uma pequena gigante de aproximadamente um metro e meio, que já lhe se notícia no The New York Times, Time, CBS News literária” pela jornalista Diane Sawyer no programa renderam mais de US$ 300 mil, tendo cerca de 200 e BBC News e em outras revistas, TV e jornais da de entrevistas Good Morning America, Adora Svitak, compradores na lista de espera. França, Alemanha, Canadá, Inglaterra, Espanha, americana, filha de mãe chinesa e pai checo, de apenas Nascida no estado de Nova York, em Fevereiro África do Sul, Austrália, Brasil e Itália, Marla tem 8 anos, surpreende por sua facilidade em escrever. de 2000, Marla começou a pintar antes de 2 anos. sido comparada a grandes gênios do expressionismo No programa de televisão, Adora demonstrou sua Seu pai, gerente de uma fábrica e pintor amador, no abstrato, como Wassily Kandinsky e Jackson Pollock. capacidade de digitar setenta palavras por minuto início achava que a pintura era apenas uma distração Em seu livro Crianças superdotadas: Mitos e em seu laptop, escrevendo textos com uma estrutura para a filha, mantendo-a ocupada enquanto ele realidades, Winner (1998) chama a atenção para a sofisticada para sua idade, respondendo perguntas e próprio pintava. No entanto, logo passou a comprar necessidade de se prover um ambiente enriquecido demonstrando seu processo de escrita ao vivo, com a telas e tintas quando observou o senso de equilíbrio, com estimulação constante e variada. Pesquisas ajuda de um projetor. Seu primeiro livro6, escrito aos forma e composição presentes nos quadros abstra- relatam que a maioria dos adultos talentosos vêm 7 anos de idade, inclui nove histórias, poemas, e sua cionistas da filha. A mãe, recepcionista em tempo de famílias unidas que valorizam altas realizações opinião sobre política, religião, mídia e educação. parcial, conseguiu com um amigo que os trabalhos e de pais que revelam uma crença inabalável no Sua mãe, Joyce Svitak, contribui no livro com dicas talento do filho. Embora a exigência parental e 6 “Flying Fingers: Master the Tools of Learning Through the Joy 5 http://www.marlaolmstead.com./ altas expectativas estejam tipicamente associadas of Learning”. Adora Svitak, Joyce Svitak. Copyrighted material.
  • 27e estratégias de ensino para ajudar pais e professores apenas uma das atividades, mas eu geralmente sigo QI superior a 140, conforme medido pelo testeem como ensinar a criança a escrever, ilustrando cada os mesmos princípios com a maioria dos exercícios Stanford-Binet (Ehrlich, 1989). No entanto, os Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?técnica ou exercício com as histórias escritas por educacionais. Eu faço perguntas, mantenho uma pesquisadores da atualidade (por exemplo, Alencar,Adora. Apaixonada por história medieval e contem- atitude de brincadeira, e sempre me asseguro de 2001; Feldhusen, 1985; Feldman, 1991) sugeremporânea, filosofia e mitologia, seus contos traduzem que meus filhos saibam que estou verdadeiramente que o termo “gênio” deva ser reservado parasua paixão pela leitura e escrita. Adora entende que interessada no que eles têm para compartilhar7”. descrever apenas aquelas pessoas que deram contri-sua missão engloba ensinar outras crianças a ler e Feldman (1991) argumenta que a expressão buições originais e de grande valor à humanidadeescrever, visitar escolas e repassar para os jovens o do talento em nível excepcional envolve numerosos em algum momento do tempo. Os gênios são osprazer que a leitura e a escrita podem proporcionar. elementos, os quais podem ser percebidos no caso grandes realizadores da humanidade, cujo conheci- Adora começou a ler com 3 anos de idade. Seus dos prodígios aqui citados, e que compreendem: mento e capacidades nos parecem sem limite, incri-pais, adeptos do home scooling ou ensino domiciliar, se um ambiente cultural favorável; a presença de um velmente excepcionais e únicas. São raras as pessoastornaram tutores das duas filhas, ensinando as disci- domínio ou área já em considerável estágio de que atingem patamares excepcionais. Leonardoplinas escolares em casa. Os pais acreditam que esta desenvolvimento e reconhecimento na sociedade, da Vinci, Gandhi, Heitor Villa-Lobos, Stephenforma de ensino é mais eficiente, na medida em que no qual a pessoa se destaca (por exemplo, as áreas Hawkins e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé,o nível de atenção que podem proporcionar aos filhos de música, artes visuais e plásticas, literatura); a estão entre os grandes gênios da humanidade, emnão pode ser replicado no ambiente escolar, sendo presença de professores que dominam o conheci- seus campos específicos.que o resultado desta atenção se torna bem eviden- mento específico desta área; o reconhecimento da Em contrapartida, os termos “pessoa com altasciado na leitura e escrita. A mãe de Adora relata que família de que se trata de um talento extremo e estão habilidades” e “superdotado” são mais apropriadosensinar a menina a escrever, aos 4 anos de idade, determinadas a dar total apoio e suporte à criança; para designar aquela criança ou adolescente quefoi um processo de tentativa-e-erro, o qual muito grandes doses de encorajamento e entendimento da demonstra sinais ou indicações de habilidadeensinou a ambas. Adora progrediu rapidamente extensão do talento expresso pelo indivíduo. superior em alguma área do conhecimento, quandoem seu próprio ritmo, ultrapassando as expectativas OS GÊNIOS DA HUMANIDADE comparado a seus pares. Não há necessidade de serda mãe. Joyce Svitak assim explica este processo de Em nossa sociedade, é também comum que uma habilidade excepcional para que este aluno sejaaguçar a imaginação da criança através da escrita: as pessoas se refiram a uma criança como um gênio, identificado. Essa distinção se torna importante, “Peça a seu filho para completar uma sentença devido à sua precocidade em uma área específica, uma vez que a palavra “superdotado”, como já foisimples tal como: “A casa era......” Se ele/ela não como na música ou na matemática, ou por sua pontuado neste texto, vem carregada de conotaçõesconsegue elaborar, comece fazendo uma série de facilidade em memorizar fatos, nomes e aconteci- que nos remetem erroneamente ao super-herói, aoperguntas. A casa é feita de gelatina? A casa pode mentos. Freqüentemente o superdotado é associado indivíduo com capacidades excepcionais e, portanto,voar? Uma vez que a criança comece a contemplar ao gênio, às habilidades inatas e ao desempenho às habilidades raras inexistentes no ser humanoas possibilidades divertidas, as palavras começarão excelente em todas as áreas (Fleith & Alencar, comum. É por esta razão que muitos pesquisadoresa jorrar. Se seu filho fica animado e começa a dar 2001), numa clara demonstração da desinformação preferem o uso de termos alternativos, como “talento”muitas idéias, peça a ele/ela para escrever a primeira sobre o tema em nossa sociedade. ou “altas habilidades”.idéia antes de partir para a próxima. Claro que esta é O termo foi popularizado por Lewis Terman Além disso, é bom ter em mente que identifi- que, em seu livro Genetic Studies of Genius, de 1926, camos as pessoas com altas habilidades/ superdotação7 http://ezinearticles.com/?expert=Joyce_Svitak definia como gênio qualquer criança com um ou talentos não pelo mero prazer de rotulá-las, mas
  • 28 por entendermos que os educadores têm a obrigação Art. 5º, III). Essa definição ressalta duas carac- formas diferentes; de oferecer experiências educacionais apropriadas e terísticas marcantes da superdotação, que são d) Capacidade de Liderança – Refere-se à diferenciadas aos seus alunos, a fim de desenvolver a rapidez de aprendizagem e a facilidade com sensibilidade interpessoal, atitude coope- de forma adequada e igualitária suas habilidades e que estes indivíduos se engajam em sua área de rativa, capacidade de resolver situações necessidades especiais. interesse.Também, completa a apresentada pelas sociais complexas, poder de persuasão e de Voltaremos aos gênios na próxima sessão, Diretrizes gerais para o atendimento educacional influência no grupo, habilidade de desen- enfocando a superdotação sob o prisma da gradação aos alunos portadores de altas habilidades/superdo- volver uma interação produtiva com os de intensidade. tação e talentos (Brasil, 1995), que foi construída demais; a partir do referencial teórico apresentada por e) Talento Especial para Artes – Envolve alto A superdotação pelo olhar da Sidney Marland no relatório oficial da Comissão desempenho em artes plásticas, musicais, ciência de Educação ao congresso americano em 1971 e dramáticas, literárias ou cênicas (por posteriormente integrado na definição brasileira. exemplo, facilidade para expressar idéias As habilidades apresentadas por todas as Permitiu, asim, que a superdotação ultrapassasse a visualmente; sensibilidade ao ritmo musical; pessoas aqui citadas, sejam elas precoces, prodígios tradicional visão acadêmica para ser entendida em facilidade em usar gestos e expressão facial ou gênios, e outros com habilidades e potenciais uma perspectiva mais plural. Essa definição postula para comunicar sentimentos); e menos aparentes, podem ser enquadradas em que as pessoas com altas habilidades/superdotação f ) Capacidade Psicomotora – Refere-se um termo mais amplo, que é altas habilidades/ são os educandos que apresentam notável desem- ao desempenho superior em esportes e superdotação. Alencar e Fleith (2001) ressaltam penho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos atividades físicas, velocidade, agilidade de que a superdotação pode se dar em diversas áreas seguintes aspectos, isolados ou combinados: movimentos, força, resistência, controle e do conhecimento humano (intelectual, social, a) Capacidade Intelectual Geral - Envolve coordenação motora fina e grossa. artística etc.), num continuum de habilidades, em rapidez de pensamento, compreensão e Esta definição é vantajosa, uma vez que pessoas com diferentes graus de talento, motivação memória elevadas, capacidade de pensa- chama a atenção para importantes aspectos, como: e conhecimento. Assim, enquanto algumas pessoas mento abstrato, curiosidade intelectual, (a) a pluralidade de áreas do conhecimento demonstram um talento significativamente poder excepcional de observação; humano em que uma pessoa possa se superior à população geral em algum campo, outras b) Aptidão Acadêmica Específica – Envolve destacar, não se limitando à tradicional demonstram um talento menor, neste mesmo atenção, concentração, motivação por visão acadêmica da superdotação; continuum de habilidades, mas o suficiente para disciplinas acadêmicas do seu interesse, (b) o entendimento de que as altas habilidades destacá-las ao serem comparadas com a população capacidade de produção acadêmica, alta se relacionam tanto com o desempenho geral (Virgolim, 1997). pontuação em testes acadêmicos e desem- demonstrado quanto com a potencialidade DEFINIÇÃO BRASILEIRA penho excepcional na escola; em vir a demonstrar um notável desem- A definição brasileira atual considera os c) Pensamento Criativo ou Produtivo penho; e educandos com altas habilidades/superdotação – Refere-se à originalidade de pensa- (c) a percepção de que a superdotação se aqueles que apresentam grande facilidade de mento, imaginação, capacidade de resolver modifica no decurso do desenvolvimento aprendizagem que os leve a dominar rapidamente problemas de forma diferente e inovadora, do indivíduo. conceitos, procedimentos e atitudes (Brasil, 2001, capacidade de perceber um tópico de muitas Vejamos então como estas capacidades em
  • 29distintas áreas podem ser observadas em pessoas e clareza com que as expressa, Hawking utiliza como Universidade de Cambridge na Inglaterra.que se destacaram, no cenário mundial, pelo uso principais campos de pesquisa a cosmologia teórica Pela definição de superdotação apresentada, Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?superior destas habilidades. A nossa intenção aqui e a gravidade quântica. Seu livro, O Universo em Hawking se encaixa perfeitamente no perfil deé justamente mostrar como características únicas uma casca de noz (Hawking, 2001), mostra seu poder uma pessoa com habilidade intelectual geral.de personalidade, a curiosidade, a criatividade, a excepcional de abstração, a grandeza de seu pensa- Ressaltamos aqui sua capacidade de pensamentopersistência e motivação intrínseca para se atingir mento lógico-matemático e sua capacidade única de abstrato, sua curiosidade intelectual e o poderum objetivo, aliadas às oportunidades oferecidas por ver problemas sob ângulos inusitados. Seu trabalho excepcional de observação dentro de usa área.um ambiente suportivo, foram fundamentais para com relação à singularidade no espaço-tempo e Aliados a estas características ressaltam-se aspectosque o indivíduo chegasse a um patamar superior de com a relatividade geral reformulam as idéias de de personalidade, como persistência em atingir seusrealizações. Embora focalizando nossa atenção em Newton e de Einstein, o que lhe rendeu numerosos objetivos, coragem e resilência. A resilência se referepessoas extraordinárias, é nosso dever enquanto pais prêmios e medalhas honrosas. Seus trabalhos com à capacidade interior de reagir aos sofrimentos ee educadores favorecer a expressão das potenciali- Buracos Negros, como a quarta Lei da mecânica de tragédias da vida, tornando-se mais forte, criandodades únicas de nossos filhos e alunos, por meio de buraco negro, ocuparam grande parte de sua vida uma couraça de proteção e fazendo do sofri-um ambiente de suporte e estimulação. adulta. Hawking fez descobertas importantes que mento assumido uma alavanca para prosseguir a HABILIDADE INTELECTUAL GERAL: levaram o seu nome, como a radiação Hawking, luta da vida. Talvez a resilência tenha impulsionadoSTEPHEN HAWKING em que faz uma analogia dos buracos negros com a o jovem Stephen a ultrapassar os obstáculos da O físico inglês Stephen William Hawking termodinâmica. O asteróide 7672 Hawking é assim doença e persistir nos caminhos que sua grande(1942 - atual) é doutor em Cosmologia e um chamado em sua homenagem. potencialidade já apontava.dos mais consagrados físicos teóricos do mundo. Apesar de sofrer, desde os 21 anos, de esclerose HABILIDADE DE PENSAMENTO CRIATIVO:Conhecido pela ousadia de suas idéias e pelo humor amiotrófica lateral, uma rara doença degenerativa LEONARDO DA V INCI que paralisa, um a um, os músculos do corpo, Leonardo da Vinci (1452-1519) escreveu, inclusive a musculatura voluntária, Hawking não desenhou e fez estudos em inúmeras áreas: parou de trabalhar. Depois de sofrer uma traqueo- geometria, anatomia, geologia, botânica, astro- tomia, passou a utilizar um sintetizador de voz para nomia, óptica, mecânica, arquitetura, projetos se comunicar e, com seu auxílio (e muita perseve- bélicos, etc. Leonardo ficou conhecido pela forma rança), publicou mais de 180 trabalhos, entre artigos, diferente e inovadora com que resolvia os mais livros e ensaios científicos8. Hawking demonstra diversos problemas em áreas diferentes, assim como uma grande coragem, persistência em atingir seus por sua capacidade de perceber de muitas formas objetivos e uma enorme força para ultrapassar as diferentes um determinado assunto. Por exemplo, vicissitudes de sua vida. Nascido exatamente 300 Leonardo via a pintura como uma ciência e anos depois da morte de Galileu, Hawking ocupa desenhava com uma precisão matemática. Para ele, hoje o posto que foi de sir Isaac Newton, atuando o pintor deveria explorar ao máximo a capacidade como professor lucasiano de Matemática na que os olhos, principal via do conhecimento, têm de perceber a luz e as sombras, a posição e a distância, 8 http://www.hawking.org.uk/home/hindex.html o movimento e o repouso das coisas. Criou normas
