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Interação na sala de aula

  1. 1. ENTREVISTAJUDITH GREENInteração na sala de aulae formação de professores J udith L. Green, ao longo das últimas três décadas, atuou nos diversos níveis de ensino, da escola elementar ao ensino superior. Desde 1990 é professora e pes- quisadora da Escola de Pós-Graduação em Educação da Universidade da Califórnia (EUA), onde é uma das coordenadoras do grupo de pesquisa Santa Barbara Classroom Discourse Group. Doutorou-se pela Universidade da Califórnia, onde desenvolveu estudos sobre as relações entre ensino, aprendizagem, cultura e linguagem. Juntamente com seus colegas, tem publicado artigos sobre pesquisa etnográfica em livros organizados pelo National Council of Teachers of English, pela American Educational Research Association, e pela International Reading Association. Estudos etnográficos são estudos desenvolvidos por pesquisadores que procuram entender o modo de vida de grupos, através da observação do cotidiano, da lin- guagem e de outras práticas sociais. As pesquisas mais recentes de Judith Green privile- giam o exame de como as práticas de sala de aula possibilitam o acesso dos estudantes às diferentes disciplinas. Como crianças ganham acesso ao conhecimento escolar? O que é considerado letra- mento e aprendizagem na instituição escolar? Como o conhecimento é socialmente cons- truído? Que oportunidades de aprendizagem são construídas em salas de aula, e quem tem acesso a essas oportunidades? Judith Green vem explorando questões desse tipo como Entrevista concedida a membro do Santa Barbara Classroom Discourse Group, comunidade de pesquisa com- Ceris Ribas, Sara Mourão Monteiro e Maria Lucia posta por professores etnógrafos, estudantes etnógrafos e outros etnógrafos da Universidade. Castanheira. Transcrição e tradução: O engajamento dessa pesquisadora e de seus colegas no estudo de questões referen- Maria Lucia Castanheira. Apresentação: Ceris tes a aprendizagem, ensino, cultura e linguagem é orientado por teorias sobre a cons- Ribas, Sara Mourão Mon- teiro e Maria Lucia Cas- trução social do conhecimento e busca evidenciar como professores produzem teorias tanheira com seus alunos e como essas teorias conduzem suas práticas. O objetivo do grupo é identificar princípios orientadores das práticas que visam possibilitar igualdade de acesso para todos os alunos. v.9 n.53 • set./out. 2003 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 5
  2. 2. ENTREVISTA PP.: Qual o papel da universidade junto professores, sendo apresentada como uma ao California Writing Project (Projeto etnógrafa que desenvolvia estudos sobre de Produção Escrita da Califórnia)? interações em salas de aula. Sheridan Blau, Judith Green: O California Writing Carol Dixon e eu iniciamos nossa con- Project constitui uma rede de formação versa com professores vinculados a esse de professores. Esse projeto iniciou-se grupo de formação porque estávamos inte- em Berkeley, em 1974, e faz parte de um ressados em compreender o que aconte- programa nacional de formação de pro- cia em suas salas de aula. Havia um inte- fessores, com 167 regionais em todos os resse daquela comunidade em saber como estados do país. os processos de ensino apresentados, ana- O papel da universidade nesse proces- lisados e discutidos durante o curso eram so de formação de professores é manter desenvolvidos em salas de aula. Sheridan, a direção dos trabalhos e oferecer supor- em suas pesquisas, havia constatado que te organizacional e acadêmico, sendo que mesmo professores mais experientes leva- os recursos financeiros vêm dos gover- vam de quatro a cinco anos para transfor- nos federal e estadual. Esse projeto é mar sua sala de aula e integrar diferentes considerado um dos programas de forma- aspectos de trabalho explorados durante o ção de professores de maior sucesso no processo de formação. país. Cada uma das 167 regionais do pro- jeto é associada a uma universidade, mas PP.: O que aconteceu, então? o que está em pauta, o que está sendo Judith Green: O grupo indicou diver- compartilhado entre os professores são sas séries consideradas