  • 30 apresenta à nobreza italiana, projetando edifícios protesto) como um meio de revolução. Gandhi públicos, pontes, canais, fortalezas, armas, carros ajudou a libertar a Índia do governo britânico, de combate, embarcações, turbinas, teares. Talvez inspirando outros povos coloniais a trabalhar pelas pelo descompasso entre a mente do criador e a suas próprias independências, para o desmante- capacidade tecnológica da Renascença, vários de lamento do Império Britânico e sua substituição seus desenhos e criações só virariam realidade nos pela Comunidade Britânica (Commonwealth). O séculos XIX e XX - máquinas voadoras, pára- princípio do satyagraha, freqüentemente traduzido quedas, escafandros, submarinos – mostrando que como “o caminho da verdade”ou “a busca da verdade”, sua capacidade de aprender com a observação do também inspirou gerações de ativistas democráticos mundo, assim como sua poderosa imaginação e e anti-racistas, incluindo Martin Luther King e pensamento original o colocavam a pelo menos 4 Nelson Mandela. Frequentemente Gandhi afirmava ou 5 séculos à frente de seu tempo. Por outro lado, a simplicidade de seus valores, derivados da crença a grande parte de seus escritos não se destinavam à tradicional hindu: verdade (satya) e não-violência publicação, mas pode-se especular que, se tivessem (ahimsa). sido publicados, poderiam ter mudado o rumo da Gandhi pregava a resistência pacífica, mas rigorosas de perspectiva a partir de suas observações história das ciências. ativa e provocativa, de forma a não se submeter ao sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem. O pensamento criativo e produtivo de mal e estar disposto a dar até a vida se necessário Foi um observador atento dos movimentos do Leonardo, aliado à algumas de suas caracterís- for, para provar que está do lado do que é justo, bom mundo - da água, das nuvens, das folhas, dos ticas pessoais, como percepção estética, agudeza e correto. Foi assim que, de demonstração maciça animais e da anatomia humana. Seus desenhos de observação e desejo de perfeição, assim como em demonstração maciça, e com seu grande poder anatômicos, produto de suas observações e disse- um ambiente cultural propício às ciências e às de persuasão e de influência levou o povo indiano, cações de cadáveres, são considerados superiores artes, provavelmente foram fatores essenciais que oprimido e dominado, a demonstrar ao Império aos do célebre Andreas Vesalius, o grande anatomista o levaram a uma produção de mais alto nível em Britânico a sua superioridade moral. Gandhi do Renascimento9. No entanto, Leonardo sempre sua vida adulta. Além disso, como pontua Gruber demonstra sua grande capacidade de resolver teve dificuldades para iniciar e acabar uma obra, (1986), as realizações criativas mais importantes da situações sociais complexas quando sugere que a demonstrando não apenas um enorme desejo de humanidade foram o resultado direto de trabalho Índia pode ganhar sua independência por meios perfeição, quanto ao temor de se exibir uma obra prolongado, persistência e muitos anos dedicados à não violentos e por via da ego-confiança. Ele rejeita frente ao público, de ser julgado a partir do que fez, tarefa que o criador tinha em mente. a força bruta e sua opressão e declara que a força da de entregar sua obra a mãos alheias. HABILIDADES DE LIDERANÇA: GANDHI alma ou amor mantém a unidade das pessoas em Alguns biógrafos de Leonardo conjecturam Mohandas Karamchand Gandhi (1869 - paz e harmonia. que o próprio Leonardo desvalorizava seu destino 1948), mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi, embora se destacasse por sua artístico diante do seu destino científico (Civita, Gandhi (Mahatma, do sânscrito “grande alma”), foi capacidade verbal e de linguagem, era tímido, 1977). É como engenheiro e arquiteto que ele se um dos idealizadores e fundadores do moderno embora não tivesse receio em desafiar a autoridade estado indiano e um influente defensor do Satyagraha estabelecida; assim, com sua sensibilidade inter- 9 Revista Super Interessante, Edição 226 - 05/2006 (princípio da não-agressão, forma não-violenta de pessoal e atitude cooperativa empenhou-se em
  • 31descobrir as forças, medos e desejos legítimos de sua capacidade de descobrir e ressaltar o que há deambas as partes, Índia e Grã-Bretanha, assim como melhor nas pessoas, estimulando-as a atingir aquilo Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?a compreender os estereótipos negativos que ambos que elas pensavam ser impossível. É neste sentidoos lados mantinham uns pelos outros. Gandhi que Gandhi também se enquadra na definiçãovivia estritamente de acordo com uma norma que de liderança criativa que, segundo Sisk (1993), seestabeleceu para si mesmo: a de que agiria sempre expressa por quatro aspectos ou atributos: (a) visão,de acordo com a verdade. Perseverando na verdade e que permite ver as coisas como são e ainda vê-las dana não-violência, opondo-se ativamente à injustiça, perspectiva do que podem se tornar. Inclui-se aquidesenvolveu uma imensa força interior, o que atraiu também a idéia de ajudar os outros a construir e amuitos seguidores. Gandhi conseguiu convencer compartilhar uma visão comum; (b) coragem parapessoas no mundo inteiro a não julgar os outros pela correr riscos calculados a fim de por em prática umacor da pele ou pela história dos antepassados, e a idéia criativa; (c) absorção ou habilidade de se tornarperceber a todos como seres humanos iguais; que era inteiramente envolvido no ato criativo; e (d) talentopossível haver discordância de forma não-violenta; e apreciação do próprio talento para se tornar ume que todos podem ser fortalecidos se comportarem líder cirativo em algum campo do conhecimento.com dignidade. No entanto, demonstrando sua Estes fatores interagem com o tempo, história e precisam de estímulo para desenvolver os fatoreshabilidade de desenvolver uma interação produtiva cultura em que a pessoa vive, dando forma ao tipo de personalidade favoráveis ao sucesso, para quecom o povo, pedia que as pessoas o seguissem de liderança que ela irá desenvolver em seu contexto. possam ser coroados de êxito em suas realizaçõesapenas se estivessem convictas do certo e do justo. Gardner (1999) também se refere ao líder como um e trazer uma efetiva colaboração ao seu ambienteNão tinha nenhuma propriedade: sua riqueza era o grande influenciador, que para ter sucesso necessita sócio-cultural.que dava ao povo e o que dele recebia; por muito ter um grande conhecimento na área pessoal, tanto HABILIDADES ARTÍSTICAS (MÚSICA):tempo pregou os ditames da honestidade e da no sentido de entender os outros indivíduos (o que HEITOR V ILLA-LOBOScorreção. Ganhou a simpatia de inúmeras pessoas os motiva, como trabalhar em cooperação com Heitor Villa-Lobos (1887- 1959) recebeu suapelos esforços que empreendia em seu benefício, e eles e, se preciso for, como manipulá-los) quanto primeira instrução musical aos seis anos, vinda doexercia tamanha atração sobre as massas, que muitos entender a si próprio (uma arguta percepção de si pai, que adaptou uma viola para que o filho pudesseindianos o consideravam o verdadeiro símbolo da mesmo, principalmente seus objetivos instáveis, suas estudar violoncelo. Sua formação musical foi muitoIndia (Nicholson, 1987). Suas frustrações pelo fraquezas e necessidades). Desafiar autoridades, não influenciada pela convivência, em sua casa, deerro ou fracasso eram elaboradas e transformadas ter medo de se impor quando a situação assim o grandes nomes da época que apareciam para cantarem oportunidades para aprender, refletir e planejar exige e ser determinado e assertivo (sem necessaria- e tocar até de madrugada.outras formas de seguir em frente. Assim, a nobreza mente ser agressivo), são fatores que se destacam na Além da cidade do Rio de Janeiro, ondedo seu esforço e a convicção de que deixaria alguma paersonalidade de um líder. nasceu, Villa-Lobos residiu com a família emmarca duradoura nas vidas futuras serviram de É de extrema importância, no contexto atual, cidades do interior do Estado e também de Minasestímulo e energia a este poderoso influenciador de que nossas escolas se empenhem em valorizar e Gerais. Nessas viagens, entrou em contato com umapessoas (Gardner, 1999). desenvolver as habilidades de liderança de seus música diferente da que estava acostumado a ouvir: O que tornou Gandhi um grande líder foi alunos. Como líderes do futuro, os alunos talentosos modas caipiras, tocadores de viola, enfim, uma parte
  • 32 Suas primeiras peças tiveram a influência um domínio no qual a pessoa demonstra facilidade decisiva de Stravinsky. Apesar de suas obras terem de aprender e de se expressar. aspectos da escrita européia, Villa-Lobos sempre HABILIDADES PSICOMOTORAS: EDSON ARANTES fundia suas obras com aspectos da música realizada DO NASCIMENTO – PELÉ no Brasil, utilizando sons da mata, de eventos Edson Arantes do Nascimento (1940 indígenas, africanos, cantigas, choros, sambas e – atual), mais conhecido como Pelé, é considerado outros gêneros muito utilizados no país. Embora o maior jogador da história do futebol e o mais não tivesse um estilo definido, demonstrava prefe- famoso. Recebeu o título de Atleta do Século de rências por alguns recursos estilísticos, como todos os esportes em 1981, eleito pelo jornal francês combinações inusitadas de instrumentos, arcadas L’Equipe, superando outras lendas do esporte como bem puxadas nas cordas, uso de percussão popular Juan Manuel Fangio e Mohammed Ali. No final de e imitação de cantos de pássaros10. 1999, o Comité Olímpico Internacional – COI, por Entre os títulos mais importantes que meio de uma votação internacional entre todos os recebeu, está o de Doutor Honoris Causa pela Comitês Olímpicos Nacionais associados, também Universidade de Nova Iorque. Foi o primeiro presi- elegeu Pelé o Atleta do Século. dente da Academia Brasileira de Música e regeu Ainda criança, Edson manifestou a vontade onze orquestras brasileiras e quase 70 em diversos de ser jogador de futebol. A alcunha “Pelé”, que países. Villa-Lobos caracterizou-se como um dos o identificava como o maior goleador de todos os do folclore musical brasileiro que, mais tarde, viria a maiores músicos do nosso tempo e sua genialidade tempos, teve origem num goleiro de nome “Bilé”, universalizar-se através de suas obras. As Bachianas hoje se incorpora ao patrimônio artístico-cultural a quem o menino admirava. As pessoas próximas Brasileiras surgiram quando constatou a semelhança do Brasil. começaram a chamá-lo de “Bilé”. Muitas crianças, de modulações e contracantos do nosso folclore com O talento artístico especial – aqui exempli- colegas do garoto Edson, tinham dificuldade em a música de Bach. Também seu ciclo inovador de ficado em Villa-Lobos, na área de música – pronunciar “Bilé” e com o tempo o apelido virou quatorze obras, intitulado “Choros”, para as mais aparece frequentemente como um ímpeto criativo “Pelé”. Com dez anos ingressou no time infanto- diversas formações, nasceu de uma mescla da música que impele o indivíduo na direção da sua área de juvenil, o Canto do Rio, cuja idade mínima para parti- urbana, aprendida em rodas de choro cariocas, com interesse, seja compondo, pintando, desenhando, cipar era de 13 anos elogo depois, estimulado pelo modernas técnicas de composição. dançando, escrevendo ou em outra expressão pai, montou o seu próprio time: Sete de Setembro. Após viagens pelo Norte, Nordeste e artística. Gardner (1999) reflete que, muitas vezes, Sua percepção total do jogo sempre o carac- Centro-Oeste do Brasil, no final da década de a veia da composição criativa tem vida própria, terizou e permitiu saber o que fazer com a bola em 1910, ingressou no Instituto Nacional de Música, sendo talvez impossível desalojar esta veia dos qualquer instante. Pelé apresentava força, resistência, no Rio, mas não chegou a concluir o curso, devido próprios ritmos de funcionamento do indivíduo. É flexibilidade corporal, coragem e o controle total do à sua desadaptação - e descontentamento - com o o que também Winner (1998) chama de “fúria por toque na bola. “Pensa, decide e executa” foi o lema ensino acadêmico. dominar11”: uma interesse intenso e obsessivo em que aprendeu com seu pai, Dondinho. Em qualquer parte do planeta suas qualidades 10 http://pt.wikipedia.org/wiki/Heitor_Villa-Lobos 11 (em inglês, rage to master) como esportista e ser humano são reconhecidas por
  • 33aficionados do futebol, entre eles reis, príncipes, em campo, a invenção de dribles que até então nãochefes de estado e até o Papa. Em 1994 – 36 anos eram comuns, jogadas inesperadas e espetaculares Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?depois de conquistar pelo Brasil a primeira de suas que surpreendiam o adversário e passes corretos etrês Copas do Mundo, na Suécia em 1958 –, o “Rei” calculados para seus colegas em campo o permitiramfoi ratificado por todo o continente europeu como marcar mais de 1200 gols em 50 anos de carreira.o melhor jogador da história do futebol. Dele, disse Além disso, em uma época em que a técnica estavao escritor Nelson Rodrigues: “Dir-se-ia um rei (...) ainda em seus primórdios, Pelé já se destacava pelasua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte sua disciplina, preparação física e ética em campo,em derredor”, numa crônica profética publicada direcionando seu comportamento para os objetivosna revista Manchete Esportiva, em 8 de março de que estipulou para si enquanto jogador.1958. Na Copa da Suécia, Pelé deslumbrou o mundo Neste sentido, tanto na área dos esportes,com apenas 17 anos e passou a ser chamado de o quanto na acadêmica, na artística ou em qualquerRei do Futebol. Pelé levou o Brasil a ser conhecido área da expressão do saber humano, somam-see respeitado – pelo menos no futebol. A Era Pelé se qualidades importantíssimas para que o indivíduotraduziu em um tricampeonato mundial de futebol e atinja a excelência. Destacamos aqui alguns destes capítulo, conforme citadas na definição brasileira dena posse definitiva da Taça Jules Rimet. O “Rei” jogou traços, como a persistência, a dedicação, a motivação 1994. Um dos aspectos mais marcantes da superdo-114 partidas e marcou 95 gols com a camisa amarela. intrínseca, a busca disciplinada para atingir os tação relaciona-se ao seu traço de heterogeneidade.Nas quatro Copas do Mundo que disputou, nas objetivos propostos, a obsessão em dominar perfei- Assim, algumas pessoas podem se destacar eminúmeras excursões do Santos e na sua temporada tamente uma determinada área e contribuir para ela, uma área, ou podem combinar várias, como no casopelo Cosmos, de Nova York, Pelé granjeou um a criatividade na busca de solução de problemas e a já citado de Leonardo da Vinci. Podemos tambémnúmero incontável de admiradores. De gente simples paixão pelo que se faz. Mesmo não esperando irrea- tomar como exemplo o humorista brasileiro Jôe anônima a artistas como Robert Redford e William listicamente que seu filho ou aluno seja um gênio ou Soares que, além de exibir um pensamento criadorHurt, chefes-de-estado como Mikhail Gorbatchóv prodígio em determinada esfera do conhecimento, é e original, bem como um perfil bem-humorado,e Bill Clinton, papas, reis e rainhas. Todos eles nosso papel enquanto educadores fornecer experi- também se revela na área musical, tocando múltiplosprestaram suas homenagens ao Rei Pelé.12 ências variadas e oportunidades para que a expressão instrumentos; no campo da linguagem, falando São muitas as qualidades de Pelé que o peculiar do talento de cada um encontre um campo vários idiomas, escrevendo livros e crônicas e seelevam à categoria de superdotado por suas habili- fértil e possa germinar. Este aspecto será lembrado revelando um perspicaz entrevistador; no desem-dades psicomotoras especiais. Ressaltamos aqui sua na próxima sessão. penho artístico, interpretando e incorporandohabilidade de perceber o campo em sua totalidade, ELEMENTOS IMPORTANTES NA SUPERDO- personagens; e ainda no setor da liderança, por seuassim como de perceber a exata colocação de cada TAÇÃO carisma e capacidade de coordenar grupos. A essajogador em um determinado momento da partida, o Heterogeneidade, multipotencialidades e confluência de habilidades chamamos de multipo-que lhe possibilitava estar freqüentemente no lugar níveis de habilidades tencialidades, que representa mais uma exceção docerto no momento certo. Sua rapidez de raciocínio Em geral, as pessoas superdotadas não que uma regra entre os indivíduos superdotados. apresentam, de forma simultânea ou mesmo em No entanto, o que se observa com maior12 http://www.geocities.com/augusta/2076/pele.html graus semelhantes, as habilidades descritas neste freqüência são pessoas que se desenvolvem mais em
  • 34 apenas uma área específica – como poesia, ciências, fatalmente leva ao desajustamento e que nada pode criança; no entanto, ambos devem ser vistos como artes, música, dança, xadrez, ou mesmo nos esportes ser feito quanto a isso. propensões genéticas, e não como fatores pré-deter- – do que em várias áreas de uma só vez. Influências da genética e do ambiente minados e imutáveis. Isto significa que, em termos Desta forma, Pelé e Ronaldinho, no futebol, Falamos anteriormente que o superdotado é práticos, não temos como prever toda a extensão em Gustavo Kuerten, no tênis, Carlos Drummond de aquele indivíduo que, quando comparado à população que as potencialidades de uma criança poderão ser Andrade e Olavo Bilac, na poesia, Ana Botafogo, geral, apresenta uma habilidade significativamente desenvolvidas. Não termos ainda, no atual estágio na dança, Chiquinha Gonzaga e Tom Jobim, na superior em alguma área da atividade e do conheci- das pesquisas sobre o genoma humano, conheci- música, Portinari e Tarsila do Amaral, nas artes mento humanos (Alencar, 2001). Veremos agora como mento dos genes responsáveis pela inteligência. O plásticas, ou Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos na outros teóricos da área percebem a superdotação. que sabemos é que, se fornecermos oportunidades capacidade de liderança, são exemplos de brasileiros Um dos grandes pesquisadores da área de adequadas para uma criança satisfazer sua curio- que se destacaram em seus campos por demons- superdotação no cenário mundial é Jonh Feldhusen, sidade sobre o ambiente que a cerca, seu potencial trarem habilidades específicas a um nível superior professor emérito e diretor do Gifted Education genético poderá levá-la a se desenvolver de acordo aos seus pares, em um dado momento cultural. Resource Institute da Universidade de Purdue em com suas capacidades. Portanto, o que está em Alunos superdotados diferem uns dos outros Indiana, Estados Unidos. Este autor tem uma visão nossas mãos é o fornecimento de um ambiente também por seus interesses, estilos de aprendizagem, interacionista da superdotação, percebida como uma enriquecido e estimulador. níveis de motivação e de autoconceito, características interação entre a genética e o ambiente. Para ele, os O que é um ambiente enriquecido? Segundo de personalidade, e principalmente por suas neces- talentos de uma pessoa surgem, por um lado, de uma a pesquisadora da Universidade da Califórnia, sidades educacionais. De acordo com pesquisadores habilidade geral que nos é dada por nossa disposição Marian Diamond, é aquele que: (Davis & Rimm, 1994; Gallagher & Gallagher, 1994), genética. Assim, uma pessoa com alta capacidade (...) inclui uma fonte constante de apoio sejam quais forem as afirmações que se possam fazer em uma área provavelmente herdou uma dispo- emocional positivo; fornece uma dieta nutritiva a respeito das pessoas com altas habilidades, sempre sição genética dos pais ou parentes próximos. Por com proteínas, vitaminas, minerais e calorias sufi- haverá alguma exceção, impedindo que generalizações outro lado, a superdotação também dependeria das cientes; estimula todos os sentidos (mas não ne- sejam feitas. Além disso, as características apresen- experiências no lar e na escola, dos estilos de apren- cessariamente todos ao mesmo tempo); tem uma tadas por esta população não envolvem causa-e-efeito. dizagem e dos interesses e motivações únicas de cada atmosfera sem estresse exagerado e repleta de pra- Neste sentido, quando se fala que alunos superdotados aluno. Pensando nesta perspectiva, a predisposição zer intenso; apresenta uma série de novos desafios, são mais sociáveis, não se pode concluir que um alto genética nos dá a extensão em que uma determinada nem tão difíceis, nem tão fáceis, para o estágio ade- QI leva necessariamente a uma maior popularidade habilidade poderia se desenvolver. Exatamente por quado de desenvolvimento da criança; permite uma social. Outros fatores devem ser levados em conta ser uma predisposição, isto não significa que seja um interação social em uma porcentagem significativa nesta equação. Por exemplo, pesquisas revelam que fator determinante; significa apenas que, dadas as de atividades; promove o desenvolvimento de uma não devemos esperar que duas características como condições propícias do ambiente, aquela disposição série de habilidades e interesses mentais, físicos, desajuste emocional e superdotação apareçam juntos; pode se concretizar (Feldhusen, 1992). estéticos, sociais e emocionais; fornece a oportuni- e se isso acontece, é um sinal de que algo está errado. Plomin (1997), um dos maiores estudiosos dade de a criança escolher suas próprias atividades; Torna-se necessária uma cuidadosa avaliação para se deste campo na atualidade, considera que tanto a dá chance à criança de ver os resultados do seu es- observar o que pode causar o desajuste emocional da genética quanto o ambiente seriam igualmente forço e modificá-los; tem uma atmosfera agradável criança, ao invés de se assumir que a superdotação responsáveis pelas variações na inteligência da que promove a exploração e o prazer de aprender; e,
  • 35acima de tudo, os ambientes enriquecidos permitem com relação à influência do ambiente da criança na poderia ressaltar a forma e este insight o fez buscarque a criança seja um participante ativo e não um sua produção superior quando adulta, se refere ao novas formas de expressão artística. Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?observador passivo do seu próprio desenvolvimento que Gardner e Feldman chamam de “experiências Assim, a experiência de Renoir na Fonte dos(Diamond & Hopson, 2000, p. 103-105). cristalizadoras” (Walters & Gardner, 1986). Para Inocentes cristalizou a noção do poder da escultura Estas autoras acreditam que a estimulação exemplificar este conceito, os autores citam um para transcender o mundo limitado da decoraçãovariada, a riqueza de oportunidades em áreas diversas, evento crucial na vida do pintor impressionista em porcelana. A experiência cristalizadora, poro estímulo à leitura e à criatividade, e fundamental- francês Pierre-August Renoir (1841-1919), quando não ser um ensinamento formal da escola, vem demente, amor, carinho e atenção são elementos que este tinha 12 anos de idade. dentro, da percepção súbita de um aspecto que fazconstituem a resposta adequada para os pais que Naquela época, Renoir era um aprendiz toda a diferença para o artista, e que provavelmentequerem ajudar seus filhos a atingirem sua plena talentoso na área de pintura em porcelana, cuja será lembrado retrospectivamente em momentosauto-realização conforme suas potencialidades e a habilidade com os pincéis e a delicadeza das cores futuros na vida desta pessoa.crescerem como indivíduos sadios e integrados. que utilizava já lhe rendia um salário de adulto. A O matemático inglês Godfrey Harold Hardy Vejamos o exemplo de Heitor Villa-Lobos. despeito de sua proficiência técnica, Renoir ainda (1877-1947), reconhecido mundialmente por suaO menino cresceu em um ambiente interessante demonstrava pouco interesse e sensibilidade para as teoria dos números e análise matemática, relata umae estimulador, onde a música era tocada e o alto qualidades estéticas das artes visuais, embora tivesse experiência cristalizadora interessante, ocorrida emdesempenho reforçado. Os pais, músicos, prova- um bom contato com os trabalhos dos grandes sua adolescência. Embora filho de pais professores,velmente influenciaram Heitor de duas maneiras: mestres da pintura. Em uma de suas visitas ao ambos de reconhecido saber na área de matemática,uma, pela predisposição genética para a sensibi- Louvre, aonde ia freqüentemente para fazer esboços Hardy não tinha, aparentemente, uma grande paixãolidade quanto à estrutura musical, como a distinção de obras que poderia usar em porcelana, Renoir pela Matemática. Em 1896, quando tinha 19 anos,de tonalidades, harmonia e ritmo; e por outra, pelo teve uma experiência diferente, ao descobrir a Fonte ganhou uma bolsa de estudo para o Trinity College,reforço e estímulo ao desempenho musical de alto dos Inocentes, trabalho do escultor do século XVI, em Cambridge, onde passou a estudar com o prof.nível. Segundo Winner (1998), a superdotação Jean Goujon. As ninfas, retratadas nesta escultura, Love. Ele relata: “aprendi pela primeira vez o que amusical pode aparecer precocemente, antes talvez de são levemente esguias, as vestes sutilizadas, trans- matemática realmente significava. Desta época emoutras habilidades em outros domínios. Isto pode se mitindo a volúpia serena das simpáticas figuras da diante, eu já estava no caminho de me tornar umdar, talvez, por ser um domínio formalmente estru- mitologia, que ali deitam água na fonte. A beleza matemático de verdade, com ambições matemá-turado e altamente regido por regras, e por estimular do trabalho o deixou desnorteado, e esquecendo ticas sólidas e uma genuína paixão pela matemática”o prazer e o interesse da criança por sons musicais tudo, até mesmo o almoço, passou horas obser- (Walters & Gardner, 1986, p. 317). Em 1900, Hardydesde tenra idade. Desta forma, o prazer de ouvir vando o grupo de estátuas de vários ângulos. Neste foi eleito Fellow de Trinity e, no ano seguinte, recebeumúsica e, posteriormente de tocar e compor, foram momento, relata o artista que teve uma afinidade o prêmio Smith, ao qual se seguiram numerososaltamente reforçados na infância de Villa-Lobos e, especial com o trabalho do escultor; percebia neste prêmios e distinções honrosas.somados à sua herança genética peculiar, tornando- trabalho tudo aquilo que ele mais prezava em uma Por sua natureza, as experiências cristali-se parte essencial da pessoa com talentos extraordi- obra: graça, solidez, elegância, realismo. A forma zadoras são pessoais e privadas; freqüentemente onários que ele viria a se tornar. com que o escultor fazia a roupagem se moldar indivíduo as guarda apenas para si e, anos depois, em Experiências cristalizadoras nas figuras de forma realista o impressionou. Até o retrospectiva, se torna consciente dela. Não podemos Um outro elemento importante a se considerar momento ele não havia percebido como a roupagem prever, com antecedência, quais experiências
  • 36 poderão se tornar cristalizadoras para uma criança. seria obtida, segundo Renzulli, apenas quando estes oportunidades, poderá desenvolver amplamente No entanto, em termos de uma boa pedagogia, três conjuntos de traços estivessem dinamicamente todo o seu potencial. recomenda-se a exposição da criança desde a mais em interação (ver quadro 2), como representado Habilidade acima da média engloba a tenra idade a materiais que possam motivá-las a pela porção interna do Diagrama de Venn. Em seu habilidade geral e a específica. A habilidade geral explorar um determinado domínio. Modelo dos Três Anéis, Renzulli pontua que nem consiste na capacidade de utilizar o pensamento Neste sentido, Renzulli e Reis (1986) sempre a criança apresenta este conjunto de traços abstrato ao processar informação e de integrar também recomendam atenção para a importância desenvolvidos igualmente, mas, se lhe forem dadas experiências que resultem em respostas apropriadas de se enriquecer a vida dos alunos através de experi- ências que usualmente não fazem parte do currículo da escola regular; e estimular novos interesses que possam levar o aluno a aprofundá-los em atividades Quadro 2 - Diagrama da Teoria dos Três Anéis criativas e produtivas posteriores. Feldhusen e Jarwan (2000) consideram que os superdotados e talentosos são os maiores recursos de uma nação. Mas somente se obtiverem apoio e afeto familiares, assim como serviços educacionais adequados, desafiadores e de alto nível, é que poderão desenvolver seu potencial humano, levar vidas enriquecidas e satisfatórias, e se tornar os profissionais, artistas, educadores e líderes que farão diferença em nossa nação e no mundo. Habilidades superiores, criatividade e motivação O que produz a habilidade superior? Joseph Renzulli, renomado pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, considera que as pessoas que, no desenrolar da história, foram reconhecidas por suas contribuições únicas, originais e criativas demonstraram possuir um conjunto bem definido de traços, a saber: habilidade acima da média em alguma área do conheci- mento; envolvimento com a tarefa; e criatividade (Renzulli, 1986). A realização criativa/produtiva, que resulta dos comportamentos de superdotação,
  • 37e adaptáveis a novas situações. Em geral, essas habili- humanas, ao invés de “superdotado” como uma forma e matemática. Com baixa motivação no ambientedades são medidas em testes de aptidão e de inteli- de ser. Segundo ele, esta orientação tem permitido escolar, Neil era descrito por seus professores como Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?gência, como raciocínio verbal e numérico, relações a muitos alunos oportunidades para desenvolverem preguiçoso e desajeitado e visto como o palhaço daespaciais, memória e fluência verbal. Habilidades altos níveis de realização criativa e produtiva que, classe pelos seus colegas. Suas dificuldades na escolaespecíficas consistem na habilidade de aplicar várias de outra forma, teriam sido negadas pelos modelos começaram a ser percebidas por volta da 4a série,combinações das habilidades gerais a uma ou mais tradicionais dos programas especiais (Renzulli & quando também começou a ter depressão e outrosáreas especializadas do conhecimento ou do desem- Reis, 1997b). problemas psicológicos. No mais, Neil era umpenho humano, como dança, fotografia, liderança, É tarefa da escola estimular o desenvolvi- adolescente bastante sensível, perceptivo e criativo,matemática, composição musical, etc. mento do talento criador e da inteligência em todos com alta inteligência. Os professores reconheciam Envolvimento com a tarefa se refere à energia os seus alunos e não só naqueles que possuem um que suas preocupações e interesses eram de naturezaque o indivíduo investe em uma área específica de alto QI ou que tiram as melhores notas; desenvol- mais global, e que transcendiam os interesses de seusdesempenho e que pode ser traduzido em termos ver comportamentos superdotados em todos aque- colegas. No entanto, o rapaz demonstrava grandecomo perseverança, paciência, autoconfiança les que têm potencial; nutrir o potencial da criança, entusiasmo concentração e alto interesse quando,e crença na própria habilidade de desenvolver rotulando o serviço e não o aluno; e desenvolver munido de sua câmara fotográfica, fotografavaum trabalho. Trata-se de um ingrediente muito uma grande variedade de alternativas ou opções pessoas, tentando captar suas diversas disposiçõespresente naqueles indivíduos que se destacam por para atender as necessidades de todos os estudantes de humor. Os pais começaram então a incentivá-sua produção criativa. (Treffinger & Renzulli, 1986). lo, e Neil passou a se oferecer para fotografar A criatividade tem sido apontada como um Há várias considerações práticas que podem festas e ocasiões. Seus ensaios fotográficos lhedos determinantes na personalidade dos indivíduos ser feitas com relação ao Modelo dos Três Anéis. valeram prêmios em competições de fotógrafosque se destacam em alguma área do saber humano. Uma delas e a de que nenhum dos traços mencio- amadores. Aprendeu sozinho a tocar piano e violão,No entanto, como é difícil de se medir a criati- nados – habilidade acima da média, envolvimento passando horas tocando para seu próprio diverti-vidade por meio de testes fidedignos e válidos, tem com a tarefa e criatividade – é mais importante que mento. Na escola, fez um criativo ensaio fotográficosido proposta a utilização de métodos alternativos o outro e nem todos necessitam estar presentes ao mostrando a profundidade dos seus sentimentosem adição aos testes, como a análise dos produtos mesmo tempo, ou na mesma quantidade, para que os sobre o tema “Como eu me sinto a respeito dacriativos e auto-relatos dos estudantes (Hocevar & comportamentos de superdotação se manifestem. Isto escola”, uma vez que se sentia incapaz de realizarBachelor, 1989; Reis, 1981). No entanto, torna-se implica em que, no processo de identificar uma criança tal tarefa através da escrita. Com estímulos comoum desafio determinar os fatores que levariam o para fazer parte de um programa de enriquecimento, este, Neil eventualmente se tornou mais interessadoindivíduo a usar seus recursos intelectuais, motiva- pelo menos um destes traços deve estar presente, em pelo ambiente escolar e suas notas se tornaramcionais e criativos de forma em produtos de nível um nível mais acentuado, enquanto os outros poderão progressivamente melhores.superior ou em comportamentos de superdotação. ser desenvolvidos no desenrolar do programa. Se Neil fosse indicado para um programa de Renzulli utiliza o termo “superdotado” como Tomemos como exemplo o caso de Neil, enriquecimento, suas habilidades na área artística,um adjetivo, em uma perspectiva desenvolvimental. relatado por Baum e cols. (1991). Neil era um adoles- como sensibilidade estética e percepção de detalhesDesta forma, prefere falar e escrever sobre o desen- cente com dificuldades de aprendizagem, expressas poderiam ser mais estimulados e suas técnicas devolvimento de comportamentos de superdotação em tanto por dificuldades na organização escrita fotografia aperfeiçoadas. Embora ele não tivesseáreas específicas da aprendizagem e expressão quanto para realizar tarefas seqüenciais de álgebra habilidades na área acadêmica no nível esperado
  • 38 por seus professores, a motivação em fazer deter- por experiências educacionais bem planejadas os comportamentos de superdotação podem ser minadas tarefas ligadas aos seus interesses e a criati- (Gubbins, 1982; Renzulli, 1985), como fizeram seus exibidos em certas crianças (mas não em todas elas) vidade de suas produções artísticas seriam, por si só, professores. Se o aluno oferece uma única porta de em alguns momentos (não em todos os momentos) e fatores impulsionadores para que níveis mais altos entrada para o reconhecimento de seu potencial, é sob certas circunstâncias (e não em todas as circuns- de produtividade pudessem ser atingidos. Renzulli tarefa do professor aproveitá-la e transformá-la em tâncias de sua vida) (Renzulli, 1985; Renzulli e Reis, (2004a) observa que a criatividade e o envolvimento uma experiência enriquecedora e estimuladora para 1997a; Renzulli, Reis & Smith, 1981). Esta posição com a tarefa são traços variáveis, que podem estar o aluno. é bastante polêmica, pois vai contra a tradicional presentes em maior ou menor grau, dependendo Sabemos que, além dos fatores genéticos, a postura de se compreender a inteligência como um da atividade; o aparecimento de um pode estimular superdotação é influenciada também por fatores o aparecimento do outro, principalmente quando do indivíduo (como auto-estima elevada, coragem, a pessoa se sente reforçada por si mesma e pelos persistência, energia, alta motivação) e por fatores outros. No caso exemplificado por Neil, observou- ambientais (oportunidades variadas, persona- se que, ao colocar sua idéia criativa em ação, seu lidade e nível educacional dos pais, estimulação envolvimento com a tarefa começava a emergir. dos interesses infantis, entre outros). Sendo assim, Da mesma forma, um grande envolvimento para conforme acredita Renzulli, a superdotação emerge se resolver uma situação-problema pode ativar o ou “se esvai” em diferentes épocas e sob diferentes processo de resolução criativa de problemas. circunstâncias da vida de uma pessoa. Assim sendo, O caso de Neil também demonstra que a criatividade e o envolvimento com a tarefa podem ser modificados e influenciados positivamente Figura 1 - Estágios do desenvolvimento dos talentos (Gubbins, 2005) .