excelentes na suas próprias experiências. A idéia é a de abordagem adotada. Esses professores que o melhor professor sobre os proces- concordaram com nossa presença em sos de ensino da escrita é outro profes- suas salas de aula para o desenvolvimen- sor que já teve êxito em seu trabalho. to de pesquisas etnográficas. Naquela altura, não exploramos o trabalho que já PP.: Como aconteceu, em 1990, o seu havia sido desenvolvido nessa área, mas contato com esse grupo de professores fizemos leitura e discussão dos trabalhos que já vinham trabalhando juntos? de teóricos como Bakthin, Todorov. Judith Green: Ao iniciar meus traba- Também lemos outros teóricos estran- lhos na Universidade da Califórnia, em geiros, de maneira que, nesse grupo, todas Santa Bárbara, fui convidada a visitar esse as pessoas tiveram oportunidade de se grupo e conhecer seu trabalho, pois na colocar no mesmo patamar de conheci- região de onde vinha não existia um pro- mento. Estabelecemos comparações entre jeto similar a esse. Conheci esse grupo de diferentes teorias e examinamos suas6 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.9 n.53 • set./out. 2003
  3. 3. ENTREVISTA implicações para pensarmos a sala de Diante disso, tomamos a decisão de inter- aula. Nesse processo de discussão, fomos romper a sua pesquisa, uma vez que ela reconstruindo o referencial teórico, a base havia quebrado os acordos feitos inicial- teórica do grupo e o que seria a etnogra- mente com os professores, trazendo pro- fia e seu uso nesse contexto de trabalho. blemas para o andamento do projeto. Esse O Santa Barbara Classroom Discourse foi um fato marcante na construção de Group se constitui nesse espaço de dis- uma relação de confiança com essa pro- cussões em que se reúnem profissionais fessora e outros professores do grupo. e estudantes de diferentes instituições. Posteriormente, ao nos reunirmos nova- mente com o grupo, a professora de séti- PP.: Como se define a relação dos pes- ma série narrou o acontecido e manifes- quisadores com as professores? tou a confiança que passou a depositar em Judith Green: Quando iniciamos nós, em função da decisão que tomamos. esse trabalho de pesquisa, combinamos Como etnógrafos estamos entrando em com os professores que eles teriam o con- seu mundo para compreender o que sig- trole, que a sala de aula era deles, que era nifica ser membro desse mundo, não para um privilégio nosso fazer parte dela e modificá-lo, não para intervir. E, além que, nesse sentido, não iríamos interfe- disso, a professora tinha suas próprias rir. Eles teriam total controle sobre onde questões, o que a levava a se interessar por nos assentaríamos, o que faríamos e como certas partes dos nossos estudos. Como faríamos. Decidimos que nosso objetivo conseqüência disso, esses professores se seria o de examinar como o professor ou sentiram à vontade para nos receber. Isso professora, juntamente com seus alunos, facilitou a nossa entrada na sala de aula cria sua comunidade de escrita em sala de outros professores, desde os primei- de aula. Iniciamos o processo de pesqui- ros instantes do ano, com nossas câme- sa com a entrada de duas estudantes – pes- ras de vídeo e outros equipamentos. quisadoras, uma de Taiwan e outra ame- ricana, em uma sala de aula de sétima PP.: Que tipos de questões são exami- série. Porém, uma delas quebrou todos nadas nas pesquisas desse grupo? esses acordos quando interagiu com os Judith Green: Uma questão mais alunos de uma maneira que interrompia geral é: o que a perspectiva etnográf i- o trabalho da professora enquanto ela ca nos auxilia a ver do trabalho dos pro- estava dando aulas. Além disso, essa aluna fessores e alunos em sala de aula? Os – pesquisadora, por conta própria, defi- professores conversavam sobre o quê e niu como objeto de seu estudo o tema como a perspectiva etnográfica os aju- amor, sexo e morte. Era uma sétima série. dava a analisar sua própria prática e v.9 n.53 • set./out. 2003 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 7