  • QUADRO 3: O QUE NOS MOSTRA A HISTÓRIA? 39traço imutável e único, e que se traduz no mito de para a emergência destas capacidades. E ainda“uma vez superdotado, sempre superdotado”. há aqueles talentos e capacidades que podem Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? O professor de música de Beethoven uma Potencialidade: estágios do desenvolvi- estar em estágio latente devido aos níveis de vez disse que, como compositor, ele era “semmento do talento desenvolvimento ou pela falta de experiências e esperança”. A Teoria dos Três Anéis, revolucionária da devida exposição aos domínios.mesmo entre os teóricos da área, nos remete à Por outro lado, a falta de incentivo, Isaac Newton - que descobriu o cálculo, desenvolveu a teoria da gravitação universal,questão da potencialidade. Segundo Renzulli, uma de experiências de aprendizagem ou de vida originou as três leis do movimento - tirava notascriança com alta motivação a realizar um trabalho, enriquecedoras, a falta de reconhecimento das baixas na escola.ou a aprofundar um determinado tópico, técnica capacidades e potencialidades de uma criança,ou atividade, poderá se esforçar e vir a dominar, poderão, por sua vez, concorrer para o desuso Albert Einstein tinha dificuldades de ler eem algum momento, o conhecimento associado a destas habilidades e sua conseqüente estagnação soletrar e foi reprovado em matemática.esta área de interesse, mesmo que anteriormente (Galbraith & Delisle, 1996). John Kennedynão tenha demonstrado uma capacidade intelectual Renzulli acredita que, para serem produ- recebia em seussuperior. Neste sentido, a persistência em atingir um tores de conhecimento (e não meramente consu- boletins constan-determinado resultado, a autoconfiança e a determi- midores de conhecimento), nossos alunos devem tes observaçõesnação podem colaborar para fazer desta criança um ter a oportunidade de desenvolver materiais de “baixo rendi-adulto produtivo (Renzulli, 1986b). e produtos originais, como aprendizes em mento” e tinha É interessante notar que alguns adultos primeira-mão. Neste sentido, os alunos devem dificuldades emdescobrem, às vezes mais tarde na vida, que possuem ter a oportunidade de trabalhar em problemas soletrar.habilidades superiores em alguma área, como que têm alguma relevância para eles e que são Walt Disneyaconteceu com Charles Darwin e com o compo- considerados desafiadores e interessantes, e de foi despedido pelositor Igor Stravinsky, que tiveram um desabrochar poderem pensar, sentir e agir como o profis- editor de um jornaltardio (Winner, 1998). Neste mesma linha de sional da área em que seu interesse se manifestou porque ele “nãopensamento, Gubbins (2005) lembra que o desen- (Renzulli, 1986a, 1986c). Além disso, lembra tinha boas idéias evolvimento do talento se dá em estágios, como este autor que: rabiscava demais”pode ser visto na Figura 1. Para algumas pessoas As pessoas que marcaram a história por Dr. Robert Jarvick foi rejeitado por 15estes talentos aparecem de maneira óbvia. É o caso suas contribuições ao conhecimento e à cultura escolas americanas de medicina. Ele inventou oda criança pré-escolar que já lê e entende textos não são lembradas pelas notas que obtiveram na coração artificial.de maior complexidade, ou que manifesta grandes escola ou pela quantidade de informações que Thomas Edison, que além da lâmpada elé-habilidades para resolver problemas em matemática conseguiam memorizar, mas sim pela qualidade trica inventou a locomotiva elétrica, o fonógrafoou para criar músicas originais. No entanto, outras de suas produções criativas, expressas em con- (que virou o gravador), o telégrafo e o projetorcrianças podem apresentar habilidades ou talentos certos, ensaios, filmes, descobertas científicas, de cinema, foi um mau aluno, pouco assíduo eem estágios iniciais de emergência, precisando etc. (Renzulli & Reis, 1985, p. 5). desinteressado. Saiu da escola e foi alfabeti-então de atenção especial e encorajamento para que O Quadro 4 ilustra bem esta concepção zado pela mãe.possa atingir plenamente os requisitos necessários (Galbraith & Delisle, 1996, p. 12):
  • Como reconhecer uma criança superdotada?As características cognitivas, afetivas e sociais do superdotado
  • 43Características cognitivas e Apresenta excelente criativo-produtiva tendem a apresentar as seguintes É um consumidor deafetivas do superdotado raciocínio verbal e/ou conhecimento características (Renzulli & Reis, 1997a): Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? numérico Lê por prazer Tende a agradar aos A literatura na área é abundante nas professores Não necessariamentelistagens de características das crianças superdo- apresenta QI superior Pensa por analogias Gosta de livros técnicos/ Tendência a gostar dotadas. Embora os autores difiram na forma com profissionais ambiente escolar É criativo e original Usa o humorque abordam as altas habilidades/superdotação, Demonstra diversidade Gosta de fantasiaralgumas características são comuns a todos eles. Dentre suas características afetivo-emocio- de interessesRenzulli (2004b), por exemplo, chama a atenção nais deste grupo, Renzulli e Reis (1997a) destacam: Gosta de brincar com as Não liga para aspara duas categorias amplas e distintas de habili- idéias convençõesdades superiores: a superdotação escolar e a O superdotado do tipo É inventivo, constrói É sensível a detalhes “escolar” tem neces- novas estruturassuperdotação criativo-produtiva. sidade de saber sempre Procura novas formas de É produtor de A superdotação escolar pode também ser mais e busca ativa- fazer as coisas conhecimentochamada de “habilidade do teste ou da apren- mente por novas apren- Demonstra perseverança Não gosta da rotina Encontra ordem no caosdizagem da lição”, pois é o tipo mais facilmente dizagens. No entanto, nas atividades pode estabelecer metasidentificado pelos testes de QI para a entrada motivadoras a ele irrealisticamente altasnos programas especiais. Como as habilidades para si mesmo (às vezes Renzulli e Reis (1997a) destacam neste grupomedidas nos testes de QI são as mesmas exigidas reforçadas pelos pais) e as seguintes características afetivas e emocionais:nas situações de aprendizagem escolar, o aluno sofrer por medo de não atingir tais metas. Investem uma Apresentam preocupaçãocom alto QI também tira boas notas na escola. quantidade significativa de energia emocional moral em idadesA ênfase neste tipo de habilidade recai sobre Apresenta grande precoces Apresenta grande naquilo que fazem.os processos de aprendizagem dedutiva, treina- necessidade de intensidade emocional estimulação mental Necessitam demento estruturado nos processos de pensamento, professores sensíveis Precisam do apoio dos Revela intensoe aquisição, estoque e recuperação da infor- Tem paixão em aprender aos seus intensos adultos para persistir perfeccionismo. sentimentos de em suas tarefas ou paramação. As crianças que apresentam a superdo- frustração, paixão, canalizar suas energias detação escolar tendem a apresentar as seguintes Já a superdotação criativo-produtiva implica o entusiasmo, raiva e forma mais eficiente.características (Renzulli & Reis, 1997a): desenvolvimento de materiais e produtos originais; desespero. aqui, a ênfase é colocada no uso e aplicação da Frequentemente Demonstram questionam regras/ sensibilidade / empatia Tira notas boas na escola Apresenta grande informação – conteúdo – e processos de pensa- autoridade vocabulário mento de forma integrada, indutiva, e orientada Demonstram auto- Demonstram Necessita pouca repetição Gosta de fazer perguntas do conteúdo escolar para os problemas reais. O aluno, nesta abordagem, consciência perceptividade (insight) é visto como um “aprendiz em primeira-mão”, no Demonstram capacidade Apresentam senso agudo Aprende com rapidez Apresenta longos períodos de reflexão de justiça de concentração sentido de que ele trabalha nos problemas que têm relevância para ele e são considerados desafiadores. Apresentam imaginação Tem boa memória É perseverante vívida As crianças que apresentam a superdotação do tipo
  • 44 Galbraith e Delisle (1996) apresentam uma todas estas características. Contudo, se o professor Um maior detalhamento das características lista de comportamentos para ajudar os professores observa que alguns alunos exibem consistente- sociais, emocionais e cognitivas dos alunos com a desenvolverem um olhar sensível para a identifi- mente muitos destes comportamentos, a possi- altas habilidades/superdotação será apresentado na cação dos talentos e das altas habilidades em sala bilidades que eles apresentam altas habilidades próxima sessão. de aula. Lembram os autores que, para ser consi- é bastante forte. O Quadro 5 apresenta algumas derado superdotado, o aluno não precisa exibir características. Necessidades sócio-emocionais Quadro 5 - Formulário para a identificação da superdotação Reserve alguns minutos para listar os nomes dos alunos que venham primeiramente à sua mente quando você lê as Vários autores concordam que, em se tratando descrições abaixo. Utilize esta lista como uma “associação livre” e de forma rápida. Não é necessário preencher todas de crianças superdotadas, altos níveis de desenvolvi- as linhas. É provável que você encontre mais do que um aluno em cada descrição. mento cognitivo não necessariamente implicam em 01 Aprende fácil e rapidamente altos níveis de desenvolvimento afetivo (Clark, 1992; 02 Original, imaginativo, criativo, não-convencional Neihart, Reis, Robinson & Moon, 2002; Silverman, 03 Amplamente informado; informado em áreas não comuns 1993). Essas crianças são caracterizadas afetivamente 04 Pensa de forma incomum para resolver problemas por uma grande sensibilidade, proveniente da acumu- 05 Persistente, independente, auto-direcionado (faz coisa sem que seja mandado) lação de uma quantidade maior de informações 06 Persuasivo, capaz de influenciar os outros e emoções, captadas pela criança, do que ela pode 07 Mostra senso comum; pode não tolerar tolices absorver e processar. A informação emocional vem 08 Inquisitivo, cético, curioso sobre o como e porque das coisas tanto de fora quanto de dentro da própria criança, 09 Adapta-se a uma variedade de situações e novos ambientes a qual precisará aprender a aplicar suas capacidades 10 Esperto ao fazer coisas com materiais comuns cognitivas a este material, para que possa compre- 11 Habilidades nas artes (música, dança, desenho etc.) ender seu mundo emocional. Um programa adequado 12 Entende a importância da natureza (tempo, lua, sol, estrelas, solo, etc.) deve dar oportunidades para que a criança tenha 13 Vocabulário excepcional, verbalmente fluente consciência dos seus aspectos emocionais, ajudando- 14 Aprende facilmente novas línguas a a aplicar suas habilidades verbais e de compre- 15 Trabalhador independente, mostra iniciativa ensão avançadas às suas experiências emocionais. 16 Bom julgamento, lógico A consciência social, que frequentemente aparece 17 Flexível, aberto cedo no desenvolvimento destas crianças, torna-se 18 Versátil, muitos interesses, interesses além da idade cronológica uma oportunidade para se desenvolver nelas uma 19 Mostra insights e percepções incomuns adequada estrutura de valores e de transformar valores 20 Demonstra alto nível de sensibilidade, empatia com relação aos outros em ações sociais. 21 Apresenta excelente senso de humor Galbraith e Delisle (2002, p.53) reconhecem 22 Resiste à rotina e repetição que algumas características apresentadas por estes 23 Expressa idéias e reações, freqüentemente de forma argumentativa meninos e meninas podem dificultar o reconheci- 24 Sensível à verdade e à honra mento das características e a identificação da superdo- Fonte: Galbraith e Delisle (1996, p. 14) tação, e chamam a atenção para os seguintes perfis:
  • 45(a) Alunos que ficam facilmente cansados e (i) Alunos que podem ser auto-confidentes e em sala de aula por professores e, talvez, até com entediados com o trabalho rotineiro da sala passionais sobre assuntos de cunho político, a ajuda de estagiários de psicologia, observando o Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? de aula. Alguns podem reclamar freqüente- social ou moral e apresentar abertamente devido cuidado com o mundo interno da pessoa. mente em alto e bom som. Outros podem suas convicções, se distanciando dos colegas Um professor sensível às características peculiares se conformar e nada dizer. que não compartilham ou não ligam para do superdotado pode reservar um momento em(b) Alunos que podem trabalhar intensamente esses assuntos. suas aulas para que a criança ou o jovem possam em uma área ou matéria, negligenciando o (j) Alunos que podem preferir trabalhar se expressar com mais liberdade, falar sobre suas dever de casa e trabalho de sala de aula em independentemente e se ressentir dos dificuldades, temores e dúvidas. Muitas vezes, ao outras áreas ou matérias. adultos que querem “colocá-los na linha”, compartilhar suas emoções, o jovem percebe que(c) Alunos que podem usar seu vocabulário fazendo-os seguir determinados procedi- elas são comuns aos outros colegas, e que cada um avançado como retaliação contra aqueles mentos com os quais eles não concordam. tem uma forma diferente de lidar com estas carac- não são tão bem-dotados verbalmente. Galbraith e Delisle (2002) argumentam terísticas e emoções.(d) Alunos que podem ficar tão entusiasmado ainda que alguns destes comportamentos negativos Falaremos nesta sessão de treze caracterís- com uma área ou tópico de discussão que podem ser devidos às necessidades intelectuais e ticas principais, presentes em diferentes gradações monopolizam a conversação, ou começam a emocionais do superdotado que talvez não estejam no mundo emocional da pessoa superdotada, a ensinar o tópico, até mesmo para os profes- sendo devidamente atendidas em casa ou na escola. saber: o perfeccionismo; a perceptividade; a neces- sores. Embora o comportamento arrogante não deva ser sidade de entender; a necessidade de estimulação(e) Alunos que podem ficar inicialmente tolerado, e o desinteresse acadêmico não deva ser mental; a necessidade de precisão e exatidão; o entusiasmados com uma área ou tópico ignorado, é bom saber que a fonte destes problemas de discussão, mas uma vez que o interesse pode ser uma frustração intelectual, e não uma é satisfeito, resistem em fazer trabalhos desordem emocional. adicionais relacionados ao tópico ou a concluí-los. Como trabalhar em sala de aula com(f ) Alunos que podem não gostar ou se as características típicas do ressentir de ter que trabalhar com colegas superdotado que não apresentam habilidades igualmente superiores, podendo verbalizar ou apresentar Algumas características de personalidade sua insatisfação por meio de altos suspiros. são típicas de um grande número de crianças com(g) Alunos que possuem vasto conhecimento altas habilidades na área acadêmica e são discutidas de muitos tópicos, e podem corrigir colegas a seguir, conforme o ponto de vista de Silverman e adultos quando percebem que estão dando (1993), Galbraith e Delisle (2002) e Neihart, Reis, informações incorretas. Robinson e Moon (2002) que também indicam(h) Alunos que podem usar seu senso de humor formas de serem trabalhadas em dinâmicas de avançado e sagacidade para intimidar, cunho terapêutico. Isto significa que, na falta de um manipular e humilhar os outros. psicólogo no atendimento, podem ser trabalhadas
  • 46 saúde e capacidade de gozar a vida. O perfeccionismo de entendimento e busca de conhecimento. A curio- vem de um ideal abstrato que o indivíduo coloca sidade é, em geral, observada pelos pais na criança para si mesmo, em função da sua facilidade em lidar desde tenra idade, que também relatam que o filho/ com abstrações. A mente coloca altos padrões – às a apresenta um comportamento investigativo, faz vezes impossíveis de serem alcançados – baseados perguntas perspicazes e penetrantes, e demonstra em sua consciência e capacidade mental avançados, um comportamento persistente. A energia que se muitas vezes em descompasso com sua idade crono- origina desta sede de saber vem, em seu componente lógica. Os pesquisadores mostram a necessidade de psicológico, da necessidade premente de compre- acompanhamento psicológico quando o indivíduo ender o sentido do mundo e das coisas, de entender estabelece padrões absurdamente irrealistas para si o mundo em que vive, de criar seu próprio mundo. mesmo, que em geral vem acompanhado de muita Há uma necessidade de domínio em vários sentidos energia e carga extra de frustrações. É necessário – domínio do mundo no sentido físico, intelectual que essa característica seja respeitada, ao mesmo e criativo. Essa natural curiosidade da criança tempo em que o indivíduo aprende a usá-la de ou jovem pode ser satisfeita em dinâmicas que forma produtiva em sua vida. levem o aluno a se perceber como sujeitos experi- senso de humor; a sensibilidade e empatia; a inten- 2. PERCEPTIVIDADE mentais em uma pesquisa que ele próprio construiu. sidade; a perseverança; a autoconsciência; a não- Uma habilidade de raciocínio excepcional faz Assim, podem aprender a observar suas reações em conformidade; o questionamento da autoridade; e com que o indivíduo seja mais perceptivo e tenha diversas situações; tomar notas, manter um diário, a introversão13. mais insigths (este termo é usualmente utilizado fazer tabelas e estimar numericamente seus estados 1. PERFECCIONISMO para evidenciar a perspicácia e discernimento do afetivos. Questões do tipo “O que aconteceria se...” Um fator de origem emocional que aparece indivíduo, o que o permite encontrar novas respostas). também pode ajudá-los a perceber melhor suas bem descrito na literatura, ligado aos fatores São alunos que encontram novas formas de abordar ações e suas potenciais conseqüências, assim como sócio-emocionais da pessoa com altas habilidades, um problema e chegam a diferentes soluções. É outras atividades preparadas por ele próprio como diz respeito ao comportamento perfeccionista. importante que o professor ressalte para os alunos intervenções auto-escolhidas. Diferindo da busca da excelência, que é um compor- com estas características que os insights e respostas 4. NECESSIDADE DE ESTIMULAÇÃO MENTAL tamento fundamentalmente positivo, o perfeccio- encontradas de forma original devem ser colocados Características como aprendizagem rápida, nismo (em geral descrito como neurótico) tende a em prática, e não permanecerem meramente no memória prodigiosa e níveis avançados de desen- enfatizar que o aluno não pode jamais falhar, seus terreno das idéias. Assim, a capacidade de insight volvimento são observáveis desde tenra idade. Os atos têm sempre que obter aprovação, e que ele nunca do aluno deve ser utilizada também para o enten- pais costumam também relatar em seus filhos a pode chegar em segundo lugar. Todos estes adjetivos dimento de si próprio, para a resolução de dificul- rápida perda de interesse por estímulos familiares demonstram a força do pensamento do perfeccio- dades e problemas que ele possa encontrar em suas e preferência por novidade, além de grande neces- nista, que termina por ser prejudicial para sua auto- atividades diárias, assim como em seu grupo. sidade de manter a estimulação mental. No estima, para os seus relacionamentos, criatividade, 3. NECESSIDADE DE ENTENDER entanto, a criança logo aprende que seu rápido 13 Conforme Silverman (1993), Galbraith e Delisle (2002) e A curiosidade intelectual do aluno é também ritmo de aprendizagem não é estimulado na escola, Neihart, Reis, Robinson e Moon (2002). um traço de personalidade que o leva à necessidade mantendo grande distância do ritmo apresentado
  • 47por seus colegas com desenvolvimento moderado. e em muitos casos o professor se vê corrigido em crianças superdotadas bem pequenas. PreocupaçãoO professor deve diferenciar o currículo para que frente aos outros alunos. Acontece também do aluno com outras formas de vida, tendência a se tornarem Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada?estes alunos não percam o gosto pela escola; pode muitas vezes não perceber a extensão de suas próprias vegetarianas por crenças filosóficas, entendimentoutilizar recursos como aceleração de série, projetos críticas. Nestes casos, torna-se útil que ele participe de assuntos morais desde tenra idade têm sidoindependentes, cursos avançados, oportunidades de de atividades para o desenvolvimento de habilidades observados por pais. Algumas vezes os sentimentosenriquecimento escolar, compactação de currículo e sociais, e para a busca de saídas alternativas para este de empatia e a sensibilidade aparecem de formaoutras formas de acompanhamento para manter a tipo de comportamento. É também fundamental para independente; por exemplo, uma criança extrema-criança estimulada e desafiada em sala de aula. A o aluno aprender a distinguir o material relevante do mente sensível à crítica, que se sente magoada commemória prodigiosa destes alunos também implica irrelevante dentre a massiva quantidade de infor- facilidade, muitas vezes não tem consciência dosem intensa memória afetiva. Isto implica que o aluno mação que ele tem tendência de estocar, de forma a sentimentos dos outros. Ou ela pode demonstrarsuperdotado mantém uma vívida lembrança de cada facilitar a tomada de decisões e partir para a ação. sentimentos de proteção com relação a criançasfracasso e humilhação, revivendo estas experiências 6. SENSO DE HUMOR mais novas ou aos idosos e ainda demonstrar faltamesmo anos depois de terem ocorrido. Torna-se um Tem sido observado por muitos pesquisa- de preocupação com os sentimentos dos irmãosdesafio quebrar este ciclo que perpetua sentimentos dores que o aluno com altas habilidades responde ou outras crianças de sua idade. Algumas criançasde desamparo e ressentimento. Uma dinâmica útil e compreende várias formas de humor verbal a um demonstram, contudo, desde muito cedo, enormeenvolve a dramatização em sala de aula, permitindo nível mais sofisticado que seus colegas de mesma empatia com relação aos outros, a um grau queao aluno experienciar a situação não como vítima, idade. Muitas vezes os alunos que possuem um ultrapassa mesmo as preocupações do adulto, e sãomas como alguém em controle dos próprios senti- bom senso de humor também percebem absurdos consideradas como “emocionalmente superdotadas”mentos, de posse de novas habilidades que poderão e incongruências nas situações, e por sua imagi- (Piechowski, 1997).ser úteis em ocasiões similares no futuro. Alunos que nação vívida, muitas vezes exageram os aspectosnecessitam de estimulação mental podem também cômicos dos eventos. Entender a incongruênciase beneficiar de leituras na área, que o permitam envolve também um processo mental semelhantecompreender o seu próprio processo psicológico. ao utilizado para a resolução de problemas, sendo 5. NECESSIDADE DE PRECISÃO E EXATIDÃO também um reflexo do nível de desenvolvimento Processos complexos de pensamento imputam da pessoa. O humor tem aspectos terapêuticosna criança imperativos lógicos; elas esperam que o que devem ser utilizados sempre que possível paramundo faça sentido e reagem fortemente quando promover o relaxamento e a liberação de tensões,isso não acontece. A habilidade de perceber múltiplas para a facilitação social, na liberação da ansiedade,relações entre idéias, objetos e percepções, assim na auto-expressão, para facilitar o desenvolvimentocomo a capacidade para argumentação tornam difícil de insights e no auto-desenvolvimento na direção dao processo de tomada de decisão. O aluno sente-se auto-realização.compelido a corrigir erros (dele e dos outros), de 7. SENSIBILIDADE/ EMPATIAchamar a atenção para os casos que refutam deter- Quando as preocupações morais se fundemminados argumentos. Contudo, a necessidade de com a empatia, elas se transformam em compro-precisão e exatidão não estimula as relações sociais, misso moral, aspecto que tem sido observado em
  • 48 8. INTENSIDADE forma a nutrir e saciar a vontade destes alunos de intelecto incisivo e analítico é focalizado para o A paixão por aprender, por sua força aprender em maior profundidade. É necessário que seu próprio interior. Há que se ter muito cuidado emocional, é considerada uma poderosa força de o ambiente de aprendizagem possa ser revisto e com estas características, uma vez que o indivíduo propulsão para a superdotação. Uma característica reformulado, de forma a se tornar mais responsivo com uma aguda auto-consciência pode brutalizar da paixão por aprender é a maneira intensa com que para o aluno. ou violentar a si mesmo. O professor deve ajudar a criança/jovem vai ao encalço de seus interesses. 9. PERSEVERANÇA os alunos a apreciarem-se a si mesmos e a se Há momentos em que a criança quer saber tudo Um traço bastante comentado na literatura conscientizarem de que, muitas vezes, as escolhas sobre um determinado tópico e se torna totalmente sobre o superdotado relaciona-se com seu que fazemos em determinadas ocasiões podem ser voltada para ele, fazendo perguntas intermináveis, grande poder de concentração nas atividades a única escolha viável para aquela situação. Alunos apreendendo uma grande quantidade de material, que realmente prendam seu interesse. Longos que são pensadores analíticos às vezes se culpam incapaz de pensar em nada mais, até que toda a sua períodos de atenção podem ser observados em por situações em que as conseqüências não foram energia seja gasta. Apenas quando ela finalmente idades precoces. A perseverança está relacionada preditas, e se auto-flagelam por isso. Uma técnica satisfaz sua curiosidade é capaz de passar para outro ao período de atenção e à habilidade de se interessante é fazê-los visualizar as piores conse- tópico de interesse. Contudo, a escola tradicional concentrar, assim como à tenacidade e força de qüências possíveis para uma determinada situação não permite que a criança busque e esgote todos vontade da criança, o que, em geral, aumenta com causadora de ansiedade (por exemplo, a fantasia os seus interesses particulares sobre uma deter- a maturidade. Algumas crianças são, por natureza, da catástrofe), depois visualizar as melhores minada matéria ou tópico; a estes alunos o material mais dirigidas a um propósito, enquanto outras conseqüências possíveis, e finalmente ajuntar as é apresentado em um ritmo tão vagaroso que ela perdem interesse no processo quando a meta se duas imagens em uma situação mais realística tem dificuldade de permanecer atenta. Vários torna sem sentido. Em dinâmicas em sala de aula, e provável de acontecer. Esta é uma boa técnica pesquisadores concordam que os projetos indepen- é necessário que o professor dê apoio aos alunos para ajudá-los a ver que a realidade nem sempre dentes deveriam fazer parte do ensino regular, de para que mantenham suas metas, encorajando- é tão ruim quanto tememos, nem tão boa quanto os quando se sentem frustrados ou chegam a freqüentemente desejamos. um impasse no seu progresso. É também válido 11. NÃO-CONFORMIDADE torná-los conscientes de cada passo em relação A criatividade é um traço freqüentemente ao sucesso, e do trabalho árduo que é, às vezes, notado entre as pessoas superdotadas, embora não requerido. se tenha estabelecido a complexa relação entre elas. 10. AUTOCONSCIÊNCIA Como os adultos, as crianças e jovens superdotados Crianças com altas habilidades são, muitas precisam de oportunidades para a expressão criativa; vezes, pensadores analíticos (Sternberg, 1996), e quando estas avenidas de oportunidade são bloqueadas, com freqüência estão avaliando suas experiências, percebe-se um desvio para canais auto-destrutivos. A assim como pessoas, alimentos, música, experiência não-conformidade, com freqüência, aparece em e assim por diante. Eles são capazes de separar as conjunção com traços de pensamento divergente, coisas na mente e ver todas as formas intrincadas o que causa problemas para professores e para os pelas quais elas poderiam ser melhoradas, incluindo colegas. Uma dinâmica interessante constitui-se a si mesmas. A autoconsciência surge quando este em descobrir se a fonte da não aquiescência às
  • 49normas se encontra apoiada em padrões morais tações têm, em geral, baixa auto-estima, o que(e então a não conformidade deve ser enaltecida) precisa ser trabalhado em conjunção com a Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada?ou baseada na insegurança e no desejo de família e a escola.provar alguma coisa para o grupo – neste caso, 13. INTROVERSÃOtorna-se um fator para ser trabalhado em maior A capacidade para reflexão é um traçoprofundidade. freqüentemente observado em pessoas introver- 12. Q UESTIONAMENTO DA AUTORIDADE tidas. Em geral, nossa sociedade tende a dar menos Pais relatam que seus filhos aprendem muito suporte para as pessoas introvertidas e que precisamcedo o significado da frase “isso não é justo”, e de tempo para refletir, do que para os extrover-rapidamente percebem injustiças contra ele e os tidos. Há estudos indicando que, quanto maioroutros. Um agudo senso de justiça invariavelmente o QI medido por testes psicométricos, maior é oleva ao questionamento das regras e de figuras de grau de introversão (Silverman, 1993). Enquantoautoridade. Quando a criança ou jovem percebe os extrovertidos retiram sua energia das pessoas eque a fonte da autoridade é ilógica, irracional, objetos fora de si próprios, o contrário aconteceerrônea ou injusta, termina por desenvolver um com os introvertidos, os quais buscam energianegativismo em relação à autoridade. O questio- de dentro de si mesmos. Além disso, os introver-namento e a argüição são formas de exercício tidos freqüentemente aprendem por observação;mental para os superdotados acadêmicos, que se sentem-se inconfortáveis com mudanças; são leaisengajam nisso por puro prazer, como um método a um pequeno grupo de amigos mais chegados; espaço para falar de si próprias e, ao contrário dosde aprendizagem e para provar um ponto de vista são capazes de intensa concentração; detestam extrovertidos, não resolvem seus problemas através– e muitas vezes saem ganhando. Muitos jovens ser o centro das atenções; necessitam privacidade; da verbalização. Ao buscar ajuda, os introvertidoscom altas habilidades gostam de desempenhar o e sentem que suas energias são drenadas pelas se sentem melhor ouvindo conselhos e opiniõespapel do “advogado do diabo” apenas pelo prazer pessoas. É também freqüente encontrar entre os do outro, para assim, em um momento posterior,de argumentar e de ouvir os argumentos da outra introvertidos o uso de uma “máscara” para uso em trabalhar consigo mesmo o que ouviu e processarpessoa. É claro que, para refinar suas habilidades situações públicas e sociais; a conseqüência disso esse conteúdo em suas divagações mentais.sociais, é necessário ter consciência de que este é a necessidade de manter um comportamento Estas várias características, quando tomadasaspecto pode ser intimidador para outras pessoas, perfeito na escola, guardando os sentimentos juntas em suas interações, ajudam a indicarassim como ter uma melhor compreensão dos negativos para si mesmo, e depois despejando quando as crianças com altas habilidades precisamsentimentos dos outros e de suas reações às suas tudo na pessoa que eles mais confiam e se sentem de aconselhamento psicológico, e como podemhabilidades de argumentação. Também é interes- protegidos – em geral a própria mãe. Mais do que se beneficiar de dinâmicas em sala de aula. Ésante que o indivíduo raciocine sobre o conteúdo tudo, os introvertidos precisam ser respeitados necessário entender bem as características sócio-de sua argumentação, levando em conta o ponto pelo que são. Pais e professores precisam aceitar a emocionais deste grupo se quisermos ajudar asde vista do bem para a maioria, e não apenas introversão como algo normal, ao invés de tentar crianças e jovens superdotados a superarem suaspara a si mesmo. Indivíduos que precisam estar fazer a criança se transformar em um extrovertido. dificuldades e se tornarem mais funcionais nocertos todo o tempo e ganhar em suas argumen- As pessoas introvertidas raramente precisam de contexto sócio-cultural em que vivem.
  • Encorajando potencialidades Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática
  • 53As altas habilidades/superdotação e acontece. Percebendo a inteligência como multifa- A criança que se destaca por sua inteli-a inteligência na teoria cetada e composta por vários fatores, podemos então gência analítica é aquela que, em geral, o professor Capítulo 4: Encorajando Potenciais entender que uma pessoa possa demonstrar domínio gosta de ter em sala de aula: academicamente Nos primeiros anos do século XX a questão da e conhecimento em uma área, a que chamamos de brilhante, tira boas notas nos testes, aprende cominteligência como um traço único ou multifacetado “área forte”, e ter suas dificuldades em outras áreas, facilidade e com pouca repetição, tem facilidadefoi bastante debatida. Nesta época, a inteligência era denominadas de “áreas fracas”. em analisar as idéias, pensamentos e teorias. Gostavista como um traço inato, global, que pouco mudava Em conseqüência, vários pesquisadores se de livros e muitas vezes aprende a ler sozinha ouno decorrer do desenvolvimento. Entendia-se então preocuparam com a questão da validade dos tradi- com pouca instrução. A escola tradicionalmenteque todos os indivíduos possuíam uma “inteligência cionais testes de QI para medir a inteligência, quando reforça as habilidades analíticas de seus alunos, aogeral”, conhecida como “fator g”, e que estaria presente se leva em consideração as habilidades de resolução acentuar a memorização e reprodução dos conhe-em todas as tarefas intelectuais. Esta inteligência de problemas, criatividade, competência social, ajusta- cimentos, muitas vezes em detrimento da aplicaçãogeral seria a grande responsável pela capacidade do mento geral e sucesso no ambiente de trabalho. Robert e do ensino de técnicas para o desenvolvimento doindivíduo de perceber e aplicar relações lógicas nos Sternberg e Howard Gardner respondem diferencial- pensamento criador. Assim é que a pessoa essencial-mais diversos campos do conhecimento. O racio- mente a estas questões, que passaremos a examinar mente analítica muitas vezes carece de idéias novascínio que se seguiu, e que passou a ser observado e com um pouco mais de detalhe na sessão seguinte. e originais e pode ter dificuldade em um ambientepesquisado no decorrer do século, seria de que, se a Vamos também examinar o papel que a inteligência e que exija respostas diferentes e incomuns.inteligência fosse geral e única, então uma criança a criatividade desempenham na superdotação. Já a criança que se destaca por suas habili-inteligente deveria ter um bom desempenho em A TEORIA TRIÁDICA DE INTELIGÊNCIA dades de pensamento criativo apresenta, em geral,todas as tarefas intelectuais de um teste; por exemplo, Preocupado com as questões mais gerais sobre talentos e dificuldades opostos. A pessoa comna escola, ela deveria sair-se tão bem nos testes de o comportamento inteligente, o renomado pesqui- inteligência criativa nem sempre tem as melhoresmatemática quanto no de português ou de ciências. sador da Universidade de Yale, Robert Sternberg notas e nem sempre se destaca na escola por suasMas os estudiosos argumentaram que se, por outro (1996a, 1996b, 1996c) desenvolveu a Teoria Triádica habilidades acadêmicas. No entanto, demonstralado, a inteligência fosse composta de vários fatores da Inteligência. Segundo este pesquisador, os testes grande imaginação e habilidade em gerar idéiase habilidades independentes, a criança poderia ter de QI não são válidos para medir o tipo de inteli- interessantes e criatividade na forma de escreverum bom desempenho em algumas tarefas, mas não gência exigida para o sucesso no mundo real, como ou falar e de demonstrar suas aptidões e compe-necessariamente em todas. Pesquisas deram apoio à por exemplo, para a carreira profissional de uma tências. Essa criança tende a ter independência desegunda hipótese (Hetherington & Parke, 1999). pessoa. Para Sternberg, o comportamento inteli- pensamento e de idéias, a ver humor em situações Observa-se hoje que a inteligência é composta gente é muito amplo, não sendo passível de ser que nem sempre os outros percebem como tal e sãode muitos fatores e habilidades, o que faz com que medido da forma tradicional. Ele argumenta que a muitas vezes consideradas o “palhaço da turma”,uma criança possa ter um excelente desempenho pessoa pode ser inteligente de três formas: pelo uso A terceira forma de ser inteligente, conformeem uma área e quase nenhum rendimento em outra. de uma inteligência analítica; ou pelo uso de uma Sternberg, leva em consideração a facilidade daEsta conclusão é importante, pois, em geral, pais e inteligência criativa; ou ainda pelo uso de uma inteli- criança em se adaptar ao ambiente e desempenharprofessores têm grandes expectativas de que a criança gência prática. Vamos considerar cada uma dessas atividades que são adequadas para o desenvolvi-se saia bem em todas as áreas e tenha boas notas inteligências em relação à criança em seu percurso mento de uma tarefa. A criança demonstra inteli-em todas as matérias escolares, o que nem sempre de desenvolvimento. gência prática e senso-comum, sendo capaz de
  • 54 chegar em qualquer ambiente, fazer um levan- ser medida, há necessidade do uso de outros tipos seus estudos para incluir a inteligência espiritual, tamento do que é necessário para atingir algum de testes, que não só os de lápis-e-papel, e que entendida como a preocupação com certos objetivo prático, e executar sua tarefa com precisão. sejam mais amplos e flexíveis. Esta é uma das idéias conteúdos cósmicos, a obtenção de certos estados À medida que ganha experiência de vida, a pessoa tratadas na Teoria de Howard Gardner, que exami- de consciência e os profundos efeitos que certas prática demonstra esta inteligência com mais naremos a seguir. pessoas, possuidoras destas capacidades, exercem intensidade, o que a permite lidar com as pessoas A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS sobre outros indivíduos (como o fizeram Buda, e conseguir que um determinado trabalho seja Gardner (1994; 1995; 1999; Ramos-Ford Madre Tereza de Calcutá, o Papa João XXIII, executado, percebendo o que funciona e o que não & Gardner, 1997), assim como Sternberg, entende Confúcio e mesmo Cristo). funciona. É a inteligência prática ou conhecimento que há múltiplos fatores na composição da inteli- Gardner acredita que as inteligências tácito que, no contexto de vida prática, é respon- gência. A Teoria das Inteligências Múltiplas propõe dependem de variáveis do contexto, da cultura, sável pela melhor adaptação da pessoa ao ambiente a inteligência como habilidades que permitem ao da genética e das oportunidades de aprendizagem e para o sucesso no mundo real, principalmente no indivíduo resolver problemas ou criar produtos de uma pessoa, o que faz com que os indivíduos desempenho profissional. que são importantes num determinado ambiente manifestem suas competências em diferentes Desta forma, Sternberg ressalta que cultural ou comunidade. Assim, ele ressalta dois graus. Além disso, as habilidades e inteligências diferentes situações exigem diferentes tipos de importantes fatores: (a) a inteligência envolve se combinam para que o indivíduo possa desem- inteligência. No mundo atual, conforme colocado criatividade, na medida em que ela é de funda- penhar os diversos papéis exigidos na sua cultura ou no início deste livro, as habilidades que se exigem mental importância para o desenvolvimento de para desenvolver produtos culturais. Normalmente do aluno que ingressa no mundo de trabalho são produtos em uma sociedade ou para solucionar uma criança não apresenta apenas um tipo de o resultado dessas três formas de inteligência. problemas que aparecem em um contexto; e (b) inteligência; ela pode combinar muitas delas para Tomemos o exemplo de um professor. É desejável algumas inteligências são mais valorizadas em uma desempenhar um determinado papel ou desen- que, para o sucesso de sua profissão, o professor cultura do que em outra e, portanto, o indivíduo só volver algum produto. tenha bem memorizado os conhecimentos relacio- pode ser considerado inteligente se o seu contexto Pensando nos diversos estilos de aprendi- nados à disciplina que ensina; é também desejável for levado em consideração. zagem que as crianças apresentam quando tendem que aplique técnicas instrucionais com criatividade Gardner procurou identificar quais as a uma determinada inteligência de forma mais e imaginação; além disso, a forma com que utiliza o competências humanas seriam “candidatas” a serem expressiva, Armstrong (2001) descreve as necessi- currículo deve ser adaptada ao contexto da sua sala denominadas de inteligência. Para isso, estudou dades cognitivas específicas do aluno para o melhor de aula, às necessidades individuais de seus alunos e as evidências de uma série de campos, incluindo desenvolvimento em sala de aula (ver Quadro 6). às demandas sociais da sua população estudantil. o estudo da inteligência nos savants, autistas e Este conhecimento é importante para subsidiar a Conclui Sternberg que os tradicionais testes crianças prodígios, em pessoas com lesões cerebrais instrução em sala de aula, de forma que a maior de inteligência poderão ser bons preditores de e em culturas diferentes (Krechevsky, 2001). Como parte da aprendizagem na escola possa ocorrer sucesso do aluno na sua vida acadêmica, mas terão resultado desta investigação, Gardner propõe oito através dos tipos de inteligências preferidas por eles. pouco impacto na predição do sucesso na vida inteligências diferentes: a lingüística; a lógico- Além disso, lembra Armstrong que a maioria dos prática e no ambiente de trabalho, que exigirão matemática; a espacial; a corpo-cinestésica; a alunos apresenta áreas fortes em vários domínios, outras formas de inteligência não abarcadas pelos musical; a naturalista; a interpessoal; a intra- de modo que o professor deve evitar categorizar a testes. Para serem justos para com a inteligência a pessoal; e, recentemente (Gardner, 1999) anunciou criança em apenas uma inteligência.