  4. 4. ENTREVISTA contribuía para tornar visível para outros que têm experiência e estão dispostas a professores o trabalho que desenvol- compartilhar essa experiênci a com viam? Então, não fazíamos a pesquisa outros. para mudar o ensino. Eles estavam dis- postos a compartilhar e servir de exem- PP.: Então, nesse processo, o que se plo no trabalho proposto para o ensino constituiu foi um grupo de trabalho, da escrita. Essa é uma das característi- com pesquisadores da universidade e cas desse curso de formação: ter as professores? experiências de trabalho compartilhadas. Judit h Green: Recentemente , A cada ano novas pessoas passaram a Sabrina, uma professora da terceira série, fazer parte do nosso grupo na universi- entrou para a pós-graduação e utilizou os dade e outros professores se mostravam dados etnográf icos coletados anterior- interessados em que trabalhássemos mente por outro pesquisador em sua sala com eles em suas salas de aula. Como para escrever sua dissertação sobre letra- resultado desse trabalho de pesquisa, mento acadêmico. E Beth, outra profes- foram produzidas cerca de 12 teses sora que participava do grupo, está tra- durante esses anos. Foram também rea- balhando com os dados que uma pesqui- lizados encontros, nos quais os profes- sadora do grupo coletou em sua sala de sores participavam e escreviam conos- aula para investigar como os alunos modi- co artigos que foram publicados em ficam, ao longo do ano escolar, o enten- revistas especializadas. dimento que têm do que é ser estudante. Somente essas duas professoras resolve- PP.: Além das informações que os pro- ram fazer pós-graduação; os outros con- fessores tinham do projeto, o que mais tinuam trabalhando conosco e, se eles os motivava a participarem dele? demandam alguma coisa de suas salas Judith Green: Os professores se de aula, fornecemos os dados coletados inscrevem no programa por vontade pró- nesse processo. Às vezes, eles escrevem pria. Eles estão motivados a voltar a a partir desses dados. Nós analisamos o estudar, a analisar como escrevem, como que os professores solicitam que seja ana- eles podem ajudar seus alunos a escre- lisado, e outras questões são negociadas verem melhor. A motivação, portanto, no grupo. Às vezes, eles publicam jun- começa com isso, ou seja, é um compro- tamente com os pesquisadores de sua misso em aprender de novo, com a aná- sala de aula. lise de sua prática, com a expansão desse conhecimento. Os professores não se PP.: O que vocês aprenderam com todos vêem como peritos, mas como pessoas esses anos de trabalho?8 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.9 n.53 • set./out. 2003
  5. 5. ENTREVISTA Judith Green: Esse trabalho nos levou cotidiana dos participantes, professores e a compreender que há um modelo de ensi- alunos. Nessas salas de aula você pode no e aprendizagem. Podemos descrevê- escrever sua própria história e não somen- lo de duas maneiras. Uma delas é anali- te ler histórias. No início do ano, os alu- sar padrões em comum entre as diferen- nos escrevem sua história como leitores, tes salas de aula pesquisadas. E um des- ou como matemáticos. Eles também escre- ses padrões é o compromisso dos alunos vem sua história como alunos no ano ante- em falar a partir de evidências. Por exem- rior, em outra sala de aula. Ao final do ano, plo, ao fazer a interpretação de um texto, eles escrevem sua história refletindo sobre esta pode ser diferente da dos demais par- si mesmos como aprendizes naquela turma ticipantes da sala de aula, mas cada um tem em particular. Eles também escrevem sobre de falar a partir de evidências para funda- sua comunidade na sala de aula. mentar o que está falando. Nós podemos ver isso da primeira série ao último ano do PP.: Por que é importante trabalhar ensino médio. Esse trabalho se desenvol- com o princípio da interação em vez da ve a partir de teorias da leitura e da escri- autoridade na sala de aula? ta, para as quais existem múltiplas inter- Judith Green: Os professores tor- pretações de um mesmo texto. Entretanto, nam visível para os alunos o pensamen- para que se possa ter uma discussão sobre to, a lógica que há por trás das ações. essas diferentes interpretações ela deve Eles querem mostrar por que, como, quan- tornar-se pública. A natureza pública dessa