  • QUADRO 6: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR 55INTELIGÊNCIA LINGÜÍSTICA: capacidade para pensar com palavras; usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos, quer oralmente (como o faz o contador de Capítulo 4: Encorajando Potenciaishistórias, o orador ou o político), quer por escrito (como o poeta, o dramaturgo, o editor e o jornalista). Inclui a manipulação da sintaxe ou estrutura da linguagem, a semânticaou os significados da linguagem, e os usos práticos da linguagem, como a retórica – usar a linguagem para convencer os outros; a meneumônica – usar a linguagem para lembrarinformações; a explicação – usar a linguagem para informar; e a metalinguagem – usar a linguagem para falar sobre ela mesma.CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM ADORAM PRECISAM DELingüísticas em palavras Ler, escrever, contar histórias, fazer jogos de Livros, fitas, materiais para escrever, papéis, diários, diálogos, discussões, palavras debates, históriasINTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA: possibilita usar e avaliar relações abstratas, calcular, quantificar, considerar proposições e hipóteses e realizar operações matemáticascomplexas (como o fazem os matemáticos, os analistas financeiros, contadores, engenheiros), para raciocinar bem (como os programadores de computador e cientistas).Inclui a sensibilidade a padrões de relacionamentos lógicos, funções, afirmações e proposições (causa-e-efeito; se... então), entre outras abstrações. Inclui processos como acategorização, classificação, inferência, generalização, cálculo e testagem de hipóteses.CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM ADORAM PRECISAM DELógico-matemáticas raciocinando Experimentar, questionar, resolver problemas Coisas para explorar e pensar, materiais científicos, manipulativos, visitas lógicos, calcular ao planetário e ao museu de ciênciasINTELIGÊNCIA ESPACIAL: capacidade de perceber informações visuais ou espaciais (como o caçador e o guia), pensar de maneiras tridimensionais levando em consideração arelação entre cor, forma, linha, configuração e espaço (como o faz os pintores, arquitetos e escultores), transformar e modificar essas informações, e recriar imagens mesmo semreferência a um estímulo físico original (como os navegadores e jogadores de xadrez). Não depende da sensação visual (cegos a utilizam).CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM ADORAM PRECISAM DEEspaciais por imagens Planejar, desenhar, visualizar, rabiscar Arte, LEGOs, vídeos, filmes, slides, jogos de imaginação, labirintos, e figuras quebra-cabeças, livros ilustrados, visitas a museus de arteINTELIGÊNCIA CORPORAL-CINESTÉSICA: envolve o uso de todo o corpo ou partes do corpo para resolver problemas, criar produtos, expressar idéias e sentimentos (porexemplo, como o faz o ator, o mímico, o atleta e o dançarino). Inclui a coordenação entre sistemas neurais, musculares e perceptuais, permitindo a manipulação de objetosCRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM ADORAM PRECISAM DECorporal cinestésicas por sensações Dançar, correr, pular, construir, tocar, Dramatização, teatro, movimento, coisas para construir, esportes e somáticas jogos de movimento, experiências táteis, aprendizagem prática
  • 56 QUADRO 7: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR INTELIGÊNCIA MUSICAL: permite às pessoas criar, comunicar e compreender significados compostos por sons. Inclui: capacidade para o canto, melodia, tom, ritmo e timbre. Inclui a capacidade de perceber (como os aficionados por música e ouvintes sensíveis), discriminar (como os críticos musicais, os peritos em acústica, engenheiros de áudio, os fabricantes de instrumentos), transformar (como os compositores) e expressar (como os musicistas, instrumentistas e maestros) CRIANÇAS QUE SÃO ADORAM PRECISAM DE PENSAM EXTREMAMENTE Cantar, assobiar, cantarolar, batucar com Tempo para cantar, idas a concertos, tocar música em casa e na por ritmos e melodias Musicais as mãos e os pé, escutar escola, instrumentos INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL: é a capacidade de compreender as outras pessoas e interagir efetivamente com elas. Emprega capacidades centrais para reconhecer, compreender e fazer distinções entre sentimentos, crenças e intenções dos outros, agir em função delas e moldá-las para seus objetivos. Presente em terapeutas, pais e professores bem-sucedidos, doadores, atores e políticos. CRIANÇAS QUE SÃO PENSAM ADORAM PRECISAM DE EXTREMAMENTE percebendo o que os outros Liderar, organizar, relacionar-se, Amigos, jogos de grupo, reuniões sociais, eventos comunitários, Interpessoais pensam manipular, mediar, fazer festa clubes, mentores/aprendizados INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL: CRIANÇAS QUE SÃO PENSAM ADORAM PRECISAM DE EXTREMAMENTE em relação às suas necessidades, Estabelecer objetivos, meditar, sonhar, Lugares secretos, tempo sozinhas, projetos e escolhas no seu ritmo Intrapessoais sentimentos e objetivos planejar, refletir pessoal INTELIGÊNCIA NATURALÍSTICA: capacidade de reconhecer e classificar os sistemas naturais, como a flora e fauna, assim como os sistemas criados pelo homem, reconhecendo padrões em um estímulo. Por exemplo, reconhecer problemas de mecânica em um carro pelo seu barulho, detectar um novo padrão em um experimento científico, o discernimento de um estilo artístico, a distinção de membros entre espécies etc. Alguns indivíduos com forte inteligência naturalista são fazendeiros, botânicos, caçadores, ecologista e paisagistas. CRIANÇAS QUE SÃO PENSAM ADORAM PRECISAM DE EXTREMAMENTE por meio da natureza e das formas Brincar com animais de estimação, Acesso à natureza, oportunidade para interagir com animais, Naturalistas naturais cuidar do jardim, investigar a natureza, instrumentos para investigar a natureza (como lupas e binóculos) criar animais, cuidar do planeta Terra Fonte: Armstrong (2001), p. 38
  • 57Superdotação na prática: identificação tipos de informação, de forma a não se correr o crianças e jovens; e de relações sociais, que valori-do aluno risco de excluir alunos que teriam o potencial para zam a diversidade em todas as atividades, espaços e Capítulo 4: Encorajando Potenciais se beneficiar do programa – por exemplo, alunos formas de convivência e trabalho. (p.9) A principal meta na identificação de alunos membros de grupos minoritários, alunos de baixa Um dos programas bem sucedidos no exteriorsuperdotados, conforme já discutido neste volume, renda, de outras culturas, com problemas de apren- que contempla esta possibilidade é o Modeloé a localização de potenciais que não estão sendo dizagem e as meninas. O processo de identifi- de Enriquecimento Escolar (The Schoolwidesuficientemente desenvolvidos ou desafiados pelo cação pressupõe também uma avaliação periódica, Enrichment Model – SEM), resultante do trabalhoensino regular. Hany (1993) ressalta que os indica- a fim de se verificar se os critérios para admissão pioneiro do Dr. Joseph Renzulli, em meados dadores e instrumentos de medidas usados para a ao programa foram adequados para se atingir os década de 70, validado por mais de vinte anosidentificação devem refletir o conceito de superdo- objetivos planejados. de pesquisas empíricas (Renzulli & Reis, 2000).tação adotado, os tipos de talentos ou habilidades a Um ponto importante a considerar é que Renzulli acredita que é tarefa da escola estimularserem identificados, e ainda os conteúdos e objetivos a identificação deve ser vista como um processo o desenvolvimento do talento criador e da inteli-propostos pelo programa. contínuo, permitindo o ingresso da criança ao gência em todos os seus alunos, e não só naqueles Uma vez que os objetivos do programa estejam programa à medida que suas habilidades emergem que possuem um alto QI ou que tiram as melhoresdefinidos, passa-se à cuidadosa seleção e identifi- e se desenvolvem; e deve preferencialmente apontar notas; desenvolver comportamentos superdotadoscação dos alunos que comporão o “Pool de Talentos” os pontos fortes, aptidões e talentos de cada uma, em todos aqueles que têm potencial; e desenvolver(Renzulli & Reis, 1997a), ou seja, o grupo de alunos em detrimento de suas fraquezas e incapacidades, uma grande variedade de alternativas ou opções paraque poderão participar do programa proposto. Para como tradicionalmente se tem feito nas escolas. atender as necessidades de todos os estudantes.isso, é necessária uma cuidadosa seleção dos instru- No movimento atual de uma educação Assumindo que experiências de enriqueci-mentos de identificação, que devem estar de acordo inclusiva, torna-se essencial entendermos que mento escolar poderão acontecer tanto na sala decom os tipos de habilidades que serão atendidas. Por todo aluno tem direito a um ambiente educacional recursos quanto na sala de aula regular, este Modeloexemplo, se o programa utiliza a definição brasileira flexível e responsivo, adaptado ao seu nível e ritmo de considera que, potencialmente, todos os alunos dode 1994, e pretende atender a todas as áreas citadas, aprendizagem, que permita certo nível de escolha de Pool de Talentos são considerados membros dodeverá então oferecer instrumentos adequados para tópicos do seu interesse e que promova a excelência programa, mesmo nos momentos em que não estãoa identificação do talento em artes visuais, cênicas, no estudo. Neste sentido, esforços devem ser feitos tendo experiências de enriquecimento em nívelmúsica, esportes, criatividade e liderança, além do para permitir mudanças no currículo oferecido para mais avançado na sala de recursos (Renzulli, Reis &talento acadêmico. estes alunos ainda na escola regular. Dutra (2004) Smith, 1981)14. A identificação deve iniciar de forma que afirma que: Se um aluno selecionado para fazer parte doinclua tantos alunos quanto for possível, garan- As políticas dos sistemas de ensino devem Pool de Talentos exibe comportamentos de super-tindo o direito dos que se qualificam para o serviço prever a eliminação das barreiras à educação dos dotação (ou seja, habilidade superior em algumaespecial. É importante que a admissão ao programa alunos com necessidades educacionais especiais, área, envolvimento com a tarefa e criatividade) emseja supervisionada por um grupo multidisciplinar promovendo a participação a partir de novas rela-de especialistas, que possam discutir os casos indivi- ções entre os alunos, fundamentais para uma socia- 14 Uma descrição mais completa deste modelo foi descritadualmente à luz dos dados coletados sobre cada lização humanizadora; de novas relações pedagógi- em Virgolim, A. M. R. (1998, outubro). Uma proposta para o desenvolvimento da criatividade na escola, segundo o modeloaluno. Para isso, se torna essencial utilizar diferentes cas centradas nos modos de aprender das diferentes de Joseph Renzulli. Cadernos de Psicologia, 4, (1), 97-111.
  • 58 relação a uma área particular ou tópico de estudo, tarefas acadêmicas, identificando também seu estilo a seguir. Assim, quando incluímos outros aspectos ele poderá, por algum tempo, desenvolver este cognitivo pessoal de aprender e sua auto-percepção à avaliação de superdotados, como por exemplo, interesse ou tópico com maior profundidade sob como aprendiz. Com base nos dois estágios, deve- liderança, criatividade, competências psicomotoras a supervisão de um professor na sala de recursos. se delinear um programa específico para o aluno, e artísticas, as estatísticas sobre altas habilidades O aluno continua a freqüentar a sala de recursos onde suas áreas fortes serão reforçadas e as fracas aumentam significativamente, chegando a abarcar até que seu projeto seja completado; depois deste trabalhadas, com o auxílio dos pais e professores. uma porcentagem de 15 a 30% da população tempo ele pode ou não continuar no atendimento, Seja como for procedida a identificação dos (Renzulli, 2004b). Torna-se aqui crítico lembrar a dependendo basicamente de duas condições: (a) alunos com altas habilidades, é de especial impor- necessidade de se usar técnicas mais apuradas de de continuar demonstrando alto nível de envolvi- tância compreender que o fracasso em identificar identificação, instrumentos mais amplos e precisos mento e criatividade para continuar a desenvolver corretamente e atender as necessidades especiais de diagnóstico e bons programas de desenvolvi- pesquisas mais avançadas na área de interesse; (b) desta população pode colocar o aluno em risco de mento e estimulação do potencial destas crianças, da avaliação da equipe diagnóstica e dos profes- fracasso escolar e comprometer seriamente seu para que possamos estabelecer políticas de aprovei- sores envolvidos, que deve apontar para a conti- desenvolvimento sócio-emocional, impedindo-o tamento de talentos e competências em nosso país nuidade dos ganhos para o aluno de sua perma- de realizar plenamente o seu potencial (Neihart, (Virgolim, 1998). É o que se propõe ao utilizar nência na sala de recursos. No entanto, os autores Reis, Robinson & Moon, 2002). formas alternativas de identificação, ressaltadas nos do modelo deixam claro que este é um processo Há muitas estratégias para se identificar itens a seguir. flexível, que busca a dar acesso a mais alunos ao o aluno com altas habilidades/superdotação. A (1) Nomeação por professores programa, e que deve estar em consonância com as atitude mais recomendável entre os especialistas Professores encontram-se em uma posição necessidades percebidas pelos professores na sala é a inclusão de múltiplas formas de avaliação, mais confortável para recomendar aqueles alunos de aula regular. buscando dados sobre os talentos e capacidades de que demonstram outras características que não RECOMENDAÇÕES alunos tanto em testes formais quanto em proce- aquelas tradicionalmente acessadas por testes de Yewchuk e Lupart (1993) recomendam dimentos informais e de observação. inteligência – por exemplo, criatividade, liderança, que a identificação dos alunos para o atendi- Até recentemente, os testes de inteligência aptidão para esportes, para artes cênicas, visuais mento especializado seja feita em dois estágios. exerceram grande influência na cultura ocidental e música. Segundo Davis e Rimm (1994), essa No primeiro estágio devem ser feitas entrevistas com relação à inteligência e superdotação. Embora nomeação pode ser uma indicação informal dos e testes para identificar o grau de inteligência, tenham sido, durante da evolução da história alunos que o professor acha que poderia se beneficiar criatividade, nível de desempenho acadêmico e contemporânea, alvo de várias críticas importantes, do programa; ou pode ser formal, constante de autoconceito do aluno, e entrevistados o professor sua importância não pode ser desconsiderada. Um escalas, questionários e listas de características. e os pais a respeito das características e áreas de destes aspectos a ser ressaltado é o estabeleci- Uma dessas escalas, que fornece uma fonte interesse do aluno. Em um segundo estágio, o mento de métodos científicos para o estudo das sistemática de informação sobre o estudante15 aluno é convidado para uma entrevista de longa diferenças intelectuais, notadamente no estudo das é a Escala para Avaliação das Características duração, durante a qual ele realiza algumas ativi- habilidades superiores. Comportamentais dos Alunos com Habilidades dades acadêmicas e todo o material escolar signi- As modernas teorias da inteligência não 15 Neste sentido, indica-se também os Indicadores para ficativo é também examinado. Procura-se observar percebem que a habilidade superior possa ser medida Observação (Guenther, Z. C. (2000). Desenvolver capacidades ainda como ele organiza, desenvolve ou lida com apenas por testes psicométricos, como veremos logo e talentos: Um conceito de inclusão. Petrópolis, RJ: Vozes.