do e sob que condições certas coisas discussão requer que se apresentem evi- deveriam ser feitas. Não querem sim- dências, não somente opiniões. Esse pro- plesmente dizer aos seus alunos para cesso de discussão leva o leitor de volta ao fazer isso ou aquilo, pois compreendem texto, à visão do autor e também à base de que os resultados e as conseqüências do sua própria interpretação como leitor. domínio das ações por parte deles são Outro conceito-chave, explorado nes- diferentes em cada uma dessas condi- sas salas de aula, é a identificação de ções. Se os alunos compreendem a lógi- padrões nos tipos de textos e nas ativida- ca que há por trás das ações propostas des desenvolvidas. As crianças aprendem, pelos professores, eles podem optar. por exemplo, que autores podem escrever Porém, se eles são comandados, podem de formas variadas. Ele pode ser um his- se tornar resistentes ou seguidores obe- toriador ou um matemático. Com isso dientes. Os professores querem que os alu- aprendem que existem diferentes padrões. nos tenham condições de dominar as pos- Além disso, o trabalho desenvolvido nes- sibilidades das práticas, não simplesmen- sas salas de aula tem conexão com a vida te executá-las. v.9 n.53 • set./out. 2003 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 9
  6. 6. ENTREVISTA PP.: Como os princípios do trabalho é uma participação apropriada, mais pro- desenvolvido pelo professor podem con- fissional, e os alunos têm, por meio desse tribuir para a formação dos alunos? curso de arte, oportunidade de se apro- Judith Green: Uma das professoras priar disso. O aluno faz certas coisas não que participa do grupo afirma que gos- porque o professor lhe diga que faça, mas taria que seus alunos fossem os guar- porque está se tornando membro de uma diões de sua própria força, de suas almas, comunidade maior, que possui certas o que é uma perspectiva crítica. O proje- expectativas. to de formação vê as práticas de análise Há uma peça desse quebra-cabeça crítica de forma positiva. Saber como ser sobre a qual ainda não falei e que cons- um escritor e o que os escritores fazem, titui um dos princípios de trabalho desen- por exemplo, constitui a base do projeto. volvido. As diferentes disciplinas não Isso não é considerado apenas pedagogia controlam o que se faz em sala de aula. crítica. É o que precisa ser feito: ensinar A peça que falta está relacionada à seguin- a ser um escritor, e não simplesmente a te pergunta: como conectar os recursos e escrever. Forma-se um escritor que desen- conhecimentos que os alunos trazem com volve certas práticas, que se tornam públi- o que fazem e aprendem na escola, sem cas e sujeitas a críticas. Afinal, existe um que a escola seja a única e legítima forma conjunto de expectativas, normas, padrões de pensamento? Atentos a essa questão, para escritores. os professores, freqüentemente, propõem A linguagem que ouvimos nessas aos alunos que pratiquem, em casa, algum salas de aula é muito diferente daquela uti- tipo de observação e utilizem recursos lizada em outros tipos de ensino. E não para escrever. Por exemplo, um caderno é simplesmente na escrita ou na leitura. para anotar coisas interessantes vistas ou Esses grupos interrogam: o que signifi- ouvidas em qualquer espaço, e não ape- ca ser um historiador? O que um histo- nas na sala de aula. Dessa forma, as fron- riador faz? A pesquisa de Doug Baker em teiras da escola não são as paredes da um curso de arte demonstra como uma sala de aula. As escolas são abertas e a professora, com experiência em arte, tra- comunidade passa a ser vista como um balha em sala de aula para fazer com que texto, a família se torna um texto, todas os alunos se apropriem de um conjunto as coisas podem ser vistas como textos a de expectativas e normas sobre o que serem lidos e compreendidos pelos alu- será considerado arte ou uma crítica de nos e seus professores. arte dentro daquela sala de aula. Isso sig- nifica que dentro de uma comunidade PP.:Você poderia nos falar sobre a orga- existem parâmetros para se avaliar o que nização do trabalho em sala de aula?10 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.9 n.53 • set./out. 2003
  7. 7. ENTREVISTA Judith Green: Uma característica Judith Green: Uma das questões comum a essas salas de aula é a forma que já foi examinada em nosso grupo é como elas se organizam em diferentes a do letramento escolar. Analisamos situações. Assim, os professores passam, como o letramento escolar é construído, por exemplo, do trabalho com toda a turma e não simplesmente alguma coisa que para pequenos grupos, chegam ao indivi- nomeamos letramento. Quais são as dual e depois voltam para a turma como demandas de letramento e quais seriam um todo. O que se vê são diferentes for- as práticas de letramento nas diferentes mas para se desenvolver o trabalho. Um disciplinas numa sala de aula da escola mesmo assunto pode ser discutido em elementar? Como essas demandas são diferentes contextos. Os alunos podem construídas e quem tem acesso a essas escrever em grupos, mas vêm discutir práticas? O simples fato de estar numa individualmente com a professora sobre sala de aula não significa que se tenha o texto produzido e depois apresentam o acesso a essas práticas. Quem pode usar texto para a turma toda. Numa sala do ensi- essas práticas? Com que propósito e de no médio, os alunos podem ser solicita- que maneira? Outra questão abordada é dos a voltar ao texto individualmente se, a igualdade de acesso. Às vezes, com cer- após terem discutido em pequenos grupos, tas crianças é necessário desenvolver encontrarem visões diferentes e não con- atividades diferenciadas para que elas cordarem entre si. Eles retornam ao tra- possam ter a mesma chance que outras. balho individual para buscar evidências O grupo se volta também para investi- que dêem suporte ao seu argumento e gar práticas de letramento, não habilida- podem retornar à discussão em grupo. des, mas as formas de fazer. É como Dessa forma, os alunos estão sempre esta- uma teoria da cultura orientada pela prá- belecendo comparações entre diferentes tica. A prática de ser um cidadão no interpretações. Nesse contexto de traba- Brasil não é a mesma de outros países. lho, o conhecimento não é somente do As práticas para ser um cientista não indivíduo, mas é público e se torna públi- são as mesmas em física e em biologia, co, não somente para se julgar se é bom por exemplo. Isso demonstra que, mesmo ou ruim, há uma outra razão de ser. Além dentro de um mesmo campo, como no disso, essa variação de interlocutores em da ciência, as práticas são diferentes. O sala de aula faz com que o professor não aluno precisa aprender essas práticas seja a única fonte de conhecimento. para se tornar letrado, para demonstrar para outros que sabe como fazer biolo- PP.: Que tipo de questões o seu grupo gia ou, ainda, como fazer física como um costuma pesquisar? físico. Nós investigamos, então, a pro- v.9 n.53 • set./out. 2003 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 11
  8. 8. ENTREVISTA gressão do conhecimento ao longo do se fora do grupo. A professora havia for- tempo e as conseqüências advindas do mado aquele grupo propositadamente, fato de se saber ou não certas coisas. porque sabia que os alunos também fala- Também temos investigado questões vam espanhol. Ao ver como o grupo esta- sobre bilingüismo, porque há inglês e va trabalhando, conversou com os dois espanhol nas salas de aula. Temos tam- alunos bilíngües sobre como poderiam a bém pesquisado sobre as identidades ajudar o colega, Toni, a fazer parte das ati- que os alunos podem ter em sala de aula. vidades. Os dois responderam que eles Não a identidade no singular, mas a mul- poderiam falar em espanhol e assim o tiplicidade de identidades criadas por fizeram. Dessa forma, Toni teve possibi- meio dos diferentes tipos de interação lidade de experimentar outra identidade estabelecida entre os participantes. Uma e passou a ser participante ativo do grupo das questões examinadas é, então, quais de trabalho. são as identidades potenciais disponíveis aos alunos nas oportunidades de apren- PP.:A linguagem que você utiliza para dizagem em sala de aula? falar sobre essas questões é bastante peculiar. Por que é preciso esse tipo de PP.: Isso é uma decorrência da relação linguagem