  • 59Superiores – SCRBSS, publicada originalmente da mesma forma, nem sempre a pessoa mais criativa comunicação não-verbal; e (g) são flexíveis epor Renzulli, Smith, White, Callahan e Hartman é a mais inteligente entre seus pares. Sabemos habilidosas na tomada de decisões. Estes autores Capítulo 4: Encorajando Potenciais(1976). O propósito desta escala é o de ajudar o também que as habilidades necessárias para se apresentam uma interessante lista de habilidadesprofessor em sala de aula a avaliar as caracterís- resolver problemas de forma lógica e analítica nem que contribuem para o potencial criativo, e queticas comportamentais de seus alunos nas áreas de sempre são as mesmas para se resolver problemas de podem ser reconhecidas na sala de aula. Algumascriatividade, liderança, motivação, aprendizagem, forma criativa, o que faz com que a criatividade seja delas estão reproduzidas no quadro a seguir:artes cênicas e plásticas, música, planejamento e tão desejável e importante de ser desenvolvida nocomunicação (expressão e precisão). Os itens dessa ambiente escolar quanto a inteligência. No entanto, Conforme lembra Treffinger (1986), o grandeescala permitem levantar informações sobre as áreas nota-se que, em sala de aula os professores tendem potencial dos testes de criatividade e das obser-fortes ou de destaque do estudante, possibilitando o a tratar diferencialmente os alunos inteligentes e vações sistemáticas sobre o comportamento criativodesenvolvimento de atividades mais adequadas para os criativos, muitas vezes colocando o grupo mais do estudante é o de se ter um amplo conhecimentoo estímulo do seu potencial (Renzulli, Hartman & criativo em desvantagem com relação ao grupo mais do perfil do aluno, de forma a guiar a aplicação deCallahan, 1971). inteligente, mesmo quando ambos tiram boas notas planos instrucionais mais adequados às suas carac- Feldhusen e Jarwan (2000) salientam que a (Starko, 1995). terísticas e necessidades individuais.precisão dos julgamentos de professores na identi- Embora seja curioso e imaginativo, com (3) Nomeação por paisficação de alunos superdotados pode ser aumentada inclinação para brincar com idéias e dar respostas Ninguém conhece melhor os filhos do queatravés de treinamento apropriado, incluindo bem humoradas e diferentes do usual, o estudante seus pais. Os pais estão em posição vantajosa paraesclarecimentos sobre o processo de identificação, criativo muitas vezes é percebido como o palhaço da oferecer uma visão ampla sobre o desenvolvimentodiscussão dos objetivos dos programas especiais e turma, crítico de si mesmo e dos colegas, sarcástico, peculiar dos filhos, incluindo interesses e habilidadesprocedimentos utilizados. bagunceiro, não-conformista, desrespeitoso para precocemente desenvolvidas. Davis e Rimm (1994) (2) Indicadores de criatividade com as figuras de autoridade e para com as tradições sugerem que os professores façam um formulário Os indicadores do pensamento criativo do (Clark, 1992). Muita atenção deve ser dada à simples para que os pais possam informar: (a) osaluno, assim como testes formais de criatividade identificação do aluno altamente criativo. Segundo interesses especiais e passatempos dos filhos; (b)podem ser úteis para ajudar o professor a identificar Butler-Por (1993), este aluno encontra-se em risco livros que a criança leu ou se interessou recen-tanto aqueles alunos cuja criatividade é aparente, de fracasso escolar, pois pode encontrar relutância temente; (c) realizações incomuns, tanto atuaisquanto aqueles cujos talentos únicos e originais em seu ambiente para aceitar seu pensamento diver- quanto de anos anteriores; (d) talentos especiais;podem não estar visíveis na sala de aula. Estudiosos gente e inconformismo, geralmente fonte de tensão (e) oportunidades especiais apresentadas à criança;do assunto, como Guilford (1950), que já nos meados e conflito com seus pais e professores. (f ) atividades preferidas quando está sozinha; (g)do século XX chamava a atenção para a importância Segundo Davis e Rimm (1994), as pessoas relacionamento com os outros; e (h) problemas ouda criatividade em realizações notáveis, destacam criativas: (a) usam o conhecimento existente necessidades especiais.que a criatividade é uma habilidade universal que como base para novas idéias; (b) evitam formas Cautela, no entanto, é aconselhável, no sentidoprecisa ser reconhecida e desenvolvida. Resultados rígidas de pensar; (c) constroem novas estruturas de que nem todos os pais acompanham adequada-de pesquisas atuais (Virgolim, 2005), apontam para ao invés de usar as estruturas existentes; (d) estão mente o desenvolvimento dos filhos, ou percebem oso fato de que nem sempre a pessoa mais inteligente alertas para a novidade e lacunas no conheci- aspectos peculiares da criança precoce ou talentosa.é aquela que apresenta as respostas mais originais; mento; (e) encontram ordem no caos; (f ) preferem Além disso, alguns pais superestimam as habilidades
  • 60 inventor (inventa, descobre, faz as coisas ficarem quais você tenha habilidades ou talentos especiais, melhores), juiz (ajuda a selecionar argumentos) ou e diga porque você acha que tem habilidades ou o que melhor entretém os outros (diverte, faz piadas, talentos especiais nestas áreas”. As áreas a serem canta). Uma variação é pedir á criança para imaginar indicadas podem ser disciplinas escolares específicas que um extraterrestre veio à Terra para visitar (português, matemática, ciências, história, geografia, sua sala de aula. Pergunta-se aos alunos: “Quem artes plásticas, teatro, música, línguas etc.), além provavelmente fará as perguntas mais incomuns de criatividade, liderança, esportes e habilidade e diferentes aos extraterrestres?” “Quem provavel- intelectual geral. mente se lembrará da maioria dos detalhes sobre a (6) Nomeações especiais visita dos extraterrestres?” O Pool de Talentos deve permitir também O terceiro tipo de abordagem tem o formato a entrada de alunos que tenham se destacado em de jogos. Nesta abordagem, o professor pode propor anos anteriores, mas que por problemas emocionais, o seguinte jogo: “Estou pensando em um aluno pessoais, ou motivacionais possam estar, no desta sala que tem uma ótima memória. Quem momento, desenvolvendo um padrão de baixo rendi- dos filhos, enquanto outros as subestimam. você acha que é?” “Estou pensando em um dos seus mento escolar. Esta forma de nomeação é interes- (4) Nomeação por colegas colegas que sempre aparece com idéias diferentes. sante, pois às vezes um professor consegue obter, A composição de um Pool de Talentos é Quem você acha que deve ser?” em algum momento da vida escolar do aluno, um também favorecida quando se utilizam indicações Para evitar que os alunos indiquem apenas alto desempenho em matérias escolares específicas; feitas pelos colegas. Os colegas conhecem bem uns seus amigos, instruções diretas podem ser dadas: no entanto, se tais oportunidades não se repetirem aos outros e são especialmente úteis na indicação “Escolha alguém que você acha que é melhor em anos posteriores, o aluno pode não vir a ter de talentos entre alunos culturalmente diferentes, opção, e não apenas aqueles que são seus amigos”. outra chance de demonstrar as suas habilidades ou que possuem alguma deficiência ou provenientes de Eles também devem saber que podem indicar interesses, perdendo uma valiosa oportunidade de grupos minoritários. Davis e Rimm (1994) sugerem a mesma pessoa tantas vezes quanto desejar, em trabalhar com mais profundidade suas áreas fortes. três tipos de abordagens que podem ser utilizadas diversas categorias, e que suas respostas serão Assim, é recomendável que a equipe responsável pelos professores em pequenos questionários: mantidas confidenciais. pela seleção de alunos busque informações sobre Pela abordagem direta, o professor faz (5) Auto-nomeação o aluno com seus professores de anos anteriores, pergunta diretas aos alunos sobre as habilidades No ambiente escolar pode acontecer de um sempre que isso for possível. dos colegas – por exemplo “Quem é o aluno mais aluno apresentar fortes características em uma área – (7) Avaliação de produtos esperto na classe?” “Quem tem a melhor memória?” artística, criativa, científica – e não ser indicado para Uma excelente forma de avaliar talentos “Quem tem as idéias mais criativas e diferentes?” fazer parte do programa para as altas habilidades. nas áreas artística, criativa e científica é simples- Na abordagem disfarçada, o professor pode O professor pode não ter notado seus talentos ou mente observando a qualidade da produção dos pedir aos alunos que se imaginem numa ilha isolada sua grande motivação em um determinado aspecto. alunos nestas áreas específicas. Professores especia- e indiquem quem entre eles, é o melhor organizador A auto-nomeação pode ser um instrumento útil lizados em cada área estão em posição privilegiada (líder, consegue que os outros façam as coisas), para facilitar essa indicação. Uma forma simples é para avaliar produções específicas como poesias, artista (faz coisas bonitas ou inventa boas histórias), a de pedir aos alunos que “indiquem a(s) área(s) nas projetos de ciências, eletrônica ou de computação,
  • 61 QUADRO 5: HABILIDADES CRIATIVAS Síntese: Habilidade de ver relações, e combinar que extensão este produto representa um manejo partes em um todo a ser trabalhado, talvez de for- aprofundado ou em nível superior do assunto? (b) Capítulo 4: Encorajando Potenciais ma criativama criativa. Em que extensão este produto tem um nível deFluência: Habilidade de produzir muitas idéias em Transformação: Inclui a habilidade de dar novoresposta a um problema, seja de forma verbal ou qualidade além do que se pode esperar de um aluno uso a algo, “ver” novos significados, implicações enão-verbal (por exemplo, matemática, musical, aplicações, ou mudar criativamente um objeto ou desta idade? (c) Em que extensão o produto indicaetc.) idéia. uma grande preocupação com detalhes? (d) EmFlexibilidade: Habilidade de abordar um problema Extensão dos limites: Habilidade de ir além do que que extensão a idéia central/concepção do produtosob diferentes abordagens, pensar as idéias sob di- é usual, de ver os objetos de novas maneiras. está além do que um aluno desta idade geralmenteferentes categorias, ou ver uma situação sob dife-rentes perspectivas. Intuição: Habilidade de ter percepções “intuiti- propõe? (e) Em que extensão é um produto de vas”, ou ver relações com base em pouca ou insu- excelência? (f ) Liste alguns dos critérios que vocêOriginalidade: Raridade estatística de uma respos- ficiente informação; habilidade de “ler nas entre-ta, unicidade, não-conformidade em pensamento e utilizou para avaliar a excelência deste produto. linhas”.ação. (8) Escalas de características e listas de Predizer resultados: Habilidade de antecipar os re- observaçãoElaboração: Importante habilidade de adicionar sultados de diferentes alternativas ou soluções.detalhes a uma idéia, o que inclui o desenvolvimen- As escalas e listas de características sãoto, o embelezamento e a implementação de uma Resistência ao fechamento prematuro: Outra im- amplamente utilizadas em conjunção com asidéia. portante habilidade, percebida como adiamento do julgamento e não pular na primeira idéia que indicações de professores, colegas, pais, do próprioDefinição do problema: Importante capacidade aparece. aluno e avaliação do produto. Já comentamosque inclui as habilidades de: (a) identificar o “ver-dadeiro” problema; (b) isolar os importantes as- Concentração: Habilidade de focalizar um proble- sobre a Escala de Características proposta porpectos de um problema; (c) clarificar e simplificar ma, e não se deixar levar por distrações. Renzulli e colaboradores na sessão sobre nomeaçõesum problema; (d) identificar sub-problemas; (e) Pensamento lógico: Habilidade de separar o rele- dos professores.propor definições alternativas ao problema; e (f) vante do irrelevante, de deduzir e chegar a conclu- Guenther (2006) propõe uma lista de indica-definir amplamente o problema. sões razoáveis. dores para auxiliar o professor na identificação dosVisualização: Habilidade de fantasiar e imaginar,ver o mundo com “os olhos da mente” e manipular passatempos diferentes, talento para o teatro, alunos com maior capacidade e talento em quatroimagens e idéias mentalmente. fotografia, e assim por diante. Os produtos devem domínios: inteligência, criatividade, capacidadePensamento analógico: Habilidade de pegar em- refletir alta criatividade, habilidades de pensamento socio-afetiva e habilidades sensório-motoras. Noprestadas idéias de um contexto e usá-las em outro científico ou criador, habilidades na escrita, talento domínio da inteligência a autora propõe duas viascontexto. Ou a habilidade de pegar emprestada a para análise e síntese ou outros aspectos que podem de expressão: vivacidade mental e pensamento linearsolução para um problema e transferi-la para ou- se aplicar ao produto em questão. (engloba produção superior em linguagem, comuni-tro problema. O Departamento de Educação do Estado cação e expressão; curiosidade e interesses amplos eAvaliação: Importante habilidade de separar con- de Michigan (descrito em Davis e Rimm, 1994, variados, perspicácia, senso de humor, entre outros);siderações relevantes das irrelevantes; de pensarcriticamente; de avaliar a adequação de uma idéia, p. 97) utiliza uma escala de 5-pontos, variando de e profundidade e pensamento não linear abstratoproduto ou solução de problema. “em uma grande extensão” para “em uma extensão (engloba produção superior em matemática eAnálise: Habilidade de analisar detalhes, e anali- limitada” para avaliar, de forma um pouco mais ciências, memória, pensamento analítico, entresar o todo a partir das suas partes. formal, um produto específico do aluno. A Escala outros). A folha de observação contém 25 itens propõe as seguintes questões ao professor: (a) Em onde se pede que o professor indique, por exemplo:
  • 62 os melhores da turma nas áreas de matemática e frente ao tópico de interesse, ressaltando as atividades Serviços especiais ciências; os melhores nas áreas de arte e educação em que tenha demonstrado criatividade,alta motivação artística; os melhores em atividade extra-classe e ou envolvimento com a tarefa realizada na sala de COMPACTAÇÃO DO CURRÍCULO extracurriculares; os mais verbais e conversadores; aula (Renzulli & Reis, 1997a). O professor anota Vários serviços poderão ser oferecidos aos os mais curiosos; os mais participantes; os mais também idéias e sugestões para futuras intervenções alunos identificados para o Pool de Talentos ainda críticos; os mais criativos; os mais preocupados com na área que poderiam ajudar o aluno a desenvolver e dentro do ensino regular. Dentre os mais indicados o bem-estar dos outros; os mais desinteressados e aprofundar seu interesse específico, e as compartilha está a compactação do currículo, que permite aos alunos entediados, sem serem atrasados; com o melhor com o coordenador da área de superdotação da sua com habilidades intelectuais superiores prosseguir desempenho em esportes e exercícios físicos etc. escola. Este, por sua vez, utiliza o instrumento e as de forma mais rápida com o conteúdo que já foi (9) Nomeações pela motivação do aluno informações obtidas com o professor como uma fonte dominado, eliminando a rotina de passar por exercícios Se o processo de formação do Pool de Talentos suplementar de dados sobre o aluno, e os analisa à luz repetitivos desnecessariamente. O recurso da compac- for dinâmico, a nomeação de alunos pode ocorrer dos seus interesses e áreas fortes, incluindo-o como tação do currículo torna mais desafiador o ambiente a qualquer momento do ano escolar. Sendo assim, possível candidato ao Pool de Talentos. de aprendizagem, dando ao aluno oportunidade de o professor pode também designar para o atendi- Alunos motivados geralmente demonstram aproveitar melhor seu tempo para o desenvolvimento mento algum aluno que tenha demonstrado um interesse através de uma série de comportamentos, de atividades de enriquecimento e abrindo espaço interesse incomum por alguma matéria, disciplina ou tais como: faz grande número de perguntas; se para a aceleração escolar (Reis, Burns & Renzulli, tópico que esteja sendo estudado naquele momento. engaja em profundas discussões sobre um deter- 1992; Starko, 1986)16. Renzulli e Reis criaram um instrumento informal, em minado tópico; busca adultos com conhecimento na Dois procedimentos são essenciais para formato de uma lâmpada, cunhado de “Mensagem de área para satisfazer seus interesses ou curiosidade; a compactação do currículo: (1) um cuidadoso Informação da Ação” (Action Information Message), dedica grande parte do tempo livre no estudo ou diagnóstico da situação; e (2) completo conhe- onde o professor anota as ações e atitudes do aluno no desempenho de atividades relacionadas a este cimento do conteúdo e dos objetivos da unidade interesse, por sua própria vontade, e às vezes até de instrução. O professor deve identificar a área compulsivamente; busca atividades extracurri- do currículo que o aluno já dominou e suas áreas culares relacionadas à área, nas quais demonstra fortes, geralmente observadas quando o aluno mais interesse do que em suas atividades escolares termina rapidamente uma tarefa com pouco ou com regulares; demonstra alto interesse em explorar e nenhum erro, e quando demonstra insatisfação, criar dentro de um determinado tópico (Davis, 1997; tédio ou desânimo com o ensino, desperdiçando Renzulli & Reis, 1997a). Assim, o professor atento o seu tempo em sala de aula para sonhar acordado aos interesses dos alunos pode detectar mais pronta- ou fazer bagunça. Em seguida, o professor deve mente o maior envolvimento do estudante com uma aplicar atividades ou pré-testes para assegurar se o determinada tarefa, o que pode ser o aspecto que vai aluno tem completo domínio do tema ou conteúdo, levá-lo a desenvolver sua criatividade e habilidades e se atende aos objetivos daquela unidade. Na específicas na área de interesse. maioria dos casos, as provas e avaliações utili- zadas ao término do bimestre ou semestre servem como pré-teste. Uma vez documentada a área em