para falar sobre a sala de estabelecida entre professores e alu- aula? nos? Judith Green: Se acreditamos que Judith Green: Não é somente no o conhecimento é construído a partir plano da relação entre professor e aluno, de determinado ponto de vista, então, mas também no plano das relações entre toda teoria, seja informal ou formal, os pares, de alunos com alunos. A pro- pessoal ou pública, vem de um determi- fessora precisa estar ciente do que acon- nado ângulo. Isto produz uma maneira tece dentro dos pequenos grupos, não de ver o mundo, de falar sobre ele, e per- somente no plano coletivo da turma. Um mite que se fale sobre algumas coisas e exemplo interessante ocorreu numa sala não sobre outras. O que todos assumem de aula de segunda série. Três alunos pro- como simplesmente uma maneira de duziam um texto em grupo. Um desses falar é, na realidade, constituído a par- alunos falava apenas o espanhol e os tir de uma perspectiva epistemológica, outros dois eram bilíngües (espanhol e uma maneira de ser, conhecer e fazer a inglês). A professora se aproximou desse que nós chegamos num determinado grupo e percebeu que os alunos bilín- momento de nossa história. Então, nada gües estavam utilizando somente o inglês, é natural. Precisamos nos perguntar fazendo com que o terceiro menino ficas- como as coisas se tornaram o que são.12 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.9 n.53 • set./out. 2003
  9. 9. ENTREVISTA Eu não posso falar de sala de aula usan- diferentes salas de aula definidas por do a linguagem behaviorista, quando escolha aleatória. Por meio do Office of procuro ver esse espaço de outro ponto Resea rch and In clusion, um novo de vista. Com a linguagem do behavio- Instituto de Ciências da Educação, con- rismo se pode falar do que é melhor ou sideram-se como pesquisa somente pior, não do que é diferente. Precisamos alguns estudos de larga escala com sis- de uma outra linguagem. Então, são temas de observação que não olham, diversas razões que nos levam a preci- mas examinam o que acontece dentro da sar de uma outra linguagem. Razões sala de aula. Apenas grandes testes têm políticas, por exemplo. sido considerados. O movimento de pen- sadores e o governo estão def inindo o PP.:Como você analisa o trabalho que pode ser considerado como pesqui- desenvolvido com esse grupo de profes- sa nos Estados Unidos. Isso está abrin- sores ao longo dos anos? do a possibilidade de se considerarem Judith Green: Em função do perío- outras abordagens que não sejam estu- do prolongado do nosso trabalho, nós dos de grande escala. analisamos o impacto de várias reformas Já desenvolvi pesquisas utilizando educacionais nas salas de aulas. Esse observações em larga escala e posso impacto raramente acontece da manei- demonstrar como outro tipo de estudo, ra como foi planejado ou de acordo com a microanálise do discurso, pode ser os objetivos divulgados publicamente. melhor. Porém, é muito mais intensa, Quando as mudanças propostas eram laboriosa. É necessário analisar por longo menores, por exemplo, quando um pro- prazo e transcrever os dados de manei- fessor precisava mudar a série em que ra sistemática. Podemos falar das mudan- trabalhava, ele encontrava outras manei- ças acontecidas ao longo do tempo no ras de fazer o seu trabalho. Porém, o processo de trabalho desses professores. nível de controle tem sido maior nos Essa aprendizagem pode ser vista, geral- últimos anos e as reformas têm limita- mente, no ano seguinte, não imediata- do bastante o que esses professores mente. Não creio que seja possível a podem fazer. alguém refletir no momento em que as Paralelamente às reformas educa- coisas estão acontecendo e fazer mudan- cionais, existem desencontros no mundo ças imediatas. Precisamos de tempo para da pesquisa sobre o que vale como evi- pensar. Esse é um aspecto fundamental dência. Nesse caso, somente números da pesquisa e do ensino que precisa ser estatísticos têm valido como evidência, compreendido. ou somente estudos comparativos entre v.9 n.53 • set./out. 2003 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 13

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