  • 63que o aluno já domina, o professor indica as ativi- questionamentos em várias áreas, como as artís-dades que podem ser eliminadas do currículo ou ticas e atléticas. Um aluno com alta competência Capítulo 4: Encorajando Potenciaisaceleradas para se adaptar ao ritmo próprio do no piano ou na dança pode ser colocado emaluno. E, por fim, o professor explora as diversas classes onde múltiplas habilidades são percebidasformas de aceleração ou enriquecimento que ele e estimuladas; no entanto, tradicionalmente istopoderia providenciar ainda na sala de aula regular. não acontece com relação à sala de aula regular.Por exemplo, se várias unidades curriculares de Essa atitude se iguala a forçar todas as criançasmatemática foram compactadas, o professor deve a usar o mesmo número de sapato, partindo dadecidir se o aluno pode ser acelerado para outra concepção de que o tamanho único é ideal parasérie ou se poderá ser beneficiado por um aprofun- todos. Precisamos reconhecer que as pessoas variamdamento do conteúdo na matéria, ou mesmo se deve enormemente em seu desenvolvimento físico,dedicar o tempo extra a outra disciplina ou tópico intelectual e emocional. Argumenta VanTassel-de interesse. A filosofia do programa, os recursos Baska (1998) que, se a educação quer ser efetiva,viabilizados, e considerações práticas, tais como os educadores devem responder a estas diferençasrestrições da escola à aceleração, e a maturidade com um currículo mais flexível. A aceleração pode Aprendiz Autônomo, de Betts (1986; 1991).do aluno para assumir tarefas específicas de outra incluir a entrada precoce na escola, quando capaci- (1) Modelo de Enriquecimento Escolarsérie devem subsidiar tais decisões. dades superiores ou avançadas podem ser perce- O Modelo de Enriquecimento Escolar É importante notar que os alunos devem bidas cedo no desenvolvimento infantil, como (Renzulli & Reis, 1997ª; 2000) é provavelmenteparticipar destas decisões e entender que, ao dar por exemplo, a leitura precoce ou a habilidade o mais amplo e extensivo modelo apresentadoo melhor de si em uma disciplina, poderá ter de lidar com números em nível adiantado para a na literatura atual, abarcando a identificação,mais tempo para trabalhar em outro tópico do idade. Pode incluir também pular séries quando a administração, o treinamento de pessoal eseu interesse. Neste sentido, alunos que tradi- o aluno está adiantado em todas as matérias os serviços oferecidos ao aluno. Para estimularcionalmente demonstram desinteresse com o escolares e não terá dificuldades em acompanhar os alunos a desenvolverem habilidades que osensino, tiram notas ruins ou deixam de assistir as séries mais avançadas. Desta forma, há possibi- permitam ser produtores de conhecimento, maisaulas, passam a ter maior interesse em dominar o lidade de entrada precoce na universidade, o que do que simplesmente consumidores, três tipos deconteúdo e a demonstrar o que sabem. também possibilita a entrada mais cedo do aluno enriquecimento foram planejados para os contextos ACELERAÇÃO no mercado de trabalho. tanto do ensino regular quanto do especializado, A aceleração é um dos serviços que a escola ENRIQUECIMENTO denominados Tipo I, II e III. É decisão da escolapode oferecer para alunos academicamente adian- O enriquecimento é a opção mais encorajada optar ou não pela sua implementação no ensinotados, permitindo-os avançar e cumprir em menor entre os serviços educacionais oferecidos pelos regular.tempo as séries escolares. Acelerar implica em programas especializados em vários países, inclusive Enriquecimento do Tipo I - Este tipo dedecidir que a competência, e não a idade, será o no Brasil. Vários modelos são apresentados na Enriquecimento se inicia na sala de aula regular ecritério determinante para que o indivíduo obtenha literatura mundial sobre o tema. Destacamos aqui implica em atividades destinadas a todos os alunosacesso a um currículo e experiências acadêmicas o Modelo de Enriquecimento Escolar proposto da escola. Esta abordagem tem três importantesmais adiantadas. Este critério é utilizado sem por Renzulli e Reis (1997a; 2000) e o Modelo do objetivos: (1) Dar oportunidade a todos os alunos
  • 64 etc. algumas das vantagens desta abordagem são: guias, programas de computador, Internet, etc.; (a) Permitir que os alunos se engajem em níveis e (5) desenvolver habilidades de comunicação mais avançados de interesse em tópicos ou áreas escrita, oral e visual, a fim de que a produção do de estudo que podem ser usados para atividades aluno tenha maior impacto sobre determinadas que envolvam maior criatividade, investigação audiências. O estudante é encorajado a, primeiro, e pesquisa; (b) Permitir a participação de pais, dominar as ferramentas de que vai precisar para professores, professores-itinerantes, diretores desenvolver atividades de Enriquecimento do e mesmo outros alunos de outras salas ou séries Tipo III, dependendo do tipo de projeto do seu nestas atividades; (c) Diminuir a noção de elitismo interesse; e segundo, a utilizar seus conhecimentos que se agrega aos programas especiais para alunos para desenvolver com aproveitamento e produti- com altas habilidades por meio da aplicação de vidade as atividades de seu real interesse. Assim, o certas atividades para todos os alunos, e não só estudante que se interessou por plantas, após uma para aqueles identificados como superdotados; (c) atividade de Tipo I, pode se engajar em leituras Possibilita-se a maior integração entre o programa mais avançadas ou aprofundadas sobre Botânica; de participar de alguma experiência de enrique- regular e o programa de enriquecimento, com a compilar, planejar e executar atividades como cimento curricular que seja de seu real interesse, participação de toda a Equipe de Enriquecimento; um cientista desta área; e aprender mais sobre os expondo os alunos a uma ampla variedade de e como resultado, a escola se torna potencialmente métodos de pesquisa característicos deste campo procedimentos, tais como palestrantes convidados, um lugar inclusivo e mais estimulante e para do conhecimento. Este processo é resultante dos excursões, demonstrações, desenvolvimento de todos. interesses específicos do aluno com o tópico a centros de interesse e uso de diferentes e variados O Enriquecimento Escolar do Tipo II, ser pesquisado e, portanto, deve ser ensinado em materiais audiovisuais; (2) enriquecer a vida dos que também pode ser aplicado nos contextos conexão com a atividade de Tipo III escolhida. alunos através de experiências que usualmente de sala de aula regular e de recursos, consiste de As atividades de Enriquecimento do Tipo não fazem parte do currículo da escola regular; e técnicas, materiais instrucionais e métodos desig- III são planejadas para o aluno que demonstra um (3) estimular novos interesses que possam levar nados a três grandes áreas, têm como objetivo: grande interesse em estudar com maior profun- o aluno a aprofundá-los em atividades criativas e (1) desenvolver nos alunos as habilidades gerais didade uma área do conhecimento; que esteja produtivas posteriores (Tipo III). É importante de pensamento crítico, resolução de problemas e pronto para dedicar grande parte do seu tempo que o aluno tome conhecimento do modo como pensamento criativo; (2) desenvolver os processos para a aquisição de um conteúdo mais avançado; determinadas áreas são desenvolvidas, exploradas afetivos, sociais e morais, tais como sentir, apreciar, e que queira participar de um processo de treina- ou pesquisadas na vida real, o grau de envolvi- valorizar, respeitar; (3) desenvolver uma grande mento mais complexo, no qual assume o papel mento que se demanda do profissional no campo, variedade de aprendizagens específicas de “como de aprendiz em primeira-mão. Entre as metas as questões, problemas e particularidades da área fazer”, tais como tomar notas, entrevistar, classificar das atividades de Enriquecimento de Tipo III, e analisar dados, tirar conclusões etc., necessárias destacam-se a oportunidade para que o aluno 16 Sobre programas de atendimento ao superdotado e métodos ao processo científico; (4) desenvolver habilidades possa: (a) aplicar seus interesses, conhecimentos, utilizados, recomenda-se o capítulo 5 do livro: “Alencar, E. M. L. avançadas para a aprendizagem de materiais de idéias criativas e motivação em um problema ou S., & Fleith, D. S. (2001). Superdotados: Determinantes, educação e ajustamento. 2ª. Edição revista e ampliada. São Paulo: EPU. referência, tais como resumos, catálogos, registros, área de estudo de sua escolha; (b) adquirir um
  • 65conhecimento avançado a respeito do conteúdo de que, à medida que tais necessidades são satis- criatividade, habilidades de organização, de escrita,e metodologia próprios a uma disciplina, área de feitas, os alunos se desenvolverão como aprendizes de tomada de decisões, de pesquisas, de estudo e Capítulo 4: Encorajando Potenciaisexpressão artística ou estudos interdisciplinares autônomos, com a capacidade de serem responsáveis comportamento direcionado a metas, entre outrasem particular; (c) desenvolver produtos autênticos, pelo desenvolvimento, implementação e avaliação habilidades de aprendizagem importantes); (b)com o objetivo de produzir determinado impacto da própria aprendizagem. Há cinco dimensões entendimento pessoal (por exemplo, atividades deem uma audiência pré-selecionada; (d) desen- principais: orientação, desenvolvimento individual, aceitação de sim mesmo, autoconceito positivo,volver habilidades de planejamento, organização, atividades de enriquecimento, seminários e estudos responsabilidade pessoal e psicologia da perso-utilização de recursos, gerenciamento de tempo, em profundidade. nalidade saudável, entre outros); (c) habilidadestomada de decisões e auto-avaliação; e (e) desen- A dimensão de Orientação é a parte do interpessoais (comunicação com o outro, entre-volver motivação/ envolvimento com a tarefa, programa que focaliza as informações básicas vistas, processos de grupo); (d) envolvimento comautoconfiança e sentimentos de realização criativa, que os alunos, professores, pais e administra- as profissões e carreiras que gostariam de seguir.e habilidade de interagir efetivamente com outros dores precisam saber a respeito das altas habili- A Dimensão de Atividades dealunos, professores e pessoas com níveis avançados dades. Assim, a ênfase é colocada na concepção Enriquecimento inicia-se com o entendimentode interesse e conhecimento em uma área comum de superdotação, criatividade e desenvolvimento do aluno sobre as diversas áreas do conhecimento,de envolvimento. do potencial. Por meio de atividades de grupo ajudando-o a selecionar as áreas que domina ou É importante ressaltar que a ênfase dada às e dinâmicas, os alunos aprendem a respeito da tem maior motivação (ou paixão) e estudá-lasexperiências de tipo III muda da aprendizagem superdotação enquanto conceito e deles próprios, com maior envolvimento. Atividades de explo-sobre determinado tópico para a aprendizagem suas habilidades, interesses e áreas fortes; e sobre ração ajudam o aluno a selecionar um tópico, ado como se obtém, categoriza, analisa e avalia a o que o programa tem a oferecer, suas oportuni- explorá-lo em profundidade e a apresentar suasinformação em determinados campos; e envolve dades e responsabilidades. Os professores passam descobertas aos colegas. O aluno é encorajado ao uso de métodos autênticos de pesquisa em um por treinamento específico com relação à super- propor um tópico de investigação, a descrever seusdeterminado campo de estudo. Desta forma, o dotação, e orientações são dadas a pais, adminis-estudante pode ultrapassar o tradicional papel de tradores e pessoas da comunidade envolvidas noreprodutor do conhecimento para assumir o papel programa.de investigador em primeira-mão, absorvendo A segunda dimensão do Modelo dopaulatinamente o papel de agentes de mudança, Aprendiz Autônomo é a do Desenvolvimentocom impacto no mundo que os rodeia. Individual, que fornece oportunidades ao aluno (2) O Modelo do Aprendiz Autônomo de desenvolver habilidades, conceitos e atitudes O Modelo do Aprendiz Autônomo, desen- necessárias para sair do papel passivo de estudantevolvido por George Betts, diretor do Centro para um, mais ativo, de aprendiz. Estas ativi-de Educação e Estudos sobre o Superdotado dades estão relacionadas às necessidades cogni-da Universidade do Nordeste do Colorado, foi tivas, afetivas e emocionais do indivíduo e sãoconcebido para satisfazer as necessidades cognitivas, dirigidas pelo seu processo de desenvolvimento,sociais e emocionais do aluno superdotado (Betts, envolvendo: (a) habilidades de aprendizagem (que1986, 1991). O modelo parte do entendimento envolvem habilidades de resolução de problemas,
  • 66 consenso e mostram uma natureza controvertida), de serviços educacionais diferenciados que possam Problemático (problemas que os alunos enfrentam promover seu desenvolvimento acadêmico, em sua própria comunidade até problemas artístico, psicomotor e social, o que inclui métodos mundiais), Interesse Geral (não precisando se de ensino adaptados às suas necessidades especiais. encaixar necessariamente em uma categoria) e No contexto brasileiro atual, torna-se necessário Conhecimento Avançado (investigação na área que o país abra suas portas às modernas evidências que talvez seja de interesse apenas de um pequeno de pesquisa sobre o indivíduo portador de altas grupo de alunos). habilidades, e que considere seu potencial como E finalmente, a última dimensão do promotor do desenvolvimento tecnológico, cultural Modelo do Aprendiz Autônomo, Estudo em e educacional da nossa nação. Não podemos desper- Profundidade, permite que o aluno defina uma diçar nossas inteligências; há por toda parte um “área de paixão” a ser estudada em profundidade. rico manancial de jovens esperando por melhores Os aprendizes são responsáveis em definir o que oportunidades e desafios às suas capacidades. O querem estudar, desenvolver um plano de ação, Brasil iniciou várias mudanças, em nível do governo participar efetivamente do estudo e avaliá-lo ao e de sociedade, voltadas para uma ampla abertura objetivos, as atividades específicas para atingir tais ser completado. Ao atingir esta fase, o aluno está na política educacional para a área de superdotação. objetivos, o tempo necessário para sua consecução, pronto para aprender, desenvolver novas idéias e Na área acadêmica, pesquisas têm demonstrado recursos materiais e humanos necessários, tipo de projetos com o mínimo de instrução e orientação. a necessidade de se dar mais atenção a uma área audiência mais apropriado ao seu tema e avaliação. Também poderá desenvolver meios de avaliar seu que ainda se mostra tabu em nossa cultura. Vencer Atividades culturais também são incentivadas, próprio projeto, compartilhando seus critérios com medos e preconceitos é o desafio que nos espera. como visitas a museus, peças, concertos, debates, os professores e mentores. Terá assim atingido, em exposições e viagens de aventuras. E finalmente, vários anos de um trabalho seqüencial e ordenado, nesta dimensão, atividades são também planejadas o seu papel de aprendiz autônomo, altamente para ajudar o aluno a entender o humanitarismo motivado e auto-direcionado a seus próprios e a desenvolver projetos em que possam ajudar objetivos. Em perfeita sintonia com o Modelo de outras pessoas ou grupos em suas comunidades. Enriquecimento Escolar de Renzulli, o Modelo A quarta dimensão do Modelo, Seminários, do Aprendiz Autônomo de Betts oferece oportu- é o momento em que o aluno começa a mostrar nidades e direcionamento para o indivíduo desen- suas características enquanto aprendiz indepen- volver todas as suas potencialidades e inclinações, dente e autônomo. Um Seminário é um projeto colaborando de forma produtiva e independente de curta duração a ser desenvolvido em pequenos para um mundo melhor. grupos, e compreende a preparação de um tópico, selecionado entre as categorias de Futurístico Uma palavrinha final (tópicos e técnicas necessários para o mundo futuro), Controverso (tópicos que não são Os alunos com altas habilidades necessitam
  • 67Referências para o atendimento educacional aos alunos portadores de Feldhusen, J. F. (1985). Toward excellence in gifted altas habilidades/superdotação e talentos. Brasília: MEC/ education. Denver: Love Publishing. Capítulo 4: Encorajando Potenciais Alencar, E. M. L. S. (1995). Criatividade (2ª ed.). SEESP Feldhusen, J. F. (1985). Toward excellence in giftedBrasília: Editora Universidade de Brasília. Brasil (2001). Resolução n.º 02/2001, instrui as education. Denver: Love Publishing. Alencar, E. M. L. S. (2001). Criatividade e Diretrizes Nacionais da Educação Especial para a Educação Feldhusen, J. F. (1992). Talented Identificationeducação de superdotados. Petrópolis, RJ: Vozes. Básica. Brasília: Conselho Nacional de Educação/ and Development in Education (TIDE). Sarasota, FL: Alencar, E. M. L. S., & Fleith, D. S. (2001). Câmara de Educação Básica. Center for Creative Learning.Superdotados: Determinantes, educação e ajustamento (2ª. Butler-Por, N. (1993). Underachieving gifted Feldhusen, J. F., & Jarwan, F. A. (2000).Edição revista e ampliada). São Paulo: EPU. students. Em K. A. Heller, F. J. Mönks, & A. H. Passow Identification of gifted and talented youth for educa- Alencar, E. M. L. S., & Virgolim, A. M. R. (Orgs.), International handbook of research and develo- tional programs. Em K. A. Heller, F. J. Mönks, R.J.(2001). Dificuldades emocionais e sociais do super- pment of giftedness and talent (pp. 649-668). Oxford: Sternberg, & R. F. Subotnik (Orgs.), Internationaldotado. Em E.M.L.S. Alencar (Org.). Criatividade e Pergamon Press. handbook of giftedness and talent (2nd ed., pp. 271-282).educação dos superdotados (pp.174-205). Petrópolis, RJ: Civita, V. (1977). Mestres da pintura: Leonardo da Oxford: Elsevier Science.Vozes. Vinci. São Paulo: Abril Cultural. Feldman, D. H. (1991). Nature’s gambit: Child Armstrong, T. (2001). Inteligências múltiplas na Clark, B. (1992). Growing up gifted: Developing prodigies and the development of human potential. Newsala de aula. (M. A. V. Veronese, Trad.). Porto Alegre: the potential of children at home and at school. New York: York: Teachers College Press.ARTMED. Macmillan Publishing Company. Fleith, D. S., & Virgolim, A. M. R. (1999). Baum, S., Owen, S. V., & Dixon, J. (1991). Davis, G. A. (1997). Identifying creative students Brazilian school: Psychologists’ training course in giftedTo be gifted & learning disabled: From identification to and measuring creativity. Em N. Colangelo, & G. A. education. Gifted Education International, 13, 258-264.practical intervention strategies. Mansfield, CT: Creative Davis (Orgs.), Handbook of gifted education (2nd ed., pp. Freeman, J., & Guenther, Z. C. (2000).Learning Press. 269-281,). Needham Heights, MA: Allyn and Bacon. Educando os mais capazes: Idéias e ações comprovadas. São Betts, G. T. (1986). The autonomous learner Davis, G. A., & Rimm, S. B. (1994). Education Paulo: EPU.model for the gifted and talented. Em J. S. Renzulli of the gifted and talented (3rd edition). Needham Heights, Galbraith, J., & Delisle, J. (1996). The gifted kid’s(Org.), Systems and models for developing programs for the MA: Allyn and Bacon. survival guide: A teen handbook. Minneapolis, MN: Freegifted and talented (pp. 27-56). Mansfield Center, CT: Diamond, M. C., & Hopson, J. (2000). Árvores Spirit Publishing.Creative Learning Press maravilhosas da mente: Como cuidar da inteligência, da Galbraith, J., & Delisle, J. (2002). When gifted Betts, G. T. (1991). The autonomous learner criatividade e das emoções de seu filho do nascimento até a kids don’t have all the answers: How to meet their socialmodel for the gifted and talented. Em N. Colangelo, adolescência. Rio de Janeiro: Campus. and emotional needs. Minneapolis, MN: Free Spirit& G. A. Davis (Orgs.), Handbook of gifted education (pp. Dutra, C. P. (2004). Educação Inclusiva: Tempo Publishing.142-153). Boston: Allyn , & Bacon. de transformação: Apresentação. Em M. O. Gotti Gallagher, J. J., & Gallagher, S. A. (1994). Bloom, B.S. (1985). Developing talent in young (Org.), Direito à Educação: Subsídios para a gestão dos Teaching the gifted child (4th ed.). Needham Heights,people. New York: Ballantine. sistemas educacionais: Orientações gerais e marcos legais. MA: Allyn & Bacon. Brasil (1995). Ministério da Educação e do Brasília: MEC, SEESP. Gardner, H. (1994). Inteligências Múltiplas: ADesporto. Secretaria de Educação Fundamental. Ehrlich, V. Z. (1989). Gifted children: A guide for teoria na prática (M. A.V.Veronese, Trad.). Porto Alegre:Secretaria de Educação Especial. Diretrizes gerais parents and teachers (3rd ed.). Monroe, NY: Trillium Press. Artes Médicas.
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  • SOBRE A AUTORA Angela Mágda Rodrigues Virgolimé psicóloga, mestre em Psicologia e Ph.D.em Psicologia Educacional pela Universityof Connecticut. Foi presidente do ConselhoBrasileiro para Superdotação – ConBraSD (biênio2005/2006) e é professora adjunta do Instituto dePsicologia da Universidade de Brasília.
  • Ministério da Educação Secretaria de Educação EspecialEsplanada dos Ministérios - Bloco “L” 6º andar CEP: 70.047-900seesp@mec.gov.br - naahs.seesp@mec.gov.br - www.mec.gov.br